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Disciplina: Fonética e Fonologia do Professor: Prof. Dr.

Mario Eduardo Página (s): 155 -


Português Viaro 175
Indicação Bibliográfica:
• CAGLIARI, Luiz Carlos. A diacronia nas formas fonológicas subjacentes e nos imputs. In: MASSINI-
CAGLIARI, Gladis; MURAKAWA, Clotilde de Almeida Azevedo; BERLINEK, Rosane de Andrade;
GUEDES, Marymarcia (org.). Estudos de linguística histórica do português. Araraquara: Cultura
Acadêmica, 2005. p. 155-175.
Genérico Estudos sobre a diacronia
Assunto
Específico A diacronia nas formas subjacentes e nos inputs
Palavras-chave Diacronia; formas fonológicas subjacentes; inputs

Páginas (s) A diacronia nas formas fonológicas subjacentes e nos inputs


155 - 156 Introdução

As teorias fonológicas modernas estudam a língua de maneira sincrônica, enquanto


a filologia a estuda de modo comparativo. A linguística histórica se aproxima mais das
teorias linguísticas.
As formas fonológicas subjacentes e os inputs são teorias fonológicas e não
necessitam de uma referência histórica. Todavia, o conhecimento histórico auxilia na
elaboração de “regras derivacionais ou na avaliação adequada dos candidatos na teoria da
otimalidade” (p. 155-156). As mudanças históricas pelas quais a língua passa favorecem a
compreensão de “padrões do sistema e a extensão dos processos de generalização almejados
por regras e por outros tipos de avaliação da gramática da língua, em geral, e de fonologia
e de morfologia, de maneira especial.

156 - 163 Formas subjacentes e inputs

“[...] As formas subjacentes (ou formas de base) são o ponto de partida das
derivações fonológicas que levam a representação sonora mais abstrata da língua à
realização fonética dos enunciados” (p.156). As formas subjacentes são estudadas de modo
estruturalista, a partir dos traços distintivos, sendo a representação dos morfemas da língua.
Este morfema é composto pela classificação sintática de morfemas (as classes gramaticas/
de palavras), enquanto a sintaxe e a semântica definem os morfemas e os organizam em
dicionários, que, por sua vez, constituem as formas adjacentes, sendo preenchido com as
matrizes fonológicas. “O componente morfológico é constituído pelo dicionário (objeto) e
pelo componente lexical (regras)”(p.157). As formas de base não possuem separação
silábica e nem definição prosódica. Quando elas são segmentadas em sílabas é que se torna
possível definir onset e coda.
Cagliari apresenta então, o objetivo deste capítulo: a compreensão de “como o
componente lexical junta os traços distintivos (fonemas) para definir os segmentos
fonológicos das formas subjacentes” (p.158). Em seguida, apresenta sua hipótese: acredita
que as escolhas tem a ver com as regras derivacionais, modelo este em que as formas
subjacentes que representam algo abstrato e genérico. Em seguida, explica a distinção entre
o modelo estruturalista e o gerativo. No primeiro, o que importa são as regras coerentes
entre si. O segundo, por sua vez, permite generalizações e abstrações. Na corrente
estruturalista, as formas subjacentes estão distantes dos resultados fonéticos, enquanto na
corrente gerativa, as formas subjacentes estão tão próximas “que, praticamente, quase não
há regras derivacionais” (p. 159).
O uso das regras derivacionais dependem do conhecimento que o linguista dispõe
para realizar uma análise. A mudança fonológica da língua necessita de tempo para se
consolidar, de tal modo que quando atinge uma certa magnitude, sabe-se que pode tornar-
se outra língua.
O conhecimento etimológico auxilia na compreensão do presente da língua, uma vez
que as mudanças são geradas (ou geram) novas regras. Se as regras ainda se manterem
atuantes, o modelo gerativo coincide com a interpretação etimológica. Caso não, a ausência
do conhecimento histórico “pode deixar a interpretação atual do sistema muito ad hoc, com
a interpretação idiossincrática, dependendo da esperteza mental do pesquisador.” (p.160).
Uma das questões que surge é: como lidar com línguas quando se desconhece a
etimologia? Utiliza-se o método comparativo das línguas para se identificar o denominador
comum e definir as formas fonológicas subjacentes dos itens lexicais. Outra possibilidade
é o uso da compreensão gramatical da língua.
Cagliari aponta que adiante serão apresentados exemplos de representações
subjacentes do português, que possuem como eixo comum a natureza diacrônica, algo
comum no trabalho do linguista.
O estudo da forma fonológica subjacente permite uma introdução à técnica do input.
“[...] a teoria da otimalidade é um modelo representacional, que tem apenas
avaliações” (p.161), que são processadas a partir de referências que possuem níveis
distintos. O modelo de otimalidade possui inputs (forma subjacente da língua) e um
output/candidato (representação fonética). “A avaliação é estabelecida entre um input e
todos os candidatos possíveis” (p.161). Nesta teoria, os candidatos são ilimitados. Os inputs
selecionam os melhores candidatos para estabelecer uma “conexão”, conforme essa teoria.
A prática de análise da teoria de otimalidade mostra que existe uma semelhança
entre inputs e formas fonológicas subjacentes.
A teoria da otimalidade aponta a possibilidade de ser composta por um dicionário
em que constam morfemas e um componente lexical que forma palavras, tornando o input
uma forma sintática, semântica e fonológica. Para este capítulo, Cagliari aponta que o foco
será a representação fonológica dos inputs, que dependem do conteúdo das restrições.
“[...] para qualquer candidato pode haver qualquer input,” (p.163). Entretanto, o
autor aponta que esta afirmação da teoria não é muito clara ou segura, e que para este
trabalho, “o que se diz para as formas subjacentes aplicam-se também para formas
correspondentes de inputs, mutatis mutantis” (p.163). Este teoria gera discussões
interessante sobre diacronia e mudança linguística.

164 - 171 Análise de formas fonológicas subjacentes

Nesta seção, Cagliari apresenta diversos trabalhos de diferentes autores sobre formas
subjacentes, para comprovas “como fatos históricos da língua continuam atuantes até hoje
e, consequentemente, mostrar que o apelo à história da língua pode ajudar nas escolhas das
formas fonológicas subjacentes” (p.164).
O primeiro trabalho apresentado pelo autor mostra o processo de nasalização que
ocorre do latim para as línguas românicas, em relação à preferência pelo uso do fonema /o/
no lugar de /u/, o que reflete a origem histórica do fonema.
Em seguida, informa que “uma regra de metátase atinge somente determinados itens
num determinado espaço de tempo. Uma vez modificada a estrutura morfológica, a regra
não mais funciona” (p. 166), citando o exemplo da palavra flor, frol (no português
medieval), palavra esta que muito dificilmente retornaria ao português arcaico.
Adiante, Cagliari apresenta o uso da epêntese, que independente do período histórico
escolhido, deve ser usado para explicar seu uso. “Algumas regras de epêntese costumam
ligar formas antigas à formas atuais da língua” (p. 166), mas isso nem sempre ocorre, uma
vez que as formas subjacentes são subordinadas as regras do período em que está inserida.
Posteriormente, o autor utiliza como exemplo a palavra sal, que possui a forma /sal/,
no lugar de /sau/. O que justifica a opção de /sal/ são as outras palavras derivadas dela, mais
relacionadas à pronúncias antigas.
O Brasil, de modo geral, não utiliza a vibrante múltipla, tendo a substituída pela
fricativa velar e, em alguns casos, pela fricativa glotal.
Cagliari cita os trabalhos de Câmara Jr. (1953) e Mateus (1983) para mostrar como
comparamos nosso sistema linguístico com o latim, desde aspectos fonéticos até os
morfológicos.
Finalmente, o autor comenta sobre o uso da consoante nasal no onset da sílaba
seguinte e problematiza o uso do arquifonema, explicando que a interpretação desta forma
não contempla necessariamente a existência de fonemas vocálicos nasais. De modo geral,
“a conclusão mostra uma tendência da fonologia e da morfologia mais recente em
representar as formas subjacentes com um perfil que lembra estágios antigos da língua, o
que torna as regras derivacionais ou semelhantes em processos montados sobre a história
da língua. A linguística estruturalista olhava mais para processos comparativos entre
línguas, sobretudo em se tratando de línguas que não tinham sido descritas. A linguística
mais recente está mostrando uma tendência a ver os fatos com olhos históricos, diacrônicos,
mesmo quando, eventualmente, evocam argumentos de natureza comparativa entre línguas”
(p. 171)

171 - 175 Análise de inputs

Diferente da fonologia gerativa padrão, que não necessariamente necessita da forma


subjacente, “a teoria da otimalidade tem sempre que estabelecer explicitamente qual é o
input” (p. 171.)
Cagliari apresenta diversos estudos, dentre eles o de nasalização de Battisti (1998),
o de Lee (2000), que cita que algumas palavras optam “por uma forma primitiva que
necessita de uma epêntese” (p.173). Cita Harris (1973 apud Lee 2000), que traz a questão
dos paradigmas em relação ao acento nos verbos em espanhol, e que para o português, “uma
vez definido o paradigma, a regra de acentuação segue sem dificuldades” (p. 173).
O autor expõe brevemente o trabalho de Sândalo (1995), que concluiu que o uso
aberto das vogais em algumas palavras “é mantido no português padrão através da gramática
normativa” (p. 173)
Para concluir, citamos uma parte da conclusão desta seção:
Diferentes abordagens dos fenômenos dentro de uma mesma teoria levam a resultados
surpreendentes, às vezes. Uma abordagem que leve em consideração a história da língua e
a diacronia, não raramente, oferece excelente resultados, o mesmo não acontecendo com a
simples preocupação de coerência na aplicação de modelos formais, sobretudo quando são
muito poderosos, como a teoria da otimalidade. (p. 174)