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HISTORIA DA AM.

ÉRICA LATINA
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2' cd•\ ·10, 4' re1mpresi.ilo 20 18

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1)3do\ ln1 ern acionai ~ de Cata logação na Publicação (C IP
(Cámara Brasilei ra do Livro, SP, Brasil )
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e I/
1·-fotória da América Latina : América Latina Colonial, volum
Cescato. - 2. ed. 4.
orga nização Lcsli e Bethe ll ; traduç ão Maria Clara
Brasília,
rcimp r. - São Pa ulo: Editora da Universidade de São Paulo;
Df: fun dação AJexandre de Gusm ão, 2018.

Título ori gi nal : The Cambridge History of Latin America.


Bibliografia.
l~BN 978-8 5-3 14 -0412 -2

o Co-
1. Am éri ca Latina - Hi stória . 2. América Latina - Períod
loni :'1 1. 1. Bcthe ll , Lesli e.
CDD- 980
97-3864

1nd ice~ para catálogo sistemático

1. J\ méric:.i Latina: Hi stó ri a 980

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IJrinted 111 Hra'liJ , O.I H

foi feit o o dc pó1,i to leg.il


ANAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN
PREFÁCIO AOs VOLUMES I E II

formam
Os dois primeiros volumes da História da América Latina, que
uma unidade integrada, focalizam os três séculos de domínio colonial espa-

nhol e desde os primeiros contatos entre os indios americanos


portugus,
nativos e os europeus, no final do século XV e início do século XVI, até às

guerras de independência, no começo do


século XIX.
revoluções e

O homem entrou pela primeira vez no continente americano pelo estrei-


to de Bering, talvez já em 35000 a.C. Existem testemunhos da possível pre-
sença do homem, já em 20000 a.C., na região corresponde ao México
que
atual; no fósseis humanos mais
entanto, os antigos -

encontrados, por
exemplo, em Tepexpan, a nordeste de Cidade do México, e em Lagoa Santa,
Minas Gerais (Brasil)- não datam de período anterior a 9000-8000 a.C. A

agricultura na Mesoamérica data de cerca de 5000 a.C. e a produção de cerâ-


mica, de mais ou menos 2300 a.C. Os primeiros testemunhos de sociedades
dotadas de estruturas políticas e religiosas podem ser encontrados no
México, nos sítios olmecas, principalmente em La Venta, e nos Andes, em
Chavin, ambas datando de antes de 1000 a.C. Por volta de 1500 d.C. alguns
Estados já mostravam economias e sociedades altamente estruturadas e cul-
turas e religioes extremamente desenvolvidas, como o império asteca no
México e o império inca nos Andes Centrais; além desses, aparecem "senho-
rias" mais ou menos estáveis de graus variados de complexidade, por exem-
plo, nas ilhas do mar dos Caraíbas e na região circunvizinha, e ainda as cen-
tenas de tribos nômades e seminômades na América do Norte, no sul da
América do Sul e no Brasil. A pesquisa sobre a América pré-colombiana
desenvolveu-se rapidamente nos últimos vinte ou trinta anos, especialmente
com relação à Mesoamérica, e mais recentemente tanmbém com referência
20
aos Andes - e a outras regiões. Importa ntes contribu ições para esse co nhe-
cimento foram dadas não apenas pelos arqueólo gos, mas também pelos 110- .
güistas e paleógra fos, pelos geógrafo s e botânico s e mesmo pelos matemáti-
cos e astrônom os e, sobretud o, pelos antropó logos, etnólogo s e especialistas
em etnograf ia histórica .
A História da América Latina não tentou apresen tar um relato completo
da evolução das várias sociedad es indígena s da América - enquant o segre-
gadas do resto do mundo - durante os dois ou três mil anos antes da che-
gada dos europeu s. Entretan to, os três capítulo s que compõe m a Parte Ido
primeiro destes dois volumes sobre a América Latina colonial estudam os
povos e as civilizações nativas da América às vésperas da invasão européia.
Embora não tenha sido deixada de lado totalmen te, a expansã o da Europa
nos séculos XV e XVI, e principa lmente a «descob erta» da América pela
Europa foi em grande parte excluída desta história da América Latina colo-
nial. São temas vinculad os mais especifi camente à história da Europa. De
qualque r forma, existe uma vasta literatur a sobre a expansã o européia. Os
três primeiro s capítulo s da Parte II do Volume I desta história da América
Latina examina m a invasão, a subjugaç ão e a coloniza ção de partes do Novo
Mundo pela Europa no período de 1492 a 1570/1580. No entanto, o enfoque
não é exclusiv amente europeu . É igualme nte importa nte a «visão dos venci-
dos,,. E é dada atenção especial às relações de pós-con quista entre os espa-
nhóis e portugu eses e os america nos nativos. Os cinco capítulo s seguintes, o
núcleo central do volume, analisam as estrutur as políticas e econômicas dos
império s espanho l e portugu ês na América e a integraç ão da América espa-
nhola e do Brasil ao sistema econôm ico mundial desde a metade do século
XVI até o final do XVIII - em grande medida a partir de uma perspectiva
metropo litana. São discutid as mais rapidam ente as rivalidad es imperiais. O
Volume I se encerra com dois capítulo s sobre a Igreja católica na América
Latina colonial.
O seg undo destes dois volumes sobre a América Latina colonial é dedica-
dü em grand e parte a estudar aspectos da história econôm ica e social interna
da Am éri ca espa nhola colonial (sete capítulo s) e do Brasil colonial (quatro
ca pitul o~), qu e na s últim as dua s décadas atraíram atenção especial da pes-
qui sa: por exemp lo , a mudanç a demográfica; o dese nvolvim ento urbano; H
min eração; a propr iedad e e a ex plora ção da terra; os sistemas de trabalho,
in clusive a c~cra vid ão afri ca na ; os índios sob O domínio co lonial; as econo-
mi as loca is e o co mércio int ercoloni al; a o rgani zação social e a mudança
21
social. A América espanho la e o Brasil foram tratados separada mente. No
conjunto, ambos têm duas histórias diferentes, duas historiografias distintas.
De qualquer maneira , poucos são os historiad ores capacitados e desejosos de
abordar de modo compara tivo a América espanho la e o Brasil no período
colonial. O Volume II se encerra com quatro capítulo s que examina m a vida
intelectual e cultural - literatur a e idéias, arquitet ura e arte, e música -
tanto da América espanho la colonial quanto do Brasil colonial.

u.J
-

AA MÉ RIC A _ __
ÀS VÉS PER AS DA CON QU IST A
A MESOAMÉRICA ANTES DE 1519

OS PRIMEIROS capítulos de uma história da América Latina dizem res-


peito aos povos que nela habitavam antes do primeiro contato com os euro-
peus. Isso é particularmente válido no caso da Mesoamérica 1• O México, a
Guatemala, El Salvador, Honduras e, em menor grau, a Nicarágua e a Costa
Rica, assim como o Equador, o Peru e a Bolívia nos Andes centrais, têm suas
raízes profundamente enterradas no subsolo de suas civilizações pré-colom-
bianas. Este capítulo pretende, em primeiro lugar, delinear rapidamente o
desenvolvimento dos povos e das altas culturas da Mesoamérica antes do
estabelecimento dos mexicas (astecas) no vale do México ( e. 13 2 5); em
segundo lugar, examinar as principais características da organização política
e socioeconômica e as realizações intelectuais e artísticas durante o período
de predominância (séculos XIV e XV) dos mexicas (astecas); e, em terceiro
lugar, apresentar uma visão geral da situação reinante na Mesoamérica às
vésperas da invasão européia (1519).

1. Alguns estudiosos alemães, particularmente Eduard Seler (1849-1922), introduziram há mais


de setenta anos a expressão Mittel America para designar a região onde floresceu urna alta cul-
tura indígena no México central e meridional e no território contiguo dos países do norte da
América Central. Muitos anos depois, em 1943, Paul Kirchhoff, em seu "Mesoarnérica: Sus
Límites Geográficos , Composi ción Étnica y Caracteres Culturales", Acta Anthropologica, 1:
92 - J07 (Escuela Nacional de Antropología, México, 1943 ), focalizou sua atenção nos limites
geográficos do que ele chamou Mcsoamérica. Mcsoamérica é mais que um termo geográfico:
designa também a regi ão em que altas culturas e civilizações nativas se desenvolveram e disse-
minaram sob várias forma s e em épocas diferentes. No momento da invasão européia, em
1519, ~uat. front eiras ao norte eram o rio Sinaloa a noroeste e o Pnnuco a nordt·stc, enquanto
tjll t: no centro -norte d.i não se estendeu al ~m dn bacia do rio Lerma. Seus limilt's ao sul eram
u I io Mn t<1 gua, t111c J l'~emhoca no golfo de l londuras no mar cios Cara lhas, as praias meridio -
nai ~du IJ gu NiL:t rí'\ 1411,l L' a pt·nfusula ck Ni CLl)',I 11a Cmla Rica.
26 rica do Norte
Situa da entre as vasta s massas de terra conti nenta l da Amé
quilô m et ros qua-
e da Amé rica do Sul, a Meso amér ica ( uma área de 906 mil
vária s carac terísticas
drad os) apres enta um aspec to nitid amen te ístmi co com
de Fons eca do lado
geog ráfica s notáv eis, como os golfo s de Tehu antep ec e
uras do lado do mar
do Pacíf ico e a penín sula de Yuca tán e o golfo de Hond
cultu ras, revela
dos Cara íbas. Essa regiã o, onde se desen volve ram as altas
qualq uer ou tra de
talve z maio r diver sidad e ecoló gica e geog ráfic a do que
ógic a comp lexa.
tama nho análo go no mun do. Tem uma histó ria geol
dade vulcâ nica
Princ ipalm ente, o soerg uime nto de mon tanh as e a ativi
osas de origem
recen tes - como a cons tituiç ão de duas cadei as mon tanh
limit es sul do vale
vulcâ nica ( uma que corre de leste para oeste ao longo dos
és do Méxi co e da
do Méxi co e a outra na direç ão noro este- sude ste atrav
de regiõ es naturais
Amé rica Cent ral) - foram respo nsáve is pela form ação
a comp lexid ade de
distin tas. Emb ora a Meso amér ica se localize nos trópi cos,
e sistem as de dre-
seu relevo e a varie dade de suas form as de terre no, solos
timas , resultam
nage m, aliad as aos efeitos dos vento s e das corre ntes marí
Essa diversidade
numa diver sidad e de clima, de vegetação e de vida anim al.
co, Coatzacoalcos,
é basta nte acent uada nas bacias fluviais, como as de Panu
e Balsa s, e nas
Grija lva, Usum acint a, Hond o, Mota gua, Lerm a-San tiago
; e é significa-
áreas lacus tres do vale do México ou Patzc uaro em Mich oacán
amér ica tenham
tivo que as mais impo rtant es muda nças cultu rais da Meso
da Mesoamérica
ocorr ido nessas regiões. As sub-r egiõe s realm ente tropi cais
sco: a península
comp reend em as planícies bem irrigadas de Vera cruz e Taba
ta tropic al das
de Yucatán, cober ta por uma vegetação baixa; a área da flores
Méxi co centr al e
Antil ha s na Amé rica Cent ral; as planí cies coste iras do
rero, Mich oacán ,
meridi on al do lado do Pacíf ico ( Chia pas, Oaxa ca, Guer
, junta ment e
Co lim a ) e da Guat emal a, EI Salva dor, Hond uras, Nica rágua
na Costa Rica. As
co m a pen ínsul a de Nicoy a e a proví ncia de Huan acazt e
anha s da América
p rin cipais sub -regi ões de mont anha - as Sierras (as mont
e do leste de
Ce ntra l, o sul de Sierr a Madr e, bem como porçõ es do oeste
grand es mesas . ou
Sicrra Madr e, e a cadeia vulcâ ni ca transversal) e as duas
o tropi cal. têtll
plana lto~, do ce nt ro e do sul - , embo ra se locali ze m na regiã
d a Mesoatnéri ca,
clim a e vege taç ão temp era dos . A va sta reg ião ao no rt e
Unid os, é muito
en tre O plana lt o ce n tra l t: a .i tu al fr o nt eira México- Estad os
s asp ec tos, aos
diferen te em term o h cc o l6 gícrn, l' ass en1 clha -sc , sob muito
cm ge ral a urna
grand es dese rt o s nork · i1 J1H: ríca 11 0~. A VL'gct aç ao limit a-se
illas e, perto
dj ve rsid ade de cac to~ l' algu n~ Ci1poe s de ar bu stos, iú cas o u pflllll
27
dos rios periód icos, algaro bos. Em alguma época, a alta cultura da
Mesoam érica dissem inou-se de forma atenua da para alguma s das sub-
regiões do planalt o norte ( como em La Quema da e em Calchih uites em
zacatecas). No entanto , de modo geral o norte árido sempre foi o lar perma-
nente dos belicosos chichim ecas que várias vezes ameaça ram a existência dos
povoados mesoam ericano s do norte.

AS CIVILIZAÇÕES PRIMITIVAS DA MESOAMÉRICA

A pré-his tória remota , no caso das Améric as, tem início por volta de
35000 a.C., quando aparen tement e o homem chegou pela primeir a vez ao
contine nte através do estreito de Bering. Existem alguns testem unhos da
provável presenç a do homem , por volta de 20000 a.C., na região ocupad a
pelo México atual. No entanto , os fósseis human os mais antigos, descober-
tos no sítio arqueol ógico de Tepexpan, cerca de 40 quilôm etros a nordest e
de Cidade do México, datam de no máxim o 9000 a.C. Durant e um longo
período habitar am a terra apenas alguns bandos de caçadores e coletores de
alimentos. Seriam necessários mais três ou talvez quatro milênios para que o
homem da Mesoam érica iniciasse, por volta de 5000 a.C., o process o que
veio desemb ocar na agricul tura. Achados em várias caverna s de Sierra de
Tamaulipas e em Cozcat lán (Puebla) mostra m como pouco a pouco os anti-
gos coletores iniciara m o cultivo da abóbor a, da piment a malagueta, do fei-
jão e do milho. A produç ão de cerâmic a teve início muito mais tarde, por
volta de 2300 a.C. Em várias partes do México central e meridio nal e na
América Central , começa ram a prolifer ar aldeias de agricul tores e artesãos
de cerâmica. Algumas dessas aldeias, situadas provav elmente em ambien tes
mais adequa dos, como às margen s de um curso d'água ou junto ao mar,
ex perime ntaram muito cedo um crescim ento populac ional. Muitas vezes os
habitantes dessas aldeias espalha das por um territór io tão vasto diferiam
étni ca e lingüisticamente. Dentre esses, cedo se destaco u um grupo em parti- f..i.l
Q

cul ar. Achados arqueo lógicos revelam que uma série de mudanç as extraor -
din ária~ co meça ram a surgir, a partir de mais ou menos 1300 a.C., numa
região próxima ao golfo do México, ao sul de Veracru z e no estado vi zinho
de Tíi h;.r ~co. Es~a região era co nhecida desde os tempos pré -colombianos
Pdu ncmh.: dt "Tnra Ja Borra cha ,, , O/nwn, terra dos olmcrns.
E,...cava~1Jes fti t;,s t n, ce ntros olrn ecas, com<), por exemplo, Trcs Zapotes,
L;.-i Venla , Sa n Lorcnzo e o utros, revelaram grand es t ra nsform a,·ôes cultu-
28
· e · . ·d num a pequena ilha, a p o u-
ra1s. La Venta, o maior dos cent ros , 101 e, gm O . .
. , . a á rea pantanosa Junto ao n o
cos metros acim a do n1vel d o ma1, nutn < . ,
e . alfa do México. Embora so se
Tonalá, 16 quilómetros antes de su a oz no g 1
·1 ~ t os do local, foram desente rradas
encontrasse pedra disponível a 64 qu1 ame r
. .
n a região uma sén e de colossais escu tu1as
·, , I . de pedra (algumas dela s com três
m etros de altura ) e outros monumentos. .
ue em outras localidades olm ecas ,
Em La Vent a, d o m. esmo modo q
começou a d esenvo l ve1.-se uma espécie de prato-urbanismo. É provável que
· que se fi1xaram nas pr oximidades
os povos agncultores . .de La, . Venta, tenham
expenmenta · d o, JUn
· t o com O crescimento populac10nal, vanos estnnulos a
. _ _
abandonar seu antigo modo de subsistência. Suas reahzaçoes pressupoem
mudanças em sua organização religiosa, política e socioeconômica.
Até onde sabemos, os olmecas foram os primeiros, na Mesoamérica, a
erigir grandes complexos de construções, principalmente para fins religio-
sos. Desse modo, o centro de La Venta, habilidosamente planejado, incluía
pirâmides rebocadas de barro, túmulos circulares e alongados, altares enta-
lhados na pedra, grandes compartimentos de pedra, fileiras de colunas de
basalto , tumbas, sarcófagos, estelas, colossais cabeças de basalto e outras
esculturas menores. A existência de grandes praças públicas parece indicar
qu e as cerimónias religiosas eram realizadas ao ar livre. Em alguns dos espa-
ços abertos em frente dos edifícios religiosos foram encontradas sob o piso,
form ando como que um antigo pavimento, máscaras de jaguar, formadas de
mos aicos verdes , provavelmente para servirem de oferendas e, portanto ,
revestida s de argila e adobe. Aquilo que denominaremos criações artísticas
tél mbém compreendia muitas peças de jade, estatuetas, colares e outros obje-
tos de qu artzo talhado e polido, obsidiana, cristal de rocha e serpentina. É
possível supo r algum tipo de divisão de trabalho. Enquanto muitos indiví-
du os co ntinu ara m a trabalhar na agricultura e em outras atividades d e sub-
sistência, o ut ros se especializaram em artes e ofícios d ·t- t ·
. , 1 eren es, em gara ntu
·1 def esJ do grun o em e
~ · r • mpreen d'im entos comerciais, no culto aos d e uses e
no go ve rn o, q ue es tava provavelm e nte nas m ãos dos -h e 1· ·
, e e1 es r e 1g10sos.
o~ o lm. ecas ado .
ravam um d e us- ·. 1 •
Jagu a r onipresente. Os ele m entos vmcu-

1
tt do ~ ao ~1mb0Ji sm o do q ue se ri a m ais t·1rde 0 d , 1 1 .
d , . · .. ' eus -c 1uva e a M esoa m é n ca
c.: 11v.:1 , ;1 m provav elm e n te d a m ás . . d d .
' - C,H a O e us -Jag uar. Est e las e outr o s
n1 o nurn enl o s mo stram diversas re ">rese . -- , , , . .
1 .. _ . 1 · nl,l lyOts de passaros t.1nt <1stico s mlll -
.i .-. \l l / , (.''-, l'llJ a~~Ol' rn,·ao ( O lll jag ua l' CS
' n • • , , > ~
f L•nd . _ . ' Sl: íJ>l.: nt u ; ou se res humanos. As ote-
cl.') tl1 l OIJl 1c1cb ti e m fttl1 L'fa i 1, sao j) l' OV,l s •l,·1
, 1.·x ist0nc ia de um c ulto aos
mortos aliado a uma crença na vida após a morte. Deve-se provavelmente 29
aos olmecas que viviam ao longo da costa do Golfo o início do calendário e
da escrita na Mesoamérica, embora tenha sido em Oaxaca ( em locais que
sofreram influência dos olmecas) que se desenterraram os primeiros vestí-
aios dessas obras.
t,

Tudo isso, e a difusão precoce de elementos olmecas em localidades dife-


rentes, muitas delas longe dos centros de origem, parecem confirmar o cará-
ter de uma alta cultura-matriz. A influência olmeca - provavelmente atra-
vés do comércio e talvez também de uma espécie de empenho religioso
((missionário" - aparece manifesta em muitos sítios arqueológicos da
região próxima ao golfo do México e no Planalto Central, em Oaxaca, na
terra dos maias e no oeste do México (Guerrero e Michoacán). Aqui esta-
vam os antecedentes do Período Clássico da Mesoamérica.
As extraordinárias inovações culturais dos olmecas não significaram o
desaparecimento de algumas notórias limitações que continuavam a afetar o
desenvolvimento dos vários povos mesoamericanos. Estas compreendem
primeiramente a ausência permanente de qualquer uso prático da roda, com
suas muitas conseqüências, como, por exemplo, no transporte e no artesa-
nato de cerâmica; em segundo lugar, a ausência (até cerca de 950 d.C.) de
um tipo mesmo que elementar de metalurgia, numa presunção de que essa
tenha vindo talvez da região andina via América Central; finalmente, a
ausência de animais passíveis de domesticação: não havia cavalos nem gado
bovino e, com exceção dos perus (para alimentação), somente os cachorros
mexicanos sem pêlos faziam companhia ao homem em sua vida quotidiana
- e em sua vida no além, uma vez que eram sacrificados para acompanhar
seus donos à Terra dos Mortos.
No entanto, essas e outras limitações não constituíram obstáculos insu-
peráveis ao desenvolvimento posterior dos grupos mesoamericanos. Por
volta de 600 a.C., a influência da cultura olmeca começou a se fazer sentir
em locais como Tlatilco, Zacatenco e outros, nas proximidades do que sécu-
los mais tarde veio a ser Cidade do México. Processos paralelos desenvolve-
ra m-se em outras regiões da Mesoamérica central e meridional. A agricultu-
ra se expandiu e diversificou; entre outras culturas, o algodão foi cultivado
com sucesso. As aldeias cresceram, dando lugar a centros maiores.
Teo tihu acán, a "metrópol e cios deuses », constitui o melhor exemplo do
apogeu da civili zação cláss irn no planalto central. Rece ntes achados arqueo-
lógicos no loca l n.: vela ra m não apenas a exist ênci a de um grande centro ceri-
30
monial, mas também tudo o que está implícito na id éia de um a cidad e. Fia
não se desenvolveu da noite para o dia. Vá rios séc ulos for am ncccss,h ios
para que gerações de sacerdotes e arquitetos pl a nej asse m e ex ecut asse m
l

modificassem , ampliassem e aprimorasse m o que talvez tenh a sid o co nceb i-


do originalmen te como uma entidade destinada a urn a ex istência etern a.
Além das duas grandes pirâmides e do Templo de Quetzalcóatl , fo ram des -
cobertos outros recintos, palácios, escolas e diferentes tipos de co nstru ção.
Extensos bairros, onde os membros da comunidade tinham suas res idências,
rodeavam o centro administrati vo e religioso mais denso. As avenidas e ru as
eram pavimentad as, e havia um sistema de drenagem bem pl anejado. As
pirâmides, os templos, os palácios e a maioria das casas dos govern antes ou
dos membros da nobreza eram decorados com pinturas mura is nas quais
estavam representad os deuses, pássaros fantásticos, serpentes, jagu ares e
várias plantas.
A metrópole de Teotihuacán , que em seu apogeu, por volta dos séculos V
ou VI d.C., se estendia por cerca de vinte quilômetros quadrados, contava
com uma população de pelo menos 50 mil habitantes. Diferenças de posição
social vinculadas à divisão do trabalho, um exército eficiente, uma agricultu-
ra extensiva e um comércio bem organizado, em que os comerciante s atin-
giam localidades bastante distantes, são algumas das característic as que se
pode talvez considerar atributos da estrutura socioeconôm ica do estado de
Teotihuacán . Os muitos vestígios de sua influência, encontrados em várias
sítios arqueológic os remotos, em Oaxaca, Chiapas e mesmo nas regiões
montanhosa s da Guatemala, parecem indicar que Teotihuacán foi o centro
de um grande reino ou de uma confederaçã o de diversos povos. Muitos dos
membros da classe governante falavam provavelme nte a língua nahuat, uma
forma arcaica do náhuatl, que viria a ser, séculos mais tarde, a língua oficial
dos astecas.
;:)
o Os teotihuacan os cultuavam diversos deuses invocados posteriormente
z
o
u por outros povos de língua nahuat: Tlaloc e Chalchiuhtl icue, Senhor _e
<
o Senhora das Águas; Quetzalcóat l, a Serpente Emplumada ; Xiuhtecuhlli ,
Vl
<
e:.::
w
Se nhor do Fogo; Xochipilli, Príncipe das Flores. Como aconteceu co01
Cl,.
Vl
i,Ll o utras in stituições, a arte que floresceu em Teotihuacán iria influenciar de
>
vári as fo rm as outros povos mesoameric anos. .
Paral elamente ao dese nvolvimento de Teotihuadn , surgiu uma civiliza~
ção em outras sub -regi ões d a Mesoamérica . Um dos primeiros exemplos fo~
60
Monte Albán, e m Oaxaca ce ntral, cujo surgimento re mo nta a cerca de
31
d.C. Nesse local, além do centro religioso construído no topo de uma colina,
a presença de numerosas estruturas em suas encostas sugere a existência de
um núcleo urbano relativamente grande. Formas mais complexas de escrita,
com datas, nomes de lugar e outros hieróglifos presentes em várias inscri-
ções, são indícios igualmente do alto nível cultural atingido pelos zapotecas,
que construíram Monte Albán e dominaram muitos outros grupos na região
da atual Oaxaca.
Os maias se estenderam pela península de Yucatán e pelas planícies e
montanhas dos estados mexicanos de Tabasco e Chiapas e pela Guatemala,
Belize e partes de El Salvador e de Honduras. Graças à arqueologia, sabemos
da existência de mais de cinqüenta centros maias de importâncÍa considerá-
vel, que foram ocupados durante todo o Período Clássico. Alguns dos mais
famosos são Tikal, Uaxactún, Piedras Negras e Ouiriguá na Guatemala;
Copán em Honduras; Nakum em Belize; Yaxchilán, Palenque e Bonampak
em Chiapas; Dzibilchaltún, Cobá, Labná, Kabah e os primórdios de Uxmal e
Chichén-Itzá na península de Yucatán.
Muitas teses foram levantadas pró ou contra a natureza urbana dos cen-
tros maias. Hoje admite-se de modo geral que as aldeias construídas às mar-
gens dos rios, como aquelas próximas do Usumacinta ou, em geral, dentro
de uma densa floresta tropical, compreendiam não só santuários para os
deuses e palácios para os líderes religiosos, como também bairros residen-
ciais para o povo.
De um ponto de vista político, parece que alguns desses centros urbanos
estavam associados em vários tipos de "confederações ,, ou "reinos,,. Na
sociedade maia clássica coexistiam dois estratos sociais claramente distintos:
o povo comum, ou plebeus (devotados, em sua maioria, à agricultura e à
execução de vários serviços pessoais), e o grupo dominante, composto de
governantes, sacerdotes e guerreiros de alta posição. Aos sacerdotes e aos
sábios devem-se atribuir as extraordinárias criações artísticas. São dignas de
e
nota a arquitetura, que produziu a abóbada guarnecida de modilhões, a
e
escultura, particularmente os baixos-relevos, e as pinturas murais, como as
1,
famosas de Bonampak, em Chiapas. Milhares de textos hieroglíficos, inscri-
(l1
tos em estelas de pedra, escadarias, lintéis, pinturas, artigos de cerâmica e
Je livros ou códices confirmam que os sábios e sacerdotes maias estavam de
posse de uma alta cultura extremamente sofisticada. Sabemos também que
~a- os mai.as d o Perí odo Clássico tinham vários calendários de altíssima preci-
foi são. Vári as ce ntenas de anos ant es qu e os hindu s desenvolvessem a idéia,
:,00
32 símbolo para denotá-lo,
possuiam igualmente um conceito do zero e um
herdados talvez dos olmecas. Quem quer que consiga decifrar completa-
universo de idéias e símbolos, o
mente a escrita nmaia irá descobrir um
afirmar que a
núcleo do cosmo maia. Por enquanto podemos pelo menos
todo o desenvolvimen-
Civilização na Mesoamérica clássica, da qual derivou
com os maias.
to ulterior, alcançou seu apogeu

aconteceu aos maias, aoszapotecas, aos teoti-


Explicações sobre o que
sustentação à civilização
que deram origem
e
huacanos e, de modo geral, aos

Período Clássico não passam até agora


de meras hipóteses. O declí-
em seu
entre os séculos
nio e o esplêndidas metrópoles antigas,
abandono final das
formas. Os testemunhos arqueo-
VIl e X, assumiram provavelmente diversas
no caso de
Teotihuacán. Teria
logicos parecem indicar um colapso repentino
restos de paredes, vigase
sido incendiada a cidade, como sugerem alguns
outras peças de madeira que remanesceram?
Ou foi uma destruição causada
marcha declí-
percebendo talvez que já estava em o
por forças externas, que,
decidiram apossar-se das terras férteis do vale? Ou a ruína da cidade foi
nio,
o resultado de uma luta interna, políitica ou religiosa? Ou, de maneira mais

metrópole foi abandonada em


simples, como insistiram alguns autores, a

decorrência de mudanças climáticas relacionadas com o desmatamento e o

dessecamento dos lagos, em conseqüência de processos naturais ou talvez


das próprias ações do homem?
Se, segundo parece, Teotihuacán teve um fim repentino por volta de 650
d.C., sabemos, por outro lado, que a cidade zapoteca erigida no Monte
Albán experimentou um longo período de decadência antes de ser também
finalmente abandonada. No caso dos centros maias é como se houvesse che-
gado um momento irreversível quando os sacerdotes deixaram de construir
estelas. Depois, talver durante um certo período, as velhas cidades começa-
Tam a ser gradativamente abandonadas. Não se encontraram vestigios de ata-
ques externos, nem de destruição por fogo. Os centros foram apenas aban-
donadus, quando seus habitantes procuraram outros locais onde se tixar. E
sefia difiil provar que foi isso o resultado de uma mudança clinmática violen=
d c
geneTalwada, de uma catastrote
agricola ouI de uma epidemia geral.
Conjecturas a parte, permanece o fato de que o periodo entre 650 e 950
d.C. assistiu à queda das ivilizaçoes clássicas da Mesoamérica. No entanto,
d ruin das cidades nao Signiicou a morte da alta cultura nessa parte do
Novo Mundo. Sabemos agora que outros povOs herdaram e desenvolveram
33
m enção , posto
muita s das realiz ações cl ássica s, e algum as del as merec em
ame ricano s.
que viriam a influe nciar a evolu çã o cultu ral futura dos meso
e const ituem
Muita s delas sobre viver am à conqu ista espan hol a e ainda hoj
Centr al.
eleme ntos da cultu ra de muito s povos do M éxico e da Amér ica
urban ismo.
Uma das princ ipais carac teríst icas do legad o clássi co foi o
núcle o políti -
Nenh uma cidad e, por exem plo, podia ser const ruída sem um
ios eram circu n-
co-rel igioso estrei tamen te interl igado . Os templ os e os palác
forma l eram da
dados por espaç os aberto s. De vez que a tradiç ão e o ensin o
s escola s comu -
comp etênc ia dos lídere s religi osos , tivera m de ser const ruída
rtante era a
nais em divers os bairro s da cidad e. Uma outra instit uição impo
tamb ém onde as
praça do merca do, um local onde não só se come rciava mas
muito espal ha-
pesso as se encon trava m. As habita ções para os plebe us eram
da cidad e. Além
das e forma vam grand es bairro s ao redor da parte centr al
ía um pequ eno
da casa de um pavim ento, a maio ria dos habit antes possu
canos gosta -
pedaç o de terra onde plant avam algun s legum es. Os meso ameri
es, vistas de
vam de todos os tipos de plant a. Assim , muita s de suas cidad
tas e jardin s,
uma certa distân cia, parec iam uma mistu ra de peque nas flores
los e palác ios
com telhad os cober tos de palha visíve is aqui e ali e os temp
de urban ismo
pinta dos emerg indo por entre o verde em volta. Essa forma
ário apres en-
perm anece u típica da Meso améri ca. Um exem plo extra ordin
éxico .
tou-se aos conqu istado res na metró pole asteca , Teno chtitl án-M
encon tra-
Tanto quant o nos padrõ es da vida urban a, na esfera artíst ica
o é válido no
mos mais tarde a forte influê ncia do Perío do Cláss ico, e o mesm
r numa prová -
tocan te às crenç as básica s e às forma s de culto. Pode- se busca
satisf atória da
vel orige m comu m, parte do legad o clássi co, uma explic ação
s de grupo s
semel hança e às vezes ident idade entre os mitos , ritos e deuse
ntos cultu rais
difere ntes do Perío do Pós-c lássic o (950- 1519) . Outro s eleme
a hie roglíf i-
qu e fizera m parte da mesm a heran ça foram o calen dário , a escrit
mund o, forma s
ca , o conh ecim ento astron ómico e astrol ógico , um a visão de
bás icas d e organ i zação religio sa, políti ca e socio econó mica,
a instit uição do
u.J
Q
distan tes.
merca d o e um com érc io qu e conse guia atingi r regiõe s muito
exe rce-
Entre os po vos qu e se benefi ciaram desse legad o c ultura l, al guns
m -se tam -
ram um poder con sid e dvcl até a chega d a dos espan h ó is. Menc ione
rios sujt'i -
bém os m uit os grup os do No rt e, locali zados muito al ém dos te rritó
limita do,
tos a Teo tihu acá n . Al g un s j.1 prati cav a m a agri cultu ra e m grau
nonw ste do
como os atu ai.s co ras, hui cho ls, tepeh11 .1 nos, cahita s e pim.is do
outro s grupo s,
Méx ico. Adi a n te d a reg iao lrn hita c.L1 por es tes , sito L'ncont ntdl)S
34
alguns particularmente primitivos, como os pertencentes à família lingüística
hokan, além de outros que haviam alcançado níveis mais adiantados, como
os chamados índios pueblos do atual Novo México e partes do Arizona.
A arqueologia revelou que os teotihuacanos haviam exercido, pelo menos
indiretamente, alguma influência sobre alguns desses grupos. Isso parece ser
particularmente verdadeiro no caso dos índios pueblos, os mais adiantados
nos vastos territórios do norte do México. Há indícios igualmente da presen-
ça de alguns grupos relacionados culturalmente, e talvez também politica-
mente, com Teotihuacán, que se haviam fixado no Norte, em postos avança-
dos, para proteger a fronteira contra as incursões dos chamados generica-
mente chichimecas, seminômades bárbaros, coletores e caçadores.
Os que viriam mais tarde a se chamar toltecas devem ser incluídos entre
os colonizadores dos postos avançados. Ao que parece, quando tom aram
conhecimento da ruína de Teotihuacán, decidiram "retornar", como narram
os textos nativos, à terra de sua origem cultural, isto é, o México central.
Vários relatos contam sua peregrinação antes de alcançarem as pequenas
cidades ainda habitadas por povos de origem teotihuacana. Os toltecas final-
mente se fixaram em Tula, um local a cerca de 80 quilômetros ao norte da
atual Cidade do México. Tula, ou Tollan, na verdade significa metrópole; era
isso precisamente que os toltecas estavam prestes a construir.
Uma figura central na história dos toltecas é o famoso Quetzalcóatl, uma
espécie de herói cultural, que tirou seu nome de um deus (a Serpente
Emplumada) cultuado desde os dias de Teotihuacán. Numerosos textos e
livros nativos escritos em náhuatl falam de seu nascimento, vida e feitos
prodigiosos. Conta-se que, ainda na juventude, Quetzalcóatl se retirou para
H uapalcalco, uma antiga aldeia dos teotihuacanos, para dedicar-se à medita-
-< ção . Lá foi convidado pelos toltecas a tornar-se seu governante e sumo-
f-
Vl

::i
sacerdote. Palácios e templos foram construídos e muitas cidades e povos
a
z aceitaram o domínio de Quetzalcóatl (o deus e seu sacerdote). Não está
o
u totalmente cl aro o que teria provocado o fim da idade de ouro dos toltecas e
<
e.
a queda fin al de Tui a por volta de 1150. Mas a ruína dos toltecas significou a
dj f usão de sua cultura e sua penetração entre diversos povos distantes. A
prese nça dos tolt ecas está regi strada em an ais, como os dos mixtecas de
Oaxaca e os dos maias de Yuca tán e da Guatemal a.
Os mix tccas sucederam aos za potecas no vale de Oaxaca depois do ded í-
nio polí tico e cu ltural dos últim os. Po demos atribuir - lhes a fund ação ele'
nov a" <.. i<la dt:, , comu as de Tilantnn go e Teozac ualco, h~m co mo a recons-
35
Desta caram -se
trução parcial das famosas cidad es e fortalezas zapotecas.
de 950, foi
igualmente nas artes, espec ialme nte como ouriv es. Por volta
prata, cobre e,
introduzido na Mesoamérica o traba lho com metais, ouro,
cidos por seus
em certa medida, o estanho. Os mixtecas são tamb ém conhe
registros que
livros de conte údo histórico - alguns chega ram até nós com
2
remontam a 692 d.C.
obsta nte,
Os maias não havia m recup erado seu antig o esple ndor. Não
da Guate -
alguns pequenos reinos - Quich é e Cakchiquel nas mont anhas
de Yucatán -
mala, Uxmal e Chichén-Itzá, Mayapán e Tulum na penín sula
s de orige m tol-
revelaram alguns sinais de prosp erida de. A chegada de grupo
ia. Os que se
teca a Yucatán e à Guatemala contr ibuiu para essa revivescênc
matz, a tradu -
dirigiram à Guatemala lá chegaram como seguidores de Gucu
hique l. Em
ção do nome de Quet zalcó atl na língu a de Quic hé e de Cakc
ra com idên-
Yucatán, o guia dos invasores se chamava Kukulcán, uma palav
mais guerr eiras
tica conotação. Esses novos Quetzalcóatls tinha m inclinações
dos quich és -
que religiosas. Na Guate mala - segun do o Livro Sagrado
ira, ocorr eu
Gucumatz e seus seguidores domi naram os maias. Dessa mane
cctolteciza-
uma nova mistu ra de povos e culturas. Os guatemaltecos foram
parec ido. Foi
dos" em diversos graus. Em Yuca tán acont eceu algo muito
Chich én-Itz á e
criada a cham ada Liga de Mayapán, que abrangia esta cidade,
as pirâm ides e
Uxmal. A influência dos toltecas foi tão forte na região que
én-It zá foram
outros temp los e palácios do Perío do Pós-clássico de Chich
to, nem o novo
construídos à imita ção dos da metró pole de Tula. No entan
plana lto centr al
sangue nem os elementos culturais que haviam chegado do
Seu destin o era
do México produ ziram uma revivescência do mund o maia.
hola, que foi
sobreviver, mas sem esplendor, até a época da conqu ista espan
concluída, em 1525, na Guate mala e em 1546 em Yucatán.
anter ior
O aband ono total de Tula, como havia acont ecido com a ruína
s prove nien-
de Teotihuacán, facilitou a entra da no vale do México de grupo
bárba ros chich i-
tes de além-fronteira norte da Mesoamérica. Dessa vez, os
nio dos tolte-
mecas foram os prime iros a penet rar no que havia sido o domí
chich imeca s, ao
cas. Diversos textos nativos descrevem o que acont eceu. Os

é oferecida uma análise


Numa publi cação póstuma do estudioso mexicano AJfonso Caso,
ntam biografias dt• um
d,J~con1 cúdo~ de v~rios livros nativo s dos mixtccas, os quais aprese
d. C. Alfonso Caso, lfrycs
huin nú111cro ck go vernant es e homens da nobreza, de 692 a 1515
11
)' lfrí 0>lu Míx tn u, M éx ico, 1977 - 198A, 2 vols . V. cspcc ialmc111c vol. li.
dr
36
tentar apossar-se do rico território abandonado, se defrontaram com algu-
1nas famílias e grupos de toltecas que haviam ficado para trás. Embora os
primeiros contatos estivessem longe de ser amistosos, aos poucos as relações
forarn melhorando. Diversas fontes documentam amplamente os processos
de aculturação3. Os coletores de alimentos e caçadores começaram a fixar -se
nas proximidades das antigas cidades toltecas. Os chichimecas dominaram
de um ponto de vista político e militar. No entanto, aqueles que estavam de
posse da alta cultura tolteca iriam influenciar profundamente os chichime-
cas. Esses, a princípio com relutância e depois voluntariamente, aceitaram a
agricultura, a vida urbana, a religião tolteca, o calendário e a arte da escrita.
Assim , no final do século XIII, existiam no México central novos estados e
"sen horias". Alguns eram o resultado de uma espécie de renascimento das
cidades de origem tolteca, ou mesmo teotihuacana. Outros tinham entidades
totalm ente novas, resultantes da fusão entre as culturas dos toltecas e dos chi-
chim ecas. Era essa a situação no vale do México e na região circunvizinha
quando chega ram outros grupos do Norte. Dessa vez, os recém-chegados não
fa lava m um a língua chichimeca bárbara, mas o náhuatl, que fora a língua dos
tolt ccas e de um grande número de teotihuacanos. Os vários grupos de língua
náh uatl - as chamadas "Sete Tribos" - assemelhavam-se, em alguns aspec-
tos, m m os toltecas que haviam vivido anteriormente nos postos avançados
dti norte, na front eira da Mesoamérica. Textos deixados por alguns deles,
LO lll O os t la x(;1 lanos e os mexicas (astecas) repetem co
· , m frequenc1a:
·,, · <<E stamos
1 Clt)rnandn do nort e, estamos voltando para
O lugar On d e v1v1amos
· , . ».
/\ J'Cll l' I 'A'Jo :-isteca, ou, como é freqüentemente des ··t " .
.. .· , . c11 a, sua peregnna-
~,ln , l)fl'Usnu supL'ra r diversos obstáculos M ·t e .
. · u1 as toram as advers 1dades,
pc 1SL'gu IÇ\IL'S, .1t .14ues etc. que tiveram de f .
. . ,. . en rentar antes de finalment e se
1, \ .11 (. m n .1 ti h..1 d e I e n o eh t t t Iá n ' e n t re o 5 1 , .
_ . agos qu e cobriam uma grande
p.mc Lll) , ,il e dl) r-., kxtn). l~so oco rreu seg u d , · e
o ' n ° varias mnt es, no ano de t 32 5.

l b MI \l<. A ~ ( t\~d H AS )
.,
a

l ' 111 .1 LLb rl· ,tl1 1.1,· nc' ~ J u:i mexicct~ 11 0 a po Pe l l


. o u ct c~envo lvimc'nt ~1
'i~U l
J'ldt t 1,, 1 l' ~ul 1urJl 1 111.th uu mL'rnh 0 ~ ultimo ,
. _ ') ,e 1i ~e nta "mo~ ant i.":\ do úHlt.ll l 1
e Uf,q'c U ) 1t ll ,1 ldí ldllh"ll l u Je llf llc.l im<1gt'lll Je . . . .
~u<1-, prnpn.1, tHL~c.:ns , dc. . l.' 11
37
u
volvimento e identid ade. Por volta de 1430, seu govern ante Itzcoatl ordeno
o,
a queima dos livros antigos, tanto os anais quanto os de conteú do religios
o
sob a alegação de que: "O povo comum não precisa conhec er os escritos:
governo será difama do, e isso somen te espalh ará a feitiçaria pelas terras;
pois eles contêm muitas falsidades" 4• Em seu lugar foi desenv olvida e impos-
às
ta uma nova tradiçã o que transm itia uma imagem do passad o adequa da
exigências e ideais do grupo cuja domin ação estava em proces so de rápida
el
expansão. Consu ltando fontes de proven iência mexica (asteca ), é possív
reconstituir a nova imagem produz ida por sua elite.
Essas fontes são explícitas acerca do tipo de existência que os astecas tive-
ram de suport ar em Aztlan Chicom oztoc, o lugar do qual diziam origina r-se.
de
Suas descrições revelam que, em Aztlan (ou, de qualqu er modo, antes
da
ingressarem no vale do México), possuí am numer osos traços da cultura
s).
Mesoamérica (uma afirma ção confirm ada por testem unhos arqueo lógico
Um elemento import ante é o fato de que, em seu lugar de origem , estavam
subord inados a um grupo domin ante. Chama m a esse grupo os tlatoqu
e
(governantes) e os pipiltin (nobres) de Aztlan Chicom oztoc. Dão-se a si mes-
mos o nome de macehualtin (plebeus, com uma conota ção de "servos"). Eram
.
obrigados a trabalh ar para os tlatoque dessa localidade e a pagar- lhes tributo
Deixaram Aztlan Chicom oztoc e seus antigos governantes porque se can-
saram deles. Seu sacerd ote, Huitzi lopoch tli, lhes havia dito que seu deus
te)
Tetzah uitl Teotl (uma manife stação de Tezcat lipoca, o Espelh o Fuman
r
havia encont rado para eles um lugar privilegiado. A finalid ade era liberta
"lá
"seu povo " da sujeição e conduz i-los à prospe ridade. O deus anunci ara que
[no lugar prome tido), farei de vocês pipiltin e tlatoque de todos os que habi-
5 tas
tam a terra. r... ] Seus macehualtin lhes pagarão tributo s" • Por mais simplis
que pareçam, os relatos dos mexicas e as pintura s em seus livros contam passo
o
a passo como se cumpr iu essa profecia. O própri o sacerd ote através do qual
deus falou foi deificado. Os atribut os de Huitzil opocht li e Tezcatlipoca reve-
lam uma not ável semelhança na iconografia, como, por exemp lo, nas repre- L.1-1
se a
~.r nLaçõcs encon trada s nos códices Borbonicus e Matritensis. Desenv olveu-
tli
todo um ciclo de poema s e mitos que remem oram os feitos de Huitzilopoch

- -(o-- - - - -- -- - --
- -e-M.-León - -, - - -4-vols-., -t'º
- -1969,
-ico,- 1958-
il,·1 M,.111 í1e11 s1), t' J. A. M. CJ rihay -Portilla Méx
l ') 2v .

< 1 i•, r,il, ..d dr ( ,1~ i rlltJ , / n1g1,11' 11/u , d,· /11 ( )/1111 <,',· 11, ·ru l )P/Jr, · l /i , 111rit1 ,fr /i ,s 1\frxi,·c111os,
11,,,lll (ld , l 'JU H.
38
(seu nascimento prodigioso, sua vitória sobre os Quatrocento s Guerreiros do
Sul, a assunção por ele próprio do destino de seu povo, sua identificação com
o Sol, Doador da Vida ... )<'. Todos esses acontecimentos cumprem profecias e
)

uma vez que o destino dos mexicas está intrinsecamente ligado ao de seu deus
1

prenunciam seu cumprimen to final para o próprio povo.


Os mexi cas contam como eram extremamen te pobres em Aztlan Chico-
mo zto c e durante sua peregrinaçã o em busca do lugar prometido. Em
Aztlan praticaram a agricultura em benefício de outros. Mais tarde, viveram
como coletores e caçadores. Só ocasionalme nte interrompe ram sua jornada
para cultivar alguma terra. Os mexicas seguiam seus guias (sacerdotes e
capitães) . Formaram grupos que receberam o nome de calpulli (calli: casa >
calpulli: "grande casa", com o sentido de "pessoas pertencente s à mesma
casa", talvez grupos de famílias ligadas por parentesco, embora não haja cer-
teza quanto a isso). Uma das crônicas nativas relata que originalmen te havia
se te calpulli mexicas 7 . Uma outra afirma que todas juntas perfaziam um
total de dez mil pessoas 8 . Suas lendas relatam que o deus Huitzilopochtli,
qua nd o lh es fez as promessas, deu sua palavra de que protegeria todos aque-
le~ que pert encia m às "casas" (calpulli), os ligados pelo sangue: "seus filho s,
ne tos , bis netos, seus irmãos mais jovens, seus descendentes,,9. Ao contrário
do qu e indi ca m as dúvidas expressas por alguns estudiosos, as tradições
in~ i!) tcm na id éia de que, tanto naquele passado remoto como no presente
( logo apó~ ~ co nqui sta espanhola), os membros de um calpulli tinham um
a nccs t r.ll u rn1um 10 . A tradição oral e os livros nativos coincidem tot almente
110 ~ iuurnerns relat0 s sob re as muitas dificuldades enfrentadas pelos calpu lli

d<1:- 111n iL .t ~ di rigidos por seu s sace rdotes e guerreiros. Ocasionalm ente,

.d g 1111 ~ do:- tllL' .\iL.l S desobedecer a m à~ ordens de Huitzilopoc h tli acarretan -


1

d u u 1t1M'l1Lit'n ciJ ~ Jt:'~a st ro~ .J ~. A obedi ência aos conselhos do deus se mp re'
1nu l1 .l\ .l nn lUmpnmen to Je ~ua~ promcs~as.
; ( h rnn.,l J~ \ em ~u.1 1'n.>p1 i~1 ve r"ªº de ~e u pa4:,sa do) pareciam go~t.1r 1.k
tk · i.. 1t ' ' e, .) e 1. ti mo u111 pm o qu e n,1 epoca não era aprec iddo por ningm' 11 '·

-- ------ --- -------


l , 11, ,,1 ,.j, AIH11.1Jo1 l , t , •/111111, , ( 11111.-i \l r u .-p•vd . \ l \' '\ h l ' l 'J7 .:'., (lp ~~ ~•
l 1 ,, , 1., ' l11n1 ,d l fl l ,111 • u11u l11l , l 1t1õ 111 1, 111, '>,1\//1,/ r{ 1 / 1/ 1(1 11 , r q 1t\ >.,l1.i, .l l • 1.i , , 111 1,l,11 1.· 111 l 1111'1'·'

,,,,,. "' , . l 1Ul ( /ll , ,tfll! \d l I l ll1', 1tl1.,~1.ll , l •H'>, \ UI Ili , ti, -~tÍ I ,

1 .1 ~ ( il 1, / 1, ' 1 11 · 1 1 '

.\l,111~1• ,lt ,(li .


39
4 por si mesmos se colocavam à parte, por terem um destino singular. Entre
tras COisas, diziam de si mesmos que reverenciavam aquelas formas de
uti
oOverno e organização de origem divina, diretamente vinculadas ao sumo-
cacerdote dos toltecas, Quetzalcóati. Outros grupos anteriores aos mexicas
também haviam percebido o valor (religioso e
contemporâneos
ou seus
nolitico) que havia em afirmar ser investido de poder pela mesma fonte de
origem tolteca. Assim, vários povos do México central e de localidades situa-
das em regiöes distantes, como Oaxaca, Guatemala e Yucatán, haviam rece
bido a insignia de governo do Senhor do Leste, um dos titulos de Quetzal-
cóatl11. Não é de admirar que os mexicas, já fixados em sua própria terra
prometida, tenham decidido seguir o conselho de seus antigos guias e ligar
se a Quezalcóatl e à nobreza tolteca. O senhor de Acamapichtli, um descen
dente dos toltecas-culhuacanos que também tinham ancestrais mexicas, deu
início a uma nobreza asteca. Ele e outros pipiltin culhuacanos casaram-se

com as filhas dos antigos sacerdotes e guerreiros mexicas. Os membros das


famílias daqueles que haviam guiado os mexicas também foram incorpora-
Quando aconselhavam filhos em suas conver-
grupo escolhido.
seus
dos ao

mexicas do estrato pipiltin lembravam-lhes


sas (Huehuetlatolli), os pais
descendentes dos toltecas e, em última
repetidas vezes sua origem: eram

análise, do próprio Quetzalcóatl.


disseminavam essa
Dessa maneira, tradições e os livros dos mexicas
as
inteira da nação asteca estava sendo
"imagem verdadeira". Na época, a vida tributos aos tlato-
transformada no seu caráter geral; muitas pessoas pagavam
de Huitzilopochtli cumprira-se inte-
que pipiltin de Tenochtitlán; a profecia
e
mnacehualtin, que eram"plebeus e ser-
gralmente: dos descendentes daqueles
Aztlan Chicomoztoc, nasceram os tlatoque e os pipiltin mexicas. E o
vos em
e as falas dos mais velhos.
que ensinam os relatos orais, os livros, os poemas
que se assemelha ao
Veremos agora "imagem verdadeira"
c o m o essa
lin-
podemos descobrir, a partir de
fontes arqueológicas, etno-históricas,
sobre a história, a política,
guisticas e outras fontes documentais disponíveis,
últim0
dos mexicas (astecas) durante
o
a economia, a sociedade e a cultura
capitulo de sua existência autônoma.
em Codice
I1. casos registrados nos Anales de Cu auhtitlan,
Ver, entlre outr0s, os

trad. de A. Recinos, México, 1953, ppP.


10-11; Popol Vuh,
Chimalpopoca, México, 1975, fos
A. Recinos, México,
1950, pp. 67-68; Caso,
de
218-219; Anales de los Cakchiqueles, trad.
vol. I, pp. 8l-82.
Reyes y Reinos de la Mixteca,
40
Por volta de 1390, morreu Acamapichtli, o primeiro governante (huey
tlatoani) de linhagem tolteca e fundador da casa governante dos tlazo-pipil-
tin, "nobres ilustres". Ele e seus sucessores imediatos, Huitzililuitl (1390-
1415) e Chimalpopoca (1415-1426), ainda eram sujeitos aos tecpanecas de
Azcapotzalco, uma «senhoria" em que os povos de descendência teotihuaca-
na, tolteca e chichimeca se haviam fundido e que nessa época exerceram
hegemonia no planalto central. A ilha de Tenochtitlán, onde os mexicas se
haviam fixado, era possessão dos tecpanecas. Desse modo, de fato, os m exi-
cas, por mais de um século desde sua chegada em 1325, haviam pago tribu-
tos a Azcapotzalco e realizado serviços pessoais para ele.
Em 1426, Chimalpopoca morreu, provavelmente assassinado pelos tec-
panecas. Algum tempo depois, irrompeu a guerra entre os tecpanecas e os
mexicas. Estes conseguiram a ajuda de vários outros povos também sujeitos
a Azcapotzalco. A «imagem verdadeira" destaca neste ponto um episódio
extremamente significativo. Quando os tecpanecas estavam prestes a iniciar
as hostilidades, a maioria do povo mexica, isto é, os macehualtin, ou ple-
beus, sustentaram que era melhor render-se. Em resposta, os pipiltin fizeram
um trato: se não conseguissem derrotar Azcapotzalco, obedeceriam aos
macehualtin para sempre. Todavia, se conseguissem derrotar os tecpanecas,
os macehualtin deveriam total obediência aos pipiltinl2. A vitória sobre os
teq ~~necas, p_or volta de 1430, estabeleceu a base da tão enfatizada situação
polit1 ca e soc1oeconômica dos pipiltin mexicas.
A vitória também
. significou a total independênci·a da sen h · · eo
ona mexica
po nt_o de partida d~ suas conquistas futuras. Itzcoatl (1426-1440)' a. udado or
se u sagaz conselheiro Tlacaelel, deu início a uma d d J P_
f\ era e mu anças e conqms-
tas . ~o teuczoma Ilhuicamina, «o Velho" (1440-1469) .
. _ , consolidou o poder e
:.1 , ep ut a~·ao do povo de Huitzilopochtli Sob d
0
148 1), de Tizoc (1 4 Bl - l BS) d h . · governo e Axayacatl (1469-
, 4 , e A mtzotl (1486 1502) d .
( 1so,_ J510) 0 do , • - e e Moteuczoma li
. - - ' mm1 0 as teca estendeu-se ainda . . .
l'>. tr,wrdi nárío de sua fo .. . . m,Hs. Um fortalecimento
rça m1 1ita1, combmado .
lJ m :,,eu próµr io des tino . I com a confiança que tmham
. , res u to u num a contínua e -- , . ,
1n1 c<1. Num erosa:-. senh o .· , , h . d xpansao pol1t1ca e econo-
11 .is a 6 it a as por o d .
1' 11l rc o::i qu,1i !> os toto1B ca - 1 - p vos e muitas líng uas diferentes,
< 's e os rnaxtec as no t ·
\1 ,-, ;11 nu , l' º ~mi xtec 1!> .. - ' s a ll éHS estados d e Puebla e de
, t: lh za po tec.1s em Oax· t·· ., . .
__ ,Ka, 01 " rn subJ ugadas d e d.1ver-
I .'
I JÍc) ',t , j )IJl,111 , // 1~ / il / /f l IÍ I' /(1 ) ~ ; , - - - , ------- - - - -- - - - -- -- -- --

111 1 \ ' ( Ili > ( •' N 11 1' l'(l i:,, 1


A t\A ' ·11
· · · ·1. ( ,,lrt
· • ' 111 1/IV l
· • n 11n 1,d 11w ,11,· , ,i l 1 ' ay, Méxi(O 1967, 2
, pp . ll'i l '>. . '
>
41
sas mant•irns pelos mcx1 c 1s. E formas organizadas de um co mércio dilatado
foram rcspon s;)vcis pcl n crescente prosper idade do " império " mexica.
A só lid :1 cstrntu rn econôm ica da orgnnizaç~o políti ca dos mexicas, que já
rst:ivn h:1sic:1 mc111 c formada ao fim do gove rn o de Moteuc zoma 1 (por voJta
c.k J 4t,9). foi objeto de muit as interp retações di ve rgentes. A maioria dos cro -
nis tris csp:inh 6is (e hi storiad ores do séc ulo XIX, como Prescot t, Bancro ft,
R:i mírc7 e Oro1co y Berra) haviam reconh ecido que a socieda de mexi ca era,
rm muito~ :1!7-pcctos, semelh ante à dos reinos feudais da Eu ropa . Assim, para
docrC\'é -la, não hesitara m em em pregar termos semelh antes aos de reis e
pn ncipcs; corte real, hidalgos e cortesãos; magistr ados, senado res, cônsule s ,
~;:iccrdo tcse pontífices; membr os da aristocr acia, nobres de alta e baixa posi-
,c10 , proprie tários rurais , plebeus , servos e escravos. O
re visionis mo crítico
loi ini cia do por Lewi s H . Morgan , em termos das idéias express as em
seu
fa mrn,o A ncic111 So ciety ( 1877 ). Ele escreveu:

A o rf!a ni7 ação as teca colocava-se clarame nte diante dos espanhó is como um
a

t on fcdcr.1~ ;'10 de tribos indígenas. Ne nhuma outra coisa , a não se r a m ais grosseira
de fato11 óbvios, poderia ter autorizado os escritores es panh óis a fabricar a
d 11-10 1c,.~o
11 1onarq u1 ~1 a'I ICCJ a partir de um a organi zação democrá tica.

1 ... 1

,·k :-. 1 m e rn ni 1- t:1:-. c:-. panh6is I tcmtrar iamcnt c invent aram para os astecas um a mo -
1w q111 .1 rn 111 e;, r,1t tcrb t il'as :.i ccnt uadamc nt e feudais ... Essa
co ncepção in co rreta já ~t.'
111 .1111,·vc p,11 111.1i .'> tempo cfo que merece devido à ind olência dos ameri
ca nos l.l.

/\ , id r1.i:-. 1.fr Mmg.i n, :1ccius e divulgadas por Adolph F. Bandel icr ( 1878-
1 ~r;o l, 1.·>.cr u ·1.1m u m.1 profu nd::i influên cia. A maio ri a dos pesqui sadores
· 1Lc 1t.11 .1rn .1 ll'.\l' 1.k q1t l' t):-. ,nexica s e os outros povos
qu e habitavam o sul do
r\ 11 u,11 r' ., A 11h· 11l,1 <.'t·ntr,d nJo ti nham classes ~ociais Ji frrenciacld-. (.' ncío
1L 1 11 .1111 dcM·n , u h dt' orgJ ni La\·ao polí1ica , corno reino, ou o utro.')
1d ( 1 fl)( · 111.b

11 11 d e l :-. 1.1du Rc·l u llh l'L l.ltn que O!> po\'u !> mc~odmL"ricano\ erc1m apcnc1-.
!1 ~
;Jl ij >t i: 11 1h ul.1liu.-, 11,11 : -. .mg uc' (1.H w 11 11p u!> de
"trtbo \ " ou ·'da\ " ), a lgum.1 -"
' '· :t", 1, ,.1d11:- c111 , ünkJer .1 , lh':, . L
<
'\1 , 111
:,< 1 ul11 111,11:- 1.1 1lie , um r:> t UJl) llldb :> c.' flo dt' tunt n i uJ1 ge t1.t'I qm'

·nl . , \ t , (· · (( IJ .1111 l~ l lU lchL I ::. j J} lc' :> d llhlll t ill d um no \ o n · ,i ,1u 11i,r110 .

. i1,
1
' 1
,1 /.1 ,i1, 1i., ·\1 1111 11 "dl 11l/dll. IJJul k u 1.hhort , \ hun-,o ( , L..,l) , ~-11 (.·d,11.li
42
cidiam nos seguinte s pontos:
Katz e outr os chegaram a conclusões que coin
ram entjdades soc iais re la-
os macehualtin, agrupados em calpulli, cons tituí
nóm ica diferi a tão radi cal-
cion adas por pare ntes co; sua posição soci oeco
tar a existência de classes
men te da dos pipiltin que se foi forçado a acei
iam entr e os macehualtin e os
sociais; entr e as muitas distinções que prevalec
com as formas de poss e da
pipiltin havia uma mui to imp orta nte, relacionada
ried ade prjv ada da terra.
terra ; som ente os pipiltin pod iam poss uir a prop
era reconhecida a exist ência
Al ém disso, na organização política dos mexicas
de um Estado autêntico (um reino).
ress ão, dur a nte algum
A acei taçã o geral dessas con clus ões deu a imp
diz respeito ao caráter elas
tempo, de que se atingira um solo firme no que
enta nto, recente pesquisa
estr utur as sociais e econômicas dos mexicas. No
tro de um arca bou ço teórico
de Pedro Carrasco e outros, desenvolvida den
ncial o conc eito de mod o
marxista e usando como dispositivo analítico esse
es aceitas de mod o gera l.
asiático de prod ução , cont esto u mui tas conclusõ
essas soci edad es têm como
Em suma, essa pesquisa defende a tese de que
e trab alha vam coletivamente
base aldeias comunais primitivas que possuíam
niza vam sob o governo de
a terra. Periodicamente, essas entidades se orga
va da mais-vaJja e arbitra-
um grup o dom inan te e despótico que se apro pria
seus próp rios mem bros, de
ri amente dist ribu ía o usuf ruto da terr a entr e
uíam a terr a em caráter pri-
acordo com sua função. (Um a vez que não poss
eito de classe: pref erem -se os
vado, há uma certa hesitação em usar o conc
os " estra t os "«, esta dos ,, , ou " setores ")O . povo, ou o estr ato domi.na do,
term
is que trab alha m a terra para
cont inua a ser jntegrado em entidades com una
ências do grup o dom in ante.
subsistência e para aten der às crescentes exig
e a lide ranç a do povo e a
Esse justifi ca sua existência med iant e o gov erno
lme nte a fundaç ão de cen·
direç~io das ob ras públicas imp onen tes, prin cipa
t ros urba nos, a co nstr u çã o de es trad
as e grandes obra s de irrigação .
e da es trut u ra ela socie ·
O pon to cen tral do debate em torn o da natu reza
e as rea lizaçôes do grupo
J aJr r tfo eco nom ia mex icas é a posição soc ial
va m efe tiva m en te n,1 o sc'i
d o lll ína n t e, os pipi Iti n, u ma vez que eo n t r o Ia 1

1<. hti1J :i n com o tam bém uma va sta part e d'"t Mes oam ériça. St'g undo su,
'l't: rH
J,, 6p1ia opi n i.w , o,., pip ilt in estavam pred
estin a dos po ,. s~ u deus a Iihvrt,i r

tic u pu vo ( ;.J<, enridíld eb L OllH tn.ii ~ do


s alc.kües subrn ctid o s aús 1/11W1/II'' e
x I os d o f-/ /t d l/1 et/ ot O/1 Í ('' o
o li I rn 'l / J/ p I / li t I d t' A /. 1Lrn C h i l ()II lO / t o e) . Te
.t ÍI palav,-.,s de uni ve lho
dignitâr io
Mu11do Ant igo ') ) cxe ,n plili Litlll j~~ o. S;10
ilo Jo diri gl'nll' supr emo:
que , fJ l.rndo r.ir.1 il e. icb de, rt.'l ponJL· a 11111 di scur
l
ó mestre, ó soberano, ó senhor nosso, seu povo está aqui ... [e também] os filhos, 43

os nobres filhos , as pedras preciosas verdes, os preciosos braceletes, os filhos de nos-


sos senhores, e os descendentes de Quetzalcóatl,
1•.. ]

Assim vieram à vida, assim nasceram, assim foram criados, onde no início foi
determinado, ordenado que deveriam comandar, reinar ... 14 .

Dentro do grupo dominante vários eram os níveis de hierarquia, posi-


ções e títulos: os tlazo-pipiltin, «nobres ilustres", eram os descendentes dos
que haviam sido os governantes supremos. Dentro desse grupo seleto é que
se escolhia o huey tlatoani. Os pipiltin (não como termo genérico, como era
usado antes, mas como uma designação específica) eram aqueles que estavam
vinculados de outras formas (não como descendentes diretos) ao mesmo
grupo dirigente. Pretextavam também uma linhagem de origem tolteca. Os
cuauh-pipiltin, «nobres-águia", eram indivíduos assimilados de algum modo
pelo grupo dominante (uma indicação de «mobilidade social") em virtude
de seus feitos , especialmente em combate. Os tequihuaque (traduzido por
Alonso de Zorita por hidalgos) eram filhos daqueles que exerciam importan-
tes funções administrativas, como os teteuctin (senhores), alguns deles pipil-
tin e outros membros ilustres de um calpulli.
Os pipiltin tinham extrema consciência dessas diferenças de hierarquia
entre eles e das possíveis posições que lhes estavam abertas na administração
políti ca e econômica do Estado mexica. Isso se reflete no seguinte fragmento
de um a co nversa de um nobre com seu filho:

Você sabe, você se lembra de que há apenas um governante, o coração da cidade,


~ qu t:' ex istem do is grandes dignitários auxiliares, um dos guerreiros (ce quappan ),

outro da nobreza (ce pil-pan ). O dos guerreiros é o Tlacatecuhtli. O da nobreza é o


'rtocorli rr1 lm rl ... E o guerreiro [... ] será que nasceu para essa pos ição? Por acaso sua
m.i c, se u p~ü lh a legaram ? Não . Pois ele apenas fo i eleito na terra, foi designado,
Jo1.1,fo por Ele, o Supremo Doado r da Vida 15•

0uJndo Mo teuczo ma I in iciou seu reinado, os mex icas e seus aliados jú


,. , ..i 11 1 ::ir nh ore~ de um vasto rerrit óri o que co mpree nd ia a mai or parte do

/l , l11 111\l l,1 J p. 11,.


/
1
1 1i \ fll \ ' 1, 1 ,1p ! ()'
44 politica foi
situação, sua organizaço
Planalto Central. Para enfrentar a nova
mais que no passado, foi
fim de tornar-se mais eficiente. Muito
ampliada a
tlatoani. Embora fosse considerado
dado poder supremo e absoluto ao huey
visto como u m a encarnação
da divindade na terra, não era
um representante
comandante-chefe do exército e um dig-
nem como o filho de um deus. Era o

cuja senhor vontade ninguém


nitário religioso, bem juiz supremo e o
como o
não por sucessão hereditá-
Ousava contradizer.
Detinha esse papel supremo,
de um
do tlatoani era dever e privilégio
ria, m a s por eleição. A eleição huey
nobreza a quem
a antiga
numero limitado de pipiltin. Esse grupo representava
correram o risco de ser aniquila-
prometeram
obediência quando
os plebeus fazer parte
Ser eleito governante supremo pressupunha
dos pelos tecpanecas. cuidadosamente exa-

do grupo dos tlazo-pipiltin. As qualidades pessoais eram

era che-
não votavam, pois s e u propósito
minadas pelos eleitores. Na verdade,
vários dias a consultar pessoas
a uma decisão unânime; assim, passavam
gar unâ-
diferentes e a deliberar entre si. Finalmente, chegavam a uma aceitação
nime de alguém que, embora pudesse
ser superado por outros em alguns
vários interesses na maioria dos aspec-
outro lado satisfizesse os
aspectos, por
suficientemente capaz para ser o
líder de toda a
tos e fosse considerado
Moteuczoma I até a espanhola, todos os huey tlatoani
invasão
naçãol6. Desde
foram escolhidos por esse método, cujos vestígios, na opinião de alguns pes-
sobrevivem nas eleições presidenciais do
México atual.
quisadores, ainda hoje
dual supremo, Ometeotl, o cargo de
Por acreditarem talvez num deus
era complementado por um
assistente e conselheiro, o
governante supremo
cihuacoatl. Embora o sentido mais imediato desse título seja "serpente
entend -lo também como "gêmeo fêmea". Os deveres mais
fêmea", pode-se
importantes do cihuacoatl governante supremo enm sua
eram substituir o
ausência ou morte e presidiro conselho de eleitores e o tribunal supremo.
autoridades proeminentes eram o tlacochcalcatl (senhor da
casa
Outras
Atuavam também aos
das lanças) e o tlacatecatl (comandante dos homens).
pares dois juízes principais, dois sumos sacerdotes e dois guardiaes do tesouu

ro da nação. Todos esses dignitários presidiam seus altos conselhos corres


tlatoani
pondentes e participavam do supremo conselho chefiado pelo huey
ou por seu substituto, o cihuacoatl
Todas as cidades, quer as dos mexicas e de seus aliados (Tezcocoe
Tlacopan), quer aquelas que foram conquistadas por eles, eram governadas

16. C. a descrição detallhada desse "processo eleitoral" em FC, livro VIl, cap. 18.
por indivíduos nomeados pelo governante supremo. Esses governadores 45
eram os tlatoqu e (plural de tlatoani). Em algumas circunstâncias, 0 gover-
nante supremo enviava um dos pipiltin da metrópole asteca para governar
um domínio subjugado. Em outros casos, era permitido que os membros do
antigo grupo governante das cidades conquistadas permanecessem no cargo
após um novo juramento de obediência.
Para a administração de alguns calpulli, o tlatoani supremo designava
oficiais, chamados teteuctin. Como já se disse, muitas vezes eram pipiltin.
Em outras ocasiões, não sendo eles próprios nobres, estavam a serviço de
uma família de pipiltin. O grupo de unidades de produção administrado por
um teuctli era chamado de teccalli ( casa das pessoas do palácio), isto é,
nomeados pelo huey tlatoani. Eram muito importantes os deveres dos teteuc-
tin. Eram responsáveis pela produção na unidade socioeconômica que lhes
era "confiada". Sua produção, além de sustentar os macehualtin que traba-
lhavam a terra, tinha de suprir os tributos aos pipiltin e, em última análise,
também ao huey tlatoani.
Os cargos administrativos mais importantes estavam reservados aos
pipiltin. Eram-lhes conferido os títulos que acompanhavam esse cargo, bem
como a posse e o usufruto de terras. Os pipiltin não pagavam tributo.
Podiam contratar tantos mayeque (trabalhadores) quanto fossem necessários
para cultivar a terra. Alguns dos pipiltin também eram encarregados dos
tecalli, que abrangiam tanto a terra quanto os macehualtin que nela trabalha-
vam. Os membros do grupo dominante podiam ter tantas esposas quantas
pudessem sustentar e outros privilégios, como insígnias e vestes especiais,
formas de entretenimento e mesmo alguns tipos de alimento e bebida. Além
disso, estavam sujeitos somente à jurisdição de tribunais especiais.
Os filhos dos pipiltin freqüentavam os calmecac, ou centros de ensino eleva-
do. Neles a sabedoria ancestral era cuidadosamente preservada, ampliada e
transmitida. Os que ingressavam neles passavam um certo número de anos
preparando-se para os cargos considerados apropriadas aos pipiltin como parte
w
de seu destino. Os textos nativos contam o que era ensinado no calmecac. O o
jovem pípilti11 aprendia formas elega ntes de falar, hinos antigos, poemas e rela-
to~ históri cos, do utrjnas religiosas, o calendário, astronomia, astrologia, pre-
ceitos lega is e a arte de governar. Quando os jovens nobres deixavam o calme-
cac, ei> tavam preparados para exercer um papel ativo na administração pública.
A edu caçã o receb id a em casa e no rnlmecac, bem co mo a experiência obti-
da co rn o membros do grupo dominante, in stilava nos pipilti11 um se nso de
46 ns hueh uetla tolli reve lam- nos
resp onsa bilid ade e de dign idad e. Extr atos de algu
ão. O pai diz ao filho :
o quan to os pipil tin estav am cons cient es de sua posiç

E quem é você? Você é de uma linha gem nobr e;


você é cabel o da gente, você é
, , nobr e do palác io você '
' e
e um
unha da gente, você é o filho de um gove rnant e, voce
17
algué m preci oso, você é um nobr e ... .

atitu de dos pipil tin para


Freq üent emen te trans pare ce nesse s discu rsos a
que se exce deu na bebi da
com os macehual tin. Num relat o sobr e algu ém
enco ntram os o segu inte:

m?
Será dito: terá ele talvez feito o papel de um hom em comu

freq üent eme nte apar ecem


Ou, adve rtind o uma filha perte ncen te à nobr eza,
palav ras como :

da nobr eza ... Não cause


Decl aro-l he espec ialme nte que você é uma mulh er
Não seja uma mulh er comu m
nenh um embaraço a nossos senhores, os governantes ...
timom aceh ualqu ixti).
(m aa timacehualti), não se pareça com uma plebéia (maa

port ame nto daqu eles de


Em quas e todo s os aspe ctos da expe ctati va de com
linha gem nobr e, a com para ção é enfa tizad a:

Não deve tamb ém gritar ,


Você deve falar bem devagar, com muit a pond eraçã o ...
ergon hado , um rústi co (culti-
a fim de que não seja visto como um imbecil, um desav
va dor da terra), um verda deiro rústico .. .18.

cula rmen te com plex a e


A qu es tào dos _pip~ltin e da poss e da terra é parti
distr ibuiç ão de terra ce ·
·ta p e l os mex1· cas segu m-se
co nt rove rsa . A pnm e1ra
. • 1 1
1

. .
d A· l l
1med .ia ta m ente. a sua v1tó na sobr e os tecp anec as e zca potz a co, por vota
ente signi ficat ivo:
d e J430. O regi stro d esse acon tecim ento é p artic ularm

terras fo ram c.1sa. .


o~ .prime iros q .ue recebera m ' a re mant e; as terras perte ncent es à
1>t nhorr n, para ma nut enção do go vern ante s upi.e, mo ... Onze po rções de terra fo ram

17. 20.
1-'C, lí vrn V1, Cí.tp.

l ll ,
FC, livroV l ,cap . 14.
7

dadas depois ao conselheiro do governante, Tlacaelel· e tamb, e . 47


' em toram concedidas duas
e três porções de terra a vários pipiltin, em proporção a seus méritos e funções. __ 1 •
9

Conhecemos por outras fontes a designação náhuatl das terras distribuí-


das de modo variado: tlatocatlalli, "terras do governante", pil+tlalli (pillalli),
((terra dos pipiltin". Estreitamente vinculadas às tlatocatlalli, outras terras
eram reservadas especificamente para satisfazer as despesas do palácio (tec-
pantlalli), dos templos (teopantlalli) e das guerras (yaotlalli). As terras que os
calpulli constituídos por macehualtin possuíam comunitariame nte eram
chamadas calpul+tlalli ( calpullalli).
Será que o governante e os pipiltin teriam a propriedade privada da terra
ou apenas privilégios pertinentes a funções particulares que eram exercidas
pelos favorecidos? Os seguidores de Morgan e Bandelier afirmam que todas
as terras pertenciam somente à ((tribo" ou "confederação de tribos". Outros,
como Alfonso Caso, Paul Kirchhoff e Friedrich Katz, admitem abertamente
que os huey tlatoani e os pipiltin tinham a propriedade privada da terra.
As fontes existentes, embora nem sempre precisas quanto a esse ponto,
parecem apoiar a idéia de que a posse da terra estava em relação direta com
o cargo e a função administrativa dos indivíduos favorecidos:

... o senhor [tlatoani] possui terras em vários lugares anexados a sua senhoria, e os
macehualtin as cultivam para ele, e o reverenciam como um senhor, e essas terras são
de posse de quem o suceder como governante ... 20

Como, em alguns casos, o sucessor de um tlatoani não era um descendente


direto, o sentido do texto parece ser o de que a posse e a transmissão da
terra se faziam em função da posição hierárquica. Por outro lado, é verdade
que alguns membros de determinadas famílias de pipiltin ocupavam o
mesmo cargo administrativo por várias gerações. Desfrutavam, assim, de
uma forma de posse contínua das terras distribuídas. Um acontecimento
ocorrido na época do governante mexica Ahuitzotl é significativo a esse res-
peito. Os mexicas haviam conquistado a senhoria de Chalco e Ahuitzotl ins-
talara um novo governante local. Esse novo governante destituiu muitos
- -l - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
19,
>urfo, Historia de las índias, vai. 1, p. 101.
2
"· Scba sti án íl amírez de Fucnlcal, "Carta ai Emperador, de Fecha Y de Noviem bre de 1532 "•
Co/ección de /Jocumentos In éditos, '1 2 vols ., Madri, 1864- 1884, voL Xl11, P· 254 ·
1
48 ncia, tomou
pipiltin locai s de suas funçõ es admi nistr ativa s. Em cons eqüê
se queix aram ao
tamb ém as terra s que possu íam. Os pipiltin desp ojado s
Disse aos pipiltin
gove rnant e mexica. A reação de Ahui tzotl foi ambi valen te.
O senh or que ele
despo jados : "Tom em suas terra s de volta». Mas, quan do
vista, Ahuitzotl
desig nara para gove rnar em Chal co expli cou seu pont o de
[... ] todos aqueles
lhe disse: "Você sabe o que fazer. Destr ua-os , enfor que-o s
21
que quere m viver como pipiltin ... " •

o dominante
No que se refere aos empr eend imen tos e realizações do grup
afirm ou, dentro
no conte xto da sociedade que gove rnava m, Angel Paler m
que "é suficiente-
do arcab ouço teóric o desenvolvido por Karl A. Wittf ogel,
] sociedade asiá-
ment e clara a relação causal entre o apoio ofere cido a [uma
22
• Pesquisando a
tica e o despo tismo resul tante da agric ultur a hidrá ulica ... "
na Mesoamé-
existência de obras de irrigação econ omic amen te relev antes
ios desse tipo de
rica, Palerm relacionou inúm eros locais onde exist em indíc
empr eend imen to.
econômica
No caso específico dos mexicas, Palerm reconhece que "a vida
e a existência de
dos tenochcas sob seus três primeiros governantes não suger
os, do peque-
cultivo agrícola" 23 . Isso fora uma decorrência, entre outro s motiv
de água salgada
no tama nho da ilha que os mexicas habitavam e das enche ntes
a vitória sobre
a que estava sujeita. Em sua opinião, a situação mudo u após
Nezahualcoyotl,
Azcapotzalco. Então, os governantes mexicas (por conselho de
s hidráulicas.
o sábio senh or de Tezcoco) intro duzir am impo rtant es obra
da dos lagos e
Foram construídos diques para separar a água doce da água salga
aquedutos para levar água potável para a cidade. Os chinampas
- pequenas
terras, onde se
ilhas artificiais, construídas num processo de recup eraçã o das
ção.
cultivavam hortaliças e flores - receberam os benefícios da irriga
ia dos chi-
:::,
Mesm o aceitando tudo isso, ainda se indag a sobre a impo rtânc
(milho, fei-
Ct
z nampas irrigados em comp araçã o com a quan tidad e de recur sos
o agríc olas) que
u
-<
jão, abób oras, horta liças e outra s espéc ies de prod utos
rias conquis-
Teno chtitl án recebia como tribu to das muita s cidad es e senho
e

2l. Anafes de Cuauhtitlan, t° 39.


", em Las Civiliznciones A11ri-
22.
An geJ Palerm, ''Teorí as sobre la Evolu ción en Mesoa mérica
,h' t . J9SS p 79 .
guus dei Viejo Mun do y de Améri ca, Th eo R.. Creve nn a (ed • ) , W·-.1~ 1ng on , _- , .
ca ", Las Civi/iznciones ;\ 11ti·
23.
Palerm , "La Base Agríco la de la Civili zac ión de M cso am é ri
guas, p. J 77.
t··id·is verdade que a construção dos diques ' aquedutos . h os eleva- 49
' ' ·· É ·. ·· e camm
facilitou enormemente .
O d esenvo 1v1mento
•• ·sobre os terrenos pantanosos
u.10s ·
da metrópol e asteca. Mas poder-se-á dizer que essas obras constituíram uma
das principais realizações do grupo dominante a justificar seu domínio des-
pótico sobre o restante dos mexicas?
Se insistirmos em d escobrir algo que (em termos do modo asiático de
produção ) pudesse ser descrito como um empreendimen to imponente e
impressionante, teremos de buscar em outra parte. Os pipiltin, como vimos,
)rnviam forjado sua própria "imagem" que, acima de tudo, confirmava sua
missão de manter a vida de sua própria era cósmica, do sol e da humanidade.
A oferenda de sangue (renovando o sacrifício prirnevo dos deuses quando
criaram essa era cósmica) ajudava a restaurar a energia divina, conciliando
os deuses e obtendo deles o dom vital das águas. Para cumprir esse destino,
as preocupações básicas do grupo dominante passaram a ser o culto dos deu-
ses, o sacrifício humano e as guerras para obter cativos e impor o domínio
asteca. Nessa perspectiva, a edificação e a restauração dos templos (especial-
mente o grande conjunto de edifícios sagrados em Tenochtitlán) e a organi-
zação e a eficiência do exército, sustentadas por uma ideologia complexa,
eram as realizações mais impressionante s do grupo dominante dos mexicas.
Outras realizações compreenderam a urbanização e o embelezamento de sua
metrópole, a organização administrativa, o estabelecimento de rotas comer-
ciais de longa distância, o funcionamento de mercados locais, a produção de
produtos manufaturados (artes e ofícios), a manutenção de um sistema esco-
lar e a propagação do náhuatl como língua franca por toda a Mesoamérica.

Como já afirmamos, os 111.acehualtin não eram apenas parte de famílias


ampliadas, mas também formavam as unidades extremamente importantes
chamadas calpulli. Essas entidades socioeconômic as eram comuns na
Mesoamérica. Já citamos alguns indícios em apoio à idéia de que os mem-
bros de um calpulli eram ligados por parentesco, pelo menos originalmente. 1,.1,l
o
Embora aJguns autores se tenham inclinado a considerar o calpulli uma
e~ pécie de guilda ou associação com finalidades econômicas específicas, os
ind ic ias di sponíveis parecem indicar que nos calpulli mexicas predomina-
va m tend ências endogâm icas.
Al gun s ca lpulli eram criados como parte integrante de grandes cidades.
Fui o caso e m cid nd es como Tex coco, C ulhua can e Tenochtitlán- México.
Nessa última cid ade, havia mais d e: cinqüenta cnlp11/li na época da clwgada
50 es ca lpu/l;
dos espan hóis. Como verem os, os memb ros da maior ia dess
s de produ-
((urba nos" não cultiv avam a terra. Dedic avam- se a outras forma
m conquis-
ção. Entre eles, grupo s de artesãos, artista s e comer ciante s havia
mem-
tado grand e impor tância econô mica. Existi am outro s calpulli cujos
e muitas
bros const ituíam a maior ia da popul ação de cidad es meno res
de aldeias
aldeia s dispersas. Algum as dessas cidade s, rodea das por grupo s
ria. Essas
1 dentro de territó rios de extens ão variada, consti tuíam uma senho
( com seu
comu nidad es polític as eram gover nadas por uma nobre za local
1. aparel ho admin istrati vo corres ponde nte). Na época da maior expan
são dos
11 1

em outras
mexicas, muita s dessas entida des situad as no plana lto centra l e
etidas de
áreas de Verac ruz, Guerr ero, Oaxac a e Chiap as, estava m subm
nante s de
divers as forma s, atravé s do pagam ento de tribut os, aos gover
m sido
Tenoc htitlán -Méxi co. Em alguns casos, suas nobre zas locais havia
s diversas
substi tuídas por pipiltin mexicas. Em outros , foram introd uzida
a teteuctin
formas de compr omiss o. Muita s vezes, o sober ano centra l enviav
de con-
(admi nistra dores oficiais) para as cidades e aldeias subjug adas a fim
ladas
trolar a produ ção local. Dessa forma, muito s calpulli de regiões contro
unidade
pelos astecas eram "outor gados " a um teuctli mexica. Esse tipo de
urada de
socioe conôm ica consti tuía um teccalli. Sua organ ização era estrut
pessoais
modo a facilitar a cobra nça de tribut os e a requis ição de serviços
senhoria
direta mente dos calpulli, em vez de fazê-lo simpl esmen te atravé s da
conqu istada a cuja jurisd ição perten ciam esses calpulli.
icas
Essa estrut ura impos ta não suprim iu as caract erístic as socioeconôm
as quais
internas dos calpulli. Cada um tinha suas autori dades locais, sobre
i.
escreve Alonso de Zorita:

pagamento
"".
Do is principales em cada calpulli convocam o povo a providenciar O
1-
funcionários
do tributo ou a obedecer ao que o govern ante (teuctli) ou outros
,_/l

:...
seus "cabeças"
tenham ordenado [... ] e eles [os membros do calpulli] preferem que
CI
z
,:,
,...,
1
los principales] pertençam ao mesmo grupo ... 24.
1 '. '<
e
1 ,.,,
1 -r.
l Esses _dois calpulleque (os encarr egado s dos calpulli), além de serem res-
IZ
J u.
h
de agir
pom,n~e 1s pela subsis tê ncia de sua própr ia comu nidad e, tinha m
V,
_,
,;
1 ..,,, ✓;

e outrH~
~omo rn~ erm edi ários junto aos teteuct-in . Os ca lpull-i, segun do Zorita
~

''.,, .·. -. · , -· · - I • d0 -
1 .._J
r;t!
.íont cl!i, tinh am suas prÓJ)
· titts 1nstitu1çoes oca1s: um sacerd ote (ou sacer
l'.
«'.
-<'. !4

' 1
'!
51
livros", ou
tes) encar regad o do temp lo local; um tlahcuilo, um ((pintor de
iedad es
escriba, cuja tarefa princ ipal era mant er os registros de suas propr
. Um
fundiárias, dos tribu tos e outro s dado s relativos à histó ria do grupo
lli e o
tesoureiro local (calpixqui), os coma ndan tes dos esqua drões do calpu
conselho dos anciãos tamb ém eram figuras de impo rtânc ia no calpu
lli.
to,
A terra era de propr iedad e comu m dos mem bros do calpulli. No entan
agríc olas,
deve-se ter em ment e que o ((pro prietá rio final" dos recur sos
a unida de
inclusive da terra e de tudo o que a ela estivesse vincu lado, era
s calpulli
política a que o calpulli estava subm etido . Existiam tamb ém algun
urban os",
sem terra. Com exceção daque les que descrevemos como ((calpulli
lhar como
os que viviam nos calpulli despr ovido s de terra tinha m de traba
mayeque, servos ou traba lhado res, cultiv ando a terra dos outro s (especial-
mente dos pipiltin prósp eros) .
íduos
Quaisquer que fossem as circunstâncias específicas de vida dos indiv
que não eram pipiltin, pode- se afirm ar que faziam parte de um calpu
lli especí-
formava
fico. A soma dos mem bros do calpulli (urba no, semi- urban o e rural)
dos mace-
o estrato social dos macehualtin. Em sua maioria, a forma de vida
lli e
hualtin envolvia uma econo mia de auto-subsistência dentr o de seu calpu
funci oná-
obediência total a suas autor idade s internas, aos teteuctin e a outro s
tinha m de
rios administrativos nome ados pelo grupo domi nante . Além disso,
os pessoais
pagar tribut o, servir o exército e executar uma série de outro s serviç
rução
para o Estado. Esses serviços comp reend iam o traba lho manu al na const
carregado-
de templos e palácios ou em outra s obras públicas, ou o serviço de
tes.
res no transp orte de cargas pesadas de mercadorias para locais distan
piora -
Em perío dos de dificuldade, as condições de vida dos macehualtin
ram sob muito s aspectos. Assim, por exemplo, duran te perío dos
de escassez
de alim ento s foram obrig ados muita s vezes a vend er-se ou
a seus filhos
avos". No
como tlatlacotin, um termo que os espanhóis tradu ziram por ((escr
predo mi-
entanto, na Meso américa a escravidão era muito difere nte da que
vendi do
nava no mund o europ eu. Na época dos mexicas, um escravo era Ul

m resgat á-lo. o
po r tem po li m it ado: o própr io escravo, ou seus paren tes, podia
lado, to r-
Os fil hoi-; dt esc ravos não eram con siderados escravos . Por outro
huma no,
nar-:,e um e&cra vo incluí a o ri sco de se r esco lhido para o sac rifício
pois o se nh or ·t inh a o d ireito de oferece r se us escravos para esses
rituais.
di fe ria
Para res um ir: (: evid en te q ue o mod o <.k vid a dos ,,rncc htwlt in
ursos natu -
radicalm ent e do do~ pipi/ti 11 . A rL·luc;f1u desses últim os r om ns rec
os dela, sua
rai s dispo níve is, sua pa rt icipaç,to 1w produ <;:1o l ' nos fruto s obtid
52
nte
seu s priv ilég ios con tras tav am fort eme
fun ção na adm inis traç ão púb lica e
como
ple beu s, des crit os freq üen tem ent e
com a pos içã o soc ial do pov o, dos
n.
os " po b res e mis erá vei s" mac ehu alti

dev ido à escassez de fon tes que pudes-


É difí cil estu dar a eco nom ia aste ca
ele me nto s e forç as que afe tav am a
pro-
sem per mit ir um a qua ntif ica ção dos xico
o núm ero tota l de hab itan tes no Mé
duç ão. Nã o há um con sen so sob re -
, nos esta dos de Mé xic o, Hid alg o, Pue bla , Tla xca la, Qu eré taro , Gua
cen tral s
, Gu err ero e Ve rac ruz - esti mat iva
naj uat o , Mi cho acá n, Col ima , Jali sco soas
s 25 - nem sob re o núm ero de pes
rec ent es var iav am de 12 a 25 mil hõe
nas vár ias regiões, cid ade s e aldeias.
env olv ida s em cad a áre a de pro duç ão
s con fiáv eis sob re as prin cip ais for-
Por out ro lad o, há pel o me nos ind ício -
a de trab alh o. Tem os, ass im, info rma
ma s de esp ecia liza ção den tro da forç
alh o de aco rdo com o sexo. As tarefas
çõe s de que hav ia um a div isão do trab aos
ão esp eci aliz ada era m des tina das
agr íco las e a ma ior par te da pro duç
ens . Às mu lhe res era m rese rva das as tare fas dom ésti cas , inc lusi ve o tra-
hom as
sa de tortillas, que exi gia m lon gas hor
bal ho pes ado , com o a feit ura da mas bém
er. A fiação e a tece lag em era m tam
de trab alh o com um a ped ra de mo -
tam bém de out ros tipo s de especializa
tare fas das mu lhe res. Tem os not ícia
exe mp lo, a pes ca e a min era ção , bem com o a con stru ção (pe dre iros ,
ção , por s,
e pin tore s) e a ma nuf atu ra (ce ram ista
d eco rad ore s de ped ra, car pin teir os la
este iras e san dál ias) . Ha via um a amp
ces te iros , cu rtid ore s, arte são s de os
obj eto s útei s com o pap el, ins trum ent
va ri eda d e d e artesãos que pro duz iam a os
obj eto s de lux o, prin cip alm ent e par
de ped ra e de ma deira, can oas , ou os
ote s. Ent re esses, esta vam os our ive s,
me mb ros da nob reza e par a os sac erd
e os fam oso s tlahcuilo, ou pin tore s de
trab alh .,1dor es co m pen as, os esc ulto res -
exis tiss em essas especializa ções, a gran
1i v rns. Dc w-se lem bra r que , em bor a
a ma ior par te de se u tem po à terra.
de ma1o ri i.1 dos 111atcl111olti11 dedica vam
'Y
u rais em qu e se basea va a eco nomia
/

As in form a ções so bre üS rec urs os nat


,:.,

it açã o qu e as rela tivas aos rec ursM


H1c')1.Í1.J ~d frcm o me smo tipo d e lim
a s delas fo rneça m dad os qua ntit ati vos,
l I um J no ~. L~/).is fonte:.-. , c>mbora alg um
ti vas. Por exe mp lo, qua ndo trat am d.i
~.Jo c-rn :, ll ..:l ,n,úori,l mtL tmc nte descri
l
':1
1
\ ti
'1
t ..,i<> rhd m en lt' li.Hn ecL? m me did a s, por i rn enn 1ntr,w -
!,
;, kr, .i dr· .1~,.,r ll. ul Ufd , CH.d .
/
1
,,
..i 1> l'I '
! ll \ .1 ~, il ' ~ i li I d j 1•- 1, \ ·,'
7
se com mai s freq üên cia des criç ões
do tipo e do uso At tl·
usado par a des cre ver a terr a com águ • oc i era um term o 53
a ade qua da e boa
par a a agn.cul tura
• cc
enq uan to cuauhtlalli, terr as de árv
ore s" ind ica va a pre se
vegetais ou terr a cob erta com veg etai
' nça d e res1'd uos'
s em dec om pos içã o. Nas áreas, bastan
restritas, fav ore cid as pel a pre sen ça te
de águ a e ma teri al org âni co, evidente
me nte cre sce u o pla nti o de cul tur -
as bás ica s - mil ho, feij ão, abó bor
pimenta ma lag uet a. Ou tras terr as era a,
m des tina das a uso específico, com o
as
chamadas xochimilpan, par a o cul tivo
de flores. Os diversos terr itór ios que
de um a ma nei ra ou de out ra esta vam
sob o dom ínio dos mexicas com pre en-
diam terr as não -cu ltiv ada s ond e cre
scia m pla nta s usa das com o med icam
en-
tos, e out ras que for nec iam alim ent o,
ou árv ore s par a a ext raç ão de mad eira
de con stru ção . A pop ula ção ani ma l
abr ang ia espécies aqu átic as enc ont rad
nos lagos e rios e out ras que ser via m as
de alim ent o, que era m obt ida s por caç
a
ou por cria ção sele tiva , com o no cas
o bem con hec ido do per u. A ausência
out ros ani ma is dom ést ico s ( com exc de
eçã o do cão ) era , em gra nde me did
um obs tác ulo ao des env olv ime nto de a,
um a tecn olo gia mai s eficiente. Com
não hav ia bes tas de car ga ou out ros o
ani ma is que pud ess em ser em pre gad
os
para pux ar, o uso da rod a esta va lim
itad o a alg uns brin que dos .

O our o, a pra ta, o cob re, o esta nho


e, pro vav elm ent e em escala me nor , o
chu mb o era m os me tais con hec ido s
dos me soa me rica nos . Ou tros min era
usados era m o cin abr e (su lfat o de me is
rcú rio) e a calcita (car bon ato de cál-
cio), bem com o os vár ios pig me nto
s min era is, as ped ras sem ipre cio sas
e
ou tros tipo s de ped ra.
Os me soa me rica nos , ape sar de sua
s realizações na arte e no cálculo de
calendár io, não se des tac ara m com o pro
dut ore s de ins trum ent os. No ent an-
to , sua s ferr am en tas era m sob mu itos
asp ecto s raz oav elm ent e ade qua das .
Com pre end iam ute nsí lios d e ped ra,
com o ma rtel os, facas, ras pad eira s,
Jlm ofarizes, m ós e out ros in stru me nto
s de dese nho diverso. Ou tras , com o
.
gJ nL!, o:;, ngu lk, s e 111strurnentos par
a tra b a lhar com cou ro ' era m feitas de
'
1
' )~,u . A mad· eira ·
a a usada par a iaze e
r f ura d01e • s- a fogo flechas dar dos , clavas
_11 , '
e 1 Uf,1, ou Vd ra de
ca var , usa cb na agn . . 1- ·s
>- 1131 tard e qua ndo começa -
cu tura . iv ' '
1 '111 . . . -
1 ,1 p r .1 t 1L,H ,\ melalu rg1a
1 pro duziram com ° CO)
l re ma cha dos , t'nxad,\S,
fu1r1d 1 11,·\ , l~1nH, l . v,1r i;·1~ arm as.
, . l ~ l) c 11hivo s,r1.rn1 ;1l,1H1qu,\ 1), '.'I·
Ai, k~ 111 u 11> ul'l-1 .\ Lo l at> t' f i1 Jll va ri.
\ ada ~. A t rn l <
th· :i l" Inj:i 1l· vt1\ fam ·il oun . . ·1·· , is -.. 01,: in l,1drs d,1 1\-k' .'ll).l l)lt'. -
~ 111)0 1-. d\'. lcrt 1
. . ··. -. r:, 1 r'> · • 1:t dllh.
1
• • •

... · . - . . ·\.· ,um:nlo v, ~,, .·in1..•i~.nlm e11t t·
.
ll L,1 l11e 1J 1n Ui> u dt ~1t. \l ·
111 ;1~ til- 1111 g,1, <1u tu1 ,1t
,
54
na reg ião cen tra \, int rod u z. iram os
fam osos china111pas, descri to s muitas
vezes com o ''jardins flutuantes" . Er.:1
111 estr uturas artifi cia is de jun co, cob
tas com terra fértil, fun dea das nos er-
leitos dos la gos por me io de estacas
rnadeirn. Nos chinompas eram planta de
dos salgu eiro s para seg urá-los no luga
Sobre o exc elente solo dos chin am.pas r.
, os me xicas cultivavam flor es e legu-
m es frescos em abu ndâ ncia.
O t'St udo dos livros nat ivo s, com o
a Lis ta de Tributos e o Cod ex Mendo
per mit e avali~u a quantidade de me za,
rca dor ias qu e os calpulli ( uni dad es
cas de pro duç ão) , as cid ade s e as bási-
com uni dad es pol ític as ( con sid era
das as
uni dad es eco nô mic as ma is am pla s)
sub jug ada s pas sav am às mã os dos
n ant es de Ten och titl án. Nã o é de gover-
adm ira r que os me xic as, par a obt
p aga m ent o im edi ato e cor reto de er o
um trib uto , ten ham des env olv ido
m eca nism o adm inis trat ivo ext rem um
am ent e com ple xo.

O utros elem ent os de gra nde imp ortâ


nci a na eco nom ia do México antigo
era m as pra ças de me rca do e o com
érc io pra tica do pelos pochtecas, ou
cia ntes. Gra nde me nte imp ress ion ado comer-
s, alguns con qui stad ore s nos fornece
em suas crô nicas um qua dro da prin ram
cip al pra ça de me rca do de Tlatelo
cida de in co rp o rad a a Ten och titl án. co, a
A ma iori a dos pro dut os ofe rec ido
me rca do ent ravam na me tróp ole aste s no
ca ou traz ido s por com erc ian tes ou
forma de tri b uto . Ao me smo tem po, na
out ros pro dut os ma nuf atu rad os eram
exportados pelos mexica s. Um fator que
con trib uiu de mo do relevante para
('.xpa nsão do com ércio foi a necessida a
de de satisfazer as crescentes demand
de ullla nolm:za m:li s ri ca e de um a as
vida religiosa ext rem am ent e ela bor
ada.

(h poch tc:' c1 s1 que, co mo plebeu s,


fa ziam par te dos calpulli , logo perceb
i .lln .1 import:'lnl..'ia c.k suas fun ções . e-
Transfo rm ara m sua org ani zação num
l.' 111 id:idc' súc i .tl co mp adv
a
êl a um a guilda . Cad a guild a tinh
a se u dir etor
( d1Jm~1 d(l pod1r,'l·,u/o,p1c, '\ ·hefe dos
pocl,tcrn s") e várias ca tego rias de me0
l,i 1b . l·. 111 1e' ,·:-.~,b cs t.wMn os Ozt 1·
o,11erns, que era m especia lizados em
d,,,,1.111 t c'~ l" (.-\L1v-11n .1s ling
regiõt>S
ua~ dessc's lu gar es. Havia 69 ca tego
rias d iferentes
d(- , 1 in1c 1 l n 11 tc:. , i111.. lu~ivc> comé'rci,l
-- nte s de esc r.1vtb, de rnetai~ prt·(iosos,
J
IL111111 , dc-, .11__.1ll , l~ c· Jnim,1i~
de'
, d r 1iape l e de milho 2t>_

1'"' lti 1,, l \ ,1 11 1 •


J •, 11ftt1ql ► 1.11/ ,
<''i·• I .Jil ..ihu\ 1 ,!..11111;, 1nhu 11tJ \ 1" ) 1>u\H r II
~•u 1. u in ,· 1, 11. 1 1. i
!,tlll btlll l\rH I, Íi1l(! lj, 1ll ( lli ,·1 111.1 }) '1 1dll\. 111 , " li11 11,1111\,·,
,i ' \lll ,\/(',~ ll/llll ' l/ t. .1111.
·,,111 11 1/1
p

55
1.1mbl'rn lid.n .im 1..om v,irio..,
Akrn <fr <.t1 m pr.1r r ve ndn . º·" con1 crLt .llllc ,
ri pli!- de (o ntrJ to .., e ernp n.· ,11mo, no ',('11 1
ido de \ 1Jbdiz.1r ~('u, n,go~ 10 .,_ o

t! (H' t'l'll íH11l' e os mem b ro, d J nohr


e1.1, hem <.omn ,tlgu n, do~ '-onwrciantc:\
,111.11n <. ontr.110, d, cm prcs timn
csrn hck cido ~ ( incl u., ivc ,dgu m,1, n111Jh e1<.'\ J. t
di'1 .1111c, 1\,.,i m . um rcl.:ttn
co m os co mcr cian lc.s q ue vi,ij.,v,1m ,l lug, nn
1t1otl , on«.ccku 1 600 mJn to,
,1srcca regis1r,1 uma <1C11si,io c,n qu e o rei J\hu
u e ,cg ui,1111 p,n,1 ,1 1..0 '1,1 do PJu fico
. A
pM emp rés tim o .i co mcr c. Lrn ll'~ q
,ncn ç:1 o dos man tos peq ue no~, c. h.im ,H.lo, ff'""
/11/i. rcfcr<.· -,t· .i um r1pt) c\pt·
11m de t.1manho , vJr i.1dos,
cf fi co de símbol o de rro c.1 . Eram , na vcrd.,dc: , rn,11
o , um,I H! I ciuc crJm ga rJnt1 -
aceitos com o urna es péc ie de !-í mho lo morH:tu,
,l'lln. .1. H,n· ia outroc; cmp ré, -
dos pcl:1 riqu e za e aut o rid ade do hr,,T tlr1t oo111
ouro . hC'rn com n ~Jc.o.:; de caca u
timo s na forma Jc pequ enos t uh os chci n, de
de vários tam anh os.
umc rlfo de p.1droc\ de troc a
A ;idminis tra ÇétO do~ merc.1dn., e n C'-I Jhdc
ÍJntn . Alem dhc; o, JxtliJxoc h itl
eram dua s fun çôcs imp 0 rt ~1n tr s dos u,m<.·r<.
gove rno, o qua rto co nsel ho
relata que, dos qua tro co nsel ho s supr cm m do
o rc, do rt.·i t · algun\ dos mais
era o do Teso uro, o nd e todo ~ 05 J <lmin i., trad
1m pua di\c utir .1s que s tões do
imp orta ntes com erciant c5 da cid ade se r eun i ,
ciante~ con sdh t iro~ eco nó.mi ~
Tesouro e os trib uto s rea ís . Sen do os co mer
27

tt'nh Jm .1dquirido inú meros


cos do gov erna nte, não é d e surp ree nder qu<.·
m lrn.H <.Lt nobr eza. Alé m de
privilégios que os torn aram q uase igua is a nH:
ut os, freqü enr cme nte nego cia-
ter seus próp rios trib un ais, co brava m o~ trib
na!) rrgiõ<?s dist ant es . Po r se u
vam em nom e do rei e atua vam co mo t:!> pi õcs
o gaJ I ex pa ndi ram -se vigo ro-
intermédio, o com érci o e a econ omi a de mod
o de in stitu i ções religiosa s e
samente e con trib uíra m para o flor esc im ent
s cult urai s e religioso s exerce-
culturais. Inve rsam ente , os dese nvo lvim ento
da soci edad e, inclusive sobr e
ram influência cons ider ável sobr e o con junt o
a economia.

xico na époc a da conq uist a


A religião pred omi nan te em Ten ocht itlán -Mé
fusão e síntese. Não obst ante ,
espanhola foi o resu ltad o de long o proc esso de
hete rogê neos , na med ida em
estava longe de ser uma mas sa de elem ento s
dar- lhe uma orde m func io-
que os sacerdotes havi am trab alha do duro para
is dos mexicas.
nal que inco rpor asse a visão de mun do e os idea

México, l 891- l 892, 2 vols. Ver vol. 1, PP·


Fernando de Alva Ixtl ilxochitl, Obras J-1 istóricas,
27
. <

21 l-218.
.r\ A1\iÊ.RI C A AS \"t SPER _;,5 DA C O ~QlllSTA V1
o,.

li \
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1\ 1
\
-------
,,. 1\

~ \
'\ '-\
Mar dos Caraíbas
\)
Zacatecas

~\t,1iECAS
e,Y',c
Querétaro Chichén ltzá
~ Tuta ~ Mavaoan à 6 ..Â. í
Ulum
~O • Teotihua

OCEANO
1

l
! PACÍFICO
1
1
!
f

1
,i [=3 lmpéno Asteca em 1519

♦ sítios maias

300 milhas ºw
500 km

A Mesoamérica antes de 1519


57
O mundo não começara a existir de um momento para O outro, mas em
vários períodos consecutivos. A "primeira fundação da terra " havia ocorrido
milhares de contas-ano atrás . Haviam existido quatro sóis. Durante essas
eras, ou "sóis", os processos de evolução h aviam produzido formas, cada
uma mais perfeita que a anterior, de seres humanos, de pl_an tas e de gêneros
alimentícios. Quatro forças primevas (terra, ven to, água e fogo), numa curio-
sa semelhança com o pensamento da Antigüidade clássica, haviam governado
essas eras até a chegada da quinta, a atual, a era do "sol do movimento".
Evoluindo talvez a partir dos cultos ao sol e à terra, desenvolveu-se a cren-
ça num pai onicriador e numa mãe universal como divindade dual suprema.
Sem perder sua unidade, no sentido de que os hinos antigos sempre a invoca-
vam no singular, essa divindade era conhecida pelo nome de Ometeotl: "o
deus dual", ele e ela de nossa carne, Tonacatecuhtli e Tonacacíhuatl, que numa
portentosa união cósmica engendraram toda a criação.
O deus dual era também "mãe dos deuses, pai dos deuses". Numa pri-
meira manifestação de seu próprio ser, nasceram seus quatro filhos: os
"espelhos fumantes" branco, preto, vermelho e azul. Esses deuses consti-
tuíam as forças primordiais que colocaram o sol em movimento e criaram a
vida na terra. Foram também responsáveis pelas quatro destruições cíclicas
do mundo que aconteceram anteriormente.
Embora estivesse previsto que o destino final dessa quinta era seria um
cataclisma, os mexicas não perderam o interesse pela vida. Ao contrário, isso
os estimulou de forma notável. Uma vez que foi um sacrifício primevo dos
deuses que criou e colocou o sol em movimento, somente mediante o sacri-
fício dos homens é que a era atual poderia ser preservada. O «povo do sol"
assumiu por si mesmo a missão de supri-lo com a energia vital encontrada
no líquido precioso que mantém o homem vivo. O sacrifício e a guerra ceri-
monial para prear vítimas para os ritos sacrificiais eram suas atividades cen-
trais, o próprio núcleo de sua vida pessoal, social, militar e política.
Há testemunhos de que, na Mesoamérica antes dos mexicas, se realiza-
vam sacrifícios humanos mas aparentemente nunca antes em número tão
grande. Se os pipiltin mexicas acreditavam que sua missão era, assim, manter
a vida do sol, também compreendiam que, através de suas guerras para a
preia de vítimas sacrificiais, ampliavam igualmente seu domínio e satisfa-
ziam suas crescentes necessidades econômicas.
As fontes descrevem também várias outras formas de culto aos muitos
deuses adorados pe]os mexicas. Um lugar muito especial era reservado a
58
CSSes ritos e cerimônias em honra da Deusa M e, invocada sob numerosos

Titulos, inclusive o mais genérico de Tonantzin, "nossa Reverenda Me"'. A


importância da Dea Mater dos mexicas (e dos mesoamericanos em geral) foi
claramente percebida pelos missionários espanhóis, alguns dos quais não
rejeitaram a possibilidade de uma síntese do conceito pré-colombiano com
as crenças relacionadas com a Virgem Maria. Um bom exemplo éa Virgem
de Guadalupe, cujo santuário foi construído onde antes ficava o de Tonantzin,

Os livros nativos e as transcrições setecentistas em lingua nativa de nu-


merosos textos preservados pela tradição oral são os repositórios das litera-
turas mesoamericanas. Neles encontramos mitos e lendas, hinos rituais, uma
diversidade de poemas, discursos, crônicas e relatos históricos, os inícios da
composição dramática, doutrinas religiosas e proclamações do governo.
Através desses textos pode-se obter uma imagem da vida quotidiana não só
dos mexicas, mas também de vários outros povos. O hino que se segue fala
do deus dual:

No lugar da autoridade,
no lugar da autoridade, comandamos;
é o mandamento de nosso Senhor
Principal,
Espelho que faz as coisas se manifestarem.
Eles já estão a caminho, estão preparados.
Inebriem-se,
o Deus da Dualidade está agindo,
o Inventor dos Homens,
Espelho que faz as coisas se manifestarem28.

As palavras dos sábios expressam às vezes suas


crenças, porém freqüente
mente so também a
manifestação de suas dúvidas. Reconhecem que a vida
na terra é transitória e
que, no final, tudo deve desvanecer-se. Eis um exem
plo dessas formas mais pessoais de composição
poética:
Habitamos realmente a terra?
Näo é para sempre aqui na terra; apenas um momentinho.
28. Historia Tolteca-Chichimeca, manuscrito mexicano 46-58 bis,
Bibliothèque Nationale
Paris, 36.
Embora seja jade, ela irá quebrar-se, 59

Embora seja ouro, ela é esmagada ,


embora seja pena quetzal, ela é dil ace rada.
Não para sempre aqui na terra; apenas um momcntinho29.

Às vésperas da invasão espanhola, Tenochtitlán -México, a metrópo le asteca ,


era o centro administrativo de um vasto e complexo co nglomerado político
e socioeconômico. Vários autores, ao descrever a nat ureza política d essa
entidade, utilizaram termos como império, reino ou confederação de senho -
rias e mesmo tribos. A maioria das velhas senhorias do planalto central
(como as de Chalco-Amaquemeca, Cuitlahuac, Xochimilco, Coyohuacan e
Culhuacan) e muitas outras nas regiões de Hidalgo, Morelos, Guerrero,
Puebla, Veracruz, Oaxaca, Tabasco e Chiapas reconheciam o governo asteca.
Estavam submetidas à metrópole mexica de diferentes formas. No entanto,
mesmo nos casos em que os governantes locais tenham continuado a gover-
nar suas senhorias, reconheceram Tenochtitlán-México como a metrópole
central da qual se originavam as ordens e exações, inclusive o pagamento de
tributos e uma série de serviços pessoais, como a "proteção" das rotas
comerciais. Os deuses tutelares das senhorias submetidas partilhavam do
destino de seus povos. Em Tenochtitlán-México, as divindades tutelares das
cidades e províncias subjugadas eram mantidas num templo, o coateocalli,
"casa comum dos deuses": eram consideradas "cativos divinos". Seus desti-
nos (tonalli) (como no mito de Huitzilopochtli que incorporou em si
mesmo os destinos dos Quatrocentos Guerreiros do Sul) simbolizavam o
destino profetizado do Povo do Sol. Além disso, o náhuatl tornou-se a lín-
gua franca numa vasta área da Mesoamérica. Os falantes de otomi, mazahua,
matlatzinca, tepehua, totonaca, tlapaneca, mazateca, mixteca, zapoteca, bem
como de várias línguas maias, como chontal, tzeltal e tzotzil, aceitaram usar
a língua dos governantes de Tenochtitlán.
Por outro lado, algumas senhorias haviam conseguido resistir à penetra-
ção dos mexicas. Foi o caso dos purepechas ou dos tarascanos de Michoacán
e do s tlaxcalanos no Planalto Central. Os últimos, em es pecial , haviam
dese nvolvido um ódio profundo aos mexicas, com quçm foram forçados a
lutar periodi ca mente nas fa mosas "Guerras da s Flores", cuj a finalidad e ern

29 · Cu lcttl 11 ea de 0 11 ,ço,·.\ Mexírniuis, manu scrilo a~ tcca preservado na Bibliot c(a Nacio nal do
M(·x ico, f 17.
60
obter vítimas para o sacrifício ao Sol-Huitzilopochtli. Para além dos territó-
rios sob influência direta dos mexicas, nas áreas sul e norte do que é hoje o
México, um grande número de povos preserva ram seus próp rios padrões
culturais distintos. No sudeste várias senhorias de língua e cultura maias (as
existentes em Campeche, Yucatán, no Petén , na Guatema la e em Hondura s)
ou de língua náhuatl (em El Salvador e na Nicarágua ) mantive ram em graus
diversos muitos elementos de sua alta cultura ancestral, apesar de sua carên-
cia de qualque r organização política relevante. No nordeste, para além da
orla da Mesoam érica ocupada pelos mexicas , haviam- se fixado um bom
número de falantes de línguas uto-astecas, entre eles os coras, os huichols, os
tepecanos, os tepehuanos, os mayos, os yaquis, os tarahum aras, os pimas e os
opatas. A maioria desses grupos viviam em pequena s aldeias como agriculto-
res sedentários. Seus padrões de cultura podem ser compara dos aos dos hab i-
tantes da Mesoamérica central na metade no Período Pré-clás sico Médio.
Grupos muito menos desenvolvidos viviam nas á reas de fronteir a ao
norte do Planalto Central e a nordeste da Mesoam érica. Em termos gerais,
os mexicas chamavam todos os habitantes dessas regiões de teochich imecas,
isto é, os chichimecas autênticos, os «povos nômades do arco e flecha". Há
freqüent es registros de que os teochich imecas não tinham aldeias, nem
casas, nem campos cultivados. Eram na verdade temíveis popolocas, uma
palavra que tem um significado muito próximo de "bárbaro s". Num passa-
do distante. ( durante a era tolteca e talvez também no p , d Cl, · )
eno o ass1co , os
mesoamencanos haviam estendido sua influênc ia para além dos território s
que se tornaram possessão dos teochich imecas Não h,
e qua1quer
. • .
a registros d
te~tatI~a de expandir rumo ao norte no período de Tenocht itlán-Mé xico.
Foi) deixada ~os espanhóis (acompa nhados pelos tlaxcala nos e pelos mexi-
cas a conqmsta e a colonização da vast ~
da Mesoamérica. a extensao de territóri os para além

Assim, um mosaico de povos, culturas l' ,


Hernán Cortés e seus se· h e mguas possmam a terra em que
iscentos omens lo . . d
tador cedo ficaria sabend d . ,. . go inam esembar car. O conquis-
. 0 a ex1stenc1a dos
Cias a eles pelos maias d y · ,.
, mexicas . Foram feitas referen-
e ucatan, pelos cho t 1 d T
cas de Veracruz. Por inter 'd' d , . n ª s e abasco e pelos tot6na-
me io os ultimo .
nos, Cortés foi informad d s, e particul armente dos tlaxcala-
o o poder e da riq d
seus governantes, em especial d . ueza a metrópo le asteca e de
« . e Moteucz oma E
ou t ros cronista s soldados ") · m seus escritos ( e nos dos
. pode-se encont . ,
aspectos mais óbvios da estn t ,. rar mumera s referênc ias aos
l ura po 1itica, reli . .
giosa e soc10ec onômica que
p

61
sustentavam a grandeza dos mexicas. Embora às vezes superficiais ou errô-
neos, os comentá rios dos conquis tadores espanhó is coincide m em vários
pontos com as indicações extraídas de fontes nativas e da moderna pesquisa
arqueológica. Os espanhó is certame nte perceber am que, no meio daquele
mosaico de povos, culturas e línguas, os mexicas se sobressa íam como os
criadores e governa ntes de uma complex a entidade política, com muitos
contrastes tanto dentro quanto fora de sua grande metrópo le. De um lado,
havia os ricos e poderos os pipiltin servidos pelos macehualtin; de outro,
notavam-se diferenças radicais entre os tlatoque mexicas que governav am em
muitas cidades e provínci as submeti das a Tenocht itlán e os destituíd os e
obedientes pipiltin e macehualtin dos povos sob o domínio asteca. Cortés
logo compree ndeu a situação. Lado a lado com a magnificência da metrópo -
le asteca (visitou-a como convidad o em 1519) estava a realidade do domínio
imposto dos mexicas. Sabia quão profund amente os totonaca s, os tlaxcala-
nos e muitos outros odiavam os mexicas. Tirou vantagem disso e (sem per-
cebê-lo complet amente) desempe nhou um papel importan te no último capí-
tulo da história da Mesoam érica autônom a. Os inimigos de Tenocht itlán
acreditaram que os espanhó is os estivessem apoiando . Crendo nisso, conse-
guiram derrotar os mexicas, sem saber por algum tempo que seus aliados
estrangeiros eram os únicos a tirar proveito dessa vitória. A ordem espanho la
- política, religiosa, socioeco nômica - implanta da inexorav elmente afeta-
ria igualmente os mexicas, os tlaxcalanos e todos os outros mesoam ericanos .
AS SOCIE DADE S ANDI NAS
ANTE RIOR ES A 1532*

QUAN DO A REGIÃ O andina foi invadida pelas tropas de Piza rro em


1532, quarent a anos haviam -se passado desde a capitula ção de Granada e da
primeira das ilhas das Antilha s aos castelhanos e mais de vinte anos desde a
invasão da Mesoam érica. Uma geração inteira de europeu s - quase duas -
estavam familiar izados com os costum es dos "pagãos " e dos "índios" . Os
filhos que haviam gerado no Novo Mundo estavam agora crescidos; falavam
as línguas de suas mães. Pais e filho s ouviam as histórias de lugares muito
mais remotos , ao sul do Panamá , habitad os por povos mais ricos. Os boatos
sobre sociedades que viviam nos Andes eram comuns entre os colonos do
Istmo; alguns acredit am que mesmo no Brasil. Um portugu és, Aleixo
Garcia, ouviu o bastant e para encoraj á-lo a juntar-s e a uma incursã o dos
chirigua nos contra os habitan tes das montan has; avançan do a partir do
sudeste, atacara m instalaç ões incas, pelo menos cinco anos antes de Pizarro
invadir pelo norte. Muito depois que o grupo de Pizarro fez valer seus pre-
tensos direitos aos Andes, outros pretend entes insistira m em dizer que
foram os primeir os a ouvir falar desses reinos.
É dessas história s e dos relatos posterio res de testemu nhas oculares que
deriva basicam ente nosso conhec imento sobre as civilizações andinas em
1532. Trata-se de um conhec imento bastante incomp leto; mesmo a comuni -
dade acadêm ica nem sempre tem consciê ncia da fragmen tariedad e em que
permanecem os registro s. A arqueol ogia poderia ajudar, não fosse a posição
marginal que os arqueól ogos ainda mantêm nas repúblic as andinas (em fla-
grante contras te com o que acontec e no México ). É possível que milhões de
pessoas leram a ode de Pablo Neruda a Machu- Picchu e outros milhões visi-
taram o monum ento, mas ninguém sabe que segmen to da socieda de inca
habitou o lugar. Isso não impede que ondas sucessivas de arquitet os "restau-

• O autor e O editor agradece m O auxílio de Ms. Olivia Harris, do Goldsmit hs' College,
Londres, na preparaçã o final deste capítulo.
64
rem" a colônia, mas poucos arqueólogos se dedicam profissionalm ente_
é que algum O faz_ a esse estudo, trabalhando no próprio sítio, incrustat
profundame nte na paisagem quase vertical, ou nas técnicas de construçã:
que distinguem Machu-Picc hu de outros centros urbanos dos And es.
Paradoxalm ente, grande parte de períodos mais antigos , alguns que
datam de centenas de anos antes dos incas, parecem mais acessíveis e tive.
ram suas peças de cerâmica minuciosam ente estudadas; e os aspectos deco.
rativos de outras técnicas, especialmen te a tecelagem - a principal arte dos
Andes - foram todos catalogados , fotografado s, preservados . Todavia,
quanto mais nos aproximamo s de 1532, época em que o Estado andino foi
dominado e estilhaçado nas centenas de grupos étnicos que o compunham,
menos possibilidade temos de obter conhecimen tos através da arqueologia
na forma como é praticada hoje, e mais temos de depender dos relatos escri-
tos por aqueles que "estiveram lá".
Esses relatos são notáveis sob alguns aspectos: no espaço de dois anos após
o desastre de Cajamarca, quando o rei Atahualpa foi capturado, foram publi-
cadas em Sevilha duas narrativas que descrevem esses acontecimen tos, numa
época em que as comunicações transatlântic as eram lentas e a impressão de
livros, perigosa. Uma delas foi o relato oficial do primeiro escrivão de Pizarro,
Fran cisco de Xerez, que se empenhou em demonstrar que o seu era o "relato
verdadeiro" (Verdadera Relación de la Conquista dei Perú [1534]), pois outra
teste munha ocular se lhe havia antecipado. Mesmo antes, numa feira anual
que se realizou em Lyon, vendedores ambulantes vendiam a negociantes do
Reno e de Piemonte folhas impressas que descreviam o resgate de Atahualpa.
Os estudi osos costumam queixar-se das falhas desses relatos; todo espe-
cialista tem listas de qu estões importantes que permanecem sem resposta.
D~1n ç~1s fo lcló ri cas ainda hoje renovam o encontro dos incas com os solda-
,-
r
dos europe us, mas não é possível recuperar uma tradição oral dinástica 4SO
·?
anos 6 s _os acontec im entos. Algun s relatos antigos, feitos por estrangeiros,
~.w h:1 mullo tempo de con hec ime nto geral, po rém n ão restam muitos deles.
() ::,&1.~ul o XJX foi O grande períod o de d esco berta e publicação dessas antig:lS
d_,-bu,\·Oei:: ; an tes rn c>s rno que a maioria delas fosse impressa, W. H. Pr~scotr
l1 w 1.1 d L t•..:~o 1 eh F , J ••(t'
. · ·~ ' ' ~- · 11otave co m o sua Con qu est of Peru ( 1897) pcrtM tlc ·
J (U ,i! , lli J t, d1· J ·rn ·rnos
· (f
·n 0~ ~ s.11 ,,1 11· - \ . ) (11 '
r u ) Kaçao. Isso se d eVL' menos :i lt
. '
11 .• 11() 1l iJ 1. I' ,. t: /) l (J 11 1j ll 11 ' 1 · I· . ' . ' l ..
jl f'l' I' . ' . e' i.l l l
, . , . · · • 1. d s t 1v1 11.;1çovs pn:~col o111b1anas do qu ,
l u 11p1 J I h , ;.1 1,•, n qi1t· 11 , Ji, ~I01 .·. I . •,., dt
, , .. , •• ' ld t 01 l '~ conk1 np urâ n1.'l)S dt·di ça 1n à ptsquis,
nrn .t ., /11 nt n, i!lc·rn d íi Jllt' Jh 10 , I· , . ·., · . . . -·
i l ,H" ~upt r ltua lrdadc da ilrqu eo logia in c<1.
65
o único estudioso importante nesse campo foi Marcos Jiménez dela
ESpada, que há cem anos atrás estava no apogeu de sua atividade, enquanto
oanhava a vida como conservador de anfibios no Museu de História Natural
de Madri. Paralelamente, Jinménez publicou tanto as fontes que Prescott
havia utilizado na forma de manuscritos quanto outras às quais o estudioso
da Nova Inglaterra jamais tivera acesso. Em 1908, quando Pietschmann des-
cobriu em Copenhagen um texto realmente inaudito - uma "carta" de

1 200 páginas ao rei da Espanha, escrita e ilustrada, por volta de 1615, por
um "indio" andino- havia desaparecido a urgência que Jiménez sentira em
luzZ
publicar fontes primárias; passaram-se outros 28 anos antes que vissem a
as queixas de Guaman Poma (Nueva Corónica y Buen Gobierno). Desde
então, novos textos ocasionais foram localizados, a maioria deles por
Hermann Trimborn, de Bonn, mas é digno de nota o quanto Prescott se

assemelha a Cunow (1896), a Baudin (1928), a Rowe (1946), a Murra (1955)

ou, mais recentemente, a Hemming (1970). Todos eles utilizaram quase as

mesmas fontes, e se diferem é em questões de interpretação e ideologia.


Nos últimos trinta anos, foi removida uma parte do mistério, especial
mente com relaç o ao Estado inca. Houve algum avanço no entendimento
da articulação entre os grupos étnicos locais e os incas, através do estudo das
demandas litigiosas, ou dos registros demográficos e tributários compilados
nas primeiras décadas de domínio espanhol. Ainda assim, é fato que a inves-

organizações políticas dos Andes centrais


tigação de John H. Rowe sobre as

("Inca Culture at the Time of the Spanish Conquest", publicada há quase


quarenta anos, em 1946, no Handbook of South American Indians) permane-
ce uma boa exposição de nosso conhecimento etnográfico. O exame da vida
andinos continua sendo traba
quotidiana e da organização dos Estados um

lho de fôlego, a ser empreendido seriamente quando os arqueólogos e os


etnólogos aprenderem a trabalhar juntos e quando as cinco repúblicas que
andina Bolivia, Peru, Equador, Chile e Argenti-
herdeiras da tradição
ddeCidirem que essa herança lhes pertence realmente.

nquanto isso, notamos que os primeiros observadores quinhentistas


Baranm a certas conclusões que os estudiosos modernos contirmaram.

primeiro lugar, a paisagem não se assemelhava a nada que já houves


tossem sol-
de que tivessem ouvido falar, embora alguns
VIst0 antes o u
d o s que havianm lutado na Itália, no México, na Guatemala, em Flandres

u na Africa do Norte. Nos Andes, as montanhas eram mais altas, as noites


66
mais frias e os di as m ais que ntes, os vales mais profundos , os desertos mais
secos, as dist ân cias maiores do qu e as palavras poderiam descrever.
Em segundo lugar , o pais e ra rico e não apenas em termos do que podia
ser levad o embora. Havi a riqueza na quantidade de p esso as e e m suas habi-
lid ad es, n as m a r avilhas tecnol ó gica s observáveis na edificação, na m etalur-
g i a, n a co n struç ã o de e strada s, na irrigação ou no s pr o dut o s têxteis
("depoi s que o s cristãos levaram tudo o que queriam, ainda pa recia que
n ad a hav ia sid o tocado " 1).
Em t erceiro lugar, o domínio estava sob o controle d e um príncipe havia
po u co tempo , cerca de três ou quatro gerações antes de 1532. E desde os pri-
m e iros di as após a vitória espanhola em Cajamarca, pessoa s mais atentas se
p e rgu n t ava m como havia ruído com tanta facilidade essa autoridade que
gove r n ava ta ntos povos distintos por sua geografia particular.
Em b o ra basicamente verdadeiras, cada uma dessas conclusões é passível
de u m a r eelaboração. Conquanto localizada inteiramente nos trópicos, a
geog rafia a ndina tem poucas semelhanças funcionais para o homem de
o utra s latitud es , se é que existe alguma. As regiões povoadas mais densa-
m e nte, po r exemplo, estão também situadas em altitudes extremamente ele-
vadas. Em 1532 (e, na verdade, ainda hoje) havia muito mais habitantes no
aito pia nalt o ao redor do lago Ti ti caca do que em qualquer outro lugar. Isso
intr iga não apen as os planificadores internacionais; mesmo os economistas
lm.;_1i s fr eq ü e nt e m e nt e revelam sua exasperação . Vêem uma popul ação
rnui \o gr:rn d c, assolad a pela fome, tentando cavar um meio de vida sob con-
d i~ oc:-. q ue pa ra u estranho urbano parecem as mais inaus piciosas. Por que
um ,1 po pul açfl o ag rí co la tão numerosa insi stiria e m cultivar num local onde,
,1 q 11 ,dqu1..T .111 0 , pod e-se espera r trezentas noites de gea d a, o u m ais?

l 1111 i~r.rndL· pa~so na co m p reensão cie ntífica d a geo gra fi a a ndina fo i dado
.;
1h\ (i11cd J .1 d1..·L,Hi.1 de 20, q uando o es tudi oso ale m ão Ca rl Troll rea lizo u tra-
kdhu:- dt" , ,llllf lL) 1L1 Bolivia . Em 193 1, Troll p u b lico u O q ue a in da é a únicJ
LI , :- .. 11:.. ~,hi dt' tH.ito r prL'::. t igÍ l ) do ~ m u ito~ e di ve rsos " bo lsõe~" na pa isagc· 111
I i. i ..1.i P<'Ll ~~1 -1nd c' 11 rn \. im id,ld t' c·n t r{." si d e a lta~ rn on ta nhas
L , d ese rt os Cl):-tl·i·
1 , 1 :., , • u I l \ h1 i , I \ l u ) 1• l e'.... 1 11 - 0 , · 11 o 1.u"e rv o u q ue ~ t n \lJt tl..lL
• • · ) 11 1i~
· • • -- ., , 1 a, 1111.. ,1~~ . 1ro 0 •
67
mapas . das chuvas e das._tempera turas eram inadequ ados e e nganoso s quan-
do aplicado s a essa reg1ao. Para registra r os extremo s andinos num período
qualque r de 24 horas, Troll criou novos gráficos . Cedo descobr iu que a ter-
minolog ia científic a desenvo lvida em outros lugares não descrevi a os climas
locais: tomou emprest ado boa parte de seu vocabul ário das práticas etno-
geográficas andinas . Evident emente, pode-se encerrar o termo andino puna
numa caixa marcad a ((estepe ", ou ((savana " , mas isso implica uma séria
perda de especifi cidade. Essas pradaria s tropicai s, mas altas e frias , são culti-
vadas há muito tempo, talvez antes mesmo que todas as árvores fossem cor-
tadas; durante milênio s a maioria dos povos andinos viveram nesse local.
Não apenas os incas, porém as mais antigas estrutur as políticas (Tihuan aco,
Huari) surgiram na puna; Troll interpre tou isso como um indicativ o impor-
tante das potencia lidades que a maioria dos observa dores contemp orâneos
não consegu em apreend er.
Só recentem ente é que a agricult ura andina começo u a atrair a atenção
dos agrônom os. A fácil adaptaç ão de variedad es européia s e africana s culti-
vadas - cevada, cana-de -açúcar , uva, banana - mascaro u o apego dos
agricult ores a culturas resisten tes, domesti cadas no local, perfeita mente
adaptad as às condiçõ es andinas . Ninguém sabe quantas dessas variedad es
eram cultivad as em 1532; muitas delas desapare ceram e outras ainda perma-
necem em condiçõ es de baixo rendime nto, apesar do seu valor nutricio nal já
provado . Quando se estudam os muitos tubércu los ( dos quais a batata é
apenas o mais famoso) ou o tarwi (um tremoço rico em gordura s) ou a
kinuwa (um cereal cultivad o em grandes altitudes e rico em proteína s) ou a
folha de coca que sacia a sede, percebe- se quão autócton e e quão antigo era
o complex o agrícola andino. Alguma s das culturas (milho, batata-d oce)
eram encontra das por todo o continen te, mas no sul nenhum a era produzi -
da em grande quantid ade, embora algumas fossem altamen te valoriza das
por serem exóticas .
No entanto , nas condiçõ es andinas não era suficien te ter consegu ido
V,

uma adaptaçã o ao local. A terra de qualque r espécie é muito pouca. As boas <
z
pastagen s podem estar muito distante s. Mesmo que se compara ssem os pro- Ci
z
<
dutos de do is o u t rês pisos vizinhos , n ão se podia fornec er as bases para uma V,
1,.1.l
Cl
grande pop ulação o u para a form ação de um Estado. Se os povos andinos <
Cl
1,.1.l

qui sessem evitar a fo m e, encher seus próprios celeiros e os de seus senho res ü
o
e deuses , teriam de e nfre nt a r as bru scas muda nças das co ndições geográfi -
V)
V,
<
cas, n ão só como handicaps ou li m itações, m as també m co mo vantage ns em
68
d es me smo por gru pos humanos
pot enc ial. Is so foi con s egu ido nos An
único ano teri am de pescar, cole-
peq uen os no in ício e qu e 110 cur so de um
Com o aum ent o de sua população,
tar alim ento s e cultivnr em vári os piso s.
locais cad a vez mai s distantes: na
fora m for çad os a bus car rec urs os em
am na cor dilh eira ocid ental; ou na
regi ão costeira desértica abaixo, se vivi
a cor dilh eira orie ntal.
flor esta da s en costas and inas , se hab itav am
ciso u enf ren tar o utra desvanta-
Na agr icul tura and ina, a ada ptaç ão pre
a , que pas sa das noi tes glaciais aos
gem: as bru scas mudanças de tem per atur
ma ior den sida de populacional,
dia s trop icai s. No alti plan o, a regi ão com
de 30º C e até mais, num único
fre qüe nte mente são registradas diferenças
ren te tam bém foi transformado
per íod o de 24 horas. Esse emp ecil ho apa
ain da des con hec ida da história
num a van tage m ada ptac ion al: num a data
ticu lar as lite ralm ent e milhares de
and in a, tod o tecido vegetal, mas em par
anim al dom esti cad o ou selvagem
va ri edades de tubérculos, e toda carne de
gelados à noi te e secos sob o sol
sofr eram um processo de conservação: con
teci dos con gel ado s e secos, mas
tro pica l no dia seguinte. Eram mu itos os
eralizado: chu fíu e cha rki. A maio-
do is nom es sub sistiram num uso mais gen
rtáveis, mas tam bém se conserva-
ria deles não só eram facilmente transpo
vam inde finidam ente sob as con
dições da pun a.
No ~mbito de tais adaptações e tran sfor
maç ões do amb ien te, as dimen-
var iara m de alg um as centenas de
\Ú l's das co munid ades políticas and inas
fa 111 íli:_1s J 25 ou 30 mil, com totais pop
ulac ion ais que chegavam talvez a l50
o a Tah uan tíns uyo dos incas, se u
rni l; qu and o reunid as num Estado com
da
10 1.d podi a alcan ça r cinc o milh
ões ou mai s3. Aum ent os nas dim ensões
\.o mun idadc políti ca ca usava m mud anç
as na loca li zaç ão e nas fun ções elas
1.ulú ni.i ~ es palha das . No vale de Hu alla
ga, no qu e hoj e é O Peru cent ra l, J .S
l'l"Ílllt'i r.1~ Ín\' cs tig,1,·ôe s eur opé ias ide
ntifi car am vá rios gru pos ét nico s, o
no sist~rn -1
11
1.tlll r Liu~ l1u.ii ., , Chu payc ho, aleg av a ter q uat ro m il fam ílias
°
, e va l e rt· 1ata ram ape nas q u..1t roce 11 t,1-"
i.. n• l .1 de,, d 11 LI <g em dL'L i m ..., 1• O Lt t r<J ~ IH:, s~
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es, e m l 549 , cad a gru po dt·<.: l.t r.t\J


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l ' J, t_l\.'. (H~ d ,J'Í


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•, , .1,l, . il, •. ; l 1 'J ,
11ul l .i o. \ , u -11 11{.\
69
quando lhe perguntaram se os índios nos campos de coca eram nativos da região, [0
senhor local de Queros] disse que havia três índios no campo de coca de Picho-
machay - um deles de Pecta, outro de Atcor e um terceiro de Guacor e que estavam
lá desde a época dos incas; e, quando morre uma de suas mulheres ou eles mesmos
morrem, são substituídos por outros, e no campo de coca de Chinchao havia outros
dois índios, um de Rondo e outro de Chumicho.

Esse testemu nho, dado em 1549, soment e foi registra do sete anos depois
que foi esmaga da a resistên cia local à invasão . Mais uma vez é mencio nada a
folha de coca de Chincha o:

naquele mesmo dia inspecionamos [... ] em Chinchao 33 índios que estavam encarre-
gados das folhas de coca; eles chegam aqui vindos de todas as colônias dos chupaychos
e vinte deles [já] haviam sido contados nas próprias aldeias em que tinham nascido.

Esse testemu nho, incomu m na historio grafia andina por sua minucio si-
dade e por sua data tão precoce , permite -nos percebe r que os colonos eram
enviados de todo povoad o da montan ha; esses colonos perman eciam na pla-
nície durante toda a vida do casal - uma vez que o censo andino não regis-
trava pessoas solteiras ou viúvas; embora ausente s fisicame nte de sua região
nativa, continu avam amarra dos em seus quipos. Em locais de trabalh o
semelhantes, a uma distânci a de dois a quatro dias de caminh ada de suas
residências, outros colonos pastore avam camelíd eos, cavavam sal, cortava m
madeira ou cultivav am pimenta e algodão . No vale de Huallag a, tanto as
folhas de coca quanto o sal eram partilha dos por pessoas de fora da vizi-
nhança imediata: alguns dos extrator es de sal eram relocali zados a uma dis-
tância de seis a oito dias de «casa". <
V)

As principais colônias nessa região estavam localizadas um pouco abaixo da Ul


~
o
linha dos três mil metros, numa tinco, o local de encontr o de duas zonas ecoló- ~
Ul
rri cas d tubércu lo quanto f--
b , on e se podiam alcançar facilmen te tanto as terras de z
<
4
as de milh o, a menos de um dia de caminha da, acima e abaixo da aldeia •
V)

<
....z
_ Em outros lo ca is, as condiç ões geogn1ficas impossi bilitara m esse fácil Ci
z
, cos popula
clcesso a0 mi'IJ10: em nucl .
. c10na1s .
. acima 800 <
de 3 500 e m esmo 3 V)

1netros _ ..· , . , - · · d· Ul

mais prox1mo s dos rebanho s de cam elideos ~ nao mais se po ia


Ci
· <
Ci
Ul

,1, ü
. ~ co 115621
, _ , ga, Visita ,fr la Provi11ci(I de L,·ô n f ' e /-luunu
lnigoO rti ·z e1e z- u111 . ,
, If· uanuco, p eru, o
V)

V)

1967 <
• vo]. 1, pp. 44, 303-304 .
70
trabalha r no campo de milho e voltar no mesmo dia. No altiplan o povoado
do lago TiticacaS, o milho ainda era indispen sável como cereal de ritual e de
"hospita lidade", mas agora era cultivad o por colonos perman entes em peda-
ços de terra a uma distânci a de vários dias de casa, no modelo que descreve-
mos acima para os cultivadores de folhas de coca. As dimensõ es maiores da
comuni dade política tornavam possível o envio de colônias maiores e insta-
lá-las a muitos mais dias de caminha da. O reino aimará dos lupacas enviara
grandes quantida des de pessoas à costa desértica, a dez e às vezes a quinze
dias de distância do núcleo. Thierry Saignes estudou recentem ente o modo
como todas as comunid ades situadas em volta do Titicaca tinham acesso às
"ilhas" da planície a leste do lago; nesse local, a madeira , a folha de coca e o
mel, assim como o milho, podiam ser cuidado s diretam ente pelos parentes
6
de alguém ou pelos que lhe eram submeti dos •
7
A esse modo comple mentar de ter acesso a muitos pisos ecológicos
espalhados deu-se o nome de padrão "arquipé lago" de coloniza ção andina.
Embora, na maioria das localidades, seu alcance tenha sofrido um processo
de erosão durante o período colonial e em épocas mais recentes , algumas
8
populações das montanh as ainda praticam o "duplo domicíl io" •
A arqueologia assevera a antigüid ade desse padrão, mas poucas escava-
ções revelaram sua idade. Alguns afirmara m que tal acesso múltiplo e simul-
tâneo de uma única comuni dade a muitos microcl imas não poderia ter
ocorrido antes que a proteção pacifica dora de um Estado resguardasse as
caravanas anuais que ligavam as povoações periféricas ao núcleo de poder.
Os Estados provavelmente favoreciam esses arranjos , impond o sua autorida-
de a grupos étnicos concorrentes. No entanto, mesmo nos séculos em que

5
· Garci Diez de San Miguel, Visita Hecha a la Província de Chucuito [1567], Lima, 1964, p.
109.

ú. Thierry Saignes, "De la filiation à la résidence: les ethnies dans les vallées de la Larecaja",
Annales, Économies, Sociétés, Civilisations (AESC), 33(5-6): 1160-1181 , l978. Trata-se de
uma edição especial dos Annales sobre a antropolo gia histórica dos Andes, editada por
John V. Murra e Nathan Wachtel.
7 "Etc.,o n t·10 IV.· ld , .
· JohnY . .. Murra ' e, llca e un Max,mo de Pisos Eco.lógicos en la Economía de
la:-. Sociedade s Andin as" ' e111 J• y • M una . .. . . 1,1
(ecl.), Fonnacwnes Económicas y Políttcas ' e
M1-111do Andino, Lima, 1975.
8
O li via liarri s, "K in ·ship ·ind ti y • l , . 0f
·
. . ' ll' ertica Eco nomy", em lntcrnatio nal Congress
Amencanrnl'~, Art1·s P·iris 19 78 ,V(l.1 l\f ,pp. 165- (7 7.
1
• . ,
te 71
nenhu m centro polític o impor tante podia reclam ar hegem onia, duran
,
períod os que os arqueó logos chama m de Interm ediári o Antigo ou Tardio 0
tan-
acesso compl ement ar a uma ampla gama de nichos ecológ icos era impor
es
te demai s para que fosse elimin ado do repert ório econô mico dos senhor
andino s locais.
nas
Indep enden temen te da origem , pode- se afirma r que o aumen to
e
dimen sões da socied ade polític a tinha conseq üência s sobre a compl exidad
que
de arranj os nas perifer ias. Vimos acima, no caso dos extrato res de sal,
à
suas colôni as eram multié tnicas ; essa caract erístic a tornou -se mais comum
de
medid a que cresce ram as comun idades polític as. A ocupa ção simult ânea
ter
uma ((ilha" perifé rica por colono s de divers as comun idades polític as deve
rren-
gerado atritos , disput as e mesm o hegem onias tempo rárias de um conco
exóti-
te sobre o outro. Mas há indício s de que a busca de acesso a produ tos
em
cos era tão grande que a períod os de conflit o se seguia m sempr e épocas
que o acesso era partilh ado, por mais tensa que fosse a trégua .
era
O modo como eram escolh idos os colono s vitalíc ios e a forma como
.
mantid a sua lealda de ao grupo que os enviav a são temas de invest igação
Quand o a distân cia do núcleo era peque na, o colono , chama do mitma
c em
.
língua quíchu a, podia facilm ente mante r os víncul os com o lugar de origem
cia ou
No entant o, quand o a distân cia chegav a a oito, dez dias de distân
acesso
mais, foram criado s dispos itivos institu cionai s para garant ir não só o
ros
dos colono s aos produ tos, mas també m ao intercâ mbio social, aos parcei
os
de casam ento para seus filhos e à partici pação ritual no núcleo . Os registr
a-
eclesiásticos da Europ a no século XVI indica m que as carava nas se desloc
s
vam livrem ente de um piso para outro; os registr os mostr am que as esposa
vinham de muito longe 9 •
A especi alizaçã o das técnic as tornou -se implíc ita no própri o padrão de V)

colônias espalh adas. Os mitmacs eram també m respon sáveis nas áreas cober-
u.i
e::
o
praias
tas de árvore s pelas taças e pratos de madei ra; os que viviam nas e::
u.i
;-.
podiam secar peixes e algas comes tíveis, mas també m coleta vam guano . Em z
<
u- V)

troca, a ca ravana que vinha das monta nhas period icame nte trazia tubérc z
<

k,s, gé neros bá sicos, mas també m carne, lã e outros artigos , inclusi ve milho
a
z
<
culti vado nos níveis m édios. Em algum ponto ainda indete rmina do da
his- V)
w
o
l rHi a an din a, o padrão de coloni za ção disper s a sofreu uma mudan
ça qualita - <
a
u.i
u
. •111 l lo de n:,•istros c.:ksiútin)s ~·111 o
·, - -_-
l·ru· 1,.1 y .til ()' W(l-lf·, U J1Ylttl11 --- 1 ., " ' .
V)

Li.l \ :ilo jl L' Sl, lla 1'i.:o ni )iJ~( 1111111 Ui C/1


.,:

lul i, 11" p1 o v í 11 t i ;1 d, · ( :lw l uit,1.


72
colônias de artes ãos que não esta-
tiva, qua ndo foi amp liad o a fim de incl uir
"ilhas" periféric as relacionadas
vam pres os a vínculos ecológicos. Além das
aldeia de cera mist as e outra de
acim a, os lupa cas tam bém registravam uma
ínci as man tinh a um representan-
met alur gista s. Cad a linh agem das sete prov
de artesãos no total.
te nas aldeias especializadas, várias centenas
ram uma característica do
Os padr ões de colonização dispersa cons tituí
rvar am. Em 1538-1539, cinco
terr itór io and ino que os euro peus logo obse
rgad as por Piza rro segu iam esse
ano s após a invasão, as encomiendas outo
a a terra, mas as pessoas dos dois
prin cípi o. Ao beneficiário não era concedid
em sujeitos, por mai s salpicados
senh ores locais com todo s os que lhes foss
tório. Assim, Lope de Mendieta,
(espalhados) que estivessem por todo o terri
beu toda e qual quer estancia de
um dos primeiros associados de Pizarro, rece
que devi am fide lida de a Chuki
cam elíd eos, aldeias agrícolas ou pesq ueir as
karancas 10 • Seus terri tório s não-
Cha mpi e a Mam an Huillka, senhores dos
de quat ro mil met ros acima do
adjacentes chegavam a situar-se a bem mais
hoje a Bolívia, o Chile e o Peru.
nível do mar e estavam localizados no que são
de rese rvar um grup o étnico
Seguiu-se o mes mo padr ão quan do se teve
do lago Titicaca, eram conheci-
para Carlos V: os lupacas, que viviam pert o
déca da de 1550, o proc urad or da
dos com o "los yndios del Emp erad or". Na
a grup os part icul ares , de alguns
co roa queixou-se ao vice-rei da concessão,
locais dista ntes de suas residên-
lupacas da área costeira que trab alha vam em
cias. Ele argum enta va que:

privadas [... ] os governadores [pós-


qua ndo fora m outorgadas essas encomiendas
a vida dos índios. A questão foi
Piz.irro l não co mpr eend eram a ordem que regia
lcva,11 .1da qua ndo o marqu ês de Cafiete gove
rnou esses reinos e verificou-se que a

ínli1rm:1çüo que fo rn ec i era verd adeira [... ]


foi ordenado que tinham de ser devolvi-
cuito [nom e pelo qual os europeus
dos os indios e as it'rras qu e a prov íncia de Chu
lh ,1111.1v.1 m 1 upaL·a) tin ha na região coste
ira desde a época dos incas li .

A informaçfo fórnecida por essas fo ntes


euro p éias doc umenta melh or os
· es"'l a
pa,Jrúc':., de "cn111plenw11taridade vertJ·L··-,1J"
. , no e' t ni·co) pots era , "'
tlc·) pla
.., 1 , . .· · decac
t]Ue 1·I d,tv·
, 1as te . ·1I11t'
i 1e~
rr·.1 l1d.kie qu1: toleravam e com
· , u 111 nas pt 1me 1ras

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J.rgJJ JJ ti C:. K JlJ ~(•\. íl U j tb tl u ,1, ,\rqlllvo , . . ·
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1d ,11it1 :,1. , fl,i i 11, , 1i 1o1 ,
·
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/.,i1.,,J /11 : 1, •1 ,, .1 J iu,.t , 1 1- 1x, 1,1 ,u


7
73
colonial. A macro- adapta ção, pelo Estado inca, desse antiqüí ssimo padrão
andino (através de milhar es de quilôm etros, com milhõe s de habitan tes, no
territór io ocupad o hoje pelas cinco repúbli cas andina s) desinte grou-s e tão
rapidam ente após 1532 que hoje é extrem amente difícil recons tituí-la .
Contud o, essa dimen são máxim a é impor tante para compr eender as
mudanças que o padrão sofreu quando a comun idade política contro ladora
ultrapassou uma escala de cerca de vinte mil famílias. Inicial mente, o Estado
seguiu as normas andina s corrent es: suas rendas eram cobrad as sobre as ter-
ras cultivadas que tinham sido alienad as das comun idades política s locais no
modelo "arquip élago". Essas terras do Estado eram cultiva das pela popula ção
local num sistema rotativ o em que as linhage ns se alterna vam, da mesma
forma que haviam trabalh ado os campo s de seus senhor es étnicos ou do san-
tuário regiona l. Vez por outra, os mitmac s do Estado eram transp lantad os
para os novos territór ios a fim de assegu rar ao inca o govern o e as rendas .
Mas esse govern o ainda era "indire to" : era exercid o através dos senhor es
"natura is" anterio res aos incas. Não havia qualqu er espécie de tributo : nin-
guém devia o que quer que fosse plantad o em seus campo s ou que estives se
armaze nado em suas despen sas.
Nas últimas década s antes de 1532, o tamanh o da admini stração inca cres-
cera tanto que não havia preced ente da distânc ia que separav a o núcleo dos
locais de trabalh o. Quase todo ano, se o mitmac quisesse reafirm ar seu vínculo
com o centro, ou cultuar seus deuses no santuár io princip al, ou simple smente
visitar seus parente s, era obrigad o a fazer uma caminh ada de dez, quinze dias
até a terra de origem . Os colono s que foram desloca dos durant e o domín io
inca podem ter chegad o a uma distânc ia de sessent a ou mesmo oitenta dias de
viagem. Mesmo que continu assem a ser incluíd os em seu grupo étnico origi-
nal, indaga-se que consist ência teria um vínculo como esse.
Não há dúvida de que foi feita essa tentati va de reporta r-se a um prece-
dente andino : Don Pedro Kutim pu, um senhor lupaca bem inform ado,
ainda jovem em 1532, esclare ce essa tentativ a, enquan to explica as discre-
~)âncias entre o quipo popula cional que está em seu poder desde antes da V-,

invasão e a contag em por cabeça feita pelas admini straçõe s colonia is: z<
õ
z
<
~1u and o esta provínc ia foi inspeci onada pelos incas, muitos colonos foram contado "'fJ.I
s Q
<
Junto com o utros nativos dessa provínc ia. f ... ] Os colonos podiam estar Q
cm muitos fJ.I

outros loca is di stant es 1... 1 algun s no C,hil e e outros em Quito [... l e juntos todos eles u
o
V,

co n st ituí a m os vinil: mil índios m e n c io nados no quipo. Mas agora 1· 1567] "'<
esses colo-

74
nos fora m concedidos em encomienda em suas residências distintas e não fora m mais
contados com os dessa província ... 12

Por quanto tempo podiam esses vínculos e direitos residuais ser exe rci-
dos efetivamente no grupo étnico original? Remoções do lago Titicaca para
o Chile e para Quito parecem um ônus pesado , não importa quantos prece-
dentes tenham sido alegados para fazê-lo. Ind íc ios de um a respos ta são
encontrados na freqüência de rebeliões contra os incas 13 e na pronta adesão,
após 1532, de muitas das comunidades políticas lo cais aos europe us. Mas
nenhum informe de queixas a respeito disso chegou até nós de testemunhas
da invasão.
O que podemos asseverar é que o Estado inca deu continuidade às colo-
nizações complementar es no s And es , m es mo que as novas dimensões
tenham implicado dificuldades. Novas funções também foram conferidas
aos mitmacs: da mesma forma que os lup acas mantinham aldeias de artesãos
especializados, o Estado controlava uma instalação manufatureira perto de
Huancané, situada na margem nordeste do lago Titicaca 14 • Congregava "um
milhar" de tecelões e "uma centena" de ceramistas. Embora não se deva
aceitar esses números literalmente, as proporções dessas operações do
Estado inca não devem ser postas em dúvida; as roupas constituíam a mais
importante forma de arte andina, de modo que tinham muitos usos políti-
cos, rituais e militares, exigindo que fossem tecidas para o Estado em
dimensões verdadeirament e industriais para os padrões europeus do século
XVI. A tecedura em tempo integral ocupava grande número de mulheres
"escolhidas", separadas de seu grupo étnico e colocadas em todo centro
administrativo do Estado, onde os soldados esperavam receber recompensas
em roupas quando marchavam para a fronteira. O que há de novo com rela-
ção às oficinas de Huancané era o fato de os tecelões formarem unidades
domésticas; tampouco podemos dizer se esse centro manufatureiro era
único ou se constituía uma característica regular da produção inca que per-
manecera sem registro.

12
· Diez de San Miguel, La Provín cia de Churn ito, op. cit., p. 170.
LI. John V. Murra, "La Guerre et les rébellions dans l'expansion de l'état inka", AESC 33 (5·
6):927-935, 1978.
John V. Murra, Los Olleros dei. lnka: Hacia una Historia y Arqueología dei Qollasuyu » ' em
14 · " .

Historia, Problema y Promesa, Tiomena}e a Jorge Basadre, Lima, 1978, vol. J, pp. 415-423 ·
Os mitmacs também foram utilizados pelo Estado, de um a maneira nova, 75
para propósitos militares. N ã o h á prova s da existência, no período pré-
incaico, de guarnições distantes que trabalhassem em tempo integral, mas
nas décadas anteriores a 1532 a constante expansão e as conseqüentes rebe-
liões exigiam que as fronteiras fossem guarnecidas em tempo integral:

ele disse que seus ancestrais foram colocados nes ta terra [ovale de H.uallaga] para pro-
teger a fortaleza de Colpagua, que fica nas florestas do les te, e as fortalezas eram três,
uma chamada Colpagua, a outra Cacapayza, e uma Cachaypagua e uma outra [sic]
Angar, e os colonos mencionados e os antepassados do narrador foram tirados dos vales
próximos a Cuzco e baseados nos mencionados fortes, trinta homens casados em cada
um. E aqueles que guardavam as fortalezas não tinham campos plantados, uma vez que
não podiam cultivar ali de modo que receberam essa cidade [Guarapa] onde outros
membros de seu grupo plantavam e supriam a subsistência dos que guardavam 15.

É possível talvez identificar outros empregos tardios dos mitmacs para


propósitos não-agrícolas, mas os prolongamentos militares e artesanais da
estratégia «arquipélago" são indício suficiente de que aquilo que começou
como um meio de complementar o acesso produtivo a uma série de pisos
ecológicos se transformara num oneroso meio de controle político.

Tahuantinsuyo, o Estado inca, não foi a primeira comunidade política


multiétnica surgida nos Andes. Nas últimas décadas, os arqueólogos têm
distinguido vários «horizontes" (períodos em que as autoridades centrais
conseguiram controlar tanto as comunidades das montanhas quanto as cos-
teiras) das eras «intermediárias", em que floresceu o separatismo étnico.
O ((Horizonte Primitivo" nos Andes, também chamado de Formativo,
<
Vl
era centrado em Chavín, um templo localizado a 3 135 metros de altitude u.l
~

11 3 !-i montanhas do leste; o


mais conhecido por sua arte religiosa, o templo foi o:
u.l
co nsiderado por Julio C. Tello, o decano dos arqueólogos andinos, cca matriz 1-
z
<(

da civili z.ação and in a» . AJcançou o apogeu de sua influência cerca de três mil V)

<
z
anos atrás , J 000 -300 a.C ., quando influiu sobre outras colônias da região Q
111 0
z
nt anhosa e modificou as formas de arte costeira; não se sabe an certo se <
V)
u.l
lai8 influl'ri cias signifi ca ram dominação. Donald Lathrap rece ntemente' rc'S - Q
<
Q
sa lt ou e docun1<.: ntou as raízes amazôni cas da arte que Tcllo foi O primeiro a u.l
u
o '
Vl

1~ ·- - ·- -- . - -- ·- --
V)

<
rt, z de Zúi\i ga, L11 J>r,11,iwi" ,Jc, /.cá11, vol.11, p. 1117.
76
postular. Através das planícies tropicais Chavín pode ter alcançado fontes de
inspiração muito mais antigas na Mesoamérica 16•
Não há um consenso entre os arqueólogos sobre o modo como surgiram
esses "horizontes" nos Andes e como acabaram por desintegrar-se. Alguns
sugeriram que o elemento ativo foi o "comércio", revigorado por controles
militares que usualmente se originaram nas montanhas; outros detectaram
um zelo religioso por trás da expansão.
O Horizonte Médio estende-se desde antes de 500 a.C. até por volta de
1000 d.C. e estava centralizado em dois locais pelo menos: Tiahuanaco, perto
do lago Titicaca na Bolívia, e Huari, próximo à atual cidade de Ayacucho no
Peru. Ambos foram verdadeiras colônias urbanas, considerados núcleos de
Estados grandes e de vasta extensão. Há testemunhos de contemporaneidade e
mesmo de contato entre ambos; no começo do século, costumava-se conside-
rar os dois uma única comunidade política, cuja capital ficava nas montanhas
do sul. Pesquisa recente sugere que, embora Tiahuanaco e Huari possam ter
exercido sua hegemonia ao mesmo tempo, suas esferas de interação foram dis-
tintas. Alguns chegaram a sugerir a existência de uma zona-tampão entre
ambos, que se estendia da linha de neve perpétua ao oceano17. Em seu Peoples
and Cultures in Ancient Peru (1974), L. G. Lumbreras, o eminente arqueólogo
andino, defendeu a tese de que o urbanismo e o militarismo tiveram início
com Huari e aos poucos influenciaram todas as sociedades dos Andes centrais.
É possível que o ímpeto de integração inter-regional se tenha originado
sistematicamente nas montanhas, mas os povos da região costeira desértica
muitas vezes levavam séculos para desenvolver seu próprio potencial centra-
do no oceano e na irrigação. A maior parte da arqueologia inicial da região
costeira, empreendida por estrangeiros, centrou seu interesse na espetacular
arquitetura com base no tijolo cru, ou nas produções têxteis e cerâmicas, de
qu e os museus e as coleções particulares em todo O mundo estão cheios. Em

1(,.
Cí. Ju lio C. Tell o, Chavín , Cultura Matriz de la Civilización Andin a, ed. Toribio ~fajía
196
XeS1>pe, Lima, 0; John H. Rowe, "Form and Mea ning in Chavin Art'\ em John H. Ro \\'t'
i: Doro lh y Mem el (cJ s) J"> , 11111· · A J J 'V
· · · •' u nn rc iaco logy, Pa lo Alto, Ca lif. , 1967 : Dnnalu v •
La thrap, ''O ur Father th e Cayman, o ur Moth t r lhe Go urd: Spindcn Revis ited", c 11l C. f\.
Rcetl ( n .l . l, < )ri>-: i11>uf A?,rirn /1,m, ll ai-i1 11)7·7 l)I) ,71 , r:: . . ("' l) .. "Chavín:
, , , . . , - 7 : 1 1; 11
1onias ,. atterso n, , '
.An l nkrpr t: lí!lto,1 ,if its Spreild rind ln l1 1tL' l1n·". ~111 E. P. BL•nson (ed.), Dt111Jbarton Qaks
Cv ,1jáe11n· 011 L'li,1 ví11, Wa :;hi 1w1o n 1)( • 1l) 7 I J iJ .,
C'l . ) • .• • , ) pp. - .,1. º·
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Elias Muj íi.: a, cornunicaçao J.ll:~soal, l 'JHO.
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500 km

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OCEANO

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u
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V)

V)
,r;
A extensáo do Imp é rio Inca
78
seu guia do tesouro andino do American Museum of Natural History de
New York, Wendell C. Bennett e Junius B. Bird se referem a «um período de
artesãos mestres". A arqueologia, nos últimos tempos, tem tentado fornecer
o suporte organizacional cronológico e sócio-organ izacional para tais mani-
festações artísticas. Com o passar do tempo, os habitantes das montanhas
podiam, e freqüenteme nte o fizeram, interromper o florescimento da região
costeira mediante o bloqueio ou o desvio dos canais de irrigação que tra-
ziam água das geleiras andinas para as plantações do deserto, mas é notável a
freqüência com que os grupos costeiros locais retornavam às tradições anti-
gas tão logo o "horizonte" havia desaparecido.
Do mesmo modo, nas montanhas, as muitas comunidade s políticas incor-
poradas ao Estado inca mantinham as distinções étnicas e a consciência de sua
própria identidade. A expansão de Tahuantinsuyo fora rápida, mas só conse-
guiu tal presteza quando absorveu entidades políticas inteiras, e não aldeias e
vales distintos. Os senhores locais adequaram- se a um sistema de "governo
indireto"; eles é que impuseram e administrara m a nova ordem, que pode ter
parecido menos nova, uma vez que sua ideologia não reclamava mais que
uma projeção numa tela mais ampla de padrões existentes de autoridade.
A tradição oral nos Andes concorda com a arqueologia em que o Período
Intermediár io Tardio, os séculos imediatame nte anteriores à expansão inca,
tinha sido ahuca runa (tempo de soldados):

as cidades foram despovoadas [... ] temendo a guerra, eles tiveram de abandonar os


bons Jugares mencionados. [... ] Foram forçados a mudar de suas cidades para os
1uga res mais altos e agora vivem nos picos e nos despenhadeiros das altas monta·
nh as. Para se defender, tiveram de construir fortalezas [... ] defesas e muralhas; as
casas e os lugares secretos ficavam dentro. [... ]
Lutaram e houve mortes [... ] fizeram prisioneiros, mesmo as mulheres e as crian·
ças. Toma ram as terras uns dos outros e os canais de irrigação e as pastagens (... ] até
as pedras que haviam usado para moerl 8.

No P, ~ região
eno do- I nte rmeci·ia, n·o T ar d'10 caoa
· arte f'ato ~• nitid:i·
· pro d uzrn .
mtnte di st intc>S, isentos de manifestações pan -andinas, como a Tiahualli~lo
-. . - . ·r• . C'l co nhí'
u J-1I ua ,.·1 dos pnm c1ros tem pos. Pesquisas na reg il o do lago 1t1ca •
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1t1. Felipe: Cuaman .Poniu de Ar,da, N 11 ,·11,1Co ron im y lfo l'n Co /Jit mo [16 l'.l] , Méxi(O, '
63 ~64.
maram a presença arqueológica, no final do período pr·e' - 1·11 ca1co,
• d e " casas e 79
lugares secretos" no interior de defesas pesadas que circundavam vinte hec-
tares ou mais, em altitud es acima de quatro mil metrosl9 . Q uan d o e101• con-
quistada pelos incas, a população qu e conhecemos pelo nome de lupaca foi
removida ou deportada «para baixo", para uma altitude de 3 800 metros, na
praia do lago. Após a pax incaica, não havia m ais necessidade das muralhas;
agora a estrada real atravessava as sete «capitais provinciais" dos lupacas,
algumas das quais se converteram em centros administrativos incas. Algu-
mas ocupavam até quarenta hectares de espaço urbano e todas podem ser
discernidas ainda hoje. De acordo com o quipo que está de posse de Pedro
Kutimpu, antes de 1532 esse grupo, que falava a língua aimará, compreendia
vinte mil famílias. O testemunho de seus dois senhores foi registrado, em
1567, por um inspetor enviado de Lima para averiguar um boato de que
esses ((índios do imperador" eram muito ricos. O inspetor relatou que eram
realmente ricos: nos tempos anteriores à invasão européia, haviam controla-
do centenas de milhares de camelídeos; mesmo depois de 35 anos de pilha-
gem, um lupaca admitia ainda possuir 1 700 cabeças 2º.
Os dois senhores que deram o testemunho governavam Chucuito, uma
das sete ((províncias"; eram também senhores ou reis de todos os lupacas 21 .
Cada uma das outras seis «províncias" tinha seus próprios líderes, em nú-
mero de dois, um para a metade superior e outro para a inferior. A divisão
dual era uma característica quase universal da organização social andina;
não há razão para atribuí-la a uma influência inca.
Os laços de família eram o princípio organizador nas quatorze subdivi-
sões. Cada metade era constituída de cerca de dez a quinze hatha, termo às
vezes traduzido por «linhagens". Como os notários e escrivães europeus pre-
feriam a terminologia quíchua de Cuzco, eram registradas usualmente com
o nome de ayllu. O debate em torno da natureza e das funções dessa unidade
social tem uma longa história nos estudos andinos, tanto quanto os calpulli
na Mesoamérica. Cada hatha lupaca era uma unidade dotada de um nome;
podia ter terra e rebanhos, mas também o tiveram o conjunto do reino, cada
V)

<
z
metade e cada uma das sete comunidades políticas. Cada uma tinha suas o
z
<
V)
lJ.l
19 o
• John Hyslop, "E) Area Lupaca Bajo el Domínio Incaico: Un Reconocimiento Arqueológi- <
olJ.l
co'', Histórica, Lima, 3(.1 ):53-80, 1979. ü
2
o
º· l>icz de San Mi g uel, La Província de Clwcuito, op. cit., PP· 30 3 - 363 · V)

V)

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2 1. .
J0 1 V. Murra, ', An Ayrnara Kmgdom ·lll l.lr::67" , ,.·,:11lllO /11·story
·
15(2): 115- 151, 1968.
' ·
111

80
pró prias a ut o ridad es; cada uma compreendi a famílias da populaç.'io .iirnará
dominante e dos oprimidos pescadores uros; n ão podemos dizer na prática
quanto sucesso teve esse esforço id eo lógico em reunir pessoas de classes dis-
tinta s num único grupo familiar 22 .
N ão há informação sobre sa ntu á rios Jupacas, porque a inspeç~10 foi rea li-
zada logo depois d a conversão dos se nh o res lupacas ao cr istianismo. Fora rn
advertidos a não adorar os picos de montanh as cobertos de nt:>ve; fora rn
também proibidas as peregrinações aos monum entos e rigidos no passado
nas cidades pré-incaicas muradas. Em 1567, ainda h avia um a mino ria de
ricos donos de rebanhos qu e permaneciam sem batismo; sabe -se que algu ns
dos xamãs e sacerdotes aimarás foram m antidos num campo de co ncentra-
ção perto do lago, fazendo trab a lh os d e fi ação , mas o seg und o bispo de
Charcas, frei Domingo de Santo Tom ás, o rd e nou que fossem lib ertados,
Autor do primeiro dicio nário e gra m ática da Jíngua quíchua, o bispo fazia
parte do Conselho Real das Índias , ma s foi também co nfidente d e Bartolomé
de Las Casas; argumentou qu e os xamãs não podiam ser mantidos prisionei-
ros, pois nunca haviam sido convertidos e assim não e ram apóstatas.
Existem algumas informações sobre templ os do c ulto ao sol construídos
pelos incas em território lupaca. Uma parte da " província,, dos yunguyos foi
expropriada e nela foi erguido um centro de p eregrinação. Membros das
linhagens reais de Cuzco foram reasse ntados em Co p aca bana e nas ilhas
imediatamente próximas da praia 23 • No fin a l do século XVI, a Igreja euro-
péia decidiu reutilizar este centro de peregrinação; está em uso ainda hoje.
Os lupacas são a mais conhecida dentre as muitas comunidades políticas
dos aimarás que, no período pré-incaico, surgiram no altiplano mais eleva-
do. Outras dessas comunidades estão agora sendo estudadas e suas proprie-
<
dades rurais, inclusive as localizadas na região costeira desértica do Chile,
f-<

1
V)

5
foram mapeadas 24 • Suas tradições orais foram ocasionalment e registradas
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ou 22. O estudioso que mais deu atenção aos laços de família entre os antigos andinos e sua
--:
Q
V) manipulação pelo Estado foi R. Tom Zuidema. Ver The Ceque System of Cuzco: The Social
<
r.:
1,.1.l
p..
Organization of the Capital of the Inca, Leiden, 1964, e "The Inca Kinship Systern: A Ne~v
V)
""-1
> Theoretical View", em R. Bolton e E. Mayer ( eds.), Andean Kinship and Marriage,
V'J
·< Washington, D.C., 1977.
u< 23.
~ Ver Adolph Bandelíer, The !stands of Titicaca and Koati, New York, 1910.
'..:l
24. ·
-· " Mapas Colomales
T n,st an PI att, - · te de
~ en la Província de Chayanta", em Martha Unos
<
< Aguirre (cd.), Estuclios Bolivianos en Honor a Gunnar Mendoza, La Paz, 1978.
s

81
senh ores entr egar am à
nos docu men tos dos proc esso s judi ciais que seus
, a adm inist raçã o colo -
Audiencia de Charcas; dura nte uma déca da ou mais
próp rios . Essas reclamações
nial ince ntiv ou petiç ões desse tipo por moti vos
recit açõe s de gene alog ias
de antigos e novo s priv i]égi os com pree ndia m as
nós. Um desses recla man -
pelos man tene dore s aind a ativo s dos regis tros de
inclu sive um que ((prestou
tes relac iono u os nom es de seus ante cess ores ,
troc a havi a rece bido uma
obediência,, ao Inca quat ro gera ções ante s. Em
na gene alog ia com o ((Inca,,:
esposa da corte , e seu filho Mor oco foi inclu ído
uári o tecid os pelo s artes ãos
junt ame nte com a espo sa vier am artig os de vest
do rei e o privilégio de usar uma liteira.
aima rás foi seu pape l
Outr a relação especial entr e Cuz co e os senh ores
yo, seus exér cito s eram
militar. Já no iníc io da expa nsão de Tah uant insu
mobilizava ener gias para os
recrutados sob o mes mo prin cípi o da mita que
am para a bata lha alter -
outros serviços públicos: hom ens e mulh eres mar chav
outr o. Vinh am equi pado s
nadamente, ayllu por ayllu, um grup o étnic o após
próp rios senh ores étnic os.
com suas arm as trad icion ais, lider ados por seus
deviam a Cuz co 25 •
Nada disso os livrava dos mui tos outr os serviços que
yo, essa mita deve ter
Em algu m mom ento da histó ria de Tah uant insu
, num mem oran do dirig ido
parecido ineficiente: os senh ores aimarás alegaram
de seus ancestrais havi am
a Filipe II, que a habi lidad e e a lealdade militares
s as outr as obrigações:
sido recompensadas e, assim, estavam livres de toda

to [... ] e de toda s as outra s taxas e


éramos apenas solda dos [... ] dispe nsad os do tribu
servi r a mita na corte , na gran de
serviços pessoais, com o do pasto reio [... ] ou de
roup as [... ] e de culti var a terra ,
cidade de Cuzco, ou de ser pedr eiros , tecedores de
pessoas se acos tuma ram a mov er N

do trabalho de carp intar ia ou nas pedr eiras - as


<">
Ll'l

um morr o com as mãos para algu m outr o


lugar. [... ] Não éram os nem danç arino s, <
V,
2
ia para os cham ados ingas ... 6
u./

nem palhaços acos tuma dos a canta r canções de vitór


e:::
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u./
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serviço mili tar prol onga do z
Não podemos dizer quais as cons eqüê ncia s desse <
laçã o aima rá que havia
V,

sobr e a prod ução dos meio s de subsistência da popu


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es, os rem anes cent es na
fi ca do para trás. Em outr as loca lida des dos And
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z
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dos soldados, mas as lon-
pa tn a étnica eram obri gado s a trab alha r as terras
(.t, I • ) ) V)
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- - -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- --
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-- cas: Crón ica Inédi ta dl' 1:i~2", l :,wtu tu
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~'>. Wald t: 111 ar fa pinoz..J Soria no , "P.l Mem orial de Chnr G


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11), Chos ica, Peru, 1069.
( l<L·vi:,, 1a de: la Uni vn \ Ídad N,1 cional de fül11ca ció V,
<
~i ,,
Murr a, cit adu 1: 111 "La <;uc: rrt: i: t li:.~ réhi:llio11 s", pp . lJ J 1- 9 .l ~.
82
gas ausências, que ultrapassavam o calendário agrícola, devem ter constringi-
do os intercâmbios baseados no parentes co mas politicam ente explorados.
Tampou co podemo s dizer até que ponto a divi sã o du al de todo o altipla-
no numa urcusuyo (a metade montanhesa) e uma umasuyo (a metade aquá-
tica) refletiu a realidade aimará ou, mais tarde, a inca. A dicotomia parece
ter sido mais acentua da na região do lago Titicaca. É possível que, nesse
local, tenha havido um substrato lingüístico por trás do dual, pelo qual os
habitant es da metade do leste falavam pukina em vez de aimará. Infeliz-
n1ente, o filtro inca através do qual muitos examina ram as questões andinas
ainda não permite o deslindamento do contexto étnico do dualismo. É pos-
sível que, originar iamente , as metades tenham ocupado o centro ou se
((encontr ado" no lago Titicaca, uma zona "neutra" com seu microclima pró-
prio. Pode ser que urcos e umas se tenham reorganizado quando Cuzco se
tornou o núcleo 2 7. Quando os europeus os encontra ram pela primeira vez,
ambos estavam ritual e administrativamente incluídos no mesmo setor sul,
o collasuyo, o setor de maior densidade populacional do Estado inca.
O compon ente ((aquático" da divisão dual do planalto é também discer-
n íve] na presença entre os aimarás de uma minoria ocupacio nal e étnica, tal-
vez mesmo uma ''casta" de pescadores uros. A real importâ ncia de sua pre-
se nça es tá-se tornand o mais clara graças a recente pesquisa28. No período
colonial, os pescadores aos poucos se juntaram às fileiras aimarás, mas a atri-
buição a eles de língua pukina e o sentimen to dissemin ado de que eram os
ocu panles nativos dos altos Andes exigem uma confirm ação arqueológica.
Co rrelac ionar a informa ção histórica com a escavação arqueológica é
um a ;.i bo rdage m que só foi usada ocasiona lmente nos Andes. Muitos dos
e11i gmJ s cfa hi stória andina são menos inacessíveis do que pode parece r.
Ai nd.i l"XÍSl t? m conti n uid ades nos modos de vida e nas línguas, apesa r dos
4:10 anü~ de domínio coloni al; remontam até mes mo ao período pré-incai -
u 1. Janto d~ t1 \1 d i~-õl'~ ora i~ dinásti cas qu anto as demóticas são pelo meno~
p.1r1...i:tlmrnk dispon1Vt"is n ob registrob de testemu nhas oculares e ad111in is·
t r .ido , e·~ c· uru pt' U.'I; :ie fos1>e m compro va das e ampliad as ro m a ai udJ
da
,;1 1,Ju ,·ol ngj,-1 , P1>d c' J ~e ia dispor de uma versão muito mais
~ólicLt, t'r n bt)f,t
11i 1•w n, ·.1. 1) 1;,h iunaL dd ôtKíedad c dnd ina.
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l.11·, 1,1 i l.' l l ','J l 'Ji'b
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83
É docume ntável o fato de que no período pré-colo nial a língua aimará
foi muito mais dissemi nada do que hoje. Os morado res de Cuzco ainda cha-
mam os habitant es do planalto , ao norte do lago Titicaca , de collas (aima-
rás), mesmo que tenham passado a falar o quíchua . Não deve ser muito difí-
cil averiguar quando ocorreu essa mudanç a e sob quais condiçõ es históric as,
mas a escassez de estudos filológicos em 1980 ainda nos restring e a conjectu -
ras. Muitos dos vales do Pacífico no que são hoje o Chile e o sul do Peru
eram habitado s por falantes do aimará; no início do século XX, as cidades
situadas na latitude de Lin1a, na provínc ia de Yauyos, falavam kauki, um
dialeto aimará29 •
Os europeu s chamav am a língua dos incas de quíchua , derivan do o
termo da palavra quichua, "vale". Os próprio s incas chamav am-na de runa
simi, «a língua do povo", expressã o usada ainda hoje pelo falante nativo; não
é encontra da no discurso do europeu e do literato. Antes de 1532, o quíchua
era a língua da adminis tração e era entendi da por muitos bilíngüe s; docu-
mentos colonia is chamam -na de lengua general ( o aimará e o pukina às
vezes são também designa dos dessa forma). O lingüist a Alfredo Torero
sugeriu que o quíchua teria sido outrora a língua da costa central, de onde se
teria espalha do antes e depois dos incas 30 . Variant es que se entend iam
mutuam ente eram faladas desde o que é hoje o Equado r, ao norte, até
Tucumán, ao sul. A distinçã o entre os habitan tes do altiplan o e os do vale
foi fundame ntal na classificação étnica andina; essa distinçã o era aparent e-
mente confund ida pelos europeu s com línguas diferent es.

Pouco trabalho arqueol ógico foi feito com seriedad e na região inca cen-
tral: o vale de Vikano ta e a área em volta de Cuzco. John Howlan d Rowe N
~

deu início ao estudo científic o dos predece ssores dos incas3 1, mas atraiu -<
V'>

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poucos discípulos. µ.l


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O que se pode afirmar com alguma seguran ça é que, depois de longo o:
µ.l

período de conflito que separo u o "Horizo nte Médio" do Tardio ou Incaico,


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Cuzco deixou de ser, no séc ulo XV, o núcleo de uma comuni dade local para
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. 'l Ma i th a li ard mun de Bautista , Jr1qnr11 : Outlir1 e o{Phonologirn l and tvtorphologi(a/ Srr11ct11re, V)
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Alln·dl, T1Jt t 1u , J:'/ <)11 ed111r1 y /11 Uí siu rí11 S(Jcial Awlit1,1, Lima, 1974. U-l

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1tJh11 H. nowt , A 11 /11troi,/,.1, t1ut1 to 1/ 1,, l\ rrh,, i:olP,1;Y of <:11 z('o, l'apas o( tl1c l'c·ul1(Jdy M11se111n, o
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2R/~ . 19-1-1 . <

1
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84 , capital da Tahuantinsuyo desc rita
tornar-se um importante centro urbano
o administrativo do rein o inca, rnas
pelos europeus. Não era apenas o coraçã
eram sacrificadas diariamente urna
também um centro cerimonial, onde
grande número de sacerdotes jejuava
centena de peças de roupas finas e um
rios-palácio os movimentos do sol.
enquanto observava de seus observató
bem compreendidos quanto os dos
Seus calendários oficiais não são tão
ervações não foram registrados em
maias, porque os resultados das obs 2
, mu ito provavelm ente, tecidos em material têxtil perecíveP •
pedra, mas
de estradas reais, que apresenta-
A capital estava situada na encruzilhada
extensão e a ligavam ao Chile, ao
vam vinte mil quilômetros ou mais de
Equador. No estudo que se fez da
oceano Pacífico e, ao norte, à linha do
chamadas suyo, que por sua vez eram
divisão do território em quatro partes
que se irradiava a partir do centro
subdivididas, sugeriu-se que cada «linha"
real aos santuários dos quais eram os
cerimonial ligava membros da família
33 reais viviam com seus partidários na
patronos . A maioria das linhagens
cilaso de la Vega, que nasceu em
cidade ou nos povoados próximos. Gar
opéia, nos dá uma descrição nostál-
Cuzco alguns anos depois da invasão eur
rita, muitos anos mais tarde, no exí-
gica da cidade natal de sua mãe inca, esc
34 ente esforço de um década patrocina-
lio em Andaluzia , mas, apesar do rec
nenhum mapa de Cuzco, seja arqui-
do pela Unesco, não foi possível traçar
ao que foi feito par a Tenochtitlán, a
tetônico seja sociológico, semelhante
capital asteca3s.
étnicos incorporados pelos incas
Não está claro até que ponto os grupos
os informações de que era obrigação
estavam representados em Cuzco. Tem
ral, enviar par a a capital artesãos e
dos chimos, uma comunidade do lito
ta, em 1542 um frade europeu ainda
mu _lheres. Quanto aos artesãos de pra
de Chimo não tinh a obrigação de
registrou sua presença na cidade. O rei · fi1ª' -
fornecer tropas ' pois os sold ªd os d a costa eram considerados pouco con It'-
. d 1
veis e provavelmente tam b'em es t avam espreparados para lutar a uma a
·
3 ·
John V Mu · · "CJ . and Its State", American - - - t,
Anthropo-logis -
· 2·
ira, oth Function in the Inca
.
64 (4 ):7 10-728, 1962 .

u. Zuid ema, CeqiH' Systen-,.


(1041 ,
• . 11
(iarcila))o de la Vega "F l J " de lo s Co men tari as Ri:,i/ c, [
' ' nca ' em Pnm era Part e
1,1.
.
M,,d, id, IWiO .
Vi , <.) III Cli IIJf fl lí,J · J
·1 . AgurtO
p,, 'i: como po1,.lt, ler s· ·1O .. s de 15J4 est,1 em S.in twgo
. . ,J,rui u /Jr/ · · H • Ut 1 ad e nnk
,~i.dv,J, L,11 )1u, J.a /
.
L'i 11 <l,ul l11 rn, Cuzro, 1980 .
111 1 111
' ' " í:'
> 7

85
iais , espe rava -se que os
rude de qua tro mil met ros. Em ocas iões ceri mon
forasteiros deix asse m Cuz co.
inte rven ção de Cuz co no
Não existe un1 con sens o acer ca da exte nsão da
s do vice -rei Fran cisc o de
governo dos grup os étni cos inco rpor ado s. Inin1igo
atav am os senh ores étni cos
Toledo (156 8-15 81), que pare cia u1n Inca , retr
quin hen tista significava que
tradicionais com o «tira nos », o que no espa nho l
eram buro crat as nom ead os «ile gítü nos, ,, env
iado s da capi tal real e, ness e
s natu rais ». Foi aven tado
sent ido, não eram de mod o nen hum «go vern ante
tam bém que os inca s esgo tara m os mem bros
da fam ília real passíveis de ser
no final por elev ar à con -
designados ad1 nini stra dore s regi ona is e acab aram
as alde ias vizi nhas de Cuz co.
dição de inca os hab itan tes leais de dete rmi nad
mel hora dos, prom ovid os):
Con heci dos pelo non 1e de allicac (os que fora m

; estes eram insp etor es envi ados por


era m os filhos mais velh os dos papr is e chill ques
rativ os e as tecelãs e os depó sitos de
todo o rein o para fisca lizar os cent ros adm inist
chi e de Eque co ... 3 6.
merc ador ias[ ... ] algu ns [out ros] eram de Quil lisca

, espe cial men te na cost a,


Há indí cios de que , em algu mas regi ões rebe ldes
, para sub stitu ir o «sen hor
os incas real men te desi gna ram «go vern ado res,
s», ou mem bros da peq ue-
natu ral ». Usu alm ente eram pare ntes dos «rebelde 37
reza vizi nha cuja hege n1o nia regi ona l Cuz co dess e mod o end ossa va •
na nob
nto, prov ém das mon tanh as,
A maior part e d e noss as info rma ções , no enta
dep ois de 1532 : nas mon ta-
vis1o que a pop ulaç ão cost eira desa pare ceu logo
unid ade étni ca que gov erna -
nha s os gov erna ntes loca is pert enc iam à com
VJ nL Co mpr een diam o que era
exig ido deles, pois , pelo men os teor icam en-
traç o and ino extr ema men te
te, pre va lec iam o s pad rões pré- inca icos . O
impo rt:1n te que cara cter izav a esse s pad rões
era que a desp ensa do alde ão <
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pnm ::ine cess c in toca da. Na verd ade , ago ra


ele tinh a não só de enc her os o::
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ário loca l, n1a s tam b ém de prod uzir ren-
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s há pou co exp ropr iada s ou
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86
real. Desses apenas Huánu co Pampa foi estuda do em detalhe : abran g1a.
quase dois quilôm etros quadra dos e contin ha até, cinco mil residências e
palácio s, além dos quase quinhe ntos armazé ns. E provável que a cidade
tenha abrigad o de doze a quinze mil habitan tes, a maiori a dos quais presta-
vam serviço de mita no seu turno; mas alguns viviam aí em base mais per-
manen te: as mulher es dos acllahuasi que teciam e cozinh avam, os guardas
idosos, funcion ários respons áveis pela manute nção dos armazé ns, especialis-
tas religios os3s. Quanto s desses eram "incas" , fossem membr os das linhagens
reais, fossem allicac? Um escrito r andino como Guama n Poma afirmava que
seus parente s que não pertenc iam à realeza chegar am a ocupar esses postos
"federa is" nos centros admini strativo s.
Quaisq uer que tenham sido as suas propor ções ao longo da estrada, ftm-
cionári os reais "inspec ionavam " os senhor es provin ciais submet idos e seus
territór ios. As melhor es inform ações sobre seu relacio namen to provêm de
uma inspeçã o feita em 1562 aos chupay chos, um pequen o grupo étnico que
vivia no vale de Huallaga, a cerca de dois dias de viagem de Huánu co Pampa.
Entrevi stados em sua própria região, declara ram que antes de 1532 existira:

um senhor inca que governava dez mil famílias ... [e] que vinha inspecioná-las um
vez por ano [... 1 e se achasse que o senhor local ou uma autorid ade menor era culpa-
da de cinco faltas muito sérias como a de não ter obedeci do ao que O representante
rea l havia ordenado
ou
a dt' ter querido rebelar- se ou
:1 de ter sido negligen te no recolhimento e remessa do que era d ev1'd o ou
~, de o5o ter reali za do os sacrifícios exigidos treAs vezes ao ano ou
:1 dr k1 ocupado as pessoas na tecelage , . serviço
m a seu p ropno . ou
_. ·
n de ter feito outras co isas que interferiam com o que d evrnm . t·azer e por o titns
. '· coi-
· e l· J · 0 ª
:,.J~ ~t'mdhantcs. Se co metesse cmco ia tas , e es lhe ti ra vam seu cargo e davain-n .
. .
t. 1 ·11 ,f dho ) s~'. t1 vrsse um capaz ~ - . , 111,II•'
' t se nao, dava m-no a se u trmão ou ao parente'
p1 nx1mo ...

·- - _..,_ -- - - . -~-·---,..,,..._, --- -- - - - - - -11- ci- ho ·


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J\1d;l ~1J1411Á1uru ,J,t Mt• •t l·1, l')"I > pp. J l7- J/ S,
' ,., 1 li
87
se algum senhor étnico [cacique principal] tentasse opor-se e rebelar-se, eles o mata-
vam e a toda sua linhagem, de modo que nã.o restasse ninguém. Quando os incas
ainda viviam, essa testemunha era jovem e viu um pouco disso e o resto ouviu de
seus pais e de outros homens velhos que falaram sobre isso. Esses eram fatos bem
con 11ec1·d os... 39 .

Nenhuma crônica européia precisou em termos tão explícitos a articula-


ção dos senhores étnicos com o Estado. Outra testemunha mais velha que a
primeira, chamada Xagua e com experiência em ((servir" em Cuzco antes de
1532, explicou ao inspetor europeu que, quando o senhor local morria:

se ele tivesse um filho crescido, capaz de governar, ele não ousava assumir o governo
sem antes ir pessoalmente a Cuzco, para receber a aquiescência dos incas e o assento
[tiana] para seu cargo; então o Inca o concedia. E se o filho era uma criança sem
condição de governar, eles o levavam a Cuzco e em seu lugar indicavam um parente,
o mais próximo do senhor falecido, para governar em seu lugar, e isso ele fazia
enquanto vivesse e eles não o destituíssem ...
\

Outra testemunha em idade avançada podia lembrar-se do período anterior


ao domínio inca e se referia aos tempos

antes que os incas chegassem a essas terras. Quando um senhor morria, eles conce-
diam a autoridade a outra pessoa que fosse corajosa, não a davam ao filho. Depois
que os incas passaram a governar, ele ouviu falar que sucediam de pai para filho ...

Nesse caso, as testemunhas confirmaram o que alguns escritores euro-


peus também haviam registrado sobre a prática pré-incaica: uma mudança
da "escolha do corajoso", nos chamados ahuca runa, tempos militares, para
um a m aior rigidez nas linhas hereditárias 40 .
As teste munhas do vale de Huallaga não entraram em detalhes sobre o
censo que as autorid ades de Cuzco realizavam em suas (( inspeções". Perio-
di ca mente, as famílias era m contadas e os res ultados amarrados co m nós ao
n:gistro qujpo. Segu nd o Guaman Poma, os homens e as mulheres eram classi-

0 11i :,, Lk Zúni ga, /.11 /> rovi 111'it1 dr l .e(J ,1 , vo l. li , pp. 115-LI').
lnhn V. Murra , " La Visit a de ll)s ( ;1111 pacllll c:01110 h1 L'n le l·'. tnol óg ica'', part e II: Las Autori-
d;1cl es Ét.11Í cíls ·rradi cionak s", c 111 Ortiz dl' Zt't i'l iga, /,11 Provi11cit.1 de León, pp. 38 1-406.
88 concomitante com o
reconheci.
censo era
ficados em dez grupos etários41, O
novos casais entravam agora
Estado dos casamentos recentes: os
mento pelo
solteira, qualquer que fosse sua
nas listas por direito próprio. Nenhuma pessoa
incluídos como parte da
ela o u ele eram
idade, devia serviços pessoais de mita; familiar de passagem,
casamento, um rito
família de alguém. Transformar o
uma característica
da ideologia política inca2.
n u m artificio político foi

final do período inca foi feito um estorço no senti


Há indícios de que no
reconhecimento havia regido as rela-
do de ir além do princípio étnico, cujo
introduzido um vocabu-
do Estado unidades integrantes. Foi
com suas
ções cordas
arranjo decimal dos
nós nas quipo.
lário administrativo, vinculado ao
ser registrados no
os senhores étnicos e suas "províncias podiam
Agora,
centenas e mesmo grupos menores de
como
censo c o m o tantos milhares,
28 unidades de mil
família. Dizia-se que os senhores de Huanca governavam
no Huallaga superior,
ou huaranca; Lupaca, vinte. Xulca Condor,
os de
o vizinho rio
cem famílias cada, enquanto
registrava apenas três pachaca de
huaranca.
abaixo, Pahucar Guaman, afirmava ter governado quatro
decimal ultrapassava a
Não se sabe ao certo até que ponto esse esforço
efetiva dos grupos étnicos
prática do censo, interferindo na administração
submetidos. Evidentemente, no havia dispositivos burocráticos que pudes
sem manter unidades sociais e étnicas dentro de padröes decimais rígidos.

Quando o material de Huallaga foi liberado para estudo, foi possível utilizar
os números casa-por-casa para mostrar que um pachaca correspondia a um

Mesmo 1549, após resistência de


grupo de cinco aldeias vizinhas43,
em uma

dez anos aos europeus, as cinco registravam uma população de 59 famílias.


Treze anos mais tarde, esse número voltou a crescer para um total de 75.

Um estudioso sueco, Ake Wedin, vinculou o surgimento do vocabulário


decimal às necessidades militares. Se isso for correto, seria de esperar que
fosse usado com mais freqüência entre os aimarás, nos Andes meridionais.
No entanto, descobrimos que é usado mais amplamente no norte, onde

alguns acreditam que os incas tè-lo-iam adaptado a partir de prática local"

uAan Poma de Ayala, Nueva Coronica, pp. 196-236.


Jobi V. Murra, The lconomie Organization of the Inka State, Greenwich, Conl. 955;

ICmpiess cm 1980, p. 98.


4Gordun . Hadden, "Un em
Fnsayo de Demografia listórica y Etnológica en
tlua
Otiz de 7uniga |1562), La Provincia de Leon, vol. I,
pp. 371-380.
Juhn l1. Rowe, "Ihe Kingdonm of Chinor", Acta Americana, México, 6(1-2): 26-97* 18.
Sao vagas as intormaçoes sobre uma intervenção inca em 89
qucstoes da
vida quotidiana local que poderia ter desatiado a
autoridade. Uma testemu-
nha afirmava que:

nas causas civis, se um havia invadido as terras de outro


reclamasse. quando o
e esse

incavinha inspecionar a regi0, ele investigava a


questão e prestava assistència devol-
vendo a terra queixoso e punindo o invasor. O mesmo
ao
podia ser feito pelo senhor
étnico na auséncia do inca..

última cláusula é sob alguns


A
aspectos a mais importante. Muito antes
dos incas, mas também hoje, o líder étnico nos
Andes confirmava anual-
mente os direitos das linhagens e familias às
terras. Embora os
tes do Estado
representan-
possam ter alegado que agiram quando foram chamados.
segundo nossa visão do Estado inca as decisóes locais sobre as parcelas agri-
colas permaneciam em màos étnicas.
De acordo com
testemunhas do vale de Huallaga. Cuzco introduziu algu-
mas
limitaçòes à autoridade do senhor étnico na decisão de questões de vida
e morte. Em casos de assassinio, diz uma testemunha:

cles traziam acusado à presença dele [do inca c perante o senhor local, em
o
praça
pública, as testemunhas |...] descreviamo crime ... e se ele tivesse assassinado mas
houvesse uma explicação, eles nao matavam mas
o o
puniam com chicotadas |... e

obrigavam-no a sustentar a viúva e os filhos...

Não é possível determinar a freqüencia


que se realizavam tais viagens
com
de
"inspeção". O escritor andino Guaman Poma afirmou que ocorriam a
Cada seis meses: as
testemunhas acima citadas, uma vez por ano. Se for verda-
de, tal
freqüência teria exigido de Cuzco uma grande equipe de retaguarda,
o
gue não há provas imparciais. Até onde é possível uma a reconstituição,
POntica era decidida no topo e anunciada em reuniòes públicas realizadas no

Construido em cada um dos grandes centros administrativos de dimen-


cs
urbanas ao longo da estrada real. A implementação de qualquer política
Paece ter sido deixada nas m os dos líderes étnicos locais familiarizados com

l d , que decidiam a quem cabia a vez de servir a mita na execução de


Cminada tarefa. Foi dada como certa a capacidade da autoridade étnica
de
1zar e controlar grandes números de cultivadores, construtores ou
soldados, e isso foi provado nos primeiros dias da invaso européia quando
90
Pizarro ou Benalcazar contaram com seus aliados para recrutar tropas e car.
regadores, sem os quais a invasão não teria tido sucesso.
A diversidade de tarefas abrangidas pela mita pré-hispånica era muito
grande. Temos um relato, até agora único, datado de 1549, que afirma ter rela
cionado as tarefas que um único grupo étnico, relativamente pequeno, devia a
Cuzcos, Esse registro foi feito apenas sete anos depois que os chupaychos do
vale de Huallaga foram colocados sob o domínio europeu. Os
informantes
ainda vocabulário decimal para descrever a
usavam o
organização local.
Quando os interrogadores quiseram saber o que as "4 mil" familias haviam
dado" ao Estado, Pahucar Guaman e responderam lendo um quipo
seus pares
de cerca de 25-30 cordas. E bastante
provável que o registro esteja incompleto;
os totais
alegados parecem muito altos e não são confirmados por nenhuma
outra fonte
disponível. No entanto, a falta de uma amostra no nos deve impe-
dir de usá-lo, se não
quanto aos números citados, que podem simplesmente ter
sido traduzidos de modo incorreto,
pelo menos no tocante às categorias étni-
cas que quipos utilizavam para agrupar tipos de obrigação. No início do
os

período colonial, os tribunais europeus, mesmo as audiencias


reais, aceitavam
prontamente testemunhos sob juramento com base no
nha que quipo. Uma testemu-
chegou aos Andes como corneteiro de Pizarro relatou
outro caso:
os índios deste país mantêm
registros e contas das coisas que do a seus
usando o que chamam de senhores .
quipos; tudo o que é dado [mesmo
também está registrado lá. E essa que] muito tempo atras
testemunha sabe que os ditos
cisos e verdadeiros,
pois em muitas ocasiões diferentes a quipos são muito pre
mas das contas
que havia feito com os testemunha conferiu aigu
dado e lhe índios, registrando coisas eles
deviam e outras que ele que havian
Ihes havia dado.
pelos ditos índios Achou que os
quipos mantia
eram muito
precisos... 46
As duas
primeiras cordas lidas em 1549
man estavam pelo contador de Pahucar
provavelmente
tinham minas e, fora de ordem; u
tinham, que dissesse
se haviam-lhe perguntado se
eles
nas minas de ouro. A quantos "índios" estavam
dos

pachaca, cem lamílias; cada um resposta foi três


homens e três mulheres"jog ada
servia por um ano. a
Ortiz de
,
7.uniga, La
lProvincia de León, op.
Waldemar Espinoza cit., vol. I,
Soriano, "ILos Huanca pp. 289-310.
Cientificos de la
Universidad del Centro, Aliados de la
Congquista |156U] Anales

Huancayo, I:367, 1971-1972.


91
O encarregado dos registros tinha permissão para proceder da maneira
que quisesse. Em primeiro lugar, ele relacionou oito obrigações devidas à
coroa inca em Cuzco e fora dela. Devia-se enviar "quatrocentos índios" para
a capital, a cerca de sessenta dias de viagem de suas casas, "para fazer
muros". Outros quatrocentos deviam plantar, produzindo alimento "para os
ausentes. Mesmo que se admita a possibilidade de que o número 400 se
refira a ambos os sexos, mesmo 400 pares ou casais tirados de quatro mil
familiasé uma porcentagem muito alta da população chupaycho total. Se
todos os grupos étnicos enviassem a Cuzco efetivos tão altos, não haveria
lugar, fisicamente, para ficarem. Uma saída fácil é admitir um erro na tradu-
ção ou na cópia, uma vez que o intérprete era um habitante local cuja arit-
mética em espanhol poderia não ser muito precisa. Pode muito bem ser que
Os quatrocentos pedreiros fossem os mesmos quatrocentos que realizavam o

cultivo, pois muitas vezes as pessoas enviadas em suas tarefas de mita


tinham de plantar o próprio alimento. Outra explicação seria admitir que Os
senhores tinham algum motivo para exagerar suas
obrigações no periodo
inca. Essas oito cordas incluíam também as pessoas que guardavam a múmia
do rei Thupa; outros serviam em guarnições que enfrentavam o rebelde
Extremo Norte.
As dez ou mais cordas seguintes referiam-se a obrigações executadas emn
lugares mais próximos da residncia, dentro do território disperso que «
chupaychos controlavam, no que é hoje o departamento de Huánuco. Elas
abrangiam o pastoreio dos camelídeos do Estado, a tecelagem da sua lã e a
coleta de terras e cores para seu tingimento. Très cordas enumeravam a
mineração de sal e a colheita de pimentas fortes e de folhas de coca. A corda
l3 referia-se ao principal piso da regio dos chupaychos, o largo leito do
Pilcomayo, o rio hoje conhecido como Huallaga. Aqui o povo de Pahucar
Guaman forneceu quarenta "índios" que:

Euardavam os campos que eles [os incas] tinham por todo esse vale e o milho [colhi-
do seguia principalmente para Cuzco, mas também para os armazéns |no centro
administrativo de Huánuco Panmpa, a dois dias de viagem]..."

6 a e a única referência no quipo a terras tomadas pelo Estado no território


dos chupaychos.

7.
Ortiz de Zúñiga, La Provincia de León, op. cit., vol. Il, p. 306.
92
As cordas 17-20 constituem uma macrocategoria de hábeis artesãos
os aque
também haviam permanecido na região em que habitavam. Uma delas oo
e
referia aos batedores para a caça real, outra aos fazedores de sandálias, outra
a "carpinteiros que fazem pratos e tigelas nas åreas de madeira rio abaixo
em relação às suas principais aldeias. Esse era também o piso em que se cul.
tivava a folha de coca, mas as duas cordas que relacionavam essas tarefas não

foram registradas no quipo de maneira contigu1a.


Com as cordas 21-24 retornamos a atividades vinculadas as instalações do

Estado, exceto que essas se referem ao centro administrativo regional dos


incas em Huánuco Pampa, a dois dias de viagem do vale de Huallaga. Aqui

68 famílias chupaychos forneciam "guardas", um trabalho que partilhavam


com muitos outros grupos étnicos da região - m a s até o momento
pesqui-
sa arqueológica não conseguiu determinar o raio de abrangêència em que os
"guardas" eram recrutados para esse grande centro de dimensões urbanas.
Outras oitenta famílias enviavam carregadores para transportar cargas
pela estrada real. Apenas dois postos de parada estão relacionados, um deles a
cinco dias de marcha no rumo sul, o outro a apenas um dia. As crônicas
européias haviam relatado que os carregadores eram responsáveis por apenas
um dia de transporte, mas estudiosos da rede de comunicações inca, como
John Hyslop, duvidam dessa afirmação. Quarenta homens "mais velhos"
eram designados para guardar "as mulheres do Inca"- as acllas, as mulheres
'escolhidas que teciam e cozinhavam para as tropas que passavam a cami-
nho do norte.
A corda 25, a última que foi lida, leva-nos de volta ao vale onde residiam
e praticavam agricultura: quinhentas famílias "plantavam e faziam outras
coisas deixar região". Esse é maior número individual
sem sua o
registrado
no quipo e se refere superficialmente ao mesmo tipo de tarefas que a corda
13. No vale o milho cresce bem; era uma importante colheita suntuaria c
ritual. A cerveja feita de milho era
indispensável pard para os rituais e

generosidade" institucionalizada. Podemos admitir que os quarenta indige


nas da corda 13, uma
família de cada pachaca, eram os esse

trabalho
responsáveis por co
durante todo o ano, enquanto os 500 se revezavam n0 cultivo.
Todas essas muitas atividades, ser
por mais diversas que sejam, pOuc
classificadas serviços de mita: na função de soldados, na
agricui ra
como
no trabalho de pedreiros, todos eles constituíam dispêndio de em

beneticio do Estado, devidos, energia os


em
proporções diferentes, por quase touo
s

grupos étnicos incorporados por Tahuantinsuyo. rdas


Nenhuma dessas
encerra a doação ouo pagamento de qualquer coisa com seus próprios 93

recursos-se nao contarmos as terras expropriadas inicialmente e agora

cultivadas em benefício do Estado, da coroa e do Sol.


Havia, no entanto, uma exceção: as cordas 8 e 9 se referiam à "feitura de
penas" e à colheita de mel. Eram produtos não-cultivados que eram cedidos
(a quem?), em benetício de suas famílias, pelos jovens não-casados, como
um produto secundário de seu pastoreio e de seu trabalho de batedor. É
nesse sentido que "não havia tributo" na sociedade inca: os únicos itens em
espécie efetivamente cedidos ao Estado eram fornecidos por aqueles que
ainda não haviam constituído sua própria família, e os próprios objetos
eram "crus", na dicotomia de Claude Lévi-Strauss. Nada de "cozido" era
devido à autoridade, nada que tivesse sido cultivado ou manufaturado para
a despensa do próprio indivíduo.
Que as rendas do Estado consistiam esmagadoramente de prestações em
de tempo gasto beneficio do Estado grande número de
energia, em num

quipo dos chupaychos. Os


empreendimentos, revela-se claramente no

melhores observadores europeus compreenderam isso: Cieza e Polo assina-


laram esse fato enfaticamente e confrontaram esse encargo com os tributos
em espécie exigidos das populações andinas na década de 1550. O próprio
protocolo de inspeção de 1549 registra também o que os chupaychos agora
davam a Gomez Arias de Avila, seu encomendero. Esse quipo é uma longa
lista de sacos de folhas de coca, roupas acabadas, calçados europeus, telhas,
alimentos e aves exóticos, devendo tudo isso ser enviado em espécie. Não
rendas
poderia ser mais dramática a justaposição de páginas que registravam
andinos.
geradas segundo princípios europeus e
A rápida expansão de Tahuantinsuyo através dos quatro mil quilômetros
do que é hoje o Equador, ao norte, até o Chile e a Argentina, ao sul, realiza-
da em menos de um século, gerou mudanças nas dimensões básicas e antigas
da organização andina. Tanto os vínculos administrativos quanto os religio-
dos senhores étnicos e dos
Os sofreram tensões. O governo indireto através
tornou-se mais difícil porque
não podiam ter garantia de
bdnluários locais
luncionou melhor
Chtendimentos complementaridade ecológica
comuns. A
rendas
era mais fácil impor as
havia mercados em grande escala;
a o baseadas no serviço de mita onde as autoridades politicas regio
TStado
volta de 1500
essas rendas. No
entanto, por
CTam usadas para recolher
a. na0 se podia assegurar muitas dessas pre-condiçoes.
o u cquatoriaic
temperadas
94 viram-se em regiões
exércitos de Cuzco Por exemplo, an
Os
sob novas condições ecológicas.
portanto, de puna foram encon.
pouco familiares, das condiçöes
no Peru, em lugar
norte de Cajamarca, onde não era possível viver a

chuvosos e mais quentes


trados climas mais acumular reservas de
não se podia
de altitude; onde
quatro mil
metros
onde a complementaridade
ecológica, se
e secos; e
chuñu e charki congelados local.
base menor e muito
em
era praticada
e quando presente, as trOcas complementares
era mais densa,
Na puna, onde a população
escambo e o comércio, se e
nas mãos do grupo étnico. O
permaneciam de um único
as c a r a v a n a s grupo
quando presentes, eram marginais,
pois
distantes locais de traba-
e econômico aos
étnico ligavam o núcleo político
eram m e n o r e s e
mínimos os con-
distâncias
ho que controlavam. Onde as

nas mãos das famílias de agricultores,


trastes, as trocas podiam permanecer
delas comerciantes
mas podem sido entregues a pessoas de fora, algumas
ter
os padrões meridionais
de
profissionais. Roswith Hartmann enfatizou que
"sem comércio, sem mercado" não se aplicavam a toda a Tahuantinsuyo
Udo Oberem e Frank Salomon mostraram que na região de Pasto-Carchi
havia mindalas, especialistas em trocas a longa e média distância. Uma das
mercadorias de luxo comerciadas era a folha de coca, cultivada no norte
pelos habitantes das planícies que não eram colonos nas montanhas; toram
também relacionados pouco pesados mas de alto
produtos
outros
valor
Salomon sugere que esses comerciantes gozavam da proteção política de
lideres étnicos do planalto e podiam dedicar todo seu tempo às atividades
de troca49.
Ao norte,
Tahuantinsuyo deparou-se com maior resistência do que a qu
enfrentou terreno mais familiar. A
em
tradição oral dinástica registra a neces
sidade de "re-conquistar" repetidas vezes os territórios ao norte de Tun
Pampa, a atual Cuenca. Esses desafios militares
ram incas a fazer
os
presumivelmente estimula
experiências primeiramente com soldados dos aimaa
num sistema
diferente da mita; somente doze
é
que lambem foram substituídos
anos antes da invasão
europpeia
por ex-rebeldes locais, os cañaris, oopta
cOOP
Koswith Hartmann, Markte im alten Peru, Bonn, 1986.
do Dlerem, "}| Ateso a
Recursos Naturales de
uia Dilerentes Ecologias en la Sierra
cuato

(ig XVI)",
Iutenational Congress of IV;
Tak Americanists,
Salumn, "Systemes politiqurs verticaux Actes, Paris, 19/6, *
ESC
iit-6):9b7-989, 1978. aux
marchés de l'empire
95
dos para tarefas militares praticamente em tempo integral. Frank Salomon
traçou os detalhes da expansão inca no norte e mostrou que a tentativa de
impor as instituições sociais e económicas do sul foi tardia e parcial50,
As novas e grandes distâncias de Cuzco também tornavam dificil, senão
impossivel, aos mitmacs exercer seus direitos residuais de "arquipélago" em
sua comunidade original. E possível que, por volta de 1532, as pessoas ainda
fossem contadas no quipo de seu grupo original, mas, se ele agora estava
distante demais e suas novas tarefas eram muito especializadas, elas tendiam
a permanecer onde quer que fossem reassentadas. Mesmo a chegada e a
vitória dos europeus não persuadiram alguns mitmacs a retornar a seus luga-
res de origem, com exceção daqueles originários de grupos étnicos das pro-
ximidades, como aconteceu com os "mil" tecelões do Estado em Huancané.
Outro fator que estimulou a fixação permanente longe de sua base étnica
foram os privilégios concedidos a esses removidos. No vale de Huallaga, as
inspeções de 1549 e 1562 registraram queixas dos recém-chegados e de seus
descendentes nascidos no local, segundo as quais, logo depois da queda do
regime inca, a população local havia retomado muitos campos que haviam
sido expropriados em benefício dos mitmacs. E, no entanto, no há provas
de que qualquer um dos queixosos tenha retornado a suas regioes de ori
gem; simplesmente abandonaram a guarda das fortalezas que Ihes havia sido
determinada e se estabeleceram entre os nativos.
Waldemar Espinoza publicou registros de severas políticas incas de reas-
sentamento impostas na região de Abancays1l; uma grande parcela da popula-
ção local foi deportada para algum outro lugar e suas fazendas concedidas
aos mitmacs, alguns dos quais vindos de to longe quanto o Equador atual.
Medidas semelhantes foram tomadas ao longo da costa, onde os incas ocasio-
nalmente haviam enfrentado séria resistência: as sociedades locais de irriga-
ção foram deslocadas, uma parcela maior de terras no litoral foi tomada para
uso do Estado, os habitantes da planície não foram admitidos no exército por
falta de confiança e os templos do culto solar foram impostos. Não se sabe
até que ponto os habitantes das montanhas interferiram no tráfego em janga-

50.
Frank Salomon, Ethnic Lords of Quito in the Age of The Incas: The Political Economy of
North-Andean Chiefdoms, Cornell, 1978.
51.
Waldemar Espinoza Soriano, "Colonias de Mitmas Múltiples en Abancay, Siglos XV &
XVI: Una Información Inédita de 1575 para la Etnohistoria Andina", Revista del Museo
Nacional, Lima, 39:225-299, 1973.
de Guayaquil, mas é
96 águas quentes do golfo
das, ao longo da costa, para as
afetado.
não tenha sido
pouco provável que realizados pelo Estado ultra-
Os casos mais extremos de reassentamento

complementaridade
extensão
concebível do principio de
passam qualquer de milho, em Yucay e
Envolvem dois extensos vales, produtores
ecológica. nativa toi deportada e
Em ambos os casos, a populaç o
em Cochabamba. esforço
não se fez qualquer
trazidas53, Aparentemente,
novas pessoas foram ideologicamente aceitáveis:
reassentamento em termos
para apresentar esse demasiado
demais e as deportações
eram extensas
as regiões expropriadas t e r m o s de "acesso a uma
em
explicadas
Completas para que pudessem
ser

recursos".
variedade máxima de relacionado
reassentamento esteve
Em Yucay, que fica perto de
Cuzco, o
estavam os solda-
entre os transferidos para a região
com fatores políticos: cañaris rebeldes
entre os
dos que trabalhavam em tempo integral, cooptados
às obriga-
no norte. E possível que sua dedicação em tempo quase integral
como s charcas
tido precedentes nos Andes, mas,
militares não tenha
ções os cañaris
anos antes de 1532,
eles haviam substituído apenas doze
que
cultivar o pró-
ainda recrutados
eram às linhas étnicas e ainda deviam
junto
de
prio alimento quando em suas aldeias origems4
No maior vale de cultivo de milho em toda a Tahuantinsuyo, Cochabam
foi tomada uma
ba população local também foi expulsa, mas neste caso
a
cultivadas
medida sem precedentes para aumentar a produtividade das áreas
do Estado. No governo do rei Huayna Cápac, pouco antes da invasão eur0
péia, o território recém-desocupado foi dividido primeiramente em qua-
a
drantes e cada um desses faixas que iam "de cordilheira
quadrantes em

cordilheira". Cada faixa era atribuída a um grupo do planalto, de lingue


de
aimará, que vivia do lago Titicaca, no extremo norte, até o deserto
Atacama, no sul; os agricultores assentados não eram colonos mitmacs, na
imas

Sim mitayucs enviados temporariamente por


turnos. Exceto por
mita
algun
carreiras de milho em cada quadrante destinadas à alimentação das

ca Pre
2María Rostworowski de Diez Canseco, "Mercadores del Valle de Chincha en la
John 1
hispanica", Revista Española de Antropología Americana, Madrid, 5:135-178,
Murra, "El 1Tráfico de Muelu en la Costa
17 1975.

del Pacífico", em Formaciones


Nathan Wachtel, "Les mitimaes Econome isation

de la vallée de Cochabamba: la
de Wayna politique de
Capac", Journal de la Société des Américanistes, Paris, 1980.
4.
Murra, "La Guerre et les rébellions", pp. 933-934.
97
(que envolviam não menos de treze mil agricultores e 2 400 depósitos
locais), a maior parte do cereal colhido era enviada ao centro administrativo
que os incas haviam erguido em Paria, no planalto, e de lá para Cuzco3,A
substituição do princípio de mitmac por um novo tipo de mita deve ter tido
implicações ideológicas que até agora não foram desvendadas.
Outra mudança no final do período inca trouxe no fim das contas conse-
qüências de grande alcance: o surgimento de populações cuja filiação e con-
tagem no grupo original foram interrompidas pelo Estado. Essas pessoas
dedicavam tempo integral aos negócios do rei, e talvez até do Estado. Já
foram mencionadas as mulheres aclas, "escolhidas" para tecer para o Estado
e para o rei; Guaman Poma ouvira dizer que havia seis tipos de aclla com
status e responsabilidades diferentes56, Quase nada se sabe sobre sua organi-
zação interna, pois elas eram atraentes para os soldados europeus (que as
identificaram a "freiras") e assim desapareceram quase imediatamente
depois de 1532. Um equivalente masculino eram os yanas, que também
foram removidos de suas aldeias de origem pelas autoridades. Ao contrário
das acllas, formavam famílias; trabalhavam em tempo integral como arte-
sãos, pastores e agricultores.
Há provas de servidores do período pré-incaico designados para as famí-
lias políginas dos senhores étnicos. Uma autoridade menor no vale de
Huallaga mencionou quatro desses yanas locais: um que vivia rio acima no
vale principal, cuidando dos rebanhos do senhor; o segundo trabalhava rio
abaixo, nos campos de folhas de coca; os outros dois viviam no mesmo
povoado com seu senhor e atendia a seus múltiplos interesses. E possível que
se trate de simples coincidência o fato de o número de seus yanas ser o
mesmo que o de suas esposas3.
A ideologia inca, tal como se reflete na tradição oral dinástica, afirmava,
todavia, que os yanas eram uma inovação sua. Dizia-se que um "irmão" real,
enviado para inspecionar o domínio e realizar um censo, teria removido do
quipo algumas populações, esperando usá-las numa contestação dinástica
contra o irmão reinante. A trama fracassoue da pele do irmão foi feito um
tambor; as pessoas não registradas por ele também foram tratadas como
rebeldes e deveriam ser mortas. Supõe-se que a rainha tenha impedido o

35,
Wachtel, "Les Mitimaes", op, cil.
s6.
Guanman Poma de Ayala, Nueva Coronica, pp. 298-300 | 300-302|.
Murra, "La Visita de los Chupachu", o. ci.
98
massacre sugerindo ao marido que os "rebeldes" poderiam ser aproveitados
no trabalho em propriedades reais. Como o lugar onde 1sso aconteceu cha

mava-se Yanayaco, os servidores foram daí por diante chamados yanas e as

vezes yanayacos58.
Observadores europeus relataram que essas populações ficaram isentas"
das obrigações étnicas e do parentesco, uma vez que na contagem não eram
mais incluídas junto com seu quipo original. Embora muitos tenham afir-
mado que a sua condiço de serviçal era hereditária, as provas disso não sâo
conclusivas: uma das poucas menções a seu destino em relatos mais antigos
e confiáveis afirmava que somente o filho do yana que fosse "apto" para esse
serviço lhe sucederia no trabalho. Os outros presumivelmente retornavam a
seu lugar de origem étnica. Há muita pressão sobre a prova no sentido de
interpretá-la como se os yanas fossem escravos59,
As tentativas de apresentar como privilégios o que na verdade eram
novas e onerosas tarefas e mudanças de status foram provavelmente anterio-
res aos incas. O nome das acllas, perdidas para para seus grupos étnicos e

seus maridos em potencial, provém de acllay, selecionar, escolher; o nome


dos yanas é oriundo de yanapay, assistir completamente, ajudar alguém sem
qualquer cálculo de retribuiço. O servidor deportado devia encarar sua
nova tarefa como uma variante do tipo mais altruísta e emocionalmente gra-
tificante de deveres recíprocos60, Não se sabe certo
ao
alguém no Estado
se
inca foi enganado por artifícios lingüísticos tão transparentes; há muita
coisa acerca dessas populaçõesservidores que ainda desconhecemos.
de
Uma das dimensões mais acessíveis de seu status e
funções deveria ser a sua
proporção em relação ao total da população. Embora a
rentemente pequena (cerca de um proporção seja apa"
por cento do total), não precisa ser esse
único aspecto a considerar. Se a
tendencia foi no sentido de crescimentoe c
seu status foi
afetado por "rebeliðes", os
do futuro. yanas podem ter sido os precurso res
Tahuantinsuyo em 1500 parece ter sofrido um processo de
mento dos
grupos étnicos relativamente aras 0-
autônomos que falavam sua P
John V. Murra, "Nueva Información sobre las Poblaciones Yana", Econo
nilcus. em
Forniacto
milio Choy, Antropologiae Historia,
Lima, 1979. Sobre debate torno do mod
de
produgao predominante em o enm
torno
1532, cf. os vários e m : W a ld e m a r

ESpinoza Sornano (ed.), Lus Modos artigos reproduzidos e


de Produción en
u0 Murra, "Nueva el Imperio de los Incas, Lia, 978.
lnformación sobre las
Poblaciones Yana", op. cit.
99
Drias línguas, adoravam oS seus deuses e eram capazes de suprir, como
étnico, a maior parte de suas necessidades. Tudo isso seria afetado e, a
grupo
longo prazo, ameaçado pelo surgimento
de servidores em tempo integraló1

neste
antes da invasao
européia, Cl.,
Para SSes ulteriores sobre as sociedades andinas

e , o trabalho de Wachtel, cap. 5, pp. 195-259.


1111 P,JJW

OS ÍND IOS DO BRASIL EM 1500

O MODO mais satisfatório de classificar as muitas centenas de tribos indí-


o os
genas que viviam na região hoje ocupa da pelo Brasil em 1500, quand
t. Quatr o
europeus chegaram, é por grupo lingüístico e pela geografia e hábita
ho da
eram as principais famílias lingüísticas (na ordem provável de taman
as lin-
população): tupi (ou tupi-g uaran i), jê, caraíba e aruaque. (Outras famíli
atual:
güísticas tinham poucos representantes nas extremas fronteiras do Brasil
a ao
xirianá e tucano no noroeste, pano e paezan no oeste, guaicuru e charru
as, ou
sul. Algumas línguas tribais sobreviventes são classificadas como isolad
biqua ra,
apenas fracamente ligadas aos principais tronco s lingüísticos: nham
centenas
bororo, carajá, mura, aripaquitsa, e certamente muitas outras entre as
.)
de tribos que se extinguiram antes que os lingüistas estudassem sua língua
costa
Os tupi-g uaran is estavam estabelecidos ao longo da maior parte da
ou do
atlântica. É possível que tenha m provin do dos contra fortes dos Andes
de gra-
planalto do médio Paraguai e Paran á e tenha m seguido um processo
fala tupi
dativa invasão da costa brasileira rumo ao norte. Outra s tribos de
tes sul
ocupavam a marge m sul do rio Amazonas e se deslocaram pelos afluen
fron-
até perto de sua foz e rio acima ao longo do Amazonas até quase a atual
planalto
teira com o Peru. Os jês ocupa vam o vasto e relativamente aberto
- os
central do Brasil. Desce ndem talvez dos habita ntes originais do Brasil
Gerais,
fósseis huma nos mais antigos, encon trados em Lagoa Santa, Minas
tipos jês
que datam de mais de dez mil anos, corres ponde m fisicamente aos
de terras
atuais. Essas tribos centra is de fala jê se distrib uem por amplo arco
nhas
do Maranhão ao alto Paraguai. Outra s tribos de fala jê viviam nas monta
até O pró-
do interior a partir da costa sudeste e em alguns locais desceram
adas
prio oceano. É possível que tenha m sido remanescentes de tribos desloc
pela invasão tupi, embo ra mostr assem pouca afinidade com mar.
O

a~s
A bacia amazô nica que era habita da e dispu tada por três dos princip
mais
gr~_pos lingüí sticos - tupi, aruaq ue e caraíba - foi palco das cultur~s

. antes da conqu ista. , n· ..,. ,1 desen
A ceranr terrad anailh ade
1 1as d o Brasil
· c·'e
1:i of1sti - · '· '
~

102
M araJo - do Amazonas, em san t.arei
· , na 1-oz ' n e em outros sítios às margens d
o
rio testemunha a existência de sociedades mais avançadas do que as tribos
que os europeus encontraram no século XVI. Alguns desses achados são
datados de dois mil anos atrás ou mais. Os omáguas do alto Amazonas -
que falavam uma língua aparentada ao tupi - ainda produziam uma cerâ-
mica elaborada na época de seu primeiro contato em 1542. As tribos tupis
o cupavam ilhas ribeirinhas, como Tupinamba ranas, e grande parte da mar-
gem direita do baixo Amazonas. No entanto, é possível que muito desses
índios tenham invadido essas áreas apenas pouco tempo antes, ou mesmo
depois, da chegada dos portugueses . Os aruaques estavam bem estabelecidos
às margens dos rios Negro e Orinoco, ao longo do médio Amazonas e nas
cabeceiras do Madeira. Junto às nascentes da maioria dos afluentes sul mais
importantes é notada a presença de tribos isoladas de fala aruaque; e a popu-
losa tribo dos pareeis se distribuía pelos rios das planícies do alto Paraguai.
O s aruagues são naturalmen te uma das maiores famílias lingüísticas . São
en contrados em toda a América Central e na Flórida e nas grandes ilhas do
mar dos Caraíbas. Uma teoria afirma que haviam migrado para o sudeste,
d es loca nd o -se para a bacia amazônica a partir da Colômbia. Outra teoria
ma is rece nte di z que sua cultura teve origem no próprio rio, na confluência
do Negro e do Amazonas perto da Manaus atual. As tribos aruaques pode-
riam cnt 5o ter-se irradiado para fora desse núcleo. Essas tribos ribeirinhas,
pnr usa rcm canoas como meio de transporte, eram dotadas de alta mobili-
da <l c. Corn exceçã o d a cerâmica, deixaram poucos artefatos que pudessem
~cr d:1 1;.1d os; além dis so, pouco trabalho arqueológi co foi realiz ado no
Arnazo n~1~. ( im possíve l, po rtanto , determinar com certeza a direção do
-rr10vimc n1 0 ou .1 di sposiç."i o geográfi ca precisa na époc a da invasão.
,, 'h urnquis tad o res espa nh ó is logo perceberam a a nimosidad e existente
.- ~

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t· r,t ft' o:-; .1 ru:-1ques mJi s sed en tá r ios e o s ca raíb as agress iv os muitas vezes
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e. 150 0
Os índi os da Bac ia Ama zôn ica e do Bras il,

sofis ticad as do vale do


afirmar que são sobr eviv ente s das cult uras mais
ses não haviam subjuga-
Amazonas. Até a meta de do século XVII os portugue
do Marajó. Com o acon-
do esses ((nheengaíba" C'língua estra nha" em tupi ) o
eles desapareceram, víti-
tece u com quase todas as tribos do leste do Brasil,
o
"'
. tros de ataques cara1
,. s. H a' regis . 'bas, a
.~ e das doenç as euro peia
111 as d-•1 ii1v asao ~
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-1

JVos na foz do Amazonas. No século XVI, amd a estav V)

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o baix o Ama zona s -- ao
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' guns -o1)lem -
icw,, Nat u mi n1 en1,·, os í nd tos c.lesL·onhcL:tam a escn-
, p1 a s hi st6r
~

104
ta e qualque r sistema de numeraç ão. Suas lendas e tradiçõe s orais, apesar de
ricas em criativid ade, são quase inúteis como testemu nhos históricos. Eralll
artesãos de grande habilida de, mas constru íam, decorav am e pintava 111
quase que somente sobre materiai s perecíveis.

A maioria dos índios brasileiros viviam em aldeias de curta duração. A


principa l razão disso era a ausência, nas terras baixas da América do Sul, de
animais nativos que pudesse m ser domesti cados - ao contrári o das lhamas
e das cobaias que fornecia m proteína s às grandes civilizações andinas. Não
havia, assim, criadore s de gado na Amazôn ia. Para aument ar suas safras
agrícola s, suas populaç ões estavam condena das a caçar, pescar ou coletar
caça silvestre e insetos. O resultad o foi o desenvo lviment o de uma sociedade
baseada em comuni dades que morava m em aldeias, populaç ões de alta
mobilid ade, que podiam transpor tar suas poucas posses rapidam ente para
áreas mais ricas de caça ou pesca, ou cujo ciclo anual muitas vezes incluía
migraçõ es para coleta de frutas, castanha s ou ovos no local e na estação
apropria dos. Não é por acaso que grande parte do Brasil era pouco habitada
ou percorri da pelos europeu s até poucos anos atrás. Tanto a floresta tropical
amazón ica entre os rios quanto os secos campo, cerrado e mato dos planaltos
se mpre se revelara m ambien tes muito difíceis para os seres humanos.
Mesmo o sistema do rio Amazon as, abundan te em peixes, manatis e tartaru-
gas, e cuja várzea é altamen te fértil, sofre inundaç ões periódic as. As florestas
que co brem uma parte tão grande do Brasil sempre foram inadequadas para
o cultivo, exceto nas roças plantada s por apenas duas ou três estações. Isso
ocorre porqu e os solos laterítico s sob as florestas são fracos, os predadores e
os pa rasitas ata cam continu amente, a compet ição com outra vegetação é
.r, int ensa e o sol inclem ente e a chuva incessan te, aliados a uma ausência de
,-
,1 ,
m udan ças sazo n ais d e tempera tura, desestim ulam o plantio repetido do
,..J
. d . . 1ente)
mesmo w l o. T o · os esses ta tores conspir am contra uma fixação permai
(,/
;.,;
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41'
tX<.<: t CJ no caso das tribos afortuna das qu e tinham força suficien te para ocu-
e. . .
,r pur lon go.l) trec hos das larg:.1s marge ns de rios ou da costa marítim a.
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.; de con slru çao cr.im a mad eira , o cipó e o capim, que são enC~lH '.:o
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111 °
c.1. l arn Bra sil. hnl dnlo , pou ca ajuda pod em os historiadores es pent .. , . . . -
nrq ueó logos. Os ún icos res tos arqu eo lógicos ex istent es s?\o os sarnhaqMts
-e
106
amplamente publicada de Américo Vespúcio a seu patrono Medici, aa cha.
chama-
da Mundus Novus, que tanto contribuiu para despertar o debate filosás.

sobre o nobre selvagem e que acabou por daro nome de América ao


ófico
novo
continente. Outro italiano, Antonio Pigafetta, que participou da circunavas
ção de Magalhães em 1520, contribuiu para retorçar o quadro idealizadod
avega-
de
Vespúcio sobre os índios brasileiros. A fonte portuguesa seguinte em por-
tância foi o diário de navegação de Pero Lopes de Sousa, que fundou a pri-
meira colônia no Brasil em 1530-1532. Em 1549 chegaram os jesuítas, e as
cartas e escritos desses inteligentes missionários rapidamente se converteram

num conjunto importante de informações sobre os tupis. Foram muitoss


jesuítas que descreveram suas experiências, mas sao dignas de nota as obras de
José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e, no final do século, Fernão Cardim,
As outras fontes portuguesas de maior importância nesse período inicial são
as crônicas de Pero de Magalhäes Gandavo e de Gabriel Soares de Sousa
(datadas respectivamente de 1576 e 1587) e a história da conquista do nordes-
te do Brasil, escrita por frei Vicente do Salvador no início do século XvVIL.
Os autores de outras nações européias forneceram muitos outros deta
lhes sobre as sociedades indigenas e uma compreens o mais solidária da
visão e da filosofia dos índios. Dois soldados alem es- Hans Staden, que
sobreviveu à captura pelos tupinambás perto de Santos em 1552, e Ulrich
Schmidel, que participou de expedições ao alto Paraguai nas décadas de
1530 e de 1550- deram uma visão admirável da vida tribal. O mesmo se
pode dizer do relato de um jovem aventureiro inglês, Anthony Knivet, que
viveu entre as tribos do Paraíba do Sul no final do século XVI. Mas os laurés
vão para os franceses. A colônia de vida curta que fundaram no Rio de

Janeiro, de 1555 a 1565, produziu dois magníficos cronistas, o calvinista


Jean de Léry e o cosmógrafo franciscano André Thevet. Uma tentativa po»
terior e ainda mais curta de
colonizaro Maranhão produziu mais dois
nistas refinados entre os
missionários, Claude d'Abbeville e Yves d'Evreus.
A primera
impressão dos europeus sobre os índios brasileirosP
art-

cularmente sobre os tupis que habitavam a tr


costa leste- foi a de grup
bais simples e
sociáveis, que viviam em harmonia interna mas 7tados

por hostilidades intertribais. Os


ator
índios eram fisicamente perteitos, P
que os exploradores
ao nascer. Seu
desconheciam, todo recém-nascido anormal ela era morto

modo de vida ativo, em dade

que cada membro da CO


participava da caça, da pesca ou do cultivo boa

os mantinha em
agrícola,
torma física.
Vespúcio introduziu a falsa mantin ate
Os viviam até
crença de que os índios
JIIIII

107
uma idade muito avançada, com muitos deles atingindo mais de cem anos.
Como viviam em clima tropical ou semitropical, n ão tinham necessidade de
roupas. Essa nudez, combinada com a luxuriante vida vegetal e a abundân-
cia de caça silvestre, deu a impressão de que viviam num paraíso terrestre.
Vaz de Caminha escreveu a seu rei: «De que tiro ser gente bestial e de pouco
saber [... ] contudo andam mui bem curados e muito limpos [... ] os corpos
seus são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode mais ser. .. "l.
Vespúcio escreveu: «Imaginei estar perto do paraíso terrestre" 2.
Uma aldeia tupi típica consistia de quatro ou mais casas compridas, de
teto abaulado, cobertas de sapé e dispostas ao redor de uma praça circunda-
da por uma trincheira ou paliçada. Cada uma das longas cabanas, ou malo-
cas, abrigava muitas famílias, com suas redes penduradas perto do próprio
fogo onde cozinhavam. Os primeiros visitantes ficaram impressionados com
a tranqüilidade no interior dessas malocas. A falta de propriedades pessoais
dos índios e sua atitude comunal com relação à terra e o alimento causaram
também profunda impressão. "Em cada casa destas vivem todos muito con-
formes, sem haver nunca entre eles nenhumas diferenças: antes são tão ami-
gos uns dos outros, que o que é de um é de todos, e sempre de qualquer
coisa que um coma, por pequena que seja, todos os circunstantes hão de
participar dela " 3 . Cada grupo familiar era basicamente auto-suficiente ,
sendo o pai responsável pela caça e pesca, pelo combate e, se necessário, pela
limpeza da floresta para o plantio. As mulheres plantavam e colhiam man-
dioca e out ras plantas cultivadas por esses povos do litoral - especialmente
amend oim , algodão, algumas frutas e castanhas. As mulheres também pre-
pa rava m o alim ento e cuidavam das crianças. Ambos os sexos confecciona-
v:im se us própri os pertences pessoais: cestos, red es, arcos e fl echas, o rna-
mentos de penas e de contas, ferramentas simples, utensílios e armadilhas,
ca noas e, na turalmen te, as própri as cabanas de sapé. Isso significa que todos
os fndi os eram hábeis artesãos. Se nd o eles p róprios tão des tros, supunham
o
9Ut: todo europeu fa zia a pró pria ro upa e equi pa m ent o e ficara m e11o r me- o
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rni: n1t impress ionados co m a capacidade de co rte das facas e machados de ~
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o
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J , t1t tt, lo
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108
metal. Essa percepção incorreta fez com que os índios inicialmente atribuís-
sem habilidades quase sobrenaturais a seus visitantes estrangeiros. A pode-
rosa força de atração das ferramentas de metal continua sendo O meio mais
poderoso de persuasão de que dispõem as equipes ou os missionários para
pacificar tribos não-contatadas.
A expressão criativa dos índios estava em grande parte voltada para 0
adorno pessoal. Com exceção de algumas tribos do alto Amazonas, todos os
índios da Amazônia e do centro ou da costa do Brasil viviam em grande
parte nus. A decoração, portanto, consistia na pintura do corpo e em orna-
mentos de penas ou de pedra usados no pescoço, punhos, orelhas, nariz,
tornozelos ou cintura. Entre os tupinambás da costa atlântica os homens
usavam batoques polidos de jadeíta verde nas bochechas e nos lábios infe-
riores. Essas pedras eram muito valorizadas e comercializadas cuidadosa-
mente de tribo para tribo. Muitas tribos jês usavam discos de madeira nos
lóbulos das orelhas e principalmente nos lábios inferiores. Atualmente, entre
os caiapós, por exemplo, os meninos têm os lábios cortados na puberdade e
usam discos cada vez maiores à medida que vão crescendo. Os discos aba-
nam para cima e para baixo quando o usuário fala ou come; isso lhes con-
fere uma aparência terrificante, o que parece ter sido o propósito original.
O material decorativo mais facilmente encontrado era a plumagem de
incontáveis aves da América do Sul, pois a Amazônia possui mais espécies de
aves que qualquer outro lugar na terra. E os índios, para não danificar-lhes
as penas, aperfeiçoaram setas especiais, de ponta arredondada, para apenas
atordoar as aves. Diferentes tribos usavam elaboradas combinações de penas
para fazer adornos para a cabeça, braceletes, peitorais e para enfeitar suas
flechas, tacapes e maracás ( chocalhos feitos com os frutos do porongo).
-< Alguns xamãs (paJ·é ) t · b,
,....
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s en re os tupmam as usavam capas muito vistosas de
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o p~nas vermelho-vivas extraídas do guará; os guerreiros penduravam sobre as
z nadegas bolas de resina d d d .e •
o . . ro ea as e 1 e1xes de grandes penas de emas; e ª
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-r:: ma10na usava canitares de pe d . .
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q e , assim pareceu a Th t ''d'f· 1 Ic1·1 mente sena
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2 - 11101 Uit du .✓'XV/e s,eclc: /e Brészl et /es bi )I
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109
fazem adornos de cabeça com penas vermelhas e azuis de arara ou penas
brancas de garça fixadas em armações de vime. De modo semelhante, os
xavantes e caiapós, que falam o jê, preferem as penas verdes e amarelas de
papagaio ou as marrons acastanhadas dos gaviões ou as negras brilhantes
dos mutuns. Entre as miríades de desenhos criativos, três tribos entre essas
que sobrevivem até hoje primam pelo brilho de seus trabalhos de pena: os
bororos do centro do Mato Grosso, os carajás da ilha do Bananal no rio
Araguaia - cujas tiaras de pena rivalizam em fantasia com tudo o que foi
inventado na belle époque européia - e os urubus-caaporas do Gurupi na
fronteira entre o Maranhão e o Pará, cujas criações de beija-flores e outras
miniaturas, que mais parecem jóias, foram merecidamente temas de livros
de arte.
Outra via de manifestação da expressão criadora indígena foi sempre a
pintura do corpo. Duas tinturas vegetais são abundantes na maior parte do
Brasil e da Amazônia: o urucum vermelho e o jenipapo preto. O branco e o
amarelo também são usados, mas o preto e o vermelho predominam na
maioria das tribos. Os primeiros índios que os homens de Cabral avistaram
em 1500 foram guerreiros quarteados em vermelho e preto e um grupo de
moças atraentes, «entre as quais andava uma com uma coxa do joelho até o
quadril e a nádega toda tinta daquela pin~ura preta e o resto todo da sua
própria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e tam-
bém os colos dos p és. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência des-
cobertas que não havia aí nenhuma vergonha" 5• Em algumas tribos grupos
etários do mesmo sexo pintam-se uns aos outros. Entre as tribos do Xingu,
os homen s se pintam uns aos outros antes da luta corporal que praticam
com freqüência; as mulheres caiapós usam os dedos para pintar o corpo com
je nipapo e as partes inferiores com urucum; os cadiueus do sul do Mato
Crosso e os tiri6s do norte do Pará pintam ou tatuam elaborados desenhos
geo mt t ri (os no s rostos da s mulh e res; algumas tribos possuem marcas
o
p.1d ronjzadas -- círc ul os na s bochechas para os carajás, listras horizontais o
"'
L I Ui.ando as bochec has para os cintas-largas ou os suru ís, preto em torno da .?..
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h, Jld j)d r.1 o::. jurunM, , linh as tatu adas na vertica l para os assurinis e assim
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pur di r.1 11k; m. hur<Jf'OS e o utros têm có digo s elab orados de pintura corporal e.:
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par-a dífc:re11 ç·i:lr ,rn:1aJe1-i 1 das e grnp ns etúrios; enquanto qll l' ~)ara l) S iano - C)
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----.......

110
paração para ataques. Os grupos de guerra caiapós usam tinturas pretas para
se camuflarem sob a escuridão da floresta. Um dos primeiros observadores
notou que as mulheres tupis "pintam seus homens e fazem milhares de delí-
cias em seus corpos, tais como figuras de aves ou ondas do mar [... ] e as
mulheres pintam as próprias pernas, de modo que à distância parece que
6
estão vestidas com meias pretas muito finas de lã penteada ... " •
Outros ornamentos usados pelos índios brasileiros compreendem uma
ampla variedade de colares de contas, conchas e sementes, tiaras e cinturões
de sementes formando chocalhos, e - principalmente entre os carajás e os
tucunas do alto Solimões - máscaras feitas de palha, de abóboras ou de pau-
de-balsa e casca de árvore, para uso cerimonial dos pajés. Os pareeis do Mato
Grosso-Rondônia costumavam usar peitorais de pedra em forma de cruz.
Existe uma variedade de instrumentos musicais, muitas espécies de chocalho
e uma diversidade de instrumentos de sopro, desde as flautas nasais circula-
res dos nhambiquaras, às flautas de Pã, às trombetas compridas do alto
Xingu e aos berra-bois em formato de hélice dos bororos. As armas de cada

f tribo têm características individuais, com variações em detalhes como o com-


primento, a cabeça e a plumagem das flechas, o tipo de madeira e o perfil dos
arcos, os ingredientes dos curares, as zarabatanas geralmente entre as tribos
~o nort_e do Amazon~s, os escudos de pele de manati dos omáguas, os dife-
, entes tipos de armadilhas e a grande variedade de estilos de tacape.
.Ca .baças e .cestas são , e foram , u sa d as comumente como vasilhame na
, _ __a. das tnbos ' embora a tecedu ra e O d esenho da cestaria varie de tribo
ma1on
P <ll a t, J6o. Atualmente, são mais raros os trabalhos de ,. . A 'fi
-, · ~ · · d ceram1ca. s magm 1-
l d l'i eera m ,cas as antigas culturas a mazomcas ,. . de M ·, d S ,
pa recem i- er- se perd'd , araJO e e antarem
• I o na epoca da con .st 1
ma chi pa ros do alto A . , . . qm ª' sa vo entre os omáguas e os
41'.
1- · mazonas. Os pnme· l
.J vJr:nn 4ue a cerâm · . , . . iros exp oradores espanhóis obser-
,.,.J . ica om agua nvahzav . .
:;,
/ nq1wza de decoração ') . _,. . ª com a chmesa em delicadeza e
':i
_, . r o 1ic1o m1Ca. Entre d . .
.,. ,1~ 1nbos do Xingu sã t· as mo ernas tnbos sobreviventes,
e._, .. . o amosas po r seus d .
be1J u de rn nndioca e . , gran es algmda res para a feitura do
.. , , pc1os pratos zoomó f .,
,.. ve ,.,, Inte nd o há alg) un . ·é r icos vermelhos e pretos; os caraps

, .. ,. . s s cu 1os es tatu etas f . ,
· t \ r mc ntt os objetos primit . . , em 01 ma de bonecas qut' lembram
.r r11 ·1n ,,uJ, Li.: , . co J , tvos das C1clades· no E'. . geu,
- ra,mca . . eus deco~
e os cad1u
.,.
,i ~,.11 , . m e esenhos geométr· - , r~ nt .,,lhddos ,
semelhant es ao que
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u: ,1 p.1 1,1 cl tL o rar ~t•us . . . , lcns
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,(' __ _ ·-- · ,t Lta m sua cerâ mica modelando e
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kl I t. ( (J) ilWxtr1 pl11r , 1~ (:.!-~ --- - ---------------
.
111
às vezes usando moldes ou enrolando, mas nunca numa roda, num conti-
nente onde era desconhecid a a roda que gira sobre seu eixo.
As relações intertribais assumiram várias formas. Algumas tribos eram
tão isoladas que jamais entraram em contato com outros índios. Outras
estavam em guerra constante contra grupos rivais de seu próprio povo ou
contra tribos vizinhas. Os primeiros exploradore s observaram que, embora
as margens do Amazonas e de outros grandes rios fossem densament e
povoadas por uma série de aldeias indígenas, havia entre os territórios de
grandes tribos hostis zonas intermediár ias: faixas não-ocupad as de margens
de rios. Nas terras entre os rios, cuja ocupação era mais esparsa, as tribos
viviam muito distantes umas das outras, embora ocasionalm ente organizas-
sem longas jornadas através das florestas para atacar de surpresa as aldeias
inimigas. Havia exceções a esse padrão de guerra intertribal, que subsistem
ainda hoje. Alguns grupos de tribos aprenderam a viver pacificamen te entre
si. É possível que tal amistosidad e estivesse ligada ao escambo. Os primeiros
cronistas notaram a existência de um comércio de troca de alguns produtos
como a jadeíta, que passava de tribo para tribo ao longo da costa do Brasil,
ou de objetos de ouro trazidos ao rio Negro e ao Solimões pelos ativos
manaus, ou de madeira para arcos que os goitacás da foz do Paraíba do Sul
trocavam por peixe seco com as tribos do interior. Os exemplos modernos
mais conhecidos de troca entre tribos de grupo lingüístico diferente são o
escambo realizado entre as tribos do alto Xingu, contatadas pela primeira
vez por Carl von den Steinen na década de 1880 e com as quais se ocupa-
ram os irmãos Villas-Boas em décadas recentes; e entre os banivas e outras
tribos dos rios Uaupés e Içana. Diferentes tribos da região do Xingu se
especializar am na manufatura de produtos como grandes alguidares de
ba rro para fazer o beiju de mandioca ou colares de conchas ribeirinhas.
Esse comércio, juntamente com as festas ou as competiçõe s esportivas
ami stosas entre as tribos, deve ter contribuído para acalmar a tensão e a
violência ocasional sempre presentes entre tribos diferentes que viviam o
o
l i'\

muito próx im as . :E
'-'-l
Qua nto à o rga ni zação soc ial, variou considerave lmente de tribo p ara ..-l
V')

tribo . Entre os t upi na mbás, as moças tinham d e p assar por provas e segrega- <
e::
a:)

~ão na puberdade, após o qu e lhes era permitida uma consideráve l liberdade o


o
sexual. Um ra paz, an tes de se r co nsid erado s uficie ntemente valente para o V,
o
o
casam ento, tinha de provar-se ern co m bat e o u nn ma ta nça ele prisio neiros. z
V,
Tinha de serv ir a se u futuro sogro e garantir -lh e o sustent o . Depois de casa - o
112
tiéiIs um ao outro. Em geral
dos, ambos os parceiros permaneciam casa.
marido para a casa da da esne
mãe da
mento era matrilocal, mudando-se o
esposa,
fa
a
para estabelecer uma
menos que fosse
suficientemente poderoso
era resolvido com a
a
família
poligamiaa
excesso de mulheres
própria. Qualquer por
guerreiros famosos, esposas aceitavam-no Drons
e as
parte dos chefes e

mente, em parte pelo orgulho de estar associada a um homem importans.


nte e
em parte pela satistação de partilhar o trabalho de cuida-lo. Os homens
ens sse
casavam por volta dos 25 anos de idade e aos quarenta faziam parte do con.

selho dos mais velhos. Esse conselho se reunia regularmente para decidir
sobre as atividades da tribo. Cada maloca, com seu complemento de famílias
muitas vezes inter-relacionadas, era governada por um chefe, da mesma
forma que a própria tribo. Os chefes conquistavam sua posição por bravura
em combate, pela prosperidade decorrente da posse de muitos parentes ou
filhos, por poderes mágicos ou por dons oratórios. Mas possuíam pouco
poder na sociedade tribal igualitária: escreveu Michel de Montaigne, um
filósofo do século XVI, ter ouvido de um chefe que governava várias aldeias
que seu único privilégio era conduzir seus homens à batalha.
Como já dissemos, as tribos tupis, a exemplo da maioria das outras na
bacia amazônica, eram controladas por conselhos de homens mais velhos,
reuniam quase diariamente e eram dirigidas tibiamente pelos seus
chefes. No entanto, toda a tribo era rigorosamente obrigada a conformar-se
à prática aceita. E provável que esse rígido conservadorismo fosse necessári0
nas pequenas comunidades caçadoras que viviam em ambiente hostil. Isso

significava na prática,
ainda hoje significa, que todo excêntrico ou
e
não
conformista seria condenado pelos pajés como um espírito mau e morto
pelo restante da comunidade. Os primeiros exploradores estrangeiros tira"
ram conclusões quase subversivas da ausência de chefes fortes. "Não na

entre eles nenhumas boas artesdêem [...] não possuem nennu


a que se
fazenda, nem procuram adquiri-la como os
outros homens. [...] |Nao ic
tampouco estados nem opiniðes de honra, nem pompas para que as hajam
mister: porque todos, como
digo, são iguais e em tudo tão conformes "nas
condiçoes, que ainda nesta parte vivem da
natureza", Tornou-se um justamente, e conforme
a do
nobre
lugar-comum entre os defensores da
eo
selvagem dizer que os índios não têm "fé, idéia
revolucionária nem rei, nem lei". ESS .
originou-se de uma
observação incorreta. Embora od
Os índios
*

7.
Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, op. cit., pp.
128-129
113
não tivessem reis nem hierar quia de classe, efetiva mente tinham chefes e
mesmo chefes sobera nos, respei tados por um grande númer o de aldeias.
Tinham leis, obviam ente não-co dificad as, mas na forma de total confor mi-
dade a leis de compo rtamen to aceitas. També m tinham fé.
o mundo sobren atural era muito real para os tupis, mesmo que não
tenham tido uma religiã o organi zada. Sentia m-se rodead os de espírit os ou
demônios, alguns proteto res mas em sua 1naior ia malévo los. A vida tribal
estava envolv ida numa trama de lendas , mitos, cerimô nias e crença s espiri-
tuais. Quase toda celebra ção, quer relacio nada com o calend ário agrícola, a
caça, a guerra , quer com o ciclo de vida, se impreg nava de um sentido espi-
ritual. Toda tribo tinha pajés para interpr etar o mundo sobren atural e curar
por meio da fé do pacien te em seus podere s especiais. Os mais velhos da
tribo adorav am narrar as lendas de seus ancestr ais. As decisões eram toma-
das através da interpr etação de presság ios ou por adivinh ação. Hans Staden
salvou a própri a vida por ter previst o com sucesso as conseq üência s de uma
doença e de um ataque a outra aldeia: ele, como muitos outros europe us
numa aldeia nativa, rapida mente conqu istou a posiçã o e a aura de um pajé,
herói ou clarivi dente, de tal modo que a tribo que anterio rmente planeja ra
matá-lo e comê- lo aclamo u-o e tentou desesp eradam ente imped ir sua parti-
da. Cada índio indivi dualm ente també m era obceca do pela supers tição,
alterna damen te encora jado ou aterror izado pelos espírit os que infesta vam a
floresta, pela noite, pelos locais onde os ancestr ais eram enterra dos, ou por
animais malign os.
Os cronist as do século XVI registr aram muitas lendas comple xas e amiú-
de líricas e épicas heróic as. A julgar pela experi ência moder na das tribos
recém- atraída s, havia sem dúvida muito mais lendas que não foram registra-
das. Um ancestral heróic o dos tupina mbás guanab aras foi Monan , sobre o
qual escreveu Thevet: ((Dizem que ele não teve começ o nem fim , existin do o
tem po todo, e qu e foi ele que criou o céu, a terra e as aves e anima is que o
o
estão neles" 8 . Segund o a lend a, Monan fez com que o fogo e o dilúvio des- "'

truísse m o mund o antes de repovo á-lo com a linhag em de um herói chama-


do Iri n-Majé . O tro vão era id entificado ao urro de um demô nio chama d o
Tupã - e os jes u ftas, d e m o d o basta nt e surpree nd ente, ad o taram T up J
co_mo a traduç ão tup i para Deus. Dos mui tos es píritos m,1lignos, qu e os
0

m1"ssi 0n an - · An l·1,rn
· foi
., ·os ado tara m para co rrespo n de r a se u De m ô n 10 ,,., (tam
· g,l '
-

---
n - - - - -- - - - -
- ograph,·e, p. 38.
Thevet , eosn1
V,
o
11 4
· d O no rte pe lo non1e de Jur up ari
bé m co nh eci do en tre os tup is
). Th
escreveu que: evet

Esse pov o m1. sera, ve 1 e, f re qüe nte me nte afli gid o po r ilu sõe s fan tás
. tica s e perseg .
do pel o esp írit o ma lign o, que con u,.
ceb em sob vár ias for ma s. Ele lhe s
. a em apa rec e e os cas-
t1ga 1, d a me dºd _
1 a. [. . . ] Às vezes ouv íam o-l os gri tar de mo do terr
íve l durante
n01•te, eh am an d o e pe a·m do aJ·uda diz end o em sua lín gua a
, : "V ocê s não estão vend
[ ... ] An han gá que está me bat end o o
e ato rm ent and o? Me def e nd ªm , se
que rem que eu
os sirva!" 9 .

Os pajés era m os intermediários ent


re a co1 nu nid ade e o mu nd o sobren
tural. Eram os anciãos das tribos, ho a-
me ns ou mu lhe res , qu e haviam rev
po der es inc om un s de cur a ou de pro elado
fecia. Os pajés dir igi am as danças
cer im ôn ias gru pai s, ba lan çan do rit e as
mi cam en te os ma rac ás, e co m tira
sementes de aguaí nas pernas que cho s de
cal hav am ao ba ter os pés . As prediç
ou conversas com os espíritos era m ões
cercadas po r um ritu al ela bo rad o.
se realizava nu ma nu vem de fumaça A cura
de fum o e con sis tia em sug ar os ma
us
rl espíritos da pessoa afligida ou em fin
a doença. Era um ritual clássico de
gir cus pir alg um ob jet o qu e teria cau
sado
cur a, exe cut ado de div ers as forma
feiticeiros em tod a a Amazônia. Os paj s pelos
és be m- suc ed ido s era m altamente
renciados e obedecidos; mas um a sér reve-
ie de pre diç ões err ad as ou de curas
sucedidas po dia m custar a rep uta ção mal-
de um paj é e po ssi ve lm en te sua vid
Os tupis do litoral abs orv iam -se em a.
mo rta is co nfl ito s int ert rib ais e pare-
1 cem ter sido mu ito mais belicosos do
qu e os índ ios de ou tra s pa rte s do Bra
sil.
A guerra ocupava um a posição cen
tra l na vid a soc ial e rel igi osa da trib
prestígio de um ho me m era o res ult o. O
ado dir eto do nú me ro de inimigos
tos ou capturados. A finalidade do mor-
s co mb ate s int ert rib ais era mais cap
pr_isioneiros do qu e oc up ar ter ras ou turar
ob ter pil ha ge m. As sim , os ataques
feitos qu and o os sinais de au gú rio eram
pre diz iam a vit óri a e preferivelment
sur pre sa ou de em bo sca da - e1n e de
bo ra alg un s cro nis tas ten ha m rela
obser vação de gra nd es co mb ate s pla tado ª
ne jad os, em ter ra ou en tre flotilh
canoas de guerra A a as de
. rm a .pn·nc1· pa1 era o arc o e flecha, qu
vam com sur pre end ent e e os índ ios d.15Para-
.
'd ·
degeneravam em fe.1 . · rap ~
t ez e pre cis ão, n1as os co mb ate s
. b rap i•damen te se
oze
machados de ped ra Je s dco mé ate.s co rpo -a- co rpo co m pe sad os tacapes ou
·

· an e 1.. ry O 6 ser vo u u1n desses


co mb ate s:
9
· The vet, Cosmographie, p.
38 _

Mal se podia acreditar o quanto era cruel e terrível o combate. [... ] Se algum 115
deles era atingido, como vários o eram, ele arrancava as setas de seus corpos com
assombrosa coragem. [... ] Isso não o impedia de retornar, todo ferido, ao combate.
[... ] Quando finalmente estavam engalfinhados com suas grandes espadas de madeira
e seus tacapes, atacavam um ao outro com poderosos golpes com as duas mãos. Se
atingiam a cabeça de um inimigo, não o abatiam simplesmente, mas O trucidavam
como um de nossos açougueiros abate um boi. [... ] Esses americanos são tão violen-
tos em suas guerras que lutam sem parar enquanto puderem mover braços e pernas,
jamais recuando ou fugindo 1º.

Os combates entre grupos de tupis que partilhavam línguas e sociedades


idênticas tinham o objetivo de capturar prisioneiros para a execução ritual.
As lutas entre tribos de linhagem diferente podiam ser mais selvagens.
Anthony Knivet tomou parte em campanhas de exterminação, nas quais
centenas de inimigos foram mortos em ataques de surpresa e «pegaram mui-
tos velhos e mulheres que, à medida que os pegávamos, matávamos" 11 • Um
jesuíta escreveu que «existem tantos deles e a terra é tão grande e eles estão
aumentando tanto que, se não estivessem continuamente em guerra e
comendo-se uns aos outros, não se poderia acomodá-los" 12 . Outro jesuíta
via a guerra como «o escoamento normal de uma tal multidão, sem o que
não caberiam na terra" 13.
Os prisioneiros eram levados para ser atormentados com escárnio pelas
mulheres da aldeia vitoriosa. Deles se esperava que se comportassem com
total compostura, fazendo orgulhosamente ameaças de retaliação por parte
de suas tribos. Os prisioneiros mais valentes eram mantidos durante sema-
nas ou meses, sendo engordados pela tribo, e recebiam mesmo uma mulher
como parceira sexual, antes de serem mortos numa cerimônia elaborada. A

1
º· Jean de Léry, Le Voyage au Brésil de Jean de Léry [La Rochelle, 1578], ed. Charly Clerck,
o
Paris, 1927, p. 192. o
11
· Anth o n y Knív et, The Admirnble Adventures and Strange Fo rtun es of Mas ter Anton ie
-"'
~
U,l
.,..l
K11i vet.. . 1 J 59 1 J, em Sam uel P urch as, Hakluytus Posthumus or Purchas his Pilgrimes [ 1625], vi
<
o:;
µt 2, li vro 6 , cap. 7, HakJ u yt Society, 20 vols., Glasgow, 1906 , vol. XVI, p. 223. a:i

17 o
· Alon1,o Braz, carta do Es píri to San to, J 55 1, em Revista do lnstituto Histórico e Geográphico a
V)

lfra ~i/,,iro, 6: 4 42, 184 5. ~


a
11 2:
Crb 1ol,ítl de Ac. un a, N ,.,evo V c.fftil:iri 111 ic11tu dei Uio de la s Amazona s [ 164 1 I, São Paulo. Vl
o
l •J,1 1. p. l 9 'J . .j
116 l e na nuca e depois era esfolada e
,•
v1t11na era executada sem dor com um go P
cozi·d a. eada mem. bro da t 11·'b o comia um pedaço de sua carn e, para ga nh·<1r
sua força espiritual e perpetuar o espírito de vingança.

Vários cronistas tentaram fazer uma classificação geográfica das tribos da


nd
costa atlântica da foz do Amazonas às planícies do Rio Gra e do Sul. Há
uma certa confusão de nomenclatura, pois palavras como tupin ambá podem
ter sido termos genéricos que designavam parcelas dos tupis , tendo cada
tribo um nome distinto. Os colonizadores portugueses e francese s davam às
vezes nomes diferentes à mesma tribo. Sempre existiu uma dificuldade no
estudo dos índios americanos: embora algumas tribos não tivessem nome
que designassem a si próprias, davam nomes - geralmente pejorativos -
aos inimigos; desse modo, no curso da conquista colonial esse nomes pejo-
rativos acabaram por vincular-se erroneamente a uma tribo antes que fosse
contatada ou pacificada.
Diante dessas advertências, e adotando apenas a variante de ortografia
mais comum entre as muitas encontradas nos cronistas, as tribos costeiras
distribuíam-se, de norte a sul, como segue. No início do século XVII, a
maior parte das terras do Pará ao Parnaíba era ocupada por populações
conhecidas pelo nome de tupinambás. Compreendiam 27 aldeias com cerca
de doze mil habitantes na pequena ilha Maranhão. Tapuita pera e a costa
noroeste da ilha eram ocupadas por grupos tupinam bás chamados caetés
(«grande floresta" em tupi); na costa rumo ao sudeste havia remanescentes
de tribos mais primitivas chamados teremembés, que falavam talvez o jê e
foram expulsos pelos tupis; e os tabajaras (possivelmente apenas um nome
genérico para os tupinambás que ((habitavam o interior") viviam na serra de
< Ibiapaba e no curso inferior dos rios Mearim, Gurupi e outros que desem-
f-.
V)

::::>
bocam perto da ilha Maranh ão. A maioria dos tupis do Maranhão, ou
o
z mesmo todos, haviam migrado para lá depois da invasão de seus locais de
o
u
< origem mais ao sul pelos portugueses. Uma análise cuidadosa de várias fon·
o 0
V)

<
tes_ escritas indica como seu lugar de origem O Pernambuco, possivelmente
baixo São Francisco, e talvez Cabo Frio e Guanabara. Apesar disso, parece
~
w
p.,

provável qu e alguns tupis tenham ocupado essa área norte antes de 1soo.
V,
1,1.J
:,

Parnaíba e Paraíba do su
(/)
,<f'. O trecho de costa ''le s'te-oes t e» entre os nos
• l era
<
u
~
oc upado po 1· um a t n·t)O grande e unida chamada os potiguares (que signi·rei 1
'
w
,..,. "
povo comedor de cama. -", » ,J , • • • ''povo
e roes , ou t -1 vez petmgua ra, 0 que quer dizer
,e.
< _ ,, . .

do 1umo devido ao cos tum e de carregar na cos de fumo na boca). Algo11s


<
>
117
observadores descreveram os potiguares como os mais adiantados dos tupis,
com vastas plantações que sustentavam uma grande população em aldeias
harmoniosas e prósperas. Soares de Sousa de má vontade os admirava como
"grandes lavradores dos seus mantimentos, de que estão sempre mui provi-
dos, e são bons caçadores e tais flecheiros, que não erram flechada que ati-
rem. São grandes pescadores de linha, tanto no mar como nos rios de água
doce". Eram extremamente agressivos, capazes de mobilizar tropas estimadas
em vinte mil guerreiros, peritos na construção de defesas e armadilhas e, para
Soares de Sousa, «este gentio é muito belicoso, guerreiro e atraiçoado" 14 • Os
potiguares representaram um tremendo desafio à expansão portuguesa rumo
ao Amazonas, e um jesuíta se queixava de que «esses pagãos têm o defeito de
ser os mais numerosos e os mais unidos de todos no Brasil"ls.
A tribo que dominava Pernambuco e o extremo nordeste do Brasil era
chamada tabajara - um nome que também ocorre no Maranhão, entre os
primeiros tupis da Bahia, no Espírito Santo e mais ao sul em São Vicente.
Por mais incertezas que haja sobre os nomes das divisões dos tupis da região
costeira, não há dúvida quanto à existência de hostilidade intertribal - uma
hostilidade que os europeus tentaram explorar, da mesma forma que os
índios procuraram tirar proveito da hostilidade entre os franceses e os por-
tugueses. Os tabajaras estavam normalmente em guerra com os potiguares a
noroeste deles e com os caetés ao sul. Os caetés viviam em grandes grupos à
volta do cabo Santo Agostinho, entre a foz do Paraíba e a do São Francisco.
Os cronistas mencionam tribos de língua tupi, denominadas tupinas e amoi-
piras, as quais viviam ao longo do rio São Francisco mais para o interior em
relação à costa. Ao sul do São Francisco, os caetés e os tupinambás se mistu-
ravam, mas os tupinambás controlavam a terra fértil ao redor da Bahia,
subindo o Paraguaçu e ao sul até Camamu. A tônica entre as aldeias desses
tupinambás da Bahia era a hostilidade e muita luta.
As tribos de fala tupi ocupavam apenas uma estreita faixa litorânea da
o
longa costa norte-sul entre Camamu e o Paraíba do Sul. Havia tupiniquins o
"'
em llhéus (na costa sul da Bahia) e ao norte do atual Espírito Santo; e temi-

11
C.ib ri el Soares de So usa, Tratado Descriptivn do Brasil em 1587, ed . Francisco Adolfo
Va rnh age n, Sil o l\ 1ulo, 1938, pp. 23 -24. Coleção "Hras ilic1na ", nº 117. V,
!',. o
)<:s uita An{)niino, ''S wn ,írio da i; Armada s qu e se Fize ram e Cuerras que se Deram na Con- Ci
z
qui sta do l{i <J Pa raí ba" (r. 1587), em /frvis/<1 tio /n sli/11/0 l listôriw e Gi:n.~rdpliico Brc1silcir(I, V,

o
36( 1): 113, 1Wl.3.
~

11 8
.
111111 ós na co s-tae su l do Es pí ri to Sa nt o. M as
ne ss a pa rt e do B ra si
co st ei.ra e, es t.1 e1•t·a ou in es in o in ex is te , e as l a planície
1n on ta nh as co be rt as de florestas
s1. tua d as 1na1·s pa r a. O 1·11 te ri or er am co nt ro .
. la da s po r tn bo s no m A

ra nt es de lín gu a jê, co . ad es e belioe-


nh ec id as do s po rt ug
aü no ré s e bo to cu do s. ue se s pe la de si gn aç t>

O s pâ nt an os e la gu na ão co le tiv a de
oc up ad os po r ou tr a tr s na fo z do Pa ra íb a do Su l er
ib o nã o- tu pi , ch am ad am
to at é O fin al do sé cu a go ita cá , m an ti da e1n isolam
lo XV I de vi do ao se u en-
ve z, 111 an ti nh am co m di fí ci l há bi ta t. O s go ita cá s, po r
ér ci o de tr oc a co n1 sua
Pa ra íb a, tr ib os qu e pr ou tr as tr ib os nã o- tu pi s do baix
es un 1i ve lm en te fa la va o
Sa be m os n1 ui ta co is a m lí ng ua s ap ar en ta da s ao jê.
so br e a fa ix a de co st
G ua na ba ra e m ai s ad a qu e se es te nd e de
ia nt e at é Sa nt os /S ão C ab o Frio a
pr im ei ra co lô ni a po rt V ic en te , po rq ue fo i es se o lo ca l
ug ue sa , e1n Sã o V ic en da
Ja ne ir o, do s co m ba te te , da co lô ni a fr an ce sa do Ri
s en tr e fr an ce se s e po o de
St ad en e de Antl-1ony rt ug ue se s, da s av en tu ra s de Han
K ni ve t e da s pr im ei ra s
e A nc hi et a. Es sa re gi s at iv id ad es do s je su íta s Nóbre
ão da co st a er a de ns ga
ta m oi os . Essa tr ib o to am en te po vo ad a pe lo s tu pi na m bá
rn ou -s e fi rm e al ia da s
in fo rm aç õe s et no gr áf do s fr an ce se s e as si m fo rn ec eu as
ic as re gi st ra da s po r T
va m em gu er ra co m he ve t e po r Léry. O s ta
os te m im in ós , qu e vi m oi os esta-
ta m bé m na ex tr em id vi am ao no rt e al ém do Pa
ad e in te ri or da ba ía ra íb a e
ta m bé m en tr e os ta m da G ua na ba ra . Ex is tia ho st ili da de
oi os e os tu pi s de no
qu e habitav_a1n o at m in ad os ta ba ja ra s ou tu pi
ua l es ta do de Sã o P, ru ni qu in s,
m a a São V ic en te e no lo , am ba s na re gi ão co st ei ra
pl an al to de Pi ra tin in próxi-
ga .
A s co st as ín gr em es
e fl or es ta da s e~a1n o
co nh ec id as no sé cu lo la r de gr an de s tr ib
XV II pe lo no m e d~ os dóceis,
va m um a va ri an t e da ca ri jó s. E ra m os gu ar an is , qu e fala-
lín gu a tu pi : um po vo
cu lt o re s e d e pr of un be m or ga ni za do , ex ce
da re lig io si da de . D is le nt es agri-
#'
:ll u:.1 1 es ta d o d o
tr ib uí an 1 -s e pe la s te rr as férteis do
..... Pa ra ná e a le st e do Pa
j
ra gu ai . o ca rá te r e a
...... j(b -g ~i ar an is o s tr an in cl in aç ão dos cari-
"'J sf or m a ra m no s di sc
/ Rc .,g n a m m elh o r qu íp ul os pe rf ei to s pa ra os
,:, e qu al qu er ou tr o po jesuít,1s·
..,. í ~·!> LIÍ \ a da s ur
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';;. t n bo!-. ~o b r ev 1v e nt jê . Er at n os ances ' s e·tr ai
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· t ·1 o fr .1 -; . l s e xo cl e ng ue s. Já e111
" n u .: s, <.. e lH >m e P~ ti
um ie r de G on ne v1•ti pa ss 0
e,
~

119
alguns meses entre os carijós do sul; essas mesmas tribos foram muito hospi-
taleiras com os primeiros marinheiros espanhóis que se dirigiam para ao rio
da Prata ou à Patagônia. A mesma docilidade que conquistou a estima dos
jesuítas os tornou presas fáceis dos escravistas portugueses de São Paulo.

O coração do Brasil é o grande planalto do escudo brasileiro. Geografica-


mente muito antiga, essa região plana e erodida era coberta antes da conquis-
ta ou pelo mato (árvores baixas e secas), pelo campo (semi-savana de solo
arenoso, árvores e arbustos retorcidos, palmeiras próximas aos rios, capim
alto e numerosos montes formados por ninhos de cupins), ou pelo cerrado
(uma variedade mais densa de campo, com plantas rasteiras densas e secas).
Esse terreno relativamente aberto era o lar das tribos de fala jê. Por estarem
numa região mais pobre e distante do Atlântico, as tribos jês escaparam ao
impacto inicial da conquista. Os jês tenderam a distribuir-se de modo mais
disperso que os tupis da região costeira, eram mais elusivos na batalha e por-
tanto menos vulneráveis à cavalaria e artilharia européias, que lutavam posi-
cionadas. Eram maus agricultores em comparação com os tupis e por conse-
guinte menos procurados como escravos. Mesmo os missionários, que apren-
deram apenas o tupi-guarani e que relutavam em aventurar-se pelo interior,
ignoraram o jê até épocas recentes. Os jês são mais conservadores, menos
adaptáveis que os tupis, e em conseqüência muitas de suas tribos sobrevive-
ram até o presente com suas culturas intatas. A maioria das tribos jês não
dependem dos recursos aquáticos; seus membros muitas vezes nem mesmo
sabem nadar e não têm familiaridade com o uso de canoas. Por causa dessa
fa lta de mobilidade e de seu conservadorismo inato, apesar dos lentos deslo-
camentos de tribos como os xavantes, não ocorreram migrações significati-
vas, de modo que não existem grupos isolados de jês em rios distantes de seus
loca is de origem. Assim, se examinarmos as tribos sobreviventes e observar-
rnos as localidades d aqueles que desap areceram, é possível obter uma ima-
o
ge m relati va mente precisa dos hábitats jês anteriores à conquista. o
"'
A bibliogra fi a inicia l sobre os jês pode se r facilmente res umida. Os p ri- ~
~

ni eiros cro nista s relata ram esca ramu ças co m os a im orés de llhéus e contatos """
V)

<
pa~1;ageiros com os botocud os e os p uris dos vales dos rios Paraíba do Sul e ~
CQ
1) 1-c . ·. . o
-' . l: 1 e t.11n temor tk sm es ur ad o dess i:I S t ribos. Nt·sses p rimeiros tem pos, o
V)

tuda &as tribo i) ql-lc nfio fo lav ,im tu pi eram descar tad as cOl'n o " tapuias" e o
o
~i)n sid er.1das peri gos..1 rn ciite sdvage 11 s. Os pr i111 dros relatos etnog rá fi cos d os z
......
V)

tapu ias'' nf.i o aparecl' rarn a nt es da déca da ck· 1ó30, q uand o os holandeses o
120 . sileiro e fizeram alianças com os tara-
. 1·t do Nor d este
b ia
conqmstara m Pª e . G.
. d , sertão do R10 . ran de do Norte-Cear á. As descriçõ es
nus do chefe Jan UI no· b is tarde Rouloux Baro revela
dos enussános - • h o Ian d ese , s Jacob Ra e e, ma ' rn
' ~. ,. ,. E
-d ,. ticos aos atuais canelas ou craos. ram caçado-
que esses 1es eram quase I en - l
'~ 'fi . ·edores capazes de perseguu e ançar o tacape
res-coletores, magm ICOS cOI I ' • , .
contra a caça nas P ameies l , · onde habitavam. Evitavam a agua e dormiam
, . .
. . . l - do que em redes. Sua pencia na cornda era manti-
ma1s em esteuas no e mo
da por me10 · d e pe11··ódi·cas competiçõe s entre as duas metades de cada tribo
. _ ,
. · ntes cor·i·iam com troncos nos ombros.
em que os par t1opa . _ Ainda. . hoJe com-
petições idênticas constituem uma das funções sociais mais importante s
entre muitas tribos de língua jê. Os dois grupos correm em revezament o,
111 ui tas vezes partindo de alguns quilômetro s de distância da aldeia, mas
sempre terminando com um percurso em volta de seu perímetro circular.
Carregam nos ombros pesados troncos de palmeira, que um corredor passa
ao ombro do competidor seguinte de seu time. Quanto ao casamento, é feito
invariavelm ente na outra metade da sociedade tribal e o marido se muda
para a casa da família da esposa. É evidente também que os jês mudaram
muito pouco em sua aparência física. A cor da pele é de um marrom-cre mo-
so pálido; as mulheres são atraentes para os padrões europeus e acentuada-
mente menores que os homens da tribo; e ambos os sexos ainda usam o
mesmo estilo curioso de penteado, onde o cabelo pende solto atrás, mas
co m uma risca horizontal em torno da cabeça acima das orelhas de modo
qu e, na s palavras de Elias Herckman, a parte de cima se parece com um
gorro. Outra obra antiga e muito útil é a de um missionári o franciscano
frJ ncfs, Martinho de Nantes, que viveu, na metade do século XVII, entre os
ca iriri s no médio São Francisco e no sertão da Bahia.
,--r: Os aventureiros ignorantes que se embrenhar am pelo interior do Brasil
✓,

,.., n os séc ul os XV 11 e XVIJI não trouxeram informaçõe s sobre as tribos com que
CI
/
r_, S<-' dep,n ~1 ra rn . Tampo uco os militares e os líderes civis que travaram ferozes

e.,
C()mba tcs co m os jês do interior do Nordeste durante meio século entre
...
.J

<.;'
l () 70 e .1 720. A m ais heróica das revoltas indígenas no Brasil aconteceu entre
1 7 1·-' e l 7 -1 O' 1j d é' ra d ·1 p o M · j L d · . índio educado numa m1ssao, · -
' r anc u a mo, um
qu L111 d o dura nt e breve j)eríodo os tltpi·s e 0 - .- eh_ d C
..,
., ~ J s o ea ra, e d o R.10 G nu1d,\.._. d0
t'-J 11r ll: d ei x,1r<1 m de lad o sua tradi cion al injmi zad e e se uniram contra o inv:1-
..,
'4 .•_.,) 1 u il d 11Í;II . Nao ho u ve crnn isla d ess as campanhas . Na d é cada d e l 740 ,
.~
:, \' '-' r, í.t '" }!. , l r , ,,, . , d t l' x l t· r I n 1' n 1·0 t·
o ra m l· tn prce nd idas c ontra os caiap ó s qt1e
l'
-<
<
.
h ;ll>1L1 v.1.n1 a ll o 1L·~ td 11 1 ,i~ -10 sul I·' . . - · , •ios
' · • · · .:-.s.i l-> l 11 1)os ou1pava m o s vastos terntot
----- 121
o Gro sso. Sob re esses caia-
e mato e campo do sul de Goiás e do méd io Mat
gráf ica nem hist óric a;
dó portugueses não .prod uzir am info rma ção etno .
p s os emb osca da, da pmt ura cor-
descrições resu mid as de seus ataq ues de
mas a S
to de suas aldeias pela flores-
oral preta feita com jeni pap o e do desl oca men
eviv eram até o
~ concordam com as prát icas dos caiapós do Nor te que sobr
pós do Nor te tenh am mud a-
século xx. Não há razão para sup or que os caia
à loca liza ção que r no que se
do acentuadamente desde 1500 que r no toca nte
bacias fluviais entr e o curs o
refere a sua sociedade. Con tinu am a ocu par as
ão fluvial de floresta trop ical
médio dos rios Araguaia, Xin gu e Iriri , uma regi
ado qua ndo o lenç ol d'ág ua
que muda abru ptam ente para cam po ou cerr
região mai s abe rta dos topo s
diminui; mas os caiapós tend em a pref erir a
antr opo lógi cos de outr os
das serras. Cabe pen sar que mod erno s estu dos
agn otir es ou os txuc arra -
grupos, como os xicrins, os goro tirés , os cub encr
na épo ca da cheg ada dos pri-
mães, forneçam uma boa ima gem dos caiapós
meiros europeus.
í, do Ceará, de Pern am-
Muitas tribos do Mar anh ão e do inte rior do Piau
m men cion adas pela prim eira
buco e da Bahia desapareceram desde que fora
e tivessem cost ume s bast ante
vez. É presumível que a mai oria falassem o jê
que sob revi vem aind a hoje .
semelhantes aos dos tim bira s ou xav ante s,
serra de Ibia pab a e do baix o
Algumas tribos não -tup is das encostas leste da
ica e soci alm ente isoladas: o
Itapicuru e Mearim talvez tenh am sido lingüíst
a líng ua dos últim os sobr evi-
grande antropólogo Cur t Nim uen dajú estu dou
ua apen as rem otam ente apa-
ventes dos gamelas e desc obri u que era uma líng
no plan alto entr e as cabecei-
rentada ao jê. Mais para o inte rior , no enta nto,
o Toc anti ns, os timb iras do
ras dos rios Mea rim -Co rda e Gra jaú e o baix
s pad rões mod erno s, emb ora
Maranhão e do Pará são bast ante prós pero s pelo
zidos. Aqu i tam bém não há
sem dúvida estejam num eric ame nte mui to redu
canelas (ran coca mec ras) , os
falta de modernos estudos etnográficos sobr e os
s do oeste ou da floresta).
craôs, os apinajés (caracatis) e os gaviões (tim bira o
o e o méd io Toc anti ns e o
As vastas planícies secas entr e o São Fran cisc
l/"I

jês: os xicriabás e os acroás ~


Araguaia eram o háb itat de trib os guer reira s dos .i.l

ante s e os xere ntes con heci dos


-l

(g uenguéns), atua lme nte exti ntos ; e os xav


(/)

<
sobr eviv eram com sua cult u-
~

Pela designação co letiva de acuéns. Os xere ntes


~

o
ni e es pírit o tribal rela tiva men te inta tos,
e suas sociedades foram estu dad as e Cl
C/J

as l'ribos se desl ocar am para ....o


do cum enta das em lem pos rece nt es. Am bas rI' . Cl

Oe1; 1e ·1fa 1 nial . Os xere


.
ntes cru zara01 o ocan tms 3
'' · s ,,rn,,
.J
o-se da fron t eira colo C/J

· eo A · O s, x,wa· n t es, o
· · l · raguaia.
,,. 1.,,:1 m na zona 1nte rJ uvia entr e esse no
· li z,,
·1
e !:> e loca
122
após um curto período de confinamento em aldeias c_o~trolada~ pelo gover-
no , perto de Goiás, no final do século XVIII, dec1duam migrar para 0
sudoeste, atravessando o Tocantins e o Araguaia, para ocupar a margem
norte do rio das Mortes; valentemente resistiram a incursões feitas por colo-
nos ou oficiais do serviço indigenista até a década de 1940.
Bem mais ao sul, para além das terras outrora ocupadas pelos caiapós do
sul, algumas tribos de fala jê viviam no planalto florestado que descia para 0
oeste rumo ao Paraná. Estando relativamente próximas de São Paulo, essas
diversas tribos eram conhecidas dos primeiros cronistas e muitas foram víti-
mas da preia de escravos dos bandeirantes paulistas. As tribos conhecidas no
século XVI pelo nome de guaianás (goianás) ou bilreiros e, mais tarde,
coroados (devido ao penteado que formava um tufo em cima da cabeça)
eram ancestrais dos atuais caingangues. Essas populações recuaram para as
florestas quando grande parte de seu território foi ocupado por missões
jesuítas reservadas aos guaranis; mas as missões foram destruídas na metade
do século XVI e os caingangues se espalhara m pelo oeste do estado do
Paraná, resistindo à expansão colonial até o início do século XX. Os xoclen-
gues que falavam o jê (às vezes designados pelo desagrad ável epíteto de
bugres) tiveram experiências muito semelhantes mais ao sul, na região ocu-
pada pelo atual estado de Santa Catarina.
Naturalmente, surgiram algumas exceções no quadro de dominância jê
no pl analto central brasileiro. Na ilha do Bananal, no Araguaia , uma das
ma iores ilhas fluviais do mundo, os carajás e tribos aparentad as desenvolve-
ra m uma cultura específica com práticas religiosas e sociais originais, basea-
da no domínio completo de seu ambiente ribeirinho. A língua caraj á, que se
acredi tou out rora ser aparentada do jê, é agora considera da como isolada.
Algun s grupos tupis sobrevivem até hoje, bem mais acima dos rios Araguaia,
___, Xi ngu ou Tapajós: por exemplo, os tapirapés, os camaiurás ou os caiabis;
r:.J • • ·, a11tes
/ ,
e
m:1s não se sabe ao · certo - se se estabeleceram em seus terntóno s atuais '
~io inicio da inva são européia. O planalto central estende-se para o sudoeMt':
fo rm ando il ba ciíl entre o Amazo nas e os ri os Pa rag uai-Para ná, e depois att'
o aruaJ c-s tad o de Ronc- j " · A oeste dos ca ia pós do sul. e a sul dos x<1v~ . 11 1tes.
_. . , on ia.
viv,a,n i numera~, lribo ,--; (fe 1XHoros) 1n1rnigos • . -regi-
impl acúv t' is dos jês e ili - _
. . . , ... , .
rn t'nt.~do 1> pelo!-> port 11· g1u LSrs . , A l'1ncn1,1
!H r,1 tlJU dar a des tr uir os ca rnp ós . v
. . ,
, 1- 1, 0 1il( 1íl) l' Sit a snc ,ec..iad c tê m sido est u ( .
bororo, turn lJ t: lJ) c. on 'si(i u• .cH dadas
' . ,l ~
)·' 1
ma1~ 111t en1:, Jnwn1t.:- nesll' s(.:1.- . . .'. , . , . , .· d1S·
_ .. U u po r n11 ss 1o nartos e an tropologos; ass1 ni, .
. . ,
pomo~ ho,1e de um ljlladro 11lu ito e 1<110 das carac tens t1 cas das tnbos 0
· . . . b raros
123
há cinco séculos atrás. Desloca ndo-se rumo oeste ao longo dessa região alta,
os pareeis eram um povo numero so e bem organiza do de fala aruaque que
impressi onou os viajante s do século XVIII pela beleza de seus artefatos de
pedra e pela eficiênc ia de seu trabalho agrícola . A recompe nsa dos pareeis
por formare m uma sociedad e relativa mente avançad a foi serem arrebanh a-
dos por escravis tas de São Paulo.

As florestas do Guapor é e o árido e arenoso planalto de Rondôn ia foram


habitados, aparent emente durante muitos séculos, por tribos agora conheci -
das pelo nome de nhambi quaras. Soment e neste século foi feito contato com
esses índios. Imediat amente causara m profund a impress ão nos antropó lo-
gos e deram origem a exóticas teorias de renomad as autorida des. A língua
nhambiq uara é totalme nte isolada das línguas faladas por outras tribos ama-
zô nicas, e suas caracter ísticas físicas, cor da pele e estrutur a óssea também
parecem distintas das demais. Seu modo de vida era primitiv o, com abrigos
rudimen tares, quase não usando ornamen tos corporai s ou meios de expres-
são artística , uma estrutur a social simples, sem redes ou móveis para dor-
mir, e uma dieta baseada na coleta e na caça limitada com arco e flecha.
Alguns observa dores sugerira m a semelha nça com os aborígin es australia nos
e chegou-s e mesmo a especula r se os nhambiq uaras não seriam o produto de
alguma migraçã o através do Pacífico Sul. Os abrigos em caverna s no rio
Galera em territóri o nhambi quara estão cobertos de símbolo s de órgãos
ge ni tais feminino s; embora clarame nte pertence ntes a uma sociedad e ante-
rio r, esses símbolo s deram origem a discussõ es sobre sociedad es de amazo-
na!\ ou m ;:i tri(!r ca is, e relatos análogo s do século XVI levar am Ulrich
Schmide l e ou t ros a procura r as amazon as nessa parte do Brasil. Nessa
n:gi:io, um emin ente pesqui sa dor da históriJ dos incas localizo u Paititi, o
rdúg iq de tribos neo- in ca icas fugi tivas.
o
o
/\ rrimc:i ra pe netraç ."i o européia do alto Amazonas foi também nma res- ""
· d e El · Dondo ' · A1 nrentem ente '
f>(iL, t ;i ,t umJ korin cxó1i ca: a procura d o remo
r'
1 1- ·{ · ·, d '"'S es· 1nnh óis· em Q uito c.' tH 1) .-W,
' t n r ,i I u I nu 11 Lo r po t.:' n t r t' os eo n q u 1st a -oi.. '
1 • cl;i• jJrJrn · harn l lH. tí.l~· () P1·ºl)l)S' it o' de rnrlH:
· e ·ir ati n q ) \." dJ·~(H.' S trn .
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t oss 1v,.:l me nlc:' i ,.1mlh' n1 do U.1 11Jh~~ l' i o
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I
• V)

o
, . ··:t · _ s que pr uC Ul.l\' ,llll l) . l)otd_l Iu 11 ~\ l l ~ • 1,, -- id,l ,k l ;
c ,H), l1d1.: ra d as por
Xptl 1\·ne u
124 Orellana), Hernán
de
Pérez de
e Quesada
Francisco
Gonzalo Pizarro (e de aldeias ribei.
desses relatos é a
A imagem que emerge
Hutten.
Philip von fortificações
r u d i m e n t a r e s e capazes da
e
c o m
rinhas ocasionais, às vezes
bastante umas das separadas
flotilhas de canoas, mas
mobilizar grandes outras penetraçóes até as cabe
dessas e de
outras. A impressão proveniente se seguiram
seculos que
afluentes noroeste é que nos quatro
ceiras desses na densidade populacio-
no estilo de vida, quer
houve pouca mudança quer
resultam
tribos do Amazonas
nal. Nossas descrições, apenas primárias, das
El Dorado: são o relato deGaspar Carvajal sobrea
também das buscas pelo
vários relatórios sobre a descida de Lope de
descida de Orellana em 1542 e
silêncio literário sobre o
1561. Depois desses caiu
um longo
Aguirre em
1639 e a chegada dos
Acuña
descida de Cristóbal de
em
Amazonas, até a

baixo Amazonas na década de 1650. Mas a essa


Antônio Vieira ao
jesuítas de irremediavelmente disper-
altura as sociedades nativas originais haviam sido
sadas e destruídas.
existên-
A impressão dominante deixada pela crônica de Carvajal é a da
Amazonas. Ele
ao longo das margens do
cia de densas populações nativas
|...] e quanto mais avança-
registrou "povoações muito grandes
e numerosas
terra"l,
vamos elas eram povoadas e melhor achávamos a
mais densamente
estendiam-se por quilómetros ao longo da borda
do rio,
Algumas aldeias
a
com freqüentes locais de desembarque
coalhados de guerreiros. Quando
Amazonas, atravessou o territorio
expedição desembocou do rio Napo no
dos machiparos, uma tribo bem disciplinada, bem alimentada graças à pro

dução da várzea fértil. Os machiparos e os ainda mais ricos omáguas, que


ViViam rio abaixo entre a foz do Javari ea do Potomaio-Içá, haviam dese
OS
volvido a criação de tartarugas. Soltavam esses animais para depositar
ser
ovos em bancos de areia ribeirinhos e levavam os filhotes de volta para
o ria-
criados em centenas de cercados perto de suas cabanas. As técnicas de
rio.
ão da tribo eram orientadas pela elevação e queda anuais do nível do
Sua cerámica também era sofisticada, variando em tamanho de enormes
uista-

alguidares
para alimentos a delicadas peças policrômicas que co Os
pos-
* dorescompararam à cerámica chinesa. Um desses povos ribeirinnod
SIvelmente jurimáguas, que viviam rio abaixo em relação aos Olaguas
os

upe-
usavam longos canmisöes de algodao semelhantes aos canmpas do
cu
l6 Gaspar de
Carvajal, Descubrimiento del Rio de las Amazonas Lee
|1542], trad.
D
como The Discovery the
of Amazon, New York, 1934, pp. 200, 202.
125
prim eiro cont ato com
rior do Uca iale- Uru bam ba, que tam bém tiveran1 seu
os espanhóis na meta de do sécu lo XVI.
e as trib os do rio
Fora m enc ontr ado s algu ns obje tos de ouro entr
am clar o que essas
Solimões (Am azon as) e as crôn icas n1ais tard ias deix
os povo s do nort e
peças se orig inav am dos muí scas ( chib chas ) ou de outr
o Amazonas pelos
dos Andes, e fora m traz idas para o rio Neg ro e dali para
ercia ntes . Os hom ens
manaus do méd io rio Neg ro, uma gran de tribo de com
à cor pret a de suas
de Orellana dera m o no1ne de Neg ro a esse rio devi do
as bacias fluviais do
águas, mas até o sécu lo XVIII não há narr ativ a sobr e
Neg ro desc reve m o
Negro e do Bran co. As refe rênc ias do sécu lo XVII ao
seu curs o infe rior e os
estabelecimento de missões ao long o das mar gens do
povo s de fala arua que
ataques sistemáticos para prei a de escravos cont ra os
estava tão com plet a-
que aí residiam. Assim, o curs o prin cipa l do rio Neg ro
zona s. No fina l do
mente desp ovo ado de nati vos qua nto o próp rio Ama
dias a fio ao long o
século XVII, hou ve viaja ntes que se desl ocar am dura nte
viviam pert o da atua l
do rio sem avistar sinal de vida. Tan to os taru más , que
quan to os man aus do
Manaus, na conf luên cia entr e o Neg ro e o A1nazonas,
arua que do alto rio
médio Negro estão exti ntos atua lmen te. As tribo s de fala
eros e os tuca nos do
Negro - espe cialm ente os baré s, os banivas, os iavit
maq uirit ares e tribo s
Uaupés - e as tribo s cara íbas do alto Orin oco - os
péia . Cabe supo r,
aparentadas - fora m men os atin gida s pela invasão euro
ças, sua disposição
portanto, que, emb ora atua lme nte exau rido s pelas doen
ralis tas enco ntra ram
em 1500 era sem elha nte à que Hum bold t e outr os natu
e em outr os afluentes
no início do século XIX; e que no Uau pés, no Içan a
mud aram pou co nos
oeste, as tribo s aind a sobr eviv ente s pres umi velm ente
a aum enta do devi-
últimos cinco séculos - a men os que sua popu laçã o tenh
mais expostos.
do a grupos de refu giad os que esca pava m dos terri tório s
a mai or sobr e os
Pode-se fazer a mes ma supo siçã o com segu ranç a aind
que habi tava m os
ianomâmis (uaicás) e outr as pop ulaç ões de fala xiria ná o
o
ente s das bacias _do
in ~ntes flore stad os que form am o vale entr e as nasc
....
"'

rica do Sul ª maw r


Orinoco e do Neg ro-B ranc o. Os iano1nân1is são na Amé últim as
• . . d os som, e nte · nas
': .
tribo , l
, so )reviven te qu e habi ta as flore stas; cont ata
-- se ndo inte nsa men te estuc1aclos nos u' J1··111·1os '-~ nos• · Em ·
l 500,
deca da· s, estao
assim eorno agor a, pequ enos grup os dos nc,m I\ · s se m dúvi da _
ac1es ma ct1· · · · . . -
vaga
e O do Soltmoes; e
Vam pelas floresta s entr e o curso méd io do rio Negro
·nas catauisis?) • que
Carva·Ja I se refere a tribo s prim itiva s da floresta ( cc1, t uq u1 '
<J)

o
. . , 1 do Amazona s. Mais ao
atonne ntavam os omá guas a part ir do .interior ao su '

126
sul, nas florestas tropicais dos rios Ucaiale, Javari e alto Juruá eS t avam as tri-
bos panos _ especialmente os amauacas, os chipibos e os conibos _ que
estavam em contato com a fronteira florestal dos incas. Muitos grupos de
campas, que falavam O aruaque, estavam submetidos aos incas de Vilcabarn.
ba, posteriores à conquista.
A primeira descida do Madeira foi realizada, por volta de 1653, pelo ban-
deirante Antônio Raposo Tavares. Ele relatou a jesuítas em Belém do Pará
que seus homens haviam achado que o rio era densamente povoado:

Quinze dias após embarcar no rio [perto de sua nascente] começaram a ver
povoações e daí por diante não havia um único dia em que não vissem alguma;
geralmente viam muitas num mesmo dia. Viram cidades nas quais [contaram] tre-
zentas cabanas [... ] nas quais moravam muitas famílias. [... ] Calcularam que uma das
aldeias tinha 150 mil almas 17 .

A certa altura viajaram durante oito dias pelas terras de uma tribo, talvez os
parintintins, cujas aldeias eram quase contíguas às margens dos rios. Seis
anos mais tarde, o jesuíta Bartolomeu Rodrigues ainda contava 81 tribos que
conhecia no baixo Madeira ou perto 18.
Não co nhecemos a importância relativa, em 1500, das tribos que domina-
ram uma após a outra o rio Madeira: os torás, os muras, os maués e os mun-
d urucus. Suspeita-se de que os muras (cuja língua está curiosamente próxima
,) dos muíscas) e os mundurucus saíram da obscuridade, expandindo-se para
pree ncher lacu nas territoriais criadas pela destruição de tribos anteriores.
Um grupo de ferozes tupinambás ocupavam a ilha de Tupinambaranas, mas
pode m ter chegado a esse local após a conquista da costa pelos portugueses.
A I ri bo dos tapajós , no enta nto, estava sem dúvida firmemente estabelecida
11 '1 fuz
do rio que leva seu nome. Os holandeses e outros estrangeiros tiveran~
lo n t,tl o com os tapajós no in ício do século XVII, e levou algum tempo ate
qLi ~ 0 ~ nc J:1v iSlas portugueses ousassem molestar esse povo resistente. Os

--------~
n ··pl urdd ures do 110 1·t e da E:.uropa - · · des·e,· -
· mclusive os ingleses e os 1rlan
---
1 ·-- - - - -
· A 1i1 ll/ 11 ,1 \! 1ei 1•• , .ir t J J . ·.
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, Jant'. tll, 1.H' 16)4, eni Alf redo do Vale Cabra
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áj.. Gt'nca ~
Coroxn,jiil ll istôrin,, Cro11ogr -''"'
Nt1/,i/i1iri11 ,' Pn/í1it"11 ,lo ltti f,t>riu do lfru ~il, 4 vo ls.1 lüo de Janeiro, 1872 , vol. IV, PP· 365.366·
127
também entraram em contato com tribos da margem esquerda do baixo

Amazonas e grandes legiões de guerreiros dessas tribos antes de


comandaram

serem expulsos pelos portugueses na década de 1620. Não está claro, no


entanto, se as tribos que então ou na época de Orellana ocuparam a margem

esquerda falavam o caraíba. Algumas dessas tribos deram aos


aruaque ou o

homens de Orellana a impressão de serem conduzidos por mulheres guerrei-


dando assim à lenda das junto ao maior rio do mundo.
ras, origem amazonas

As tribos caraíbas certamente dominaram o curso superior dos rios Paru e

Jari e a maior parte da região serrana das Guianas.


Os indios que viviam foz do Amazonas, no baixo Tocantins e no rio
na

Pará foram tão completamente destruídos na primeira metade do século


XVII

que é quase impossível reconstituir os dados


sobre suas populações nativas
antes da era colonial. Sabemos que os jurunas ficavam perto da foz do Xingu,
e um remanescente dessa tribo sobreviveu a centenas de quilômetros rio
rio do
acima, no Parque Xingu. Os pacajás, que viviam junto ao
Nacional do
canoas de
mesmo nome a sudeste de Marajó, puseram em campo quinhentas
a Belém do Pará,
8uerra e lutaram até a morte. Muitas outras tribos, próximo
oram registradas sucintamente antes de se extinguirem devido a doenças,
missionárias.
uestruição ou destribalização na confusão das aldeias
NOTA SOBRE AS POPULAÇÒES
AMERICANAS ÅS VÉSPERAS
DAS INVASÒES EUROPÉIAS

ainda hoje, um inten-


HOUVE DURANTE algumas décadas, e persiste
historiadores demográficos sobre o tamanho
da popula-
so debate entre os

americana nativa às vésperas das invasões européias.


ção e a fron-
Para o México região entreo istmo de Tehuantepec
central, na

School ( Lesley Bird Simpson,


teira com os chichimecas, a Berkeley
inicialmente uma populaço
Sherburne F. Cook e Woodrow Borah) sugeriu
fontes e de uma metodologia
de onze milhões e mais tarde, à luz de novas

elevou estimativa para 25 milhões. Ver, principalmente,


mais sofisticada, sua
the
Central Mexico on
S. F. Cook Borah, The Aboriginal Population of
e W.
in Population History:
Eve of the Spanish Conquest (Berkeley, 1963) Essays
e
Rosenblat
Mexico and the Caribbean, 2 vols. (Berkeley, 1971-1974). Angel
número mais baixo (apenas 4,5
milhões), por
detendeu coerentemente um
1492 Hasta la Actuali-
exemplo, em La Población Indigena de América desde 1492:
La Población de América en
(Buenos Aires, 1945), e, sobretudo,
em
dad
Uma excelente crítica da Berkeley
Viejos e Nuevos Cálculos (México, 1967).
of the Central Mexican
School é William T. Sanders, "The Population
in the
and the Teotihuacán Valley
bymbiotic Region, the Basin of Mexico
Denevan (ed.), The Native Population of
Ixteenth Century", em William M.
reduzir a
85-150. Sanders procura
he Americas in 1492 (Madison, 1976), pp.
em 50-60 por
o México central
Cstimativa mais alta de Cook e Borah para achar
milhões. Embora Henry F. Dobyns continue a
Cnto, a 11-12
chegando e
demasiado conservadores
Borah e Cook são
C números fornecidos por
OS
mais recente produZIu
esti-
defen um número acima de 50 milhões, pesquisa
d vão de 8-10 até
13-14 milhöes.
v a s mais próximas de Sanders-que
anterior à con-
Rosenblat a população
tocante à América Central, para realizada, na década
de
quista milhão. No entanto, pesquisa
erla inferior a um Linda A. Newson (sobre
1980,por W. George Lovell (sobre Guatemala) e por a nümero total um
aparentemente sugeriria
especial,
u a e Honduras), em
(incluindo Panamá).
mais para a
América Central
PrOXimo dos 5-6 milhöes
130 muito mais controversa..
Ainda mais difícil de avaliar, e portanto
do mar doS Caraibas em
192. l49
população das Antilhasregião em torno
e da
var1am de 50-60 Imil
por exemplo,
Os números para a ilha de Hispaniola,
até talvez 8 milhðes (Cook
Verlinden) e 100 mil (Rosenblat)
(Charles ver,
por exemplo
Borah). O valor mais alto não encontrou pronta aceitação:
the Time of Columbus"
Angel Rosenblat, "The Population Hispaniola
of at

em Denevan (ed.), op. cit., pp. 43-66, e David Henige, "On the Contact
Population of Hispaniola: History as Higher Mathematics", Hispanic
American Historical Review, 58: 217-237, 1978. Uma população anterior à
conquista em torno de um milhão seria aparentemente mais aceitável de modo
geral para Hispaniola, com mais 2 milhöes nas outras ilhas, inclusive Cuba, e
em torno de um milhão em Venezuela.
Trabalhos sobre a população indigena da regiäo hoje ocupada pela Co-
lombia- com um valor proposto de 3 milhões- são sumarizados em
Germán Colmenares, Historia Económica y Social de Colombia, 1537-1719
(Bogotá, 1973). As estimativas para o Peru variaram de dois a três milhões a
12-15 milhões (e mesmo mais-
Dobyns defende uma população de mais de
30 milhões). Uma importante declaração em apoio aos valores menores
apa
rece em Daniel E. Shea, "A
Defense of Small Population Estimates for the
Central Andes in 1520", em Denevan
(ed.), op. cit., 157-180. Empp.
Demographic Collapse: Indian Peru, 1520-1620
Noble Cook, o mais (Cambridge, 1981), David
proeminente estudioso neste campo, sugere um total de 9
milhões para o Peru. Uma
população de 12-14 milhões para o conjunto dos
Andes centrais (o Império Inca)
Para estimativas do tamanho de
pareceria, portanto, uma estimativa razoável.
diversas populações
Sul- com exceção dos indígenas que
vam o sul da América do habita-
que contavam dezenas araucanos (um milhao)
e não centenas de
Indians of Southern South America in milhares-Jorge Hidalgo, n
the Middle of the
em Cambridge History of Latin America, volume I Sixteenth Century
As (1984).
populações das tribos indígenas que habitavam
atual a região do
época da chegada dos europeus em 1500 é
na Brasie
avaliar. John Hemming, Red Gold. The particularmente dificu
Conquest of the Brazilian ln
(London, 1978), apêndice, pp. 487-501, discute
metodologias nas quais elas se basearam e ele as diversas estimativas e as
mesmo chega a uma
va de 2,4 milhöes. No entanto,
muitas estimau
sentar valores majores. William
estimativas recentes tendem a
ap
e-

M.
Denevan, "The Aboriginal
Amazonia", em Denevan (ed.), op. cit.,
pp.
Population
205-234, aumenta para o 8
131
h e s suasestimativas anteriores para a grande Amazônia (toda a planície
nical da América do Sul a leste dos Andes, exceto a região do Gran
Chaco), e para 5 milhões para a própria bacia Amazônica. Alguns estudiosos
acharam demasiado alto esse número. O próprio Denevan aceitava uma possíi
vel redução de 25 por cento levando em conta as "zonas tampão" desabitadas
entre tribos, embora numa nova introdução ("Native American Populations in
1492: Recent Research and a Revised Hemispheric Estimate") à segunda edição
de The Native Population of the Americas in 1492 (Madison, 1992), que consti-
tui o mais valioso comentário sobre pesquisa e publicação neste campo desde a
primeira edição (1976), ele argumente que seria mais razoável uma redução de
apenas 10-20 por cento; quer dizer, ele estima que a população da Amazônia
maior em 1500 deve ter-se mantido entre 5e6 milhões.