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Maria Helena Mira Mateus


Isabel Falé
Maria João Freitas

FONÉTICA E
FONOLOGIA
DO PORTUGUÊS

Universidade Aberta 2005

Arranjo gráfico: Maria Helena Almeida

Copyright © UNIVERSIDADE ABERTA - 2005 Palácio Ceia • Rua da Escola


Politécnica, 147
1269-001 Lisboa — Portugal
www.uab.pt e-mail: cvendas@univ-ab.pt

TEXTOS DE BASE (Cursos Formais) N Y 291

ISBN: 978-972-674-452-8
D.L.: 224762/05
Fonética
e Fonologia do Português

9 Nota prévia

I I Parte I — Introdução 13 1. Considerações prévias


15 1.1 A Gramática 1 8 1.2 A Linguística

25 2. Fonética e Fonologia 27 2.1 Considerações


gerais
27 Objectivos e resumo

29 2.2 Fonética: Alguns marcos históricos


30 2.3 Fonologia: Teorias e Modelos

5
2.3.1 Fonologia Estrutural 32 2.3.2 Fonologia Generativa
clássica 32 2.3.3 A Fonologia Pós-SPE Leituras
complementares 37 Actividades

41 Parte II — Fonética
3. Fonética
45 3.1 Introdução
3.2 Representação do contínuo sonoro: Alfabeto fonético internacional
Objectivos e resumo 55 Leituras
complementares 56 Actividades 65 3.3 Fonética
articulatória 65 Objectivos e resumo
73 Leituras complementares
Actividades

77 3.4 Classificação articulatória tradicional


77 Objectivos e resumo 84 Leituras
complementares
84 Actividades

4. Fonética acústica
4.1 Conceitos básicos de fonética acústica
95 Objectivos e resumo 106
Leituras complementares
106 Actividades
111 4.2 Representações visuais do sinal acústico
1 1 1 Objectivos e resumo 1 16
Leituras complementares
117 Actividades
1 19 Teoria acústica da produção de fala
1 19 Objectivos e resumo 121
Leituras complementares
122 Actividades
1 24 4.4 Propriedades acústicas segmentais dos sons da fala
124 Objectivos e resumo 134
Leituras complementares
134 Actividades
138 4.5 Propriedades acústicas suprassegmentais dos sons da fala
138 Objectivos e resumo 150
Leituras complementares
150 Actividades

155 Parte III — Fonologia e Prosódia


157 5. A Fonologia segmental do português europeu
159 5.1 Os segmentos
159 Objectivos e resumo
160 5.1.1 Fonemas, fones, alofones e arquifonemas 162 5.1.2
Variantes e variações
167 5.1.3 Identificação e distribuição dos sons 172
5.1.4 Como estabelecer os segmentos fonológicos
179 Leituras complementares
179 Actividades
185 5.2 Os segmentos como conjuntos de traços
185 Objectivos e resumo 186 5.2.1
Os traços distintivos

187 5.2.2 Classificação dos traços distintivos e aplicação ao português


190 5.2.3 Identificação de vogais, semivogais e consoantes com traços
distintivos
195 5.2.4 Redundâncias
200 5.2.5 Identificação de vogais e consoantes na geometria de traços

205 5.2.6 Subespecificaçäo 207


Leituras complementares
207 Actividades
217 5.3 Processos fonológicos
217 Objectivos e resumo
218 5.3.1 0 processo do vocalismo átono
226 5.3.2 0 processo de nasalização e a teoria autossegmental
229 5.3.3 Processos pós-Iexicais
230 Leituras complementares

231 Actividades

7
237 6. A prosódia 239 6.1 A Prosódia e a Fonologia:
considerações gerais
239 Objectivos e resumo
242 Leituras complementares
242 Actividades
244 6.2 A sílaba 244 Objectivos
e resumo
245 6.2.1 Introdução
246 6.2.2 Os constituintes da sílaba
248 6.2.3 Descrição da estrutura silábica do português
261 6.2.4 Motivação para a existência dos constituintes silábicos
265 6.2.5 Princípios de organização silábica
270 Leituras complementares

270 Actividades 278 6.3 0


acento de palavra
278 Objectivos e resumo

279 6.3.1 Acento principal


285 6.3.2 Restrições relacionadas com o acento
286 6.3.3 Acentos secundários

287 Leituras complementares


288 Actividades
291 6.4 A palavra prosódica e o sintagma entoacional
291 Objectivos e resumo
292 6.4. I A palavra prosódica 293 6.4.2 0 sintagma
entoacional
298 Leituras complementares
299 Actividades

303 Bibliografia Geral


8

Nota prévia

O manual agora apresentado é uma reformulação de Fonética, Fonologia e


Morfôlogia do Português, publicado em 1990. Tendo em atenção a actual
divisão da disciplina em dois semestres, Fonética e Fonologia do
Português destina-se ao primeiro semestre, sendo poitanto independente do
manual de Nlorfologia embora certos aspectos de fonologia e morfologia
estejam, naturalmente, inter-relacionados. Algumas alterações substanciais
no conteúdo do presente manual merecem as seguintes observações:

l . Os capítulos dedicados à Fonética no manual de 1990, da autoria


de Amália Andrade e Maria do Céu Viana, tinham um
desenvolvimento de um rigor e qualidade notáveis, constituindo
mesmo um dos melhores trabalhos sobre fonética do português que
se têm publicado. Dadas, no entanto. certas dificuldades que o
estudo desta parte da disciplina oferecia aos estudantes, procurou-
se, no manual agora elaborado, ter sempre presente uma
preocupação pedagógica e didáctica na apresentação das questões,
sem excluir o rigor científico indispensável ao seu tratamento.

2. A parte dedicada à Fonologia foi profundamente reformulada em


consequência da investi '-ração na fonologia do português levada a
efeito nos últimos anos. Também nesta parte do manual esteve
presente uma preocupação didáctica de modo a tornar as
exposições claras sem perda do indispensável rigor científico.

3. A primeira parte da obra é constituída pela apresentação de


questões gerais e fundadoras das análises em fonética e fonologia
referindo-se, de forma breve, alguns marcos históricos e certos
conceitos básicos do estudo destas áreas da linguística.

As Autoras

Especificação da autoria das partes que constituem o manual:

Introdução Maria Helena Mira Mateus

Fonética Isabel Falé

5. Fonologia Segmental Maria Helena Mira Mateus

M
6. Prosódia (6.1., 6.3. e 6.4.)
a
6.2. A Sílaba (6.2.)
f

9
ia Helena

Mira Mateus

Maria João

Freitas

PARTEI
IN
T
R
O
D
U
Ç
Ã
O

11
1. Considerações prévias
1.1 A Gramática

O funcionamento de qualquer língua do mundo implica a existência de uma gramática, ou seja,


de uma relação interactiva entre os elementos linguísticos organizados em sistemas. Assim,
não podemos considerar que determinada língua possui uma gramática "elementar" ou
"primitiva" visto que estas considerações não são linguísticas mas têm, em geral, outras
origens, como:

- O estabelecimento de um paralelismo entre língua e cultura, admitindo-se que o


desenvolvimento tecnológico de uma sociedade implica uma sofisticação linguística.

- Uma análise superficial de aspectos linguísticos que nos parecem mais complexos nas
línguas que conhecemos do que em certas línguas menos estudadas.

- A utilização de uma língua por uma pequena comunidade de falantes.


Relativamente ao primeiro aspecto — paralelismo entre língua e cultura — veja-se esta
afirmação de Pinker:

"As invenções culturais variam imenso na sua sofisticação de sociedade para


sociedade (...) Alguns grupos contam por nós nos ossos e cozinham em fogos
acendidos com paus afiados, enquanto outros usam computadores e fornos de micro-
ondas. A linguagem, no entanto, destrói esta correlação. Há sociedades que estão na
idade da pedra, mas não existe uma língua que esteja na idade da pedra"l
Na verdade, a
afirmação
incorrecta de que a
gramática de certas
línguas é

'elementar" ou
"primitiva" decorre
de uma análise
superficial,
incompleta ou
predominantemente
incidente nos
aspectos
considerados
complexos das línguas
que melhor
conhecemos. O facto de
uma língua possuir uma
flexão verbal reduzida
não significa que a sua
gramática seja
simplificada em todas
as áreas. Essa redução
das formas verbais pode
coexistir, por exemplo,
com um complicado
sistema de pronomes
pessoais que reflicta um
sistema de parentesco
também complexo e
característico de uma
cultura específica. Tal
complexidade do
sistema pronominal
existe em línguas como
algumas dos aborígenes
da Austrália. Apenas
podemos falar de
redução linguística,
com alguma
propriedade, quando
nos referimos aos
pidgins, que são "um
género especial de
língua reduzida que se
forma quando grupos
de falantes de línguas
diversas mantêm um
contacto prolongado e
precisam de comunicar
dentro de um domínio
restrito"2

Partimos, portanto, do
princípio de que todas as

15
línguas possuem uma gramática. Deste ponto de vista, deve entender-se o termo 'gramática' — <é> (te]) é
como um
elemento
fonológico
Cf. Pinker, 1995: 27 (traduçäo minha). do
português
porque
permite
distinguir a
palavra pé
[pél de, por
exemplo, pá
[pá] por
terem
diferentes
significados,
o que quer
dizer que [a]
também é
um
Ver Baxter, 1996: 535. elemento
Sobre os dois conceitos de gramática — estudo e conhecimento interior ver Chomsky e Halle, 1968:3.
fonológico
do
português,
O Dicionário de Termos Linguísticos, Vol. II, 1992 apresenta diferentes conceitos de gramática conforme os seus objectivos.

As transcrições fonéticas. seja de um som ou de uma palavra. indicam-se entre -parênteses rectos. As transcriçöes fonológicas
indicam-se entre barras obliquas; as transcrições orlográficas podem estar indicadas em itálico ou, como neste texto, entre ângulos.
um sistema completo de relações estruturais entre os elementos de uma língua (os sons
integram-se num sistema e agrupam-se em palavras, as palavras também estabelecem entre si
representando-se
relações e agrupam-se em frases). O conhecimento inconsciente que os falantes têm da
ambos como IE/
gramática de uma língua faz parte da sua competência, visto que a aquisição da língua e /a/1 ;
materna implica a aquisição da gramática da língua. Na verdade, todos temos capacidade para

exercer juízos de gramaticalidade acerca da nossa língua materna independentemente de
é a terceira pessoa do
sabermos descrever as estruturas que a caracterizam. Assim, um falante de português é capaz singular do verbo irregular
de dizer que uma frase do tipo "Os gatos está a dormir" é um enunciado mal formado, mesmo
que não saiba explicar porquê.
(te]) em
Como estudo da língua, o termo 'gramática' significa sintaxe é forma de um
verbo copulativo
a) a descrição estrutural do funcionamento dos sistemas de elementos que pertencem aos
("Ela é inteligente")
vários níveis da língua e da inter-relação existente entre esses sistemas (gramática
ou auxiliar ("A notícia
descritiva);
é lida por toda a

b) a teoria explícita construída pelo linguista e proposta como uma descrição da


competência dos falantes (gramática teórica / gramática generativa) 3 • gente");

c) um conjunto de regras impostas por um grupo sócio-culturalmente dominante a um ou


— <é> ([e]) do
vários gmpos de falantes (gramática normativa)4 .
ponto de vista do
Embora a utilização de uma língua exija a interacção de todo o tipo de unidades linguísticas, significado, como
podemos focar a nossa atenção numa área específica para efeito do estudo das línguas em
geral ou de uma língua em particular. Assim, o estudo pode incidir na análise das
propriedades e das relações sistemáticas dos sons (fonética e fonologia), das palavras
(morfologia) ou das frases (sintaxe), assim como na análise do significado tal como ele é
estruturado nas línguas (semântica). Aliás, um mesmo elemento pode ser analisado do ponto
1 Ver.
de vista fonético, fonológico, morfológico, sintáctico ou semântico. Tal sucede em português, sobre os
por exemplo, com o som [E], ortograficamente <é> 5 . Vejamos: element
os
fonológic
— <é> (fel) tem propriedades fonéticas decorrentes do modo como é pronunciado; os, o
capítulo
5. l.

16
forma do verbo 'ser' e em determinadas frases, "indica o ponto do tempo, a estação, a
época: E verao

Como vemos, a análise de um elemento linguístico depende do domínio gramatical em que


estiver a ser considerada. Além dos domínios acima indicados que estão, habitualmente,
incluídos nas gramáticas, considera-se ainda uma outra área, a pragmática, que estuda as
línguas em situação de uso, sendo neste caso o significado das palavras entendido como "a
acção ou acções que com elas se praticam ou podem praticar"8 0 estudo das línguas recorre
ainda a outros instrumentos como os que servem para análise do léxico — dicionários,
vocabulários, glossários e terminologias9 .

O funcionamento das línguas é estudado sobre os dados da sua produção oral e não assenta,
portanto, predominantemente sobre a escrita, embora possa fazer referência episódica a
aspectos ofiográficos10 . A sensação que os falantes alfabetizados têm de que as questões
ortográficas são as questões linguísticas prioritárias advém de a alfabetização se processar nos
primeiros anos escolares, e ser rapidamente interiorizada, além de constituir, muitas vezes, o
aspecto sobre que incide prioritariamente a aprendizagem escolar da língua. E necessário,
porém, que se expanda a ideia de que o conhecimento da língua materna, em qualquer área em
que se desenvolve, visa uma apropriação dos mecanismos linguísticos de modo a permitir
uma melhor explicitação do raciocínio, uma argumentação mais convincente, uma produção
linguística mais rica.

O estudo da gramática de uma língua tem tido diversos objectivos, tanto no decorrer dos
tempos como em função do contexto pedagógico em que se enquadra. Atribui-se a Dionísio de
Trácia (170 - 90AC) a autoria da primeira gramática grega que incide na análise morfo-
sintáctica e distingue oito partes do discurso — artigo, nome, pronome, verbo, particípio,
advérbio, preposição e conjunção. Esta obra reflecte a perspectiva da lógica aristotélica.
O próprio Aristóteles desenvolveu a análise sintáctica ao criar uma teoria da estrutura da
frase que concorre para fundamentar a sua perspectiva lógico-filosófica. Mas são os
latinos que dão à gramática uma outra finalidade, com Varrão (primeiro século AC)
que, embora retome as reflexões lógico-linguísticas dos gregos, orienta a sua obra
também para uma codificação das regras fundamentais da língua latina e da autoridade
dos bons autores (iniciando aqui a gramática normativa), e com Quintiliano (c.40 -
depois de 95DC), professor de retórica, cuja obra se destina a formar o orador que utiliza
a língua para convencer o seu auditório.

Os gramáticos latinos mantiveram-se como modelos durante a Idade Média e o


Renascimento, e até meados do século XVI o estudo das línguas vernáculas era feito a
partir de gramáticas latinas que seguiam o modelo das primitivas.
Cf. Aurélio, 1986: 1572.

* Ver Dicionário de Termos Linguísticos, Vol. I, 1990

Para conhecimento das características de cada um destes instrumentos, consultar o Dicionário de Termos Linguísticos, Vol. II,

1992.

10 Sobre esta questão, ver Duarte, 2000: 215-216.

17
Pode, portanto, considerar-se que a Gramática da Linguagem Portuguesa de
Fernão de Oliveira (1536), a primeira gramática do português escrita nesta
língua, bem como a Gramática da Língua Portuguesa de João de Barros
(1540), são excepções no panorama da época. A primazia do estudo em 11
Sobre as primeiras gramá- gramáticas latinas manteve-se até próximo do final do século XVI II
ticas do português, ver Verdelho,
2001. As gramá-
ticas de Fernão de Oliveira Actualmente, o termo 'gramática' cobre diversos tipos de estudo das línguas:
e de João de Barros estão indicadas na bibliografia — perspectivas teóricas sobre os princípios que regem uma gramática pelo
título de edições críti-
cas recentes. universal e os parâmetros que são escolhidos pelas diferentes línguas e que subjazem à
sua diversidade (teoria da gramática, gramática universal, gramática
generativa);

descrições e análises linguísticas (gramáticas descritivas, gramáticas


estruturais, gramáticas generativas das línguas particulares);

— apresentação de conjuntos de regras que têm como objectivo


ensinar "o que se deve dizer" (gramáticas normativas; muitas das
gramáticas escolares têm esta orientação).

1.2 A Linguística

As questões teoricas relativas à linguagem e às línguas, e as análises


decorrentes de investigação integrada em quadros teóricos, ainda que
possam constituir o conteúdo de gramáticas gerais ou particulares
pertencem, na realidade, à ciência da linguagem denominada linguística.
Este termo, que foi utilizado pela primeira vez em alemão —
Sprachwissenschaft — numa obra de 1833, indica o estudo das línguas
"por si mesmas" e não como reflexo de uma lógica filosófica ou como uma
arte de bem falar.

Curiosamente, as versões do termo em diferentes línguas '


Sprachwissenschaft' , 'linguistics 'linguistique' e 'linguística' — não começaram a
ser usadas simultaneamente. A România, onde se utilizava tradicionalmente o
termo 'filologia' para designar os estudos exegéticos da língua escrita, foi mais
renitente em substituir essa denominação pela de 'linguística' quando se tratava da
análise das línguas. Note-se por exemplo que, nos anos 50 do século passado, as
disciplinas que tratavam da língua na Faculdade de Letras de Lisboa — e em que
já se falava de Saussure chamavam-se Filologia Portuguesa e Gramática
Comparativa. E tem interesse referir que até há bem pouco tempo a palavra inglesa
'linguist' significava, sobretudo, "aquele que sabe línguas".

Considera-se geralmente que o conceito de linguística como uma ciência


data da primeira década do séc. XIX, com o estudo comparado das
línguas indo-europeias e com a tentativa de, através desse estudo,
solucionar a questão da relação genealógica entre as línguas.

A preocupação de estabelecer a origem das línguas e a relação


genealógica entre elas foi responsável pela enorme aceitação que teve
uma comunicação sobre o sânscrito, feita por William Jones na
Sociedade Asiática de Bengala, em 1786. Nesta comunicação, estabelece-
se um parentesco entre o sânscrito e o grego e chama-se a atenção para a
possibilidade de comparar o sânscrito com línguas europeias. Os
estudiosos que se seguiram, como Jacob Grimm, Franz Bopp e Rasmus
Rask, tomaram nas suas mãos o trabalho de estabelecer sistematicamente
essa comparação, evidenciando as correspondências fonéticas e
morfológicas que eram detectáveiš •na análise das várias línguas
presumivelmente aparentadas. Estava-se na primeira metade do século
XIX, e florescia o método comparatista em áreas das ciências naturais
mais avançadas como a biologia, a anatomia e a paleontologia. Os
linguistas aplicaram o método comparatista ao seu próprio campo de
análise, nascendo assim a linguística comparativa.
A pouco e pouco, a análise comparada das línguas foi abrindo caminho
para o estabelecimento da relação genealógica entre elas. Também essa
perspectiva se sintonizou com os métodos científicos contemporâneos
criando a linguística histórica. Surgem então as árvores genealógicas das
línguas: as línguas mães, irmãs, primas, filhas e netas. No entanto, não foi
este enfoque histórico, mas sim a descrição sistemática e comparada dos
conjuntos de unidades fonéticas e morfológicas das línguas em análise -
descrição essa submetida a critérios rigorosos e objectivos - que nos
pelmitiu fixar essa época como a do surgimento da linguística como
ciência. Não se tratava mais de estudar aspectos históricos ou filosóficos
através das línguas, mas, como dizia Franz Bopp a propósito da obra em
que compara o sânscrito, o grego, o latim e as línguas românicas, "As
línguas de que trata esta obra são estudadas por si mesmas, quer dizer,
como objecto e não como meio de conhecimento
Durante a segunda metade do século XIX, duas outras importantes orientações se manifestaram no
estudo das línguas: o desenvolvimento da fonética e o crescente interesse pela descrição das
línguas vivas. Foi ainda pelos finais do cas. século XIX e início do século XX que os linguistas
aproximaram o estudo das lín auas dos conhecimentos científicos emergentes empsicologia. Nesta
época, floresceram as gramáticas históricas das línguas europeias realizadas por linguistas

15
conhecidos sob a denominação de 'neo-gramáticos' 13 . Data também do início do século XX
o surgimento de descrições dialectais, correspondendo ao interesse acima referido pelas
línguas vivas 14 dialectologie portugaise.
15
Uma boa 't' Para o conceito de distrihuiçäo em fonologia, veja-se 0 capítulo 5.1,
apresentação dos A perspectiva de que a percepção e a linguagem eram actividades estruturadas e
estruturalismos
europeu e norte- estruturantes esteve na base do desenvolvimento da mais importante corrente das ciências
americano pode humanas na primeira metade do século XX, o estruturalismo, a que estão ligados os
ver-se na obra já
antiga, mas clara nomes de dois grandes linguistas: na Europa, Ferdinand de Saussure (1857 - 1913) e, na
c completa. de América do Norte, Leonard Bloomfield (1887-1949) 15 . O conceito de estrutura é uma
Malmberg
(1966), pp. 51-
presença constante nos trabalhos dos linguistas da época, motivando a criação de
SI e 235-277. métodos e técnicas próprios para o estabelecimento dos das línguas em bases empíricas.
Em Duarte Os dados sobre que assentavam as descrições constituíam o corpus. Dados os bons
(1988)
encontramos a resultados da investigação assim realizada no que respeita à descrição das línguas, muitos
seguinte trabalhos continuam a utilizarcorpora, criados de acordo com as necessidades da
caracterização
do pesquisa, para analisar aspectos linguísticos relevantes.
estruturalismo
norte- Foi também na primeira metade do século XX que a lógica se orientou no sentido de um
americano:
"Exclusão de raciocínio formalizado e, em interacção com a matemática, estimulou o progresso em
todos os termos ambas as ciências levando à criação de instrumentos teóricos que influenciaram
teóricos não
directamente
profundamente os estudos linguísticos a partir dos anos 50.
relacionados
com fenómenos Os linguistas recorrem então a representações formais das unidades linguísticas. De uma
observáveis. forma muito simplificada, pode dizer-se que as representações formais implicam a
recusa de
enunciados de substituição dos elementos concretos por símbolos, os quais permitem representar, num
natureza nível abstracto, as relações entre os elementos do sistema de uma língua. Quando se
explicativa,
insistência na
representa a unidade 'frase' por F, a unidade que inclui o nome e seus complementos
variação sem (sintagma nominal) por SN e o verbo e seus complementos (sintagma verbal) por SV
limites entre as podemos apresentar as relações entre estas três unidades em diagrama de árvore ou com
línguas" (p.
548). parênteses, como segue: [F[SN] [SV]IF. Esta é uma representação formal extremamente
elementar que não distingue as unidades últimas (por exemplo, o 'nome' ou o 'verbo') mas
que cobre todas as frases que integrem apenas um sintagma nominal e um sintagma
verbal, como uma frase do tipo O aluno estudou a lição.
A utilização destes instrumentos pelos linguistas norte-americanos desenvolveu a análise
das frases em constituintes imediatos, ou seja, unidades sintagmáticas (os sintagmas
nominal e verbal, por exemplo) que 'constituem' a frase pela relação que estabelecem uns
com os outros. Este conceito está intimamente ligado ao de distribuição das unidades
sintácticas 16

Por outro lado, as representações formais permitem estabelecer regras que utilizam os
símbolos e indicam as operações que se efectuam no funcionamento da língua. Estas
regras, que no âmbito da gramática generativa clássica se denominavam 'regras de
transformação' , permitiam, por exemplo, integrar uma oração subordinada relativa na
oração principal, como no estabelecimento da relação entre as duas frases A rapariga tem
um gato preto e Eu conheço a

rapariga. A regra de transformação produz a frase A rapariga que eu conheço


tem um gato preto.

16
A sintaxe passou entre o homem e o animal, é a faculdade da linguagem, e permite construir,
então a constituir o com poucas dezenas de sons, uma infinidade de expressões que revelam aos
centro de atenção na outros o que pensamos, o que imaginamos e o que sentimos.
análise linguística, e
Para a linguística actual, a hipótese de existência da faculdade da linguagem
foram criados
não assenta apenas na constatação de que todos os homens falam e na relação
sistemas de regras
que a linguagem estabelece com os processos cognitivos universais — cujo
que permitiam
conhecimento se deve ao progresso das ciências da cognição. Um outro facto
descrever de forma
vem evidenciar a existência dessa faculdade: a aquisição da língua materna
explícita a
levada a efeito por todas as crianças em tempo incrivelmente breve e perante
construção das frases
dados lacunares 17 em relação à competência que rapidamente adquirem. Essa
de uma língua.
aprendizagem não pode provir senão de mecanismos cognitivos preparados
Importa referir desde especialmente para esse fim, mecanismos universais e genéticos. Os estudos
já o nome de Noam de aquisição da língua materna sucederam-se então, focando diversas áreas da
Chomsky e salientar estrutura das línguas.
a sua obra
fundamental para a Em consequência de existirem esses mecanismos universais que funcionam
criação da teoria da na construção da gramática de todas as línguas, considera-se também que a
gramática generativa gramática possui categorias universais em todas as áreas da língua, como as
e para a sua 'vogais' e as 'consoantes' na fonologia, a 'raiz da palavra' ou o 'tema' na
aplicação em vários morfologia, o 'nome' e o 'verbo' na sintaxe. A investigação linguística procura
níveis das línguas. E determinar as categorias universais que estão subjacentes ao funcionamento
importa referi-lo não das línguas e procura explicar que relações estabelecem entre si essas
só pelo seu papel categorias, ou seja, quais os mecanismos universais da gramática e como são
fulcral no âmbito da usados na produção linguística.
linguística formal, Mas como se compatibiliza a existência de princípios e categorias de uma
mas também por ter gramática universal, subjacente à gramática das línguas, com a diversidade
retomado e
desenvolvido a Consideram-se 'lacunares' os dados a que a criança está exposta visto que muitas regularidadcs dos paradigmas
gramaticais são inferidas pela criança e não surgem no discurso oral a que ela tem acesso.
hipótese cartesiana
da existência de uma Sobre variação linguisti• Barros Ferreira et al.. 1 996.
capacidade humana,
inata e específica,
diferente das demais
Sobre línguas em contac ver Mota. 1996.
capacidades
cognitivas, que está das línguas particulares? Para compreender esta diversidade vejamos os
na da utilização da seguintes aspectos:
linguagem. Essa
Uma língua particular "escolhe" a forma de concretizar as categorias
capacidade, que já
universais, distinguindo-se assim das outras línguas. Por exemplo,
tinha sido
algumas línguas como o alemão ou o latim possuem a categoria 'caso'
apresentada por
concretizada em sufixos dos nomes e adjectivos, indicando-se através
Descartes como a
desses sufixos se o nome funciona como 'sujeito' ou 'complemento' da
diferença essencial

17
frase; outras as difèrenças. Assim se deu com as línguas derivadas do latim — as
línguas línguas românicas — ou as derivadas do antigo germânico — as
concretizam línguas germânicas. Essa diversidade, que se torna evidente quando
estas observamos o nível de superfície das línguas, não significa contudo
categorias que nelas tenham desaparecido os princípios da gramática universal.
universais mas sim que a evolução trouxe uma alteração dos parâmetros
por meio da escolhidos por cada língua em alguma, ou algumas, das áreas
colocação gramaticais.
do nome na
O estudo da diversidade das línguas deu origem à investigação sobre a variação
frase ou da
linguística lS tanto regional (dialectos e variedades nacionais) como histórica
preposição
(diferentes manifestações da língua através dos tempos) ou social (variações
que o
relacionadas com factores sociais, denominadas sociolectos) ou, ainda,
precede.
situacional (registos, isto é, utilização pelos falantes de diversos estilos de
Por outro língua de acordo com a situação). O estudo da variação, incluindo as
lado, o consequências do contacto entre línguas! 9 e a formação de línguas mistas, de
conheciment pidgins e de crioulos, veio auxiliar a compreensão do funcionamento das
o que temos línguas e da relação entre produções linguísticas e processos cognitivos.
da deriva, ou
evolução,
das línguas
leva-nos a Concluindo:
concluir que,
se cada uma A linguística é um estudo científico porque assenta em pressupostos teóricos
delas roi coerentes, utiliza ohjectividade e rigor na descrição dos dados e apresenta
evoluindo hipóteses de explicação com base nos pressupostos teóricos, hipóteses que
no tempo, a podem ser confirmadas ou refutadas perante os dados das línguas em análise.
separação
entre elas A gramática é a descrição estrutural do funcionamento dos sistemas de
aprofundou elementos de uma língua particular e, portanto, beneficia da investigação
linguística, abrange as grandes áreas da língua e deve permitir uma difusão

18
19
2. I Considerações gerais

Objectivos e resumo

Nesta secção introdutória supõem-se apreendidos os conceitos de


Gramática e Linguística. Pretende-se agora que o aluno:

• consiga explicitar a diferença entre Fonética e Fonologia;


• reconheça a diferença entre teorias fonológicas e seja capaz de
caracterizar, distinguindo-as, a fonologia estrutural e a fonologia
generativa;

• apreenda alguns dos aspectos que distinguem as teorias fonológicas


mais recentes;

• procure, a partir de informações dadas no texto e em nota, a


aplicação que neste livro se faz ao português, de algumas das
propostas mais recentes em fonologia.

Para atingir estes objectivos, inclui-se no capítulo uma definição de


fonética e de fonologia, fundamentada nos principais marcos históricos
relacionados com a distinção entre estes dois domínios do estudo dos sons
das línguas. Relativamente ao desenvolvimento da fonologia, apresentam-
se resumidamente as teorias clássicas da fonologia estrutural e da
fonologia generativa 'standard' e faz-se referência à distinção entre
algumas teorias e modelos mais recentes: fonologia autossegmental,
geometria de traços, fonologia lexical, fonologia métrica e fonologia
prosódica.

Este livro é dedicado à fonética e à fonologia do poftuguês europeu. As


análises apresentadas fundamentam-se em orientações teóricas que se
considera possuírem um poder explicativo satisfatório e que subjazem a
investigações recentes aplicadas à língua portuguesa. Na elaboração do
livro esteve sempre presente uma preocupação pedagógica de clareza e de
exemplificação abundante, já que o seu objectivo não é o de discutir
questões teóricas mas o de descrever o funcionamento do português,

27
apresentando, quando possível, uma explicação das especificidades da
língua. Não se pretende, portanto, realizar uma obra de investigação
linguística mas uma gramática descritiva das áreas mencionadas, utilizando
para tal instrumentos formais de modelos teóricos da linguística.

Antes de tudo convém dizer que o estudo da fonética e da fonologia de uma


língua é a descoberta do funcionamento da sua 'face exposta' , daquele nível
a que primeiro temos acesso quando ouvimos alguém falar. Muitas
observações feitas por pessoas desconhecedoras da linguística incidem no
domínio dos sons e constituem juízos de valor. Para a maioria dos
falantes/ouvintes, as línguas, mesmo desconhecidas, são mais ou menos
"agradáveis", algumas são mais "cantadas", outras mais "ásperas". Além
disso, quando se trata de uma comparação entre dialectos, sociolectos ou
variedades nacionais de uma única língua, os ouvintes diferenciam os
falantes por possuírem este ou aquele "sotaque". Finalmente, sobre as
diversas formas de falar uma língua exercem-se por vezes julgamentos:
certas pronúncias são desprestigiadas, outras risíveis, há quem considere
que aqui se fala "bem" ou "correctamente" e que ali a língua é "deformada"
ou "incorrecta".

Nenhuma destas opiniões tem fundamento linguístico. Elas têm como


origem o confronto com os sons a que os nossos ouvidos estão habituados ou baseiam-se em
julgamentos de carácter social. Além disso, as pesquisas Ver sobretudo Labov realizadas em
sociolinguística desde os anos 70 1 mostram inquestionavelmente (1972). que tanto as variedades
dialectais quanto as variedades sociais ou nacionais possuem idênticas capacidades, em termos
linguísticos, para expressar totalmente o que pretendem comunicar os falantes da respectiva
variedade. A norma padrão tem apenas a seu favor o prestígio social que lhe advém da utilização na
escola, nos meios de comunicação social, no ensino como língua estrangeira. E deste ponto de vista
que deve ser valorizada a sua aprendizagem.

Em consequência, o conhecimento do funcionamento de uma língua exige


o estudo objectivo e despreconceituado das diferentes áreas linguísticas.
No caso do nível fónico da língua, esse estudo é o que nos permite
ultrapassar o tipo de observações ingénuas acima indicadas e encontrar as
bases científicas da produção e da compreensão da fala.

28
2.2 Fonética: alguns marcos históricos já na segunda
metade do século
XX, completados e
A atenção dada à história das ciências justifica-se pela convicção de que as
mesmo substituídos
teorias científicas representam um progresso na investigação dos fenómenos,
pelas análises
quer se trate das ciências humanas ou das ciências exactas. Esta mesma
electrónicas
convicção tem estado presente nos linguistas que consideram que os
realizadas em
resultados das pesquisas que se sucedem no tempo constituem um avanço
computador. A
fundamental na compreensão da natureza da linguagem. Essa é a razão por
fonética
que se julga de interesse apresentar aqui algumas referências ao percurso
experimental nas
histórico do desenvolvimento científico da fonética, da fonologia e da
suas três vertentes
morfologia.
— articulatória,
Os estudos de fonética acompanharam os primeiros tempos da linguística e acústica e
apoiaram as relações que foram sendo estabelecidas entre as línguas. Como perceptiva3 — tem
ciência dos sons da fala, a fonética desenvolveu-se durante a segunda metade constituído
do século XIX em consequência, por um lado, do estudo científico das - So
línguas nas perspectivas comparativa e histórica, e por outro, da criação de bre os
instrumentos que tornaram possível a análise acústica e articulatória do som. conhecimentos
de fonética na
Não significa esta afirmação que antes desta época o estudo dos sons das Antiguidade,
pode consultar-
línguas fosse desconhecido ou se lhe não atribuísse importância. A criação, se com proveito
na Antiguidade, de alfabetos ortográficos evidencia uma capacidade de Malmberg
discriminação dos sons da fala que só foi possível com uma análise acurada (1971).
sobretudo o
do contínuo sonoro. As descrições dos gramáticos indianos, dos quais o mais
capítulo I.
conhecido é Panini (c. século IV AC), bem como dos egípcios, dos gregos e
dos romanos mostram um interessante desenvolvimento da fonética
articulatória que provém, sobretudo, de minuciosas descrições dos aspectos
fisiológicos que permitem a produção dos sons2 . A partir do Renascimento, e
em consequência da importância que então assumia o estudo das línguas
vernáculas, a pronúncia dos sons e as questões de articulação com ela
relacionadas começaram a ocupar um lugar de relevo nas análises
gramaticais.

Mas é durante o século XIX, quando surge a tentativa de criar um alfabeto


que servisse a transcrição fonética e que fosse, tanto quanto possível,
fundado sobre os dados fisiológicos e anatómicos conhecidos através da - Ver
experimentação, que se pode colocar o início da fonética como ciência. Os , no capítulo da
fonética, uma
factos empíricos (como a força expiratória na produção sonora, a colocação explicação
dos órgãos do aparelho fonador ou as características acústicas das ondas desenvolvida
destas três
sonoras) começaram a ser estudados com a utilização de instrumentos que, perspectivas.
Sobre fonologia segmental
progressivamente, se foram sofisticando. O apoio da radiografia no estudo da e prosódica. ver 0 capítulo
fonética articulatória e do espectrógrafo na análise acústica dos sons foram, da fonologia.

29
O termo Phonology ocorre já em 1799. O Círculo Linguístico de
Praga foi fundado em 1926
por iniciativa de linguistas
6
«La langue a le caractère d' un système hasé complète. ment sur l'opposition de ses unités concrètes» checos. De entre os
(Saussure, 1964:149). estrangeiros que
colaboraram na
investigação aí realizada,
distinguem-se os dois
Trata-se da Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo— -européennes. em
linguistas russos Nicolau
Trubetzkoi e Roman J
akobson.

uma base
fundamental e
imprescindível para
o estudo das línguas
nomeadamente na
área da fonologia
segmental e
prosódicaa

2.3 Fonologia:
Teorias e Modelos

2.3.1 Fonologia
Estrutural

A fonologia é uma
área da linguística que
estuda os sistemas de
sons da línguas,
sistemas esses que têm
correspondência no
conhecimento
intuitivo mental que
os falantes possuem
da sua língua.

A fonologia pode,
portanto, entender-se
como um estudo
que Saussure inclui, no inventário das vogais do indo-europeu, dois elementos que. nessa altura, ainda nào tinham teórico que abrang as
sido atestados foneticamente. e que apenas surgiam sob a forma de outras vogais ou através da sua influência
sobre a vogal precedente. Esta hipótese supõe a consideração de uma organizaçäo em sistema das vogais do indo- línguas em geral, ou
europeu. como um estudo

30
aplicado a uma língua particular ou um grupo de línguas, mas fundamentado numa fonológicas). Até
perspectiva teórica. meados dos anos
Note-se que as primeiras utilizações do termo — no final do século XVIII sobretudo 50, os sucessores
durante a segunda metade do século XIX 5 — não correspondiam ac seu significado de Bloomfield
actual. Se nos reportarmos, por exemplo, a Ferdinand Saussure cuja docência em .com destaque
Génève, de 1893 a 191 3, foi transmitida pelo: seus discípulos no Cours de para Charles
Linguistique Générale, verificamos que o capítul( 'Principes de Phonologie' contém na Hockett e Zellig
realidade descrições do aparelho fonado e análises dos sons de várias línguas, numa Harris)
evidente perspectiva de fonéticu articulatória. O conceito de sistema, que se encontra desenvolveram
no mesmo autor en afirmações sobre a língua por oposição à fald' , não se reflecte na
conceitos
consagrada à fonologia. Curiosamente, no entanto, é no trabalho realizadc alguns anos
antes, em 18787 , que Saussure mostra a sua coerência em relaçãc à perspectiva linguísticos e
estrutural que subjaz aos conceitos desenvolvidos no Cours. iniciaram
fomalizações13
No entanto, em finais do século XIX é possível encontrar esporadicamente na descrição com que
fac de algumas línguas e devido à intuição linguística dos seus autores. o entendimento da
e sustentaram as
fonologia como um estudo do sistema dos sons. É deste modo que se pode considerar a
suas descrições
que primeira descrição de conjunto do sistemt fonético do português, surgida em 1883 e da
autoria de Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, cujo título evidencia a perspectiva análises
fonológica atrás referida: Essai de phonétique et de phonologie de Ia langue portugaise fonológicas.
os d'après le dialecte actuel de Lisbonne.
de 1960 um
Foi só por volta da terceira década do século XX que os autores estruturalistas livro de grande
explicitaram a distinção entre fonética e fonologia, distinção presente, sobretudo, nos importância para o
trabalhos realizados no âmbito do Círculo Linguístico de Praga s e nas obras dos estruturalismo
e estruturalistas americanos. europeu serviu de
Assim, em 1939, Nicolau Trubetzkoi definia a fonética como "a ciência da modelo na
Nosmaterial dos sons da linguagem humana" e a fonologia como o estudo "deve descrição de
(ouprocurar que diferenças fónicas estão ligadas, na língua estudada, a diferenças diversas línguas.
quede significação, como se comportam entre si os elementos de diferenciação Trata-se dos
-som(ou marcas) e segundo que regras podem combinar-se uns com outros para Eléments
formar palavras e frases"9 . Os linguistas do Círculo de Praga tinham um linguistique
em largo conhecimento de numerosas línguas .com relevo para as indo-europeias) générale, de
I e preocupavam-se com o estabelecimento dos seus sistemas fonológicos, André Martinet,
pé procurando as relações entrefonemas 10 e discutindo as oposições correlações que teve tradução
entre sons, visando sempre uma perspectiva rigorosamente funcional para o português
Jorge de Morais
Estados Unidos, Leonard Bloomfield, em 1933, denomina fonologia Barbosa, autor,
e fonética prática) "o estudo dos sons significantes do discurso", afirmando a igualmente, da
fonologia "inclui a consideração do significado"12 Este conceito de mais completa
Data significante' implica que os sons de uma língua só são considerados elementos descrição
que fonológicos quando a sua substituição altera o significado da palavra que estruturalista do
de estão integrados, o que sucede, por exemplo, nos pares de palavras pá (Ia/ e sistema
por /e/, duas vogais fonológicas) ou pá / má (/p/ e /m/, duas consoantes fonológico da

de
uma

Foi
uma

de

31
língua portuguesa i4 . Deve acrescentar-se que os métodos e técnicas O português
foi tratado
explicitados e adoptados pelos autores referência do estruturalismo dentro deste
linguístico se mantiveram muito para além de visão exclusivamente modelo nos
Aspertos da
estruturalista 2 , como orientação para a determinação dos elementos dos Fonologia
Portuguesa
sistemas de sons de uma língua. (Mateus. 1975)
e na
ainda nos meados do século XX que Jakobson, Fant e Halle publicaram Phonologie
(Générarive)
pequena obra que veio a revelar-se fundamental para o avanço da du Porrugais
(Andrade
investigação sobre a fala: Preliminaries to speech analysis. The distinctive Pardal, 1977).
features and their correlates (1952). O livro surge numa época em que o Sobre o
francês. ver a
desenvolvimento da teoria da comunicação, também denominada 'teoria da obra de
transmissão da informação', abria caminhos surpreendentes para a Schane; o
espanhol foi
compreensão do modo de transmissão da fala em termos de produção e A tratado por
Harris e o
partir desse momento a fonologia contou com uma classe universal traços italiano por
distintivos dos sons, traços binários estabelecidos com base nas suas Saltarelli.
Vejam-se as
9 respectivas
Trubetzkoi, 1949:12. Itálico nosso.
referèncias
bibliográficas.

Trubetzkoi define fonemas como "unidades fonológicas que (...) não se deixam analisar em
unidades fonológicas ainda mais pequenas e sucessivas" (p. 37).
Veja-se 0
capítulo 5.1.4.
O fonema é antes de tudo um conceito funcional, que deve ser definido em relaçäo à sua função" onde são
(p. 43). Ver em Trubetzkoi os capítulos 1-111. Ver também Baudouin de Courtenay, 1972. estabelecidos o
nírel
subjacente dos
12 Bloomfield, 1933:76-77 da edição francesa Le langage. Paris: Payot, 1970. Itálico nosso. Note-se elementos
que o significado para Bloomfield se inscreve numa perspectiva behaviourista, em que a linguagem é fonológicos do
uma resposta a um estímulo interior ou exterior ao indivíduo. português e
certas regras
Por formalização entencie-se aqui a representação dos fonemas por símbolos que permitem que sobre eles
manipular a sua distribuição nas palavras e representar processos morfológicos como a formação do se aplicam,
plural, por exemPIO. bem como
algumas
generalizações
relativas ao
Ver a referência bibliográfica da obra de Morais Barbosa.
sistema
Em 5.2.1 c 5.22. apresentados os traços distintivos necessários para caracterizar os
fonológico.
fonemas do português.

19
Como
reacção à
orientaçäo da
fonologia
generativa
clássica,
considerada
2 Veja-se adiante, em 5.1. l. demasiado
5.1.3., a aplicação ao português dos conceitos da fonologia estrutural e da técnica utilizada abstracta,
para estabelecer O sistema de vogais e de consoantes. surgiram. nos

32
anos 70. dois modelos que representavam uma aproximação à 'realidade' dos sons: a fonologia na/"ral
e a fonologia generativa natural. Estes modelos nào tiveram repercussão na investigaçäo fonológica
realizada em Portugal. Sobre estes dois modelos. veja-se Mateus e Villalva (eds.). 1985.
características acústicas que, mais tarde, foram substituídas em grande parte pelas
características articulatórias 16 .

2.3.2 Fonologia Generativa clássica

Em 1968 surgiu, com grande poder de inovação, a obra de Chomsky e Halle, The
Sound Pattern ofEnglish (adiante, SPE), que constituiu o modelo para a elaboração de
numerosos trabalhos integrados na teoria generativa. Esta orientação teórica é hoje
denominada fonologia generativa clássica ou standard. As aplicações deste modelo nas
línguas panicuIares 17 não têm como objectivo discutir quais os elementos, ou
segmentos, que fazem parte do sistema fonológico de uma língua, já que as vogais, as
consoantes e as semivogais podem, de um modo geral, ser determinadas por métodos
estruturalistas. A preocupação da teoria generativa centra-se, antes, nas questões
relacionadas com a organização dos segmentos fonológicos e com a representação das
operações do processamento mental do nível fonológico.

Dentro desta perspectiva, toda a análise se orienta para a construção de um nível


subjacente, relacionado com o nível de superfície através de regras, e com
aformalização das generalizações estipuladas lS . Estamos, portanto, diante de uma
análise formalizada das línguas, ou seja, uma análise que utiliza instrumentos formais,
tal como o faz a lógica ou a matemática. Esta análise tem a vantagem de permitir fazer
generalizações sobre os dados linguísticos e, além disso, estabelecer princípios do
funcionamento da língua.

2.3.3 A Fonologia pós-SPE

A investigação posterior à aplicação, em diversas línguas, do modelo da fonologia


generativa clássica está marcada, principalmente, pelas seguintes orientações que se
desenvolveram durante as duas últimas décadas do século xx 19 :

— a fonologia autossegmental, que abandona o modelo linear da


fonologia clássica em favor de uma concepção multilinear;
— a geometria de traços, que se integra na concepção autossegmental da fonologia
e propõe uma organização hierárquica da estrutura interna dos segmentos
fonológicos;

33
2
— a fonologia lexical, que propõe a integração dos processos fonológicos ' Ver. em 4.4. e 6.1., as
definiçöes de tom e duração.
num modelo de gramática;

a fonologia métrica e a fonologia prosódica, dois modelos que tratam as - Veja-se em 6.3. o
questões prosódicas propondo hipóteses sobre o seu funcionamento. tratamento do acento
em portugues.

Estas orientações teóricas, a seguir sumariamente caracterizadas, estão


subjacentes à maioria dos trabalhos em fonologia que se realizam Em 6.2.. é apresentada a
estrutura da silaba em
actualmente. português.

Os princípios da
fonologia
Fonologia Autossegmenta12() autossegmental foram
apresentados por
Goldsmith. pouco
O facto de o modelo da fonologia generativa clássica considerar, por um lado, a tempo após o seu
doutoramento. num
formulação das regras como objectivo central da análise e, por outro lado, o artigo com o título
segmento fonológico (o som) como o domínio próprio de aplicação dessas "The aims of
autosegmental
regras impediu o desenvolvimento de uma adequada análise de certos aspectos phonology••,
das sequências fónicas das línguas. As limitações do modelo clássico foram publicado em 1979 em
surgindo à medida que ele era testado em línguas de natureza muito diferente das D. Dinnsen (ed.). pp.
202-222. Tradução
línguas românicas e germânicas, evidenciando-se a impossibilidade de tratar, por portuguesa em: Mateus
exemplo, aspectos prosódicos como o tom e a duraçã0 21 . Foi também e Villalva (eds.), 1985.
pp. 295-337.
reconhecida a desvantagem do tratamento do acent0 22 exclusivamente no nível
do segmento (ou do som) sobre que incide. Finalmente, o modelo de Chomsky e
Halle revela insuficiências para a análise de constituintes mais vastos do que o
segmento, como, por exemplo, a sílaba 23 : Tendo presente que certos processos
fonológicos se aplicam nas fronteiras de sílaba, reconheceu-se que os
instrumentos existentes não eram sensíveis a essas fronteiras. 33
Z
' Ver o tratamento
Estas insuficiências provocaram o surgimento da teoria autossegmental, da nasalizaçáo na
proposta inicialmente por Goldsmith ( 1979) na procura de resolver problemas perspectiva
autossegmental em
postos pela análise das línguas tonais, isto é, das línguas como o chinês que 5.3.2.
utilizam tons com valor distintiv0 24 . Nos anos que se seguiram, a teoria alargou
o seu domínio de aplicação a outros aspectos da fonologia, como os três
processos seguintes:

(a) acento
(b) harmonização vocálica
(c) nasalização
Estes três processos envolvem mais de que um segmento e, desse ponto de vista,
dificilmente se podem explicar no modelo da teoria generativa clássica visto esta
teoria ser um modelo linear cujo domínio é o segmento. Em contraposição, a
fonologia autossegmental é uma teoria multilinear cujos
20
A teoria autossegmental e o modelo da geometria de traços têm orientado várias análises recentes da
fonologia do português. Uma perspectiva de conjunto das principais questões segmentais e prosódicas da
língua portuguesa encontra-se em The phonology of Portuguese, publicada em 2000 por Maria Helena
Mateus e Ernesto d' Andrade.

34
Ver o que se diz na nota 20 a respeito da geometria de traços como orientaçäo de análises do de traços. A nova
português. concepção da
organização
interna dos
segmentos veio
tornar evidente
Ver Clements. 1 985 e que certos traços
Clements e Hume. 1995. fonológicos
domínios de aplicação se encontram distribuídos em vários níveis autónomos actuam em
(p.ex.: o acento, a sílaba, o segmento, os traços) e podem englobar mais do que conjunto no
um segmento. funcionamento de
processos
Na realidade, o acento de palavra torna proeminente toda uma sílaba e não só um
fonológicos como
único som. Ao mesmo tempo, o facto de uma sílaba da palavra ser acentuada tem
a assimilação
reflexos sobre as sílabas não acentuadas, como se comprova, por exemplo,
entre segmentos
comparando as duas formas verbais casa e casar em que a mesma vogal se
ou as
pronuncia de modo diferente quando está em sílaba acentuada (casa [a]) ou em
modificações de
sílaba não acentuada (casar
altura das vogais28
No que respeita à harmonização vocálica dos verbos, temos um exemplo da
Ainda com relação à
relação entre elementos da sequência fónica na forma durmo, do verbo dormir,
identificação dos
em que o [u] que ocorre na raiz de durmo resulta de uma influência da vogal [i]
segmentos com traços
do infinitivo.
fonológicos, deve
A nasalização, por seu lado, implica a expansão do traço nasal sobre uma vogal, mencionar-se o
hipótese que tem justificação na relação entre as palavras irmão e irmanar, visto conceito de
que em innão a nasalidade incide no ditongo (vogal e semivogal) e em irmanar a subespecificação que
nasalidade realiza-se na consoante nasal [n1 25 propõe que os
segmentos subjacentes
Assim, para responder às exigências da análise fonológica, a teoria possam ser, em certas
autossegmental propõe a existência de vários níveis autónomos e inter- circunstâncias,
relacionados como, por exemplo, o nível da sílaba e dos segmentos. Também os incompletamente
traços prosódicos (tom, acento, duração) estão situados em níveis autónomos, o especificados e que se
que permite por exemplo que, numa língua tonal (i.e., uma língua que utiliza o possam distinguir,
tom com carácter distintivo), uma vogal com determinado tom seja suprimida em numa determinada
certa forma verbal, mas o tom se mantenha associado a outra vogal da palavra, o língua, segmentos
que prova que o tom e a vogal pertencem a níveis autónomos. Estamos, portanto, não-marcados de
diante de um modelo multilinear. segmentos marcados.
Em termos da teoria
da subespecificação,
os elementos são não-
Geometria de Traços26 marcados, ou
marcados, de acordo,
respectivamente, com
Também os traços (ou propriedades) fonológicos que caracterizam o segmento a maior ou menor
podem ser integrados em diferentes níveis e manter uma certa autonomia, de frequência da sua
modo a persistirem mesmo quando o segmento a que pertencem é suprimido, ocorrência nas línguas
como acontece na harmonização vocálica dos verbos em português. Esta do mundo ou numa
aplicação da teoria autossegmental aos traços fonológicos, cuja proposta inicial
foi apresentada por Clements em 1985 27 , recebeu a denominação de geometria
língua particular e, ainda, de acordo com os processos fonológicos a que estão Cost
sujeitos29

a,
Fonologia Lexical

A relação entre o léxico e as componentes fonológica e morfológica das línguas e,


ainda, a interacção das respectivas regras e processos deram origem a uma proposta 2001
de organização da gramática que tem sido designada por fonologia lexical (ou
morfologia lexical)30 . Esta proposta foi inicialmente apresentada por Kiparsky em
1982 e desenvolvida por Mohanan (1986), e tem o grande interesse de
integrar no modelo as entradas lexicais (léxico) e as regras
. pp.
morfológicas que se aplicam sobre essas entradas (componente por
morfológica), cuja aplicação cria contextos para a actuação das
regras fonológicas (componente fonológica). Trata-se, portanto,
de um verdadeiro modelo de organização da gramática nestas áreas.
103-

produçöes

Fonologia Métrica e Fonologia Prosódica


que
108. de
Como se afuma em 1.3., os traços prosódicos das línguas exigem um a
tratamento de acordo com a sua função linguística, na medida em que não da
só contribuem para a interpretação do significado como
ver
determinam o ritmo da frase. A fonologia métrica tem procurado, Veja-se em 6.
através de diferentes modelos, captar as relações de proeminência l. a apresentaçäo
do acento nas sequências fónicas, construindo árvores e grelhas destes
te-constituintes
métricas que têm como principal objectivo a atribuição do acento de verhierarquizados.
palavra tanto principal como secundário. A obra de Liberman e (2000),
Prince ( 1977 ) pode considerar-se uma das primeiras, senão a
primeira, proposta de formalização da atribuição do acento de Sobre a
palavra na perspectiva da fonologia métrica. aplicaçäo deste
modelo dos
constituintes
Ver em 5.3. l. o processo de modificação de altura das vogais nào prosódicos em
acentuadas em português. português. veja-
35se a última
edição da
Gramática da
Lingua
Portuguesa.
2003: 1059-
cida como OT, ou seja, 1076, e adiante
o capítulo 6.4.
Ver ainda. no
capitulo 6. desta
Obra, as
referências
bibliográficas

36
aos trabalhos de Sónia Frota. Marina Vigário, Isabel Falé, Maria Joäo Freitas. Ana Isabel Mata e
Isabel pereira.
A análise da prosódia não se limita, contudo, aos modelos métricos de atribuição do
acento, mas tem desenvolvido modelos de integração da entoação, do tom, da
duração e das pausas no estudo das sequências fonéticas. Deve-se a Marina Nespor e
Irene Vogel ( 1986) uma obra fundamental para a criação da fonologia prosódica que
propõe instrumentos para o estudo da entoação das línguas e dos constituintes
prosódicos, estabelecendo entre esses constituintes a seguinte hierarquia 31 : sílaba,
palavra prosódica, sintagma fonológico, sintagma entoacional e enunciado A
aplicação deste modelo em diferentes línguas tem permitido captar a função dos
constituintes prosódicos na produção de significad032

Concluindo:

Tendo presente o que fica dito sobre a fonologia, são de realçar os seguintes
aspectos:

— a relevância do método estruturalista para a identificação dos elementos dos


sistemas fonológicos;

— a necessidade de utilizar uma formalização linguística, como a proposta pela


gramática generativa, que permita captar as operaçõesfonológicas e as
generalizações estabelecidas sobre as línguas;
— a pertinência de considerar a existência de níveis autónomos na componente
fonológica de modo a permitirem o tratamento das unidades — segmentos e
consti tuintes prosódicos — de forma adequada ao seu funcionamento e
possibilitarem a organização dos traços distintivos (ou seja, das propriedades
dos sons);

— a importância de utilizar modelos adequados à análise dos aspectos


prosódicos das línguas, que tenham em conta as relações métricas entre
proeminências acentuais e as unidades tonais e entoacionais das línguas.

Leituras complementares

Bloomfield, Leonard,
1933 Language. New York: Holt, Reinhart & Winston, pp. 76-77 da edição
francesa Le langage. Paris: Payot, 1970.
3. Baseando-se no que se diz em 2.3. I. sobre o fonol
capítulo 'Principes de Phonologie' do Cours ogia
de Linguistique Générale de Ferdinand de põe
Saussure (e, se possível, com consulta desse hipóte
capítulo na obra original) e, por outro lado, ses
sobre o que se diz, também em 2.3.1., a sobre
respeito do conceito de fonologia de a
Trubetzkoi, explique por que se pode relaçã
considerar que Saussure, nesse capítulo, não o dos
tem uma perspectiva fonológica, mas sistem
fonética. as de
sons
4. A partir do livro de Jorge Morais Barbosa, com
Introdução ao Estudo da Fonologia e os
M01fologia do Português (7. I. a 7.16.) proce
apresente o conjunto de vogais acentuadas do ssos
português proposto pelo autor. cognit
ivos
5. Com base na apresentação que se faz em de
2.3.3. das teorias mais importantes da produ
fonologia recente, procure caracterizar duas ção da
delas à sua escolha. fala.

2. A partir
Sugestões de soluções para as actividades de
propostas uma
gramá
tica
1. Enuncie três aspectos que distingam os estudos tradici
de fonética dos estudos fonológicos. onal
(uma
Resolução:
gramá
(i) A fonética estuda as características físicas tica
dos sons da fala, descrevendo os seus utiliza
aspectos articulatórios, acústicos e da no
perceptivos. A fonologia integra o resultado ensino
das investigações fonéticas mas preocupa-se secun
com o estabelecimento da organização em dário
sistema dos elementos fónicos. ou a
de
(ii) A fonética tem como objecto de estudo todos Cunha
os sons sem distinção da sua função na e
língua. A fonologia desenvolve métodos e Cintra
técnicas para determinar a função linguística )
dos elementos sonoros. descre
va
(iii)A fonética descreve os aspectos físicos e como
fisiológicos dos sons das línguas. A são

38
apresentadas, nessa perspectiva, as vogais e as r
consoantes do português. e
Resolução: s
p
(Gramática de Cunha e Cintra, 1984, pp. 25 a 62) e
i
Nesta obra inclui-se, no capítulo t
Fonética e Fonologia, uma o

descrição do aparelhofonador e do d
o
seu funcionamento;
uma distinção entre som efonema, entre descrição e c
transcrição fonética e fonológica e uma apresentação do o
alfabeto fonético; n
c
uma classificação das vogais e consoantes que parte e
da tradição e integra alguns traços distintivos, i
comparando os dois tipos de classificação; t
o
uma enunciação dos ditongos e das sequências
de consoantes ('encontros consonantais'); uma d
apresentação sumária do tipo de sílabas do e
português;
f
uma descrição da acentuação com o
classificação das palavras quanto à localização n
do acento tónico, apresentação de listas de o
excepções à acentuação regular e referência a l
acentos diferentes do principal (secundário, o
grupo acentual, acento afectivo, acento g
intelectual). i
a
há um capítulo sobre prosódia. Esta palavra é usada
apenas como sinónimo pronúncia correcta (p. 57). d
e

T
Baseando-se no que se diz em 2.3. l. sobre o
r
capítulo 'Principes de Phonologie' do Cours de
u
Linguistique Générale de Ferdinand de
b
Saussure (e, se possível, com consulta desse
e
capítulo na obra original) e, por outro lado,
t
sobre o que se diz, também em 2.3.1., a
z
koi, explique por que se pode considerar que fonologi
Saussure, nesse capítulo, não tem uma a
perspectiva fonológica, mas fonética. recente,
procure
Resolução: caracter
izar
capítulo em questão tem como objectivo a duas
descrição da articulação dos e do funcionamento delas à
do aparelho fonador, e a classificação dos sons a sua
da sua 'articulação bucal'. Não se faz, portanto, escolha.
uma apresentação de aspectos teóricos e
metodológicos que permitam estabelecer os Resolução:
sistemas de com função linguística. Lembre-se a a
distinção feita por Trubetzkoi entre fonética fonologi
entendida como "a ciência daface material dos a
sons da linguagem humana" e a fonologia autosse
considerada como o estudo que "deve procurar gmental
que diferenças fónicas estão ligadas, na língua substitui
estudada, a diferenças de significação" (ver 2.3.1 o
modelo
linear da
fonologi
39
a
4. A partir do livro de Jorge Morais Barbosa,.
clássica
Intwduçäo ao Estudo da Fonologia e
por um
Morfologia do Português (7. I. a 7.16.)
modelo
apresente o conjunto de vogais acentuadas
multilin
do português proposto pelo autor.
ear, e
Resolução: consider
li/ —/e/:vi — vê; fi/ — /u/: ti — tu; a que os
/e/ — /e/: pê— pé;
domínio
/e/—/9/: vê —vou; /e/ — /o/: pé — pó; s de
aplicaçã
Ia/ — /o/: pá —pó; Ia/ — /a/: amamos —
o se
1
, 4/ — /ç/: amamos — amemos; amámos; lê/ — /Q/: dano — encontr
am
1
,19/ — , 0/: avó — avô; distribuí
dono:
dos em
/u/: dou — tu. vários
Correspondência com o AFI: níveis
autóno
mos
(p.ex.: o
5. Com base na apresentação que se faz em 2.- acento,
3.3. das teorias mais impotTantes da a sílaba,
o

40
segmento, os traços) e podem englobar mais
do que um segmento.

a geometria de traços integra-se na concepção


autossegmental da fonologia e propõe, por
um lado, uma organização hierárquica da
estrutura interna dos segmentos fonológicos;
por outro lado, tornou evidente que certos
traços fonológicos actuam em conjunto no
funcionamento de processos fonológicos
como a assimilação entre segmentos ou as
modificações de altura das vogais.
I
Gostaria de salientar a generosidade de Nélia Alexandre, Isabel Seara e Maria do Rosário Vigário, que acederam a
desempenhar os papéis de "alunas de fonética", criticando e comentando acutilantemente as várias versões deste texto, e de
Carlos Simões, que reviu atentamente as referências fisiológicas e anatómicas. Quero também agradecer a Isabel Hub Faria
pela confiança constante que deposita no meu trabalho, o que tem constituído, ao longo dos anos, um estímulo
imprescindível.

- O
3.1 Introduçãol programa

Na nossa vivência quotidiana, não nos apercebemos (e ainda bem) da


complexidade de operações e processos que o corpo humano executa e gere
a cada segundo da nossa existência. Falar, tal como respirar ou ver, envolve
o correcto funcionamento de um con •unto alar ado de recursos fisioló icos,
cuja 1 1 a enem sempre é óbvia.

Para uma seriação genérica desses recursos, tomemos como ponto de partida
uma situação de comunicação simples entre dois falantes.

Antes de mais, para comunicar o falante tem que ter uma intenção, ou seja,
tem que identificar a informação que quer transmitir. Em seguida, tem que
seleccionar, de entre os recursos linguísticos disponíveis na sua língua,
aqueles que lhe permitem veicular adequadamente essa intenção. O
cérebro, parte envolvida em todos os momentos do processo de fala, activa
então o programa motor, dando ordens para a execução dos movimentos
musculares necessários para a produção de fala e colocando em ac ao os
rinci ais ór aos doa arelho
onador (pulmões, cordas vocais, língua e lábios).

Os órgãos vocais, comandados pelo cérebro, controlam o modo como o


fluxo de ar, proveniente dos pulmões, atravessa o aparelho fonador até ao
exterior, •erando diferentes sons. Estas ondas sonoras propagam-se em
meio aéreo até ao interlocutor, colocando em funcionamento o seu
mecanismo de audição. As pequenas variações de pressão do ar que
atingem o tímpano produzem impulsos nervosos que viajam até ao cérebro,
onde a mensagem será finalmente descodificada, dando lugar à sua
compreensão.

Para finalizar esta breve excursão sobre a cadeia da fala, importa salientar
que todo este conjunto de operações e de processos decone num curtíssimo
espaço de tempo.

Pela sua complexidade, a cadeia da fala é objecto de estudo de várias áreas


de investigação, entre as quais se encontra a Fonética 2, que se ocupa do
estudo dos sons da fala, da sua produção à sua percepção. Nesta área são
desenvolvidos métodos para a identificação, a análise, a descrição e a
classificação dos sons da fala.
Tradicionalmente, o estudo da Fonética subdivide-se em três áreas:
Fonética articulatória — movimentam ara a
rodu ao dos d f la•

Fonética acústica — que estuda as propriedades físicas dos sons da


fala•
apresentado para a parle da Fonética teve em consideração as recomendaçöes das redes temáticas Sócrates em
Ciências da Comunicação da Fala e em Computação Avançada em Humanidades, com particular atenção para as
recomendações avaliadas como essenciais para o ensino da Fonética em cursos de Filologia.
Estas indicações e recomendações, disponíveis no sítio htt .//www.hltce or

visam construir curricula que se adequem às necessidades actuais de formação e de conhecimento nesta área, uniformizando os conteúdos e os

conhecimentos que qualquer estudante europeu deve ter sobre os assuntos em aprendizagem.
- Fonética perceptiva — que estuda o modo como os sons da fala são ouvidos e
interpretados.

45
No âmbito do presente texto, apenas serão consideradas a Fonética
articulatória (secções 3.3 e 3.4 do presente capítulo) e a Fonética acústica
(capítulo 4).

46
3.2

Objectivos

Com a Representação do contínuo sonoro: Alfabeto Fonético


Internacional

e resumo

• leitura desta secção, o aluno deverá:

• compreender a distinção entre sistemas de escrita e sistemas de


representação do contínuo sonoro; distinguir símbolos de escrita

(grafemas) de sons; relacionar sons e símbolos fonéticos; reconhecer e
• utilizar os símbolos do Alfabeto Fonético Internacional;
Para
• representar os sons do português europeu padrão, utilizando o
forma
• Alfabeto Fonético Internacional; representar o contínuo sonoro
A primeir
através de uma transcrição fonética; ler e interpretar uma
• um c
nos
recon transcrição fonética; transcrever para o sistema ortográfico uma

Todavia,representação fonética;
representaidentificar as diferenças entre uma transcrição fonética larga e uma transcrição
um merofonética estreita.
constitui
específicas
Partindo a
biunívoca e
Não é,
apresentad
o característi
Os português
fala,
da constatação de que os sistemas ortográficos são inadequados para
desenvolvido
(biunívoca)
representação do contínuo sonoro, dado não existir uma
s página
podemos
correspondência entre grafema e som, é introduzido o conceito de
encontrar
delimitam
alfabeto fonético o Alfabeto Fonético Internacional (AFI).
Alfabeto
sons
símbolos fonéticos e os diacríticos utilizados para representar os sons
O exemplo do europeu, bem como as normas básicas de transcrição fonética,
três sons são ao longo de todo o capítulo. No final, sugere-se a consulta da
precisamentelectrónica da Associação de Fonética Internacional, onde se
e pode o conjunto completo de símbolos e de diacríticos que
constitui o Fonético Internacional.

Esta secção conta ainda com um anexo no qual se procurou disponibilizar um


conjunto alargado de correspondências entre grafemas, sequências de
grafemas e dígrafos, e sons. Pretende-se, com este anexo, salientar a
ambiguidade dos sistemas de representação ortográfica face à estrutura
sonora da língua.

estudarmos os sons da fala é necessário, antes de mais, encontrar uma de os referenciar e de os


representar de modo objectivo.

a forma de representação da oralidade, que nos é disponibilizada primeiros contactos com a escola, é
a ortografia. Esta não é mais do que onjunto de símbolos e de convenções que, todos nós, sujeitos
alfabetizados, hecemos e utilizamos.

47
rapidamente nos apercebemos de que o sistema ortográfico não fielmente o contínuo sonoro, não se
tratando, por conseguinte, de sistema de transcrição da oralidade. Na verdade, o sistema ortográfico um
instrumento de registo da oralidade que se rege por normas de funcionamento e de boa-formação, sendo,
muitas delas, completamente alheias à relação com a oralidade.

portanto, difícil aceitar que o sistema ortográfico não apresenta as cas necessárias que permitem uma
eficiente descrição dos sons da nomeadamente pelo facto de não existir uma relação de um-para-um
entre símbolo gráfico (grafema l ) e som (ver Anexo l), como observar nos exemplos em (l) e (2) (os
parênteses angulares
a representação dos grafemas e os parênteses rectos a representação ou fones).

em (l) demonstra que o mesmo grafema, <0>, pode representar diferentes do português europeu. No
exemplo em (2), temos o contrário, isto é, o mesmo fone (som), [s], pode ser ortograficamente
representado por cinco grafemas distintos.

Bola [0]
Sopa [0]
Gato

Sapo
Passo
Acido caga <ç>
Próximo
Na escrita alfabética, o grafema corresponde à letra.

48
• A comunidade científica portuguesa tem utilizado, ao longo dos tempos, alfabetos fonéticos próprios. razüo pela qual encontramos, em alguns
textos sobre linguística do português. símbolos e convenções que näo sà0 uniformes ou que não estão de acordo com as indicaçöes do AFL aqui
apresentadas. Na origem destes diferentes alfabetos fonéticos. está basicamente a necessidade que alguns invesligadores sentiram de detalhar as
suas descriçöes fonéticas e, como na altura o AFI nio linha a divulgação e a hegemonia de que hoje goza, solucionaram os Seus problemas
fazendo proliferar alfabetos fonéticos alternativos. Os mais representauvos, que surgem na maiOria dos textos referidos, SäO o Alfabeto
Fonético do Laboratório de Fonética da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o Alfabeto Fonético do Centro de Estudos Filológicos
(hoje Centro de Linguística da Universidade de Lisboa).

Este alfabeto é. muitas vezes, designado na literatura da especialidade pelo acrónimo IPA, que corresponde às iniciais da expressão inglesa
International Phonetic Alphabet.

Alguns dicionários de língua estrangeira (e também de língua portuguesa), bem como dicionários vocacionados para apoio ao ensino de língua
näo-materna, integram na entrada lexical a transcriçåo fonética.
Os alfabetos fonéticos surgiram como resposta à necessidade de solucionar as ambiguidades causadas pela
utilização de sistemas ortográficos. Estes instrumentos permitem, assim, registar, de forma sistemática e
coerente, o contínuo sonoro de fala.

O sistema de transcrição fonética mais utilizado e divulgado na comunidade científica internaciona1 2 é o


Alfabeto Fonético Internacional (AFI)3 , cuja primeira versão foi publicada em 1888 pela Associação
Internacional de Fonética, tendo sido alvo de um conjunto de ajustes e de alterações que culminaram na
última versão disponível, datada de 1996. O princípio básico que subjaz à organização deste alfabeto é a
relação biunívoca entre som g símbolo, ou seja, um som é representado por um símbolo e cada símbolo
representa apenas um som.

O Alfabeto Fonético Internacional tem como propósito possibilitar a representação dos sons de todas as
línguas do mundo, fazendo corresponder ao mesmo símbolo um mesmo som que ocorra em diferentes
línguas (cf. exemplos em (3)).

(3)

[f] farinha português phonation francês farm


inglês

Este alfabeto é constituído por símbolos simples, que representam os sons básicos mais frequentes nas
línguas do mundo, e por diacríticos, que acrescentam aos símbolos informação sobre modificações
menores.

As vantagens de utilização do AFI são inequívocas, uma vez que, tratando-se de um sistema reconhecido
internacionalmente, facilita a identificação de unidades e de contínuos sonoros de línguas não-maternas,
abrindo espaço fundamental quer para a sua investigação quer para o seu ensin0 4 .
O AFI integra, então, um conjunto de símbolos que possibilita a representação de sons de todas as línguas
conhecidas. Isto não significa, porém, que todas as línguas utilizem o mesmo conjunto de sons, isto é, que
todos os sons representados no AFI se encontrem em cada língua do mundo. Pelo contrário, cada língua
utiliza apenas um subconjunto dos sons representados no AFI, por inerência de cada língua utilizar
somente um subconjunto de todos os sons que podem ser produzidos pelo aparelho fonador.

49
50
O subconjunto dos sons do dialecto padrão do português europeu (PE) e
as suas respectivas representações, de acordo com o AFI, são
apresentados em seguida. O grafema ou o dígrafo sublinhados referem-se
ao som transcrito.

pirata, sopa bola, abade [ m ] mota, lama telhado, ponte data, pomada [ n ]
navio, cana, hífen cantor, roca garfo, mago banheira

figo, sinfonia vassoura, pavio

[ s ] sol, braço 'Vfž* zaragata, casa chama, caixa [ 3 ]


janota, hoje,

limão, mala cara, carta, solar


malha rato, carro malta, papel

amigo dedal unha caneta cano [ o ] avô


[e] janela [ a ] pato [o] avó

pau pão paj mãe

pinta fundo

pente [õ] conto


santo

Nos dialectos do PE, encontramos ainda outros sons cuja representação não
está abrangida pelos símbolos acima e que optámos por apresentar em
separado.
Nos dialectos transmontanos e alto-minhotos (Cintra, 1973; Segura &
Saramago, 2001), persiste, como característica fonética conservadora, um
sistema de quatro fricativas5 sibilantes, inexistente nos restantes dialectos,
que se transcreve da seguinte forma:

[s] Sino, passado [4] casa, sorriso


[s] cinto, cenoura, pança zaragata, anzol

Nestes dialectos,
contrário do que aconte
nos restantes, distinguem
fricativas de articulaç
ápico-alveolar de fricativ
de articulação p
dorsodental, corresponden
estas últimas à produção d
fricativas no dialecto padrã

5
A situação é diferente no que se refere aos dialectos baixo-minhotos,
durienses e beirões, pois o sistema de quatro fricativas sibilantes é
simplificado para duas, embora não sejam as que correspondem ao
dialecto padrão, como podemos observar:

[ ] sino, passado, cinto, casa, sorriso,

Ocorrem ainda duas outras variantes consonântic«s dialectais que se


registam abaixo.
Dialectos setentrionais e yela, nayiO
] Dialectos do centro litoral

Chaminé, machado Dialectos transmontanos e alto-


minhotos

No que se refere à variação fonética dialectal, há que considerar


também as variantes vocálicas, principais responsáveis pela
dificuldade de intercompreensão entre diferentes dialectos (veja-se,
por exemplo, as dificuldades de intercompreensão sentidas entre o
dialecto açoriano e os restantes dialectos do PE).

Dialecto Açoriano (S. Miguel)


Igreja
Dialecto Açoriano (S. Miguel), Dialectos
caneta do Centro-lnterior Sul
(Variedade da Beira Baixa e Alto Alentejo)

Dialecto Açoriano (S. Miguel) e, em alguns contextos,


Dialecto do Centro-lnterior Sul
canela
(Variedade do Barlavento do Algarve)

Dialecto Açoriano (S. Miguel)


Dialecto Açoriano (S. Miguel),
puto
Dialectos do Centro-lnterior Sul
figura
Dialecto do Centro-lnterior Sul
(Variedade da Beira Baixa e Alto Alentejo)
sepa

Para a realização de uma transcrição fonética, isto representado


é, de uma representação
simbólica de um contínuo na
sonoro, não é suficiente reconhecer a rela ão transcrição
símbolo-som, é também necessário con ecer as (neste caso,
restantrs convenções. Uma das convenções mais fonético). No
importantes é a delimitação da representação exemplo em
fonética pgr parênteses rectoe, por exemplo, [a]. (4),
No fundo, os parênteses rectos fornecem ao leitor encontram-se
informação sobre o nível de análise gramatical
Palavra Tipo de representação
<sapat0> Ortográfica
[sapato/ Fonológica

[sepátu] Fonética

52
descritas as diferenças de notação que se referem a 53
diferentes representações.
(4)

Num contínuo sonoro, nem todo o tempo é


preenchido por sons, existem também momentos de
silêncio que podem corresponder a várias situações,
normais no contexto de oralidade: hesitações,
tomadas de palavra, entre outras. O silêncio pode ser
representado na transcrição fonética por uma barra
oblíqua (í), se o silêncio for curto, ou por duas barras
oblíquas (//), se o silêncio for longo.

O lugar do acento de palavra tem em português


europeu um carácter distintivo, o que significa que
nesta língua mudando apenas a localização do acento
principal. Deste modo, a representação do acento
numa transcrição fonética assume uma importância
relevante. Para indicar qual a vogal acentuada (isto é,
a vogal tónica)6 , utiliza-se o diacrítico [1, que é
colocado sobre a vogal acentuada? (cf. exemplo em
(5)).
(5)

Uma transcrição fonética tem, apesar da


universalidade e da uniformidade tentadas pelo AFI,
um grau não negligenciável de interferência
subjectiva que lhe é conferido pelo facto de resultar
de um processo de representação baseado
simplesmente na audição, estando, por isso,
dependente da qualidade e da experiência do
transcritor.
6
Refira-se que as palavras funcionais ou gramaticais
(preposições, artigos. etc.) são átonas.

Alguns transcritores optam por colocar o acento a


anteceder a sílaba que contérn a vogal acentuada, como em [
-patu J. Independentemente das opções tomadas, exige-se a
um transcritor que seja coerente e rigoroso na manutençào
dessas opções, do princípio ao fim de uma mesma
transcrição.
O grau de
detalhe da
transcrição
pode,
também ele,
ser variável,
distinguindo-
se, pelo
menos, dois
tipos de
transcriçãoS .


transcriçã
o fonética
larga;


transcriç
ão
fonética
estreita
ou fina.
Tal como a
própria
designação
sugere, a
transcrição
fonética larga
refere-se a

54
uma representacäo mais distante do contínuo sonoro, ou Qualquer um
seja, com menor detalhe de realização fonética. Este tipo dos ti os de
de transcrição pri vilegia a representação de características transcrição
fonéticas de sons fonologicamente distintos. anteriorment
e
Quanto à transcrição fonética refere-se a uma transcrição apresentado
mais próxima do contínuo sonoro, ou seja, mais rigorosa e s é legítimo.
fiel aos detalhes fonéticos. uito embora
a transcrição
fonética
estreita seja
uma
representaçã
o mais
fidedi na do co
ue s
mais colTecta
do ue a
transcri ao
fonéti ' r a. A
adequaçãœde.c
Ao analisarmos e compararmos as duas transcrições ada-.um— os
fonéticas, verificamos que a representação de alguns sons tipos de
se mantém nas duas transcrições enquanto outros transcrição é
desaparecem ou se transformam, principalmente na definida em
transcrição fonética estreita. Ora, quando produzimos função dos
oralmente uma frase, não soletramos ou pronunciamos objectivos que
palavra a palavra (cf. transcrição fonética larga). O nosso presidem à
discurso é contínuo, provocando alterações das utilização da
características básicas dos sons que constituem as palavras. representação.
pelos movimentos
articulatórios rápidos inerentes à produção de discurso
contínuo, podem ser, por exemplo, sobreposições ou
omissões. Naturalmente, a quantidade das alterações
depende, entre outros factores, da velocidade de fala:
quanto maior é a velocidade de fala, maior é a compressão
dos sons do enunciado oral, dando lugar a um maior
número de interacções articulatórias.
9
O AFI só permite a transcrição segmental do Existem sistemas de
transcriçäo da
contínuo sonoro, não disponibilizando qualquer tipo informação
entoacional,
de notação para a transcrição suprassegmental nomeadamente o
(exceptuando, claro, a representação do acento de Tom (Tone and
Break Indices). No
palavra, que é um fenómeno do domínio da análise entanto, este tipo de
representação não é
suprassegmental ). Por isso, as transcrições apenas um sistema
fonéticas não contemplam, por exemplo, de transcrição, pois
as opções de
informação entoaciona19 descrição têm
implicações teóricas
associadas.

Informação complementar

Para informação complementar sobre o AFI,


concretamente sobre o conjunto total de símbolos,
diacríticos e convenções, aconselha-se a consulta da
página electrónica da International Phonetic
Association, cujo endereço actual é
www.arts.gla.ac.uk/IPA/.

A visualização do conjunto completo de símbolos e


de diacríticos está disponível em
www.arts.gla.ac.uk/IPA/fullchafi.html.

Leituras complementares

Delgado Martins, M.R. et alii


1978 Linguagem Oral e Ortografia. Lisboa: INIC.

Faria, I. et alii (orgs.)


1996 Introdução à Linguística Geral e Portuguesa.
Lisboa: Ed. Caminho. Caps. 2 e 3.

Segura, L. & J. Saramago


2001 "Variedades dialectais portuguesas". In
Mateus, M.H. (coord.) (2001) Caminhos
do Português: Exposição Comemorativa
do Ano Europeu das Línguas (Catálogo).
Lisboa: Biblioteca Nacional, pp. 221-
237.
55

56
58
3. Transcreva para o sistema ortográfico as palavras que se encontram em
transcrição fonética:

e. [ bËJ1tíjre ]
f. [ élisi ]

g. [ kezerñW ]

h. [ peKásu ]

4. Detecte os erros nas transcrições fonéticas das seguintes palavras:

a. Computador
[ konputedór ]
b. Tecto [ téktu ]

c. Porta [ pórte ]
d. Mosquito
[ múJkitu ]
e. Girafa [ giráfr ]
f. Óptica [ 5tika ]
g. Passado [ pessádu ]
h. Exame [ izámi ]

5. Faça a transcrição fonética larga e a


transcrição fonética estreita da seguinte frase:

a. Os animais aninharam-se nos braços das crianças.

Andresen. Eu". In Antologia. Porto: Editora Figueirinhas,


Sophia de P. 26.
Mello
Breyner
(1985)
"Pudesse
l
: Correia, téflásu3nñjlimitS/
Natália
(1993) NC.C_ps
"Aumentám pvidedmi+fásStfüJbur
os a vida
com
dÉtS/
palavras". In
O Sol nas perepudéfRSpõdérawStewjkõvitS
Noires e o cos
Luar nos
Dias l. suSpÉsu3nesurpr&BduzîStÉtS//]
Lisboa:
Círculo de
Leitores, p.
78 Sus»eass
6. Tra
nscreva
ortograficame 8. Realize a transcrição fonética estreita do poema
nte a frase e de Natália Correia12 , de acordo com a sua produção em
identifique em português europeu.
que tipo de
transcrição 'Aumentámos a
fonética, larga
ou estreita, se vida com palavras
encontra água a correr num
representada.
fundo tão vazio.
a. As vidas são
histórias
aumentadas.
7. Ela
Há que ser rio.

Passámos tanta vez


naquela estrada
talvez a curva onde
se ilude o mundo. O
amor é ser-se dono e
não ter nada.
Mas pede tudo."
bore a
representação
ortográfica do 9. Leia cuidadosamente os seguintes excertos de um
seguinte texto de António Lobo Antunes.
poema de
"Dona Graciete muito istimo ao receber desta isteja
Sophia de de boa e felis saude na companhia de todos os seus
Mello Breyner que eu bem graças a Deus
Andresen ll Dona Graciete istou a escrever-lhe purque li no
jurnal o que aconteceu ao seu filho Cabé (...) e
comessei a churar de tal maneira que quando o meu
[
marido xegou me dice
p
u
d
é
s
e
w
n
û
W

60
61
Anexo 1 — Exemplos de correspondências entre símbolos gráficos e
sons na ortografia do português europeu padrão
Grafemas Sons Palavras
Arte, sapato
[a Ametista, farelo
]
Batata, cabide
[b
]
[k Caruma, faca
Cigara, hélice
]
[s
]
[d Dama, amador

]
Canela
[e Caneta
] Pedal
Meada
Espelho
Mãe
[e
]
Família, afinador

[3 Gavião, apagador
Girafa, mágico
]
Igreja, sinal
Iate, gaivota
[3 Janela, oejos
]
[1 Laranja, mala, Altura
]
[m
]
[n Moran o, camélia
Notário, canário
]
[0 Porta
Sopa
] Porteira
62
[o Água
Limão
]
[u]
[w
]
Panela, mapa

[R Maroto, artista
] Rodada, honra
[z] Sapato, balsa
Riso, casa
[3 Lápis, astro
Asno, esmero
]
Teatro, caneta
[t
]
[u] Unha, mula
Pauta, vau
[w
]
Viola, avião
[v
]
[z] Xaile, vexame
[ ks Exame
Tóxico
]
[z Zebra, azeite

Sequências de
grafemas e alguns
grafemas com ostos
< ã, an, am, Ã, AN, AM Fã, banco, campo
>
< en, em, EN, EM > Vento, em re o

< õ, on, om, C), ON, Anões, lontra, com ras


OM >
63
< in, im, IN, IM > Pintor, im osto
< un, um, UN, UM > Mundo, umbigo

Grafemas com ostos


Armário, à
[a
]
Café
[e
]
Saída

[3 Orbita

]
[u Saúde

]
Ama o

In lês
[e
]
Bisavô
[o
]
Palha 0

Dígrafos
< eh, CII, CH > Cha éu
< Ih, LH > Gargalhada
[
K
]
[k Galinha
Quintal
]
< rr, RR > [R
] Garrafa
< SS, SS > Assador
[s
]
64
Sugestões de soluções para as actividades propostas

1.

a
.

[3] [ s ]
g.

h. [ e ]
2.

a. [ btíJ1uS
b. [ Repóze ]
c. [ ma}mkér ]
d. [ peKéte ]
e. [ sigáRË ]
f. [ Ser5pi ]
g. [ põtéjru ]
h. [ Ri153ju ]

3.
a. Caracol
b. Pintura
c. Água
d. Mancha
Banheira
f. Hélice
Casarão
h. Palhaço

65
66
Computador [ konputedór ]
Tecto [ téktu ]
Porta [ pórte ]
Mosquito [ múfkitu ]
Girafa [ giráfe ]
Optica [ 5tika ]
Passado [ pessádu ]
Exame [ izãmi ]

T. Larga
[ LIS enimájS eniJ1árüWs nus bfásuS des krjÉses // ]
T. Estreita
uzenimájzeniJ1árñWsnu3brásu3defkrjéseS // ]

Os homens deram comida aos golfinhos.

b. Transcrição fonética estreita

7. Representação ortográfica do poema de Sophia de Mello Breyner


Andresen.

"Pudesse eu não ter laços nem limites,


O vida de mil faces transbordantes,
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!"

8. Transcrição fonética estreita do poema de Natália Correia (Livro


dos Amantes, VI, 1955).

[ awmëtámuzevidekõpelávreJ
ágwakuRérnûfûdutûWveziw//
B3vfdeSsüWSt5rjezawmëtádeS//
alcséfRiw//

67
pesámuStûtevé3nekélaStráde
ta+vézekúrvõdsi lúdumüdu//
wemórésérsdóninñWtérnádË
// meSpédtúdu// ]

9. O primeiro comentário que este texto suscita prende-se com o


desrespeito evidente pelas normas ortográficas, retratado, por um lado,
pela ausência de sinais de pontuação e, por outro, pela presença de
palavras incorrectamente representadas (por exemplo, istimo, felis e
xegou).
As marcas da oralidade são também evidentes no recurso ao discurso
directo: "Dona Graciete istou a escrever-lhe (...) " e "(...) quando o meu
marido xegou me dice 'Tens os olhos inxados Gabriela

A inexistência de uma relação biunívoca entre grafema e som no sistema


ortográfico permite a representação de um mesmo som por diferentes
grafemas como acontece em dice, comessei, saude e cou.

10. Na resposta a esta questão, deverá referir-se:

a. a importância da transcrição fonética como instrumento de


trabalho essencial na descrição do contínuo sonoro, salientando o
seu papel na sistematização de dados;

b. o carácter universal do sistema de transcrição, possibilitando a


leitura, a análise e a comparação de contínuos sonoros de
diferentes línguas;

c. a relevância da utilização do AFI no estudo e na aprendizagem de


línguas não-maternas.

3.3 Fonética articulatória

Objectivos e resumo
68
Após leitura cuidada desta secção, o aluno terá adquirido conhecimentos que
lhe pennitem:

entender o carácter subsidiário dos órgãos de produção de

fala; assinalar as partes constituintes do aparelho respiratório;

descrever sucintamente os processos de ventilação;

compreender a anatomia e o funcionamento das cordas

vocais;

• identificar as partes anatómicas específicas do aparelho fonador;


reconhecer e assinalar os articuladores intervenientes na produção de
sons do PE.

A descrição dos componentes anatómicos e fisiológicos básicos


envolvidos na produção articulatória dos sons da fala é, sumariamente,
apresentada neste capítulo.

Em primeiro lugar, são identificados fala: os pulmões, a laringe e o tracto


vocal. Cada um destes órgãos encontra-se numa parte distintaQÄõWarelho
fonador que se divide em: cgyidadessubgLQtais laringe e cavidades
supraglotais (onde ocorrem os movimentos articulatórios mais importantes
para a diferenciação sonora).

A intervenção do processo de respiração na produção dos sons da fala,


nomeadamente dos processos de ventilação que geram os fluxos de ar
ingressivo e egressivo, é explicada em detalhe, assim como a anatomia e o
funcionamento das cordas vocais, responsáveis pela fonação.

Por fim, é descrita a articulação, concretamente todos os aniculadores,


passivos e activos, envolvidos no processo de produção de fala.
I
Tal como já foi referido, a fala recorre a estruturas anatónicas que desempenham outras funções,
essenciais para a sobrevivência humana. Deste modo, cada uma das partes do aparelho fonador tem
funçöes específicas que serão aqui apontadas de forma superficial: as cavidades subglotais têm um
papel fundamental na aquisição de oxigénio: a laringe resguarda os pulmöes, assegurando a
protecçäo da passagem do ar no processo de deglutiçäo; e as cavidades supraglotais garantem o
adequado processamento da deglutição e da respiraçüo.
A Fonétiea articulatória estuda o modo como os sons da fala são produzidos, tendo em conta
a posição e o movimento dos articuladores. Está, como veremos, directamente relacionada
com a anatomia e a fisiologia dos órgãos vocais intervenientes na produção de fala.

69

desempenham funções de importância vital na sobrevivência humana, como


Antes de se falar
sobre aniculaçäo
dos sons de fala é
preciso explicitar
algumas noções
sobre anatomia da
fala,
nomeadamente
identificar quais
são os órgãos que
estão envolvidos
na produção dos
sons.

Do ponto de vista
anatómico, não
existem órgãos
cuja única função
seja a produção de
fala. Na verdade,
para a produção
de fala utilizamos
órgãos que
supraglotais

Laringe
(cordas vocais)
Tendo em atenção os órgãos mais importantes para a produção de fala,
podemos, de um ponto de vista geral, dizer que as cavidades subglotais são
constituídas pelos pulmões, que a laringe é formada pelas cordas vocais e pela
glote e que as cavidades supraglotais compreendem a faringe (cavidade
faríngea), o tracto oral (cavidade oral) e o tracto nasal (cavidade nasal). A
ressonância, essencial na produção dos sons, depende das cavidades
supraglotais, onde se situam os articuladores.

C
a Cavidade nasal
v
i
d Cavidade oral
a
d Cavidade faríngea
e
s

70
Figura 2 — sobretudo, os processos de ventilação — inspiraçã02 e expiraçã03 , responsáveis
Representação das pelos fluxos de ar ingressivo e egressivo, que intervêm directamente na
cavidades produção dos sons da fala.
supraglotais. Trata-se de um processo activo em que a pressão do ar na cavidade torácica é mais baixa do que a
pressão atmosférica, fazendo com que o ar entre nos pulmões.

Trata-se de um processo relativamente passivo em que a elasticidade dos pulmöes e a


musculatura relaxada permitem a saída do ar.
Uma vez Isto não significa que qualquer falante de português europeu produza cliques em determinadas
identificadas as situaçöes. isto é que não utilize o mecanismo de fluxo de ar ingressivo. A diferença reside na
utilizaçäo distintiVa dos cliques. ou seja, o português europeu nào recorre ao contraste significativo
estruturas entre cliques e entre cliques e outros sons.

anatómicas mais O aparelho respiratório é constituído por: boca, fossas nasais (cavidade
importantes, nasal), faringe, laringe, traqueia, brônquios, alvéolos e pulmöes.
Acrescem a este conjunto de órgãos os músculos intercostais e os
descreveremos em
músculos do diafragma.
seguida os
componentes O ar entra no sistema respiratório através do nariz e da boca, passando
fisiológicos da sequencialmente pela laringe e pela traqueia até chegar aos brônquios e
produção da fala, aos pulmões. O processo de saída do ar para o exterior percorre os
mesmos caminhos em sentido contrário.
isto é: a
respiração, a É o movimento de contracção e de relaxamento dos músculos do
fonação e a diafragma que ajuda a empurrar o oxigénio para dentro dos pulmões e
articulação. a expelir o dióxido de carbono para fora dos pulmões, respectivamente.

Numa situação de respiração normal em silêncio, 40% do tempo total


do ciclo de respiração é ocupado pelo processo de inspiração, através
Respiraçã
da inalação do ar exterior, sendo os restantes 60% ocupados pelo
o processo de expiração. Na fala, a distribuição dos processos de
ventilação no ciclo de respiração altera-se substancialmente: em 10%
do tempo ocorre inspiração e em 90% expiração.
A respiração
engloba um Parece, pois, óbvio que a produção de fala se realiza recorrendo,
conjunto de principalmente, ao processo de expiração que, embora seja um
processos cujo processo mais passivo do que a inspiração, pode ser fortemente
objectivo principal é controlado pelo cérebro, de modo a modificar, por exemplo, o volume
fornecer oxigénio ao da fala, o padrão acentual e a duração do enunciado.
sangue para que este
o faça chegar a todas O processo de expiração está na origem do movimento de fluxo de ar
as células do corpo, egressivo, fundamental no processo de produção de fala. O movimento
desempenhando, de fluxo de ar egressivo mantém constante a pressão subglotal,
desta forma, uma importante para colocar em vibração as cordas vocais.
função vital para a
A maior parte dos sons das línguas são produzidos com o mecanismo
sobrevivência.
de fluxo de ar egressivo (expiração), com origem nos pulmões. No
Para o estudo da entanto, há línguas que utilizam sons produzidos com outros
fala, interessam-nos, mecanismos de fluxo de ar, como o mecanismo de fluxo de ar
71
ingressivo, através
do qual são
produzidos, por
exemplo, os cliques4
.

Fonação

A fonação resulta da
vibração das cordas
vocais que se situam
na laringe.
A laringe é uma
estrutura complexa
constituída por
músculos,
cartilagens,
ligamentos e
membrana mucosa
que configuram, em
conjunto, uma
estrutura anatómica
de forma circular,
atravessada por duas
membranas
separadas, as cordas
vocais (ou pregas
vocais). Na pane
anterior (parte da
frente da laringe),

72
as cordas vocais estão ligadas à cartilagem tiróide e, na parte posterior, às cartilagens aritenóides. Ao
contrário da cartilagem tiróide, que é fixa, as cartilagens aritenóides movem-se, provocando a
aproximação e o afastamento das cordas vocais. O espaço entre as cordas vocais, designado por
glote, é controlado pelo movimento das cartilagens aritenóides.

Figura 3 — Representação da laringe.

Na respiração normal, as cartilagens aritenóides encontram-se muito afastadas (em posição de


abdução) e, por conseguinte, as cordas vocais também. Para a produção de som, aproximam-se (em
posição de adução), limitando a passagem do ar na glote e criando condições para a vibração das
cordas vocais.

Figura 4 — Representação esquemática das cordas vocais vistas de uma posição superior - cordas vocais em
posição de abdução) (esquerda) e em posição de adução (direita).

73
As cordas vocais, em posição de adução, entram em vibração por
acção da pressão subglotal, formada abaixo da glote pelo
fechamento das membranas vocais, que as obriga a separar. Para
além de entrarem em vibração, as cordas

Este som, presente em surdos) são produzidos com as cordas vocais completamente afastadas (sem
muitas línguas do mundo, vibração)6.
não é utilizado em
português europeu.
Todavia, pode surgir em
produções de fala
espontânea e em algumas
realizações patológicas da Articulação
fala.
6
A excepção é a produção do As cavidades supraglotais integram, para além da cavidade faríngea, o tracto
som aspirado [hl, em que as
cordas vocais se encontram
vocal que se divide em tracto oral (onde são produzidos os sons orais) e em
apenas parcialmente afastadas. tracto nasal (responsável pelos sons nasais).
Mas este som não faz parte do

elenco de sons que os falantes


de português europeu utilizam, Do ponto anterior que se situa entre os lábios e o alato de vista da
por isso não lhe será feita duro, articulação, o
referência detalhada.
vocais, em posição tracto oral compreende
de obstrução duas grandes zonas: u a e uma zona osterior, ue s stend d final do alato duro até
completa da à parede osterior da
passagem do ar,
podem ainda afastar-
se rapidamente, faringe.
produzindo um som
oclusivo glota1 5 . A
voz assobiada, a voz
murmurada e a voz
laringalizada devem-
se a diferentes tipos Palato duro
de vibração das Palato mole
cordas vocais.

Os sons vozeados
(ou sonoros) são
produzidos com
vibração das cordas
vocais em toda a sua
Língua
extensão, enquanto
os sons não- Laringe
vozeados (ou

74
Úv
ula

Lábi
os <
Fa
rin
ge
Dent
es
Ep
igl
ote

Cordas
vocais

Figura 5 —
Tracto vocal em
pormenor3 .

3 A epiglote,
embora não
tenha um
papel
específico na
produção
dos sons,
protege a
laringe,
evitando a
passagem de
alimentos
sólidos e de
líquidos.
75
A modulação do fluxo de ar que está na origem da produção dos diferentes
sons tem início a partir do momento em que este atravessa as cordas vocais.
E, contudo, no tracto oral que ocorrem os movimentos articulatórios mais
importantes, cuja descrição apresentamos em seguida.

Os articuladores responsáveis pela produção de fala são (cf. Figuras 5, 6 e 7):

• lábios situam-se na parte mais anterior do tracto oral e podem


obstruir parcial ou completamente a passagem do fluxo de ar para o
exterior, através de um movimento de afastamento/aproximação ou
toque dos dois lábios;

• sector anterior da arcada dentária superior — encontra-se na parte


superior anterior do tracto oral;

• alvéolos dentários superiores — refere-se ao ponto que se localiza na


parte superior do tracto oral, numa zona imediatamente a seguir à
implantação dos dentes do sector anterior da arcada dentária
superior;

• palato duro — designa a zona superior do tracto vocal de


consistência rija, que se localiza na região posterior dos alvéolos
dentários superiores;

• palato mole, véu palatino ou velum — são termos que denominam a


zona superior do tracto vocal localizada imediatamente atrás do
palato duro na parte posterior do tracto oral. E um articulador com
mobilidade: quando baixa, deixa o ar passar pela cavidade nasal
permitindo a produção de sons nasais• uando sobe a assa em do
ar para a cavidade nasal é bloqueada e produz-se um som
or
úvula — é um apêndice móvel que se situa na parte final do palato
mole;
Alvéolos

dentários Palato mole

superiores Palato

Lábio duro Uvula


superior
Sector anterior da
arcada dentária
superior

Figura 6 Pontos articulatórios de contacto na zona superior do tracto oral.

76
• língua— é o articulador com maior mobilidade no tracto vocal e a
ele se devem as principais configurações articulatórias que resultam
na produção de diferentes sons. Do ponto de vista da articulação,
consideram-se três partes distintas da língua:

• coroa — zona frontal da língua, constituída por ponta ou ápex —


ponta da coroa;
lâmina — zona achatada imediatamente a seguir à ponta (na
direcção da parte posterior do tracto vocal).

dorso — parte mais extensa da língua que é responsável pela


articulação da maior parte das vogais, situando-se entre a
lâmina e a raiz. O dorso divide-se em duas zonas, como mostra
a figura 7: zona frontal e zona posterior.

raiz — parte da língua que se situa na zona posterior do tracto


vocal, junto à faringe.

Dorso
Lâmina
Zona frontal Zona posterior

Ponta ou ápex

Raiz

Figura 7 — Divisöes da língua importantes para a classificação articulatória dos


sons.

A intervenção destes articuladores regula a produção de fala, uma vez que


deles dependem as diferentes con guraçöes, sustentadas por modos e
pontos de articulação diversos, que o tracto vocal assume e que dão origem
a produção dos sons da fala.

No tracto vocal, como podemos observar, diferenciam-se dois tipos de


articuladores: úÑò(anicuIadores com mobilidade) sem mobilidade). Os
articuladores activos do tracto vocal são: os lábios a língua, o palato mole e
a mandíbula (maxilar inferior)). Os articuladores passivos do tracto vocal
são: o sector anterior da arcada dentária superior, os alvéolos dentários
superiores e o palato duro.

77
Leituras complementares

Ladefoged, P.
2001 A Course in Phonetics. 4 ed., New York: Harcourt Brace publishers.

Lieberman, P. & S. Blumstein


1988 Speech Physiology, Speech Perception and Acoustic Phonetics. Cambridge:
Cambridge University Press.

Mateus, M. H. et alii
1990 Fonética, Fonologia e Morfologia do Português. Lisboa: Universidade
Aberta.

Actividades

I. Identifique os processos de ventilação utilizados na produção de fala.

2. Descreva o caminho que percorre o fluxo de ar egressivo. Refira a importância deste tipo
de fluxo de ar na produção dos sons do português europeu.

3. Do ponto de vista da produção de fala, caracterize sucintamente as diferentes partes do


aparelho fonador, referindo-se à relevância de cada uma.

4. Onde se localizam, no aparelho fonador, as cordas vocais?

5. O que é a glote?

6. Em que posição das cordas vocais, de adução ou de abdução, estão reunidas as condições
para que ocorra vibração suficiente para produzir um som vozeado?

7. Quais são as cartilagens da laringe responsáveis pelo movimento de


aproximação/afastamento das cordas vocais?

78
8. Qual o papel da pressão subglotal na produção de fala?

9. Na figura, identifique:

a. alvéolos dentários superiores


b. velum
c. cordas vocais
d. cavidade nasal
e. faringe
f. laringe
g. palato duro
3. h. dorso da língua

fala;
corda IO. O que caracteriza um articulador passivo? Apresente exemplos.
s

11. Um dos articuladores móveis que intervém na articulação dos sons da


4. fala é a língua. Refira a importância deste articulador na produção de fala,
nomeadamente no português europeu.

5. A

Sugestões de soluções para as actividades propostas


6.
ocai
1. Os processos de ventilação usados na produção de fala são a
s.
inspiração e a expiração, responsáveis pelos mecanismos de fluxo de ar
ingressivo e egressivo, respectivamente.

7.
ão
2. O fluxo de ar egressivo tem origem nos pulmões e no seu
trajecto para o exterior passa sequencialmente pelos brônquios, pela
traqueia, pela laringe e pelo tracto vocal, podendo sair pelo nariz e pela
boca em simultâneo ou apenas por um deles.
8.
ona O aparelho fonador divide-se em três partes principais: as cavidades
O subglotais, associadas à produção de energia necessária para a produção de
a laringe, onde se encontra uma das fontes sonoras do tracto vocal — as

9. 79
vocais; e as cavidades supraglotais, que incluem o tracto vocal, cuja
configuração modela o som produzido pelas fontes sonoras.

As cordas vocais situam-se na laringe.

glote designa o espaço entre as cordas vocais.

Para produzir um som vozeado é necessário que exista vibração das cordas
Para isso, estas têm que estar em posição de adução.

As cartilagens que constituem a laringe são: a cartilagem tiróide, que


tem mobilidade, e as cartilagens aritenóides, cuja mobilidade permite o
movimento das cordas vocais.

A pressão subglotal, tal como o próprio nome indica, gera-se abaixo da


da laringe (glote) quando as cordas vocais estão em posição de adução.
aumento desta pressão provoca a entrada em vibração das cordas vocais.
Alvéolos dentários superiores Cavidade nasal

Palato duro

Velum

Faringe

Dorso da língua

Cordas vocais
Laringe

80
81
3.4 Classificação articulatória tradicional

Objectivos e resumo

Com esta secção, o aluno estará apto a:

• compreender os fundamentos da classificação de base afiiculatória das vogais e das consoantes;


• reconhecer os parâmetros relevantes para a classificação articulatória das vogais e das consoantes;
• identificare descrever movimentos alticulatórios associados à produção de vogais;
• identificar articuladores activos e passivos bem como movimentos articulatórios associados à
produção de consoantes;

• classificar, do ponto de vista articulatório, as vogais e as consoantes do português europeu;


• descrever os pontos e modos de articulação das consoantes do português europeu.

Esta secção está dividida em duas partes: na primeira, encontra-se a classificação articulatória das vogais
fonéticas do português europeu padrão e, na segunda, a das consoantes.

No início da primeira parte são apresentados os parâmetros em que assenta a classificação aniculatória
das vogais. São eles: a posição do dorso e da raiz da língua (que dimensionam a altura das vogais —
altas, médias, baixas - e o respectivo ponto de articulação — anterior, central, posterior) e a posição dos
lábios (arredondado/näo-arredondado).

Na segunda parte desta secção, é referida a classificação das consoantes que engloba: o modo de
articulação (oclusivas, fricativas, laterais, vibrantes), o ponto de articulação (bilabial, labiodental, dental,
alveolar, palatal, velar, uvular), a nasalidade (oral/nasal) e o estado das cordas vocais (vozeado/ não-
vozeado).

O fenómeno de coarticulação, resultante do movimento contínuo dos articuladores na produção de fala, é


descrito no final da secção.
nstrumentação para a análise articulatória. aconselha-se a consulta de Delgado Martins
A (1988).
c
e
r
c
a

d
a

82
83
84
NO articuladores, disponível sem qualquer requisito de instrumentação técnica. Já há
alguns anos, esta classificação tem vindo a ser enriquecida pelo surgimento de novos
equipamentos (por exemplo, o palatógrafo, o nasómetro e o electroglotógrafo l ) que
fornecem dados que contribuem para o refinamento das observações impressionistas
anteriormente realizadas.

Todavia, a classificação articulatória dos sons do português europeu, com recurso às


novas metodologias disponíveis, carece ainda de muita investigação, razão pela qual
optámos por apresentar uma visão mais tradicional desta classificação. Desta forma,
será descrita, nas próximas subsecções, a classificação articulatória tradicional dos
sons do português europeu.

Classificação articulatória tradicional das vogais do português


europeu padrão

As vogais são produzidas sem constrições significativas à passagem do fluxo de ar no


tracto oral. Na produção das vogais, há vibração das cordas vocais, portanto, trata-se
de sons vozeados.
inventário de sons
utilizado nesta A posição do corpo da língua bem como a posição dos lábios determinam a produção
classificação. sio das nove vogais orais fonéticas do português europeu 2 , que são classificadas de
apenas referidas as
vogais do dialecto acordo com os seguintes parâmetros:
padräo do português

europeu, estando,
portanto, excluídas
todas as variantes
fonéticas dialectais.
Classificação posição do dorso e da raiz da língua — altura e ponto de articulação
articulatória dos
sons de fala
(recuo/avanço); posição dos lábios — alTedondados ou não arredondados.
A classificação A língua, no seu estado de repouso, encontra-se numa posição central e média no
articulatória consiste tracto oral que se pode designar por posição neutra. As diferentes posições do dorso
numa forma de da língua na produção das vogais serão definidas em função desta posição neutra.
organização e de
categorização dos sons
de fala que foi
utilizada pelos
primeiros foneticistas e
que continua, ainda
hoje, a ser usada
frequentemente. Esta
classificação de base
orgânica dependia,
inicialmente, da
observação dos
movimentos dos
85
rnadoana senînuod op
• sea!1pu0J saluet.1EA
JV]OPISUOO anb souln
se3!1at10J smsuu S!Rfi0A se sepeoylssep 0P1sa 'C o.lpunb ON •leseu
epueuossa.l
OSCD • nado.l opueoo,X0Jd 'teseu Blad Janb ltuo apep!AB0 Blad Aanb essed '101.101xa
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-001e!p 0e saluapuodsauoo
o end osan0AacI nas ou '-IB op oxnu o anb vpypatu nu s suuo sep saltra.1êJ!p
S!eaoA sntradn n,xansop g oes smî0A smsq •s!eseu S!BBOA tuaqtuel tualstxa 'nadona senanuod
sottllelsa ap oe -aJaJ
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[o]
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IG.nua.")
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86
•og.rped nad0Jna senfinuod op SË3!1PUOJ SteîOA sep Ok'5B01J!
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•nadoana sanam.10d op sep op5eoyyssep ep asalllts num as-ruauooua


'1 cupenb ON
•sepepuopam-ogu
salumsaa se e seprpuopane • ESIËî0A se.nno sep og5np0Jd sleao,•, smsa V eu mslîax os anb sop
01uaumpuopa.rae o 'nadona senanuod ura 'aluatupnû! sas-muasqo '(sa.IB10A no) san-lêlsocl SIEÛOA
sep og5npo.1d EN

•emau oe5!sod uns op5e1a.1 ura enoal ep OSJOP o — no -101.1a1sod

'.tmnau og5§0d ens eu as-tuuuetu ep osaop o — Ie.nuaa teilnau


0k'5rsod ens o#pa ura ep os.10P o — no
:.renua.1aJa.1 saQ5ËZ!1Ëô01 se aluatutgnâ! ops '(05ueAB/onoaa) og5R1nD!
J.1e ap muod oe os onb ON

•t2JJnau og5usod pns oe5ep.1 ura enfiuy ep osJop o — ex!eq

'.eJ1nau 0E5!sod ens as-ul?lueul enaull ep osaop o — g!pytu

'.t?llnau op5rsod ens og5Ë1aa ura as-BA010 ep OSJOP o —

:saQ51sod san as-.ruausuoo tuapod 'enthlll


ep os.rop op e.inue 0.10Ja.I as anb ou a 'opotu alsaa

Em português europeu, ificação das vogais nasais fonéticas do português europeu


também ocorrem variantes
nasais das semivogais
padrão.
apontadas em ditongos Anterior Posterior
decrescentes, por efeito da
coarticulaçäo.
ou Central ou velar
alatal
6
Os ditongos podem ser
Alta
crescentes, se a sequência
Média
iniciar por semivogal (piada
[ pjÃdb' J), ou decrescentes, se [ê] [õ]
terminar em semivogal (pauta [
pote J). Baixa
Quadro 2
Para classificarmos convenientemente uma vogal em poftuguês europeu, temos
Class
que fazer referência aos vários parâmetros. Por exemplo, se tivéssemos que
classificar, do ponto de vista articulatório, a vogal [ i ], diríamos que se trata de
uma vogal alta, anterior (ou palatal), não-arredondada, oral.

Para além das vogais, o português europeu dispõe ainda das semivogais [j] e
[w] que, articulatoriamente, são semelhantes às vogais [i] e [u]
respectivamente5

As semivogais distinguem-se acusticamente das vogais por serem produzidas


com menor energia e, consequentemente, com menor intensidade. Não

87
ocorrem sozinhas, de ar por momentos ou podem estreitar a área da passagem do fluxo de ar,
estando sempre provocando a produção de ruído.
acompanhadas por
uma vogal, e dão, Para a caracterização adequada da produção articulatória de uma consoante,
assim, origem aos temos que considerar os seguintes parâmetros:
ditongos6
ponto de articulação; modo
Tal como as vogais, de articulação;
as semivogais
também são
classificadas quanto
à sua articulação.
Por exemplo, a
semivogal [w]
classifica-se como
semivogal alta,
posterior (ou velar),
arredondada, oral.

Classificação
articulatória
tradicional das
consoantes do
português europeu
padrão

As consoantes, ao
contrário das vogais
e das semivogais,
são produzidas com
constrições
significativas à
passagem do fluxo
de ar no tracto vocal.
Estas constrições,
causadas pelo
movimento dos
articuladores, podem
impedir
completamente a
passagem do fluxo

88
posição do palato
mole; estado das
cordas vocais.
O ponto de articulação, tal como o próprio nome indica, refere-se
à localização da constrição no tracto vocal. Esta localização
depende do articulador activo e do articulador passivo
envolvidos. No quadro 3, abaixo, encontra-se a classificação de
ponto de articulação com referência aos articuladores
intervenientes e ao seu movimento.

Quadro 3 — Classificação do ponto de articulação das consoantes


do português europeu padrão.

Ponto de Articulador Articulador Movimento dos


Articulação Activo Passivo articuladores
Bilabial Lábios Fechamento dos dois lábios.

Toque do lábio inferior no


Lábio inferior sector anterior da arcada
Sector anterior
dentária superior, causado
da arcada
Labiodental dentária
por um movimento de
(maxilar aproximação do lábio
inferior) superior
inferior (sustentado pelo
maxilar inferior).
Sector anterior Aproximação elou toque da
da arcada coroa da língua ao sector
Dental Coroa da língua
dentária anterior da arcada dentária
superior superior.
Alvéolos Aproximação elou toque da
Alveolar Coroa da língua dentários coroa da língua aos alvéolos
superiores dentários superiores.
Aproximação elou toque do
Palatal Dorso da língua Palato duro dorso da língua ao palato duro.

Palato
Aproximação elou toque da
mole/Parede
Velar Dorso da língua
posterior da
raiz da língua à parede
posterior da faringe.
faringe
Vibração da zona posterior do
Uvular Dorso da língua Uvula dorso da língua junto à úvula.

O modo de articulação descreve a forma como o fluxo de ar é


expelido para o exterior, isto é, qual o tipo de perturbação que é
induzido à passagem do fluxo de ar no tracto vocal. As
consoantes do português europeu dividem-se em

89
As consoantes africadas, fluxo de ar, suficiente para provocar ruído, por exemplo [ f, s, J, v, z,
presentes em alguns dialectos
do português europeu, também 3 ];
são obstruintes. No entanto,
não se encontram referidas no
texto principal porque se optou laterais - constrição central à passagem do fluxo de ar,
por apre sentar apenas as
consoantes do português
obrigando o ar a passar pelos lados do dorso da língua, por exemplo [ l,
europeu padrão. K l;

vibrantes - constrição parcial que provoca vibração da


s
Considera-se que, na língua, por exemplo [ r, R
procluçào das consoantes
nasais, o fluxo de ar nào
encontra qualquer obstrução na
As consoantes laterais e vibrantes constituem o grupo das consoantes líquidas,
sua passagem pela cavidade partilhando, no âmbito da fonética do português europeu, propriedades
nasal.
articulatórias e acústicas.

Relativamente ao modo de articulação, podemos ainda dividir os sons da fala


em dois grandes grupos: obstruintes e soantes. Os sons obstruintes são
Na classificação das
consoantes, assim como das
produzidos com um impedimento parcial ou total à passagem do fluxo de ar no
vogais, está a ser considerada tracto vocal. As consoantes oclusivas orais e as fricativas 7 são obstruintes.
apenas a variedade padrão do
português europeu. Como
vimos no capítulo da Na produção dos sons soantes, não existem impedimentos à passagem do fluxo
transcrição fonética, alguns
autores (Cintra, 1973)
de ar. As consoantes oclusivas nasais8 , líquidas, as vogais e as semivogais são
classificam as consoantes [s] e
[7.] (aqui caracterizadas como
dentais) como pré-
soantes.
dorsodentais.
quatro grandes A nasalidade de um som deve-se à passagem do fluxo de ar pela cavidade
categorias que nasal: na produção de um som oral, o véu palatino movimenta-se na direcção
correspondem a da parede posterior da faringe, fechando o acesso à cavidade nasal e
tantas outras formas impedindo a passagem do fluxo de ar para o exterior; nos sons nasais, o véu
de perturbação da palatino não fecha o acesso, permitindo que o fluxo de ar passe pelas
passagem do fluxo cavidades oral e nasal.
de ar no tracto vocal:
Os sons em português europeu, tal como já referido anteriormente, distinguem-
o se ainda por uma outra característica relacionada com o estado da glote: a
clusivas - vibração das cordas vocais. Os sons vozeados são produzidos com vibração
constrição das cordas vocais, enquanto os sons não-vozeados são produzidos sem
total à vibração audível das cordas vocais.
passagem do
A classificação articulatória tradicional das consoantes do português europeu 9
fluxo de ar,
encontra-se sintetizada no quadro 4.
por exemplo

f
ricativas -
constrição
parcial à
passagem do
90
Quadro 4 — Classificação articulatória tradicional das consoantes do
português europeu padrão.

Modo Oclusiva
Fricativa Lateral Vibrante
Ponto e voz. Oral Nasal
Vozeada
Bilabial Não-vozeada
Vozeada
Labiodental Não-vozeada f
Vozeada d z
Dental Não-vozeada t s
Vozeada n 1
Alveolar Não-vozeada
Palatal Vozeada JI 3
Não-vozeada
Vozeada g
Velar Não-vozeada k
Vozeada
Uvular Não-vozeada
A classificação articulatória completa de uma consoante integra os
quatro parâmetros referidos no início deste capítulo. Deste modo,
para classificarmos adequadamente a consoante [ d ] é necessário
dar resposta a todos os parâmetros enunciados: consoante dental,
oclusiva, oral, vozeada.

Coarticulação

Nas secções anteriores, classificámos os segmentos fonéticos


(vogais, semivogais e consoantes) relativamente às suas
características articulatórias específicas, quando produzidos
individualmente. Ora, numa situação de fala, estes segmentos são
produzidos sequencialmente e em contínuo, dando lugar à
ocorrência de interferências em segmentos adjacentes. A
simultaneidade que resulta deste movimento contínuo dos
articuladores para os alvos articulatórios designa-se por
coarticulação.
A sobreposição dos segmentos no tempo e no espaço torna, muitas
vezes, difícil determinar quando inicia um segmento e quando
termina outro. Note-se, todavia, que, apesar de introduzir
91
importantes e audíveis diferenças acústicas, a coarticulação não
interfere no processamento do significado das palavras. Estudos
perceptivos (Brown, 2002) têm revelado que os ouvintes usam
activamente as pistas acústicas do espaço de coarticulação para
predizerem os

92
segmentos que se seguem e para acederem mais rapidamente às palavras.
No que se refere ao falante, a coarticulaçäo possibilita uma maior
rapidez de elocução.

Um dos factores de variação da própria coarticulaçäo é a sua direcção,


distinguindo-se entre coarticulação progressiva (que afecta os sons que
se encontram a seguir) e coarticulaçäo regressiva ou antecipatória (que
afecta os sons precedentes).

Leituras complementares

Delgado Martins, M. R.
1988 Ouvirfalcu: Intmdução à Fonética do Português. Lisboa: Editorial
Caminho.

Ladefoged, P.

2001 A Course in Phonetics. 4th ed., New York: Harcourt Brace


publishers.

Mateus, M. H. et alii
1990 Fonética, Fonologia e M01fologia do Português. Lisboa:
Universidade Aberta.

Actividades

I. Utilize a classificação articulatória tradicional para caracterizar as


vogais:

94
95
7. Em cada grupo de consoantes abaixo, identifique a(s)
característica(s) articulatória(s) semelhante(s).

8. Classifique, do ponto de vista articulatório, os sons:

96
9. Nas séries de sons que se seguem falta uma consoante para
formar um grupo de sons com as mesmas características. Identifique a
consoante em falta em cada uma das séries e a característica
articulatória que partilham.

IO. Descreva a produção articulatória de:


a. uma consoante fricativa labiodental;
b. uma consoante lateral alveolar;
c. uma consoante nasal palatal;

d. uma consoante uvular vibrante.

97
1 1. Assinale com V(erdadeiro) ou F(also) as seguintes afirmações e
proponha a correcção para as afirmações falsas.
a. Na produção da consoante [ t ] verifica-se uma obstrução total da
passagem do fluxo de ar.

b. As consoantes labiodentais são produzidas com a aproximação do


lábio superior ao sector anterior da arcada dentária superior.

c. Na produção das consoantes [ m, n, JI l, o véu palatino afasta-se da


parede da faringe o ar de passar para as cavidades nasais, provocando
assim um efeito de ressonância característico destas consoantes.

d. As consoantes nasais são foneticamente realizadas com vibração das


cordas vocais, isto é, são vozeadas.
e. Ao produzir uma consoante lateral, a língua move-se para um do
lados do tracto oral, deixando o ar passar livremente.
f. Os articuladores que intervêm na produção de uma consoante bilabial
impedem completamente a passagem do ar para o exterior.

12. Tendo presente a seguinte frase:


O fascínio que o estudo da fonética exerce sobre as pessoas é espantoso.
a. Identifique a palavra (ou palavras) que contém (contêm):
consoante velar; consoante
nasal; consoante dental
oclusiva; consoante palatal
não-vozeada.

13. Enumere e caracterize os parâmetros pertinentes para a classificação articulatória


das consoantes do português europeu.

Sugestões de soluções para as actividades propostas

a. vogal baixa, posterior, oral, arredondada


b. vogal média, anterior, nasal, não-arredondada
c. vogal média, central, oral, não-arredondada
d. vogal alta, posterior, nasal, arredondada

98
2.
a. Vogais médias, orais
b. Vogais posteriores, orais, arredondadas
c. Vogais baixas, orais
d. Vogais altas

3. Na produção de vogais não há obstrução à passagem do fluxo de ar, logo o


ar passa livremente pelo tracto vocal.
a. Observa-se um recuo e uma elevação do dorso da língua em relação à
sua posição neutra. Este movimento é acompanhado por um
arredondamento dos lábios. Como se trata de uma vogal oral, o véu
palatino encontra-se numa posição que não permite a passagem do ar
pelas cavidades nasais.

b. Verifica-se um abaixamento do dorso da língua, relativamente à sua


posição neutra. Tal como na vogal descrita em a. , não existe
passagem do ar pelo tracto nasal.

c. O dorso da língua avança e eleva-se, em relação à sua posição de


repouso, no momento da passagem do ar. Como é uma vogal nasal, o
véu palatino está afastado da parede posterior da faringe,
possibilitando a passagem do ar para as cavidades nasais, onde é
produzida ressonância adicional.

4.
a. dente, repasto
b. carapau, pauta
c. conde, som
d. café, melga

5. Os parâmetros classificatórios adequados para descrever a articulação das


vogais são:

a. posição do dorso da língua — a língua é o articulador com maior


mobilidade no tracto vocal, podendo mover-se ao longo de um eixo
vertical — altura — e ao longo de um eixo horizontal —
avanço/recuo; b. posição dos lábios — na produção das vogais, os
lábios podem aproximar-se, arredondando, ou podem manter-se sem
qualquer tipo de movimentação significativa;

99
c. posição do véu palatino — a possibilidade/impossibilidade de
passagem do ar pelas cavidades nasais durante a produção de uma
vogal determina a sua nasalidade/oralidade.

6.
[ S ] - chávena
b. [ R ] - roda
c. [ m ] - marmota d, [ ] - caracol

7.

a. Estado das cordas vocais - vozeado


b. Ponto de articulação - palatal
c. Modo de articulação - oclusivo
d. Ponto de articulação - alveolar
e. Modo de articulação e estado das cordas vocais — fricativo e vozeado f. Modo de
articulação, posição do palato mole e estado das cordas vocais — oclusivo, nasal e vozeado

8.
a. Consoante alveolar, oclusiva, nasal, vozeada
b. Consoante labiodental, fricativa, oral, não-vozeada
c. Consoante palatal, lateral, oral, vozeada
d. Consoante velar, oclusiva, oral, não-vozeada

e. Consoante alveolar, vibrante, oral, vozeada


f. Consoante bilabial, oclusiva, oral, não-vozeada

9.

a. [ d ] - oclusivo
b. [ k ] - não-vozeado
c. [ t ] - dental
d. [ n ] - nasal

10.

100
a. A consoante fricativa labiodental é produzida com uma obstrução
parcial significativa à passagem do fluxo de ar no tracto vocal,
produzindo um ruído de fricção. Esta obstrução resulta da
aproximação e, por vezes, do toque do lábio inferior (sustentado,
evidentemente, pelo movimento da mandibula) no sector anterior da
arcada dentária superior.

b. Na produção das consoantes laterais, existe uma obstrução central à


passagem do fluxo de ar, causando um desvio deste fluxo por ambos
os lados da língua. No caso da líquida lateral alveolar, esta obstrução
central é provocada pelo toque da lâmina da língua nos alvéolos
dentários superiores.

c. Qualquer consoante nasal é produzida com ressonância das cavidades


nasais que deriva da passagem do ar pelas mesmas, possibilitada pelo
afastamento do véu palatino da parede posterior da faringe. As
consoantes nasais são também oclusivas porque existe, no tracto oral,
uma interrupção completa da passagem do fluxo de ar para o exterior.
Esta interrupção, no presente caso, advém do toque do dorso da
língua no palato duro.

d. As consoantes líquidas vibrantes são produzidas sem obstruções


significativas à passagem do fluxo de ar no tracto oral. No entanto, a
velocidade deste fluxo de ar provoca vibração audível do corpo da
língua. A consoante vibrante uvular é, então, produzida com a
vibração da zona posterior do dorso da língua junto à úvula, durante a
passagem do fluxo de ar.

11.

a. Verdadeiro.
b. Falso. Ver resposta a IO. a.
c. Falso. Na produção das consoantes nasais, o ar passa pela cavidade nasal.
d. Verdadeiro.
e. Falso. Ver resposta a 10. b.
f. Verdadeiro

12.

Que, fonética

Fascínio, fonética

Estudo, fonética, espantoso, da

Fascínio, estudo, as, pessoas, espantoso

101
13. Os parâmetros classificatórios adequados para descrever a articulação das
consoantes são:

a. ponto de articulação —o local onde a passagem do fluxo de ar é


obstruída ou interrompida modela as configurações de ressonância
do tracto vocal;

b. modo de articulação — a forma como a passagem do fluxo de ar


sai do tracto vocal para o exterior - sem constrições, com
constrições parciais ou com constrições totais — interfere,
naturalmente, na qualidade acústica e auditiva do som;
c. posição do palato mole - a existência ou não de um escape de ar
para as cavidades nasais, dependente da posição do palato mole
aquando da passagem do fluxo de ar, determina a existência ou
inexistência de ressonância nasal na produção das consoantes;

d. estado das cordas vocais — a posição de adução ou de abdução


das cordas vocais na passagem do fluxo de ar para o exterior
possibilita ou impossibilita a vibração das cordas vocais, por
acção da pressão subglotal. Esta distinção entre vozeadas e não
vozeadas é bastante produtiva nas línguas de todo o mundo, não
constituindo o português europeu uma excepção.

102
4. Fonética acústica
96
Assim, partindo da definição do conceito de som, descreve-se o seu
mecanismo de propagação em meio aéreo e explicita-se a noção básica de
onda sonora. Em seguida, procede-se à caracterização dos componentes da
onda sonora essenciais para o estudo da fonética acústica — frequência e

amplitude.

Inicialmente, e para uma maior clareza dos conteúdos expostos, refere-se


apenas o funcionamento da onda sonora simples, sendo introduzida,
posteriormen te, a onda sonora complexa.

Tendo em atenção a natureza das fontes geradoras de som, as ondas


sonoras classificam-se como periódicas (se resultarem de uma fonte sonora
periódica como, por exemplo, as cordas vocais no aparelho fonador) ou
aperiódicas (se derivarem de uma fonte sonora aperiódica como, por
exemplo, um ruído de fricção causado pela articulação de uma consoante
fricativa no aparelho fonador).

Através da caracterização das ondas sonoras periódicas, definem-se os


conceitos de frequência fundamental, de frequências harmónicas, de
ressonância e de formantes, particularmente relevantes para o estudo das
propriedades acústicas dos sons da fala.
A Fonética acústica ocupa-se do estudo e da descrição das propriedades As ondas sonoras
são Iongitudinais
físicas dos sons da fala. porque as
partículas do meio
Um contínuo sonoro de fala é um conjunto de sons organizados que os movem-se numa
falantes reconhecem quer em separado quer organizado em palavras, frases, direcção paralela
enunciados. ao transporte de
energia.
Na base da fala estão unidades do mundo físico no qual estamos integrados
e que se comportam como 'objectos' físicos, sendo, por conseguinte, não só
representáveis mas também mensuráveis.

Na sua essência física, o som resulta do movimento de moléculas de ar que


ocasiona flutuações de pressão detectadas pelo tímpano, colocando-o em
vibração. O sistema auditivo transforma, posteriormente, estas pressões em
impulsos neuronais que resultam na sensação auditiva de som.

O som é o resultado de uma perturbação mecânica causada pela vibração de


um objecto que provoca deslocação das partículas do meio envolvente. O
termo mecânica, neste contexto, refere-se ao facto de a perturbação ser
transportada através do mecanismo de interacção de partículas. A onda
sonora é, por este motivo, muitas vezes designada por onda mecânica. A
propagação e as características do som são influenciadas pelo meio -
gasoso, líquido e sólido - em que as flutuações de pressão ocorrem. A
velocidade de propagação do som está, desta forma, directamente
dependente da natureza e do estado físico de cada um dos meios. Se, por 97
exemplo, o meio de transporte ou de transmissão de som for o ar, observa-
se um movimento das moléculas do ar. As pequenas e rápidas variações de
pressão transportam energia em ondas longitudinais l que são detectadas
pelo ouvido humano (mais especificamente, pelo tímpano). Em suma, um
som é uma onda mecânica que resulta do movimento longitudinal das
partículas do meio em que se está a deslocar.

No seu estado normal, as partículas encontram-se equidistantemente


distribuídas (Figura 1). Este estado, que corresponde à ausência de
perturbação ou de movimento, designa-se por pressão zero ou pressão
estática.

Figura 1 — Partículas em estado de repouso.


A

onda sonora consiste, então, num padrão de repetição de áreas de alta pressão e
de baixa pressão num determinado meio. Estas variações de pressão ocorrem
em intervalos de tempo regulares e periódicos e são representadas numa curva
sinusoidal (Figura 3). Fazendo uma correspondência directa da curva sinusoidal
com as flutuações de pressão, verifica-se que aos picos da onda correspondem
as zonas de compressão das partículas e às zonas de rarefacção estão associados
os 'vales' (zonas de depressão máxima da curva). O ponto zero da curva
sinusoidal na figura 3, representado pela linha horizontal, indica o valor de
pressão das partículas em estado de repouso.
96
A frequência de uma onda é determinada pelo número de vezes que um ciclo 0.01
completo de vibração (zero-compressão-zero-rarefacção) se repete durante um segun
segundo. A unidade utilizada para medir a frequência é o Hertz (Hz). Numa dos.
onda sonora de 300 Hz, repetem-se 300 ciclos de vibração completos num
segundo (Figura 5a).

-0.
0.01 Tempo (s)
Tempo (s)

Figura 51) —
Onda sonora
Figura 5a — Onda sonora simples com 300 Hz —IO milissegundos
simples com 600
Hz — IO
milissegundos.

Na Figura 5a estão
representados IO
milissegundos de
uma onda sonora
sinusoidal de 300
Hz. O cálculo é
simples: se em 10
milissegundos
ocorrem 3 ciclos, em
1000 milissegundos
(que equivale a um
segundo) ocorrem
300 ciclos.

O mesmo tipo de
cálculo se aplica à
figura 5b, onde estão
representados 10
milissegundos de
uma onda sonora de
600 Hz. Como nesta
onda sonora ocorre
exactamente o dobro do número de ciclos num segundo
(comparativamente à onda representada em 5a), a representação dos
mesmos IO milissegundos contém 6 ciclos completos.

Na onda sonora simples pode ainda medir-se o comprimento de onda,


ou seja, o tempo que demora a completar um ciclo completo. Quanto
mais curto for o comprimento de onda, maior será a frequência do
som e vice-versa (Figuras 5a e 5b). A duração do comprimento de
onda é medida em milissegundos.

A amplitude é o valor da distância entre o ponto de pressão zero e o


ponto de pressão máxima da onda (Figura 4). Quanto maior for a
amplitude de vibração das partículas, maior é a quantidade de energia
transportada por estas e maior é a sensação auditiva de intensidade
do som.

A frequência e a amplitude de uma onda sonora são características


independentes: duas curvas sinusoidais podem ter a mesma
frequência e amplitudes diferentes (Figura 6) e vice-versa (Figura 7).

0.0

Figura 6 — Duas ondas sonoras simples em sequência com a mesma frequência e


amplitude diferentes.

Tempo (s) 0.015034

Figura 7 — Duas ondas sonoras simples em sequência com a mesma amplitude e


frequência diferentes.
: Estes limites da quantidade de energia transportada pela onda em função de uma área percorrida num
capacidade auditiva
humana para a determinado período de tempo. Para referir a intensidade de um som, utiliza-se a escala
intensidade são logarítmica decibel (ou dB). Os valores limiares de audição humana da intensidade, medidos
valores médios de em dB, oscilam entre 0 dB (que não significa silêncio, contemplando variações mínimas que
referência.
A intensidade da onda o ouvido humano é capaz de detectar) e 160 dB2 Quando um som atinge o limiar máximo de
sonora refere-se à intensidade, pode ocorrer não só dor (que se pode verificar a partir dos 140 dB), mas também
98
a perfuração imediata sinusoidais simples. Isto mesmo é o que defende a teoria de Fourier, segundo a qual a onda
do tímpano. sonora complexa pode ser decomposta nas ondas sonoras sinusoidais com diferentes
frequências e amplitudes que a constituem. A análise de Fourier pressupõe, assim, que uma
A combinação da onda sonora complexa é o resultado da soma de ondas sonoras sinusoidais.
frequência com a
amplitude contribui Na figura 8, encontra-se representada a onda complexa constituída a partir da junção das
para a sensação ondas sonoras das Figuras 5a e 5b.
auditiva de altura do
som. Mas, enquanto a
intensidade e a
frequência são
objectivamente
mensuráveis, a
'sensação
auditiva de altura
do som' é uma
característica Tem» (s)
perceptiva
subjectiva, que
Figura 8 — Onda sonora complexa periódica.
varia de
indivíduo para
indivíduo.
Todavia, apesar
de serem As ondas sonoras complexas descritas são periódicas 3 (uma vez que são
diferentes, constituídas pela combinação de ondas sonoras simples) e encontram-se, por
parece existir exemplo, nas vogais. No entanto, os sons da fala são também produzidos com
uma relação ondas sonoras aperiódicas (explosões de oclusivas, ruído de fricção de
entre a fricativas, etc.).
intensidade e a
'altura' do som: 0.0473

sons mais
intensos são
percepcionados
como mais altos.

Até ao momento,
têm sido
referidas as
propriedades
-0.0477
mensuráveis das Tempo (s) 0.01
ondas sonoras
simples.
Figura 9 Onda sonora complexa aperiódica.
Todavia, os sons
da fala são
constituídos por
ondas sonoras
complexas. A vibração das cordas vocais (cf. secção 3. do capítulo de Fonética) é a
principal fonte sonora da fala, gerando ondas sonoras periódicas complexas ou
As ondas sonoras
complexas são tons. A frequência mais baixa de uma onda sonora complexa designa-se por
aglomerados de frequência fundamental (ou FO). Na fala, a variação da frequência fundamental,
ondas sonoras obtida através da vibração das cordas vocais, é utilizada distintivamente pelos
simples, daí que falantes de línguas tonais (chinês, tailandês, etc.) e pelos falantes de línguas que
seja possível usam a entoação para diferenciar significados (português, castelhano, inglês,
tratar qualquer etc.).
onda sonora
complexa como As cordas vocais humanas podem produzir valores de frequência fundamental
uma combinação que variam entre 50 e 500 4 Hz. A gama de variação de FO de cada indivíduo
de ondas
&pende, porém, de factores físicos como a idade e o sexo. Assim, e em termos
99
médios, a gama de 4 Este valor máximo encontra-se habitualmente nas produções sonoras das crianças.

variação de FO de
uma voz feminina
A variação de FO dos cantores líricos excede largamente os limites referenciados para as vozes femininas e masculinas.
varia entre 150 e 350 Para além do reposicionamento dos limites, estes profissionais da voz apresentam gamas de variação de FO bastante
Hz e a de uma voz alargadas, com diferenças que podem ascender, por exemplo, a 1000 Hz (voz de soprano). Não nos esqueçamos, no
entanto, que este tipo de variação é utilizado para o canto e não para a fala.
masculina entre 80 e
200 Hz5 . Esta
diferença deriva de Estes sons, embora sejam inaudíveis para a espécie humana, são detectados por alguns animais. Por exemplo, O limiar
superior de audiçäo dos golfinhos é de 200 000 Hz e o limiar inferior de audição dos elefantes situa-se nos 5 Hz.
razões anatómicas: as portanto, em condições de conseguir ouvir a gama de frequência da vibração das cordas vocais
cordas vocais que se situa, como vimos atrás, entre 50 e 500 Hz.
femininas são
Tal como já foi referido anteriormente, os sons periódicos podem ser simples ou complexos.
estruturalmente mais
Uma onda sonora periódica complexa é constituída "or vários componentes de frequência que
finas, o que lhes integram a frequência fundamental (que é a sua frequência básica de vibração) e um conjunto
possibilita uma maior de frequências múltiplas da frequência fundamental que se designam por frequências
elasticidade de harmónicas ou harmónicos.
vibração, permitindo-
lhes 'Sibrar mais A frequência fundamental, porque é a primeira frequência de vibração regular do som, é
também referida como 10 harmónico (cf. Figura I O). Os harmónicos são múltiplos de FO.
vezes num mesmo
Assim, se o valor de FO for 100 Hz, o segundo harmónico ocorrerá aos 200 Hz, o terceiro aos
intervalo de tempo. 300 Hz, etc. No espectrograma (cf. secção 2 do capítulo de Fonética acústica) da figura 10, o
primeiro harmónico da vogal acentuada [e] (da palavra 'fonética') está assinalado com uma
Os limites de audição
seta. Como se pode verificar, os restantes harmónicos desta vogal encontram-se bastante
humana da frequência visíveis (representados no espectrograma por estrias horizontais acima do 1 0 harmónico).
variam entre 20 e
20000 Hz.
Naturalmente, estes
são valores médios,
porque a capacidade
auditiva é diferente de
indivíduo para
indivíduo, sendo
influenciada por
factores como, por
exemplo, a idade e a
saúde do aparelho
auditivo. Os sons
cujas frequências de
vibração são menores
que 20 Hz designam-
se por infrassons e
aqueles cuja 'fibração
é superior a 20000 Hz
por ultrassons6 . O
ouvido humano está,
0 termo periódico
aplica-se às ondas sonoras
em que os ciclos se repetem
em intervalos de tempo
regulares.

100
500

harmónicos

T
e
m
p
o

(
s
)

Figura 10 —
Espectrograma de
banda estreita da
palavra 'fonética'.

A onda sonora periódica


produzida por uma
fonte sonora (FO e
harmónicos) é
amplificada
(intensificada) e filtrada
pelos corpos com os
quais entra em contacto.
No caso da fala, as
cordas vocais são a
fonte sonora que gera
ondas periódicas e os
corpos responsáveis
pela filtragem da onda
são as cavidades

101
supraglotais. Estas, como todos os corpos, têm frequências de vibração naturais, ou seja, têm
frequências de vibração 'preferidas'. Se fizermos vibrar um objecto na sua frequência natural,
as vibrações serão reforçadas, através do aumento da amplitude, e o som soará mais forte (isto
é, mais intenso).
A acção das cavidades supraglotais consiste, assim, em modificar a amplitude dos harmónicos
da onda complexa, em função das características físicas das cavidades onde é produzida a
vibração das moléculas do ar. Isto significa que a cada configuração supraglotal corresponderá
uma resposta acústica diferente, mesmo que as propriedades da onda gerada pela fonte sonora
se mantenham.

A modificação acústica introduzida na onda sonora periódica pela passagem nas cavidades
supraglotais designa-se por ressonância. As diferentes configurações destas cavidades
produzem, então, diferentes padrões de formantes que correspondem a diferentes zonas
amplificadas da onda sonora (Figura I I A presença de formantes na onda sonora é
característica de todos os sons que são produzidos com ressonância nas cavidades supraglotais:
vogais, semivogais, líquidas e nasais.

500

Tempo (s) n.896939

Figura 11 — Espectrograma de banda estreita da vogal As setas assinalam a posição dos


formantes.

Para além dos sons periódicos, a fala também utiliza sons aperiódicos que, tal como o nome
indica, não apresentam padrões de repetição de frequência regulares. Entre estes, podemos
ainda considerar dois tipos de sons: aperiódicos contínuos, em que não existe interrupção da
passagem do ar e, consequentemente, da onda sonora; e sons aperiódicos não-contínuos, em
que se verifica uma interrupção completa da passagem do ar com respectiva descontinuidade
na onda sonora. No primeiro caso, encontram-se as consoantes fricativas e, no segundo, as
consoantes oclusivas.

Leituras complementares

Johnson, K.,
1997 Acoustic and auditory phonetics. Oxford: Blackwell Publishers.

Ladefoged, P.,
nd
1996 Elements of acoustic phonetics. 2 edition. Chicago: The University of
Chicago Press.

Stevens, K.,
1998 Acoustic phonetics. London: The MIT Press.

102
Actividades

1. Apresente uma definição para o conceito de som.

2. Em que medida a presença ou a ausência de energia interferem na produção de um som?

3. Explique o modo de propagação de um som.

4. O que entende por curva sinusoidal?

5. Duas das componentes do sinal acústico, relevantes para o estudo da fala, são a frequência
e a amplitude. Caracterize acusticamente estas propriedades.

6. Assinale com V(erdadeiro) ou F(also) as seguintes afirmações e proponha a correcção para


as afirmações falsas.

a. A onda sonora designa-se por onda mecânica porque existem muitos instrumentos de
funcionamento mecânico que a permitem medir.

b. No seu estado normal, as partículas encontram-se em pressão estática e, quando são


impelidas a mover-se, provocam uma alternância de momentos de compressão e de
rarefacção.

103
107

105
c. A onda sinusoidal é uma onda simples de frequência periódica.
d. Duas ondas sonoras com diferentes amplitudes porque soam diferente
têm frequências distintas.

e. A intensidade de um som, ou seja, a quantidade de energia transportada


pela onda sonora por período de tempo, mede-se em décibeis.
f. Os humanos conseguem ouvir toda a gama de sons produzidos por
qualquer corpo.
g. A sensação auditiva de altura do som resulta de um aumento da
frequência.
h. De acordo com a análise de Fourier, uma onda sonora complexa
compõe-se pela soma de diferentes ondas sinusoidais.

i. A frequência fundamental é a designação que se atribui à frequência


mais baixa de uma onda sonora complexa.
j. Se o segundo harmónico de um som tem o valor de 300 Hz, a
frequência do quinto harmónico é de 850 Hz.

7. Observe as seguintes figuras:

0.1

Figura 1

106
Sugestões de soluções para as actividades propostas

107
l. O som resulta de um movimento de partículas provocado pela vibração
de um objecto. Depende, por conseguinte, das frequências de vibração
naturais do objecto, das características do meio em que ocorre a
deslocação de partículas e da energia com que o objecto é colocado em
movimento.

2. A energia é essencial para a produção de som, uma vez que


coloca em movimento as moléculas do ar, responsáveis pelas flutuações
de pressão que originam o som.

3. A propagação do som pode ocorrer em meio gasoso, líquido ou


sólido. Para o estudo da fala interessa-nos a propagação em meio aéreo
(gasoso). As moléculas de ar em repouso são perturbadas por acção de
uma fonte de energia que causa o movimento destas partículas,
despoletando situações repetitivas de rarefacção e de compressão. A
energia é, assim, transferida de molécula para molécula, provocando a
sua deslocação sucessiva. Este movimento vai diminuindo à medida que
a energia do sinal decresce.

4. Uma curva sinusoidal é a designação atribuída ao formato de


uma onda sonora simples periódica. Nestas curvas, os ciclos de
frequência são regulares, desenhando movimentos ondulares simétricos.

5. A frequência de uma onda sonora está relacionada com o


número de ciclos, causados pelas flutuações de pressão atmosférica, que
ocorrem num segundo. A amplitude da onda sonora refere-se à distância
que separa o ponto máximo de afastamento da onda relativamente ao
ponto de pressão estática. Quer a frequência quer a amplitude
determinam a sensação auditiva de altura de som.

6.
a. Falso. A designação de onda mecânica deve-se ao facto de, na
produção das ondas sonoras, intervir o mecanismo de interacção
de partículas.
b. Verdadeiro.
c. Verdadeiro.
d. Falso. A amplitude e a frequência são propriedades
independentes: as ondas sonoras podem ter diferentes amplitudes
e diferentes frequências ou diferentes frequências e a mesma
amplitude ou diferentes amplitudes e a mesma frequência.
e. Verdadeiro.

108
109
110
Antigamente, descrever os instrumentos que estiveram na origem da
esta repre•
semasio era designação destas representações visuais do sinal acústico.
feita com um
instrumento
chamado
oscilógrafo. que
originou esta
designação.
O sinal
acústico pode Oscilograma (ou forma de onda)
ser
visualmente
representado A representação visual mais comum de uma onda sonora é o
de diferentes oscilograma l ou forma de onda. Nesta, pode observar-se a
formas, variação da pressão atmosférica do sinal acústico em função
variando em do tempo. Na ordenada (eixo vertical) está representada a
função das pressão e na abcissa (eixo horizontal) o tempo, que evolui no
características gráfico da esquerda para a direita. A linha horizontal
acústicas que (marcada com zero na ordenada) assinala o ponto de repouso
se pretende da pressão atmosférica.
analisar mais
detalhadament
e. Em seguida,
apresentaremo
s, apenas, uma
breve
descrição das
representações
visuais do sinal
de fala mais
utilizadas.
0.945488
Actualmente,
todas as Figura I — Oscilograma da palavra fonética.
representações
visuais do sinal

Espectro

A representação espectrográfica permite visualizar a distribuição da


frequência e da amplitude num determinado momento no tempo. Esta
representação não tem escala temporal porque o que está a ser visualizado
é um ponto da sequência temporal, ou seja, a amplitude e a frequência num
dado momento
acústico
podem ser
realizadas por
Repare-se que o oscilograma não nos fornece
programas
informáticos
informação acerca dos componentes que constituem a
num vulgar onda sonora complexa, isto é, informações acerca da
computador frequência e da sua amplitude relativa.
pessoal. Por
esta razão, não do tempo (ver Figuras 2 e 3).
se justifica,
neste texto que 0.486

pretende ser
uma breve
introdução à
acústica,

111
03731 a (Hz) Figura 3 — Espectro de
um ponto no final da vogal [e],
2
da palavra fonética. Corresponde
ao ponto 2 do oscilograma
acima.

F
requenci
a (Hz)
Figura 2

Espectro
de um
ponto no
início da
vogal
[e], da
palavra
fonética.
Correspo
nde ao
ponto I
do
oscilogra
ma
acima.

Tempo (s)
0.945488

F
r
e
q
u
ê
n
c
i

112
A frequência (em Hz) está representada no eixo
horizontal e a amplitude (em dB) no eixo
vertical. Se se pretender observar a evolução da
frequência e da amplitude em função do tempo,
então temos que optar por outro tipo de
representação: o espectrograma.

Espectrograma

No espectrograma encontram-se
contempladas três dimensões do sinal
acústico: tempo, frequência e amplitude. O
tempo, em segundos (ou em
milissegundos), encontra-se no eixo
horizontal e a frequência, em hertz, no eixo
vertical. A amplitude do sinal é dada por
uma gradação de tons de cinzento: as zonas
mais escuras são zonas de maior amplitude
(e, consequentemente, de maior intensidade
auditiva).

No fundo, o espectrograma é uma sucessão


de espectros alinhados, isto é, uma
sucessão de pontos no tempo com valores
de frequência e de amplitude.

5000

1
-26644
Tempo (s)

Figura 4 — Espectrograma de banda larga da


palavra fonética.

As zonas mais escuras que formam bandas


horizontais ao longo do espectrograma são
os formantes, ou seja, frequências onde o
formato das cavidades provoca ressonância
dos sons (cf. Figura 4). Os formantes da
vogal [e] estão numerados e etiquetados na

113
Figura 4: FI refere-se ao primeiro formante,
F2 ao segundo, F3 ao terceiro. As vogais
têm mais do que três formantes mas, para a
análise da fala, habitualmente consideram-
se só os três primeiros. As posições dos
formantes são diferentes de som para som e
podem ser preditas para cada fonema.
O espectrograma resulta de um processo de
filtragem do sinal, por isso podemos fazer
espectrogramas com diferentes larguras de
banda.

Os espectrogramas de banda larga (entre 150 e


300 Hz) têm uma boa resolução do tempo e
dos formantes vocálicos e uma pior resolução
da frequência (ver Figura 4).

Os espectrogramas de banda estreita (entre IO


e 45 Hz) apresentam uma boa resolução da
frequência mas uma pior resolução do tempo.
Por exemplo, na figura 5, consegue ver-se
claramente os harmónicos das vogais, sob a
forma de estrias horizontais. Cada estria
representa um harmónico da vogal.

soo

0 Tempo (s) 1,26644

Figura 5 — Espectrograma de banda estreita da


palavra fonética.

A opção pela utilização de um espectrograma


de banda estreita ou de um espectrograma de
banda larga relaciona-se com as propriedades
do sinal em investigação.

Traçado de FO

Para a análise da frequência fundamental


(importante, por exemplo, para a investigação
da entoação), utiliza-se um gráfico que se

114
designa por traçado de FO. Nesta
representação, apenas estão visíveis os valores
de FO em função do tempo. Assim, no eixo
vertical encontra-se a escala de frequência em
Hertz e no eixo horizontal a escala temporal
(que tanto pode aparecer representada em
segundos como em milissegundos).

115
Actividades

I. Que tipo de informação sobre o sinal acústico está disponível num


oscilograma?

2. Se se pretender analisar a evolução temporal de uma


característica acústica do sinal, pode utilizar-se a
representação espectrográfica? Justifique a sua
resposta.

3. Qual a representação mais adequada para a


investigação dos harmónicos de uma vogal?
Apresente argumentos para fundamentar a sua
resposta.

4. Num espectrograma, que tipo de informação fornece


a gradação de tons de cinzento?

5. O que são formantes e como se identificam num


espectrograma?

6. Qual é a característica acústica que nos permite


estudar a variação entoacional? Que tipo de
representação utilizaria para o fazer?

Sugestões de soluções para as actividades propostas

1. Num oscilograma, encontra-se


representada a variação da pressão atmosférica
em função da escala do tempo.

2. Não, porque o espectro dá-nos


informação da frequência e da amplitude num
único ponto da sequência temporal, não sendo
adequado para a análise da evolução temporal.

3. A representação mais adequada é o


espectrograma de banda estreita. Neste
espectrograma, são visíveis não só os
formantes (frequências amplificadas pela
ressonância do tracto vocal), como também os
harmónicos das vogais. A resolução gráfica
deste tipo de representação favorece a
identificação dos harmónicos (estrias
horizontais).

116
117
conjunto de elementos anatómicos e físicos que possibilitam a produção
de fala.
A teoria acústica da produção de fala i , também conhecida
como teoria fonte-filtro, assenta na relação que existe entre
articulação dos sons de fala e características acústicas
específicas. De acordo com esta teoria, o aparelho fonador 2
funciona como um sistema de fontes sonoras, que geram
som, e de filtros, que modelam o som produzido pelas
fontes sonoras amplificando

Inicialment
e
desenvolvida
por Fant
(1960).

: O aparelho
fonador
denomina o

118
diferentes componentes do sinal.

119
120
Actividades

1. Identifique, de acordo com a teoria fonte-filtro, as fontes


sonoras de que um aparelho fonador dispõe.

2. Explique o que entende por fonte de ruído. Apresente


exemplos.

3. O que caracteriza um som produzido com uma fonte sonora


periódica?

4. Refira, do ponto de vista acústico, a importância das cavidades


supraglotais na produção dos sons de fala.

5. Explique, sucintamente, os princípios básicos da teoria acústica


da produção de fala.

Sugestões de soluções para as actividades propostas

1. O aparelho fonador tem dois tipos de fontes sonoras: uma fonte


sonora glotal (ou periódica) e fontes sonoras aperiódicas ou fontes de
ruído.

2. Uma fonte de ruído é uma das fontes sonoras de que o aparelho


fonador dispõe para a produção de sons de fala. Estas fontes sonoras
geram sons aperiódicos e intervêm na produção de sons oclusivos e de
sons fricativos.

3. Qualquer som gerado por uma fonte sonora periódica


caracteriza-se por produzir ondas sonoras, simples e complexas, com
frequências regulares.

4. A importância das cavidades supraglotais para a produção de


fala prende-se com o facto de aí serem geradas as ondas sonoras
aperiódicas (fontes de ruído) e modeladas (através das configurações do
tracto bucal que funcionam como filtros) todas as ondas sonoras
produzidas pelo aparelho fonador.

5. A teoria pressupõe que o aparelho fonador é constituído por um


sistema de fontes e de filtros. As fontes produzem ondas sonoras
(periódicas ou aperiódicas) que, na sua passagem pelo tracto bucal, são
alteradas, através de diferentes

121
122
4.4 Propriedades acústicas segmentais dos sons da fala

Objectivos e resumo

O estudo desta secção fornecerá ao aluno instrumentos necessários para:

• relacionar correlatos acústicos e articulação de sons;

• reconhecer e identificar as pistas acústicas que caracterizam os sons


(vogais, semivogais e consoantes) do português europeu;

• analisar e ler espectrogramas de contínuos sonoros de português


europeu.

Na presente secção são descritas as principais pistas acústicas que


caracterizam os segmentos fonéticos do português europeu.

As vogais são produzidas com grande quantidade de energia, razão pela qual
são bastante visíveis nos espectrogramas, sendo facilmente identificáveis
pela estrutura formancial bem definida que ostentam. As configurações que
o tracto vocal assume para a produção das nove vogais fonéticas orais do
português amplificam zonas distintas do sinal acústico, daí resultando
diferentes estruturas fomanciais.

As consoantes, contrariamente às vogais, têm modos de articulação diversos


(oclusivas, fricativas, laterais e vibrantes) que acarretam importantes
diferenças acústicas. Consideram-se ainda as pistas de ponto de articulação,
embora, no caso das consoantes, sejam um pouco mais difíceis de identificar.

Os correlatos acústicos de vozeamento e de nasalidade são também


apresentados.

123
As características acústicas dos sons de fala reflectem a sua produção
articulatória, sendo a correlação observada, por exemplo, nos seguintes
aspectos: a vibração das cordas vocais está associada à frequência
fundamental; a configuração das cavidades supraglotais relaciona-se com
a composição espectral; a força expiratória é apresentada pela amplitude;
e a duração da expiração representa o tempo.
Em seguida, observaremos em detalhe quais são os correlatos acústicos
dos sons do português europeu, utilizando para o efeito a representação
em espectrograma de banda larga.

Vogais

As vogais são sons produzidos com vibração das cordas vocais e sem
constrições no tracto vocal, razão pela qual são muito ressoantes e
bastante salientes na representação visual. As diferentes configurações
assumidas pelo tracto vocal intensificam elou enfraquecem partes distintas
do sinal acústico, daí que a cada vogal corresponda uma imagem acústica
distinta.
As vogais são facilmente detectáveis no espectrograma porque exibem
uma estrutura formancial bem definida. Embora apresentem um maior
número de formantes, os primeiros três formantes (contabilizados no
espectrograma de baixo para cima) são os mais importantes e,
habitualmente, os dois primeiros contêm informação suficiente para a sua
identificação.

111]

'Ik•mpo Temlx» Tempo

Iel 101

Tempo (s) Tempo (s) Tempo (s)

lei lai
Tempo ' s) Tempo Tempo (s)

Figura 1 — Espectrogramas de banda larga das nove vogais orais do


português europeu padrão, produzidas por uma falante
feminina.
I
A ausência da dorso da língua na produção das vogais: um FI baixo caracteriza as vogais altas e um FI alto
vogal deve-se
ao facto de esta
as vogais baixas (cf. Figura 2).
vogal nunca surgir
em posiç•äo tónica O parâmetro de ponto de articulação (recuo/avanço do dorso da língua) é representado
em PE. pelo segundo formante (F2): a um F2 baixo equivale uma vogal posterior e a um F2 alto
O primeiro formante (FI) uma vogal anterior.
está relacionado com o
parâmetro de altura do
124
Se desenharmos um As semivogais são, articulatória e acusticamente, muito semelhantes às vogais,
gráfico com os apresentando uma estrutura formancial, também ela, nítida, embora se verifique
valores habituais uma diminuição importante da quantidade de energia (ver espectrogramas da
para os dois Figura 3).
primeiros

formantes, com FI
em ordenada e F2
em abcissa,
podemos verificar
não só a distância
acústica entre as
vogais bem como a
sua posição
relativa. Tomando
as vogais que se
situam nos pontos
extremos dos eixos,
horizontal e
vertical, podemos
traçar uma figura
geométrica, isto é,
um triângulo, que é
referido como
triângulo acústico
das vogais.

F
2

tal
FI

Figura 2 — Triângulo
acústico
das
vogais
orais
tónicas l
do PE
padrão.
Adaptad
o de
Delgado
Martins
(1973).
125
[pcíj] casos da Figura 3, está relacionada com a
[páwl
5000 semivogal que a segue.

As semivogais são, como o próprio nome


indica, muito idênticas às vogais que lhes

correspondem2 , por isso é natural que as


frequências iniciais dos seus formantes sejam
semelhantes às dessas vogais.

Consoantes
T
e
m
p
Ao contrário das vogais e das semivogais, as consoantes são sons produzidos com
o diferentes graus de constrição que podem ocorrer em pontos diversificados do
tracto vocal.

A descrição dos corelatos acústicos da articulação das consoantes do português


Figura 3 — europeu será apresentada em seguida, organizada a partir do modo de articulação.
Espectrogramas
À vogal [ i ] corresponde a semivogal [ j ] e à vogal [ u l, a semivogal [ W
de banda larga das
palavras pai e pau. Oclusivas

Uma consoante oclusiva caracteriza-se acusticamente por dois momentos fundamentais: o


momento do silêncio, que corresponde à oclusão (isto é, ao momento em que os articuladores
Repare-se que, interrompem completamente a passagem do fluxo de ar) e o momento da explosão, que se
deve ao afastamento rápido dos articuladores, o que permite a libertação, sob pressão, do ar
apesar da vogal do
acumulado atrás do ponto de oclusão.
ditongo ser a mesma
([ a l), a estrutura
formancial que
apresenta é distinta, t el
se compararmos os
dois lá
espectrogramas. Isto
justifica-se pelo 5000

facto de os sons na
fala não serem
produzidos em
isolado mas sim em
contínuo, recebendo
e produzindo
n.675057
influências nos sons
que os antecedem e
Silêncio Barra de explosào
nos sons que os
seguem. Assim, a
diferente estrutura Figura 4 — Espectrograma de banda larga da sequência sonora ata.
formancial
apresentada pela
vogal [ a l, nos dois

126
Na Figura 4 encontra-se com estruturas formanciais bem definidas (que correspondem às vogais) e uma zona em que
o espectrograma de uma ocorre silêncio entre as vogais seguida de uma barra de explosão, isto é, uma
produção possível da oclusiva não-vozeada. As oclusivas não-vozeadas (t p, t, k l) apresentam todas uma
palavra ata. Pela 'imagem acústica' semelhante. No que se refere às oclusivas vozeadas, a diferença
observação desta figura, principal reside basicamente na presença de uma barra de vozeamento, que surge
detectamos duas zonas nas baixas frequências, e na atenuação dos ruídos de explosão (cf. Figura 5).

d el ascendente. As
5000
consoantes
oclusivas
velares
provocam esta
transição na
vogal
seguinte.

2 Nas oclusivas
nasais, dado
que o ar pode
0.6 167S escapar pelas
Tempo (s) fossas nasais, a
Barra de vozeamento oclusão pode
manter-se por
mais tempo e a
Figura 5 — Espectrograma de banda larga da sequência sonora ada. explosão é
breve, quase
ausente (cf.
Figura 7).
As oclusivas, tal como verificámos atrás, dimanam de um momento de silêncio seguido de
explosão. Logo, as pistas para a identificação do ponto de articulação só estão disponíveis nas
transições de e para os sons adjacentes 3 . No caso das oclusivas vozeadas, os con•elatos
acústicos do ponto de articulação encontram-se na transição entre a consoante e a vogal que a
segue, concretamente na direcção inicial do segundo e do terceiro formantes da vogal.
Observemos, então, os espectrogramas da Figura 6, onde estão representadas sequências
sonoras que diferem apenas no segmento medial.

Tempo

Figura 6 — Espectrogramas de banda larga das sequências sonoras aba, ada e aga,
respectivamente.
O espectro da barra de explosäo pode também, em algumas situações, conter informação acerca do ponto de
articulação da consoante oclusiva.
No espectrograma da esquerda (representação da sequência sonora aba), o segundo e o
terceiro formantes evoluem os dois em paralelo em sentido ascendente. Esta direcção é
característica das consoantes oclusivas de articulação labial (no presente caso, bilabial).

Os formantes em observação no espectrograma do meio (sequência sonora ada) estão


alinhados horizontalmente, sendo esta uma configuração comum nas consoantes oclusivas de
articulação alveolar.

Por fim, o espectrograma da direita (sequência aga) mostra-nos uma divergência na direcção
do segundo e terceiro formantes da vogal: embora partindo de um ponto ao mesmo nível, o
segundo formante toma uma direcção descendente e o terceiro segue uma direcção
127
[á O espectrograma mostra
a presença de formantes
5000
de nasalidade resultantes
da ressonância das
cavidades nasais e da
faringe. Acima do
primeiro formante (que
se situa por volta dos
Formantes
250 Hz), verifica-se uma
clara diminuição da
energia.

0,647506
No que se refere ao
Tempo (s) ponto de articulação, as
pistas são semelhantes às
Figura 7 — Espectrograma de banda larga da sequência sonora ana. já referidas para as
outras oclusivas, mas um
pouco menos claras.

Fricativas

Uma consoante fricativa caracteriza-se acusticamente pela ocorrência


de ruído de fricção, causado pelo estreitamento do tracto vocal devido à
aproximação de dois articuladores. A manutenção desta aproximação
entre articuladores condiciona fortemente a passagem do fluxo de ar,
provocando turbulência. As características do ruído devem-se,
principalmente, a três factores: à localização da constrição no tracto
vocal, ao formato do estreitamento e às propriedades do fluxo de ar.

[á el
5000 i i i

i Ruído da fricativa

i
o. 746667
Tempo (s)
Barra de vozeamento

Figura 8 — Espectrograma de banda larga da sequência sonora aza.

As fricativas sonoras (Figura 8) apresentam uma mistura de impulsos


periódicos e de barulhos localizados na constrição. Não existe, contudo,
diferença na zona de concentração de energia, aparte a presença da
barra de vozeamento e um aumento de intensidade nas regiões de

128
frequência mais baixas, entre fricativas vozeadas e fricativas não-
vozeadas.

Do ponto de vista da sua produção, as fricativas não-vozeadas porque


são produzidas com maior energia muscular e com um fluxo de ar mais
forte, habitualmente são mais visíveis no espectrograma do que as
fricativas vozeadas.

A localização da energia acústica disponibiliza informação suficiente para


identificar o ponto de articulação das fricativas.

Apesar de. na produção de constrição, menor será a gama de frequência onde a energia se concentra,
destas consoantes, existir ocorrendo em zonas de frequência elevada.
uma aproximação dos
articuladores, não é o
suficiente para causar um
Assim, no caso das fricativas labiodentais, em que a dimensão da cavidade após a
fluxo de ar turbulento. constrição é praticamente inexistente, a energia encontra-se difundida (cf. Figura 9
- Espectrograma da esquerda) por uma gama de frequência larga, partindo de zonas
de baixa frequência. O mesmo não acontece com as fricativas palatais, nas quais a
cavidade formada à frente da obstrução é maior, causando uma concentração de
energia na zona de frequência mais alta do espectrograma (cf. Figura 9 —
Espectrograma da direita).
Tempo (s)

Tempo afa assa acha

Líquidas
Figura 9 —
Espectr As consoantes líquidas estão, do ponto de vista da articulação, muito
ograma próximas das vogais e, por essa razão, partilham com as vogais algumas
s de propriedades acústicas, concretamente o facto de serem muito ressoantes, de
banda apresentarem uma estrutura formancial, de serem sons contínuos sem
larga constrições significativas, não apresentando, por conseguinte, turbulência 4 .
das
sequên
cias
sonoras
ala,
assa e
acha.

A fonte de ruído é
modificada pela
cavidade formada à
frente da zona de
constrição, com
repercussões naturais
nas características
acústicas destes sons.
Quanto maior for a

129
Tempo (s) Tempo (s) ala

Figura 10 — Espectrogramas de banda larga das sequências sonoras ala e alha.

Nos espectrogramas da Figura IO, detectamos a presença de uma


estrutura formancial na imagem acústica das duas consoantes
líquidas laterais, embora não seja visualmente tão evidente como a
das vogais. Estas consoantes caracterizam-se, assim, por um período
de padrões formanciais estáveis com transições para os sons
adjacentes.

O conjunto de propriedades acústicas diversas que estas consoantes


manifestam torna, por vezes, difícil a sua identificação e a sua
adequada caracterização. O mesmo sucede com as consoantes
líquidas vibrantes, que podemos observar na Figura 11.

130
Figura 11 — Espectrogråmas de banda larga das sequências sonoras ara e arraA primeira e imediata
observação que podemos fazer relativamente a estas consoantes prende-se com a duração de cada uma delas:
[ c I tem uma duração signficativamente menor do que [ R l. Tal deve-se à articulação de cada uma das
consoantes.

No espectrograma correspondente à produção de [ f l, verificamos que existe


uma diminuição da energia que se relaciona com o movimento rápido do
articulador, como se de um batimento se tratasse. Quanto a [ R l,
identificamos no espectrograma barras verticais que se devem à vibração da
parte posterior do corpo da língua, causada pela passagem do ar a grande
velocidade. Do mesmo modo como acontece na produção da vibrante
alveolar, as barras verticais assinalam o movimento vibratório do corpo da
língua, assemelhando-se a uma sequência de batimentos.

Leituras complementares

Johnson, K.,
1997 Acoustic and auditoryphonetics. Oxford: Blackwell Publishers.

Lieberman, P. & S. Blumstein,


1988 Speech Physiology, Speech Perception andAcoustic Phonetics. Cambridge:
Cambridge University Press.

Stevens, K.,
1998 Acoustic phonetics. London: The MIT Press.

Actividades

I. Os espectrogramas são gráficos que representam características acústicas


dos sons da fala num contínuo temporal. Existe, por conseguinte, uma
relação entre articulação de sons e as imagens do espectrograma que é
visível, por exemplo, nos sons fricativos. Apresente outros exemplos em que
esta relação seja clara.

2. Se tivesse que localizar uma vogal num espectrograma, que pistas acústicas
procuraria?

131
132
c.
Tempo (s)

Tempo (s)

8. Quais são as pistas acústicas indicadoras do ponto de articulação das


consoantes oclusivas vozeadas?

Sugestões de soluções para as actividades propostas

l. Esta relação é também evidente na produção das consoantes oclusivas.


Os principais momentos de articulação de uma oclusiva — momento de
oclusão e momento de explosão — são representados no espectrograma
através de um momento de silêncio (que corresponde visualmente a um
espaço em branco ou quase em branco) seguido de uma barra de
explosão (zona de curta duração mas com grande intensidade que
percorre verticalmente o espectrograma das baixas às altas frequências).

2. As principais pistas acústicas para a identificação das vogais são os


formantes.

3. As vogais posteriores acusticamente apresentam um primeiro


formante (parâmetro da altura do corpo da língua) baixo e um segundo
formante (posição do dorso da língua) igualmente baixo.

133
134
4.5 Propriedades acústicas suprassegmentais dos sons da fala

Objectivos e resumo

Após estudo atento desta secção, o aluno estará em condições de:


identificar as propriedades acústicas suprassegmentais;

reconhecer as principais componentes da análise suprassegmental;

compreender o conceito de prosódia;

definir tom e entoação;

distinguir línguas tonais de línguas entoacionais;

caracterizar, em termos gerais, a proeminência ao nível lexical e ao


nível frásico em português europeu;

compreender a noção de ritmo;

reconhecer os parâmetros acústicos que contribuem para a


sensação auditiva de ritmo na fala;

distinguir entre línguas de ritmo acentual e línguas de ritmo silábico;

classificar o português europeu e o português do Brasil em relação ao


ritmo;

caracterizar o uso linguístico da entoação em português europeu; ler

e descrever contornos entoacionais;

associar contornos entoacionais a tipos de frase;

identificar elementos em foco contrastivo numa frase;

compreender o papel da prosódia na resolução de


ambiguidades sintácticas.

135
136
Por informação
exemplo. uma acústica que permite modificar o significado da frase (ou do
vogal na posição de
enunciado).
núcleo de sílaba
acentuada terá uma
As principais
duração maior do propriedades acústicas suprassegmentais são a duração, a
que intensidade
a mesma vogal.e a frequência fundamental (cf. Capítulo 4, secção 4. I).
produzida com
velocidade de
Pretende-se,
elocuçào idêntica. nesta secção, descrever sinteticamente como estas propriedades
numaacústicas, presentes no sinal de fala, se organizam e se combinam na
posiçäo näo
acentuada.
construção de significados na língua. Ao estudo da variação destas
propriedades acústicas atribuímos a designação de prosódia.

Estudos do nível
suprassegmental têm Duração
relatado variaçäo
sistemática e regular da
duraçño de vogais
acentuadas em palavras
A duração refere-se ao tempo de articulação de um som, de uma sílaba ou de
que se encontram em um enunciado, estando associada a uma das características mais
posição final de frase (cf. proeminentes do sinal de fala: o ritmo. A duração depende da velocidade de
para o PE, Falé. 1997) e
em palavras sobre as quais elocução da produção, pois uma velocidade de elocução mais rápida tem

como resultado inevitável a diminuição da duração dos segmentos elou das


sílabas e viceversa.
incide marcaçäo prosódica.
nomeadamente foco
prosódico (cf., para o PE. Cada segmento fonético tem uma duração intrínseca, por isso, a diferentes
Viana, 1987; Frota, 1998). segmentos corresponderão diferentes durações. Esta duração intrínseca pode
Nas secções ser alterada em função da posição do segmento (ou conjunto de segmentos)
anteriores, na palavra' e na frase i .
observámos as
propriedades Embora seja um elemento presente e analisável no plano acústico-fonético, a
acústicas dos duração não tem, em PE, valor distintivo. Contrariamente, em línguas como
segmentos fonéticos o finlandês e o sueco, a duração é utilizada distintivamente, ou seja, existem
do português segmentos que contrastam entre si apenas pela diferente duração de uma das
europeu. Existem suas vogais. Esta distinção, baseada, na maior parte dos casos, na diferente
ainda outras duração de segmentos vocálicos, é idêntica à que existia em latim entre
características, vogais breves e vogais longas.
igualmente
relevantes na
produção de
significados, que
ocorrem em
unidades
constituídas por
conjuntos ou
sequências de
segmentos, que
designamos por
suprassegmentais.
Estas propriedades,
presentes no
contínuo sonoro em
simultâneo com as
propriedades
segmentais, não
alteram a qualidade
fonética segmental
mas acrescentam

137
Nas línguas tonais. os tons
Tom e Entoação
associam-se, na maior parte
dos casos, a sílabas e não a
segmentos fonéticos.
O tom corresponde à altura de voz com que um segmento fonético é
produzido, ou seja depende da vibração das cordas vocais e tem como
correlato acústico a frequência fundamental (ou FO). Uma sequência de
tons constitui um contorno tonal ou entoacional (ou entoação) que se
estende, habitualmente, por mais do que uma sílaba. A forma como o tom
é usado, do ponto de vista linguístico, varia de língua para língua.

As línguas são frequentemente divididas em dois grupos relativamente ao


uso linguístico que fazem do tom. Assim, em línguas, como, por exemplo,
o chinês ou o japonês, a variação de FO é utilizada distintivamente ao
nível lexical, sendo possível diferenciar palavras através do contraste de
tons* . Estas línguas são designadas por línguas tonais.

As línguas que, tal como o PE, utilizam sequências de tons (ou entoação)
como recurso linguístico para projectar diferentes significados linguísticos
ao nível frásico são designadas como entoacionais.

Note-se, contudo, que esta classificação das línguas face ao uso de tons
não é incontroversa, pois nas línguas ditas tonais também se verificam
contrastes entoacionais para distinguir, por exemplo, frases interrogativas
de frases declarativas. Portanto, parece claro que a classificação em
Em alguns textos é
línguas tonais e entoacionais não deve ser considerada mutuamente
inclusivamente designada
exclusiva. por proeminência relativa.

Como veremos em
Proeminência detalhe mais adiante.

Alguns autores sugerem


Um dos conceitos que não podemos deixar de referir quando falamos de uma terceira classe rítmica:
características prosódicas é o de proeminência. Os elementos de maior línguas de ritmo moraico,
proeminência auditiva são o resultado de um aumento dos valores das (Port, Dalby & O'De11,
1987).
propriedades acústicas prosódicas (sobretudo da intensidade e da
Ritmo
duração), tornando-os mais salientes no contínuo sonoro. A proeminência
é sempre definida por comparação, tratando-se de um fenómeno de
natureza relativa4 . O ritmo da língua,
um dos principais
A título de exemplo, em PE, a proeminência relativa tem expressão quer componentes da
ao nível da palavra, sendo a sua sílaba mais proeminente a que detém o análise prosódica,
acento de palavra, quer ao nível da frase (ou enunciador , permitindo é, naturalmente,
destacar unidades com informação nova para a situação discursiva. determinado pelos
padrões de
proeminência do
contínuo sonoro
que, por sua vez,

138
dependem da variação das propriedades acústicas prosódicas: duração, A classificação das
intensidade e frequência fundamental. línguas
relativamente à sua
Apesar de depender de elementos de natureza acústica, o ritmo não é uma
organização rítmica
propriedade dos sinais físicos. Na verdade, é o cérebro humano o
foi apresentada por
responsável pela percepção de determinadas características físicas,
Pike (1945) e
organizando-as em padrões rítmicos. Todavia, falar de ritmo implica,
Abercrombie (1967)
necessariamente, uma interpretação dos dados acústicos bem como um
que propuseram que
processo de organização (construção) dos mesmos num padrão.
as línguas se
A noção de ritmo está inevitavelmente associada à repetição de um evento dividissem em duas
num período de tempo. No fundo, trata-se da repetição de uma mesma grandes categorias:
categoria de eventos cuja distribuição temporal é de natureza regular. as línguas de ritmo
acentual, nas quais
os acentos têm
tendência para
ocorrer em
intervalos de tempo
iguais, e as línguas
de ritmo silábic06 ,
nas quais cada
sflaba tende a ter
uma duração
equivalente.
Inicialmente
delineada para
funcionar em
dicotomia exclusiva,
esta classificação
demonstrou ser
insuficiente para
caracterizar as
línguas, tendo sido
alvo de propostas
diversas de
alteração. A
insatisfação decoreu
da dificuldade em
definir critérios
rigorosos para
atribuir uma língua
a um dos dois tipos
de ritmo, pois
algumas línguas
revelam
comportamentos
rítmicos mistos. Esta observação levou a que alguns investigadores s
optassem por considerar que o ritmo das línguas se pode classificar e
de acordo com um contínuo de uma escala (cf., por exemplo, Dauer, r
1983). Em cada um dos pontos extremos desta escala, encontrar-se- á
iam as línguas de ritmo acentual inequívoco e as línguas de ritmo
silábico inequívoco, respectivamente. As línguas passaram, assim, a p
ser classificadas em função da maior proximidade/afastamento a e
cada um dos extremos da escala. r
A classificação rítmica das línguas assenta num conjunto de c
critérios fonéticos e fonológicos de natureza variada como, por e
exemplo, a qualidade das vogais, a duração e a estrutura das p
sílabas, o acento e a entoação.
No que se refere a esta classificação, o português europeu tem sido,
tradicionalmente, referido como uma língua de ritmo acentual,
sendo o português do Brasil descrito como uma língua de ritmo
misto. Mais recentemente, Frota & Vigário (1999), apoiando-se em
dados de natureza acústica, sugerem uma aproximação do PE a
línguas de ritmo acentual,

posicionando o PB no ponto oposto,


junto das línguas de ritmo silábico. Estas
autoras relacionam esta distinção
rítmica entre PE e PB com a quantidade
de espaço vocálico e com a duração dos
intervalos consonânticos (intervalos
temporais entre consoantes).

Aspectos da prosódia do PE

Acento de palavra

Ao nível lexical, a propriedade prosódica


mais relevante em PE é o acento de
palavra, caracterizado acusticamente
por um aumento de intensidade
(energia) e de duração da vogal
acentuada. A sensação auditiva de
acento de palavra relaciona-se com a
vogal que, num contexto de sucessão
de segmentos, de sílabas ou de palavras

140
vo, sendo possível diferenciar frases com o
mesmo conteúdo segmental apenas através da
entoação que lhes está associada. Vejam-se, por
exemplo, as frases I -3, representadas nos
contornos entoacionais nas figuras 1-3.

l. O golfinho saltou por cima da rede.


2. O golfinho saltou por cima da rede?
3. O golfinho saltou por cima da rede! O golfinho

1.383"

Figura 3 — Traçado de
FO
etiquetado
da frase "0
por golfinho
O golfinho saltou
cirna da rede saltou por
cima da
rede! "
Tempo (s) 209524
As frases I a 3, tal
como já foi
Figura 1 — Traçado de FO etiquetado da referido,
frase "O golfinho saltou por diferem
cima da rede.'
apenas no
Hz contorno
entoacional
que lhes
está
O golfinho saltou cama da rede associado.
t.74741
O contorno
Tempo (s) entoacional da
frase I (Figura l)
Figura 2 — Traçado de FO etiquetado da frase corresponde à
"O golfinho saltou por cima produção de uma
frase declarativa
simples, o da frase
2 (Figura 2) a uma
frase interrogativa
global e o da frase
3 (Figura 3) a uma
frase exclamativa.
Em seguida, e de forma sumária, serão salientados os aspectos mais
importantes destes contornos.

Na figura 1 está representado o contorno entoacional etiquetado da frase


declarativa O golfinho saltou por cima da rede. A evolução de FO desta frase
segue o padrão entoacional das declarativas simples descrito para o português
(Viana, 1987; Frota, 1991 ; Falé, 1995, entre outros). Neste padrão, podemos
identificar três momentos principais: o ataque da frase, caracterizado por uma

142
subida de valores de FO para a primeira sílaba acentuada da frase (ou para sílabas adjacentes); o
final, que apresenta uma queda abrupta dos valores de FO na última sílaba acentuada da frase
(continuando nas silabas pós-tónicas); e a parte medial da frase, onde se observa uma plataforma
estável descendente.

O padrão entoacional da interrogativa global, representado na Figura 2, é, tal como se pode observar,
diferente do descrito para a declarativa simples. Na interrogativa global, os valores de FO na posição
de ataque de frase são, de um modo geral e ao longo de toda a frase, mais elevados (comparem-se os
valores de FO, através da consulta da escala em abcissa, das duas frases) do que na declarativa
simples. Semelhante é o facto de se registar uma subida dos valores de FO para as primeiras sílabas
da frase, seguindo-se-lhe uma descida progressiva até à vogal pré-tónica, tornando-se abrupta desta
para a tónica final. Contrariamente ao que acontece nas declarativas, este movimento de FO final nas
interrogativas globais é seguido por uma subida para a vogal pós-tónica.

No que se refere à frase exclamativa (Figura 3), não se verifica uma evolução de FO
descendente até à última vogal tónica da frase (após o ataque frásico). Pelo contrário, a
frequência fundamental baixa abruptamente depois do ataque para, em seguida, iniciar um
movimento ascendente que termina na última vogal tónica da frase. Isto faz com que os
valores médios de FO observados no decorrer da frase sejam mais elevados do que nas
outras frases anteriormente descritas.
Embora não haja trabalho sistemático sobre a entoação das exclamativas em PE, as descrições que
surgem na literatura, sobre estas frases, apontam no mesmo sentido daquela que aqui apresentamos.

Por fim, apresenta-se o contorno entoacional de frases interrogativas Q, assim referidas pela presença
do pronome interrogativo. Um exemplo deste tipo de frase encontra-se na Figura 4.

Figura 4 — Traçado de FO etiquetado da frase "Quem saltou por cima da


rede ? „

Sob As letras maiúsculas indicam os elementos prosodicamcnte proeminentes na frase (ou


re foco enunciado).
prosódico Como se pode observar, a frase representada na Figura 4 tem um ataque de FO
em
com um valor muito elevado (acima dos 300 Hz). A frequência fundamental
mantém-se elevada no início da frase, começando o
seu caminho descendente a meio da frase, onde se
observam valores de FO idênticos aos registados
para as declarativas simples.

Quer o movimento de descida abrupta final,


que caracteriza as frases declarativas, quer a
subida final, que caracteriza as interrogativas
globais são considerados, por alguns autores,
Temxs (s) propriedades universais da entoação,
português encontrando-se em todas as línguas (cf., entre
europeu,
outros, Ladd, 1996). Para além de serem indicadores do tipo de frase,
são-lhes também atribuídas características de natureza discursiva,
estando associado à subida final a ideia de continuidade e à descida final
o significado de finalidade.

aconselha-se a leitura de Os contornos entoacionais aqui sumariamente apresentados referem-se a


Frota (1998). produções preparadas. A análise de fala espontânea, aqui não contemplada, revela,
todavia, a existência de grande variação nos contornos entoacionais e nas
propriedades prosódicas. A propósito deste assunto, e sobre o PE, aconselha-se a
leitura dos trabalhos de Mata ( 1990, 1999).

143
Foco interlocutores) de informação nova que está a ser acrescentada à situação discursiva.
A informação nova é, habitualmente, designada por foco da frase ou do enunciado,
A prosódia é utilizada podendo ser prosodicamente mais proeminente.
pelos falantes como
Embora o conceito de foco seja essencialmente semântico, recruta, muitas vezes,
um recurso
propriedades acústicas prosódicas para a sua realização fonética.
importante na
definição da estrutura Para uma melhor compreensão do conceito de foc0 7 , imagine-se a seguinte situação
informacional das discursiva entre dois interlocutores, A e B:
frases, permitindo
separar • O interlocutor A diz ao interlocutor B:
informação já "Os miúdos comeram os chocolates '
dada (portanto, do • O interlocutor B sabe que a afirmação de A é falsa e que os miúdos comeram
conhecimento dos bolos e não chocolates e responde:
"Os miúdos comeram OS BOLOS" s

O sintagma nominal os bolos constitui, nesta interacção discursiva, a informação


nova que é produzida com contraste prosódico.

Na frase declarativa, representada na Figura 5, o verbo encontra-se destacado,


como se pode verificar pela comparação deste traçado com o das frases
declarativas simples (Figura I). Esta alteração do contorno de FO é,
frequentemente, acompanhada por um aumento da intensidade e da duração do
elemento em destaque.

Tempo (s)
1.71585

Figura 5 — Traçado de FO etiquetado


da frase "O
golfinho
SALTOU por
cima da rede."
da
O golfinho
rede

Qualquer elemento de uma


frase pode ser destacado
recorrendo a esta estratégia.
Assim, e tendo em atenção a frase
que estamos a dar como exemplo, podemos ter os seguintes elementos em
destaque (cf., entre outros, Mateus et alii, 1983, capítulo 10.7):

• O GOLFINHO saltou por cima da rede.


• O golfinho SALTOU por cima da rede. (cf. Figura 5)
• O golfinho saltou POR CIMA da rede.
• O golfinho saltou por cima DA REDE.

Resolução de ambiguidades

Como vimos até ao momento, podemos utilizar as propriedades prosódicas para


produzir diferentes tipos de frase e para destacar elementos na frase. A prosódia

144
desempenha também um papel de especial relevo na interacção com outros níveis de
análise gramatical, como por exemplo a sintaxe (e a semântica,

145
como vimos atrás relativamente ao foco). Da complexa relação entre sintaxe
e prosódia, abordaremos somente um dos aspectos mais referidos na
literatura que consiste na contribuição da prosódia para a resolução de
ambiguidades sintácticas, como aquela que podemos observar na frase
abaixo:

O miúdo viu o irmão do professor que tem bigode.

Esta frase, segmentalmente idêntica, tem duas leituras semânticas possíveis:

1. O irmão do professor tem bigode. (Figura 6)

2. O professor tem bigode. (Figura 7)

Reside nas propriedades prosódicas, disponíveis na oralidade, a informação


necessária para determinar o significado adequado que está a ser veiculado
pela frase, agrupando diferentemente os constituintes da frase, tal como
podemos verificar através da observação e comparação das figuras 6 e 7.

O miúdo o irmao do professor ue tem bigode

2,74746
Tempo (s)

Figura 6 — Traçado de FO etiquetado da frase "O miúdo viu o irmão do


pwfessor que tem bigode." — leitura l.

do tem

Figura 7 — Traçado de FO etiquetado da frase "O miúdo viu o irmão do


professor que tem bigode." — leitura 2.

No início do traçado de FO da Figura 6 observa-se uma evolução de FO


semelhante à que encontramos nas frases declarativas simples com valores de
FO elevados no início, descendo progressivamente até à palavra professor.
Neste ponto, ocorre uma ruptura prosódica (isto é, uma quebra do normal
percurso do contorno entoacional esperado para uma declarativa simples) que
se caracteriza pelos valores de FO em suspensão na palavra pmfessor (note-se
que ainda não estamos no fim da frase), pela ocorrência de uma pausa
imediatamente a seguir e pela retoma de valores elevados de FO na sequência
que tem bigode. Este traçado torna evidente que existe uma coesão na
sequência irmão do professor, permitindo agrupar, do ponto de vista
prosódico, as sequências da frase em duas partes: O miúdo viu o irmão do
professor/ que tem bigode. Esta divisão aponta para a leitura semântica l, na
qual a oração relativa (que tem bigode) depende do sintagma nominal
complexo (o irmão do professor).

Quanto à Figura 7, observa-se uma ruptura prosódica importante a seguir a


irmão que se caracteriza por variação de FO de grande amplitude (visível no
traçado), pela presença de uma pausa imediatamente a seguir e pela retoma
dos valores de FO após a pausa. Neste caso, existe maior coesão prosódica na
sequência do professor que tem bigode. Do mesmo modo que a anterior
representação, esta permite diferenciar duas partes da frase, do ponto de vista
prosódico: O miúdo viu o irmão / do professor que tem bigode. Esta divisão
aponta para a leitura semântica 2, na qual a oração relativa (que tem bigode)
depende do sintagma nominal simples (o pmfessor).

Como tivemos oportunidade de verificar, a informação prosódica cumpre


funções importantes no âmbito da veiculação de diferentes significados na
língua. A variação desta informação prosódica não é assistemática e
aleatória, como se poderia pensar à primeira vista, apresentando-se em
padrões regulares de utilização que funcionam como recurso linguístico
disponível.

Para terminar, saliente-se que a variação prosódica não se restringe apenas a


funções linguísticas, sendo possível identificar variação regular das
propriedades prosódicas ao serviço da manifestação e da expressão de
estados de espírito e de emoções.

Leituras complementares

Ladd, R.,
1996 Intonationalphonology. Cambridge: Cambridge University Press.

Ladefoged, P.,
2001 A Course in Phonetics. 4th edition. New York: Harcourt Brace
Publishers.

Viana, M. C.,
1987 Para a síntese da entoação do português. Dissertação de Carreira de
Investigação, Universidade de Lisboa.

Actividades

1. Quais são as principais propriedades acústicas suprassegmentais?

2. Assinale com V(erdadeiro) ou F(also) as seguintes afirmações e proponha a


correçäo para as afirmações falsas.

a. A duração segmental em PE tem um papel distintivo.

b. Cada segmento tem uma duração intrínseca, mantendo-se estável em


todas as posições em que ocorre.

147
c. Tom e entoação, embora dependam ambos da vibração das cordas
vocais, são conceitos diferentes.

d. Nas línguas tonais, os tons são responsáveis por contrastes lexicais.

e. A duração e a intensidade são as únicas responsáveis pela sensação


auditiva de ritmo de uma língua.

f. As línguas de ritmo acentual caracterizam-se por utilizarem muitos


acentos de palavra.

g. O foco prosódico realiza-se, habitualmente com variação de FO


acentuada, aumento de intensidade e da duração da sílaba tónica da
palavra em destaque.

h. O acento de palavra em PE não é, no plano fonético, um traço


distintivo.

150
149
Sugestões de soluções para as actividades propostas

l. As principais propriedades acústicas suprassegmentais são: a duração, a

intensidade e a frequência fundamental.

3.

a. Falso. Em PE, a duração segmental não permite contrastes


significativos.

b. Falso. A duração de cada segmento é sensível à posição que o mesmo


ocupa quer na palavra quer na frase.

c. Verdadeiro.
d. Verdadeiro.

e. Falso. A sensação auditiva de ritmo de uma língua resulta de um


conjunto de factores como, por exemplo, a qualidade das vogais, a
estrutura e duração das sílabas, os acentos entoacionais, entre outros.

f. Falso. A classificação de língua acentual refere-se ao facto de os


acentos terem tendência para ocorrer em intervalos de tempo iguais.

g. Verdadeiro.
h. Verdadeiro.

4. Porque a proeminência de um elemento depende sempre da comparação


com os elementos presentes na palavra ou no enunciado: um elemento é
proeminente em relação a outro que se destaca menos.

5. Em PE, ao nível lexical a proeminência tem expressão no acento de


palavra.

6. O PE é uma língua de ritmo acentual.

7. A variação da frequência fundamental ao nível da frase permite-nos


distinguir entre diferentes tipos de frase.

152

8. A estratégia prosódica mais recorrente nestes casos consiste no diferente


agrupamento fonético dos constituintes sintácticos. Estes diferentes
agrupamentos podem ser marcados por rupturas prosódicas fortes, como
por exemplo, através da introdução de pausas ou de movimentos amplos
de FO.
9. O contorno entoacional de uma frase interrogativa global caracteriza-se
por ter valores de ataque iniciais mais elevados do que os ocorrem nas
frases declarativas simples. Em seguida, observa-se uma descida
progressiva de FO até à última vogal pré-tónica da frase, tornando-se
abrupta da pré-tónica para a tónica. Por fim, regista-se uma subida
acentuada da frequência fundamental para as vogais pós-tónicas.

IO. A Figura I representa uma declarativa simples em PE. O início


caracteriza-se por uma subida inicial de valores de FO, à qual se segue uma
descida para uma plataforma de FO estável até ao final da frase, onde se
regista um movimento de queda de FO. Este contorno entoacional evolui de
forma idêntica ao das descrições apresentadas para as frases declarativas
simples.

151
5. A fonologia segmental do
português europeu
5.1 Os segmentos

Objectivos e resumo

Pretende-se, na secção 5.1., que o aluno:

• apreenda a diferença entre some fonema, identifique fonemas a


partir de pares mínimos, distinga fonema de fone, alofone e
arquifonema e compreenda a natureza da neutralização de
fonemas;

• reconheça a variação linguística através de variantes livres e em


distribuição complementar. Observe a importância do contexto
de ocorrência. Distinga variação geográfica e social e reconheça
algumas características que diferenciam as variedades europeia e
brasileira do português;

• capte e interiorize o carácter abstracto do nível fonológico;

• identifique os segmentos fonológicos do português —vogais,


semivogais e consoantes — e observe a distribuição desses
segmentos;

• consiga desenvolver o raciocínio necessário para propor


segmentos fonológicos a partir de diferentes realizações
fonéticas;

• seja capaz de construir uma regra simplificada que


represente a realização fonética de um segmento
fonológico em determinado contexto.
Para permitir que sejam atingidos os objectivos indicados, apresentam-se
neste capítulo, na primeira parte, as definições estruturais de fonema, fone,
alofone e arquifonema e exemplificam-se estes conceitos. Discute—se depois
a variação linguística e as diferenças entre variedades e dialectos do
português. Em seguida, apresenta-se a distribuição das vogais, consoantes e
semivogais do português com base nos dados empíricos. A partir da análise
dos dados, propõe-se o método de estabelecimento dos segmentos abstractos
subjacentes (fonológicos) discutindo-se, com esse fim, a natureza das vogais
nasais, das semivogais e de certas consoantes. O capítulo termina com a
construção de uma regra simplificada que representa a realização fonética de
um segmento fonológico.
Esta secção em que se apresentam os métodos e técnicas da linguística estrutural com
• T
r exemplificação no portuguës deve Ser estudada tendo presente o que se diz em 1.1.
u Como dissemos em 2.3.1., os linguistas que desenvolveram a fonologia
b
e
estrutural nas primeiras décadas do século XX apresentavam a fonologia
t como o estudo que "deve procurar que diferenças fónicas estão ligadas, na
z língua estudada, a diferenças de significação" 1 e preocupavam-se com o
k
o estabelecimento dos seus sistemas fonológicos, procurando as relações entre
i fonemas.Com este fim criaram uma metodologia e uma técnica que
,
permitiam trabalhar com rigor na análise das línguas, e propuseram a
1 existência de um nível abstracto: o nível fonológico. Os conceitos e a
9 terminologia que apresentamos na primeira parte deste capítulo estão
4
9 ligados à linguística estmtural.
:
1 Na parte final do capítulo introduz-se um conceito diferente de nível
2
.
fonológico — o nível subjacente que se relaciona com o nível fonético
através de regras. Este conceito assenta na teoria generativa hoje designada
I como clássica. A unidade mínima que corresponde ao fonema da fonologia
t
á
estrutural é denominada segmento. O título deste capítulo está relacionado
l com o conceito de segmento da fonologia generativa.
i
c
o

n
o 5. I. I Fonemas, fones, alofones e arquifonemas
s
s
o Numa sequência sonora correspondente a uma palavra podem identificar-se
.
unidades que, substituídas por outras, provocam alteração de significado.
Estas unidades são denominadas fonemas em linguística estrutura1 2 . No par
de palavras bela [bélel / bola [b51el, por exemplo, as vogais abertas [e] e [o]
do nível fonético correspondem a fonemas do português. A identificação dos
diferentes fonemas de uma língua faz-se, assim, por comparação entre
palavras que se encontram 'em oposição distintiva' porque, ao diferirem

159
apenas significado. Pelo facto de os fonemas serem elementos fonológicos que
num som, distinguem palavras denominam-se unidades distintivas, representando-se
diferem convencionalmente entre barras oblíquas (//). Os pares de palavras que
também Aservem para determinar estas unidades são os pares mínimos. Utilizando
no este método, podemos identificar os fonemas de uma língua.

Um conjunto de fonemas que possuem propriedades comuns como as


consoantes denomina-se classe natural. A classe natural das consoantes
pode ainda dividir-se, por exemplo, nas classes naturais das consoantes
oclusivas (/b, d, g, p, t, W), fricativas (lv, z, 3, f, s, J/), vibrantes Ur, R/) ou
laterais (II, Kl). As oclusivas e as fricativas constituem, em conjunto, a
classe das obstruintes.

constituição do inventário dos fonemas das línguas e o estudo da sua


o
organização em sistema iniciou-se e desenvolveu-se com a linguística
estrutural, como se disse em 5. I. Neste modelo, cada elemento do nível
fonológico tem correspondência numa realização do nível fonético, ou seja, a
relação estabelecida entre um fonema e a sua realização fonética é biunívoca.
Nesta perspectiva, portanto, não se inserem ou suprimem fonemas entre o
nível fonológico e o fonético.
Tendo em atenção que as realizações fonéticas de um único fonema podem
apresentar algumas diferenças entre si, o estruturalismo europeu pôs em
relevo carácter abstracto desses elementos fonológicos.

As realizações fonéticas dos fonemas são os fones. Por exemplo, o fonema


(b/ realiza-se como [b] em boi [bój], o fonema /a/ realiza-se como [a] em pai
[páj]. Os fones que correspondem a um mesmo fonema denominam-se
variantes ou alofones. Por exemplo, o fonema Ia/ realiza-se como [a] em
parto [pártu] e como [g] em partir [pertír]. Quando as variantes distinguem
sociolectos (usos da língua caracterizados socialmente), dialectos (usos da
língua caracterizados geograficamente) ou idiolectos (usos da língua
caracterizadores de um indivíduo), podem ser designadas como variantes
livres, embora seja possível, em certas circunstâncias, determinar os seus
o contextos de ocorrência. Assim, o fonema (s/ da palavra passo pronuncia-se
em certos dialectos portugueses com uma dental [sl (Ipásul) enquanto em
outros dialectos se pronuncia como uma ápico-alveolar ([pásu])3 .

Se, pelo contrário, as variantes ocorrerem sistematicamente em contextos


diferentes, diz-se que estão em distribuição complementar e denominam-se
variantes combinatórias. No português europeu (PE) e no português
brasileiro (PB)4 , o ,11/ pronuncia-se como dental, [I], antes de vogal, como
por exemplo em lado [ládu]. Porém, antes de outra consoante ou em fim de
palavra, II/ pronuncia-se velarizado (representado por B]) em português
europeu (salsa [sá}spl ou mal [má+] i ), e em português brasileiro como

160
semivogal ([w]) caso considera-se que existe um segmento abstracto que reúne os três
([sáwse], [máw]). fonemas e que se denomina arquifonema. O arquifonema representa-se por
As realizações uma letra maiúscula, /S/, e constitui uma neutralização entre fonemas, ou
fonéticas [II no PE
A pronúncia destas consoantes distingue-se pelo ponto de articulação: o ápice da língua
e no PB,
aproxima-se dos dentes no Isl e no [z] dentais. e dos alvéolos no e no [z] ápico-alveolares.
determinadas
exclusivamente
pelos contextos
atrás indicados,
são variantes
combinatórias do 4
Nos capítulos de fonologia 0 português europeu e o português brasileiro serào frequentemente
fonema II/ e estão, referidos em abreviatura, respectivamente PE e PB.
portanto, em
distribuição
complementar.
Na pronúncia do velarizado. a parte posterior do corpo da língua levanta-se em direcção ao
Deve contudo véu palatino.
notar-se que
diferentes fonemas
podem coincidir t
' A cohsoante /J/ é uma con• soante palatal, na pronúncia da qual o dorso da língua se eleva em
ao nível fonético direcçåo ao palato.
por serem
condicionados
foneticamente A diferente grafia destas duas palavras corresponde a uma diferença fonológica e
morfológica: o plural de paz (pazes [púzif]) mostra que o radical da palavra contém o fonema /z/;
pelos sons que os a pa• lavra pás é o plural de pá e, portanto. é o sufixo do plural. /s/.
rodeiam. Por Ver. por exemplo. o processo do vocalismo átono em 5.3. l .
exemplo, se as
palavras asa [áze],
acha [áJe] e assa
[áspl apresentam
três sons que
correspondem a
três fonemas,
/z/, /S/6 e /s/,
porque distinguem
significados, esta
oposição não
existe em fim de
palavra, em que só
pode ocorrer o
som [J] (veja-se a
pronúncia idêntica
de paz [pá]l e pás
[páJ] 7 ). Neste

161
As transcriçöes Arquifonema
fonéticas de (15-(4)
são transcriçöes até
certo ponto abstractas,
que representam uma
'classe' dc realizaçòes
individuais, diferentes
em aspectos fonéticos
de pormenor que nä0 Fonemas
sio linguisticamente
relevantes.
seja, o
desaparecimento Habitualmente, as neutralizações e outros processos fonológicos 8 dão-se entre
da diferença fonemas que mantêm entre si algumas relações. Neste caso, trata-se de
distintiva entre fricativas com ponto de articulação muito próximo.
fonemas que, no
exemplo
apresentado, se
pode representar 5. I .2 Variantes e variações
do seguinte
modo: Todas as línguas possuem variação, quer se observe a sua evolução
no tempo quer se estude a sua realização no espaço. No que respeita à
realização de uma língua em diversas regiões (à sua distribuição
geográfica), deve pôr-se em relevo que as variedades nacionais
(correspondentes a diferentes países que falam uma única língua) e as
variedades regionais, ou dialectos, têm todas o mesmo estatuto
linguístico. Assim, o dialecto não é uma forma 'diferente' (e até
desprestigiada) de falar uma língua, mas é 'qualquer' forma de falar
uma língua conforme a região a que pertence o falante. Apresentam-
se a seguir algumas diferenças entre as variedades do português
europeu e brasileiro e entre os grandes grupos de dialectos
portugueses.

Português europeu (PE) e português brasileiro (PB)


Vejamos a representação fonética da mesma frase nas variedades portuguesa e
brasileira, com distinção de registos: formal (pausado) ou coloquial (rápido)9 :
''A Maria faltou ao teste de
psicologia" (I) [e meríe fa}tó aw
téSti di psiku1113íe]
(2) [e meríe fa+tó aw téJt d psiklu3íe]

162
(3) [a maríe pausado e silabado de PE (cf. (l)); a mesma vogal é suprimida no registo
fawtów aw coloquial (cf. (2)) e ocorre como [il no PB (cf. (3) e (4));
téßl d3i
(b) A vogal correspondente à grafia <0>, quando átona, manifesta-se como
pisik0103í
[u] em PE (cf. (I) e (2)) e como [o] no PB (cf. (3) e (4)); a vogal
el
ortografada <a> quando átona apresenta-se como IP] em PE e como [a]
(4) [a maríe em PB, excepto em posição final 12 ; o ditongo [ow] reduz-se à vogal [01
fawtó aw em PE e no registo coloquial de PB (cf. (I), (2) e (4)), e apenas se
téßl d3i manifesta na pronúncia pausada de PB (cf. (3));
pisik0103í
gl (c) A consoante correspondente à grafia na palavrafaltou é velarizada,
[+1, em PE (cf. (I) e (2)), e semivogal [w] em PB (cf. (3) e (4));
Estas quatro
transcrições da (d) As consoantes [tl e [d] seguidas de [i] tornam-se
mesma frase respectivamente [TI] e Id3i] 13 em PB (cf. (4));
distinguem-se por
representarem, de (e) O grupo de consoantes Ips] que não constitui em português um 'grupo
forma simplificada, próprio' (denominação tradicional atribuída a outros grupos como [br],
as seguintes [kl], ou seja, consoante oclusiva seguida de líquida 14 ), manifesta, no
pronúncias: registo coloquial do PB, a inserção de um [i] designado vogal
'epentética' 15 (cf.
(1) pausada (e
silabada)
em PE; (f) O gráfico ocorre como [f] antes de uma consoante não-sonora (e
em final de palavra) em PE e PB (cf. (l) - (4)).
(2) coloquial
em PE; As constatações acima feitas merecem algumas considerações em relação à
perspectiva estruturalista em que se enquadram.
(3) pausada (e
silabada) '0 As denominações tradicionais de 'tónica • e •átona• sào discutíveis por induzirem no conceito
errado de que existem vogais .com tom" e "sem tom". NO entanto. dado que essa terminologia é
em PB; habitualmente aceite, ela será utilizada nos capítulos de fonologia. do mesmo modo que
'acentuada' e 'nåo acentuada'. aplicando-se tanto às vogais como às sílabas em que se encontram.
(4) coloquial
em PB .
A vogal [il é uma vogal muito reduzida que corresponde ao shw•a em outras línguas e que. em
Analisemos em trabalhos tradicionais sobre 0 português, está representada pelo símbolo Em 5.2.3. encontra-se a
sua classificaçäo com traços distintivos.
pormenor as
diferenças na A vogal átona em posiçño final em PB é sem dúvida mais "audível" do que em PE. A sua
pronúncia das representação com o mesmo símbolo em PE e PB destina-se a estabelecer uma diferença. na
variante brasileira, entre a vogal em posiçäo final e nas restantes posições em que também não é
vogais tónicas e acentuada.
átonas 10 e nas
consoantes:
Estas consoantes denominam-se africadas e têm um início de consoante oclusiva, terminando
(a) A vogal átona em fricativa.

[i] ll só ocorre Sobre estas sequências de consoantes, ver a análise do ataque da sílaba em 6.2.3.
no registo

163
Sobre a inserçäo de 6.2.3.
uma vogal epentética
em português do Brasil,
ver também

Sobre supressão e inserçäo, ver 5.3.3.


(a) As vogais átonas que distinguem as duas variedades da língua (em português europeu, [i], [ul e [el
que correspondem, respectivamente, em português brasileiro a [OI e [a]) podem considerar-se
alofones dos mesmos fonemas visto que cada par (til / til; [u] / [o]; [el / [a]) corresponde a duas
realizações fonéticas do mesmo fonema. Contudo, a simples descrição dessas variantes não nos
permite explicar que se trata, em cada caso, de vogais relacionadas entre si. O mesmo sucede com
[tl antes de [il em PE e o seu alofone m] antes de [i] em PB. Veremos em 5.2. que são os traços
distintivos que vão permitir relacionar entre si as vogais desses pares.

(b) As variantes combinatórias em PE de [II antes de vogal e O] antes de consoante ou em fim de


palavra estão em distribuição complementar porque a sua realização fonética depende do contexto.
O mesmo se pode dizer em PB relativamente às realizações de [l] antes de vogal e [w] antes de
consoante ou em fim de palavra. Precisamos, portanto, do contexto de ocorrência para explicar a
realização destes dois alofones do fonema /I/. Veremos em 5.2.5. como se pode representar esta
realização dependente de contexto.

(c) A supressão das vogais [i] e [u] átonas em PE não pode ser explicada em fonologia estrutural, tal
como a insução, em PB, de [i] em psicologia [pisik0103íal, dado o carácter biunívoco da relação
entre os segmentos fonológicos e fonéticos.

A apresentação do processo do vocalismo átono (5.3.1.), dos processos pós-Iexicais (5.3.3) e


a consideração da unidade sílaba permite compreender a relação entre variantes e o
funcionamento de alguns fenómenos fonéticos como a supressão e a inserçä0 16

Os dialectos do PE

Os dialectos do português europeu não são muito distintos entre si embora permitam a identificação de
diferenças de pronúncia e de léxico. Essa aparente uniformidade fez com que, durante muito tempo se
considerasse o mirandês como o único dialecto do português, dadas as profundas diferenças que
apresenta em relação aos dialectos de Portugal. Na realidade, essas profundas diferenças devem-se ao
facto de o mirandês ser um dialecto de uma outra língua, o asturiano ou asturo-leonês, que tem
características distintas do português. A partir de 1997 0 mirandês foi considerado oficialmente uma
língua minoritária com estatuto reconhecido no território linguístico português.

No que respeita à distribuição dialectal do português europeu (sem referência (a) Os


ao mirandês por se tratar de uma outra língua), os dialectos podem agrupar-se dialectos
da seguinte formal 7 setentrion
ais,
caracteriz

164
ados pelo desaparecimento da oposição entre [bl e [VI e sua fusão como [u]
numa única consoante, realizada quer como [bl quer como [v] IS , (como
pela manutenção das fricativas ápico-alveolares e [701 19 em: doze,
(graficamente e como em saber, passo), pela conservação do d[ulze;
ditongo [owl (graficamente <OU>, como em pouco, soube), pela amor,
manutenção da oposição entre a africada m, (graficamente como am[u]r).
em chave, chama) e a fricativa palatal [J], (graficamente como em No
xaile, paxá). arquipélag
o
(b) Os dialectos centro-meridionais apresentam a substituição das madeirens
consoantes ápico-alveolares e [Z] pelas dentais [s] e [z], a redução e nota-se
do ditongo [ow] a [o] e a perda do segundo elemento do ditongo a
[ej] (como em leite, feira) reduzido a [e]20 realização
do [a]
(c) Os dialectos dos Açores e da Madeira exibem características
tónico por
específicas. No arquipélago açoriano, o dialecto micaelense
vezes
apresenta as vogais palatais [ti] a [ö] que correspondem,
como [01
respectivamente, a [u] e [o] noutros dialectos (como em uva, [ti]va;
(ex:casa, a
pouco, p[ölco; boi, piolho, pi[ö]lho) e a œalização de [o] tónico
substituiç

165
ão do [i] tónico por [tíj] (exs: ilha [éjllha, jardim, jard[ûjl) e a
realização de [l] como [K] quando precedido de [i] (cx: filetes,
fi[Kletes,).

No Mapa seguinte pode observar-se a divisão dialectal de Portugal de acordo


com a caracterização acima apresentada21
l
' Sobre a caracterização dos dialectos do português europeu. ver Cintra. 1971. Para mais detalhes. ver
Segura e Saramago. 2002. As diferençaS entre os dialectos portugueses sio basicamente de carácter
fonético.

Sempre que se considere necessário, indicam-se os sons entre parênteses rectos. I l. quando se trata da
sua pronúncia (ou seja, do nível fonético) e entre barras oblíquas. / se nos referimos a um elemento do
nível fonológico. comum aos vários dialectos e variedades.

Sobre a pronúncia destas consoantes, ver nota 3.

Na regiäo de Lisboa este ditongo conserva-se com a pronúncia

Este Mapa. da autoria de


Luísa Segura e João Saramago e baseado na divisio dialectal proposta por Lindley Cintra em 1971. foi
reproduzido de Caminhos do Português. catálogo da Exposição Comemorativa do Ano Europeu das
Línguas. organizaçäo de Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Biblioteca Nacional. 2001.

166
167
Como se observa no Mapa, os dialectos setentrionais agrupam-se em duas regiões: Trás os Montes
e Alto Minho, em que se conservaram as quatro consoantes fricativas com pronúncias distintas (as
ápico-alveolares sonora [Z] e näo-sonora que correspondem às grafias e as dentais sonora Iz] e não-
sonora [s], que correspondem às grafias e <ç>) e a região que engloba o Baixo Minho, o Douro
Litoral e a Beira Alta, que manteve apenas as fricativas ápico-alveolares.

Por sua vez, nos dialectos centro-meridionais notam-se também duas regiões: os dialectos do
Centro-LitoraI (Estremadura e parte das Beiras) conservam o ditongo [ej] e os do Centro-lnterior e
Sul, (Ribatejo, Beira Baixa, Alentejo e Algarve) reduzem este ditongo à vogal [e].

5. I .3 Identificação e distribuição dos sons

Até agora analisámos œalizaçöes fonéticas de fonemas na perspectiva estilltural. Também dissemos
que a relação biunívoca entre fonemas e fones, nessa perspectiva, não permitia compreender a
inserção e a supressão de segmentos. Para resolver este problema — e outros como, por exemplo, a
relação entre uma determinada realização fonética e o contexto que a determina — estabeleceu-se,
em linguística generativa, um nível subjacente, que é abstracto como o da fonologia estrutural mas
que se relaciona com o de superfície por meio de regras. É neste nível que se encontram os
segmentos fonológicos de cada língua organizados em sistema.

Para estabelecer o sistema fonológico de uma língua é necessário começar por observar os dados
fonéticos, determinando a sua identificação e distribuição. Assim, para o estabelecimento do
sistema fonológico do português torna-se indispensável procurar as realizações fonéticas que
correspondem a elementos do sistema e as que correspondem a variações desses elementos.
Utilizamos para esta identificação o método dos pares mínimos.

Em (5) — (7) estão incluídas palavras que se relacionam por grupos e em que ocorrem todas as
vogais (acentuadas ou tónicas e não acentuadas ou átonas) e todas as consoantes (em posição
inicial, medial e final) do português.
As transcrições incluídas nas transcriçöes duas variantes regulares resultantes do contexto fonético: a velarizaçüo do
fonéticas II/ em final de sílaba, representada por [II, e a palatalizaçäo da fricativa Isl em final de sílaba,
correspondem ao representada por [SI ou por [31 conforme a consoante que se segue (lJI se a consoante nåo for sonora
dialecto de Lisboa, e e [31 se a consoante for sonora). O acento de palavra nas transcriçöes fonéticas está colocado sobre a
na quase totalidade ao vogal. O alfabeto utilizado é o Alfabeto Fonético Internacional (AFI). palavras exemplificativas das
dialecto de Coimbra, vogais e consoantes do português coincidem. na sua maioria, com as apresentadas no capítulo 25 da
entendidos ambos Gramática da Língua Portuguesa.
como constituindo o
dialecto-pa• drào do
português europeu.
Supõe-se. para estas
transcriçöes fonéticas,
uma pronúncia
pausada, mas não
especialmente
cuidada. Estäo

168
-'Y As vogais átonas pós- lul mirar [mirárl selo [sélul (N) lii selar [silár] selo [sélu]
tónicas não finais não
podem ser determinadas a
partir de pares mínimos, por
(V) selar [silárl
nüo existirem no português
palavras que se distingam
apenas por esse segmento.
Assim, os exemplos de (c)
[é] telha [tlíKËl (dial. de Lisboa)
servem para indicar todas as
vogais que ocorrem nessa talha [táKel talhar [teKáf]
posiçäo.

A vogal lil pode encontrar-


se em posiçào final em [51 bola [b51e] [u] bolada
algumas palavras importadas
ou cultas como táxi Itáksil e

júri 13úril. sendo, no bola [bóle]


entanto. excepcional esta
ocorrência. [ú] bula [búle]
Vogais e
consoantes do
português europeu (c) Átonaspós-tónicas nãofinais23 (d) Átonas em posiçäofina124
(nível fonético)22 dívida [dívide]
(5) Vogais orais cómoda [k5mude] bato [bátu]
idólatra [id51etreJ bata [bátel
(a) Acentuadas
(b) lii ómega [5mtge] bate [báti]
Átonas
(6) Vogais nasais25
pré-
tónicas
(a) Acentuadas (b) Atonas pré-tónicas
[í] silo
cinto [sftul cintar [sïtác] sento [sétu] sentar [sëtár] canto [kátu]

cantar [kûtáf] mondo [módul mondar [mödárl

[sí

mundo [múdu] mundial [mûcliá}]

169
170
171
172
(7) Consoantes átonas Nào existem pós-tónicas. vogais A nasaisúnica
nasal átona em posiçäo fi-
(a) Iniciais nal, [li], está sempre incluída num ditongo, como em

[p] pala [pálu] bala [bále]pagem ou órfão(SrfÚiVl. [pú3Éjl, ditongo ditongoI e-jl,

tom dom [dó]

calo [kálul [g] galo [gálul fala [fálul

vala [válp] selo [sélu] [z] zelo [zélu]

[SI cha
[m] mata [mátu] [n] nata [nátu] lato [látul [R] rato IRátul

(b) Mediais
[Rípul [b] riba [Ríbul lato [látul

lado [Iádul

[k] rasca [Ráfke] [g] rasga [Rá3gu] estafa

[Stáfu] estava [Stávu] caça [ká.sp]

casa [kázu] acha [áSvl [3] haja

mala [málu] malha [máKP] gama

[géme] gana [géne]

[p] sanha [suou] [n] sana [sénul caro[káru]

carro [káRu]

(c) Finais mal

mar [mácl más

[máfl

Outras normas e possuem algumas vogais e consoantes que não se encontram incluídas nos grupos De entre elas

173
(a) e [CEI no Os grupos (5)-(7) incluem todas as vogais e consoantes do
português do Brasil (Cf.
5.1.2): português europeu que ocorrem no nível fonético do dialecto-
[PI. e nos dialectos
padrä026 .
setentrionais de Portugal
(ver a referência a estas
consoantes como
variantes dialectais em Semivogais (ou glides)
5.1. l); (c) a vibrante Irl que
se pronuncia com a coroa
da língua tocando várias As semivogais ou glides que se encontram no nível fonético do
vezes nos alvéolos e que
se encontra nos dialectos
português (representadas por [j] e [w], lïl e constituem, com as
do Norte de Portugal e em vogais que as antecedem, 'ditongos decrescentes'. As semivogais
alguns sociolectos (esta
Consoante está em fonéticas têm características idênticas às das vogais [i] e [111, [i] e
variaçäo livre com I RI. ou Itï], mas distinguem-se delas por terem uma pronúncia mais breve,
seja. nos dialectos em que
ocorre urna, nio ocorre a não poderem receber o acento de palavra nem constituírem núcleo
outra): (d) [ii], e ló l, no
dialecto de S. Miguel.
de sílaba. A existência de semivogais fonológicas tem sido muito
Açores. discutida27 . Em 5. I .4. propõe-se que apenas as semivogais que
ocorrem em ditongos decrescentes correspondam a semivogais no
nível fonológico, dado que somente nestes ditongos elas nunca
Sobre a natureza das
semivogais. ver também a
podem ser pronunciadas como vogais mesmo numa fala pausada. A
interpretaçäo ocorrência de vogal e semivogal no nível fonético está apresentada
estruturalista em Morais
Barbosa (1994). nos exemplos seguintes em que se incluem todos os ditongos
6.18. decrescentes do português europeu. Em ditongos nasais, as
semivogais são necessariamente nasalizadas.

(8)

(a) Semivogais orais

[íw] Niu

[éw] teu
[engl hotéis [éwl véu

[éjl [ewl
saudade
[áj] vai [áw] vau
[SJI dól

[ojl coitado
[uj] cuidado

174
Como se pode verificar, as semivogais constituem ditongos orais com todas as vogais,
excepto nos seguintes casos: Os ditongos [ej] e [ow] existem em
dialectos do português europeu diferentes do dialecto-padräo, e em dialectos
brasileiros.

(b) Semivogais nasais

mãe, bem [ÉW] mão

[ó] propõe
[ó] muito
Distribuição das vogais e consoantes (fonotáctica do português) [JI
encontra-se
No que respeita à distribuição fonética dos segmentos, observa-se
em final de
que: palavra,
(a) Todas as vogais orais podem ser acentuadas, excepto a vogal [i]. mas em fim
de sílaba28
(b) A vogal [il ocorre entre consoantes (C—C) e em fim de palavra depois de alterna com
consoante (C—#), mas nunca no início de palavra. Em fala coloquial, [3]
esta vogal é habitualmente suprimida. conforme a
(c) Em posição final não acentuada apenas se encontram três vogais, [el, lil sonoridade
da
consoante
(d) As vogais nasais são em menor número do que as orais e não que se lhe
ocorrem em sílaba pós-tónica, excepto nos ditongos de palavras segue (p.ex.
como viagem [viá31ûl, ditongo [tû], ou órgão [5rgñWl, ditongo [JI, näo-
[ñWl ou, ainda, nas terceiras pessoas do plural dos verbos, sonora29,
comofalem [fálûjl efalam [fálñWl. ocorre em
rasca [RáJ-
(e) O maior número de consoantes ocorre em posição medial.
ku] ou em
(f) As consoantes que se encontram em fim de palavra são apenas suspiro
[cl, [+] e [fl. No que respeita a estas consoantes, verifica-se que: [suJ-píru]
porque as
[f], além de terminar palavra ou sílaba, também pode iniciar silaba consoantes
(p.ex. par [párl / paro [pá-ru]); seguintes,
[k] e [p] são
Hl apenas se encontra em final de palavra ou de sílaba (p.ex.
não-
cal [ká+] e caldo [ká+-du]).
sonoras;
[3], sonora,

175
ocorre em rasga [Rá3-ge] ou em Lisboa [li3-bóËl porque [g] e médias
[bl são sonoras).
baixas a
(g) No grupo (8) encontram-se ditongos decrescentes formados por vogal e e o
semivogalN) 5.1.4 Como
0 limite de sílaba indicase aqui com um traço (-) mas pode indicar-se com 0 símbolo (S) ou com um estabelecer os
ponto segmentos
fonológicos
29
Ou vozeada, ver mento em 5.2.2,
O nível fonológico,
ou seja, o nível
30
Se a sequência tiver uma ordem contrária, ou seja, semivogal e vogal, constitui-se um subjacente das
ditongo crescente próprio de um registo coloquial rápido. Neste caso, a semivogal é pronunciada como
vogal na fala pausada, resultando daí uma sequencia de duas vogais e, portanto. a ocorrência de duas realizações
sílabas (exs: miúdo Imiúdu] / lmjúdul, piar Ipiáf / pjáfl). A sequência de duas vogais que não sejam fonéticas, é um nível
pronunciadas como ditongo crescente na fala coloquial é pouco frequente em português e denominase
hiato (ex. boa [bóel). abstracto, construído
(h) Nas sequências de consoantes devem distinguir-se: a partir (i) da análise
dos dados fonéticos
as consoantes que terminam sílaba e que, por isso, são seguidas de e da formulação de
outras sem constituírem, no entanto, um grupo (exs. carta, [r-t]; hipóteses para
remorso, [r-s]; marcha [r-J], pulso, [±-s], palra, ft-Rl; testa [S-t]; estabelecimento dos
molusco [S-k]); segmentos que
correspondem a
duas consoantes sucessivas que pertencem à mesma sílaba e que esses dados e (ii) da
formam um grupo próprio constituído, como se disse atrás, por uma análise e
consoante oclusiva e uma líquida (exs. encontm, [tc], sobre, [bf], claro, interpretação dos
[kl], plural, [pi]). processos a que estes
Finalmente, se estabelecermos uma comparação entre as vogais acentuadas segmentos estão
(tónicas) e as vogais não-acentuadas em três posições (pré-tónicas, pós-tónicas sujeitos.
e finais átonas), classificando-as como altas, médias e baixas, verificamos que
A formulação de
as vogais em posição acentuada são em maior número e distribuem-se pelas
hipóteses para o
três alturas, enquanto as vogais finais são as menos numerosas.
estabelecimento dos
elementos do
sistema fonológico
Quadro 1 baseia-se em
princípios
Tónicas Pré- e Pós-tónicas não finais Finais
metodológicos e na
observação das
altas u i u realizações
fonéticas.

As vogais

176
Vejamos em primeiro lugar como se estabelece o
sistema das vogais do português no nível
fonológico.

No caso de estarmos diante de vogais que


têm uma única realização fonética, os
segmentos fonológicos correspondem a
essa realização. Assim, podemos propor
as vogais /i/, /e/, /e/ /o/, k'/ e /u/ como
segmentos fonológicos visto que em
sflaba tónica têm uma única realização. Já
no que respeita a Ia/ e /p,/, ambos em
sílaba tónica (talha [táKe] e telha [ttíKe])
teremos que discutir se se trata de dois
segmentos fonológicos ou de um só. Se
for possível determinar os contextos em
que ocorre [el tónico, poderemos partir de
um segmento fonológico Ia/ e propor as
condições contextuais em que esse Ia/
passa a [R] mesmo que seja acentuado.
Vejamos os casos de ocorrência de [el
tónico que são exemplificados em
confronto com palavras em que essa
vogal está em sílaba átona.
(9) cama [klímul caminha [kerníJIR]

cana [kénel canavial [kuneviá+l

(10) lenha [ItáJIR] lenhador [liJIRdór]


[t15,Kpl
telha telhado [tiKádu]

fecho [féJul / [fé.jSul fechar [fiJárl

cereja [sirtí32]/ [siréj3el cerejeira [siri3éjrel

areia [préje] arenoso [erinózu]

Em (9) a vogal [R] tónica está seguida de


consoante nasal, e ocorre também como [el em
posição átona. Podemos, neste caso, dizer que
o Ia/ subjacente passa a [e] quando acentuado e
seguido de consoante nasal. A ocorrência de
neste caso é, portanto, dependente do contexto.

177
Uma forma extremamente simplificada de indicar
esta realização do segmento fonológico Ia/ é a
seguinte:
(11)
Ia/c
+ aCnasal

Como se disse atrás, esta No dialecto-padräo, o 'e/ não acentuado também se realiza como antes da semivogal [j] (p.ex. leitaria
é uma pronúncia da vogal (IBjtecípl). Ver, a este respeito, 5.3.3.
no dialecto de Lisboa. Esta regra simplificada indica, depois da barra ( / ), o contexto em que ocorre
a vogal sobre que se aplica a regra (precede uma consoante nasal). Os
parênteses rectos indicam a informação pertinente relativa ao segmento (a
vogal é acentuada e a consoante é nasal).
Por outro lado, esta regra de elevação do Ia/ actua depois da aplicação do
acento e por isso se indica que a vogal Ia/ é acentuada ([+ac]).
Observemos agora a ocorrência de [e] tónico nos exemplos de (10) 31 , no
sentido de determinarmos se ele deve ser considerado fonológico ou resulta
da aplicação de alguma regra sobre um segmento de base.

Os exemplos mostram que a vogal tónica [u] se manifesta [i] quando átona
(p.ex. telha [téKB] / telhado ItiKédu]). Logo, pode tratar-se das vogais /e/ ou /
e/ em forma subjacente, visto que são estas vogais que sempre passam a [i]
quando não acentuadas (p.ex. selo [sélu] ou selo [sélu] / selar [siláfl).
Vejamos então se as condições de contexto dessas possíveis vogais /e/ ou /e/
nos exemplos de (IO) explicam o facto de se manifestarem como [B] em
sílaba tónica.

As consoantes que se seguem ao [e] nos exemplos apresentados são as


palatais IP], [Kl, [S] e [31. Se propusermos que as vogais acentuadas /e/ ou
/e/ subjacentes passam a [v] quando seguidas de consoante palatal, teremos as
formas correctas de (10).

Mas essa regra não se aplica a palavras como velha [véle], Tejo [té3ul, mecha
[méSe] em que o [e] ocorre no nível fonético mesmo seguido de consoante
palatal. Podemos então admitir a hipótese de que em velha, Tejo, mecha

temos um /e/ subjacente e em lenha, telha ou fecho temos um /e/ subjacente.


Se assim for, o [BI tónico deriva de um /e/ seguido de consoante palatal, e
não de um (el. Na realidade no dialecto de Lisboa nunca se encontra [e]

178
Por outro lado, também não se encontra a sequência [ej1 32. A realização dele/ como [p,]
palavras como areia nestes dois contextos entende-se por a semivogal Li] ser palatal como as
[eréjel permitem consoantes de lenha, telha efecho.
formular a mesma
Em conclusão, podemos propor uma única vogal subjacente, /a/, para estas
hipótese (/e/ —+
duas realizações visto que é possível obter a partir de um contexto particular.
antes de semivogal
Sendo assim, e porque a vogal [i] é sempre resultante de /e/ ou /e/ em sílaba
Li], visto que no
átona, o sistema de vogais orais do português é constituído por sete vogais:
dialecto de Lisboa
Vogais nasais

Vejamos agora o que se passa com as vogais nasais.


Serão elas segmentos fonológicos? Ou haverá outra
explicação para estas realizações fonéticas?

Se propusermos as vogais nasais como


segmentos fonológicos teremos
dificuldade em explicar a relação
existente entre duas palavras como irmão
e irmanar em que uma contém uma vogal
nasal (V] e a outra contém uma consoante
[n] sem nasalização da vogal.

Se, em vez disso, propusermos que as


vogais nasais são, no nível fonológico,
uma sequência de vogal mais um
segmento nasal (que representamos por
[+nasal), teremos alguns argumentos para
justificar esta hipótese.

(i) Depois de vogal nasal só ocorre a


consoante IR] (e não [r]), tal como
depois de uma consoante final de sílaba
(p.ex. tenro [têRu], honrar [õRáf], em
paralelo com palrar [pá}Rárl, desratizar
[diSRutizárl). No entanto, se a vogal for
oral, podem ocorrer as duas vibrantes
(p.ex. fora [f5re] e forra [f5RË]). Se a
vogal nasal fosse um segmento
fonológico, tal como a oral, a seguir a
ela poderiam ocorrer as duas vibrantes.

179
(ii) As palavras dos dois grupos seguintes
derivam de diferentes palavras mas têm
o mesmo prefixo (graficamente <in> or
<im>):

(12)
(a) tenção / intenção [têsÉWl / [ïtësáWl

posto / imposto [póJtu] / [ïpóJtul

(b) acabado / inacabado [ekebádul / [ingkebádu]

oportuno / [opurtúnul / [inopurtúnu]


inoportuno
Como vemos, quando o prefixo está antes
de consoante, a sua realização fonética é
[II; quando está antes de vogal, realiza-se
como [in]. Se partirmos do princípio de
que se trata de um prefixo com uma única
forma subjacente, o que ocorre em
inacabado e inoportuno é que o segmento
nasal se realiza como consoante antes da
vogal, e a vogal que o antecede não fica
nasalizada.

(iii) Do mesmo modo podemos explicar as


palavras relacionadas dos grupos
seguintes:
(13) [ã] irmã [irmá] (14) irmanar [irmenár]
pão [páWl panito [penítu]
35
Ver 5.3.3. sobre esta Ver sobre esta questào em fonologia estrutural. Morais Barbosa (1994), 7.9. e 7.10.
restriçäo.

Ver 0 tratamento desta questão em Mateus (1975). 1.4.

Sobre a representação do
processo de nasalização em
geometria de traços, ver
5.3.2.

180
fim [fíl final [finá+l

[õ] som [sál sonoro [sun5cul


As sílabas estão sílaba se a palavra for acentuada na ante-
separadas por pontos. penúltima (se for uma esdrúxula), da mesma
A vogal forma que essa penúltima silaba não pode terminar
nasal de em consoante ou [r] 33 (exs. dúvida [dúvidu]
(13) mas não cómodo [k5mudu] mas não
corresponde *Ik5mödu])
à vogal
seguida de Estabelecemos assim, com base nestes
consoante argumentos, que as vogais nasais resultam de uma
nasal em sequência de vogal e segmento nasal, e recebem a sua
(14). É nasalidade desse segmento. Em certas
conveniente circunstâncias de contexto, o segmento nasal realiza-
pôr em se como uma consoante e, nesse caso, a vogal não é
relevo que a nasalizada34
consoante
nasal que A proposta aqui apresentada coincide com a da
existe nas fonologia estrutural e com a da fonologia
formas generativa clássica no facto de considerar que as vogais
ortográficas nasais do português não são nasais no nível
de muitas fonológico. Diverge, todavia, dessas outras
palavras propostas pelo facto de apresentar um segmento [nasal] a
como fim, seguir à vogal , substituindo assim o
som, ou arquifonema IN," da fonologia estrutura135 e a
ainda, consoante nasal da generativa clássica 36. A proposta
amaram não de um segmento que não é um arqui fonema nem uma
tem consoante — porque pode realizar-se como
realização nasalidade da vogal ou como consoante nasal — só é
fonética possível no quadro da teoria autossegmental aplicada
como em geometria de traços, porque só nessa teoria se pode
consoante e considerar um segmento autónomo,
apenas funcionando num nível próprio e, como veremos
indica a em 5.3.2., expandindo a sua propriedade nasal sobre
nasalidade o(s) segmento(s) que o antecede(m).
da vogal.

As semivogais (ou glides)


(iv) Resta notar
que não
podemos
ter uma
vogal nasal
em
penúltima

181
Se pedirmos a um pedirmos para alguém pronunciar pausadamente palavras como piar,
falante de criada, petróleo. Neste caso, é natural que obtenhamos pisar, cri.a.da,
português que pe.tró.le.o, em que o [i] de piar ou de criada é pronunciado como uma vogal
pronuncie e não como uma semivogal. Apenas na fala coloquial, a vogal [il se
pausadamente as manifesta, por vezes, como semivogal (veja-se [pjár], [krjáde], [pitróljul).
palavras leite ou Aliás, a ortografia de palavras como petróleo, ofício, estratégia inclui um
paixão diacrítico com a justificação de se tratar de palavras 'esdrúxulas' , o que
(foneticamente supõe que os dois sons finais são interpretados como duas vogais (e não
[Itíjti] e como um ditongo crescente). Podemos, assim, pôr a hipótese de que, nestes
[pajSñW]), não casos, os dois sons correspondam a duas vogais no nível fonológico
obtemos uma
separação de Um outro argumento que justifica a afirmação de que este tipo de
sílabas entre a sequências é constituído por duas vogais é o facto de, em certos
vogal e a paradigmas, a primeira poder ser acentuada. Veja-se, por exemplo, as
señlivogal, ou formas pio [píul (verbo piar) ou crio [kríu] (verbo criar). Não seria
seja, não aceitável que o mesmo segmento fosse, no nível subjacente, uma semivogal
obtemos uma em criar e uma vogal em crio.
pronúncia deste
Em conclusão: perante os argumentos apresentados, deve considerar-se que
tipo *le.i.te ou
as semivogais dos ditongos decrescentes correspondem a semivogais no
*pa.i.xã037, mas
nível fonológico, enquanto os denominados 'ditongos crescentes' são
sim, lei.te e
constituídos por duas vogais no nível fonológico as quais, na fala rápida, se
paixão. Por
pronunciam como semivogais.
outro lado, as
semivogais de
ditongos As consoantes
decrescentes
nunca podem Vejamos agora como estabelecer o sistema das consoantes.
alternar com
vogais No caso em que existe uma única realização, o segmento subjacente
acentuadas em corresponde a essa realização. Tal sucede com as oclusivas /p/, /b/, /t/,
palavras /d/, /k/,/g/ e com as fricativas /f/ e /v/, Já as fricativas [s], [z], [SI e [31
relacionadas, ou apresentam alguns problemas. Como se disse em 5. I. I ., estas três
seja, não consoantes estabelecem entre si oposições distintivas (p.ex. assa [ásp], asa
encontramos [ázel, acha [áSe], aja [á3Ë]) o que permite considerá-las correspondentes a
duas palavras segmentos fonológicos da língua (/s/, /z/, /J/, /3/) 3s. No entanto, em certos
que se distingam contextos não encontramos esta oposição: em fim de sílaba ocorre [31 e [JI
como as duas conforme a consoante que se segue é sonora ou não sonora (p.ex. lesma
pronúncias de [lé3me] e lesta [léJte]) , no fim absoluto de palavra temos apenas [JI (p.ex.
leite [Itíjti] vs. boas [bóeJ] 39) e, se a essa palavra se seguir outra começando por vogal,
*Iluítil. realiza-se a consoante [z] (p.ex. boas amigas [bóËZ emígeJ]). Dado que o
contexto implica a realização de apenas uma das consoantes, teremos de
Algo de diferente propor um segmento fonológico único que se realizará diferentemente
sucede se conforme a consoante, vogal ou pausa que se lhe seguir.

182
Estas consoantes Em certos dialectos brasileiros. esta fricativa em final absoluto realiza-se como [SI.
fricativas podem também
denominar-se sibilantes.
Como se verá em 5.2.6., existem segmentos mais frequentes nas línguas do
mundo que constituem muitas vezes, nas línguas particulares, os segmentos
não-marcados, entendendo-se por este termo os mais naturais, os que
ocorrem em muitas circunstâncias na língua. No caso das consoantes, são
mais frequentes as dentais; por outro lado, as consoantes não sonoras são
mais frequentes do que as sonoras. Aplicando estas afirmações às quatro
consoantes [z], [3] devemos escolher /s/ como segmento fonológico,
admitindo que ele passa a consoante palatal [3]) ou a sonora em certas
condições de contexto Note-se que, como fricativa, ela mantém as suas
propriedades básicas em todas as realizaçöes40

Relativamente às laterais, e como se disse em 5.1.1, estamos perante duas


realizações do mesmo segmento fonológico ( [II e [+1) visto que essas
ver 5.2.2. realizações se encontram em distribuição complementa. Teremos, portanto,
que escolher entre as duas consoantes qual delas pode ser proposta como
segmento fonológico.

Vimos em 5. I. I . que ocorre antes de outra consoante ou em final absoluto de


palavra (p.ex. mal [má+], maldade [ma±dádil). Os contextos de ocorrência de
[l] são mais numerosos: depois de outra consoante, antes de vogal e em fim
de palavra se se seguir uma palavra iniciada por vogal (p.ex. placa [plákel
lado [Iádu], mal amado [mál emádul). Dado que contextos mais numerosos
implicam, neste caso, maior frequência de ocorrência da consoante, e dado
que a lateral 1±1, por ser velarizada, se pronunciacom um ponto de
articulação secundári041 0 que torna a sua pronúncia mais rara nas línguas do
mundo, determinamos que o II/ é o segmento fonológico subjacente a ambas
as consoantes, e sujeito a alteração nos contextos atrás indicados. Veja-se a
representação da alteração de (I/ em final de palavra (símbolo #) e antes de
consoante. Tal como em ( I I trata-se de uma representação muito
Ver nota 5. simplificada.
(15) c

Do lado direito da barra encontra-se a indicação da localização da consoante fonética. A chaveta


abrangendo os dois símbolos do contexto indica que eles são alternativos: a consoante pode estar antes
de outra (C) ou antes de fronteira de palavra (#).

Concluindo, ficam deste modo estabelecidos os segmentos fonológicos do português tanto no sistema
das vogais como no das consoantes.

Leituras complementares

183
Cintra, Luís Filipe Lindley,
1971 Nova proposta de classificação dos dialectos galego-ponugueses. Boletim de Filologia,
XXII, 81-116.

Faria, Isabel Hub, Carlos Gouveia, Emília Pedro e Inês Duarte (orgs.),
1996 Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. Lisboa: Caminho.
(Capítulo 4)

Mateus, Maria Helena e Maria Francisca Xavier,


1990/1992 Dicionário de Termos Linguísticos. Associação Portuguesa de Linguística e Instituto de
Linguística Teórica e Computacional. Lisboa: Edições Cosmos (Volume I).

Morais Barbosa, Jorge,


1994 Introdução ao Estudo da Fonologia e Mothologia do Português. Coimbra: Almedina.

Actividades

1. Faça a transcrição fonética das seguintes palavras agrupadas em pares. Diga quais dos pares
aparentados constituem 'pares mínimos'.

a) catar / matar; b) cave / clave; c) casta / lasca; d) gente / quente

2. Partindo do nível fonético do português, apresente dois pares de palavras que contenham alofones do
mesmo fonema. Justifique os exemplos dados referindo-se à distribuição complementar.

3. Explique por que se pode dizer que certas fricativas em fim de sílaba sofrem uma neutralização.
Apresente outro exemplo de neutralização de fonemas no português europeu.

4. Tendo presentes dois dialectos do português, faça duas transcrições fonéticas da mesma frase que
mostrem a variação dialectal. Classifique as diferenças que encontrou do ponto de vista fonético.

5. Apresente, em transcrição fonética, a mesma frase pronunciada por um brasileiro e um português.


Explicite as diferenças classificando-as do ponto de vista fonético.

6. Das transcrições fonéticas que se seguem, indique:

184
a) As que constituem palavras do português.
b) As que não são mas podiam ser palavras desta língua. Justifique.
[sebídel [prákul [3ugétil [plzú] [píre] [krígu]

7. Diga a que restrições está sujeita a distribuição das consoantes em português, tendo em conta a sua
posição na palavra (inicial, medial e final).

8. Na diferença entre fonética e fonologia, importa fazer notar o "carácter abstracto da fonologia"
Explique o que entende por esta frase estabelecendo uma relação entre uma sequência de sons e a
correspondente sequência de fonemas.

9. Represente sob a forma de regra, de modo simplificado, as seguintes descrições

a) /e/ passa a [n] quando está seguido de uma consoante palatal.

(b)/s/ realiza-se como [S] quando está seguido de uma consoante [—vozeadal.

Sugestões de soluções para as actividades propostas

l. Faça a transcrição fonética das seguintes palavras agrupadas em pares. Diga quais dos pares
apresentados constituem 'pares mínimos'.

a) catar / matar; b) cave / clave; c) casta / lasca; d) gente / quente

Resolução:

a) Iketác] / [metár]; b) [kávil / [klávi]; é) [káSte] / [lá]kgl; d) [3êtil /


Ikëti]

Pares mínimos: a), d)

2. Partindo do nível fonético do português, apresente dois pares de palavras que contenham
alofones do mesmo fonema. Justifique os exemplos dados referindo-se à distribuição complementar.

Resolução:

(a) lápis [lápifl / salto [sá+tu] — fonema: m; alofones: [l] e

185
Justificação: Antes de vogal, (l/ ocorre sempre como [II. Depois de vogal, se estiver em fim de
sílaba, II/ ocorre sempre como [+1. Como não ocorrem nos mesmos contextos, considera-se que
estão em distribuição complementar visto que a realização do fonema implica a realização dos
dois alofones.

(b) pasta [páJtel / pasmo [pá3mul — fonema: /s/; alofones: [J] e 13]
Justificação: O fonema /s/ em final de sílaba ocorre como nãosonora, quando a consoante
seguinte é não-sonora e ocorre como [3], sonora, quando a consoante que se segue é sonora. A
justificação é idêntica à dada em (a).

3. Explique por que se pode dizer que certas fricativas em fim de sílaba sofrem uma
neutralização. Apresente outro exemplo de neutralização de fonemas no português europeu.

Resolução:

Em fim de sílaba, a única fricativa que ocorre é /s/, que se realiza como [J] ou [3] conforme a
sonoridade da consoante seguinte. Estas duas consoantes podem, no entanto, corresponder a fonemas
distintos como em acha e haja [á3el. O facto de, em fim de sílaba, só se poder realizar uma ou outra de
acordo com o contexto mostra que, nesse contexto, existe uma neutralização das duas possibilidades
que, em acha e haja, estão em oposição distintiva.

Outra neutralização de dois fonemas é a que se dá no início de palavra e no fim de sílaba, entre as duas
vibrantes: no início, só pode ocorrer [R]; no final, apenas No entanto, entre consoantes, podem ocorrer
as duas consoantes: caro [káRul e caro [kárul.

4. Tendo presentes dois dialectos do português, faça duas transcrições fonéticas da mesma frase
que mostrem a variação dialectal. Classifique as diferenças que encontrou do ponto de vista fonético.

Resolução:

(a) Dialecto de Chaves (transmontano) a chave caiu keíu]] Dialecto de

Lisboa (centro-meridional) a chave caiu [e sáu keíu]


(b) Dialecto de Lisboa (centro-meridional) gostas dafeira? [g5ftB3 de ftíjrel
Dialecto de Évora (centro meridional) gostas dafeira? [g5StB3 de férul
Em (a) temos uma consoante africada, m, no dialecto transmontano, correspondendo a uma
palatal fricativa, [JI, no dialecto de Lisboa. Em (b) temos um ditongo no dialecto de Lisboa,
léjl, que corresponde a uma vogal, no dialecto de Évora.

186
5. Apresente, em transcrição fonética, a mesma frase pronunciada por um brasileiro e
um português. Explicite as diferenças classificando-as do ponto de vista fonético.
Resolução:

A menina saltou de alegria (a) Português brasileiro (PB)

[a miníne sawtó d3jaIegríËl

(b) Português europeu (PE) miníne djeligríe]

Diferenças:

Vogais átonas: No PB, as vogais átonas são menos reduzidas do que no PE (tal / [i] / [i]; [e] /
til), excepto o [p] final de palavra.

Consoantes: No PB o ,11/ final de sílaba realiza-se como a semivogal No


PE realiza-se como a velarizada
No PB, a oclusiva dental realiza-se como uma africada, [d3], antes de [i] (neste caso, um [i] átono
correspondente ao [i] do PE). A vogal átona semivocaliza por estar seguida de uma vogal no encontro
das duas palavras. No PE a oclusiva não se torna africada e, no encontro das duas palavras, o [il passa a
[j] antes da vogal

6. Das transcrições fonéticas que se seguem, indique:

a. As que constituem palavras do português.

b. As que não são mas podiam ser palavras desta língua. Justifique. [subídel [prákul [3ugéti] [plzú]
[píre] [krígu]

Resolução:

Palavras do português:

[sebíde], [3ugétil,

Palavras que podiam ser do português

[prákul (como [fráku]) e [krígul (como [trígu]).


[plzúl tem uma sequência de três consoantes inadmissível em português.

187
7. Diga a que restrições está sujeita a distribuição das consoantes em português, tendo em conta a
sua posição na palavra (inicial, medial e final).
Resolução:

Consoantes simples

Inicial: Não se encontram em posição inicial as consoantes palatais IP] e [Kl.

Medial: Não há restrições de ocorrência nesta posição.

Final: Apenas as consoantes [+1, [fi, Existem variantes contextuais: [J] concorda em sonoridade com a
consoante seguinte; se forem seguidas de vogal realizam-se da seguinte maneira: [+] como [II e [SI
como [z].
Sequências de consoantes

Em posição inicial ou medial existem restrições que levam a que os grupos aceites na língua sejam
constituídos por oclusiva seguida de líquida ([pr], [br], [trl, [dcl, [kl], [gr]; [PI], [bl], [kl], [gl]; ([tll e [dl]
são raros). As sequências de consoante fricativa e líquida ocorrem também em português mas não
cobrem

Vero capítulo sobre a


Em posição final, as três consoantes m, /f/ e /s/ ocorrem sempre sc-
silaba relativamente à
restriçào de sequencias de inhas.
consoantes em alaque.
todas as
possibilidades 8. Na diferença entre fonética e fonologia, importa fazer notar
(p.ex. livro [vr] o "carácter abstracto da fonologia". Explique o que entende por esta
ou frito [fis]). frase estabelecendo uma relação entre uma sequência de sons e a
Outras sequências correspondente sequência de fonemas.
como [PS], de Resolução
psicologia, ou
[tml, de ritmo, Tendo presente que a fonologia estuda os sons com o fim de
ocorrem por determinar como é que as realizações fonéticas correspondem a
vezes em segmentos que t m função linguística, e como é que esses segmentos
português se organizam em sistema, é necessário observar os dados fonéticos e
europeu mas não integrar essa observação em princípios teóricos e metodológicos.
são habituais42 . Neste contexto, é possível propor hipóteses acerca dos segmentos que
constituem o nível fonológico da língua e que devem corresponder ao
conhecimento que o falante tem da sua língua neste nível da

188
gramática. O (ii) /s/ realiza-se como [J] quando está seguido de
nível fonológico uma consoante [—vozeada]. Resolução:
é, portanto, um
nível abstracto, (a)
construído a
partir da análise
dos dados c palatal
fonéticos, da
formulação de
hipóteses para
estabelecimento
dos segmentos
que constituem
esse nível e dos
processos a que
estes segmentos
estão sujeitos.

9. Represe
nte sob a forma
de regra, de modo
simplificado, as
seguintes
descrições

(i)
/e/
passa a
[e]
quando
está
seguido
de uma
consoan
te
palatal.

189
(b) c — vozeada

5.2
Os segmentos como conjuntos de traços

Objectivos e resumo

Pretende-se, na secção 5.2., que o aluno:

• compreenda a importância da classificação dos segmentos com traços distintivos e distinga


traços fonéticos de traços fonológicos;

• conheça os traços distintivos de base articulatória, necessários para a classificação dos


segmentos fonológicos do português. Relacione os traços com o modo e o ponto de articulação
dos segmentos e saiba construir uma matriz fonológica;

• compreenda os conceitos de redundância e de subespecificaçäo;

• apreenda o interesse do modelo da geometria de traços, compreendendo a sua possível aplicação


ao português.

Para permitir que sejam atingidos os objectivos indicados, neste capítulo faz-se uma primeira referência
à importância dos traços distintivos, apresentando-se de seguida aqueles com que serão classificados os
segmentos fonológicos do português. As matrizes fonológicas das vogais e das consoantes são a
aplicação desses traços na classificação dos segmentos e possibilitam a discussão do conceito de
redundância que permite eliminar alguns traços na identificação dos segmentos. Em seguida é
apresentado o modelo da geometria de traços provando-se a vantagem da sua utilização e
exemplificando a sua aplicação na identificação de segmentos fonológicos. O capítulo termina com a
discussão do conceito de subespecificaçäo e a sua aplicação sobre uma consoante do português.
distintivos foi proposta por Jakobson, Fant e Halle em 1952 e reformulada por Jakobson e
• Ver referência
Halle em 1956.
em 1.1. A
primeira Embora os segmentos sejam unidades mínimas da fonologia, eles não são
classificação dos indivisíveis, quer dizer, podem considerar-se como feixes de traços distintivos
traços
que são as suas propriedades fonológicas. Este capítulo apresenta os traços
distintivos aplicáveis à língua portuguesa e mostra as vantagens que provêm
da classificação dos segmentos com a utilização dos traços. No capítulo são
discutidos, ainda, os conceitos de redundância e de subespecificação que

190
estão relacionados 5.2. I Os traços distintivos
com a identificação
dos segmentos por
Os segmentos fonológicos são unidades complexas, tal como os sons, e têm
meio dos traços.
propriedades identificadoras que são denominadas traços distintivos. Estes
traços distintivos funcionam de modo binário, com o valor [+] que indica a
sua presença, e o valor [—] que indica a sua ausência. A classe universal de
traços distintivos foi primeiramente proposta por Jakobson, Fant e Halle l Esta
classificação das unidades fónicas, em que as propriedades de cada uma são
discriminadas e identificadas por traços, distingue-se da classificação da
gramática tradicional na qual as unidades são entendidas globalmente e se
distribuem por classes como as oclusivas, as fricativas ou as dentais e as
palatais. Em fonologia, os traços distintivos são entendidos como as
propriedades que os falantes reconhecem intuitivamente como identificadoras
dos elementos do seu sistema fonológico. Tendo presente que os traços
reflectem as capacidades humanas de produção e percepção da fala, eles
constituem uma classe universal. Sendo identificados pelos falantes, reflectem
também os conhecimentos que o locutor-auditor tem da sua própria língua.
Assim, considera-se que os traços distintivos, embora partam das
características fonéticas dos sons, ao identificarem os segmento fonológicos
são propriedades fonológicas da língua.

A classificação proposta por Jakobson, Fant e Halle baseava-se em


propriedades acústicas dos sons. Em 1968, na obra The Sound Pattern
ofEngIish, Chomsky e Halle fizeram uma
revisão desses Consonântico [cons]traços com base em
propriedades Soante [soan]articulatórias e criaram novos
traços. A classificação de Chomsky e
Halle temSilábico Isill pontos comuns com a
classificação tradicional e, de acordo com
ela, alguns Contínuo [contl traços correspondem ao modo

5.2.2 Classificação dos traços distintivos e aplicação ao português

Traços relacionados com o 'modo de articulação '2

de articulação (como o 'consonântico' ou o 'nasal') e outros ao ponto de


articulação (como o 'recuado' ou o 'alto'). Com a utilização dos traços
podemos, portanto, determinar quais são as propriedades comuns dos
segmentos e quais as que os distinguem.

Estes traços servem para identificar as classes maiores e com eles se


distinguem basicamente as vogais, semivogais e consoantes.

191
Os traços segmento. Assim, são [+contínuas] as vogais, as semivogais, as vibrantes, as
[consonântico] e laterais e as fricativas, e são [—contínuasl as oclusivas e as nasais.
[soante] estão
relacionados com a Nestes traços que identificam as classes maiores está incluído o traço
passagem do ar no [silábico] que permite distinguir as vogais ([+silábicasl) das semivogais ([—
tracto vocal, mas silábicasl), reportando-se à diferença de comportamento destes dois tipos de
não são opostos: segmentos em relação ao acento e à sua posição na sílaba, visto que as
[soante] indica a semivogais não podem ser acentuadas nem podem constituir núcleo de sílaba 3
vibração espontânea Este traço será apenas indicado para as semivogais dos ditongos decrescentes
das cordas vocais e que são as únicas que existem no nível fonológic0 4 . Note-se, no entanto, que
[consonântico] a natureza deste traço diverge dos restantes por fazer apelo ao funcionamento
indica que existe do segmento na sílaba e não à qualidade acústica ou articulatória do som.
qualquer tipo de Vozeado [voz]5
obstrução à
passagem do ar no O traço [vozeado] implica vibração das cordas vocais, podendo essa vibração
tracto vocal. Assim, ser produzida espontaneamente, como no caso das soantes, ou
as vogais e as voluntariamente como no caso das oclusivas e fricativas (ex. [b], oclusiva
semivogais não são vozeada / [p], oclusiva não-vozeada; [z], fricativa vozeada / [s], fricativa não-
consonânticas mas vozeada).
são soantes (ex. [a]
é [—consonântico] : O nome do traço está seguido de uma abreviatura que facilita a sua indicaçäo. A abreviatura nunca é
seguida de um ponto. Na identificaçåo dos segmentos, os traços devem ser colocados entre parênteses
e [+soante]), e as rectos (p.ex. [consonânticol ou [consl)•
líquidas e as nasais
são consonânticas e
soantes (ex. [n] é
[+consonântico] e
[+soante]). Por
oposição a este
termo, utiliza-se a
denominação de
obstruintes para
todos os sons que
não são soantes.

O traço [contínuo]
indica o modo como
o ar passa pela
cavidade bucal e
refere-se à não
existência (ou à
existência) de uma
oclusão no ponto de
articulação do

192
Sobre o núcleo de sílaba. abaixamento do véu palatino, e identifica tanto consoantes como vogais e
ver capítulo 6-2,4.
semivogais.

Para classificar as consoantes referidas em 5. I .3. como pertencentes a


Ver em 5.1.4. o que se dialectos diferentes do dialecto-padräo do português europeu, seriam
diz sobre as semivogais no
nível fonológico.
exigidos ainda os seguintes traços: distensão retardada que identifica a
africada [TI, estridente que distingue a fricativa [VI da fricatizada [131 e
distribuído que caracteriza as dentais [s] e [z] por oposição às apico-
O traço Vozeado pode ser alveolares e
denominado Sonoro. A
sonoridade das consoantes
será, de aqui em diante,
indicada pelo traço "fraços relacionados com o 'ponto de articulação'
Vozeado.
Lateral A rredondado [arr]
[later] O traço [arredondado] caracteriza o estreitamento da passagem do ar
provocado pelo arredondamento dos lábios. Em português identifica vogais
Nasal
como [u] e [01.
[nas]

O traço [lateral] Comnal [cor]


classifica
O traço [coronal] identifica os segmentos que resultam da intervenção da
consoantes como o
coroa da língua, como [sl ou
[l] ou o em que o ar
sai pelos lados do Anterior [ant]
dorso da língua e a
coroa da língua se O traço [anterior] caracteriza sons cuja articulação se situa na parte
eleva junto dos dianteira da região alveo-palatal (p.ex. [s]).
alvéolos. O traço Alto [altl
[nasal] indica a
Baixo [bxl
passagem do ar
pela cavidade nasal Recuado [recl
por ter havido Os traços [alto], [baixo] e [recuado] caracterizam a posição do corpo da
língua em relação à posição neutra (aproximadamente a que tem antes de
iniciar um acto de fala): [alto], quando o dorso da língua se eleva em
direcção ao palato (p.ex. [i], [u], e as consoantes palatais como [S]); [baixo]
quando existe um abaixamento do dorso da língua (p.ex. [el e consoantes
velares como [k]); [recuado] quando há uma retracção da raiz da língua
como nas vogais [o] ou [u], e nas consoantes velares.

pré-palatais e palatais —
anteriores

— recuadas

193
velares e uvulares [+recuadas]
(c) Ponto de articulação ( vogais e semivogais)
palatais — recuadas


arredondadas
Central
+ recuada

— arredondada

Velares + recuadas
+ arredondada

5.2.3 Identificação de vogais e consoantes com traços distintivos

Na identificação dos segmentos de uma língua, os traços fonológicos são utilizados numa perspectiva
relativa. Por exemplo, a vogal [a] é considerada tradicionalmente central, embora possa ser identificada
como [+recuadal por oposição às [—recuadas] como [i], [e] e Quando se trata de línguas diferentes, essa
posição ou classificação relativa é mais evidente. Tal facto deve-se a que as línguas delimitam de forma
diversa o espaço relativo dos elementos do seu sistema fonológico. Assim, ao classificarmos as vogais
como l+altas], [—altas, —baixas] e [+baixasl verificamos que esses traços se aplicam a um conjunto
diferente de vogais tónicas nofrancês, no português, no espanhol ou em certas línguas caucásicas. Veja-
se o quadro seguinte:

Quadro 2
Francês Português Espanhol L. Caucásicas

u
[+altasl u u

[—altas] e o e o e

[—baixas]

[+baixas]

Como se verifica no Quadro 2, o francês, o português e o espanhol têm, respectivamente, seis, cinco e
três vogais médias ([—altas, —baixas]) e baixas ([+baixas]), enquanto as línguas caucásicas referidas

194
têm apenas uma vogal baixa e nenhuma média. As vogais do francês e do português necessitam,
portanto, de mais traços para serem identificadas já que teremos de distinguir, por exemplo, [el e [OI de
[el e [01 em francês e português, distinção que não é necessária no espanhol.

Esta mesma relatividade deve ser entendida no que respeita à relação 'propriedades fonéticas' vs.
'propriedades fonológicas'. Ou seja: para classificarmos do ponto de vista fonológico um segmento não
é necessário determinar com análise experimental as características físicas do som a que corresponde,
mas teremos que o identificar relativamente aos outros segmentos, dentro do sistema em que funciona.
Exemplificando, [el e [o] em português podem ser foneticamente vogais menos baixas do que [a], mas,
relativamente às vogais médias [el e [01, elas são vogais baixas.

Os quadros seguintes contêm os traços que identificam os segmentos fonológicos do dialecto-padräo do


português europeu: vogais (3a), consoantes oclusivas orais e nasais (3b), consoantes fricativas (3c) e
consoantes líquidas (3d). Cada um dos segmentos está identificado quanto à presença (sinal + ) ou
ausência (sinal — ) do respectivo traço. Um quadro deste tipo denomina-se uma matriz fonológica.
Dado que se trata de segmentos fonológicos, não estão inseridas nos quadros as variantes fonéticas do
PE referidas e exemplificadas em 5.1.3.:a lateral as vogais [e] e [i] e as vogais nasais. Estas variantes
fonéticas são apresentadas em (3)(e). As semivogais [j] e [w] também não estão incluídas porque a sua
classificação é idêntica à das vogais [il e apenas diferindo no traço silábico.

195
196
197
(e) Realizações fonéticas contextuais:

vogais [e], [i] e nasais, e a consoante

traços / segmentos

consonântico

soante

vozeado

alto

baixo

recuado

arredondado

anterior

coronal

contínuo

lateral

nasal

198
A identificação dos segmentos com traços distintivos permite perceber alguns aspectos da
variação dos sons na língua, tanto na variação dialectal ou geográfica como na variação
histórica ou diacrónica como, ainda, na variação dependente de contexto. Por exemplo, a
relação entre [l] e que são duas realizações fonéticas da mesma consoante em diferentes
contextos, consiste na diferença do valor do traço distintivo [recuado] que é um traço
secundário que a consoante adquire quando está depois de uma vogal: [+] é [+—recuado]
porque tem uma elevação da parte posterior do dorso da língua e [l] é [—recuado] porque
não tem esta elevação. Todos os outros traços são comuns às duas consoantes.

Um outro exemplo pode ser a evolução diacrónica da vogal /a/. Essa vogal sofreu uma
redução em posição átona no português europeu, redução que não se verificava em épocas
anteriores da língua e que ainda hoje não se verifica no português do Brasil, excepto em
posição final. A distinção actual entre o [a] de parte [párti] e o [e] de partir [pertírl reside
apenas no valor do traço [baixo]: [a] é [+baixo] e [e] é [—baixo]. Os traços distintivos
permitem-nos, assim, dar conta de alterações das propriedades dos segmentos em
determinados contextos.

Um outro exemplo da pertinência de classificação com traços distintivos é o da identificação


das classes naturais6 , visto que uma classe natural se caracteriza por necessitar de menos
traços para identificar, em conjunto, os segmentos que a constituem do que os necessários
para identificar cada segmento em separado. Assim sucede, por exemplo, com as oclusivas
que podem classificar-se, em conjunto, como [soantes, —contínuas] ao passo que a oclusiva
[b/ necessita também dos traços de ponto de articulação e do vozeamento ([+anterior, —
coronal, +vozeado]).

5.2.4 Redundâncias

De acordo com a matriz (3a), a identificação da vogal Io/ faz-se com os seguintes traços, a
que acrescentamos [—consonântico] visto tratar-se de uma vogal (mais uma vez se faz notar
que seria necessário o traço [silábico] se pretendêssemos distinguir as vogais l ii/ e /u/ das
semivogais, o que não é o caso da vogal /o/).

(4) Representação de h.com traços distintivos

— consonântico

199
+ soante
+ vozeado
— alto

+ baixo + recuado

+ arredondado — anterior —
coronal + contínuo — lateral
— nasal

Repare-se, no entanto, que um segmento [—consonântico], ou seja, uma vogal, é


necessariamente [+soante, +vozeado] como o são todas as vogais. Podemos, portanto,
eliminar estes dois traços porque são predizíveis. Por outro lado, como os traços [alto] e
[baixo] são opostos, se a vogal é [+baixa] tem que ser, t—altal. Também este último traço
pode eliminar-se. Além

disso, no sistema do português que está representado no quadro (3a), as vogais com o traço
[+arredondado] são sempre [+recuadas]. Este último traço pode, igualmente, ser eliminado
quando a vogal é identificada como [+anedondada]. Finalmente, alguns traços não são
aplicáveis a determinada classe de sons (como, p.ex. [anterior] e [coronal] na classificação
das vogais) ou classificam segmentos menos frequentes nas línguas e, por isso, quando não
se indicam, tal significa que o seu valor é [—] (p.ex., os traços [nasal] e [lateral] identificam
consoantes e vogais menos frequentes nas línguas do mundo e, portanto, não necessitam
indicação nos segmentos que não são nasais ou laterais).

Os traços que podem predizer-se a partir de outros, ou pelas razões indicadas, são traços
predizíveis que denominamos traços redundantes. Veja-se a representação de/o/ sem traços
redundantes.

(5) Representação de h/ sem redundâncias



consonântico +
baixo
+ arredondado

200
Na eliminação das redundâncias verificamos, portanto, que podemos predizer:

(a) o valor de um traço oposto a um outro que esteja indicado com o sinal [+] (p.ex.
[+alto] implica [—baixo]);

(b) o valor de um traço implicado por outro em termos das características articulatórias
dos sons (p.ex. um segmento [+soante] é sempre [+vozeado]);

(c) o valor de um traço, num certo sistema fonológico, quando esse valor está sempre
associado ao mesmo valor de outro traço (p.ex. em português, uma vogal
[+arredondada] é sempre [+recuada]). O contrário, porém, não é verdadeiro, ou
seja, uma vogal [+recuada] em português pode não ser [+arredondada], como
sucede com o /a/. Nestas circunstâncias é necessário indicar os dois traços, porque
ambos são pertinentes;

(d) o valor de um traço em resultado de características da pronúncia da vogal ou da


consoante a identificar (p.ex. as vogais são habitualmente [—anteriores] e [—
coronaisl porque estes traços implicam uma obstrução a que esses segmentos não
estão sujeitos);

(e) o valor negativo de um traço em consequência de identificar segmentos menos frequentes nas
línguas do mundo (p.ex. os traços [nasal] e [lateral] quando não indicados explicitamente têm
sempre o valor 1—1).

Veja-se, agora, a matriz fonológica das vogais (6a) e das consoantes (6b-d) do português sem indicação
dos traços redundantes e sem indicação dos valores predizíveis em certos traços7 .

(6)

(a) Vogais

As [—consonânticas] (vogais) são todas [+soantes, -yvozeadas e -econtínuasl. As [+altas] ou [+baixas]


são [—] no traço oposto. Só as médias
traços / e E a O o u precisam do valor dos dois traços
segmentos
de altura. As [—recuadas] não são
consonântico arredondadas e as [+arredondadas]
são sempre [+recuadasl em português.
Só 0 alto 1a/ precisa do valor dos dois
traços.
Sobre
baixo classe natural, cf.

recuado

arredondado

201
5.1.1 .
(b) Consoantes oclusivas orais e nasais

consonântico

soante (c) Consoantes


fricativas
vozeado

recuado

anterior

coronal

contínuo

nasal

traços / 3
segmentos
consonântico

soante

vozeado

alto

anterior

coronal

contínuo

202
(d) Consoantes líquidas

traços / segmentos 1 r R

consonântico

soante

alto

recuado

7
Comparem- anterior se estas tabelas com (3a-d).

coronal

lateral

Relativamente a (6b-d) observe-se o seguinte: as


[+consonânticas] podem ser ou não soantes e, portanto, o
valor desse traço tem que estar explicitado excepto se
forem [+nasais] ou [+laterais]. Também o traço [contínuo]
não precisa de ser explicitado para as consoantes nasais
porque elas são todas [—contínuas]. As consoantes palatais
[31, [JI], [Kl) são [+altasl mas este traço não precisa de
estar indicado nas outras consoantes, porque elas são todas
[+anteriores] ([p], [b], [t], [d], [v], [s], ou [+recuadas] ([k],
[g], [R]).

Os valores predizíveis decorrentes de um sistema


fonológico podem não o ser em outra língua. Em francês,
por exemplo, existem vogais fonológicas que são
[+arredondadas] e simultaneamente [—recuadas], como em
tu ['ty] que se opõe distintivamente a tout ["tu]. Nesta
língua, portanto, essas vogais terão de ser identificadas

203
como [+an•edondadas] e [—recuadas], exigindo a
indicação dos valores dos dois traços.

Note-se que os traços redundantes podem ser necessários,


em certas circunstâncias, para o reconhecimento de um
segmento quando, por exemplo, o meio de comunicação
utilizado não permite a transmissão perfeita do som
(isso pode suceder com uma conversa telefónica) ou
quando o contexto fonético provoca alterações de um
segmento (como, por exemplo, na realização de /s/ depois
de vogal como [S], em que os traços [+coronal] e [—
anterior] são suficientes para identificar a palatal, mas o
[+alto], ainda que redundante, contribui para o
reconhecimento da palatal).
s
Sobre o processo das modelos, entre os quais se alienta a teoria autossegmental pela sua
vogais átonas no
português europeu, ver
importância tanto em termos teór i cos como no impulso que imprimiu

5.3. l , às análises de vários níveis da língua. Uma das propostas fundadoras


da teoria é a autonomia dos níveis linguísticos e, no âmbito dos
vários níveis, a autonomia das respectivas unidades — em fonologia,
5.2.5 os segmentos fonológicos e os próprios traços.
Identificação de
vogais e Como podemos verificar, nas matrizes fonológicas apresentadas em
(3a-d), os traços distintivos não estão organizados segundo um
consoantes na
princípio específico, podendo a identificação de uma consoante ou
geometria de vogal incluir os traços por uma ordem arbitrária. Neste modelo, por
traços exemplo, os traços de modo e de ponto de articulação podem estar
misturados; por outro lado, nestas matrizes não se estabelece
Algumas qualquer relação entre traços que funcionam em conjunto em
insuficiências da processos fonológicos (como os traços de altura e de ponto de
teoria generativa articulação no processo das vogais átonas em português). Além
clássica já disso, a apresentação em coluna dos traços que identificam um
indicadas em segmento (por exemplo, a representação do 10/ em (4) e (5)) não
2.3.3. levaram ao permite evidenciar como se dá o espraiamento (ou a 'projecção' ou
desenvolvimento 'expansão') de um traço sobre um segmento vizinho dentro da
de diversos sequência fonética, nem permite mostrar as relações estabelecidas

204
entre as Nesta organização, os traços estão localizados em níveis ou camadas
propliedades dos separadas e estão agrupados em nós de classe de que dependem os
sons fixadas nos traços terminais. Por sua vez, os nós de classe estão agrupados em
traços distintivos vários níveis e, no nível mais alto, estão ligados directamente a um
(por exemplo, a nó chamado Raiz do segmento (R). A raiz do segmento ocupa um
nasalização do lugar no nível do esqueleto, uma camada que consiste numa
ditongo de mão sequência de unidades de temp04 . Todos estes níveis ou camadas
resultante da pertencem à fonologia e são, portanto, entidades abstractas. Veja-se o
projecção do seguinte esquema que representa a relação de dependência entre os
traço [nasal] traços.
sobre a vogal e a
semivogal). Não
permite, também,
relacionar a
supressão de um
segmento com o
lugar que ele
ocupa na cadeia
fonológica (por
exemplo, a
supressão do [i]
em palavras como
meter [mitér] —+
[mtér] não tem
uma explicação
que a integre no
funcionamento
geral dos traços
distintivos).

A teoria da
geometria de
traços veio propor
uma organização
da estrutura
interna dos
segmentos que
pode representar-
se 'em árvore'. 4 Sobre estes conceitos, ver o capítulo 6.2. sobre a sílaba.

205
206
207
(9) Representação da estrutura interna de h/ segundo a geometria de traços

Raiz [—consonânticol

Cavidade Oral

Vocálico

P.A.v. Altura

Labial [+baixol

[+arredondado]

Por outro lado, dado que os níveis e os segmentos são autónomos, os traços
que estão num determinado nível diferente do dos segmentos podem
espraiarse sobre mais do que um segmento, o que sucede, por exemplo, com
o traço [nasal] que nasaliza as vogais no interior da sílaba.

Os traços apresentados nas matrizes (3)(a-d) são os mesmos que os


apresentados em (8)(a-b), mas em (8) estão organizados segundo uma
estrutura hierárquica. Tendo presente que esta organização, além de mostrar
uma hierarquia entre os traços está também relacionada com características
fonéticas da realização do som, podemos denominá-la uma configuração da
estrutura interna do segmento.

Esta estrutura também se pode representar em matriz, desde que se


convencione que os nós, como só têm um valor, são indicados por um ponto
(e) e os traços por [+1 e [—] porque têm dois valores. Veja-se a
representação em quadro dos traços de ponto de articulação do sub-sistema
das vogais.

204
207
2. Identifique os sons representados pelas seguintes matrizes de traços

3. Escreva a matriz de traços que caracteriza cada um dos seguintes sons (elimine os traços
redundantes):

[31

4. Cada grupo que se segue é constituído por membros de uma classe natural de sons que
partilham uma ou mais propriedades, e por um som que não é membro dessa classe.

4.1 Elimine o segmento que não pertence à classe.

4.2 Caracterize a classe com traços distintivos.

5. Identifique com traços distintivos as consoantes oclusivas do português.

208
209
(b)

Raiz [—cons]
Cavidade Oral

Vocálico

PA. V. Altura

Labial [+baixol

[+arredondadol

9. Indique as consoantes que podem ser subespecificadas quanto ao ponto de articulação e justifique a
sua resposta.

Sugestões de soluções para as actividades propostas

l. Os segmentos de cada par nas colunas A e B diferem apenas no valor de um traço. Indique de que
traço se trata e qual o seu valor para cada segmento

/b/

/u/

/s/

210
4. Cada grupo que se segue é constituído por membros de uma classe natural de sons que
partilham uma ou mais propriedades, e por um som que não é membro dessa classe.

4.1 Elimine o segmento que não pertence à classe.

4.2 Caracterize a classe com traços distintivos.

Resolução:

4.1

a) [n] ([+soante])

b) [p] ([—contínuo])

4.2

a) [+consonântico, —soante, -precuado]

b) [+consonântico, —soante, +contínuo]

5. Identifique com traços distintivos as consoantes oclusivas do português.

Resolução:

Consoantes oclusivas: [+consonântico, —contínuo]

6. No quadro abaixo, indique quais os valores que podem ser eliminados por serem
redundantes. Explique como
traços / procedeu.
segmentos
consonântico

soante
Resolução
alto
[+soante] eliminado
porque as vogais são [+soantes]
baixo
por serem
[—consonânticas];
recuado
[-alto] eliminado de [E],
arredondado
[a], [o] por serem
nasal
[+baixas]; [—baixo]

eliminado de [i], [u], [i] por serem [+altas];

[+recuado] eliminado de [o], [o], [u] porque as arredondadas são todas


[+recuadas];

[—arredondado] eliminado de [i], [e], [e] porque as [—recuadas] são


[—arredondadas] ;

[—nasal] eliminado porque este traço só figura quando o seu valor é

7. Represente numa árvore de traços (ou seja, represente no modelo da geometria de traços) as
consoantes [t] e [f] e a vogal [e] sem indicação dos traços redundantes.

212
Resolução:

Representação de [t]

Raiz [+consonânticol

[—soante]

Laríngeo Cavidade Oral

[—vozeado] P.A.C. [—contínuo]

Coronal

[+anterior]

Representação de [r]

Raiz [+consonântico]

[+soante]
Cavidade Oral

Coronal

[+anterior]

213
(b)
Raiz [—consonânticol

214
Cavidade Oral

Vocálico

P.A.V. Altura

Labial [+baixol

[+arredondadol

Resolução:

(b) [01

9. Indique as consoantes que podem ser subespecificadas quanto ao ponto de articulação e justifique a sua resposta.
Resolução:

As consoantes que podem ser subespecificadas quanto ao ponto de articulação são as [+coronais] por serem as
consoantes mais frequentes nas línguas do mundo e, portanto, poderem ser consideradas não-marcadas. De entre as
consoantes coronais, as mais frequentes são as [+anterioresl, motivo por que se propõe que seja o /s/, [+coronal,
+anterior], a fricativa fonológica que se realiza como [SI, [31 e [z] em português.
5.3 Processos fonológicos

Objectivos e resumo

Pretende-se, na secção 5.3 que o aluno:

• apreenda a natureza eo funcionamento dos processos fonológicos em geral, distinguindo os


lexicais dos pós-Iexicais;

• compreenda, através das alterações das vogais átonas em relação aos segmentos de base, os
aspectos característicos do vocalismo átono em português, identificando as regras gerais e os
vários tipos de excepções à aplicação dessas regras;

• reconheça os processos pós-Iexicais — velarização, palatalização, assimilação, inserção e


dissimilação — que caracterizam o nível de superfície do português europeu.

Para permitir que sejam atingidos os objectivos indicados, neste capítulo faz-se uma primeira
referência às componentes da gramática — fonológica, morfológica e lexical — e aos dois tipos de
processos que serão apresentados no capítulo: lexicais e pós-Iexicais. Os processos lexicais do
vocalismo átono e da nasalização são desenvolvidos com explicitação do funcionamento dentro da

215
teoria autossegmental. Os processos pós-Iexicais de velarização, palatalização, inserção, supressão e
dissimilação de segmentos são definidos e exemplificados na parte final do capítulo.
Sio variações ocasionais, ainda a componente lexical (ou o léxico), que contém os itens lexicais, ou seja, os
por exemplo, as que
morfemas de uma língua — radicais e afixos — necessários para a formação das
decorrem de diferentes palavras e constituídos por segmentos fonológicos.
registos de língua (pausada,
rápida, coloquial) ou de
particularidades individuais. Quando os processos fonológicos admitem excepções às regras gerais, quando tomam
Um processo em conta certas informações contidas nos itens lexicais (como veremos adiante que
fonológico é um acontece com os processos do vocalismo átono) e, por outro lado, não estão sujeitos a
aspecto do variações ocasionais l , considera-se que são processos lexicais. Os outros processos
funcionamento da situam-se num nível mais superficial da gramática e são processos pós-Iexicais (por
fonologia de uma exemplo, a supressão da vogal [i] em palavras como meter [mtér] ou a velarização do ,
1
língua que atinge, de 1/ quando em final de Silaba ou palavra).
forma sistemática,
vários elementos que
possuem algo em
comum. Um exemplo 5.3.1 0 processo do vocalismo átono
de um conjunto de
elementos que podem A alteração que manifestam as vogais átonas se as compararmos com as
receber a aplicação de correspondentes tónicas é consequência de um processo fonológico designado
um processo processo do vocalismo átono. No português europeu, este processo leva a uma
fonológico é o grupo redução bastante grande das vogais não acentuadas quando sobre elas se aplicam as
das vogais não regras gerais. Essa redução é um dos principais factores de distinção entre a variedade
acentuadas. Os europeia e a brasileira, já que nesta última a redução, quando existe, é muito menor.
processos fonológicos
podem incidir apenas Veremos adiante que as vogais são imunes a esta redução sempre que se
sobre os elementos do encontram em determinados contextos, o que permite dizer que, nesse caso,
sistema fonológico (o se trata de excepçoes regulares. A par destas excepções, existem outras que
processo que atinge
as vogais átonas em
português europeu
relaciona-se apenas
com a altura das
vogais e com o facto
de estarem em silabas
não acentuadas) ou
podem estar
relacionados com
outros níveis da
língua,
nomeadamente com a
morfologia (por
exemplo, os
processos fonológicos
que actuam na flexão
verbal).

Como se diz em
2.3.3., a perspectiva
de organização da
gramática designada
'fonologia lexical'
estipula que existe
uma relação e uma
interacção entre a
componente
fonológica, onde
funcionam os
processos que actuam
sobre os sons, e a
componente
morfológica, onde
funcionam os
processos
morfológicos da
gramática. Além
destas duas
componentes, a
gramática integra

216
só se podem explicar se entendermos que essas excepções são marcadas nos
itens lexicais em que ocorrem2 . Em consequência do seu carácter
verdadeiramente excepcional. as palavras
que contêm estas últimas vogais átonas têm
que ser memori-

Regras gerais do processo do vocalismo átono zadas.


Para conseguir uma generalização relativa ao processo das vogais átonas em português
partimos de uma comparação entre palavras organizadas por pares que têm o mesmo
radical fonológico. A vogal desse radical pode ter diferentes realizações fonéticas
conforme seja tónica ou átona, como se exemplifica no seguinte diagrama correspondente
a belo / beleza.

(1)

[bel]o
[bil]eza

Comparem-se agora as vogais tónicas do grupo (2) e as correspondentes átonas do grupo


(3). Ambas estão sublinhadas nas palavras a que pertencem.

(2) Vogais tónicas (3) Vogais átonas


livro livrinho
medo medroso
Verifica- se, em (2) e (3), que às sete
belo beleza
vogais tónicas [i, e, e, a, o, o, ul
sapo sapinho correspondem apenas
quatro átonas [i, i, e, u] tendo as
distinções pona [5] porteira entre /e, E/ e ,10, o, u/ sido
neutralizadas — ou seja,
nestes fogo fogueira dois casos as respectivas
vogais sofreram uma neutralização
deixando luz [ú] luzeiro de se distinguir. Verifica-se
ainda que as vogais tónicas lil e [ul
não sofrem alteração quando
não acentuadas. Tendo em
atenção que as vogais tónicas são as que apresentam maior

Em posição final de formas Sobre a organização dos traços em geometria de tracos. ver 5.2.5.
verbais a vogal I i / realiza-se diversidade, considera-se que elas correspondem às vogais fonológicas, e que as
como lil como se pode
verificar nas formas verbais átonas resultam da aplicação de regras fonológicas. Para formular essas regras temos
partir [pectífl I parte Ipártil. que explicitar as modificações observadas nos grupos (2) e (3) tomando como base
para essas modificações as vogais fonológicas 1a, e, e, o,

(4) Modificação das vogais quando realizadas como átonas

Ia/ fonológico realiza-se como [e] fonético; /e, E/

fonológicos realizam-se como [i] fonético; Io, o/

fonológicos realizam-se como [u] fonético;

li/ e /u/ não se alteram3 .

Observa-se em (4) que a vogal /a/, [+baixal, se eleva passando a [el, [—baixa]; /e, e/
elo, 0/, [—altas], elevam-se tornando-se, respectivamente, [i] e [+altas]. Além disso, as
vogais /e, e/ que são [—recuadas] tornam-se li] que é [+recuada]. Estas observações
mostram que o vocalismo átono do português está sujeito a um processo de elevação e
recuo que se representa em (5) de forma simplificada.

(5) Representação da elevação e recuo das vogais átonas

217
-Falta

218
219
220
—alta o
—baixa

+baixa

—recuada -erecuada

Ao classificarmos as vogais com os traços de Altura ([altol / [baixo]) e de ponto de


articulação (neste caso, apenas [recuado], dependente de Dorsal) 4 podemos verificar os
aspectos comuns da passagem de tónicas a átonas no sistema de vogais do português.
Assim, a elevação das vogais é evidente na passagem de /a/, [+baixa], a [e], [—baixa]
e, sobretudo, na convergência de todas as outras vogais em [+altas] (fi], [i] e [111).
Além disso, as vogais /e, e/ que são [—recuadas] convergem, quando átonas, com
todas as outras, já que [il é [+recuada]. Esta verificação não se poderia fazer se
tomássemos as vogais globalmente, sem indicação dos traços que as caracterizam.

Também a partir destes traços podemos representar as regras gerais que se aplicam no
português europeu sobre as vogais fonológicas para derivar as realizações fonéticas
das átonas. A representação destas regras pode fazer-se a partir da configuração
geométrica dos segmentos5 , procurando reunir na mesma árvore de traços as vogais /e,
e, o, o, a/. As vogais li/ e [u/ não figuram por não sofrerem alteração.

Para que a configuração possa representar a elevação das vogais, tem que integrar o nó
Altura. Além disso, para que ela inclua estas cinco vogais, é necessário indicar o ponto
de articulação com os nós Labial e Dorsal e os respectivos traços terminais
[arredondado] e [recuado]. A árvore de traços em
(6) inclui as indicações essenciais (omite-se Cavidade Oral e nó Laríngeo).

(6) Representação dos traços necessários para a classificação das


vogais

Raiz
Vocálico
P.A.V.
Altura
Labial Dorsal

Temos agora, porém, um problema: Que valor atribuir aos


[recl
traços [recuado] e [arredondado]? /e, E/ são [—recuadas,
— arredondadas], Io, o/ são [+recuadas,
*arredondadas], Ia/ é [+recuada, —arredondada].
Ver 5.2.5. sobre a representaçäo dos segmentos em geometria de traços.

221
Existe uma
possibilidade de reunir
os traços [recuado] e
[arredondado] para
representar um

segmento que tenha o


mesmo sinal em
ambos os traços. Se
utilizarmos uma
variável (neste caso,
podemos usar e se
ambos os traços forem
precedidos de u, isso
significa que, quando
a variável for
substituída por 1+1,
teremos [+recuado,
+arredondadol, e se
for substituída por [—
1, teremos [—recuado,
—arredondado].
Assun representamos
na mesma árvore as
vogais / e, e/ e ,10, 0/.

É evidente que a vogal


Ia/ fica excluída desta
representação. Aliás,
ela tem um
comportamento
particular, já que não
se torna [+alta] como
as outras vogais, mas
apenas [—baixa], [el.
Por outro lado, [i] e
[u] resultantes de /e, e/
e de ,10, o/ são mais
reduzidas
foneticamente e, por
isso, mais facilmente
suprimidas do que [e]
na fala coloquial do
português europeu.
Assim, a alteração Ia/
—+ [e] tem uma
derivação específica
que exigiria uma
representação própria.

Em (7) (a) e (b) temos


a representação da
necessita de indicação em (7a) pois todas as vogais se tornam [+altas] e, portanto, este
alteração das quatro
traço só tem que estar explicitado em (7b).
vogais /e, E, o, 3/
quando átonas. O nó
de Altura não (7) Representação da realização de /e, e, o, o/ quando átonas
(a)

Raiz [—cons] Raiz — l—consl

Vocálico Vocálico
P.A.V.

Altura Altura

222
Labial Dorsal Dorsal [+alt]

[U recl [+ recl

O lado esquerdo da regra identifica as vogais que sofrem alteração. No lado direito temos a

especificação da realização dessas vogais: todas são [+recuadas] e [+altas]. O traço [anedondado]
mantém-se com o valor inicial. Assim, obtemos as seguintes realizações fonéticas [i], [—arredondado,
+recuado] e [u], [+arredondado, -precuado], ambas [+altas]. A seta relaciona as duas representações.

Excepções à aplicação das regras gerais


sal salgado [a] e não * [¾du]
relva relvado [E] e não feltro feltragem [e] e não

molde [0] moldar [o] e não polpa [0] polpudo [o] e


não

6
As palavras terminadas em
/f/ também contêm vogal
Embora a formação dos derivados tenha alterado o lugar da vogal acentuada, átona não reduzida, como
revólver, cadáver, líder.
a vogal que ficou em posição átona não sofreu modificação. Tal excepção às Nota-se, no entanto, uma
regras gerais deve-se ao contexto segmental que, neste caso, é uma sílaba tendência para integrar
algumas destas palavras
nas
terminada na consoante m ([Ð fonético)6. regras gerais da língua, com a
pronúncia cadávre (plu-

Mas outros contextos existem que determinam o mesmo comportamento ral: cadávres).
excepcional. Observem-se os exemplos seguintes.
Nem todas as vogais átonas apresentam as modificações de elevação e recuo atrás indicadas. Algumas
mantêm os traços das vogais tónicas que, como dissemos, se identificam com as fonológicas. A
manutenção desses traços pode dever-se ao contexto segmental — o que permite designar estas
excepções como regulares porque ocorrem sempre que se encontram nesse contexto — ou pode
resultar de uma marcação que apresentam os itens lexicais das palavras em que estão incluídas. Estes
dois tipos de excepções são tratados em separado.

(a) Excepções regulares

Vejam-se os seguintes exemplos em que as vogais tónicas e as correspondentes átonas estão


sublinhadas (as formas da direita corespondem às realizações que se esperariam, de acordo com as
regras gerais do vocalismo átono):

(8)
A sequência gráfica deus endeusar lel e não [il
pronunciada na norma-padrä0
do português europeu como a
vogal [01 (p. ex.: tourada foice foicinha [o] e não [ul
Itorádel). representa o
ditongo que está na origem touro [0]
histórica desta vogal — e que tourada
em dialectos do norte ainda é
pronunciado como ditongo. O bóia boiar [OI (ou [o]) e não
facto de não ter havido [u]
131
aplicaçào da regra de
vocalismo átono Io/ [ul torna Nestes exemplos as vogais estão integradas num ditongo decrescente e esse é o
este caso paralelo dos
incluídos no grupo contexto segmental que não permite a sua elevação (no caso de boiar, existe uma
(9) variação entre a vogal média e a vogal baixa, mas não se dá, de qualquer modo, a
gaita elevação para [u]).
pauta Um outro contexto que impede a aplicação das regras gerais é o contexto inicial de
palavra. Neste contexto, as vogais correspondentes às fonológicas (e, e, o, o/ não se

223
realizam sempre seja, recuadas, embora muitas vezes evidenciem uma certa variação. Deve notar-se
como altas; além que a vogal lil nunca ocorre em início absoluto de palavra a não ser quando seguida
disso, /e, e/ também da fricativa [SI (ou [3]), caso em que normalmente é suprimida (p.ex. estar [Stáf],
não se tornam [i], ou esconder [Sködéf]]. Vejam-se exemplos em (IO).

(10)
operário [01 /
[0]
olhar
Ernesto

Elisa
ermita / lii
Finalmente, em ( I l) estão incluídas palavras formadas com os sufixos —zinho, —zito, —7/70 etc., denominados
z-avaliativos, e com o sufixo —mente. Estas palavras também não recebem a aplicação da regra geral do vocalismo
átono e as vogais tónicas da palavra primitiva, embora passem a átonas na derivada, mantêm a sua qualidade.

pobrezito [o] (vs. pobríssimo


papelzinho [E] (vs. papelinho
mulherzona [e] (vs. mulherona
(b) parcamente
belamente

secamente
pobremente

As palavras incluídas em (l l) são as que a gramática tradicional considera Este acento secundário era.

terem um 'acento secundário'8 Na realidade, estes sufixos (tanto os dos nomes antigamente, marcado
com
como o dos advérbios) funcionam como palavras que se adicionam à palavra um diacrítico quando a
palavra de base o possuía
(p.ex.
primitiva e formam uma nova palavra que se comporta como um ràpidamente, sòzinho).

composto. Note-se que as formas do plural das palavras a que se juntam


estes sufixos exibem a flexão do pl ural da palavra primitiva, seguida do
sufixo a que também se adiciona o [s/ do plural (p.ex.: cãezinhos,
animaizitos).

(b) Excepções marcadas no léxico


Em (12) estão incluídas palavras que mantêm as vogais átonas sem
elevação nem recuo e que não podem ser explicadas nem pelo contexto
segmental em que estão inseridas, nem pela formação excepcional de
derivado. As vogais sublinhadas são as átonas não reduzidas.

(12)

(a) dilação (b) mestrado invasor


pregar protecção corar
absorver aquecer

(11)

(a) devagarzinho [a] (vs. devagarinho

baptismo

224
9
A não redução disso, por tomar em atenção certas informações contidas nos itens lexicais
das vogais átonas nestes casos
é por vezes indicada faz com que o consideremos como um processo lexical na gramática do
ortograficamente com uma
consoante etimológica. Esse português.
aspecto é exclusivamente
ortográfico, visto que há
palavras com as mesmas
características que não têm
indicação ortográfica, como se
pode verificar nos exemplos
incluídos em (12). Nas 5.3.2 0 processo de nasalização e a teoria autossegmental
palavras de (12b) as vogais
átonas têm origem histórica
em duas vogais seguidas que
Vejamos como se processa a expansão, ou o espraiamento, do segmento
se fundiram, ou seja, que nasal fonológico na sequência em que está integrado, seja sobre a vogal que
sofreram uma crase.
o antecede, seja realizando-se como consoante 10 Esta análise só pode ser
realizada no modelo multilinear da fonologia autossegmental pois só neste
modelo o segmento nasal é autónomo e, por pertencer a um nível próprio,
interfere na realização fonética dos outros segmentos e da sequência em que
está integrado.

Recordem-se aqui os exemplos apresentados em 5.1.4. no que respeita à


10
Veja-se sobre
este segmento o que se diz em
5.1.4.
realização do prefixo [i] / [in] (ver(13)) e à relação estabelecida entre duas
As vogais nestas palavras com o mesmo radical (ver (14)-(15)):
circunstâncias
(13)
peftencem a
palavras que estão (a) tenção / intenção [tësñW] / [ítësñWl posto /
marcadas no
imposto [póStu] / [ïpóJtu]
correspondente item
lexical como não (b) acabado / inacabado [ekebádu] / [inËkËbádu]
sujeitas à regra do oportuno / inoportuno [opurtúnu] / [inopurtúnu]
vocalismo átono e
que, por isso,
mantêm a qualidade
da tónica das
palavras primitivas9
.

Concluindo: os
exemplos incluídos
em (8)-(12)
mostram que, além
das vogais [i, i, e,
u], resultantes da
aplicação das regras
gerais do vocalismo
átono — e que
constituem um
sistema reduzido em
número de
elementos e em
perceptibilidade dos
sons —, todas as
outras vogais
podem igualmente
ocorrer em posição
átona nos contextos
de excepção. O
facto de o processo
de redução das
vogais átonas
admitir excepções
que ocorrem
sistematicamente
em determinados
contextos e, além

225
Partindo da hipótese de que estamos diante da mesma forma subjacente do prefixo, verificamos que, quando está
antes de consoante, a sua realização fonética é quando está antes de vogal, realiza-se como [in] sem vogal
nasalizada.

Vejamos agora as palavras relacionadas dos grupos seguintes:

( 14)

(E] irmã [irmÉ] A vogal nasal de (14) corresponde à vogal seguida de consoante nasal em (15).
pão [pñW]
O processo de nasalização dos prefixos com a forma fonética fi] e das palavras
[i] fim integradas em ( 14) é um processo de projecção (ou espraiamento, ou expansão) do
segmento [-+-nasal] sobre a vogal anterior, como se representa em (16).
[õ] som
(15) (16) Representação da nasalização das vogais

irmanar [irmenár]
x
panito [penítul
x
final [—cons]
[finá}]

sonoro [sun5ru]
Raiz

Raiz Raiz [—cons]


[+nasall [+nasål]

não marcadas, são as coronais anteriores, e o [n] é a coronal nasal anterior do

Ver 5.2.5. sobre o conceito português.


de esqueleto na represenração
dos segmentos.
Nesta representação
temos, do lado (17) Representação da realização do segmento nasal como consoante
esquerdo da seta, dois
segmentos com Raiz
mas apenas um x x x
segmento com uma
posição no esqueleto,
representada por X II .
O segmento ligado ao
esqueleto é uma vogal
(porque tem o traço
[—consonântico]) e o
que não tem posição é
o segmento [+nasal].
Do lado direito da
seta, o segmento nasal [—consl— Raiz Raiz
projectou-se sobre a [+anteriorl
vogal, desaparecendo
a respectiva Raiz.
Nesta representação da realização da consoante nasal temos, do lado esquerdo da seta,
A representação do uma vogal (Raiz [—cons]) ligada ao esqueleto, seguida de um segmento nasal que não
segmento nasal como tem posição no esqueleto. Do lado direito da seta, temos duas posições no esqueleto: a
consoante (cf. ( 15)) é mesma vogal que não se alterou e uma Raiz [+nasall com ponto de articulação
diferente porque ele Coronal [+anteriorl, o que significa que se criou uma consoante visto que só as
'cria' uma ligação ao consoantes possuem ponto de articulação Coronal (ver 5.2.5.). Trata-se, portanto, da
esqueleto, ao mesmo realização fonética da consoante [n] numa palavra (p.ex. irmanar) que tem o mesmo
tempo que a sua Raiz radical que a correspondente com vogal nasalizada (neste caso, irmã). Esta
passa a ser representação também mostra que uma realização fonética implica sempre a ligação a
consonântica — neste uma posição na sequência temporal, que é a linha do esqueleto, ou, se tal não suceder, a
caso, é sempre um [n] criação de uma posição própria.
porque, como se disse
em 5.2.6., as
consoantes mais
frequentes, ou seja, as

226
6tc

oauoup tua 'Itfi0A1tuas ep op3.rast11 aod 'anb

snossad sp..ltamal sep oseo o msg 'lb'õ!xol-sod ossaoo.ld tun tuaqtut?l


a 'RO!fi9tot10J IRîOAltuas apuodsa.1.100 opu opuenb 'reseu lb'fiOA
etun .Itnfias 'tvpuzlleseu IEî0A1tuas etun ap V (o)

'!pups os-eurtuouap
— 0111!naas anb 'oseo arsau — e.nuooua

Olt1atUÛos o anb tua È3!1auoJ ap ouatL19L1êJ alsa • ([Sa19Jatua


zazyäl snp.tmun snsno '[Snauua z!9P] soå!111D S!OP •xa•d) pp
[opnaz0A+] 0 mueosuoo anb O)SIA 'It2ô0A ti'tun aod as alumûas
'P..1AP,1P.d ap tua 'opunnb 001ô910UOJ IS / op .Ill.mcl [z] ep
og5ez11ea.1 goo,X0Jd anb 0 01.191B11u1!sse ossaoo.ld Lun
tupqturu •1E0!xa1-s9d ossa30Jd tun og5E11tu1sse 'oseo OISON
•(lS(9q £fppl sgoq sgop '[ntu£?tu] ouqsmu t[Smyd f!9pl sound S!
OP '[mJydl DISDd •xa•d) senp allua 0Aluooua ou

-IOJ altunSas munosuoo 13 as '[£l '[eppaz0A+1 011100 a '[epuaz0A—l


alunosuon eun ap no esned ap eptnaas .IOJ os '[SI '[epuaz0A—l
OLLIOô t',ptnnunuo.ld ? anb ecun 011100 awvosuoo Ulsap e a no
equus ap tua IS/ op og5ez!1tne1edv (q)

opu a [1] 011100 os-ez!lea.l [1/ o 'Itfi0A .10d epn5au10ô EÅ1no


ap ep!nfias AOA!1sa a tua .IOJ pum os 'onb as-010N •([npyapsl
opnSps '[+YS] ps •xa•d) eqnus ap tua n.nuooua
as 01ueosuoo anb tua as-yp /1/ op og5ez!ae1ðA V (e)

:salumfias so smotxal-sod ogs 'nad0Jna


sanam.10d ON •unîuyl ep lepwaclns IOAtu tunu as-enus og5emoe ens a srgð!xal-syd sossaoo.ld
sopeuaysop ops ap op aluapuadap tumuasalde anb no sag5daoxa anb sossaoo.ld so

stD.9!Y71-sod soss»oo.ld

•teotxal tuall o tursse opuu.1011Ë '01ueosuoo tnun no 01uaoerqns


a 'Inspu 01uatufias o '001û910UOJ 01110tuaas um OAIO,xua anb.10d leorxal
ossaoo.ld um senfinuod Lua op5b'Z11esuu ap ossaooxcl 0
Estes mesmos [e] fonético, em formas verbais como batei Ibetlíj) ou em
processos actuam na nomes como telha [téjKel é, igualmente, um processo de
evolução das línguas.
Sobre processos que dissimilação visto que a vogal /e/, [—recuada], se distancia
actuaram da semivogal [j] e da consoante palatal [K], ambas [—
diacronicamente na
formação e evoluçäo da recuadasl, tornando-se [el, l+recuada].
língua portuguesa.

consultar uma gramática


histórica, como, por
exemplo. Nunes (1930 e (e) A supressão da vogal átona [i] (e, por vezes, também de [u]),
eds. ss.. cap. V). entre consoantes ou no final de palavra depois de uma
(d) A consoante, situa-se no nível pós-Iexical e quase sempre
dissimila depende do registo de fala, ocorrendo geralmente na fala
ção dos coloquial (p.ex. meter [mtér], despegar [dSpgár], bate [bátl,
dois toque [t31c]).
element
os dos Em (a)-(e) estão indicados alguns dos processos mais frequentes nas
ditongos línguas do mundo — velarização, palatalização, assimilação, inserção,
nasais dissimilação e supressão — que, por serem pós-Iexicais nos casos
nas referidos, não têm em conta marcações nos itens lexicais nem se
terceiras relacionam com a estrutura interna da palavra, e não admitem
pessoas excepções sistemáticas 12 . Na origem destes processos estão factores
do plural de vária ordem como os de carácter articulatório (modificações do
dos aparelho fonador para facilitar a pronúncia de sons em sequência) e
verbos, perceptivo (inserção de segmentos ou dissimilação de dois segmentos
passand seguidos), e factores sócio-linguísticos como o contacto com outras
o a línguas.
vogal
[õ] a
[+recuad
a], ou Leituras Complementares
seja, [El,
e assim Faria, Isabel Hub, Carlos Gouveia, Emília Pedro e Inês Duarte, (orgs.),
se
1996 Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. Lisboa: Caminho.
distancia
(Capítulo 4)
ndo da
semivog
al [— Mateus, Maria Helena Mira,
recuada]
1975 Aspectos da fonologia portuguesa. Lisboa: Centro de
[j]
Estudos Filológicos (segunda edição revista, Lisboa:
([bátõjl
INIC, Textos de Linguística 6, 1982).
—¥
[bátñïl).
A Mateus, Maria Helena Mira, Ana Maria Brito, Inês Duarte, Isabel
realizaçã Faria, Sónia Frota, Fátima Oliveira, Gabriela Matos, Marina Vigário e
o de /e/ Alina Villalva,
fonológi 2003 Gramática da Língua Portuguesa. 5a edição revista e
co como aumentada. Lisboa: Editorial Caminho. (Capítulo 25.4).

228
229
Sugestões de soluções para as actividades propostas

I. Por que se pode dizer que "no português europeu todas as vogais podem ocorrer em sílaba
átona"?. Justifique com exemplos e distinga as regu : aridades das excepções.

Resolução:

Embora haja uma regra geral que reduz as vogais em sílaba átona (Ia/ —+ /e/, /e/ [i]; /o/, Io/ [u]),
as vogais [e], [el, [o] e [OI também podem ocorrer nas circunstâncias seguintes:

(a) se a Silaba em que ocorrem for terminada por (p.ex. beldade


[be+dádi], voltar [vo+tárl) ou se estiverem integradas num ditongo
(p.ex. gaitinha [gajtíJ1el, coitado [kojtádul);

(b) se ocorrerem em palavras com os sufixos z-avaliativos (p.ex. veuzinho


[vewzou]) ou o adverbial —mente (p.ex. cortesmente [kurte3mêti]);

(c) se estiverem marcadas no léxico como não sujeitas às regras gerais (p.ex. inspecção
[ïSpesñW], redacção [RidasñW]).

2. Diga por que se deve considerar que os processos do vocalismo átono e da nasalização em
português são processos lexicais e não pós-Iexicais.
Resolução:

O processo do vocalismo átono tem em conta a marcação, nos itens lexicais, das vogais que não
estão sujeitas a redução considerando assim a existência de excepções às regras gerais. Tem,
igualmente, em conta a estrutura interna das palavras como as que incluem sufixos z-avaliativos e
o adverbial —mente.
O processo da nasalização opera por meio de um segmento que se realiza foneticamente de duas
formas — ou nasalizando a vogal ou consonantizando-se como [n] (p.ex. irmão/ irmanar), não
dependendo do falante a realização quer da nasalização, quer da consonantização.

Estas condições são aquelas a que obedecem os processos lexicais, ao passo que os pós-Iexicais
aceitam variação de aplicação dependendo do registo de fala (ou do próprio falante) e não tomam
em conta a construção das palavras, isto é, a sua estrutura interna.

230
231
Explicação: Uma Raiz [—consonântica] indica uma vogal. Se for [—recuadal e [—altal, em
português pode ser /e/ ou /E/. O segmento nasal não tem posição no esqueleto (só tem Raiz) e
quando nasaliza a vogal, associa-se à Raiz da vogal que se realiza como [—baixa], ou seja,

5. Dê exemplos dos processos pós-Iexicais do português indicados em 5.3.3.,


explicando cada um deles.
Resolução:

Velarização do m: Em final de sílaba, o ,11/ realiza-se com um ponto de articulação secundário


que corresponde ao traço [+recuadol. Exemplo: maldade [ma+dádil

Palatalização do/s/: Em final de sílaba o /s/ realiza-se como [3] ou [SI conforme a consoante
seguinte é vozeada ou não-vozeada, por assimilação do traço de vozeamento. Exemplos: desbaste
[di3báSti], caspa [káSpe]

Inserção de uma semivogal: Em final de palavra terminada em vogal nasal realiza-se


foneticamente um ditongo pela inserção de uma semivogal nasal. Este processo aplica-se de
forma sistemática nas formas verbais de terceira pessoa do plural. Exemplos: falam /fal+ñ/ —+
[fálñW].

Dissimilação dos elementqs de ditongos: Nos ditongos nasais como os das terceiras pessoas do
plural dos verbos, resultantes da inserção de uma semivogal ou nos ditongos orais [ejl ocorre uma
dissimilação do primeiro elemento em relação ao segundo, passando as vogais [ê] ou [el, [—
recuadas], respectivamente a [Ê] ou [+recuada], distanciando-se assim da semivogal [—recuadal.
Exemplos: sabem /sab+ê/ —+ [sábûï]; areia [eréje] —+ [eóje].

Supressão da vogal átona li]: Entre duas consoantes, ou depois de consoante e em final
de palavra, a vogal átona [i] é suprimida na fala coloquial. Exemplos: dever [dvérl,
sabe [sábl.

6. Mostre como os processos pós-Iexicais podem distinguir dialectos e variedades de


uma língua. Exemplifique e justifique.
Resolução:

A velarização do /1/ em português europeu pode considerar-se um estádio intermédio para a sua
semivocalização que se verifica na maioria dos dialectos brasileiros. Existe uma relação fonética
entre o velarizado, com um ponto de articulação [+recuado], e a semivogal [+recuada].

A supressão, em português europeu, da vogal [i] entre consoantes e a manutenção dessa vogal
como alta, [i], no português brasileiro são dois aspectos peculiares dessas duas variedades
resultantes de processos pós-Iexicais que mais claramente servem para as distinguir.

Uma das diferenças evidentes entre o dialecto de Lisboa e grande parte dos restantes dialectos do
português reside na dissimilação dos dois elementos do ditongo [ej], passando [e] a [+recuada], e
assim se distanciando da semivogal [j], [—recuada].

232
7. Diga quais são os segmentos envolvidos nesta regra e que tipo de assimilação ela
representa.

x x

Raiz [+cons]
[+contínuo] p. A.C.

Coronal

[+anteriorl

Resolução:

Segmentos envolvidos na regra: o /s/ ([+cons, —soan, -econtínuo, +anterior]) e a


consoante seguinte de que assimila o traço dependente do nó Laríngeo (tornase [+1 ou
vozeada conforme o traço dessa consoante).

233
6. A Prosódia
serem À frente de cada um dos constituintes encontra-se o símbolo que o
nãoacentuadas. Por representa. A hierarquia de constituintes foi estabelecida e discutida
outro lado, numa extensamente pela primeira vez em Nespor e Vogel (1986). Os constituintes
sequência de mais apresentados pelas autoras integram, além dos que analisamos neste capítulo,
de que uma palavra, os constituintes enunciado, sintagma fonológico e pé, que aqui não figuram
existem por duas razões: ou não se situam nos limites da fonologia (como o
proeminências de enunciado, o constituinte mais alto na hierarquia prosódica) ou exigem uma
acento relacionadas análise que ultrapassa os objectivos desta obra (como o pé, acima da sílaba e
hierarquicamente o sintagma fonológico acima da palavra prosódica)2.
(acento principal e
acentos A estrutura interna da sílaba baseia-se em informação fonológica. A análise
secundários). deste constituinte em português é desenvolvida em 6.2. Trata-se de uma
unidade mais vasta do que o segmento, que tem um funcionamento próprio
A relação (mesmo quando é constituída por um único som) e que está intimamente
hierárquica de relacionada com o ritmo da fala. Em 6.3. é tratado o traço prosódico acento
acentos em em português. No que respeita à palavra prosódica no português, a sua
interacção com os delimitação depende do acento de palavra e pode estar relacionada com
tons e com a processos morfológicos e de fonética sintáctica, ou seja, processos que
duração dos sons ocorrem entre duas palavras que estão relacionadas sintacticamente (p.ex., a
determina a pronúncia da vogal final de disse quando seguida de um pronome átono:
organização da disse-o [dísju]]). A análise deste constituinte é feita em 6.4. O sintagma
sequência em entoacional é um constituinte prosódico caracterizado e delimitado pela
constituintes sequência de acentos e de tons, e situa-se na interface entre a fonologia e
prosódicos que, por outros domínios da língua como a sintaxe e a semântica. A sua análise na
sua vez, também língua portuguesa é desenvolvida em 6.5. Todos estes factos prosódicos
mantêm entre si contribuem de modo essencial para o ritmo e a entoação da fala.
uma relação
hierárquica. Para uma visão de conjunto sobre os constitu intes prosódicos em português, consulte-se Frota c
Vigário (2003), capítulo 26.3.
Veremos adiante
que algumas regras
têm como domínio
(ou são específicas
de) um certo
constituinte e não
se aplicam no
constituinte mais
alto na hierarquia.

Os constituintes
prosódicos que
tratamos neste
capítulo
relacionam-se pela
seguinte hierarquia:

entoacional

Palavra
( o)

(o)

240
Leituras Alina Villalva, 2003 Gramática da Língua Portuguesa. 5 a edição revista e
aumentada.
Complementare
Lisboa: Editorial Caminho. (Capítulo 26.3)
s

Frota, Sónia e
Vigário, Marina, Actividades
2003
Constituintes 1. Explique a diferença entre o nível prosódico e o nível segmental
prosódicos. In de uma língua.
Mateus et CII. :
26.3.
2. Apresente argumentos que apoiem a afirmação de que a fonologia
Nespor, Marina e autossegmental tem vantagem para a análise das unidades prosódicas de uma
Irene Vogel, língua. Exemplifique.
1986 Prosodic
Phonology.
Dordrecht: Foris
Publications. Sugestões de soluções para as actividades propostas
Capítulo I.
l. Explique a diferença entre o nível prosódico e o nível segmental de uma
Mateus, Maria língua.
Helena Mira, Ana
Maria Brito, Inês Resolução:
Duarte, Isabel
Faria, Sónia Frota, No nível prosódico encontram-se as propriedades inerentes dos sons —a
Fátima Oliveira, intensidade, a altura e a duração — que podem funcionar como propriedades
Gabriela Matos, distintivas diferenciando significados ou como propriedades delimitativas,
Marina Vigário e para segmentar a sequência sonora. O acento e os constituintes prosódicos —
sílaba, palavra prosódica e sintagma entoacional — resultam das
propriedades prosódicas dos sons e contribuem para a organização do
enunciado.
O nível segmental é constituído pelos segmentos — consoantes, vogais e
semivogais — que estão organizados em sistema e possuem propriedades
articulatórias e acústicas que os distinguem entre si.

2. Apresente argumentos que apoiem a afirmação de que a fonologia


autossegmental tem vantagem para a análise das unidades prosódicas de
uma língua. Exemplifique.

Resolução:

A fonologia autossegmental é uma teoria multilinear segundo a qual os


níveis fonológicos (prosódico e segmental) bem como os constituintes de
cada nível são autónomos embora estejam inter-relacionados. Tal permite
que, no nível prosódico, as unidades constituintes possam ser maiores do
que as do nível segmental e, portanto, envolver mais do que um segmento
ou persistir para além da sua supressão.

Esta autonomia pode exemplificar-se com o facto de, nas línguas tonais,
um tom adstrito a uma vogal de uma forma verbal poder, em outra forma
em que tal vogal seja suprimida, incidir na vogal que se encontre mais
próxima.

242
Estes aspectos do funcionamento da fonologia das línguas só podem ser
tratados com uma teoria multilinear como a autossegmental, em que os
elementos (níveis, constituintes prosódicos, segmentos e traços) são
autónomos.

243
6.2 A sílaba

Objectivos e resumo

Nesta secção, pretende-se que os alunos:

• adquiram a informação necessária sobre os instrumentos gramaticais do modelo silábico de


'Ataque-Rima' , com vista à descrição da estrutura interna da sílaba;

• operem com estes instrumentos gramaticais no sentido de procederem à descrição da estrutura


interna das sílabas em português;

• dominem a tipologia de constituintes silábicos no português;

• Argumentem no sentido da relação entre os constituintes silábicos e os processos fonológicos


activados no português;

• saibam quais os princípios universais que regem as relações de vizinhança entre os


segmentos no interior da sílaba.

Para que os alunos sejam capazes de cumprir os objectivos supra-mencionados, far-se-á, nesta secção,
uma apresentação do modelo de descrição da estrutura interna da sílaba designado por modelo de
'Ataque-Rima'. Em seguida, e usando os instrumentos gramaticais fornecidos por este modelo, será
efectuada uma descrição da estrutura dos vários constituintes silábicos (Ataque, Rima, Núcleo e Coda)
no português. Esta descrição referirá as estruturas silábicas mais frequentes e deter-se-á em algumas
sequências problemáticas no domínio de alguns destes constituintes. Serão, ainda, fornecidos
argumentos para a vantagem da utilização dos constituintes Ataque, Rima, Núcleo e Coda na descrição
das sílabas. Finalmente, apresentar-se-ão princípios universais que permitem explicar a naturalidade de
certas sequências de segmentos possíveis dentro da sílaba e o carácter irregular de alguns
agrupamentos segmentais, ilustrando-se a aplicação desses mesmos princípios a estruturas silábicas do
português.

6.2. I Introdução

Ao observarmos a estrutura interna de uma palavra, podemos identificar


constituintes internos de diferentes naturezas. Numa perspectiva segmental, a
palavra livrinhos é constituída por oito segmentos ([l-i-v-f-i-J1-u-fl). Sabemos que
estes segmentos se agrupam em constituintes morfológicos (ao radical [livrl,
anexam-se o sufixo derivacional [iJ1], o sufixo do masculino [u] e o sufixo do
plural [S]). Os mesmos segmentos podem agrupar-se em unidades prosódicas a
que chamamos sílabas ([li.vri.J1uf]). De acordo com estudos experimentais da
área da psicolinguística, os falantes de uma língua são capazes de identificar
intuitivamente as sílabas de muitas das palavras da sua língua. Os mesmos estudos
revelam que a tarefa de segmentar uma palavra em sílabas ([li.vri.J1uS]) é
cognitivamente mais simples do que a tarefa de a segmentar em sons isolados (([l-
i-v-r-i-J1-u-J]). No caso do português, indivíduos não alfabetizados ou crianças
em fase pré-escolar facilmente isolarão as sílabas das palavras panela [pe.ne.le] ou
pecado [pi.ká.du]. Porém, qualquer falante do português terá dificuldade em
identificar as fronteiras silábicas na palavra abstracto [ebStrátu]: a divisão silábica
da palavra será [e.bStrá.tu], [e.bS.tra-.tu], [eb.Stra.tu] ou [ebS.tra'.tu]?
Dificilmente imaginaremos, no entanto, um falante que coloque [ebSt.rá.tu] ou
[ebStr.a.tu] como hipóteses de divisão silábica da palavra em foco. A observação
das propriedades inerentes ao modo como os sons se organizam nas unidades
prosódicas a que chamamos sílabas e o recurso a instrumentos da teoria linguística
que espelham a presença dessas propriedades nas várias línguas do mundo
permitem-nos dizer por que razões é fácil a tarefa de identificar as sílabas das
palavras panela e pecado e difícil a tarefa de dividir silabicamente a palavra
abstracto. Mais ainda, é a teoria linguística que nos fornece os meios para
dizermos que hipóteses de atribuição de fronteiras silábicas são mais naturais, face
a uma palavra que coloca problemas relativamente à identificação das suas sílabas
por parte dos falantes.
Numa perspectiva tradicional, as sílabas são entendidas como unidades que
reúnem sons em grupos prosódicos internos à palavra, os quais se caracterizam (i)
por exibirem sempre uma vogal e (ii) por serem produzidos num só movimento
expiratório. Veja-se, a título exemplificativo, a definição de Cunha & Cintra
(1984: 52-53):
"Quando pronunciamos lentamente uma palavra, sentimos que não o fazemos
separando um som do outro, mas divi dindo a palavra em pequenos segmentos
fónicos que serão tantos quantas forem as vogais. Assim, uma palavra como
alegrou não será por nós emitida como a-l-e-g-r-o-u

para revisão da referência ao conceito de sílaba nos programas de português, consulte-se Freitas &
Santos 2001.

244
: O modelo é apresentado Como veremos nas próximtus secções, a unidade linguística Silaba é

or Selkirk 1982; para uma mais complexa do que aquilo que a tradição gramatical deixa
revisào dos modelos de
descriçäo sa sílaba. transparecer: (i) apresenta uma estrutura interna descritível em termos
consulte-se Blevins 1995. de padrões universais regulares; (ii) os seus constituintes estabelecem
mas sim: relações hierárquicas entre si e com os segmentos que lhes estão
a-le-grou associados e (iii) são domínio de activação de processos fonológicos.
A cada vogal Neste capítulo, apresentaremos os instrumentos da teoria fonológica
ou grupo de que nos permitem descrever a estrutura das sílabas nas línguas do
sons mundo, tanto em termos da identificação dos seus constituintes
pronunciado internos como no que diz respeito à activação de princípios universais
s numa só que regem a sequencialidade dos segmentos dentro da sflaba.
expiração Procederemos, ainda, à descrição do funcionamento da Silaba no
damos o português europeu.
nome de
SÍLABA.".

Embora
frequentemente 6.2.2 Os constituintes da sílaba
referido no percurso
da escolaridade , o Como já foi referido em 5.3., a referência à sílaba enquanto unidade
trabalho sobre a linguística é praticamente inexistente nos modelos fonológicos que
sílaba limita-se precedem a fonologia autossegmental. Surgem, neste quadro teórico,
quase sempre à os primeiros modelos linguísticos que fornecem os instrumentos
execução de tarefas necessários para a descrição da estrutura interna da sílaba e para o
como: estabelecimento da relação entre posições silábicas dos segmentos e
processos fonológicos que os afectam. Dos modelos disponíveis na
- a contagem literatura sobre o assunto, apresentamos aqui o que tem sido adoptado
do número de na descrição do português europeu: o modelo de ' Ataque-Rima ' 2.
sílabas na Neste modelo, a unidade sílaba não domina directamente as unidades
palavra; segmentais: estas unidades
-a classificação
das sílabas
da palavra
em abertas
(as que
terminam
em vogal) e
fechadas (as
que
terminam
em
consoante);

-a classificação
das sílabas
da palavra
em tónicas e
átonas,
aspecto que
remete para
o facto
prosódico
'acento' e
não para a
estrutura da
sílaba.
segmentais agrupam-se em constituintes de planos intermédios, que são dominados
pelo nó máximo, i.e, o nó sílaba. Veja-se a representação em (1):

(I ) Os constituintes silábicos
Sílaba

Ataque

Núcleo Coda

Assim, no modelo de 'Ataque-Rima', a sílaba é uma unidade prosódica


hierarquicamente organizada em constituintes silábicos:
- no nível (ou fiada) da sílaba, o nó sílaba (ó) domina os constituintes
Ataque (A) e Rima (R);
no nível (ou fiada) da Rima, o Ataque e a Rima são nós irmãos, sendo que
a Rima é constituída por um Núcleo (Nu) e por uma Coda

- os constituintes terminais (Ataque, Núcleo e Coda) estão associados a


posições rítmicas, ou seja, a posições de esqueleto, no nível (ou fiada) do
esqueleto (para mais informações sobre as posições de esqueleto, cf.
6.2.4.)•,

- os constituintes podem ramificar em duas posições; no caso de um


constituinte terminal, a não ramificação corresponde a uma posição no nível
do esqueleto e a ramificação corresponde a duas posições no nível do
esqueleto;

- cada posição rítmica ou de esqueleto pode ou não estar associada a um nó


Raiz (que introduz a representação de um segmento em Geometria de
Traços), no nível segmental (consulte-se 5.2.5.).

Em (2), é feita a representação da única sílaba da palavra mel:


(2) Representação de uma sílaba no modelo de 'Ataque-Rima '
Nestes casos, diz-se que o constituinte Rima é ramificado.

246

nível (ou fiada) da sílaba

nível (ou fiada) da Rima

Nu Cd

x x x nível (ou fiada) do esqueleto

nível (ou fiada) segmenta/


Sobre 0 preenchimento segmentaI opcional de alguns constituintes silábicos, consulte-se a secçåo 6.2.3. simples)5 .
Este
Sobre a representaçäo dos segmentos em Geometria de Traços. consulte-se 5.2.5. por uma questão de
constituinte
simplificaçäo da exposiçào, nesta secçño. os nós Raiz serão sempre substituídos pelos símbolos admite a
fonéticos dos segmentos dominados por uma dada posiçäo da fiada do esqueleto. presença de
Com se pode verificar na representação em (2), o Ataque domina as consoantes qualquer
que ocorrem à esquerda da vogal da sílaba, podendo não estar segmentalmente consoante
preenchid04. A Rima domina os constituintes Núcleo e Coda. O Núcleo é o do
constituinte responsável pela existência da unidade sílaba, logo, está pre Lente português:
em qualquer sílaba de qualquer língua e domina, no mínimo, uma vogai. A Coda
domina as consoantes à direita do Núcleo e pode não estar segmentalmente
preenchida. Os constituintes terminais Ataque, Núcleo e Coda dominam posições
rítmicas na fiada do esqueleto, que podem estar segmentalmente preenchidas ou
vazias. Na representação em (2), os símbolos fonéticos [m], [e] e O] substituem
os nós Raiz que dominam a estrutura em Geometria de Traços correspondente a
cada um dos três segmentos5 .

6.2.3 Descrição da estrutura silábica do português

Nesta secção, apresentaremos os tipos de constituintes silábicos presentes no


português europeu e o material segmental associado a cada um desses
constituintes.

Ataque

O constituinte Ataque pode dominar uma consoante, duas consoantes ou pode


ainda não estar segmentalmente preenchido. Estas três possibilidades estruturais
determinam a ocorrência de três tipos de Ataques: Ataque ramificado, no caso de
dominar duas posições de esqueleto correspondentes a duas consoantes, e Ataque
não ramificado, no caso de dominar uma posição de esqueleto associada a uma
consoante (simples) ou a nenhuma (vazio):

(3) Tipologia de Ataques em português

simples não ramificado

Ataquevazio

ramificado

A mais frequente das três 5 De acordo com Andrade &


estrutura é o Ataque não ramificado simples (Ataque Viana 1994 e com Vigário &
Falé 1994.

247
(4) Ataques não ramificados simples ue se verifica
com os
(a) oclusivas [p]er.diz [R]i.no.ce.ron.te simples (cf.
[b]er.bi.gäo exemplos em
(4)), podem
Nu
[t]or.do ocorer tanto
A representação de um Ataque não
per.[d]iz ramificado simples é a que se apresenta no início
em como no
[kla.me.lo p interior da
(5), aplicada ao Ataque da única sílaba da palavra:
[g]a.to palavra pé:
O (6) Ataqu
(b) fricativas
s es não
e.le.[f]an.te ramifi
A
ta cados
[vla.ca
q vazios
[s]a.po
u
[z]e.bra es
n
[S]a.cal
ã
[31a.ca.ré
o
ra
(c) nasais m
[m]a.ca.co if
ic
tu.ca.[n]o
a
a.ra.lp]a d
o
(d) laterais [Ilon.tra s
v
az
io
s,
(e) vibrantes à
i
m

Sobre os princípios (5) Ataque não ramificado simples na sílaba da palavra


que regem as a
relações de
vizinhança g
segmental na sílaba. e
ver 6.2.5.
m
d
o
q

248
(a) ra (b) interior da palavra _á.guia

i co.to.vi._a

n _é.gua co. e.lho


í Tanto a palavra pé [pe] como a palavra é [el apresentam
Ataques não ramificados. A diferença reside no facto de [PE]
c
ter um Ataque não ramificado simples, associado a uma
i consoante, enquanto [e] apresenta um Ataque não ramificado
segmentalmente vazio (Ataque vazio), representado em (7):
o
(7) Ataque não ramificado vazio na sílaba da palavra<é>

e Nu

l O português exibe, ainda, Ataques ramifieados (ou Ataques


complexos), que são constituídos por duas consoantes. Nem
a todas as combinatórias de consoantes são possíveis no
domínio de um Ataque?. Neste contexto, é possível encontrar
v sequências de obstruinte + líquida: a estrutura mais frequente
em

português é a de oclusiva + líquida (a lateral II/ ou a vibrante W), ocorrendo


também a sequência de fricativa + líquida:

(8) Ataques ramificados


(a) oclusiva+vibrante IR/ [Pfle.to
[br]an.co
[tr]o.va.dor

[kr]i.na

(b) oclusiva+lateral ,11/ [pl]u.ma

249
(9) Ataque
ramificado
na sílaba
[kl]i.ma en. inicial da
[gl]o.bar
palavra
<crina>
(c) fricativa-evibrante IR/ [fr]í.vo.lo

Se observarmos as
sequências de
consoantes
possíveis em
(d) fricativa+lateral II/ a.[fl]u.en.te português,
No modelo com que estamos a trabalhar, um Ataque ramificado projecta duas registamos não
posições de esqueleto, às quais estão associadas as duas consoantes que o apenas grupos de
constituem. Veja-se a representação do Ataque da sílaba inicial da palavra crina obstruinte + líquida
[krínel: mas outras
combinatórias:

(IO) Outros grupos


consonânticos

(a) oclusiva-eoclusiva helicó[pt]ero

ra[pt]or

pa[kt]o

(b) oclusiva+fricativa
Ia[ps]o
a[bs]urdo

(c) oclusiva-enasal

[pn]eu
aLdm]i.rar

250

Nu

x
k
(d) fricati va-yoclusiva a[ft]a
[ftlálico

(e) nasal+nasal Estas sequências consonânticas ilustradas em


(10) são consideradas problemáticas, na literatura relevante, para efeitos de
identificação das fronteiras da(s) sílaba(s) que a(s) contêm. No caso da palavra
admirar [edmirár], por exemplo, a fronteira silábica está antes do grupo
consonântico [dm] ([e.dmi.rár]) ou entre as duas consoantes do grupo ([ed.mi.rár])?
Se os grupos consonânticos listados em (IO) forem Ataques ramificados, a
atribuição de fronteiras silábicas será [e.dmi.rár]. Esta análise, para além de
implicar a violação de princípios de boa formação silábica (como se verá em 62.5),
não capta a assimetria de comportamento entre estes grupos consonânticos
problemáticos e os Ataques ramificados de tipo obstruinte + líquida:
(i) no português do Brasil, regista-se a inserção da vogal [i] entre as duas
consoantes dos grupos em avaliação; tal não se verifica nos Ataques ramificados
ilustrados em (8), com sequências de obstruinte + líquida (veja-se o contraste entre
(11a) e (l I b)):
(II) Português do Brasil
(a) (impos problemáticos (b) Ataques ramificados
[br]anco
e não

251
[Pl]uma e não pro
ble
[pin]eu [kr]avo e não mát
icos
a[fl]uente e nûo
: a)
as
pri
a[min]istia [fr]ívolo e não *[fir]ívolo
mei
ras
pro
(ii) Em registos coloquiais do português eumpeu, é possível identificar
duç
produções com inserção da vogal [i] nas palavras com grupos consonânticos
ões
plX)bIemáticos, tal como em [pin]eu ou a[dimlirar: a vogal [i] é produzida entre
de
as duas consoantes do grupo consonântico, criando-se, assim, estruturas
pala
silábicas de tipo CV, não problemáticas ([á.fi.te]).
vras
(iii) Argumentação empírica adicional a favor da distinção entre os Ataques do
ramificados ilustrados em (8) e os yupos consonânticos referidos em ( I O) é tipo
provida pelo trabalho na área da aquisição do português como língua materna. Lat
Palavras contendo sílabas com Ataques ramificados estão presentes desde cedo o e
nas produções das crianças (como, por exemplo, em puato, luincar, fruta braço); trin
pelo contrário, palavras com os grupos problemáticos em observação são car
praticamente inexistentes e só surgem tardiamente no ptt)cesso de apr
desenvolvimento linguístico da crianças . Por outro lado, as estratégias usadas ese
na produção de Ataques ramificados não são atestadas na produção dos grupos nta
consonânticos m
ape Nu
Informaçöes fornecidas em Freitas 1997. nas
a
pro
duç
ão
da
con
soa
nte
ocl
usiv
a,
sen
do Nu
que
a
líqu
ida,
i.e.,
a
seg

252
unda consoante, é sistematicamente suprimida ([pátu]; (a) A
[Flkál); b) pelo contrário, as primeiras produções de pneu At R
não seguem este padrão, i.e., não é atestada a produção aq i
[péw], na qual a segunda consoante (In]) seria apagada. ue m
Os dois grupos consonânticos têm, assim, tratamentos si a
distintos no percurso da aquisição da fonologia do mp é
português. les o
(b) ú
Sabe-se que palavras com os grupos consonânticos At n
ilustrados em (IO) são pouco frequentes em português. Os aq ic
argumentos acima listados são usados ue o
para fundamentarem a análise na qual se assume que as va c
duas consoantes do Consulte-se Mateus & zio o
Andrade 2000. grupo não estão no domínio do mesmo nó silábic0 9; assim, e (c) n
tendo em conta a presença de uma vogal epentética At st
entre as duas consoantes do grupo (fil no português do aq it
Brasil e [i] no português europeu), postula-se a ue u
existência de um Núcleo vazio entre as consoantes; no ra i
caso de pneu, logo cada um dos segmentos em causa é mi n
Ataque não ramificado de duas sílabas distintas e fic te
adjacentes, como se pode observar na representação em ad n
( 12a): o ã
o
(12) (a) Representação da palavra
c
(b)A palavra no português do Brasil
(c) A palavra no português Sumariando,
europeu coloquial existem três
tipos de
estruturas te
associadas a r
Ataques em m
português: i
n
(13) Tipos de al
Ataques em ,
português q
u
e
A presença de um Núcleo vazio entre as duas consoantes do d
grupo, representado em (12a) - (ra[pØt]or, albØslurdo, o
[pØn]eu, a[fØt]a e a[mØn]istia ), legitima, assim, a m
presença de uma vogal epentética, obrigatória em muitos i
dialectos do português do Brasil (121)) e possível em n
registos coloquiais do português europeu (12c). a
o

253
s constituintes terminais Núcleo e Coda 10. Assim, a Rima ramificado.
pode apresentar um formato não ramificado (Rima não á Num Núcleo
ramificada), com presença apenas do Núcleo, ou pode não
ramificar em Núcleo e Coda (Rima ramificada). Os exemplos ramificado
em (14a) contêm sílabas com Rimas não ramificadas; em (cf. ( 16a)),
(14b), listam-se palavras que possuem sílabas com Rimas pode ocorrer
Núcleo
ramificadas: qualquer
Na secção 6.2.4, apresenta-se motivação para a consideração deste constituinte uma das
Como já foi
na representaçäo da estrutura interna da sílaba. nove vogais
referido, a
(14) Rimas orais e cinco
presença do
vogais nasais
(a) Rimas não ramificadas (b) Rimas ramificadas Núcleo implica
do português
a existência da
(vejam-se os
plál p[árl plájl plájfl Rima, que, por
exemplos pá
sua vez,
[pá], pé [PE],
projecta o nó
pó [pá], sede
sílaba. Por
[sédi], lobo
outras
Independentemente da natureza do Núcleo ou da Coda, [lóbul,fita
palavras, a
uma Rima é ou não ramificada em função da presença ou da [fite] para as
presença de
ausência da Coda, respectivamente. Por outras palavras: (i) nove vogais
um Núcleo é
uma Rima não ramificada só apresenta um Núcleo; (ii) uma orais e os
responsável
Rima ramificada apresenta um Núcleo e uma Coda. Assim, exemplos Ic7
pela presença
os dois tipos de estruturas da Rima são representados em [lñ)l, lençol
de uma sílaba.
( 15): Em português,
este
(15) Tipos de Rimas (na sílaba de e na sílaba de
constituinte
(a) Rima não ramificada (b) Rima ramificada está sempre
associado a
segmentos [—
consonânticosl
, i.e., um
Núcleo pode
dominar uma
Nu Nu
vogal ou uma
Cd
sequência de
vogal e
x x x x semivogal. No
primeiro caso,
x trata-se de um
Núcleo não
ramificado; o
segundo caso
corresponde a
um Núcleo

254
tom [tô] e rum [Rü] para as cinco vogais nasais). Do mesmo modo, todas as combinatórias de
vogal + semivogal apresentadas em (8) na secção 5.1.3. são possíveis no domínio de um Núcleo
ramificado.

(16) Núcleos
(a) Núcleo não ramificado (b) Núcleo
ramificado
m[á]s m[áw]s
p[5] b[ój]
c[ew]
Como se pode verificar pelos exemplos em (16), um Núcleo não ramificado ocorre em Rimas
ramificadas (mó) e em Rimas não ramificadas (pó); do mesmo modo, um Núcleo ramificado
coexiste com Rimas ramificadas (maus) e com Rimas não ramificadas (boi). Em (17), são
apresentadas as estruturas dos dois tipos de Núcleos possíveis em português:

(17) Tipos de Núcleos (na sílaba de <pó> e na sílaba de (a) Núcleo não

ramificado (b) Núcleo ramificado

Nu

x x

5 s w

Na tradição gramatical, as sequências de vogal e semivogal têm designações diferentes em


função da ordem em que os dois segmentos surgem: (i) um ditongo decrescente é constituído por
uma sequência de vogal + semivogal (como em céw [sewl, em (17b)); (ii) um ditongo crescente é
constituído por uma sequência de semivogal + vogal (como em tear [tjár]). No caso dos ditongos
crescentes, o contraste em (18) mostra que, mesmo em estrutura de superfície, a sua produção
coexiste com a produção de uma sequência de vogais (t[uá]lha ou [twá]lha), embora as formas de
(1 81)) - [tvvá]lha - sejam mais frequentes do que as de (18a) - [tucí]lha -, no registo coloquial.
Nestes casos, a semivocalização da vogal da esquerda corresponde a uma estratégia de resolução
do hiato (i.e., da sequência de duas vogais) existente na estrutura fonológica da palavra:

(18) Alternânciafonética entre sequências VV e sequências GV


m[ue]r dljélta
m[iúldo tLjálr

A possibilidade de ocorrência, para uma mesma palavra, de uma forma com a sequência vogal + vogal (08a))
e de uma forma com a sequência semivogal + vogal ((18b)) mostra que a estrutura fonológica contém duas
vogais. Assim, fonologicamente, não há ditongos crescentes, facto que leva a designar estas estruturas como
falsos ditongos, por oposição à designação de verdadeiros ditongos atribuída aos ditongos decrescentes (como
o da primeira sílaba da palavra pauta [páwte]).

Coda

Como já foi referido, a Coda domina as consoantes que ocorrem à direita do Núcleo. O comportamento das
Codas difere muito de língua para língua. Sistemas com estruturas silábicas mais complexas, como é o caso
do inglês e do holandês, podem apresentar Codas ramificadas, i.e., Codas que dominam duas consoantes:

(19)

(a) inglês (b) holandês meu 'derreter' staart 'cauda' past 'passado' melk

'leite'
Pelo contrário, há línguas, como as do grupo Bantu, que não apresentam constituintes silábicos ramificados,
logo, não apresentam consoantes em Coda, i.e., a Rima não ramifica. No português, como em muitas outras
línguas, a Coda tem uma estmtura simplificada e impõe fortes restrições ao inventário segmental que lhe está
associado:
(20) Codas

(a) consoante /s/ (b) consoante II/ (c) consoante Ir/


maftl.va e[r].bá.rio
paT].ta.gem coft].mo

po.ma[r]
a[31 .ma ca.naftl a.gri.cul.to[r] Cd
Em (20a), estão ilustradas ocorrências dos alofones [S, 3] do segmento fonológico
/s/ll em Coda; em (20b), surgem casos de produção do alofone [+] do segmento
fonológico /1/12 em Coda; finalmente, (20c) ilustra a possibilidade de produção de x
Ir/ em Coda. Esta descrição permite a seguinte generalização: a Coda em
português não ramifica e domina um elenco de consoantes reduzid0 13, sendo
todas coronais. Veja-se a seguinte representação da sílaba inicial da palavra ú
3
musgo:

(21) Coda

256
Contrariamente ao
que a ortografia
sugere (campo;
leucla,• constante), o
português não
apresenta consoantes
nasais em Coda.
Assume-se que, no
nível fonológico, as
vogais nasais
detectadas em
superfície [É, e, i, õ,
ü] são representadas
da
Sobre a natureza segmental
de IS/ em Coda. consulte-se
5.1.4

Sobre a alternância relativa


ao fonema III, veja-se 5.1.4.

13
Casos como os de
pers.pectiva e sols.tício
apresentam duas consoantes
em Coda. Porém, o número
de itens lexicais que exibem
esta estrutura é tão reduzido
que não infirma esta
generalizaçüo.

seguinte forma (veja-se o exemplo da palavrafim

257
'8 Para mais detalhes sobre a representação da nasalidade, consulte-se 5.1.4. e 5.3.2. Como se pode
(22) Representação da sílaba da palavra verificar na
representação em
(22), não existem
consoantes nasais em
Coda no português; a
nasalidade da vogal é
representada pelo
autossegmento nasal
associado ao nó
Núcleo e sem
posição de esqueleto
atribuídalS.

Sumariando o que
[+nasal]
temos vindo a referir
nesta secção, o
diagrama em (23)
fomece informação
esquematizada dos
tipos de
configurações
possíveis da Rima
em poltuguês:

(23) Tipologia de
Rimas em
português
não ramificado
(só vogal)

não ramificada = Núcleo ramificado (vogal e


semivogal) não
ramificada (só
vogal)

ramificada
(vogal e
semivogal
)

258
Núcl

ramificada = Coda não


ramificada

6.2.4 Motivação para a existência dos constituintes silábicos


A representação dos constituintes intemos à sflaba (Ataque, Rima, Núcleo e Coda) encontra motivação
em vários aspectos do funcionamento dos sons que constituem esta unidade prosódica. Um dos
argumentos usados para a consideração dos constituintes postulados no modelo 'Ataque-Rima' relaciona-
se com o domínio de aplicação dos processosfonológicos. Nas línguas do mundo, há processos que
afectam apenas as consoantes em Ataque, outros que afectam apenas os segmentos do Núcleo e outros
ainda que envolvem apenas as consoantes em Coda. Retomemos dois dos processos fonológicosjá
descritos:

(i) A velarização de [I/ (,11/ —¥ ft]) dá-se na Coda mas não se verifica no Ataque,
independentemente de este constituinte incluir uma consoante (como em [lí.vru]) ou duas consoantes
(como em [b15.ku]). Veja-se o contraste entre [l] em (24a) e [+] em (24b):

(24)
(a) II/ no Ataque lii'lt) [lí.vru] bloco [b15.ku]

(b) m em Coda papel [pp.pâ] saldo [sá±.du]

No caso do português, é o constituinte que domina a consoante lateral que determina a activação do
processo: a Coda, ao contrário do Ataque, desencadeia a velarização.

(ii) A assimilação do vozeamento por parte do segmento /s/ (/s/ —9 [SI ou /s/ —+ [31) verifica-se
quando a fricativa está em Coda e não quando ela está em Ataque. Veja-se o contraste entre (25a) e (25b):

(25)

(a) Fricativas em Ataque seco [séku] zebra


[zébre]

já [3ál
(b) /s/ em Coda crespo [kréSpu] susto [súStu] resma
[Ré3111B] musgo [mú3gu]

Em (25a), verificamos que o vozeamento de cada fricativa em Ataque não é condicionado pelo
vozeamento do segmento que se lhe segue:

(a) tanto /s/, [—vozeado], como /z/, [+vozeadol, ocorrem à esquerda de


/e/, vogal, logo, [+vozeada];

(b) tanto /S/, [—vozeado], como /3/, [+vozeado], ocorrem à esquerda de W, vogal, logo, [+vozeada].

Pelo contrário, em (25b), pode verificar-se que a fricativa em Coda assimila o vozeamento do segmento
que se lhe segue:

(a) [S], [—vozeada], assume o vozeamento de /p/ e de /t/, ambos

259
[—vozeado];

(b) [31, [+vozeadol, assume o vozeamento de lm/ e de /g/, ambos [+vozeadosl.

Uma vez mais, é a Coda, e não o Ataque, que constitui o domínio de activação do processo fonológico
em observação.

O inventário de consoantes possível nos vários constituintes silábicos é outro argumento usado para
propor a constituência silábica específica do modelo de 'Ataque-Rima'. Como verificámos na secção
6.2.3., em português, o inventário de consoantes em Ataque é muito mais alargado do que o inventário
de consoantes em Coda: (i) em Ataque todas as consoantes são possíveis; (ii) em Coda, apenas
detectamos as fricativas [S, 3] (alofones de (s/) e as líquidas [+] (alofone de [I/) e Este contraste no
inventário segmental possível em cada um dos dois constituinte revela que os constituintes Ataque e
Coda possuem naturezas fonológicas distintas.

Como sabemos, os constituintes terminais Ataque e Coda podem distinguir-se do seguinte modo: o
Ataque domina a(s) consoante(s) em posição pré-vocálica (consoante(s) à esquerda de vogal, dentro da
sílaba, como emprego [pre.gu]); a Coda domina a(s) consoante(s) pós-vocálicas (no português, como
sabemos, não pode ocorrer mais do que uma consoante nesta posição, como em mar [már]). Já o
contraste entre o Ataque e a Coda, por um lado, e o Núcleo, por outro, pode ser efectuado do seguinte
modo: o Ataque e a Coda dominam segmentos [+consonânticos]; o Núcleo domina segmentos [—
consonânticos].

O constituinte Rima tem uma natureza distinta da dos restantes constituintes (Ataque, Núcleo e Coda)
pois é o único constituinte não terminal, isto é, não domina directamente os segmentos mas sim dois
constituintes (Núcleo e Coda). A presença da Rima na representação intema da estrutura da sílaba visa
captar a coesão maisforte entre o Núcleo e a Coda do que a que existe entre o Ataque e o Núcleo. Tal
facto leva à proposta de um constituinte hierarquicamente superior, a Rima, que domina os constituintes
Núcleo e Coda. Vejam-se os exemplos em (26), sendo que as formas com asterisco são agramaticais,
embora sejam as esperadas de acordo com o regular funcionamento do vocalismo átono em português:

(26) Restrição à elevação e ao recuo de vogais átonas em português


maldadee não * [mt*dádi] beldadee não * [bi\dádi]
soldado[so±dádul
e não
Sabemos já que a lateral em Coda bloqueia a elevação das vogais átonas 19 em sílaba com Coda
português. Neste caso, existe uma clara interacção entre a vogal do Núcleo e nasal no Latim; (ii) a
a consoante em Coda. palavra latina
nu.me.ra. re,
Na evolução histórica do português, é possível encontrar um processo que
comAtaques nasais,
ilustra esta coesão forte entre Núcleo e Coda, formalizada através da
evoluiu para
presença da Rima na representação da estrutura da sílaba, por oposição a um
[numirac], que não
maior distanciamento entre o Ataque e o Núcleo. Considere-se o caso das
exibe nasalidade nas
vogais nasais. O português evoluiu a partir de um sistema — o Latim - que
vogais à direita dos
possuia consoantes nasais em Ataque e em Coda mas que não exibia vogais
Ataques nasais.
nasais. O português desenvolveu as suas vogais nasais através da
transferência da informação de tipo nasal da consoante em Coda para o Nos dois casos
Núcleo e não do Ataque para o Núcleo: (i) a palavra latina can.ta.re, com (bloqueio à elevação
Coda nasal na primeira sílaba, evoluiu para [kütar], que exibe uma vogal nasal na da vogal em (26) e

260
comportamento da nasalidade na história do ponuguês) se verifica uma interacção
entre informação segmental no Núcleo e na Coda, inexistente, para os mesmos
segmentos, entre o Ataque e o Núcleo. No sentido de captar formalmente
fenómenos deste tipo observados nas várias línguas do mundo, considera-se a
existência do constituinte Rima na representação da sílaba, que domina o Núcleo
e a Coda.

Como já foi dito, cada constituinte terminal domina posições rítmicas designadas
como posições de esqueleto. Numa língua com contraste fonológico
19
para a listagem dos vários contextos de bloqueio à aplicação das regras de elevação e recuo. consulte-se
'excepções regulares' em
5.3.1.

261
vogais longas e vogais breves, é fácil perceber a motivação para a presença (b) sheep 'ovelha'
deste nível representacional no modelo de 'Ataque-Rima'. Considerem-se as (ISi:pl)
palavras do inglês ship 'navio' e sheep 'ovelha' : (i) a vogal da primeira palavra é
breve ([§ipl); (ii) a vogal da segunda palavra é longa ([Si:pl). As duas constituem
um par mínimo: o facto de a duração da vogal motivar alteração de significado
mostra que a duração vocálica, em inglês, tem valor fonológico. Como captar, no
modelo de 'Ataque-Rima', a diferença entre os Núcleos a que pertencem as duas
vogais? Nestes casos, é clara a necessidade da fiada do esqueleto na
representação: (i) no caso de ship 'navio' ([Sip]), o Núcleo domina apenas uma
Nu
posição de esqueleto (cf. (27a)); (ii) no caso de sheep 'ovelha' ([Si:p]), o Núcleo
Cd
domina duas posições de esqueleto (cf. (27b)).

(27) x
(a) ship 'navio' ([§ip]) x x

Nu Cd
6.2.5 Princípios de organização silábica desta palavra seja
[ó.ku] e não
*[ók.u].
A descrição linguística mostra que certos formatos silábicos
ocorem em todas as línguas e que outros formatos apenas
ocorrem em algumas dessas línguas. A sequência segmental Princípio da
consoante + vogal (CV) está presente em todas as línguas Binaridade
conhecidas, pelo se assume que CV é o padrão silábico universal, Máxima dos
não marcad020 As línguas do mundo revelam ainda padrões Constituintes
regulares na organização dos sons no interior da sílaba. Estes Em fonologia,
padrões regulares são transformados, na teoria linguística, em como em sintaxe,
princípios universais de boaformação silábica, que dão conta da os constituintes
maioria das estruturas silábicas das línguas e que regulam as devem ramificar
relações de vizinhança entre sons no domínio da sílaba. em duas posições.
Como vimos, o
modelo de
Princípio do Ataque Máximo 'Ataque-Rima'
trabalha com o
Dado que os constituintes Ataque e Coda são preferencialmente Princípio da
preenchidos por consoantes, numa sequência VCV, a questão que se Binaridade
coloca é a de saber se C é Coda da vogal à sua esquerda ou Ataque da Máxima dos
vogal à sua direita. Tendo em conta o fomvato silábico universal CV Constituintes ao
(comAtaque e sem Coda), o Princípio do Ataque Máximo postula que o assumir que cada
preenchimento dos Ataques é preferível ao preenchimento das Codas: constituinte é
assim, e de acordo com este princípio, a sequência VCV silabifica como maximamente
V.CV e não como *VC.V. Tomemos como exemplo a palavra oco binário: (i) a Rima
[óku]: o Princípio do Ataque Máximo determina que a silabificação

262
domina só o Núcleo (é não ramificada) ou ramifica em duas posições,
dominando o Núcleo e a Coda; (ii) cada Ataque tem uma ou duas
posições de esqueleto, consoante seja ou não ramificado; (iii) enquanto
constituintes terminais, o Núcleo e a Coda têm as mesmas possibilidades
estruturais que o Ataque: não ramificam ou ramificam em duas posições.

Princípio de Sonoridade
Um dos princípios universais que regem a boa formação silábica
organiza os sons dentro da sílaba em função do seu grau de sonoridade:
trata-se do Princípio de Sonoridade. Este princípio funciona em conjunto
com um outro instrumento de descrição silábica, a Escala de Sonoridade.
Esta escala ordena
20 De acordo com Andrade & Viana 1994 e com Vigário e Falé 1994, cerca de dos formatos
silábicos do português europeu são formatos de tipo CV.

263
Sobre este assunto, consultar Seikirk 1982 e Blevins 1995. primeiro segmento
os segmentos em função do seu grau de sonoridade, os quais se distribuem entre o exiba o grau mínimo
grau mínimo de sonoridade, atribuído às oclusivas, e o grau máximo de de sonoridade e o
sonoridade, atribuído às vogais: segundo segmento
tenha o grau máximo
de sonoridade.
(28) Escala de Sonoridade21 Tendo em conta que
a sílaba universal é
grau mínimo gnu máximo
CV, a sílaba ideal
oclusiva<fiicativ«nasal brante<l «baixa) deve preservar o
formato CV e conter
uma oclusiva (grau
Assim, e de acordo com o Princípio de Sonoridade, deve verificar-se uma subida mínimo de
no grau de sonoridade dos segmentos da margem esquerda da sílaba até ao sonoridade) e uma
Núcleo e uma descida no grau de sonoridade do Núcleo até à margem direita. vogal [a] (grau
Tomemos como exemplo a silaba inicial da palavra claustro [kláwJltro: (i) a máximo de
oclusiva na margem esquerda, temo grau mínimo de sonoridade; sonoridade). A
(ii) segue-se-lhe a lateral [I], com grau de sonoridade superior ao de sflaba da palavra pá
[k], da esquerda, mas inferior ao de da direita; [pá] apresenta,
portanto, um
(iii) o terceiro segmento, corresponde à vogal que é Núcleo da sílaba,
contraste máximo.
tendo-se atingido o pico máximo de sonoridade; até aqui, a sonoridade
Este aspecto da boa
subiu; a partir daqui, a sonoridade dos segmentos adjacentes à direita
formação silábica
vai descer;
está contemplado no
(iv) aseguirà vogal, surge a semivogal [w], de grau de sonoridade inferior Princípio de
ao da vogal mas superior ao de [S], à sua direita; Dissimilaridade
(v) finalmente, na margem direita, surge a fricativa [S], com grau de (também traduzido,
sonoridade inferior ao da semivogal precedente. em alguns textos,
como Princípio de
Em conclusão, a sílaba [kláwf] da palavra claustro obedece ao Princípio de Dissemelhança). De
Sonoridade: o grau de sonoridade aumenta da margem esquerda até ao Núcleo e acordo com este
diminui do Núcleo até à margem direita.

Princípio de Dissimilaridade
A observação dos inventários silábicos nas línguas do mundo mostra que estas
gostam de contrastes máximos, i.e., preferem sequências de sons em que o

princípio, quanto maiorfor a distância de sonoridade entre dois sons adjacentes dentro da sílaba, mais natural
é essa sílaba.

Retomemos o caso dos grupos consonânticos em início de sílaba:

(29)

(a) Ataques ramificados oclusiva+líquida crina [krí].na pluma [plú].ma fricativa+líquida livro li.[vru]

afluente a.[flul.en.te

264
(b) Outms grupos consonânticos
oclusiva+oclusiva raptor ra[ptórl
absurdo a[bsúrl.do
oclusiva+fricativa

oclusiva+nasal pneu [pnéwl

afta a[fte]
fricativa+oclusiva
nasal+nasal amnistia
Os exemplos em (29a) respeitam o Princípio de Sonoridade pois tanto as oclusivas como as fricativas
têm um grau de sonoridade inferior ao da líquida que as segue. Quanto à Condição de
Dissimilaridade, a distância entre graus de sonoridade é superior entre oclusiva e líquida do que entre
fricativa e líquida. Este facto explica a razão pela qual os Ataques ramificados de tipo oclusiva +
líquida são muito mais frequentes em português do que os de tipo fricativa + líquida (93% no
primeiro caso e 7% no segundo, de acordo com Vigário e Falé 1994).
Em (29b), os grupos consonânticos listados não podem constituir Ataques ramificados por violarem
os princípios em destaque: (i) as sequências fricativa + oclusiva, oclusiva + oclusiva e nasal + nasal
violam o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissimilaridade; (ii) as sequências oclusiva +
fricativa e oclusiva + nasal violam a Condição de Dissimilaridade. Esta é a razão pela qual os
falantes inserem uma vogal entre as duas consoantes, nos cinco tipos de grupos referidos em (29b)
(como vimos na secção anterior, [i] em dialectos do português brasileiro e [il no português europeu
coloquial). Nestes casos, e como já foi referido, a análise assumida para o português é a de que as
duas consoantes têm entre si um Núcleo vazio (cf. representação em (12) neste capítulo).

Outro tipo de sequências consonânticas que parecem violar os princípios acima mencionados é
apresentado em (30); estas sequências são tradicionalmente designadas, na literatura internacional,
como grupos 'sc' em início de palavra:
Para mais detalhes consonânticos em início de palavra são Ataques ramificados é infirmada por
sobre a análise dos vários motivos:
grupos 'sc• em
português, consulte-se
Andrade & Rodrigues (i) nos casos com três consoantes, como estrada, espremer, esdrúxula
1998, Mateus & ou esgrima, o Princípio da Binaridade Máxima dos Constituintes é
Andrade 2000 e Freitas
& Rodrigues 2004. violado: o hipotético Ataque ramificado teria, assim, três
(a) consoantes e não duas;
escola (ii) em todos os casos em que a fricativa inicial, [SI ou [3], é seguida
estrada [Strá].da
por uma oclusiva, há violação do Princípio de Sonoridade: a
espremer [Spri].mer sonoridade deve aumentar da margem esquerda até ao Núcleo;
neste caso, haveria uma descida do grau de sonoridade da fricativa
estar [Stáf] para a oclusiva;

(b) (iii) em todos os casos, há violação do Princípio de Dissimilaridade: a


esdrúxula [3clrú].xu.la distância de sonoridade dentro de um Ataque ramificado não pode
ser inferior à que existe entre uma fricativa e uma líquida (cf.
esgrima [NC11.ma exemplos em (8) neste capítulo).

esmagar [3me] .gar


Por outro lado, esta fricativa em início de palavra revela um comportamento
semelhante ao observado no processo fonológico de assimilação do
esvan- [3ve].ir vozeamento pelo segmento /s/ (/s/ [S] ou /s/ —¥ [31), quando a fricativa está
em Coda:
A hipótese
segundo a qual (i) em (30a), a fricativa é [-vozeada] porque a consoante que se lhe
estes grupos segue é [—vozeada] (nos exemplos acima, [p, t, k]);

265
(ii) em (3()b), ] porque a consoante que se lhe segue é [+vozeadal (nos exemplos
a fricativa acima, [m, v, d, g]).
é
Este facto motiva empiricamente a hipótese segundo a qual a fricativa está em
[+vozeada Coda22 . A análise assumida para o português é a de que, nestas palavras, existe
uma sílaba com Núcleo vazio e Coda fonética ISI ou [31, com formato

(30) Grupos sc em início de palavra

266
fonológico /s/. Esta posição de Núcleo vazio pode ser eventualmente preenchida
por uma vogal [i] (por exemplo, [iftfácle] ou [i3drúSule]), embora estas
23
ocorrências raramente sejam atestadas23 . Veja-se a representação da sequência Com base em Rodrigues

inicial da palavra escola em (31): 2004.

(31) Estrutura silábica dos grupos 'sc' em início de


palavra

Nu Cd Nu
x x x x x
Em suma, os princípios de organização dos segmentos dentro das sílabas, para além de nos
ajudarem na tarefa de identificação dos padrões regulares, são instrumentos importantes para a
análise gramatical porque nos permitem fazer opções sobre a estrutura e as fronteiras silábicas a
adoptar em contextos problemáticos como, por exemplo, o de sequências de consoantes dos tipos
listados em (29b) e o dos grupos 'sc' , referidos em (30). Estes princípios de organização interna
da sílaba são universais porque descrevem regularidades presentes em todas as línguas do
mundo, definindo as relações de vizinhança segmental mais frequentes no interior das sílabas.

267
268
4. Contrariamente ao constituinte Ataque, o constituinte Coda impõe fortes restrições
sobre o inventário de segmentos que lhe podem estar associados. Comente a afirmação,
demonstrando, com palavras do português, quais as consoantes que ocorrem em Ataque e
quais as consoantes que surgem em Coda.

5. Refira, ilustrando com palavras contendo sílabas relevantes para o efeito, que tipos de
Ataques existem em poftuguês. Faça representações em ú-vore de sílabas de palavras que
exemplifiquem os tipos de Ataques detectados.

6. Refira, exemplificando com palavras do português, os tipos de grupos consonânticos


que podem ocorrer em Ataque ramificado nesta língua.

7. A palavra perspectiva [pirSpetive] é frequentemente produzida, em situação de fala


espontânea, como [priSpetive] ou como [piSpetive]. Na sua opinião, por que razão de natureza
silábica os falantes efectuam as alterações registadas nestas duas últimas produções? Justifique
a sua resposta explicitando as alterações operadas nas versões [priSpetive] e [piSpetive].

8. Refira dois processos fonológicos do português que ocorrem em Coda. Apresente, para
cada um dos processos seleccionados, quatro palavras nas quais o processo seja activado.

9. As palavras elefante [iliñti], televisão [tilivizüW] e telefone [tilifoni] podem também


ser produzidas, respectivamente, como [Miti], [tiFÅzüW] e [tiff5ni]. Diga o que motivou a
mudança de qualidade da lateral alveolar nas segundas versões de cada uma das três palavras
citadas.

IO. Justifique as produções [ebisurdu], [áfitel e [eminiStie], produzidas em alternativa a


[ebsurdu] absurdo, [áfte] afta e [emniStiËl amnistia. Use as formas da palavra afta
para a representação em árvore que deverá ilustrar a sua resposta.

Sugestões de soluções para as actividades propostas

I. A primeira sílaba de cada uma das palavras transcritas à direita do padrão silábico referido ilustra a sua
presença no português; no caso de o padrão silábico não existir nesta língua, tal será referido:
a. CV sede [sé.di]
b. CVC caldo [ktfl.du]
c. ccv prego [pre.gu] ave [á.
vi]

e. VC algas [tq.geJ]
f. VCCC Padrão silábico inexistente em

269
português
g. CCVC crustáceo [kruS.tá.sjul
h. CCCCVC Padrão silábico inexistente em
português
2. Na verdade, em português, todos os constituintes silábicos terminais —Ataque, Núcleo e Coda -
podem ser segmentalmente preenchidos:
(i) oAtaquepode estar preenchido por qualquer consoante do português (veja-se, a título
exemplificativo, a consoante inicial da sílaba que constitui cada palavra nos exemplospé
[pel,fé [fé] e mau [máw]);
(ii) o Núcleo pode dominar qualquer vogal do português (veja-se, a título exemplificativo, a
vogal da sílaba que constitui cada palavra nos exemplos sé [se], ri [Râl e cruz [krúSl);
(iii) a Coda pode ser preenchida, por exemplo, pela consoante como na sílaba da palavra cruz
[krúJl.

Porém, nem todos estes constituintes a mesma estititllltl intema; apenas dois desses
constituintes terminais — o Ataque e o Núcleo - podem dominar dois segmentos, sendo que a Coda
domina apenas um segmento. Vejamos:

(i) na primeira sílaba da palavra trova [trove]), o Ataque ramificado é constituído por uma
sequência de duas consoantes do tipo oclusiva-evibrante;

(ii) na sílaba da palavra céu [sew], o Núcleo ramificado é constituído por um ditongo
decrescente, i.e., uma sequência do tipo vogal+semivogal.

(iii) quanto ao constituinte Coda, este não ramifica em português, apresentando sempœ apenas
uma consoante (veja-se a última consoante da sílaba que constitui cada uma das palavras
luz [IúJ], sol [s5Ð e mar [márl).

3. Apresenta-se, a seguir, a representação em árvore das duas sílabas da palavra grupos [gcúpuÿ:

Cd

270
4. Na verdade, o constituinte Coda apresenta fortes restrições ao inventário de segmentos que lhe
podem estar associados , contrariamente ao que sucede com o constituinte Ataque. Em seguida, procede-se à
listagem exaustiva de todas as consoantes que podem ocorrer em Ataque e de todas as consoantes que surgem
em Coda:

(i) Consoantes em Ataque:

a. oclusivas [p]é.ro.la b. fricativas [f]a.to


[blrincos lu.[v]a
[t]o.ga [sla.pa.to

[k]o.lar [J] a.péu


[glo.la

c, nasais [m]a.la d. laterais pa.[n]o ma.[Kla


ta.ma.ln]o

e. vibrantes pul.sei.lrla
[Rlou.pa

271
272
b. Ataque vazio

Nu

c. Ataque ramificado

Nu

x x x

6. Os tipos de grupos consonânticos que podem ocorrer em Ataque ramificado no


português são os seguintes:
(i) sequênciadeoclusiva+ vibrante, como na sílaba inicial decri.vo [krívu];

(ii) sequência de oclusiva+ lateral, como na sílaba inicial depla.ca [pláke];

(ii) sequência de fricativa + vibrante, como na sílaba inicial defra.co


[fráku];

(iv) sequência de fricativa + lateral, como na silaba inicial deflau.ta [fláwte].

7. As versões [priSpetive] e [piSpetive] para a palavra perspectiva [pirSpetive] podem


ser justificadas pelo facto de esta palavra exibir uma estrutura silábica
excepcional em português: a sílaba inicial da palavra termina em duas consoantes, embora o português
seja considerado uma língua sem Codas ramificadas. Dado que a sequência Irfl no final da sílaba [pirJ]
de [pirSpeÚvel constitui uma Coda ramificada, estrutura muito pouco frequente na língua, os falantes
desenvolvem estratégias no sentido de transformar esta estrutura excepcional numa sequência
silabicamente frequente no português. Assim:

(i) no caso de [priSpetive], os falantes eliminam a Coda ramificada [rJl colocando o [r] à direita do
Ataque não ramificado constituído por [p] e criando um Ataque ramificado de tipo
oclusiva+vibrante [prl, muito frequente no português;

(ii) no caso de [piSpetível, o [r] da Coda é suprimido, criando-se uma sílaba de tipo frequente em
português ([pif]), i.e, constituída por um Ataque não ramificado, um Núcleo não ramificado e
uma Coda não lamificada.

8. Existem dois processos fonológicos em português que afectam a qualidade das consoantes em
Coda:

(i) o processo de velarização da lateral alveolar ;


(ii) o processo de assimilação do vozeamento pela fricativa coronal.

No primeiro caso, a lateral alveolar é velarizada quando ocorre em posição de Coda: nas palavras
morfologicamente aparentadas belo [be.lu] / beldade [bel.dádi], a lateral é [II em [be.lul por estar em
Ataque e é Hl em [behdádil por se encontrar em Coda. Este processo é activado, por exemplo, nas
palavras malta relva [Ravel, sol [s5il e vulto [vúitu].

No segundo caso, a fricativa coronal em Coda assume o vozeamento da consoante que se lhe segue, de
acordo com os quatro exemplos que se apresentam em seguida: é [-vozeadal (T]) em vasto [váS.tu] e em
isco [íS.kul porque a consoante seguinte é 1-vozeada] ([t, kl); é [+vozeadal em resma IRé3.mel e em
fisga [fí3.ge] porque a consoante seguinte é [+vozeada] (lm,

9. Nas palavras elefante [i.li.ó.ti], televisão [ti. li.vi.zñWl e telefone [ti.Ii.f5.ni], verificamos que
a lateral se realiza como [II por estar sempre em início de sílaba. Quando estas mesmas palavras são
produzidas como [N.fó.ti], Itñ.vi.zñW] e [tii.f5.nil, o apagamento da vogal [i] à direita da lateral III
([ilØfóti], faz com que esta deixe de estar em posição de Ataque e passe a estar
em posição de Coda da sílaba anterior, sendo activado o processo de velarização da lateral (II/ —+ por
esta se encontrar em Coda.

IO. A presença da vogal [il nas produções [ebisÚrdu], [áfite] e [eminiJtfrJ das palavras [ebsurdul
absurdo, [áfte] afta e [emniStie] amnistia justifica-se pelo facto de os grupos consonânticos [bs], [ft] e
[mn] não constituirem sequências consonânticas bem fomadas de acordo com os princípios universais
que regem a boa formação silábica. No português europeu coloquial, é possível encontrar produções
destes tipos de grupos consonânticos problemáticos com uma vogal [i] entre as consoantes do grupo.
Note-se que, no português brasileiro, a vogal inserida não é [i] mas sim [i]. A inserção de uma vogal
nesta posição é usada como argumento para postular a existência de um Núcleo vazio entre as duas
consoantes. Vejam-se as representações em a. e em b:

274
a. Representação de [áfte]

Nu

b. Representação de [áfitel

Nu

6.3 0 acento de palavra


Objectivos e resumo

Neste capítulo pretende-se que o aluno:

• compreenda que o acento de palavra em português está relacionado com a estrutura morfológica
da palavra;

• reconheça os constituintes morfológicos da palavra em relação com a localização do acento


principal;

• distinga o tipo de generalização que apresenta o acento nos nomes e adjectivos e o acento nas
formas verbais;

• seja capaz de estabelecer uma diferença entre o carácter obrigatório da localização do acento
principal e a variação que pode apresentar o acento secundário.

Neste capítulo estuda-se o acento de palavra em português. No que respeita aos nomes e
adjectivos, apresenta-se uma generalização com algumas restrições e demonstra-se que o
acento está relacionado de forma regular com a estrutura morfológica da palavra. No que
respeita à flexão verbal, embora o acento também esteja relacionado com a estrutura
morfológica da palavra, a generalização da sua aplicação tem mais excepções. Na parte final
do capítulo apresenta-se, sumariamente, o que se entende por acento secundário justificando
a sua aplicação na componente pós-Iexical da gramática.

275
O acento em português resulta da combinação das propriedades de Se, em lugar de
intensidade e duração do som vocálico que, em determinado ponto da nos fixarmos no
sequência, apresentam valores relativamente mais elevados e marcam nível fonético,
uma sílaba mais "forte" ou proeminente na palavra. Em 6.3. l. é observarmos a
tratado o acento principal e em 6.3.2., o acento secundário. estrutura
morfológica dos
nomes e
adjectivos
6.3.1 Acento principal podemos
encontrar uma
maior
O acento principal de palavra na língua portuguesa apresenta maior
generalização.
possibilidade de generalização na classe dos nominais do que nos
Vejam-se os
verbos. Por este motivo, o acento nos nomes e adjectivos e o acento
exemplos de (1)-
nas formas verbais são tratados separadamente. Veremos que a
(2) em que o
constituição morfológica das palavras é importante para a análise do
radical das
acento de palavra em português.
palavras está
separado por uma
Nomes e Adjectivos fronteira de
morfema (+) do
A gramática tradicional classifica as palavras, relativamente ao lugar marcador de
do acento tónico, com base na sílaba em que, no nível fonético, incide classe (a vogal da
o acento: agudas (ou oxítonas) quando a sílaba tónica está em último sílaba acentuada
lugar, graves (ou paroxítonas) quando se encontra em penúltimo e está, como nas
esdrúxulas (ou proparoxítonas) quando se encontra em antepenúltimo outras partes da
lugar. Esta classificação é acompanhada da verificação empírica de gramática,
que os nomes e adjectivos acentuados na penúltima sílaba são os mais indicada
frequentes, podendo admitir-se ponanto que esse tipo de acentuação
corresponde ao que se entende como uma regra geral da língua.
Relativamente ao
luzar do acento, não se
No entanto, esta afirmação põe um problema: as palavras terminadas tratam as conjunções e
em vogal acentuada seguida de <l >, ou gráficos são consideradas preposições porque
agudas e são, ao mesmo tempo, altamente frequentes em português, estas palavras são em
quer nas categorias dos nomes e adjectivos (amor, animal, etc.), quer grande parte não
acentuadas, e os
na dos verbos (todos os infinitivos, por exemplo). Essas palavras são, advérbios. porque. ou
aliás, sentidas pelos falantes nativos como regulares e, sob certos entram no padrão geral
aspectos, encontram-se mais próximas das palavras graves do que das de acentuação (p.ex.
hoje. depressa, etc ) ou
agudas terminadas em vogal aberta (como café, avó, etc.). A se integram nas
classificação tradicional não permite apreender esta relação de excepções por razões
proximidade. de ordem histórica
(p.ex. detrás. além,
etc).

276
com o diacrítico C); os exemplos são apresentados na ortografia habitual e não
em transcrição fonética).

(1) cás-ea (2) casính+a fantasí+a fantasiós+0

leitarí+a

cáix+a caixót+e

línd+0 lind&+a
Nos nomes e adjectivos de (1)-(2) a sflaba acentuada é a última do radical,
encontra-se em penúltimo lugar no nível fonético e pode conter uma vogal
simples (p.ex. casa) ou um ditongo (p.ex. leite). Em (2) o radical da palavra
primitiva constitui, com o sufixo de derivação, um novo radical e a palavra fica
sujeita à mesma aplicação do acento.

Observem-se agora os exemplos de (3a-d) em que a vogal acentuada do radical


está na última sílaba fonética, quer se trate de palavras simples ou derivadas:

(3)

(a) papél (b) romã (c) calháu (d) rapé lugár jardím judéu avó
altivéz atúm herói papá portugues bombóm ladrão
cangurú
A acentuação na última vogal do radical é a acentuação regular dos nomes e
adjectivos em português. Há, contudo, palavras que são acentuadas na
penúltima vogal do radical. Por serem excepcionais relativamente à acentuação
regular, os itens lexicais que lhes correspondem têm a última vogal marcada
como não-acentuável. Dado o seu carácter excepcional, essas

2
A normalizaçäo destas palavras têm, frequentemente, acento gráfico na vogal acentuada 2. Ver os
formas, levando à exemplos de (4).
acentuação da última vogal
do radical. manifesta-se em
certos registos de língua,
com a
alteração de algumiLs palavras excepcionars que passam a regulares (exs: árvores / árves I árviJ]; quilómetro I quilóntro Ikilötrul) e com a
hesitaçäo na pronúncia de outras (exs. rúbrica / rubríca; oceãnia / oceanía).

(4)
(a) dúvid+a (c)
(b) órfã+0 frágil

ágap+e romágem fútil


êxod+0 viágem põnsil
catástrof+e automóvel
catastrófic+0 açúcar
lápis
protótip+0

Tal como vimos em (1)-(2), o radical das palavras excepcionais de (4), quando é base de um
derivado, constitui um novo radical que pode ficar sujeito à regra geral do acento, como em
(5). Embora as formas primitivas sejam excepções (fútil, açúcar, órfão), as derivadas são
regulares.

(5)

futilidád+e açucaréir+0
orfanát+0
Pelo contrário, algumas palavras derivadas podem apresentar-se como excepcionais, já
porque o sufixo não recebe o acento (cf. (6)), já porque o acento se aplica na primeira vogal
do sufixo, ou seja, na penúltima vogal do novo radical (cf. (7)):

(6) ósse+0 ovípar+0 velocíped+e

277
(7) lindíssim+0 gotícul+a

Com base na observação dos exemplos incluídos nos grupos (1)-(7) pode
formular-se a regra geral de acento dos nomes e adjectivos, com uma
restrição:

(8) Regra geral de acento dos nomes e


adjectivos Acentuar a última vogal do
Radical
Restrição à regra geral de acento

278
Acentuar a penúltima vogal do Radical nos itens com vogais marcadas no léxico como não-
acentuáveis

Em conclusão: se relacionarmos o lugar do acento tónico com a constituição interna da palavra, ou seja,
se tomarmos em conta a sua estrutura morfológica, só temos dois tipos de acentuação nos nomes e
adjectivos em português: na última ou na penúltima vogais do radical, como vimos nos exemplos de (I)
(7) (e não três como na gramática tradicional). Por outro lado, relacionando o acento com a estrutura
morfológica da palavra estabelecemos uma interface entre a fonologia e a morfologia do português,
interface que permite compreender alguns aspectos do funcionamento da língua e mostra a importância
do acento de palavra nesse funcionamento.

Verbos
As formas verbais são constituídas por radical, vogal temática (W, /e/, fi/) e sufixos de pessoa, tempo e
número. A análise da acentuação nos verbos do português implica que se dividam os tempos verbais nos
seguintes grupos:

(9) Tempos do Presente Presente do Indicativo


Presente do Conjuntivo Imperativo
Infinitivo não flexionado
Infinitivo flexionado
Gerúndio

Tempos do Passado
Imperfeito do Indicativo
Perfeito do Indicativo Mais-que-perfeito do Indicativo
Imperfeito do Conjuntivo
Futuro do Conjuntivo
Particípio passado

279
Tempos do Futuro
Futuro do Indicativo
Condicional

Vejamos agora a relação entre a posição do acento e a constituição interna das formas verbais.

Nos Tempos do Presente as formas dividem-se entre as que mantêm a vogal


temática e aquelas em que essa vogal foi suprimida. No primeiro caso, o
acento incide sobre a vogal temática (Infinitivos, Gerúndio e primeira e
segunda pessoas do plural do Presente do Indicativo). No segundo caso o
acento incide sobre a vogal que substitui a temática (primeira e segunda
pessoas do plural do Presente do Conjuntivo); na maioria dos casos, porém,

o acento aplica-se na última vogal do radical. Vejam-se os exemplos em A segunda pessoa do


plural
(10) e (11). dos verbos em português
tem a terminação Ides/ em
forma de base. Na
discussào do acento que é
feita nesta secçäo, as
(IO) Presente do Indicativo formas da segunda pessoa
do plural estão
representadas de
fál+O bát+0 párt+0 acordo com a ortografia,
com
0 morfema pessoal —is lifl.
Na
fál+as bát+es párt+es terceira conjugação, a vogal
do morfema funde-se com a

fál+a bát+e párt+e vogal temática (parl+í±is >


partis).

fal+á+rnos bat+é+mos part+í+mos


part+í+is3

bát+e+m párt+e+m As formas verbais


acentuadas na vogal
temática sio as mais
numerosas e têm sido
entendidas como as que
carac-
(11) Presente do Conjuntivo terizam a acentuaçüo dos
verbos em português, tal
como
fál+e bát+a párt+a em outras línguas
romanicas como o espanhol
e 0 italiano.
párt+a+s Note-se que nos Presentes
do Indicativo e do
Conjuntivo.
fál+e bát+a párt+a esta vogal (ou a que está
em

fal+é+mos bat+á+mos part+á+mos part+á+is seu lugar) também é


acentuada em algumas
formas.

bát+a+m párt-+-a+m

Nos Tempos do Passado o acento incide sempre na vogal temática 4 : Vejam-se, como exemplos, as
formas do Imperfeito e do Perfeito do Indicativo, e do Imperfeito do Conjuntivo.

280
(12) Imperfeito do Indicativo
falá+va batí+a partí+a

falá+va+s batí+a+s partí+a-+-s

falá+va batí+a partí+a

falá+va+mos batí+a-emos falá+ve+ispartí+a-f-mos


batí+&is

Como se nota, a vogal Ia/ do falá+va+m batí-f-a+rn partí+a+m


sufixo de tempo eleva-se
para [el na segunda pessoa
do pl ural por
influência
assimilatória do [il do sufixo (13) Perfeito do Indicativo
pessoal.

falé+i batí+i partí+i

falá+ste baté+ste partí+ste

faló+u baté+u partí+u

falá+mos baté+mos partí+mos

falá+stes baté+stes paní+stes


falá+ram baté+ram partí+ram

(14) Imperfeito do Conjuntivo


falá+sse baté+sse partí+sse

falá+sse+s baté+sse-+-s partí+sse+s

falá+sse baté+sse partí+sse

falá+sse+mos batê+sse+mos falá+sse+is partí+sse+mos


batê+sse+is

falá+sse+m partí+sse+m

Nos Tempos do Futuro — Futuro do Indicativo e Condicional — o acento incide sempre na primeira
vogal do sufixo:

(15) Futum do Indicativo


fala+ré+i bate+ré+i parti+ré+i
parti+rá+s
fala-erá bate+rá parti+rá
fala+ré+mos bate+ré+mos parti+ré+mos
fala-+-ré+is bate+ré+is parti+ré+is
fala-+-rã+0 bate-f-rã+0 parti+t•ã+0

281
bate+ría parti+ría

bate+ría+s parti+ría-+-s

fala-ería bate-+-ría parti+ría falaarría+mos

bate+ría+mos parti+ría-emos

bate-eríe+is parti+ríe+is

fala+ría+ln bate+ría-em parti*-ría+m

Verifica-se em (I l) - ( 16) que a sílaba acentuada pode ser a última da palavra


(falei, bati, parti), a penúltima (falo, bato, falava, etc.) ou a antepenúltima
(falávamos, batêssemos, partíssemos) porque não é a sua posição no nível
fonético que determina a acentuação mas sim a estrutura morfológica da
forma verbal, tal como sucede nos nomes e adjectivos. No entanto, tendo em
atenção os diversos constituintes em que ocorre o acento nas formas verbais,
não é possível formular uma regra que capte a generalização desejável,
embora se reconheça que a estrutura morfológica também está implicada na
atribuição do acent06 . Em consequência da
acentuaçào das palavras
estar relacionada com a sua
constituiçåo morfológica. o
português pode considerar-
se o que tradicionalmente
se designa como
6.3.2 Restrições relacionadas com o acento uma lingua de acento livre.
por oposição às línguas de
acento fixo como, por
exemplo o francês, cujas

A relação estabelecida entre o acento e os constituintes morfológicos das säo sempre acentuadas
numa determinada sílaba.
indepen-
palavras tem também reflexos nas características métricas da língua, dentemente do constituinte

características que são parte determinante da estrutura rítmica. Vejamos os morfológico a que
pertencem.
seguintes aspectos:

Existe em português uma forte restrição que impede a ocorrência de ditongos


em sílabas pós-acentuadas, exceptuando-se apenas os ditongos em sílaba Ver 5.3.3. sobre a
inserção
final das palavras excepcionais indicadas em (4b) (p.ex. órfão [o'rfñW], da semivogal. Ver ainda
6.2.3.
viagem [viá3ûÏ]), os que ocorrem no plural de algumas incluídas em (4c) sobre 0 ditongo em núcleo
de snaba.
(p.ex. fúteis [fútejJl) e os que terminam as terceiras pessoas do plural dos
verbos (p.ex.falaram [fulárñW], pairam [pájrûWl). Se a sílaba tónica contiver
um ditongo (como em pairam) as restrições são ainda mais fortes e as únicas
ocorrências possíveis de ditongos pós-tónicos são formas verbais da terceira
pessoa do plural visto que, neste caso, esse ditongo resulta da inserção
póslexical da semivoga17 .

(16)
Condicional
Historicamente. estas palavras reflectem a acentuação latina que recua para a antepenúltima sílaba
porque a penúltima tem uma vogal bre-

282
Existe ainda, em Todas estas restrições decorrem do limite permitido, em número e "peso"
português, uma das sílabas incluindo a tónica, até à fronteira da palavra: assim como em
outra restrição nas português as palavras não podem ter acento para trás da terceira sílaba a
sílabas pós-tónicas contar do fim (o que se denomina a "janela das três sílabas"), elas também
não finais das não podem ter duas sílabas pós-tónicas pesadas, ou seja, com um ditongo ou
palavras vogal nasal, ou terminadas em consoante. Essa característica concorre para a
exemplificadas em delimitação das palavras e para o ritmo particular de uma língua, neste caso,
(4a), o português.
tradicionalmente
esdrúxulas. Nestas
palavras, a última
sílaba do radical, 6.3.3 Acentos secundários
penúltima da
palavra, não pode
conter um ditongo, Além do acento principal, a palavra pode conter outros pontos de
não pode ter uma proeminência, os acentos secundários. A atribuição do acento principal faz-
vogal nasal nem se no nível lexical visto que tem em conta a estrutura interna (morfológica)
pode terminar em da palavra. Os acentos secundários estão sujeitos a outros factores.
consoante, ou seja,
A gramática tradicional apenas considera a existência de acentos
não pode ser uma
secundários nas palavras formadas como os sufixos —zinho, —zito, —zão
sílaba fechada
etc., (os z-avaliativos, cf. 5.3. l.) e com o sufixo —mente. Esta perspectiva é
(vejam-se as formas
consequência, sobretudo, de estes derivados não apresentarem redução nas
agramaticais como
vogais acentuadas das palavras que lhes servem de base (p.ex. lagarzinho,
*dúveida, *dúvñda,
corzita, pobremente, cf. 5.3. I). De um ponto de vista prosódico, no entanto,
*dúvirda, *dúvilda
considera-se a existência de acentos secundários na palavra, ou seja, pontos
ou *faláivamos).
de proeminência que estão presentes na cadeia sonora mas não atingem a
Em consequência,
intensidade do acento principal. Os acentos secundários reforçam o poder
as palavras não
informativo do acento principal e organizam a cadeia fonética como um
podem ser
domínio rítmico.
acentuadas na
antepenúltima sílaba No discurso oral, os acentos principal e secundários apresentam-se como um
fonética se houver princípio rítmico de alternâncias acentuais. Os acentos secundários ocorrem
um ditongo ou uma em intervalos regulares, sempre em sílabas pré-tónicas, e podem marcar a
sílaba fechada em sílaba inicial da palavra ou marcar sílabas alternantes a partir da
qualquer das silabas
seguintesS.

tónica para a esquerda, até ao limite da palavra. Vejam-se exemplos em (17). As sílabas
que apresentam acento secundário estão sublinhadas.

(17)
(a) leitaria (b) computador / computador.
poderoso papelaria
patriarca temperatura
Em (17a) a sílaba com acento secundário é a inicial e está separada da tónica por uma única
sílaba. Em (17b) existem duas sílabas de separação, admitindose que a redução ou
supressão das vogais átonas levou ao agrupamento das sílabas não acentuadas e manteve a
regularidade de aplicação do acento.

A atribuição dos acentos secundários faz-se no nível pós-Iexical visto ter em conta processos
como a supressão de vogais átonas e permitir variação decorrente do contexto fónico ou de
circunstâncias aleatórias (como no exemplo apresentado em (17b)).

283
Leituras Complementares

Mateus, Maria Helena Mira, Ana Maria Brito, Inês Duarte, Isabel Faria, Sónia Frota, Fátima
Oliveira, Gabriela Matos, Marina Vigário e Alina Villalva, 2003 Gramática da Língua
Portuguesa. 5a edição revista e aumentada.
Lisboa: Editorial Caminho. (Capítulo 26.2.)

Mateus, Maria Helena Mira,


1982 0 acento da palavra em português: uma nova proposta. Boletim de Filologia, 28:
211-229.

Pereira, Isabel,
1999 0 acento de palavra em Português — uma análise métrica. Dissertação de
doutoramento. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Pereira, Isabel, Ana Isabel Mata, e Maria João Freitas, 1992 Estudos em
Prosódia. Lisboa: Colibri.

Actividades

I. Diga qual a diferença que considera existir entre acento principal e acento secundário de palavra.

2. Explique com que propriedades do som está relacionado o acento de palavra em português.

3. Constitua um 'corpus' de nomes e adjectivos em português que lhe permita afirmar que a
sílaba de incidência do acento principal, nessas classes de palavras, está relacionada com a estrutura
morfológica.

4. Diga se considera que o acento nas formas verbais também está relacionado com a estrutura
morfológica da palavra. Justifique a sua afirmação e exemplifique.

5. Explique o que entende por acento secundário e dê exemplos da ocorência desse acento na
palavra.

Sugestões de soluções para as actividades propostas

1. Diga qual a diferença que considera existir entre acento principal e acento secundário de palavra.

Resolução:

O acento principal incide obrigatoriamente num único ponto da palavra prosódica e é atribuído
lexicalmente, ou seja, segundo regras da língua que se aplicam de igual modo em todas as variedades. O
acento secundário pode incidir em mais do que um ponto da palavra e a sua intensidade é menor do que a
do acento principal, admitindo variação decorrente de diversos factores.

2. Explique com que propriedades do som está relacionado o acento de palavra em português.

284
Resolução:

O acento de palavra em português resulta da combinação das propriedades de


intensidade e duração do som vocálico que, em determinado ponto da sequência,
apresentam valores relativamente mais elevados e marcam uma sílaba mais "forte"
ou proeminente na palavra.

3. Constitua um 'corpus' de nomes e adjectivos em ponuguês que lhe permita


afirmar que a sílaba de incidência do acento principal, nessas classes de palavras,
está relacionada com a estrutura morfológica.

Resolução:

gat+0 gatinh+0
bairr+0 bairrist+a
sop+a sopeir+a
fort+e fortalez+a
Ao separarmos, nestes nomes e adjectivos, o marcador de classe do radical,
verificamos que a vogal acentuada (sublinhada) é a última do radical, quer nas
palavras primitivas, quer nas derivadas. O mesmo se passa nos exemplos seguintes:
(2) funil (3) irma (4) carapau
mulher pudim chapéu
cortês rapé capitão
Em (2) não há marcador de classe mas a vogal acentuada é a última do radical; em
(3), o radical termina em vogal, e essa vogal é a acentuada; em (4) a última sílaba do
radical contém um ditongo e a vogal desse ditongo recebe o acento. Há portanto que
ter em conta a estrutura morfológica dos nomes e adjectivos em português para
analisar a aplicação do acento tónico, visto que ele incide de forma regular na última
vogal do radical.

4. Diga se considera que o acento nas formas verbais também está relacionado
com a estrutura morfológica da palavra. Justifique a sua afirmação e exemplifique.
Resolução:

Nas formas verbais, o acento também está relacionado com a estrutura


morfológica, mas a sua aplicação depende de vários factores:
(a) Em todos os tempos do passado (pretéritos perfeito, imperfeito e mais- que-
perfeito do indicativo, e pretérito imperfeito e futuro do conjuntivo), o acento
incide na vogal temática, esteja ela em último, penúltimo ou
antepenúltimo lugar da palavra no nível fonético.
(b) Nos tempos do presente (presentes do indicativo e conjuntivo,
imperativo, infinitivos e gerúndio), o acento aplica-se na vogal temática
e, quando ela é suprimida, na vogal do radical.
(c) Nos tempos do futuro (futuro do indicativo e condicional), o acento incide na
primeira vogal do sufixo.

Existe, portanto, uma relação entre a atribuição do acento nas formas verbais e a
respectiva estrutura morfológica.

5. Explique o que entende por acento secundário e dê exemplos da


ocorrência desse acento na palavra.

Resolução:

Como se diz em l. o acento secundário pode incidir em mais do que um ponto da palavra.
Normalmente, os acentos secundários reforçam o poder informativo do acento principal
e organizam a cadeia fonética como um domínio rítmico, ocorrendo em intervalos
regulares e sempre em sílabas pré-tónicas. A atribuição do(s) acento(s)
secundário(s) faz-se no nível póslexical visto ter em conta processos como a supressão
de vogais átonas e permitir variação que pode estar relacionada com factores
contextuais, de significado da palavra ou, simplesmente, rítmicos. Vejam-se os exemplos
seguintes (as vogais das sílabas que apresentam acento secundário estão
sublinhadas).

(l) responsabiliza responsabilizado responsabilização


(2) responsabiliza [RJpösebIíze] responsabilizado [Rfpösebilizádu]
responsabilização [RJpösBblizeséM7]

Em (l) temos proeminências alternantes e um ritmo binário, ou seja, o acento


secundário incide em sílabas alternadas. Em (2) encontram-se sequências de uma sílaba
acentuada e duas não-acentuadas devido, sobretudo, à supressão de vogais átonas (til de
[Ril] e [il de [bil).

6.4 A palavra prosódica e o sintagma entoacional

286
Objectivos e resumo

Nesta secção pretende-se que o aluno:

• Distinga a palavra prosódica do sintagma entoacional e reconheça estes


constituintes no contínuo sonoro

• Consiga argumentar sobre a existência, em português, do constituinte palavra


prosódica

• Relacione o sintagma entoacional com aspectos linguísticos de outro nível,


sobretudo com o significado das frases

• Reconheça nos constituintes prosódicos factores que determinam em grande


parte o ritmo da língua.

Para atingir estes objectivos, o capítulo apresenta argumentos para a identificação da


palavra prosódica em português e para a identificação do sintagma entoacional. No
caso deste último constituinte, apresentam-se considerações sobre os limites ou
fronteiras entre sintagmas entoacionais e sobre a relação da sequência de tons, ou
entoação, que marca os sintagmas e concorre para o significado da frase.

Sobre a palavra Sobre os processos fonológicos que têm a palavra prosódica como domínio de aplicação, ver Vigário
pm.sõdica. ver Vigário em Frota & Vigário (2003). p. 1061. Sobre neutralização do grau de altura das vogais átonas. ver 5.3. l.
(2003) e Vigário em Frota
& Vigário (2003). 26.3.1. 6.4.1 A palavra prosódica

Relembrando a hierarquia de constituintes prosódicos apresentada em 6.1 .,


trata-se nesta secção do constituinte que se situa acima da silaba e abaixo do
sintagma entoacional — a palavra prosódica l . A denominação deste
constituinte torna evidente que a sua identificação se faz pela verificação de
determinados aspectos que, caracterizando-a, a relacionam com a 'palavra',
termo muito genérico que ocorre em vários domínios da gramática. Assim, a
palavra morfológica é a sequência em que se concretizam certas categorias
morfológicas como o número ou a flexão verbal, e tem uma estrutura interna
que inclui um radical e, frequentemente, sufixos. Por outro lado, a palavra
prosódica integra traços prosódicos como o acento e tem características que a
aproximam da palavra morfológica mas pode não coincidir com ela. Vejamos
os seguintes aspectos:

287
I . A palavra sucede quando há ênclise ou próclise, ou seja, numa sequência de duas
prosódica tem um palavras terminada por um pronome átono (ou quando o pronome integra a
único acento palavra, no caso de mesóclise, como em dir-lhe-emos), e numa sequência de
artigo seguido de palavra morfológica. Em (4) temos uma palavra prosódica
principal. A
que inclui pronomes átonos em posição enclítica. Em (5) temos palavras
palavra prosódicas que incluem artigos em posição proclítica.
morfológica pode
ter dois acentos se (4) [disse-o] (D
for um composto [ama-me] Q)
como os de (I), [dir-lhe-emos] O)
um derivado com
os prefixos de (2) (5) [o homem] 0) [um rapaz] O)
ou com os sufixos
de (3). Nos [a gata] (D
grupos (1)-(3) 4. No interior de uma palavra prosódica formada por uma forma
temos palavras verbal terminada na vogal alta [i] e seguida de um pronome enclítico iniciado
morfológicas que por uma vogal (p.ex. disse-o), o facto de o enclítico ser incorporado na mesma
funcionam como palavra prosódica que o verbo impede a vogal final da forma verbal de ser
duas palavras suprimida. O contexto em que essa vogal fica colocada leva à aplicação de
prosódicas uma regra de semivocalização (ou seja, a palavra prosódica realiza-se
(lembre-se que a foneticamente como [dísju]). O mesmo acontece no interior de formas verbais,
em casos de mesóclise (p.ex. dir-lhe-emos realiza-se como [dirKjémufl). Este
palavra prosódica
bloqueio da queda da vogal [i] não ocorre em outras circunstâncias de sândi
se representa por externo (ou seja, no encontro entre o fim de uma palavra e o início de outra)
[0]). quando se trata de duas palavras prosódicas. Nestes casos, a vogal [il é
normalmente suprimida com uma consequente ressilabificação (p.ex. disse
[bela] agora [dís eg5rel, diz-me amanhã [dí3m
(Dl
mente]o Os exemplos com ênclise de pronome átono são ilustrativos de uma palavra
prosódica correspondente a duas palavras morfológicas.
2. A palavra
prosódica é o
domínio de
aplicação de 6.4.2 0 sintagma emoacional
processos
fonológicos como a O sintagma entoaciona14 é constituído por um ou mais sintagmas sintácticos e
neutralização do tem um contorno identificável. Assim, são sintagmas entoacionais os três
grau de altura das grupos de palavras que constituem a frase de (6):
vogais átonas em
certas sílabas finais (6) As gatas, // a preta e a riscadinha, // enroscaram-se diante da lareira.
ou a elisão da vogal
[i] 2 . A divisão da frase em sintagmas entoacionais está representada em (7)
(recorde-se que o símbolo do sintagma entoacional é [I]).
3. A palavra
prosódica, por sua (7) [As gatas]l [a preta e a riscadinhall [enroscaram-se diante da lareira]l
vez, pode ser Sobre este e outros processos segmentais que se aplicam no domínio da palavra prosódica e que
constituída por duas permitem a sua delimitaçäo. ver Vigário (2003) e Vigário em Frota & Vigário (2003). pp. 10611066.
ou mais palavras
morfológicas, o que

288
Sobre o sintagma
entoacional. ver Frota
(2003) e Frota em Frota &
Vigário (2003), 26.3.3.
Cf. Frota em Frota & Vigário (2003), p. 1071.
Um dos aspectos que nos permite reconhecer a existência de apenas um, ou mais do que um sintagma
entoacional na sequência frásica é a realização fonética da fricativa final de uma palavra (no exemplo
acima, o sufixo do plural de gatas) quando a palavra que se segue começa por vogal: se a fricativa se
realizar como as duas palavras pertencem ao mesmo sintagma entoacional (ver (8)); se se realizar como
[J], entre as duas palavras existe uma fronteira de sintagma entoacional (ver (9)).

(8) As gatas enroscaram-se ..[23 gátaz ER11SkárûWsi]....

(9) As gatas, a preta e a riscadinha ..[E3 gátef]l [e préte].....


Pela mesma razão, a fricativa colocada na fronteira de um sintagma entoacional não assimila a
sonoridade da consoante seguinte.

Nem sempre os limites dos sintagmas entoacionais correspondem a uma pausa que, na ortografia, é
marcada por uma vírgula. Por vezes a divisão entre sintagmas entoacionais obedece a condições
fonológicas que, segundo Frota, "estabelecem que constituintes longos tendem a ser divididos, que o
constituinte mais longo é preferencialmente o mais à direita na sequência e que constituintes de tamanho
simétrico são favorecidos"5

Em consequência, essa divisão também pode decorrer da velocidade de fala, sendo sintagmas
entoacionais mais longos correspondentes a uma fala mais rápida e sintagmas entoacionais menores
correspondentes a uma fala mais pausada. Veja-se (10a) em que se supõe uma fala coloquial e (IOb) que
corresponde a uma fala pausada.

(10)

(a) [O tapete encarnado do meu escritório precisa de ser aspirado com cuidadoll

(b) [O tapete encarnado do meu escritórioll [precisa de ser aspirado com cuidado]l

O facto de se identificarem dois sintagmas entoacionais como se observa em (IOb) leva por vezes à
introdução, na escrita, de uma vírgula entre o sujeito e o predicado, o que é considerado um erro de
pontuação. Essa vírgula corresponde à percepção da existência de um limite (ou uma fronteira) de
sintagma entoacional que divide, do ponto de vista prosódico, os dois sintagmas.

No que respeita à curva de entoação que identifica um sintagma entoacional, ela é constituída por uma
sucessão de acentos tonais e de tons de fronteira. Os acentos tonais marcam os pontos proeminentes dos
sintagmas. Esses pontos podem manifestar-se por tons altos ou baixos, produzindo um

contorno específico das alturas do som . O tom de fronteira associa-se ao


limite de cada uma das margens (direita e esquerda) do sintagma entoacional e
concorre para a sua identificação.
[As gatas
Vejam-se os exemplos em (l l) e (12) a que se sobrepôs uma linha que
enroscaram
representa o contorno da entoação. Seguindo os trabalhos recentes para o
-se diante
português , o tom alto indica-se com [H] e o baixo com [LI; o tom de fronteira
da lareira]l
está assinalado junto do limite do sintagma entoacional e indica-se com o tom
que o termina seguido de

289
H+L Li
(12)

[As gatas]l [a preta e a riscadinha]l [enroscaram-se diante da lareira]l L+H

Hi H+L Li H+L Li

A distribuição dos tons relaciona-se com a distribuição das proeminências de


intensidade permitindo a identificação de um acento nuclear — em (l l) o tom
alto (H) mais à direita marca um acento nuclear; em (12) o tom alto seguido de
baixo (H+L), ou seja, o tom descendente final do último sintagma é
igualmente um acento nuclear.
A ocorrência de uma proeminência acentual pode também destacar um
determinado ponto da sequência com o que se denomina acento enfático —
que pode ser apenas resultante de um aumento de intensidade ou de um
contraste de altura. Em (13) temos um acento enfático que resulta de um
aumento de intensidade na pronúncia de que, nominalizando essa palavra
gramatical. Em (14), o contraste de frequência fundamental (e, portanto, a
ocorrência de um tom alto) na palavra vir conjuga-se com um aumento de
intensidade concorrendo para a interpretação do significado da frase como uma
ordem.
Sobre tom c altura do som. e sobrefi•eqt/ "Ciafundamental. ver 4. e 6.1.

Veja-se Mata da Silva ( 1999' e, sobretudo, Frota em Frota & Vigário (2003). p. 1073 de que se adaptou a
representaçào.

290
Sobre esta questão. ver Frota em Frota & Vigário (2003), p. 1074.

Os exemplos são tirados de Mateus et al. (1989). p. 346.


(13) Como classifica esse QUE?

(14) Queres VIR ou não?

A sucessão de tons (ou seja, a entoação) pode permitir, também, interpretar o


significado de uma frase que possui um foco prosódico, distinguindo-a
s

de uma frase neutra. Por outro lado, e no que respeita à frase globalmente
considerada, a diferença entre os tons de fronteira é, por vezes, a única
possibilidade de distinção entre uma afirmação e uma interrogação. Veja-se a
diferença entre a frase afirmativa de (15a) e a interrogativa de (151)) .
(15)

(a)

[Amanhã vens jantar cá a casa]l (afirmação)

H+L Li

(b)

[Amanhã vens jantar cá a casall (interrogação)

L+H Hi

Quando a interrogação é marcada lexical ou gramaticalmente .com quem, o


que, o qual), a variação de altura faz-se em sentido descendente, próximo da
afirmação. Veja-se um exemplo em (16).

(16)

[Quem comeu o bololl (interrogação)

H+L Li

O estudo dos aspectos prosódicos apresenta dificuldades específicas dada a sua


variabilidade e a sua dependência do registo de fala e, sobretudo, da
velocidade da fala. É evidente, todavia, que os constituintes prosódicos e os

291
O estudo dos aspectos prosódicos apresenta dificuldades específicas dada Leituras
a sua variabilidade e a sua dependência do registo de fala e, sobretudo, da Complementares
velocidade da fala. E evidente, todavia, que os constituintes prosódicos e
os factos prosódicos caracterizam uma língua tal como sucede com os Falé, Isabel,
aspectos segmentais e, frequentemente, são os que primeiro se
1995 Fragmentos
apreendem na aquisição da linguagem e no contacto com uma língua da
desconhecida. prosódia
do
A prosódia organiza o continuum sonoro de uma língua em unidades português
mais vastas que os segmentos, unidades que constituem padrões europeu:
característicos das línguas. Vimos que a sílaba, a palavra prosódica e o as
sintagma entoacional têm, no português, aspectos específicos que os estruturas
identificam como unidades prosódicas com função de segmentação da coordena
fala. Também a distribuição dos acentos principal e secundário, e a das.
Dissertaç
ocorrência dos acentos nucleares são factores de organização da fala.
ão de
Deve ainda lembrar-se que a duração, que não tem em português uma mestrado,
função distintiva, contribui, todavia, para a organização das unidades Lisboa:
prosódicas. Faculdad
e de
De entre os factores prosódicos a que se fez referência deve destacar-se o Letras da
acento de palavra por pertencer, como se disse, ao nível lexical da língua. Universid
Tal significa que a sua ocorrência e localização são obrigatórias e, nesse ade de
aspecto, não dependem da velocidade da fala. Esta é, no entanto, Lisboa.
importante quando se analisa a alternância de sílabas acentuadas e não-
acentuadas .com supressão de certas vogais nas não-acentuadas, como Frota, Sónia,
ocorre no português europeu) e a consequente duração dos segmentos 2003 Núcleos e
que constituem as sílabas. Essa alternância é um dos aspectos mais Fronteiras
evidentes do que denominamos o ritmo da fala e leva a atribuir às línguas : uma
dois tipos de ritmo: o acentual que decorre de uma tendência para as análise
sílabas acentuadas ocorrerem em intervalos de tempo aproximadamente fonológic
iguais, sendo variável o número de sílabas nãoacentuadas que existe entre a da
interrogat
duas tónicas, e o ritmo silábico que tem por base a unidade 'sílaba' , a
iva no
qual se repete de forma isócrona, ou seja, com os mesmos intervalos de Português
temp0 10 Europeu.
In Castro,
Todavia, as línguas não apresentam formas perfeitas destes dois tipos de Ivo e Inês
ritmo por duas razões fundamentais: as repetições de pontos de Duarte
proeminência e o número de sílabas que ocorre entre dois pontos (orgs.),
acentuados da sequência estão intimamente relacionados com a Razões e
velocidade da fala; além disso, os factores ligados à entoação e à variação Emoção.
de altura dos sons concorrem, igualmente, para a estrutura rítmica de uma Miscelâni
a de
língua.
estudos
Assim, a identificação de características rítmicas, entoacionais e oferecida
a Maria
acentuais de uma língua exige uma investigação experimental de
Helena
múltiplos dados, investigação em que se integre a análise da fala Mira
espontânea e em que se considere a interligação de todos os factos Mateus
prosódicos a que se fez referência. Por tal razão, a pesquisa sobre a pela sua
prosódia do português se apresenta, ainda, como um domínio cheio de jubilação.
interrogações e de mistérios. Lisboa:
Imprensa
Nacional
/ Casa da
Moeda.

Frota, Sónia e Vigário,


Marina,
2003 Constituintes
prosódicos. In
Mateus et
26.3.
O portueués europeu e c português brasileiro têm sidc diferenciados. por vezes. err função do tipo de ritmo que
considera caracterizar estas
duas variedades: o PE manifesta um ritmo acentual o PB, um ritmo silábico.

292
Mata da Silva, Ana Isabel, Resolução:
1990 Questões de entoação e interrogação emportuguês. "Isso é uma pergunta?"
Dissertação de mestrado. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de T
Lisboa. e
n

d
Mateus, Maria Helena Mira et al.,
o
1989 Gramática da Língua Portuguesa. 2 a edição revista e aumentada. Lisboa:
Editorial Caminho. p
r
Mateus, Maria Helena Mira et al., e
s
2003 Gramática da Língua Portuguesa. 5a edição revista e aumentada. Lisboa:
e
Editorial Caminho.
n
t
Vigário, Marina, e
1998 Aspectos da Prosódia do Português Europeu - Estruturas com Advérbios de
Exclusão e Negação Frásica. Braga: Universidade do Minho/Centro de q
Estudos Humanísticos. u
e
2003 The prosodic word in European Portuguese. Berlin, Nova Iorque: Mouton de
Gruyter. a
Actividades
p
a
l. Apresente argumentos para apoiar a afirmação de que a l
palavra prosódica não coincide necessariamente com a palavra a
morfológica, sendo umas vezes maior, outras mais reduzida. v
Exemplifique. r
a

2. Diga por que se pode afirmar que as frases (a) e (b) se distinguem pelo número de p
sintagmas entoacionais que as constituem ll Exemplo tirado de Frota e r
Vigário (2003), p. 1071 _
o
(a) [As alunas obtiveram s
ó
boas avaliações]l z z d
z i
c
(b) [As alunas]l [até onde a
sabemos]l [obtiveram
boas avaliações]l z z p
o
s
3. Explique por que pode ocorrer na escrita uma vírgula entre o sujeito e o predicado e s
diga se considera correcta ou incorrecta esta pontuação. u
i

4. Desenhe o contorno entoacional da frase seguinte n


e
(a) como uma declarativa,
c
(b) como uma e
interrogativa. s
'Vamos ao cinema.' s
a
r
5. Descreva a diferença existente entre os três contornos entoacionais de 4. i
a
m
e
n
Sugestões de soluções para as actividades propostas t
e
1. Apresente argumentos para apoiar a afirmação de que a
palavra prosódica não coincide necessariamente com a u
palavra morfológica, sendo umas vezes maior, outras mais m
reduzida. Exemplifique.
acento principal, é evidente que os clíticos constituem, com (a) [A
as palavras que são seus hospedeiros, uma palavra s
prosódica. Assim sucede com as palavras
al
acentuadas precedidas de artigos (p.ex. os homens,
a menina) e com as formas un
as
ob
tiv
er
299 a
Exemplo tirado de Frota e Vigário (2003). p. 1071.
m
bo
as
av
ali

öe
sll
z z
z

(b) [A
s
al
un
as
]l
[at
é
on
de
sa
be
m
os
]l
[o
bti
ve
ra
m
bo
as
av
ali

verbais seguidas de pronomes clíticos (p.ex. disse-o, fez-lhe). Nestes casos, a palavra öe
prosódica é maior do que a morfológica. No caso dos compostos dá-se o inverso: s]l
palavras morfológicas como pré-tónica, sócio-cultural ou mulherzinha consistem, cada
uma delas, em duas palavras prosódicas com o respectivo acento. z z

Na frase (a), as
2. Diga por que se pode afirmar que as frases (a) e (b) se distinguem pelo fricativas finais das
número de sintagmas entoacionais que as constituem' palavras as, alunas e
boas realizam-se como
[z] por não haver
interrupção ou pausa

294
entre elas e as palavra seguintes, iniciadas por vogal. A frase é constituída por um único
sintagma entoacional.

Na frase (b), as fricativas que terminam as palavras alunas e sabemos realizam-se como
palatal não vozeada, [SI, realização habitual quando se encontram em final absoluto.

Esta realização prova que existe, a seguir a essas palavras, uma fronteira de sintagma
entoacional, o que não sucede, no mesmo exemplo, com a palavra boas que se integra
no último sintagma.

3. Explique por que pode ocorrer na escrita uma vírgula entre o sujeito e o
predicado e diga se considera correcta ou incorrecta esta pontuação. Resolução:

A vírgula que, por vezes, ocorre na escrita entre o sujeito e o predicado corresponde à
percepção da existência de um limite de sintagma entoacional entre o sintagma que
integra o sujeito e o que integra o predicado. Embora esse limite prosódico seja muitas
vezes perceptível, a pontuação da escrita tem referências sintácticas que não podem ser
desconhecidas, uma das quais é a relação estreita entre sujeito e predicado.

4. Desenhe o contorno entoacional da frase seguinte


(a) como uma declarativa,
(b) como uma interrogativa.
'Vamos comer ao restaurante.'

Resolução:

Vamos comer ao restaurante (declarativa)

Vamos comer ao restaurante (interrogativa)


Resolução:

A frase declarativa tem uma única curva que se inicia num


nível alto e se mantém como tal até à última palavra,
começando a descer desde a primeira sílaba dessa palavra.

A frase interrogativa tem um contorno que se mantém no nível


médio com ligeiro abaixamento até à sílaba tónica da palavra
final, subindo de tom nessa última sílaba.

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Composto e maquetizado na UNIVERSIDADE ABERTA
Impresso e acabado na Gráfica Pentaedro, Publicidade e Artes Gráficas, Lda. 1 edição — 3.a impressão — 500 exemplares
Lisboa, Novembro de 2010

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