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AMÉRICA NATIVA, 1491 d.C.

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1491
Novas revelações sobre as Américas
antes de Colombo

CHARLES C. MANN
Tradução:
Renato Aguiar

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Copyright © 2005 by Charles C. Mann

Título original:
1491 – New Revelations of the Americas Before Columbus

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA OBJETIVA LTDA. Rua Cosme Velho, 103
Rio de Janeiro – RJ – CEP: 22241-090
Tel.: (21) 2199-7824 – Fax: (21) 2199-7825
www.objetiva.com.br

Capa
Raul Fernandes

Revisão
Ana Kronemberger
Lilia Zanetti
Raquel Correia

Diagramação
ô de casa

Para a mulher no escritório ao lado


– sem nuvens, como todo o resto

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M246m

Mann, Charles C.
1491 : novas revelações sobre as Américas antes de Colombo / Charles C. Mann ;
tradução de Renato Aguiar. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2007.
482p. : il., mapas

Tradução de: 1491 : new revelations of the Americas before Columbus


Apêndices
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7302-849-2

1. Índios - Origem. 2. Índios - História. 3. Índios - Antigüidades. 4. América


- Antigüidades. I. Título. II. Título: Novas revelações sobre as Américas antes de
Colombo.

07-1291. CDD: 970.011


CDU: 94(399.7)

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SUM Á R I O

Lista de mapas vii


Prefácio ix

INTRODUÇÃO / O Erro de Holmberg

1. Uma visão do alto 3

PARTE UM / Números de lugar nenhum?

2. Por que Billington sobreviveu 33


3. Na Terra dos Quatro Quadrantes 67
4. Questões mais freqüentes 105

PARTE DOIS / Ossos muito velhos

5. Guerras pleistocênicas 147


6. Algodão (ou anchovas) e milho índio 185
(Contos das duas civilizações, Parte I)
7. Escrita, rodas e brigadas do balde 218
(Contos das duas civilizações, Parte II)

PARTE TRÊS / Paisagem com figuras

8. Fabricado na América 259


9. Amazônia 299
10. A selva artificial 332

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vi Sumário

CODA

11. A Grande Lei da Paz 351

Apêndices
A. Palavras carregadas 361
B. Nós eloqüentes 367
C. A exceção da sífilis 373
D. Matemática dos calendários 377

Agradecimentos 383
Notas 385
Bibliografia 419
Índice remissivo 457

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M A PA S

Página ii América nativa, 1491 d.C.


26 América nativa, 1000 d.C.
40 Aliança Massachusett, 1600 d.C.
51 Povos da Terra do Amanhecer, 1600 d.C.
71 Tawantinsuyu: A Terra dos Quatro Quadrantes, 1527 d.C.
81 Tawantinsuyu: Expansão do império inka, 1438-1527 d.C.
135 Tríplice Aliança, 1519 d.C.
169 Rotas da migração paleoíndia: América do Norte, 10000 a.C.
196 Norte Chico: O primeiro complexo urbano das Américas,
3000-1800 a.C.
227 Mesoamérica, 1000 a.C. – 1000 d.C.
244 Wari e Tiwanaku, 700 d.C.
274 Construtores de Montes, 3400 a.C. – 1400 d.C.
281 O American Bottom, 1300 d.C.
293 A Guerra de Cem Anos: A batalha de Kaan e Mutal para
controlar a região central maia, 562-682 d.C.
307 Bacia do Amazonas
343 Paisagens humanizadas, 1491 d.C.

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P R EF Á C I O

As sementes deste livro datam, pelo menos em parte, de 1983, quando escrevi
um artigo para a Science sobre um programa da Nasa que monitorava níveis
atmosféricos de ozônio. No decorrer dos meus estudos sobre o programa,
voei com uma equipe de pesquisa num avião da Nasa equipado para recolher
amostras e analisar a atmosfera a 30 mil pés. Em determinado ponto, o grupo
pousou em Mérida, na península de Yucatán, no México. Por alguma razão,
os cientistas tinham o dia seguinte de folga, e pegamos todos uma decrépita
Kombi Volkswagen para visitar as ruínas maias de Chichén Itzá. Eu nada sabia
sobre a cultura mesoamericana – é possível que sequer estivesse familiarizado
com o termo “mesoamericano”, que abrange a área do México central ao Pa-
namá, incluindo inteiramente a Guatemala e o Belize, e partes de El Salvador,
Honduras, Costa Rica e Nicarágua, a terra natal dos maias, o Olmec, e hospe-
deira de outros grupos indígenas. Momentos depois de saltarmos da Kombi,
eu estava completamente encantado.
Retornei a Yucatán – às vezes de férias, outras a serviço – cinco ou seis
vezes, três com meu amigo Peter Menzel, que é fotojornalista. Peter e eu fi-
zemos uma viagem de 12 horas por uma terrível estrada de terra (buracos
fundos até a cintura, barreiras de troncos caídos), para uma revista alemã,
à metrópole maia de Calakmul, antes que fosse iniciada qualquer escavação
no lugar. Acompanhava-nos Juan de la Cruz Briceño, zelador de uma outra
ruína menor. Juan tinha passado vinte anos como chiclero, percorrendo trilhas
durante semanas floresta adentro à procura de sapotizeiros, cuja seiva leitosa
os índios secaram e mascaram durante milênios, a qual, no final do século
XIX, tornou-se base da indústria da goma de mascar. Em volta da fogueira, ele
nos contou sobre as antigas cidades amortalhadas de cipós e trepadeiras com
que ele topara em suas perambulações, e da sua surpresa quando os cientistas
o informaram que seus ancestrais as tinham construído. Naquela noite, nós
dormimos em redes entre altas esculturas de pedra semelhantes a lápides que
não foram lidas por mais de mil anos.
Meu interesse pelos povos que circulavam nas Américas antes de Colombo
só ganhou contornos mais definidos no outono de 1992. Por acaso, numa tarde

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x Prefácio

de domingo, encontrei em exposição na biblioteca de uma universidade a edição


colombiana especial do quinto centenário dos Anais da Associação de Geógrafos
Americanos. Curioso, peguei a revista, deixei-me afundar numa poltrona e come-
cei a ler um artigo de William Denevan, geógrafo na Universidade de Wisconsin.
O artigo começava com uma pergunta: “Como era o Novo Mundo na época de
Colombo?” Sim, pensei eu, como seria? Quem vivia aqui e o que pode lhes ter
passado pela cabeça quando as velas européias se apresentaram pela primeira vez
no horizonte? Terminei o artigo de Denevan e segui adiante, sem parar de ler até
o bibliotecário piscar as luzes para indicar o fechamento.
Então eu não sabia, mas Denevan e uma quantidade de colegas pesqui-
sadores tinham passado toda a sua carreira buscando respostas a essas per-
guntas. O quadro que fizeram emergir é muito diferente daquele pensado
pela maioria dos americanos e europeus, e permanece pouco conhecido fora
dos círculos especializados.
Um ano ou dois depois de ter lido o artigo de Denevan, eu participei
de um grupo de discussão no encontro anual da Sociedade Americana para
o Avanço da Ciência. O tema do encontro era algo como “Novas perspec-
tivas na Amazônia”, e a sessão destacava William Balée, da Universidade de
Tulane. Balée falou sobre florestas “antropogênicas” – florestas criadas pelos
índios há séculos ou milênios –, conceito de que eu jamais tinha ouvido falar.
Ele também mencionou algo que Denevan havia discutido: muitos pesqui-
sadores acreditam agora que seus antecessores subestimaram o número de
habitantes nas Américas à chegada de Colombo. Os índios eram muito mais
numerosos do que pensávamos, disse Balée – muito mais numerosos. Puxa!,
alguém devia juntar todo esse material, pensei eu com meus botões. Seria um
livro fascinante.
E fiquei esperando esse livro ser publicado. A espera tornou-se mais frus-
trante quando meu filho entrou para a escola e ensinaram-lhe as mesmas coisas
que a mim, crenças que eu sabia terem sido há muito severamente questionadas.
E como ninguém mais se apresentou para escrever o livro, finalmente eu mesmo
decidi fazê-lo. Além disso, eu estava curioso, queria aprender mais. O livro que
você tem em suas mãos é o resultado disso.
Este livro não é um relato cronológico sistemático do desenvolvimento
cultural e social do Hemisfério Ocidental antes de 1492. Tal livro, seu vasto
escopo de espaço e tempo, não poderia ser escrito – quando o autor estivesse
chegando ao final, novas descobertas teriam sido feitas, e o começo teria se
tornado obsoleto. Entre os que me garantiram isso, estavam aqueles mesmos
pesquisadores que passaram grande parte das últimas décadas empenhados
em lidar com a inacreditável diversidade das sociedades pré-colombianas.

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo xi

Também não se trata de uma história intelectual completa das mudanças


recentes de perspectiva entre antropólogos, arqueólogos, ecologistas, geógra-
fos e historiadores que estudam os primeiros americanos. Isso também teria
sido impossível, pois as ramificações das novas idéias continuam a dispersar
ondas concêntricas em demasiadas direções para que qualquer escritor possa
contê-las num único trabalho.
Em vez disso, este livro explora o que creio constituir os três focos prin-
cipais das novas descobertas: demografia índia (Parte I), origens índias (Parte
II), e ecologia índia (Parte III). Considerando que tantas sociedades diferentes
ilustram esses pontos de modos tão diversos, eu absolutamente não poderia ter
sido abrangente. Antes, escolhi meus exemplos entre culturas que estão melhor
documentadas ou que chamaram a atenção mais recentemente, ou que apenas
pareceram mais intrigantes.
Ao longo de todo este livro, como o leitor já terá percebido, eu uso
o termo “índio” para referir os primeiros habitantes das Américas. Não há
dúvidas, “índio” é um nome equívoco e historicamente impróprio. Provavel-
mente, o descritor mais exato para os habitantes originais das Américas seja
“americanos”. Contudo, usá-lo neste sentido pode acarretar riscos de grandes
confusões. Neste livro, eu tento fazer referência aos povos pelos nomes com
que eles mesmos se chamam. A esmagadora maioria dos povos indígenas que
conheci tanto na América do Norte como na América do Sul descreve a si
mesmos como índios. (Para mais detalhes sobre nomenclatura, ver Apêndice
A, “Palavras carregadas”.)

Em meados da década de 1980, eu viajei para o povoado de Hazelton,


no alto rio Skeena, na parte central da Colúmbia Britânica. Muitos dos seus
habitantes pertencem à nação Gitksan (ou Gitxsan). Na época da minha visita,
os gitksan tinham acabado de iniciar um processo contra os governos tanto
da Colúmbia Britânica como do Canadá. Eles queriam que a província e a
nação reconhecessem que os gitksan viviam no lugar há muito tempo, que
nunca o deixaram, nunca concordaram em abrir mão das suas terras e, assim,
conservavam o direito legal à posse de cerca de 28.500 quilômetros quadrados
da província. Eles estavam com muita disposição para negociar, disseram, mas
definitivamente não queriam que deixassem de negociar com eles.
Ao voar para lá, pude ver por que os gitksan davam tanto valor à área.
A planície tocava os magníficos paredões nevados das montanhas Rocher de
Boule, estendendo-se até a confluência de dois vales ribeirinhos arborizados.
A bruma emanava da terra. A gente do lugar pescava trutas e salmões nos rios,
ainda que estivessem a 260 quilômetros da costa.

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xii Prefácio

O grupo Gitanmaax dos gitksan tem o seu quartel-general em Hazelton,


mas a maioria dos membros vive na reserva logo às cercanias da cidade. Fui de
carro até a reserva, onde Neil Sterritt, líder do conselho Gitanmaax, explicou-
me o litígio. Homem direto de voz comedida, ele começou trabalhando como
engenheiro de minas mas voltou para casa de mangas arregaçadas, pronto para
um longo certame de disputas legais. Após muitos julgamentos e apelações, a
Corte Suprema do Canadá decidiu, em 1997, que a Colúmbia Britânica tinha
de negociar o status da terra com os gitksan. Conversações ainda estavam em
curso em 2005, duas décadas depois da primeira ação judicial ter começado.
Passado um tempo, Sterritt levou-me para conhecer ‘Ksan, parque his-
tórico e escola de arte criados em 1970. Havia no parque várias habitações
comunais, suas fachadas cobertas à maneira vigorosamente elegante da arte
índia da costa noroeste. A escola de arte treinava índios locais nas técnicas de
traduzir motivos de origem tradicional em cópias impressas em silkscreen.
Sterritt deixou-me numa sala nos fundos da escola e disse-me para dar uma
olhada. Havia mais coisas do que eu havia percebido na sala, pois logo achei
umas caixas que pareciam servir de depósito para um certo número de belas
máscaras antigas. Ao lado delas havia uma pilha de pinturas modernas, algu-
mas das quais usando o mesmo desenho. E havia caixas de fotografias, velhas
e novas igualmente, muitas de esplêndidas peças de arte.
Na arte da costa noroeste, os motivos são achatados e distorcidos – como
se tivessem sido reduzidos de três para duas dimensões e depois dobrados
como origamis. No começo, achei todos os desenhos difíceis de interpretar,
mas logo alguns deles pareceram brotar subitamente à superfície. Eles tinham
linhas claras que cortavam o espaço em formatos ao mesmo tempo simples
e complexos: objetos dentro de objetos, criaturas que adentraram em seus
próprios olhos, humanos que eram meio animais, animais que eram meio
humanos – tudo era metamorfose e comoção surrealista.
Uns poucos objetos eu olhei e entendi imediatamente, muitos eu abso-
lutamente não compreendi, alguns eu pensei ter entendido, mas é provável
que não, e outros talvez nem os gitksan entendessem, assim como a maioria
dos europeus de hoje não consegue verdadeiramente entender o efeito da arte
bizantina sobre o espírito daqueles que a viram na época da sua criação. Mas
eu fiquei encantado com as suas linhas definidas e expressivas, e fascinado
pela sensação de que estava espreitando um passado vibrante que eu não sabia
que existia e que continuava a dar forma ao presente de um modo que eu não
havia compreendido. Por uma ou duas horas, fui de objeto em objeto, sempre
ansioso para ver mais. Ao compilar este livro, espero poder compartilhar a
excitação que senti então, e muitas outras vezes desde aquela ocasião.

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INTRODUÇÃO

O Erro de Holmberg

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1

Uma visão do alto

NO BENI

O tempo estava surpreendentemente ameno quando o avião decolou para a Bo-


lívia central e voou para leste, na direção da fronteira com o Brasil. Em poucos
minutos, estradas e casas desapareceram, e o único traço de ocupação humana
era a presença de gado disperso nas savanas como pequeninos confeitos no sor-
vete. Depois, eles também desapareceram. Os arqueólogos mantinham as suas
câmeras nas mãos e, encantados, iam fotografando à vontade.
Abaixo de nós estava o Beni, departamento boliviano do tamanho
aproximado de Illinois e Indiana juntos, e quase igualmente plano. Durante
quase a metade do ano, a chuva e a neve derretida das montanhas ao sul e
a oeste cobrem a terra com uma pele fina e semovente de águas, as quais
finalmente irão encher os rios dos departamentos setentrionais, tributários
altos do Amazonas. No resto do ano, a água seca e a vastidão verde luxu-
riante transformam-se em algo que mais parece um deserto. Aquela planície
peculiar remota e amiúde alagadiça era o que tinha chamado a atenção dos
pesquisadores, e não foi apenas por ser um dos poucos lugares na terra a ser
habitado por pessoas que podiam jamais ter visto ocidentais com câmeras
fotográficas nas mãos.
Os arqueólogos Clark Erickson e William Balée sentavam-se à frente.
Erickson, baseado na Universidade da Pensilvânia, trabalhava em conjunto
com um arqueólogo boliviano, que naquele dia estava tentando liberar um
lugar para mim no avião. Balée, de Tulane, é na verdade antropólogo, mas à
medida que os cientistas começaram a tomar consciência das maneiras como
o passado e o presente se complementam, dilui-se a distinção entre antropó-
logos e arqueólogos. Os dois homens eram de constituição, temperamento

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4 Uma Visão do Alto

e inclinação acadêmica diferentes, mas os dois estavam de rosto colado na


janela, mostrando o mesmíssimo entusiasmo.
Espalhadas na paisagem abaixo, havia um sem-número de ilhas de flo-
restas, muitas delas círculos quase perfeitos – amontoados de verde num mar
de grama amarela. Cada ilha elevava-se a cerca de 20 metros acima do nível da
planície, permitindo o crescimento de árvores que de outro modo não pode-
riam suportar a água. As florestas eram ligadas por bermas construídas, tão retas
quanto o trajeto de um projétil e com até 4 quilômetros de extensão. Erickson
acredita que toda aquela paisagem – 78 mil quilômetros quadrados ou mais de
ilhas arborizadas e de montes interligados através de caminhos elevados – foi
construída há mais de mil anos por uma sociedade populosa e tecnologicamente
avançada. Balée, menos familiarizado com o Beni, tendia a esta opinião, mas
ainda não estava pronto a comprometer-se.
Erickson e Balée pertencem a uma legião de estudiosos que nos anos
recentes questionaram radicalmente as noções convencionais sobre como era
o Hemisfério Ocidental antes de Colombo. Quando entrei para o segundo
grau, na década de 1970, ensinaram-me que os índios vieram para as Amé-
ricas cruzando o estreito de Bering cerca de 13 mil anos atrás, que em sua
maioria viviam em pequenos grupos isolados, e que produziram um impacto
tão pequeno em seu meio ambiente que, mesmo após milênios de habitação,
os continentes conservaram-se praticamente intocados. As escolas ainda trans-
mitem essas idéias nos dias de hoje. Uma maneira de resumir as opiniões de
gente como Erickson e Balée seria dizer que eles consideram este quadro da
vida indígena errado em quase todos os seus aspectos. Os índios estão aqui há
muito mais tempo do que antes pensou-se, acreditam esses pesquisadores, e
em números muito mais expressivos. E foram tão bem-sucedidos em impor a
sua vontade à paisagem que, em 1492, Colombo desembarcou num hemisfé-
rio definitivamente marcado pelo ser humano.
Dadas as carregadas relações entre as sociedades brancas e os povos
nativos, a pesquisa sobre a cultura e a história índias é inevitavelmente con-
tenciosa. Mas o conhecimento recente é especialmente polêmico. Para co-
meçar, alguns pesquisadores – muitos, mas não todos da geração anterior –
ridicularizam as novas teorias caracterizando-as como fantasias decorrentes
de uma interpretação equivocada quase voluntária dos dados e de um tipo
perverso de corretismo político. “Não vi nenhum indício de que um grande
número de pessoas já tenha vivido no Beni”, disse-me Betty J. Meggers, do
Smithsonia. “Afirmar o contrário nada mais é do que confundir desejo com
realidade.” Com efeito, dois arqueólogos argentinos apoiados pelo Smith-
sonia argumentaram que muitos dos montes maiores são depósitos naturais

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 5

da planície aluvial; uma “pequena população inicial” pode ter construído os


caminhos e campos elevados remanescentes num espaço de tempo tão curto
quanto uma década. Segundo Dean R. Snow, antropólogo da Universidade
Estadual da Pensilvânia, críticas semelhantes aplicam-se a muitas das no-
vas afirmações dos estudiosos sobre os índios. O problema é que “dá para
fazer as magras evidências do registro etno-histórico dizerem tudo o que a
gente quiser”, diz ele. “É realmente fácil enganar-se.” E há quem acuse es-
sas afirmações de responderem às necessidades de agenda política daqueles
que buscam desacreditar a cultura européia, pois números elevados parecem
inflacionar a escala das perdas nativas.
Disputas também acontecem porque as novas teorias têm implicações
para as batalhas ecológicas de hoje. Grande parte do movimento ambientalista
é animada, conscientemente ou não, pelo que o geógrafo William Denevan
chama de “mito prístino” – a crença de que as Américas de 1491 eram uma
terra quase intocada, mesmo edênica, “que não havia sofrido a ação huma-
na”, nas palavras do Wilderness Act de 1964, lei estadunidense que vem a ser
um dos documentos fundadores do movimento ambientalista global. Para os
ativistas verdes, como escreveu o historiador da Universidade de Wisconsin
William Cronon, restaurar este estado outrora supostamente natural é a tarefa
a que a sociedade está moralmente obrigada a empreender. Contudo, se a
nova visão for correta e houve provas de uma ação humana disseminada, em
que pé ficariam os esforços para restaurar a natureza?
O caso do Beni é exemplar. Além de construírem estradas, caminhos
elevados, canais, diques, reservatórios, montes, campos agrícolas elevados
e talvez quadras esportivas, argumentou Erickson, os índios que viviam lá
antes de Colombo capturavam peixes na pradaria sazonalmente inundada.
A captura não era obra de uns poucos nativos isolados com a ajuda de redes,
mas um esforço envolvendo toda a sociedade, em que centenas ou milha-
res de pessoas articulavam densas redes em ziguezague de currais de pesca
(armadilhas fixas para peixes), montadas com estacas de barro cozido entre
os caminhos elevados. Grande parte da savana é natural, resultante dos ala-
gamentos sazonais. Mas os índios mantiveram e expandiram os prados pro-
movendo queimadas em imensas áreas. Ao longo dos séculos, a queimada
produziu um intrincado ecossistema de espécies vegetais adaptadas ao fogo,
as quais dependem da pirofilia indígena. Os habitantes atuais do Beni con-
tinuam a praticar a queimada, ainda que agora principalmente para a manu-
tenção da savana para o gado. Quando voamos sobre a região, a estação seca
tinha acabado de começar, mas linhas de fogo de mais de 1,5 quilômetro já
estavam queimando. A fumaça subia aos céus em grandes colunas vibrantes.

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6 Uma Visão do Alto

Nas áreas calcinadas atrás das linhas de fogo, despontavam esqueletos ene-
grecidos de árvores, muitas das quais de espécies que os ativistas lutam para
salvar em outras partes da Amazônia.
O futuro do Beni é incerto, especialmente nas regiões menos densamente
ocupadas, perto da fronteira com o Brasil. Alguns estrangeiros desejam desen-
volver a área para a implantação de fazendas, conforme foi feito com muitas
pradarias nos Estados Unidos. Outros querem manter esta região esparsamen-
te povoada tão próxima da vastidão inculta quanto possível. Os grupos índios
locais encaram esta última proposta com desconfiança. Se o Beni se tornar
uma reserva de “natureza”, perguntam eles, que organização internacional iria
permitir que eles continuassem a pôr fogo nas campinas? Poderia algum grupo
externo endossar a queimada em larga escala da Amazônia? Em vez disso, os
índios propõem que o controle da terra seja transferido às suas mãos. Os ati-
vistas, por sua vez, encaram a idéia sem entusiasmo – alguns grupos indígenas
do sudeste dos Estados Unidos promoveram o uso das suas reservas como
repositório de lixo nuclear. E, é claro, há todas aquelas queimadas.

O E R RO D E H O L M B E R G

“Não toque nesta árvore”, disse Balée.


Eu fiquei imóvel na hora. Estava subindo uma colina baixa de solo friável
e prestes a apoiar-me agarrando uma árvore muito fina, quase uma videira,
com folhas oblongas. “Triplaris americana”,* disse Balée, especialista em bo-
tânica florestal. “É melhor tomar cuidado com ela.” Num arranjo bastante
incomum, disse ele, a T. americana funciona como hospedeira para colônias
de pequeninas formigas vermelhas – com efeito, é até difícil que sobreviva sem
elas. As formigas ocupam túneis minúsculos bem abaixo da casca. Em troca
de abrigo, elas atacam qualquer coisa que se aproxime da árvore – insetos,
pássaros, escritores incautos. A ferocidade excretora de veneno de seu ataque
dá lugar ao apelido local da T. americana: árvore do diabo.
Ao pé da árvore do diabo havia a toca deserta de um animal. Balée ras-
pou um pouco a terra com uma faca e depois acenou para mim, e também
para Erickson e meu filho Newell, que nos acompanhavam. O buraco estava
repleto de fragmentos de cerâmica. Podia-se ver a borda de pratos e algo que
parecia ser a base de uma chaleira – com o formato de um pé humano com-

* Essa árvore tem, no Brasil, vários nomes comuns: pau-formiga, pau-de-novato, formigueiro, paliteiro, ta-
quari, novateiro, pajeú, tachi, tangarana etc. (N. do T.)

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 7

pleto, de unhas pintadas. Balée arrancou uma meia dúzia de peças: cacos de
vasos e de pratos, a extensão partida de um barra cilíndrica que pode ter sido
parte do suporte de um vaso. Cerca de um oitavo da colina, em termos de
volume, era composto por fragmentos assim, disse ele. Pode-se cavar em quase
todo lugar e encontrar coisa parecida. Nós estávamos subindo num imenso
amontoado de louça de barro quebrada.
O monte é conhecido como Ibibate, sendo, com seus 18 metros, um
dos mais altos montes arborizados no Beni. Erickson me explicou que os
fragmentos de cerâmica teriam provavelmente servido para ajudar a produzir
um solo barrento arejado para assentamento e agricultura. Porém, apesar de
esta explicação fazer sentido em termos de engenharia, disse ele, não torna a
antiga ação dos construtores de montes menos misteriosa. Os montes cobrem
uma área tão enorme que parece improvável serem um subproduto do lixo.
Monte Testaccio, a colina de vasos quebrados a sudeste de Roma, havia sido
um depósito de lixo que serviu para toda a cidade imperial. Ibibate é maior
do que monte Testaccio e apenas um entre centenas de montes semelhantes.
E, com certeza, o Beni não gerava mais lixo do que Roma – as cerâmicas de
Ibibate, argumenta Erickson, indicam que um grande número de pessoas,
entre elas trabalhadores qualificados, viveram longo tempo nesses montes,
banqueteando-se e bebendo exuberantemente o tempo todo. O número de
oleiros necessários para fazer as pilhas de louça de barro, o tempo exigido
de trabalho, o número de pessoas necessário para fornecer comida e abrigo
aos oleiros, a organização da destruição e enterramento – tudo isso prova,
no modo de pensar de Erickson, que há mil anos o Beni foi o sítio de uma
sociedade altamente estruturada, sociedade esta que agora apenas despontava
à luz da investigação arqueológica.
Dois índios sirionó estavam nos acompanhando naquele dia, Chiro
Cuéllar e seu genro Rafael. Os dois homens eram muito magros, morenos e
imberbes; andando ao lado deles na trilha, notei pequenas fissuras nos lóbulos
das suas orelhas. Rafael, satisfeito até quase a presunção, temperava a tar-
de com comentários; Chiro, uma figura local de autoridade, fumava cigarros
“Marlboro” fabricados na região e observava nosso progresso com expressão
de divertida tolerância. Eles viviam a cerca de 1,5 quilômetro de distância,
num pequeno povoado ao final de uma longa e sulcada estrada de terra. Nós
tínhamos dirigido até lá mais cedo naquele dia, estacionando à sombra de
uma escola prestes a desabar, perto de alguns velhos prédios missionários. As
estruturas estavam agrupadas no alto de uma pequena colina – outro monte
antigo. Enquanto Newell e eu esperávamos no caminhão, Erickson e Balée
entraram na escola para obter permissão de Chiro e de outros membros do

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8 Uma Visão do Alto

conselho do povoado para perambular na região. Notando que estávamos à


toa, duas crianças sirionó tentaram convencer Newell e eu de irmos ver uma
onça num cercado, e de lhes darmos algum dinheiro pela emoção. Após uns
poucos minutos, Erickson e Balée saíram com a permissão necessária – e dois
acompanhantes, Chiro e Rafael. Foi então que, escalando o Ibibate, Chiro
percebeu que eu estava ao lado da árvore do diabo. Mantendo-se totalmente
inexpressivo, ele sugeriu que eu trepasse na árvore. Lá em cima, disse ele, eu
encontraria um delicioso fruto selvagem. “Vai ser diferente de qualquer coisa
que você já tenha experimentado”, prometeu ele.
Do alto do Ibibate, nós podíamos ver a savana circundante. Talvez a uns
500 metros de distância, do outro lado de uma extensão amarela de mato à
altura da cintura, havia uma fileira de árvores – um antigo caminho elevado
ali erguido, disse Erickson. Sem ser por isso, o território era plano e podía-
mos enxergar quilômetros em todas as direções – ou, melhor, poderíamos ter
enxergado quilômetros, se em algumas direções a atmosfera não estivesse tão
carregada de fumaça.
Depois, fiquei pensando sobre a relação dos nossos acompanhantes com
aquele lugar. Eram os sirionó parecidos com os italianos contemporâneos que
vivem entre os monumentos do Império Romano? Fiz a pergunta a Erickson
e Balée durante o percurso de volta.
A resposta deles foi se prolongando esporadicamente ao longo do res-
tante da tarde, enquanto rodávamos para nossos alojamentos sob uma chuva
fria fora de estação e, depois, enquanto jantávamos. Nos anos 1970, disseram
eles, a maioria das autoridades teria respondido à minha pergunta sobre os
sirionó de uma maneira. Hoje, a maioria responderia de outra, de maneira
diferente. E a diferença envolve o que passei a conceber, algo injustamente,
como o Erro de Holmberg.
Embora os sirionó sejam apenas um entre os muitos grupos de ameri-
canos nativos no Beni, são os mais bem conhecidos. Entre 1940 e 1942, um
jovem estudante de doutorado de nome Allan R. Holmberg viveu entre eles.
Em 1950, ele publicou um relato sobre a experiência, Nomads of the Long Bow
[Nômades do arco longo]. (O título faz referência aos arcos de 1,80 metro
usados pelos sirionó para caçar.) Rapidamente reconhecido como um clássico,
Nomads continua a ser um ícone, um texto muito influente; conforme se pode
depreender de um sem-número de outros artigos especializados e das referên-
cias na imprensa popular, tornou-se uma das fontes mais importantes para a
imagem que o mundo exterior construiu dos índios sul-americanos.
Os sirionó, relatou Holmberg, estavam “entre os povos culturalmente
mais atrasados do mundo”. Passando necessidade e fome constantes, eles não

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usavam roupas, não tinham animais domésticos, instrumentos musicais (nem


sequer chocalhos e tambores), nenhuma arte ou desenho (exceto colares de
dentes de animais), e quase nenhuma religião (a “concepção do universo”
sirionó era “quase completamente informe”). Incrivelmente, eles não sabiam
contar além de três e nem acender fogo (eles o transportavam, escreveu, “de
acampamento em acampamento num tição [candente]”). Seus infelizes te-
lhados de uma única água, feitos de folhas de palmeiras sobrepostas ao acaso,
eram tão ineficazes contra a chuva e os insetos que o membro típico do grupo
“passa muitas noites em claro durante o ano”. Acocorados sobre fogueiras
exíguas nas noites úmidas e infestadas de insetos, os sirionó seriam exemplares
vivos do ser humano primitivo – a “quintessência” do “homem em estado
bruto da natureza”, conforme a formulação de Holmberg. Durante milênios,
pensava ele, eles tinham existido quase sem mudanças, numa paisagem sem
marcas da sua presença. Então encontraram a civilização européia, e pela pri-
meira vez a sua história adquiriu um fluxo narrativo.
Holmberg era um pesquisador cuidadoso e compassivo, cujas observa-
ções detalhadas da vida sirionó permanecem válidas. E ele suportou brava-
mente na Bolívia provações que teriam feito muitos outros desistirem. Du-
rante seus meses de campo, ele sempre sofreu desconforto, em geral passou
fome e freqüentemente ficou doente. Sem poder enxergar por causa de uma
infecção em ambos os olhos, ele andou durante dias através da floresta até
um hospital, segurando a mão de um guia sirionó. Ele jamais recuperou ple-
namente a saúde. Após o seu retorno, tornou-se chefe do departamento de
antropologia da Universidade de Cornell, posição a partir da qual conduziu
seus celebrados esforços para minorar a pobreza nos Andes.
Não obstante, ele estava errado sobre os sirionó. E estava errado sobre o
Beni, o lugar em que habitavam – errado de uma maneira que é instrutiva, e
mesmo exemplar.
Antes de Colombo, acreditava Holmberg, tanto o povo como a terra não ti-
nham realmente uma história. Afirmada tão cruamente, esta noção – de que os po-
vos indígenas das Américas vagaram imutáveis através dos milênios até 1492 – pode
parecer burlesca. Mas erros de perspectiva muitas vezes só parecem óbvios depois de
apontados. Neste caso, passaram-se décadas até serem retificados.
A instabilidade do governo boliviano e os espasmos de retórica antia-
mericana e antieuropéia garantiram que poucos antropólogos e arqueólogos
seguissem Holmberg e viessem ao Beni. Não só o governo era hostil, mas a
região, um centro de comércio de cocaína nas décadas de 1970 e 1980, era
perigosa. Hoje há menos tráfico de drogas, mas ainda é possível ver trilhas
de contrabando abertas em áreas remotas da floresta. Destroços de um avião

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10 Uma Visão do Alto

do tráfico de drogas jazem não muito distantes do aeroporto de Trinidad, a


maior cidade do departamento. Durante as guerras da droga, “o Beni foi ne-
gligenciado, até para os padrões bolivianos”, segundo Robert Langstroth, um
importante geógrafo e ecologista de Wisconsin, que fez lá o trabalho de cam-
po da sua dissertação. “Era o atraso do atraso.” Gradualmente, um pequeno
número de cientistas se aventurou na região. O que descobriram transformou
a sua compreensão do lugar e do seu povo.
Exatamente como Holmberg acreditava, os sirionó estavam entre os po-
vos culturalmente mais empobrecidos da terra. Mas isto não era devido ao
fato de serem remanescentes inalterados do passado remoto da espécie hu-
mana, e sim o resultado de seus povoados terem sido devastados pela varíola
e a influenza nos anos 1920. Antes da epidemia, pelo menos 3 mil sirionó, e
provavelmente muitos mais, viviam na Bolívia oriental. Na época de Holm-
berg, restavam menos de 150 – uma perda de mais de 95% em menos de uma
geração. O declínio foi tão catastrófico que os sirionó passaram por um gar-
galo genético. (Gargalos genéticos ocorrem quando uma população torna-se
tão pequena que seus indivíduos são forçados a procriar com parentes, o que
pode produzir efeitos hereditários deletérios.) Os efeitos do gargalo genético
foram descritos em 1982, quando Allyn Stearman, da Universidade da Flórida
Central, tornou-se o primeiro antropólogo a visitar os sirionó desde Holm-
berg. Stearman descobriu que eles tinham trinta vezes mais probabilidades de
nascerem com pés tortos do que as populações humanas típicas. E que quase
todos os sirionó tinham fissuras inusuais nos lóbulos das orelhas, traços que
eu notara nos dois homens que tinham nos acompanhado.
Concomitantemente ao golpe epidêmico, Stearman tomou conhecimen-
to, o grupo estava lutando contra os rancheiros de gado brancos que estavam to-
mando posse da região. As forças armadas bolivianas colaboraram nas incursões,
perseguindo os sirionó e jogando-os no que de fato eram campos de prisioneiros.
Os que tinham o confinamento relaxado, eram forçados à servidão nos ranchos.
Os elementos errantes com quem Holmberg viajara na floresta estavam se es-
condendo dos seus ofensores. Assumindo correr certos riscos, Holmberg tentou
ajudá-los, mas jamais compreendeu plenamente que as pessoas que ele via como
remanescentes da Era Paleolítica eram na verdade sobreviventes perseguidos de
uma cultura recém despedaçada. Seria mais ou menos como deparar-se com
refugiados de campos de concentração nazistas e concluir que pertenciam a uma
cultura que sempre estivera descalça e esfomeada.
Longe de serem remanescentes da Idade da Pedra, a chegada dos sirionó
ao Beni é de fato relativamente recente. Eles falam uma língua pertencente
ao grupo Tupi-Guarani, uma das mais importantes famílias lingüísticas indí-

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 11

genas da América do Sul, mas incomum na Bolívia. A evidência lingüística,


examinada pela primeira vez por antropólogos na década de 1970, sugere
que tenham chegado pelo norte, mais ou menos na época dos primeiros co-
lonizadores e missionários espanhóis. Outros indícios sugerem que possam
ter chegado poucos séculos antes; grupos falantes de tupi-guarani, incluindo
possivelmente os sirionó, atacaram o império inka no começo do século XVI.
Ninguém sabe por que eles se deslocaram para aquela região, mas uma razão
pode ser simplesmente que o Beni fosse então pouco habitado. Pouco antes,
desintegrara-se a sociedade dos habitantes anteriores.
A julgar por Nomads of the Long Bow, Holmberg nada sabia sobre essa
sociedade anterior – a cultura que construiu os caminhos elevados, os montes
e os currais de pesca. Ele não percebeu que os sirionó estavam andando por
uma paisagem que havia sido configurada por outrem. Uns poucos observa-
dores europeus antes de Holmberg haviam comentado a existência de terra-
plenagens, embora alguns duvidassem que os caminhos elevados e as ilhas
arborizadas fossem resultado de ação humana. Mas eles não despertaram o
interesse científico sistemático até 1961, quando William Denevan veio para a
Bolívia. Então doutorando, ele havia percebido a paisagem peculiar da região
durante uma curta missão anterior como repórter no Peru, e achou que podia
ser um interessante tópico para a sua tese. Ao chegar, descobriu que geólogos
de companhias petroleiras, os únicos cientistas na área, acreditavam que o
Beni estivesse repleto de vestígios de uma civilização desconhecida.
Convencendo um piloto local a estender sua rota para o oeste, Denevan
examinou o Beni do alto. Ele observou exatamente o que eu vi quatro décadas
mais tarde: outeiros de floresta isolados; longas bermas construídas; canais;
campos agrícolas; valas de irrigação sugestivas de fossos; e curiosas arestas em
ziguezague. “Eu fiquei olhando pela janela do DC-3, completamente arreba-
tado dentro daquele aviãozinho”, disse-me Denevan. “Eu sabia que aquelas
coisas não eram naturais. Aquele tipo de linha reta simplesmente não existe na
natureza.” Ao aprender mais sobre a paisagem, o pasmo de Denevan aumen-
tou. “É uma paisagem completamente humanizada”, disse ele. “Para mim, o
Beni era certamente a coisa mais empolgante que estava acontecendo na Ama-
zônia e áreas adjacentes. E talvez a coisa mais importante em toda a América
do Sul, acho. Mas estava praticamente intocado” pelos cientistas. A área ainda
permanece praticamente intocada – não existem sequer mapas detalhados dos
canais e terraplenagens.
Começando em época tão remota quanto 3 mil anos atrás, essa anti-
ga sociedade – Erickson acredita que provavelmente tenha sido fundada
pelos ancestrais de um povo falante de aruaque hoje chamado de Mojo e

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12 Uma Visão do Alto

de Bauré – criou um dos maiores, mais singulares e mais ecologicamente ri-


cos ambientes artificiais do planeta. Esse povo construiu montes para fins
de moradia e de cultivo, construiu os caminhos elevados e canais para
fins de transporte e comunicações, criou os currais de pesca, e promoveu
queimadas nas savanas para mantê-las desmatadas, livres das árvores que
as retomariam. Há mil anos, a sociedade deles estava em seu apogeu.
Seus povoados e cidades eram espaçosos, formais e guardados por fossos
e paliçadas. Na reconstrução hipotética de Erickson, até um milhão de
pessoas pode ter cruzado os caminhos elevados da Bolívia oriental em
suas longas túnicas de algodão, com pesados ornamentos balouçantes nos
pulsos e pescoço.
Hoje, centenas de anos depois da cultura Aruaque ter saído de cena, a
floresta sobre e em volta dos montes de Ibibate parece ser a Amazônia clássica
dos sonhos dos conservacionistas: cipós da largura de braços humanos, folhas
como lâminas pendentes de mais de 1,80 metro, os troncos retilíneos e per-
feitamente cilíndricos da castanheira-do-brasil, flores espessamente encorpadas
que cheiram a carne viva. Em termos de riqueza de espécies, disse-me Balée, as
ilhas arborizadas da Bolívia são comparáveis a qualquer lugar da América do
Sul. O mesmo também é verdade para a savana do Beni, é o que parece, com o
seu diferente complemento de espécies. Ecologicamente, a região é um tesouro,
mas um tesouro projetado e executado por seres humanos. Erickson considera
que a paisagem do Beni é uma das mais notáveis obras de arte da humanidade,
uma obra-prima que até há pouco era quase completamente desconhecida, uma
obra-prima cujo nome poucas pessoas reconheceriam fora da Bolívia.

“ D E S P R OV I D O S D E S E R E S H U M A N O S
E DE SUAS OBRAS”

O Beni não seria anômalo. Ao longo de quase cinco séculos, o Erro de Holm-
berg – a suposição de que os americanos nativos vivessem num estado eterno
e anistórico – prevaleceu nos meios acadêmicos, e deles propagou-se para ma-
nuais escolares secundários, filmes de Hollywood, artigos de jornal, campanhas
ambientais, romances de aventuras e camisetas estampadas. A idéia existia sob
muitas formas e foi abraçada tanto pelos que desprezavam os índios como por
aqueles que os admiravam. O Erro de Holmberg explicava a visão dos coloniza-
dores de que a maioria dos índios era de bárbaros incuravelmente depravados;
e a sua imagem do outro lado do espelho é o estereótipo sonhador do índio
como Bom Selvagem. Positiva ou negativa, em ambas as imagens faltava o que

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 13

Sobrevoando a Bolívia oriental no começo dos anos 1960, o jovem geógrafo William Dene-
van ficou assombrado ao ver que a paisagem (abaixo) – que nada abrigou durante gerações
além de rancheiros de gado – ainda ostentasse evidências de que fora outrora habitada
por uma sociedade importante e próspera, sociedade esta cuja própria existência fora es-
quecida. Incrivelmente, descobertas como essas continuam a ser feitas. Em 2002 e 2003,
pesquisadores finlandeses e brasileiros revelaram os vestígios de dúzias de terraplenagens
geométricas (acima) no estado ocidental brasileiro do Acre, onde a floresta tinha acabado
de ser derrubada para a implantação de fazendas de gado.

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14 Uma Visão do Alto

os cientistas sociais chamam em inglês de agency – eles não eram atores autônomos,
mas recipientes passivos de todo acaso ou desastre posto em seu caminho.
O mito do Bom Selvagem vem de data tão antiga quanto a primeira
etnografia madura sobre os povos indígenas americanos, a Apologética Historia
Sumaria de Bartolomeu de Las Casas, escrita principalmente nos anos 1530.
Las Casas, um conquistador que se arrependeu de suas ações e ordenou-se
padre, despendeu a segunda metade da sua longa vida opondo-se à crueldade
européia nas Américas. Ele via os índios como criaturas naturais que viviam
no “paraíso terrestre”. Em sua inocência de antes da queda de Adão e Eva,
acreditava Las Casas, eles teriam estado pacificamente esperando – e esperan-
do durante milênios – pela instrução cristã. Um contemporâneo de Las Casas,
o comentador italiano Pietro Martire d’Anghiera, compartilhava essas opini-
ões. Os índios “vivem naquele mundo áureo do qual escritores antigos tanto
falam”, existindo “simples e inocentemente, sem a imposição de leis”.*
Nos nossos dias, as crenças sobre a simplicidade e a inocência inerentes
dos índios referem-se essencialmente à sua ausência de impacto sobre o meio
ambiente. Esta noção recua pelo menos até Henry David Thoreau, que des-
pendeu muito tempo em busca da “sabedoria índia”, um modo indígena de
pensar que supostamente não abrangeria medições e categorizações, as quais
ele via como os males que davam ao ser humano a capacidade de alterar a
Natureza. A idéia de Thoreau continua a exercer influência. Na esteira do
Dia da Terra em 1970, um grupo chamado Keep America Beautiful, Inc.
[Preserve a América Bonita, S/A] produziu e distribuiu cartazes que retra-
tavam um ator em trajes indígenas chorando silenciosamente em lamento
por causa da poluição. A campanha fez um enorme sucesso. Por mais de
uma década, a campanha do índio chorando apareceu em todo o mundo.
Contudo, ainda que os índios desempenhassem aqui o papel de heróis, a
propaganda continuava a corporificar o Erro de Holmberg, já que implici-
tamente retratava os índios como um povo que nunca teria alterado o estado
selvagem original do seu meio ambiente. E como história é mudança, eles
seriam um povo sem história.
As opiniões anti-hispânicas de Las Casas sofreram ataques tão duros que
ele instruiu seus testamenteiros a só publicarem Apologética Historia quaren-
ta anos após a sua morte (ele morreu em 1566). Na verdade, o livro só foi
publicado em sua versão integral em 1909. Conforme sugere o adiamento, a

* Nesta passagem, o autor explicita que está citando a tradução inglesa de 1556 do texto mencionado, qual
seja: “lyve in that goulden world of whiche owlde writers speake so much”, existindo “simplye and innocentlye
without inforcement of lawes”. (N. do T.)

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polêmica em favor do Bom Selvagem tendeu a encontrar pouca simpatia nos


séculos XVIII e XIX. O historiador estadunidense George Bancroft, decano
da sua profissão, foi emblemático ao argumentar, em 1834, que antes de
os europeus chegarem, a América do Norte era “um deserto improdutivo...
Seus únicos habitantes eram umas poucas tribos dispersas de bárbaros dé-
beis, destituídos de comércio e de laços políticos”. Como Las Casas, Bancroft
acreditava que os índios tivessem vivido em sociedades estáticas – salvo que
Bancroft considerava essa atemporalidade como uma indicação de indolên-
cia, e não de inocência.
Sob diferentes formas, a caracterização de Bancroft foi transmitida ao
século seguinte. Escrevendo em 1934, Alfred L. Kroeber, um dos fundadores
da antropologia americana, teorizou que os índios da parte oriental da Amé-
rica do Norte não podiam desenvolver-se – ter história – porque suas vidas
consistiam de “hostilidades insanas, intermináveis e desgastantes à exaustão”.
Fugir do ciclo de conflitos era “quase impossível”, acreditava ele. “O grupo
que tentasse mudar seus valores da guerra para a paz estava quase certamente
condenado à extinção prematura”.* Kroeber concedeu que os índios tivessem
parado de guerrear para cultivar safras, mas insistiu que a agricultura “não era
básica na vida do Leste; era assessória, no sentido de um luxo”. Como resul-
tado, “noventa por cento ou mais do que podia ter sido fomentado [a terra]
permaneceu virgem”.
Quatro décadas depois, Samuel Eliot Morison, duas vezes ganhador do
prêmio Pulitzer, concluiu os seus dois volumes de European Discovery of Ame-
rica [A descoberta européia da América] com uma afirmação sucinta de que os
índios não tinham criado quaisquer monumentos ou instituições duradouras.
Aprisionados numa vastidão imutável, eles eram “pagãos que esperavam vidas
curtas e bestiais, desprovidas de qualquer esperança de futuro”. “A principal
função na história” dos povos nativos, proclamada em 1965, “é mostrar ao
presente uma imagem do passado da qual, pela história, ele escapou.”
Os livros escolares refletem fielmente as crenças acadêmicas. Numa
pesquisa sobre livros-texto norte-americanos, a escritora Frances Fitzgerald
concluiu que, ao contrário, a caracterização dos índios tinha andado “reso-
lutamente para trás” entre os anos 1840 e 1940. Escritores anteriores pensa-

* Segundo Joseph Conrad, a violência teria origem culinária. “O Nobre Homem Vermelho era um caçador
notável”, explicou o grande romancista, “mas suas esposas não dominavam a arte da cozinha conscienciosa – e as
conseqüências foram deploráveis. As Sete Nações em volta dos Grandes Lagos e as tribos cavaleiras das planícies
eram tão-somente imensas presas de uma dispepsia devastadora.” Como suas vidas eram arruinadas pela “irri-
tabilidade morosa que decorre do consumo de comida mal preparada”, eles tinham predisposição permanente
para rixas.

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16 Uma Visão do Alto

vam que os índios eram importantes, ainda que incivilizados, mas os livros
posteriores os cristalizaram numa fórmula: “preguiçosos, infantis e cruéis”.
Um dos mais importantes livros-texto da década de 1940 dedicou somente
uns “poucos parágrafos” aos índios, escreveu ela, “dos quais o último ostenta
o subtítulo ‘Os índios eram obtusos.’”
Ainda que menos comuns hoje em dia, tais opiniões continuam a mani-
festar-se. A edição de 1987 de American History: A Survey [História america-
na: Uma visão geral], livro didático padrão do ensino secundário de três bem
conhecidos historiadores, resume a história índia com desdém: “Por milhares
de séculos – séculos em que as raças humanas estavam evoluindo, formando
comunidades e construindo as origens de civilizações nacionais na África, na
Ásia e na Europa – os continentes que conhecemos por Américas permanece-
ram desprovidos de seres humanos e de suas obras.” A história dos europeus
no Novo Mundo, o livro informava aos estudantes, “é a história da criação de
uma civilização onde antes não existia nenhuma”.
Sempre é fácil para os que vivem no presente sentirem-se superiores
aos que viveram no passado. Alfred W. Crosby, historiador da Universidade
do Texas, observou que muitos dos pesquisadores que adotaram o Erro de
Holmberg viveram numa era em que os grandes líderes de descendência
européia pareciam ser a força motriz dos acontecimentos, em que as socie-
dades brancas pareciam estar sobrepujando todas as sociedades não brancas
em outras partes do mundo. Ao longo de todo o século XIX e por boa par-
te do XX, o nacionalismo foi um fenômeno ascendente e os historiadores
identificaram história com nações, em vez de fazê-lo com culturas, religiões
ou modos de vida. Mas a Segunda Guerra Mundial ensinou ao Ocidente
que não ocidentais – os japoneses, neste caso – eram capazes de mudanças
sociais repentinas. A rápida desintegração dos impérios coloniais prefigurou
ainda mais a questão. Crosby comparou o efeito desses acontecimentos so-
bre os cientistas sociais com aqueles, sobre os astrônomos, da “descoberta
que as manchas diáfanas vistas entre as estrelas da Via Láctea eram na ver-
dade galáxias distantes”.
Neste ínterim, novas disciplinas e novas tecnologias estavam criando no-
vas maneiras de examinar o passado. Demografia, climatologia, epidemiologia,
economia, botânica e palinologia (análise de pólen); biologia molecular e evo-
lucionária; datação por carbono-14, análise de colunas de gelo, fotografia por
satélite e análise de solo; análise genética de microssatélites e vôo virtual em
3D – uma torrente de novas perspectivas e técnicas entrou em uso. E quando
elas foram empregadas, a idéia de que os únicos ocupantes humanos de um
terço da superfície da terra haviam mudado pouco ao longo de milhares de

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 17

anos começou a parecer implausível. Com certeza, alguns pesquisadores ataca-


ram as novas descobertas caracterizando-as como exageros precipitados. (“Nós
simplesmente substituímos o velho mito [da vastidão intocada] por um novo”,
ridicularizou o geógrafo Thomas Vale, “o mito da paisagem humanizada.”)
Porém, após várias décadas de descobertas e debates, um novo quadro das
Américas e de seus habitantes originais está emergindo.
A propaganda continua a celebrar os índios ecologicamente puros, nô-
mades, montados em cavalos caçando bisões nas Grandes Planícies da Amé-
rica do Norte, mas na época de Colombo, a grande maioria dos americanos
nativos encontrava-se ao sul do Río Grande. Eles não eram nômades, mas
construíram e viviam numa das maiores e mais opulentas cidades do mundo.
Longe de serem dependentes da caça de animais de grande porte, a maioria dos
índios vivia em fazendas. Outros sobreviviam de peixes e moluscos. Quanto
aos cavalos, vieram da Europa; exceto pelas lhamas nos Andes, o Hemisfério
Ocidental não possuía animais de carga. Em outras palavras, as Américas eram
incomensuravelmente mais dinâmicas, mais diversificadas e mais populosas
do que os pesquisadores tinham imaginado até então.
E mais antigas, também.

A S O U T R A S R E VO L U Ç Õ E S N E O L Í T I C A S

Durante grande parte do século passado, os arqueólogos acreditaram que os


índios tinham vindo para as Américas através do estreito de Bering cerca de
13 mil anos atrás, ao final da última Era Glacial. Como as calotas glaciais
polares retiveram imensas quantidades de água, o nível do mar em todo
o mundo baixou em torno de 100 metros. O baixio do estreito de Bering
virou uma ampla ponte de terra entre a Sibéria e o Alasca. Em teoria, os
paleoíndios, como são chamados, a teriam simplesmente cruzado, andando
os 90 quilômetros que hoje separam os continentes. C. Vance Haynes, ar-
queólogo da Universidade do Arizona, deu arremates finais ao esquema em
1964, quando observou que justamente na época certa – isto é, cerca de 13
mil anos atrás – duas grandes calotas glaciais no noroeste do Canadá se se-
pararam, abrindo um corredor livre de gelo comparativamente tépido entre
elas. Através desse canal, os paleoíndios podem ter passado do Alasca às re-
giões mais habitáveis no sul sem ter de marchar sobre a banquisa. Na época,
a banquisa estendia-se a 3.200 quilômetros ao sul do estreito de Bering e era
quase desprovida de vida. Sem o corredor livre de gelo de Haynes, é difícil
imaginar como seres humanos pudessem ter percorrido o caminho para o

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18 Uma Visão do Alto

sul. A combinação de ponte de terra com corredor livre de gelo só ocorreu


uma vez nos últimos 20 mil anos, e durou apenas umas poucas centenas
de anos. E isto aconteceu pouco antes do surgimento daquela que então
era considerada a cultura mais primitiva conhecida das Américas, a cultura
Clovis, assim nomeada em função da cidade no Novo México em que seus
vestígios foram distintamente observados pela primeira vez. A exposição de
Haynes fez a teoria parecer tão sólida que logo ela passou diretamente aos
manuais escolares. Foi o que eu aprendi quando freqüentei o segundo grau.
E também o meu filho, trinta anos depois.
Em 1997, de repente a teoria começou a perder a liga. Alguns dos seus
partidários mais entusiastas, Haynes entre eles, admitiram publicamente que
uma escavação arqueológica no Chile meridional tinha revelado indícios taxa-
tivos de habitação humana mais de 12 mil anos atrás. E como esse povo vivia
a mais de 11.200 quilômetros ao sul do estreito de Bering, uma distância que
presumivelmente teria exigido muito tempo para ser atravessada, é quase certo
que tenham chegado lá antes da abertura do corredor livre de gelo. (Em todo
caso, novas pesquisas lançaram dúvidas sobre a existência daquele corredor.)
Dada a quase impossibilidade de atravessar as geleiras sem o corredor, alguns
arqueólogos sugeriram que os primeiros americanos deviam ter chegado há 20
mil anos, quando a banquisa era menor. Ou mesmo antes disso – o sítio chile-
no tinha evidências sugestivas de artefatos com mais de 30 mil anos de idade.
Ou talvez os primeiros índios tivessem viajado de barco, sem precisar da ponte
de terra. Ou talvez tivessem chegado através da Austrália, passando pelo Pólo
Sul. “Nós estávamos em estado de total confusão”, disse-me o arqueólogo
consultor Stuart Fiedel. “Tudo o que sabíamos, agora supõe-se que esteja erra-
do”, acrescentou ele com um certo exagero, querendo causar impacto.
Não houve consenso, mas um número crescente de pesquisadores acredi-
ta que o Novo Mundo foi ocupado por um único pequeno grupo que cruzou
o estreito de Bering, ficou retido no lado do Alasca, e desgarrou-se, vagando
para o restante das Américas em dois ou três grupos separados, com os ances-
trais dos índios modernos constituindo o segundo grupo. Os pesquisadores
diferem nos detalhes; alguns cientistas teorizaram que as Américas podem
ter sido atingidas por até cinco ondas de colonização antes de Colombo, a
primeira tendo ocorrido há 50 mil anos. Na maioria das versões, contudo, os
índios atuais são vistos como relativamente recém-chegados.
Os ativistas índios não gostam dessa linha de raciocínio. “Não dá para
contar o número de brancos que vieram me dizer que a ‘ciência’ mostra que
os índios não passam de um bando de intrusos”, disse-me Vine Deloria Jr.,
cientista político na Universidade do Colorado em Boulder. Deloria é autor

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 19

de muitos livros, incluindo Red Earth, White Lies [Terra vermelha, mentiras
brancas], uma crítica da arqueologia dominante. A tendência geral do livro é
assinalada em seu índice; sob a retranca “ciência”, as entradas incluem “cor-
rupção e fraude e”, “explicações índias ignoradas pela”, “falta de provas para
teorias da”, “mito da objetividade da” e “racismo da”. Na opinião de Deloria,
a vocação da arqueologia tem sido aplacar a culpa dos brancos. Determinar
que os índios tomaram o lugar de outros povos serve perfeitamente a esta
perspectiva. “Se nós índios somos apenas ladrões que roubamos nossa terra de
outrem”, diz Deloria, “então eles podem dizer: ‘Bem, nós somos a mesmíssima
coisa. Somos todos imigrantes aqui, não somos?’”
A lógica moral do argumento “nós-somos-todos-imigrantes” citado por
Deloria é difícil de analisar; ela parece afirmar que dois errados fazem um
certo. Além disso, não há provas de que o primeiro “errado” estivesse errado
– nada se sabe sobre eventuais contatos entre as várias ondas de migração
paleoíndias. Em todo caso, porém, saber se a maioria dos americanos nativos
chegou de fato em primeiro ou segundo é irrelevante para uma avaliação das
suas realizações culturais. Em todos os cenários imaginados, eles saíram da
Eurásia antes dos primeiros sussurros da Revolução Neolítica.
A Revolução Neolítica é a invenção da agricultura, evento cujo signi-
ficado não pode ser exagerado. “A carreira humana”, escreveu o historiador
Ronald Wright, “divide-se em dois: tudo o que aconteceu antes da Revo-
lução Neolítica e tudo o que aconteceu depois.” Ela começou no Oriente
Médio cerca de 11 mil anos atrás. Nos poucos milênios seguintes, a roda e
os utensílios de metal surgiram na mesma área. Os sumérios engendraram
essas invenções, acrescentaram a escrita e, no terceiro milênio a.C., criaram
a primeira grande civilização. Toda cultura européia e asiática, não importa
o quão aparentemente discrepante, jaz à sombra da Suméria. Os americanos
nativos, que deixaram a Ásia muito antes da agricultura, não ganharam o
generoso presente. “Tiveram de fazer tudo sozinhos”, disse-me Crosby. E
notavelmente, conseguiram.
Há muito tempo, os pesquisadores sabem que houve uma segunda Re-
volução Neolítica independente na Mesoamérica. A datação exata é incerta
– os arqueólogos a ficam empurrando para trás –, mas pensa-se hoje que tenha
ocorrido há cerca de 10 mil anos, não muito depois da Revolução Neolítica
do Oriente Médio. Em 2003, contudo, os arqueólogos descobriram sementes
antigas provenientes de abóboras cultivadas na costa do Equador, ao pé dos
Andes, as quais podem ser mais antigas do que qualquer vestígio agrícola na
Mesoamérica – uma terceira Revolução Neolítica. Esta Revolução Neolítica
levou provavelmente, entre outras coisas, às culturas no Beni. Os dois neolí-

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20 Uma Visão do Alto

ticos americanos disseminaram-se mais lentamente do que os seus correlatos


na Eurásia, possivelmente porque em muitos lugares os índios não tiveram
tempo para construir a densidade populacional exigida, e possivelmente por
causa da natureza extraordinária do mais notável entre os cultivos índios, o
milho índio.*
Os ancestrais do trigo, do arroz, do painço e da cevada são parecidos
com os seus descendentes domesticados; devido ao fato de serem ambos co-
mestíveis e altamente produtivos, é fácil imaginar como terá brotado a idéia
de plantá-los para fins alimentares. O milho índio não pode reproduzir-se por
si, pois os seus grãos são seguramente embrulhados pelo folhelho, de modo
que os índios devem tê-lo desenvolvido a partir de outras espécies. Porém,
não existem espécies silvestres que se assemelhem ao milho índio. O seu pa-
rente genético mais próximo é uma gramínea montanhesa chamada teosinto,
cuja aparência é estritamente diferente – em primeiro lugar, suas “espigas”
são menores do que as do minimilho servido nos restaurantes chineses. Nin-
guém come teosinto, pois a sua produção de grãos é pequena demais para
valer a pena cultivá-lo. Ao criar o milho índio moderno a partir dessa planta
tão pouco promissora, os índios realizaram um feito tão improvável que os
arqueólogos e biólogos se perguntaram, durante décadas, como a proeza teria
sido alcançada. Associado a abóbora, vagens e abacate, o milho índio proveu
a Mesoamérica de uma dieta balanceada que, conforme o argumento, pode
ser considerada mais nutritiva do que a sua equivalente médio-oriental ou
asiática. (A agricultura andina, baseada em batatas e vagens, e a agricultura
amazônica, baseada na mandioca, tiveram grande impacto, mas, no âmbito
global, foram menos importantes do que o milho índio.)
Cerca de 7 mil anos se passaram entre a alvorada do neolítico médio-
oriental e a fundação da Suméria. Os índios percorreram o mesmo caminho
num período um pouco menor (os dados são demasiado incompletos para
sermos mais precisos). O lugar de honra deve caber aos olmecas, primeira
cultura tecnologicamente complexa do hemisfério. Surgindo na “cintura” es-
treita do México por volta de 1800 a.C., eles viveram em metrópoles e cidades
estabelecidas em torno de montes que hospedavam templos. Espalhadas entre
eles, colossais cabeças masculinas de pedra, muitas de 1,80 metro de altura
ou mais, com coberturas sugestivas de capacetes, cenho perpetuamente fran-

* Nos Estados Unidos e em partes da Europa, o nome usado é “corn” [milho]. Eu uso “milho índio” [maize]
porque – multicolorido e ingerido principalmente depois de seco e moído – ele é estritamente distinto dos
grãos tenros amarelos geralmente evocados pelo nome “corn” na América do Norte. Na Grã-Bretanha, a palavra
“corn” pode significar a principal colheita cereal de uma região – na Escócia, por exemplo, o termo refere-se
freqüentemente à safra de aveia.

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 21

zido e um quê de traços africanos, esta última característica dando origem a


especulações de que a cultura olmeca seria inspirada por viajantes da África.
Os olmecas foram apenas a primeira das muitas sociedades que nasceram na
Mesoamérica na época. A maioria delas praticava religiões centradas em sa-
crifícios humanos, prática obscurantista pelos padrões contemporâneos, mas
suas economias e realizações científicas foram brilhantes. Elas inventaram uma
dúzia de diferentes sistemas de escrita, estabeleceram vastas redes de comércio,
fizeram mapeamentos das órbitas dos planetas, criaram um calendário de 365
dias (mais preciso do que os seus contemporâneos europeus) e registraram
a sua história em “livros” dobrados em sanfona, feitos de papel fabricado a
partir da casca da figueira.
É razoável argumentar que sua maior façanha intelectual tenha sido a in-
venção do zero. Em seu relato clássico, Number: The Language of Science [Nú-
mero: a língua da ciência], Tobias Dantzig chamou a descoberta do zero de
“uma das maiores realizações isoladas do gênero humano”, um “ponto crítico”
da matemática, ciência e tecnologia. Os primeiros rumores do zero no Oriente
Médio ocorreram por volta de 600 a.C. Ao registrar números, os matemáticos
babilônios os dispunham em colunas, como hoje as crianças aprendem a fazer.
Para distinguir entre seus equivalentes a 11 e 101, eles colocavam duas marcas
triangulares entre os dígitos: 1∆∆1, poder-se-ia dizer. (Como a matemática ba-
bilônia é baseada em 60, em vez de 10, o exemplo só é correto em princípio.)
Não obstante, curiosamente, eles não usavam o símbolo para distinguir entre
as suas versões de 1, 10 e 100. Os matemáticos babilônios tampouco sabiam
somar e subtrair com zero, sem falar no uso do zero para entrar no reino dos
números negativos. Matemáticos sânscritos usaram o zero pela primeira vez no
seu sentido contemporâneo – um número, não um substituto – em algum mo-
mento nos primeiros poucos séculos d.C. Ele não surgiu na Europa até o século
XII. Mesmo então, os governos europeus e o Vaticano resistiram ao zero – uma
coisa que não representa nada – considerando-o estrangeiro e não cristão. Nesse
ínterim, o primeiro zero registrado nas Américas ocorreu num entalhe maia de
357 d.C., possivelmente antes do zero sânscrito. E há monumentos anteriores
ao nascimento de Cristo que não ostentam zeros eles mesmos, mas contêm ins-
crições com datas num sistema calendárico baseado na existência do zero.
Isto quer dizer que os maias eram então mais avançados do que seus
correlatos, digamos, na Europa? Os cientistas sociais hesitam diante desta
pergunta, e com boa razão. Os olmecas, os maias e outras sociedades meso-
americanas foram pioneiros mundiais na matemática e na astronomia – mas
não usavam a roda. Surpreendentemente, eles haviam inventado a roda,
mas só a empregavam em brinquedos de criança, mais nada. Os que estão

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22 Uma Visão do Alto

interessados em contar uma história de superioridade cultural poderão en-


contrá-la no zero; os que procuram uma de fracassos, podem encontrá-la na
roda. Não obstante, nenhuma dessas linhas de argumentação é útil. O que é
mais importante é que, por volta de 1000 d.C., os índios tinham expandido
as suas revoluções neolíticas ao ponto de criarem uma armadura de diversas
civilizações em todo o hemisfério.
Quinhentos anos depois, quando Colombo navegou para o Caribe, os
descendentes das Revoluções Neolíticas do mundo colidiram, com conse-
qüências esmagadoras para todos.

U M A V I AG E M G U I A D A

Imagine, só por um momento, fazer uma jornada impossível: pegar um avião


na Bolívia oriental, como eu fiz, mas fazê-lo em 1000 d.C., numa missão de
observação do restante do Hemisfério Ocidental. O que seria visível das jane-
las? Cinqüenta anos atrás, a maioria dos historiadores teria dado uma resposta
simples à questão: dois continentes em estado selvagem, povoados por bandos
dispersos cujos modos de vida pouco mudaram desde a Era Glacial. As únicas
exceções teriam sido o México e o Peru, onde os maias e os ancestrais dos inka
progrediam lentamente rumo aos contrafortes da civilização.
Hoje, nossa compreensão é diferente em quase todas as perspectivas.
Imagine o avião milenar voando para oeste, das terras baixas do Beni para
as alturas dos Andes. No chão abaixo, no começo da viagem, estariam os
caminhos elevados e canais, a diferença seria que hoje estão restaurados e
cheios de gente. (Há cinqüenta anos, as terraplenagens eram quase des-
conhecidas, mesmo para os que viviam nas cercanias.) Depois de umas
poucas centenas de quilômetros, o avião ganha altura para sobrevoar as
montanhas – e o quadro histórico muda outra vez. Até recentemente, os
pesquisadores teriam dito que, em 1000 d.C., as terras altas eram ocupa-
das por pequenas aldeias dispersas e uma ou duas grandes cidades com al-
guma alvenaria. Porém, a investigação arqueológica recente revelou que,
à época, os Andes abrigavam dois grandes Estados, ambos maiores do que
o que antes fora avaliado.
O Estado mais próximo do Beni tinha a sua base no lago Titicaca, o
lago montês com mais de 190 quilômetros de extensão que cruza a fronteira
Peru-Bolívia. A maior parte dessa região situa-se a uma altitude de 3.600
metros ou mais. Os verões são curtos; os invernos, correspondentemente
longos. Essa “terra desolada e gélida”, escreveu o aventureiro Victor von

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 23

Hagen, “era aparentemente o último lugar de onde alguém esperaria de-


senvolver-se uma cultura”. Na verdade, porém, o lago é comparativamente
quente, e por isso as terras que o circundam são menos açoitadas pelo frio
do que as terras altas adjacentes. Tirando vantagem do clima mais favorável,
o povoado de Tiwanaku, um dos muitos assentamentos em volta do lago,
começou, depois de cerca de 800 a.C., a drenar as terras úmidas em torno
dos rios que fluíam para o lago a partir do sul. Mil anos mais tarde, o povoa-
do tinha crescido e se tornado o centro de uma grande comunidade política
organizada, também conhecida como Tiwanaku.
Menos um Estado centralizado do que um agrupamento de municipali-
dades sob a influência religiosa-cultural do centro, Tiwanaku tirou vantagem
das diferenças ecológicas extremas entre a costa do Pacífico, as montanhas
escarpadas e o altiplano para criar uma densa rede de comércio: peixes do mar;
lhamas do altiplano; frutas, verduras e grãos dos campos em torno do lago. Es-
timulada pela riqueza, a cidade de Tiwanaku expandiu-se numa maravilha de
pirâmides e monumentos grandiosos. Molhes de pedra estendiam-se a grande
distância no lago Titicaca, apinhado de barcos de proa longa feitos de junco.
Com água corrente, esgoto encanado e muros pomposamente pintados, Tiwa-
naku estava entre as cidades mais impressionantes do mundo.
O arqueólogo Alan L. Kolata, da Universidade de Chicago, escavou em
Tiwanaku durante a década de 1980 e o começo dos anos 1990. Ele escreveu
que, em 1000 d.C., a cidade tinha uma população de 115 mil pessoas, com
outras 250 mil nos campos circundantes – números que Paris não alcançaria
antes de mais quinhentos anos. A comparação parece adequada; na época, o
reino de Tiwanaku tinha aproximadamente o mesmo tamanho que a França.
Outros pesquisadores acreditam que esta estimativa populacional é demasiado
alta. É mais provável que houvesse 20 ou 30 mil habitantes na cidade central,
segundo Nicole Couture, arqueóloga da Universidade de Chicago que ajudou
a editar a publicação definitiva do trabalho de Kolata em 2003. Um número
igual de pessoas, disse ela, ocuparia os campos circundantes.
Que opinião é correta? Embora confiasse nas suas idéias, Couture achava
que “mais uma década” seria necessária antes de a questão ser fechada. E em
todo caso, o número exato não afeta o que ela considera ser o ponto-chave.
“Construir aqui este lugar enorme é algo realmente notável”, disse ela. “Toda
vez que volto, eu o constato.”
Ao norte e a oeste de Tiwanaku, no que hoje é o sul do Peru, situava-se o
Estado rival de Wari, que se estendia por mais de 1.600 quilômetros ao longo
da crista dos Andes. Mais rigidamente organizado e com mais vocação militar
do que os tiwanaku, os governantes wari construíram fortalezas em massa,

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estacionando-as em toda a extensão das suas fronteiras. A capital – chamada,


por eponímia, Wari – situava-se nos cumes, perto da cidade moderna de Aya-
cucho. Abrigando talvez 70 mil almas, Wari era uma concentração febril de
aléias e templos murados, pátios ocultos, tumbas reais e edifícios residenciais
de até seis andares. A maior parte das construções tinha reboco branco, fazen-
do a cidade reluzir ao sol da montanha.
Em 1000 d.C., na época do sobrevôo imaginário, ambas as sociedades
vacilavam por causa de uma sucessão de terríveis secas. Talvez oitenta anos
antes, tempestades de poeira tenham engolido os planaltos, escurecendo as
geleiras nos picos acima. (Amostras de gelo, colhidas na década de 1990, su-
gerem o assalto.) Depois, veio a fieira punitiva de secas, de muito mais de
uma década de duração, interrompida por enchentes gigantescas. (Registros
de sedimentos e de anéis de árvores descrevem a seqüência.) A causa do de-
sastre continua a ser objeto de disputas, mas alguns climatologistas acreditam
que o Pacífico é sujeito a “eventos mega-Niños”, versões mortalmente fortes
dos bem conhecidos padrões El Niño que hoje causam devastação no clima
das Américas. Mega-Niños ocorreram a cada poucos séculos entre 200 e 1600
d.C. Em 1925 e 1926, um forte El Niño – não um mega-Niño, mas um que
era mais forte do que o habitual – abateu-se sobre a Amazônia com tanto calor
seco que incêndios súbitos mataram centenas, talvez milhares de pessoas na
floresta. Rios secaram, os leitos acarpetados de peixes mortos. Um mega-Niño
no século XI pode ter causado as secas naqueles anos. Porém, qualquer que te-
nha sido a causa da violenta mudança climática, o fato é que pôs severamente
à prova as sociedades wari e tiwanaku.
Neste ponto, contudo, é preciso ter cuidado. A Europa foi afligida por
uma “pequena era de gelo” de extremo frio entre os séculos XIV e XIX, mas
os historiadores raramente atribuem a ascensão e queda de Estados europeus
neste período a mudanças climáticas. Invernos intensos ajudaram a empurrar
os vikings para fora da Groenlândia e levaram a quebras de safras que exacer-
baram as tensões sociais na Europa continental, mas poucos afirmariam que
a pequena era glacial teria causado a Reforma. Semelhantemente, os mega-
Niños foram apenas uma das pressões exercidas sobre as civilizações andinas
na época, às quais, na sua totalidade, nem os wari nem os tiwanaku tiveram os
recursos políticos necessários para sobreviver. Pouco depois de 1000 d.C., os
tiwanaku cindiram-se em fragmentos que só seriam reunidos quatro séculos
mais tarde, quando os inka os derrotaram. Os wari também caíram. Foram
sucedidos e talvez dominados por um Estado chamado Chimor, o qual con-
trolava um império que se estendia até a região central do Peru, até ser, ele
também, absorvido pelos inka.

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 25

Essas histórias recém-descobertas aparecem em toda parte nas Amé-


ricas. Oriente o avião para o norte, para a América Central e o México
meridional, na saliência da península de Yucatán, pátria dos maias. Ruínas
maias tornaram-se bem conhecidas há quarenta anos, é verdade, entre elas,
porém, muitas coisas novas têm sido descobertas. Pense em Calakmul, a ruí-
na que Peter Menzel e eu visitamos no começo dos anos 1980. Quase intei-
ramente inescavada desde a sua descoberta, a Calakmul a que chegamos jaz
encoberta por uma vegetação rasteira seca que trepou como um enxame de
espinhos sobre as suas duas enormes pirâmides. Quando Peter e eu falamos
com William J. Folan, da Universidad Autónoma de Campeche, que estava
começando a trabalhar na cidade, ele recomendou que não tentássemos ir
até as ruínas se não tivéssemos como alugar um caminhão pesado, e que se
tivesse chovido, para não tentarmos nem de caminhão. Nossa visita a Ca-
lakmul confirmou a exatidão do conselho de Folan. Árvores envolviam os
grandes edifícios, suas raízes rachando lentamente as suscetíveis paredes de
pedra calcária. Peter fotografou um monumento sobre o qual raízes enrola-
vam-se ao estilo de uma jibóia, de cerca de 1,50, 1,80 metro de altura. Tão
opressivamente irresistível era a floresta tropical que eu pensei que a história
Calakmul permaneceria desconhecida para sempre.
Felizmente, eu estava errado. No começo da década de 1990, a equi-
pe de Folan tinha descoberto que aquele lugar por tanto tempo ignorado
cobria uma área de nada menos que 65 quilômetros quadrados, e que ti-
nha milhares de edifícios e dúzias de reservatórios e canais. Era a maior de
todas as comunidades maias. Os pesquisadores limparam e fotografaram
seus mais de cem monumentos – e bem na hora, pois paleógrafos (estu-
diosos de escritas antigas) tinham, naquele ínterim, decifrado os hierógli-
fos maias. Em 1994, eles identificaram o nome antigo da cidade-Estado:
Kaan, o Reino da Cobra. Seis anos mais tarde, eles descobriram que Kaan
foi o centro de uma guerra devastadora que convulsionou a cidade-Esta-
do maia por mais de um século. E Kaan é apenas um na grande lista de
assentamentos maias que foram investigados pela primeira vez nas últi-
mas poucas décadas.
Uma coleção de cerca de 12 reinos e cidades-Estado numa rede de
alianças e feudos tão enovelados quanto aqueles da Alemanha no século
XVII, o reino Maia foi o berço de uma das culturas intelectualmente mais
sofisticadas do mundo. Não obstante, cerca de um século antes da nossa
turnê de observação imaginária, a área central maia entrou numa espécie de
Era das Trevas. Muitas das suas grandes cidades esvaziaram-se, assim como
os campos em volta delas. Incrivelmente, algumas das últimas inscrições têm

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26 Uma Visão do Alto

AMÉRICA NATIVA, 1000 d.C.

uma linguagem inarticulada, como se os escribas tivessem desaprendido a


escrita e estivessem reduzidos a uma imitação sem sentido dos seus ances-
trais. Na época do nosso sobrevôo, metade ou mais do que o que outrora
tinha sido a nação florescente dos maias estava abandonada.

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 27

Alguns cientistas naturais atribuem o colapso, ocorrido num período


próximo ao que atingiu os wari e os tiwanaku, a uma enorme seca. Os maias,
amontoados aos milhões numa terra pobremente adequada à agricultura in-
tensiva, estariam perigosamente próximos de exceder a capacidade de suporte
dos seus ecossistemas. A seca, possivelmente causada por um mega-Niño, teria
empurrado a sociedade, já tão perto da borda, despenhadeiro abaixo.
Esses cenários têm ressonância com os medos ecológicos contemporâneos,
o que ajudou a torná-los mais populares fora do meio acadêmico. Dentro da
academia, o ceticismo é mais comum. O registro arqueológico mostra que a
Yucatán meridional foi abandonada, ao passo que as cidades maias na par-
te setentrional da península continuaram obstinadamente ou até cresceram.
Peculiarmente, as terras abandonadas foram as mais úmidas – com seus rios,
lagos e florestas tropicais, elas teriam sido o melhor lugar para esperar o fim
da seca. Inversamente, a Yucatán setentrional era seca e rochosa. A questão é
saber por que as pessoas teriam fugido da seca para terras que teriam sido até
mais severamente afetadas.
E sobre o restante da Mesoamérica? Com o vôo continuando para o norte,
dê uma olhada a oeste, para as montanhas do que hoje são os estados mexicanos
de Oaxaca e Guerrero. Situam-se aqui as beligerantes e cindidas cidades-Estado
de Ñudzahui (Mixtec), que finalmente sobrepujaram o Zapotec, seus antigos
rivais baseados na cidade planaltina de Monte Albán. Mais ao norte, expan-
dindo o seu império numa pressa impetuosa, estão os toltecas, estendendo-se
em todas as direções a partir da bacia a 1.600 metros de altura que hoje abriga
a Cidade do México. Conforme é freqüentemente o caso, os rápidos sucessos
militares dos toltecas levaram a disputas políticas. Uma luta shakespeariana no
alto escalão, completada por acusações de embriaguez e incesto, forçou a saída
do rei há muito empossado, Topiltzin Quetzalcoatl, em (provavelmente) 987
d.C. Ele fugiu com barcos carregados de legalistas para a península de Yucatán,
prometendo retornar. Na época da nossa viagem de avião, Quetzalcoatl tinha
aparentemente conquistado a cidade maia de Chichén Itzá, e a estava recons-
truindo à sua própria imagem tolteca. (Arqueólogos eminentes discordam sobre
esses acontecimentos, mas os murais e gravuras em alto-relevo em Chichén Itzá,
que representam o exército tolteca destruindo sangrentamente a força maia, são
difíceis de negar.)
Continuemos o vôo na direção do que hoje é o sudoeste dos Estados
Unidos. Depois de passar por fazendas no deserto e habitações escavadas em es-
carpas, chegamos às sociedades mississippianas do Meio-Oeste. Há não muito
tempo, arqueólogos com novas tecnologias deslindaram a tragédia de Cahokia,
perto da moderna St. Louis, que foi outrora o maior centro populacional ao

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28 Uma Visão do Alto

norte do Río Grande. A construção começou por volta de 1000 d.C., sobre
uma estrutura de barro que cobriria finalmente 6 hectares, elevando-se a cerca
de 30 metros de altura, mais alto do que qualquer coisa em volta por quilôme-
tros. Sobre o monte, situava-se o templo dos reis divinos, que providenciavam
para que o clima fosse favorável à agricultura. Como se fosse para lhes dar
apoio, campos de milho índio ondulavam a partir do monte até onde a vista
alcançava. Apesar da evidência manifesta do seu poder, os governantes estavam
gestando os seus problemas futuros. Como exploravam as florestas a montante
para obter lenha, deixando flutuar as toras rio abaixo, estavam removendo a
cobertura do solo e aumentando a probabilidade de enchentes catastróficas.
Quando as enchentes vieram, e depois elas vieram, os reis, que tiravam a sua
legitimidade da sua pretensão de controlar o clima, tiveram de enfrentar o
questionamento inflamado dos seus súditos.
Continuando para o norte, a última terra assentada, o reino dos caça-
dores e coletores. Retratados num sem-número de livros de história estadu-
nidenses e faroestes de Hollywood, os índios das Grandes Planícies são os
mais conhecidos pelos não especialistas. Demograficamente falando, eles
viviam no interior, remota e esparsamente assentados; suas vidas eram tão
distantes dos senhores wari ou toltecas quanto os nômades da Sibéria o eram
dos altos e nobres personagens de Beijing. Também, as suas culturas mate-
riais eram mais simples – não tinham escrita, não tinham praças de pedra,
não tinham templos maciços –, embora os grupos das Planícies tenham de
fato deixado cinqüenta anéis de pedra que são reminiscentes da Idade da
Pedra. A ausência relativa de bens materiais levou alguns a considerar esses
grupos como exemplos de uma ética de viver simplesmente na terra. Talvez,
mas a América do Norte era um lugar ativo, eloqüente. Em 1000 d.C.,
relações comerciais já haviam coberto o continente por mais de mil anos.
Madrepérola do golfo do México foi encontrada em Manitoba, e cobre do
lago Superior em Louisiana.
Ou então renunciar à viagem para o norte e levar o avião imaginário para
leste a partir do Beni, na direção da foz do Amazonas. Imediatamente depois
do Beni, encontra-se, onde hoje é o estado brasileiro do Acre, uma outra
sociedade: uma rede de pequenos povoados associados com terraplenagens
circulares e quadradas em padrões muito diferentes daqueles encontrados no
Beni. Ainda menos se sabe sobre esses povos; os vestígios dos seus povoados
só foram descobertos em 2003, depois que criadores de gado que estavam
abrindo a floresta tropical os encontraram. Segundo os arqueólogos finlande-
ses que foram os primeiros a descrevê-los, “é óbvio” que “densidades popu-
lacionais relativamente altas” eram “muito comuns em toda parte nas terras

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1491 – Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo 29

baixas amazônicas”. Os finlandeses resumem aqui a crença de uma nova ge-


ração de pesquisadores sobre o Amazonas: o rio era muito mais populoso em
1000 d.C. do que é agora, especialmente na sua metade mais baixa. Densas
coleções de povoados apinhavam-se nas faixas ribeirinhas íngremes ao longo
da margem, as suas populações pescando no rio e cultivando nas planícies
aluviais e algumas partes do terreno elevado. Muito importantes, os pomares
dos povoados estendiam-se por quilômetros a partir da faixa ribeirinha. Os
amazônicos praticavam uma espécie de agro-silvicultura, cultivando árvores,
sem qualquer semelhança com o tipo de agricultura praticado na Europa, na
África ou na Ásia.
Nem todas as cidades eram pequenas. Perto do Atlântico, situava-se o
cacicado de Marajó, baseado numa enorme ilha à foz do rio. A população de
Marajó, recentemente estimada em 100 mil habitantes, pode ter sido igualada
ou até superada por uma outra aglomeração, ainda sem nome, a 960 quilô-
metros rio acima, em Santarém, uma cidade aprazível que tenta esquecer os
efeitos dos findos booms amazônicos da borracha e do ouro. A ocupação an-
tiga sob e em torno da cidade moderna mal foi investigada. Quase tudo o que
sabemos é que se situava idealmente nas margens escarpadas que sobrepujam
a foz do Tapajós, um dos maiores tributários do Amazonas. Nessas margens,
geógrafos e arqueólogos encontraram, na década de 1990, uma área de mais
de 4.800 quilômetros de extensão, espessamente coberta por fragmentos de
louças e artefatos de cerâmica, muito semelhante ao Ibibate. Segundo William
I. Woods, arqueólogo e geógrafo na Universidade do Kansas, a região pode
ter, pelo menos em teoria, sustentado até 400 mil habitantes, o que faria dela,
então, um dos maiores centros populacionais do mundo.
E assim consecutivamente. Estudiosos ocidentais têm escrito histórias do
mundo desde pelo menos o século XII. Como filhos da sua própria sociedade,
esses primeiros historiadores naturalmente enfatizaram a cultura que conhe-
ciam melhor, a cultura que intrigava mais a seus leitores. Mas com o passar
do tempo, eles acrescentaram histórias de outras partes do mundo: capítulos
sobre a China, a Índia, a Pérsia, o Japão e outros lugares. E os pesquisadores
tiraram o chapéu para as realizações de não ocidentais nas ciências e nas artes.
Algumas vezes, o esforço foi relutante ou mínimo, mas os trechos em branco
da história humana foram sendo preenchidos lentamente.
Uma maneira de resumir os novos conhecimentos é dizer que eles co-
meçaram, finalmente, a completar uma das maiores lacunas da história: o
Hemisfério Ocidental antes de 1492. Trata-se, na opinião atual, de um lugar
surpreendentemente diversificado e florescente, de uma agitação de línguas,
comércio e culturas, de uma região em que dezenas de milhões de pessoas

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30 Uma Visão do Alto

amaram, odiaram e cultuaram, como pessoas fazem em toda parte. Muito


desse mundo desapareceu após Colombo, varrido por doenças e subjugação.
Foi tão abrangente o apagamento que, em poucas gerações, nem conquistador
nem conquistado sabiam que aquele mundo tinha existido. Agora, contudo,
ele está ressurgindo. Incumbe-nos dar uma olhada.

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PA RT E U M

Números de lugar nenhum?

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