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Filosofia

Gui Franco
(Debora Andrade)
16.05.2015

Introdução à Filosofia: A Passagem


do Mito ao Logos
Filosofia
Gui Franco
(Debora Andrade)
16.05.2015

Introdução à Filosofia: A Passagem do Mito ao Logos

A mitologia grega consiste na forma mais antiga de crença do homem ocidental, através da qual
os gregos buscavam explicar a realidade através de entes sobrenaturais e figuras mitológicas.
Nesse sentido, podemos dizer que a mitologia surge, na Grécia Antiga, a partir do espanto do
ser humano com o mundo, ou seja, a partir do estranhamento com tudo aquilo que o rodeava e
que, naquele momento, ainda não possuía uma explicação racional. A mitologia era narrada em
forma de poesia e era cantada nas ruas pelos poetas, dentre os quais o mais famoso foi Homero,
que teria vivido por volta do século IX A.C. Assim, a mitologia era passada de geração para
geração através dos poetas, o que garantia a divulgação e manutenção dos valores, hábitos,
crenças e crenças do povo grego.

Num dado momento da cultura grega, as explicações mitológicas tornam-se insuficientes e o


homem sente a necessidade de buscar respostas mais racionais para as questões que o afligiam.
Diversas transformações no âmbito da cultura grega contribuíram para o surgimento do
pensamento filosófico, tais como: a redescoberta da escrita, o surgimento da moeda, a
formulação da lei escrita, a consolidação da democracia, entre outras. A partir dessas
transformações puderam surgir no século VI A.C os primeiros filósofos, que ficaram conhecidos
como filósofos pré-socráticos. Esses primeiros pensadores se interessavam em descrever a
natureza (physis) sem apelar para seres sobrenaturais e para figuras mitológicas. Sua grande
tarefa era explicar a natureza a partir de elementos naturais.

A mitologia era tida como uma verdade absoluta, um conhecimento inquestionável no âmbito
da cultura grega antiga. Já a filosofia, enquanto tentativa de um pensamento mais racional, tem
como fundamento o questionamento, a interrogação, a dúvida, a suspeita, o que provoca uma
ruptura na cultura grega. A passagem do mito para a filosofia não foi rápida, mas sim um lento
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processo de transformação, em que a mitologia deixa de ser entendida como uma verdade
absoluta, possibilitando o surgimento de explicações mais racionais da realidade e da natureza.

Enquanto a mitologia explicava a origem das coisas da natureza apelando para seres divinos.
Por exemplo: A origem dos mares era explicada a partir da existência do Deus Poseidon. Já a
filosofia buscará uma explicação da origem das coisas a partir da própria natureza. Uma das
questões principais desses primeiros filósofos era a definição do princípio primeiro (arché) que
rege toda a natureza (physis). Alguns deles dirão que o princípio que rege a natureza é a água,
outros dirão que é o fogo, outros dirão que é a conjugação de fogo, água, terra e ar, entre outras
concepções. O que é fundamental, entretanto, é a ruptura que esses filósofos provocam na
medida em que se recusam a explicar a natureza a partir de seres sobrenaturais para tentarem,
ainda que de maneira precária, a formulação de um pensamento mais racional. Assim,
observamos a lenta passagem do pensamento mitológico para o pensamento filosófico.

Mitologia Filosofia

- Explica as origens e a realidade - Explicação racional da


a partir de alianças e realidade e da origem do
desavenças entre divindades mundo
- Narrada em forma de poesia - Filosofia da Physis
- Cosmogonias e teogonias - início da ciência antiga
- Mito - Cosmologias
- Crença - Lógos
- Arché - princípio originário
- Razão

Exercícios de Aula
1. (Unesp 2017) A genuína e própria filosofia começa no Ocidente. Só no Ocidente se ergue a
liberdade da autoconsciência. No esplendor do Oriente desaparece o indivíduo; só no
Ocidente a luz se torna a lâmpada do pensamento que se ilumina a si própria, criando por si o
seu mundo. Que um povo se reconheça livre, eis o que constitui o seu ser, o princípio de toda
a sua vida moral e civil. Temos a noção do nosso ser essencial no sentido de que a liberdade
pessoal é a sua condição fundamental, e de que nós, por conseguinte, não podemos ser
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escravos. O estar às ordens de outro não constitui o nosso ser essencial, mas sim o não ser
escravo. Assim, no Ocidente, estamos no terreno da verdadeira e própria filosofia.
(Hegel. Estética, 2000. Adaptado.)

De acordo com o texto de Hegel, a filosofia


a) visa ao estabelecimento de consciências servis e representações homogêneas.
b) é compatível com regimes políticos baseados na censura e na opressão.
c) valoriza as paixões e os sentimentos em detrimento da racionalidade.
d) é inseparável da realização e expansão de potenciais de razão e de liberdade.
e) fundamenta-se na inexistência de padrões universais de julgamento.

2. (Unesp 2017) Apesar de sua dispersão geográfica e de sua fragmentação política, os


Gregos tinham uma profunda consciência de pertencer a uma só e mesma cultura. Esse
fenômeno é tão mais extraordinário, considerando-se a ausência de qualquer autoridade
central política ou religiosa e o livre espírito de invenção de uma determinada comunidade
para resolver os diversos problemas políticos ou culturais que se colocavam para ela.
(Moses I. Finley. Os primeiros tempos da Grécia, 1998. Adaptado.)

O excerto refere-se ao seguinte aspecto essencial da história grega da Antiguidade:


a) a predominância da reflexão política sobre o desenvolvimento das belas-artes.
b) a fragilidade militar de populações isoladas em pequenas unidades políticas.
c) a vinculação do nascimento da filosofia com a constituição de governos tirânicos.
d) a existência de cidades-estados conjugada a padrões civilizatórios de unificação.
e) a igualdade social sustentada pela exploração econômica de colônias estrangeiras.

Exercícios de Casa
1. (Unesp 2012) Aedo e adivinho têm em comum um mesmo dom de “vidência”, privilégio que
tiveram de pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles veem o invisível. O deus que
os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar
humano. Sua visão particular age sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o
que aconteceu outrora, o que ainda não é.
(Jean-Pierre Vernant. Mito e pensamento entre os gregos, 1990. Adaptado.)

O texto refere-se à cultura grega antiga e menciona, entre outros aspectos,


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a) o papel exercido pelos poetas, responsáveis pela transmissão oral das tradições, dos
mitos e da memória.
b) a prática da feitiçaria, estimulada especialmente nos períodos de seca ou de infertilidade
da terra.
c) o caráter monoteísta da sociedade, que impedia a difusão dos cultos aos deuses da
tradição clássica.
d) a forma como a história era escrita e lida entre os povos da península balcânica.
e) o esforço de diferenciar as cidades-estados e reforçar o isolamento e a autonomia em
que viviam.

2. (UNICAMP 2017) Muitos políticos vem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da
filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão
somente usam de uma inteligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem
sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante.”
(Karl Jaspers, Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1976, p.140.)

Assinale a alternativa correta.


a) O filósofo lembra que a filosofia tem um potencial crítico que pode desagradar a
políticos, poderosos e ao senso comum, tal como ocorreu na Grécia em relação a
Sócrates.
b) A filosofia precisa ser entediante para estimular o pensamento crítico, rigoroso e formar
pessoas sensatas, a partir do ensino de lógica, retórica e ética.
c) A ditadura militar no Brasil retirou a disciplina de filosofia das escolas por considerá-la
subversiva, mas atenuou a medida estimulando os Centros Populares de Cultura (CPC),
ligados a entidades estudantis.
d) Os políticos e a estrutura escolar não são o verdadeiro obstáculo ao ensino de filosofia,
mas a concepção de que ela é difícil e tediosa, considerando-se que existem
mecanismos para aproximá-la do senso comum.

3. (Unesp 2015) Seja como termo, seja como conceito, a filosofia é considerada pela quase
totalidade dos estudiosos como criação própria do gênio dos gregos. Sendo assim, a
superioridade dos gregos em relação aos outros povos nesse ponto específico é de caráter não
puramente quantitativo, mas qualitativo, porque o que eles criaram, instituindo a filosofia,
constitui novidade que, em certo sentido, é absoluta. Com efeito, não é em qualquer cultura
que a ciência é possível. Há ideias que tornam estruturalmente impossível o nascimento e o
desenvolvimento de determinadas concepções – e, até mesmo, ideias que interditam toda a
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ciência em seu conjunto, pelo menos a ciência como hoje a conhecemos. Pois bem, em função
de suas categorias racionais, foi a filosofia que possibilitou o nascimento da ciência, e, em certo
sentido, a gerou. E reconhecer isso significa também reconhecer aos gregos o mérito de terem
dado uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização.
(Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, vol. 1, 1990. Adaptado.)

Baseando-se no texto, explique por que a definição apresentada de “filosofia” pode ser
considerada eurocêntrica. Explique também que tipo de ideias apresentaria a característica de
impedir o desenvolvimento do conhecimento científico.

4. (Unesp 2014)

Texto 1

Um dos elementos centrais do pensamento mítico e de sua forma de explicar a realidade é o


apelo ao sobrenatural, ao mistério, ao sagrado, à magia. As causas dos fenômenos naturais,
aquilo que acontece aos homens, tudo é governado por uma realidade exterior ao mundo
humano e natural, a qual só os sacerdotes, os magos, os iniciados são capazes de interpretar.
Os sacerdotes, os rituais religiosos, os oráculos servem como intermediários, pontes entre o
mundo humano e o mundo divino. Os cultos e os sacrifícios religiosos encontrados nessas
sociedades são, assim, formas de se agradecer esses favores ou de se aplacar a ira dos
deuses.
(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001. Adaptado.)

Texto 2

Ao longo da história, a corrente filosófica do Empirismo foi associada às seguintes


características: 1. Negação de qualquer conhecimento ou princípio inato, que deva ser
necessariamente reconhecido como válido, sem nenhuma confirmação ou verificação. 2.
Negação do ‘suprassensível’, entendido como qualquer realidade não passível de verificação e
aferição de qualquer tipo. 3. Ênfase na importância da realidade atual ou imediatamente
presente aos órgãos de verificação e comprovação, ou seja, no fato: essa ênfase é
consequência do recurso à evidência sensível.
(Nicola Abbagnano. Dicionário de filosofia, 2007. Adaptado.)
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Com base nos textos apresentados, comente a oposição entre o pensamento mítico e a
corrente filosófica do empirismo.

5. (Unesp 2012) A ciência moderna tem maior poder explicativo, permite previsões mais seguras
e assegura tecnologias e aplicações mais eficazes. Não há dúvida de que a explicação científica
sobre a natureza da chuva comporta usos que a explicação indígena não comporta, como
facilitar prognósticos meteorológicos ou a instalação de sistemas de irrigação. Para a ciência
moderna, a Lua é um satélite que descreve uma órbita elíptica em torno da Terra, cuja distância
mínima do nosso planeta é cerca de 360 mil quilômetros, e que tem raio de 1 736 quilômetros.
Para os gregos, era Selene, filha de Hyprion, irmã de Hélios, amante de Endymion e Pan, e
percorria o céu numa carruagem de prata. Tenho mais simpatia pela explicação dos gregos, mas
devo reconhecer que a teoria moderna permite prever os eclipses da Lua e até desembarcar na
Lua, façanha dificilmente concebível para uma cultura que continuasse aceitando a explicação
mitológica. Os astronautas da NASA encontraram na superfície do nosso satélite as montanhas
observadas por Galileu, mas não encontraram nem Selene nem sua carruagem de prata. Para o
bem ou para o mal as teorias científicas modernas são válidas, o que não ocorre com as teorias
alternativas.
(Sérgio Paulo Rouanet, filósofo brasileiro, 1993. Adaptado.)

Cite o nome dos dois diferentes tipos de conhecimento comentados no texto e explique duas
diferenças entre eles.
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Gabarito
Exercícios de Aula

1. D
2. D

Exercícios de Casa

1. A
2. A
3. A filosofia enquanto forma de conhecimento é considerada pela quase totalidade de
estudiosos como de origem grega devido às condições específicas ocorridas na
antiguidade que permitiram seu surgimento. Fatores como: navegações, invenção da
moeda, da escrita, das leis e principalmente da “pólis” (cidade), somados a insatisfação
intelectual em relação à forma de como compreendiam o mundo, possibilitaram o
estabelecimento de um modo mais coerente de pensar a realidade. Com o passar do
tempo, esta forma de saber, desenvolveu-se autonomamente, se expandindo por todos
os povos que tiveram contato com a cultura grega. A filosofia pode ser considerada
eurocêntrica, pois o continente Europeu foi o lugar que herdou dos gregos esta forma de
saber. Foi principalmente na Europa onde ocorreu o desenvolvimento, expansão e
divulgação da reflexão filosófica e forma sistematizada.
A Filosofia tem como características: o caráter reflexivo, a argumentação racional, a
investigação radical, a sistematização do saber e a análise de conjunto.
O desenvolvimento da filosofia possibilitou por sua vez o desenvolvimento do
conhecimento científico. Desta forma, as ideologias, as doutrinas dogmáticas, mitologias
não refletidas e senso comum vão contra as características do saber filosófico e
científico e se constituem como impeditivos para o desenvolvimento do conhecimento
científico.
4. O texto 1 coloca que a explicação mítica da realidade foi o recurso disponível aos homens
daquela época para poder compreender a realidade que os cercava. Neste período a
realidade exterior ao mundo natural somente poderia ser conhecida por meio de
explicações que tivessem a magia, o sobrenatural como base fundante. Desta forma,
somente aqueles que se dedicavam exclusivamente a esta atividade poderiam, ser
aqueles capazes de compreender os desígnios dos deuses. Os sacerdotes representavam
os intermediários entre os dois mundos (humano e divino). Assim, a autoridade de sua
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palavra era por si só critério suficiente para estabelecer “verdades” míticas que serviam
como forma de explicação para os fenômenos naturais.
No texto 2, diferente da explicação mítica, o empirismo, tendo como principais teóricos:
John Locke, Francis Bacon e David Hume, não recorre à autoridade da mesma maneira
que os mitos, para explicar os fenômenos. Esta corrente de pensamento rejeita que o
conhecimento seja inato, descarta, não considera como válido aquilo que não pode ser
aferido, verificado, aquilo que não for evidente. A verdade reside não mais na autoridade
de quem fala, mas na evidência, na constatação, naquilo que pode ser captado pelos
sentidos. O suprassensível é negado, pois não é passível de investigação, verificação.
5. Os dois tipos de conhecimento contrastados no texto são o conhecimento científico e o
conhecimento mitológico. O primeiro é caracterizado pelo rigor metodológico e pela sua
racionalidade. Ou seja, é produzido mediante um método de experimentação racional
que permite ao cientista criar leis gerais que podem servir de base para o
desenvolvimento científico. O segundo conhecimento é fantasioso e pouco rigoroso: sua
força está na narrativa que produz, na forma como é capaz de explicar todos os
fenômenos e na sua relação com a simbologia religiosa.