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Avaliação Psicológica, 2002,2, pp.

133-139 133

O Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister e o Transtor-


no Obsessivo Compulsivo
Título abreviado: Pfister e o TOC

Anna Elisa de Villemor Amaral


Telma Claudina da Silva
Ricardo Primi
Universidade São Francisco

Resumo
O diagnóstico psicopatológico é uma atividade constante no trabalho de psicólogos e psiquiatras, porém ainda
constata-se relativa carência de recursos e instrumentos de avaliação. Nesse estudo procuramos contribuir oferecendo
evidências de validade para o teste de Pfister no diagnóstico psicopatológico do transtorno obsessivo compulsivo
(TOC). A amostra foi formada por 12 pacientes diagnosticados com TOC (GE) e 18 pessoas que nunca procuraram
ajuda psiquiátrica ou psicológica (GC). Em ambos os grupos foi aplicado o teste de Pfister, sendo que no GE também
aplicou-se a SCID, para validação do diagnóstico psiquiátrico e uniformização da amostra. Empregando a regressão
logística verificou-se um aumento significativo na cor marrom e nas formações simétricas no grupo experimental
resultando em uma sensibilidade de 58,3% e uma especificidade 88,9%.
Palavras chave: Avaliação psicológica; Pirâmides Coloridas de Pfister, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Psicopato-
logia, Psicodiagnóstico

Abstract
The psychopathological assessment is a common professional task of psychologists and psychiatrists but there is still a
lack of valid instruments to accomplish it. In this study our aim was to investigate the validity of The Pfister’s Color
Pyramid Test to identify Obsessive Compulsive Disorders (OCD). The sample was composed by 11 patients, selected
according to the SCID criteria for OCD, and 18 non-patients, who never sought psychological or psychiatric assistance.
By using logistic regression we found a significant increase in the use of brown color and in the symmetric configurations
among TOC patients resulting in a sensitivity of 58.3% and a specificity of 88.9%.
Key words: Psychological assessment, Pfister’s Color Pyramid Test, Obsessive Compulsive Disorder, Psychopathology.

O diagnostico clínico é atividade constante quanto mais materiais auxiliares estiverem disponí-
no trabalho dos profissionais da saúde e contribui veis, mais o profissional dessa área terá condições
de forma decisiva no processo de atendimento do de atuar com maior segurança e eficiência garan-
paciente. É ele que determina as diretrizes a serem tindo um melhor prognóstico a seus pacientes.
seguidas, sustentando o uso dos procedimentos No que se refere ao diagnóstico psicopatológico,
adotados posteriormente, sendo muitas vezes in- sabemos que é uma área bastante carente de recursos,
dispensável para o sucesso do tratamento. pois a doença mental abrange um vasto campo psíqui-
Diante disso faz-se necessário o desenvolvimen- co sofrendo influencia de muitas variáveis, de modo
to de instrumentos que facilitem esse processo, pois que nem sempre é viável um diagnostico rápido e pre-
ciso. Além disso, o nível de comprometimento mental
Endereço para correspondência:
Universidade São Francisco, Programa de Estudos Pós-Graduados
das pessoas que necessitam deste serviço dificulta o
em Psicologia, Rua Alexandre Rodrigues Barbosa, 45, CEP 13251-900, processo, pois muitas vezes não dispõem de condições
Itatiba – SP, Correio eletrônico: anna.villemor@saofrancisco.edu.br para fazer uso dos recursos existentes, limitando ainda
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Pesquisa Científica mais o trabalho dos profissionais da área.
(CNPq) pelo financiamento da bolsa de iniciação científica e à
Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)
O desenvolvimento de instrumentos de ava-
pelo financiamento do LabAPE. liação psicológica com características diversas é ne-
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cessário, sobretudo daqueles que prescindem da acompanhado por episódios depressivos (Freud,
expressão verbal do paciente e não requerem habi- 1909, 1918).
lidades culturais ou educacionais. O teste das pi- A pessoa torna-se incapaz de tomar decisões
râmides coloridas de Pfister constitui um instru- simples, tendo também seu contato social prejudi-
mento privilegiado nesse sentido, pois é um teste cado como forma de evitar situações desencade-
de manejo simples, oferecendo uma série de van- antes das obsessões e/ou compulsões.
tagens tanto para o profissional quanto para o pa- Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de
ciente que está sendo avaliado (Villemor Amaral, Transtornos Mentais (DSM-IV, Associação Americana
1978). de Psiquiatria, 1994) esse transtorno é igualmente
As facilidades do uso desse material são, den- comum nos dois sexos, sendo a idade de início mais
tre outras, as seguintes: o pouco tempo gasto para precoce nos homens, entre 6 e 15 anos, e entre 20 e
sua aplicação; o caráter lúdico; facilidade de ad- 29 para as mulheres. Embora em geral se inicie na
ministração; desempenho não verbal podendo ser adolescência e começo da idade adulta, pode apare-
utilizada por pessoas de todas as idades indepen- cer ainda na infância. Afeta 2,5% da população e
dente do nível educacional e cultural; rapidez de prevalece ao longo da vida do indivíduo.
avaliação. Ainda segundo o DSM-IV o TOC consiste
Este teste foi criado em 1948 pelo psicólogo uma manifestação específica dos transtornos de
suíço, Max Pfister e publicado no Brasil no ano de ansiedade. Barlow (2000) em uma discussão sobre
1966 pelo professor Fernando de Villemor Amaral, a natureza da ansiedade enfatiza que no cerne desta
que apresentou a padronização brasileira, além de emoção está o “sentido de incontrolabilidade fo-
acrescentar valiosas observações no modo como as calizado largamente em possíveis ameaças futuras,
pirâmides são executadas e no aspecto formal das perigos, ou outros eventos vindouros negativos, em
pirâmides e das cores e combinações utilizadas. contraste ao medo no qual o perigo é presente e
Em sua segunda edição publicada em 1978, iminente” (p.1249). A “apreensão ansiosa” é acom-
Villemor Amaral afirma que já em 1948, Max Pfister panhada por um estado de hipervigilância cuja fun-
refere-se ao valor sintomático das cores e suas re- ção é o preparo para enfrentar os eventos negati-
lações com estados ou reações emocionais corres- vos. Este estado de vigilância afeta os processos
pondentes. Nesta edição traz novas contribuições cognitivos de atenção e recuperação de informa-
quanto a interpretação das cores e apresenta as ção da memória fazendo com que idéias com a
tabelas construídas em 1973, manifestando sua in- mesma tonalidade emocional sejam mais prováveis
satisfação quanto a falta de estudos referentes a de serem percebidas. Nos casos de TOC o foco da
psicopatologia, afirmando que muito há ainda a ansiedade está nos pensamentos, imagens e dese-
acrescentar e pesquisar. Nosso propósito nesse es- jos e as compulsões podem ser entendidas como
tudo é verificar a validade do Teste das Pirâmides tentativas de exercer controle sobre estes eventos
Coloridas de Pfister para o diagnóstico psicopato- negativos percebidos como incontroláveis.
lógico do transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Para um diagnóstico definitivo, segundo a
Obsessões são idéias ou pensamentos que in- Classificação Internacional de Doenças (CID-10,
vadem a mente do indivíduo lhe causando sofri- Organização Mundial de Saúde, 1993), sintomas
mento, são carregados de conteúdos desagradáveis, obsessivos, atos compulsivos ou ambos devem estar
absurdos e sem conexão com a realidade. Já as presentes na maioria dos dias por pelo menos duas
compulsões são atos repetitivos cuja finalidade é semanas consecutivas e ser uma fonte de angustia
amenizar as idéias obsessivas, de modo que a pes- ou de interferência com as atividades. Deve tam-
soa que sofre desse transtorno se vê obrigada a exe- bém ter as seguintes características: ser reconhe-
cutar um determinado comportamento para se ver cidos como pensamentos ou impulsos do próprio
livre dos pensamentos intrusivos (Associação Ame- indivíduo; haver pelo menos um pensamento ou
ricana de Psiquiatria, 1994). ato que ainda é resistido, sem sucesso; o pensa-
Trata-se de um transtorno que se caracteriza mento de execução do ato não deve ser em si mes-
pela ambivalência, regressão e fixação as etapas mo prazeroso; os pensamentos, imagens ou impul-
iniciais do desenvolvimento, deslocamento do afeto sos devem ser desagradavelmente repetitivos.
para representações distantes do conflito inicial, Cordioli e Heldt (2000), afirmam que as
falta de insight, presença do sentimento de ansie- compulsões mais comuns são as de lavagem das
dade, angústia, tensão interna, sendo muitas vezes mãos ou do corpo, verificação ou controle, repeti-
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ções, de ordem, arranjo, simetria, seqüência ou Grupo controle: foi composto de acordo com
alinhamento. dados referentes a idade e escolaridade, buscando
Freud, ao longo de seus trabalhos procurou parear ao máximo com o grupo experimental. Par-
encontrar as causas psíquicas para o desenvolvi- ticiparam 18 pessoas provenientes da comunidade,
mento de tal doença tentando verificar como as funcionários de uma empresa de transporte da ci-
manifestações corporais estavam relacionada com dade e funcionários e alunos da própria universi-
a vida psíquica e com as experiências emocionais dade.
vivenciadas pelo indivíduo. Em “Atos Obsessivos e
Práticas Religiosas” (Freud, 1907), diz que “o que Instrumentos
está sendo representado em atos obsessivos e ceri- Entrevista Clínica Estruturada para os Trans-
moniais deriva das experiências mais íntimas do tornos do Eixo-I do DSM-IV (SCID-I). (First,
paciente, principalmente das sexuais” (pag.15). Spitzer, Gibbon & Williams, 1996).
Em seu trabalho o “Homem dos Ratos” (Freud, Teste de Pfister, que consiste em um jogo de
1909), afirmou que “uma relação de amor e ódio três cartões contendo o desenho de uma pirâmide,
conta-se entre as características mais freqüentes, subdividida em 15 quadrículos e um jogo de
mais marcantes e, provavelmente mais importantes quadrículos coloridos composto por dez cores sub-
da neurose obsessiva” (pag. 240). Já em 1918 em divididas em vinte e quatro tonalidades (Villemor
“História da Neurose Infantil (Homem dos Lobos)” Amaral, 1978).
afirma que “a neurose obsessiva se desenvolve com
base numa constituição anal sádica” (pag. 91). Procedimento
Para a psicanálise, os conteúdos inconscientes Após entrar em contato com as instituições
que dominam as obsessões e compulsões são carre- parceiras - uma clínica particular de atendimento
gados de características sexuais, predominantemente psiquiátrico, o hospital dia e a clínica de psicolo-
de ordem anal, onde a essência desse transtorno gia da própria universidade - o projeto foi analisa-
residiria no fato de que algo, quando reprimido pela do pelas respectivas comissões de ética. Após
consciência, se manifesta através de outros pensa- consentida a realização da pesquisa, as entrevistas
mentos e comportamentos. Verifica-se que é um eram agendadas com antecedência pelo profissio-
transtorno que carece de mais estudos e pesquisas, nal da instituição responsável em selecionar os par-
pois o desenvolvimento deste quadro psicopatológico ticipantes. A única exigência foi que a instituição
ainda envolve perguntas que desafiam aos pacien- dispusesse de um espaço onde a entrevista pudesse
tes e profissionais da área e acredita-se que somen- ser realizada sem que fossem incomodados. Os
te com novas pesquisas e integração dos conheci- materiais necessários foram uma mesa e cadeiras.
mentos de diferentes áreas do saber poder-se-á che- Também foi solicitado que o participante tivesse
gar a um melhor prognóstico e a uma melhor quali- idade superior a 18 anos e se encontrassem em con-
dade de vida para essas pessoas. dições de responder a uma série de questões e cum-
Diante dessa carência seria importante veri- prir as instruções para execução do teste.
ficar em que medida o Pfister pode contribuir no Os aplicadores eram alunos de iniciação
diagnóstico do TOC. Portanto o objetivo deste es- cientifica treinados minuciosamente na aplicação
tudo é verificar a validade diagnóstica Pfister na dos instrumentos. Com o propósito de treinar o pro-
avaliação psicopatológica de quadros de TOC. cedimento utilizado e certificar que estavam aptos
a executar da maneira correta a aplicação do teste
efetuaram-se inicialmente aplicações em pessoas
Método voluntárias.
Para que a amostra fosse composta com base
Participantes em critérios uniformes optou-se por utilizar a En-
Foram sujeitos dessa pesquisa 30 pessoas com trevista Clínica Estruturada para o DSM-IV, Trans-
idade superior a 18 anos. tornos do Eixo-I (SCID-I Versão clínica). Antes
Grupo Experimental: foi formado por 12 paci- de iniciar a entrevista o paciente era informado
entes, ligados a instituições de saúde mental (hos- sobre a pesquisa e esclarecido que as informações
pital dia e clínicas de atendimento psiquiátrico ou obtidas eram confidenciais, sendo então solicitado
psicológico) diagnosticados pela SCID como por- que preenchesse o termo de consentimento de par-
tadores do TOC. ticipação.
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Iniciava-se o contato com o paciente primei- Resultados


ramente com a aplicação da SCID-I verificando-
se a história do paciente e de seu tratamento. De- O Teste Pfister proporciona inúmeras variáveis
pois era a verificado a presença ou ausência de ligadas basicamente a dois aspectos: a freqüência
episódios de humor, sintomas psicóticos, uso de ál- de utilização das cores e configuração das pirâmi-
cool e outras substâncias, sintomas obsessivos com- des. O primeiro conjunto foi composto por dez vari-
pulsivos, transtornos do pânico e outros transtor- áveis cujos valores podiam variar de 0 a 100 corres-
nos de ansiedade, de modo que se chegasse ao di- pondentes à freqüência de uso das cores (azul, ver-
agnóstico psicopatológico. Posteriormente era apli- melho, verde, violeta, laranja, amarelo, marrom,
cado o teste de Pfister. A aplicação desse teste con- preto, branco e cinza). Calculou-se também uma
siste em pedir para que o participante preencha a variável indicando o número de cores usadas nas
pirâmide usando as cores que quiser, de modo que pirâmides variando de um a 10. Ainda, calculou-se
esta fique bonita. Então é apresentado um cartão para cada cor uma variável indicando se ela apare-
de cada vez e após terminado os três é solicitado cia nas três pirâmides (constância absoluta) ou em
para que a pessoa diga qual a pirâmide que mais pelo menos duas (constância relativa). O segundo
gostou e qual menos gostou. Também se pergunta conjunto foi composto por indicadores de nove con-
sobre qual a cor que mais gostou e menos gostou figurações formais. Estas variáveis poderiam assumir
no teste e qual a cor que mais gosta e menos gosta dois valores indicando a presença (1) ou não (0) de
em sua vida. uma determinada configuração formal em pelo me-
Os atendimentos eram feitos em duplas e as nos uma das três pirâmides construídas ou a presen-
dúvidas levantadas eram anotadas e levadas pos- ça ou não da constância absoluta ou relativa.
teriormente para discussão em supervisão. Cada A estratégia de análise empregada foi a de verifi-
entrevista durava de uma a três horas, variando car quais variáveis seriam capazes de prever a perten-
conforme o estado clínico de cada paciente e ça ao grupo experimental, isto é, o grupo com diagnós-
também suas características individuais, sendo tico de TOC. Para isto utilizou-se a regressão logística.
realizado no máximo duas aplicações em um A regressão logística procura estimar a probabilidade
mesmo dia. de um sujeito pertencer ao grupo experimental
Com relação ao grupo controle, este foi forma- (P[GE=1]) a partir de um modelo contendo as variá-
do de acordo com dados apresentados pelo grupo veis independentes empregando a seguinte fórmula:
experimental, considerando principalmente a ida-
de e escolaridade dos participantes. Os sujeitos que
compuseram esse grupo foram alunos e funcionários
da universidade, funcionários de uma empresa de
transporte da cidade e pessoas da própria comuni- O modelo testado consiste em uma combina-
dade. A única exigência era que nunca tivessem ção linear de um conjunto de variáveis indepen-
procurado ajuda psiquiátrica ou psicológica. dentes que se mostrarem significantes na previsão
Na entrevista esclarecia-se sobre a pesquisa e de pertença ao grupo experimental: Mod = C +
solicitava-se que assinassem o termo de consenti- (V1 B1) + (V2 B2) + . . . + (Vn Bn). Nesta equação
mento. Posteriormente faziam-se algumas questões C, B1 . . . Bn., são parâmetros estimados a partir dos
sobre dados de identificação - nome, idade, esco- dados empregando o método de máxima verossimi-
laridade, profissão, estado civil, número de filhos, lhança. Assim como na regressão linear múltipla, o
raça, religião, uso de medicação, necessidade de primeiro coeficiente representa o termo constante e
tratamento psiquiátrico ou psicológico, tratamen- os outros coeficientes de regressão das variáveis in-
to para uso de álcool ou drogas - para exclusão de dependentes indicando o montante de mudança na
indivíduos com histórico de algum tratamento psi- probabilidade de pertencer ao grupo experimental
cológico ou psiquiátrico. Somente após era aplica- em razão da mudança de uma unidade na variável
do o teste de Pfister. independente. Para cada coeficiente, a regressão
Os dados foram analisados em conjunto pelos logística apresenta a estatística de Wald indicando
pesquisadores, tendo sido consideradas a freqüên- se o coeficiente é estatisticamente diferente de zero
cia das cores utilizadas e o aspecto formal das pirâ- (Tabachinick & Fidell, 1996).
mides realizadas, de acordo com a interpretação Adotou-se um procedimento estatístico para se-
de Villemor Amaral (1978). lecionar quais variáveis iriam entrar na equação. Este
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procedimento seleciona as variáveis passo a passo em Discussão


razão de sua contribuição na previsão de pertença ao
grupo experimental. A cada passo uma variável é sele- Avaliando os resultados obtidos quanto ao uso
cionada se conseguir melhorar a previsão além do que das cores, observamos que o grupo composto por
já foi atingido pelas variáveis que entraram antes dela. pacientes com transtorno obsessivo compulsivo
Na Tabela 1 são apresentados os resultados da apresenta um aumento significativo no uso da cor
regressão logística com os parâmetros B da equação marrom.
de regressão para três variáveis que obtiveram coe- Considerando que esse transtorno está ligado
ficientes significantes utilizando-se o critério p < a conflitos originados na relação de amor e ódio
0,15. Como pode ser observado três variáveis contri- experimentados durante a fase anal do desenvol-
buíram para o diagnóstico do TOC: aumento na pro- vimento, o aumento do marrom constitui um indi-
porção de uso da cor marrom (P-MA), aumento de cador importante para nossos estudos, já que de
formações simétricas (F-Sim) e diminuição de es- acordo com pesquisas anteriores e mesmo nas co-
truturas (E Sim) já que o coeficiente B foi negativo. locações originais de Max Pfister, um aumento nesta

Tabela 1- Resultados da Regressão Logística


Variáveis Erro
B Wald gl sig R Exp (B)
independentes Padrão.
P-MA 0,22 0,11 4,29 1 0,03 0,23 1,25
F Sim 2,91 1,39 4,40 1 0,03 0,24 18,51
E Sim - 2,26 1,48 2,31 1 0,12 -0,08 0,10
Constante - 1,77 0,80 4,89 1 0,02

Tabela 2- Diagnósticos observados comparados aos previstos pela equação de regressão.


Previsão
Com base no Pfister
Proporção de
GC (0) TOC (1) Total
previsões corretas

Observação GC (0) 16 2 18 88,9%


Com base
na SCID TOC (1) 5 7 12 58,3%

Total 21 9 30 76,7%

Na Tabela 2 apresentamos a comparação en- cor seria um indicativo de presença de compulsões


tre o diagnóstico observado obtido pela SCID e o e obsessões.
diagnóstico baseado nas três variáveis do Pfister. Segundo Villemor Amaral “uma maior aflu-
Observa-se uma sensibilidade de 58,3% (sete ca- ência de marrom indica dificuldade de adaptação,
sos classificados corretamente dentre os 12 paci- sintomas de fixação em etapas iniciais do desen-
entes com diagnósticos de TOC pela SCID) e uma volvimento, insegurança interna...”. De acordo com
especificidade 88,9% (16 casos dentre 18 pessoas esse autor um aumento dessa cor em função do
classificados corretamente como pertencentes ao Ma2 (tonalidade de aspecto mais obscuro) signifi-
grupo controle). Portanto observa-se uma maior caria “a retenção, a coartação ou inibição do im-
chance de incorrer em erros do tipo falso negativo pulso; que conduziria a reações do tipo obsessivo
do que falso positivo. compulsivo”. A prevalência dessa cor significaria
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então o estancamento, a retenção, a analidade, siste o cerne da ansiedade, sua preferência pelas
características típicas do TOC. formações simétricas decorre do sentido oposto da
Freud em 1918 já afirmara que “a neurose previsibilidade e controle associada de certa forma
obsessiva se desenvolve com base numa constitui- às formações simétricas. Construir as pirâmides
ção anal sádica”. Em outro momento argumenta prestando atenção à simetria seria um equivalente
que “o pensamento obsessivo compulsivo é aquele funcional a compulsão já que traz a idéia de
cuja função está em representar um ato regressiva- previsibilidade ao contrário de outras configura-
mente” (1909). Ambas afirmações podem ser de- ções mais livres que se associariam a idéia de des-
monstradas no Pfister por meio do aumento do controle, imprevisibilidade e consequentemente
marrom. ansiedade (Bralow, 2000).
Com relação ao aspecto formal também encon- De acordo com Villemor Amaral ( 1978 ), o
tramos neste grupo um aumento significativo nas aparecimento desse modo de disposição das cores
formações e diminuição de estruturas simétricas. “liga-se à insegurança, à instabilidade interna, à
Formação simétrica caracteriza um aspecto busca de equilíbrio externo, através de uma atitu-
formal no qual as cores são dispostas sobre o es- de cautelosa, tímida e muito prudente. Essa atitu-
quema da pirâmide, duas a duas, de maneira simé- de pode estender-se de maneira compulsiva, obsti-
trica, ou seja, distribuídas de um lado e do outro nada e esteriotipada, principalmente quando ocorre
da pirâmide, alternadamente. Sua diferença para na execução das três pirâmides”.
as estruturas simétricas reside no fato de que nas Através desse modo de colocação a pessoa
estruturas podemos observar simetrias nos planos busca reaver o equilíbrio interno, que foi alterado
vertical e horizontal da pirâmide, enquanto nas com a presença das obsessões, mantendo um com-
formações encontramos apenas simetrias no senti- portamento esteriotipado, no qual seguir uma de-
do horizontal. Porém, organizações formais que le- terminada ordem e agir de uma certa forma lhe
vam em conta o plano vertical da pirâmide são garante a sensação de que mantém novamente o
encontradas entre indivíduos com melhores níveis controle sobre seus pensamentos e atitudes.
de estruturação emocional e maturidade afetiva
(Villemor Amaral, 1978). Os resultados apontam
que o indicador mais associado ao TOC são as for- Conclusão
mações simétricas e não as estruturas simétricas.
Esse dado é igualmente significativo, uma vez Os resultados obtidos nos permitem afirmar
que sua presença está relacionada a estados emo- que o teste das pirâmides coloridas de Pfister cons-
cionais próprios desse quadro, tais como a falta de titui um instrumento confiável para diagnóstico do
estabilidade emocional e forte tensão interna, transtorno obsessivo compulsivo, principalmente em
acompanhados do sentimento de angústia e ansie- razão de que os principais sintomas descritos na
dade. Cordioli & Heldt (2000), consideram a si- literatura para esse transtorno são expressos signi-
metria como fazendo parte dos rituais obsessivos ficativamente no teste pelo aumento típico da cor
ou compulsivos mais comuns, apresentados pelo marrom e das formações simétricas.
indivíduo com TOC O método estatístico utilizado ‘análise de re-
Pode-se pensar que como as pessoas com TOC gressão logística’ apresentou uma discriminação do
vivenciam sentido de incontrolabilidade que con- grupo com 76% de probabilidade de acerto geral.

Referências Obsessivo Compulsivo (TOC) Retirado em 11 de


julho de 2000 do World Wide Web: http://
WWW.ufrgs.br/toc/.
Associação Americana De Psiquiatria. (1994). Manual
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Freud, S. (1907). Atos Obsessivos e Práticas Religiosas
Cordioli, A. V. & Heldt, E. (2000). O que é o Transtorno Moral Sexual ‘Civilizada’ e a Doença Nervosa
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Moderna e Outros Trabalhos.Vol.31. Pequena Cole- 10: Descrição e diretrizes diagnósticas. Porto Ale-
ção Obra de Freud. Rio de Janeiro. Imago Editora. gre: Artes Médias.
Freud, S. (1909). Duas Histórias Clínicas (O Pequeno Tabachinick, B. G. & Fidell, L. S. Using multivariate
Hans e o Homem dos Ratos) Vol.X. Obras Comple- statistics. New York: HarperCollins, 1996.
tas . Rio de Janeiro. Imago Editora.
Villemor Amaral, F. (1978). Pirâmides Coloridas de Pfister.
Freud, S. (1918). História da Neurose Infantil (Homem 2ª ed. CEPA, Rio de Janeiro.
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Rio de Janeiro. Imago Editora.
Recebido: 03/01/2002
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Transtornos Mentais e de Comportamento da CID

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