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E agora chove

Eu sei porque tem chuva no meu cabelo

Tem chuva na minha mão

Tem chuva na minha roupa

Tem meu cachorro molhado na chuva

Tem pedaços de livro de autoajuda

Tem o lençol de papelão se rasgando

Por baixo da goteira no telhado de Brasilit

E eu faço uma prece a Deus

Minha prece diluída na água fluida dos meus olhos

Há de encontrar-se com as aguas, que um dia

Voltarão para o céu

Meu irmão mais novo chora com medo dos trovões

E no clarão do relâmpago ele vê meu sorriso e se acalma.

Com meu irmão enlaçando minha cintura com os bracinhos finos,

Olho pro horizonte cinzento da avenida

Está tudo escuro, tudo quieto, tudo morto como eu de vez enquanto

Ponho a mão no único bolso de minha calça que não é furado,

Coço os pelos no rosto, pensando na vida

Penso em sina, penso em morte, penso em ter sorte

Mas eu só tenho fé, só tenho pé na estrada

Corpo na chuva, barriga na aridez da miséria

E é só uma chuva, como todas as outras

Muitos dormem tranquilos, e eu, molhado.