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Isadora Vier Machado

Organizadora

UMA DÉCADA DE
LEI MARIA
DA PENHA:
percursos, práticas e desafios
Isadora Vier Machado
(Organizadora)

UMA DÉCADA DE
LEI MARIA DA PENHA:
percursos, práticas e desafios

EDITORA CRV
Curitiba - Brasil
2017
Copyright © da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe: Railson Moura
Diagramação e Capa: Editora CRV
Arte da capa: Elisa Riemer
Revisão: Os Autores

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


CATALOGAÇÃO NA FONTE

M113

Machado, Isadora Vier.


Uma década de lei Maria da Penha: percursos, práticas e desafios. /
Isadora Vier Machado (Org) – Curitiba: CRV, 2017.
166 p.

Bibliografia
ISBN 978-85-444-1920-5
DOI 10.24824/978854441920.5

1. Direito 2. Direitos especiais 3. Lei Maria da Penha 4. Feminismo I. Título


II. série

CDU 396(81)(094) CDD 341.556156


Índice para catálogo sistemático
1. Direito penal 341.5

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2017
Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004
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Celso Conti (UFSCar) Celso Ferreira da Cruz Victoriano (TJ-MT)
Cesar Gerónimo Tello (Univer. Nacional Claudine Rodembusch Rocha (FEEVALE)
Três de Febrero - Argentina) Cristiane Miziara Mussi (UFRRJ)
Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Christine Oliveira Peter da Silva (STF)
Élsio José Corá (UFFS) Daniel Amin Ferraz (Amin, Ferraz,
Elizeu Clementino (UNEB) Coelho Advogados/ Universidad
Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) de Valencia, UV, Espanha)
Gloria Fariñas León (Universidade Daury Cesar Fabriz (UFES)
de La Havana – Cuba) Edson Vieira da Silva Filho (FDSM)
Guillermo Arias Beatón (Universidade Janaína Machado Sturza (UNIJUÍ)
de La Havana – Cuba) João Bosco Coelho Pasin (UPM)
Jailson Alves dos Santos (UFRJ) Manoel Valente Figueiredo Neto (2º
João Adalberto Campato Junior (UNESP) Ofício de Camocim/UNIFOR)
Josania Portela (UFPI) Ricarlos Almagro Vitoriano Cunha (UFRJ)
Leonel Severo Rocha (UNISINOS) Valéria Furlan (FDSBC)
Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO) Vinicius Klein (UFPR)
Lourdes Helena da Silva (UFV) Vallisney de Souza Oliveira
Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNICAMP) (Justiça Federal - Brasília/DF)
Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Marcio Renan Hamel (UPF)
Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar)
Paulo Romualdo Hernandes (UNICAMP)
Rodrigo Pratte-Santos (UFES)
Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)
Simone Rodrigues Pinto (UNB)
Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA)
Sydione Santos (UEPG)
Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA)
Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)

Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc.


SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO..............................................................................9
Isadora Vier Machado

PREFÁCIO.........................................................................................11
Maria Lígia G. G. R. Elias

SEÇÃO I
UM GIRO PELAS PERSPECTIVAS TEÓRICAS
DA LEI MARIA DA PENHA

LEI MARIA DA PENHA: fundamentos e perspectivas........................17


Carmen Hein de Campos

PARA UMA ABORDAGEM INTERSECCIONAL


DA LEI MARIA DA PENHA.................................................................39
Cecília MacDowell dos Santos

DEZ ANOS MAIS UM: a implementação da Lei


Maria da Penha no passar dos anos..................................................63
Wânia Pasinato

SEÇÃO II
DESAFIOS PRÁTICOS NA IMPLEMENTAÇÃO
DA LEI MARIA DA PENHA

INSTRUMENTALIZAÇÃO E EFETIVAÇÃO DA LEI MARIA


DA PENHA NO JUIZADO ESPECIAL DE VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA CONTRA A MULHER DE MARINGÁ-PR.....................83
Gabriela Cristina Mortean
Guilherme Dias Alves

MINISTÉRIO PÚBLICO: rompimentos e novas configurações


da 11ª e 22ª promotorias de justiça de Maringá.................................107
Heloise Rosin Cella
Isabela Furlan Rigolin
ROMPIMENTOS E NOVAS CONFIGURAÇÕES DO
CENTRO DE REFERÊNCIA DE ATENDIMENTO À
MULHER MARIA MARIÁ DE MARINGÁ............................................127
Carolyne Priscila Prado de Morais
Daniele Karine Mesquita Casagrande

A DINÂMICA DE ATUAÇÃO E A EXPERIÊNCIA DO


NUMAPE/UEM NO CONTEXTO DA REDE DE
ATENDIMENTOS ÀS MULHERES EM SITUAÇÃO
DE VIOLÊNCIA DE MARINGÁ/PR.....................................................153
Isadora Vier Machado
Adriele Colontônio Caberlim
Crishna Mirella de Andrade Correa
Daniele da Silva Fébole
Karla Oliveira Kian
Letícia de Matos Lessa
Letícia Garcia Ribeiro Dyniewicz
Marília Ferruzzi Costa
Thatiane Moro Mulati
APRESENTAÇÃO
Este livro é resultado de uma pesquisa subvencionada pelo
CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico), no âmbito da Chamada Universal MCTI/CNPq
n° 14/2014, cujo objetivo foi constituir equipe científica para
mapear e analisar pontualmente as recentes configurações das
instâncias da rede de atendimentos às mulheres em situação de
violências, de Maringá/PR, desde 2012, a fim de otimizar a ins-
trumentalização da Lei Maria da Penha na localidade, em bene-
fício das mulheres que vivem nesta região.
Com isso, a equipe pretendeu contribuir para o fortaleci-
mento da rede de atendimentos, gerando a oportunidade de de-
bater os limites da atuação de cada instância, as dificuldades, as
dúvidas e os benefícios do processo interventivo junto às mu-
lheres em situação de violências.
A obra pretende, portanto, produzir conhecimento situado
sobre a implementação da lei que é, sem sombra de dúvidas, a mais
popularmente referida pelas brasileiras e brasileiros na atualidade.
O que não significa, por sua vez, que as conclusões daqui advindas
não possam ser traduzidas para outras realidades nacionais.
Por outro lado, o texto se presta a construir uma memória
dos principais desafios e conquistas asseguradas pela normativa,
em sua primeira década de vigência, considerando a experiência
concreta de um município em que as mulheres não encontram
uma situação completamente ideal de atendimento, mas em que
há, certamente, uma estrutura muito mais aparelhada, se compa-
rarmos com outras localidades brasileiras.
Além disso, as linhas deste trabalho se apresentam como
instrumento de reivindicação e luta, para que, no atual contexto
de austeridade política e econômica, não percamos de vista a im-
portância das políticas para mulheres como garantia de desenvol-
vimento social e cidadania.
É preciso salientar que este livro também conta com a ines-
timável colaboração de três autoras que tem vivenciado direta-
mente a construção das políticas para mulheres no Brasil: Carmen
Hein de Campos, Maria Cecília MacDowell dos Santos e Wânia
Pasinato. Três grandes nomes do campo das teorias feministas
brasileiras que participaram, em Maringá, em agosto de 2016, do
evento “Uma década de Lei Maria da Penha: percursos, práticas
10

e desafios”. Este seminário internacional foi também organizado


no âmbito da pesquisa aqui referida, com o objetivo de apre-
sentar para a comunidade local os dados obtidos, e também de
constituir mesas de formação teórica, além de rodas de discussão
com as pessoas que compõem a rede de atendimentos a mulheres
em situações de violências no município, de diferentes lugares de
fala (Judiciário, Ministério Público, Polícia Civil, Polícia Militar,
Centros de Referência, Hospital Universitário, etc.).
Os capítulos atinentes à pesquisa de campo, por sua vez, são
resultado de pesquisas de iniciação científica, portanto concebidos
e escritos por acadêmicas/os do curso de Direito da Universidade
Estadual de Maringá, sob minha orientação. Sendo assim, a obra
conta com duas partes: uma seção de contribuições e análises teó-
ricas; outra, produto de pesquisas empíricas.
A arte da capa foi produzida pela artivista feminista marin-
gaense Elisa Riemer, especificamente para estampar os cartazes e
a página virtual do evento “Uma década de Lei Maria da Penha:
percursos, práticas e desafios”. Para as pessoas que supõem ser
fácil levar a público o espinhoso debate sobre a Lei Maria da
Penha, devo dizer que tivemos inúmeros desses belos cartazes
arrancados sumariamente ou rasurados, em sinal de protesto por
encamparmos a discussão. Ainda assim, seguimos adiante!
No prefácio, temos a fundamental colaboração da cientista
política feminista, também maringaense, Maria Lígia Granado
Rodrigues Elias. Ou seja, este é um registro de como se tem
pensado, implementado e vivenciado a primeira década da Lei
Maria da Penha, a partir do contexto maringaense.
Finalmente, não poderia deixar de referir que, para além da
obra, outro produto gerado a partir da pesquisa em destaque foi o
NUMAPE (Núcleo Maria da Penha), ação de extensão, articulada
com os estudos feitos sobre a implementação da Lei, em que, desde a
própria universidade, buscamos nos integrar à rede de atendimentos,
prestando assistência jurídica e psicológica gratuita às mulheres de
Maringá e região, conforme relato no último capítulo.
Por tudo isto, esperamos que as reflexões aqui concebidas
possam nos ajudar a projetar soluções para os novos enfrenta-
mentos que começam a surgir!

Isadora Vier Machado


(Organizadora)
PREFÁCIO
Fazer pesquisa feminista é fazer pesquisa engajada e com
propósito. O feminismo vem, ao longo dos anos e por meio de
diversos enfoques teóricos e metodológicos, demonstrando que,
em toda pesquisa, artigo e publicação, existe um interesse político
e ideológico, e que, muitas vezes, a ideia de neutralidade do co-
nhecimento e da ciência opera como um manto que obscurece essa
característica política da produção acadêmica.
Gayatri Spivak ([1998]2010) finaliza seu paradigmático
ensaio Pode o Subalterno Falar afirmando que: “A mulher in-
telectual como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que
não deve rejeitar com um floreio”. O feminismo, enquanto movi-
mento, ação e teoria, possui um forte comprometimento em en-
tender e, então, transformar estruturas de dominação, e os artigos
deste livro compartilham de uma perspectiva interseccional. Ou
seja, a violência contra a mulher é um fato social complexo, es-
palhado em todo o globo terrestre, até mesmo nos países que
costumamos ter como referência como mais igualitários e de-
senvolvidos. Entretanto, se este é um problema quase que geral,
certamente há características e especificidades que precisam ser
levadas em conta para entendermos, cada vez mais, essa questão,
para então alterá-la. Questões como raça, classe, sexualidade,
identidade de gênero, capacidades, entre outros marcadores de
diferenças sociais, são elementos importantes para compor uma
reflexão sobre a Lei Maria da Penha.
Compromissando-se com um debate público sobre a violência
contra a mulher e uma abordagem sobre diferentes aspectos da
Lei, é que se estabelece a proposta deste livro (e do evento que o
precedeu). Pensar dez anos da Lei Maria da Penha, é pensar seu
passado, sua atualidade e, principalmente, seu futuro.
A violência contra a mulher se insere em um contexto social
bastante complexo em que a arena jurídica precisa ser entendida
como uma arena de (e em) construção social, um espaço de rei-
vindicação e de disputa por significados sociais e políticos. A Lei
Maria da Penha é, sem dúvida, uma conquista feminista e uma
12

conquista das mulheres. Afirmar a sua importância não é obli-


terar suas limitações, pelo contrário, é reivindicar o Direito, neste
caso específico, na lei, um instrumento, ainda que limitado, de
transformação social, e que esta transformação tenha como meta
uma sociedade democrática e justa.
Deste modo, os capítulos deste livro trazem história, as-
pectos teóricos e dados sobre uma lei que, certamente, por si só,
não será solucionadora de questões que vão além da violência em
si, mas que engendram uma complexa teia sobre modos de viver,
de ser e de entender o mundo, e em especial o lugar da mulher
no mundo. Ao mesmo tempo, o livro oferece uma visão de que,
diante da complexidade dos problemas sociais, diante da questão
da violência contra as mulheres, o caminho é ação e construção
de instrumentos, ainda que imperfeitos, para lidar e mitigar essas
situações.
Uma década de Lei Maria da Penha: percursos, práticas
e desafios procura, ainda, mapear e analisar as recentes confi-
gurações das instâncias de rede de atendimento às mulheres em
situação de violência na cidade de Maringá-PR. Trata-se de um
exemplo de pesquisa e atividade intelectual que relaciona teoria e
prática, ciente de que quanto mais evidenciarmos e entendermos
a sociedade em que nos encontramos, mais recursos teremos
para construir caminhos mais igualitários e justos. Deste modo,
os capítulos que seguem podem ser entendidos como ferramentas
para reflexão e ação, em um cenário político-social em que há
uma evidente disputa que posiciona, de um lado, uma visão con-
servadora e Obscurantista da sociedade, que reivindica em uma
ideia de família natural a base para a manutenção e exacerbação
de desigualdades e violências; e, do outro lado, uma visão pro-
gressista, emancipadora, que entende que diferenças não devem
legitimar desigualdades, que desigualdades são socialmente for-
jadas, e que, portanto, podem, e devem, ser modificadas.
É fundamental, ainda hoje, reafirmar que a violência contra
as mulheres, a violência baseada em gênero é errada, e esta é uma
questão de justiça. Assim, é dever do Estado e de toda sociedade
se comprometer com um futuro menos violento para todas. Este
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 13

livro é fruto de uma pesquisa com propósito: o propósito de se


posicionar, cientificamente, do lado progressista, oferecendo,
por meio de pesquisa e reflexão acadêmica, contribuições para a
construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Maria Lígia G. G. R. Elias


(Doutora em Ciência Política)

REFERÊNCIAS
SPIVAK, Gayatri Chakravorty ([1998] 2010). Pode o subalterno
falar? Trad. Sandra Regina Goulart de Almeida; Marcos Pereira
Feitosa; André Pereira Feitosa – Belo Horizonte: Editora UFMG.
SEÇÃO I

UM GIRO PELAS
PERSPECTIVAS TEÓRICAS
DA LEI MARIA DA PENHA
LEI MARIA DA PENHA:
fundamentos e perspectivas1
Carmen Hein de Campos2

Introdução

Há mais de quarenta anos o feminismo brasileiro vem atuando


política, social e juridicamente para colocar no cenário brasileiro e
no mundo jurídico o tema da violência contra mulheres, especial-
mente a praticada por parceiros íntimos. Desde a década de setenta,
o tema da violência doméstica ocupa a agenda feminista, passando
pela discussão em torno da violência sexual, etnico/racial, contra
mulheres lésbicas e que atualmente tem sido renovada e impul-
sionada pelo debate dessas e outras interseccionalidades, como por
exemplo, capacidade, região, idade e escolaridade.
A lei Maria da Penha (LMP) é fruto desse acúmulo teóri-
copolítico feminista e representa o ápice dessa luta. Ao discutir
os fundamentos da LMP retomo a trajetória feminista da luta po-
lítica desde a década de setenta, assim como o esforço das juristas
feministas para o reconhecimento da violência doméstica, sexual
e feminicida como categorias jurídicas. Se a LMP representa o
reconhecimento jurídico da violência doméstica e familiar, ela
enfrenta obstáculos em sua aplicação, especialmente na con-
cessão de medidas protetivas. Pesquisas revelam a dificuldade
que as mulheres enfrentam para obterem medidas protetivas, o
que sugere que o grau de inovação da lei é similar à resistência
dos profissionais do direito.
Ao mesmo tempo, as interseccionalidades de raça/etnia,
classe social, orientação sexual, (dis)capacidades revelam como
a violência atinge diferentemente mulheres brancas e negras,
1 Este artigo é uma versão revisada da palestra proferida no evento, “Uma década de Lei Maria
da Penha: percursos, práticas e desafios”, realizado pela Universidade de Maringá entre os dias
01 e 03 de agosto de 2016. Agradeço e parabenizo a professora Dra. Isadora Vier pelo convite e
organização do evento.
2 Doutora em Ciências Criminais, PUCRS. Professora do Mestrado em Direitos Huumanos,
UniRitter/RS. Email: charmcampos@gmail.com
18

demonstrando como o racismo e a homofobia, por exemplo, se


entrecuzam e aumentam a vulnerabilidade das mulheres. Nesse
sentido, destaca-se a maior vitimização das mulheres negras.
Este artigo retoma os debates iniciais sobre o tema da vio-
lência doméstica e familiar contra mulheres que fundamentam
histórica, política, social e juridicamente a lei Maria da Penha e
os renova a partir da problematização das interseccionalidades e
do cumprimento das medidas protetivas de urgência.

1 Fundamento Histórico: luta


feminista contra as violências

A criação da lei Maria da Penha – LMP (lei 11.340/2006) se


insere no esforço histórico do feminismo brasileiro para dar um
tratamento diferenciado à violência doméstica e familiar contra
mulheres. Por isso, é importante resgatar esse processo político-
-jurídico que culminou com a criação dessa legislação.
Relevante destacar que a elaboração da LMP se dá em um contexto
latino-americano de processos de tipificação da violência doméstica e/
ou familiar que começou a ocorrer na década de noventa com a promul-
gação da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a
Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará, 1994). Essa
Convenção impulsionou a elaboração de legislações especiais, integrais
ou específicas de proteção da violência doméstica e familiar – ‘leis de
primeira geração’ – na expressão de Vilchez (2012).
Posteriormente, a centralidade da criminalização da vio-
lência doméstica e intrafamiliar vai dando lugar à revisão de leis
e à criação de legislações especiais com a tipificação de novas
modalidades de violência, dentre elas, o femicídio/feminicídio.
Foi o que aconteceu no Brasil com a criação da qualificadora do
feminicídio (lei 13.104/2015), incluída no Código Penal3.

3 Art. 121- § Homicídio qualificado – VII – Feminicídio – VI – contra a mulher por razões da
condição de sexo feminino:
Pena – reclusão, de doze a trinta anos.
§ 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: 
I – violência doméstica e familiar;
II – menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 19

Vários países latino-americanos possuem legislações para o


enfrentamento à violência contra mulheres, dentre eles Argentina
(2009)4, Bolívia (2013)5, Brasil (2006)6, Chile (2005)7, Colômbia
(2008)8, Costa Rica (2007)9, El Salvador (2010)10, Guatemala
(2008)11, México (2007)12, Nicarágua (2012)13, Panamá (2013)14,
República Dominicana (1997)15 e Venezuela (2006).16 Entretanto,
essas legislações variam muito na América Latina, assim como as
leis de femicídio/feminicídio.
Mas criação de leis de violência contra mulheres não foi um
processo simples. No país, como de resto na América Latina, as legis-
lações foram um processo de luta política e acadêmica de feministas.
No Brasil, mais de quarenta anos de produção teórica
em torno do tema constituiu um campo de estudo consolidado
(GROSSI; MINELLA; LOSSO, 2006). Isso, sem dúvida, é uma
conquista feminista das mais significativas.
O próprio entendimento do que se considera “violência
contra mulher” é uma construção histórica do movimento femi-
nista (GROSSI, 1994). Inicialmente, considerava-se violência
contra mulher os homicídios praticados por maridos, compa-
nheiros e amantes. Depois, com a criação de organizações femi-
nistas e com as delegacias especializadas de atendimento à mulher,
a violência nas relações domésticas e/ou conjugais passou a ser

4 Ley 26.485 (01/04/2009)- Ley de protección integral para prevenir, sancionar y erradicar la
violencia contra las mujeres en los ámbitos en que desarrollen sus relaciones interpersonales.
5 Ley Integral para garantizar una vida libre de violencia (Ley 348, de 09/03/2013)
6 Lei 11.340 (07/08/2006) – Lei Maria da Penha
7 Lei 20.066 (22/09/2005), alterada pela lei 20.427/2010.
8 Lei 1257 (04/12/2008)
9 Lei 8589 (12/04/2007) – Lei de Penalización de la violencia contra las mujeres.
10 Decreto 520 (de 25.11.2010, vigente a partir de 01/01/2012) – Ley Especial Integral para una
Vida Libre de Violencia para las Mujeres.
11 Decreto 22-2008 (02/05/2008, publicado em 7/05/2008, vigente sete dias após a publicação
(15/05/2008) – Lei contra o feminicídio e outras formas de violência contra a mulher
12 Ley General de Acceso de las Mujeres a una Vida Libre de Violencia (01/02/2007), e reformas posteriores.
13 Ley 779 (22.02.2012) – Ley Integral contra la violencia hacia las mujeres y reformas a la ley 461,
Código Penal.
14 Ley 82 (24/10/ 2013) – Que adopta medidas de prevención contra la violencia en las mujeres y
reforma el Código Penal para tipificar el femicidio y sancionar los hechos de violencia contra la mujer.
15 Ley No. 24-97 que introduz modificaciones al Código Penal y al Código para la Preteción de
Niños, Niñas y Adolescentes. O art. 309-I define violencia contra a mulher. O art.309-2 define
violencia doméstica ou intrafamiliar e impõe penas.
16 Ley Organica sobre el derecho de las mujeres a una vida libre de violencia (25.11.2006)
20

o foco. Posteriormente, temas como o assédio sexual, o abuso


infantil, as violências homofóbica e etnico/raciais começaram a
ser considerados, especialmente pelas organizações feministas
de mulheres negras e lésbicas (GROSSI, 1994).
Na década de setenta, a morte de mulheres em nome da su-
posta ‘honra masculina’ é objeto de atenção feminista. Em 1976,
o assassinato de Ângela Diniz, praticado por seu companheiro
“Doca Street” chocou o país. A tese da defesa da ‘honra’ e de ter
‘matado por amor’, que culminou com uma pena branda, foi du-
ramente criticada pelas feministas, que, logo a seguir, cunharam
o slogan ‘quem ama não mata’.
O tema dos homicídios de mulheres em nome da honra
tornou-se uma pauta privilegiada. No período seguinte, surgem
dois importantes estudos sobre os discursos jurídicos em casos de
homicídios de mulheres: o livro “Morte em Família”, de Mariza
Correa (1983) e “Quando a Vítima é Mulher: análise do julga-
mento de crimes de estupro, espancamento e homicídio”, (1987),
de Danielle Ardaillon e Guita Grin Debert.
A partir dos anos oitenta, o debate em torno dos diversos sig-
nificados e conceituação da violência contra mulheres foi intenso e
os conceitos de violência doméstica, violência familiar e violência
de gênero foram objeto de discussões acadêmicas.
No campo do direito, as principais juristas feministas da
época (Sílvia Pimentel, Ester Kosoviski, Floriza Verucci, Eva
Blay, apenas para citar algumas), desde o final da década de se-
tenta, denunciavam o tratamento das mulheres pelo Direito e pro-
punham um novo olhar.
Por exemplo, em 1985, tendo em vista a tramitação uma
proposta de alteração da parte especial do Código Penal, Verucci
e Marino escrevem:

É opinião unânime entre as feministas que o estupro tem


que deixar de ser considerado um crime contra os costumes
e passar a ser penalizado com um crime contra a pessoa,
a exemplo das legislações mais avançadas, como a da
Itália e da Suécia, onde o estupro, além de ser considerado
como agressão qualificada, não pode ter como defesa a
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 21

clássica alegação de que a mulher teria provocado o crime.


(VERUCCI; MARINO, 1985, p. 5).

As autoras estavam a criticar a proposta do Código Penal


que não inovava no tratamento da violência contra mulheres,
pois o crime de estupro continuava a figurar como crime contra
os costumes.
Além do estupro, as autoras já questionavam o enfoque le-
niente dado pela lei e pelas autoridades à violência física contra
a mulher praticada pelo companheiro dentro do lar, tratada como
uma questão particular entre casais, o que deixava impune a
maioria desses crimes. Afirmam que o espancamento de mu-
lheres não tem lugar adequado na legislação brasileira, ficando
enquadrado no ‘crime de lesões corporais’ e tratado de forma
injusta tanto pela sociedade quanto pela polícia, que não leva a
sério esse tipo de denúncia.
No que se refere ao homicídio passional de mulheres,
pontuam que este tem sido tratado de forma leviana pela justiça
e que, pela mentalidade discriminatória da sociedade, criou-
-se uma impunidade específica para o assassinato de mulheres.
Sustentam que se o instituto da legítima defesa está presente em
praticamente todas as legislações, no entanto, a extensão deste
à ‘defesa da honra’ foi um artifício criado por brilhantes advo-
gados para a defesa de inúmeros réus que com isso se livraram
da prisão. Assim, as juristas feministas traduziam as demandas
de parcela do feminismo.
Já no final dos anos oitenta, com o início do processo de re-
democratização do país, as feministas voltaram sua atenção para o
processo constituinte. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
organizou o lobby do batom que foi responsável por pressionar parla-
mentares e incluir diversas propostas feministas na Constituição que
se escrevia. Assim, a igualdade jurídica e a proteção das mulheres
na família, dentre outras conquistas, são inscritas na Constituição de
1988. Entretanto, as conquistas constitucionais não encerram a luta
por mudanças legais no campo da violência.
22

2 Fundamentos Jurídicos: o debate


por uma legislação específica

Conforme mencionado, no final da década de 1980, o tema da


violência doméstica avança no debate acadêmico e nas propostas
de políticas públicas. Em 1985 é criada a primeira delegacia de
defesa da mulher (DDM) em São Paulo e logo são criadas outras
delegacias especializadas de atendimento a mulheres (DEAMs)
em diversas regiões, sendo estas, a primeira expressão de uma po-
lítica criminal apoiada pelo feminismo.17
A criação das delegacias de polícia especializadas fortalece
o discurso em torno da criminalização de comportamentos vio-
lentos, da denúncia dos agressores e da atuação policial na re-
pressão desses crimes (SANTOS, 2010), ou de uma demanda
neocriminalizadora (ANDRADE, 1996).
As delegacias ofereciam a possibilidade de dar a visibi-
lidade necessária ao problema e mostrar uma intervenção do
estado, através da punição dos agressores. As DEAMs deveriam
estimular as denúncias de violência doméstica, pois seriam um
ambiente acolhedor, com profissionais treinadas e sensibilidade
na escuta para as mulheres prosseguirem com as denúncias.
Idealmente, os agressores seriam exemplarmente punidos. No
entanto, como vários estudos demonstram, as delegacias não
cumpriram esse papel18, embora sejam considerados um instru-
mento importante para mulheres.
No decorrer, a política feminista de denunciar a impunidade
da violência e o descaso do sistema de justiça vai dando lugar a
posturas propositivas de mudanças na legislação. Essa mudança
de posição ocorre em virtude de três elementos centrais nesse pe-
ríodo: a) a criação da primeira delegacia da mulher, em 1985; b)
a bem-sucedida intervenção feminista na Assembleia Nacional
Constituinte que culminou com inúmeras propostas aprovadas

17 Cecília M. dos Santos argumenta que a criação das delegacias da mulher não foi uma proposição
feministas, mas uma proposta do governador de São Paulo, em 1985, sendo apoiada pelo feminismo.
18 Ver SOARES (1996), MUNIZ, (1996) e MACHADO (2001).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 23

no texto da nova Constituição19 e, c) o surgimento das organi-


zações não governamentais de direitos das mulheres.20
O tema do tratamento jurídico dado à violência contra mu-
lheres não sai da pauta.
Floriza Verucci escreve no prefácio do livro “Mulheres
Espancadas”, de Maria Amélia Azevedo:

O crime de lesões corporais não tem sexo no Código Penal,


mas tem na prática, pois o praticado por homem contra
mulher não é punido. O homicídio doméstico tem que sair
detrás da expressão ‘passional” e ser mesmo um crime quali-
ficado praticado como é, na grande maioria dos casos contra
pessoa indefesa. O estupro tem que ser considerado, como
na Itália e na Suécia, por exemplo, também na esfera do casal
permitindo que a mulher recorra à Delegacia da Mulher [...].
Na esfera criminal é grande a distância que nos separa de
nossa meta igualitária de respeito. Me parece maior do que
nas outras esferas do direito. (VERUCCI,1985, p. IX).

Como se nota, Floriza evidencia que não há uma igualdade


no campo do direito penal e que neste campo a distância parece
ser maior que em outros, pois as agressões domésticas (lesões cor-
porais), a violência sexual no casamento e os crimes “passionais”,
em regra, não são punidos. Em suma, a violência doméstica em
suas expressões jurídicas não é acolhida pelo sistema de justiça.
A igualdade jurídica deve ser atingida em todos os campos.
Sílvia Pimentel e Floriza Verucci referem-se expressamente às
mudanças legais necessárias para o atingimento da igualdade
formal e material entre mulheres e homens.
A nova Constituição Federal (1988), ao estabelecer prin-
cípios, direitos e garantias individuais21 e a proteção aos

19 Conforme Cecília Santos, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher teve um papel significativo
na incorporação de 80% das propostas feministas na Constituição de 1988.
20 Sobre a mudança ocorrida no movimento de mulheres e criação de ONGs, ver Grossi (1996).
21 O artigo 5º da Constituição dispõe: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes”:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
24

integrantes da família22, fortalecia o entendimento da lei como


um instrumento de mudança social.
Por isso, a lei é vista como um instrumento de mudança
social capaz de alterar o status jurídico e a condição feminina.

A lei pode servir para ampliar os direitos já reconhecidos,


para combater diferentes formas de discriminação por
motivo de sexo, para penalizar violações desses direitos e
punir atentados contra a integridade física, psicológica e
mental das mulheres. (TABAK; VERUCCI, 1994, p. 47).

Assim, o direito é um instrumento de mudança concreta, de


garantia e ampliação de direitos, de combate às discriminações e
de punição às violências. O feminismo jurídico no país assume
a proposta de reforma legal em todos os campos. A Constituição
consagra a igualdade formal entre homens e mulheres mas esta
igualdade deve ser reflitada em outros ramos do direito, como no
direito civil, no direito de família e no direito penal. Desta forma,
há necessidade de reformas no direito civil e penal.
Nos anos noventa, no campo penal, três reivindicações apa-
recem com nitidez: a) a revogação da tese da legítima defesa da
honra e o fim dos homicídios passionais; b) o estupro deve deixar
de figurar como um crime contra os costumes e passar a ser um
crime contra a pessoa e c) a violência doméstica deve ser pena-
lizada. Os crimes de lesão corporal devem ser punidos e não mais
ignorados pela polícia. Sem isso, ‘a difícil igualdade’, para usar a
expressão de Tabak e Verucci, não seria alcançada.
São essas reivindicações de igualdade jurídica (constitu-
cional, civil e penal), em conjunto com a impunidade da vio-
lência homicida, doméstica e sexual que justificam as propostas
de alteração legislativa.
No período, a discussão sobre os direitos humanos das
mulheres emerge fortemente e os tratados de direitos humanos

22 O artigo 226 estabelece que “A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado” e
seu parágrafo 8º dispõe que:
§ 8º – O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram,
criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 25

passam a ser incluídos na argumentação jurídica.23 Nesse mo-


mento, as proposições de mudanças no crime de estupro (1991),
lei especial contra a violência familiar (1993) e de criminalização
do assédio sexual24 (1999) são apresentadas.
O ativismo feminista em ONGs (organizações não governa-
mentais) 25 possibilita que as juristas feministas e os movimentos
de mulheres articulem-se para promover as mudanças na legislação
que serão encaminhadas ao Congresso Nacional.
A primeira proposta de uma lei especial de violência familiar
foi elaborada em 1993 por Sílvia Pimentel e Maria Inês Pierro.
A proposta das autoras não se limita à mulher vítima e incorpora
os homens em situação de vulnerabilidade, tais como crianças e
idosos. A proposta objetivamente dirige-se a proteger a todos os
integrantes da família e não apenas as mulheres. Se a proteção
constitucional é importante, ela não é suficiente, pois além da
regulamentação das normas constitucionais, a violência familiar
requer uma conscientização e um assumir que o problema é sério
e deve ser amplamente debatido.26
O projeto fundamenta-se na Constituição Federal,
na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação contra a Mulher (CEDAW), nas legislações criadas
na América Latina27 e no Seminário Regional “Normatividade
Penal e Mulher na América Latina e Caribe”.28 Ele define formas
de violência (violência familiar, violência psicológica e lesão ou

23 O § 2º, do artigo 5º da Constituição Federal, ao dispor que os “Os direitos e garantias expressos
nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados,
ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”, deu novo
impulso aos argumentos feministas de mudanças na legislação. A Convenção para Prevenir,
Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará, 1995) ao estabelecer
um novo marco normativo para o tema da violência contra mulheres passou a ser um poderoso
instrumento jurídico na defesa de mudanças substanciais no tratamento da violência doméstica.
24 Em 1999, a deputada Iara Bernardi, PT/SP apresenta o PL No. 61 que criminalizava o assédio
sexual. Segundo a autora, o projeto foi discutido com pessoas e organismos feministas e inspirou-
se em projeto anterior, da então deputada Marta Suplicy. No entanto, a autora não menciona que
organismos de mulheres teria ouvido.
25 Miriam Grossi explica a passagem das feministas do movimento autônomo para as organizações
de mulheres. Ver Grossi (1996).
26 Ibid, p.169.
27 Refere especificamente às legislações de Porto Rico, Peru e Colombia.
28 O Seminário foi organizado pelo Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos
da Mulher – CLADEM, em 1993, em São Paulo.
26

dano psicológico), cria os tipos penais de perigo para a vida e


a saúde, maus-tratos na família, estupro de cônjuge ou compa-
nheiro, estupro incestuoso e abuso sexual incestuoso. Estabelece,
ainda, nas disposições gerais, que os crimes de lesão corporal
dependem de representação quando a vítima for cônjuge ou com-
panheiro (PIMENTEL, PIERRO, 1993).
A proposta não é aprovada, mas fortalece as iniciativas que
se seguem. Em 2004, há a inclusão da agravante de violência do-
méstica nas lesões corporais no Código Penal e, finalmente, em
2006, é editada a Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha.

3 A criação da lei Maria da Penha (Lei 11.304/2006)

Como visto até aqui, dos anos 70 aos anos 2000, o movi-
mento feminista acumulou teoria e força política para a propo-
situra de uma legislação específica para a violência doméstica.
Várias delegacias da mulher tinham sido criadas e o movimento
amadurecia uma proposta e fazia articulações.
Em 1995 é sancionada a Lei dos Juizados Especiais Cíveis e
Criminais29 (Jecrims) e a promulgada a Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher30
(Convenção de Belém do Pará, 1994).
A lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais (Jecrims)
definiu como delitos de menor potencial ofensivo, as contra-
venções penais e crimes cuja pena máxima não superior a dois
anos (art.61). Essa definição abarcou os crimes de ameaça e lesão
corporal de natureza leve. Com isso, os crimes praticados com
violência doméstica (geralmente ameaça e lesão corporal) pas-
saram a ter sua tramitação pela Lei dos Jecrims. Desta forma, a

29 Lei 9.099, de 26.09.1995 – Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras
providências. A Lei regulamenta o inciso I, do art. 98 da Constituição Federal que prevê a criação
de “juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a
conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações
penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos,
nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de
primeiro grau”.
30 A Convenção foi adotada em Belém do Pará, em 09.06.1994, ficando conhecida como Convenção
de Belém do Pará. O Brasil ratificou a Convenção em 27.11.1995.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 27

demanda que se encontrava reprimida nas delegacias de polícia


chegou ao poder judiciário. Assim, percebeu-se o grande volume
de ocorrências registradas nas delegacias que não eram encami-
nhadas à justiça. O julgamento dos crimes de violência doméstica,
em sua grande maioria constituída de lesões corporais qualifi-
cadas como leves e ameaças tratadas como delitos de menor po-
tencial ofensivo foi duramente criticado pelas feministas. Havia
o entendimento de que os Juizados banalizavam a violência, que
a solução reprivatizava o conflito e preservava a família e não os
direitos das mulheres (CAMPOS, 2001). Além disso, criticou-
-se a proposta da ‘pena de cesta básica’ amplamente utilizada
nos Juizados (BARSTED, 2006; CAMPOS, 2001; 2002; 2003;
2004; CAMPOS; CARVALHO, 2006). Argumentou-se ainda,
que a Lei 9.099/95, ao julgar os crimes praticados com violência
doméstica, conflitava com a Convenção de Belém do Pará.
Em 2001, torna-se pública a responsabilização interna-
cional do Brasil no caso Maria da Penha Fernandes31, devido à
negligência e a conivência do estado brasileiro com a dupla ten-
tativa de homicídio praticada contra Maria da Penha.
Esse é o contexto social, jurídico-político em que o femi-
nismo nos anos 2000 estava inserido: uma nova Constituição e
um ativismo fortemente engajado. No campo teórico, a consoli-
dação dos estudos sobre violência contra mulheres e no campo
jurídico, várias proposições de alteração legislativa. No âmbito
internacional, a condenação do Brasil no caso Maria da Penha.
Assim, há um cenário propício para que uma proposta le-
gislativa tivesse um outro desfecho. É nesse contexto que um
anteprojeto de lei é elaborado por um grupo de organizações
feministas que formaram um Consórcio Nacional (BARSTED;
2011; MATOS; CORTES, 2011). Diferentemente da proposta
de 1993, a nova proposta não previa proteção à família, mas à
mulher e tinha como lógica central, a perspectiva de do trata-
mento integral, transversal e multidisciplinar, da prevenção, da
assistência e da contenção da violência. Estabelecia a concessão

31 Maria da Penha Fernandes vs. Brasil. Caso 12.051 – Comissão Interamericana de Direitos
Humanos – CIDH/OEA.
28

de medidas protetivas e a criação de juizados especializados de


violência doméstica. O anteprojeto não previa aumento de pena
para nenhum tipo de crime praticado com violência doméstica,
criação ou alteração de tipos penais (MATOS; CORTES, 2011).
Além disso, o anteprojeto do Consórcio de ONGs mantinha o pro-
cedimento sumaríssimo previsto na Lei dos Juizados Especiais
Criminais. Entretanto, à diferença destes, propunha o julgamento
da violência doméstica nos juizados especializados de violência
doméstica com competência civil e criminal, objetivando evitar
a peregrinação das mulheres para diferentes jurisdições quando a
situação derivava de fato idêntico, ou seja, a violência praticada
por parceiro íntimo.
O anteprojeto do Consórcio foi encaminhado à Secretaria
de Políticas para as Mulheres da Presidência da República
(SPMPR). No entanto, a SPMPR enviou uma proposta dife-
rente ao Congresso Nacional. Após muitos debates e inúmeras
alterações no Congresso, a lei foi aprovada e sancionada sob o
número 11.340/2006 e denominada Lei Maria da Penha.32
Essa digressão histórica revela as bases históricas, políticas,
jurídicas e sociais que fundamentam a LMP: um acúmulo político
e jurídico e uma legislação pensada, proposta e articulada pelo
movimento feminista e de mulheres. Ou seja, a LMP enunciou
um lugar de fala feminista.

4 Desafios e Perspectivas

A LMP representa, então, o ponto culminante de uma luta


feminista contra a violência. No campo do direito, a LMP pro-
moveu um giro paradigmático profundo que identifiquei como
tendo duas características principais: elaboração e conteúdo fe-
ministas (CAMPOS, 2016).
Já demonstrei o protagonismo feminista na origem à lei
Maria da Penha e agora destaco suas principais inovações ju-
rídicas: a) tutela penal exclusiva para as mulheres; b) criação

32 Análise detalhada do processo de criação e tramitação no Congresso Nacional encontra-se em


Matos e Cortes, 2011.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 29

normativa da categoria violência de gênero; c) redefinição da


expressão vítima; d) exclusão dos crimes de violência doméstica
do rol dos crimes considerados de menor potencial ofensivo e
suas consequências; e) previsão da companheira ser processada
por violência doméstica e familiar em relações homoafetivas; f)
criação de medidas protetivas de urgência; g) criação dos jui-
zados especializados de VDFCM com competência civil e cri-
minal; h) tratamento integral, intersetorial e interdisciplinar da
violência doméstica e familiar33.
No entanto, desde a sua criação a LMP vem enfrentando difi-
culdades em ser aplicada em toda a sua extensão, em especial nas
perspectivas preventiva e assistencial, o que contribui para manter
a violência doméstica em patamares elevados.
A magnitude dessa forma de violência tem sido evidenciada
por inúmeras pesquisas e também pela Central 180, da SPMPR,
revelando a sua persistência na sociedade. De 2005 a 2015, a
Central registrou 4.823.140 atendimentos. Em 2015 foram regis-
trados 76.651 relatos de violência, dos quais, 50,16% correspon-
deram à violência física; 30,33%, violência psicológica; 7,25%,
violência moral; 2,10%, violência patrimonial; 4,54%, violência
sexual; 5,17%, cárcere privado; e 0,46%, tráfico de pessoas. Dos
76.651 relatos de violência, 58,86% foram cometidos contra mu-
lheres negras. 34
A violência feminicida também incide majoritariamente
sobre as mulheres negras, cuja taxa de vitimização é 66,7% vezes
maior que a de mulheres brancas (WAISELFISZ,2015, p.31-32).
Ou seja, o racismo é responsável pela maior vitimização das mu-
lheres negras e está na base da menor acessibilidade dessas mu-
lheres ao trabalho, educação, saúde, etc.
Mas há outras interseccionalidades que também operam e
vitimizam de modo diferenciado as mulheres lésbicas, trans, as
deficientes, idosas, ribeirinhas, da zona da mata, sertão, rural, da
floresta, do campo, etc.

33 Para um detalhamento ver CAMPOS, CARVALHO (2011).


34 Online: <http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/ligue-180-central-de-atendimento-a-mulher/
balanco180-2015.pdf>. Acesso em 27/06/2017. O último Boletim disponível data de 2015.
30

No que se refere à identidade de gênero, mulheres trans tem


encontrado dificuldade de acesso à LMP, devido a resistências
tanto de registro quanto do julgamento de casos remetidos ao Poder
Judiciário. Pode-se argumentar que a lei não incluiu, dentre as vio-
lências previstas, a homofóbica e por isso, muitos profissionais re-
sistem em reconhecer o direito das mulheres trans de terem acesso
à lei. O mesmo se pode dizer da violência feminicida, não prevista
entre as formas de violência do art. 7o da LMP.
Se por um lado, a explicitação dessas violências não deixaria
dúvida sobre sua inclusão na lei – embora entenda que estão in-
cluídas quando a lei fala em “violência baseada no gênero” – a
análise das medidas protetivas de urgência revela que há outras re-
sistências operando, demonstrando o tradicionalismo jurídico em
ação para limitar a lei ou mesmo distorcê-la.
As mulheres indígenas e as que residem em regiões ou
zonas de difícil acesso têm inúmeras dificuldades para denun-
ciarem a violência sofrida, o que evidencia como a região opera
como um limitador de acesso à justiça. Além disso, a baixa es-
colaridade também é um fator que restringe o acesso à justiça,
especialmente para efetivar os direitos.
Nesse sentido, as interseccionalidades (classe, raça/etnia,
capacidades, idade, localização geográfica) são marcadores de
vitimização diferenciada e agravada.
Aspecto importante da LMP são as medidas protetivas
criadas para serem um mecanismo rápido, de fácil acesso e de
proteção imediata às mulheres. Previstas nos arts. 18 a 24 da
LMP, as medidas protetivas são de dois tipos: as que obrigam o
agressor (art.22) e de proteção à ofendida (art. 23). As medidas
podem ser requeridas pela ofendida ou pelo ministério público
(art.19) e não dependem do registro do boletim de ocorrência,
testemunhas ou qualquer outro meio de prova. Quando solici-
tadas juntamente com o registro de ocorrência policial, a auto-
ridade policial deverá remeter o pedido dentro de 48h, em expe-
diente apartado (art.12) e o juiz deverá analisar o pedido também
em 48h do seu recebimento (art.18).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 31

No entanto, a burocracia e o tradicionalismo jurídico na


aplicação têm sido obstáculos para o cumprimento do previsto na
LMP, conforme demonstram pesquisas recentes.
As medidas protetivas, regra geral, são requeridas pela po-
lícia através de um documento padrão (CAMPOS et.all, 2016).
No entanto, esse documento pode variar se a medida é solicitada
em uma DEAM ou em uma delegacia comum (CAMPOS, et. al,
2016; DINIZ, GUMIERI, 2016) e podem ou não serem concedidas.
Pesquisa realizada por Diniz e Gumieri (2016) sobre medidas pro-
tetivas julgadas no Distrito Federal entre 2006-2012 revela que em
48% dos casos as medidas foram negadas por falta de informações
para análise dos requerimentos, indicando fragilidade na formulação
das medidas. Para as autoras, a postura do poder judiciário é pro-
telatória, pois “ignora o caráter urgente da medida e sobrecarrega
as vítimas com um ônus argumentativo e probatório” (DINIZ,
GUMIERI, 2016, p.215). Como se sabe, em contexto de violência
doméstica a palavra da vítima não pode ser mitigada, pois a violência
dessa natureza ocorre geralmente sem testemunhas (LAVIGNE,
PERLINGIERO, 2011) e geralmente há longa data.
A referida pesquisa aponta ainda a displicência judicial com
os pedidos das MPUs pois um em cada quatro pedido é inde-
ferido sem justificativa (DINIZ, GUMIERI, 2016) ou são inde-
feridas porque não possuem as ‘provas’ ou ‘testemunhas neces-
sárias (PASINATO, et. al, 2016).
A inversão do ônus da prova não é permitida pela lei Maria
da Penha, já que o objetivo é a urgência da proteção. Essa inversão
valoriza a palavra do ofensor e não a da vítima. Tal postura viola a
lei Maria da Penha e desvirtua o caráter de urgência da medida e a
centralidade que a lei confere à mulher e não ao réu. Além disso, a
lei prevê que o Ministério Público seja comunicado, podendo desta
forma produzir prova (inciso III, do art. 18). Ademais, o indeferi-
mento da MPU sem uma justificativa é inconstitucional, pois toda
a decisão judicial deve ser fundamentada (inciso IX, do art. 93, da
Constituição Federal).
É igualmente refutável o argumento da falta de prova de
risco de morte da vítima para o indeferimento da MPU, pois a
32

violência doméstica não costuma ter testemunhas, ou estas são


familiares ou vizinhos, em geral reticentes em testemunhar. Ou
seja, como provar o risco de morte senão através da palavra da
mulher que conhece o agressor?
Observa-se que nesses casos impera uma lógica burocrática
para a concessão das medidas e não a lógica estabelecida pela lei,
de proteção e centralidade da mulher em situação de violência.
A exigência de provas e testemunhas subverte a lógica da
lei Maria da Penha e é uma tentativa de adequá-la à lógica do
sistema penal tradicional, que gira em torno da autoria e mate-
rialidade. Como buscar a “materialidade” da ameaça de morte?
Muitas vezes não é possível. Mesmo em casos de lesão corporal,
as marcas físicas nem sempre são tão visíveis e o magistrado
pode achar que não é nada grave, esquecendo que a violência
física é sempre acompanhada da violência psicológica e pode ter
consequência fatal.
A preocupação com a prova – elemento para o oferecimento
da denúncia – é uma postura inadequada nos casos dos pedidos
de medidas protetivas, pois estas se revestem de caráter urgente
e protetivo e não de instrumentalização para o processo penal
(CAMPOS, 2016). Ou seja, as medidas protetivas visam a pro-
teção dos direitos fundamentais evitando a continuidade da si-
tuação de violência e não processos, mas pessoas (LIMA, 2011).
Quanto ao prazo para a concessão das medidas, pesquisas
apontam que também varia e não raro ultrapassa a previsão
legal de 48h (DINIZ, GAMIERI, 2016; AZEVEDO, et. al 2016;
PASINATO et. al, 2016).
No que se refere às medidas mais requeridas, os estudos
apontam que a proibição de aproximação da ofendida foi a mais
solicitada (CAMPOS, et. al, 2016; DINIZ, GAMIERI, 2016;
PASINATO, et. al, 2016). No entanto, não é possível saber se essa
é uma solicitação genuína das mulheres ou se decorre do fato de já
constar no Termo de Pedido da medida (CAMPOS, et. al, 2016).
Na grande maioria dos casos não houve descumprimento
da medida, apenas 12% foram descumpridas segundo aponta a
pesquisa de Diniz e Gamieri (2016). Entretanto, como não há
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 33

monitoramento, pode haver subnotificação. A prisão preventiva


foi decretada em 23% dos casos, mas não foi motivada pelo des-
cumprimento da medida (DINIZ, GAMIERI, 2016).
No que tange à eficácia das medidas Pasinato et. al (2016)
entendem que o simples deferimento da medida protetiva não re-
presenta a efetividade da proteção e a ausência da integração do
sistema de justiça criminal com a rede de serviços torna a medida
simbólica. A ausência de monitoramento das medidas é também
um problema (DINIZ, GAMIERI, 2016; PASINATO, 2016).
Por outro lado, programas de patrulhamento específicos re-
alizados pela Polícia Militar apontam resultados positivos, mas
devem ser ainda melhor avaliados (AZEVEDO, et. al, 2016;
PASINATO, et. al, 2016).
Os obstáculos para a concessão das medidas, especialmente
a exigência de provas e testemunhas, revela uma operacionalidade
jurídica que não sai dos “limites da casa patriarcal”, para usar a
expressão de Lauretis (1994) e tenta, de todas as maneiras, conter
e confinar a lei Maria da Penha em seus domínios (CAMPOS,
2016). A recusa de entender que a lei possui “um sistema jurídico
autônomo que deve ser regido por regras próprias de interpretação,
de aplicação e de execução penal” (CAMPOS, CARVALHO,
2011, p.144) e querer que a lei se conforme aos padrões anteriores
do processo penal tradicional, revela um sistema de justiça cri-
minal que parece só ter olhos para si próprio, ou que gira em torno
de seu próprio umbigo.
A lei Maria da Penha tem como centralidade a mulher em
situação de violência e é para ela e não contra ela que o sistema
de justiça deve se voltar.
Nota-se que estamos diante de inúmeros desafios para a
implementação da LMP. As interseccionalidades aumentam
a vulnerabilidade de mulheres negras, lésbicas, indígenas, da
mata, sertão, floresta, ribeirinhas. Por outro lado, a resistência
dos profissionais do direito de se orientarem pela lógica pro-
tetiva às mulheres é fator limitador do acesso à justiça. Esses
são elementos que me levam a pensar que devemos fortalecer os
34

aspectos preventivos e assistenciais da LMP, diminuindo o foco


do sistema de justiça.
Para isso, além do fortalecimento e da ampliação de ser-
viços de atendimento integral às mulheres, políticas de empode-
ramento concreto (econômico) e acesso a programas de educa-
cionais, de saúde, culturais, dentre outros, devem ser priorizados.
As políticas de prevenção devem focalizar a igualdade de gênero,
a diversidade da vida concreta das mulheres e os marcados de
vulnerabilidades específicas. Não há como pensar na implemen-
tação da LMP se não considerarmos que as mulheres negras, por
exemplo, são vítimas preferenciais dessa e outras violências. Se
não pensarmos que as mulheres que vivem em regiões distantes
tem muito mais dificuldade de acesso à justiça e para fazer valer
seus direitos.
Mudar a realidade de milhares de mulheres que sofrem co-
tidianamente com a ausência do Estado, com o machismo, ra-
cismo, lesbofobia e com a conivência de um sistema de justiça
que historicamente defende seus iguais é uma tarefa que requer
empenho dos poderes públicos e um ativismo feminista que
precisa ser renovado.
A lei Maria da Penha é uma ferramenta a mais na luta para a
ampliação desses direitos devendo ser ela própria revisada perma-
nentemente pelas feministas de modo a incorporar a diversidade
das mulheres. Trata-se de, por um lado, lutar contra o tradiciona-
lismo jurídico que objetiva conter a lei e ampliar as sujeitas de
direito. Por outro, conter o próprio sistema jurídico e investir nas
perspectivas preventiva e assistencial, oferecendo mais do que o
sistema jurídico pode prover.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 35

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PARA UMA ABORDAGEM
INTERSECCIONAL DA LEI
MARIA DA PENHA35
Cecília MacDowell dos Santos36

Introdução

O objetivo deste texto é refletir sobre a importância de


uma abordagem interseccional da violência doméstica contra
mulheres e das políticas públicas de enfrentamento a este tipo
de violência no Brasil. A “interseccionalidade” refere-se ao
cruzamento de sistemas de opressão e de privilégio, como o
(hetero)patriarcado, o capitalismo e o racismo, que estruturam
as relações sociais com base em categorias historicamente si-
tuadas, tais como, classe social, gênero, raça, etnia, orientação
sexual, deficiência, entre outras, (re)produzindo relações desi-
guais de poder e moldando a formação de identidades indivi-
duais e coletivas.
No Brasil, os estudos feministas sobre violência contra
mulheres tendem a priorizar uma abordagem unidimensional
de gênero, sem considerar a interseccionalidade entre esta
e outras categorias sociais. As políticas de enfrentamento
à violência doméstica contra mulheres também não incor-
poram esta abordagem. A Lei 11.340/2006, conhecida como
Lei Maria da Penha (LMP), que trata da “violência doméstica

35 Uma versão preliminar deste texto foi apresentada no Congresso 13o. Mundo de Mulheres/Fazendo
Gênero 11, Universidade Federal de Santa Catarina, ag. 2017. Agradeço pelos comentários das/
os participantes no Simpósio Temático “Violências contra Mulheres, Direito(s) e Justiça(s): Políticas
e práticas nas perspectivas de gênero, interseccional e/ou decolonial”, que co-coordenei no
âmbito deste congresso. O texto baseia-se, também, em ideias e comunicações que apresentei
nos seguintes encontros acadêmicos: “Uma Década de Lei Maria da Penha: Percursos, Práticas
e Desafios – I Congresso Internacional do Núcleo de Estudos de Gênero e do Núcleo de Política
Criminal”, Universidade Estadual de Maringá, 2016; Congresso Fazendo Gênero 10, Universidade
Federal de Santa Catarina, 2013; e Colóquio “Violência Doméstica sobre Mulheres: Respostas,
Dilemas e Desafios”, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 2011.
36 Professora Titular de Sociologia na Universidade de São Francisco (Califórnia, EUA) e
pesquisadora do Centro de Estudos Sociais na Universidade de Coimbra.
40

e familiar contra a mulher”, contemplou outras categorias


sociais além do gênero. Por exemplo, a pena é agravada se a
vítima for uma mulher com deficiência; a raça e a etnia são
fatores incluídos nas medidas preventivas; a violência do-
méstica independe da orientação sexual. Mas a definição de
violência doméstica baseia-se tão-somente na categoria de
gênero. E os estudos sobre a LMP em regra não adotam uma
abordagem interseccional.
Neste texto, a LMP será tomada como exemplo para se
propor uma abordagem interseccional da violência doméstica
e das políticas e práticas em torno deste problema social. Mas
a proposta metodológica que se segue poderá ser estendida a
outras formas de violência e a outras leis e políticas públicas.
Argumento que a abordagem interseccional, ou da intersec-
cionalidade, é necessária para se compreender os limites e os
dilemas da ação das mulheres em situação de violência e das
políticas públicas. Cabe ressalvar, porém, que a abordagem
interseccional não deve ser utilizada de maneira a-histórica e
descontextualizada. A pesquisa e as políticas públicas têm de
dar conta das especificidades dos contextos sociais em que se
inserem. Devem, pois, atentar para a construção social e histo-
ricamente situada das categorias sociais, das identidades e das
posições de opressão e de privilégio.
O texto está dividido em três partes, além desta Introdução:
primeiro, indico, sucintamente, a genealogia da abordagem in-
terseccional, tal desenvolvida nos Estados Unidos, onde o termo
“interseccionalidade” foi cunhado, bem como a sua aplicação
aos estudos sobre violência doméstica; segundo, aponto alguns
desafios da abordagem interseccional, principalmente no que se
refere aos níveis de análise e à sua utilização em diferentes con-
textos para além dos Estados Unidos; terceiro, examino alguns
estudos sobre violência doméstica e sobre a LMP no Brasil, ex-
plicando por que a abordagem interseccional é necessária para
a compreensão das ações das mulheres em situação de violência
e das políticas públicas.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 41

1 Abordagem da interseccionalidade e
violência doméstica contra mulheres

A genealogia da abordagem da interseccionalidade remete à


Teoria Crítica da Raça e aos estudos feministas antirracistas de-
senvolvidos nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990. O
termo “interseccionalidade” foi cunhado pela jurista norte-ame-
ricana Kimberlé Crenshaw, no final dos anos 1980, para mostrar
o impacto da intersecção entre o racismo e o sexismo na confi-
guração da violência e da discriminação vividas pelas mulheres
negras e por outras “mulheres de cor” nos Estados Unidos.37
Em sua análise da jurisprudência sobre antidiscriminação, das
teorias feministas e das políticas antirracistas, Crenshaw (1989)
critica a abordagem unidimensional baseada quer na categoria
de “sexo”38, quer na de raça, argumentando que a intersecciona-
lidade entre o racismo e o sexismo gera uma situação diferen-
ciada de opressão para as mulheres negras. Não se trata da soma
de duas ou mais formas de opressão, senão de uma experiência
distinta, que somente pode ser compreendida a partir da inter-
secção de categorias sociais que, sozinhas ou adicionadas, não
dão conta da especificidade produzida pela interseccionalidade.
É importante lembrar que, nas décadas de 1970 e 1980,
antes de Crenshaw haver designado o termo “intersecciona-
lidade”, já existia uma ampla discussão e teorização sobre a
experiência simultânea do racismo e do sexismo vivenciados
por mulheres negras, como ilustram as antologias publicadas
nos Estados Unidos naquele período.39 Essa discussão também
já ocorria no Brasil, como será comentado adiante. O clássico
Women, race & class, de Angela Davis, foi originalmente

37 Nos Estados Unidos, este termo é utilizado para designar diferentes grupos identitários de
mulheres que não pertencem à categoria “anglo-americana”, nomeadamente, as mulheres
negras, indígenas e de origem asiática, latino-americana e africana.
38 O termo “gênero” foi usado pela autora no seu texto posterior que traz o vocábulo
“intersecciotionality” no título (CRENSHAW, 1991).
39 Ver, por exemplo, a antologia All the women are white, all the blacks are men, but some of us
are brave: black women’s studies, organizada por Gloria Hull, Patricia Scott e Barbara Smith,
publicada pela Feminist Press em 1982. Esta antologia é citada por Crenshaw na introdução do
seu artigo de 1989.
42

publicado pela editora Random House em 1981.40 Destaco


também a obra This bridge called my back: writings by radical
women of color, uma coletânea publicada em 1983, organizada
por Cherríe Moraga e Gloria Anazaldúa, que reúne autoras au-
toidentificadas como “mulheres de cor radicais”, críticas tanto
do racismo no movimento feminista como do sexismo nos mo-
vimentos antirracistas das minorias negras, chicanas/latinas,
asiáticas e indígenas. As autoras abordam a complexidade e a
contradição da experiência simultânea de múltiplas e intersec-
tadas formas de opressão e de privilégio com base na raça, etnia,
gênero, classe social e orientação sexual. Além de tratar desta
complexidade e de múltiplas identidades em relação à categoria
“mulheres de cor”, o livro utiliza diversos recursos narrativos,
tais como autobiografia, poesia, ensaio e mitologia, reivindi-
cando o estatuto de “teoria” para essas expressões de conheci-
mento que em regra não são reconhecidas como teoria pelo saber
acadêmico dominante.41
Além de Crenshaw, a socióloga norte-americana Patricia
Hill Collins (1990) é reconhecida como uma das pioneiras a de-
senvolver a abordagem da interseccionalidade. Collins propõe
uma epistemologia a partir da experiência específica e da pers-
pectiva (standpoint) das mulheres negras nos Estados Unidos.
Para Collins, a interseccionalidade e a perspectiva das mulheres
negras estão condicionadas tanto por fatores estruturais como por
sistemas ideológicos. As categorias sociais, por sua vez, são con-
cebidas como categorias construídas socialmente. Nesse sentido,
a abordagem da interseccionalidade propõe-se compreender
tanto as situações concretas de desigualdades estruturais, como
as representações políticas e culturais destas desigualdades.
Com efeito, Crenshaw (1991) refere-se a três formas de
expressão da interseccionalidade: structural interseccionality

40 Este livro ganhou tradução no Brasil somente em 2016, tendo sido publicado pela Editora
Boitempo sob o título Mulheres, raça e classe.
41 Analisei a contribuição deste livro para as epistemologias feministas num ensaio sobre a proposta de
“conhecimentos situados” de Donna Haraway (SANTOS, 1995). O livro foi traduzido para o espanhol,
numa versão organizada por Cherríe Moraga e Ana Castillo, tendo sido publicado no México em 1988.
Desconheço a existência de sua tradução para o português e de sua publicação no Brasil.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 43

(interseccionalidade estrutural), que corresponde às posições es-


truturais de desigualdades que produzem experiências distintas
de violência e de opressão; political interseccionality (intersec-
cionalidade política), que se relaciona com as práticas políticas
e institucionais, tanto governamentais como da sociedade civil;
e representational interseccionality (interseccionalidade repre-
sentacional), que diz respeito às representações culturais (por
exemplo, as representações sobre as mulheres negras nos meios
de comunicação social e nas leis). As categorias, as desigual-
dades e as identidades constroem-se através de relações de poder
e resistência no âmbito das estruturas e das representações so-
ciais, políticas e culturais.
Atualmente a abordagem da interseccionalidade é utilizada
para se compreender tanto situações de opressão como de privi-
légio. Esta abordagem ocupa um lugar central nos estudos das
mulheres e/ou de gênero e sexualidade nos Estados Unidos, e faz
parte dos currículos de graduação e pós-graduação de várias dis-
ciplinas. Na Europa, a abordagem da interseccionalidade tem-se
tornado uma importante referência teórica e metodológica, in-
fluenciando as políticas europeias antidiscriminação e para a
igualdade (KANTOLA; NOUSIAINEN, 2009).
Desde meados dos anos 1990, as análises da intersecciona-
lidade têm-se centrado nas representações culturais e na cons-
trução de identidades individuais, com enfoque em narrativas au-
tobiográficas (COLLINS, 2009). Na última década, tem havido
um retorno a análises estruturais no âmbito do mercado de tra-
balho, bem como novos estudos sobre o papel das instituições
na reprodução das desigualdades (DILL; ZAMBRANA, 2009).
No que se refere aos estudos sobre violência doméstica
contra mulheres, a abordagem interseccional tem vindo a ocupar
um lugar de destaque nos Estados Unidos. Se, por um lado, é
certo que a violência doméstica atinge mulheres de todas as ca-
madas sociais, independentemente da sua classe, cor, raça, etnia,
orientação sexual, deficiência, a abordagem interseccional da
violência doméstica problematiza a universalização da experi-
ência das mulheres. Na esteira de Crenshaw, os estudos mostram
44

que a interação entre o gênero e outras categorias sociais con-


diciona os caminhos percorridos pelas mulheres quando estas
buscam alternativas à situação de violência. Múltiplas e intersec-
tadas formas de opressão influenciam a forma como as mulheres
procuram alternativas para a violência doméstica, podendo pro-
duzir efeitos no acesso desigual à justiça e a serviços extrajudi-
ciais prestados por organizações governamentais e não governa-
mentais (BOGRAD, 2005; VILLALÓN, 2010).

2 Desafios da abordagem interseccional

Um dos principais desafios da abordagem interseccional


diz respeito ao risco de se cair no universalismo e no essencia-
lismo. Desde o início dos anos 1990, este desafio foi apontado
por Chandra Talpade Mohanty (1991) em sua crítica às análises
feministas do Ocidente sobre a opressão das mulheres em todo
o mundo. Mohanty chamava a atenção para a necessidade de
se contextualizar a análise da violência ou outras experiências
das mulheres indianas, por exemplo, e de não se cair no essen-
cialismo das categorias sociais. Tal como Mohanty, Nira Yuval-
Davis (2006) defende uma análise histórica e contextualizada de
categorias sociais e da interseccionalidade. Patricia Hill Collins
(2009) também alerta para o perigo da universalização da ex-
periência de opressão que é específica aos grupos identitários e
minoritários nos Estados Unidos da América.
Outro desafio da abordagem interseccional refere-se aos di-
ferentes níveis de análise (estrutural, experiencial, intersubjetiva)
das relações sociais. De acordo com Yuval-Davis (2006), a inter-
seccionalidade deve ser compreendida como um processo cons-
titutivo de desigualdades e de identidades, não como um modelo
aditivo. As posições de desigualdade não se confundem com as
identidades socialmente construídas. Os valores e os saberes de
diferentes comunidades epistêmicas não se separam quer das
posições sociais, quer da construção das identidades. Cada um
desses aspectos das relações sociais (posição na estrutura social,
identidade e saberes/valores) exige diferentes níveis de análise. A
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 45

análise intersubjetiva ao nível micro das relações sociais é neces-


sária para se compreender a construção de identidades com base
em narrativas autobiográficas, enquanto a análise estrutural ao
nível macro é importante para a identificação das posições e desi-
gualdades sociais. As duas análises se complementam na medida
em que as estruturas sociais, as subjetividades e as construções
identitárias, bem como os saberes que informam a construção de
categorias, desigualdades e identidades, são todos resultantes de
processos sociais e culturais interdependentes.
Apesar das advertências apontadas por Yuval-Davis, a
abordagem interseccional, por se basear em um pensamento
categórico e propor uma análise das posições sociais, enfrenta
o desafio de dar conta, simultaneamente, da dinâmica da cons-
trução social das categorias e das identidades, por um lado, e
das posições de desigualdade no âmbito de uma determinada
estrutura e instituição social. Como captar o dinamismo dos
processos de construção das identidades em diferentes con-
textos, por um lado, e a posição, relativamente estável, de um
determinado tipo de desigualdade estrutural? Eis o desafio.

3 Racismo, (hetero)sexismo e violência


doméstica no Brasil: para uma
abordagem interseccional situada

No Brasil, desde a década de 1970, pode-se observar o


protagonismo ativista e intelectual das mulheres negras, de-
nunciando o mito da democracia racial e os efeitos do colonia-
lismo, teorizando a posição das mulheres negras no contexto
do racismo estrutural, do sexismo e do capitalismo. O trabalho
de Lélia Gonzalez é exemplar de uma abordagem entrecruzada
do racismo, do sexismo e do classismo, muito antes de a lin-
guagem da “interseccionalidade” e das referências teóricas das
mulheres negras norte-americanas terem sido transportadas dos
Estados Unidos para o Brasil. Para Gonzalez (1988, p. 69), o ra-
cismo “à brasileira” se caracteriza pela “denegação”, no sentido
freudiano, do que a autora chama de “Amefricanidade”, ou seja,
46

da africanidade e da latinidade. Este racismo se volta contra os


negros ao mesmo tempo em que nega a sua própria existência por
meio do mito da “democracia racial”. O racismo e o sexismo, por
sua vez, produzem efeitos violentos sobre as mulheres negras.
Como explica Gonzalez (1984, p. 224),

O lugar em que nos situamos determinará nossa interpre-


tação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo.
Para nós o racismo se constitui como a sintomática que
caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, ve-
remos que sua articulação com o sexismo produz efeitos
violentos sobre a mulher negra em particular.42

Sueli Carneiro, no seu texto “Resposta da sociedade civil à


violência racial e de gênero”, publicado em 1993 no Cadernos
Geledés, comparou a história e as conquistas do movimento de
mulheres com as do movimento negro, situando o movimento de
mulheres negras como um “novo ator político”, que precisava
realizar uma “dupla militância”, ou seja, deveria assumir as ban-
deiras gerais dos dois movimentos a partir da “perspectiva das
mulheres negras”. Isto incluía o combate simultâneo ao racismo
e ao sexismo. No entanto, Carneiro (1993, p. 39) observava que
“A questão racial permanece sendo um dos maiores tabus da so-
ciedade brasileira e todas as ações desenvolvidas historicamente
pelo movimento negro buscam romper a conspiração do silêncio
que envolve o racismo e a discriminação racial nesta sociedade.” 
A dificuldade para romper o silêncio sobre o racismo e a
discriminação racial também se encontrava no movimento femi-
nista. Em 1994, entrevistei Sueli Carneiro para a minha pesquisa
de doutorado sobre delegacias da mulher em São Paulo, e ela
explicou que o Geledés – Instituto da Mulher Negra vinha “obri-
gando, politicamente, o movimento feminista a aceitar a ideia de
que a violência racial é um aspecto da violência contra a mulher
tão grave, tão sério, tão importante, quanto a violência doméstica.
Não é um debate fácil, a aceitação não é tranquila” (SANTOS,

42 Com os grifos no original.


UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 47

1999, p. 339). É interessante notar, nesta citação, que os dois


discursos sobre “violência racial” e “violência doméstica” eram
separados pelas próprias organizações de mulheres negras, ainda
que estas se juntassem às lutas antiviolência doméstica e consi-
derassem que havia falta de acesso à justiça para mulheres negras
em situação de violência doméstica (SANTOS, 2005).
Na última década, a mobilização contra a violência do-
méstica, numa perspectiva interseccional, ganhou maior des-
taque nas lutas antirracistas das organizações de mulheres
negras. Recentemente, o Geledés realizou uma pesquisa sobre
mulheres negras e violência doméstica na cidade de São Paulo
(CARNEIRO, 2017). As organizações Geledés e Criola (2016)
também realizaram um trabalho conjunto para preparar um dossiê
sobre os “direitos humanos das mulheres negras”, reunindo de-
núncias de violência doméstica e outras formas de violência
contra mulheres negras. O dossiê adota uma abordagem intersec-
cional ao definir o racismo no Brasil e “seus modos de atuação
diferenciada a partir do sexismo e das fobias LGBT” como um
“racismo patriarcal heteronormativo”. Explicam as organiza-
doras do dossiê que este conceito “permite chamar atenção para
os diferentes processos que atuam na produção da subordinação
de indivíduos e grupos, jogando luz ao fenômeno denominado
de interseccionalidade” (GELEDÉS; CRIOLA, 2016, p. 11). O
dossiê foi apresentado à Comissão Interamericana de Direitos
Humanos em 2016, com o intuito de promover uma visita IN
LOCO por parte da comissionada Margareth Macaulay, o que se
deu em 2017, e para pressionar o Congresso Nacional brasileiro
a ratificar a Convenção Interamericana de Combate ao Racismo,
Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância.
No entanto, em matéria de políticas públicas, as mobi-
lizações do feminismo negro têm sido mais bem-sucedidas
nas áreas da saúde e da educação (WERNECk et al., 2000;
CALDWELL, 2007). No tocante a políticas sobre violência do-
méstica contra mulheres, tais mobilizações são mais recentes e
têm alcances limitados. Além dos obstáculos institucionais no
âmbito do Estado, persiste a dificuldade para se incorporar uma
48

abordagem interseccional sobre o racismo e o sexismo às lutas


feministas antiviolência contra mulheres.
Desde os anos 1980, a violência doméstica contra mulheres
ocupa um lugar central nos estudos e nas lutas feministas. A abor-
dagem feminista e de gênero sobre a violência doméstica confere,
por sua vez, maior visibilidade à violência nas relações conjugais
ou de intimidade heterossexuais (SANTOS, 2005). Embora o
Brasil tenha sido pioneiro na criação de delegacias da mulher na
América Latina, a legislação específica sobre violência doméstica
surgiu apenas em 2006, com muito atraso em comparação com
outros países da região. Assim, é importante destacar que a LMP
foi uma conquista do movimento de mulheres e trouxe impor-
tantes avanços para o reconhecimento da violência com base na
categoria “gênero” (mesmo que inicialmente concebida de forma
binária, como significante de homem-mulher cis) e dos direitos
das mulheres em situação de violência doméstica (BARSTED,
2006). Ademais, a aplicação da LMP enfrenta diversos obstá-
culos jurídicos e políticos (OBSERVE, 2010; CAMPOS, 2011;
BRASIL, 2013; BARSTED; PITANGUY, 2013; SOUZA, 2016).
No entanto, a LMP e a maior parte dos estudos feministas
sobre esta lei não incorporam uma abordagem interseccional
da violência doméstica e do sistema de justiça (para exceções,
ver SANTOS, 2011; ALMEIDA; PEREIRA, 2012; PEREIRA,
2013). Como assinalam Almeida e Pereira (2012, p. 45), “há uma
completa invisibilidade político-cultural do entrecruzamento
entre gênero e raça no tema da violência doméstica e familiar, o
que contrasta fortemente com o atual perfil sociodemográfico e
com a perpetuação do racismo e da discriminação racial no país”. 
A LMP enquadra a violência doméstica e familiar contra
mulheres como uma violação dos “direitos humanos das mu-
lheres”. Este é um marco normativo importante porque permite
o acionamento de instituições internacionais de proteção dos
direitos humanos. Em 1995, o Brasil ratificou a Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência
contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém do
Pará, adotada em 1994, na cidade de Belém, pela Organização
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 49

dos Estados Americanos. Isto abriu caminho para a mobilização


transnacional dos “direitos humanos das mulheres” perante a
Comissão Interamericana dos Direitos das Humanos (CIDH),
ensejando a denúncia da falta de justiça no célebre caso Maria
da Penha c. Brasil. O caso teve início em 1998, por iniciativa
de uma organização não governamental (ONG) de direitos hu-
manos (Centro pela Justiça e Direito Internacional-CEJIL) e uma
ONG feminista (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a
Defesa dos Direitos da Mulher-CLADEM/Brasil), juntamente
com a própria Maria da Penha Maia Fernandes, sobrevivente de
duas tentativas de feminicídio praticadas por seu então marido,
Marcos Heredia. O relatório de mérito, publicado pela CIDH em
2001, considerando o Estado brasileiro responsável pela grave
e sistemática violação dos direitos humanos das mulheres e re-
comendando mudanças nas políticas de enfrentamento da vio-
lência doméstica, teve um impacto importante por fortalecer o
capital político das organizações não governamentais feministas
(PENHA, 2014; PANDJARJIAN, 2006).
Na esteira da Convenção de Belém do Pará, a LMP define
violência doméstica baseada no gênero, em que se presume a
desigualdade de poder entre homens e mulheres, donde a ne-
cessidade de uma lei específica para proteger as mulheres, su-
jeitos sociais considerados vulneráveis. No art. 5°, a LMP define
“violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação
ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofri-
mento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.
Aqui fica claro que “gênero” é a única categoria social a se levar
em conta para a definição de violência. Uma concepção binária e
fixa desta categoria (homem-mulher cis) foi incorporada à lei, foi
normatizada, embora mais recentemente os tribunais tenham es-
tendido a aplicação da lei também a mulheres trans. De qualquer
maneira, o sexismo, a dominação masculina, o patriarcado são
os fatores que a LMP reconhece como estruturantes da violência
doméstica. Além disso, a violência doméstica é concebida como
uma violência interpessoal.
50

No parágrafo único do Art. 5º, a LMP refere que as “relações


pessoais enunciadas neste artigo independem da orientação
sexual”. Este parágrafo foi comemorado por juristas, feministas e
setores dos movimentos LGBT como um reconhecimento da fa-
mília homoafetiva (DIAS, 2007). É importante coibir e prevenir
a violência entre mulheres lésbicas. Mas a LMP reconheceu de
maneira perversa a existência desta relação homoafetiva como
sendo legítima. Reconheceu apenas os deveres do casal, não
os direitos a uma vida homoafetiva em uma sociedade livre da
homofobia. A LMP não previu, e somente muito recentemente
a sua aplicação pelo Judiciário passou a reconhecer, formas de
violência homofóbica e transfófica que ocorrem na família contra
meninas e mulheres lésbicas e trans. Ou seja, a intersecção entre
as categorias de gênero e orientação sexual não foi contemplada
no parágrafo único do Art. 5º.
A LMP cita outras categorias sociais, como raça e defici-
ência, mas não adota uma perspectiva interseccional sobre como
a violência doméstica pode estar conectada a um contexto mais
amplo de violências e discriminações. Por exemplo, a LMP
agrava a pena em casos de deficiência decorrente de violência
doméstica (Art. 44, § 11). Mas a deficiência não é necessaria-
mente resultado de violência e pode tornar as mulheres com defi-
ciência mais vulneráveis à violência doméstica. A discriminação
com base na deficiência pode também dificultar o acesso e a aces-
sibilidade à justiça para as mulheres com deficiência (MELLO,
2017). O racismo institucional pode também impedir o acesso
das mulheres negras ao sistema de justiça (GELEDÉS; CRIOLA,
2016). Além de a LMP e a maior parte dos estudos sobre esta
lei não incorporarem uma perspectiva estrutural da violência, li-
mitando-se a relações interpessoais, é necessário reconhecer que
as “mulheres” são um grupo social heterogêneo e desigual não
apenas em relação aos “homens”. As mulheres negras, mulheres
trans, mulheres com deficiência, mulheres migrantes, mulheres
lésbicas começam a ser reconhecidas na jurisprudência como
sujeitos de direitos. Mas as múltiplas e intersecctadas formas
de opressão e de privilégio a que diferentes grupos de mulheres
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 51

estão sujeitas precisam ser mais explicitadas nos estudos e nas


políticas de enfrentamento da violência doméstica contra mu-
lheres. A homofobia, a transfobia, o racismo, a discriminação
com base na deficiência, a xenofobia, entre outras, são formas de
discriminação e de violência que se intersectam com o sexismo
e produzem situações diferenciadas de violência doméstica, bem
como recursos e acessos desiguais ao reconhecimento e ao exer-
cício de direitos.
Um velho desafio enfrentado pelas ativistas feministas no
início dos anos 1980, quando criaram os grupos SOS-Mulher
para prestar apoio a mulheres em situação de violência doméstica,
refere-se aos dilemas das mulheres em apresentar ou não uma
queixa, em continuar ou não vivendo com os companheiros agres-
sores. As delegacias da mulher e os Juizados Especiais Criminais
(JECrim) também se depararam com este problema. Até o ad-
vento da LMP, os JECrim, que têm competência para processar as
chamadas “pequenas causas” na esfera criminal, definidas como
crimes com pena inferior a dois anos de detenção, recebiam grande
parte dos casos oriundos das delegacias da mulher, cujos Termos
Circunstanciados, em sua maioria, diziam respeito aos crimes de
lesão corporal de natureza leve e ameaça. As ativistas e acadêmicas
feministas criticavam os JECrim por “trivializarem” e “repriva-
tizarem” a violência doméstica contra as mulheres (CAMPOS,
2001; DEBERT, 2006). Graças às mobilizações feministas, a
LMP retirou os crimes de violência doméstica da competência dos
JECrim, independentemente da pena (CAMPOS, 2011).
Mas os dilemas das mulheres em fazer uma denúncia e
levá-la adiante perante o sistema de justiça não desapareceram,
algo que também se verifica em delegacias da mulher em outros
países da América Latina. As pesquisas realizadas no Brasil sobre
delegacias da mulher, JECrim e LMP apontam os dilemas das
mulheres que prestam queixas – entre procurar ou não a polícia
e outras instituições do Estado, entre usar a delegacia como uma
ameaça para ganhar poder no âmbito da relação conjugal ou usar
a delegacia para realmente criminalizar o agressor (BRANDÃO,
1998; IZUMINO, 2003; SANTOS, 2005; SILVA et al, 2016).
52

A procura da justiça por parte dessas mulheres não é orientada


pelos mesmos princípios liberais e individualistas de justiça e de
cidadania defendidos quer pelo feminismo liberal, quer pelas po-
liciais ou por outros agentes do Estado (SANTOS, 2005). Neste
aspecto, faz-se necessária uma abordagem interseccional para se
compreender tanto as subjetividades das mulheres que prestam
queixas como as suas posições sociais e os recursos de que
dispõem para lidar com a situação de violência doméstica e com
outras formas de violência a que estão sujeitas nas suas comuni-
dades e no mercado de trabalho.
De acordo com as pesquisas realizadas no Brasil
(PASINATO; SANTOS, 2008), o perfil das mulheres que pro-
curam as delegacias da mulher corresponde a mulheres de classe
social mais baixa. Não há dados precisos sobre a sua identifi-
cação racial ou com base na cor. Na pesquisa que realizei nas
delegacias da mulher em São Paulo (SANTOS, 2005), entrevistei
mulheres de baixa renda que relataram a sua hesitação em dar
continuidade à denúncia não apenas pelos motivos que poderiam
ser compartilhados por mulheres de classe média, mas também
porque temem a violência policial e vivem em comunidades que
estão sujeitas a violência praticada tanto pelos próprios membros
da comunidade como pela polícia. Num contexto de opressão so-
cioeconômica e de repressão policial, os limites da ação das mu-
lheres em situação de violência doméstica exigem uma análise da
interseccionalidade de gênero, raça e classe social.
Mas a abordagem interseccional precisa ser adaptada ao con-
texto brasileiro, devendo levar em consideração as especificidades
da construção das categorias sociais e das identidades individuais e
coletivas. Por exemplo, embora o racismo seja estrutural e estrutu-
rante das relações sociais, as categorias raciais e as identidades não
se constroem no Brasil da mesma maneira como isto ocorre nos
Estados Unidos. De acordo com Edward Telles (2004), as iden-
tidades raciais são mais fluidas e ambíguas no Brasil do que nos
Estados Unidos. Uma abordagem interseccional de raça e gênero
no Brasil não pode ignorar esta questão. Mas as identidades de
gênero também são fluidas e nem por isso os estudos feministas no
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 53

Brasil deixam de usar a abordagem de gênero ou escrevem o termo


gênero entre aspas. Assim, a ambiguidade das identidades raciais,
que variam inclusive entre regiões no Brasil, não significa que o
conceito de “raça”, no sentido sociológico que lhe atribui Antonio
Sergio Guimarães (1999), não possa ser utilizado nos estudos e nas
práticas sobre racismo e antirracismo no Brasil. Nas palavras de
Guimarães (1999, p. 28-29):

Afirmo que o conceito de “raça” não faz sentido senão


no âmbito de uma ideologia ou teoria taxonômica, à qual
chamarei de racialismo. No seu emprego científico, não se
trata de conceito que explique fenômenos ou fatos sociais
de ordem institucional, mas de conceito que ajude o pes-
quisador a compreender certas ações subjetivamente inten-
cionadas, ou o sentido subjetivo que orienta certas ações
sociais. [...] Não é necessário reivindicar nenhuma realidade
biológica das “raças” para fundamentar a utilização do con-
ceito em estudos sociológicos.

Conclusões

Os estudos feministas e as políticas de enfrentamento à vio-


lência doméstica contra mulheres baseiam-se primordialmente
numa abordagem unidimensional de gênero, como referido ao
longo do texto. A abordagem da interseccionalidade entre gênero
e outras categorias sociais faz-se necessária para se compreen-
derem as diferentes situações de violência doméstica, as subje-
tividades das mulheres, como a violência doméstica pode estar
conectada com outras formas de violência e em que medida as
mulheres têm acesso e acessibilidade diferenciados aos sistemas
e espaços de justiça em função não apenas do gênero, como
também da raça, etnia, orientação sexual, classe social, defici-
ência, entre outros fatores.
As políticas de enfrentamento da violência doméstica não
podem ignorar as desigualdades entre mulheres e presumir, por
exemplo, que a capacitação com base no gênero de operadores/
as do sistema de justiça será suficiente para a superação dos
54

obstáculos ideológicos que dificultam o acesso das mulheres


não brancas, não cis, não heterossexuais e/ou com deficiência
ao reconhecimento dos seus direitos. Aliás, a capacitação, por si
só, pode não ser suficiente para superar qualquer ideologia do-
minante. Mas a LMP propõe, no Artigo 8o, uma série de “me-
didas integradas de prevenção” fazendo referência explícita a
medidas educativas com vistas à “equidade de gênero e de raça
ou etnia”. Embora este vocabulário seja baseado num modelo
aditivo das categorias sociais, isto sem dúvida abre o caminho
para uma abordagem interseccional das excelentes medidas
preventivas propostas na LMP. Sabemos que a aplicação destas
medidas depende da conjuntura política, atualmente pouco fa-
vorável a qualquer política progressista feminista, antirracista e
anticlassista. Donde ser necessário lutar contra os projetos de lei
da bancada conservadora no Congresso Nacional que pretende
alterar a LMP e imprimir uma perspectiva familista a políticas
sobre violência doméstica. A abordagem interseccional que ora
proponho não exige que o texto legal seja alterado. A forma como
interpretamos e aplicamos a lei, os nossos estudos sobre a lei, é
que precisam, a meu ver, de um olhar interseccional.
Embora a abordagem interseccional da LMP seja impor-
tante e necessária, considero que temos de evitar os riscos do
essencialismo e do universalismo das categorias sociais norte-
-americanas, conforme advertido por Mohanty, Yuval-Davis e
Collins. Qualquer teoria ou metodologia precisa dar conta de sua
historicidade, das relações de poder que permitem a sua circu-
lação e tradução, da forma como ela é traduzida, e das especi-
ficidades de cada contexto social em que a teoria é utilizada. O
desenvolvimento e o uso de teorias jamais são neutros. Mas a
abordagem interseccional pode jogar luz sobre diversos aspectos
da ação social e tem origem em teorias críticas antirracistas e
feministas inspiradoras.
Feitas as ressalvas sobre as relações desiguais de poder
que informam a circulação de epistemologias, as sugestões de
Yuval-Davis e Collins sobre os níveis de análise da abordagem
interseccional parecem-me interessantes mapas para os estudos
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 55

sociojurídicos em geral e para os estudos sobre a Lei Maria


da Penha em particular. Partindo da proposta metodológica de
Yuval-Davis, podemos analisar as desigualdades e as identidades
numa perspectiva interseccional em diferentes níveis (micro e
macro) das relações e representações sociais. Nessa perspectiva,
as conexões entre a violência doméstica e fatores estruturais pre-
cisam ser analisadas ao nível macro das posições sociais e dos
contextos em que ocorre a violência. As narrativas das mulheres
em situação de violência exigem, por sua vez, uma análise in-
tersubjetiva ao nível micro das identidades e dos desejos dessas
mulheres. E as representações nos textos legais, nas políticas e
nas práticas institucionais seriam analisadas quer ao nível macro,
quer ao nível micro das ações e das interações entre diferentes
atores sociais (por exemplo, parlamentares e ativistas; ativistas,
policiais ou outros agentes do Estado; e as mulheres (e homens)
em situação de violência).
Por fim, na esteira da proposta epistemológica de “conhe-
cimentos situados”, formulada por Donna Haraway (1991), a
abordagem interseccional deve ser “situada”, no sentido de partir
da premissa segundo a qual os conhecimentos científicos (femi-
nistas ou não) e os saberes das/os operadoras/es do Direito, ou
de outros agentes do Estado, são conhecimentos parciais, pro-
duzidos no âmbito de relações de poder. Estes conhecimentos
devem, portanto, estar sensíveis às relações de poder nas quais
se produzem, e devem estar abertos a contestações e ao diálogo
sobretudo com as mulheres em situação de violência.
56

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DEZ ANOS MAIS UM:
a implementação da Lei Maria
da Penha no passar dos anos
Wânia Pasinato43

Introdução

A Lei Maria da Penha representa um marco para o enfrenta-


mento da violência doméstica e familiar contra mulheres no Brasil.
Essa talvez seja a frase mais repetida quando somos instigadas
a falar sobre essa legislação. Sem sombra de dúvidas é também
uma das afirmações mais verdadeiras com relação a essa lei cuja
abrangência extrapola a ação no campo jurídico e projeta seus
efeitos nas políticas públicas e nos comportamentos sociais. Nesse
mesmo sentido, outra afirmação reforça a importância das medidas
trazidas pela lei e que se dirigem não apenas a punir as condutas
violentas, mas também proteger a integridade física e emocional
das mulheres, criar mecanismos para que possam sair da situação
de violência e prevenir a reprodução social da violência doméstica
e familiar contra as mulheres. Tudo isso com vistas a garantir que
mulheres e homens possam viver relações de igualdade baseadas
no respeito à diversidade e diferenças entre as pessoas.
A esse conjunto de medidas previstas na Lei Maria da Penha
denomina-se abordagem integral ou holística com ênfase espe-
cialmente colocada na perspectiva de que sejam implementadas a
partir de programas e políticas intersetoriais e multidisciplinares,
criando certa complementariedade das intervenções mantendo
sempre o foco da atenção colocado sobre as mulheres em si-
tuação de violência e suas necessidades (PASINATO, 2015). Isto
é o que se ressalta de inovador na lei e que despertou a atenção

43 Socióloga. Mestrado e Doutorado em Sociologia/USP; Pós-doutorado PAGU/UNICAMP.


Especialista em pesquisas aplicadas sobre violência contra as mulheres, sistema de justiça
criminal, política nacional de enfrentamento à violência, Lei Maria da Penha e feminicídios.
Assessora do USP MULHERES/USP; assessora técnica da ONU Mulheres -Brasil.
64

de profissionais de vários campos de atividades e conhecimentos,


particularmente para as reflexões sobre o que se nomeia generi-
camente como “avanços e desafios” na aplicação da Lei Maria
da Penha.
Em 2016, como parte das comemorações dos 10 anos da
Lei Maria da Penha, fui honrada com o convite para fazer a pa-
lestra de abertura no evento “Uma década da Lei Maria da Penha:
percursos, práticas e desafios” no I Congresso Internacional do
Núcleo de Estudos de Gênero e Núcleo de Política Criminal da
Universidade de Maringá. O tema da minha palestra foram esses
avanços e desafios sobre os quais tenho me debruçado desde
2008, ou seja, pouco depois que a lei entrou em vigor44.
Contudo, entre o convite e o evento, muitas coisas mudaram
no país. No governo federal, o impeachment da Presidenta Dilma
Rousseff trouxe no rastro da crise política e econômica o des-
monte das políticas sociais, afetando de forma particular as ações
de enfrentamento à violência contra as mulheres. No Executivo o
mais duro golpe ocorreu no esvaziamento político da Secretaria
de Políticas de Mulheres – braço principal na sustentação da im-
plementação da Lei Maria da Penha. No Congresso Nacional, os
avanços das pautas conservadoras levaram à maior visibilidade do
Movimento Escola sem Partido e sua luta contra a “ideologia de
gênero”. Abriu também espaço para projetos de lei que afrontam
os direitos das mulheres e representam ameaças para a Lei Maria
da Penha. Por fim, no Judiciário, um movimento conservador
ganhou mais força, colocando em relevo os discursos de proteção
da família sob a roupagem da preocupação sobre os efeitos da vio-
lência doméstica e familiar na vida de crianças e adolescentes e o
revigoramento da abordagem que propõe a mediação de conflitos
e práticas restauradoras para tratar da violência de gênero nos jui-
zados/varas de violência doméstica e familiar.
Em meio a tantas mudanças e ainda sem conseguir esboçar
reação à altura, era difícil falar sobre a Lei Maria da Penha,
avaliar a escalada dos desafios e aferir o quanto dos avanços
44 Deixo de citar os textos em formato de artigos, livros e relatórios de pesquisa que são localizáveis
através das referências em meu Currículo Lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.
br/2751113117639757>
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 65

estava em xeque. A apresentação que fiz naquela ocasião foi re-


flexo dessa falta de reação. Passado um ano, o aprofundamento
da crise política deixou mais evidente os desafios que lidamos no
enfrentamento à violência contra as mulheres. Hoje os obstáculos
tomaram outras proporções e ameaçam minar o campo político
e social da aplicação da lei, também afetado pelo esgarçamento
das relações sociais que fazem com que as violações de direitos
humanos de modo geral, e contra as mulheres especificamente,
apresentem curvas ascendentes nas estatísticas oficiais.
Nesse artigo proponho refletir sobre alguns aspectos relacio-
nados com a implementação da Lei Maria da Penha em sua pri-
meira década de existência e nesse primeiro ano que se passou sob
novas condições políticas. Sem a pretensão de esgotar argumentos
ou apresentar soluções, pretendo abordar dois temas sobre os quais
tenho refletido nos últimos tempos: a produção e circulação de in-
formações sobre a Lei Maria da Penha e a centralidade do sistema
de justiça criminal na aplicação da lei.

1 Visibilidade, produção e circulação de


informação sobre violência doméstica e familiar45

O aumento da visibilidade social da violência doméstica e


familiar contra as mulheres e da própria Lei Maria da Penha é um
dos mais importantes avanços registrados na década passada, ou
pelo menos, um dos mais reconhecidos (PASINATO e LEMOS,
2017, PASINATO, 2017). Um movimento que foi acompanhado
pari passu pelas pesquisas de opinião e percepção da violência que
mostraram as variações ascendentes na proporção de pessoas que
declaram conhecer a Lei Maria da Penha – chegando a 100% das
mulheres ouvidas na mais recente pesquisa do DataSenado (2017).
Muito desse conhecimento resulta das campanhas educa-
tivas cuja realização está prevista no artigo 8º da Lei Maria da
Penha, entre as medidas dedicadas à prevenção da violência do-
méstica e familiar. É certo que antes de 2006 já se realizavam

45 Neste item reproduzo parte do artigo que escre vi com Amanda Kamancheck Lemos. Disponível
em VIZA, SARTORI e ZANELLO, (2017)
66

campanhas de conscientização sobre a violência contra as mu-


lheres, mas a partir da lei foram intensificadas para dizer às mu-
lheres que a violência doméstica e familiar compreendida como a
violência física, sexual, moral, psicológica e patrimonial é crime
e deve ser denunciada. (PASINATO e LEMOS, 2017)
As pesquisas de opinião captam esse movimento na per-
cepção social e ainda que forneçam um retrato instantâneo da
realidade46, essas pesquisas contribuíram com pelo menos duas
formas para propagar conhecimento sobre a violência contra as
mulheres, sobre direitos e sobre a legislação. A primeira, dando
um contorno a esse fenômeno no país descrevendo algumas de
suas características e suas dimensões (Artigo 19, 2015). A se-
gunda, quando a divulgação de seus resultados funciona, ela
mesma, como geradora de mudança na percepção social, atuali-
zando informações sobre a persistência, gravidade e abrangência
do problema a respeito dessa violência. Consequentemente,
criando um ciclo de circulação de informações, identificam-se
dois impactos: um sobre a opinião pública em geral e outro sobre
as mulheres que vivem situações de violência. No primeiro, além
de reconhecer a violência doméstica e familiar, a opinião pública
passou também a perceber que essa violência ocorre, algumas
vezes, entre pessoas próximas e não são apenas situações sobre
as quais se ouve falar. A pesquisa DATASENADO (2017), por
exemplo, apurou que 71% das entrevistadas conheciam alguma
mulher que já havia sofrido alguma forma da violência e a maior
parte conhecia essas mulheres pessoalmente. Oitenta e nove por
cento das respondentes também afirmou ter ouvido falar com
mais frequência sobre violência contra mulheres nos doze meses
anteriores e para 69% das entrevistadas houve aumento da vio-
lência no mesmo período.
É provável que esse movimento esteja relacionado a outro,
que corresponde a um alargamento na compreensão das diversas

46 Não contamos com pesquisas nacionais de vitimização ou de prevalência da violência contra


as mulheres no país. Esforço recente nesse sentido vem sendo realizado por pesquisadores da
Universidade Federal do Ceará em parceria com o Instituto Maria da Penha. Sobre a pesquisa
realizada nas nove capitais do Nordeste ver: <http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-
content/uploads/2016/12/Pesquisa-Nordeste_Sumario-Executivo.pdf>.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 67

situações, atos e comportamentos que representam ameaças, cons-


trangimentos e riscos e vão além da violência física e abrangem
outras formas de violência descritas na Lei Maria da Penha. Dessa
forma, a violência se torna mais perceptível porque é identificada
em manifestações que não necessitam de hematomas e ferimentos
nos corpos das mulheres. Esse mesmo movimento, por sua vez,
vem abrindo espaço para se falar sobre violência sexual, os as-
sédios nos transportes públicos, a pornografia de vingança, entre
outras modalidades cuja publicização mostram como certas formas
de violência atingem as mulheres de maneira desproporcional e es-
pecífica e inibem sua liberdade e autonomia.
A pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança
Pública e o Instituto Avon (2017) ilustra essa mudança e informa
que 66% dos entrevistados entre homens e mulheres presenciaram,
nos últimos 12 meses, alguma forma de violência contra as mu-
lheres em situações que envolveram desde cantadas (51%) até
agressões físicas (37%). Setenta e três por cento das pessoas en-
trevistadas acreditam que a violência aumentou na última década.
O segundo impacto dessas pesquisas diz respeito às mu-
lheres que vivem em situação de violência, muitas delas ainda
aprisionadas no silêncio, seja pela culpa, o medo ou a desinfor-
mação. Dessa forma, circular informação através de campanhas e
debates públicos nos meios de comunicação permite chegar mais
próximo dessas mulheres e chamar a atenção para as possíveis
saídas da situação de violência.
Exemplos desse efeito têm sido captados através do Ligue
180 – Central de Atendimento à Mulher do governo federal. O
balanço de atendimentos do 1º semestre de 2016 foram realizados
555.634 atendimentos, dos quais 53,9% correspondem a pedidos
de informações sobre a lei e sobre as formas de violência que estão
previstas na Lei Maria da Penha, enquanto outros 12,2% corres-
pondem a relatos de violência e pedidos de encaminhamentos.
Com base nesses exemplos, pode-se dizer que se formou
um círculo virtuoso em que a sociedade reconhece mais a vio-
lência contra as mulheres, desperta a atenção para outras formas
de violência, as mulheres são informadas sobre os direitos que
68

são violados, aprendem que não são as únicas a sofrerem as


agressões e ameaças, nem são culpadas pelas situações que vi-
venciam, e recebem as informações necessárias sobre onde ir no
momento em que decidirem reagir e buscar orientações e ajuda.
Se vamos fazer um balanço dos avanços da lei, é importante
refletir sobre esses números e seus efeitos quando tratamos da
aplicação da Lei Maria da Penha. Essas mudanças que descrevi
anteriormente, são talvez as contribuições mais importantes in-
troduzidas por essa legislação que trouxe uma nova compreensão
sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher ao mostrar
que esta não se refere a fracassos individuais ou fatalidades que
devem ser resolvidas no interior das relações familiares, consti-
tuindo fatos sociais cuja magnitude e causa indicam que, poten-
cialmente, qualquer mulher pode, no curso de vida, ser afetada
por algumas das formas de violência relacionada à sua condição
de gênero. A dimensão social da violência com base no gênero
também demonstra que estamos diante de uma violação de di-
reitos humanos, tal como previsto no artigo 6º da legislação.
Contudo, embora campanhas e pesquisas estejam previstas
na legislação como estratégias de prevenção, observa-se também
que ainda há uma distância razoavelmente grande para ser per-
corrida quando se trata de enfrentar a tolerância social com a
violência contra as mulheres e que circular informação nem
sempre significa que estamos informando corretamente às mu-
lheres ou à sociedade, sendo preciso avaliar a qualidade do que
vem sendo transmitido (ARTIGO 19, 2015). Destacam-se aqui
dois aspectos. Primeiro, as pesquisas de opinião mostram que
apesar de aumentar o conhecimento sobre a violência e sobre a
legislação, os níveis de tolerância social com a violência contra
as mulheres parecem pouco alterados, especialmente no tocante
à violência sexual conforme apurado em pesquisa realizada em
2016, segundo a qual para 37% da população entrevistada res-
ponsabiliza as mulheres pela violência sofrida (FBSP, 2016) 47

47 A pergunta é: “mulheres que são dão ao respeito não são estupradas. E os percentuais variaram
entre 42% entre homens e 32% entre mulheres; sendo menor entre a população com ensino
superior (16%) e mais jovem (23% entre 16 e 34 anos). Disponível em: <http://encontro.
forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2016/09/Infogr%C3%A1fico.jpg>
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 69

Segundo, a unanimidade nas respostas de que conhecem a


existência da Lei Maria da Penha pode ter um importante efeito
midiático, mas é preciso conhecer a qualidade da informação que
chega à população. Desde 2011 se acendeu uma luz vermelha
sobre esses dados quando outra pesquisa apontou o patamar
de 98% de respostas positivas sobre o conhecimento da lei, e
mostrou que o quadro assumia outras características na medida
em que se questionava o grau de conhecimento sobre o conteúdo
da lei. Nesse ponto, as respostas se redistribuíam para mostrar
que 9% das respondentes consideravam conhecer muito, 23%
bastante, 34% diziam conhecer algo e 32% quase nada sobre a
Lei Maria da Penha. (DataPopular, IPG, 2013). Em 2017, apesar
de adotar outra escala, o problema da qualidade do conhecimento
permanece presente e a pesquisa realizada pelo DATASENADO
apurou que 18% disseram conhecer muito sobre a lei e 77% ad-
mitiram conhecer muito pouco do seu conteúdo.
Outro aspecto interessante, é que embora a lei seja um ins-
trumento de proteção para as mulheres, entre aquelas que res-
ponderam à pesquisa apenas 26% delas concordam com essa
afirmativa, sendo que o percentual de concordância é mais baixo
entre aquelas que já sofreram alguma forma de violência (21%).
Há também uma preocupante discrepância entre a crença na ca-
pacidade da lei oferecer proteção para as mulheres e uma sobre-
valorização da resposta punitiva: 97% consideram que o agressor
deve ser processado independentemente da vontade da vítima.
Da mesma forma como se observou na pesquisa realizada
pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2017), aqui também
a informação não se distribui de forma homogênea entre as mu-
lheres apresentando-se como mais acessível para as mais jovens,
mais escolarizadas (31% entre aquelas com nível superior com-
pleto/incompleto e 12% entre aquelas com ensino fundamental
completo) e com mais renda (31% entre aquelas com renda acima
de 2 Salários Mínimos e 12% entre aquelas sem renda).
Mas por que é tão importante refletir sobre esses números?
Porque eles mostram que, embora a Lei Maria da Penha cumpra
um importante papel de crescimento da consciência social sobre a
70

violência contra as mulheres como violência baseada no gênero,


todos e todas nós que trabalhamos para sua implementação es-
tamos falhando em contar para a sociedade que essa legislação
oferece muito mais que a punição e guarda oportunidades de pro-
teção, prevenção e acesso a direito para as mulheres que podem
contribuir para o enfrentamento da violência, tanto no plano in-
dividual como coletivamente. Os dados também mostram que
há uma potencialidade transformadora na Lei que não tem sido
aplicada porque a mudança de paradigma que foi inaugurada
com sua aprovação permanece apenas no plano simbólico, uma
vez que concretamente as instituições não se adequaram à espe-
cialização necessária para sua aplicação.

2 Novos paradigmas e as resistências institucionais

Se é verdade que a sociedade vem se abrindo para o reconhe-


cimento da violência contra as mulheres como problema social,
as mudanças no campo das políticas públicas ocorrem de forma
bem mais lenta e a abordagem integral prevista na Lei Maria da
Penha sofreu fortemente os efeitos da atuação de um Estado cuja
estrutura ainda apresenta resistência ao novo paradigma da vio-
lência de gênero como violação de direitos humanos das mulheres.
Resultado desses movimentos descritos na parte inicial
desse texto, as mulheres mais informadas acorrem diariamente
aos serviços para pedir orientações ou para solicitar aquele que
começam a entender como direitos de proteção ou de punição
para seus agressores. Relatam não apenas as agressões físicas
e ameaças, mas situações que nomeiam como violência psico-
lógica, ofensas e agressões morais que atingem a alma com dor
tão ou mais forte que as feridas no corpo. Pedem que o agressor
seja afastado do lar porque entendem que não conviver com a
violência e o medo é um direito que possuem, assim como per-
cebem que essas medidas poderão lhe dar um tempo para pensar
sobre o que fazer em seguida. (PASINATO, 2012). Essas me-
didas estão previstas na Lei Maria da Penha e o acesso a elas
deveria ser garantido a todas as mulheres que delas necessitam,
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 71

ou que percebem essa necessidade e buscam ajuda para compre-


ender melhor o que fazer, como fazer e decidirem quando fazer.
Na prática, contudo, na década anterior, vimos que o acesso à
justiça para as mulheres foi garantido de forma bem menos abran-
gente e muitos dos obstáculos para sua realização não chegaram a
ser tocados. Exemplo dessa situação pode ser o conhecimento que
o aumento na procura por atendimento não ter sido acompanhado
por aumento da oferta de serviços, nem a melhoria de sua qua-
lidade tenha sido universalizada, conforme é possível acompanhar
na produção de pesquisas sobre a lei e sua implementação. Entre
os resultados desses estudos encontram-se o reduzido número de
serviços e pouca capilaridade pelo interior do país, a inexistência
de redes de atendimento articuladas e implementadas com fluxos
que orientem as mulheres nas estratégias de saída da situação de
violência (OBSERVE, 2011), a baixa qualificação dos profis-
sionais e a descontinuidade de programas, projetos e ações que
tratam da implementação de medidas de prevenção e proteção às
mulheres, a “captura” da Lei Maria da Penha no âmbito do sistema
de justiça criminal que não cumpre com o dever de investigar, pro-
cessar e julgar a violência denunciada, a aplicação seletiva da lei
para determinados grupos de mulheres e/ou situações de violência
que são mais facilmente reconhecíveis pelos operadores do Direito
como “vítimas de verdade” ou como “violência de gênero”, res-
pectivamente, inibindo o acesso à justiça para parcelas significa-
tivas de mulheres (CEPIA, 2013, PASINATO et all, 2016, DINIZ
e GUMIERI, 2016, HUMAN RIGTHS WATCH, 2017).
Lendo retrospectivamente esses documentos, encontra-
-se que ao final da primeira década de vigência da Lei Maria
da Penha algumas análises e conclusões já sinalizavam certo
esgotamento, uma vez que durante todo o período as recomen-
dações para a superação dos problemas foram reiteradamente
descritas e permaneceram sem o correspondente compromisso
institucional para sua solução.48

48 Para pesquisas com abrangência nacional ver, por exemplo, os relatórios do Observe (2010) e
o Relatório da CPMI da Violência contra as Mulheres (2013), Antunes et all, 2014; Observatório
Mulher Contra Violência/Senado Federal (2016). Para estudos comparativos entre capitais, ver
Observe, 2011, CEPIA, 2013, Diniz e Grumieri, 2016, Pasinato et all, 2016, entre outras pesquisas.
72

Apesar do tom pessimista desse balanço, considero que é


também ilustrativo do terreno sobre o qual as críticas à efetividade
da Lei Maria da Penha têm surgido, suscitando inclusive projetos
de lei que prometem corrigir os problemas através de mudanças no
texto legislativo, desconsiderando que os problemas não derivam
da lei, mas das condições inadequadas para sua implementação.49
Assim, os resultados dessas pesquisas ajudam a fazer essa sepa-
ração entre o que são os desafios inerentes à própria lei, daqueles
que resultam da inexistência ou da insuficiência das políticas pú-
blicas de enfrentamento à violência doméstica e familiar tal como
o rol de deficiências apresentado permite ilustrar.
Falar sobre a inexistência ou insuficiência das políticas públicas
de enfrentamento à violência doméstica e familiar não significa dizer
que nada tenha sido feito para que essas novas estruturas fossem
criadas. Muito pelo contrário. Aline Yamamoto (2016)50, por ocasião
das comemorações dos dez anos da Lei Maria da Penha, apresentou
um abrangente retrospecto sobre as ações no âmbito do Executivo,
do Legislativo e do Judiciário demonstrando onde ocorreram avanços
e onde persistiam os gargalos para a implementação integral da Lei
Maria da Penha. No Executivo, por exemplo, mostrou como, entre
2006 e 2016 a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) do go-
verno federal tomou para si o compromisso de criar condições para a
implementação da lei em todo o país. A formulação de uma Política
Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres (2005),
o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres
(2007) e o Programa, Mulher viver sem violência (2013) formaram
a estrutura central dessa ação, juntamente com outras iniciativas em
parceria com o Poder Judiciário e a sociedade civil organizada.
Por meio dessa estrutura a SPM gerou estratégias para a
transferência de recursos financeiros para os estados e municípios
que em consonância com o pacto federativo são os responsáveis
pela execução das políticas nas áreas implicadas pela lei: segu-
rança, justiça, saúde, assistência social, educação, entre outras.

49 O debate gerado em torno do PLC 07/2015 que alterava as atribuições policiais na concessão de
medidas protetivas ilustra essa situação (PASINATO, 2017).
50 <http://agenciapatriciagalvao.org.br/wp-content/uploads/2016/08/10-anos-LMP-ALINEYAMAMOTO_
VERSAOFINAL.pdf>.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 73

Além disso também fez importantes investimentos na produção de


recursos metodológicos, normas técnicas, material didático para
capacitação e qualificação de pessoal.
Apesar de todo o investimento, o compromisso dos entes
federados foi bastante desigual com relação à criação de ser-
viços, sua institucionalização e sustentabilidade. Um estudo re-
alizado pelo Observatório Mulher contra Violência, do Senado
Federal (OMV, 2016), detalha essa diferença a partir dos inves-
timentos do governo federal durante a década mencionada, as
políticas existentes e a realidade da violência captada pelas esta-
tísticas oficiais em cada estado. De acordo com o levantamento
que realizaram, em 2016 haviam 1074 unidades especializadas
de atendimento a mulheres em situação de violência doméstica
e familiar, entre os quais encontram-se delegacias especializadas
de atendimento às mulheres, centros de referência, casas abrigo,
promotorias, defensorias e varas/juizados especializados em vio-
lência doméstica e familiar. Ainda de acordo com esse estudo,
entre 2006 e 2016 foram repassados R$ 439.294.293,56 para o
desenvolvimento de projetos para implementação da Lei Maria
da Penha em estados e municípios. Como asseveram os autores,
por um lado, o que se pode afirmar com o investimento de re-
cursos pelo governo federal é que a SPM atuou em seus limites
de estimular a aderência dos estados a essa Política Nacional,
cabendo aos respectivos governos de estados e municípios darem
efetividade aos projetos. Por outro lado, os números obtidos
mostram a quantidade de serviços, mas não suas condições de
funcionamento, o que impede se avaliar o quanto sua existência
expressa compromisso dos governos locais com o enfrentamento
da violência contra as mulheres.
Mesmo que limitada, uma análise da quantidade de serviços
especializados já demonstra um potente obstáculo para o acesso
das mulheres à justiça. Estudo realizado pelo IPEA em 2013
mostrou que a distribuição territorial dos serviços era desigual,
com maior concentração nas capitais e na região Sudeste. Outros
estudos também exploram a relação entre a existência de ser-
viços especializados para atendimento de mulheres em situação
74

de violência e a violência fatal contra mulheres. A relação, de


acordo com esses estudos, é positiva, ou seja, onde existem
mais serviços ocorrem menos mortes violentas, especialmente
aquela que são decorrentes da violência doméstica e familiar
(MARTINS, CERQUEIRA e MATOS, 2015, CERQUEIRA et
all, 2015, WAISELFIZ, 2015, PORTELLA, 2014).
Sobre a efetividade da lei para redução da violência do-
méstica e familiar, em 2015, Daniel Cerqueira publicou um
estudo analisando os efeitos da Lei Maria da Penha na con-
tenção dos homicídios de mulheres em contexto doméstico.
Utilizando dados do Sistema de Informação de Mortalidade
(SIM/DATASUS) e variáveis como o local da morte, Cerqueira
demonstra que apesar da curva ascendente de mortes violentas
de mulheres a partir de 2007, ou seja, logo após a lei ter entrado
em vigor, essa curva poderia ter sido mais acentuada caso a lei
não existisse. Os valores apurados pelo estudo indicam que pelo
menos 10% de mortes deixaram de ocorrer em virtude da apli-
cação da Lei Maria da Penha.
Esses números também se relacionam com os desafios que
seriam inerentes à própria lei. Aqui, para usar uma expressão de
Carmen Hein Campos, o desafio se deve ao giro paradigmático
que deslocou a violência doméstica e familiar para o rol das
violações de direitos humanos que requerem a respostas inte-
grais para sua superação. Como argumentado em texto anterior
(PASINATO e LEMOS, 2017), essa mudança implicou em trazer
as mulheres ao centro das atenções e reconhecer que vivem em si-
tuações de violência cuja compreensão também deve ser integral.
Na Lei Maria da Penha essa abordagem foi recomendada
nas medidas protetivas de urgência, na orientação para criação
de centros de reeducação de homens autores de violência, na for-
mação das redes de serviços especializado e na recomendação para
que os estados e o Distrito Federal criem os juizados/varas com
competência plena, para apuração de feitos criminais e cíveis. Se
fossem implementados com a estrutura recomendada (incluindo
a equipe multidisciplinar) esses juizados/varas poderiam romper
com a lógica tradicional do Direito, segmentado, especializado e
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 75

limitado na capacidade de compreender a interconexão de eventos


que juridicamente são afetos a distintas áreas do Direito (Penal,
Família ou Cível)51, mas que na experiência vivida pelas mulheres
são fatos que se somam e misturam para constituir os relaciona-
mentos violentos que a lei pretende enfrentar.
Juizados/Varas com competência plena são exceção e
nos dez anos de vigência da Lei eram encontrados em Cuiabá,
Curitiba e Belém, perfazendo cinco unidades em cerca de 112
que se encontravam em funcionamento no país, de acordo com
levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Justiça. De
acordo com o mesmo documento 55 unidades estavam espa-
lhadas pelo interior dos estados.52 Com essa estrutura, fica claro
que a opção da política no Poder Judiciário foi de não reconhecer
a Lei Maria da Penha no que ela tem de especializado, de forma
que os dispositivos previstos na legislação passaram a ser apli-
cados nas estruturas tradicionais do sistema de justiça, ou seja,
de forma fragmentada e recaindo privilegiadamente na justiça
criminal que absorveu a aplicação da lei cumulativamente nas
varas criminais.
Essa estrutura afeta a implementação da Lei de várias ma-
neiras, mas o mais importante é saber que nesses dez anos a legis-
lação não chegou a ser aplicada de forma integral o que inviabiliza
que possamos avaliar o quanto de seu potencial transformador tem
sido utilizado com sucesso para inibir a violência doméstica e fa-
miliar. Outra consequência é que o acesso à justiça continua per-
meado de obstáculos cuja responsabilidade pela superação recai
sobre as mulheres, o que abrange tanto aspectos materiais como ter
recursos econômicos para movimentar a justiça, para deslocar-se
até os serviços e entre eles, aspectos culturais e sociais para en-
tender como a justiça funciona, quanto recursos subjetivos como

51 André Oliveira demonstra os efeitos dessa fragmentação na aplicação da Lei Maria da Penha
ao analisar o funcionamento das Varas de Família e as dificuldades que são encontradas
para aplicação da lei nessas instâncias. (OLIVEIRA, 2015), a aprovação da Lei do Feminicídio
(13.140/2015) também expôs as dificuldades em trabalhar com a Lei Maria da Penha nos
Tribunais do Júri, como já havia sido explorado em estudo de MACHADO e MATSUDA (2015)
sobre casos de violência fatal em contexto de violência doméstica e familiar.
52 Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/84405-juizados-de-violencia-domestica-ainda-sao-
insuficientes>.
76

as condições emocionais para enfrentar os trâmites processuais,


a lentidão do tempo da justiça e a compreensão de quais direitos
podem ser reivindicados e porque são, algumas vezes, negados.
(PASINATO, 2012, CEPIA, 2013, PASINATO et all, 2016).

Considerações finais

No decorrer do último ano, ou no primeiro ano dessa nova


década da Lei Maria da Penha, os desafios para sua implemen-
tação foram amplificados pela crise social e política no país. O
enfraquecimento da Secretaria de Políticas para Mulheres, o en-
xugamento das políticas sociais, a retirada de recursos para im-
plementação de políticas de enfrentamento à violência caiu como
em cascata de desmobilização sobre todo o país, atingindo as
poucas estruturas que haviam sido criadas na década anterior. Por
um lado não existem informações sistematizadas sobre a atual
situação de desenvolvimento de políticas para mulheres nos es-
tados e municípios. Notícias esparsas dão conta que são poucos
os governos locais que continuam a desenvolver políticas de en-
frentamento à violência contra as mulheres. Por outro lado, pre-
dominam ações no âmbito do Sistema Judiciário – protagonizado
por magistrados(as), promotores(as) e defensores(as) – que pro-
movem ações educativas e campanhas, além de apoiar a imple-
mentação de programas para efetividade das medidas protetivas
– especialmente no âmbito das polícias militares e guardas muni-
cipais com as patrulhas especializadas.
Por essa atuação, o Sistema de Justiça Criminal tem surgido
como o espaço privilegiado de aplicação da Lei Maria da Penha,
mas como visto, este sistema não se alterou para a implementação
integral da legislação e nem mesmo existem evidências de que
esse mesmo sistema cumpre com seu papel de investigar, pro-
cessar e julgar com perspectiva de gênero os autores de violência
doméstica e familiar. Em seu estudo sobre o impacto da Lei Maria
da Penha na contenção dos homicídios, Cerqueira explora a hi-
pótese de que a redução das mortes poderia resultar do medo da
punição como dissuasor do comportamento criminoso. Contudo,
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 77

como o próprio autor argumenta, não existem dados suficientes


para essa demonstração. E as notícias que chegam indicam que
a aplicação de condenações e penas altas são apenas retórica em
um discurso que aposta no peso que esses argumentos assumem
para uma sociedade que enxerga no encarceramento em massa a
resposta para todos os problemas de violência no país.
A recente Política Judiciária Nacional de Enfrentamento à
violência contra as mulheres no Poder Judiciário, publicada em
portaria assinada pela Ministra Carmen Lúcia, em 9 de março
de 2017, ilustra como o órgão se programa para a agir nos pró-
ximos anos.53 Embora estimule a criação de varas com compe-
tência plena, o carro-chefe desse documento é a Justiça Pela Paz
em Casa, campanha lançada pela própria ministra para acelerar
o julgamento dos processos de violência doméstica e familiar e
que agora se torna uma ação permanente dos órgãos de justiça.
No bojo dessa campanha e do discurso de paz que a sustenta,
estamos vendo um movimento surgir com ações que também
provocam deslocamentos no tratamento da violência contra as
mulheres, mas dessa vez é um movimento que afasta as respostas
institucionais do reconhecimento da violência como violação
de direitos humanos e se distancia do propósito de reconhecer
as mulheres como sujeitos com o direito a viver sem violência.
Lentamente, mas não de forma tão discreta, vemos ressurgir a
política criminal de proteção à família que converte a violência
em conflitos que podem ser solucionados por práticas concilia-
tórias para restaurar a paz e harmonia familiar, eclipsando as mu-
lheres do lugar central que deveriam ocupar nessa política.

53 <http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2017/03/48676a321d03656e5e3a4f0aa3519e62.pdf>.
78

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Configurações da violência letal contra mulheres em Pernambuco
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mulheres no Brasil. Brasília: FLACSO/SPM/ONU Mulheres/
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SEÇÃO II

DESAFIOS PRÁTICOS NA
IMPLEMENTAÇÃO DA
LEI MARIA DA PENHA
INSTRUMENTALIZAÇÃO E
EFETIVAÇÃO DA LEI MARIA
DA PENHA NO JUIZADO
ESPECIAL DE VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA CONTRA A
MULHER DE MARINGÁ-PR54
Gabriela Cristina Mortean55
Guilherme Dias Alves56

Introdução

A violência doméstica e familiar contra as mulheres não se


trata de prática recente. Pelo contrário, subsiste desde os tempos
antigos, momento em que se encontrava amparada e justificada
por argumentos religiosos e filosóficos, que fizeram do casamento
“[...] um terreno propício ao exercício do poder [...]”, em que, se-
gundo Vicentino (1997), “não cabia ao Estado a punição do delito da
mulher, ficando esta tarefa sob a responsabilidade do homem [...]”.
Em relação ao Brasil, tal forma de violência remonta a um
passado machista e patriarcal, fruto de uma sociedade consti-
tuída sobre bases escravocratas. O âmbito doméstico-familiar
se constituiu como um dos espaços onde a submissão à figura
masculina se estabelece com frequência. Os conflitos domés-
ticos, de pequena repercussão social, em que as mulheres se
veem ainda como vítimas em grande parte dos casos, eram (e
são) tratados como problemas de menor importância, que a prin-
cípio deveriam ser resolvidos sem intermediação do Judiciário.
Percebe-se que, ao longo da história, desde o período
colonial, o Judiciário brasileiro consolidou uma tendência

54 Capítulo resultante de Projeto de Iniciação Científica na modalidade PIC, desenvolvido sob


orientação da professora Dra. Isadora Vier Machado, de agosto de 2015 a julho de 2016.
55 Bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Maringá.
56 Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Maringá.
84

jurisprudencial permeando os crimes contra a mulher. Nos


casos de violência contra as mulheres em ambiente doméstico,
é possível observar, ainda hoje, uma posição conservadora nas
decisões, que não condiz com a reconfiguração dos papéis femi-
ninos na sociedade brasileira.
A partir de 1970, os movimentos feministas, aliados à partici-
pação das mulheres em outros movimentos sociais, na luta pela rede-
mocratização, começaram a denunciar a descriminação sofrida pelas
mulheres brasileiras, notadamente quanto à postura do Estado e do
Poder Judiciário na proliferação da violência doméstica. Somente
após anos de luta, foi que ocorreu a sanção da Lei 11.340, em 07 de
agosto de 2006, tornando-se assim o Brasil o 18º país a possuir legis-
lação específica de enfrentamento à violência doméstica e familiar
contra a mulher na América Latina e Caribe.

2 O juizado de violência doméstica


e familiar de Maringá

De antemão, cabe destacar que as dificuldades em relação


à liberação do orçamento e à disponibilidade das pessoas entre-
vistadas para realização da pesquisa fizeram com que se optasse
pelo envio das perguntas semiestruturadas para que as entrevistas
fossem feitas por e-mail.
A intenção seria de obter impressões das/os funcionários
quanto ao funcionamento, às dificuldades e ao desenvolvimento,
desde sua criação, em 2013, do Juizado de Violência Doméstica
e Familiar de Maringá (JVDFM). Informações estas que foram
fornecidas atenciosamente por duas assessoras judiciárias, cujos
nomes são mantidos sob sigilo, denominando-as ortanto de as-
sessora 1 e assessora 2, na redação do presente texto. A política do
sigilo se justifica pelo fato de se permitir que as informações pres-
tadas sejam mais vinculadas à lógica institucional, do que às enun-
ciantes, como portadoras autorizadas que foram das declarações da
instância, a partir de contato oficialmente estabelecido, por email,
pela orientadora do projeto.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 85

Além disso, na fase do pré-projeto e na elaboração do


projeto, foram feitas pesquisas bibliográficas em diversos artigos
e obras, a fim de fundamentar as informações trazidas, e fazer
um paralelo entre o que a teoria estabelece como um padrão a
ser seguido para funcionamento da Vara Especializada, e o que
acontece na prática segundo as entrevistas realizadas.
Quanto à metodologia adotada, pretendeu-se empregar o
método indutivo, bibliográfico, histórico e comparativo, para
que, partindo dos dados históricos coletados na vara especia-
lizada de Maringá/PR, e em outros textos científicos relacionados
ao tema, se concluísse a real aplicação e efetividade da Lei Maria
da Penha quanto à proteção das mulheres de Maringá e região, no
âmbito do juizado especializado.
Buscou-se também apresentar, no decorrer do projeto,
mapas e organograma para visualizar melhor as informações
sobre os elementos da pesquisa, como a distância das instituições
que compõem a rede de assistência, e como as demandas são
processadas dentro do JVDFM.

2.1 O Poder Judiciário frente à Lei Maria da Penha

A promulgação da Lei Maria da Penha teve como importante


consequência a reafirmação da posição do Brasil em tratados e con-
venções internacionais, entre eles a Convenção sobre a Eliminação
de todas as Formas de Violência contra a Mulher, de 1979, que
comprometeu os Estados signatários a exercer políticas para eli-
minar a discriminação contra a mulher, entre elas, a elaboração de
leis e a proteção jurídica efetiva (GUERRA, 2013, p. 227).
No mesmo sentido, em 1994, a Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Doméstica, ratificada
pelo Brasil em 1995, definiu a violência doméstica e familiar
contra a mulher como uma das formas de violação dos direitos
humanos (art.3º, § 1º da referida Lei 11.340/06) (DIAS, 2013, p.
40). O Estado Brasileiro, depois de ratificar os documentos in-
ternacionais de proteção à mulher, assumiu obrigações no plano
internacional, comprometendo-se a adotar medidas para garantir
86

os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domés-


ticas e familiares, resguardando-as de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão
(CUNHA; PINTO, 2014, p. 44).
Mesmo após sua promulgação, a Lei 11.340/06 enfrentou
resistência em sua efetiva implementação. Diante de denúncias
por parte do movimento de mulheres, durante a II Conferência
Nacional de Políticas para as Mulheres (CNPM), o governo
brasileiro deu origem ao Pacto Nacional pelo Enfrentamento
da Violência contra as Mulheres, que teve como um de seus
principais objetivos a consolidação da Política Nacional de
Enfrentamento à Violência contra as Mulheres e a implantação
da Lei Maria da Penha. No entanto, até novembro de 2010, so-
mente 23 estados haviam assinado o referido pacto, não o tendo
feito o Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Distrito
Federal (CALAZANS; CORTES in CAMPOS, 2011, p. 59-60).
O pacto firmado em 2007 trouxe importantes avanços na
efetividade de políticas públicas, como o aumento do orçamento
para enfrentamento da violência, ampliação dos serviços es-
pecializados e aperfeiçoamento da qualidade do atendimento
prestado, além da padronização deste atendimento (BRASIL,
2011, p. 49-50).
No contexto histórico de criação da Lei Maria da Penha,
uma das razões que trouxe à tona os debates sobre o tratamento
da violência doméstica e familiar contra as mulheres na justiça,
foi a criação da Lei 9.099/95, que deu origem aos Juizados
Especiais Cíveis e Criminais, com intenção de atender à cele-
ridade e à economia processual, bem como à informalização e à
simplificação do processo. No entanto, após a vigência da Lei,
constatou-se que ela apenas acabou por ampliar o sentimento de
impunidade e discriminação contra as mulheres no Brasil, uma
vez que a violência doméstica e familiar sofrida era tratada como
uma infração de menor potencial ofensivo, critério este mera-
mente teórico, tendo por base o quantum da pena aplicada e não
a gravidade do delito (PASINATO, 2007, p. 7-8).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 87

Nos Juizados Especiais Criminais, houve aumento con-


siderável nos índices de registros policiais e casos julgados de
agressão doméstica, com aproximadamente 70% dos casos co-
metidos por homens contra mulheres, sem solução efetiva para
estes conflitos, que se demonstraram banalizados (DIAS, 2013,
p. 29). Em sentido contrário a este aumento, constatavam-se
baixos percentuais de condenação, justificados pela preservação
do núcleo familiar (Ibidem, p. 30).
Em contrapartida à forma como vinha sendo tratada a vio-
lência doméstica e familiar pelos Juizados Especiais, a Lei
11.340/06 instituiu, em seu art. 14, a criação dos Juizados de
Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher – JVDFM, pas-
sando para sua competência as causas cíveis e criminais oriundas
da prática dessa violência, o que, por sua vez, Maria Berenice
Dias considerou “certamente o maior avanço promovido pela Lei
Maria da Penha”, uma vez que teve por consequência a retirada da
violência doméstica e familiar do âmbito dos Juizados Especiais
Criminais – JECRIM (Ibidem, p. 180).

2.2 Juizados de Violência Doméstica


e Familiar Contra a Mulher

Os JVDFM constituem instâncias especializadas da justiça


comum, que têm o objetivo de possibilitar condições para a in-
tegral aplicação das medidas previstas pela Lei Maria da Penha,
especialmente no que diz respeito aos seus três eixos de atuação:
punição, assistência e prevenção, competindo-lhe o julgamento de
todos os delitos previstos por esta lei, com exceção dos dolosos
contra a vida, cuja competência fixada pela Constituição em seu
art. 5º, inciso XXXVIII, alínea d, é privativa do Tribunal do Júri
(PASINATO in CAMPOS, 2011, p. 134-135).
Desse modo, compete aos JVDFM, em suma, a apreciação
de medidas protetivas de urgência e sua execução, assim como o
julgamento das ações penais, o processo, o julgamento e a exe-
cução das ações ordinárias e cautelares, que tenham a violência do-
méstica como causa de pedir. A Lei Maria da Penha prevê em seu
88

art. 33 que, enquanto não implementados os JVDFM, a compe-


tência para julgar esses casos é das Varas Criminais. Dessa forma,
a lei deixa clara a exclusão dos Juizados Especiais Criminais na
atuação perante conflitos decorrentes de violência doméstica e fa-
miliar, de modo que Maria Berenice Dias vai ainda além, susten-
tando que “[a]pesar do uso da expressão ‘crime’ [no art.33 da Lei
11.340/06], não há como sustentar que as contravenções penais
continuem sob a égide dos Juizados Especiais Criminais” (DIAS,
2013, p. 183-184).
A responsabilidade pela criação dos JVDFM, por sua vez,
ficou postergada à União e aos Estados (art. 14 da Lei 11.340/06),
constituindo atribuição dos Tribunais de Justiça Estaduais e
do Distrito Federal. Neste sentido, em 08 de março de 2007, o
Conselho Nacional de Justiça elaborou a Recomendação nº 9,
por meio da qual sugeriu aos Tribunais de Justiça “a criação dos
JVDFM e a adoção de medidas, previstas na Lei 11.340/06”
(CUNHA; PINTO, 2014, p. 180-181).
Em 15 de março de 2010, na 4ª edição da Jornada da Lei
Maria da Penha, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apre-
sentou proposta preliminar para a elaboração do Manual de
Rotinas e Estruturação dos Juizados de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher, propondo procedimentos relativos ao
funcionamento dos JVDFM, como forma de dar um direciona-
mento a magistradas/os e servidoras/es que desempenham ati-
vidades em unidades especializadas, bem como naquelas onde
a competência é comum, porém é cumulada com a competência
para processar e julgar lides relativas à Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher.
O mesmo manual traz também alguns valores acerca da es-
trutura mínima dos JVDFM, a descrição do arcabouço humano,
físico e material necessário para seu funcionamento, bem como
um histórico com considerações sobre a Lei Maria da Penha, os
procedimentos para funcionamento interno, as atividades dos au-
xiliares do juízo e os fundamentos legais da rede de atendimento
(CNJ, 2010, p. 11-13).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 89

A estrutura física adequada do JVDFM sugerida pelo


CNJ compreende: secretaria; sala de audiências; gabinetes dos
magistrados titular e substituto/auxiliar; sala da Defensoria
Pública da Vítima; Sala da Defensoria Pública do Agressor;
Sala da Equipe de Atendimento Multidisciplinar; sala da
Equipe de Apoio a Execução Penal; sala e reunião para a rea-
lização de grupos reflexivos; sala do Ministério Público; sala
de estagiários; sala de Oficiais de Justiça; brinquedoteca; car-
ceragem; parlatório (Ibidem, p. 20-21).
A respeito do número de processos por vara, o Manual
divide os Juizados naqueles com até 2.000 processos, com
2.000 a 5.000 processos, e com 5.000 a 10.000 processos em
trâmite. Cada uma dessas três espécies de Juizado teria uma
estrutura humana adequada à quantidade de processos, com
o contingente de auxiliares do Juízo maior à proporção que o
Juizado abarcasse mais litígios (Ibidem, p. 18-20).
A Lei Maria da Penha traz, em seu artigo 29, a possi-
bilidade de que os JVDFM venham a ser acompanhados por
uma equipe de profissionais, especializados nas áreas de psi-
cologia, serviço social, jurídica e saúde, tendo a finalidade de
assistir à vítima de violência doméstica e às demais pessoas
de seu núcleo familiar envolvidas no contexto. A equipe mul-
tidisciplinar tem ainda a função de elaborar laudos, buscando
facilitar a integração entre o Poder Judiciário e as partes en-
globadas pela situação de violência, identificando as necessi-
dades tanto da vítima quanto de seu agressor, bem como de
seus familiares.
Apesar de tratado pelo texto legal como uma possibi-
lidade, o Manual do CNJ considera como sendo de grande
importância a existência de uma equipe técnica para prestar
assistência aos processos que correm nos JVDFM, devendo
ser formada por profissionais de Psicologia e Sociologia que
possam fornecer maiores embasamentos tanto para as de-
cisões legais, quanto para manifestações por parte do Parquet
e da Defensoria Pública (Ibidem, p. 41-42).
90

2.3 O Estado do Paraná e as Conclusões da


Comissão Parlamentar Mista de Inquérito

De acordo com um levantamento de informações sobre a


atuação do Poder Judiciário na aplicação da Lei Maria da Penha,
realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no ano de
2012, por meio da Comissão Permanente de Acesso à Justiça e
Cidadania e do Departamento de Pesquisas Judiciárias, durante os
primeiros seis anos de vigência da Lei Maria da Penha, até o pri-
meiro semestre do ano de 2012, houve o surgimento de 66 varas
com competência exclusiva para o julgamento de processos rela-
tivos à violência doméstica contra a mulher, desconsiderando-se
as chamadas varas adaptadas, ou seja, aquelas varas criminais
onde esses delitos eram processados e julgados cumulativamente
com outros tipos de crimes (CNJ, 2010, p. 26).
No Paraná, nesse período, houve a criação de somente um
Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, na
capital Curitiba. Apesar de o Estado ter, à época, um contingente
populacional de 10.512.152, conforme o IBGE (2011), sendo
destes 5.313.532 mulheres, não foram criadas varas especiali-
zadas no interior do Estado até aquele período (Ibidem, p. 26-27).
No intuito de trazer a efetivação das políticas de enfrenta-
mento à violência contra as mulheres no Paraná, também a pas-
sagem da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, por meio
da realização de audiências públicas e diligências, obteve um
diagnóstico descrito em seu próprio relatório como preocupante,
tendo sido, no entanto, capaz de produzir diversos efeitos posi-
tivos sobre tais políticas (BRASIL, 2013, p. 9).
Segundo o relatório da CPMI, o Paraná foi o penúltimo
Estado da federação a assinar o Pacto Nacional de Enfrentamento
à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, tendo-o feito
somente em 24 de novembro de 2010, 3 anos após seu lança-
mento, em agosto de 2007. Na ocasião, havia apenas 02 Juizados
Especializados em Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher em funcionamento no Paraná, sendo um em Curitiba, e
o outro não exclusivo em Londrina, além de uma Coordenadoria
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 91

Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e


Familiar no âmbito do Tribunal de Justiça (Ibidem, p. 527).
A CPMI concluiu no referido relatório que o Estado do
Paraná não dispunha de sistema eficiente de coleta de dados
sobre violência doméstica e familiar em nenhuma das áreas da
rede de enfrentamento, incluindo o Poder Judiciário (Ibidem,
p. 530). Com base nos documentos fornecidos pelo Tribunal de
Justiça do Paraná, referentes aos anos de 2010 e 2011, constatou-
-se um altíssimo índice de impunidade nos casos de violência
doméstica e familiar, com menos de 10% dos casos resultando
em condenação neste período (Ibidem, p. 542).
Em resposta às críticas da CPMI, o Tribunal de Justiça do
Paraná afirmou que havia iniciado contato com os demais ser-
viços da rede para articular a atuação para o futuro. Além disso,
anunciou o projeto de atendimento ao agressor e coletar dados
relativos aos procedimentos que envolvam a aplicação da Lei
Maria da Penha para sanar as dificuldades dos sistemas de con-
trole e informação (Ibidem, p. 543).
Em meio a esse panorama, em pesquisa realizada pelo CNJ,
a cidade de Maringá foi considerada como importante polo so-
cioeconômico do estado do Paraná, uma vez que está localizada
como centro da RMM (Região Metropolitana de Maringá), a 430
km de Curitiba, ocupando a 3ª posição em termos populacionais,
e tendo a 5ª maior densidade demográfica do estado (732,12
hab./km², segundo o Censo de 2010 do IBGE), bem como por
situar-se na mesorregião do Norte Central Paranaense, a de maior
população e densidade demográfica no interior do Estado (CNJ,
2010, p. 80).

3 Instrumentalização da lei maria


da penha no juizado de violência
doméstica e familiar em Maringá

Somente no ano de 2012, foi criada a 5ª Vara Criminal –


Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de
Maringá, instituída pela Lei 17.324 de 08/10/12, publicada na
92

mesma data, e instalada oficialmente em 25/01/2013 (Portaria


nº 0013-D.M), tratando-se de uma vara adaptada de violência
doméstica e familiar, tendo em vista que não abrange exclusi-
vamente processos que envolvem violência doméstica contra
a mulher, mas também aqueles que tratam de crimes contra
crianças, adolescentes e idosos.
De acordo com a juíza Carmem Lucia Rodrigues Ramajo,
que abriu evento em Maringá, em novembro de 2012 para en-
cerrar a campanha Maringá na Prevenção do Câncer de Mama e
pela Não Violência contra a Mulher, “a criação das varas espe-
cializadas é um dos mecanismos sugeridos pela coordenadoria
estadual, criada em novembro de 2011, para assegurar a apli-
cação da Lei Maria da Penha nos casos de violência contra a
mulher”. A magistrada ainda explicou que a implantação da vara
especializada, prevista para o início de 2013, era garantir aten-
dimento humanizado e especializado às vítimas (ASSESSORIA
DE COMUNICAÇÃO, 2015).
Situado na região central de Maringá desde 25 de janeiro de
2013, e iniciando suas atividades em 04 de fevereiro de 2013, o
JVDFM da cidade fica em local de fácil acesso e identificação,
a menos de duas quadras da Catedral do município, um de seus
principais cartões postais, no prédio do fórum da Av. Cerro Azul,
nº 245, térreo, na Zona 02, mesmo prédio onde se encontra si-
tuada a 11ª Promotoria da cidade, também especializada em
casos de violência doméstica.57
Próximo ao local, a cerca de três quadras, localizam-se ainda
CRAMM e a Secretaria da Mulher. Não tão próximos, porém,
estão localizados a Delegacia da Mulher, a cerca de 2 km do
Juizado, bem como do IML de Maringá, que até o final do ano
de 2015 ficava a aproximadamente 1,5 km. No entanto, o IML de
Maringá foi transferido em janeiro de 2016 foi transferido, pas-
sando a situar-se atualmente a aproximados 5km do JVDFM local.

57 Em 2017, o JVDFM mudou de endereço, posicionando-se, agora, no fórum central, logo em


frente à Catedral, ou seja, mais próximo do Centro de Referência especializado, porém ainda
distante do IML (Instituto Médico Legal), ou da Delegacia Especializada, por exemplo.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 93
94

De acordo com informações prestadas pela própria Vara, seu


horário de funcionamento e atendimento ocorre das 12h às 18h
e, no quesito estrutura, o cartório da mesma conta com 7 servi-
dores, 1 chefe de secretaria analista e 6 técnicos judiciários, bem
como 6 estagiários, sendo 1 bolsista e 5 voluntários. O Juizado
conta ainda com uma sala para o cartório, arquivo, gabinete da
juíza titular, sala para os estagiários do gabinete e 1 servidor que
trabalha no local, sala para equipe multidisciplinar, ocupada pela
única psicóloga da Vara, bem como uma brinquedoteca e um juiz
substituto lotado em um gabinete separado do juízo.
Na Resolução nº 93 de 2013, editada pelo Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, art. 10, são determinadas as compe-
tências das Varas Criminais do estado. No inciso IV do referido
dispositivo, é atribuída às Varas Criminais a competência para
conhecer e julgar os crimes discriminados na Lei nº 11.340/2006.
Ainda na mesma resolução, no art. 18, são definidas as compe-
tências das Varas Criminais especializadas em violência do-
méstica e familiar contra mulheres.
Além da competência para “conhecer e julgar as causas cri-
minais e medidas protetivas de urgência decorrentes da prática
da violência doméstica e familiar contra a mulher” (I), o art. 18
amplia a competência das Varas Especializadas, para processar
e julgar procedimentos que sejam relacionados com crimes do-
losos contra a vida no contexto doméstico-familiar (II); realizar
o controle sobre procedimentos de investigação, peças informa-
tivas e outros “feitos de natureza criminal prévios à ação penal”
referentes à Lei nº 11.340/06 (III); assim como o “cumprimento
de cartas precatórias e de ordem” que tenham ligação às matérias
de sua competência (IV).
As matérias que se enquadrarem no contexto da compe-
tência das Varas Criminais Especializadas, e que, por sua vez,
não forem de natureza criminal, serão conhecidos, processados
e julgados nas Varas Especializadas apenas quanto às tutelas de
urgência. Se for necessária ação judicial respectiva às matérias
dessas tutelas de urgência, a competência é deslocada para as
Varas Cíveis ou de Família, de acordo com cada caso (§1º).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 95

A competência é da Vara Criminal Especializada ainda


quando a violência ocorrer com mulheres idosas (com mais de
sessenta anos) ou adolescentes maiores de catorze anos, contanto
que exista ou tenha existido relação íntima entre vítima e agressor
ou agressora, não sendo necessária a coabitação, ou seja, a resi-
dência conjunta, apenas a convivência (§2º).
No art. 20, inciso II da mesma Resolução nº 93/2013, o
TJPR determinou o exercício da especialização quanto aos crimes
praticados contra mulheres, expressamente, para o Juizado de
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e Vara de Crimes
contra Crianças, Adolescentes e Idosos, de forma exclusiva, no
Foro Central da Comarca da Região Metropolitana de Maringá.
O Foro Central de Maringá é constituído pelos municípios de
Doutor Camargo, Ivatuba, Floresta, Paiçandu e Maringá, e é
composto por 23 varas judiciais instaladas.
Com a implementação da Lei Maria da Penha, as mulheres
em situação de de violência doméstica passaram a ter seu de-
poimento colhido em delegacia, devendo esta também tomar a
termo sua representação e fornecê-la proteção policial, conforme
art. 12 da LMP. Ainda, de acordo com o inc. III do mesmo artigo,
com o registro do Boletim de Ocorrência, a vítima pode requerer
Medidas Protetivas de Urgência, as quais deverão ser, no prazo
de 48 horas, enviadas para o Juizado de Violência Doméstica
e Familiar Contra a Mulher. Isso não obsta a instauração do
Inquérito Policial, que deverá ser remetido ao juízo em 30 dias,
se o réu estiver solto, ou 10 dias, caso esteja preso (art. 10, CPP)
(v. DIAS, p. 181-184).
Além da delegacia, o requerimento de medidas protetivas
pode ser feito pelo Ministério Público, a requerimento da vítima
(art. 19, LMP), por meio de advogado ou defensor público, ou
ainda de ofício pelo juiz, quando entender pela necessidade das
mesmas (art. 22, LMP). Recebidos pelo JVDFM, tanto o reque-
rimento de medida protetiva quanto o Inquérito Policial, seguem
seus respectivos trâmites, conforme o fluxograma a seguir:
96

Inicialmente, esta pesquisa tinha por escopo realizar entre-


vistas pessoalmente com as pessoas que trabalham diretamente no
JVDFM de Maringá. Durante seu desenvolvimento, porém, diante
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 97

das dificuldades em relação à paulatina liberação de orçamento e


disponibilidade das serventuárias para que as entrevistas fossem
feitas in locu, optou-se por enviar questionário por e-mail, a fim
de obter as impressões dos funcionários desta Vara Especializada
quanto ao seu funcionamento, dificuldades e desenvolvimento
desde sua criação, em 2013.
Atenciosamente prestaram informações respondendo ao
questionário as assessoras da Juíza Titular do JVDFM de Maringá,
Assessora 1, de 29 anos, que trabalha no local há um ano e oito
meses, já tendo atuado anteriormente como advogada dativa; e a
Assessora 2, de 27 anos, que esta na assessoria deste Juízo há dois
anos e meio, já tendo estagiado em Vara Criminal durante a gra-
duação, e trabalhado na área Cível, na Fazenda Pública e na Vara
de Execuções Penais posteriormente.
Ao ser questionada sobre as mudanças ocorridas na insti-
tuição nos últimos anos, a Assessora 1 destacou o interesse daquele
Juízo em manter contato com a Rede Municipal de Atendimento à
Mulher, realizando reuniões e projetos a fim de aprimorar seu de-
sempenho. A Assessora 2, por sua vez, mencionou como algumas
das mudanças mais significativas, desde seu ingresso naquele
Juizado, a contratação de mais servidores; a criação da sala de de-
poimento sem dano, visando reduzir o impacto dos depoimentos
de crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica, tendo
em vista que esses casos estão inclusos na competência do JVDFM
de Maringá; e observou ainda a relevância de ter sido lotada uma
psicóloga “exclusiva para atendimento e instauração de projetos
de ressocialização com os agressores”.
Apesar das mudanças citadas pelas entrevistadas, ambas sa-
lientaram a existência de dificuldades associadas a seu trabalho.
Segundo a Assessora 1, há “falta de recurso humano para atender
as vítimas, como equipe multidisciplinar com psicólogas, assis-
tente social e advogados, visto que esta Vara conta com apenas
uma única psicóloga”. No mesmo sentido, a Assessora 2 também
ressaltou como dificuldade a existência de apenas uma psicóloga,
que acaba por ter de ser designada apenas para os casos mais
urgentes, vez que não é suficiente para o atendimento de todos os
98

casos, sendo ainda que esta psicóloga encontra-se em iminência


de se aposentar no final de 2016, não havendo previsão de subs-
tituição da mesma.
De acordo com a Assessora 2, “não há uma estrutura ade-
quada para o funcionamento de uma Vara Especializada nesse
porte, ainda mais considerando que Maringá é a terceira maior
cidade do estado, tendo grande demanda de processos”, e, em
que pese ter ocorrido a contratação de novos servidores desde
seu ingresso no Juízo e o empenho demonstrado por estes, a
quantidade ainda é insuficiente diante do número de casos que
se apresentam.
As entrevistadas acreditam também que o trabalho em rede
para o atendimento de mulheres em Maringá tem sido bem de-
sempenhado por aquele Juízo, mas ressaltaram que há muito a
ser melhorado. Segundo a Assessora 2, o JVDFM de Maringá
tem apresentado efetividade em seu trabalho devido aos esforços
da equipe que o compõe, porém poderia melhorar se existisse
mais investimento em seu funcionamento e estrutura, tal qual nos
moldes em que foi organizada a Vara Especializada em Londrina.
Além disso, acredita também que a rede demanda algumas me-
lhoras como um todo.
Na cidade de Londrina, uma mudança implementada re-
centemente pelo TJPR, por meio da Coordenadoria Estadual da
Mulher em Situação de Violência Doméstica – CEVID, e pela
Secretaria da Mulher em Londrina, foi a Patrulha Maria da Penha,
visando a redução na reincidência das agressões, por meio de um
acompanhamento preventivo, periódico e que buscando a pro-
teção das mulheres em situação de violência que possuem me-
didas protetivas58.
A não existência de um sistema único para a melhor comu-
nicação dos órgãos que integram a rede é, para a Assessora 2, um
obstáculo ao desempenho do serviço. Ainda, de acordo com ela,
“as Delegacias não têm seus procedimentos informatizados, tal
como o Judiciário já concluiu em fazer com o Projudi, assim os

58 Disponível em: <www.comprimissoeatitude.org.br/cevidtjpr-e-secretaria-da-mulher-de-londrina-


implantam-a-patrulha-maria-da-penha-tjpr-10072015/>. Acesso em: 01 de junho de 2016.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 99

Inquéritos Policiais tramitam na Delegacia integralmente de forma


física, o que não só retarda o andamento e as investigações, como
também a todo momento que eles chegam na Secretaria da Vara
precisam ser revistos”, revisão esta realizada para que seja incluso
no Projudi o que não ainda não se encontra digitalizado, algo que,
para ela, é “um ato ineficiente e que toma muito tempo”.
Também acerca do trabalho desempenhado pela rede, a
Assessora 1 apontou a possibilidade de abrigo sigiloso oferecido às
mulheres vítimas de violência pelo CRAMMM59 em casos onde se
observa maior gravidade como algo que tem se mostrado eficaz no
enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres.
Por outro lado, acredita que “a disponibilização de aluguel social
para os casos onde se verifique a insustentabilidade de convivência
das partes, além de uma equipe jurídica para orientar as vítimas”
seriam algumas melhoras importantes e necessárias.
A respeito da existência de uma equipe jurídica, é importante
ressaltar que, em janeiro de 2016, foi criado em na Universidade
Estadual de Maringá o Projeto de Extensão sobre a Lei Maria
da Penha (NUMAPE/UEM), passando a fornecer encaminha-
mentos, orientações e assistência judiciária gratuita às mulheres
em situação de violência doméstica que não tenham condições
financeiras de buscar assistência jurídica particular.
Em entrevista à rádio UEMFM, a acadêmica de psicologia
Karen Alves Venâncio esclareceu que é feita uma triagem com
as mulheres que procuram este núcleo de apoio, mas que mesmo
as que não possuem o requisito hipossuficiência econômica re-
cebem orientações e aconselhamento (UEM-FM, 2016). Os aten-
dimentos são realizados no Bloco 05, dentro do campus da UEM
em Maringá, das 13h30min às 17h30min, e a iniciativa constitui
mais um importante elemento a complementar hoje o trabalho da
rede de atuação contra a violência doméstica e familiar na cidade.
Ainda, segundo a Assessora 1, o trabalho realizado no
JVDFM é importante por se tratar de uma maneira concreta de
ajudar mulheres vítimas de violência doméstica, bem como suas
famílias, ajudando a encontrar uma solução justa para os casos

59 Centro de Referência especializado.


100

apresentados dentro dos parâmetros legais. Para a Assessora 2,


por sua vez, seu trabalho é contribuir com a conscientização para
“mudar o comportamento corriqueiro dos brasileiros de pra-
ticarem violência doméstica e familiar contra suas mulheres, a
intenção é conscientizar da importância do respeito, para que,
assim, haja mudança de conduta”, o que considera ser a função
desempenhada pela própria Lei da Maria da Penha.
Além das assessoras do JVDFM, a Chefe de Secretaria, com
31 anos, também respondeu algumas perguntas acerca do seu tra-
balho, experiência e impressões durante seu tempo de atuação
naquele Juizado. Há 3 anos desempenhando seu cargo, ela é res-
ponsável pelo gerenciamento das pessoas, bem como da análise
e movimentação dos processos judiciais, reconhecendo ainda o
cunho social de sua função, vez que entende que é necessária
uma atenção especial aos casos atendidos no local.
De acordo com a Chefe de Secretaria, seu trabalho, assim como
o dos demais servidores e estagiários da secretaria tem um impacto
especialmente importante na vida das vítimas, vez que essas são aten-
didas diretamente no balcão do JVDFM e, muitas vezes, mostram-se
fragilizadas, necessitando de um atendimento diferenciado.
Além disso, a entrevistada também afirmou que algumas
das principais dificuldades enfrentadas pelo JVDFM de Maringá
são a quantidade insuficiente de servidores diante da demanda
existente e a falta de uma equipe multidisciplinar estruturada
para encaminhamento e atendimento dos casos, necessitando que
haja ampliação desta, “contemplando de forma definitiva profis-
sionais de outras áreas”.
Percebe-se que função social desempenhada pela Vara
Especializada de Maringá vai além de somente uma análise da
materialidade e autoria das infrações penais, e tem como objetivo,
cada vez mais, evitar a reincidência dessas condutas, como foi
explicitado pela Assessora 2. Embora padecendo das condições
ideais para atendimento, se constata através da ótica das entre-
vistadas a existência de um norteamento quanto à finalidade da
instituição em estudo, o que aponta o comprometimento de seus
componentes humanos.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 101

Os mesmos olhares convergem, porém, na questão das ma-


zelas enfrentadas pela instituição, criada em 2012, que ainda se
distancia muito das condições estabelecidas para seu funciona-
mento, tanto quanto à infraestrutura, quanto ao corpo de funcio-
nários necessários para atendimento eficaz em uma comarca ta-
manha dimensão. No entanto, acredita-se que o maior problema
derive da ineficiência da integração da rede de atendimento, que de
acordo com as pesquisas realizadas, foi ainda mais dificultada com
a mudança de localidade do IML, pelo que se percebe a inexis-
tência de planejamento das instituições como uma rede integrada.

Conclusão

A partir das entrevistas realizadas, é visível que a criação


dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
foi um dos mais importantes avanços promovidos pela Lei
11.340/06, alterando completamente o tratamento dispensado
às vítimas e mesmo aos ofensores nos casos onde se configura
a violência doméstica e familiar contra mulheres, até então si-
tuados no âmbito dos delitos de menor potencial ofensivo, sob a
competência dos Juizados Especiais Criminais.
Mais que uma competência específica, os JVDFM represen-
taram a criação de toda uma estrutura adequada para satisfazer as
necessidades exprimidas por uma modalidade de violência ainda
tão arraigada na sociedade. Tal estrutura foi prevista pela lei não
somente compreendendo salas, gabinetes e locais adequados, mas
também a tramitação das importantes medidas protetivas de ur-
gência e, especialmente, toda uma gama de “material” humano,
capacitado e treinado para assistir aos envolvidos e seus familiares.
As referidas medidas protetivas merecem destaque entre as
inovações trazidas com a criação do JVDFM, por oportunizarem
a submissão do agressor a determinado tratamento, e a proteção
à integridade física da vítima em relação a novos danos, que
podem decorrer de uma característica predominante da violência
contra a mulher: a proximidade física e emocional entre vítima e
agressor (HEERT in CAMPOS, 2011, p. 315).
102

No Estado do Paraná, essa implementação mostrou-se ainda


mais relevante, em razão dos resultados alarmantes trazidos pela
passagem da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito entre os
anos de 2012 e 2013, a qual deixou clara em seu relatório a preca-
riedade e a ineficiência dentro de toda a estrutura de enfrentamento
à violência contra mulheres no estado, com uma grande quantidade
de casos constatados, em detrimento de pouquíssimas condenações.
Como repercussão do relatório da CPMI, a implementação
pelo TJPR de um Juizado de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher em Maringá, por meio da Resolução nº 93/2013,
mesmo que sob a forma de vara criminal especializada, repre-
sentou uma resposta do estado ao fraco desempenho apontado.
No entanto, o que se constata a partir das respostas das entre-
vistas realizadas, é a distância que ainda existe da atual forma
de funcionamento, e o que seria o ideal previsto no Manual de
Rotinas e Estruturação dos Juizados de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher.
Em relação à rede de atendimentos, o JVDFM de Maringá
tem conseguido se articular com as demais instituições que a
constituem, de modo que o diálogo e a cooperação são realizados
pelas componentes da rede internamente, fazendo o encaminha-
mento das vítimas, agressores e demais envolvidos à assistência
e atendimento do CRAS, da Delegacia da Mulher, do Ministério
Público, do JVDFM e de outros órgãos.
No entanto, de acordo com as entrevistadas, tal articulação
ainda enfrenta grandes dificuldades, em razão, principalmente,
da distância entre as instituições da rede e também da insistente
falta de tratamento delas como parte de um mesmo sistema pelos
gestores públicos, como por exemplo, na citada questão do des-
locamento do Instituto Médico Legal e da inexistência de um
sistema único que facilite a tramitação dos inquéritos e processos.
Outro grande problema citado diz respeito à ausência de
uma equipe multidisciplinar estruturada, com profissionais
outras áreas, uma vez que o JVDFM de Maringá conta apenas
com uma psicóloga, a qual está prestes a se aposentar. Segundo
o Manual de Estruturação do CNJ, a presença de uma equipe
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 103

multidisciplinar tem o importante papel não somente de auxiliar


o juízo na compreensão do contexto familiar dos envolvidos, mas
também de prestar orientações, encaminhamentos, formas de
prevenção, responsabilização e outras medidas voltadas à vítima,
seus agressores e à suas famílias. Prevê até mesmo a realização
de visitas domiciliares por parte desta equipe, algo visivelmente
inviável de acordo com a estrutura descrita pelas entrevistadas
(CNJ, 2010, p. 42-43).
Os casos de violência doméstica estão envoltos em uma grande
complexidade, não sendo possível a qualquer julgador/a substituir
a atuação concomitante de psicólogas/os, assistentes sociais, dentre
outras/os profissionais especializadas/os igualmente essenciais
ao integral cumprimento dos objetivos estabelecidos na lei. Se de
um lado estão presentes as agressões físicas, patrimoniais e humi-
lhações; de outro, é possível observar o medo das ameaças feitas, a
preocupação com as/os filhas/os (se houver, obviamente) e o medo
de não poder sustentá-las/os ou mesmo sustentar-se, dentre tantos
outros temores que atravessam essas relações e trazem maiores
dificuldades aos seus rompimentos. Por isso, a presença de uma
equipe multidisciplinar impõe-se como necessidade ao efetivo fun-
cionamento do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher, fornecendo tanto atendimento e acompanhamento às ví-
timas, seus familiares e agressores, como subsídio técnico ao jul-
gador (KATO in CAMPOS, 2011, p. 348-354).
As necessidades do JVDFM em Maringá se tornam ainda
mais explícitas quando se ressalta a extensão de sua competência
territorial, abarcando a região metropolitana que depende dessa
estrutura do poder judiciário para ter o acesso garantido à justiça
nos casos de violência contra mulheres. Concordaram as entre-
vistadas, nesse sentido, afirmando que a falta de investimento na
infraestrutura e na contratação de mais servidores são grandes
obstáculos frente à demanda de serviço existente. Entretanto,
todas afirmaram também que o funcionamento efetivo, que con-
segue modificar o cenário da violência contra as mulheres nos
municípios atendidos pelo JVDFM de Maringá, só é possível
diante do comprometimento das/os funcionários já existentes.
104

REFERÊNCIAS
ASSESSORIA DE COMUNIÇÃO. Maringá será a terceira
cidade do Paraná a contar com Vara de Violência Doméstica.
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MINISTÉRIO PÚBLICO:
rompimentos e novas configurações
da 11ª e 22ª promotorias de
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Heloise Rosin Cella61
Isabela Furlan Rigolin62

Introdução

A Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha), desde sua sanção no


ano de 2006, inegavelmente se fixou como um dos estatutos norma-
tivos mais conhecidos entre os brasileiros. Ao propor a prevenção e
o enfrentamento das violências no ambiente doméstico e familiar,
ela representou importante passo para as mulheres em sua já antiga
busca por garantia de direitos. (Instituto Avon/Ipsos, 2011).
Anteriormente à criação da referida Lei, o sistema de re-
pressão e enfrentamento a este tipo de violência era tratado pela
Constituição de 1988, em apenas dois de seus dispositivos: o art.
5º, inciso I, prevendo a igualdade entre homens e mulheres e o
art. 226, §8º, deixando ao Estado a responsabilidade de coibir
a violência familiar. Além da Carta Magna, a repressão era
apenas empreendida pelo crime de violência doméstica, previsto
no art.129, §9º, do Código Penal, como subespécie derivada da
lesão corporal, portanto.
Como era de se esperar, a generalidade com a qual o tema
foi trazido pela Carta Magna, em que consta como norma mera-
mente programática (carente de concretização futura), não bastou
para oprimir problema de tamanha complexidade. Restou, assim,
à Lei Maria da Penha o papel de criar os mecanismos necessários

60 Capítulo resultante de Projeto de Iniciação Científica na modalidade PIC, desenvolvido sob


orientação da professora Dra. Isadora Vier Machado, de agosto de 2015 a julho de 2016.
61 Bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Maringá.
62 Bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Maringá.
108

para represar a violência doméstica e satisfazer as expectativas


de entidades de defesa das mulheres.
Responsável por recrudescer o rigor punitivo aos casos de
violência doméstica, especialmente na modalidade de lesão cor-
poral (notadamente os casos de violência física), a lei é também
conhecida por ter implementado uma sistemática protetiva
plural, contemplando medidas protetivas de urgência extensivas,
inclusive, às crianças e adolescentes implicadas nesta relação
(v. art. 22, Lei 11.340/06), ampliando o círculo de compreensão
do fenômeno das violências contra as mulheres e destacando a
importância da educação e formação para sua efetiva operacio-
nalização (v. art. 8º, inc. V, da mesma lei). Uma composição de
frentes de atuação não hierarquizadas, visando não apenas a cri-
minalização dos agressores, como também a constituição de um
novo panorama interventivo (PASINATO in CAMPOS, 2011).
O parágrafo 118 da Plataforma de Ação de Beijing ex-
plicita que “a violência contra a mulher é uma manifestação
das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e
homens, que têm causado a dominação da mulher pelo homem,
a discriminação contra ela e a interposição de obstáculos ao seu
pleno desenvolvimento”.
Neste ínterim, no que concerne à esfera protetiva, o con-
ceito que ganhou mais visibilidade foi o de rede.
No que tange aos esforços regionais pela implementação da
Lei Maria da Penha, a passagem da CPMI pelo Estado do Paraná
motivou outros acordos e políticas governamentais, em especial,
um Termo de Cooperação Técnica entre o Tribunal de Justiça;
a Associação dos Magistrados (AMPAR); o Ministério Público
estadual; a Fundação Escola do Ministério Público (FEMPAR); a
Defensoria Pública; a Secretaria de Estado da Justiça; Cidadania e
Direitos Humanos; a Secretaria do Estado de Segurança Pública;
a Secretaria do Estado da Saúde; a Secretaria do Estado da
Educação; a Secretaria de Estado da Família e Desenvolvimento
Social; a Secretaria do Estado do Trabalho, Emprego e Economia
Solidária; Ordem dos Advogados do Brasil e uma instituição de
ensino local. No documento, ficam consignadas importantes
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 109

diretrizes de articulação a fim de promover capacitações, pro-


gramas, intercâmbios e discussões públicas acerca da Lei Maria
da Penha e do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência
contra a Mulher. Do acordo firmado, destacam-se resultados ha-
vidos no âmbito estadual, tais quais a aprovação, no Paraná, da
Campanha “Compromisso e Atitude pela Lei Maria da Penha”,
lançada pelo Tribunal de Justiça, e a criação da Coordenação
das Delegacias da Mulher, dentro da estrutura organizacional da
Polícia Civil do Estado que, de acordo com a Agência Estadual
de Notícias, terá por objetivo pautar a criação de novas delegacias
no Estado, promover treinamentos, fixar padrões e articular a ins-
tância de segurança com a Magistratura e o Ministério Público
A cidade de Maringá não dispõe de dados sistematizados
oficiais e integrados sobre as violências domésticas, mas é a ter-
ceira maior cidade do Estado, o que a coloca em posição estra-
tégica para recompor a atual situação que o Estado ocupa no ce-
nário nacional, em termos de violências contra mulheres.
Neste contexto, a Lei Maria da Penha identifica o Ministério
Público como uma das instituições do Estado brasileiro com a
obrigação de atuar em seu escopo, tanto na esfera judicial como
na extrajudicial. Deve intervir nas causas cíveis e criminais de-
correntes da violência doméstica e familiar; requisitar força po-
licial e serviços públicos de saúde, de educação, de assistência
social, entre outros; fiscalizar os estabelecimentos públicos e
particulares de atendimento à mulher em situação de violência,
bem como adotar as medidas cabíveis para sanar as irregulari-
dades constatadas; cadastrar os casos de violências. Como atri-
buições do Ministério Público na esfera administrativa, constam
a requisição de força policial e de serviços públicos necessários
à proteção de mulher em situação de violência, além de ter de
fiscalizar as entidades criadas para o atendimento a mulheres
nessa situação. Para incentivar o cumprimento essas atribuições
e uniformizar a atuação dos/as promotores/as de Justiça do país,
o Ministério Público Brasileiro, por meio do Grupo Nacional
de Direitos Humanos (GNDH), criado pelo Conselho Nacional
de Procuradores Gerais de Justiça, lançou mão da Comissão
110

Permanente de Promotores da Violência Doméstica e Familiar


contra a Mulher (Copevid). Esta Comissão elaborou roteiros
de visitas técnicas à Casa Abrigo e ao Centro de Referência e
Atendimento à Mulher, para servir de subsídio à propositura de
medidas judiciais e extrajudiciais. (Disponível em: <http://www.
ssp.rs.gov.br/?model=conteudo&menu=91&id=2035>. Acesso
em 19/02/2015)
Diante do exposto, alcança-se o foco principal desta pesquisa,
que direcionará o olhar para o Ministério Público da Comarca de
Maringá, com foco nas Promotorias responsáveis pelo atendi-
mento às mulheres abrangidas pela Lei Maria da Penha, com a
finalidade de maior fortalecimento da rede e divulgação de infor-
mações à população acerca do funcionamento e atuação das 11ª e
22ª Promotorias da Comarca de Maringá.

1 Características do órgão ministerial

O Ministério Público é uma instituição preconizada pela


Constituição Federal em seu artigo 127 como “instituição perma-
nente, essencial à função do Estado, incumbindo-lhe a defesa da
ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais
e individuais indisponíveis”, sendo sua função institucional, de
acordo com o artigo 129, inc. II: “zelar pelo efetivo respeito dos
Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos
assegurados nessa Constituição, promovendo as medidas neces-
sárias a sua garantia”. (CAMPOS, 2011)
A autonomia deste órgão passou a ter maior relevância com
a Constituição Federal de 1988. Esta passou a lhe garantir in-
dependência funcional, administrativa e financeira e autonomia
política, institucional, aos seus integrantes.
Ao Ministério Público resta o dever de defender o regime
democrático e a ordem jurídica, em especial, neste último, no que
tange à legalidade democrática, avaliando criticamente o con-
teúdo da norma jurídica. Para tanto, possui o poder de controle e
fiscalização dos atos administrativos.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 111

Com relação à defesa do regime democrático, incumbe-se


ao Parquet a responsabilidade de propor a ação penal, a ação
direta de inconstitucionalidade, a ação declaratória de constitu-
cionalidade, a arguição de descumprimento de preceito funda-
mental, a ação de inconstitucionalidade interventiva, de instaurar
o inquérito civil e de propor a ação civil pública de interesses
difusos e coletivos e dos serviços de relevância pública, além de
combater a inércia governamental em questões ambientais, con-
sumidores e de educação, fazer a visitação aos presos, garantir os
direitos constitucionais do cidadão, defender as minorias, exercer
controle externo da atividade policial e requisitar diligências in-
vestigatórias e a instauração de inquérito policial.
Assim, com relação às violências domésticas e familiares,
a Lei Maria da Penha confere ao Ministério Público o papel de
realizar a fiel aplicação dos dispositivos da norma, desde o início
da apuração do delito, até sua fase de instrução. Sendo o Parquet
responsável pela defesa dos interesses sociais, difusos e cole-
tivos, o art. 25 da Lei 11.340/06 surge com o intuito de assegurar
que este órgão realize suas funções de forma integral nos casos
de violência doméstica, sejam elas cíveis ou criminais.
Suas funções se subdividem entre as de ordem institucional,
administrativa e funcional. Quanto às primeiras, implicam na
integração operacional entre as entidades responsáveis pelo
cumprimento da lei, significando dizer que o Ministério Público
deve atuar de forma conjunta e sincronizada com estes órgãos
e instituições, sejam públicos ou privados, direta ou indireta-
mente ligados às ações das mulheres em situação de violência.
Quanto às atribuições de ordem administrativa, o Parquet deve
desempenhar seus poderes de polícia, fiscalizando os estabele-
cimentos de atendimento às mulheres em situação de violência,
também independente de estas serem públicas ou privadas, assim
como desempenha nas Delegacias de Polícia, presídios e abrigos
a crianças e adolescentes idosos.
Quanto aos aspectos funcionais, estes se encontram direta-
mente ligados ao já referido art. 25 da Lei 11.340/06, qual seja: “O
Ministério Público intervirá, quando não for parte, nas causas cíveis
112

e criminais decorrentes da violência doméstica e familiar contra a


mulher”. Assim, haverá obrigatória intervenção do/a Promotor/a
em toda e qualquer causa, cível e criminal, envolvendo violência
deste tipo. Esta se dará como este sendo fiscal da lei ou como parte,
bastando o processo decorrer de violência familiar e doméstica
contra a mulher para que o Parquet seja a este chamado. Caso
não haja, no mínimo, sua intimação em todos os atos do processo,
este último se encontra fadado à nulidade, independentemente da
vontade do/a magistrado/a ou escrivã/o. (CAMPOS, 2011)
No que diz respeito às atribuições cíveis do Ministério
Público nos casos de violência doméstica, este tem atuação em
todos os processos, mesmo naqueles de cunho exclusivamente pa-
trimonial. O Parquet pode atuar como fiscalizador da lei, podendo
requerer providencias ao Juiz, requisitar outros serviços públicos
para auxiliar a ofendida, ou como parte requerendo medidas prote-
tivas, como previsto no artigo 18, inciso III da referida lei, além de
entrar com ações civil pública a fim de proteger interesses indivi-
duais ou coletivos. (CUNHA, 2007)
No que tange às atribuições na área penal, o Ministério
Público, diante da representação63 realizada tanto pela ofendida
quanto por terceiros, pode requisitar inquérito policial, enca-
minhar a ofendida para serviços públicos e de assistência social,
não sendo necessário passar pela autoridade policial, devido à ce-
leridade processual na proteção da mulher ofendida. O artigo 26
da lei 11.340/06, em seu inciso I, dispõe que o Ministério Público
pode requisitar força policial para a proteção da mulher agredida.
Após o ano de 2012, quando os artigos 12, inciso I, 16 e 41
da Lei Maria da Penha passaram a ser incondicionados à represen-
tação da vítima, o Parquet passou a ter uma atuação protagonizada
como parte no processo ainda mais abrangente, podendo ser o res-
ponsável pela denúncia, mesmo contra a vontade da ofendida.
Dessa forma, fez-se necessária a criação de Promotorias es-
pecializadas na Lei Maria da Penha, para atuar juntamente aos
Juizados de Violência Doméstica e familiar e que desenvolvam
63 Representação criminal é a manifestação de vontade do ofendido ou de quem tenha qualidade
para representá-lo, visando a instauração da ação penal contra seu ofensor. (BITENCOURT,
2005, p. 335)
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 113

também os Núcleos de Direitos da Mulher, que poderão assumir


as atribuições de fiscalização e gestão de cadastros de infor-
mação, além de contribuir para a padronização da aplicação da
Lei em promotorias especializadas.
Ainda no ano de 2012, por conta de uma necessidade de for-
talecimento da rede, que ainda possuía fraturas, o Congresso bra-
sileiro, via Câmara dos Deputados e Senado Federal, constituiu
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), com o objetivo
de viajar a cada estado da federação para descobrir lacunas na
aplicação da Lei Maria da Penha (SENADO FEDERAL, 2012).
Também como resultado deste trabalho, passam a surgir, Brasil
afora, mais promotorias especializadas.

2 Das atuações específicas do ministério público

Não obstante a exposição no item anterior acerca das


funções do Ministério Público, é oportuno neste momento a por-
menorização do assunto diante de sua tamanha importância.
Como um dos atuantes na transformação da Lei abstrata em
ações concretas por meio de políticas públicas de erradicação e
prevenção da violência doméstica, o Parquet deve, nos termos do
art. 8º, I da Lei Maria da Penha, se a integrar operacionalmente ao
Poder Judiciário e à Defensoria Pública com as áreas de segurança
pública, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação.
Da mesma forma, também se incube de celebrar convênios,
protocolos, ajustes, termos e demais instrumentos de parceria
entre órgãos governamentais, ou entre estes e entidades não go-
vernamentais, conforme dispõe o mesmo artigo, por sua vez, em
seu inciso VI.
No que tange às atuações administrativas, estas se subdi-
videm em duas atribuições. A primeira trata-se do já citado poder
de polícia, previsto na primeira parte do art. 26, II da Lei Maria
da Penha, responsabilizando-o pela fiscalização dos serviços pú-
blicos e particulares de atendimentos a estas vítimas. Constatando
irregularidades nestes, deve adotar medidas administrativas ou
judiciais cabíveis.
114

Não obstante, a Lei peca pela não especificação dos pro-


cedimentos necessários. Assim, poderá ser utilizado o conteúdo
expresso no ECA e no Estatuto do Idoso neste sentido, configu-
rando a aplicação subsidiária prevista no art. 13 da Lei 11.340/06,
que dispõe:

ao processo, ao julgamento e à execução das causas cíveis e


criminais decorrentes da prática de violência doméstica e fa-
miliar contra a mulher aplicar-se-ão as normas dos Códigos
de Processo Penal e Processo Civil e da legislação espe-
cífica relativa à criança, ao adolescente e ao idoso que não
conflitarem com o estabelecido nesta Lei.

Dessa forma, é a apuração das irregularidades com base em


ambos os Estatutos, de forma sintetizada:

é possível ocorrer em entidades governamentais e não-


-governamentais; pode ser iniciado por representação do
Ministério Público, dentre outros legitimados; havendo
motivo grave o dirigente da entidade pode ser afastado li-
minarmente, por decisão judicial fundamentada; o dirigente
da entidade deverá apresentar resposta em 10 (dez) dias e
havendo necessidade será marcada audiência de instrução
e julgamento; salvo manifestação em audiência, as partes
e o Ministério Público possuirão 5 (cinco) dias para apre-
sentação de alegações finais, devendo a autoridade judicial
decidir em igual prazo; caso seja decidido pelo afastamento,
provisório ou definitivo, do dirigente da entidade, o juiz
fixará prazo para a imediata substituição; antes de qualquer
medida o magistrado poderá optar pela remoção das irre-
gularidades encontradas, as quais, se sanadas, ensejarão a
extinção do processo, sem julgamento de mérito; serão im-
postas ao dirigente da entidade ou ao responsável pelo pro-
grama de atendimento a multa e a advertência.64

A segunda atribuição administrativa do Ministério Público é


o cadastro dos casos que chegam a sua ciência (art. 26, III). Estas

64 (MORAIS, 2014).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 115

informações devem ser incluídas nas bases de dados dos órgãos


oficiais do Sistema de Justiça e Segurança, como forma de ali-
mentar o conteúdo do sistema nacional de dados e informações
relativo às mulheres, como prevê o art. 38.
Nesta senda, não como sendo de sua atuação exclusiva, mas
dos entes governamentais no geral, cabe também ao Parquet, nos
termos do art. 8º, II, da Lei 11.340/06:

Art. 8º: [...]


I – [...]
II – a promoção de estudos e pesquisas, estatísticas e outras
informações relevantes, com a perspectiva de gênero e de
raça ou etnia, concernentes às causas, às conseqüências
e à freqüência da violência doméstica e familiar contra a
mulher, para a sistematização de dados, a serem unificados
nacionalmente, e a avaliação periódica dos resultados das
medidas adotadas;

Caso entenda necessário, poderá, além do exposto, requi-


sitar outras providências cabíveis conforme o expresso no art. 26,
I, em sua parte final: “entre outros”.
No que tange ao aspecto judicial, conforme já exposto, a
Lei determina, em seu art. 25, uma intervenção obrigatória mi-
nisterial, seja como custus legis ou como parte, em ações civis
ou criminais. Isto significa que, ocorrendo um caso de violência
doméstica e familiar, o Parquet deve estar presente e sendo in-
timado de todos os atos do processo.
Assim que receber as informações, seja diretamente pela
vítima ou através do encaminhamento do inquérito policial pela
Delegacia de Policia, o Ministério Público já se encontra no
dever de dar encaminhamento para os serviços de saúde e demais
assistências, bem como requisitar o inquérito, no primeiro caso.
Nos casos em que a ação pública seja condicionada à re-
presentação da vítima, a retratação só poderá ocorrer após a re-
alização de audiência com a presença do representante minis-
terial e do juiz, antes do recebimento da denúncia, sendo este
116

um cuidado extra para se certificar de que esta seja realmente a


vontade da ofendida, conforme dita a própria lei.
O Ministério Público, quando há necessidade em razão da pro-
teção à mulher agredida, tem poder de requisitar força policial, além
de serviços públicos de saúde, de educação, de assistência social e
de segurança, entre outros (art. 26, I de Lei 11.340/06).
No que tange aos requerimentos, caso não haja decretação ex
oficio pelo juiz, pode fazê-lo para a prisão preventiva do ofensor em
qualquer fase da instrução ou do inquérito policial. Ademais, pode
requerer ainda a concessão das medidas protetivas ou a renovação e
revisão das que já tenham sido concedidas.
Quanto à necessidade de prévia oitiva do Parquet, esta deve
ocorrer nos casos das citadas renovação ou revisão de medidas pro-
tetivas, bem como a comunicação ao órgão ministerial de pedido
de medidas pela vítima, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas a
partir do recebimento do requerimento pelo juiz. A comunicação ao
Parquet também se encontra prevista nos casos em que for neces-
sário garantir proteção policial (art. 11, I da Lei 11.340/06).
No papel de custus legis, poderá aplicar os recursos pre-
vistos no art. 499 do CPC ao se deparar com falhas na aplicação
da Lei. Bem como, poderá solicitar medidas judiciais ao cons-
tatar irregularidades na atuação administrativa de fiscalizador
dos estabelecimentos públicos e particulares.
Além de requerer medidas protetivas em caráter individual,
é competente também para  “ajuizar ações civis públicas em
defesa de direitos transindividuais ou interesses coletivos, em
sentido lato”65, concorrentemente à associações de atuação na
área, regularmente constituída há pelo menos um ano, nos termos
do art. 37 da Lei.
Dessa forma, é possível a organização do exposto em
um fluxograma para uma melhor visualização e captação da
atuação desta figura tão importante no combate à violência
doméstica, sendo:

65 (FONSECA, 2006).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 117
118

3 da atuação do ministério público


na cidade de Maringá

A passagem da CPMI pelo Estado do Paraná, que já possuía


algumas instituições governamentais e não governamentais
responsáveis pelo atendimento às mulheres, motivou outros
acordos e políticas governamentais e em especial um Termo de
Cooperação Técnica entre as instituições, incluindo o Ministério
Público Estadual, conforme relatório.
A cidade de Maringá, no Estado do Paraná, terceira maior
cidade do Estado, possuía uma rede relativamente fortalecida,
mas até o ano de 2012, por exemplo, não havia na cidade um
Juizado Especializado em Violência Doméstica, tendo este sido
implementado apenas no ano de 2013, quando inaugurada a 5ª
Vara Criminal da comarca. No mesmo ano, a Delegacia especia-
lizada constituiu sede autônoma e a Defensoria Pública iniciou
seus atendimentos.
A cidade conta, portanto, com número significativo de ser-
viços, dentre vara e delegacia especializada, centro de referência
especializado e hospital de referência, por exemplo. Ao lado de
Curitiba, Cascavel, Guarapuava, Londrina e Ponta Grossa, soma-
-se ao número de cidades-polo do Estado, conforme relatório da
CPMI. Todavia, estas instâncias carecem de dados sistemáticos
integrados sobre sua própria atuação, o que compromete práticas
interventivas mais sólidas e continuadas, garantidoras de mais
direitos às mulheres maringaenses.
Ainda anteriormente à CPMI, a cidade, no ano de 2010,
passou a contar com uma promotoria que tratava dos assuntos
referentes à Lei Maria da Penha, junto à promotoria da Infância e
Juventude: crianças em situação de risco.
Atualmente66, a Promotoria responsável por 70% dos casos
de violência doméstica e familiar contra a mulher na comarca de
Maringá é a 11ª Promotoria de Justiça, que ainda não é exclusiva-
mente voltada à área. Atende principalmente os casos em que foi rea-
lizado Boletim de Ocorrência na Delegacia da Mulher. A Promotoria
66 A pesquisa remonta ao ano de 2015.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 119

fica localizada dentro do Fórum da Comarca de Maringá e seu aten-


dimento é realizado prioritariamente na parte da tarde.
Recentemente, em novembro de 2014, a 22ª Promotoria
de Justiça da mesma Comarca, passou também a atender casos
de violência doméstica. A equipe é composta pelo Promotor de
Justiça, uma assessora e duas estagiárias, sendo uma na parte da
manhã e outra na parte da tarde. Sua localização também é no
Fórum da Comarca de Maringá. A referida promotoria atende so-
mente 30% dos casos de violência doméstica, tendo como com-
petência principal as fiscalizações das execuções fiscais junto
com a VEPMA.
No âmbito estadual, foi criado, no ano de 2012, o Núcleo de
Gênero e Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher, alterado posteriormente para Núcleo de Promoção
da Igualdade de Gênero – NUPIGE, através da Resolução nº.
3431/2014. Este, vinculado ao Centro de Apoio Operacional das
Promotorias de Direitos Constitucionais (CAOP), visa zelar pela
implementação de políticas públicas para mulheres no Paraná,
defender direitos difusos, coletivos e individuais indisponíveis
relacionados ao gênero e cuidar das demandas destas questões no
Ministério Público. (Disponível em: <http://www.direito.mppr.
mp.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=7>. Acesso
em 14/07/2015).
Diante da necessidade de realizar o fortalecimento da rede
nos casos de violência Doméstica e familiar na Comarca de
Maringá, entrou-se em contato com as Promotorias responsáveis,
através de suas assessoras, a fim de informações detalhadas a
respeito dos maiores benefícios e necessidades antes e após a
passagem da CPMI na cidade.
A começar pelas mudanças estruturais que ocorreram no
Ministério Público da cidade nos últimos 10 anos, a assessora
lotada na 11ª Promotoria de Justiça afirma que as mudanças foram
substanciais, pois no ano de 2006, não havia assessoria para pro-
motores, e que este cargo atualmente possui grande relevância
na Instituição, pois cuida dos processos e procedimentos, atendi-
mento ao público, auxilia os estagiários, mantendo a ordem dos
120

gabinetes quando o Promotor possui a necessidade de se ausentar


para audiências. A área de informática também era precária, com
maquinários ultrapassados e sem profissionais responsáveis pela
mesma. Assim declarou:

De 10 anos para cá foram mudanças substanciais. Em 2006,


ainda como estagiária de graduação do Ministério Público,
o promotor possuía apenas dois estagiários bolsistas, não
havia assessoria e nem estagiário de pós graduação. A es-
trutura também era mais precária, especialmente na área de
informática, com pouco maquinário e sem suporte na área.
Hoje contamos com estagiários na área de informática e os
equipamentos são mais modernos, em que pese haver buro-
cracia para solicitar a substituição.

No que tange às mudanças na rede em geral, a assessora


lotada na 22ª Promotoria de Maringá, responsável por 30% dos
casos de violência doméstica e familiar assegura que:

Aqui em Maringá, até 2013, se não me engano, a atribuição


para tratar dos inquéritos policiais de violência doméstica
era da 3a Promotoria, que também tinha atribuição para
tratar dos casos (processos e inquéritos policiais) que en-
volviam crianças e adolescentes em situação de risco. Esta
Promotoria tinha um volume de serviço muito grande.
Nessa época, as medidas protetivas e as ações penais tra-
mitavam nas 4 Varas Criminais da Comarca, porque ainda
não havia o Juizado Especializado na Violência Doméstica
contra a Mulher.
Hoje, além do Juizado de Violência Doméstica, que conta
com profissional da área de psicologia, a Comarca tem
uma Promotoria Especializada, com atribuição somente
para os casos de violência doméstica contra a mulher (11a
Promotoria), que atua em 70% dos processos / inquéritos
/ medidas protetivas, e uma Promotoria que cumula atri-
buição de Violência Doméstica (30%) e Execução Penal em
Meio Aberto e Medidas Alternativas (22ª Promotoria).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 121

Entretanto, ambas afirmam que, embora muitas melhoras


tenham ocorrido, e afirmam uma evolução muito positiva, desde
a implementação da 5ª Vara Criminal, ainda existem melhorias a
serem feitas no âmbito da rede de proteção às mulheres, pois, muitas
vezes, os inquéritos policiais demoram a findar, pela falta de es-
trutura das Delegacias de Polícia, assim como a falta de celeridade
processual no âmbito penal, e o diálogo entre as instituições se dá
de forma precária, sendo necessário um foco maior na parte cível
e familiar, sobretudo a partir da atuação da Defensoria Pública.
Afinal, as mulheres, em grande parte dos casos, não possuem ins-
trução e não sabem dos direitos que possuem, além da falta de
fiscalização e controle do funcionamento das medidas protetivas
na cidade, através da Patrulha da Maria da Penha, que não existe
na cidade67, conforme declaração da assessora da 11ª Promotoria:

Atualmente é a demora na resposta da Justiça nos processos.


Os inquéritos demoram para serem concluídos pela dele-
gacia e quando viram processo a instrução demora a findar.
Também faz falta um sistema de monitoramento e fiscali-
zação das medidas protetivas, como a Patrulha da Maria da
Penha, que ainda não existe em Maringá.”
[...]
“Ainda há muito a melhorar, pois o diálogo é precário entre
as instituições, mas desde a instauração da 5ª Vara Criminal
já houve melhoras. Atualmente as vítimas precisam muito
de orientação jurídica na área cível e de família, pois a
maioria é de baixa renda e acabam não correndo atrás de
seus direitos.

Ademais, a outra assessora afirma que, pessoalmente, uma


das maiores dificuldades do trabalho é o envolvimento emo-
cional com os casos, embora informe que o maior benefício é
o de ampliação de acesso à justiça das vítimas que buscam ter
conhecimento dos seus direitos:

67 A cidade passou a contar com a Patrulha a partir de 2017.


122

Na minha opinião, a dificuldade principal quanto ao trabalho


são os inquéritos policiais, que geralmente levam bastante
tempo para serem concluídos, devido ao grande volume e
falta de estrutura da Delegacia. Em alguns casos, isso pre-
judica um pouco a produção de provas no processo, já que
quando a vítima vai ser ouvida na instrução criminal o fato
já ocorreu há algum tempo. Pessoalmente, também sinto
que nessa área inevitavelmente ocorre um envolvimento
emocional maior com o trabalho, porque é mais difícil de
“desligar” do trabalho quando estou fora.

Na opinião da assessora da 11ª Promotoria, os principais


benefícios que a função que a mesma exerce são o de maior co-
nhecimento jurídico sobre os temas, aprender a lidar com pro-
blemas buscando as melhores soluções para cada caso e, ao final,
visualizar de forma efetiva os resultados da atuação, conforme
declaração “in verbis”:

Conhecimento jurídico sobre os temas, aprender a lidar com


os problemas e encontrar as melhores soluções para cada
caso, além de trocar experiências com os demais servidores,
estagiários, promotor de justiça e principalmente poder vi-
sualizar os resultados da atuação.

Vislumbrando-se as respostas colhidass com as assessoras


das Promotorias, corroborando com as pesquisas e com o co-
nhecimento do trabalho do Ministério Público no âmbito da Lei
Maria da Penha, conclui-se que, embora inúmeras mudanças
tenham ocorrido e que cada instituição exerça o seu trabalho de
forma eficiente, há ainda um déficit no funcionamento da rede
como um todo, sendo imprescindível que haja maior comuni-
cação entre a rede para que o suporte às mulheres em situação de
violência doméstica seja eficiente em todos os âmbitos.

Conclusão

A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) estabelece que


todos os casos de violência doméstica e familiar são violações de
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 123

direitos humanos das mulheres, e, por isso, devem ser remetidos


ao Ministério Público, para que este atue como parte ou como
fiscal da Lei, em todos os atos do processo.
Referida lei surgiu com o objetivo principal coibir tais vio-
lências, de forma que busca uma perspectiva de igualdade para
que não haja discriminação, e quando houver, que os perpetra-
dores sejam devimente responsabilizados.
Neste contexto, entre diversas instituições, o Ministério
Público, instituição autônoma preconizada pelo artigo 127 da
Constituição Federal de 1988, é um dos principais órgãos res-
ponsáveis por defender os interesses sociais, individuais e indis-
poníveis, zelando pelos direitos assegurados na Constituição.
As funções do Ministério Público nos casos em que há
quaisquer formas de violência doméstica e familiar contra as
mulheres estão previstas nos artigos 25 e 26 da Lei 11.340/2006.
Entretanto, não há uma especificação dos procedimentos
necessários, utilizando-se, muitas vezes, do conteúdo expresso
no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90) e do
Estatuto do Idoso, além das normas do Código de Processo Penal
e do Código de Processo Civil.
Na Comarca de Maringá, percebe-se que o processo de
fortalecimento efetivo da rede de atendimentos é recente, sendo
que apenas no ano de 2013 houve a implementação do Juizado
Especializado de Violência Doméstica, acompanhado da criação
da 5ª Vara Criminal, início também da atuação da Defensoria
Pública e da mudança de endereço da Delegacia Especializada,
de forma que, anteriormente, o Ministério Público, que teve sua
primeira promotoria responsável pelos casos de violência em
2011, atuava de forma mais isolada.
Atualmente, a comarca conta com duas Promotorias de
Justiça que ainda não são exclusivamente voltadas para esta área,
a 11ª e a 22ª promotorias, a primeira responsável por 70% dos
casos ocorridos na comarca e a segunda atua em 30% dos casos.
Em pesquisa realizada em ambas as Promotorias, conclui-se
que houve grande avanço a partir do ano de 2012, quando houve
a passagem da CPMI pelo Estado do Paraná, de modo que a rede
124

de atendimento a mulheres em situação de violência doméstica


e familiar foi fortalecida e que, hoje, a atuação do Ministério
Público assumiu lugar de protagonismo na comarca, mas que,
por outro lado, a população ainda não possui o devido conheci-
mento dos seus direitos e da existência de uma rede disponível
para a garantia destes, além da demora dos processos e da im-
possibilidade de uma fiscalização efetiva do funcionamento das
medidas Protetivas.
Diante do exposto, conclui-se que, embora inúmeras mu-
danças tenham ocorrido e que cada instituição exerça o seu tra-
balho de forma eficiente, há um déficit no funcionamento inte-
grado da rede, especialmente no que diz respeito ao controle de
dados e números de casos atendidos.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 125

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SENADO FEDERAL. CPMI violência contra as mulheres.


Relatório final. 2012.
ROMPIMENTOS E NOVAS
CONFIGURAÇÕES DO
CENTRO DE REFERÊNCIA DE
ATENDIMENTO À MULHER
MARIA MARIÁ DE MARINGÁ68
Carolyne Priscila Prado de Morais69
Daniele Karine Mesquita Casagrande70

Introdução

A Lei Maria da Penha, registrada como Lei nº 11.340/2006,


foi uma conquista obtida através dos esforços empreendidos pelos
movimentos de mulheres e feministas, com empenho de órgãos
governamentais, não governamentais e do Congresso Nacional.
Tem por objetivo principal criar “mecanismos para coibir e pre-
venir a violência doméstica e familiar contra a mulher” (artigo
1º), baseando-se na Constituição Federal (artigo 226, parágrafo
8º), na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas
de Violência contra a Mulher, na Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher,
entre outros tratados internacionais ratificados pelo Brasil
(SARDENBERG, 2010).
O referido diploma legal institui medidas punitivas aos agres-
sores, bem como medidas de proteção à integridade física e psico-
lógica das mulheres em situação de violência doméstica e familiar.
Prevê a assistência integral à vítima e seus familiares, mediante a
utilização de técnicas para o fortalecimento da autoestima e recu-
peração da sua cidadania, o que se concretiza por meio de uma rede
de atendimento jurídico, social e psicológico e, ainda, medidas de

68 Capítulo resultante de Projeto de Iniciação Científica na modalidade PIC, desenvolvido sob


orientação da professora Dra. Isadora Vier Machado, de agosto de 2015 a julho de 2016.
69 Bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Maringá.
70 Bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Maringá.
128

prevenção e de educação, a fim de enfrentar a reprodução social do


comportamento de violência baseado no gênero.
Nesse sentido, a Lei Maria da Penha dispõe que os entes fe-
derados (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) podem
criar e promover centros de atendimento integral e multidisci-
plinar para mulheres que foram vítimas de violência doméstica e
familiar (artigo 35 da Lei nº 11.340/06). Os centros de referência
são estruturas essenciais do programa de prevenção e enfrenta-
mento à violência contra as mulheres, uma vez que visam pro-
mover a ruptura desta problemática e a construção da cidadania
por meio de ações globais e de atendimento interdisciplinar.
Importa ressaltar que a concepção do direito da assistência
social é recente na história do Brasil. O grande marco foi a
Constituição Federal de 1988, chamada de Constituição Cidadã,
que conferiu, pela primeira vez, a condição de política pública
à assistência social (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO
SOCIAL, 2009, p. 4). Regulamentando o texto constitucional,
a Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS (Lei n. 8.742) foi
promulgada em 1993, estabelecendo de fato a assistência social
como um direito social não contributivo.
Organizada sob a forma de um sistema único, a assistência
social passou a se estruturar em bases territoriais, estabelecendo
suas ações em dois níveis de proteção: básica e especial, sendo
esta última subdividida em média e alta complexidade. Para
cada nível de proteção, o Sistema Único de Assistência Social
(SUAS), concebe uma unidade pública de referência na pres-
tação de um conjunto de serviços e na concessão de benefícios –
o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o Centro
de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS),
unidades estas que configuram a porta de entrada dos usuários ao
sistema (Idem, 2011, p. 4).
O CRAS constitui-se em uma unidade pública municipal
de assistência social, localizada nos municípios em áreas com
maiores índices de vulnerabilidade e risco social, sendo respon-
sável pela articulação dos serviços socioassistenciais no seu terri-
tório de abrangência e execução de serviços, programas e projetos
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 129

assistenciais de proteção social básica às famílias. O CREAS, por


sua vez, é unidade pública de abrangência e gestão municipal,
estadual ou regional, destinada à prestação de serviços especiali-
zados e continuados a famílias e indivíduos que se encontram em
situação de risco pessoal ou social, seja por violação de direitos ou
contingência, que demandam orientação e apoio especializados e
continuados (artigo 6oC, parágrafos 1o e 2o).
Existem, hoje na cidade de Maringá, oito Centros de
Referência de Assistência Social (CRAS Alvorada, CRAS
Mandacaru, CRAS Iguatemi, CRAS Itaipu, CRAS Ney Braga,
CRAS Requião, CRAS Santa Felicidade e CRAS Morangueira)
e dois Centros de Referência Especializado de Assistência Social
(CREAS I e CREAS II), atuando em consonância com as demais
entidades integrantes da rede pública de serviços (PREFEITURA
DE MARINGÁ, 2014-2015).
Em paralelo aos CRAS e CREAS, a fim de viabilizar a plena
e efetiva eficácia da vertente assistencial da Lei Maria da Penha, a
Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher es-
trutura seus próprios mecanismos de prevenção, atenção e proteção
às mulheres em situação de violência, por meio da implementação
de redes de serviços, da capacitação de profissionais, da criação de
normas e padrões para o atendimento, do aperfeiçoamento da le-
gislação e de iniciativas que interfiram nos padrões culturais e pa-
triarcais ainda existentes na sociedade brasileira. Como ações subsi-
diárias surgem: a constituição de sistemas nacionais de informação
sobre a violência contra as mulheres, o estímulo à produção de co-
nhecimento sobre o tema e o desenvolvimento de políticas públicas
que ampliem a autonomia das mulheres e garantam sua cidadania
plena (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2005-2006).
Assim, para que haja consonância entre as normativas vi-
gentes e a realidade social, mostra-se necessário o enfrentamento
à violência doméstica e familiar, nas suas manifestações ime-
diatas e mediatas, por meio da promoção de políticas públicas
que contemplem o aperfeiçoamento dos mecanismos sociais
existentes e a criação de novos, a formação continuada de profis-
sionais que atuam nessa área, o monitoramento dessas políticas,
130

por intermédio da construção de pesquisas e indicadores, e a rea-


lização de avaliações periódicas e sistemáticas.
Tratando-se de mecanismos sociais de assistência à mulher
em situação de violência, é imprescindível a realização de ava-
liações aprofundadas, para que as medidas surtam efeitos satis-
fatórios, tais como: a) mapeamento dos serviços existentes no
país (centros de atendimento, com suporte psicológico, social
e jurídico, casas-abrigo, delegacias especializadas, serviços
médico-legais e de atendimento jurídico), com seus critérios de
seletividade, capacidade operacional e seus fluxos de referência
e contra-referência; b) formulação de normas de segurança e pro-
teção a mulheres que sofrem violência, considerando a rede de
serviços existente e tendo em vista a sua ampliação e otimização;
c) definição de critérios de qualidade para funcionamento dos
serviços de apoio as mulheres que sofrem violência; d) forne-
cimento de um sistema de coleta de dados unificado e coerente
sobre crimes cometidos contra mulheres na esfera familiar; e)
elaboração de um programa de treinamento para profissionais
que lidam diretamente com a violência doméstica e familiar, vi-
sando a sensibilizá-los (as) e a qualificá-los (as) técnica e politi-
camente para esta temática (ALMEIDA, 2007, p. 36-37).
Considerando a ausência de padronização dos procedi-
mentos adotados nos centros de referência, fez-se necessária
a criação de uma norma técnica para constituir, em âmbito na-
cional, diretrizes, atribuições e padrões gerais de funcionamento
desse equipamento tão importante da Rede de Atendimento à
Mulher (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2006, p. 13).
Assim, por iniciativa da Secretaria de Políticas para as
Mulheres da Presidência da República, foi elaborada, no ano de
2006, a Norma Técnica de Uniformização dos Centros de Referência
de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, fornecendo as
informações e orientações para a implementação dessa modalidade
de serviço de atendimento nos municípios brasileiros.
A norma técnica elenca como princípios norteadores das
ações de intervenção dos centros de referência: o atendimento
das necessidades das mulheres em situação de violência; a defesa
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 131

dos direitos das mulheres e responsabilização do agressor e dos


serviços; o reconhecimento da diversidade de mulheres; o diag-
nóstico do contexto onde o episódio de violência se inseriu; evitar
ações de intervenção que possam causar maior risco à vítima;
articulação com os demais profissionais dos serviços de rede de
atendimento as mulheres; gestão democrática e o envolvimento
de mulheres no monitoramento das ações (Ibidem).
Prevê, ainda, a uniformização de diretrizes e procedimentos
de funcionamento e atendimento para esse equipamento da po-
lítica pública especial de prevenção e enfrentamento à violência
contra as mulheres, visando assegurar a qualidade do serviço e
o fornecimento de aporte técnico e estatístico para os gestores
municipais, estaduais e federais, bem como para profissionais e
comunidade em geral.

1 O centro de referência de atendimento


à mulher em Maringá

Nesse contexto, também no ano de 2006, foi criado o


Centro de Referência e Atendimento à Mulher Maria Mariá
(CRAMMM), por iniciativa do governo federal, da prefeitura
do município de Maringá-PR, juntamente com a Secretaria da
Mulher, para atender as mulheres vítimas de violência doméstica
e familiar da região metropolitana de Maringá.
O Centro de Referência de Atendimento à Mulher Maria
Mariá, como mecanismo integrante da política pública especial
de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres,
vincula-se administrativamente ao órgão gestor das políticas
para as mulheres do município de Maringá, representado pela
Secretaria da Mulher. Porém, no que diz respeito ao orçamento
para a manutenção e custeio dos gastos oriundos do Centro de
Referência, bem como da Casa Abrigo, tem-se que o suporte fi-
nanceiro advém principalmente da prefeitura do município, mas
também recebe subsídios do Estado.
Assim, considerando que o CRAMMM possui sua admi-
nistração e controle orçamentário vinculados ao poder executivo
132

municipal, a sua gestão de coordenação, via de regra, também


se modifica a cada quatro anos, uma vez que trata-se de cargo
de confiança. Importa ressaltar que as alterações frequentes de
gestão representam um óbice para a continuidade dos projetos
desenvolvidos, razão pela qual são evitadas. Inobstante isso, nos
últimos quatro anos a coordenação do CRAMMM foi modificada
três vezes, sendo a última mudança datada do ano de 2014.71
Tal como os demais centros de referência, o CRAMMM
oferece atendimento e acompanhamento social, psicológico e
orientação jurídica às mulheres em situação de violência, asse-
gurando o seu acesso às políticas públicas. Toda a assistência é
prestada por profissionais com qualificação para o tema, os quais
aplicam importantes estratégias de acolhida, reflexão, orientação
e empoderamento das mulheres.
Além de operar conforme os precedentes da Norma Técnica
de Uniformização dos Centros de Referência de Atendimento à
Mulher em Situação de Violência, da Secretaria de Políticas para
as Mulheres da Presidência da República, o centro de referência
supracitado encontra-se em fase de elaboração do seu regimento
interno, objetivando a regulamentação de seu funcionamento, em
específico, bem como a otimização dos trabalhos prestados.72
Atualmente, a equipe multidisciplinar que integra o
CRAMMM orienta e fornece todo o acompanhamento neces-
sário à vítima e seus familiares, visando o preparo para romper
com o ciclo de violência. A assistência prestada representa um
avanço na medida em que amplia as possibilidades de compre-
ensão do fenômeno da violência contra a mulher, reconhecendo
as especificidades inerentes à questão e a contribuição que profis-
sionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde
podem oferecer na resolução dos casos.
A equipe do CRAMMM é integrada por duas psicólogas,
duas assistentes sociais, uma coordenadora/advogada, um esta-
giário de direito, um estagiário vinculado ao serviço social, uma

71 Informações obtidas junto ao CRAMMM.


72 Informações obtidas junto ao CRAMMM.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 133

secretária, uma educadora de base que auxilia no cuidado com as


crianças na brinquedoteca e um motorista.73
Após o atendimento e a triagem realizada pelo centro de
referência, a equipe traça um plano de acompanhamento pontual
para cada situação. Em casos mais graves a vítima é encami-
nhada à Delegacia da Mulher, para que seja realizado o boletim
de ocorrência, e em seguida à Vara Especializada da Mulher, para
que as medidas protetivas sejam analisadas e deferidas em caráter
de urgência. Em situações de risco eminente de morte, o centro
de referência também é responsável pelo encaminhamento das
mulheres e filhos menores para a Casa Abrigo, local em que são
mantidos em segurança até que seja deferida a medida protetiva.
A Casa Abrigo Edna Rodrigues de Souza de Maringá-PR foi
fundada no ano de 2006 como um órgão vinculado à Secretaria
da Mulher, que trabalha em conjunto com o CRAMMM. A Casa
Abrigo atende mulheres e seus filhos menores, vítimas de vio-
lência doméstica e familiar, que se encontrem em situação de
risco eminente de morte.
A Casa Abrigo supracitada possui atualmente capacidade
para abrigar aproximadamente 17 pessoas, contando com um
quadro de funcionários composto por vigilância vinte e quatro
horas, uma zeladora, uma coordenadora, uma educadora de base,
sendo que todos os funcionários trabalham em jornada de 12 por
36 horas.74 O endereço e telefone da Casa Abrigo são mantidos
em segredo por motivos de segurança.
Durante todo o acompanhamento das mulheres em situação de
violência, tanto no Centro como na Casa Abrigo, também compete
à equipe multidisciplinar “fornecer subsídios por escrito ao juiz,
ao Ministério Público e a Defensoria Pública, mediante laudos
ou verbalmente em audiência, e desenvolver trabalhos de orien-
tação, encaminhamento, prevenção e outras medidas, voltados
para a ofendida, o agressor e os familiares, com especial atenção
às crianças e aos adolescentes” (artigo 30 da Lei nº 11.340/06).

73 Informações obtidas junto ao CRAMMM.


74 Informações obtidas junto ao CRAMMM.
134

Além de atendimento, em parceria com a Secretaria da


Mulher, o CRAMMM também oferece capacitação profissional
por meio de cursos nos Centros de Qualificação e Geração de
Rendas no Conjunto Residencial Copacabana e no Parque
Hortência II (PREFEITURA DE MARINGÁ, [?]).75
O Centro de Referência e Atendimento à Mulher Maria Mariá
obtinha sede junto à Avenida Humaitá, n. 774, Zona 04, na cidade
de Maringá-PR, onde seu funcionamento era precário em decor-
rência da carência estrutural. Atualmente, está localizado na região
central da cidade de Maringá, sito à Avenida Papa João XXIII, n.
483, Zona 02, próximo aos serviços da Rede de Atendimento à
Mulher (Secretaria Municipal da Mulher, Delegacia da Mulher,
5ª Vara Criminal – Juizado da Violência Doméstica e Familiar
Contra a Mulher e Promotoria Especializada de Defesa da Mulher
em Situação de Violência), em conformidade com o que preceitua
a Norma Técnica de Uniformização dos Centros de Referência de
Atendimento à Mulher em Situação de Violência. O atendimento
assistencial é realizado no período das 8h00 às 17h00, de segunda
a sexta-feira, e os contatos podem ocorrer por seu e-mail institu-
cional: semulher_cram@maringa.pr.gov.br (PREFEITURA DE
MARINGÁ, [?]).76
Apesar dos avanços no que diz respeito à criação de políticas
públicas voltadas para a garantia dos direitos das mulheres, em
geral, os centros de referência especializada dispõem de quadro
reduzido de profissionais especializados e suportam a falta de
investimentos financeiros e materiais.
O Estado é a entidade responsável por assegurar o direito à
saúde, integridade física e mental, assim como o acesso à justiça
de todas as mulheres, motivo pelo qual deve proporcionar serviços
adequados e eficientes para aqueles que não podem pagar por eles.
No que diz respeito ao orçamento estatal com perspectiva
de gênero, revela-se imprescindível a análise dos gastos públicos
sob uma perspectiva que seja capaz de identificar implicações
e impactos sobre a população feminina em comparação com a

75 Panfleto informativo do Centro de Referência e Atendimento à Mulher Maria Mariá (CRAMMM).


76 Panfleto informativo do Centro de Referência e Atendimento à Mulher Maria Mariá (CRAMMM).
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 135

masculina. A questão é identificar se os resultados são distri-


buídos de forma equitativa, se são adequados para atingir os
objetivos de igualdade e se as atividades desenhadas são igual-
mente apropriadas para mulheres e homens.
A problemática do orçamento estatal com a inclusão de gênero
aponta caminhos para desvendar como é possível estabelecer um
vínculo estreito entre políticas governamentais de igualdade e como
o governo obtém e aloca recursos para esse fim. A perspectiva de
gênero pode ser integrada aos processos de planejamento, mo-
nitoramento e avaliação da eficácia dos programas ou políticas,
no momento da definição do público-alvo, da análise do impacto
sobre os diferentes grupos que o compõe, bem como sobre padrões
de desigualdade existentes na sociedade (PRESIDÊNCIA DA
REPÚBLICA, 2005-2006, p. 95).
Nesse sentido, embora a Lei Maria da Penha tenha repre-
sentado conquistas significativas à sociedade, mostram-se la-
tentes as dificuldades inerentes à implementação integral de seus
institutos. As carências de atuação de seus organismos compro-
metem a assistência plena às mulheres em situação de violência
doméstica e familiar.
A presente pesquisa objetiva apontar as principais dificul-
dades enfrentadas no funcionamento dos centros de referência,
em especial do Centro de Referência de Atendimento à Mulher
Maria Mariá de Maringá, a fim de que possam ser supridas as
deficiências no atendimento e assistência das vítimas em situação
de violência e fortalecidos os vínculos com os demais institutos
da rede de atendimento.

2 Análise estrutural e política de atendimento


do centro de referência e atendimento à
mulher maria mariá (CRAMMM)

O livro Observatório de Violência de Gênero Entre Políticas


Públicas e Práticas Pedagógicas, coordenado por Crishna Mirella
de Andrade Correa e Eliane Rose Maio, (2015) aborda, em sua
segunda parte, uma pesquisa realizada nas instituições da rede
136

de atendimento à mulher em situação de violência, na região de


Maringá, estado do Paraná. Dentre as unidades estudadas, encontra-
-se o Centro de Referência e Atendimento à Mulher Maria Mariá
(CRAMMM), a Casa Abrigo, o Hospital Universitário de Maringá,
a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher e o Conselho
Tutelar, os quais trabalham de forma direta com os episódios de vio-
lência doméstica e familiar contra as mulheres na cidade.
Vale frisar a importância das análises empíricas locais para
aferir como as políticas públicas no âmbito da Lei Maira da
Penha repercutem no cotidiano da rede de atendimento à mulher
em situação de violência, isto é, ninguém melhor que as próprias
pessoas que atuam enquanto agentes para assinalar as limitações
existentes no sistema.
A análise do Centro de Referência e Atendimento à Mulher
Maria Mariá (CRAMMM) se deu a partir de uma pesquisa em-
pírica, também realizada por alunos e alunas do curso de Direito
da Universidade Estadual de Maringá (UEM), mediante entre-
vista com 07 (sete) agentes integrantes da equipe multidisciplinar
da unidade (Ibidem, p. 95-96).
As funcionárias do CRAMMM foram ouvidas individual-
mente, respondendo de maneira satisfatória os questionários e
elucidando outros aspectos, que acrescentaram e enriqueceram a
pesquisa (Ibidem, p. 152).
Nas entrevistas realizadas com sete funcionárias do
CRAMMM, que se encontram nas funções de Chefe de Serviço,
Coordenadora da Casa Abrigo, Educadora de Base, Assistente
Social, Secretária, Psicóloga e Gerente de Combate e Proteção
à Mulher, a equipe de pesquisa alega que foi possível perceber
que as agentes não passaram por uma capacitação formal sobre a
implementação da Lei Maria da Penha, buscando conhecer o dis-
positivo legal que iriam utilizar em seu cotidiano de trabalho por
intermédio de esforços próprios e de cursos e palestras organizadas
por iniciativa da própria Rede de Atendimento (Ibidem, p. 153).
No que diz respeito à qualidade e eficiência da Lei Maria da
Penha, quatro das sete entrevistadas a descreveram como insu-
ficiente, sendo que as demais oscilaram ao descrever a lei como
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 137

ultrapassada ou atual. Assim, considerando o contato diário com


a problemática e os mecanismos de resolução oferecidos pelo re-
ferido comando normativo, nota-se uma insatisfação da maioria
das agentes que trabalham no CRAMM em relação à qualidade
da legislação específica (Ibidem, p. 154). Os dois pontos de insu-
ficiência da Lei Maria da Penha mais recorrentes nas entrevistas
foram a falta de proteção efetiva à mulher, bem como a falta de
punição adequada ao agressor.
As funcionárias entrevistadas no CRAMMM foram unânimes
em apontar que a Lei Maria da Penha tem pontos positivos e sig-
nifica um grande avanço para política nacional de enfrentamento à
violência doméstica contra as mulheres. Entretanto, afirmaram que
ainda é preciso que ocorram melhorias em relação à aplicabilidade
da legislação e investimentos em estrutura e políticas públicas, o
que compromete o cumprimento efetivo das previsões da lei es-
pecial (Ibidem, p. 152-153).
Segundo as agentes entrevistadas, existe uma grave limi-
tação estrutural da polícia em conseguir atender todas as de-
mandas relacionadas à violência doméstica contra a mulher,
sobretudo porque muitas ocorrências acontecem no período da
noite e madrugada. Além disso, ainda não há funcionamento 24
horas da delegacia da mulher e inexiste qualquer projeto dire-
cionado ao acompanhamento e recuperação do agressor.
Tais circunstâncias, somadas às dificuldades que já existem
em relação à estrutura dos órgãos da assistência social de uma
forma geral, acabam tornando o serviço das agentes penoso.
Porém, as agentes afirmam que, mesmo diante das limitações
existentes, acabam dando seguimento a todos os trâmites des-
critos na lei, dentro de sua competência.
Os integrantes da Rede de Atendimento empregam esforços
na busca por maiores informações sobre a Lei Maria da Penha,
e demais regulamentações que disciplinam sua atividade, mos-
trando sua disponibilidade para ajudar as vítimas, muitas vezes
fora do horário de trabalho, e preocupando-se com o desfecho
dos casos. É inegável que os profissionais da Rede possuem um
alto nível de comprometimento pessoal com o tema da violência
138

doméstica contra a mulher, sendo possível, inclusive, apontar


essa característica como um dos fatores responsáveis pela sus-
tentação da política de proteção às mulheres em Maringá.
A funcionária entrevistada, identificada pela letra S., co-
mentou: “a lei por si só não adianta, precisa ser cumprida e efe-
tivada na prática e para isso as pessoas precisam ter sensibilidade
para a causa, o que é um grande desafio” (transcrição de entre-
vista 2/ CRAMMM/2015). Por outro lado, se revelou otimista em
relação às políticas públicas voltadas às mulheres em situação de
violência, já que promove a criação de uma consciência sobre
o problema e uma mudança em relação ao pensamento sobre a
mulher em nossa cultura.

3 Acesso à rede de atendimento às mulheres em


situação de violência doméstica e familiar

No que tange à acessibilidade de atendimento, vale destacar


que a grande maioria das mulheres que buscam acolhimento na
rede de atendimento às mulheres em situação de violência são
hipossuficientes, sendo que a rota fragmentada que têm que per-
correr para dar continuidade aos atendimentos iniciados acaba di-
ficultando o prosseguimento do seu acompanhamento.
Para melhor atender as mulheres em situação de violência,
que necessitam do auxílio da rede de atendimento, o CRAMMM,
que, até meados do ano de 2013, funcionava na Avenida Humaitá,
n. 774, Zona 04, na cidade de Maringá-PR, mudou-se para a
região central da cidade, na Avenida Papa João XXIII, n. 483,
Zona 02, próximo aos demais serviços da Rede de Atendimento
à Mulher (Secretaria Municipal da Mulher, Delegacia da Mulher,
5ª Vara Criminal – Juizado da Violência Doméstica e Familiar
Contra a Mulher e Promotoria Especializada de Defesa da Mulher
em Situação de Violência).
Importa salientar que as mudanças da sede ocorreram por
razões estruturais, bem como pela localização estratégica, visando
conferir um atendimento mais sistematizado e adequado às mulheres
vítimas de violência doméstica. Além do atendimento de qualidade,
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 139

as mudanças estruturais também refletiram em um maior conforto e


acolhimento das mulheres que buscam apoio junto ao CRAMMM.

Figura 1 – Localização antiga e atual do CRAMMM

Figura 2 – Localização atual do CRAMMM

Fonte: Google Maps.


140

No entanto, embora a maioria dos órgãos públicos vol-


tados às mulheres em situação de violência se encontrem na
região central do município, o maior número de mulheres
acompanhadas pelos referidos serviços residem na parte peri-
férica da cidade (CORREA, MAIO, 2015, p. 100).
Apesar de se situar na região central da cidade, próximo
a Av. Tiradentes e a Catedral Nossa Senhora da Glória, o
CRAMMM ainda é uma instância pouco conhecida da popu-
lação maringaense, se comparada a outras unidades da rede de
atendimento a mulheres em situação de violência, tal como a
Delegacia da Mulher, embora oferte tantos recursos às vítimas
de violência doméstica e familiar. Isto pôde ser constato na
pesquisa referenciada porque, ao serem questionados sobre
o endereço do referido Centro de Referência, à apenas duas
quadras de distância do local, os munícipes não sabiam in-
formar sua localização (Ibidem, p. 151).
Diante desse cenário, a SPM possui projetos que visam
ofertar um tratamento mais humanizado e especializado para
as mulheres que procuram essas instâncias, salientada a par-
ticularidade de que todas se encontrarão em um só lugar, am-
pliando, dessa forma, a acessibilidade das mulheres em si-
tuação de violência aos equipamentos públicos.
No tocante à política de atendimento, todas as entrevis-
tadas afirmaram que o organismo criado para atendimento dos
casos relacionados à violência de gênero em Maringá fun-
ciona, dentro das possibilidades de estrutura e mecanismos
que lhes foram disponibilizados, havendo, inclusive, uma
intercomunicação razoável entre o CRAMMM e os demais
órgãos da Rede de Atendimento (Ibidem, p. 156-158).
A UBS (Unidade Básica de Saúde) é considerada, pelas
agentes, a principal porta de entrada para o atendimento no
CRAMMM, pois a maioria das vítimas não procura auxilio
do Centro de Referência inicialmente. A Delegacia da Mulher
e as escolas também são reconhecidas como encaminhadoras
de grande parte dos casos, estas por ação dos professores que
notam a queda do rendimento ou mudanças no comportamento
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 141

das alunas, que, em algumas situações, relatam violências tes-


temunhadas em suas residências (Ibidem).

4 A eficácia da atuação do centro de referência e


atendimento à mulher maria mariá (crammm)
como mecanismo de política pública

O Centro de Referência analisa os casos de forma indivi-


dualizada, orienta no registro de boletim de ocorrência junto
à delegacia, e traça medidas que auxiliem na resolução da
problemática, envolvendo o encaminhamento da mulher em
situação de violência doméstica para a Casa-Abrigo, quando
a vítima corre risco de morte, ou auxiliando nas medidas judi-
ciais cabíveis. Além disso, o CRAMMM também proporciona
acompanhamentos de profissionais da área médica, psico-
lógica e educacional.
Uma das secretárias afirma que Maringá é referência
em termos de políticas públicas para mulheres. Como foi es-
colhida como município polo, possui delegacia da mulher,
CRAMMM, Casa Abrigo, Vara da Mulher, enfim, uma es-
trutura capaz de atender melhor a demanda da cidade em re-
lação à cidades menores, que não contam com a estrutura da
rede e enviam boa parte das demandas para as cidades polo. O
polo de Maringá se destaca na região pelo comprometimento
das agentes com o atendimento, de modo que são recorrente-
mente chamadas a realizar cursos e reuniões de orientações
nas cidades vizinhas (Ibidem).
Trabalhar com a realidade de mulheres vítimas de violência
exige um exercício de autorreflexão por parte das profissionais
do Centro, o que leva a rever concepções sobre o mundo e,
inclusive, sobre suas próprias vidas. Por mais que seja um tra-
balho, não pode ser equiparado a um trabalho qualquer. Mesmo
com os cursos de formação e capacitação, lidar com a realidade
das vítimas exige um grande esforço, discernimento e compre-
ensão da realidade com a qual se está lidando. A dedicação das
142

agentes que atuam no enfrentamento da violência merece es-


pecial destaque (FUJIKAWA, 2013, p. 56).
Inobstante o reconhecimento regional quanto ao bom fun-
cionamento da Rede de Atendimento em Maringá, as agentes do
CRAMMM teceram algumas reclamações em relação à melhor
estruturação da rede, tais como: necessidade de melhorar a inte-
gração dos órgãos envolvidos, principalmente secretaria, dele-
gacia da mulher e hospitais; melhorar o atendimento da polícia
militar, que habitualmente não atende bem, nem sempre envia
viaturas, e quando são solicitados não sabem lidar com a si-
tuação delicada (CORREA; MAIO, 2015, p. 158-159).
Não há como deixar de salientar também que, além das di-
ficuldades narradas, ainda há a influência política que interfere
na gestão do Centro e também da Secretaria da Mulher. A cada
nova gestão administrativa do município os gestores tentam mo-
dificar toda a equipe que atua no Centro, principalmente quando
o novo partido que assume o poder é de oposição ao anterior.
Modificando toda a equipe, aqueles que ingressam, muitas vezes,
não sabem nem por onde começar, perdendo-se muito tempo ta-
teando o campo de atuação dos trabalhos sociais/políticos que
serão desenvolvidos (FUJIKAWA, 2013, p. 57-58).
Ainda, Correa e Maio (2015) vislumbraram uma insatis-
fação das agentes do CRAMMM diante da ausência da implan-
tação da Casa da Mulher Brasileira e da Casa de Passagem no
Município de Maringá, questões que também foram trazidas à
baila na IV Conferência Municipal dos Direitos das Mulheres
de Maringá, realizada em setembro de 2015.

4.1 Políticas de abrigamento

A Casa da Mulher Brasileira, um dos eixos do programa


Mulher, Viver sem Violência, é uma projeto elaborado pela
Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da
República (SPM), que visa reunir em um só ambiente os ser-
viços especializados da rede de atendimento, quais sejam:
Acolhimento e Triagem, Apoio Psicossocial, Delegacia da
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 143

Mulher, Juizado Especializado em Violência Doméstica e


Familiar Contra às Mulheres, Ministério Público, Defensoria
Pública, Promoção de Autonomia Econômica, Brinquedoteca,
Alojamento de Passagem e Central de Transportes.
É cediço que, quando empregadas as políticas públicas
de abrigamento, como mecanismo de proteção das mulheres
em situação de violência doméstica, as vítimas adquirem
maior autonomia e poder decisório ao se deparar com uma
alternativa que viabilize a fuga do contexto violento.
O abrigamento, proposto no âmbito da Política Nacional
de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, não diz res-
peito somente a estabelecimentos como casas-abrigo, casas de
passagem e casas de acolhimento provisório, mas também a
programas e benefícios, e outros serviços de acolhimento que
assegurem o bem-estar físico, social e psicológico das mu-
lheres em situação de violência (SPM, 2011).
As Casas-Abrigo constituem serviços públicos que
devem compor a Rede de Atendimento à mulher em situação
de violência, com a atribuição de promover, de forma pro-
visória e sigilosa, o acolhimento seguro de mulheres em si-
tuação de violência doméstica e familiar sob risco de morte,
acompanhadas ou não de seus/suas filhos/as.
A Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência
contra as Mulheres e a Secretaria de Política para as Mulheres
para Casas-Abrigo definem as casas-abrigo como:

[...] locais seguros que oferecem moradia protegida e


atendimento integral a mulheres em risco de vida imi-
nente em razão da violência doméstica. É um serviço de
caráter sigiloso e temporário, no qual as usuárias perma-
necem por um período determinado, durante o qual de-
verão reunir condições necessárias para retomar o curso
de suas vidas (SPM/2015).

Embora as vias de abrigamento ofereçam segurança


às mulheres em situação de violência doméstica e familiar,
bem como aos seus filhos/as, vale ressaltar que inúmeras
144

problemáticas tornam as Casas-Abrigo um dos serviços que


possui menor demanda nas diversas localidades onde estão
instaladas. Isso porque, os equívocos ocorridos no atendi-
mento, triagem e encaminhamento das mulheres pela Rede de
Atendimento acabam refletindo na baixa procura.
Além disso, as restrições impostas às pessoas em estadia
nas Casas-Abrigo também causam receio e precisam ser re-
pensadas, uma vez que as abrigadas não podem receber vi-
sitas, não podem acessar telefone e muitas vezes são retiradas
das cidades em que vivem, de forma que seus laços afetivos e
vínculos sociais são rompidos (AMORIN, BARROS, 2014).
Embora estas limitações sejam justificadas, sob o argumento
de que são necessárias para garantir a segurança, é preciso
refletir sobre os impactos sociais que elas geram para as mu-
lheres em situação de abrigamento.
Importa salientar que ninguém pode se ausentar da Casa-
Abrigo durante o tempo de abrigamento. As/os filhas/os têm
as faltas abonadas na escola e a mulher no trabalho. Saídas
são permitidas apenas para ir à Secretária da Mulher, hospital
ou receber a Bolsa Família, ocasiões em que as mulheres são
acompanhadas pelo motorista e pela Educadora de Base.
Embora haja uma série de restrições, de acordo com as
agentes do CRAMMM, o abrigo de Maringá possui grande
procura, mas não consegue atender toda a demanda necessária
porque somente pode acolher as mulheres em iminência de
morte, deixando de fora as que não estão nessa situação e as mu-
lheres com deficiência mental (CORREA; MAIO, 2015, p. 159-
163). O atendimento a todos os casos poderia colocar em risco
a localização sigilosa do local, que é um fator muito importante
para garantir a integridade física das mulheres abrigadas.
Geralmente, as mulheres permanecem na Casa-Abrigo
por um período de quinze dias, podendo no máximo perma-
necer por noventa dias. Entretanto, há a possibilidade de se
realizar requerimento judicial, objetivando obter autorização
para que a pessoa permaneça abrigada por maior prazo.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 145

O abrigo possui fundamental importância enquanto a


mulher em situação de violência aguarda o deferimento da
medida protetiva. Após a concessão da medida, a mulher pode
voltar para casa tutelada por uma ordem de restrição, a qual
impõe que o agressor deve se manter, no mínimo, a trezentos
metros de distância, sendo que a transgressão da ordem pode
culminar em sua prisão preventiva. Insere-se, nesse contexto,
a importância do botão do pânico, que é um aparelho recebido
pela vítima, junto a uma bolsa ou cinta para poder usar no
braço ou cintura. Ao perceber a aproximação do agressor,
deve apertar o botão do aparelho quatro vezes para gravar
tudo ao seu redor com áudio e vídeo, além de acionar a guarda
municipal e a polícia militar. O aparelho serve como um GPS
e é capaz de informar o endereço e os dados da mulher no
momento para que a polícia possa localizá-la. No entanto,
Maringá ainda não possui o botão de pânico implementado,
um dos motivos pelo qual as agentes não sentem total segu-
rança para devolver as mulheres para casa (Ibidem).
Segundo a Secretaria de Política para Mulheres, o estado
do Paraná possui somente 9 casas abrigo, que estão localizadas
nas cidades de Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa,
Cascavel, São José dos Pinhais, Foz do Iguaçu, Guarapuava e
Campo Mourão.
Para ampliar as opções, bem como oferecer alternativas
às mulheres em situação de violência, é de grande importância
que fossem criados abrigos que abrangessem as mulheres em
situação de violência doméstica e familiar que não estivessem
sob risco iminente de morte ou, ainda, abrigos de curta duração,
para mulheres que estão aguardando a concessão das medidas
protetivas de urgência e não estão seguras em suas casas.
Embora as casas de passagem, ou casas de acolhimento
provisório de curta duração, não possuam uma previsão legal
que as incorpore aos serviços socioassistenciais, estas repre-
sentam uma alternativa viável e indispensável no âmbito de
políticas públicas, dirigindo-se, principalmente, às mulheres
que não se encontrem em situação de risco morte iminente e
146

que terão um local em que serão acolhidas por um período de


até 15 dias, acompanhadas ou não de seus filhos, de forma não
sigilosa, sendo permitido que elas saiam para trabalhar ou re-
alizar outra atividade cotidiana, e mantenham contato com fa-
miliares. Importante consignar que as Casas de Passagem não
se limitam ao abrigamento de mulheres em situação de vio-
lência doméstica e familiar, tendo o compromisso de atender
igualmente mulheres que sofrem outras formas de violência,
notadamente as vítimas do tráfico de pessoas (SPM, 2011).
Nesse contexto, fica evidente a necessidade da imple-
mentação de diferentes formas de abrigamento e aprimora-
mento das já existentes, para que sejam mais condizentes com
a realidade e necessidades das mulheres em situação de vio-
lência. Ressalta-se que a própria Secretaria de Políticas para
as Mulheres, a quem incumbe determinar os parâmetros das
políticas a serem criadas pelo Estado, já assinalou a relevância
da casa de abrigamento provisório.

4.2 Planejamento orçamentário e as


políticas públicas de enfrentamento à
violência doméstica e familiar

O financiamento das políticas públicas voltadas às mu-


lheres em situação de violência doméstica e familiar, inclusive
dos espaços de abrigamento, deve ser dividido entre União,
Estados e Municípios, cada um colaborando com aquilo que
for mais adequado. Contudo, isso não significa tão somente
a divisão entre as três esferas da federação, mas também a
partilha entre os Ministérios e Secretarias que compõem o
governo, tais como Assistência Social, Segurança Pública,
Políticas para as Mulheres entre outras.
Importa esclarecer que a Lei de Diretrizes Orçamentárias
define a formalização de caráter anual, compreendendo as
metas e prioridades da administração pública estadual, direta
ou indireta, e de empresas de economia mista; as projeções de
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 147

receitas e despesas para o exercício financeiro subsequente,


bem como as formas de distribuição setorial e regional dos
recursos. Já a Lei Orçamentária Anual se destina ao controle
das despesas correntes, ou seja, àquelas empregadas na ma-
nutenção dos serviços públicos. Sob tal panorama, insere-se
o Plano Plurianual Estadual, o qual é executado em exercício
pelo orçamento anual, cujas despesas de capital devem ser
nele previstas (ALEP, 2016-2019).
No Programa de Desenvolvimento Social estão con-
tidas as ações referentes às Políticas Públicas Estaduais de
Assistência Social e Defesa dos Direitos da Mulher. Todas
estas Políticas são de responsabilidade da Secretaria de Estado
do Trabalho e Desenvolvimento Social (SEDS) (Ibidem).
O Plano Estadual de Políticas para Mulheres do Estado
do Paraná orienta as ações a serem desenvolvidas pelos di-
versos órgãos estaduais, também numa perspectiva interse-
torial, incluindo entre as temáticas o enfrentamento a todas as
formas de violência contra mulheres, autonomia econômica e
igualdade no mundo do trabalho, educação inclusiva, saúde,
cultura, esporte, comunicação e mídias democráticas, a serem
levadas aos municípios paranaenses.
A emenda do programa estadual que aborda o apoio
aos programas de políticas públicas voltadas ao Centro de
Referência, no combate e na proteção da mulher em situação
de violência, também engloba a proteção ao idoso, a implan-
tação do Centro Integrado de Atenção à criança e família, o
combate do trabalho infantil. Assim, verifica-se que, além
de obter um orçamento exíguo, o percentual da verba estatal
destinado às políticas públicas de enfrentamento à violência
contra a mulher tem que ser dividido com outros programas
ligados à assistência social.
Nesse sentido, vale colacionar o quadro de planejamento
orçamentário do Plano Plurianual de 2016-2019, do Estado do
Paraná, voltado aos programas e projetos interligados a assis-
tência à mulher em situação de violência:
148

Fonte: Plano Plurianual de 2016-2016.

Ainda, vale ressaltar que os municípios da região, respon-


sáveis pelo envio das mulheres para Maringá para fins de abriga-
mento, têm a responsabilidade de auxiliar nos gastos ordinários
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 149

da abrigada, tal como produtos de limpeza e mantimentos. A


manutenção das abrigadas também é subsidiada por doações do
Programa do Voluntariado Paranaense (PROVOPAR), que en-
volve, inclusive, a arrecadação de roupas e demais pertences
(CORREA; MAIO, 2015. p 159 -163).

Conclusão

Há algumas décadas, o poder público vem despendendo


esforços na tentativa de reduzir as desigualdades de gênero e a
violência contra a mulher, promovendo políticas públicas de en-
frentamento à violência doméstica e familiar, bem como introdu-
zindo mecanismos de empoderamento das mulheres.
Após a promulgação da Lei 11.340/06 (Lei Maria da
Penha), os avanços e conquistas foram significativos nesta seara,
uma vez que o referido diploma legal rompeu estigmas e assi-
nalou, com traços fortes, a importância da Rede de Atendimento
na promoção da recuperação e assistência integral à vítima e seus
familiares, de forma engajada e multidisciplinar.
Entretanto, não há como deixar de considerar que há ca-
rências e deficiências importantes que remanescem e maculam
o sistema, o que dificulta a efetiva assistência às mulheres em
situação de violência doméstica e familiar.
A pesquisa empírica realizada no CRAMMM foi imprescin-
dível para traçar uma perspectiva real da situação de violência do-
méstica e familiar vivenciada na região de Maringá/PR, uma vez
que o referido Centro de Referência presta atendimento não só às
munícipes de Maringá, mas, também, às de cidades vizinhas.
Ainda que o município de Maringá venha investindo fi-
nanceiramente para que o Centro de Referencia tenha melhor
estrutura física para os atendimentos e conte com profissionais
qualificados, nota-se que ainda há um longo caminho a trilhar.
Dentre os principais problemas vivenciados no cotidiano de
trabalho do CRAMMM, conforme apontado pelas agentes, estão a
falta de estrutura para conferir plena efetividade aos mecanismos
previstos na Lei Maria da Penha, ausência de preparo dos policiais
150

para atender às demandas interligadas à violência doméstica e fa-


miliar, precariedade da intercomunicação e articulação entre os
órgãos da Rede de Atendimento, ausência de casas de passagem ou
abrigamento provisório. Estes são os maiores desafios das políticas
de atendimentos às mulheres vítimas de violência, fazer com que o
atendimento/acolhimento seja de qualidade, articulado e que ajude
a vítima a sair da situação de violência.
A estrutura existente em Maringá para atender as mulheres
vítimas de violência é referência regional e nacional, porém a Rede
de Atendimento, muitas vezes, não trabalha em conjunto, o que
prejudica a continuidade e a efetividade do acompanhamento e tra-
tamento da vítima.
Enquanto o poder público e a sociedade, como um todo, não
voltar seus olhares à gravidade da problemática que envolve a vio-
lência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil, a Lei Maria
da Penha continuará sendo aplicada de forma incipiente, a demanda
vai prosseguir adquirindo proporções crescentes e os órgãos inte-
grantes da Rede de Atendimento permanecerão limitados e atados
aos recursos precários que lhes são disponibilizados.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 151

REFERÊNCIAS
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ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PARANÁ.


Plano Plurianual de 2016-2019. Disponível em: <http://www.
alep.pr.gov.br/arquivos/orcamento/87>. Acessado em: 06.03.2016.

ALMEIDA, Suely de Souza. Violência de gênero e políticas


públicas. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007. 257 p.

AMORIN, Elba Ravane Alves; BARROS, Ana Maria. A Casa


Abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica e os di-
reitos humanos. In: ENCONTRO ANDHEP, 4, 2014, São Paulo.
Anais. São Paulo: Associação Nacional de Direitos Humanos,
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CORREA, Crishna Mirella de Andrade; MAIO, Eliane Rose.


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152

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Humanos e Conselho Estadual dos Direitos da Mulher. Plano
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SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES.


Diretrizes Nacionais para o Abrigamento de Mulheres em
situação de risco e Violência. Brasília: Secretaria de Políticas
para as Mulheres, 2011.
A DINÂMICA DE ATUAÇÃO E
A EXPERIÊNCIA DO NUMAPE/
UEM NO CONTEXTO DA
REDE DE ATENDIMENTOS ÀS
MULHERES EM SITUAÇÃO DE
VIOLÊNCIA DE MARINGÁ/PR
Isadora Vier Machado77
Adriele Colontônio Caberlim78
Crishna Mirella de Andrade Correa79
Daniele da Silva Fébole80
Karla Oliveira Kian81
Letícia de Matos Lessa82
Letícia Garcia Ribeiro Dyniewicz83
Marília Ferruzzi Costa84
Thatiane Moro Mulati85

Introdução

Não há dúvidas, no percurso de mais de uma década da Lei


11.340/06 (Lei Maria da Penha), de que sua integral implemen-
tação depende da articulação de vários setores da sociedade. Não

77 Coordenadora do NUMAPE/UEM no período de 2014 a julho de 2016. Professora adjunta do


curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá. Mestre em Direito Pela UFSC (2010).
Doutora em Ciências Humanas pela UFSC (2013). E-mail: isadoravier@yahoo.com.br.
78 Graduanda em Direito pela Universidade Estadual de Maringá. Bolsista do NUMAPE/UEM no
período de janeiro de 2017 a dezembro de 2017.
79 Coordenadora do NUMAPE/UEM a partir do período de agosto de 2016. Professora assistente do
curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá. Mestre em Direito Pela UFSC. Doutoranda
em Ciências Humanas pela UFSC.
80 Graduada em Psicologia pela UEM. Mestre em Psicologia pela UEM (2017). Residente técnica
em Psicologia no NUMAPE desde 2017.
81 Graduanda em Psicologia pela UEM. Bolsista do NUMAPE/UEM no período de janeiro de 2017
a dezembro de 2017.
82 Graduada em Direito Penal UEM. Bolsista estagiária do NUMAPE/UEM no período de janeiro a
dezembro de 2016. Advogada no núcleo no período de janeiro a dezembro de 2017.
83 Professora adjunta do Departamento de Direito Público da UEM. Mestre em Direito pela UFSC.
Doutora em Direito pela PUC-RJ. Colaboradora no NUMAPE/UEM a partir de 2017.
84 Graduada em Direito Penal UEM. Bolsista estagiária do NUMAPE/UEM no período de janeiro a
dezembro de 2016. Advogada no núcleo no período de janeiro a dezembro de 2017.
85 Graduanda em Direito pela Universidade Estadual de Maringá. Bolsista do NUMAPE/UEM no
período de janeiro de 2017 a dezembro de 2017.
154

à toa, as políticas para mulheres foram construídas, na última


década, a partir da noção da rede de atendimentos. De acordo com
o documento oficial elaborado pela Presidência da República, em
2011, para explicar tal conceito:

O conceito de rede de enfrentamento à violência contra


as mulheres diz respeito à atuação articulada entre as ins-
tituições/serviços governamentais, não-governamentais e
a comunidade, visando ao desenvolvimento de estratégias
efetivas de prevenção e de políticas que garantam o empo-
deramento e construção da autonomia das mulheres, os seus
direitos humanos, a responsabilização dos agressores e a as-
sistência qualificada às mulheres em situação de violência.
(BRASIL, 2011, p. 13)

Foi a partir das experiências de articulação com as ins-


tâncias analisadas nos capítulos precedentes que decidimos
propor a criação do chamado NUMAPE/UEM – Núcleo de
Estudos sobre a Lei Maria da Penha.
Trata-se de um Projeto de Extensão financiado pela SETI/
PR – Secretária da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, do
Estado do Paraná, no âmbito do programa Universidade Sem
Fronteiras. A proposta foi elaborada no ano de 2014, e sua
implementação efetiva se deu em setembro de 2015, atrelado
ao curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá,
mas também com a colaboração do curso de Psicologia. Seu
objetivo principal é o de promover orientações, atendimentos
e encaminhamentos a mulheres em diferentes contextos de
violência doméstica e familiar, com o diferencial de estar
calcado em experiências de pesquisa nos Estudos Feministas
e de Gênero.
Atualmente, o projeto conta com a participação de 02
(duas) profissionais bolsistas, recém-formadas em Direito e
habilitadas para o exercício da advocacia; 02 (duas) gradu-
andas em Direito; 01 (uma) Psicóloga, residente técnica; 01
(uma) bolsista graduanda em Psicologia. Colaboram, ainda,
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 155

04 (quatro) bolsistas de iniciação científica em nível de Ensino


Médio, com ações que serão a seguir descritas; e atuam dire-
tamente no projeto 03 (três) docentes do curso de Direito e 01
(uma) docente do curso de Psicologia.
O funcionamento do núcleo acontece de segunda a sexta-
-feira, com atendimentos preliminares mediante agendamento,
e com encaminhamentos para os próximos atendimentos a
depender do caráter da demanda ou da urgência da situação.
Mas a atuação da equipe não se resume a estes momentos,
abarcando outras ações que tomam lugar fora dos horários de
efetivo atendimento e que serão aqui descritas.
É conveniente lembrar, como já pontuado em outras pu-
blicações, que o que se busca no NUMAPE é concretizar
uma experiência de advocacy feminista, conforme Libardoni
(2000, passim). Quer dizer, as atividades desempenhadas no
núcleo não foram propriamente inovadoras, mas sim inspi-
radas em outros serviços semelhantes já existentes no Brasil
desde a década de 1980, principalmente. Todavia, no con-
texto da rede de atendimentos de Maringá e região, não há dú-
vidas de que a ação não encontra precedentes (VENÂNCIO;
MACHADO, 2016).

1 A importância da advocacy
feminista no contexto da rede

É importante reafirmar (MACHADO; CORREA, 2016)


que a advocacy feminista não é, simplesmente, a prestação
exclusiva de serviços advocatícios. A proposta vai além, con-
solidando articulações da sociedade civil para constituir um
posicionamento coeso pela garantia dos direitos das mulheres,
além da promoção de assistência jurídica. O núcleo buscou
inspiração em antecedentes históricos importantes no Brasil,
como o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa
dos Direitos da Mulher (CLADEM) que remonta à década de
1980, ou a THEMIS – Gênero, Justiça e Direitos Humanos,
156

criada em 1993, apenas para exemplificar. Desde 2017, vem


trabalhando com a inestimável contribuição da professora
Dra. Gláucia Pinheiro de Brida, vinculada ao Departamento
de Psicologia da UEM, com vistas a fortalecer também as
ações voltadas à prevenção ou ruptura de ciclos de violências,
constituindo grupos de mulheres, atuando na Casa Abrigo do
Município, e mapeando os serviços psicossociais disponíveis
na rede de atendimentos.
O NUMAPE/UEM também cumpre com o papel de ajudar
as instâncias oficiais – como a Delegacia, ou o Juizado de
Violência Doméstica e Familiar (que, no caso da comarca, tem
competência criminal exclusiva) a absorver a demanda cotidiana.
No âmbito da rede, o projeto acaba sendo identificado
como canal de escuta qualificada, em que os atendimentos pre-
liminares são feitos pela equipe da Psicologia, sem necessidade
alguma de registro prévio de Boletim de Ocorrência, aspecto
este que diferencia nosso atendimento daquele ofertado, por
exemplo, pelo Centro de Referência especializado. Este pri-
meiro contato também é crucial para que as próprias mulheres
expressem suas motivações, receios, angústias e perspectivas,
além de ser um canal fundamental de percepção sobre a real
necessidade de uma futura intervenção jurídica. Em caso de
eventual encaminhamento solicitado pela própria assistida, ou
necessidade identificada pela equipe durante o acolhimento,
disponibilizamos, alternativa ou cumulativamente: acom-
panhamento psicoterápico, direcionamento para a rede de
saúde ou assistência social, em instâncias como os Centros
de Referência em assistência social especializados, Conselho
Tutelar, Secretaria de Educação, Secretaria de Assistência
Social e Cidadania, ou Unidade Básica de Saúde em geral.
Um segundo atendimento ainda é agendado, para que se
proceda à avaliação jurídica do caso, lembrando que o projeto
atua principalmente em demandas como divórcio, guarda e
pensão, já que as demandas criminais são de atribuição, prio-
ritariamente, do Ministério Público.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 157

O núcleo, no período de janeiro de 2016 a janeiro de


2017, contabilizou um total de 181 (cento e oitenta e um) aten-
dimentos presencias, 395 (trezentas e noventa e cinco) comu-
nicações por meio telefônico, 159 (cento e cinquenta e nove)
e-mails trocados. Há 28 (vinte e oito) processos de natureza
cível em trâmite e 34 (trinta e quatro) acompanhamentos de
teor criminal. Ademais, foram realizadas 08 (oito) audiências,
todas de conciliação, no mesmo período.
Além disso, em busca do fortalecimento da rede e da oti-
mização das políticas públicas para mulheres, o NUMAPE/
UEM defende a construção de um modelo de justiça que vá
para além da própria lei (DERRIDA, 2007), fazendo-se pre-
sente em ações permanentes para mulheres encarceradas,
campanhas preventivas no âmbito universitário, rodas de con-
versa e participação de seus membros em eventos de produção
científica de artigos sobre a temática de enfrentamento à vio-
lência contra a mulher, etc.
Outra prerrogativa do núcleo, para buscar ampliar o
âmbito de incidência das políticas públicas por mulheres na
cidade e no entorno, são as parceiras com outros atores so-
ciais, como, por exemplo, o “Movimento Nós Podemos”, de
Maringá-PR, que articula e promove a temática dos “Objetivos
de Desenvolvimento do Milênio” (ODS), da ONU. Ademais,
uma das advogadas passou a fazer parte da Comissão de
Diversidade Sexual e de Gênero da OAB, tendo sido eleita de-
legada para a 3a Conferência Nacional LGBT. Ainda, a coor-
denadora foi conselheira do Fórum Maringaense de Mulheres,
organização local que promove ações pelos direitos das mu-
lheres, e também integrou o Conselho Municipal dos Direitos
das Mulheres de Maringá, até julho de 2016.

2 O evento uma década de lei maria da


penha: percursos, práticas e desafios

O eixo de formação teórica da equipe é indispensável para


o fortalecimento do nosso trabalho. Como a ação de extensão
158

foi concebida a partir de uma pesquisa sobre a rede de tandi-


mentos maringaense, buscamos, incessantemente, promover a
formação do grupo, destacando-se, assim, as reuniões mensais
para discussão de temáticas de pesquisa afeitas à Lei Maria da
Penha.
No mesmo sentido, e também atendendo aos pressu-
postos da pesquisa contemplada no âmbito da Chamada
Universal que deu origem a este livro, nos dias 01 a 03 de
agosto de 2016, o NUMAPE/UEM esteve à frente da or-
ganização do evento “Uma década de Lei Maria da Penha:
percursos, práticas e desafios: I Congresso Internacional do
Núcleo de Estudos de Gênero e Direito (NEG) e do Núcleo
de Política Criminal (NUPOC)”.
Durante três dias, o núcleo convocou a rede para par-
ticipar conosco de atividades variadas, consistentes em pa-
lestras, grupos para apresentação de trabalhos, oficinas lú-
dicas, apresentações culturais, exposições artísticas e mesas
redondas para discussão da implementação da Lei, em
Maringá, com agentes da rede.
Com inscrições abertas à comunidade, mais de 300
pessoas participaram, vindas de outros estados do Brasil, in-
clusive (como São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais
e Rio de Janeiro).
No cronograma do evento, registramos as seguintes atividades:

01/08/2016

MANHÃ (08h00min às 12h00min):


Credenciamento e exposições artísticas
TARDE (13h00min às 17h00min):
Grupo de Trabalho “Direito Penal e Lei Maria da Penha”
Oficina de Yoga
NOITE (18h00min às 23h00min)
Abertura: “Lei Maria da Penha: percursos e práticas”
– Palestrante Wania Pasinato (ONU Mulheres)
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 159

02/08/2016
MANHÃ (08h00min às 12h00min)
Mesa-redonda: “A Lei Maria da Penha e a rede de
atendimentos a partir da experiência de Maringá”
Dra. Mônica Fleith – juíza da 5ª Vara Criminal de Maringá
Dra. Emilene Locatelli (DEAM)
Dra. Alessandra Sandri Klock do Passo (19ª
Promotoria de Justiça de Maringá)
Psicóloga Mariane Zanella Ferreira (CRAMMM)
TARDE (13h00min às 17h00min)
Grupos de Trabalho “Política Criminal, Criminologia
feminista e Lei Maria da Penha” e “Gênero, violências
e escolas: velhos percalços, novas trajetórias”
Oficina de Abayomis
NOITE (18h00min às 23h00min)
“Lei Maria da Penha: desafios interseccionais” – Palestrantes Anahi
Guedes de Melo (Gênero e deficiência no contexto da Lei Maria
da Penha); Naomi Neri (Mulheres trans e a Lei Maria da Penha)
e Marivânia Conceição de Araújo (Racismo e movimento negro)
03/08/2016
MANHÃ (08h00min às 12h00min)
Mesa-redonda: “A Lei Maria da Penha e a rede de
atendimentos a partir da experiência de Maringá”
Tânia Tait – ONG Maria do Ingá
Tenente Bruna Galli – representante da Polícia Militar
Miriam Fernandes Martins – assistente social Hospital Universitário
TARDE (13h00min às 17h00min)
Grupos de Trabalho “Teorias feministas e a Lei Maria
da Penha” e “Perfil de vitimização das violências
domésticas e políticas de enfrentamento”
Oficina de vivências teatrais
NOITE (18h00min às 23h00min)
Encerramento: “Lei Maria da Penha: fundamentos e
perspectivas” – Palestrantes Maria Cecília Macdowell
dos Santos e Carmen Hein de Campos

A partir do evento, consideram-se cumpridos os objetivos


de reunir participantes da comunidade acadêmica e da prática da
rede de atendimentos para refletir sobre a trajetória dos 10 anos
da Lei Maria da Penha no Brasil, privilegiando um diálogo in-
terdisciplinar e que construa, junto de uma reflexão teórica sobre
os ganhos e desafios ainda existentes para a sua implementação,
160

uma compreensão sobre os limites e as potencialidades da efi-


cácia empírica da mesma. Com a contribuição de palestrantes
nacionais e internacionais, a experiência comparada e transversal
constituiu também um dos fortes propósitos do evento.
O evento foi um notável e importante canal de diálogo entre
academia e rede de atendimentos, produzindo conhecimentos que
certamente podem modificar as práticas institucionais e contribuir
para o fortalecimento das ações sociais desinstitucionalizadas.
Todas as sessões, de palestras a GTs, contaram com a par-
ticipação numerosa de acadêmicas/os, profissionais e demais
pessoas interessadas.
Algumas imagens foram registradas e publicadas em:
<http://www.enjoymaringa.com.br/fotos_detalhes/28/uma-
-decada-de-lei-maria-da-penha.html>.
O NUMAPE/UEM contou com a colaboração direta da sub-
seção local da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que forneceu
gratuitamente o auditório para realização das principais palestras.
Em 2017, para a discussão e problematização dos próximos
anos de implementação da Lei, o núcleo firmou parceria com o
Ministério Público local, a fim de realizar novo evento, desta vez,
no mês de outubro.

3 Os desafios à advocacy feminista são os desafios


à continuidade do próprio NUMAPE/UEM

Apesar do empenho da equipe para integrar a rede de


atendimentos e colaborar com as demais instâncias, há um con-
junto de problemas que assola o processo de construção e ga-
rantia das políticas para mulheres no Brasil e que constituem,
hoje, os principais desafios para as ações do NUMAPE/UEM.
O primeiro deles é a centralidade que a Lei Maria da
Penha atribui à chamada categoria gênero, logo no caput do
art. 5º, que aduz: “Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura
violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação
ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão,
sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 161

patrimonial”. Quer dizer, a Lei atribui à violência contra mu-


lheres uma conotação sociocultural, refutando explicações de
ordem etiológica, embasadas, por exemplo, no desenvolvi-
mento físico, no comportamento, ou na genética masculina.
O NUMAPE/UEM trabalha com esta perspectiva, já que sua
equipe também integra as atividades do grupo de estudos
NEG (Núcleo de Estudos sobre Gênero e Direito, também vin-
culado ao curso de Direito da UEM). Diversos segmentos so-
ciais têm se apropriado de um discurso que equivocadamente
define esta centralidade como “ideologia”.
A disseminação desse discurso nas plataformas políticas
do legislativo ganha força em dois momentos: quando da
aprovação da lei que aprova o plano nacional de educação e,
neste momento, com as discussões sobre projeto de lei escola
sem partido. O Plano Nacional de Educação (PNE) é respon-
sável por ditar as diretrizes escolares por um período de dez
anos. No texto proposto para o último decênio, colocava-se
a meta de “superação de desigualdades educacionais, com
ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e
de orientação sexual”. Todavia, no texto aprovado, suprimem-
-se as duas últimas expressões, deixando a cargo dos estados
e municípios incluí-las, ou não, em seus respectivos planos.
Daí em diante, deu-se início a uma sistemática campanha de
resistência, para que os planos estaduais e municipais fossem
aprovados com a supressão das mesmas expressões.86
O primeiro desafio imposto, portanto, diz respeito à luta
para se assegurar a discussão de gênero e diversidade sexual
na escola e no ambiente universtiário, dentre inúmeras razões,
para o processo de enfrentamento das violências de um modo
geral (cultura de violência de homens contra mulheres, lgb-
tfobia, violências sexuais contra crianças, etc.). Assim também
defende a própria Lei Maria da Penha, no bojo do art. 8º, inc.
IX, de acordo com o qual: “IX – o destaque, nos currículos
escolares de todos os níveis de ensino, para os conteúdos

86 Luis Felipe Miguel explica como o discurso da “Ideologia de Gênero” tem se acoplado à pauta da
chamada “Escola sem Partido” (MIGUEL, 2016, p. 590-621).
162

relativos aos direitos humanos, à eqüidade de gênero e de


raça ou etnia e ao problema da violência doméstica e familiar
contra a mulher.”
Para além dos entraves advindos desse duro processo de
enfrentamento, as ações de advocacy feminista também tem de
lidar com limites reais de cortes orçamentários e desestruturação
de órgãos de atenção às mulheres (cf. MACHADO; CORREA,
op cit). No plano das relações familiares e domésticas, também
é preciso estar alerta para as consequências das políticas de
corte de gastos públicos na vida das mulheres. Sem orçamento
suficiente para estruturar e garantir serviços públicos, principal-
mente, de educação e saúde, o impacto imediato se opera sobre
a vida das mulheres, revestidas pela expectativa social de prover
as funções domésticas de cuidado (da casa, das crianças, das
pessoas idosas) e, ainda, submetidas a jornadas duplas ou triplas
de trabalho formal e doméstico (BIROLI, 2017).
Finamente, portanto, o trabalho do NUMAPE/UEM,
pautado pelos pressupostos da advocacy feminista, tem sido um
processo diário de resistência, em nome da consolidação de polí-
ticas locais pela vida e integridade das mulheres.

Conclusão

Para além das ações de divórcio e guarda, dos peticiona-


mentos, das participações em audiências, ou de outros procedi-
mentos corriqueiros na jornada advocatícia, o projeto de extensão
NUMAPE/UEM, sediado na Universidade Estadual de Maringá
e vinculado ao Departamento de Direito Público, busca construir
novas formas de participação na construção de políticas públicas
para mulheres em Maringá e região.
Com base no fortalecimento da rede e na compreensão in-
terdisciplinar das violências domésticas e familiares para mu-
lheres, o NUMAPE/UEM executa suas atividades com vistas a
atingir, cada vez mais, um número maior de mulheres.
UMA DÉCADA DE LEI MARIA DA PENHA: percursos, práticas e desafios 163

Enfim, os desafios são crescentes, especialmente porque o


núcleo trabalha com uma perspectiva de gênero, que tende a de-
sessencializar os conflitos domésticos e familiares, lendo a vio-
lência dentro de um espectro sociocultural, e não como questão de
força física ou temperamento, pura e simplesmente. Somam-se a
isto os desafios no plano econômico, e os impactos avassaladores
sobre as vidas das mulheres.
Nada disso, contudo, impede que o núcleo continue lutando
para assegurar, a cada dia, mais direitos a mais mulheres, reco-
nhecendo suas diferentes histórias de violência e dor.
164

REFERÊNCIAS
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democracia. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.
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A importância da categoria “gênero” para instrumentalizar
o atendimento a mulheres em situação de violência no projeto
NUMAP/UEM. IV Simpósio Gênero e Políticas Públicas.
Londrina: Universidade Estadual de Maringá, 2016.
SOBRE O LIVRO
Tiragem: 140 (não comercializado)
Formato: 14 x 21 cm
Mancha: 10 X 17 cm
Tipologia: Times New Roman 11,5/12/16/18
Arial 7,5/8/9
Papel: Pólen 80 g (miolo)
Royal Supremo 250 g (capa)