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leiturAs do coloniAlismo*
Marcelo Bittencourt

* Originalmente esse texto foi apresentado na forma de palestra para o painel “Colonialismos: revisão
bibliográfica”. O convite para a publicação implicou a revisão do material transcrito, buscando
resolver problemas como marcas de oralidade, frases truncadas e omissão de referências, a fim de
que o leitor possa melhor acompanhar os argumentos apresentados. Buscou-se, no entanto, manter
seu caráter didático e introdutório ao tema.
Painel 3
Leituras do Colonialismo

introdução
O tema colonialismo possui um amplo leque de possibilidades
de análise. Poderia começar tratando das alterações nas sociedades
africanas com o fim do tráfico atlântico e terminar com as últimas
independências na África Austral, como seriam os casos de Angola,
Moçambique e Sudoeste Africano, atual Namíbia. Diante da
dimensão do tema, a opção foi abordá-lo a partir de dois tópicos
que considero fundamentais e que sofreram profundas mudanças
na forma de serem estudados.
Primeiro discutirei a própria expansão colonial ou como é
comumente conhecida nos manuais de história da África, ainda
que evidenciando certo eurocentrismo: a partilha da África.
Posteriormente, analisarei as experiências coloniais a partir de uma
visão crítica ao colonialismo genérico ou ao colonialismo observado
a partir das lentes metropolitanas, dos impérios coloniais.

o estudo dA expAnsão coloniAl


No que diz respeito à expansão colonial, o primeiro formato ou
modelo de abordagem do assunto consiste na própria justificativa
europeia para tal. É a ideia de que a Europa estava “entrando”,
“partilhando” e “correndo” para a África, ainda que esses termos
não sejam sinônimos, para levar a civilização, a religião, o comércio
e, sobretudo, a pacificação aos africanos. O colonialismo era
apresentado como uma alternativa à presença e à permanência da
escravidão na África.

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História da África e Relações com o Brasil

Curiosamente, nos anos de 1980, se chamará a atenção para o


fato de que nas décadas de 1950 e 1960 estudava-se o combate ao
colonialismo como algo próximo ao combate à escravidão. Ou seja,
criticar o colonialismo era algo similar a criticar a escravidão na
África e nas Américas no século XIX. Chamo a atenção para o fato
de ser curioso, porque a justificativa europeia de final do século
XIX e início do XX, para a expansão colonial, é exatamente acabar
com a escravidão na África. Mais ainda, em grande medida, grupos
abolicionistas ingleses e franceses, que eram críticos à manutenção
da escravidão, também defenderam a expansão colonial como
caminho para acabar com a escravidão na África (Cooper, 2005).
Nos anos de 1930 e 1940 ganha destaque uma nova
interpretação acerca da expansão colonial, de base econômica e
alinhada com os pressupostos marxistas. Seu ponto de partida é
a ideia de que o avanço europeu para a África ocorreu no quadro
da Revolução Industrial e, portanto, de busca pela aquisição
de matérias-primas e de mercados consumidores dos produtos
manufaturados. Essa talvez seja a interpretação mais comumente
difundida e ainda presente em muitos livros didáticos. Seu poder
de convencimento é reforçado quase sempre por uma imagem da
Conferência de Berlim, na qual se pode ver a reprodução de um
mapa da África, sobre uma mesa muito grande, com os diversos
embaixadores europeus à sua volta, “partilhando o continente”.
Tal interpretação tem o mérito indiscutível de dar uma
feição econômica para a explicação da expansão colonial europeia,
questionando o caráter benevolente da tese anterior. Consiste
ainda numa crítica contundente a uma determinada forma de se
fazer história, predominante ainda no início do século XX, que
valorizava em demasia a atuação das autoridades governamentais,
dos homens de Estado.

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Leituras do Colonialismo

No entanto, ainda que tenha apresentado mudanças


significativas em relação à primeira interpretação, a da própria
justificativa europeia, essa nova perspectiva mantém um grave
problema: os africanos não aparecem na sua própria história.
Ainda se constrói uma história da Europa na África.
As críticas iniciais a essas interpretações elaboradas a partir
de um prisma europeu surgiram no pós-Segunda Guerra, mais
precisamente na segunda metade dos anos 1950, com historiadores
africanos como Joseph Ki-Zerbo (1953) e Kenneth Onwuka Dike
(1956). Seus trabalhos buscaram realçar a história dos africanos
na África, em grande medida alterando a lente de observação,
deixando de lado o foco exclusivo nos europeus e na história da
Europa. É o caso por excelência de Kenneth Dike, historiador
nigeriano pouco conhecido no Brasil, que buscou aprofundar a
análise da participação dos africanos na história da expansão
colonial através do comércio no Delta do Níger.
Posteriormente, novas críticas surgiram à interpretação
de base econômica, colocando dúvidas, por exemplo, quanto à
capacidade de o continente africano ser considerado de imediato
um mercado consumidor dos produtos manufaturados europeus.
Afinal, a África continuou sendo um mercado frágil para o consumo
de produtos manufaturados até a Segunda Guerra Mundial (Iliffe,
1999).
Os historiadores africanos não ficaram sozinhos. Nos
anos 1960 um grupo de historiadores britânicos, como David
Birmingham (1965), Terence Ranger (1967) e John Iliffe (1969),
também passou a lançar o foco de suas análises para os africanos e
sua própria história, no tocante ao tema da expansão colonial e do
colonialismo.
Não obstante os avanços historiográficos dessas correntes,
os historiadores responsáveis por essa nova produção, africanos

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História da África e Relações com o Brasil

e africanistas das décadas de 1950, 1960 e 1970, inevitavelmente


entraram em diálogo com as mudanças políticas que se processavam
no continente. Era o tempo das lutas pelas independências dos
países africanos, dos diferentes nacionalismos que se esboçavam
e também dos projetos modernizadores, em alguns casos de
orientação socialista. A história passou a ser um importante
terreno de luta política, pois tanto permitia a criação de supostas
linhagens nacionalistas e territórios pretensamente nacionais de
longa tradição, como dificultava tais construções.
Por outro lado, as independências africanas promoveram um
maior interesse pela história da África, quer na própria África,
com a criação e a expansão de cursos universitários e, em maior
escala, dos níveis iniciais de ensino, quer fora dela, em especial
nos Estados Unidos da América, que passariam a ser, na década
de 1970, um novo espaço de pesquisa para temas africanos. No
tocante ao tema do colonialismo, entre outros autores podemos
destacar Allen Isaacman (1972) e Frederick Cooper (1977).
O aprofundamento da pesquisa histórica levou a uma
diversificação das análises e das regiões estudadas, reforçando
a grande conquista dos estudos sobre África que é a crítica
contundente a uma perspectiva homogeneizadora sobre o
continente, seus habitantes e sua história. Ainda assim, vale
reforçar que o surgimento dessas diferentes e por vezes divergentes
correntes historiográficas não ocorre em substituição às anteriores.
Elas convivem e, em muitos casos, se entrelaçam em novas análises.
Novas interpretações também tiveram lugar na forma de se
analisar as relações entre europeus e africanos. Buscou-se chamar
a atenção para o fato de que a expansão colonial europeia para a
África não foi um primeiro momento de contato entre europeus e
africanos. Essas relações passaram a ser contextualizadas levando
em consideração o que acontecia tanto na África quanto na Europa.

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Leituras do Colonialismo

Os interesses e as possibilidades de negociação de ambos os lados


ganharam destaque, assim como determinados casos em que tais
interesses se conjugaram.
É preciso ter em conta que a própria forma de se fazer história
passava por grandes alterações no período. De um lado, a crítica
a um marxismo esquemático e ao economicismo; de outro, a
crítica ao abandono da história política, levando à construção
de uma história política “renovada” (Rémond, 2003). Também é
preciso acrescentar o fortalecimento da chamada história cultural
e a entrada em cena de uma história social em diálogo com a
Antropologia, promovendo o que seria nomeado como uma história
social da cultura. Portanto, um alargamento dos horizontes e das
possibilidades de se investigar o passado, que inevitavelmente
alcançaria os estudos africanos.
A partir dessas novas teorias e metodologias, alguns
historiadores retornaram a antigas perguntas acerca da expansão
colonial, tais como: Por que, depois de tanto tempo de relações, só
no final do século XIX a Europa investe numa dominação de tipo
colonial formal? Por que a penetração na América e não na África?
Porque os europeus nunca conseguiram chegar às fontes produtoras
de ouro? Anteriormente, tais perguntas eram respondidas tendo
em consideração questões como o clima, as doenças, o fato de os
rios não serem navegáveis, todas elas questões importantes, mas
que deixavam de lado a própria história das relações entre africanos
e europeus.
A aproximação entre a historiografia da escravidão e do tráfico
com a historiografia do colonialismo foi o que permitiu enxergar
o casamento de interesses entre esses agentes, facilitando o
entendimento de que as relações comerciais, apesar de algumas
crises, se intensificaram e se diversificaram. O fim do tráfico de
escravos e a exploração do trabalho africano na própria África

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História da África e Relações com o Brasil

passaram a ser encarados como fenômenos complementares e


fundamentais para o entendimento da alteração nessas relações.
Do ponto de vista econômico, a descoberta em larga escala de
ouro e diamante no que hoje é a África do Sul, na segunda metade
do século XIX, acentuaria essa mudança no padrão das relações
políticas entre europeus e africanos.
Evidentemente, não caberia negar alguns fatores que ajudaram
nessa expansão europeia, como o avanço médico-científico,
exemplificado pelo uso do quinino no combate à malária, e o avanço
tecnológico, verificado pelo surgimento de novas embarcações,
que permitiram o comércio no interior dos rios africanos, e pelas
ferrovias, que facilitaram o deslocamento tanto de tropas coloniais
como de mercadorias extraídas do continente. Também no aspecto
militar a tecnologia deve ser realçada, em especial a fabricação
e o uso da metralhadora pelos impérios europeus. Todos eles
consistem em fatores importantes, que facilitaram a mudança nas
relações, mas esta última deve-se, sobretudo, ao novo interesse
econômico europeu sobre o continente.
O próprio olhar para a história da expansão a partir da lente
europeia sofreu alterações. Os fatores explicativos elencados
por diversos historiadores passaram a contemplar a análise dos
grupos de pressão que exerceram influência sobre a ação dos
governos europeus, bem como a ideia, que segundo esses autores
se popularizara na Europa, de que nenhum império poderia se dar
ao luxo de perder o “trem da história”, ou seja, abrir mão de novos
mercados produtores de matérias-primas. Sobre tais perspectivas,
John Mackenzie tem um comentário interessante: a partilha é
uma “combinação de esperanças exageradas com preocupações
excessivas” (Mackenzie, 1994).
Por outro lado, os novos olhares sobre a história da expansão
colonial levaram a uma importante polêmica acerca do papel dos

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Leituras do Colonialismo

africanos nesse processo. Passou-se a discutir quem foram os


“heróis” e quem foram os “traidores” da pátria. Ou seja, quem
resistiu e lutou contra a implantação colonial e quem se associou a
esta, em certa medida auxiliando no controle sobre o território. É
muito curiosa essa discussão, já que é preciso alertar para o fato de
que, no final do século XIX, ainda não existiam pátrias na África,
no formato que assumiriam na segunda metade do século XX. Para
completar, cabe enfatizar que essa construção polarizada impede
a percepção das nuances e das mudanças de interesse que o jogo
político implica.
A consequência mais importante dessa forma de analisar a
expansão colonial é que ela extrapolou o terreno da história e passou
a fazer parte do arsenal político de diferentes atores, levando ao
surgimento de inúmeros problemas nas jovens nações africanas,
quer pela tentativa de transformar “heróis” locais em “heróis”
nacionais, quer pela tentativa de transformar em “traidores”
regiões ou determinados grupos etno-linguísticos, em função de
sua maior ou menor proximidade às autoridades coloniais. Daí a
importância de textos como o de Terence Ranger (1991), no volume
7 da História Geral da África, editada pela Unesco, que critica os
trabalhos que ajudaram em certa medida a criar um fio condutor
entre a resistência de final do século XIX e a luta anticolonial dos
anos de 1950 e 1960.
Novas perspectivas passaram a despontar nos estudos sobre a
expansão colonial, ainda nas décadas de 1970 e 1980, no que dizia
respeito a ideia de que as organizações políticas centralizadas, os
chamados estados ou impérios africanos, apresentaram maior
resistência ao processo de expansão colonial do que às sociedades
mais descentralizadas, também conhecidas como sociedades
sem Estado. As pesquisas mais circunscritas regionalmente e
temporalmente permitiram quebrar essa “regra”, demonstrando
que as variações entre comportamentos mais refratários ou de

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maior proximidade aos avanços coloniais coexistiram em várias


regiões, fossem essas organizadas em sociedades mais ou menos
centralizadas.
Essas novas perspectivas promoveram dois importantes
desdobramentos. Em primeiro lugar, se afastaram da polêmica
acerca da construção de biografias de heróis e traidores. Em
segundo lugar, diversificaram o olhar sobre a ideia de resistência.
Tanto ao demonstrarem que a resistência não ficou limitada aos
grandes chefes africanos, quanto ao alargarem a sua compreensão.
A resistência passou a ser estudada como um fenômeno
também levado adiante pelo homem comum, pelos africanos nas
suas relações de trabalho e na tentativa de escapar às imposições
coloniais. Em certa medida, essa alteração no enfoque levou
a um afastamento da polarização entre “heróis” e “traidores”,
passando a privilegiar o questionamento do engessamento dessas
designações, fornecendo elementos para uma ampliação da ideia
de resistência (Cooper, 2008).

o estudo do coloniAlismo
O debate acerca da ideia de resistência atravessou também o
segundo tópico elencado para essa discussão. É preciso lembrar,
uma vez mais, que na segunda metade do século XX o continente
passava pelo efervescente processo de construção e fortalecimento
dos nacionalismos e, posteriormente, dos estados nacionais, e
o estudo do colonialismo e da resistência a ele teve implicações
importantes na condução da vida política dos jovens países.
Grupos políticos mais urbanizados tenderam a ter maior
ascendência sobre organizações como sindicatos, partidos
políticos e movimentos de libertação, ainda que isso não tenha
se constituído numa regra, afinal casos como o do Senegal e dos
Camarões, entre outros, com suas lideranças rurais, embaçam essa

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Leituras do Colonialismo

colocação. No entanto, é razoável afirmarmos que essas lideranças


urbanizadas constituíram a maioria dos regimes africanos pós-
-independência, apresentando-se como aqueles que resistiram à
dominação colonial, em certa medida contrapondo-se às lideranças
rurais, de perfil mais acentuadamente regional ou étnico e que mais
dificilmente encabeçaram lutas anticoloniais de perfil nacional.
Evidentemente, os historiadores que se debruçaram sobre
o tema também tiveram certa responsabilidade ao valorizarem
as lutas de caráter nacional, que tinham por objetivo as
independências, deixando de lado os enfrentamentos também
anticoloniais, mas que não assumiram uma postura nacional.
Obviamente tal perspectiva dos historiadores esteve relacionada
tanto ao fato de se debruçarem sobre aqueles que derrubaram o
colonialismo, o que por si só já explicita a sua importância, como as
facilidades de pesquisarem em acervos documentais mais vastos,
tanto nos jovens países africanos, como nas antigas metrópoles
(M’Bokolo, 2007).
No entanto, as consequências desse enfoque não param por aí.
Algumas daquelas lutas de caráter regional ou local contra o poder
colonial se mantiveram no período pós-independência em relação
a esse novo poder central. Outras surgiram em novos espaços. Em
muitos desses casos, em função de sua agenda e de sua formação
local, foram assinaladas por governos e intelectuais como lutas de
perfil étnico, sendo caracterizadas como contrárias aos interesses
nacionais e aos que libertaram a pátria. Daí decorria o pressuposto
óbvio de que precisavam ser combatidas (Mamdani, 1998). Foi
preciso esperar uma crítica mais aguda às primeiras experiências
governamentais do pós-independência africano para que esse
olhar privilegiado do perfil nacional pudesse ser contrabalançado
pelas “leituras” locais.

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História da África e Relações com o Brasil

Entre as principais mudanças de perspectiva nos estudos sobre


o colonialismo, em certa medida relacionada aos questionamentos
acerca da ideia de resistência, caberia destacar uma visão crítica ao
colonialismo genérico ou ao colonialismo observado a partir das
lentes metropolitanas, dos impérios coloniais. Ou seja, a lente de
observação do historiador deixou de estar sobre o império colonial
britânico ou português e passou a se direcionar para estudos de
caso concretos.
O estudo do colonialismo a partir da metrópole foi
direcionado para a análise da legislação e da ideologia colonial
– e suas variações –, afastando-se de uma história do cotidiano,
necessariamente dependente das ações de colonos e africanos, em
cada momento e lugar. Dessa forma, continuou a ser feita uma
história da legislação colonial francesa, uma história da justiça
colonial inglesa, dos discursos ou da ideologia colonial portuguesa,
aspectos importantes da história do colonialismo, mas que não
alcançam a história da relação colonial, das tensões vividas entre
europeus e africanos e no interior desses segmentos na África.
O primeiro passo, portanto, foi quebrar essa lente, esse foco
a partir da metrópole, como se existisse um colonialismo inglês,
francês ou português. Diferentes experiências coloniais tiveram
lugar no continente africano e, em alguns casos, foram muito
próximas, ainda que se tratasse de colonizadores diferentes.
O segundo passo foi ter em consideração que em uma mesma
colônia foi possível coexistirem experiências coloniais diversas,
quer no tempo quer no espaço.
Evidentemente, o que se estava afirmando era que a vivência
colonial foi muito diferente no norte do Quênia, nas chamadas
terras altas, com sua produção de café, tabaco e chá onde se
concentraram cerca de 40 mil ingleses, do que ocorreu na costa
queniana, com sua forte influência árabe muçulmana, e onde a

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Leituras do Colonialismo

presença inglesa era mais rarefeita. Ou ainda nas áreas de produção


de café do centro norte de Angola, repartido em várias fazendas
de colonos portugueses, resultantes da expropriação de terras
dos africanos, e no sul da mesma colônia, numa zona desértica ou
semidesértica com pecuária de transumância na mão dos próprios
angolanos. É a mesma experiência colonial? O país colonizador
é o mesmo, mas são experiências coloniais muito diferentes,
com colonizadores e colonizados com interesses, estratégias e
comportamentos também muito diferentes.
Investindo nesse caminho de análise é possível perceber que
tanto o estudo da descolonização ajuda a pensar a colonização,
quanto o contrário também é verdadeiro. Ou seja, áreas de
exploração colonial tão diferenciada tendem a dar lugar a lideranças
anticoloniais também diferenciadas. Recorrendo aos exemplos
acima, esses africanos começam, no pós-Segunda Guerra, a
expandir a ideia de que são quenianos e angolanos. É preciso ter
em conta que essas fronteiras coloniais que estão sendo traçadas
entre finais do século XIX e o início do XX darão forma às jovens
nações africanas da segunda metade do século XX. Não existia uma
nação queniana ou uma nação angolana; os africanos conquistam
suas independências a partir de uma base colonial. E passam a se
pensar nacionalmente tendo como patamar inicial uma construção
colonial, só que com um colonialismo que não foi uniforme (Iliffe,
1999).
Nesse sentido é possível afirmar que o estudo do colonialismo
passou a contemplar a ideia de que o colonialismo resulta da proposta
de exploração pensada pelas potências, das potencialidades do
território em questão e das organizações sociais encontradas, além
do grau de desenvolvimento do país colonizador. É preciso ter em
consideração, no entanto, que todos esses diferentes fatores foram
temperados pelo tempo, já que eles sofreram inúmeras alterações
no decorrer do século XX.

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História da África e Relações com o Brasil

Ao entendermos dessa forma o colonialismo, reforçamos


a ideia da especificidade das relações coloniais e enfatizamos a
necessidade de termos em consideração o tempo e o espaço, dois
parâmetros muito caros aos historiadores. Assim, a referência ao
processo de colonização de qualquer metrópole, sem se mencionar
o momento e o local em questão, limita drasticamente a análise.
Poderíamos mesmo falar em colonialismos para não deixar
dúvidas quanto à variedade de situações encontradas. Afinal, de
ambos os lados dessa vivência colonial existem forças, desejos e
projetos diferentes, quase sempre em disputa entre eles. Tanto
do colonizador que congrega os interesses de funcionários,
comerciantes, aventureiros, missionários e militares, como do
colonizado que abarca populações urbanas, rurais, mestiças,
cristianizadas, islamizadas, isoladas, todas elas mais ou menos
influenciadas por sentimentos de pertença regional e/ou étnica.
Por tudo isso, como montar de forma tão esquemática uma
oposição genérica entre colonizados e colonizadores que dê conta
da diversidade de experiências que o continente conheceu? E se
essa oposição binária – colonizador x colonizado – apresenta
inúmeras limitações, o que dizer do seu desdobramento que coloca
em oposição dominadores e resistentes (Cooper, 2008)?
As respostas a essas indagações, obviamente, caminham no
sentido de defender o estudo aprofundado das diferentes vivências
coloniais que tiveram lugar no continente africano, valorizando
em especial a crítica apontada anteriormente a um “colonialismo
genérico” para toda a África, que tente dar conta da diversidade de
relações estabelecidas no continente.
Do ponto de vista da prática do historiador essa nova forma
de olhar para o colonialismo tornou mais complexo o seu trabalho.
O acesso aos arquivos coloniais dos países africanos nem sempre
foram ou continuam a ser fáceis. No entanto, novas fontes foram

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testadas e passaram a angariar respeitabilidade e mais do que isso


mostraram-se únicas e fundamentais para o entendimento de
determinados aspectos da presença colonial, como seria o caso das
entrevistas, das músicas, dos provérbios, dos tecidos, da literatura
e de uma série de outros fenômenos (Moorman, 2008; Vail e
White, 1984).
A respeito das fontes, vale abrir um parêntese para lembrar
que em determinadas regiões do continente africano, em função
do tráfico de escravos, houve uma presença europeia mais longa,
ainda que extremamente circunscrita territorialmente, por vezes
intermitente, envolvida em trocas culturais muito intensas com os
africanos. Tal situação gerou o surgimento de grupos populacionais
capazes de circular entre universos culturais africanos e europeus,
com suficiente domínio das línguas para produzir uma imprensa
africana já a partir das quatro últimas décadas do século XIX, bem
como para intervir nos processos judiciais e administrativos das
colônias que se construíam.
Esse fenômeno auxilia na demonstração de como as crescentes
máquinas administrativas, policiais, judiciais e exploratórias
coloniais, dos diferentes impérios europeus, tiveram que se deparar
com diferentes situações. Por outro lado, também os africanos
podiam ter estratégias e interesses diversos. Não obstante,
permite apontar ainda para o fato de que a própria presença e as
relações coloniais estabelecidas transformam-se em mecanismos
de diferenciação e estratificação social para os africanos.
A própria administração colonial, independentemente da sua
bandeira imperial, usou frequentemente de mão de obra africana
nas diferentes funções que a gestão de um território exige. Os
africanos atuaram como mensageiros, escriturários, intérpretes,
soldados, policiais, cobradores de impostos, além das atividades
já desempenhadas anteriormente, voltadas para o comércio e a

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História da África e Relações com o Brasil

produção de bens agrícolas. A participação africana, todavia, não


alteraria um outro fenômeno também de grande incidência nas
diferentes experiências coloniais: a violência (Lawrance, Osborn e
Roberts, 2006).
Essa participação dos africanos na engrenagem colonial deve
ser entendida tendo em conta a própria experiência colonial a que
eles estavam sujeitos. O colonialismo para os africanos era, acima
de tudo, a instalação no seu território de um novo poder. Um
poder extremamente forte, militarizado, com grande capacidade
tecnológica, capaz de mobilizar rapidamente, através do telégrafo,
dos barcos a vapor e das ferrovias, tropas fortemente armadas, sem
vínculos com a região e dispostas a impor a vontade e o controle do
governo colonial.
Por outro lado, o colonialismo também era sedutor aos olhos
dos africanos. Ele era sinônimo de riqueza, de tecnologia, de
melhores condições de vida. Assim como ele era a arma moderna,
também era a máquina de escrever, a ferrovia, a máquina de
costurar e a máquina fotográfica. E é a partir dessa complexidade
de fenômenos e relações que o estudo do colonialismo tem sido
estudado ultimamente (Marzano e Bittencourt, 2013).
Não obstante esse estilhaçar das análises, um determinado
fenômeno aproximou as experiências coloniais: a necessidade
dos diferentes impérios europeus de obter mão de obra para a
exploração. Todas as experiências coloniais na África adotaram o
trabalho forçado. A Inglaterra e a França eliminaram isso do seu
cardápio mais cedo, ao final da Segunda Guerra Mundial. Portugal
manteve esse mecanismo de exploração mais explícito e violento
até 1961, quando o inicio da luta de libertação em Angola forçou a
mudança.
Portanto, apesar dos limites de uma análise menos circuns-
crita territorial e temporalmente, é possível apontar alguns

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elementos, como o uso da força no recrutamento de trabalhadores


e a cobrança de impostos, que atravessam diferentes experiências
coloniais. Quanto ao uso da força, esse poderia ser exercido
diretamente pelas tropas coloniais ou através das chefias africanas,
que se responsabilizavam pelo envio de trabalhadores para o
cumprimento do trabalho forçado nas fazendas e plantações
coloniais, em troca do respaldo do governo colonial à manutenção
do seu poder local.
No tocante ao imposto, este consistiu num importante
mecanismo indutor de recrutamento de trabalhadores africanos,
já que o seu não pagamento poderia gerar como penalidade o
trabalho correcional. Seu propósito era inserir o africano na
economia colonial. O argumento metropolitano era de que sua
cobrança, em benefício do governo colonial, era feita em troca
de sua atuação no processo de “pacificação” e “civilização” dos
africanos. Sua existência também era defendida como forma de
“educar” o africano para o trabalho remunerado.
De fato, as economias de exportação na África basearam-se e
mantiveram-se em função do uso de diferentes formas de trabalho
compulsório. Mas não foi apenas o setor voltado para a exportação
que contou com esse tipo de trabalho. Agentes coloniais, a serviço
das autoridades britânicas, francesas, belgas, portuguesas e
alemãs, recrutaram trabalhadores forçados também para serviços
em obras públicas, como a construção de estradas e ferrovias.
Todas as metrópoles experimentaram o uso do trabalho forçado
em diferentes momentos até o final da Segunda Guerra Mundial
(M’Bokolo, 2007).
Vale referir, ainda, que ao lado do uso de diferentes meca-
nismos de recrutamento compulsório dos trabalhadores africanos,
os governos coloniais e as empresas envolvidas no sistema de
exportação de produtos agrícolas e minerais investiram, entre

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História da África e Relações com o Brasil

finais do século XIX e início do XX, na construção de ferrovias.


O impacto desse sistema teria grandes consequências para os
africanos. Em primeiro lugar, liberou mão de obra africana até
então usada no transporte de mercadorias (como carregadores).
E em segundo lugar, as ferrovias transformaram-se em ágeis
canais de comunicação dos próprios africanos, levando produtos
e informação a regiões distantes dos principais centros coloniais.
Depois das ferrovias, foi a vez das rodovias, que já nos anos
1920 cresciam com extrema rapidez e versatilidade, alcançando
regiões que as ferrovias não conseguiam atingir. Os transportes
potencializaram o avanço da agricultura comercial em moldes
capitalistas entre os africanos. No entanto, essa participação
africana seria muitas vezes limitada ou impedida pelos governos
coloniais. Isso ocorria por pressão dos colonos, das empresas
exportadoras ou mesmo por temor dos próprios governantes quanto
aos possíveis desdobramentos políticos que o fortalecimento de
uma classe de empresários africanos poderia gerar. A principal
demanda de uma parcela dos africanos era o reconhecimento da
propriedade privada da terra, mas os interesses coloniais preferiam
negociar com camponeses, baseados na propriedade comunitária
da terra (Iliffe, 1999).

concluindo…..
O que podemos perceber por tudo que foi exposto
anteriormente é que, em diferentes níveis, houve uma relação
colonial e que os africanos sempre estiveram presentes na gestão
desse espaço colonial. Dessa forma, é fundamental ter-se em conta
as estruturas políticas e econômicas africanas pré-existentes ao
período de expansão do colonialismo.
Sem desconsiderar a importância do estudo das ideologias
e das legislações coloniais, o que o estudo do colonialismo tem

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Leituras do Colonialismo

apontado é para a importância de se analisar com maior precisão as


tensões, as vivências e o embates coloniais ocorridos nos múltiplos
espaços africanos.

referênciAs biblioGráficAs
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