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Brasil 2030: Aberto e Soberano!

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Texto para Discussão2
por
Cesar Rômulo Silveira Neto3
Rio de Janeiro, 10 de março de 2020
cromulo@wisetel.com.br

Neste texto atualizo as avaliações que fiz do desempenho do Brasil nas suas
transações com o exterior em moeda forte até os anos 2000 e 2014 publicadas em
“Brasil 2010: Aberto e Soberano?” e “Brasil 2022: Aberto e Soberano?”.
Neles externei fundadas preocupações com a evolução acentuadamente negativa
desse desempenho, pois, a meu juízo, ele tem provocado efeitos gravosos tanto à
qualidade de vida da população quanto à soberania nacional.
Nos anos de 2000 e 2014, os Resultados das Transações Correntes – definido como
resultado de todas as transações comerciais, econômicas e financeiras em moeda
forte - foram negativos em US$ 24,8 bilhões e US$ 101,4 bilhões. Acumulados desde
1947 eles chegaram a US$ 263,5 bilhões e US$ 730,5 bilhões negativos.
O primeiro dos textos foi motivado pela algaravia de explicações que se seguiram à
acelerada desvalorização do Real a partir de janeiro de 1998; o segundo, por outra
algaravia sobre a situação econômica do País exposta logo após a divulgação do
resultado do 2º turno da eleição presidencial de 2014.
Em ambas ocasiões desconfiei que as causas dos problemas em debate tinham sido
os resultados negativos nas transações correntes com o exterior em moeda forte, que
não estavam no foco das algaravias.
Em cada uma dessas ocasiões, tirei o meu modelo do “arquivo morto”, peguei os dados
no site do Banco Central do Brasil, preparei os dicionários de dados para os novos
BPM5 (2000) e BMP6 (2014) do FMI seguidos pelo Banco Central do Brasil, alimentei a
planilha de dados, ajustei tabelas e gráficos do modelo e... Bingo!
Em ambas, os resultados, em tabelas e gráficos do modelo, mostraram desempenhos
desastrosos nas transações com exterior em moeda forte, a seguir demonstrados,
pois assim continuam, mesmo que com alguns sinais de melhoria.
Dei ampla divulgação aos dois textos.
O primeiro deles foi publicado em “O Globo” em 30 de maio de 2001, na página de
opinião, com o mesmo título: “Brasil 2010: Aberto e Soberano?”.

1 Texto apresentado para subsidiar a especificação do Fórum de Debates “Brasil 2030 Aberto e Soberano!” pela
Federação das Câmaras de Comércio Exterior FCCE, demandado por Paulo Fernando Marcondes Ferraz.
2 Agradeço ao Economista Marcos Cerutti pelas profícuas discussões que tivemos sobre este trabalho, durante dias

seguidos, enquanto eu adequava o dicionário de dados do MADE(BalPag) para o BPM6; à minha esposa Maria
Luiza, à minha filha Juliana e ao meu neto Nicholas pela compreensão e paciência com essas discussões.
3 Sócio e consultor da INFORMENTO Consultores Associados Ltda. Foi o criador e Secretário Geral da ConTIC

Confederação Nacional da Tecnologia da Informação e Comunicação www.contic.org.br; foi Secretário Geral da


FEBRATEL Federação Brasileira de Telecomunicações www.febratel.org.br, do SINDITELEBRASIL Sindicato
Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular www.sinditelebrasil.org.br; e da TELEBRASIL
Associação Brasileira de Telecomunicações www.telebrasil.org.br . Foi Secretário do Governo (Planejamento,
Orçamento, Modernização Administrativa e Administração das Cidades Satélites de Brasília) do Governo do Distrito
Federal. Autor do livro “Brasil Século 21 - Uma Sociedade Aberta (Tele)Informatizada - Um Caso Real”.
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O segundo, “Brasil 2022: Aberto e Soberano?”, bem mais extenso, pois, com a
reeleição da Presidente Dilma, o cenário mais provável era o de que o Brasil
continuaria a mergulhar acelerado em direção à “perda de soberania”.
Perda de soberania, sim, pois as autoridades do governo federal – mesmo aplicando
políticas monetárias e/ou cambias gravosas para o País – teriam/terão que negociar
com os “credores” estrangeiros o aporte de recursos para financiar os déficits
crescentes das transações correntes, sem previsão de recuperação da capacidade de
produzir riqueza suficiente para honrar as futuras remessas de rendas (lucros,
dividendos e juros) para o exterior.
Esses resultados, no mundo empresarial, equivalem aos prejuízos de cada exercício
que se acumulam desde a constituição da empresa até o final de cada exercício em
uma trajetória de prejuízos crescentes e acelerada.
Ela leva o empresário à situação extremamente desfavorável de ter que negociar com
os já “credores” mais financiamento para “cobrir” atuais e futuros prejuízos
persistentes e crescentes. Situação agravada pela falta de perspectiva de
produção de riqueza suficiente para honrar o serviço da dívida.
Esta é a situação atual do Brasil!
Fato agravado pelo fato de que o Brasil não tem uma “moeda forte”, o que faz uma
enorme diferença nessas situações críticas, pois não pode usar a sua “moeda fraca”
para financiar os resultados negativos de seus desempenhos nas transações correntes.
Um desempenho histórico que já colocou a nação, com uma “moeda fraca”, em
situações cada vez mais dramáticas, dependente de “credores” que estão em busca
de ganhos marginais em suas posições em “moeda fraca” e/ou de oportunidades no
processo de produção de riquezas e/ou de posicionamentos geoestratégicos.
À guisa de exemplo: suspeito fortemente de que o programa nuclear brasileiro foi
“encerrado” numa dessas situações a par das altíssimas taxas de juros internos para
atrair o capital de “Não Residentes” para “fechar” o Balanço de Pagamentos do ano.
Nos dias de hoje, o que vemos no radar de certos “credores” é a nossa “Amazônia
Legal”; mas, ao mesmo tempo, já vemos os efeitos positivos da mudança no modelo
econômico junto com mais rigor nas políticas fiscal e monetária, mas que ainda não
melhoraram o desempenho do Brasil nas transações correntes com o exterior.
O risco Brasil (CDS) chegou a 93.756 (Source CBIN) em 17 fev 2020, o menor desde
30 mai 2008, indicando que está cada vez mais seguro investir no Brasil.
Resta a nós, brasileiros, fazermos com que os investimentos estrangeiros (ou de
brasileiros que retornem ao Brasil) aumentem substancialmente a receita com a
exportação de bens e serviços visando à produção de resultados positivos nas
transações correntes com o exterior, URGENTEMENTE!
Cumpre assinalar que utilizo um modelo próprio – o MADE(BalPag)4 - desde 1989 para
descrever e avaliar, a partir de dados publicados pelas Autoridades Monetárias, de

4MADE(BalPag) - Modelo de Avaliação de Desempenho de Empreendimentos Socioeconômicos,


modelo adequado do original para a descrição e avaliação do desempenho de economias nacionais
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forma objetiva, integrada, transparente e de fácil entendimento, o desempenho de
economias nacionais contemporâneas (abertas e monetizadas) nas transações
com o exterior em moeda forte, em especial o do “Brasil S/A”.
No MADE(BalPag), as economias nacionais são consideradas “empresas” - no nosso
caso, o “Brasil S/A” - sem “acionistas” mas com “Residentes”, que realizam
transações comerciais (exportações e importações de bens e serviços), econômicas
(produção e apropriação de riqueza) e financeiras (movimentação de capitais e
liquidação de débitos e créditos) em moeda forte com outras “empresas” no “Resto do
Mundo” - os “Não Residentes”, que apresenta demonstrações como determinado pela
legislação em vigor às empresas de capital aberto.
Após este breve histórico e da apresentação do contexto da questão a ser aqui
apreciada, apresentarei uma síntese da descrição e da avaliação do desempenho
realizado pelo “Brasil S/A” até 2019, tomando como ponto de partida, única e
exclusivamente, os dados publicados pelas Autoridades Monetárias brasileiras.
Aproveitarei a oportunidade para explicitar algumas “Questões Críticas” que, a meu
juízo, devem ser enfrentadas para melhorar o desempenho do “Brasil S/A”.
Arriscarei, inclusive, sugerir Objetivos e Metas de Desempenho a serem realizados
pelos agentes públicos e privados que tem responsabilidade no desempenho do
“Brasil S/A” nas transações correntes com o exterior em moeda forte.
Tais objetivos e metas são sugeridos visando a libertar o “Brasil S/A” cativo na
“espiral hiperbólica diabólica” em que se encontra para que possamos realizar o
“Brasil 2030: Aberto e Soberano!”, agora afirmando e não mais interrogando como
nos textos anteriores.
Considerando que não há “Objetivos e Metas de Desempenho” fixados para a
economia nacional nas suas transações com o exterior em moeda forte, resta
fazer a avaliação do desempenho realizado pelo “Brasil S/A” em 2019 em relação aos
do ano anterior; do último quadriênio; da última década; da história completa e aos dos
períodos de governos.
Neste texto usarei BUS$ para nominar US$ bilhões correntes.
Nas tabelas e gráficos usarei US$ milhões correntes, como nos dados originais.
Além desta síntese, apresentarei o desempenho do “Brasil S/A”, sucessiva e
oportunamente, segundo a seguinte agenda temática:

contemporâneas nas transações com o exterior em moeda forte. O MADE original está descrito no livro
“Trilogia do Desempenho Empresarial – Criando valor, através do planejamento, do controle e da
avaliação do desempenho de empresas”, em coautoria com Pedro Góes Monteiro de Oliveira, Editora
e-Papers, Rio de Janeiro, 2011; e no artigo “Corporate Performance Management” (August 24, 2009),
em coautoria com Pedro Góes Monteiro de Oliveira, disponível em Social Science Research Network
(SSRN): http://ssrn.com/abstract=1461139. É por gratidão que destaco que o MADE original é uma
evolução da “Análise Sistemática de Balanço” concebida por Luiz Sérgio Coelho de Sampaio no final
dos anos 60 quando chefe do Departamento Técnico da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro BVRJ e
criava o IBMEC Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais; foi por nós implantado no Sistema de
Planejamento e Controle SPC da EMBRATEL (1975/1979) e depois, por mim, no SPC do Sistema
TELEBRAS (1979/1982), no SPC do Governo do Distrito Federal (1982/1985) e, como consultor, na
capacitação de equipes dos contratos de gestão de estatais na SEST/SEPLAN/PR (1985/1986).
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Tema 1: Desempenho nas Transações Correntes com o Exterior
Tema 2: Viabilidade Econômica nas Transações Correntes - Objetivo 2030
Tema 3: Avaliação das Fontes e Usos de Recursos nas Transações com o Exterior
Tema 4: Garantia da Liquidez nas Transações com o Exterior - Objetivo 2030
Tema 5: Desempenho nas Transações Comerciais de Bens e Serviços com o Exterior
Tema 6: Transações Comerciais de Bens e Serviços com o Exterior para a Viabilidade
Econômica das Transações Correntes - Objetivo 2030
Tema 7: Desempenho nas Transferências de Renda com o Exterior
Tema 8: Riqueza Nacional para a Garantia da Soberania Nacional - Objetivo 2030

Desempenho do “Brasil S/A” nas Transações com o Exterior:


Uma Síntese
O Resultado das Transações Correntes RTC produzido pelo “Brasil S/A” em 2019
foi de BUS$ 50,8 negativo e o valor acumulado chegou aos BUS$ 916,5 negativo.
O gráfico abaixo ilustra a trajetória dos valores acumulados do Resultado das
Transações Correntes RTC de 1947 até 2019 em US$ milhões correntes que
alcançaram o expressivo valor de BUS$ 916,5.
Nele estão destacados os valores “entregues” aos Presidentes da República pelos
seus antecessores, onde os períodos estão “ajustados” para coincidir com o ano fiscal
para fins de referência às políticas públicas por eles praticadas.

Cumpre assinalar que nos 73 anos da trajetória do RTC o seu valor só foi positivo em
12 anos, com destaque para os 5 anos de 2003-2007 no governo Lula, com os efeitos
positivos do “boom das commodities”, e para os anos 1988-1989 no governo Sarney,
com os expressivos aumentos do Resultado da Balança Comercial de Bens RBCb
decorrentes da forte expansão do mercado internacional.
Os governos militares receberam dos governos que os antecederam (do governo Dutra
ao governo Goulart) um RTC acumulado de BUS$ 4,2 negativos até o final de 1963.

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Entregaram ao governo Sarney um RTC acumulado de BUS$ 102,2 negativos,
apurado no final de 1984, com uma variação negativa de BUS$ 98,2 em 21 anos de
governo; BUS$ 90,9 deles foram produzidos nos governos Geisel e Figueiredo.
O período 1968-1973 ficou conhecido como o período do Milagre Econômico
Brasileiro pelo acelerado crescimento econômico, fruto do Programa de Ação
Econômica do Governo (Paeg) do governo Castelo Branco que previa incentivo às
exportações, abertura ao capital exterior, bem como reforma nas áreas fiscal, tributária
e financeira, mas que apresentou o pior resultado da história da relação RTC / PIB
que chegou aos incríveis (-6,80%) do PIB em 1974.

Os governos Sarney, Collor e Itamar entregaram ao governo FHC, no final de 1994, um


RTC acumulado de BUS$ 105,5 negativos com uma variação negativa de apenas
BUS$ 3,3 em 11 anos de governos, na chamada “Década Perdida” que, apesar do
rótulo, foi a que teve o melhor resultado da história da relação do RTC / PIB
acumulado que evoluiu dos (-3,88%) em 1983 para (-1,62%) em 1994 com a 2º
melhor relação no ano em 1992 com 1,58% do PIB.
O governo FHC produziu um prejuízo de BUS$ 189,8, nos seus 8 anos de mandato,
entregando ao governo Lula um RTC acumulado de BUS$ 295,3 negativos apurado
no final de 2002, mas com a inflação domada com a implantação bem sucedida do
Plano Real.
O governo Lula teve dois momentos: o do 1º mandato, que produziu um resultado
positivo de BUS$ 41,7 em 4 anos, recuperando o RTC acumulado para BUS$ 253,6
negativos no final de 2006; e o do 2º mandato, que, partindo deste valor, produziu um
prejuízo de BUS$ 135,5, levou o RTC acumulado para BUS$ 389,1 no final de seu
governo, produzindo, no total, um prejuízo de BUS$ 93,8 durante os 8 anos.
O governo Dilma produziu um prejuízo de BUS$ 395,8, nos seus 5 anos de mandato,
(arredondados a menor 4 meses e 12 dias em 2016) com a aplicação de sua Nova
Matriz Econômica entregando ao governo Temer um RTC acumulado de BUS$
784,9 negativos apurado no final de 2015.
O governo Temer produziu um prejuízo de BUS$ 80,8 nos seus 3 anos de mandato
(arredondado a maior 4 meses e 12 dias em 2016), entregando ao governo Bolsonaro
um RTC acumulado de BUS$ 865,7 negativos apurado no final de 2018, com o
sucesso relativo da Ponte para o Futuro que desacelerou o valor dos prejuízos no
RTC

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O governo Bolsonaro produziu, com o Mais Brasil e Menos Brasília ainda em
implementação, um prejuízo de BUS$ 50,8 no seu primeiro ano de mandato, fazendo
com que o RTC acumulado chegasse a BUS$ 916,5 negativos no final de 2019.
Na tabela abaixo, apresento uma síntese dos valores acima mencionados.
Desempenho de Economias Nacionais nas Transações com o Exterior
Resultado das Transações Correntes
Brasil 1947-2019
Fonte: Banco Central do Brasil - Séries Temporais - Acesso em 28 jan 2020 US$ Bilhões corrrentes
Período Início Fim Duração Acumulado No Período Média Anual
Anteriores 1.947 1.963 17 (4,2) (4,2) (0,2)
Militares 1.964 1.984 21 (102,2) (98,0) (4,7)
Sarney, Collor e Itamar 1.985 1.994 10 (105,5) (3,4) (0,3)
FHC 1.995 2.002 8 (295,3) (189,8) (23,7)
Lula 1 2.003 2.006 4 (253,6) 41,7 10,4
Lula 2 2.007 2.010 4 (389,1) (135,5) (33,9)
Dilma 2.011 2.015 5 (784,9) (395,8) (79,2)
Temer 2.016 2.018 3 (865,7) (80,8) (26,9)
Bolsonaro 2.019 2.019 1 (916,5) (50,8) (50,8)
Total 73 73 (916,5) (12,6)
Elaboração © 2001-2020 por Cesar Rômulo Silveira Neto ©1989-2020 MADE(BalPag)

Nela fica muito claro que, a partir da implantação do Plano Real (quando o governo
parou de financiar os seus déficits com a inflação - perda do poder de compra da
moeda em poder do público - e passou a financiá-los com a emissão de títulos da
dívida pública), os resultados negativos produzidos nas transações com o exterior
independeram dos modelos de desenvolvimento e das Políticas Públicas
aplicadas pelos diversos governos (esta afirmativa pode ser considerada, no
mínimo, como hipótese altamente provável a ser testada pelos estudiosos da matéria).
Com exceção da Ponte para o Futuro do governo Temer que desacelerou a trajetória
negativa e considerando que o resultado positivo produzido no 1º governo Lula foi
devido ao “boom das commodities” e não ao modelo de desenvolvimento adotado
pelo seu governo, posso afirmar que todos eles só agravaram – ou não o
enfrentaram com competência - o desempenho do Brasil nas suas transações
correntes com o exterior em moeda forte, como indica a trajetória das médias anuais
decrescentes.
Os efeitos gravosos desses resultados, crescentemente negativos, para a economia
nacional denotam que as Políticas de Preservação da Soberania Nacional,
Desenvolvimento Econômico, Monetária, Fiscal e Cambial não estão articuladas entre
si e/ou que os modelos conceituais pressupostos e/ou implícitos na identificação,
descrição e avaliação de “Questões Críticas” para o desenvolvimento e soberania
nacional e/ou na formulação de Políticas Públicas e de Planos de Ação para o
enfrentamento dessas questões estão equivocados e/ou incompletos e/ou contém
contradições internas.
Alguns desses efeitos negativos serão expostos ao longo desta descrição e avaliação
do desempenho do “Brasil S/A” nas transações com o exterior em moeda forte, assim
como serão sugeridas as suas possíveis causas e, eventualmente, sugestões para o
seu enfrentamento.

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A série temporal abaixo ilustra a trajetória dos valores, ano a ano, do Resultado das
Transações Correntes RTC de 1947 até 2019 em US$ milhões correntes que
formaram o expressivo valor acumulado de BUS$ 916,5.
Nela destacam-se 6 (seis) “Pontos Notáveis” que delimitam inflexões na trajetória do
Resultado das Transações Correntes RTC de cada ano; quais sejam:
• 1994 BMU$ 1,8 negativo no ano - Plano Real entrou em vigor (01jul1994)
• 1998 BUS$ 33,9 negativo no ano – fim da “âncora cambial”, a
“maxidesvalorização do Real” (US$ passou de R$ 1,20 em 13jan99 para R$
1,9824 em 28jan99, chegando a R$ 2,1647 em 03mar99) e o “boom das
commodities” de 2002-2008.
• 2006 BUS$ 13,0 positivo no ano – fim do 1º governo Lula – houve a
substituição do Ministro Palocci pelo Mantega em 27 mar 2006;
• 2014 BUS$ 101,4 negativo no ano – fim do 1º governo Dilma – no dia
seguinte houve a substituição do Ministro Mantega pelo Joaquim Levy
• 2017 BUS$ 15,0 negativo no ano – queda na Taxa SELIC após a substituição
do Ministro Henrique Meirelles por Eduardo Guardia em 10abr2018
• 2019 BUS$ 50,4 negativo no ano – maior redução da Taxa SELIC após a
posse do Ministro Paulo Guedes

Considerando agora que:


a) as notícias, reportagens, entrevistas, artigos, estudos e livros publicados, de
autoridades e especialistas, sobre o tema;
b) o retorno que recebi sobre os dois textos referidos no início deste texto; e
c) as trajetórias do Resultado das Transações Correntes RTC apresentadas
nos dois gráficos com os valores ano a ano e acumulados;
arrisco-me a afirmar que o principal dos fatores determinantes desses resultados,
sistematicamente negativos, é a falta de “consciência” dos responsáveis pela
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“Governança do Balanço de Pagamentos” de que os efeitos de tais resultados
negativos não se esgotam ao final de cada ano.
Os dados, avaliações e pronunciamentos publicados denotam que não levam em
consideração que tais resultados se acumulam, ano após ano, como os “Prejuízos
Acumulados” registrados nos balanços das empresas, agravando a situação, ano
após ano, do “Brasil S/A” que já é cativo na “espiral hiperbólica diabólica”
dinamizada pelos fatos “...prejuízo nas transações correntes – mais recursos externos
para financiar o prejuízo – mais remessa de rendas para o exterior – maior prejuízo nas
transações correntes...”.
Desta primeira avaliação posso extrair as seguintes “Questões Críticas” cuja
criticidade será reforçada ao longo da avaliação de desempenho; quais sejam:
Questão Crítica 1: O Brasil, nas suas transações com o exterior em moeda forte,
está cativo na “espiral hiperbólica diabólica” –...prejuízo nas transações
correntes – mais recursos externos para financiar o prejuízo – mais remessa de
rendas para o exterior – maior prejuízo nas transações correntes... – com sua
soberania cada vez mais ameaçada.
Questão Crítica 2: Os agentes públicos e privados responsáveis pelas
transações comerciais, econômicas e financeiras com o exterior em moeda forte
não tem consciência da grave situação em que se encontra o Brasil ou, se a
têm, não a explicitam e, em consequência, não a descrevem, não a equacionam e
muito menos a enfrentam.
Questão Crítica 3: O Brasil precisa de um “Conselho de Gestão do Balanço de
Pagamentos”, para completar, junto com o Conselho Monetário Nacional e o
Conselho de Gestão Fiscal (em criação nos termos da LC 110), a tríade da
Governança das Políticas Monetária, Fiscal e Cambial que, queiramos ou não,
são correlatas de fato (ou seja: determinam-se mutuamente) e condicionam as
de desenvolvimento econômico e a soberania nacional.
Questão Crítica 4: Os estudiosos da macroeconomia precisam identificar os
fatores determinantes que levaram, a partir do Plano Real, o Resultado das
Transações Correntes RTC a uma espiral de prejuízos; essa espiral denota
que as Políticas de Preservação da Soberania Nacional, Desenvolvimento
Econômico, Monetária, Fiscal e Cambial não estão articuladas entre si e/ou que
os modelos conceituais (pressupostos e/ou implícitos) na identificação, descrição
e avaliação de “Questões Críticas” para o desenvolvimento e soberania nacional
e/ou na formulação de Políticas Públicas e de Planos de Ação para o
enfrentamento dessas questões estão equivocados e/ou incompletos e/ou
contém graves contradições internas.
Considerando esta situação de prejuízos crescentes e sistemáticos, não há como não
trazer à consideração a seguinte
Questão Crítica 5: como foram financiados esses prejuízos crescentes e
sistemáticos produzidos como Resultado das Transações Correntes RTC,
governo após governo? Crise após crise? Plano após plano?

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Esta questão será respondida com o auxílio de uma das demonstrações de
desempenho do MADE(BalPag): o Balanço Patrimonial Nacional BPN do “Brasil
S/A” do final de 2019, abaixo apresentado.

Desempenho de Economias Nacionais nas Transações com o Exterior


Balanço Patrimonial Nacional em Moeda Forte
Brasil 1947-2019
US$ Milhões correntes acumulados
Fonte: Banco Central do Brasil - Séries Temporais - Acesso em 28 jan 2020 Elaboração © 2001-2020 por Cesar Rômulo Silveira Neto

Balanço Patrimonial Nacional


BPN Ativo 1.808.164,6 1.808.164,6 BPN Passivo

(Estoque do Estoque de Investimento Direto de


(Saldo das Transações Correntes "Não Residentes"
Patrimônio Nacional Estoque de
acu)
Líquido PNL) Investimento de "Não
Residentes"
916.473,8 911.444,4 1.199.140,2

Estoque de Derivativos de "Residentes"


(líquido) 1.918.941,0
(5.000,0)
(Estoque de Erros e Omissões)

(29,4)

Estoque de Investimento de "Residentes" Estoque de Haveres


das Autoridades Estoque de Investimento em Carteira
240.462,8 Monetárias de "Não Residentes"
Estoque de Investimento Direto de "Residentes"

33.992,2
Estoque de Participação no capital – total de
650.731,9 447.216,5
"Residentes"
Estoque de Outros Investimentos de
376.276,9
"Não Residentes"
Estoque de Haveres das
Autoridades Monetárias 272.584,4
344.286,3
Modelo MADE(EcoNac) - Módulo MADE(BalPag) Estoque de Derivativos de
O Desempenho de Economias Nacionais Contemporâneas nas (Estoque de Erros e
Transações Comerciais, Econômicas e Financeiras com o Exterior "Não Residentes" (líquido)
Situação do Balanço Patrimonial Nacional em Moeda Forte
Omissões)
Formação do Patrimônio Nacional em Moeda Forte
Resultado das Transações com o Exterior realizadas de 1947 a 2019 (98.298,0) (110.776,4)
©1989-2020 Cesar Romulo Silveira Neto

Ele foi produzido, para todos os anos desde 1947, com base nos dados publicados
pelas Autoridades Monetárias, só que organizados e apresentados na forma que é
exigida das empresas da Capital Aberto e não na forma sugerida no BPM6 do FMI,
adotado pelo Banco Central do Brasil.
A simples leitura do Balanço Patrimonial Nacional BPN de 2019, que sintetiza todo
o desempenho do “Brasil S/A” desde 1947 nas suas transações com o exterior em
moeda forte, e não apenas nas transações correntes, nos permite explicitar uma nova
“Questão Crítica”, que é crítica não tanto pelos fatos nele retratados, mas sim pela
falta de “consciência” dos responsáveis pela “Governança do Balanço de
Pagamentos” desses fatos; qual seja:
Questão Crítica 6: o Investimento de “Não Residentes” no valor de BUS$
1.918,9 – quase DOIS TRILHÕES DE DOLARES – está financiando:
a) Todo o “Estoque do Saldo das Transações Correntes”: BUS$ 916,5
negativo;
b) Todo o “Estoque de Investimentos de “Residentes”” aplicados no exterior:
BUS$ 650,7;

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c) Todo o “Estoque de Haveres das Autoridades Monetárias”, as chamadas
Reservas Internacionais: BUS$ 344,3;
d) Todo o saldo do “Estoque de Derivativos”: BUS$ 12,5.
O Investimento de “Não Residentes” é legítima e legalmente remunerado, ano
após ano, mas que, simultaneamente, contribui para a trajetória de prejuízos
crescentes do Resultado das Transações Correntes RTC se não produzirem
riquezas que contribuam para a melhoria significativa do Resultado da Balança
Comercial e, em decorrência, do desempenho do Brasil nas transações correntes com
o exterior em moeda forte.
Esta é a realidade dos fatos: nua e crua.
Muitos já se surpreenderam com esta realidade, pois ela vai contra o “senso
comum” que afirma, algumas vezes em “prosa e verso”, que já pagamos toda a
“dívida externa”, que temos “reservas internacionais” suficientes (que na realidade
funcionam como um “seguro contratado” para garantir a liquidez em moeda forte), que
usamos “nosso dinheiro” para financiar obras nos países “companheiros”...
Puro engano!
O passivo do “Brasil S/A” está presente num valor de quase DOIS TRILHÕES DE
DÓLARES: US$ 1.918.941,0 milhões, mais exatamente!
Valor este 4,7% maior do que o PIB de 2019.
Passivo que não é do Governo. É dos “Residentes” que “devem” aos “Não
Residentes”, seus “credores”5. Só que é um “dever avalizado” pelo Estado brasileiro
por ser em “moeda forte”. Aval que, em última instância, é suportado, econômica e
financeiramente, pelos contribuintes, diretos e indiretos, sendo estes a população como
um todo, que tem sofrido ao longo da história os efeitos gravosos do câmbio
supervalorizado artificialmente, das altas taxas de inflação, das altas taxas de juros,
dos aumentos indiscriminados de tributos e da ineficiência dos serviços públicos.
A realidade dos fatos se impõe pelas crises recorrentes.
Fatos que precisam ser enfrentados, mas cujo enfrentamento depende da concertação
de referenciais, valores e vontades de uma plêiade de agentes dispostos a
equacionar e solucionar a “Questão Crítica” que sintetiza essa situação; qual seja:
Questão Crítica 7: é absolutamente necessário que os agentes públicos e
privados com responsabilidade na produção de resultados nas transações com o
exterior em moeda forte e/ou no enfrentamento dos efeitos negativos por eles
provocados, fixem e assumam como seus:
a) o objetivo de produzir um Resultado das Transações Correntes RTC maior
do que zero (RTC > 0) até do final de 2021 e de mantê-lo assim nos anos
seguintes; e

5Por oportuno: “credores” são os titulares de créditos de qualquer natureza registrados, com saldo
positivo, nas “contas credoras” que compõem o Passivo do Balanço Patrimonial Nacional BPN, onde
estão classificados por espécie do “Capital de Não Residentes” (vide figura do BPN).
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b) o objetivo de produzir Resultados das Transações Correntes RTC em
valores tais que tornem o Patrimônio Nacional Líquido PNL em moeda
forte maior do que zero (PNL > 0) até 2030 e de mantê-lo assim nos anos
seguintes; e
c) o objetivo de produzir Resultados das Transações Correntes RTC em
valores tais que o valor do Patrimônio Nacional Líquido PNL seja suficiente
para financiar o valor da totalidade dos Haveres das Autoridades
Monetárias HAM (Reserva Internacional) (PNL > HAM) até 2034 e de
mantê-lo assim para sempre.
Ao correr de toda a avaliação do desempenho do “Brasil S/A” nas suas transações
com o exterior que se seguirá após esta síntese, as “Questões Críticas” que serão
explicitadas e propostas visarão sempre contribuir para a realização dos objetivos
acima propostos para a realização do “Brasil 2030: Aberto e Soberano!”.
• Um Brasil Aberto para o mercado mundial de bens, serviços, moedas,
créditos e capitais de modo a maximizar a alocação da produção interna
bruta com o atendimento da demanda agregada, maximização essa
viabilizada com o máximo de exportações e o máximo de importações que
atendam a condição de produzir um Resultado na Balança Comercial de
Bens e Serviços RBC positivo para que ele, agregado à Renda Recebida do
Exterior RRE, seja mais do que suficiente para financiar a Renda Enviada ao
Exterior REE e ainda para produzir um Resultado das Transações Correntes
RTC necessário e suficiente para a realização dos objetivos acima propostos; e
que todo Investimento de “Não Residentes” que contribua para a realização
desses objetivos seja buscado com determinação.
• Um Brasil Soberano na tomada de decisões, nos termos da Constituição da
República, com o mínimo de restrições impostas por Estados e/ou “interesses”
estrangeiros, principalmente as impostas nas negociações de financiamentos
para os déficits produzidos pelas transações correntes por falta de moeda
forte.
• Um Brasil com “Moeda Forte”, como consequência da produção interna de
riqueza suficiente para realizar os objetivos acima propostos; de preferência,
riqueza produzida com aumento de produção com ganhos de
produtividade e com alto valor agregado.
Há muito o que fazer para realizarmos o “Brasil 2030: Aberto e Soberano!”
Mas o que mais importa agora é a tomada de consciência de que há uma grave
“Questão Crítica” a ser mais bem qualificada, equacionada e solucionada.
Mas vamos rápido.
O “cativo6”, com muita esperança, nos espera!

6Ao leitor que aqui chegou, recomendo a leitura de Isaias 61 e 55, pois creio que suas palavras, de há
2.700 anos, iluminarão a realização da esperança do “cativo”, como um memorial para a glória de Deus.
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