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Se o devedor continua a ter que entregar coisas do mesmo género, tal significa que a

obrigação genérica ainda não se concentrou, ocorrendo tal apenas, regra geral, com o
cumprimento, sendo esse também o momento da transferência da propriedade sobre
as coisas objecto da obrigação genérica, dado que a transmissão da propriedade das
coisas genéricas exige a sua concentração (art.º 408.º, n.º 2, CC), o que normalmente
apenas ocorre mediante a entrega pelo devedor (art.º 540.º, CC). A lei admite, no
entanto, certos casos em que, embora cabendo a escolha ao devedor, a obrigação se
concentra antes do cumprimento (art.º 541.º, CC), sendo estas o acordo das partes, o
facto de o género se extinguir a ponto de restar apenas uma – ou, mais precisamente, a
quantidade devida – das coisas nele compreendidas, o facto do credor incorrer em
mora e a promessa de envio do art.º 797.º.
Para Menezes Cordeiro, a norma do art.º 541.º documenta cedências do legislador às
teorias da escolha e do envio, pelo que, neste caso, o legislador se teria desviado da
teoria da entrega, discordando Menezes Leitão de tal asserção.
Este último Autor entende que a possibilidade do acordo das partes afastar a regra
geral da concentração da obrigação genérica no momento do cumprimento trata-se de
um contrato modificativo da obrigação, através do qual as partes substituem uma
obrigação genérica por uma específica. No tocante à situação de o género se extinguir
ao ponto de restar apenas a quantidade de coisas que o devedor deve prestar, este
Autor entende que a concentração ocorre por mero facto da natureza, inexistindo um
desvio à regra geral. Se as coisas sobrantes também desaparecessem, deixaria a
prestação de ser possível com coisas do género estipulado, pelo que o devedor estaria
sempre exonerado em virtude da impossibilidade da prestação (cf. art.º 790.º, CC).
No caso da mora do credor (cf. art.º 813.º, CC), ocorre nesta situação que este último,
sem motivo justificado, recusa receber a prestação ou não pratica os actos necessários
ao cumprimento da obrigação, determinando a lei que, neste caso, a obrigação
genérica se concentra, correndo o risco de perecimento destas coisas por conta do
credor, entendendo Menezes Leitão que esta regra especial se trata de uma ficção
estabelecida para estender a aplicação às obrigações genéricas do regime do art.º
814.º, n.º 1, fazendo recair sobre o credor em mora os riscos do perecimento
superveniente das coisas com que se dispunha a prestar. No entanto, a obrigação
permanece genérica se o devedor, perante a mora do credor, proceder à consignação
em depósito de coisas do mesmo género que não sejam aquelas que o credor recusou,
ninguém consideraria que a consignação não se fez em relação à coisa devida (art.º
841.º, CC), pelo que se o credor posteriormente abandonar a sua situação de mora,
não