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3/17/2020 Das sete artes liberais - Contra os Acadêmicos

Das sete artes liberais

por Otto Philipp Gustav Willmann

Tradutor: Cássio Gabriel

A expressão artes liberales, usada principalmente durante a Idade Média, não signi ca o
conceito de “artes” como a concebemos hoje em dia, porém, fazia signi cação aos ramos
de conhecimento que eram ensinados nas escolas daquele período. Elas são chamadas de
“liberais” (do Latim liber, livre), porque elas têm como objetivo o ensino do homem livre,
em contraposição às artes illiberales, das quais tinham como objetivo propósitos
econômicos; seus objetivos visavam preparar seus estudantes não com intento de ganhar
seus meios de subsistência econômica, mas para a busca da ciência — no signi cado
estrito do termo —, ou seja, a combinação entre a loso a e a teologia, mais conhecido
como Escolasticismo. São elas sete e são agrupadas em exatos dois grupos. O primeiro é
relativo a gramática, retórica e a dialética; em outras palavras, as ciências da linguagem, da
oratória, e da lógica, mais conhecidas como as artes sermocinales (ou estudos linguísticos).
O segundo grupo é composto por aritmética, geometria, astronomia e música; em outras
palavras, as disciplinas físico-matemáticas, conhecidas como artes reales, ou physicae. O
primeiro grupo é considerado como sendo o grupo elementar, e é por isso que essas
matérias de estudo são também chamadas de artes triviales, ou trivium; ou seja, um chão
bem plani cado de uma estrada com três bifurcações, ou como uma encruzilhada entre
três estradas que estão totalmente abertas para passagem. E em contraste com elas,
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temos as disciplinas matemáticas, conhecidas como artes quadriviales, ou quadrivium, ou


uma estrada com quatro bifurcações. As sete artes liberais são, então, membros de um
sistema de estudos dos quais englobam o ramo de estudos linguísticos como o nível
iniciante; o ramo de estudos matemáticos como o nível intermediário; e a ciência,
propriamente dita, como o nível mais elevado e superior. Embora este sistema não tenha
recebido o distinto desenvolvimento denotado pelo seu próprio nome até o início da
Idade Média, o mesmo continuou a estender-se por entre os anais da história da
pedagogia, tanto antes como depois de seu desenvolvimento. Pois enquanto por um lado
nós nos deparamos com ela no meio de duas civilizações clássicas, as nações Grega e
Romana, e até mesmo por termos tido descoberto formas análogas de ensino como
percursores do sistema educacional das antigas nações Orientais, sua in uência, por outro
lado, durou muito, muito além do período de vigência da Idade Média, até o presente
momento.

É desejável, por diversas razões, tratar o sistema das sete artes liberais deste ponto de
vista, e o mesmo propomos fazer neste presente artigo. O assunto em questão possui
especial interesse para os historiadores, porque uma evolução, que se estendeu por mais
de dois mil anos e do qual a mesma permanece em constante soerguimento, desa a, aqui,
nossa atenção se analisada sua transcendência tanto em sua duração como em suas
rami cações locais em todas as fases da pedagogia. Porém, é igualmente instrutivo para o
lósofo porque pensadores como Pitágoras, Platão e Santo Agostinho colaboraram na
construção do sistema, e porque, no geral, muito pensamento — como poderíamos dizer
—, e muita sabedoria pedagógica foram inseridas nele. Daqui, igualmente, surge a
importância ao professor prático, pois entre os comentários de tão diversos escolásticos
sobre este tópico, podemos, assim, achar muitas sugestões dos quais são da mais grande
utilidade.

O sistema Oriental de estudo, que exibe uma analogia instrutiva com o estudado aqui, é
aquele dos antigos Hindus ainda em voga entre os Brâmanes. Neste, o mais elevado
objeto de estudo são os Vedas, ou seja, a ciência ou doutrina das coisas divinas, o sumário
de seus escritos especulativos e religiosos para o entendimento das quais dez ciências
auxiliares são postas em serviço para tal objetivo; quatro, quais sejam, fonologia,
gramática, exegese e lógica são as de natureza linguístico-lógica, e as que podem ser
comparadas com o Trivium; enquanto duas, a saber, astronomia e métrica, pertencendo
por suposto ao domínio da matemática, e portanto ao Quadrivium. O restante, isto é, lei,
conhecimento cerimonial, sabedoria lendária e os dogmas pertencem a teologia. Entre os
Gregos, o lugar dos Vedas é tomado pela loso a, ou seja, o estudo da sabedoria, a ciência
das últimas causas que é, de certo ponto de vista, idêntica à teologia. “Teologia Natural”,
ou seja, a doutrina da natureza da Divindade e das coisas Divinas, era considerado como o
campo de domínio do losofo; tal como “teologia política” era para o sacerdote, era a
“teologia mística” para o poeta (Ver O.Willmann, Geschichte des Idealismus (Brunswick,
1894), I, seção. 10). Pitágoras (que “brilhou” entre 540 B.C.  e 510 B.C.) foi o primeiro a
autodenominar-se lósofo, todavia, foi de igual forma estimado como o maior teólogo

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grego. O curriculum (programa de estudos) que ele montou para seus pupilos os conduziu
para o hieros logos, ou seja, o ensino sagrado, a preparação para o que os estudantes
concebiam como mathematikoi, isto é, apreendedores, ou pessoas que se ocupavam com
a mathemata, a “ciência da aprendizagem” — tal, de fato, agora conhecido como
matemática. A preparação para isto se dava no que os discípulos eram postos em
passagem, akousmatikoi (escutadores); depois desta preparação, eram introduzidos ao
que era então conhecido entre os gregos como mousike paideia (educação musical), que
consistia na leitura, escrita, lições de poetas, exercícios de memorização e técnica musical.
A posição intermediária da matemática é atestada pela antiga expressão metaichmon dos
Pitagóricos, isto é, a saber, o espaço entre os combatentes, a “distancia da lança”; neste
caso, entre a elementar e a estrita educação cientí ca. Pitágoras é, ademais, renomado
por ter convertido a investigação geométrica, ou seja, matemática, em uma forma de
educação para o homem livre (Proclus, Comentário sobre Euclides, I, p. 19, “ten peri ten
geometrian philosophian eis schema paideias eleutherou metestesen”). “Ele descobriu um
meio ou estágio intermediário entre a matemática do templo e a matemática da vida
prática, tal como é usado por agrimensores e negociantes; ele preserva o mais elevado
objetivo do primeiro, ao mesmo tempo que o torna na palestra do intelectual; ele
pressiona uma disciplina religiosa no serviço da vida secular sem, entretanto, surrupiar
este do caráter sagrado daquele, tal como ele previamente transforma teologia física em
loso a natural sem alienar este da origem sagrada deste” (Geschichte des Idealismus, I, 19,
no nal). Uma extensão dos estudos elementares foi trazida pela vida mental ativa,
embora um tanto instável, que se desenvolveu após as guerras persas no quinto século
a.C. Partindo do simples estudo da leitura e da escrita, avançaram à arte da fala e sua
teoria (retórica), da qual foi combinada com a dialética, propriamente dita como a arte do
discurso alternado, ou a discussão entre os prós e contras. Esta mudança foi trazida pelos
so stas, particularmente por Górgias de Leontini. Eles também deram muita importância a
muitas facetas em seus conhecimentos teóricos e práticos. De Hípias de Élis é relatado
que ele se jactou pelo motivo de ter feito seus próprios manto, túnica e alparcatas (Cícero,
De Oratore, III, 32, 127.). Desta forma, o atual idioma gradualmente começou a designar
todo o corpo de conhecimento educacional como encíclico, ou seja, como universal, ou
todo-abrangente (egkyklia paideumata, ou methemata; egkyklios paideia). A expressão
indicou, originalmente, o conhecimento comum a todos, porém, mais tarde, assumiu o
signi cado acima mencionado¹.

Tendo Sócrates já fortemente enfatizado os objetivos morais da educação, Platão (429–


347 a.C.) protestou contra sua degeneração proveniente de um esforço para adquirir
cultura em um amontoado de informações variadas (polypragmosyne). Em “A República“,
ele propõe um curso de educação que parece ser o curso pitagórico aperfeiçoado.
Introduz com a cultura musico-ginástica, por meio do que visa imprimir nos sentidos as
formas fundamentais do belo e do bom, a saber, ritmo e forma (aisthesis). O curso
intermediário abrange os ramos matemáticos, ou seja, aritmética, geometria, astronomia,
e música, que possuem pretensão de colocar em ação os poderes da re exão (dianoia), e
para possibilitar ao estudante que faça progresso adiante pelos degraus do senso até a

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percepção intelectual, tal como ele sucessivamente mestra a teoria dos números, das
formas, das leis cinéticas dos corpos, e das leis do som [musical]. Isto conduz ao mais alto
patamar do sistema educacional, seu pináculo (thrigkos) por assim dizer; ou seja, à
loso a, da qual Platão chama de dialética, que, por meio desta, eleva a palavra de seu
signi cado usual para, assim, passar a signi car a ciência do Eterno como chão e protótipo
do mundo dos sentidos. Este progresso à dialética (dialektike poreia) acontece por meio do
trabalho de nossa faculdade cognitiva mais eminente, o intelecto intuitivo (νοῦς, nous).
Desta forma, Platão defende uma base psicológica, ou noética, para a sequência de seus
estudos, a saber: sentido-percepção, re exão e discernimento intelectual. Durante o
período Alexandrino, que começou nos anos nais do quarto século antes de Cristo, os
estudos encíclicos assumiram forma escolástica. A Gramática, como a ciência da
linguagem (gramática técnica) e como a explanação dos clássicos (gramática exegética),
assume a liderança; a retórica se torna um curso elementar de fala e escrita. Eles
entendem por dialética, de acordo com os ensinos de Aristóteles, direções que
possibilitam ao estudante apresentar observações aceitáveis e válidas sobre determinado
objeto; assim, a dialética torna-se lógica prática elementar. Os estudos matemáticos
preservaram sua ordem platônica; por meio de poemas sobre astronomia, a ciência das
estrelas, e por meio de trabalhos em geogra a, a ciência do globo tornou-se parte da
educação popular (Strabo, Geographica, I, 1, 21-23). A Filoso a permaneceu a culminação
dos estudos encíclicos, o que lhe deu a relação de empregadas domésticas a uma amante,
ou de um abrigo temporário à casa xa (Diog. Laert, II, 79; cf. o autor de Didaktik als
Bildungslehre, I, 9).

Entre os Romanos, a gramática e a retórica eram primárias, pois com elas se obteria uma
base rme; a cultura era por eles identi cada com eloquência, como a arte de falar e o
domínio da palavra falada baseada em um conhecimento múltiplo das coisas. Em seu
“Institutiones Oratoriae“, Quintiliano, o primeiro professor eloquentiae (de eloquência) em
Roma no período Vespasiano, começa sua lição com gramática, ou mais precisamente,
com Gramática Latina e Grega; prossegue para a matemática e música, e conclui com
retórica, que abrange não somente elocução e o conhecimento da literatura, mas
igualmente o ensino — em outras palavras, dialética — lógico. Todavia, tanto o sistema
encíclico como o sistema das artes liberais, ou Artes Bonae, isto é, a aprendizagem do vir
bonus, ou patriota, era igualmente registrada e demonstrada em manuais especiais. O
“Libri IX Disciplinarum” do erudito Marcus Terentius Varro de Reate, um contemporâneo
anterior de Cicero, trata das sete artes liberais inserindo-lhes a medicina e arquitetura.
Como a ciência anterior veio para ser associada com os estudos gerais é explicado no livro
“De Architecturâ“, de Marcus Vitruvius Pollio, um escritor do tempo de Augustus, no qual
excelentes observações são feitas sobre a conexão orgânica existente entre todos os
estudos. “O inexperiente”, diz ele, “poder-se-á admirar no fato que tão diversas coisas
podem ser retidas na memória; porém, tão logo quando observarem que todos os ramos
da aprendizagem possuem uma real conexão com cada um, e uma reação reciproca por
sobre cada um, a substância parecerá demasiado simples; a ciência universal (egkyklios,
disciplina) é composta de ciências especiais tal como um corpo é composto de diversos

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membros, e aqueles que desde sua mais tenra idade tem sido instruídos nos diferentes
ramos do conhecimento (variis eruditionibus) reconhecem, em todos, as mesmas
características (notas) fundamentais e das relações mutuas de todos os ramos, e portanto
compreendem tudo muito facilmente” (Vitr., De Architecturâ, I, 1, 12). Nessas diversas
perspectivas, o conceito platônico continua em operação, e os Romanos sempre retiveram
a convicção que somente na loso a se encontraria a perfeição da educação. Cicero
enumera os seguintes como os elementos de uma educação liberal: geometria, literatura,
poesia, ciência natural, ética e política. (Artes quibus liberales doctrinae atque ingenuae
continentur; geometria, litterarum cognito et poetarum, atque illa quae de naturis rerum, quae
de hominum moribus, quae de rebus publicis dicuntur.)

O Cristianismo ensinou aos homens a considerar a educação e a cultura como um


trabalho para a eternidade, onde todos os objetos temporários são secundários. É
atenuada, pois, a antítese entre as artes liberais e as iliberais; a educação do jovem
alcança seu propósito quando age de modo “a m de que o homem de Deus seja perfeito
e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:17). Consequentemente, o
trabalho — que entre as nações clássicas era considerado como indigno ao homem livre,
do qual deveria viver para o lazer — foi, agora, enobrecido; mas a aprendizagem, a prole
do lazer, não perdeu em nada de sua dignidade. Os Cristãos preservaram a expressão,
mathemata eleuthera, studia liberalia, como também a graduação dessas matérias. Porém,
agora, a verdade Cristã era a coroa do sistema na forma de instrução religiosa para as
pessoas, e a teologia para os instruídos. A apreciação dos diversos ramos de
conhecimento era largamente in uenciada pela visão expressa por Santo Agostinho em
seu pequeno livro, “De Doctrina Christiana“. Como ex-professor de retórica e mestre de
eloquência, ele era completamente familiarizado com as Artes, e até mesmo escreveu
alguns escrito a respeito delas. A Gramática retém o primeiro lugar na ordem de estudos,
todavia, o estudo das palavras não deve interferir na busca pela verdade da qual elas
contém. O presente mais escolhido pelas mentes brilhantes é o amor a verdade, e não às
palavras que a expressam. “Para que serve uma chave dourada se ela não nos
proporciona o acesso ao objeto ao qual desejamos, e por que achar aí falha caso ela sirva
ao nosso propósito?” (De Doctr. Christ., IV, 11, 26). Ao estimar a importância dos estudos
linguísticos como um meio de interpretar as Escrituras, deve-se enfatizar a gramática
exegética, e não a técnica. A Dialética deve também provar sua utilidade na interpretação
das Escrituras; “pois atravessa todo o texto como um tecido de nervos” (“Per totum textum
scripturarum colligata est nervorum vice”, ibid., II, 40, 56). A Retórica contém as regras da
discussão íntegra (praecepta uberioris disputationis); ela é usada mais para de nir o que de
antemão compreendemos do que para nos ajudar a entender (ibid., II, 18). Santo
Agostinho comparou a obra-prima da retórica com a sabedoria e a beleza do cosmos, e da
história — “Ita quâdam non verborum, sed rerum, eloquentiâ contrariorum oppositione seculi
pulchritudo componitur” (Cidade de Deus, XI, 18). A Matemática não foi inventada pelo
homem, mas suas verdades foram descobertas; elas nos fazem conhecer os mistérios
escondidos nos números encontrados nas Escrituras, e conduzem o pensamento para
além, do mutável ao imutável; e se interpretadas no espirito do Amor Divino, se tornam

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para a mente uma fonte da sabedoria que tudo ordenou, como que por medida, peso e
número (De Doctr. Christ., II, 39; igualmente Wisdom, xi, 21). As verdades elaboradas pelos
lósofos da antiguidade, tal como o precioso minério extraído das profundezas de uma
Providência que tudo governa, deve ser aplicada pelo Cristão no espirito do Evangelho, tal
como os Israelitas usaram das vasilhas sagradas dos Egípcios a serviço do verdadeiro Deus
(De Doctr. Christ., II, 41).

A série de compêndios a respeito deste assunto que estava em voga durante a Idade
Média começou com o trabalho de um Africano, Marcianus Capella, escrito em Cartago
por volta de 420 d.C. Toma como título “Satyricon Libri IX“, de satura, isto é, lanx, “um prato
cheio”. Nos primeiros dois livros, “Nuptiae Philologiae et Mercurii“, que traz a alegoria na
qual Phoebus apresenta as Sete Artes Liberais como empregadas domésticas à noiva
Filologia, são tratados temas mitológicos e outros. Nos sete livros que seguem, cada uma
das Artes Liberais apresentam o sol como o professor dela. Uma abordagem mais simples
do mesmo assunto pode ser encontrada no pequeno livro, direcionado para clérigos
intitulado “De artibus ac disciplinis liberalium artium“, que foi escrito por Magnus Aurelius
Cassiodorus no reinado de Teodorico. Notar-se-á aqui que Ars signi ca “compêndio”²,
como a palavra Grega τέχνη, techne; disciplina é a tradução do Grego mathesis ou
mathemata, e permaneceu em um sentido mais restrito para as ciências matemáticas.
Cassiodorius deriva da palavra liberalis, não de liber, “livre”, mas de liber, “livro”, assim
indicando a mudança desses estudos para leitura, tal como o desaparecimento da ideia de
que outras ocupações são vis e impróprias para o homem livre. E novamente nos
encontramos com as Artes no começo de um trabalho enciclopédico intitulado “Origines,
sive Etymologiae“, em vinte livros, compilados por Santo Isidoro, Bispo de Sevilha, por volta
do ano 600 d.C. O primeiro livro deste trabalho trata da gramática; em segundo, da
retórica e dialética, ambos consistindo pelo nome de lógica; em terceiro, dos quatro ramos
matemáticos. Nos livros IV–VIII seguem os estudos de medicina, jurisprudência, teologia;
mas os livros IX e X dá-nos material linguístico, etimologias, etc.; e os remanescentes
apresentam uma miscelânea de informações úteis. Albinus (ou Alcuíno), o afamado
estadista e conselheiro de Carlos, o Grande, lidou com as Artes em tratados distintos, dos
quais apenas os tratados considerados como guias ao Trivium chegaram a nós. Na
introdução, ele faz com Provérbios IX, I (“ A Sabedoria edi cou a sua casa, lavrou as suas
sete colunas”) uma alusão às sete artes liberais nas quais ele pensa serem as sete colunas.
O livro é escrito em forma de diálogo, no qual consiste no aluno perguntando algumas
questões e o mestre as respondendo. Um dos discípulos de Alcuíno, Rabanus Maurus, que
morreu em 850 como o arque bispo de Mainz, em seu livro intitulado “De institutione
clericorum“, deu breve instruções a respeito das Artes, e publicou sob o título de “De
Universo“, o que poderia ser chamado de uma enciclopédia. A extraordinária atividade
mostrada pelos monges Irlandeses como professores na Alemanha, fez com que a
designação de Artes passasse para “Methodus Hybernica”. Para imprimir a sequência das
artes na memória do estudante, versos mnemônicos foram empregados, tal como o
hexâmetro;

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“Lingua, tropus, ratio, numerus, tonus, angulus, astra.

Gram loquiter, Dia vera docet, Rhe verba colorat

Mu canit, Ar numerat, Geo ponderat, Ast colit astra”³.

Pelo número “sete”, o sistema então se tornou popular; as “Sete Artes” foram lembradas
como as “Sete Petições da Oração do Senhor”, os “Sete Dons do Espírito Santo”, os “Sete
Sacramentos”, as “Sete Virtudes”, etc. As “Sete Palavras na Cruz”, os “Sete Pilares da
Sabedoria”, os “Sete Céus”, poderiam igualmente sugerir ramos particulares de
aprendizagem. As sete artes liberais acharam contrapartes nas sete artes mecânicas; as
últimas incluíam a tecelagem, a ferraria, a guerra, a navegação, a agricultura, a caça, a
medicina, e as ars theatrica (artes teatrais). A estas foram adicionados a dança, a luta e a
condução. Até mesmo as habilidades a serem dominadas pelos candidatos a cavaleiro
foram xadas em sete: equitação, esgrima, justas, luta (greco-romana), corrida, salto e
arremesso de lança. Ilustrações pictóricas das Artes são frequentemente descobertas, e
geralmente são de guras femininas representando seus atributos convenientes; então a
Gramática aparece com um livro e uma vara; a Retórica, com uma tabuleta e um stilus⁴; a
Dialética, com a cabeça de um cachorro em sua mão, provavelmente em contraste ao lobo
da heresia — Cf. também com o jogo de palavras em Domini canes, Dominicani —; a
Aritmética, com uma corda atada; a Geometria, com um par de compassos e uma régua; a
Astronomia, com alqueires e estrelas; e a Música, com um cistre (ou cítola) e um
organistrum. Retratos dos principais representantes das diferentes ciências eram
igualmente adicionados. Então, no grande grupo por Taddeo Gaddi no convento
Dominicano de Santa Maria Novella em Florença, pintado em 1322, cuja gura central é S.
Tomás de Aquino, a Gramática aparece tanto como Donatus (que viveu por volta de 250
d.C.) ou Piscian (por volta de 530 D.C), os dois mais proeminentes professores de
gramática, no ato de estarem instruindo um menino; a Retórica é representada por Cícero;
a Dialética por Zenão de Eleia, a quem os antigos consideram como o fundador da arte;
Aritmética por Abraão, como o representante da loso a dos números, e como versado
no conhecimento das estrelas; Geometria por Euclides de Alexandria (por volta de 300
a.C), cujo “Elementos” (Στοιχεῖα, Stoicheia) foi considerado compêndio por excelência; a
Astronomia por Ptolemeu (ou Ptolomeu), cujo o tratado “Almagesto” foi considerado o
cânone do saber das estrelas; a Música por Tubalcaim utilizando-se de um martelo, que é
provavelmente uma alusão aos martelos harmoniosamente a nados que dizem ter
sugerido a Pitágoras sua teoria dos intervalos. E em contrapartida às artes liberais,
encontram-se as sete ciências superiores: o direito civil, o direito canônico e os cinco
ramos da teologia intitulados: especulativo, escriturístico (bíblico), escolástico,
contemplativo e apologético. (Cf. Geschichte des Idealismus, II, Par.  74, onde a posição de S.
Tomás de Aquino a respeito da ciência é discutida.)

Uma obra instrutiva das sete artes liberais no século XII pode ser encontrada no trabalho
intitulado “Didascalicum“, ou “Eruditio Didascalici“, escrito pelo agostiniano canonizado
Hugo de São Vitor, que morreu em Paris, em 1141. Ele foi descendente da família do
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condado de Blankenburg, nas Montanhas Harz, e foi educado no convento agostiniano de


Hammersleben na Diocese de Halberstadt, onde devotou-se às artes liberais de 1109 a
1114. Em seu “Didascalicum“, VI, 3, escreve: “ouso dizer que eu nunca menosprezei nada
que pertença a erudição, mas aprendi muito, vindo de coisas que, para alguns, parecia
insigni cante e insensato. Me lembro agora que, quando era um jovem estudante, tentei
veri car os nomes de todos os objetos que vi, ou que vieram parar em minhas mãos, e
como eu formulei meus próprios pensamentos a respeito deles [perpendens libere], a
saber: esse que não pode saber a natureza das coisas antes de ter aprendido seus
respectivos nomes. Como frequentemente predispunha-me à tarefa diária voluntária no
estudo dos problemas [sophismata] que anotei em prol da brevidade, por meio de uma
palavra de ordem ou duas [dictionibus] na página, com o objetivo de con ar à minha
memória a solução e o número de quase todas as opções, questões, e objeções das quais
aprendi. Inventei casos e análises legais com objeções pertinentes [dispositiones ad invicem
controversiis], e na feição de tão cuidadosas distinções entre os métodos da retórico, do
orador, e do so sta. Eu representei números por seixos, e cobri o chão com linhas pretas,
e provei claramente pelo diagrama ante a mim as diferenças entre triângulos em ângulos
agudos, retos e obtusos; de igual modo, veri quei se um quadrado tinha a mesma área
que um retângulo, dois de cujos lados se multiplicam, pela diminuição do tamanho em
ambos os casos [utrobique procurrente podismo]. Tenho muitas vezes contemplado as
estrelas durantes as noites de inverno [horoscopus⁵]. Geralmente eu amarrava a magada⁶
com o objetivo de medir as cordas de acordo com os valores numéricos, e eu as
tencionava sobre a madeira a m de perceber com meus ouvidos a diferença entre os
tons, e ao mesmo tempo que alegrava a meu coração com a doce melodia. Isto tudo foi
feito de uma forma infantil, mas está longe de tudo o que z ser considerado inútil, pois
este conhecimento não foi pesaroso para mim. E não relembro de tais fatos a m de
gabar-me de minhas realizações, dos quais são ín mas ou sem qualquer valor, mas para
mostrar que o mais ordenado trabalho é igualmente o mais hábil [illum incedere aptissime
qui incedit ordinate], diferente dos vários que, desejosos em dar um grande pulo, caem no
abismo; pois, como as virtudes, também nas ciências existem passos xos. Porém, irás
dizer, ‘acho em diversas histórias assunto inútil e proibido; por que deveria eu ocupar meu
tempo com isso?’ É bem verdade, deveras, que há nas Escrituras muitas coisas que, se
consideradas em si mesmas, são, aparentemente, isentas de valor útil, mas que, se você
as comparar com outras vinculadas a elas, e se você as ponderar, tendo em mente esta
relação [in toto suo trutinare caeperis], irão provar que são necessárias e uteis. Algumas
coisas são proveitosas de se conhecerem por elas mesmas; mas outras, embora
aparentando mostrar nenhum retorno — para nosso incômodo —, não deve ser
negligenciada, pois sem elas, o anterior não pode ser, em sua completude, dominado
[enucleate sciri non possunt]. Aprenda tudo; você irá posteriormente descobrir que nada é
supér uo; o conhecimento limitado não oferece prazer algum [oarctata scientia jucunda
non est].”

A relação das Artes com a loso a e a ciência foi elmente considerada durante a Idade
Média.  Hugo diz a respeito disso: “Dentre todos os departamentos do conhecimento, os

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patriarcas estabeleceram sete para serem estudados pelos iniciantes, pois encontraram
neles maior valor que em outros, de modo que quem quer que tenha os dominados
completamente, pode dominar o restante, antes pela pesquisa e pela prática que pela
instrução oral do professor. São, como foram, as melhores ferramentas, a mais adequada
entrada através do qual o caminho à verdade losó ca é aberto a nosso intelecto. Por isso
os nomes trivium e quadrivium, porque aqui a mente sadia progride tal como avançasse
por estradas ou caminhos que a direcionassem aos segredos da sabedoria. E é por conta
disso de ter havido tantos homens sábios entre os patriarcas, dos quais seguiram este
caminho. Nossos escolásticos [scholastici] são relutantes, ou não sabem, enquanto
estudam, como aderir ao método apropriado, de onde se pode encontrar muitos que
fervorosamente trabalhavam [studentes], porém, poucos que eram sábios” (Didascalicum,
III, 3).

São Boaventura (1221–1274), em seu tratado “De Reductione artium ad theologiam“, propõe
uma profunda explanação da origem das Artes, incluindo a loso a; e se baseia no
método das Sagradas Escrituras como o método de todo ensino. As Sagradas Escrituras
falam a nós de três formas: pelo discurso (sermo), pela instrução (doctrina), e pela vivencia
(vita). É esta a fonte da verdade no discurso, da verdade nas coisas, e da verdade na moral,
e, portanto, igualmente da loso a racional, natural e moral. A Filoso a Racional, tendo
como objeto a verdade falada, lida do ponto de vista triplo da visão da expressão, da
comunicação, e da impulsão a ação; em outras palavras, ela visa a expressar, a ensinar, e a
persuadir (exprimere, docere, movere). Estas atividades são representadas pelo sermo
congruus, versus, ornatus, e pelas artes da gramática, dialética, e da retórica. A Filoso a
Natural busca a verdade nas coisas mesmas como rationes ideales, e assim são divididas
entre física, matemática e metafísica. A Filoso a Moral determina a veritas vitae (a verdade
da vida) para a vida do indivíduo como monástica (Gr. μόνος, monos, “sozinho”); para a
vida doméstica como oeconomica (ordenada, metódica); e para a sociedade como politica.

Para os eruditos correntes e para a aprendizagem enciclopédica, a educação medieval tem


relações menos estreitas do que a de Alexandria, principalmente porque o Trivium tinham
um caráter formal, ou seja, visava mais no treinamento da mente do que em transmitir
conhecimento. Era considerada a leitura de autores clássicos como um apêndice ao
Trivium. Hugo que, como vimos, não a subestimava, inclui em suas leituras poemas,
fábulas, e outros tipos especí cos de instrução (poemata, fabulae, historiae, didascaliae
quaedam). A ciência da linguagem, usando a expressão de Agostinho, ainda é indicada
como a chave para todo conhecimento positivo; por esta razão sua posição logo na cabeça
das Artes (Artes) é mantida. Então, João de Salisbúria (nasceu entre 1110 e 1120; e morreu
em 1180, Bispo de Chartres) diz: “Se a gramática é a chave de toda literatura, e mãe e
senhora da linguagem, quem seria atrevido o su ciente para retirá-la do princípio da
loso a? Somente o que pensa que o que está escrito e falado é desnecessário para o
estudante de loso a” (Metalogicus, I, 21). Ricardo de São Vitor (morreu em 1173) faz da
gramática servente da história, como o mesmo escreve, “Todas as artes servem à
Sabedoria Divina, e cada arte inferior, se corretamente ordenada, leva a uma superior. Por

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conseguinte, a relação existente entre a palavra e a coisa exigia que a gramática, a


dialética, e a retórica atuassem na história” (Richardi, apud Vincentius Bellovacensis,
Speculum Doctrinale, XVII, 31).  O Quadrivium tinha, naturalmente, certas relações às
ciências e a vida; este foi reconhecido pelo considerar da geogra a como uma parte da
geometria, e o estudo do calendário como uma parte da astronomia. Encontramo-nos
com o desenvolvimento das Artes em conhecimento enciclopédico já em Isidoro de
Sevilha e em Rabanus Maurus, especialmente no trabalho deste último, “De Universo“. Foi
concluído no século XIII, ao qual pertencem às obras de Vicente de Beauvais (morreu em
1264), instrutor dos lhos de São Louis IX. Em seu “Speculum Naturale“, trata sobre Deus e
da natureza; em “Speculum Doctrinale“, começando pelo Trivium, ele lida com as ciências; e
em “Speculum Morale“, discute sobre o mundo moral. A estes um sucessor adicionou um
“Speculum Historiale“, que era simplesmente uma história universal.

Para o desenvolvimento acadêmico das Artes, era importante que as universidades as


aceitassem como parte de seus curricula (currículos). Dentre suas ordens, ou faculdades, a
ordo artistarum, que posteriormente foi chamada de faculdade de loso a, era
fundamental: Universitas fundatur in artibus. Este forneceu a preparação não somente para
a Ordo Theologorum (faculdade de teologia), mas igualmente à Ordo Legistarum, ou
faculdade de direito, e à Ordo Physicorum, ou faculdade de medicina. O compêndio do
monge cartuxo Gregório Reisch, confessor do Imperador Maximiliano I, nos dá uma clara
imagem dos métodos de ensino e do estudo continuado das artes nas universidades no
século XV. Ele lida sobre o tema em doze livro: (I) dos Rudimentos da Gramática; (II) dos
Princípios da Lógica; (III) das Partes de uma Oração; (IV) da Memória, da Escrita de Cartas,
e da Aritmética; (V) dos Princípios da Música; (VI) dos Elementos da Geometria; (VII) dos
Princípios da Astronomia; (VIII) dos Princípios das Coisas Naturais; (IX) da Origem das
Coisas Naturais; (X) da Alma; (XI) dos Poderes; (XII) dos Princípios da Filoso a Moral. A
edição ilustrada impressa em 1512 em Estrasburgo tem por apêndice: os elementos da
literatura Grega, Hebraica, da música anotada e mais algumas instruções técnicas
(Graecarum Litterarum Institutiones, Hebraicarum Litterarum Rudimenta, Musicae Figuratae
Institutiones, Architecturae Rudimenta).

Nas universidades, as Artes, pelo menos formalmente, mantiveram seu lugar até os
tempos modernos. Em Oxford, a Rainha Maria (1553–1558) construiu faculdades cujas
inscrições são signi cantes, como: “Grammatica, Litteras disce“; “Rhetorica persuadet mores“;
“Dialectica, Imposturas fuge“; “Arithmetica, Omnia numeris constant“; “Musica, Ne tibi
dissideas“; “Geometria, Cura, quae domi sunt“; “Astronomia, Altiora ne quaesieris“. O título
“Mestre das Artes Liberais” permanece ainda admitida em algumas das universidades que
oferecem o Doutorado em Filoso a; na Inglaterra, o título “Doutor em Música” ainda
permanece em uso comum. Todavia, na prática de ensino, o sistema das Artes Liberais
tem declinado desde o século XVI. A Renascença projetou seu olhar na técnica do estilo
(eloquentia) e em seu pilar, na erudição, o objeto ultimo da educação colegiada, assim
seguindo mais o sistema Romano que o Grego. A Gramática e a Retórica vieram para ser
os principais elementos dos estudos preparatórios, enquanto que as ciências do

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Quadrivium eram incorporadas no aprendizado miscelânico (eruditio) associado com a


retórica. Nas escolas católicas superiores, a loso a permaneceu como o estágio
intermediário entre os estudos lológicos e os estudos avançados (pro ssionais);
enquanto que no esquema protestante, a loso a foi assumida (para a universidade)
como um assunto de Faculdade. As escolas jesuítas apresentam a seguinte graduação de
estudos: gramática, retórica, loso a e, desde que a loso a começa com estudos em
lógica, este sistema igualmente preserva a dialética antiga.

Nos estudos eruditos acima propostos, deve-se procurar pelo germe da aprendizagem
enciclopédica que se desenvolveu incessantemente durante o século XVII. Amos Comenius
(morreu em 1671), o melhor representante conhecido desta tendência, que visou fazer
desta diminuta enciclopédia (encyclopædiola) dele chamada “Orbis Pictus” a base da
primeira instrução gramatical, onde fala com desdém daquelas “artes liberais de que tanto
se falava, do conhecimento do qual os comuns acreditam que um mestre em loso a
consegue dominar completamente”, e orgulhosamente declara, “nossos homens alcançam
um patamar mais elevado” (Magna Didactica, xxx, 2). O programa de suas aulas escolares
são as seguintes: gramática, física, matemática, ética, dialética e retórica. No século XVIII,
estudos de graduação assumem cada vez mais o caráter enciclopédico, e já no século XIX,
o sistema de classes é realocado pelo sistema de departamentos, onde diversos assuntos
são tratados simultaneamente com pouca ou nenhuma referência a sua respectiva
graduação; assim, no nal, o princípio das Artes é nalmente renunciado. Onde, ademais,
como no Gymnasia da Alemanha, a loso a tem sido descartada dos cursos de estudos, e
a miscelânea erudita tornou-se, em princípio, um m em si mesma. Não obstante, o
presente sistema educacional preserva traços de um arranjo sistemático mais antigo
(linguagem, matemática e loso a). Nos primeiros anos de seu curso no Gymnasium, o
jovem deve devotar seu tempo e energia ao estudo das línguas; no meio do curso, visar
principalmente a matemática; e no nal do curso, quando é chamado a expressar suas
próprias ideias, começa a trabalhar com lógica e dialética, mesmo que seja somente em
forma de composição. Assim, consequentemente, ele começar a abordar loso a. Esta
graduação onde funciona à sua própria maneira, por assim dizer, longe da presente
condição caótica de estudos mais avançados, deve ser feita sistematicamente. A ideia
fundamental das Artes Liberais seria, assim, revivida.

Portanto, a ideia platônica de que devemos avançar gradualmente da percepção sensorial


por meio da argumentação intelectual para a intuição intelectual, não é de modo algum
antiquada. A instrução matemática, que é reconhecidamente uma preparação para o
estudo da lógica, poderia apenas ter logro caso fosse conduzida neste espírito, se esta
fosse feita de uma forma logicamente clara, se seu conteúdo técnico fosse reduzido, e se
fosse seguida pela lógica. A expressa correlação entre a matemática à astronomia, e à
teoria musical, traria uma concentração salutar das ciências físico-matemáticas, agora
ameaçadas pela plethora (pelo excesso) de erudição. A insistência de antigos escritores a
respeito do caráter orgânico do conteúdo de ensino merece séria consideração. Para o
propósito de integração, um mero empacotamento de assuntos não correlacionados não

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seria o su ciente; sua dependência e relação originais devem ser trazidas à construção de
uma consciência esclarecida. Igualmente, a admoestação de Hugo merece devida atenção,
pois serve para distinguir entre o escutar (ou o aprender, propriamente dito) de um lado,
como também para a prática e a invenção do outro, pelos quais há boa oportunidade de
adquirir os mesmos tanto na gramática como na matemática. Igualmente importante é
sua exigência de que os detalhes do assunto ensinado sejam robustos — trutinare, de
trutina, a balança do ourives. Esta balança de ouro tem sido usada com demasiada
moderação e, consequentemente, a educação tem sofrido. Um realismo de visão míope
ameaça até mesmos os diversos ramos do ensino da linguagem. Esforços são criados para
restringir a gramática ao vernacular, e com o objetivo de banir a retórica e a lógica exceto
quando as mesmas sejam tão somente aplicadas na composição. Não é, portanto, inútil
relembrar as “chaves”. Em cada departamento de ensino, um método deve tem em vista a
respectiva séria, qual seja: na indução, baseada na percepção sensorial; na dedução,
guiada igualmente pela percepção; e na dedução abstrata — uma série que é idêntica à de
Platão. Toda compreensão implica nestes três níveis; primeiramente, entendemos o
signi cado daquilo que é dito; em seguida, entendemos inferências retiradas da
percepção sensorial; e por último, entendemos as conclusões dialéticas. As invenções têm,
outrossim, três níveis: descobrimos palavras; achamos a solução dos problemas; e
cogitamos em novos pensamentos. A gramática, a matemática e a lógica, igualmente,
seguindo a forma de uma série sistemática. O sistema gramatical é empírico; o
matemático é racional e construtivo; e o lógico é racional e especulativo (Cf. O. Willmann,
Didaktik, II, 67).  Os humanistas, afeiçoados por mudanças, injustamente condenaram o
sistema das sete artes liberais como bárbara. Ela não é mais bárbara que o estilo Gótico,
um nome de antemão pretendido a ser reprovado. O Gótico — construído sobre um
conceito de velha basílica, antiga em origem, mas ainda cristã em caráter — foi mal
interpretado pela Renascença por conta de algumas excrescências, e obscurecidos pelos
acréscimos neles incrementados pela falta de gosto moderno (op.  cit., p.  230).  De que os
progressos de nossos patriarcas devem ser compreendidos, reconhecidos e adaptados a
nossas próprias necessidades, é certamente algo a ser desejado.

Notas

[1] “… que igualmente está disponível em nossa enciclopédia de palavras”. Este trecho está
se referindo ao resto da enciclopédia católica disponível aqui; NT.
(<http://www.newadvent.org/cathen>)

[2] O compêndio está sendo usado aqui no sentido de um livro que traz uma síntese de
uma teoria, de ideias fundamentadas, de conhecimentos; NT.

[3] “Língua, forma, razão, número, tom, ângulo, astro. // A gramática fala, a dialética ensina
a verdade, a retórica adorna as palavras // A música canta, a aritmética enumera, a
geometria pondera, e a astronomia ensina as estrelas”; NT.

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[4] Um instrumento de ferro, bronze ou osso, que lembra um lápis em tamanho e forma,
usado para escrever em tabuletas. Se aproxima igualmente de como eram os escritos
feitos na antiga Mesopotâmia, com a escrita Cuneiforme.

[5] — não a previsão astrológica, que era proibida, mas puro estudo das estrelas.

[6] Do Grego magadis, um instrumento de 20 cordas, a nado em oitavas.

Artigo Original. <http://www.newadvent.org/cathen/01760a.htm>

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uma Educação Liberal nas Artes e Ciências Humanas 19 de fevereiro de 2020
5 de dezembro de 2019 3 de junho de 2018 Em "Notícias"
Em "Filoso a" Em "Filoso a"

PUBLICADO EM Ensaios Notícias

2 comentários em “Das sete artes liberais”

Carolina cristina coutinho diz:


5 de dezembro de 2019 às 8:23

Por uma educação de qualidade.

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