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Psicanálise:

Interpretação
dos Sintomas
Psicossomáticos

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“Quando ocorre em nosso corpo um processo patológico, em
geral sentimos dor, e se este processo patológico volta a
acontecer no espírito, acontece uma violação das leis
profundamente presentes na natureza humana, então existe algo
além da dor. Temos uma consciência cheia de culpa. Agora,
podemos tomar vários remédios, concordamos que a
consciência está cheia de culpa e se conseguimos tranqüilizá-la,
adormecendo-a de muitas maneiras, estas são as alternativas de
solução oferecidas pela nossa cultura.”

(Erich Fromm, A condição humana.)

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436p Pereira, Salézio Plácido
Psicanálise: A Interpretação dos Sintomas
Psicossomáticos / Salézio Plácido Pereira.
Santa Maria: Ed. ITPOH, 2010. 195p; 20 cm.
ISBN: 9788586991134
Psicologia 2. Psicanálise 3. Somatização 4. Emoções 5.
Sintomas psicossomáticos I. Título.
CDU 159.964.2

Ficha catalográfica elaborada por


Maristela Eckhardt CRB-10437

Capa:
Jeferson Luis Zaremski

Revisão Ortográfica:
Vera Lúcia Machado Müller

Impressão:
Gráfica PP | Santa Maria - RS

Editora: Instituto de Psicanálise Humanista


Rua dos Miosótis, 225 | Bairro: Patronato
CEP: 90800-020 | Santa Maria - RS
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___________________________________________ Sumário

Introdução................................................................................05

_________________________________________ Capítulo I

1.1.A Interpretação das Emoções Inconscientes e sua Relação


com os Sintomas Psicossomáticos...........................................09

1.2. As Emoções e o Processo de Somatização.......................34

_______________________________________ Capítulo II

2.1. Clínica Psicanalítica da Somatização das Neuroses........63


2.2. A Fenomenologia das Doenças Psicossomáticas............113

________________________________________ Capítulo III

3.1. Um Estudo Antropológico


e Psicanalítico da Psicossomática..........................................143

3.2. A Influência da Biofilia e Necrofilia na Origem das


Doenças Psicossomáticas.......................................................177

Bibliografia............................................................................193

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________________________________________ Introdução

Ao começar a escrever este livro sobre “psicanálise e


psicossomática” me deparei com muitas dificuldades para
descrever os conceitos sobre as apreensões das diversas
abordagens sobre esta teoria. Portanto, muitas das reflexões
realizadas, fazem parte da minha compreensão sobre os
sintomas psicossomáticos, e das experiências no atendimento
analítico a estes tipos de pacientes. Ao pensar sobre a clínica
psicanalítica realizei um estudo sobre as dinâmicas
inconscientes presentes na energia emocional e nos sintomas
psicossomáticos. É um livro teórico/prático que propõe ajudar
o psicanalista de uma maneira geral. É uma síntese teórica
sobre a psicanálise e psicossomática, acredito que estas duas
ciências se complementam no estudo das neuroses de
conversão.
Gostaria de acrescentar que este estudo procura
descobrir no íntimo da emoção, a etio-patologia que está
presente no inconsciente. Na medida do possível vou descrever
o processo de atuação da energia emocional e das pulsões
instintivas, e sem dúvida, as influências sociais, econômicas,
culturais e históricas presentes indiretamente na biografia do
sintoma. Também vou elucidar os mecanismos de defesa que
protegem a matriz da neurose, este processo de somatização
procura atingir algum órgão ou sistema do organismo humano.
A somatização aparece em forma de sintoma de
diversas maneiras, por exemplo; a neurose orgânica pode
aparecer através de uma gastrite, um ataque cardíaco. A
psicanálise, através de seu método de tratamento, pode
interpretar este sintoma que na sua agressividade altera o
funcionamento da fisiologia e o bem estar psíquico do paciente.
Muitos destes sintomas presentes nas alterações do
sistema nervoso e do humor, dependem do nível de intensidade
e do tempo em que este estado de tensão ou de stress, está

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presente na vida deste paciente, sem a sua mínima consciência.
É preciso levar o paciente a compreender estas instâncias da
energia emocional que tem sua origem no inconsciente.
Muitos dos órgãos afetados pela somatização conseguem
alterar a morfologia e a bioquímica, que em alguns casos se
torna irreversível, por exemplo, a dilatação dos brônquios na
asma, úlcera gástrica, etc. As doenças psicossomáticas podem
ser compreendidas de duas maneiras; a primeira é quando se
instala no organismo como um sintoma psicossomático, e na
outra condição, como uma doença crônica.
Na psicanálise também podemos fazer a seguinte
distinção: existe a neurose de caráter, a de convergência, a
reativa, a crônica. Todos estes tipos de neurose foram
aprendidos na infância, algumas são frutos da educação, outras
do ganho afetivo, e por último, com o desejo inconsciente de
destruição pessoal. Nos traumas infantis se encontra a origem
de todos estes transtornos psicossomáticos. Sabemos que
existe uma enormidade de doenças psicossomáticas, muitas
delas já estão sendo estudadas e amplamente conhecidas com o
auxilio da teoria psicanalítica.
Na verificação do diagnóstico é importante descrever
a etiologia e os aspectos patogênicos destes sintomas. Todo
psicanalista de algum modo, conhece de forma indireta os
problemas de hipertensão, das úlceras gástricas, asma, renite,
enxaqueca, etc. Tenho a intenção de aprofundar o estudo das
doenças psicossomáticas em relação à descrição dos processos
de atuação das emoções. Primeiro é preciso realizar um
diagnóstico e depois o tratamento analítico.
Sem dúvida, é muito importante para a ciência
psicanalítica contribuir para a elucidação, confrontação,
esclarecimento e interpretação destes sintomas
psicossomáticos. Para realizar tão nobre tarefa precisamos de
conhecimento, de um bom diagnóstico e do tratamento
psíquico. Existem sem dúvida, outras disciplinas que também

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estudam este tema, que é muito complexo e de difícil
compreensão, por isto mesmo acredito que num futuro muito
próximo, vários profissionais das mais diversas ciências
realizarão um trabalho de equipe interdisciplinar.
A ciência psicanalítica procura descobrir os
processos emocionais e pulsionais inconscientes que interferem
e estruturam no organismo humano os sintomas
psicossomáticos. A psicanálise, independente das críticas e
incompreensões, defende a idéia de que as emoções conseguem
alterar o funcionamento de algum órgão. Para esta ciência não
existe a doença e sim a pessoa doente, levando em
consideração o seu tipo de existência e a maneira que se
relaciona com o seu mundo emocional e pulsional.
A medicina atual trabalha dentro de um paradigma
fragmentado e dividido em especialidades, portanto, é natural
que considere somente aquele órgão doente. A psicanálise
humanista preocupa-se muito além do estômago, do coração,
do ouvido, dos ossos, da visão, seu interesse é compreender
este ser humano na sua totalidade, ao pensar desta maneira
resgata de forma indireta o caráter humano e humanitário em
relação às doenças psicossomáticas.
O homem é um ser antro-bio-psico-social presente
em toda extensão de sua psicossomática, ou seja, esta energia
vital interage com o corpo humano em toda complexidade da
totalidade inconsciente. Esta divisão de mente e corpo, ou do
corpo e alma defendida por Descartes. Este estudo pretende
mostrar a importância que as doenças psicossomáticas podem
ter para ajudar os profissionais da área da saúde,
conscientizando-os sobre a complexidade da interpretação
destes sintomas. No homem existe um processo de
distanciamento da relação entre a razão e emoção.
Por exemplo, uma leucemia, um câncer, uma dor de
cabeça, uma dor na coluna vertebral, tem uma repercussão
sobre a totalidade do organismo. A realidade psíquica está

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representada através das psicopatias e das neuroses que
possuem a condição de alterar a bioquímica e as reações físico-
químicas no cérebro.
Mas, lamentavelmente existe ainda muita
incompreensão e um forte apego ao paradigma fisiológico-
organicista. Muito dos prejuízos da saúde psíquica e corporal
têm suas raízes neste tipo de formação acadêmica que prioriza
o orgânico e rejeita a condição psíquica. Infelizmente,
acompanhamos diariamente um descaso em relação ao
atendimento destes pacientes psicossomáticos, muitos deles
não conseguem falar sobre o seu sintoma devido ao problema
do tempo nas consultas médicas. Esta desumanização da
medicina enxerga o paciente como uma máquina sem
sentimentos, emoções ou espírito.
Por isto mesmo a importância deste livro, para
esclarecer o valor da ciência psicanalítica, como uma teoria que
pode ajudar na compreensão da história de vida do paciente,
além disso, resgatar o vínculo afetivo entre o psicanalista e seu
paciente. Temos uma grande dívida para com Freud, porque
indiretamente foi ele quem introduziu a psicanálise na
medicina. E da mesma forma a Erich Fromm, por sistematizar
o pensamento do legado das “humanitas” na psicanálise.
A teoria deve estar ao lado a serviço da prática.
Através deste enfoque transdisciplinar, podemos levar em
consideração a interação entre o psíquico e o somático, sem
esquecer as influências culturais, econômicas, sociais e
políticas. Desejo a todos uma boa leitura. Realizei este estudo
com o objetivo de oferecer aos psicanalistas uma reflexão
sobre a nobre missão que temos para diminuir o sofrimento
humano. É claro que as neuroses e as psicoses, podem também
ser compreendidas através da linguagem sintomática dos
órgãos.

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_________________________________________ Capítulo I

1.1. A Interpretação das Emoções Inconscientes e sua


Relação com os Sintomas Psicossomáticos.

“Um mendigo de boa saúde é mais feliz que um rei doente”


(Arthur Schopenhauer)

A existência das emoções pode ser verificada na


vivência das experiências benéficas e maléficas, são os
símbolos e seus conteúdos imagísticos que podem mostrar a
estrutura do sintoma psicossomático. A biografia do sintoma
precisa de uma aproximação do paciente com a emoção
específica de sua dor, ao tomar consciência sobre os motivos
inconscientes do seu sintoma somático pode compreender o
significado de sua emoção. A consciência sobre a origem da
emoção do medo pode trazer de volta a coragem. Condição
necessária para liberar do recalque o sentido vital da sua
energia psíquica. Diante de todos os sistemas do organismo as
reações sintomáticas dependem do impacto cultural e social
sobre o movimento destas emoções.
Na maioria das vezes estas emoções passam
despercebidas, porque não temos consciência sobre o seu poder
de atuação nos órgãos e no psiquismo humano. Como
podemos perceber uma emoção De que maneira poderíamos
formular um conceito sobre o que é uma emoção Umas das
constatações é de que as emoções passam de um estado de
euforia para um de tristeza. Num momento me encontro com
alegria em outro depressivo, quando consigo contemplar esta
energia emocional sobre o organismo, começo a perceber a sua
força e poder na mudança do meu estado de humor.
Sensações, sentimentos, percepções, vibrações,
representações, são transformações que ocorrem sem a minha
plena consciência. Esta interação entre as emoções e meu

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organismo pode influenciar na maneira de enxergar o mundo e
a existência. As mudanças do estado emocional acontecem em
íntima relação com os acontecimentos do meu dia a dia. O
colorido da minha existência depende, em última instância, das
forças motivacionais das minhas emoções.
A transformação das representações pode ser alterada
pela emotividade, esta reação consegue influenciar na maneira
de como eu vejo a realidade. Todos estes estados emocionais
estão interligados por uma rede de significados presente no
equilíbrio antro-bio-psiquico-social. Em algum nível de
consciência a pessoa percebe esta mudança do seu estado
emocional, mas não sabe como isto acontece no interior do seu
cérebro.
Quando consegue colocar toda sua atenção numa
determinada emoção, existe a possibilidade de recriar imagens,
estas cenas podem revelar a matriz de uma neurose. De repente
esta emoção desaparece como um passe de mágica, esta
variação de um estado emocional de alegria para outro de
tristeza modifica a relação da consciência com o seu estado
interno. A origem desta mudança pode estar relacionada a uma
percepção visual de alguma pessoa, um tipo de recordação, esta
compreensão através da interpretação pode diminuir a
intensidade do poder de atuação desta energia psíquica
recalcada. A emoção possui seus disfarces para esconder a
etiologia da repressão, este pacto inconsciente esconde sobre
sete chaves o segredo do seu sintoma.
Quando a pessoa começa a investigar com mais
profundidade estas imagens, a sua percepção daquela realidade
acaba tomando uma outra interpretação. Existe de fato uma
relação entre as memórias do passado com a percepção do
presente, ambas projetam o ser no futuro. O estado emocional
depende deste processo evolutivo de aprendizagens afetivas e
relacionamentos, quanto mais experiência e vivências, maior a
condição de saber decidir com mais consciência.

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A existência precisa de uma análise destes conteúdos,
caso contrário torna-se um acúmulo de vivências sem
compreensão, é preciso tirar vantagem deste tempo de
investimento na existência. Estas mesmas emoções mais
profundas podem ajudar a resolver muito dos seus problemas
ligados aos desejos, paixões, e carências pessoais. Todos os
objetos externos fazem parte da constituição deste mundo de
imagens, estas mesmas imagens possuem consciência e buscam
também seu próprio espaço.
Quando existe consciência sobre o processo de
mudança destas emoções a pessoa torna-se capaz de fazer suas
escolhas priorizando a sua saúde e bem estar, neste exato
momento inicia-se o processo de transformação do seu estado
emocional. A todo o momento e em todas as situações da
existência estamos sempre mudando, com ou sem a nossa
percepção, portanto, esta energia emocional é capaz de recriar
no espírito um estado de bem estar e equilíbrio na vida.
Quando uma pessoa começa a realizar este processo de
mudança de estado emocional nunca mais será a mesma, por
menor que seja a mudança, não irá permitir a paralisação desta
pessoa. Nunca mais seremos os mesmos, estamos sempre nos
transformando para melhor ou para pior, mas a mudança é
inevitável, esta variação de um estado para outro obedece às
leis intrínsecas deste fenômeno emocional, esta mesma força é
capaz de modificar a nossa atenção. Este novo estado
emocional toma o lugar do anterior e assim indefinidamente.
Este ato descontínuo pertence à esfera do nosso estado
de inconsciência sobre os movimentos desta energia
emocional, quando a pessoa consegue dirigir sua atenção sobre
a linguagem simbólica de uma determinada emoção, pode
ajudar a compreender estas mudanças inesperadas que
acontecem sem a mínima consciência. No íntimo de uma
emoção existe uma intenção psíquica que está buscando a
realização de algum tipo de desejo, este estado de concentração

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sobre as emoções podem levar a um processo de auto-
descoberta.
Sem dúvida, as emoções podem estar a nosso favor
quando temos consciência sobre o seu poder de atuação em
nossa vida, caso a pessoa continue neste estado de
inconsciência, existe a possibilidade de iniciar um processo de
ações desastrosas, uma interligada a outra, rumo à própria
autodestruição pessoal. Este olhar não pode ser ingênuo sobre
estes tipos de acontecimentos, de nada adianta a fuga, a
acomodação e muito menos a narcotização destas emoções,
porque não existe nenhum tipo de remédio ou droga capaz de
neutralizar a sua ação.
Toda emoção está comprometida com uma
determinada ação, são os desejos inconscientes que
influenciam, e muitas vezes determinam a pessoa a realizar um
determinado comportamento. Cada emoção se movimenta pelo
organismo com a intenção que provoca, em algum momento,
uma reação neurofisiológica. Tudo o que somos, pensamos, ou
sentimos, sobre nós mesmos depende do nosso estado
emocional. São todas estas emoções de alegria, felicidade,
solidariedade, compaixão, amor, ódio, inveja, ciúme, tristeza,
raiva, que constituem o tecido psíquico do nosso caráter.
E cada emoção possui um estado muito específico em
determinada situação, mas ao mesmo tempo estão interligadas
numa rede de comunicação. Mas a psicanálise descobriu que
algumas destas emoções foram reprimidas ou recalcadas por
algumas experiências dolorosas, é sempre interessante
compreender e interpretar o sentido da repressão com o
processo de somatização. O sintoma psicossomático tem uma
lógica interpretativa, o sujeito que vive o drama da doença
consegue entender seu significado, são estas interpretações que
precisam de reinterpretação. Esta mesma artificialidade retira a
sua originalidade, a autenticidade, sem estas emoções presentes
na sua vida, torna-se um ser amorfo, indiferente, frio, distante,

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sobre o qual aparecem as emoções destrutivas que permitem a
expressão do estado necrófilo.
Este estado emocional de desânimo, apatia,
pessimismo, é a expressão de uma pessoa que está perdendo o
prazer de viver. Este estado psicológico encontra ressonância
no seu mundo emocional, ou seja, estas emoções precisam
estar livres para poderem expressar a sua energia de vida, cada
uma destas emoções possui o dom da criatividade, da
disposição, da motivação, da iniciativa. Esta diversidade de
emoções é administrada pelo sistema nervoso central. Este fio
condutor consegue unir todas as emoções num único objetivo
comum que é nos dar o colorido na existência.
Atrás de qualquer comportamento existe uma
emoção, muitos dizem que estas atitudes são aprendidas na
escola, mas as ciências da educação não conseguem explicar o
processo de formação do caráter de uma criança. Filhos de um
mesmo pai e mãe, educados da mesma maneira, têm
comportamentos diferentes, existe a possibilidade de estas
crianças rejeitarem muitos dos ensinamentos dos seus pais.
Muitos optam por seguir um caminho original e às vezes muito
diferente do tipo de educação que recebeu, a pessoa sabe que
atitudes podem ser utilizadas para a realização de seus valores
e virtudes.
Cada pessoa precisa criar uma representação para dar
sentido à realidade, este conjunto de aprendizagens e
informações recebidas é confrontado, utilizado, esquecido e
modificado. Toda esta vivência leva o sujeito a relacionar-se
consigo mesmo, com o outro e depois com um determinado
grupo. Mas não podemos esquecer que tudo que este sujeito
está fazendo na sua existência, está sendo alimentado por uma
emoção, em muitos casos o fenômeno psicossomático esconde-
se sobre a emoção do medo ou da culpa, ou seja, o medo de
reviver o sofrimento. Muitas pessoas não realizam seus
objetivos porque têm medo de fracassar e não querem de forma

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nenhuma se sentir culpados. Com este tipo de atitude frente à
vida, esta pessoa está sendo determinada por uma emoção.
Toda pessoa pode diretamente se beneficiar das suas
emoções, portanto é imprescindível ter consciência do tipo de
interferência que determinada emoção tem sobre nossas vidas.
Ninguém pode escolher as emoções que gostaria de sentir, por
isto mesmo, tudo aquilo que não conseguimos controlar nos
deixa apreensivos e ansiosos. Toda esta humanidade compõe-
se das emoções do sistema límbico, portanto sua natureza é
irracional. Por exemplo, uma criança pode ter medo do escuro,
porém esta não é a questão principal, se existe algum tipo de
risco de estar no claro ou no escuro, mas independente desta
racionalização, o medo do escuro está presente.
Existem diversos tipos de fobias, pessoas que têm
medo de lugares fechados, de viajar de avião, de cobras, de
aranhas, de altura, para quem está envolvido nesta emoção é
um sofrimento do qual não se tem controle. Para as outras
pessoas que observam, tal acontecimento se torna algo
incompreensível. Mas ao entrar em contato com os sonhos e
fantasias pode seguir o caminho dos conteúdos simbólicos, das
imagens produzidas no inconsciente e conscientizadas pela
interpretação do analista. Toda pessoa desenvolve um estado
de angústia e ansiedade diante de alguma emoção que é
desconhecida e, portanto torna-se uma ameaça à sua qualidade
de vida.
Cada emoção tem uma intenção à “priori”, na verdade
seu desejo é realizar um comportamento, além disso, tem o
poder de nos dizer o que é bom ou ruim. Muitas pessoas têm
medo de suas emoções, utilizam como defesa, a negação, a
racionalização, a repressão, o deslocamento, tendo como
objetivo afastá-la o máximo possível de sua consciência. Ao
mesmo tempo surge o conflito neurótico, porque na verdade
ninguém vive sem estas emoções. Muitas pessoas estão em
sofrimento justamente porque estão sobre o domínio destas

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emoções destrutivas. As emoções negativas aparecem quando
se iniciam os relacionamentos sociais, na família, no trabalho,
num grupo de amigos, a inveja, o ciúme, o orgulho, a vaidade,
a falsidade, acabam se tornando uma espécie de vício. Esta
mesma condição leva esta pessoa à somatização, um dos
motivos é seu estado de infelicidade e solidão.
O que é uma emoção Uma emoção vem sempre
carregada com algum tipo de afetividade que acaba alterando o
estado fisiológico do organismo, por exemplo; aumento das
batidas do coração, sudorese nas mãos, tremor nas pernas,
gagueira, palidez. E existem outras formas de emoções que
aparecem na linguagem corporal, por exemplo, sorrir, chorar,
ou seja, é possível entender o desejo de uma pessoa através da
expressão de suas emoções, muitas pessoas têm muito medo,
mas não sabem dizer qual é a natureza do perigo.
O que uma emoção pode alterar no organismo
humano As emoções têm o poder de aumentar a pressão
arterial, ajudar para a efetivação de um enfarto do miocárdio,
propiciar um acidente vascular cerebral, desenvolver um
câncer, etc. Existe uma rede de conexão muito perfeita entre o
cérebro, o corpo e as emoções. Não existe a separação do corpo
e mente como defendia Descartes, ao contrário, estas emoções
estão presentes no organismo, isto significa que o físico e o
psicológico não podem ser separados.
A ciência médica vem a cada dia fazendo novas
descobertas sobre o funcionamento do sistema nervoso central,
e seus códigos de comunicação (mensageiros químicos) que
estão interligados pelos nervos do sistema simpático e
parassimpático. Estas emoções são transformadas em reações
físico-químicas e depois, aparece num determinado órgão do
organismo como um sintoma. A medicina organicista
reducionista realizava suas pesquisas no organismo humano,
partindo do estudo da célula para chegar até a molécula. Com
certeza os microscópios de alta resolução podem descrever

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com precisão a fisiologia de uma célula, mas não conseguem
explicar as reações que acontecem na sua totalidade.
Estamos na verdade, diante de uma enormidade de
fenômenos complexos com uma extraordinária inteligência,
com certeza no futuro estas emoções inconscientes poderão
explicar e muito, o movimento sutil destas energias físicas e
químicas. Todos nós já estivemos alguma vez tomados por uma
forte emoção, não temos nenhuma dúvida que sua
manifestação é inconsciente, e cada vez mais a ciência médica
caminha a passos largos para explicar estas reações
emocionais, através da expressão destes hormônios ou dos
registros gráficos.
A emoção da alegria pode realizar uma reação
química no organismo capaz de fazer a pessoa sentir-se
excitada, com uma sensação de bem estar, de enorme
satisfação. Na emoção do medo, a pessoa pode sentir tremor,
dificuldade para respirar, palidez. A reação do organismo
diante de uma emoção é realizar o percurso no sistema nervoso
para uma reação físico-químico, da mesma forma o nosso
corpo responde com doenças para denunciar alguma pulsão que
foi reprimida ou recalcada.
O sistema nervoso é uma rede muito complexa de
neurônios, são mais de duzentos bilhões espalhados por todo o
cérebro, cada neurônio está comprometido com uma tarefa
específica. Estas células neuronais se comunicam umas com as
outras através de impulsos. Uma célula neuronal é composta de
sinapse, axônio, dendritos, terminal neuronal e um núcleo. Sua
função é transmitir estas mensagens através do contato com as
células próximas umas das outras.
Estes axônios têm uma função natural de transmitir as
mensagens presentes em códigos e sinais dos impulsos
nervosos, este sinal elétrico viaja a velocidade de três
milésimos de segundo. Esta corrente elétrica entra e sai com
muita rapidez da membrana da célula nervosa. Por que é

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importante que um psicanalista conheça o funcionamento de
uma célula nervosa neuronal Todas as palavras e os códigos
de linguagem passam por estas sinapses. É importante
conhecer a passagem do pré-sinaptico ao pós-sinaptico, porque
é neste momento que se realiza a passagem da informação em
forma de imagens.
É através desta fenda sinaptica que todo processo de
comunicação verbal é processado com a ajuda dos impulsos
nervosos. Este sinal nervoso é elétrico, mas quando chega
numa sinapse transforma-se num sinal químico. Este sinal,
depois de realizar a passagem de uma sinapse a outra,
apresenta-se sobre a forma de uma substância química, mais
conhecida em nosso meio como neurotransmissor. Portanto o
cérebro funciona com o estoque destas substâncias que se
encontram nas vesículas pré-sinapticas, porém é importante
saber que existem dezenas de tipos de neurotransmissores.
Vamos descrever alguns dos neurotransmissores
responsáveis pela reação físico-química ou na secreção de
certos hormônios. O primeiro é chamado de acetilcolina, este
realiza a contração muscular e estimula a secreção de
hormônios, sua função no cérebro é despertar a atenção, de
estimular a raiva, da agressão, do desejo sexual e da sede e
indiretamente participa do sistema parassimpático. A
dopamina é responsável pelo controle dos movimentos e da
postura, sua função é regular o humor, a fome, a sensação de
calor e frio e a atividade sexual. Quando existe perda desta
substância inicia-se o processo do mal de Parkinson, está muito
próxima da adrenalina e da noradrenalina.
A noradrenalina influencia as ações do sistema
simpático para coordenar as reações de fuga ou luta gerada por
algum tipo de stress. Quando existe algum tipo de
comprometimento nesta substância no cérebro, existe a
alteração da frequência cardíaca e o aumento da pressão
arterial. A serotonina realiza a regulação da temperatura, do

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sono, do humor, do apetite e da dor, alguma desordem nesta
substância pode levar a pessoa à depressão e ao suicídio. O
gaba é um inibidor muito disseminado nos neurônios do córtex
cerebral, sua função é regular a ansiedade.
Na verdade, o inconsciente está presente de maneira
latente no sistema límbico, esta comunicação entre o biológico,
o intuitivo, o racional, o emocional e intelectual está presente
nas três camadas do cérebro: No primitivo ancestral, nas
pulsões e emoções e no superior do córtex cerebral que são os
dois hemisférios, o direito (intuitivo) e o esquerdo (racional)
onde se encontram as memórias das aprendizagens lingüísticas.
O sistema límbico pode ser chamado de cérebro emocional
arcaico, primitivo, ou seja, é a sede dos instintos e emoções de
nossos ancestrais.
Este sistema está encarregado de controlar o ritmo do
coração, a pressão arterial, o apetite, o sono, a libido e mesmo
o sistema imunológico. As emoções do estress, da depressão,
da ansiedade, estão presentes no corpo em forma de reações
muito visíveis, como por exemplo; o rosto pálido, o rubor
facial, as lágrimas, os arrepios e outras reações mensuráveis
como, por exemplo; as dosagens de hormônios, aumento das
batidas cardíacas e da pressão arterial.
A amigdala é do tamanho de um feijão, sua função é
identificar as reações de medo, raiva, ódio, alegria, paixão. O
pesquisador Antonio Damásio, descobriu que alguns neurônios
são mobilizados por algum tipo de emoção específica, e
constatou através da ressonância magnética por imagens, que
as cores e áreas no cérebro são modificadas dependendo do
estado de tristeza ou de alegria. Esta ressonância magnética
anatômica do cérebro consegue visualizar as variações da
quantidade de sangue e as atividades dos neurônios envolvidas
numa determinada emoção.
A ciência médica chegou à conclusão de que para
estudar os estímulos nervosos e dos neurotransmissores, deve

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ser multidisciplinar e integrada à totalidade do organismo. Hoje
em dia ninguém pode subestimar o poder das emoções, ou seja,
no século vinte e um vai acontecer um aumento substancial de
pesquisas para conhecer o funcionamento inconsciente das
emoções no cérebro. O hipocampo pertence ao sistema
límbico, porém é nesta área que se encontram as memórias do
passado.
A neurociência é uma especialidade da ciência
médica que procura desvendar os segredos deste processo de
comunicação inconsciente; é preciso saber como acontece esta
passagem do impulso elétrico em substância química; estas
trocas químicas realizadas entre um neurônio e outro produzem
as substâncias específicas para a criação das emoções. A
psicanálise está interessada em conhecer, além deste processo
fisiológico, o núcleo e a estrutura da formação destas imagens
em emoção. Portanto, estamos diante de uma área do
conhecimento muito complexa, mas se queremos conhecer as
atitudes do ser humano é indispensável saber como acontece no
cérebro a mudança destes estados emocionais.
A somatização é uma evidência, é preciso
compreender e descrever a linguagem simbólica e, além disso,
saber interpretá-la ao paciente. Sem dúvida este processo de
memorização, decodificação e interpretação destas imagens do
passado ou do presente podem alterar o funcionamento
fisiológico dos sistemas no organismo humano. Com esta
reflexão concluímos que por detrás de um comportamento está
sempre presente uma emoção. A origem de uma emoção pode
ter muitas causas, sua mudança pode acontecer lenta e
gradativamente ou de forma repentina. Às vezes não
encontramos uma resposta clara para a mudança brusca do
estado de humor, esta alteração do estado do humor tem uma
relação direta com algum tipo de emoção inconsciente
desconhecida pelo sujeito.

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O nosso cérebro funciona de maneira inconsciente
porque nem sempre tem consciência do efeito de uma pintura,
de uma cena do filme, de uma imagem, que pode desencadear
uma reação emocional de prazer ou de desprazer. A emoção
precisa de um cenário imagístico, seu conteúdo é
compreendido através dos diálogos, das sensações, das
vivências, este enredo existencial remete-nos a interpretar esta
fenomenologia do medo, em outras palavras, esta imagem
consegue dizer ou expressar a emoção. A consciência não
consegue nomear a pessoa, a única maneira de passar
despercebida pela censura é transformar-se num símbolo.
Tal é verdade esta afirmação, que aquelas pessoas que
reprimiram ou negaram a expressão da energia emocional se
tornaram psicopatas, outros acabaram engolidos por uma
patologia psíquica, como por exemplo; a psicose ou
esquizofrenia. Não existe nenhuma possibilidade de viver sem
as emoções, porque indiretamente são elas que nos
proporcionam momentos de prazer, alegria, ódio, raiva,
compaixão, tristeza, etc. Para a psicanálise humanista esta área
do conhecimento pode contribuir e muito para conhecer com
mais profundidade as reações emocionais e sua implicância no
organismo humano. A emoção é uma espécie de alicerce para
manter e garantir a sobrevivência psíquica e orgânica da pessoa
humana.
Ao mesmo tempo, todos sabem que a repercussão do
ambiente de trabalho ou familiar pode estar representados nos
sintomas psicossomáticos, ou seja, é preciso saber
compreender esta linguagem das emoções que são o resultado
da interpretação do cérebro sobre um determinado tipo de
problema. Este sintoma orgânico é uma linguagem do cérebro
que se apresenta através de algum tipo de emoção, a reação de
uma energia emocional produzida pelo cérebro acontece de
modo simultâneo com outras reações físico químicas.

20
A emoção é uma energia que tem seu próprio
alfabeto, estes desejos inconscientes encontram-se no íntimo de
uma reação emocional. A psicanálise humanista entende que
este processo de representação dos signos, sinais e símbolos
estão representados nas memórias sobre alguma forma de
imagem, mas, uma imagem sem conteúdo emocional perde o
sentido e significado. Não existe um único modo de realizar
este processo de codificação das imagens externas e internas, é
muito difícil saber o que vem antes e depois de uma emoção, o
cérebro é atemporal, sua complexidade obedece às leis ainda
desconhecidas pela física quântica. Em última instância, o
cérebro é um complexo de energia inteligente, estruturado para
obedecer às leis específicas da natureza biológica e existencial.
Esta mesma ancestralidade do processo evolutivo está presente
em toda rede comunicacional dos neurônios, esta cibernética
possui uma genética que inclui o aprendizado do seu passado.
Na interpretação de um sintoma psicossomático ou
existencial podemos compreender a transubstanciação de uma
reação neuroquímica em símbolo ou imagem. Na emoção
aparecem os símbolos e imagens descritas numa cena, esta
realidade subjetiva retrata um momento cultural, uma
repressão, um trauma, uma interpretação equivocada. O
sintoma pode ser compreendido sobre as experiências dos
nossos antepassados, estas emoções de medo, culpa,
raiva, ódio, podem ser passadas e assimiladas mesmo durante o
processo de gestação da vida intra-uterina.
Por isto mesmo a psicanálise procura através de sua
metodologia conhecer e desvendar esta linguagem emocional,
além disso, poderia nos ajudar a compreender a enormidade de
sofrimento e dor presentes na humanidade. A razão e a paixão
podem ser compreendidas desde diferentes abordagens; na
filosofia de Platão os desejos e emoções influenciam a maneira
de pensar, no cristianismo as emoções são interpretadas como a

21
origem dos pecados, por isto mesmo a razão utiliza-se da moral
para proteger-se destas tentações do corpo físico.
Desde o surgimento da teoria de Descartes sobre,
“penso, logo existo”, as emoções foram relegadas, no campo
do estudo das ciências humanas, num segundo plano, somente
depois com o surgimento da ciência psicanalítica foi possível
estudar a linguagem desta subjetividade. A psicanálise
humanista procura entender o sentido e o significado destes
conteúdos que estão sendo interpretados pelo cérebro. Gostaria
de fazer uma reflexão sobre a natureza inconsciente das
emoções, pois outra área importante é a metamorfose presente
nas imagens, estes conteúdos são demonstrados em atitudes
pela expressão dos atos sintomáticos.1
A compreensão do inconsciente dinâmico de Freud é
diferente do conceito do inconsciente cultural. O conceito do
inconsciente cultural entende o processo de assimilação das
imagens e símbolos apreendidos pela mente, como um desejo
de superação, de solução, este mesmo inconsciente é visto
como um centro de energia emocional com potencial
produtivo, seu desejo é estar a serviço da evolução da
consciência humana.
Quanto ao processo demonstrativo orgânico e
fisiológico destes mecanismos cerebrais verificados pela
neurociência, como o processamento da cor, forma, tamanho,
movimento, sons, imagens, da realidade, atendem ao
significado descritivo e anatômico. A psicanálise como ciência
está interessada em interpretar os diversos significados
presentes nas simbologias imagísticas produzidas pela fantasia
e pelos sonhos, esta produção metafórica pertence ao mundo da
memória do cérebro. Todos têm a consciência que estas
imagens presentes na descrição da queixa do paciente são uma

1
Pereira, Salézio P. O significado inconsciente das imagens. Ed. Itpoh.
2007. (Faço a indicação desta obra para leitura complementar sobre o tema
do imaginário e seu processo de simbolização.)

22
tentativa de descrever uma cena imagística através de suas
palavras.
Algumas teorias tentaram transformar as emoções em
estados de espírito frios e sem vida, sobre este olhar da
fisiopatologia tentou convencer que as emoções são
substâncias químicas desprovidas de qualquer significado
emocional. Outros autores como Willian James diziam que
uma emoção é decorrente de um estímulo interno ou externo,
que produz uma atitude que depois surge na consciência como
uma experiência emocional consciente. A grande questão a ser
pensada sobre a emoção é a seguinte: Nós fugimos de um
desafio porque sentimos medo, ou ao contrário, sentimos medo
e depois fugimos As emoções estão sempre acompanhadas de
algumas reações, como por exemplo, aceleração cardíaca,
sudorese nas mãos, enrijecimento muscular, dores de
estômago, diarréia, e outros sintomas.
Qualquer pessoa tem a nítida percepção sobre esta
sensação agradável ou desagradável, estas sensações são
provocadas pelas emoções de tipos diferentes. Quando alguém
recebe uma notícia da perda de uma pessoa querida, surge de
maneira inesperada o choro convulsivo, o aumento das pupilas,
nervosismo, o coração começa a bater em ritmo acelerado, o
seu pensamento volta-se para a imagem e recordações daquela
pessoa querida.
Existem situações existenciais que provocam estas
alterações emocionais, por isto mesmo é impossível catalogar
todos os tipos de reações emocionais, ou querer explicar cada
emoção específica e sua reação fisiológica que ocorreu no
cérebro.
Cada emoção tem sua originalidade para alterar os
sistemas do organismo de uma determinada forma, esta
fisiologia pode ser percebida na leitura corporal, por isto
mesmo a emoção pode ser compreendida de acordo com o tipo
de reação desta pessoa.

23
Na verdade existe toda uma alteração fisiológica no
organismo, esta linguagem sintomática pode mostrar o tipo de
emoção que uma pessoa está sentindo. Quando alguém está
tremendo, os lábios encontram-se rígidos, o corpo está tenso,
então podemos descrever que esta pessoa está sentindo uma
emoção mais conhecida como medo. Se ao contrário,
observamos alguém chorando sozinho, num banco de uma
praça, podemos entender que esta pessoa encontra-se muito
triste, talvez porque tenha perdido seu emprego. Podemos fazer
algumas deduções sobre a leitura corporal, estas reações
fisiológicas podem mostrar o tipo de emoção que uma pessoa
está vivenciando.
Todas as pesquisas apontam no sentido que todas as
emoções dependem do ambiente social, ou mais precisamente,
do tipo de interpretação e seus significados que o sujeito
realiza, de acordo com cada experiência pessoal. As reações
neurofisiológicas estão presentes nas atitudes das experiências
emocionais, os estímulos da realidade não são real objeto
simbólico da emoção. O simbólico está envolvido pelas idéias
dos significados da realidade vivida. Conclui-se que este
processo de avaliação em si mesmo é inconsciente, mas sua
intenção psíquica é registrada pela consciência como uma
emoção. Por detrás de uma emoção existe um processo
inconsciente, que demonstra através das imagens e seus
significados, a origem daquela emoção.
Não existe uma emoção sem interpretação daquela
vivência, cada pessoa pode reagir de maneira totalmente
distinta sobre o mesmo acontecimento, em muitos casos a
pessoa pode estar sentindo algum tipo de emoção, sem
necessariamente estar consciente das alterações fisiológicas
que estão acontecendo no seu organismo. Este inconsciente
emocional é à base da teoria psicanalítica. As emoções,
objetivos e intenções podem tornar-se uma atitude na vida da
pessoa sem sua devida consciência. Estas mesmas emoções

24
podem influenciar a maneira de ser, agir e pensar no seu
ambiente de trabalho ou nas suas relações familiares.
A causa destas experiências emocionais é produzida
pelos estímulos internos ou externos e a partir deste instante
inicia-se o processo da mudança nas reações fisiológicas e
neuropsicológicas. Estes estímulos são avaliados e
interpretados no seu significado unitário para um determinado
tipo de experiência, logo depois, o que conta, é a memorização
inconsciente desta emoção. O inconsciente cultural realiza esta
avaliação de acordo com os códigos e normas da sociedade,
somente depois desta análise é que esta imagem deve ser
estimulada ou ignorada. A reação emocional depende desta
complexa rede de comunicação neuronal para decidir sobre a
importância ou valor de alguma imagem simbólica.
Esta é somente uma tentativa de explicar, de forma
rudimentar, o funcionamento inconsciente destas emoções que
são acessíveis de maneira complexa e diferente para cada
pessoa em particular. O histórico de uma emoção pertence às
memórias, mas sabemos que as imagens e símbolos, podem
ativar emoções inconscientes sem a plena consciência do
paciente, sem dúvida podemos afirmar que são as nossas
experiências afetivas, econômicas, amorosas, que despertam o
surgimento de novas emoções. Jean Paul Sartre 2explicita no
seu livro “o imaginário”, uma descrição sobre as imagens como
sendo uma consciência.
Quando acontece alguma alteração fisiológica no
corpo humano que tem origem no contato com alguma emoção,
podemos dizer que este paciente está tomando consciência da
existência desta emoção que se encontrava recalcada ou
reprimida. As emoções acontecem num espaço
neurofisiológico das sinapses, a localização deste evento
psíquico é quase impossível de determinar, ou seja, a

2
Jean Paul Sartre. Lo imaginário: Psicología fenomenológica de la
imaginación. Ed. Losada, Buenos Aires, Argentina, 2005.

25
consciência não tem conhecimento do seu processo
inconsciente. Quando um paciente começa a relatar sobre uma
emoção, inicia-se o processo de tomada de consciência, esta
realidade inconsciente é uma comunicação não-verbal do
corpo, é preciso transcender somente o discurso da palavra. A
linguagem cognitiva é somente uma das características de uma
função ancestral do cérebro humano.
O homem, no seu processo de evolução, permanecia
um animal em plena atividade instintiva, somente depois que
surgiu a “palavra” para comunicar seus sentimentos e emoções,
o homem deixou de estar inconsciente sobre a sua existência no
mundo. Todo psicanalista procura saber de onde surge este
mundo complexo das emoções, queremos saber de onde surge
a culpa, o medo, a raiva, o ódio, a vergonha, o medo, o amor, a
alegria. Quando os cientistas descreveram a atuação do sistema
límbico no cérebro, em base às emoções mais arcaicas e
primitivas deste processo evolutivo do homem, para proteger e
garantir a sua sobrevivência dava a idéia de que a biologia
estava descobrindo a origem dos “instintos” da teoria
freudiana.
O hipotálamo tem a função de produzir as reações
emocionais, e o córtex para realizar as experiências
emocionais, estas qualidades afetivas ou emoções de raiva,
medo, amor, ódio, estão correlacionadas entre si. Estas funções
realizam a integração dos diferentes sistemas no cérebro, por
exemplo; algumas destas aptidões como no caso da memória,
da linguagem, da afetividade, do olfato, do raciocínio, da visão,
interferem nas emoções como um todo. Algumas destas
emoções nos nossos antepassados foram úteis para a
sobrevivência, independente das comparações ou axiologias
relacionadas como valores independentes.
O inconsciente e as maneiras de comunicar as
informações recebidas pelo córtex cerebral encontram-se nas
profundezas de uma lógica ainda desconhecida pelos cientistas.

26
De fato existe uma inteligência autônoma capaz de nos avisar
de algum perigo eminente, de utilizar experiências ancestrais
para nos proteger. Mas independente desta complexidade de
emoções na nossa vida, podemos compreender estes núcleos
neuróticos que estão constelados sobre uma matriz comum.
Esta diversidade de reações neuronais, e suas complicadas
formas de avaliação das imagens e símbolos, dificultam a
compreensão dos segredos latentes na nossa mente
inconsciente. Este processo de comunicação não verbal da
inteligência organismica precisou dos signos e símbolos para
fazer a denúncia sobre os perigos da repressão das emoções e
pulsões.
Depois deste processo de decodificação dos signos e
sinais aparecem os sons das palavras, as imagens do real
introduzem no símbolo o poder da palavra e com isto a
descoberta da compreensão da natureza, este fato de ser capaz
de comunicar-se através de uma linguagem possibilita a
comunicação das emoções. Estas emoções de raiva, de ódio, de
amor, de alegria, precisavam ser transformadas numa
linguagem, ou seja, era preciso utilizar esta comunicação para
descrever os símbolos, os personagens, a temática, os
acontecimentos, para que a outra pessoa pudesse entender a
mensagem de sua emoção.
Os cientistas estão querendo descobrir a importância
destas emoções no decorrer de nossa evolução humana, por
exemplo, na evolução das espécies podemos nos perguntar:
Porque o jacaré não desenvolveu asas para fugir dos perigos do
seu ambiente natural Se por causalidade tivesse asas, este
aprimoramento evolutivo seria porque sente medo e por isto
mesmo precisa fugir Mas independente desta questão todos os
animais precisam fugir para continuar vivos. O instinto de
sobrevivência utiliza todos os recursos que dispõem para
defender a sua vida. Quando a vida está ameaçada não existe
nada mais importante do que continuar vivo.

27
O corpo humano tem sua inteligência para saber que
tipos de perigo possam colocar em risco a sua sobrevivência.
As estratégias que cada ser humano utiliza para proteger-se das
ameaças e perigos na existência dependem dos recursos de
aprendizagens e inteligência. Na verdade, a emoção do medo
tem sua herança nos primórdios da evolução humana, na
biografia de Adrian Desmond: Darwin: “a vida de um
evolucionista atormentado”3 descreve no capítulo dez o
encontro de sua civilização com outras culturas, era o início da
sua aventura com o seu navio “beagle”.
Na sua teoria sobre a evolução da seleção natural,
descobriu o processo da seleção natural e a sobrevivência dos
mais aptos. Defendia a idéia da hereditariedade e seu processo
genético, explicava que a existência de espécies diferentes
dependia das modificações genéticas que aconteciam no
decorrer de sua evolução, como uma forma de se adaptar a
novos ambientes naturais. Algumas destrezas aprimoradas pelo
instinto permanecem constantes, porque de certa forma, serviu
para a sobrevivência de seus antepassados. Nem todos os
animais conseguem sobreviver, desenvolver suas aptidões e
procriar, infelizmente a limitação dos alimentos e um ambiente
hostil podem levar determinadas espécies à morte.
A comunicação entre os seres humanos acontece
através das expressões emocionais, por exemplo; alguém que
pretende esconder algum tipo de emoção através de um sorriso
fingido. As emoções são energias inconscientes, ou seja,
surgem de maneira espontânea, existem as emoções inatas e
algumas delas são mais antigas que outras, o medo e a raiva
são um exemplo disto. Vamos citar algumas emoções básicas:
supressa, alegria, raiva, medo, aversão, angústia, tristeza,
felicidade, supressa.

3
Desmond, Adrian. Darwin: A vida de um evolucionista atormentado. 3ª.
ed. São Paulo, Ed. Geração Editorial. 2000.

28
Estas emoções podem desencadear uma reação de
pânico, raiva, preocupação, expectativa e medo. No estado
emocional de ansiedade de uma pessoa pode estar presente
uma combinação de medo e culpa ou ainda, vergonha e raiva.
No seu livro “a Arte de Amar”: Erich Fromm4 descreve o
fenômeno do amor como uma experiência verdadeira de
sanidade vital, esta emoção do amor tem o poder de recriar no
íntimo do ser humano a alegria e felicidade. Como é
importante conhecer a teoria do amor e de como esta emoção é
uma condição básica para a saúde emocional do paciente.
Esta relação entre as emoções básicas e as superiores
pode ser a origem dos conflitos inconscientes, por exemplo,
existem emoções como o orgulho, vergonha, gratidão, que só
existem na realidade humana. A energia emocional consegue
manifestar-se quando é possível o processo de imaginação e
interpretação. Estas interações emocionais também são
aprendidas culturalmente, a sociedade tem suas regras, normas,
leis, para adestrar e controlar os impulsos primitivos presentes
no homem. Além disso, existem convenções sociais e culturais
para poder expressar determinadas emoções.
As emoções possuem esta herança biológica, mas
suas formas de expressão mudam de acordo com a cultura.
Quando alguém enxerga uma pessoa tremendo pode concluir
que deve estar com frio ou com muito medo, do mesmo modo,
quando alguém está chorando, podemos entender que esta
pessoa está muito feliz ou com muita tristeza. Ao visualizar um
comportamento sobre o impacto de uma emoção pode haver
algum tipo de equívoco na sua percepção. Para cada desafio
especifico que a existência coloca no nosso caminho existem
reações emocionais específicas para atender aquela demanda
do organismo. As emoções podem ter algum componente
biológico, mas as reações dependem da situação psicológica, e

4
Fromm, Erich. El arte de amar. 2ª. ed. Buenos Aires, Ed. Paidos, 2002.

29
principalmente de sua interpretação sobre determinada
experiência.
Não podemos negar a interferência ou influência dos
hormônios em determinadas regiões de nossa mente
inconsciente, estas reações bioquímicas dependem dos nomes
que damos a este estado alterado, na fisiologia dos
neurotransmissores. Por detrás de uma emoção ou pulsão existe
um processo de aprendizagem de milhões de anos, esta
evolução providenciou uma eficiência para oferecer respostas
aos dilemas na existência, no entanto são inúmeras, milhares de
formas diferentes para resolver um mesmo problema. Durante
a nossa existência estamos evoluindo graças ao aprimoramento
constante através das avaliações, elaborações, interpretações,
que oferecemos às reações destas emoções. As emoções e
pulsões continuam sendo determinantes para a solução dos
problemas da neurose e psicose.
A evolução da condição humana depende da maneira
como cada pessoa vivencia suas emoções e sentimentos,
portanto quanto maior consciência sobre as relações entre a
pessoa e a sociedade maior as chances de viver com saúde.
Todos os psicanalistas sabem que as emoções são o alicerce da
saúde emocional, porque suas motivações inconscientes nos
levam numa determinada direção, estas soluções da energia
emocional são baseadas no seu aprendizado de milhões de
anos, este legado das “humanitas” possui a resposta para todos
os problemas, porém é preciso uma consciência que seja capaz
de compreender, entender e interpretar os seus significados
ocultos que estão manifestos na doença e na dor.
Muitas destas emoções podem ser culturalmente
aprimoradas, como existem diferentes reações emocionais é
também razoável que existam complexos sistemas para cada
emoção, por exemplo, aqueles relacionados à luta pela
sobrevivência, a fome, sexo e os vínculos sociais. A
inteligência na sua capacidade de refletir, de pensar, de resolver

30
problemas e formar novos conceitos, provavelmente possui
também seus modos de elaboração nos complexas sinapses do
córtex cerebral. Existe um desejo de separar, classificar, para
delimitar áreas emotivas ou cognitivas, sensoriais, para poder
estudar com mais profundidade, mas ao mesmo tempo
compreendemos a ilusão de tal proposta.
A única certeza que podemos ter em relação ao
cérebro e sua fisiologia é que todos estes sistemas, e outros que
ainda são desconhecemos, estão ligados por uma rede de
informação que viaja a velocidade que não pode ser
compreendida pela ciência atual. A solução dos problemas nas
memórias é de uma rapidez sem precedentes. Estas redes
neuronais possuem uma comunicação em cadeia com o
objetivo de desencadear reações emocionais para solucionar
problemas ou dificuldades que venham a existir na existência.
O conteúdo das memórias são os meios que o cérebro utiliza
para repetir ou criar uma nova informação. É a natureza da
mente inconsciente pronta para defender a vida, e qualificar
cada ser com o que existe de melhor, para enfrentar todas as
situações que possam colocar em risco a sua existência.
Quando falamos em subjetividade também incluímos
esta realidade neuroanatômica e fisiológica, no estudo destas
emoções que funcionam a nível inconsciente. Com as
descobertas científicas na área tecnológica e virtual houve uma
melhora na sua condição de vida. Na grande selva de pedra não
temos mais medo dos tigres, leões, cobras, porém existe o
perigo da solidão, do individualismo, do isolamento, da falta de
amor e afeto, de alimentação, de moradia, de emprego, de
saneamento básico, de realização pessoal, etc.
Além disso, temos que conviver numa completa
insegurança, com a violência social, a pobreza absoluta de
milhões de pessoas, das adições do mundo das drogas, da
poluição dos rios e fontes de captação de água, das armas
nucleares, do valor do ter acima do ser, do consumismo de

31
coisas e pessoas, que poderão no futuro comprometer a
sobrevivência de nossa espécie na terra.
Talvez os perigos que enfrentamos nesta sociedade
globalizada pelo capitalismo selvagem, sejam ainda piores que
os meios de sobrevivência de nossos ancestrais. Na sociedade
moderna estamos sempre atentos sobre o forte impacto dos
sustos, dos estados de pânico, das preocupações com o
dinheiro, com receio do desemprego, com a apreensão sobre a
educação dos filhos, vivemos inquietos sobre a incerteza do
futuro, fazemos uma poupança porque estamos preocupados
com nossa sobrevivência.
E ainda mais, procuramos estudar e nos aprimorar
para garantir uma condição humana de vida, mas ao mesmo
tempo temos que conviver com o nervosismo, com a
ansiedade, com o horror da barbárie. De fato, na sociedade
atual o homem tem que coexistir com o medo, o terrorismo, a
insegurança, e a incerteza do futuro, este estado de angústia foi
diagnosticado pelos filósofos como Niestzche, Sartre, Gabriel
Marcel.
Os sintomas psicossomáticos são oriundos de alguma
desordem funcional no cérebro. Para distinguirmos com
exatidão as diferenças entre causas orgânicas e psíquicas, é
preciso tomar consciência da fragilidade dos diagnósticos na
saúde e doença mental. Por exemplo, uma vez ou outra
vivenciamos um estado de tristeza e isto é completamente
natural, os fatos começam a complicar-se quando esta tristeza
transforma-se numa condição de vida, este estado emocional
pode desenvolver uma depressão. Sem dúvida nenhuma o grau
de ansiedade presente nesta depressão pode levar o paciente a
uma regressão a fixações infantis, estas defesas surgem com a
intensão de aliviar e resolver a ansiedade.
Hoje temos a catalogação de uma enormidade de
doenças emocionais, da crise de pânico, transtorno bipolar de
humor, sintomas psicossomáticos, fobias sociais, abusos de

32
substâncias químicas ao álcool e cocaína. Mas por detrás de
todas estas patologias encontra-se a ansiedade. Para conhecer o
modo de atuação deste sintoma, é importante saber mais sobre
a emoção do medo e ódio. Esta reação do medo sobre o que
possa acontecer no futuro pode desencadear um estado de
angústia, a simples lembrança de uma vivência desagradável
desperta no íntimo de cada ser humano um estado de
ansiedade.
A ansiedade é um medo que não foi resolvido, para
solucionar este problema existe o fenômeno da fuga de
ambientes, onde possam estar se confrontando com esta
experiência. Quanto mais a pessoa reprime esta emoção do
medo, na mesma proporção aparece a ansiedade. Na grande
maioria das vezes estas reações emocionais do medo são frutos
da imaginação, por isto mesmo, sua linguagem aparece no
organismo como um sintoma.
A ansiedade é suportável quando não está
acompanhada de uma obsessão ou compulsão, para proteger-se
dos seus medos desenvolve-se uma série de defesas, um dos
sintomas mais comuns é o de conversão, repressão e
deslocamento. Este conflito é chamado de neurose. Os traumas
são os resultados de experiências capazes de trazer à
consciência as lembranças desagradáveis. A emoção é uma
experiência subjetiva acompanhada de sensações agradáveis ou
desagradáveis.
Na análise procura-se descrever o processo de atuação
inconsciente destas emoções, ao conhecer as suas defesas
podemos levar o paciente a um estado de consciência sobre a
atividade de uma neurose, este processo de conscientização
passa necessariamente por uma aproximação com os
complexos sistemas da subjetividade emocional.

33
1.2 – As Emoções e o Processo de Somatização

Por detrás destas conquistas e desejos inconscientes


existe uma força poderosíssima chamada: emoção. Esta energia
emocional sempre foi muito mal compreendida no seu processo
de atuação, por isto mesmo sempre se constatou que esta força
psíquica estava representada por uma espécie de consciência,
mais conhecida por uma energia psíquica capaz de alterar o
modo de ser e agir das pessoas. Quando os traumas estão
presentes na vida de uma pessoa, indiretamente estão sendo
representados por algum tipo de emoção, muitos tentam se
livrar de algumas emoções dolorosas recorrendo às drogas
lícitas e ilícitas, e outros ao mundo dos psicotrópicos. Agora
constatamos que existe uma força psíquica capaz de aprisionar
e bloquear a expressão da potencialidade e a capacidade
humana, conceito este chamado por Freud de repressão.
As emoções estão sempre presentes em nossas vidas,
algumas delas podem ser vivenciadas em algum ambiente,
como por exemplo, tristeza, mágoa, rejeição, medo, timidez.
Estas emoções podem destruir e prejudicar a realização pessoal
e a felicidade, algumas pessoas chegam inclusive a desenvolver
boas desculpas e justificativas para não freqüentar
determinados ambientes, porque sentem uma emoção de
tristeza e inferioridade. As emoções surgem sem a mínima
consciência, diante de um desafio procuram algum tipo de fuga
para não vivenciar aquela experiência emocional.
Estas reações emocionais conseguem alterar o
funcionamento fisiológico e hormonal do organismo, portanto,
além do desconforto, busca nas suas fugas e compensações, um
jeito de fugir desta dor e sofrimento. O prejuízo é muito
grande, pois, consegue neutralizar o potencial de criatividade.
Quando a expressão destas emoções é muito presente na sua
vida, estas pessoas deixam de fazer e realizar muitas conquistas
valiosas. Esta emoção de medo, dúvida, insegurança, angústia,

34
ansiedade, orgulho, impede de certa maneira de tomar algumas
decisões importantes. A emoção tem o poder de paralisar e
tornar refém uma pessoa, ou produzir comportamentos
inadequados, como por exemplo, uma pessoa muito inteligente
acredita que é indigna de receber um bom salário e por isto
mesmo produz atitudes infantis e inconsequentes para não
permitir-se a satisfação de ter dinheiro.
Outra pessoa deixa de realizar seus projetos de vida
porque tem a certeza de que vai fracassar, sua única saída é
fechar-se dentro do seu pessimismo. Este tipo de vida produz
outros tipos de sentimentos, como o tédio e ressentimento,
muito da infelicidade e das queixas tem sua origem neste tipo
de neurose. A neurose é uma força avassaladora que é capaz de
neutralizar seus pensamentos e levar você a fugir de suas
responsabilidades. O único objetivo da neurose é impedir a
realização de suas metas, estas emoções presentes nas neuroses
conseguem fazer com que a pessoa fique cega, para enxergar
outras realidades da existência.
Quanto mais emoções negativas, mais existe a
possibilidade da pobreza econômica, afetiva, de
relacionamentos, de criatividade, de realização, esta condição
na existência encaminha a pessoa ao desespero e desilusão.
Tornam-se escravas destas neuroses obsessivas e compulsivas.
Outras são totalmente dependentes do tipo de emoções de que
diferentes pessoas experimentam, ou seja, seu equilíbrio
emocional depende do humor dos outros. Esta dependência de
sentir as emoções através do outro é um risco muito grande,
porque nem sempre a outra pessoa estará alegre ou contente.
Querer que os outros experimentem as suas emoções
positivas, numa tentativa obsessiva para mudar sua entonação
emocional é ilusória e fantasiosa. Este desejo inconsciente
pode levar esta pessoa a uma completa exaustão de suas
tentativas, até porque a outra pessoa não está interessada em
mudar seu estado de humor. Ao querer mudar ou eliminar as

35
sensações de algum tipo de dor desagradável, algumas pessoas
tornam-se presas fáceis do mundo das drogas e psicotrópicos.
Por exemplo; cocaína, maconha, álcool, anfetaminas,
calmantes, nicotina, cafeína, porque todas estas substâncias
conseguem alterar o seu estado de humor. Alguns estão
interessados em provocar e experimentar algum tipo de
emoção, outras procuram neutralizar ou narcotizar algum tipo
de raiva, medo, mágoa, ressentimento.
Estas emoções desagradáveis podem desencadear um
processo de doença psicossomática, quando existe a
permanência de alguma emoção crônica, inicia-se o processo
de alteração de um determinado órgão do organismo. Muitas
das vivências da infância são representações simbólicas e
sintomáticas que aparecem para denunciar uma situação
incômoda, como por exemplo; humilhação, negligência,
preocupações, pressão, raiva, inferioridade, desamparo, podem
com o tempo transformar-se num stress agudo ou crônico. Este
estado emocional alterado pode tornar-se um sintoma
psicossomático, como por exemplo; pressão alta, úlceras,
doenças cardíacas e outros tipos de doenças.
Quando uma pessoa realiza a experiência na sua vida
de desespero, ansiedade, depressão, desamparo, com certeza
estas emoções poderão alterar o aspecto fisiológico do
organismo humano. O excesso de medo de perder o emprego
ou de alguém importante da família pode desencadear um
“stress”, sem dúvida existe uma ligação entre o apego
emocional e a origem das doenças psicossomáticas. Uma
neurose precisa manter seu grau de satisfação, mesmo que seja
através do sofrimento e das perdas.
A prisão emocional é um engano que alguém
proporciona a si mesmo de maneira distorcida, enquanto o ser
humano estiver a serviço destas emoções destrutivas a
sociedade como um todo vai colher os frutos da violência e da
barbárie. As emoções devem ser colocadas a serviço da saúde

36
psíquica, porque enquanto a pessoa estiver sob o domínio da
mágoa, raiva, ódio, inveja, ciúme, inconscientemente estará sob
o controle da neurose, portanto esta energia emocional
consegue levar a pessoa a experimentar este estado doloroso
que pode durar semanas, meses ou toda uma vida. Quando um
paciente não consegue vivenciar as emoções positivas, acaba
representando para si mesmo uma compreensão do seu mundo
vivido de maneira distorcida e irreal. Este tipo de paciente é
aquele que vive se queixando dos males da sociedade, da
família, do trabalho, etc.
Neste livro procuro levar o leitor a tomar consciência
do poder das atuações inconscientes das nossas emoções, estas
consciências entre outras, conseguem aprisionar as pessoas
com exigências e cobranças que estão além de sua natureza
humana. Quem se encontra dominado por esta situação
neurótica com certeza está pagando um preço muito alto, é
preciso tomar consciência de que os resultados ou erros
cometidos têm sua origem em algum tipo de emoção ainda
desconhecido pelo próprio paciente.
Na exposição do discurso do paciente, o analista
começa a perceber o mal estar, os prejuízos, os fracassos, as
perdas, que estão por detrás de cada emoção que está no
controle desta situação. Ao tomar consciência da emoção, o
paciente tem todas as condições de compreender e interpretar
os desejos ocultos e latentes na manifestação das suas atitudes
na existência. A análise tem como objetivo levar este paciente
a descobrir a matriz oculta destas emoções, possibilitando com
isto uma melhor utilização destas emoções a favor de si mesmo
e de sua competência emocional.
Depois de um tempo de análise, o paciente percebe
que é possível canalizar esta energia emocional de maneira
produtiva em sua vida. Temos a clara certeza de que é possível
escolher com plena liberdade, as emoções que acrescentam na
sua saúde psíquica. Estamos na verdade lidando com a

37
prevenção, porque indiretamente queremos um futuro melhor.
Este resgate da energia emocional pode proporcionar um
estado de alegria e de imenso prazer, quando o paciente tiver a
consciência sobre as emoções que podem trazer destruição ou
realização pessoal. Quanto maior o estado de inconsciência
sobre o seu mundo emocional, maior é o preço a ser pago na
existência pelas escolhas e decisões equivocadas.
Mas a decisão de se lançar neste processo é de cada
pessoa em particular, de investir tempo e dinheiro para sentir-
se livre destas emoções destrutivas e lutar para que as emoções
produtivas proporcionem harmonia e felicidade. Este processo
de libertação exige dedicação, renúncia e disciplina, para
alcançar tão nobre objetivo na existência. Todos são livres para
fazer uma escolha sobre qual o caminho que pretendem seguir,
mas não podemos esquecer que mesmo atrás de uma decisão,
existe uma emoção que pode estar agindo de maneira
destrutiva. Esta decisão de se conhecer é muito íntima e
particular, portanto, cada um tem o seu devido tempo e
amadurecimento para poder sentir-se livre destas emoções
destrutivas.
Quanto maior a consciência sobre o funcionamento
inconsciente de suas emoções, maior será o poder da pessoa
sobre a sua própria existência. Os estados emocionais são as
vivências de várias emoções durante um dia de trabalho, o mais
difícil de compreender é que atrás de uma mudança de
comportamento, existe a presença de uma emoção. Muitas
pessoas apresentam-se diante de determinadas dificuldades
com uma espécie de ataque emocional, é uma reação em cadeia
de uma fúria incontrolável. As pessoas que convivem com este
tipo de reação emocional não sabem muito bem como agir,
algumas ficam em silêncio, outras se defendem com violência e
agressão, cada qual procura reagir de um modo diante de tal
provocação.

38
Todas as emoções encontram-se à nossa disposição,
porém é importante saber as escolhas corretas sobre quais delas
pretende-se sentir e então expressá-las. Existem emoções que
proporcionam frustração, decepção, raiva, ódio, e outras a
alegria, confiança, satisfação. O único método para
ressignificar as emoções é entrar em contato com estas
emoções de tristeza, desânimo, apatia. Saber qual o momento
certo para dialogar com as imagens e sensações e descobrir o
seu desejo oculto desta emoção. É preciso aprender a conviver
com estas emoções e depois expressá-las de maneira
satisfatória. Quando existe a repressão de uma emoção
prejudica-se a autenticidade da identidade pessoal.
Quando estamos para tomar uma decisão pessoal em
relação à família, amigos, negócios, inicia-se um processo de
alteração fisiológica no corpo, como por exemplo; ansiedade,
tremor nas mãos, sudorese, palpitação do coração, falta de
atenção, ou seja, esta emoção do medo está boicotando a sua
capacidade de resolver problemas. Esta mesma pessoa tem o
real interesse em manter-se calma, tranquila, confiante,
competente, mas nem sempre isto acontece, estas reações são
involuntárias e autônomas no seu processo de dominação.
A qualidade de vida de uma pessoa pode estar sendo
prejudicada quando existem brigas, desentendimentos, traições,
desconfiança, estas emoções conseguem transformar-se em
mágoas e ressentimentos, este tipo de vivência emocional
desgasta e afasta aquelas pessoas que mais ama. Este estado de
inconsciência em relação às suas necessidades e desejos pode
desencadear um estado de afastamento completo das pessoas
do seu convívio pessoal. Ao tomar consciência sobre a emoção,
se abre a possibilidade de livrar-se dos seus segredos que
obstruem a sua liberdade de pensar e viver.
A emoção é fruto da reminiscência das influências
culturais, sociais e educacionais. Este compêndio de vivências
fazem com que interprete a realidade familiar sobre as

39
condensações e deslocamentos dos símbolos e seus
significados que giram em torno do seu sintoma. Esta infância
é permeada de vivências emocionais, em alguns momentos da
vida se precisa de uma emoção específica, parece que existem
outras situações com algumas emoções que surgem do nada, a
pessoa não sabe o que fazer com elas. Os nossos pais e
educadores diziam que nós não poderíamos sentir algum tipo
de emoção e muito menos expressá-las, mas o fato é que,
independente deste desejo, a presença desta energia emocional
é uma realidade.
Esta reeducação sobre o mundo das emoções
possibilita com o tempo uma integração, uma harmonia, capaz
de fazê-lo sentir-se motivado, entusiasmado, interessado, este
estado emocional é rico de energia psíquica, esta condição de
bem estar, alegria e satisfação proporciona as forças
necessárias para enfrentar todas as adversidades da existência.
Existem duas condições básicas na aprendizagem das emoções,
a primeira é saber escolher e expressá-las, a segunda é saber
tirar vantagem em proveito próprio nos relacionamentos com
os outros, através destas emoções.
A satisfação da vida emocional de cada paciente
depende de como esta aprendeu a lidar com suas emoções, é
preciso saber transformar “estes sofrimentos” em algum ganho
na existência. O discurso dos pacientes são sempre os
mesmos: “Não tenho outra escolha a não ser agir desta
maneira, nesta situação específica.” Conscientemente sabiam
que poderiam agir de maneira diferente, mas emocionalmente
isto era impossível, eis a compulsão à repetição. Estes hábitos,
crenças, atitudes, estão arraigados na vida emocional como se
fossem ervas daninhas.
A pergunta que surge é: Por que estes pacientes não
podiam reagir da maneira que desejavam Depois de
pensarmos sobre esta questão, surgiu a seguinte hipótese: Seria
porque não sabiam naquele momento especifico agir de modo

40
diferente Sem dúvida, é preciso um espaço de tempo para se
permitir fazer novas aprendizagens, entre os erros e acertos
existe um processo de avaliação e de incorporação de novas
experiências.
Depois é preciso tomar consciência das etapas deste
método de solução do problema. Com esta descoberta se tem a
nítida percepção de que os fracassos, o nervosismo, a raiva, a
insatisfação, os ciúmes, as inseguranças, são apenas emoções
que nos fazem acreditar numa verdade, esta ideologia pessoal
nos prende a uma interpretação da realidade pessoal ou social.
O quanto de consciência os pacientes têm em relação
a si mesmas? Será que realmente elas sabem o querem na vida
Que objetivos específicos elas gostariam de alcançar Sem esta
bússola fica muito difícil encontrar-se consigo mesmo, no
entanto todos os pacientes, pelo menos conscientemente,
querem o melhor, como a felicidade, dinheiro, um grande
amor, perseverança, confiança, ter um melhor emprego. Mas
sem uma mudança em relação ao mundo das suas emoções isto
é realmente impossível.
Por exemplo; é preciso superar as armadilhas dos
seus medos, para poder alcançar todos estes objetivos, como
confiança, perseverança, o amor, porque quando consegue
superar estes medos surge no seu lugar à coragem; por isto
mesmo é surpreendente, porque surge à iniciativa, a tomada de
decisão de querer mudar, de transformar-se, de ser diferente.
As emoções negativas produzem uma energia de tristeza,
culpa, desânimo, apatia, este estado psicológico advém de
forças pulsionais e vitais que se encontram bloqueadas, esta
energia volta-se contra o paciente em forma de sintoma.
Quando existe este diálogo com as imagens presentes
no fundo das emoções, então existe a condição de alterar e
modificar a emoção, esta verificação pode ser constatada
mediante observação dos seus comportamentos. Muito da
felicidade e do bem estar está na capacidade de interagir com

41
as pessoas do seu convívio diário, na família, no trabalho, etc.
As emoções presentes na vida de uma pessoa atuam
independente de sua vontade, pois a ansiedade, a depressão, a
preocupação, o desânimo, a apatia, a inferioridade, a
humilhação, a pressão, a frustração, podem instalar-se em
forma de sintoma psicossomático, e com o tempo transforma-
se numa doença crônica.
Hoje podemos com certeza defender esta teoria da
relação entre saúde orgânica e energia emocional, sem dúvida
quanto maior for à capacidade para expressar as emoções na
mesma proporção será a sua saúde. Existem estudos que
afirmam que existe uma relação entre o câncer e as emoções
negativas, tais como, hostilidade, depressão e culpa.
A cura depende desta transformação interior, e ainda
mais, conseguir sair deste estado de incongruência, deixar de
representar papéis e abandonar as máscaras, procurando
integrar a sua verdade interior. De nada adianta representar que
se está seguro, quando por dentro sente uma sensação
desagradável de desconfiança em relação a si mesmo, as
emoções sempre vencem, porque as atitudes inconscientes
retiram a máscara e mostram quem realmente a pessoa é.
Então, como viver uma existência autêntica e deixar de
representar uma vida de faz de conta, de fingimento e
superficialidade?
Esta capacidade para aprender a reagir diante das
emoções aparece na transferência e resistência. Este contato
com as reações de fúria, de raiva, de ódio, de alegria, de
enamoramento, de felicidade, é o nível de consciência superior
que o torna capaz de reagir de um modo consciente, ou seja,
existe a possibilidade de fazer sua escolha, em relação a
determinados comportamentos destrutivos.
Quando a emoção toma o controle da vida da pessoa,
este outro “self” age por conta e interesse próprio. O objetivo
da análise é tornar consciente o inconsciente, em outras

42
palavras, é criar as condições em um nível de consciência para
saber fazer as escolhas prazerosas e funcionais para sua vida.
As emoções são energias imagísticas e simbólicas que se
comunicam através dos sintomas e dos sofrimentos humanos.
As emoções são responsáveis pelas nossas
experiências e vivências, são elas que produzem um
determinado tipo de reação. Por exemplo, quando alguém
pretende fazer uma entrevista para um emprego, seus níveis de
ansiedade e medo tendem a aumentar ao aproximar-se a hora
da entrevista, este desconforto, este nervosismo, é produzido
por uma série de imagens vivenciadas no íntimo de uma
emoção. Antes mesmo de iniciar a entrevista, a pessoa começa
a pensar numa forma de defender-se de uma possível
humilhação, ou ainda encontrar alguma desculpa para sair o
mais rápido possível deste encontro.
Ou seja, em vez de utilizar a sua energia psíquica para
planejar uma ação com mais eficiência, confiança,
determinação, acontece o contrário, pela sensação
desconfortável que está sentindo, prefere ficar calado, retraído,
tenso, este estado impossibilita de mostrar as suas capacidades
e seus talentos pessoais. Na verdade quem está entrevistando
espera uma pessoa comunicativa, confiante, segura de si
mesmo, competente e atraente. Talvez a pessoa quisesse este
emprego, mas faz tudo para não ser admitido. Estas emoções
sempre estão conosco, queiramos ou não. As brigas, os ataques
de raiva, nos perseguem no dia a dia, esta condição emocional
recria as condições do fracasso e da infelicidade.
A razão quer o melhor, amor, afeto, carinho, ternura,
e as emoções produzem desânimo, tristeza, apatia,
desconfiança, ciúmes, inveja, ou seja, existe uma divisão entre
o racionalismo e os desejos inconscientes. Quando o estado de
inconsciência é dominante por parte destas emoções
destrutivas, a pessoa não tem escolha e talvez a única maneira
de neutralizar a sua ação seja o uso de psicotrópicos. No

43
entanto, é possível viver de maneira saudável e proveitosa,
tendo inteligência suficiente para fazer as escolhas corretas das
emoções que nos proporcionem prazer, satisfação e felicidade.
Para uma pessoa fazer uma escolha emocional,
primeiro tem de tomar consciência sobre a sua falta. Existem
três modos de as pessoas não saberem escolher suas emoções:
a) Diante de um desafio, repetem compulsivamente uma
atitude rígida e inflexível em relação ao acontecimento, esta
falta de capacidade de entender a realidade eleva os
sentimentos de insatisfação, frustração, desânimo, vergonha, ou
seja, basta qualquer mudança inesperada, que a pessoa entra
neste estado alterado de emoção. b) Existe uma dificuldade
enorme para saber lidar com as emoções intoleráveis, tais
como, a timidez, a solidão, a insatisfação, o medo e a culpa.
Este tipo de pessoa procura anestesiar ou esconder-se
atrás do excesso de trabalho ou estudos como uma fuga, e
quando isto não resolve, procura a solução no álcool e nas
drogas. c) Tem pessoas que não aceitam determinadas emoções
por isto mesmo reprimem ou recalcam a sua existência, não
sabem lidar com as emoções negativas como, por exemplo; a
inveja, o ciúme, a raiva, quando aparecem estas emoções o
superego entra em ação, fazendo com que se sinta com
vergonha e culpa, e depois precisa fazer a reparação, neste
momento se dá início ao processo de somatização. Consciente
ou inconscientemente, as pessoas estão fazendo suas escolhas
emocionais. Interessante que estas escolhas podem tornar umas
pessoas queridas e amadas e outras perseguidas e indesejadas.
Quanto maior consciência sobre o movimento sutil
destas emoções, melhores chances de não ser engolido por elas.
O nível desejado é tomar consciência da emoção que surgiu
naquele exato momento, e ao mesmo tempo ser capaz de optar
por uma outra emoção, para alcançar os resultados desejáveis.
O sistema límbico é o lugar da presença destas emoções, estão
todas disponíveis para serem colocadas a serviço de sua saúde

44
e felicidade. Mas é preciso um processo de aprendizagem
emocional para poder entender a linguagem simbólica presente
em cada uma dessas emoções e depois aprimorar-se na arte de
saber interpretá-las.
Através do tratamento analítico podemos aprender a
escolher de maneira consciente as emoções produtivas, quando
formos capazes desta ação, então, seremos competentes para
mudar e transformar a nossa energia emocional. Cada pessoa
tem capacidade e inteligência emocional para realizar a si
mesmo, experiências de gratificação e satisfação que deseja ter
na sua vida. Quando uma pessoa muda emocionalmente na
maneira de relacionar-se com os outros, todos à sua volta
acabam sendo contagiados por esta energia emocional, o
contrário também é verdadeiro.
Como um psicanalista poderia ajudar o seu paciente a
reconhecer as suas emoções? É uma tarefa a ser realizada em
longo prazo, até porque existem centenas de emoções a serem
distinguidas, classificadas. É preciso saber que emoção o
paciente está sentindo, esta informação nos permite entender o
sofrimento psíquico. Muito destas ansiedades estão
relacionadas ao medo do que poderá acontecer no futuro.
Quando esta emoção do medo conseguir ser interpretada, o
paciente conseguirá entrar em contato com a origem deste
trauma, e substituí-lo pela coragem para poder enfrentar a
situação com uma emoção de segurança e confiança.
A percepção e a reação a determinados eventos não
nos aproximam da emoção, porque as emoções trazem consigo
muitos tipos de experiências, portanto, observar e sentir são
elementos bastante diferentes em relação a um determinado
fenômeno subjetivo. Quando observamos uma criança quieta e
sozinha num canto da casa, temos a tendência a perguntar a
seus pais o que está acontecendo, e respondem da seguinte
maneira; você não percebe que está de mau humor? Esta é a
sua percepção, no entanto esta observação está equivocada.

45
Porque quem está sentindo a emoção é a criança e não os pais.
Quando perguntamos à criança: O que está acontecendo; você
está tão quieto, pois existe bastante criança ao teu redor Ela
responde: Eu estou muito triste porque não conseguem
entender o meu jeito de brincar.
A emoção que esta criança está sentindo é tristeza,
portanto existe um erro de julgamento que pode levar os pais a
prática de um castigo, por estar com mau humor, este tipo de
condenação é injusta. Algumas crianças são agitadas,
violentas, outras quietas e fechadas, este estado emocional é
uma atitude para serem notadas, existe a necessidade de
chamar a atenção, a carência afetiva é muito grande e por isto
mesmo pode levar estas crianças a estereotipar atitudes
exageradas.
É preciso que os pais, educadores e mesmos os
analistas tenham cuidado, para não julgar ou condenar algum
tipo de atitude precipitadamente. Sabemos que uma emoção
altera o seu estado de ânimo, muitos dos que dizem saber o que
se passa no íntimo das pessoas, acabam cometendo erros de
julgamento terríveis. Cada criança tem um modo específico
para comunicar algum tipo de emoção, mas esta atitude
carregada de emoção é para ser entendida na sua linguagem e
não para ser rejeitada e humilhada.
Temos que levar em consideração que algumas
crianças, diante de determinadas emoções, podem alterar as
suas reações fisiológicas, por exemplo; aumento da pressão
arterial, das batidas do coração, crianças que não conseguem
ser compreendidas na sua expressão emocional pode com o
tempo tornar-se frias, distantes, racionais, mais conhecido
como “alexitimo”. Elas possuem duas características, a
primeira é a dificuldade para descrever os seus sentimentos e a
segunda para identificar as suas emoções.
Para uma criança expressar em palavras ou de
maneira simbólica em seus desenhos, as emoções de ciúme,

46
inveja, medo, amor, ódio, é preciso ter vivenciado esta emoção.
A linguagem para comunicar seus traumas e bloqueios é
sempre metafórica e simbólica. A representação da realidade
subjetiva é revivida na regressão de memória para alguma fase
do seu desenvolvimento infantil. Mas o registro da emoção
existe e seu sintoma obedece estas leis do fenômeno
emocional, seu funcionamento inconsciente segue a natureza
de suas defesas infantis, porque naquele momento era o único
meio que encontrou para solucionar os seus problemas.
O discurso racional não consegue descrever e
tampouco interpretar o significado real de uma emoção
reprimida, suas reações aparecem no sintoma disfarçado de
prazer na dor. Pacientes psicossomáticos conseguem descrever
uma emoção com extrema exatidão, sem nunca terem sentido
nenhuma delas. Estes pacientes não conseguem distinguir entre
uma reação emocional de amor e ódio. Sua única defesa é
utilizar a sua razão para explicar através do seu racionalismo,
defender o seu ponto de vista. Esta diferença entre descrever o
que está sentindo e o que está pensando. Existe esta confusão e
a impossibilidade de identificar o que está ocorrendo realmente
no seu corpo, sensação corporal é diferente de uma vivência
emocional. A descrição da sensação corporal não é o mesmo
que identificar uma emoção.
Existe realmente esta sensação de desconforto ou de
alguma dor no corpo, mas a experiência subjetiva de uma
emoção é bastante diferente, é importante saber distinguir a
sensação da emoção em relação a uma vivência subjetiva em
um dado momento. Para compreender melhor, temos de
entender que as emoções são reações subjetivas diferentes das
sensações corporais, dos comportamentos que produzem, e dos
julgamentos e apreciações que fazem sobre elas.
Qual seria a implicância na sua vida se você pudesse
escolher as emoções que poderiam acompanhá-lo nas suas
decisões Que emoções realmente você gostaria de vivenciar

47
E quais seriam aquelas que você gostaria de se ver livre Por
exemplo; as emoções da decepção e frustração, não estão na
lista das emoções desejáveis, mas se começarmos a pensar um
pouco sobre a decepção, esta emoção traz consigo conteúdos
importantes para serem analisados, por exemplo; gostaríamos
de ter conseguido algo importante e infelizmente isto não
aconteceu. Da mesma forma a frustração, indica que a
realidade imaginada ou sonhada não respondeu ao desejo.
Mas estas mesmas emoções que consideramos
indesejáveis podem se tornar a motivação para continuar na
busca de objetivos pessoais. Quando você começa a pensar e
refletir sobre estas emoções, consegue tomar consciência de
que o método e as estratégias não foram corretamente
utilizados para conseguir aquele objetivo. Muitas destas
decepções conseguem fazer com que desistamos de nossos
objetivos, mas é preciso buscar outros caminhos e nunca
desistir de alcançar suas metas pessoais. O valor da emoção
não está atrelado na quantidade de prazer que ela possa
oferecer, mas pelas condições de potência que possibilita
alcançar seus objetivos na vida.
Quando alguém está enfurecido por alguma atitude
errado de um filho ou de um funcionário, começa a exigir do
outro uma mudança de comportamento, acredita que com
certas ameaças, xingações, humilhações, conseguem mudar sua
atitude. Mas o que acontece é um prejuízo no estado
emocional, pois diminui e muito a sua auto estima. O objetivo
da emoção, na vida de um ser humano, é ajudá-lo a
compreender algum tipo de atitude que não é saudável para a
sua vida. As emoções têm uma linguagem que se utiliza do
sofrimento e da dor para comunicar algo que está errado na sua
vida. Portanto, o pior erro, seria reprimir ou mesmo ignorar o
seu mundo emocional.
Todas as emoções, independentes de serem
agradáveis ou desagradáveis, são importantes como veículo de

48
comunicação do nosso incosnciente, é preciso entender através
destes sinais e símbolos o que realmente não está funcionando
de maneira adequada na nossa vida e no nosso corpo. Muitas
destas emoções desagradáveis têm como objetivo alertar a
pessoa sobre algum tipo de negligência, ofensa, ou agressão a
alguma necessidade básica ou existencial. Estes avisos estão
estampados nestas reações emocionais, depois de decifrada a
mensagem, começa a pensar e agir de maneira diferente.
Ao existir um arrependimento verdadeiro, podemos
afirmar que teve uma aprendizagem em relação a experiência
do passado. A culpa existe como um sinal de alerta para
despertar a consciência de que está agindo de maneira
equivocada, ninguém gosta de sentir-se culpado, mas quando
isto acontece, é porque alguma norma de valor foi violada,
portanto este é o termômetro que temos para nos guiar na
existência. Quando existe a presença da ansiedade podemos
compreender o medo desta pessoa em relação ao seu futuro,
esta sensação que sentimos é uma reação para enfrentarmos
algum tipo de desafio ou ao contrário, fugir totalmente deles.
Então, esta emoção de medo sobre o futuro exige do
paciente uma melhor preparação para enfrentar os problemas.
A pressão está muito próxima de sentir-se obrigado a alcançar
algumas metas que estão muito longe do seu alcance, ao
mesmo tempo, esta emoção ensina que se deve reavaliar a
maneira como interpreta os fenômenos existenciais e sua
repercussão sobre a sua realidade emocional. Porque toda vez
que realiza exigências além das suas limitações humanas, pode
estar cometendo um erro terrível em relação ao organismo, ou
seja, esta violência desregrada pode desencadear uma série de
sintomas ou doenças psicossomáticas.
O ciúme são uma das emoções mais presentes na
nossa vida, quando está presente este estado, devemos ser
conscientes do que está acontecendo e tomar as providências
em relação à situação. O ciúme é um desejo inconsciente de se

49
apropriar e comungar das qualidades do outro. O ciúme traz à
tona a insegurança de perder alguém que se ama muito, ou de
ficar sozinho, esta fantasia pode ser real e irreal, mas antes de
qualquer atitude é preciso analisar se isto não é uma projeção
de alguma vivência do passado. Este cuidado é para não
cometer injustiças e tomar decisões precipitadas, que podem
desencadear uma emoção de raiva e ódio.
A raiva é uma emoção que procura evitar que a sua
felicidade seja prejudicada ou uma defesa, para prevenir-se de
algo que pode acontecer no futuro. A raiva nos ensina que
estamos descontentes com alguma atitude incongruente ou
antiética de uma pessoa admirada. Na maioria das vezes estas
emoções são sentidas, sem provocar nenhum tipo de ação de
nossa parte. Esta emoção é um desejo que pretende alcançar
algum tipo de prazer ou satisfação existencial, sua função é
fazer acontecer um estado de gratificação. Uma emoção é a
expressão da inteligência da pulsão vital, cumprindo com a sua
missão especial, para garantir a saúde e felicidade plena da
pessoa.
O estudo da mente humana inclui algumas variáveis
extremamente complexas, o exemplo mais próximo de nossa
compreensão está na descrição da fisiologia orgânica e
neuronal do funcionamento do cérebro. A ciência psicanalítica
estuda o movimento sutil da energia inconsciente, propagada
por todo o organismo humano, é um estudo interdisciplinar e
transdisciplinar da mente inconsciente.
O estudo científico das emoções inclui também as
reações fisiológicas do organismo; o encontro com as
realidades sociais, culturais, religiosas e educacionais. Como
então descrever e entender a subjetividade e o significado
destas emoções, que podem ser de medo, ódio, raiva, orgulho,
vergonha, alegria, felicidade, amor, compaixão, solidariedade?
A psicanálise com todo seu conhecimento não pode
apresentar-se como tendo a verdade absoluta, outras áreas de

50
pesquisa também acrescentam novas descobertas ou hipóteses
sobre a influência das reações emocionais sobre a vida das
pessoas. Os físicos podem gabar-se de lasers, transistores,
radares, jatos, bombas nucleares. Os biólogos podem exibir
vacinas, antibióticos, clonagens, e outras maravilhas. Os
subprodutos da ciência da mente são muito menos
impressionantes: terapia comportamental cognitiva, thorazine,
prozac, terapia de choque, pretensos marcadores genéticos para
a homossexualidade, testes de QI, computadores que jogam
xadrez. 5
A fé religiosa foi a mais bem sucedida terapia
emocional, mas também fomentou a ignorância e a
intolerância. O conhecimento científico pode conjuntamente
com a religião, estabelecer um novo elo de aproximação, onde
o objetivo principal não seja salvaguardar dogmas milenares,
mas a busca incessante da verdade, porque ambos têm a mesma
finalidade. Ciência e Fé, caminhando lado a lado para poder
libertar o ser humano das amarras da ignorância, que impedem
a livre expressão das suas potencialidades.
A ciência também postula seus dogmas pessoais, a
história já mostrou os erros ideológicos de afirmações ditas
cientificas, como o darwinismo social, o comunismo totalitário,
as bombas nucleares, o desenvolvimento de armas químicas e
bacteriológicas. Esta ideologia impregnada de um dito saber
onisciente e onipotente da ciência colocou o próprio homem a
mercê de uma hecatombe nuclear.
Hoje estamos assistindo a toda uma pseudo
descoberta cientifica, de terapias de recuperação da memória,
com o tratamento cada vez mais disseminado, como as drogas
psiquiátricas, da persistência de teorias racistas sobre a

5
Horgan, John. A mente desconhecida. São Paulo, Comp. Das Letras,
2002, p. 14.

51
inteligência6 As descobertas da ciência acentuam seu valor em
relação à física clássica de Newton; as suas descobertas, todos
os objetos têm a tendência a cair em direção ao chão, o fluxo e
o refluxo das marés, o movimento da lua e dos planetas pelo
espaço podiam ser explicados por uma única força, a
gravidade.
As respostas do medo nunca podem ser
conscientizadas, porque primeiro acontece uma sensação
subjetiva, com alteração fisiológica, onde não existe a
consciência. As emoções são os fios que interligam a vida
sentimental e mental. São elas que definem quem somos nós,
para nós mesmos e para as outras pessoas. O que poderia ser
mais importante do que entender como o cérebro nos torna
mais feliz, triste, assustado, desgostoso ou satisfeito?
A emoção é tão somente um rótulo, uma maneira
conveniente de falar sobre aspectos do cérebro e sua mente.
Todos os animais e os seres humanos têm uma dimensão
genética e ontológica com a finalidade de cumprir com sua
própria inteligência vital. A ausência de consciência é regra e
não exceção na vida mental de todo animal. As emoções
surgem de maneira inconsciente. A emoção é um sentimento
consciente. Sensação de medo e coração descompassados é
uma conseqüência da atividade deste sistema, cuja atuação é
inconsciente, antes mesmo de sabermos que corrermos perigo.
As organizações neuronais de determinados sistemas
comportamentais e emocionais, como as reações de medo,
sexo, fome, parecem ser bastante semelhante ao mundo animal.
O controle direto sobre as nossas reações emocionais é muito
pequeno. Aquele que já tentou forjar uma emoção ou que foi
alvo de uma emoção falsa sabe muito bem como esta tentativa
é inútil. Quando o medo se transforma em ansiedade, o desejo
dá lugar à ganância, uma contrariedade converte-se em raiva e

6
Ibidem, 2002, p. 22.

52
a raiva em ira, à amizade dá lugar à inveja, o amor à obsessão,
o prazer torna-se um vício, as emoções começam a voltar-se
contra nós.
A saúde mental depende da higiene emocional e, na
grande maioria, os problemas mentais refletem o colapso da
organização emocional. As emoções podem ter consequências
tanto úteis quanto patológicas. A análise é interpretada como
um processo por meio do qual nosso neocórtex aprende a
exercer o controle sobre o sistema emocional ancestral do
ponto de vista evolutivo. Conquanto nossas emoções
representam a essência de quem nós somos, ao que parece elas
também têm seus próprios objetivos, os quais frequentemente
são colocados em prática sem nossa participação intencional.
É difícil imaginar a vida sem as emoções. Nós
vivemos para elas, estruturando situações que possam nos dar
momentos de prazer e alegria, e evitando aquelas que irão
causar decepção, tristeza ou sofrimento. As emoções provocam
sensações diferentes de outros estados de espírito porque
apresentam reações emocionais. Durante essa atitude de fuga,
o corpo sofre um cataclismo fisiológico: a pressão sanguínea
aumenta; aumentam os batimentos cardíacos, as pupilas
dilatam-se, as palmas das mãos ficam úmidas, os músculos
sofrem contrações.
O medo produz uma sensação diferente da raiva ou do
amor porque possui uma característica fisiológica. O aspecto
mental da emoção, o sentimento é escravo de sua fisiologia, e
não o contrário: não trememos porque sentimos medo, nem
choramos porque estamos tristes; sentimos medo porque
trememos e ficamos tristes porque choramos. Rotulamos o
estado de excitação como medo, amor, tristeza, raiva ou
alegria. Emoções específicas foram produzidas pela
combinação ou excitação artificial e sugestões sociais. Em
resumo, as emoções resultam da interpretação cognitiva da
existência.

53
Embora o processo de avaliação em si seja
inconsciente, seus efeitos são registrados pela consciência
como uma emoção. Assim, as emoções diferem de estados de
espírito não-emocionais, pela presença de avaliações em sua
seqüência causal, e emoções diferentes são discriminadas
porque avaliações diferentes substituem as tendências e ações
diversas, que dão origem a sentimentos diferentes.
Precisamos encontrar formas eficientes de explorar
aquilo que está abaixo da superfície: Para compreender o
“modus operandi” do sintoma é preciso descrever a fixação e a
regressão. O hipotálamo desliga-se do corpo para produzir
reações emocionais e do córtex para produzir experiências
emocionais. Mas afirmarei que a capacidade de ter sentimentos
está diretamente vinculada à capacidade de estar consciente do
próprio ser e da relação de si mesmo com o resto do mundo.
A simples análise do grande número de palavras que
expressam o medo revela a importância desse conceito em
nossas vidas: susto, pânico, aflição, preocupação, receio,
opressão, inquietação, desassossego, precaução, nervosismo,
irritação, tremedeira, temor, ansiedade, horror, pavor, angústia,
terror, aversão, consternação, apuro, covardia, perturbação,
ameaça, o medo, o terror, e a angústia são à base da existência
humana. Esta realidade emocional foi bem descrita pelos
filósofos existenciais como Kierkegaard, Heidegger e Sartre.
Todos os animais têm de proteger-se de situações de
perigo para sobreviverem, e dispõem apenas de um número
limitado de estratégias para enfrentar o perigo, resume-se essas
retiradas estratégias como “bater em retirada” (evitando o
perigo ou fugindo), imobilidade (paralisar-se), agressão
defensiva (mostrar-se perigoso ou revidar) ou submissão
(pacificação). No momento em que o cérebro detecta o perigo,
ele também envia mensagens, através da enervação do sistema
nervoso autônomo, aos órgãos do corpo, ajustando sua
atividade de maneira a adaptar-se ao que a situação exige.

54
As terminações nervosas que chegam aos intestinos,
coração, vasos sanguíneos, glândulas sudoríferas e salivares
ocasionam tensão estomacal, aceleração dos batimentos
cardíacos, pressão alta, sudorese nos pés e nas mãos e boca
ressecada. Se algo é verdade para mim, deve ter alguma
validade. Toda verdade é uma verdade para alguém, o ponto de
vista de alguém é uma janela para interpretar a realidade.
O mais importante é que nossos genes nos
proporcionam as matérias primas a partir das quais podemos
eleger nossas emoções. São eles que definem o tipo de sistema
nervoso que vamos ter, os modos de funcionamento mental que
este poderá desenvolver e os tipos e funções corporais que ele
poderá controlar. Mas nossa maneira especifica de agir, pensar
e sentir em cada situação são determinados por muitos outros
fatores ambientais, culturais, não estará predeterminada em
nossos genes.
Talvez muitas emoções possuam base biológica, mas
os fatores sociais, isto é, existenciais, são igualmente
importantes. Natureza e criação são parceiros em nossa vida
emocional. É provável que você encontre uma definição do
sistema límbico como a casa de determinadas emoções
fundamentais, citando determinado tipos básicos de sexo,
agressão, medo, desejo. Porque o mesmo sistema límbico
aparece em cavalos, macacos e nos seres humanos. As
sensações emergem com a haste cerebral e as emoções básicas,
com o sistema límbico. Grande parte da análise existe para
ajudar as pessoas a romper o hábito de associações emocionais
antigas e impróprias.
Essas imagens, depois de plenamente assumidas pelos
várias partes do corpo a que pertencem, naturalmente evocam
emoções. Realizada a conexão <emoção>, <imagem>,
<corpo>, a história presente e passada sempre emerge de forma
espontânea, e com sua dinâmica própria, leva-nos diretamente
a algum tipo de catarse de resolução intrapsiquica na expressão

55
de sintomas. Algumas emoções, como o medo de cobras, são
inatas e se baseiam provavelmente em organização serial no
sistema límbico.
A maioria das emoções é aprendida através de
experimentos e erros, mediante um acúmulo associativo de
reações a certos estímulos. E são muito influenciadas pelos
hábitos. Uma vez aprendido a sentir raiva diante de um
estímulo, é difícil para nós reagir de modo diferente da
próxima vez. A maior parte do sofrimento humano se origina a
partir das emoções destrutivas, como o ódio, que estimula a
violência, o desejo que promove o vício.
As emoções destrutivas são aquelas que prejudicam
aos demais e a própria pessoa. Todos os seres humanos têm
consigo os mesmos sentimentos básicos como parte de nossa
herança comum, existem notáveis diferenças interpessoais no
modo de valorizar e expressar as emoções. Algumas vivências
emocionais de raiva, tristeza, desgosto, acontecem na região
mais conhecida como reptiliana. Esta observação pode ser
realizada na expressão dos animais e na condição humana, este
legado das “humanitas” é um processo de evolução na busca da
humanização destas emoções, que são a causa das guerras,
revoltas, discórdias e tragédias da humanidade.
Faz bastante tempo, por exemplo, que a ciência
descobriu que quanto mais se acaricia e mantém nos braços o
recém nascido, mais conexões neuronais desenvolvem. A
humanidade deve estar atenta para a importância do afeto, da
caricia, da ternura, talvez este seja o antídoto verdadeiro para
combater a violência, as guerras, a barbárie com a expressão do
amor e da compaixão. Nós valorizamos muito positivamente o
respeito em relação a si mesmo, a auto estima, o amor próprio e
a auto-realização e também certas idéias a respeito da
importância do amor, incluindo o amor romântico e a amizade,
tendo a impressão de que são muito diferentes.

56
O que transforma alguém em uma boa pessoa Qual é
o modo mais adequado de modificar, erradicar, diminuir as
emoções Seria através da meditação, do autoconhecimento, da
análise pessoal, dos remédios? Existirá algum tipo de
psicotrópico capaz de retirar todas as influências históricas,
sociais e culturais do córtex cerebral? Nós do ocidente cremos
que podemos amar aos outros se nos amamos a nós mesmos.
Quero dizer, que se uma pessoa tem uma baixa estima, e tem
raiva de si mesmo, não se respeita, não será possível amar aos
demais. Existem algumas emoções que são indissociáveis da
natureza humana, como a raiva, o desprezo, a indignação, o
medo, a felicidade, a tristeza, o amor, a amizade, o perdão, a
gratidão, o arrependimento, (ou o sentimento de culpa por ter
feito algo mal) e a vergonha.
Platão assinalou que as emoções, o temperamento, o
desejo de sexo, a comida são a causa de todos os problemas e
que, em conseqüência, a razão tem que assumir o controle das
emoções. Aristóteles diz que cada um dispõe em seu interior de
um conjunto de virtudes entre as quais cabe destacar, a
amizade, a compaixão que devem estar em harmonia. Toda
virtude tem um componente emocional, para expressar a raiva
é preciso fazer com a pessoa adequada, no momento exato, em
uma situação oportuna, com um propósito justo e de modo
correto, por certo não é uma tarefa muito fácil.
A palavra inglesa “emoção” procede da raiz latina
“emovere” e se refere a algo que põe em movimento uma ação
positiva, negativa ou neutra. Deste modo, as emoções
escurecem e restringem nossa liberdade, pois influenciam
nossos processos mentais de uma forma que nos obrigam a
pensar, falar e atuar de maneira parcial. As emoções
construtivas, por sua parte, se baseiam em seus pensamentos
mais acertados, e promovem uma valorização mais exata da
natureza da percepção.

57
Não existe o bem ou o mal absoluto, e sim que o bem
e o mal só existem em função da felicidade e do sofrimento que
nossos pensamentos e ações causam a nós mesmos e aos
demais. Quanto mais cultivarmos a solidariedade, o amor, a
compaixão e a alteralidade, e quanto mais profunda for esta
humanidade, aos poucos desaparecerá o desejo de prejudicar
ou fazer mal a alguém. Existe um desejo de buscar o prazer e
evitar o sofrimento. Quando uma pessoa tem ódio em relação a
si mesmo, contém na mesma proporção um alto grau de
narcisismo. Toda pessoa que se suicida não faz porque odeie a
si mesmo, e sim porque acredita que tal atitude poderá diminuir
ou solucionar o seu sofrimento.
Daí se origina a rejeição e atração, quer dizer a
aversão a tudo que pode ameaçar o “EU”, e a atração por tudo
que lhe dê prazer, e que faça sentir-se seguro e feliz. Destas
emoções básicas, da atração e da rejeição, se originam todas as
outras emoções. Existem cinco emoções principais: o ódio, o
desejo, a ignorância, o orgulho e a inveja. O ódio está
relacionado com muitas outras emoções, como o
ressentimento, a inimizade, o desprezo e a aversão.
Uma pessoa nunca tem inveja do sofrimento das
outras pessoas, mas sim de suas qualidades positivas. A saúde
emocional tem uma forte implicação em querer o bem do
outro, sua alegria e felicidade. A experiência nos leva a afirmar
que as emoções destrutivas não estão presentes na natureza
básica da consciência, e sim que surgem em função das
condições, hábitos e tendências muito diversas que se
expressam num âmbito exterior à consciência.
Cada emoção possui seu próprio antídoto, não
podemos experimentar ao mesmo tempo amor e ódio em
relação à mesma pessoa. Por isto o amor é o antídoto direto ao
ódio. O sábio é aquele que está livre e em paz em relação às
emoções destrutivas, tem uma grande sensibilidade e
preocupação pela felicidade dos outros. As pessoas distraídas e

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confusas não conseguem perceber o que se passa ao seu redor,
mas o sábio ao contrário, tem uma extraordinária percepção
com compaixão, que lhe permite dar-se conta do sofrimento de
seu próximo.
É possível ver-se livre totalmente das emoções
negativas. Para conseguir este objetivo é preciso estar livre,
para com muita sabedoria reconhecer que estas emoções
dificultam e impedem uma melhor capacidade de juízo, o fato
de nos liberarmos delas nos proporcionará uma melhor
liberdade e felicidade. O prazer está sujeito às mudanças, e isto
tem a ver com os momentos e as circunstâncias, em algum
período ele pode ser desfrutado e em outros não. Talvez seja
extremamente prazeroso num determinado momento, mas em
outras circunstâncias pode provocar uma indiferença,
desagrado, e sofrimento. Como uma vela que desaparece ao
estar acesa. O prazer termina quando se acaba de desfrutá-lo. A
emoção é algo muito diferente do prazer pulsional.
O que nós pretendemos é tratar de nos liberarmos da
influência das emoções destrutivas, para poder experiênciar
uma estabilidade, claridade, satisfação pessoal, paz interior, e
dizermos que tudo isto é a felicidade. Para alcançar a bondade
é um longo processo de autoconhecimento e acumulação
gradual de qualidades positivas e de muita sabedoria.
Finalmente a pessoa consegue alcançar um estado de plena
consciência, se não existe mais nenhuma emoção que se
interponha a uma interpretação mais fiel da realidade.
As emoções destrutivas são precisamente as que
impedem de ver as coisas tal como são e então poder decidir
com melhor acerto. As emoções destrutivas modificam e
determinam a natureza da realidade e da nossa própria mente.
Quando uma pessoa consegue ver a realidade tal como é, fica
muito mais simples libertar-se destas emoções negativas e
desenvolver na prática as emoções positivas, que lhe permitem

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ter mais tolerância, prudência, compaixão, bondade de forma
espontânea e natural.
São ao todo vinte emoções derivadas do ódio. Cólera
(fúria e ataque). Ressentimento (guardar mágoas). Rancor
(insatisfação, frustração). Inveja e ciúmes (impotência,
perversão). Crueldade (desejo de destruir, matar). Estado de
indistinção: sonolência, arrependimento, atenção às
generalidades e aos detalhes. Sanidade Mental: fé, alteridade,
tempo, investimento, amor, afetividade.
Ignorância e apego (fixações). Petulante (arrogância,
apresentar qualidades que não possui). Engano (ocultar,
disfarçar, não se assume. (dá o tapa e esconde a mão). Sem
vergonha (pessoa sem ética e principio, perdeu os princípios
valorativos). Desconsideração. (egoísmo ao extremo só pensa
em si mesmo). Falta de escrúpulos (pessoas que não têm
limites e são inconsequentes). Distração: (alienação, fugas,
ficções), Concentração, inteligência, Consciência de si mesmo:
(sentimento, discernimento, intencionalidade, aproximação e
atenção). Cultivo pessoal (aspiração, valorização, gratidão,
autoconhecimento).
Estes estados emocionais interferem na
aprendizagem e na vivência da disciplina ética, da atenção, da
meditação e sabedoria. O esquecimento e a falta de
responsabilidade criam sérios obstáculos ao seu progresso
espiritual e emocional, por isto são emoções que nos enganam.
Os estados emocionais estão impregnados de uma verdade
obscurecida pela confusão, porque justamente atrás deste
pensamento está alguma emoção, este estado emocional
consegue despertar imagens, recordações, para poder
comprovar e valorizar algum tipo de comportamento.
A configuração das emoções está inscrita nas
experiências sociais, culturais, religiosas, educacionais, e
familiares. São estas observações impregnadas de sentimentos
valorizativos, que fazem com que a pessoa interprete uma

60
determinada situação de acordo com as crenças e valores
daquele momento vivido. Qualquer acontecimento necessitará
de uma interpretação, e para isto será necessária uma cognição.
Neste desdobramento sempre haverá interpretações dos seus
diversos significados, portanto a sua linguagem verbal ou
corporal será definitiva para a apreensão daquela vivência
emocional que poderá ser boa ou ruim. Esta sensação de bem
estar ou mal estar será imprescindível para sua felicidade.
Podemos perceber a expressão da musculatura do rosto, o
modo de dar um abraço, a maneira de se expressar o seu olhar,
e principalmente o conteúdo de sua fala, a tonalidade e
intensidade da sua energia emocional.
As emoções advêm quase sempre de alguma
frustração, daqueles desejos e apegos de alguém em busca da
sua realização pessoal, mas o que acontece no final destas
tentativas é quase sempre a perda, o engano, a decepção, e o
sofrimento. A pessoa não se dá conta que a utilização daquelas
emoções destrutivas, acaba não só por destruir amizades e
relacionamentos, como também produz a mágoa e o
ressentimento.
Como seria possível uma pessoa neutralizar ou
conviver com uma experiência emocional do abandono da
rejeição ou de alguma injustiça Qual o método ou atitude mais
saudável para poder lidar com estas raivas, medos, ódios, e
vergonhas pessoais Que tipo de prejuízo poderia trazer para
uma pessoa num estado de inconsciência Como lidar com esta
emoção provocada dentro de cada pessoa humana
Antes da existência de uma emoção, o cérebro precisa
de uma realidade, onde ele possa raciocinar, juntar,
complexizar, para poder criar uma determinada reação
emocional. Como interpretar o significado das atitudes
destrutivas e dos pessimismos de pessoas que convivem
comigo no meu dia a dia Pergunto: qual a solução para tais

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acontecimentos Seria possível entender que atrás de um ato de
injustiça existe uma pessoa em sofrimento
Os estados emocionais sejam eles destrutivos ou
positivos, são sem dúvida, o fundamento do nosso ser
psicológico e emocional. Portanto, cabe a cada um estar atento,
para poder estabelecer um diálogo com esta inteligência, para
poder criar novas alternativas de comportamentos, antes
mesmos de reprimi-los ou negá-los, sua existência está
implícita num pedido, onde o esclarecimento pode diminuir, e
muito, qualquer tipo de emoção destrutiva.

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_________________________________________ Capítulo II

1.2. Clínica Psicanalítica da Somatização das Neuroses


“Quando o todo se encontra em mau estado, é impossível que a parte se comporte
bem. É da alma que vem para o corpo e para o homem, na sua totalidade, todos os
males e todos os bens. É, pois da alma que é preciso desde logo cogitar, tratando-a
antes de tudo. Constitui um erro hoje disseminado entre os homens, o procurar
curar separadamente alma e corpo.”
(Platão)

Indubitavelmente, é muito importante na clínica


psicanalítica das doenças psicossomáticas, a realização de uma
boa anamnese, para isto o psicanalista deve ter conhecimento,
bondade, prudência, paciência, intuição, compreensão,
confiança, para estabelecer com o paciente as informações
precisas sobre as suas queixas. É importante durante esta
entrevista compreender as intenções e desejos latentes que
estão escondidos por detrás da doença. Observar, o estilo de
vida, o grau de instrução, o tipo de alimentação, saber se
realiza algum tratamento médico, quais as medicações que vem
tomando, e acima de tudo descobrir os motivos latentes da
estruturação de sua vida em doença.
Muito do sucesso da continuidade da análise depende
do vínculo que foi estabelecido nesta aliança de trabalho
analítico, um vínculo afetivo de confiança, de empatia, de
alteridade, o psicanalista deve estabelecer uma relação
dialógica e responsável na atenção ao seu quadro
sintomatológico. As intervenções corretas dependem muito do
nível de experiência analítica adquirida no atendimento a estes
tipos de paciente. É preciso uma disposição para obter
conhecimento da teoria psicanalítica, e levar em consideração,
a sua etnia, cultura, educação, religião, preconceitos, condição
econômica, etc.
Assim, o psicanalista que se propõe a exercer a
clínica psicossomática, precisa destes elementos para poder

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fazer sua confrontação, esclarecimento e interpretação sobre
esta fenomenologia sintomática. Para a formulação de um
diagnóstico é imprescindível contar com a verdade sobre o seu
quadro doentio, neste momento o profissional da psicanálise
humanista vai precisar de toda sua leitura e conhecimento, para
poder realizar a clínica com eficiência e resultado. Na
psicanálise a primeira entrevista clínica é de fundamental
importância, até porque pode nos esclarecer a estrutura básica
dos seus complexos neuróticos que podem estar por detrás de
sua doença.
Em nenhum momento o psicanalista deve indicar
conselhos, advertir, ameaçar, impor condições, etc. Esta prática
clínica é autoritária e distancia cada vez mais de uma confiança
recípocra. Existem sintomas que são frutos da imaginação,
outros que são reais, muitos pacientes procuram dar uma
explicação sobre a sua doença, outros pacientes querem um
diagnóstico que venha ao encontro com o seu quadro doentio.
Quando se inicia o processo de tratamento, da mesma forma
iniciam-se as dificuldades com desculpas e justificativas para
boicotar o tratamento.
É muito difícil a clínica psicanalítica com pacientes
psicossomáticos, porque em algum momento esta escuta da dor
emocional pode levar a desencadear uma série de resistências.
Muitos doentes interpretam equivocadamente as orientações ou
interpretações, ou seja, entende de forma deslocada o sentido
de uma palavra que tenta explicar aquele sintoma subjetivo, é
preciso estar atento para não incorrer em riscos de ser mal
compreendido na sua clínica. Muitas vezes o que é dor para um
paciente é cólica para outro; câimbra, pressão, para um
terceiro.
Muitos pacientes possuem a tendência frequente de
fazer comentários e diagnósticos sobre a sua doença, como está
sobre uma forte influência emocional, é muito comum que
exagere ou diminua a sua importância, a maneira de mascarar e

64
fugir do encontro com a realidade é dissimular os sintomas.
Quando o paciente começar a falar sobre os seus sintomas,
deve-se estar atento para não deixar que esta queixa se torne
fonte de chantagem e manipulação do psicanalista. Alguns
pacientes neuróticos trazem consigo, uma relação dos
principais sintomas que estão relacionados com o seu quadro
psicossomático. Muitos relatam os exames e diagnósticos feitos
anteriormente por algum médico de sua confiança.
É preciso colocar atenção naquelas informações que
são úteis e possuam realmente algum sentido para a clínica
psicanalítica, é preciso deixar de fora tudo aquilo que for
supérfluo, inútil ou repetitivo. Cada caso clínico exige um
método diferente de tratar este paciente, e muito do sucesso
destas primeiras entrevistas depende da experiência e o
tirocínio intuitivo do analista. É preciso que o analista esteja
atento para descobrir as características principais de sua
personalidade, as suas resistências presentes na etiologia da
doença patológica, o grau de vulnerabilidade à dor, pois o
único objetivo da psicanálise como ciência, é aliviar os
sofrimentos e levar o paciente à cura psíquica.
Numa anamnese é importante saber a identificação:
Grau de Instrução; Profissão; Crenças religiosas; Situação
econômica; Ambiente familiar; Atitude perante o analista;
Maneira de vestir; Estado de humor; Estado emocional;
Infância e adolescência; Vida em sociedade; Capacidade de
reflexão; Atitudes para com a doença; De onde surgiu o desejo
de curar-se; Qual é a imagem que tem em relação à sua doença;
Vida sexual e afetiva; Grau de inteligência; Genealogia e
posição do paciente na constelação familiar; Alimentação; lazer
e qualidade do sono.
A aplicação da psicanálise nas doenças orgânicas teve
que superar muitas dificuldades, para mostrar que os sintomas
eram na verdade uma neurose, como por exemplo, dor de
cabeça, sensação de dores nas costas, inibição ou paralisação

65
de um órgão, sempre apresenta algum significado psíquico. Ou
seja, o paradigma da medicina organicista e mecanicista
sempre defendeu a origem destes sintomas como sendo de
fundo físico-químico. Para a psicanálise que estuda a
dimensão inconsciente da expressão das emoções e pulsões, o
sintoma é a manifestação de uma energia recalcada ou
reprimida.
Os casos das doenças orgânicas devem ser tratados
pela medicina. Mas para os estudiosos da ciência psicanalítica,
o psíquico e o orgânico estão intrinsecamente relacionados. O
psicanalista tenta entender o significado oculto do sintoma ou
de uma doença, interpretando a sua linguagem através desta
simbolização. Toda a doença, indiretamente, tem uma função
simbólica para representar um desejo inconsciente, o corpo é a
expressão das seqüelas e cicatrizes adiquiridas durante a sua
existência. A doença vista como um símbolo torna possível
interpretar o sentido e o significado do seu sofrimento. O
sintoma é uma linguagem que comunica algum tipo de emoção,
quando o paciente não consegue verbalizar a sua dor
indiretamente comunica-se através de uma doença.
Muitas das doenças conseguem paralisar as atividades
desta pessoa, outras impõem uma reflexão mais séria sobre
determinadas atitudes e decisões. Numa análise interpretativa,
o corpo fala em seu lugar, porque a emoção do medo ou da
vergonha impede de colocar nas palavras o seu sintoma de
tristeza ou de raiva. O corpo pronuncia suas palavras e tem
uma linguagem que precisa ser decifrada, tanto a palavra como
os sintomas pretendem fazer uma declaração concreta ou
simbólica sobre a sua maneira de viver.
Na psicanálise, o medicamento mais usado é a
liberação em doses homeopáticas das emoções dolorosas, é
preciso saber dialogar com o sintoma. Para fazer um
diagnóstico mais preciso sobre a doença, é importante prestar
atenção nos sentidos ocultos das frases e palavras, os seus

66
diversos significados presentes no seu discurso, à mudança na
maneira de expressar as suas emoções, às intencionalidades
psíquicas presente nas queixas. Estas são algumas das
alternativas que tornam possível o diagnóstico.
Os sintomas são recursos que o inconsciente se
apropria para fazer algum tipo de denúncia, de negligência, ou
mesmo de impotência para lidar com alguma situação
existencial. Antes disso, o analista deve estar preparado na sua
condição humana, o seu humanismo está presente quando
consegue entender as fraquezas humanas, as resistências, os
boicotes, as mentiras. Na psicanálise humanista, o inconsciente
é analisado dentro de uma totalidade porque o id, ego e
superego de Freud estão presentes ao mesmo tempo, no
sintoma psicossomático.
A teoria psicanalítica postula a idéia de que a origem
destes sintomas tem sua etiologia nas vivências infantis, as
simbologias e imagens dos desenhos das crianças também
realizam algum tipo de denúncia, quando existe alguma
emoção recalcada ou reprimida. Outros psicanalistas defendem
que a etiologia destes sintomas encontra-se na vida intra-
uterina, ou mesmo no período pré-natal, todas as vivências
desta criança estão guardadas nas suas memórias e, portanto
são passiveis de serem compreendidas e interpretadas.
O tratamento e o diagnóstico dos sintomas devem ser
descobertos pelo próprio paciente, as resistências são o grande
desafio a ser superado para a elucidação destas doenças, muitos
destes sintomas, apresentados nas queixas pelos adultos, foram
vivenciados na sua infância, esta tendência à compulsão, à
repetição, também está presente no sintoma. A terapia
analítica precisa de um alto grau de sinceridade, de franqueza,
de confiança, de produtividade, ou seja, esta condição de vida é
o primeiro sinal de uma pessoa saudável. Deixamos bem claro
que são absolutamente necessários os exames físicos exigidos
pelo médico, porque alguns destes sintomas podem ter algum

67
dano ou lesão naquele órgão do corpo, e que naturalmente
precisa de medicação.
Wilhelm Reich, Otto Rank, Theodor Reich,
Groddeck, dizem que o sintoma é o fio condutor da resistência
inconsciente, porque sempre está presente um conteúdo latente
e outro manifesto. O mesmo método que utilizamos para
interpretar uma fantasia, um sonho ou a neurose, pode ser
utilizado para o sintoma psicossomático. Diante disso,
podemos ajudar muito os pacientes que estejam acometidos por
algum tipo de doença psicossomática. O paciente precisa ter o
desejo de voltar a ter saúde, ou seja, é preciso compreender a
teimosia, rigidez, ignorância emocional e sua falta de
inteligência. Estas e outras situações exigem do paciente uma
mudança de rumo nas formas de expressão da sua energia
emocional.
Esta emoção doentia representa o estatuto da
destruição da vida, por isto mesmo, muitos recorrem ao bisturi,
aos remédios, à mudança de profissão, à prática de uma
religião, da hipnose, do misticismo, etc. É absolutamente
compreensível que quando uma pessoa que se encontra num
total desespero, recorra a todos os métodos e procedimentos
para se ver livre daquela doença. Em muitos casos pode-se até
ter um êxito. Mas é preciso buscar no seu íntimo, o desejo de
começar a amar a vida, sabendo que esta doença é mais uma
oportunidade para poder encontrar-se consigo mesmo, caso
contrário, uma determinada doença pode levar a pessoa à morte
psíquica e orgânica.
Ao tornar conscientes estas emoções escondidas nos
núcleos dos complexos neuróticos, consegue libertar as forças
positivas que estão à disposição no inconsciente. A
transferência torna possível a interpretação do sintoma, esta
relação do analista e paciente transcende ao espírito racional
das explicações, seu maior valor encontra-se na vivência do

68
afeto, do amor, da confiança, condições básicas para qualquer
pessoa seguir adiante com seu projeto de vida.
Estamos pensando na possibilidade de que a culpa,
medo, raiva, punição, possam servir-se de algum sintoma para
comunicar alguma dor emocional e justamente aparece naquele
órgão, uma dificuldade que está relacionada a uma traição, esta
emoção necessita ser reparada, verificada e conscientizada. Em
outras palavras, no íntimo de um símbolo está presente um
discurso afetivo, amoroso ou existencial, estas doenças
psicossomáticas são expressões da intencionalidade psíquica de
uma narração que pode também sofrer algum tipo de influência
de vírus e bactérias.
A etiologia de uma doença psicossomática está
correlacionada pelos vários fatores ambientais e psíquicos, na
estruturação de uma dor. Na psicanálise, a interpretação deste
fenômeno doentio é realizada mediante uma lógica, com
metáforas e palavras, por exemplo, é possível que um paciente
desenvolva uma sintomatologia de uma dor de garganta,
quando não consegue engolir certas palavras ou frases ditas
pelo seu esposo. A energia emocional é muito contagiosa em
todos os sentidos, em algumas pessoas aquele vírus pode
manifestar-se tornando o organismo vulnerável para este tipo
de contágio.
A emoção ou mesmo uma pulsão, pode desencadear
através de uma maneira de pensar, a alteração fisiológica no
organismo humano, por exemplo, é possível que diminua
secreção de enzimas, a distribuição de sangue, o aumento da
pressão. Esta constatação é verificada porque o corpo humano
é compreendido dentro de uma dimensão integral e inteligente
onde o microcosmo e o macrocosmo estão interligados por
uma rede de comunicação que se especifica com um
determinado tipo de caráter.
Por exemplo; o sistema imunológico pode proteger-
se contra a invasão de germes, vírus, e bactérias e defender

69
aquele órgão que esta sendo agredido, ao mesmo tempo pode
acontecer que o sistema de vigilância torne-se vulnerável para
deixar que algum vírus atinja seu objetivo. A doença expressa
o descontentamento ou a frustração da natureza, esta energia
vital transforma-se numa emoção de dor com o objetivo de
alterar e modificar o “modus vivendi” do sujeito rígido e
autoritário.
Freud dizia que as histéricas desenvolviam esta
sintomatologia com o objetivo de chamar a atenção e receber
afeto, ou seja, a doença do seu corpo tinha uma intenção de
solucionar uma carência. Mas hoje percebemos que não são
somente as histéricas que possuem este poder de utilizar das
doenças para dizer algo sobre si mesmo. Por detrás de toda
doença psicossomática existe um desejo a ser realizado, ou que
não encontra o caminho da expressão de seu desejo. Se
quisermos saber, o método utilizado pela energia emocional
para comunicar ao paciente sobre os erros que vem cometendo
de forma violenta e agressiva contra sua própria pessoa, ainda
nos parece um mistério, porém evidencia o seu poder de
proteção da vida através do sintoma psicossomático.
A ciência psicanalítica procura desvelar as complexas
ramificações destas decisões inconscientes, porém se torna
cada vez mais difícil quando existe resistência, transferências, e
outros ganhos secundários que não permitem a compreensão.
Porque o sintoma está protegido pelos seus mecanismos de
defesa, como por exemplo, a proteção de sua neurose, a
vergonha, o medo, a desconfiança, etc. Pretendo demonstrar
que esta vulnerabilidade de alguns pacientes a determinadas
doenças não acontecem ao acaso, ao contrário, são estes
complexos emocionais que estão constelados sobre a forma de
alguma energia represada, que precisa ser liberada.
O sentimento de impotência, de frustração, de
decepção, de traição, são emoções que estão presentes no nosso
dia a dia. O sentimento de inferioridade é um conceito

70
elaborado por Alfred Adler, que nos diz o seguinte; é possível
que esta emoção de inferioridade torne-se a motivação
principal de sua vida para caminhar rumo a alcançar objetivo
mais nobre e saudável. Estamos falando sobre o processo de
superação de problemas e dificuldades. De certa forma esta
inferioridade se tornou numa espécie de esperança para
alcançar outros objetivos, ou seja, este investimento de tempo,
de aprendizagens, de disciplina, de estudo, de trabalho, pode
convalidar os seus esforços para compensar uma determinada
inferioridade, que pode ser física, psíquica ou existencial.
Mas quando um ser humano não encontra mais
sentido na existência, como está muito bem explicitado nas
obras de Victor Frankl, então estas dúvidas, incertezas,
inseguranças podem levar ao completo desespero, chegando ao
final infeliz do suicídio. Este estado de inconsciência pode
levar uma pessoa a um esgotamento de suas forças físicas e
psíquicas como sendo a única forma que encontrou para lidar
com o seu orgulho e vaidade, ou seja, eu desisto deste projeto
não por minha própria vontade, mas porque estou doente.
Mas esta mesma doença psicossomática tem seus
benefícios, porque em lugar de um acidente vascular cerebral
aconteceu uma artrite reumatóide, ao fazer este tipo de leitura
descobre-se a real intenção do desejo escondido do sintoma,
portanto esta latência procura demonstrar uma mensagem
através desta doença. Uma doença que se apresenta como porta
voz da natureza orgânica e psíquica. Quando as necessidades
das pulsões vitais estão sendo agredidas e negligenciadas a
energia psíquica começa sua ação sintomática com a intensão
de frear o processo destrutivo do organismo e da vida da
pessoa.
Os traumas psíquicos bloqueiam e aprisionam
quantidades enormes de energia psíquica. Seu funcionamento
obedece às leis do trauma. O cérebro está condicionado a
realizar determinadas descargas de hormônios para neutralizar

71
a ação de uma atitude ou liberá-la. O trauma psíquico é uma
defesa que o inconsciente encontrou para criar suas defesas,
esta proteção tem como objetivo fugir do encontro de uma
nova vivência que proporcione o mesmo sofrimento.
Muitas vezes, o superego se utiliza da moral, assim
como da vergonha, da proibição, do incesto, do assédio, dos
abusos, para esconder a revolta, a raiva, a humilhação, a
impotência. Estas ou outras emoções estão por detrás de uma
compulsão, de uma obsessão, de uma patologia psíquica ou
mesmo psicossomática. A única evidência são os prejuízos
vivenciados por este paciente, porque quanto maior o trauma,
na mesma proporção será a sua resistência em vivenciar
determinadas emoções, isto é plenamente compreensível,
justamente porque a emoção do medo, da insegurança, da
traição, pode acontecer novamente.
O trauma é a expressão da emoção com a sua lógica
de defesa. Nem sempre as estratégias que o inconsciente
desenvolve são benéficas para a saúde emocional ou orgânica
da pessoa, quando existe este erro de interpretação sobre um
determinado acontecimento na vida, é preciso ressignificar e
modificar o seu processo de determinação psíquica. A questão
é que esta verdade é um fato vivenciado, e além do mais, foi
um sofrimento recalcado no fundo do inconsciente como uma
dor emocional.
Mas, independente das explicações e descrições deste
fenômeno repressivo das emoções, existe uma consciência que
acaba desenvolvendo-se com força e poder a cada ano que
passa. O corpo é quem paga o preço, porque quando existe um
trauma psíquico, com certeza alguma área do corpo vai ser
afetada, esta falta pode comprometer alguma necessidade
básica ou existencial, então constatamos que a neurose
desequilibra o estado de homeostase orgânica e psíquica. Esta
consciência emocional encarrega-se de possuir em torno de si

72
mesma, toda energia psíquica possível para proteger a pessoa
de um novo sofrimento.
Este estado de alerta, de atenção, de preocupação,
consome muitas horas de sono, de trabalho, de qualidade de
vida, este medo é o muro protetor contra a vivência de uma
emoção. As pessoas que foram atingidas por algum tipo de
trauma, percebem o mal estar, a tensão nervosa, o desconforto,
quando estão se aproximado de uma vivência que vem de
encontro com sua dificuldade. Toda esta reação no organismo é
provocada antes por este estado alterado de consciência. Todas
as justificativas e desculpas são elaboradas para fugir de algum
tipo de prazer que tem sempre algo a ver com o trauma
psíquico.
Então, o inconsciente recusa-se a vivenciar
determinadas emoções porque não quer reviver novamente
aquele tipo de sofrimento, por isto é preciso muita força e
coragem para entrar em contato com estas repressões que
consomem a sua energia psíquica. A lógica das emoções se
altera de acordo com as dificuldades de cada pessoa, não existe
uma regra, um manual, para tratar determinadas doenças
psicossomáticas, estes sintomas pertencem ao tecido produzido
pelas experiências e de sua repercussão na vida desta pessoa.
Portanto, existem infinitos traços e modelos de cores deste
tecido, cada qual desenvolve, a partir de seu modo de pensar e
agir, um “design” original e específico em relação à sua
doença.
A vida é cheia de supressas agradáveis e
desagradáveis, não é nenhum mar de rosas, mas também não é
o inferno, não compreendemos determinados acontecimentos
em nossa vida. Às vezes acreditamos que poderia ser diferente,
mas depois de algum tempo de amadurecimento aceitamos
nossa condição humana, e aceitamos os momentos agradáveis e
desagradáveis que a vida oferece. O psicanalista está
interessado em desvendar esta essência do ser humano, esta

73
dimensão ontológica e filogenética de uma matéria que pensa e
tem vida.
Quando utilizamos uma metodologia correta,
podemos verificar que o sintoma desaparece para sempre, nesta
situação específica se realizou a cura, mas a transformação ou a
mudança na maneira de pensar ou no estilo de vida, atendeu ao
desejo da inteligência da vida. Quando a pulsão vital sente-se
atendida no seu pedido de mudança, existe a retribuição
amorosa e generosa da cura efetiva de uma doença. A
inteligência da vida é capaz de manifestar-se através da
genética. A cor dos olhos, o tipo de mãos, o tamanho das
pernas, o aparelho digestivo, os órgãos genitais, etc. Tudo isto
foi pensado e criado para atender as exigências de um habitat
natural, porque senão se tornaria impossível a permanência
deste organismo vivo.
Mas esta mesma pulsão vital e suas estratégias
inteligentes também cuidam da vida, não existe nenhuma
dúvida de que cada órgão do organismo tem uma missão para
cumprir dentro de um planejamento físico-químico, desta
inteligência vital chamada organismo. Mas a questão do
organismo humano não corresponde somente à sobrevivência
física, através da alimentação e da obediência às pulsões
básicas da existência, existem outras necessidades que talvez
sejam muito mais difíceis de responder, trata-se da questão do
amor, do afeto, da sobrevivência, do sentido na vida.
No plano científico a emoção ainda é um mistério.
Trata-se, a nosso ver, de uma mistura fisiológica complexa de
hormônios, neurotransmissores, neurônios e informações
neurocerebrais especiais transmitidas para todos os órgãos do
nosso corpo, somado aos fatores psicológicos e emocionais que
produzem os nossos comportamentos. As emoções determinam
nossos atos, nos dão energia para agir, amar, viver, mas
também para sofrer e adoecer.

74
Muitas vezes somos obrigados a não demonstrá-las e,
sobretudo, reprimi-las, como se fosse possível esconder uma
emoção, sem aparecer no corpo. As emoções não eram
consideradas no contexto da doença. A neurose era
desconhecida pelas autoridades médicas. Porque nem sempre a
saúde é a melhor solução para o inconsciente, as doenças
surgem com um objetivo, às vezes para salvar a pessoa de uma
catástrofe maior. Determinadas doenças obrigam a mudar sua
forma de pensar, de agir e de relacionar-se, se o paciente
souber entender o significado latente através desta dor, seria
possível a sua cura.
Qual o significado da obesidade, de um ataque
cardíaco, de uma pneumonia, de um derrame cerebral? A
linguagem do inconsciente se comunica através dos símbolos
no corpo, da linguagem corporal, dos seus sonhos. Muitas
vezes se torna possível compreender esta linguagem simbólica
corporal de uma determinada doença psicossomática. Quando o
prazer é negado ao ser humano, começam a surgir toda uma
série de sintomas psicossomáticos.
Portanto, a emoção sempre cumpre um papel
importante na etiologia das doenças psicossomáticas, com o
surgimento de teorias que procuravam descrever os processos
patológicos ou normais sobre a emotividade. Para compreender
o fenômeno de uma emoção é preciso saber interpretar a
essência deste cérebro visceral. Por muito tempo o hipotálamo
foi considerado a sede das emoções, depois se descobriu que o
rinencéfalo tem uma função importante no surgimento destas
reações emocionais. O hipotálamo mesmo sendo reconhecido
como o centro da emotividade, mais precisa da participação de
conexões cerebrais ligados a outros centros nervosos para esta
atividade da energia emocional.
Os traumas emocionais são experiências subjetivas, a
influência desta vivência pode ser caracterizada de três
maneiras; a primeira está relacionada aos pequenos abalos,

75
como por exemplo: Quando uma porta é fechada de maneira
violenta. A presença de um desconhecido no nosso ambiente de
trabalho. Numa segunda compreensão seriam os traumas
emocionais com forte intensidade, que despertam emoções de
raiva, ódio, violência, ansiedade, etc. E na terceira e última
compreensão, são os traumas emocionais com forte conotação
de violência, como por exemplo, passar por uma vivência de
quase morte, internação de coma induzido, intoxicação,
esgotamento físico e mental.
Estes dois últimos estados de trauma emocional
podem desencadear comprometimentos nas funções do
organismo, podendo inclusive causar algum tipo de lesão ou
sintoma psicossomático. Quando o ser humano experimenta o
medo, a raiva, a dor, o ódio, estas emoções podem desencadear
reações fisiológicas como a vaso constrição cutânea, aumento
da pressão sanguínea, aceleração das batidas cardíacas, etc. Ou
seja, as emoções exercem uma influência sobre as glândulas
endócrinas e principalmente sobre o funcionamento do
estômago.
As glândulas supra renais produzem um hormônio
chamado adrenalina, que atua sobre os órgãos do sistema
simpático, ou seja, é este hormônio que determina a dilatação
das pupilas, a aceleração do coração, a sudorese, a constrição
dos vasos sanguíneos. Os gânglios do sistema simpático
precisam da estimulação destas fibras, com esta reação é
liberado uma quantidade de adrenalina na corrente circulatória.
Sem dúvida, as emoções podem desencadear estes distúrbios
psicossomáticos nas pessoas mais sensitivas e emotivas.
Os sintomas físicos ou emocionais podem ser vistos
através dos sobressaltos, arrepios, ranger dos dentes, gaguez.
Estes tipos de inibições emocionais podem ser vistas na
impotência motora transitória, como por exemplo;
afrouxamento das pernas, mutismo, diarréia. Na esfera
glandular existem os transtornos glandulares das secreções

76
lacrimais, sudoral, salivar, gastrintestinal, urinária, genital e
biliar. Estas disfunções e desordens dependem do estado de
excitação ou inibição determinado pelas reações reflexas do
meio ambiente.
A psicanálise profunda levanta a seguinte hipótese:
Podemos considerar as doenças psicossomáticas como uma
forma especial de neurose Esta comparação entre doença
psicossomática e neurose, deve ser entendida a partir de uma
análise das experiências de sua infância ou mesmo da vida
intra-uterina. Estas emoções estão sedimentadas em base a uma
compreensão equivocada para resolver suas angústias e
ansiedades. Por isto mesmo o sintoma de conversão é uma
atitude de proteção psicológica frente a determinadas emoções
dolorosas.
Os defensores do organicismo fisiológico confundem
este tipo de neurose com a neurose de caráter, esta confusão
conceitual às vezes justifica um mal estar entre ambos os
campos de atuação. Para explicitar de forma mais concreta o
trabalho clínico em relação às doenças psicossomáticas como
uma forma de neurose. É importante entender o fenômeno
sintomático dentro das leis que hoje tornam possível a
compreensão da estrutura neurótica. Vamos descrever as três
leis principais que demonstram a etiologia da neurose
conversiva. Primeiro que todo conflito neurótico é aprendido
na infância, às vezes com alguma vivência traumática que pode
tornar-se uma emoção crônica.
Segundo, estas neuroses somáticas iniciam seu
processo na infância e se estendem para a vida adulta, esta
mesma fixação está relacionada à regressão. E por último, a
reativação do conflito neurótico infantil depende de alguma
experiência na vida adulta, com esta explicação podemos
entender a estrutura da neurose de conversão, que se encontra
simbolizada nas fantasias e alucinações condensadas e
deslocadas para algum órgão do corpo humano.

77
Na existência do ser humano existem momentos de
desânimo e apatia, como também experiências emocionais que
podem baixar a resistência imunológica, aumentando a
probabilidade da infecção de vírus e bactérias. A tese da
psicanálise é que os conflitos psíquicos podem interferir na
fisiologia orgânica, provocando algum tipo de alteração
funcional em algum órgão especifico. Ao mesmo tempo,
quando tentamos descrever o fenômeno psicossomático à luz
da psicanálise, a simplicidade desaparece e surgem suposições,
negações, e outras hipóteses sobre a origem deste fenômeno
perturbador do organismo humano.
Entender a relação entre o psíquico e o orgânico, do
fisiológico à bioquímica, é um estudo complexo e provocador
para um psicanalista, este desafio para abarcar as constelações
presentes nesta matriz complexual, nos induz a pensar sobre as
dificuldades de ser compreendido, quando nos afastamos dos
conceitos dogmáticos da medicina comtemporânea.
O humano está presente na pessoa do psicanalista e
não está tão distante esta humanidade do paciente. Este estudo
das fenomenologias da expressão da dor e do sofrimento pode
estar em ambos os lados, pois nenhum tipo de titulação,
riqueza, poder, pode impedir a existência do fenômeno da
doença na vida do ser humano. Ainda não temos a certeza dos
motivos da medicina relegar a um segundo plano, e às vezes
menosprezar, as questões do psiquismo em relação à saúde
emocional e orgânica.
Hoje podemos vislumbrar um novo horizonte para a
saúde do homem, pois as pesquisas mostram que existe uma
relação na origem destes sintomas, entre as emoções e sua
etiologia. Podemos chamar as consequências destas alterações
de doenças psicossomáticas. Freud postulou a existência de
uma inteligência emocional e pulsional que funcionava à
revelia de nossa consciência, e que infelizmente a lógica
racional não poderia dar conta. Surgiu então uma área de

78
pesquisa da subjetividade simbólica e imagística, estas
produções inconscientes começaram a ser utilizadas para
compreender, entender, descrever e interpretar os fenômenos
sintomáticos.
A simples explicação da causa e efeito dos fenômenos
das doenças psicossomáticas não conseguiam penetrar na
essência da perturbação do sistema nervoso central. Freud
postulou também a existência de uma estrutura emocional
reprimida e recalcada que depois deu nome de neurose. Com
isto, a teoria psicanalítica das neuroses interpretava o
fenômeno do sintoma como uma linguagem metafórica e
simbólica, de alguma pulsão ou emoção, que está sendo
reprimida. Esta realidade da energia emocional acontecia
através do simbólico, para comunicar-se com o consciente
desta sintomatologia orgânica e existencial.
A consciência é a inteligência racional
compreendendo estes pactos e crenças limitantes que obstruem
as forças emocionais de sua realização. Como fica difícil
qualquer pessoa tentar controlar racionalmente este fenômeno
sintomático, porque seu conteúdo simbólico nos remete a
compreender o seu significado e mais ainda decifrar a sua
linguagem simbólica do inconsciente é a manifestação de uma
bússola que orienta a pessoa no caminho saudável.
O sintoma é o desequilíbrio em que está submetida
uma pessoa, sem a mínima consciência do que está
acontecendo consigo mesma. O fenômeno psicossomático
descreve uma intenção psíquica para fazer uma denúncia sobre
o significado oculto dos medos inconscientes. Quando Freud
realizava suas tentativas de encontrar um método para tratar os
sintomas histéricos de suas pacientes, as expressões dos
sintomas eram de origem psicossomática. Era interessante
porque estes fenômenos somáticos representavam
simbolicamente no corpo, as crises de espasmos musculares,
cegueira dos olhos, enrijecimento muscular, para fazer a

79
denúncia dos sofrimentos psíquicos provocados pela sua
repressão sexual.
O espaço que a mulher conseguiu com as mudanças
da liberação da sexualidade em relação à moral. Estes sintomas
começaram a desaparecer quando a paciente entende que o
simbólico da dor, representado no corpo, muda de acordo com
a cultura, educação e o meio social. O sintoma também sofreu
esta transformação social, econômica, histórica, política e
cultural. Mas na atualidade, os sintomas continuam existindo,
talvez com muito mais intensidade que nos tempos de Freud.
Hoje é muito comum o sintoma da depressão, os
chamados bipolares, esta fenomenologia aparece sem avisar na
vida da pessoa, apresentando atitudes inconscientes de
desânimo, apatia, pessimismo, mal estar. A psicanálise
humanista procura, além de descrever estes diversos
significados do sintoma, também curar este tipo de sofrimento
através da escuta desta dor. Dores do corpo são símbolos da
energia reprimida, que pede passagem para expressar a
emoção. Com os caminhos obstruídos das emoções da
coragem, da ousadia, de acreditar na existência, da alegria, do
amor à vida, o ser humano definha, adoece e morre.
A medicina organicista e fisiológica não conseguiu
entender a descoberta do inconsciente, mas há esperança de
que alguns médicos comecem a levar em consideração e
estudar a estrutura da neurose. Todos sabem da força que um
conceito, petrificado por uma doutrina mecanicista e
materialista exerce sobre a formulação de um diagnóstico. Esta
resistência acontece na ciência médica, porque muitas doenças
que procuram o auxílio na medicina são psicossomáticas. Para
entender a manifestação inconsciente no organismo é preciso
reconhecer a autonomia dos controles fisiológicos, o ritmo
cardíaco, a respiração, a produção hormonal, etc.
A ciência médica continua fechada no seu paradigma
organicista e fisiológico, esta suposta cegueira conceitual

80
empobrece uma escuta com mais profundidade, sobre a
linguagem não verbal dos sintomas. Não podemos esconder a
importância das emoções inconscientes para recuperar a
indissolúvel sincronia da unidade do organismo na sua
totalidade. Não temos como entender o psíquico sem o
somático e vice e versa. A clínica psicanalítica pode realizar
esta difícil tarefa de integração das forças que se encontram em
conflito.
Um dos fatores que desenvolve a dissociação entre a
mente e o coração são os padrões, regras, normas, costumes,
rituais, mitos, que levam a pessoa a um estado de alienação e
massificação e o resultado deste tipo de existência é a divisão
entre mente e corpo. Este legado de Descartes possui a
tendência de explicar a realidade dos fenômenos, sobre a ótica
da racionalidade, esta fantasia explicativa da lógica da razão
desconhece as intrínsecas ramificações ocultas dos sistemas do
nosso organismo. É desta complexidade das ligações e
interações da energia emocional que constituem a totalidade
das reações psico-neuro-endócrinas.
A vida atribulada da sociedade moderna, as
exigências do consumismo, a competição desenfreada para ser
o melhor, leva muitas pessoas a um esgotamento físico e
psíquico de suas forças anímicas. Este estado de “stress” pode
interferir nas emoções, isto significa que está ocorrendo uma
mudança no estado de humor, com esta tristeza arraigada no
organismo é bem possível que diminua a ação do sistema
imunológico do organismo.
Muitos dos pacientes que recorrem à clínica
psicanalítica começam falando de seus prognósticos
desfavoráveis à doença. Parece-me que esta constatação é
verdadeira, porque muitos aparecem como um morto vivo, este
fato de procurar por livre e espontânea vontade uma solução
para sua doença é um bom indicativo que a pessoa quer sair
desta situação.

81
Mas somente a boa vontade não basta, é preciso
conhecer todos estes processos inconscientes que oprimem e
levam esta pessoa a opção da autodestruição. Na medida em
que o ambiente analítico é tomado de coragem, ousadia,
amorosidade, ternura, começam a descortinar-se por debaixo
deste ser doente, um outro ser tomado de alegria, satisfação, e
um resgate muito especial de sua auto estima. No entanto, é
surpreendente o impacto desta nova consciência que tem o
poder de recuperar-se e a partir desta decisão de transformar o
seu estado de humor.
Às vezes não compreendemos como uma simples
infecção pode levar o paciente à morte, não se explicam os
motivos do organismo não possuir nenhuma resposta
imunológica, é um mistério, uma incógnita, mas temos certeza
de que houve algum motivo para o organismo morrer. Estas e
muitas situações são comuns nos consultórios dos prontos
atendimentos, mas a medicina encontra-se amarrada e presa a
este antigo paradigma cartesiano e mecanicista. E se ainda não
bastasse, surgem aquelas doenças auto-imunes, como o lúpus
eritematoso, esta doença faz com que o organismo volte-se
contra si mesmo, utilizando uma voracidade destrutiva no
reconhecimento de vírus e bactérias.
Como pode a inteligência organismica deixar de
utilizar as defesas imunológicas para o reconhecimento de
algum vírus que está pronto para atacar e matar? Este desejo
orgânico de se autodestruir ainda é uma incógnita aos olhos da
ciência médica, mas na psicanálise é plausível constatar que
este fenômeno obedece às leis das emoções inconscientes. Até
quando vamos permanecer perplexos diante da complexidade
desta fenomenologia sintomatológica? É preciso urgentemente
resgatar um olhar diferente sobre os diagnósticos das doenças
psicossomáticas. Na verdade, a doença não é tão simples assim,
esta complexidade de reações neuroquímicas e endócrinas
podem mudar a direção da pulsão de vida ou de morte.

82
Quando uma criança nasce traz consigo, na sua
ontogenética, as características físicas e emocionais dos seus
pais, o desenvolvimento da sua individualidade e o processo de
formação do seu caráter, os desejos, os objetivos, sofrem a
interferência filogenética e da sinergia emocional do olhar dos
pais em relação ao filho. Além disso, estamos interligados pela
ancestralidade de nossos antepassados, todo este legado das
“humanitas” engrandece a raça humana, o acúmulo de suas
experiências obedece às leis do amor a vida.
O inconsciente é este legado ancestral das humanitas
presente no íntimo de cada célula humana. Freud, dizia: “O eu
não é senhor de sua própria casa”, justamente porque sofremos
diversas influências sociais, culturais, históricas, e muitas
destas experiências não temos a mínima consciência do que
está se passando conosco. Na psicanálise humanista esta pessoa
do paciente é uma simbolização de um inconsciente cultural,
que pede passagem para tornar-se humano. Durante toda sua
vida deverá procurar o significado maior da existência, entre
tantas emoções saberá escolher a que melhor lhe convier, é
neste processo de tomada de consciência que o ser humano
torna-se um significante importante para a sua comunidade.
Esta humanidade representa o significado simbólico
da inteligência emocional, que esta pessoa consegue
representar para o outro de sua relação. O inconsciente é a
totalidade da existência presente na afetividade e naquilo que
acabamos de nos tornar, esta pessoa quando está consciente de
seus deveres e obrigações. E ao mesmo tempo precisa dar
conta dos seus prazeres pulsionais e existenciais. Quanto maior
consciência sobre os desígnios de suas metáforas simbólicas,
mais se realizará como uma pessoa satisfeita nos seus desejos,
e o maior deles é o absoluto significado de tornar-se pessoa
humana.
Na psicanálise humanista, o homem na sua totalidade
complexa, é centro de estudo e atenção. Na escuta das queixas

83
do paciente está implícito e explícito as dinâmicas
inconscientes e produções simbólicas representadas pelo seu
discurso e da linguagem não verbal e existencial. Procuramos
identificar na existência os motivos das queixas do seu
discurso, este estado de inconsciência fala muito mais do que
suas simples palavras. Estou me referindo ao discurso dos
significados profundos presentes na sua existência, estas perdas
e ganhos mostram o significado maior da sua vida.
Ao tomar consciência de que suas necessidades
afetivas, econômicas, existenciais, precisam da presença de um
outro. Pois é justamente nesta falta que encontramos o sentido
para buscarmos a evolução de nossa capacidade de amar. Esta
mesma falta é incompletude da satisfação dos nossos desejos,
portanto, este espaço permite uma série de novas
aprendizagens, eis o processo da busca do prazer na existência.
São estas necessidades afetivas, amorosas e existenciais que
levam o ser humano a uma busca constante de evolução na sua
humanidade, estes novos desafios é um convite para todo
homem começar a utilizar seus dons, talentos, capacidades,
criatividade, para a verdadeira superação das frustrações, das
traições, dos desencantos.
Esta aproximação da psicanálise e psicossomática tem
a incumbência de compreender o processo de formação do
sintoma. O corpo humano retrata, numa linguagem simbólica,
os significados das dores existenciais e emocionais deslocados
para algum tipo de sintoma. O sintoma psicossomático é a
somatização dos desejos e das crenças inconscientes projetados
na convivência com o outro que acaba sendo transferido para
alguma dor aguda ou crônica. A somatização traduz no
organismo, as dores que está sentindo no âmbito do amor, do
afeto, da profissão, da família, estas frustrações levam esta
pessoa a um total desencanto, ao desespero, à tristeza. Porque o
desejo mais forte na experiência humana não é o sexo e sim o

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respeito, a dignidade, o amor, o afeto, a compreensão, esta
vivência é o remédio que cura a dor.
A somatização crônica tem suas origens no acúmulo
de sofrimentos, nas decepções, nas traições, e no inferno da
convivência na indiferença, no ambiente de competição, de
deslealdade, de manipulação, dos medos, das culpas, das
obrigações, das pressões. Este estado de alienação é fruto da
falta de consciência, imbuída dos seus desejos mais secretos e
profundos que é o desejo de amar e ser amado. Sem saber o
que fazer com os resultados catastróficos de sua existência,
procura compulsivamente a solução dos seus desejos de
intimidade, de amizade nas obsessões e compulsões,
infelizmente a sua neurose de inferioridade destroem estas suas
realizações emocionais.
Os olhos, as mãos, os pés, a coluna vertebral, os rins,
o fígado, o estômago, o coração, acabam de maneira indireta
assimilando durante dias, meses, anos e alguns casos toda uma
existência cheia de amargura, a tristeza, o desamor, a raiva, o
ódio, a vingança, a depressão. O corpo reflete e explica através
de seus órgãos o nível de decepção e desencanto com a sua
maneira de viver, da sua família, do seu trabalho e consigo
mesmo. Um corpo destituído da sua capacidade de amar tem
suas carências e seus desejos reprimidos e deslocados para
compensar no mundo dos estudos ou do trabalho. A carência
de amor de um corpo enfraquecido pela tristeza de encontrar-se
longe de si mesmo e de todos. No seu silêncio o organismo
possui uma linguagem sintomática, porque a sua natureza
precisa também suprir as suas necessidades.
A existência coloca na vida de cada pessoa seus
dilemas e provocações, na falta de consciência sobre o que está
acontecendo consigo mesmo, projetam na sociedade e nas
pessoas do seu convívio, as suas falsas deduções e
interpretações. O sintoma psicossomático precisa, antes de
tornar-se uma realidade, de um ser inserido no mundo das

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relações, são estes desejos pulsionais que despertam no íntimo
de cada um as emoções. Nestes ambientes existe também a
vivência de alguma interpretação equivocada sobre um
raciocínio falso. Mesmo assim, esta dedução lógica provoca
uma emoção, que pode ser culpa, medo, tristeza. Esta emoção é
substituta de uma realidade distorcida, ou seja, a vivência do
medo, da tristeza, da decepção, acena como uma defesa para
estancar, bloquear e impedir o desenvolvimento do ser humano
numa área vital como a afetividade, a maternidade, o
matrimônio, etc.
Esta sintomatologia é acompanhada de uma falsa
interpretação sobre algum acontecimento presenciado e
interpretado na vida intra-uterina, na infância, na adolescência,
na juventude ou mesmo na vida adulta. Esta imagem possui sua
verdade na trama do conflito dos interlocutores, esta energia
emocional está memorizada e presente nos recônditos do
inconsciente. Bom, o que o sintoma tem a ver com isto? O
sintoma é uma experiência emocional de tristeza, medo, raiva,
ódio, que acompanha a vida da pessoa como se fosse uma
verdade sobre um determinado acontecimento, esta mesma
emoção de medo pode ser deslocada sobre o forte impacto
emocional deslocando-se para os ataques de epilepsia ou de
vômitos. O primeiro sintoma tem a ver com uma maneira de
apagar, desligar-se da realidade de muita dor e de forte tensão,
a segunda como um meio de vomitar a sua raiva e seus medos.
Qual é a repercussão desta sintomatologia somática
na vida desta pessoa? Primeiro a vivência de uma emoção do
medo ou da tristeza retrata uma verdade, segundo o psiquismo
vai desenvolver estratégias de defesa para deslocar, negar,
isolar, projetar, reprimir, algum tipo de emoção que retrata o
trauma. Antes mesmo de viver no organismo a expressão
somática, o psiquismo teve de elaborar um método de
convivência na solução de situações de stress, de desafios,
talvez esta tenha sido uma saída para a sua realidade infantil,

86
porém, estes sintomas psicossomáticos podem prejudicar nos
dois sentidos a condição afetiva e orgânica.
Este distúrbio do psiquismo humano tem suas raízes
com algum tipo de emoção reprimida ou recalcada, os sintomas
histéricos podem ser elaborados e interpretados na relação
analítica. Todo sintoma somático é uma fenomenologia
simbólica que representa alguma vivência emocional, este
conteúdo possui um significado latente de uma energia
simbolizada na linguagem do sintoma. O retrato do sofrimento
psíquico ou orgânico é a maneira de comunicar à consciência
que este foi o único modo encontrado pelo inconsciente para
resolver momentaneamente e com os recursos que tinha
naquele momento. Portanto, isto não significa que tenha um
valor para toda sua vida, ao contrário, todas estas neuroses de
conversão sintomática deixam de ser úteis e passam a
prejudicar a saúde emocional e orgânica da pessoa na vida
adulta.
A emoção é convertida num sintoma porque a pessoa
não encontrou outra forma de solucionar o seu problema
afetivo ou existencial, o deslocamento e a condensação das
imagens e idéias estruturam o sintoma. O sintoma
psicossomático nasce de uma experiência subjetiva, ou seja, na
latência escondida da doença encontram-se histórias de
personagens, ambientes, disputas, temas, que são representados
na sua simbologia por imagens de sofrimento e dor.
É muito freqüente os temas relacionados às perdas,
estas lembranças do passado retratam uma realidade de tristeza,
quando a queixa acentua a intensidade das dores localizadas
em algum tipo de lesão orgânica. Então, o sintoma tem uma
história cronológica, esta dor crônica simboliza as dores da
existência que acabou condensada em forma de doença.
O órgão escolhido para expressar a dor possui uma
relação muito particular com o sintoma psicossomático.
Quando a dor emocional é muito forte e quase insuportável, é

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muito comum deslocar esta energia emocional ou pulsional
para algum órgão. Um outro enfoque é descobrir através da
árvore genealógica alguma relação das doenças ou sintomas
dos seus antepassados com a sua dor atual. Os sintomas
psicossomáticos estão representados pelas vivências
traumáticas que se tornou a expressão de um tipo de patologia.
A história familiar desta pessoa possui a condição de explicar
seus antecedentes relacionados às doenças e sintomas
patológicos da sua realidade atual.
A linguagem do sintoma possui sua criatividade para
comunicar a sua subjetividade sem a consciência da pessoa,
estas maneiras de interpretar a realidade são mescladas por
crenças, mitos, fantasias, costumes. O sintoma na sua história
de dor representa uma realidade cultural e social, por isto
mesmo a queixa ou o discurso não representam seu real
significado. Existe um outro desejo latente que precisa ser
compreendido, esta demanda afetiva, de valorização, de
reconhecimento, de amor, de afeto, de alguém muito íntimo
que pode atender a esta solicitação do sintoma. Toda pessoa se
esforça e coloca sua potencialidade para ser admirada e
valorizada na sua condição de ser humano, porque é através
deste tipo de investimento que se caracteriza um momento
único e mágico de receber o amor tão pretendido.
O sintoma, na sua linguagem imagística e simbólica,
traz à consciência uma dor que precisa ser esclarecida ou
entendida, esta mediação entre o sintoma e a cultura representa
as repressões e as dificuldades que a pessoa está enfrentando na
sua existência. O inconsciente é a expressão do desejo latente,
manifesto no sintoma psicossomático, sua linguagem está
muito além do seu discurso ou da sua queixa, esta dor possui o
significado dos conflitos inconscientes vivenciados na
existência sem a sua consciência.
Os atos sintomáticos repetitivos é um pedido de
esclarecimento para uma maneira de pensar equivocada, quase

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sempre esconde a vaidade, o orgulho, a teimosia, a falsidade, a
superficialidade, situações existenciais que manifestam no
organismo o resultado de uma maneira equivocada de viver. O
conflito emocional retrata o drama de uma experiência
dolorosa, a expressão do corpo é a manifestação da inibição de
uma potencialidade reprimida pela experiência vivida.
O medo do abandono, de ser rejeitado, a falta de
confiança em si mesmo, foi adquirido na infância, esta falta de
confirmação do amor dos pais ou de alguém em particular pode
desencadear uma emoção de desamparo, diante das suas
carências de amor e afeto. A sobrevivência emocional perde-se
na confusão do seu medo de estar sendo abandonado. Este
estado emocional de insegurança não proporciona as condições
básicas para poder sobreviver psiquicamente. A criança precisa
dos pais ou cuidadores para preencher esta condição de
desamparo, de abandono, é preciso de um ambiente que ofereça
as condições do alimento do amor, da confiança, do afago, da
ternura, da alteridade, do calor humano, condições
indispensáveis para o desenvolvimento de sua humanidade.
O amor é esta condição de alteridade, de ternura, de
afeto, da verdade, de carinho, de compreensão, do
ensinamento, da confiança, esta vivência é imprescindível para
despertar no íntimo da criança este desejo de viver. O amor à
vida, o sentido da existência, está estampado no olhar, no
corpo, na linguagem verbal e não verbal de uma criança que é
desejada e amada.
Na falta deste amor inicia-se o processo da
estruturação das neuroses, não sabendo como preencher suas
faltas das carências de afeto, de confiança, de diálogo, de
atenção procura outros meios para solicitar o preenchimento
deste vazio existencial. Quando a experiência é de frustração e
perversão, acontece o inevitável, o sintoma psicopatológico
que vem como uma resposta à realidade do seu ambiente.

89
A criança entende que existe uma expectativa dos
pais em relação a sua pessoa, mas o contrário também é
verdadeiro, existem desejos emocionais e existenciais que são
comunicados em forma de uma linguagem pictórica ou
metafórica, para informar ao adulto o seu estado de satisfação
ou insatisfação. A interpretação simbólica desta realidade
cultural é realizada mediante a compreensão dos significados
latentes, presentes na subjetividade e projetados nos sonhos,
fantasias e nas neuroses de caráter ou de conversão.
A subjetividade da criança é descoberta através das
simbologias e imagens, que são descritas na sua linguagem
existencial. O reconhecimento do verdadeiro estado emocional
desta criança acontece mediante a apreciação deste contexto
sócio cultural, estas intenções de desejos latentes esclarecem o
significado verdadeiro do sintoma psicossomático. Toda forma
de idealização ou expectativa distorce o real significado de sua
intenção psíquica.
Muitos dos sintomas estão sendo comunicados numa
linguagem de dor e sofrimento, isto porque a criança não
consegue viver sua autonomia, sua identidade, na verdade
acaba assumindo o desejo dos pais. Os pais acreditam que seus
filhos podem realizar os seus desejos que não foram realizados
na sua infância, esta situação da criança querer realizar o desejo
dos pais é uma ofensa à sua autonomia, desejos e identidade
pessoal.
Quando existe esta anulação dos seus desejos, a
linguagem sintomática é uma insatisfação das dores,
representadas pela incapacidade de viver a sua vida para
realizar as dos pais. Esta é uma ofensa à vocação da vida,
agride e comete violência contra os seus desejos pessoais, é
uma espécie de alienação, de massificação, de negação, dos
compromissos que deixa de assumir consigo mesma. O
sintoma mediatiza este estado de conformismo, de alienação,

90
sobre a irresponsabilidade de cuidar de si mesmo, prefere viver
o desejo dos outros a lutar pelas suas próprias realizações.
Toda alienação é acompanhada de um estado de
inconsciência, esta denúncia é realizada através dos sintomas
psicossomáticos. O critério é sempre o resgate da autonomia,
do processo de individuação, da realização de seus desejos
existenciais e afetivos, quando estas necessidades são
atendidas, a tendência é o sintoma desaparecer por completo.
Esta interpretação precisa de uma mente aberta para tirar
vantagem deste estado de alienação, caso contrário, a rigidez e
a ignorância emocional estão sendo usadas para proteger e
sedimentar de uma vez por todas o sintoma.
As fobias, as obsessões, as compulsões, os delírios, as
paranóias, as psicoses, em alguns casos podem ser um modo de
paralisar o seu potencial do prazer de viver, esta anestesia
existencial também pode estar relacionada a um ganho
secundário de permanecer ligados às pessoas que ama. Como
tem um complexo de inferioridade e uma auto estima muito
baixa prefere garantir pelo menos este tipo de afeto doentio. Na
sua fantasia, o sintoma garante o cuidado e a proteção das
pessoas do seu convívio.
A interpretação dos sintomas precisa desta
compreensão cultural e social, na verdade quanto mais
alienação e massificação, na mesma proporção a existência de
sintomas de todo os tipos. É preciso um olhar sistêmico para
saber interpretar os fenômenos e suas linguagens metafóricas.
O sintoma é um caminho que o paciente descobriu para
comunicar os bloqueios que existem nos conflitos, segredos,
pactos, compromissos, reprimidos no seu inconsciente. A
energia emocional é a fonte inesgotável de energia, por onde
escorre todas as potencialidades de torná-lo verdadeiramente
um ser humano saudável organicamente e existencialmente.
Qualquer sintoma psíquico ou somático sofre a
interferência da cultura, as respostas dos pacientes às bactérias,

91
ou agentes infecciosos são variáveis. Sempre está
acompanhada de uma cultura subjetiva pessoal, esta linguagem
das dores, dos fracassos, das desilusões, das traições, dos
enganos, podem desencadear um processo depressivo ou
psicossomático. Dependendo do estado emocional e do tipo de
ambiente que o paciente está experimentando, pode
desencadear a diminuição das respostas do sistema
imunológico.
Por exemplo, se uma pessoa encontra-se com uma
tuberculose, a recuperação deste tipo de doença esta
relacionado ao seu estado de humor, porque a eficiência do
sistema imunológico depende muito do prazer que a pessoa
encontra em viver. Quando um paciente toma uma medicação
para uma determinada doença, a sua recuperação depende do
seu estado de humor, este nível de satisfação, de realização, de
alegria, ajuda no combate contra qualquer tipo de vírus.
Existe uma relação muito estreita entre a doença e
estados depressivos. Esta comunicação entre o estado de humor
e o sistema imunológico ainda merece muitas pesquisas, mas
assim mesmo precisamos compreender o paciente na sua
totalidade, na expressão da sua linguagem cultural e
existencial, para poder descrever e interpretar os significados
latentes dos seus sintomas. Esta subjetividade possui uma
estrutura inconsciente para comunicar no somático, uma
realidade dissociada da sua condição pulsional e emocional.
Realmente, é muito difícil apreender a realidade
psíquica e somática na sua totalidade, devemos ter o cuidado
de não distorcer ou descrever de forma equivocada o sentido
figurado da linguagem não verbal do sintoma no corpo. O
inconsciente cultural apresenta uma série de hipóteses que
podem ser formuladas para descrever um sintoma
psicossomático, ao mesmo tempo temos de saber conviver com
esta atemporalidade e os infinitos modos de comunicação da
energia emocional.

92
A subjetividade do analista traz consigo uma história
pessoal, esta emoção pode ser um sintoma pessoal deslocada
para descobrir-se através da doença do paciente. O inconsciente
cultural possui uma estrutura de crenças, limitações, costumes,
moralidade, que pode alterar a compreensão do sintoma do
paciente. Todo cuidado é pouco, para não incorrer no erro de
projetar na contratransferência, realidades pessoais
inconscientes na situação sintomática do paciente.
Todo adulto carrega dentro de si mesmo uma criança
emocional, estas carências quando não são bem elaboradas, são
projetadas nas suas relações, esta atitude inconsciente é uma
defesa pelo simples desconhecimento das suas atuações. As
defesas dos sintomas conversivos7 podem ser consideradas
como uma saída de sua falência emocional. Os estados de
onipotência e onisciência é um narcisismo que esconde o medo
de ser descriminado, esta falsa solução na vida prejudica e
muito o estabelecimento de relações duradouras e profundas.
O que determina a condição do sintoma é o encontro
da sua condição cultural e seu estado de inconsciência, porque
estas duas categorias não conseguem dar conta da realização
dos seus desejos existenciais. Na falta da segurança emocional
desencadeia-se uma série de sintomas provenientes desta
condição de inferioridade. Para uma criança não interessa a
7
Um sinal indica a presença de algum processo ou fenômeno; exige-se uma
diferenciação entre sintoma e símbolo. Em medicina, sinal é um fenômeno
observado pelo médico examinador, que lhe indica a presença de algum
processo patológico, e que permite afirmar que o paciente tem ou não tem
os sinais de tal doença. O sintoma é um fenômeno que causa aflição ao
paciente e do qual este pede para ser aliviado. O sinal pode ou não ser
perceptível ao paciente, e, se perceptível pode ou não causar aflição. O
sintoma pode ou não ser um sinal. Na histeria de conversão, o paciente se
queixa de sintomas físicos, mas o médico não consegue descobrir quaisquer
sinais de doença de fundo orgânico. Um sinal patognomônico indica por si
próprio, a presença de uma doença específica. Rycroft, Charles. Dicionário
Crítico de psicanálise. Ed. Imago. Rio de Janeiro. 1981. Pág. 127.

93
questão valorizativa, pois em sua condição não tem condições
de fazer qualquer tipo de julgamento ou apreciação sobre as
atitudes do mundo adulto, resta somente o processo de
identificação, pois seus pais são seus objetos de amor. Mas
antes disso tudo, este adulto precisa aceitar e amar com o
coração esta criança, porque indiretamente os pais são o
interprete da realidade existencial e afetiva, ou seja, tudo aquilo
que os pais dizem e fazem, possui um determinado valor na sua
vida.
A constituição do caráter desta criança depende de
quanto o adulto pode oferecer para a sua constituição psíquica.
Estes pais ajudarão a criança a aprender interpretar a realidade,
e deste vínculo surge então a sua capacidade de amar ou de
odiar, esta sua primeira vivência afetiva pode ser quase que
decisiva na formação humana e social. Esta aprendizagem de
saber suportar as frustrações da realidade depende das
condições que o ambiente familiar irá proporcionar para o seu
processo de autonomia e criatividade, indispensáveis para
resolver os seus dilemas na existência. O corpo é uma realidade
orgânica e emocional que sofre o impacto destas forças sociais
e culturais, estas cicatrizes estão muito bem simbolizadas pela
representação dos sintomas psicossomáticos.
Começamos a interpretar os sintomas como um
processo de dissociação da realidade existencial em relação à
suas necessidades biológicas e psicológicas, o que pretendemos
é saber como esta unidade antro-bio-psico-social é fragmentada
por idéias que contradizem e ofendem a natureza humana. Esta
separação da mente e corpo tem sua origem no racionalismo de
Descartes, portanto, a razão é possuidora da capacidade de
racionalizar as emoções e sentimentos, ao separar-se desta
unidade, consegue desorganizar o funcionamento fisiológico
do organismo. Este princípio de interdependência da
funcionalidade do organismo obedece aos estímulos do sistema
nervoso central e do autônomo.

94
A interpretação da realidade da criança depende dos
seus vínculos, pois esta segurança emocional possibilita uma
interação frutífera com a realidade pessoal e com as pessoas do
seu meio social. Devemos realçar a importância sobre os meios
de intervenção que os pais utilizam para chamar atenção às
tentativas de erro e acerto. Aos poucos a criança vai adquirindo
uma noção da realidade familiar, da escola, da sociedade,
quando existem dificuldades de interação e solução de
situações conflitantes, geralmente inicia-se o processo de
dissociação, ou seja, a experiência da angústia, ansiedade, pode
desencadear no corpo o início dos sintomas psíquicos ou
somáticos.
Este estado de alienação da criança diante da
realidade são os seus medos, sua incerteza, numa família ou
sociedade que não oferece as mínimas condições de segurança
econômica e psicológica para o seu desenvolvimento de
caráter. Esta fuga da realidade pode apresentar-se em forma de
sintoma, este estado emocional é deslocado para acentuar
determinadas dificuldades na aprendizagem ou na área da
saúde orgânica. Isto mostra a sua dificuldade de avançar, de
crescer, de ser feliz e ter alegria. A realidade social e cultural
mostra o contrário, instabilidade e insegurança na relação com
os pais e educadores. A realidade cultural, social e familiar e
seus conflitos aparecem no corpo da pessoa transformados em
sintoma.
Outra dificuldade é na ordem psíquica quando se
inicia o processo de fantasia para distorcer e negar algumas
experiências dolorosas. Desta maneira podemos compreender
que a existência de conflitos emocionais pode levar uma pessoa
a um comprometimento orgânico, esta alteração no
funcionamento fisiológico mostra a força que possui quando
uma emoção ou pulsão encontra-se impedida de manifestar-se.
Temos que entender que nem sempre os sintomas orgânicos
têm sua origem na dimensão psíquica, porque esta

95
manifestação orgânica pode esconder outros tipos de conflitos
de origem cultural, existencial ou social.
Gostaria de explicitar o processo de formação de um
sintoma psicossomático; por exemplo, na histeria não existe
nenhum tipo de comprometimento orgânico com uma lesão
específica de um órgão. O que acontece é que embora
saudáveis organicamente estejam paralisados ou impedidos de
funcionar, esta inibição8 da expressão, possui diversas
naturezas de sintomas que acabam sendo deslocadas para as
paralisias, crises de espasmos musculares.
Na teoria psicanalítica as repressões acabam sendo a
causa da inibição. Este conteúdo reprimido aparece no corpo
em forma de sintoma, esta mesma inibição tem a função de
fazer uma comunicação sobre algum tipo de emoção ou pulsão
que se encontra obstruída e impedida de exercer sua
potencialidade, em alguns casos esta dor pode tornar-se crônica
acompanhada de um ganho secundário. Na teoria da
psicanálise humanista, este impedimento ou inibição de algum
tipo de energia psíquica é sempre uma repressão que está sendo
deslocada para algum órgão específico do organismo.

8
A inibição é um processo ou uma função que se encontra em estado de
paralisia, pois seu funcionamento é mantido de forma inativa de algum
processo ou função. Em neurologia, diz-se que uma reação reflexa inibe
outra, se seu funcionamento evita a possibilidade de a outra ocorrer.
Também se pode dizer que o medo inibe o apetite, o desejo, etc. A essência
da emoção é manter refreado. Em psicanálise, o termo via de regra, é
empregado para designar casos em que o estado de inibição pode ser
encontrado como um sintoma; a instância inibidora é normalmente o ego ou
o superego, e o processo inibido é uma pulsão ou um derivado sublimado.
Em certos contextos, a inibição é contrastada como sintoma, aquela se
referindo a uma perda de função, e este a distúrbio de função. A inibição e a
repressão diferem porque a primeira implica que algo é desligado e
desviado; a segunda, que algo está sendo contido e mantido oculto. Para
estudar com mais profundidade sugiro a leitura das Obras completas de
Freud (1926) o seu artigo: Sintomas, Inibições e Ansiedade. Ibidem. Op.
Cit. Pág. 127

96
Como não consegue alcançar um estado de prazer
existencial e afetivo na existência, é facilmente identificável
através dos sintomas, como por exemplo, desânimo, aversão,
pessimismo, sem motivação, este estado emocional tem como
finalidade mostrar que as suas realizações não acontecem por
causa destas emoções. Este deslocamento demonstra o medo de
lançar-se em alguns projetos de vida que possam denunciar o
seu narcisismo. Procura chamar a atenção para seu estado de
melancolia e depressão, desta emoção de tristeza inicia o
processo de somatização porque se sente ameaçado pelos
desafios da existência.
O objetivo da análise é levar este paciente a tomar
consciência deste potencial reprimido que agora inibe a força
do amor, da coragem, do afeto, esta energia emocional acaba
sendo deslocada para algum tipo de sintoma. Este bloqueio
impede a sua liberação, o paciente sofre com o investimento
dos seus pensamentos em torno da doença, como se encontra
num estado de alienação, o sintoma mostra a sua impotência
para dar conta desta área importante de sua vida.
Levar o paciente a interpretar através das suas
resistências os conteúdos simbólicos presentes no sintoma, esta
nova consciência sobre as motivações inconscientes pode
liberar estas energias que encontravam-se reprimidas. O corpo
é a manifestação das seqüelas conflitivas oriundas das
dificuldades do excesso do trabalho, este “stress” pode exercer
um sintoma de inibição. Na sua impotência, inicia-se um
processo de sofrimento e dor.
O sintoma, às vezes é esquecido, pois,
inconscientemente desloca para outras áreas do corpo aquele
conteúdo latente, a função do analista é trazer à consciência do
paciente para poder liberar aquela função no organismo. Os
conteúdos são trazidos à consciência, através das simbolgias e
imagens oníricas, para equilibrar a desorganização interna, ao
realizar este processo de integração dos recalques e repressões

97
que estavam ameaçando na fantasia e na vida do paciente. Cada
defesa pode ser confrontada, esclarecida e interpretada, todos
aqueles fatos, acontecimentos, têm uma nova reinterpretação,
deixando de ser uma ameaça para tornar-se uma fonte
inesgotável de potencialidade e vida.
O paciente psicossomático pode ser resumido da
seguinte maneira: utiliza-se da repressão para esconder as suas
dores emocionais, porque na sua fantasia esta vivência pode
destruí-lo ou levá-lo de encontro ao sofrimento, este conflito
emocional pode desencadear um ganho secundário, aprende a
fugir do encontro dos prazeres da existência para esconder-se
atrás de um sintoma psicossomático. A denúncia simbólica do
sintoma é mostrar justamente a sua carência. Em alguns casos
estes pactos inconscientes estão reprimidos em forma de
segredo, esta dor emocional é compartilhada por alguém que
tenha estima e afeto.
O sintoma existencial é vivido quase sempre num
grau extremo de abandono, este processo de somatização tem
suas origens nas experiências muito precoces das crianças.
Estes segredos possuem uma dor emocional porque foram
traumas que tiveram que ser guardados a sete chaves. Sempre
existe a idéia de que escondendo o “segredo”, o trauma ficará
para sempre desconhecido dos outros. O esquecimento tem
uma conotação simbólica porque seria o mesmo que esta
vivência deixasse de existir, ao não falar de sua emoção,
consegue manter em sigilo absoluto o seu segredo, este estado
de estagnação, ou paralisação emocional pode ser conhecido na
interpretação simbólica dos sonhos e suas fantasias.
Na sua fantasia, o fato de esconder das outras pessoas
do seu convívio, estará escondendo de si mesmo, quando a
pessoa consegue verbalizar o seu conteúdo, existe a condição
de liberar esta energia aprisionada. A elaboração do trauma é
comunicada através do sintoma, por detrás desta inibição ou
dor emocional encontra-se o conflito emocional. Muitos

98
pacientes são indiferentes em relação ao seu sintoma, este
esquecimento permite-lhe acreditar que está triunfando sobre a
sua inibição. Este tipo de fantasia impede a elaboração desta
dor emocional, todas as defesas têm como objetivo proteger e
fugir do encontro com esta fonte de repressão.
A questão na análise é saber interpretar e elaborar o
conflito emocional. São várias as linguagens presentes, uma
delas é a não verbal, aquilo que o corpo comunica, a outra são
os atos falhos, os lapsos, presentes no discurso e por último a
interpretação dos símbolos e imagens, trazidos nos sonhos e
fantasias. Na psicanálise, o sintoma neurótico é um
desequilíbrio de seus potenciais inatos ou das suas emoções
vitais que pode levá-lo a um estado de angústia ou de
ansiedade.
O neurótico sabe que seus medos não têm uma lógica
plausível, mas sente-se impotente para lidar com estes estados
de obsessão e compulsão. O psicótico desenvolve uma série de
delírios persecutórios, porque possui a dificuldade de
simbolizar os conteúdos recebidos de sua experiência vivida,
são estes medos intensos que estruturam as alucinações ou
delírios, sem consciência deste processo de inconsciência, não
sabe os motivos de tanto sofrimento psíquico em sua vida.
Existe de fato uma dificuldade de interagir e assumir na
totalidade o seu potencial criativo, estas obsessões podem estar
denunciando um tipo de sintoma.
Muitos pacientes passam a conviver com o sintoma,
ou seja, o sintoma faz parte de sua vida, existe uma estranha
harmonia, reconhecimento, intimidade, ao qual se sente
profundamente ligado e identificado. Quando o paciente está
apaixonado por alguém, mas ao mesmo tempo percebe as
contradições deste amor, inicia-se o processo de sofrimento
sobre a perda deste amor no futuro. Em alguns casos o
hipocondríaco se complementa entre a queixa e a proteção do
seu sintoma, esta mútua dependência preenche todos os seus

99
vazios existenciais, na verdade se complementam entre si, não
precisam de mais nada na vida somente dos sintomas.
Entre os mecanismos de defesa mais utilizados pelos
pacientes em relação aos seus sintomas encontra-se a projeção,
este mecanismo consiste em culpar alguém por uma situação
problemática. Outra defesa chamada racionalização tem como
objetivo utilizar de argumentos e justificativas racionais para
despistar a verdadeira problemática, como por exemplo; “a
minha esposa está sempre desconfiada de mim, mas isto na
verdade não me afeta”. A repressão procura esconder e
guardar no inconsciente as emoções desagradáveis. A negação
é fugir do problema, é a maneira mais sutil de não resolver as
dificuldades que a vida coloca, na verdade podemos fazer uma
comparação com a avestruz que diante de uma situação difícil,
simplesmente esconde a sua cabeça sob suas asas para não
enxergar a dificuldade.
Existe uma outra defesa muito específica que é a
identificação com o agressor, quando o processo é invertido;
por exemplo, o ódio, torna-se uma espécie de amor. Já as
formações reativas, são estratégias que o sujeito utiliza para
dissimular e criar uma resposta totalmente ao contrário da
situação apresentada. Estes mecanismos de defesa são
importantes porque podem explicar a origem da doença. Por
exemplo, a identificação com o agressor pode estar
representada pela sua doença, ou seja, a pessoa assume um
estado doentio como se fosse a doença, este seu pensamento
fantasioso é uma alternativa para neutralizar a doença, quando
na verdade está sendo totalmente dominado pela neurose
conversiva.
Nas formações reativas, quando existe uma doença
psicossomática surge uma reação emocional para não entrar em
contato com estas emoções, geralmente a pessoa tenta escondê-
lo de si mesmo e dos outros. Existem pacientes que negam a
existência de uma determinada doença, com esta decisão o

100
paciente aumenta a probabilidade de adoecer cada vez mais,
diante desta situação se pode cogitar um desejo inconsciente de
autosuicídio, justamente por medo de enfrentar-se com o
problema da dor física e emocional.
Em outros casos, alguns pacientes a negação do
sintoma pode ser útil, quando não tem a condição psíquica para
enfrentar-se diante de uma doença maligna, mas
inconscientemente busca as forças necessárias para manter-se
vivo. O problema é quando esta ansiedade e defesas são
utilizadas de maneira abusiva e inadequada. Sem dúvida, a
manutenção destas defesas por um tempo prolongado, pode
desencadear algum tipo de doença psicossomática.
Por exemplo, os pacientes enfartados possuem uma
sobrecarga de tarefas e obrigações obsessivas e compulsivas,
quando estas defesas aparecem começa a aparecer a dificuldade
da pessoa de enxergar sua real situação, por isto mesmo, é
natural que iniciem os sentimentos de depressão e desânimo,
que indiretamente estão denunciando a eclosão do acidente
cardíaco. Freud começou a estudar os sintomas
psicossomáticos nas pacientes com histeria, cujos sintomas
eram a paralisia, afasia, ou seja, este fenômeno psíquico foi
chamado de sintoma conversivo, isto significa a
transformação da energia mental reprimida em sintoma físico
ou orgânico.
Na teoria psicanalítica o sintoma representa,
simbolicamente, a sua dor emocional. Neste processo
inconsciente existe a repressão de alguma emoção; muitos
destes sintomas representam a proibição e o castigo, uma
forma indireta de resolver o problema da culpa. Quando um
paciente começa a lesionar um órgão específico, esta mesma
lesão pode estar sendo representada por um processo de
violência. Esta doença psicossomática pode ter vários fatores
presentes na etiologia deste sintoma. Quando o organismo
começa a se debilitar, e suas respostas imunológicas não

101
conseguem impedir a progressão de uma doença, podemos
verificar que a constituição deste quadro doentio é fruto de suas
resistências para caminhar em direção à saúde.
Freud comentava que existiam três tipos de
fenômenos que aconteciam na origem do sintoma. O primeiro
seriam os congênitos e hereditários, o segundo pelas
experiências e vivências na infância, o terceiro seriam os
problemas enfrentados no seu entorno social. Um dos
discípulos que mais estudou os sintomas psicossomáticos foi
Sandor Ferenczi, seus estudos direcionavam-se para
compreender a criação dos sintomas neuróticos, ou seja, a
repressão da pulsão ou da emoção poderia ser a origem das
patologias neuróticas. Acreditava que o órgão afetado pelo
sintoma possui uma linguagem muito particular para ser
comunicada ao sujeito envolvido neste quadro de doença.
Qualquer órgão do corpo humano pode estar carregado de
algum tipo de energia emocional, principalmente quando se
trata de um trauma ou bloqueio emocional.
Ferenczi não se limitou ao estudo das emoções
reprimidas das histéricas, queria conhecer como aconteciam
estas alterações no funcionamento dos intestinos, estas
conversões de uma energia emocional deslocada para algum
órgão do corpo humano, que era chamado de organo-
neuroses. Franz Alexander ajudou muito a elaborar a teoria
psicanalítica das doenças psicossomáticas, dedicou-se a
compreender o fenômeno da hipertensão, úlceras gástricas,
distúrbios funcionais do estômago.
Na sua teoria dividiu em duas classes: O primeiro era
chamado de estado conversivo, porque tinha a participação do
sistema nervoso central e representava através deste sintoma
uma simbologia específica. Nas neuroses vegetativas que é a
mesma coisa que as organo-neuroses de Sandor ferenczi, que
possuem uma reação psicofisiológicas ligadas ao sistema

102
nervoso autônomo, ou seja, possuem a capacidade de alterar os
músculos lisos, vãos e glândulas.
As doenças psicossomáticas começaram a ser estudas
na psicanálise a partir das afecções do aparelho digestivo, asma
brônquica, enxaqueca, hipertensão arterial e outras formas de
alergia. É bom realçar que as neuroses vegetativas não
possuem uma significação simbólica, seria a resposta
fisiológica acompanhada de um estado emocional crônico
(stress), portanto o sujeito encontra-se num total estado de
inconsciência sobre estes processos inconscientes de sua
doença psicossomática. Este estado de cronicidade é a base da
doença orgânica, mas cada uma possui um estágio de evolução.
Na verdade, podemos constatar na clínica
psicanalítica que este processo de somatização apresenta-se de
maneira simultânea, hoje todos sabem que qualquer sintoma
traz na sua essência uma intensão simbólica. A existência dos
símbolos é tão antiga quanto à existência do homem, por isto
mesmo na falta da palavra surge à simbolização, deslocadas
para as alterações fisiológicas ou mesmo patológicas.
Podemos verificar a substituição do sintoma pela repressão de
uma emoção, por exemplo, quando uma crise de hipertensão
pode ser deslocada simbolicamente pela explosão da raiva, ou
seja, este estado de ódio-tensão busca a contensão da pressão
que estão sendo representados no psiquismo.
Existem outras patologias psíquicas funcionais
representadas pela tensão nervosa no estômago, este sintoma
expressa sua linguagem simbólica na diarréia, como um desejo
de expulsar alguma situação indesejável. Franz Alexander
interpretava estas perturbações digestivas no conflito
emocional entre o desejo de receber (reter) e de dar algo em
troca (expelir). Esta sua apreciação na interpretação destes
sintomas baseia-se no processo de dependência humana,
portanto, este desejo de superação e autonomia em
contraposição à imaturidade, esta realidade subjetiva é

103
vivenciada na vida adulta. Esta busca de maturidade pode levar
o sujeito a buscar uma compensação, obsessão ou mesmo
compulsão, esta solução existencial pode custar a somatização
de uma úlcera gástrica.
Este evento do sistema nervoso autônomo simpático e
sua posterior somatização tem sua origem nas frustrações,
desencantos, decepções, e outras vivências encarnadas pelo
sistema parassimpático, que busca inconscientemente o desejo
de reparação dos efeitos destrutivos do sistema simpático. Esta
luta pela sobrevivência psíquica e orgânica é a pulsão da vida
em ação. O sistema nervoso central, em conjunto com o
sistema parassimpático, pode desencadear as alterações
fisiológicas na configuração de doenças, tais como, úlcera
péptica, asma brônquica, estas doenças que contemplam
alguma história de trauma ou stress emocional. A
hiperatividade simpática pode desencadear um estado de
hipertensão, enxaqueca, diabete e hipertireodismo.
Então começamos a compreender que estas emoções
reprimidas podem alterar o funcionamento neurofisiológico de
algum sistema ou órgão do organismo humano, esta
interferência pode instalar-se em forma de uma doença
psicossomática. Estes conflitos emocionais têm sua própria
especificidade para cada doença somática, em quase todas estas
doenças de fundo orgânico está presente alguma situação
emocional mal resolvida.
Na psicanálise, se postula a hipótese de que estas
doenças carregam na sua aliteração fisiológica alguma espécie
de situação conflitiva a uma realidade existencial. Em muitos
casos, este tipo de doença presente na vida do adulto, já esteve
presente na infância deste sujeito. Por exemplo, na descrição de
uma personalidade traumatofílica, o sujeito pode procurar de
maneira inconsciente situações para provocar algum tipo de
acidente.

104
Estas pessoas que tem um estilo de vida ansioso, que
no seu ambiente de trabalho são extremamente competitivas
para cumprir com as metas da empresa, podem assumir
inconscientemente como um valor na sua vida, este estado de
ambição e competição. São pessoas mais predispostas para
adquirirem uma doença coronária ou distúrbios de humor, ou
seja, estes pacientes estão expostos aos fatores de risco e com
isto podem colaborar para desencadear estes tipos de doenças.
É importante conhecer a psicodinâmica e suas correlações,
quando apresentam diferentes tipos de doenças psicossomáticas
num mesmo paciente, durante um determinado tempo de vida.
As reações emocionais de alguns pacientes são muito
variáveis e flexíveis, e ao mesmo tempo certos sintomas
aparecem principalmente em pacientes com uma estrutura
psíquica psicótica ou bordelaine. O psicanalista deve ficar
atento a uma série de variáveis presentes no quadro da
psicodinâmica psicopatológica, e somente depois efetuar as
intervenções sobre os núcleos dos complexos inconscientes que
estrutura o paciente na doença. Franz Alexander classificava
três grupos de ulcerosos.
O primeiro é o “independente” que não precisa de
ninguém, tem o controle sobre a sua situação, podemos
esclarecer que se trata de um narcisista. O segundo com alguns
traços de dependência e submissão, mais conhecidos como
“passivo e masoquista”, e por último os “dependentes”. Este
medo de responsabilizar-se pela existência e de conviver com a
liberdade, pode se tornar uma presa fácil para as adições, são
conhecidos como as parasitas sociais ou sociopatas.
Uma outra questão para os estudiosos da mente
inconsciente, é entender a complexa relação da escolha de um
determinado órgão sem uma lesão psicogênica, portanto os
sintomas histéricos ou hipocondríacos podem, em alguns casos,
estar acompanhados de alguma lesão especifica. Sem dúvida,

105
existe uma relação de certos órgãos do corpo que em algum
momento de sua vida conviveram com algum tipo de doença.
Podemos averiguar, através da escuta analítica, se
estes tipos de sintomas sofreram algum tipo de identificação
dos familiares ou amigos, uma especial atenção afetiva.
Quando um adulto supervaloriza um sintoma na criança, esta
mesma superproteção pode vir a ser repetida como uma
compulsão em algum momento de sua vida, portanto esta
somatização pode atingir algum órgão do corpo.
A maioria das doenças psicossomáticas tem uma
relação com a história pregressa da sua infância, esta criança
aprende a buscar seus afetos através da manipulação da doença,
portanto é fundamental saber interpretar as linguagens de cada
órgão do corpo, com o tipo de vida que vive na atualidade. No
discurso de cada paciente podemos ouvir frases, tais como:
Vocês me deixam doente; Todos cuidaram da doença dele;
Conviver com estas pessoas no ambiente de trabalho me
provoca dor de cabeça; Estes meus filhos ainda vão acabar me
matando com alguma doença; Estas e outras frases denunciam
a causa de sua doença.
A linguagem do sintoma está presente no corpo
humano, é uma aprendizagem de milhares de anos. Este
processo de maturidade responde às exigências da existência.
Estas mesmas situações de conflitos emocionais, ou de inibição
impedem a expressão do seu potencial humano, quando
bloqueado e impedido de crescer emocionalmente, projeta nas
fixações e regressões das experiências primitivas e arcaicas
apreendidas e internalizadas na sua infância.
Winnicott, sempre defendeu a importância do contato
afetivo entre a mãe e o filho, este “holding” é o significado de
todo um ambiente de carinho, ternura, cuidado, proteção,
afetividade, para dar significado à presença do bebe. Com este
tipo de intervenção no cuidado afetivo e emocional da criança,

106
se possibilita uma experiência de segurança e alegria que
precisa realizar uma auto imagem de si mesmo.
Este fenômeno da criança, de pertencer a um mundo
subjetivo da mãe e do pai, cria as condições de identificar-se
como um ser no mundo, e não jogado na existência, é um ser
que na sua diferença realiza o processo de formação do caráter.
Isto aconteceu porque aprendeu a diferenciar a sua realidade
específica daquela do mundo externo. Esta constituição de
identidade e personalidade autônoma é o agente motivador da
criatividade, da iniciativa, da vontade de viver, esta criança
consegue respirar num ambiente positivo, este seu nascimento
para a existência é presenteado com satisfação e o desejo
imenso de aprender com as emoções positivas.
Esta vivência da vida intra-uterina, do pré-natal e
depois da infância, são de capital importância na etiologia das
principais doenças psicossomáticas, como por exemplo;
problemas de digestão, dermatoses alérgicas, bronquite,
dispnéias, etc. Existe uma ligação das doenças da pele, como as
dermatites presentes nas crianças que foram rejeitadas pela sua
mãe e privadas do contato físico. Crianças muito carentes dos
cuidados maternos podem interferir no desenvolvimento da
saúde, em alguns casos acaba morrendo por falta de amor.
O processo de identificação acontece de modo
inconsciente, portanto, imita, copia, internaliza, como um
valor, atitudes dos adultos dos quais ama ou tem medo. Este
processo de formação do caráter pode tomar dimensões muito
complexas no processo de fixação de um tipo de doença.
Existem com certeza, as identificações que podem trazer
autonomia, confiança, autenticidade, e que sem dúvida ajudam
a incorporar na sua vida a saúde psíquica. Este processo de
identificação internalizada possibilita a formação de sua
identidade como pessoa humana, esta emoção de satisfação, de
realização, de alegria e felicidade é o remédio eficaz na
estruturação de seu caráter.

107
Esta condição de segurança emocional é fundamental
para servir como base para enfrentar as futuras frustrações,
incompreensões, decepções, e humilhações. Este estado de
autonomia é desejo de realizar o seu próprio projeto de vida,
com independência e maturidade, assumindo-se diante da
existência com liberdade e responsabilidade. Este aprendizado
emocional é importante para realizar as várias etapas de seu
desenvolvimento como ser humano. Se este processo de
identificação for prejudicado na sua infância, possivelmente
sofrerá as consequências de sua imaturidade emocional.
Os pais, amigos e familiares têm muita importância
neste processo de formação da saúde psíquica e emocional,
caso contrário, a criança pode se identificar com o lado
sombrio e nefasto dos adultos de sua convivência. A
identificação patológica pode esclarecer sobre as neuroses de
caráter e as perversões e psicopatologias do mundo dos adultos.
Determinados traços de caráter podem estruturar uma
pessoa em doença psíquica ou mesmo orgânica, muitas vezes
estes sintomas foram internalizados como algo positivo e
agradável, quando na realidade produz sofrimento e dor. Toda
família tem sua própria psicodinâmica, estes mesmos pactos
inconscientes escondem segredos, que na vida adulto podem
tornar-se os sintomas psicopatológicos.
A constelação familiar pode desencadear não somente
as somatizações, mas muitas vezes, estados histéricos e
hipocondríacos, temos que levar em consideração que o ser
humano pode se identificar inconscientemente com um órgão
doente ou de um ser em doença, quer seja física ou emocional.
A patologia somática é percebida quando o paciente apresenta
problemas de identidade, como por exemplo; traços
esquizofrênicos, delírios paranóides, atitude megalomaníacas,
narcisismo, este tipo de doença psíquica impede que o paciente
vivencie a “congruência” de seu estado emocional, e neste

108
desequilíbrio favorece o aparecimento de doenças
psicossomáticas.
Outro fator desencadeante dos sintomas
psicossomáticos são os fenômenos psíquicos relacionados com
as perdas, pois esta vivência emocional pode desencadear
vários tipos de somatizações, é preciso entender o significado
emocional destas perdas, por exemplo, de uma pessoa muito
amada. Sem dúvida, depois de uma pessoa realizar a
experiência de uma perda, pode sentir-se desanimado e sem
esperança, este estado emocional antecede a somatização,
muitos pacientes têm uma grande dificuldade de lidar com as
frustrações e de ser agressivo diante desta falta.
Esta fraqueza da consciência diante da decepção,
traição, é uma condição básica para estruturar uma neurose,
este estado de adoecimento do psíquico com certeza, vai afetar
a dimensão orgânica. Quanto mais segurança emocional na
constituição do “ego”, mais equilíbrio e condições para dar
uma resposta aos desafios que a existência coloca de
imprevisto a cada ser humano. Este processo de luto é lento e
gradativo, depois da perda existe este espaço para elaborar e
superar esta frustração, caso este processo não aconteça, então
podemos diagnosticar como um luto patológico.
A questão do luto está sempre presente na etiologia
das doenças psicossomáticas, por isto mesmo Freud
desenvolveu um estudo no seu trabalho, “Luto e Melancolia”,
neste artigo descreve que existe o luto normal, logo depois da
morte de uma pessoa querida, quando existe uma introjeção e
identificação com o objeto perdido, esta atitude nos leva a
compreender a dificuldade do paciente de se desligar
afetivamente da pessoa amada. Esta dificuldade de ruptura e
elaboração é o desejo de continuar com o vínculo, mesmo
depois de sua morte.
Em muitos pacientes existe uma dificuldade muito
grande de fazer o luto da perda, ou seja, não consegue, não

109
sabe lidar e tampouco resolver as questões pendentes que
ficaram sem uma solução. Alguns se sentem em débito ou com
alguma culpa, e a única maneira de se redimir deste estado
emocional é a melancolia. E ainda mais, este estado de luto
está relacionado a qualquer perda, por exemplo, perda de um
emprego, de uma posição social, de um amigo, de um ideal, ou
seja, é preciso força e coragem para fazer frente a este estado
de luto. Estas situações, quando não são bem elaboradas,
podem desencadear estado de angústia, ansiedade ou
depressão. Estes aborrecimentos e tristezas com o tempo
podem ser transformados em sintomas psicossomáticos.
Cada pessoa reage de maneira diferente em relação a
uma perda, alguns criam um quadro depressivo, outros uma
somatização, a questão do luto patológico pode estar
condicionado por alguma culpa que não foi resolvida. Esta
situação inconsciente de culpa é a maior tendência que os
pacientes utilizam para punir-se e com isto realizam as pazes
com seu conflito pessoal.
A doença psicossomática é facilmente explicável
quando o somático passa a representar a perda emocional da
pessoa que morreu, desta maneira os processos fisiológicos e
psíquicos podem ser influenciados pelas imagens, fantasias e
simbologias carregadas de energia vital. A doença caminha ao
lado da morte das células, dos órgãos, dos tecidos, da vida,
portanto, a somatização é um caminho em direção às mortes
que poderão acontecer no físico e no psíquico.
A outra influência é o fator cultural, que de modo
latente aparece nos sintomas, por isto mesmo a importância do
velório e do ritual fúnebre. Durante este tempo o paciente pode
ressignificar e dialogar ou mesmo fazer as pazes com o objeto
do seu luto. O valor destas vivências de perda, luto e separação
são indicativos importantes para compreender o estado doentio
do paciente. Às vezes existe uma alternância em diversos
sintomas a partir do mesmo conflito emocional, a intensidade e

110
sua implicância na vida do paciente dependem muito do
ambiente sócio-cultural.
Por exemplo, no caso de uma paciente com lúpus
sistêmico, quando soube do seu diagnóstico, teve uma crise
existencial que depois foi substituído por surtos psicóticos que
faziam desaparecer os sintomas clínicos desta doença. Outros
pacientes podem apresentar algum tipo de distúrbio, como por
exemplo, em vez do paciente sofrer como na exteriorização
neurótica ou psicótica, provoca sofrimento nos outros. Do
ponto de vista da psicanálise, é possível a presença de sintomas
no corpo, como forma substitutiva de conflitos psíquicos do
tipo psicótico.
Quando o arcaico e primitivo estão presentes na
somatização, é bastante clara a ausência da lógica racional.
Esta pobreza de simbolização e verbalização do seu mundo
emocional é representada pelo sintoma. Na exteriorização
somática, o arcaico, o simbólico, sofre alternância sintomática,
na verdade este processo de substituição de comunicação das
emoções de um sobre o outro. Esta fase do pensamento pré-
logico, ou mágico, que caracteriza muito bem a mente infantil,
pode ser vista no homem primitivo ou no psicótico. Todo ser
humano precisa fazer esta passagem do mítico, arcaico,
primitivo, mágico, para um processo gradativo de adaptação e
convivência com a realidade.
O princípio da realidade convida a pessoa a superar
aquelas faltas, das inseguranças, dos desafetos, das críticas, da
vulnerabilidade, das culpas, dos medos. Para fazer esta
passagem do mundo infantil para o adulto, precisa reinterpretar
e dar um novo significado aos sintomas psicopatológicos que
estão fixados em alguma fase regressiva da infância. O
funcionamento psíquico do adulto ainda é uma manifestação da
maneira de pensar onipotente de sua infância, que tinha para
enfrentar as suas perdas. Além disso, este quadro de
insegurança emocional pode desenvolver na criança um

111
mecanismo de compensação, para reforçar ou esconder o seu
complexo de inferioridade.
Esta atitude megalomaníaca e onipotente é uma
compensação para esconder os seus medos e sua inferioridade,
por isto mesmo, ao lidar com algum tipo de doença, esta pessoa
se torna fragilizada e ao mesmo tempo reprime toda e qualquer
manifestação emocional. Esta superação exige a passagem do
narcisismo primário, onde a pessoa é o centro de tudo, para o
narcisismo secundário, que é a capacidade de amar o outro.
Esta aprendizagem de saber amar o outro, neste difícil processo
de perdas e ganhos, inclui a regressão, as atitudes narcisicas, os
sentimentos de humilhação e desvalorização. Então,
reativamente a pessoa esconde-se sobre uma camuflagem
narcísica como uma compensação para ser desejada e amada.

112
2.2. A Fenomenologia das Doenças Psicossomáticas

O ambiente tem uma forte influência sobre a saúde do


nosso organismo; existem situações que exigem da parte do
sujeito um processo de adaptação; são vários os fatores
externos que podem cooperar ou complicar com a
sobrevivência psíquica ou orgânica. A sobrevivência exige uma
inteligência que seja capaz de conquistar pela sua competência,
dinheiro, tempo, cultura, valores e inteligência.
Concordo que as tecnologias e os recursos da área da
medicina, utilizados em prol da saúde humana, são
indispensáveis para a sobrevivência da nossa espécie. Mas
seria interessante melhorar ainda mais esta prática preventiva
na medicina, por isto é importante levar em consideração as
questões do ambiente social, cultural, econômico, histórico ao
lado da fisiopatologia físico-químico.
Mesmo com a eficiência do sistema imunológico no
combate a vários tipos de vírus e bactérias, de repente
encontra-se vulnerável a manifestação de qualquer tipo de
doença. Quais os motivos que levaram o organismo a não
buscar, durante o seu processo de evolução, a prevenção contra
o mal de Parkinson, de Alzheimer, de um enfarte fulminante,
de uma isquemia cerebral, da diabete, da pneumonia?
O sistema imunológico tem a nobre função de
reconhecer e atacar bactérias e vírus estranhos que possam
comprometer a sobrevivência do organismo humano, mas
ainda não sabemos o porquê temos problemas com a gripe
suína. A genética possui uma memória milenar de
aprendizagens incorporadas ao seu arcabouço cultural, e cada
uma destas células possui uma missão específica, mas mesmo
assim as doenças ainda nos acompanham.
A outra questão é nos perguntarmos: Porque a
existência das doenças psicossomáticas Porque alguns genes
que possuem certos tipos de doença não são eliminados do

113
nosso código genético Porque permanecem em estado latente
esperando a sua hora de entrar em ação Sabemos que uma
pessoa compulsiva no trabalho pode desencadear um estado de
stress, uma vida sedentária pode enfraquecer seu organismo,
mas ao mesmo tempo refletimos, o trabalho pode ser a chance
de adquirirmos uma segurança financeira. O sono e o descanso
são indispensáveis para a nossa vida. Por que nosso organismo
não pode por si mesmo acabar de vez com uma artrite
reumatoide, desobstruir as placas de gordura numa artéria.
Qual seria o motivo das dores nos músculos e nos
nossos órgãos Por que somos vulneráveis a toda esta gama de
doenças Por que a natureza biológica não eliminou de vez o
sofrimento orgânico de nossa vida Qual seria o objetivo da
inteligência da vida para não desenvolver uma genética
eficiente para combater o nosso envelhecimento Ainda não
temos uma resposta definitiva para todos estes
questionamentos, mas temos que insistir em pesquisas para
conhecer a lógica da natureza humana.
O cérebro humano armazena milhões de informações
nos mínimos detalhes que em algum momento da vida podem
ser recuperadas, interpretadas e modificadas para tornar a vida
mais eficiente e prazerosa. O olho humano visualiza uma
imagem, esta sua percepção é realizada em conjunto por
milhões de células através do sistema do nervo óptico. Estes
estímulos (imagens) são enviados ao córtex cerebral para serem
analisadas, decodificados, interpretados, com os recursos
presentes nas suas memórias de longo prazo, esta análise
depende da quantidade de informações presentes nestas
memórias. Esta mesma imagem carrega consigo uma emoção
que se encontra adormecida, mas que pode transformar-se num
tipo de energia emocional específica.
Esta imagem tem o poder de enviar uma mensagem
aos centros de decisão para despertar algum tipo de emoção
como proteção ou fuga diante de um evento inesperado, estes

114
músculos reagem e modificam o funcionamento fisiológico dos
órgãos do corpo, em obediência a estas informações
desencadeadas pelas imagens incorporadas da realidade. E todo
este comportamento é realizado em frações de segundos, o
sistema nervoso está interligado por uma rede de comunicação
que nos causa espanto e admiração.
Ainda não conseguimos entender: Por que
determinadas artérias que transportam sangue para cada parte
do corpo, não desenvolvem um sistema de limpeza daquelas
artérias que possuem colesterol nas suas paredes Por que o
impedimento do fluxo sanguíneo pode resultar num ataque
cardíaco ou em um derrame cerebral Por que a existência das
alergias Por que as metástases conseguem transformarem-se
em células cancerígenas
Todos sabemos que o sistema imunológico é
extremamente eficiente, mas em algumas situações começa a
atacar as suas próprias células, esta deficiência do nosso
sistema de defesa pode dar origem à esclerose múltipla, artrite,
diabetes, lúpus, leucemia, etc. Muitas pessoas sabem que estão
gordas, mas mesmo assim continuam comendo bastante e não
têm nenhuma intenção de emagrecer. As nossas emoções
possuem um poder sobre este tipo de atitudes, ainda não
sabemos o porquê nossa força de vontade se torna tão fraca
quando existe o desejo de mudar algum tipo de prazer que faça
parte de seu estilo de vida.
Muitas pessoas passam a vida sofrendo por
antecipação; porque não se satisfazem com a realização de um
objetivo, sempre querem mais e mais, existe um desejo
insaciável e incontrolável da ambição. Mesmo sabendo que o
ataque cardíaco tem sua origem numa alimentação cheia de
gorduras e da existência de genes que predispõem a existência
da arteosclerose, ainda não sabemos com toda certeza porque
algumas pessoas são mais vulneráveis a estas doenças e outras
passam pela vida com a mais completa saúde. Por que uma

115
pessoa desenvolve uma propensão a adquirir uma determinada
doença psicossomática e não outra
Quando começarmos a encontrar explicações do
fenômeno da doença e do seu processo destrutivo, então muitos
questionamentos começariam a ser respondidos com a ajuda da
anatomia, fisiologia, bioquímica, hereditariedade. Não
podemos esquecer do valor das características presentes nos
códigos genéticos, por exemplo, as glândulas do paladar são
estruturadas e possui uma química para detectar os sabores,
salgado, doce, amargo, mas todo este processo de análise dos
estímulos é transformado em informações depositado nos
neurônios. Esta condição de reconhecimento do sabor dos
alimentos é uma questão estratégica e inteligente do organismo
para sobreviver.
A psicanálise compreende a importância da medicina
organicista e biológica que procura de forma insistente os
porquês das origens das doenças. Na teoria psicanalítica a
intenção é descobrir o sentido e significado desta doença no
organismo. Desta forma a ciência da vida procura descrever e
interpretar as motivações inconscientes que tornam o
organismo frágil e debilitado, como tudo, na natureza biológica
e psíquica existe leis intrínsecas dos fenômenos patológicos
que podem explicar a origem de uma determinada doença.
A psicanálise está interessada em estudar estas
motivações, pactos e compromissos inconscientes que estão no
íntimo de uma emoção ou pulsão de vida e morte. Se
levantarmos uma hipótese: Que as defesas do organismo
diminuem sua eficiência devido à existência de um trauma
emocional Então podemos considerar que realmente uma
energia reprimida em forma de raiva, dor, magoa ódio, pode
interferir e alterar o funcionamento fisiológico de algum órgão
do organismo.
O problema consiste em averiguar as causas de uma
doença, a descrição teórica do fenômeno doentio é interessante,

116
mas de nada adiantaria se não tivermos uma metodologia para
servir de caminho na luta pela cura do paciente. Ao mesmo
tempo sabemos que além de compreendermos a origem da
doença, o seu tratamento, tem que buscar alternativas de
prevenção.
A origem da existência destas doenças passa a fazer
parte da área de pesquisa na psicanálise humanista. Muitas
vezes estes diagnósticos são de difícil comprovação, o único
meio de veracidade é o resultado da aplicação da clínica
humanista. Mas ao mesmo tempo levamos em consideração
que o corpo humano precisou de milhões de anos para
desenvolver suas defesas, e procurar de todas as formas, a
sobrevivência. Quando o homem pré-histórico se reunia em
pequenos grupos para caçar e pescar não existia o problema da
obesidade. A necessidade de caminhar e explorar novos
territórios, faziam com que estivesse sempre em forma física,
até porque o habitat natural exigia tal desempenho.
Com as descobertas científicas que facilitaram a vida,
o controle dos estoques de alimentos garantiu ao homem esta
nova adaptação à nova realidade, com a ingestão de alimentos
gordurosos, automóveis, drogas, ar condicionado, o homem
passou a uma vida sedentária. A maioria das doenças da
modernidade tem sua origem neste estilo de vida, por exemplo,
as doenças cardíacas, o câncer, são oriundas deste costume de
viver da modernidade.
Como é difícil conviver com as marcas do tempo no
corpo, este mesmo corpo é um “self”, que representa uma
história presente nestas cicatrizes do passado, todos os
sofrimentos e dores passaram pela experiência do corpo, sendo
que a consciência começa a admitir que este corpo caminha
rumo à morte, morte do amor, morte dos projetos, dos afetos,
da força física, da auto-estima. Sem dúvida, é difícil lidar com
este ser mortal, que na verdade somos nós mesmos.

117
Quando o mundo do amor e dos afetos não está bem,
as dores começam aparecer no corpo, ou seja, muitas vezes as
pessoas têm que engolir muita mágoa, ressentimento, tristezas,
humilhações, logo depois não conseguem fazer a sua digestão
no estômago. Esta é uma sintomatologia das dores existenciais
vivenciadas nas dores emocionais do corpo. Qual é a relação da
doença com o mundo dos afetos?
Muitas vezes a saudade, o medo da solidão, este
sentimento de desamparo leva a pessoa a sentir-se frágil e
doente. As emoções e sentimentos dos outros nos fazem sentir
muito mal, porque não resolve o problema do paciente assumir
o sofrimento no seu lugar. Não podemos entender as doenças
de forma isolada, dividida, distante, como se fosse um corpo
sem emoções, frio, distante, uma máquina em perfeito
funcionamento.
Esta é a visão de Descartes, do corpo fragmentado,
separado. No entanto precisa-se levar em conta que o corpo é
uma totalidade subjetiva onde o macrocosmo se faz presente no
microcosmo, esta realidade antro-bio-psico-social prova que
uma energia inconsciente está presente no íntimo de cada
célula do corpo humano. É muito diferente de uma concepção
materialista e organicista na área de saúde, porque o corpo
relaciona-se entre o psíquico e o somático.
Além disso, temos que conviver com três visões
diferentes sobre a doença. O paradigma organicista defende
que estas doenças têm sua origem em alguma lesão ou na falta
de uma química naquele órgão específico. O psicologismo
defende a idéia que todas as doenças têm uma origem
psicológica de fundo emocional. E a terceira e última é a
solução teórica do paradigma psicossomático, que foi uma
saída norteadora para resolver esta questão somática e do
psíquico.
Na visão organicista, o corpo é uma máquina sem
emoções e, além disso, a pessoa do paciente, sua história de

118
vida e dificuldade afetiva seria totalmente ignorada. Esta visão
é tão verdadeira que os pacientes são chamados pelo órgão,
como por exemplo; vesícula do leito dez. Portanto, a dor
emocional, os conflitos pessoais, o ambiente social, a questão
profissional, econômica, familiar não são levadas em
consideração. Da mesma forma, o psicologismo defenda a idéia
que este sintoma psicossomático é conseqüência das suas dores
emocionais ou de algum trauma do passado.
Na orientação da psicanálise humanista a visão da
doença inclui a pessoa como uma totalidade. É bastante
diferente de uma visão que entende o somático como tendo um
papel passivo, muitos acabam dizendo que o paciente acabou
fazendo um enfarte, outro fez um câncer. Sem dúvida, se todos
sabem o quanto é sofrido sofrer, pode-se imaginar na mesma
proporção, o quanto é sofrido sentir-se culpado pela criação de
uma doença. Este paradigma determinista, mecanicista e
organicista defendem a idéia de que podemos ter controle sobre
a nossa mente no sentido de promover a saúde ou a doença.
Diante desta dificuldade, a moderna medicina da
psicossomática procura nos seus vastos conhecimentos, uma
solução para o problema destas doenças, somente depois de um
longo período de estudos a medicina começou a perceber que a
psicossomática não poderia ser uma especialidade médica.
Porque começaram a entender que estas doenças estavam
relacionadas à existência, de um modo equivocado de viver e
resolver seus conflitos emocionais. Logo depois surgem os
psicanalistas fazendo uma leitura diferente desta unicidade do
psicossoma, esta realidade transubjetiva não entende a doença
separada do mundo dos afetos e emoções.
A psicanálise não propõe a interação mente e corpo,
psíquico e somático, dor e amor, até porque sempre entendeu
que estas realidades estavam intrinsecamente presentes na rede
de comunicação inconsciente dos sistemas com todo o ser
organísmico. Portanto em toda a natureza microscosmica está

119
presente um potencial de energia atômica. Hoje em dia não
podemos mais comentar sobre matéria e espírito, energia e
matéria, mente e corpo, psíquico e somático, como se fossem
fenômenos separados e distintos.
O ser humano é um complexo de energia emocional
que interage através da sua linguagem não verbal e simbólica,
os seus conteúdos inconscientes. Esta realidade do psicossoma
é uma complexidade unitária, integrativa e indivisível. Então
começamos a entender que o psíquico é corpo e que o corpo é
psíquico, não existe divisão entre o psíquico e somático.
Qualquer leigo na matéria sabe que o ambiente social
e cultural, ou mesmo o estilo de vida e suas influências podem
provocar uma alteração emocional que de maneira inconsciente
pode manifestar-se em forma de sintoma. Ou seja, um
sofrimento profundo, uma perda de alguém que amava pode
inclusive alterar o sistema fisiológico de algum sistema do
organismo.
Esta complexidade do fenômeno somático é realizada
sobre as condições latentes da energia emocional. Infelizmente
ainda não temos condições de mensurar esta energia semovente
com os métodos da ciência atual. Mas podemos constatar esta
manifestação ou alteração em algum órgão, como uma doença
psicossomática, este fenômeno somático reproduz um estado
de dor e sofrimento.
Esta totalidade de duas imagens sendo uma material e
outra imaterial, porém ambas são partes constituintes da
mesma energia. Quando um órgão sofre a interferência de
alguma energia emocional, é possível que este conteúdo
apareça em forma de imagens, esta alteração também modifica
a sua imagem corporal.
Freud escreveu um projeto para uma psicanálise
científica, onde afirma que o sistema nervoso recebe estímulos
de sua organização somática, estes mesmos estímulos
chamados endógenos precisam ser descarregados. Estes

120
estímulos têm sua origem nas células e criam as condições para
o surgimento das necessidades, tais como: fome, respiração,
sexualidade, sono, etc. Quando surgem os estímulos externos o
organismo não pode fugir, é difícil negar a existência desta
realidade social e cultural.9
O ser humano está limitado a conhecer outras
realidades devido a sua pequena percepção do microcosmo e
do macrocosmo. A apreensão da realidade pelo psiquismo,
possui sua originalidade na apreensão e interpretação de fatos e
fenômenos do real, esta interação entre o símbolo e a realidade
emocional segue os princípios e desejos da humanidade
presente no humano do homem. Cada ser humano tem sua
própria criatividade como uma resposta às provocações da
existência, este processo de assimilação e compreensão possui
a intensidade do teor emocional daquele momento. Então, esta
realidade psíquica humana é o resultado da percepção objetiva
dos fenômenos da existência.
Estes estímulos internos ou externos podem alterar o
funcionamento fisiológico e neurológico dependendo das
condições em que esta pessoa está conseguindo dar atenção às
suas necessidades biológicas ou existenciais. A questão é:
quais os recursos que esta pessoa tem para poder atender estas
demandas internas ou externas Pois na realidade psíquica do
seu microcosmo tem que aprender a lidar com a sua
subjetividade. Na realidade somática ou orgânica, o respeito
pela lógica do funcionamento de uma individualidade de cada
órgão, na totalidade sincrônica do fisiológico, poderia dizer que
em nível inconsciente existe uma subjetividade biológica.
O modelo de realidade psíquica na psicanálise
humanista é uma reação sincrônica e interativa, isto se explica
porque cada ser humano sempre vai reagir de maneira diferente
à existência de diferentes fenômenos, ninguém pode conseguir
9
Freud, Sigmund (1895). Projeto Para uma Psicologia Científica. Ed.
Imago, Rio de Janeiro, p. 397.

121
resolver as mesmas demandas da realidade existencial de forma
igual e repetitiva. O que nos chama atenção é esta realidade
subjetiva do psíquico e do biológico, esta interação com o meio
social e cultural possui uma enormidade de condições que
variam de pessoa para pessoa.
Quando percebemos a relação de um tipo de
sofrimento, não é difícil entender a origem da dor de uma
separação, mesmo que seja somente de alguns amigos, esta
distância é vivenciada como uma tristeza. Esta experiência do
afastamento de pessoas que tanto gostava, é sempre única e
original, de certa forma esta vivência emocional de tristeza
repercutiu em todo o seu sistema orgânico, mas ao mesmo
tempo, o psíquico teve que assimilar esta nova realidade, este
novo luto possibilitou ao mesmo tempo a necessidade de fazer
novas amizades.
Se partimos desta hipótese de que o corpo humano é
uma energia condensada, mas que em níveis subatômicos é
energia comucacional de partículas e ondas, então podemos
dizer que em qualquer ambiente estamos interagindo com
outras formas de energia. Esta complexidade da energia
psíquica de ondas eletromagnéticas pode, num nível das
partículas elementares, se comunicarem sem a nossa
consciência. Será que realmente somos capazes de observar,
com a nossa simples percepção, o que se passa no campo da
energia psíquica inconsciente entre o analista e o paciente?
Quando olhamos uma pessoa doente, talvez não
estejamos vendo somente a manifestação física e orgânica, este
complexo de energia comunicacional está interagindo com o
campo das intuições e intenções psíquicas do analista. Ambas
as realidades acontecem sem o controle da percepção do
analista e tampouco do paciente. Ou seja, esta realidade
psicossomática do paciente reproduz nas simbologias e no
imaginário do analista uma interpretação do real significado do
sintoma. Estas infinitas formas de interação dos sintomas com

122
o organismo são identificadas pelo analista na forma de suas
simbologias fantásticas e ilusórias.
O ambiente pode influenciar, propiciando as
condições de uma experiência de alegria, satisfação, prazer, ou
ao contrário, de insatisfação, tristeza, deslealdade, injustiça.
Estas emoções vivenciadas nas interações sociais podem levar
a pessoa a assimilar algum tipo de emoção em cadeia. Esta
energia emocional pode, com certeza, alterar o campo de
comunicação energética na sua totalidade. A hipótese é a
seguinte; o ambiente pode levar uma pessoa a adoecer. Sem
dúvida porque quando estamos interagindo no plano
interpessoal, ao mesmo tempo transportando esta realidade
emocional para o plano intrapessoal e finalmente esta vivência
possui uma transcendência capaz de interferir em outras
relações transpessoais.
Qualquer pessoa, dentro de um campo semântico de
uma emoção, pode sofrer interferências e interferir na
subjetividade de outra pessoa do seu convívio. A qualidade da
energia num ambiente, depende do tipo de emoção que aquelas
pessoas estão vivenciando. Podemos utilizar a comparação com
uma orquestra, cada instrumento tem sua função e se compõe
de uma tonalidade musical, mesmo nas suas particularidades,
todos estão afinados com uma lógica musical da regência do
maestro da sinfonia musical.
Um ambiente tem sentido com a presença de pessoas,
mas cada pessoa possui também uma ressonância emocional
em particular. Ou seja, estas emoções podem somar as parte ao
todo, e assim experimentar a qualidade da energia produzida
naquela ambiente específico, na família, na escola, na empresa,
esta interação de trocas acontece sem a nossa mínima
consciência, muitas vezes apenas sentimos um bom ambiente
ou nos sentimos muito mal naquele local.
Quando se apresentam muitas dificuldades e
problemas na vida de uma pessoa, a doença, muitas vezes

123
funciona como uma compensação para esconder a realidade
cruel e difícil que está sendo vivenciada. Muitas vezes resta
somente a esta pessoa o apego obsessivo àquele tipo de doença,
este estado de impotência orgânica pode explicar o seu
desconforto, diante de uma situação de fracasso em sua vida.
Imerso num mundo de fantasia e irrealidade, constroem uma
expectativa que as suas condições não conseguiam realizar ou
alcançar, mas o orgulho e a vaidade arrumam um jeito para
diblar a sorte do seu fracasso. E por fim muitos dizem: Se não
fosse esta minha doença a minha vida teria sido diferente.
Quando a pessoa consegue sair de uma doença, ao
mesmo tempo existe uma exigência para mudar a sua vida, é
um conflito difícil de ser resolvido, porque por muito tempo
estava condicionado a viver através das dores e sofrimentos.
Quando um paciente está em desarmonia consigo mesmo e
com os outros, este estado emocional aparece em forma de
sintomas no organismo. Esta fragmentação, divisão, separação,
do corpo e espírito, da razão e do coração, leva a pessoa a
colocar toda sua atenção em torno do sintoma, esquecendo de
todas as outras potencialidades que possui, existe na verdade
uma satisfação doentia em estar doente.
Quando existe algum tipo de perda, desencadeia-se
um fenômeno chamado desequilíbrio, esta sensação de
desconforto pode levar uma pessoa a adoecer. A medicina
afirma que o estado de homeostase leva o organismo a manter-
se num estado de equilíbrio. Parece-me que no organismo
humano, todos os órgãos e sistemas funcionam com o desejo
de manter o equilíbrio destas interações. Mas a natureza
trabalha com a realidade dos opostos, equilíbrio e
desequilíbrio, mas quando alguém pensa que está equilibrado
acaba desequilibrado e outro, que se sente desequilibrado,
acaba sendo um novo caminho para o equilíbrio.
Mas ao mesmo tempo que estamos sofrendo algum
tipo de interferência, também interferimos sobre a vida das

124
pessoas, este equilíbrio instável nos permite a possibilidade da
estabilidade emocional. Às vezes, quando sofremos algum tipo
de frustração, sofremos de certa forma algum desequilíbrio no
nosso estado emocional, porém o organismo exige o
restabelecimento desta energia e por isto mesmo sempre vamos
buscar o equilíbrio.
A dinâmica do inconsciente depende das forças
emocionais que atuam, procurando um meio de nos levar a um
estado de equilíbrio, mas este estado psíquico depende do
desejo ou da intenção psíquica para levar o organismo a reagir
de uma determinada forma doentia ou saudável. Esta
fenomenologia da doença informa que, dependendo das
intenções dos desejos latentes, pode haver uma mudança ou
mesmo alteração em algum órgão do organismo.
É muito comum que quando um paciente apresenta
uma dor da perda de uma pessoa amada, surja como um desejo
de não querer mais existir. Existe uma perda de identidade, é
como se alguém levasse a sua metade, este adoecimento tem
como causa principal a perda da pessoa amada. Esta dor
emocional, esta saudade, é fonte de perturbação para o
organismo, somente depois de um luto prolongado é que existe
a possibilidade de restaurar o seu equilíbrio emocional e
psíquico. Quantas pessoas acabam morrendo quando percebem
que estão sendo curadas.
Na psicanálise humanista, a doença é interpretada
como um fenômeno de interferência no estado de equilíbrio do
paciente, isto significa que primeiro é preciso compreender o
significado desta dinâmica inconsciente, do mundo de suas
emoções. Depois de elaboradas e esclarecidas as motivações
inconscientes que colaboraram para o rompimento do seu
estado de equilíbrio vital. Esta alteração funcional dos sistemas
do organismo possui a condição de modificar o estado
fisiológico, este desequilíbrio é fonte de mal estar.

125
Freud, na epistemologia da sua teoria, elaborou o
conceito de massa e energia como fenômenos separados, este
modelo da divisão do psíquico e do somático segue os
fundamentos da teoria de Isaac Newton. Comparam a força do
psiquismo humano a um modelo de carga elétrica, presentes
nos estímulos de uma reação em cadeia chamada de tensão, e
descarga, presentes nos neurônios do cérebro. Outro equívoco
é querer descrever o neurônio como um objeto material sujeito
às leis gerais do movimento. As reações dos neurônios são
entendidas dentro desta forma de interpretação; a atividade de
repouso deve estar sujeita às leis do movimento, e os neurônios
são meras partículas materiais.
A matéria não pode ser diferente da energia, não
existe esta separação, esta sua compreensão do sistema nervoso
central baseia-se no princípio da energia cinética e da energia
potencial. No seu modelo descrito sobre como acontece o
princípio do prazer-desprazer, explica que as pulsões recebem
um aumento de tensão através de uma descarga motora. Freud
procura no princípio de Newton, uma explicação para esta
capacidade do corpo humano de produzir trabalho, ou seja, a
transformação da energia potencial (posição do corpo) em
energia cinética (movimento do corpo).
Na compreensão de Freud, quando alguém se excita
existe uma energia potencial que depois, com o movimento,
torna-se energia cinética. Então, a pulsão sexual se movimenta
e com isto realiza um trabalho, pois representa uma força que
exerce uma pressão em direção à libido, em outras palavras, é a
energia desta pulsão. Esta pressão da pulsão é a quantidade de
força ou a medida de trabalho que representa, a sua finalidade
será sempre a satisfação alcançada, para eliminar o impulso
inicial da excitação do instinto direcionada ao objeto de desejo.
A fonte desta pulsão é um processo somático que
ocorre num órgão e cujo estímulo é representado na vida

126
mental por um instinto.10 Se mudarmos nossa compreensão de
uma epistemologia teórica da divisão e separação para um
modelo que contemple a totalidade, como por exemplo, quando
conseguirmos pensar que a massa é energia e energia é massa,
soma é psíquico e psíquico é soma. Saímos de um modelo
fragmentado para o da totalidade, onde podemos entender a
pulsão vital não como uma corrente elétrica, mas um campo de
energia emocional interligado ao macrocosmo.
Quando entendermos que o corpo é a própria
expressão desta libido, então poderemos fazer a leitura dos
desejos e necessidades pulsionais presentes na linguagem
simbólica e não verbal. De um ser em desejo de amor, de afeto,
de carinho, de compaixão, de sexo, de realização, de
compreensão, de solução, de felicidade, de reconhecimento, de
satisfação, de vontade, de valorização. Estes signos estão
presentes em cada célula, o organismo humano sobrevive às
intempéries do tempo e do espaço graças ao seu potencial de
energia psíquica.
Estas mesmas necessidades biológicas e psíquicas,
provocam o surgimento da busca da realização destes desejos,
o alcance destes objetivos na existência provoca um estado
alterado em toda a extensão do organismo físico-químico, esta
mesma vivência de prazer na vida e o fluxo de energia que
produz saúde e felicidade a qualquer ser humano.
A dor física aparece representada pela doença de um
câncer, a dor psíquica é manifesta pela solidão, tristeza,
impotência, às vezes o sofrimento é tanto que só resta a morte.
Não existe experiência mais desagradável do que o abandono
de uma pessoa doente, às vezes as pessoas estão ligadas por um
vínculo da compaixão da dor, neste momento o paciente sente
um cuidado que está repleto de carinho, compreensão,
solidariedade. Depois de muito tempo no completo abandono,

10
Freud, S. Pulsão e suas vicissitudes. Obras completas. Vol. XIV, Ed.
Imago, Rio de Janeiro, 1972, p. 142.

127
sentem-se acolhidas e amadas, às vezes estas pessoas não
querem morrer para resolver questões emocionais que não
foram solucionadas durante a sua vida, somente depois de
fazermos esta escuta da dor com o paciente e que poderá
encontrar-se livre para morrer.
Mesmo na área de saúde, os vínculos são fortes e
profundos, mas às vezes é preciso deixar a pessoa partir. A
psicanálise humanista está interessada neste processo de
adoecer, esta fenomenologia ultrapassa esta concepção teórica
que conduz o processo teórico de interpretação do fenômeno e
sua metodologia de apuração dos dados. Se o homem é energia
psíquica, também podemos nos perguntar. O que é na verdade
esta energia psíquica Pode-se responder que o psíquico é uma
emoção. Mas o que é a emoção
Mas independente de nossos questionamentos sobre a
natureza do psiquismo a relação consigo mesmo é de
fundamental importância para o futuro de suas relações,
explicando de outra maneira, as emoções possuem o atributo de
proporcionar as condições de aproximação ou repulsa. Muito
da maneira como este paciente relaciona-se com suas emoções
depende de suas experiências e deste processo de formação de
sua personalidade.
A pessoa humana é um conjunto de infinitas
possibilidades e limitações, dentro de uma dimensão do espaço
e tempo. É uma condição de sua felicidade, saber relacionar-se
com a liberdade e as necessidades biológicas e existenciais. A
pessoa é muito mais que os paradoxos ou os conceitos que
tentam explicar a natureza humana, todas as emoções estão
relacionadas entre si, a qualidade desta relação depende dos
vínculos que estabeleceu com estas categorias de valores. Em
relação aos sintomas psicossomáticos, a simples divisão de
corpo e psíquico não consegue explicar a complexidade de
interações das relações emocionais que acontecem nas
dinâmicas inconscientes.

128
O processo de formação do “caráter” é fruto das
mútuas dependências e interdependências das relações
emocionais da sua pessoa com os seus familiares, amigos,
vizinhos, esta incorporação cultural acontece mediada pelas
emoções positivas, porque são aproximativas, ao contrário das
emoções negativas que acabam afastando as pessoas do seu
convívio. No final das relações as emoções dos seres humanos
são muito parecidas, esta sensibilidade, esta ternura, esta
capacidade de emocionar eleva a condição humana a evolução
de seus valores humanitários.
Quando uma pessoa nega a existência das emoções ao
mesmo tempo existe um desejo de negar a sua humanidade,
este narcisismo distancia as pessoas do seu relacionamento, e
outros lutam num conflito interminável para livrar-se, esconder
ou narcotizar certas emoções. Existe uma fantasia que para
sentir-se livre do contato com a dor, é preciso anestesiar
qualquer forma de sofrimento, suas estratégias vão desde
esconder o medo de depender, de confiar, com o intuito de
afastar-se deste tipo de emoção. Este desejo de ser autêntico,
verdadeiro, sincero, justo, desperta no íntimo da pessoa, os
valores que engrandecem as relações entre os seres humanos.
Quando uma pessoa encontra-se num estado
depressivo, sua percepção da realidade é obscura e pessimista,
no entanto é dependente das suas emoções. Porque esta forma
de pensar que não possui a capacidade para resolver os seus
problemas, é fruto destas pulsões e emoções que representam o
desequilíbrio das funções psíquicas e somáticas no seu
organismo. A única maneira de sair desta depressão é começar
a relacionar-se com a sua energia emocional, a primeira
condição é convencer-se de que este estado de desespero e
pessimismo não ajuda a resolver seus dilemas na existência.
Quanto mais a pessoa permanece sozinha com a sua doença,
menos possibilidade vai ter de estabelecer novas relações de
amizade e de alteridade.

129
Muito da solução dos seus sintomas, depende do seu
esforço e da confiança depositada no seu potencial, para
elaborar este estado de falta de sentido na sua vida. A única
situação catastrófica é perceber, que apesar de todos os
esforços, a situação continua a mesma, este estado de falta de
ânimo pode levá-lo a estruturar-se em algum tipo de sintoma
psíquico ou somático.
Quando começa a relacionar-se com estas emoções,
consegue entender as motivações inconscientes das
dificuldades de resolver seus conflitos pessoais e sociais. Ao
entender que a força está dentro de si mesmo e não nos outros,
realiza a grande descoberta, mas este estado de consciência
sobre sua condição no mundo exige de sua parte decisão,
coragem e determinação.
Quando uma pessoa está completamente dominada
por uma doença psicossomática crônica, indiretamente houve
uma desistência de procurar a ajuda para sair desta situação de
falência existencial, surge o único caminho capaz de iluminar a
compreensão sobre o verdadeiro sentido da doença. Esta
relação com a doença leva a um estado de consciência sobre os
significados demonstrados na sua vida, um deles é a negação
das suas emoções o outro é a desconfiança sobre seu próprio
poder de modificar esta situação.
Mas estes sintomas psicossomáticos podem ser
compreendidos como uma vantagem superior de infinitas
soluções. A doença faz parte da existência, portanto este não é
o mal maior ou o término de sua vida, a questão mais
preocupante é o estado de inconsciência. Quando esta pessoa
encontra-se perdida, confusa, sem objetivos, esta experiência
concreta de saber que não é possível a realização do seu
potencial de amor e afeto. Porque um ser sem amor é como
uma planta sem água, a sua morte é somente uma questão de
tempo.

130
A realidade do organismo humano oferece uma
possibilidade ilimitada de várias soluções, a realização dos seus
desejos depende do nível de satisfação na existência. Esta nova
consciência sobre o valor de suas relações, das amizades, da
família, e consigo mesmo é o que vai determinar um ser com
condições de relacionar-se com qualidade. Esta maneira do
inconsciente relacionar-se com os símbolos, imagens, afetos,
emoções, pode influenciar no processo de formação de sua auto
estima.
Mas o fato decisivo é o quanto esta pessoa é
responsável pelo processo de formação do seu caráter,
independente da existência ou não da doença, em algum
momento da vida esta experiência do sintoma é inevitável, não
interessa quais as defesas e fantasias que utiliza para fugir desta
condição humana, este auto engano sobre o seu estado
emocional amplia a confusão psíquica.
Este estado de incongruência, incompletude, de
incertezas, faz parte da constituição psíquica, esta condição
emocional se faz presente em todos os seres humanos, o único
modo de buscar uma solução para os paradoxos é tomar
consciência sobre estes conflitos inconscientes. Por exemplo,
uma pessoa imprudente, irresponsável, pode ficar doente sobre
os resultados que conseguiu na existência.
Consciente ou inconsciente, a verdade, a justiça, o
bem, fazem parte deste psiquismo, saber conviver e relacionar-
se com estas limitações de sua condição humana pode ajudá-lo
a situar-se na existência com mais fé e esperança. O doente está
aprisionado pelas repressões de suas emoções e potencialidades
pulsionais.
A doença, seja psíquica ou somática, tem a intenção
de levar o ser humano de encontro com a morte. A morte de
sua doença é o nascimento de sua vida, quando existe um
sentido na vida com objetivos de valor, não existe lugar para a
morte, portanto a doença não faz parte de sua vida. A morte é

131
uma passagem, é um momento sublime de abertura, do
engrandecimento da raça humana. A morte física representada
através do sintoma é simplesmente uma mera representação da
morte simbólica dos valores e potencialidades de sua vida.
Sem dúvida, a falta de sentido na vida é a origem das
doenças, porque para a pessoa que se encontra perdida, confusa
e alienada a única esperança é a morte, mas mesmo assim não
consegue morrer para as questões íntimas e particulares que
ficaram sem uma resposta. Esta agonia de morrer
racionalmente, e emocionalmente estar vivo para querer
resolver suas mágoas e ressentimentos, o distancia cada vez
mais da morte biológica, mas não do sofrimento psíquico e a
experiência da dor do abandono, da solidão.
A pessoa que não resolveu suas questões emocionais,
não consegue morrer, insiste em continuar sua vida vegetativa
porque não encontra sentido para deixar este mundo. Antes da
morte física, acontece a morte psíquica, os medos, os fracassos,
as decepções, a falta de amor, de objetivo na vida, inicia o
processo de agonia, de angústia, a somatização é o início de
uma longa caminhada de saber lidar com o seu narcisismo.
Porque a doença leva a pessoa a conviver com um estado de
invalidez, todos sabem que estão doentes, mas não têm
consciência sobre as motivações inconscientes que levam a este
estado de desistência da vida.
Quando a pessoa tem consciência sobre as suas
mortes, a morte da iniciativa, da coragem, da força de vontade,
do estado de ânimo, de ousadia, de estudo, então começa o
renascimento para a vida. Ao compreender os seus sintomas,
surge a esperança de desfrutar dos benefícios da existência,
esta nova vivência é como uma ausência da morte. Os
conflitos neuróticos, as somatizações, postulam e defendem a
existência da morte orgânica, mas antes desta morte, existe a
desistência, uma espécie de morte do seu desejo de viver.

132
Mesmo aquelas pessoas que estão morrendo, se
souberem usar sua inteligência, podem tirar proveito destes
sintomas, podem descobrir a vida na experiência da morte.
Quem compreende o sentido da morte, pode viver eternamente,
pois a morte do egoísmo, da exploração, da injustiça, da
infelicidade, reacende a esperança da busca da superação da
irracionalidade.
Mas sua força psíquica, suas realizações, sua história,
não morrem junto com a morte biológica. Nenhuma doença é
capaz de apagar o legado histórico de uma pessoa, é impossível
matar o passado desta pessoa que morreu, ao contrário, sua
energia psíquica permanece na eternidade de nossa
convivência, com aquelas imagens e pessoas que representam a
sua pessoa.
Todos os sintomas despertam os desejos necrófilo de
autodestruição, quando se sente impotente para realizar os seus
desejos. Esta potência para destruir-se e consumir-se num
processo ininterrupto de fracassos e derrotas. O sintoma
anuncia o desejo de reduzir esta pessoa a nada, este é o desejo
presente na fenomenologia potencializadora da destruição
pessoal. Esta revolta pessoal contra si mesmo, de não ter
conseguido alcançar seus objetivos, desenvolve um sintoma
psicossomático para iniciar o processo de tornar-se coisa
nenhuma.
Muitas pessoas têm um superego muito exigente e
perfecionista, porque envolvido pela sua própria esquizofrenia
de grandeza não conseguem suportar-se a si mesmas, por não
terem alcançado seus objetivos. O fenômeno da traição e das
perdas é de suma importância, para entendermos a
sintomatologia de algumas doenças somáticas, porque ao
experimentar o vazio existencial, os seus desejos encontram-se
mortos. Ao mesmo tempo projeta no outro suas expectativas de
felicidade e realização, mas quando esta idealização sucumbe,

133
esta pessoa não encontra sentido para continuar a viver, por
isto mesmo decide morrer para o seu projeto de amor.
Para compreender o fenômeno da somatização e dos
conflitos inconscientes, é preciso analisar suas incongruências
na dificuldade de fazer uma opção por si mesmo. Veja bem, ao
mesmo tempo em que busca a saúde orgânica, a sua percepção
não tem alcance para enxergar as neuroses que levam a buscar
em determinadas atitudes a sua somatização.
Desta maneira qualquer pessoa percebe que
racionalmente busca a saúde e inconscientemente pretende a
doença. Muitas pessoas possuem o desejo, mas o discurso
racional é diferente do funcionamento das emoções, tomado
pela sua razão lógica, não consegue entender o fenômeno de
sua autodestruição pessoal. Os sintomas servem como um
alerta para solidificar de vez o sofrimento e a dor.
Muitos fracassam diante do fenômeno
psicossomático, apesar de todo seu envolvimento e
investimento com os psicofarmacos. Mesmo com toda sua
dedicação em seguir com as medicações das drogas lícitas ou
ilícitas, esta química nunca vai ser mais forte que o seu “eu”
que não tem o desejo de mudança. Porque através das doenças
consegue disfarçar e esconder-se de si mesmo, na verdade está
negando o seu potencial de ser e assumindo a invenção do seu
quadro de sintomas.
Esta rigidez procura sustentação no ideal de um “eu”
difícil de satisfazer. Algo estranho começa acontecer, pois é
capaz de renunciar os prazeres da vida, mas busca nos sintomas
uma negação da pessoa que não pretende ser, sua existência é
um verdadeiro clamor de queixas em torno das suas doenças. A
cura de suas doenças não acontece, porque inconscientemente
não tem a consciência necessária para lidar com estes
fenômenos doentios.
A doença, os sintomas, na sua linguagem metafórica
são os representantes das culpas, medos, angústia, ansiedade,

134
egoísmo, ganância, falsidade, esta fenomenologia das doenças
do corpo tem a função de terminar com a vida. Mas existe uma
outra força motivadora que devolve ao ser a capacidade de
continuar na sua luta pela sobrevivência do seu organismo.
Desta maneira podemos demonstrar os desejos latentes que
estão na relação direta com o sintoma. A neurose é uma
contradição vivenciada na dialética interior de seus conflitos
conversivos.
Se tivesse condições de saber que este sintoma é
simplesmente uma condição passageira, então poderia tomar
consciência dos sentidos ou dos significados destes fenômenos
psicossomáticos, mas mesmo assim se o sintoma não fosse
capaz de destruir o nosso amor pela vida, tampouco existiria a
condição da existência da doença. Desta maneira, os sintomas
ou as doenças psicossomáticas, encarnadas no corpo, são a sua
própria infelicidade. O doente de doenças psicossomáticas é
um neurótico que busca a destruição. O que podemos afirmar a
respeito destes sintomas que atacam órgãos vitais do
organismo, mas mesmo assim não conseguem destruir seu
desejo de continuar vivo.
A morte física não é o objetivo final das doenças
psicossomáticas, porque é impossível uma pessoa curar-se
através de sua morte, por isto mesmo que a sua doença é seu
infortúnio, O drama de sua morte não resolve seus conflitos de
amor e dor. Esta é a condição do ser que está doente, e por
mais que tente fugir de seus sintomas, ou que consiga através
dos psicotrópicos anestesiar sua consciência, ainda assim não
consegue descobrir a verdadeira origem deste mal estar sobre
seu estado doentio. Não consegue perceber que está deixando
de viver, que está vivendo em função da doença, não tem
consciência das perdas e dos sofrimentos.
Este ser que está doente, denuncia seu estado de
infelicidade pelos sintomas que apresenta no seu corpo,
inconscientemente mostra a todos o preço do seu sofrimento,

135
mostra o quanto é escravo destes sintomas, sua maneira de
fazer a catarse é através de suas queixas contínuas e eternas.
Não consegue pensar diferente dos seus sintomas, às vezes
acaba acostumando a viver envolvido na questão da dor, o seu
estado de angústia e depressão aumenta quando constata que
não é possível desfazer-se de sua força vital. Sua inferioridade,
sua baixa estima, seus fracassos, suas decepções, fazem com
que pense desta forma. Porque alguém com coragem e ousadia
responsabiliza-se por criar as condições de amor e cuidado para
consigo mesmo.
Quando consegue perceber que a vida é o maior
presente da existência, que este dom é uma inteligência
emocional capaz de estar a serviço da saúde, porém, não pode
esquecer que existem no organismo exigências de mudança
oriundas da natureza, portanto, não existe maneira de livrar-se
de sua potencialidade. Os médicos dizem que não existe sequer
um homem que esteja em completa harmonia com a sua saúde.
Como os psicanalistas conhecem o ser humano na sua
profundidade psíquica, podemos também afirmar que não
existe sequer um homem livre de suas neuroses.
É impossível que o ser humano não sinta, em algum
momento de sua vida, um pouco de infelicidade, preocupação,
desarmonia, inquietudes, ansiedade, tristeza, ódio, raiva, medo,
aversão. Estas emoções possuem o poder de levar a pessoa ao
encontro de sua subjetividade, esta mesma angústia anuncia a
dificuldade que temos para lidar com o futuro. Toda pessoa
doente carrega o estigma do sintoma, indiretamente este corpo
transporta consigo um peso sobre seus ombros, mas a
conseqüência desta doença psicossomática é fruto do
desconhecimento de si mesmo.
De vez em quando, por força de seu estado
depressivo, atrelado ao seu estado doentio, surge um pequeno
sinal de que existe uma outra existência dentro de si mesmo.
Estas emoções têm o poder de não o deixar viver, sempre viveu

136
em função do seu quadro doentio, e não existe nenhuma
condição de sair desta doença. Esta é a difícil tarefa de
descobrir a sua verdade, aquela que traz à tona a sinceridade, a
autenticidade, a simplicidade, este estado de vida podem trazer
de volta a saúde. Quando alguém busca o esclarecimento sobre
algo estranho e incompreensível, é a atitude mais sensata e
saudável, compreender estas emoções latentes e sua relação
com os sintomas pode encorajar a buscar na existência, algo de
mais sublime e superior, esta condição de ânimo para procurar
as respostas que os sintomas exigem.
Não existe nenhum exagero ou contradição de alguém
conhecer-se em profundidade, porque a questão central é sair
deste estado de alienação e superficialidade, esta é condição
essencial para o estabelecimento da doença. A pessoa que
consegue sair das aparências, dos relacionamentos doentios, da
superficialidade das relações, indiretamente está fugindo da
hipocrisia e caminha em direção da autenticidade, da
originalidade, por fim está procurando a saúde emocional. Se
alguém afirma que a sua doença não tem cura, podemos
acreditar realmente naquilo que a pessoa está afirmando. E
também existem pessoas que questionam as suas afirmações
com relação à sua doença, sem dúvida, o fenômeno sintomático
das doenças crônicas e psíquicas é uma realidade universal.
Às vezes podemos encontrar a contradição, quando
alguém afirma que está doente e todos os exames dizem o
contrário, este é um fenômeno muito difícil de compreender.
Se não existe a possibilidade de conhecer as dinâmicas
inconscientes, tampouco existirá a possibilidade de conhecer o
desejo escondido por detrás de sua doença. A tarefa do
psicanalista não está atrelada à verificação da eficiência de suas
medicações, ao contrário, é preciso conhecer as manifestações
latentes das emoções, para saber sobre o tipo de doença que
estamos estudando. No seu diagnóstico, tenta descobrir se está

137
realmente doente, ou aquele que diz que tem completa saúde
está completamente doente.
O psicanalista, na sua escuta dos sintomas
psicossomáticos, sabe muito bem sobre a origem de seu
desencanto, tem consciência que este é um fenômeno de sua
energia emocional. Por isto mesmo, não se contenta com as
simples explicações sobre os sintomas que o paciente tem a
oferecer, porque justamente aqueles que dizem estarem
acometidos de uma grave doença o fazem para chamar a
atenção. Não pode haver precipitação na interpretação do
sintoma ou de confundir um estado passageiro de tristeza com
depressão, mas indiretamente este estado de mau humor, de
nervosismo, de ansiedade, de angústia, é o prenúncio de que
está afetada por algum tipo de sintoma.
A dialética da doença é explicada da seguinte
maneira: Ao pensarmos sobre um possível diagnóstico,
estamos afirmando um tipo de doença, mas ao mesmo tempo
queremos saber o significado deste sofrimento na vida deste
paciente, e por fim, entender o modo do seu funcionamento
incosnciente a respeito desta sintomatologia. Mas, a simples
dedução de um diagnóstico sobre a doença, não resolve a sua
busca interior sobre a alegria e felicidade. Devemos tentar
saber sobre as emoções que obstruem a livre passagem do seu
potencial de vida, porque quando uma pulsão ou emoção
encontra-se reprimida o organismo inicia o seu sofrimento.
Esta é uma dialética do contraditório, mas é especial a
sua busca infinita de possibilidades, porque sempre coloca
outras questões, hipóteses, para serem conhecida sobre o tema
das doenças psicossomáticas. O método psicanalítico de análise
dos sintomas pode levar à comprovação dos efeitos maléficos
das doenças sobre a vida do paciente. Existem provas que um
paciente encontrava-se num perfeito estado de saúde, mas
infelizmente agora se encontra muito doente. Será que
podemos concluir que antes o paciente estava com saúde e

138
agora está doente. Ou que o paciente já se encontrava doente e
que somente agora acabou de ficar somatizar a sua emoção.
Pode ser que uma pessoa em pleno auge de suas
conquistas acabe ficando doente, temos que levar em conta que
as doenças psicossomáticas são um fenômeno da mente
incosnciente. Este desejo de superação e vida na sua
excelência, é o contrario do prazer na dor, este relacionamento
entre amor e dor, prazer e sofrimento, é uma dialética que
acontece no íntimo de cada conflito neurótico.
As doenças psicossomáticas são um fenômeno
dialético, porque possuem uma dinâmica muito diferente de
outras manifestações doentias, os sintomas têm a características
de uma dialética que está levantando a hipótese do poder da
doença na paralisação do potencial de criatividade na vida do
paciente.
Porque a saúde não é a ausência de doença, mas
também significa que a sua doença levou-o ao encontro de sua
saúde. Às vezes pode-se confundir tranqüilidade e sossego com
acomodação e alienação, as aparências nos enganam com certa
facilidade, esta aparente paz pode ser um estado doentio de
viver. Mas ao mesmo tempo, pode ser alguém que conseguiu
superar seus sintomas e por isto mesmo conseguiu alcançar a
tão almejada paz. Encontrar-se num estado doentio não é o
mesmo que estar doente, porque ao não encontrar-se doente
não pode afirmar que não esteja doente psiquicamente, ao
contrário, o não estar doente pode significar que está imerso
numa doença ainda desconhecida.
Quando aparece um sintoma, não significa que esteja
doente, ou que uma tristeza tenha que tornar-se uma doença.
Estas mudanças emocionais são dialéticas na sua expressão, o
simples fato de alguém dizer que nunca teve nenhum sintoma é
o primeiro indicio da negação da sua realidade psíquica, esta
sensação de onipotência e onisciência narcísica é uma dialética
em progressão. Quando levamos em conta que existe uma

139
dinâmica inconsciente, ao mesmo tempo sabemos que existe
uma relação dialética numa dimensão latente e que está sendo
manifesta através dos sintomas.
Toda doença leva a pessoa a uma crise na existência,
mas a saúde proporciona bem estar e qualidade de vida.
Podemos entender a psicodinâmica das pulsões quando a saúde
orgânica é algo vivido e aceito, a dialética começa aparecer
quando surgem os sintomas, este desconforto, este mal estar, é
um sinal que o ser humano está em crise. Mas sabemos que no
inconsciente cultural, tanto a saúde como a doença, são um
chamado à consciência, de imediato não existe nenhuma
solução mágica a seus dilemas pessoais.
Podemos constatar que os sintomas psicossomáticos,
têm na sua natureza, uma dialética, por isto mesmo
acreditamos que a pior das doenças é o não querer curar-se.
Muitos pacientes não têm a consciência sobre os designeos
obscuros da energia psíquica, as consequências desta alienação
é o comprometimento de sua segurança emocional, no prejuízo
causado à sua alegria de viver. Quem tem consciência de sua
realidade mundana, consegue entender as manifestações e
intenções de sua energia psíquica inconsciente. Nem sempre os
acontecimentos traumáticos são prejuízos à pessoa, desde que
saiba fazer uma interpretação, realizando uma metanóia sobre
as aprendizagens e a maturidade possível e utilizável na
solução dos seus problemas.
Na verdade, esta qualidade somente alguns homens
possuem, na sua grande maioria encontram-se alienados e
massificados por algum tipo de ideologia, por isto mesmo estão
sempre atrás de um guru, um líder, porque não sabem decidir
sobre a própria vida. Sabemos que muitos seres humanos
vivem de forma enganosa, são uma grande massa sem
pensamento crítico, um rebanho que precisa de um pastor. A
existência faz um convite para que cada ser humano conquiste

140
o bem supremo, aquele que é capaz de ser autêntico e sincero é
merecedor dos ganhos na existência.
Não podemos ficar chorando sobre as nossas próprias
misérias e sofrimentos, e talvez o maior de todos os males seja
o desconhecimento de seu próprio inconsciente. Aquele que
está sofrendo de algum tipo de doença possui o desejo
inconsciente de ocultar um segredo, por isto utiliza todos os
mecanismos de defesa para esconder esta dor emocional a tal
ponto, que nem ele mesmo saiba o que está acontecendo
consigo mesmo.
Mas a vida não para, o relógio cronológico do tempo
precisa percorrer o seu itinerário, e um dia esta máquina se
cansa de trabalhar em vão, os motivos, talvez porque faltou dar
corda, não tem mais energia. Quando a questão da
mundaneidade não tiver mais importância, o ativismo pelo
trabalho profissional perder seu valor, quando tudo começar a
ficar em silêncio, então esta escuta da existência provoca a dor
da angústia.
Esta reflexão sobre o sentido na existência e sua
insatisfação, interfere na vida de ricos e pobres, ignorantes e
inteligentes, alegres ou tristes, felizes ou infelizes, com doença
ou saúde. Independente de ser presidente da república, ou
empresário, quando se encontra neste estado de inconsciência,
pode começar o processo de somatização e o preço a pagar é
muito caro em torno da doença e da dor. Ao contrário, quando
a pessoa consegue ser lembrada pela sua humanidade, pelas
suas realizações, tendo contribuído para que este mundo seja
melhor para se viver. Diferentes de outros que passam pela
vida sem perceber o seu compromisso com a humanidade,
perdido nos seus devaneios, é mais um na grande massa da
humanidade.
Para finalizar podemos refletir sobre a quantidade de
pessoas que vivem sem consciência de sua existência. A
questão é quais as resposta que a vida vai exigir de uma pessoa

141
alienada de seu papel social e cultural. A grande esperteza é ver
se é possível viver sem doença, ou de estar doente, e melhor
ainda estar consciente desta condição. Ousar de sua
sinceridade, de sua autenticidade, procurando nas dimensões
profundas do seu ser o potencial para poder enfrentar todos os
tipos de doenças que possam comprometer seu estado de
alegria e felicidade. Nenhum ser humano pode enxergar a
saúde, o sucesso, o amor, a felicidade como um fruto proibido.
Concluindo, todas as formas de doenças
psicossomáticas podem ser esclarecidas mediante uma
interpretação fidedigna dos momentos de infelicidade ou de
realização que fizeram parte da formação de nosso caráter. A
cada momento estamos entrando em contato com esta síntese, o
ser humano é portador de um estado de finitude e infinitude,
mas a realização da vida está no modo de como se relaciona
consigo mesmo e com os outros, é preciso ter esta liberdade
para poder relacionar-se com autenticidade.
A dialética precisa desta liberdade para saber lidar
com as suas necessidades e possibilidades de realização.
Quanto mais consciência sobre a sua existência, mais
condições para poder fazer uma interpretação verdadeira sobre
o movimento inconsciente de suas emoções, de alguma
maneira existe um estado de consciência da sua condição
doentia, mas é diferente daquela consciência especial sobre a
finalidade do ser no mundo.

142
____________________________________________ Capítulo III

3.1. Um Estudo Antropológico e Psicanalítico da Psicossomática

“Tanto os médicos como os sofistas afirmam que a medicina não pode ser
compreendida se não se sabe quem é o homem”
(Hipocrates)

As mudanças que vem acontecendo a partir do efeito


estufa sobre as transformações climáticas, da poluição, da
cibernética, da globalização cultural e econômica, levam-nos a
pensar sobre a constituição do homem no meio social e
cultural. O conhecimento de novas tecnologias e as descobertas
científicas lançou o homem num momento histórico jamais
pensado pela própria civilização. Há mais de dois milhões de
anos o homem valeu-se destas descobertas, tais como: a
colheita de alimentos, a exploração dos recursos da natureza, as
armas para a eficiência na caça e pesca, a descoberta do fogo, o
armazenamento de comida, propiciou ao homem primitivo
fazer frente a muitos desafios e dificuldades enfrentadas numa
era que exigia deste homem a aplicação de sua inteligência.
Mas este mesmo homem precisou de um grupo para
se proteger de outras tribos, portanto era preciso um líder, uma
organização, alguém que colocasse o limite, as leis, regras, os
tabus, as crenças, a religião, a política, os medos, a família, etc.
Mas cada avanço social e cultural, neste processo de evolução
de consciência, precisou de milhões de anos para que as
transformações na maneira de pensar, ser e agir pudessem
realmente acontecer. Este homem nasceu e descobriu-se na
natureza vegetal, animal, mineral e cósmica, esta relação íntima
com estes fenômenos naturais demonstrava o quanto o homem
estava distante de compreender os fenômenos que os deixava
surpreso, perplexo diante da força e do poder da manifestação
da natureza.

143
As necessidades do homem não eram reconhecidas
como organizadora de mudanças, o conceito de homem se
reproduzia naquilo que aprendia no mundo vivido, suas vitórias
e conquistas conseguiam elevar sua imagem. Existia uma super
valorização dos projetos realizados externamente, e muito
destes seus desejos e pensamentos era projetada na cultura e na
sociedade. O “conhece-te a ti mesmo”, tinha a intenção de
descobrir o homem na revelação da arte, escultura, pintura,
arquitetura, religião, política, nestas instâncias o homem
projetava o seu inconsciente. Saindo desta visão romântica do
homem, surgiram novos pensadores nesta época do iluminismo
racionalista.
Freud estava querendo saber o que se passava no
íntimo desta subjetividade humana, ao reconhecer esta
organização social e cultural e a disposição do homem de ser o
mentor das descobertas dos fenômenos da natureza. Em toda
estrutura social ou cultural está presente o determinismo
inconsciente, dimensões latentes carregadas de sentidos e
significados incorporados a uma identidade de grupo.
Estes códigos e símbolos traduzem para o coletivo o
processo de individuação. Nas tribos, começaram a surgir a
interdição do incesto, estes e outros tabus, norteavam a ação
coletiva em torno de uma religião, estas práticas e costumem
permaneciam no inconsciente coletivo devido as normatizações
e códigos das cores e da pintura que representavam seu respeito
e admiração pela natureza.
Esta estrutura de códigos lingüísticos e simbólicos
eram acompanhados pela música, pela dança, pelo ritual de
acasalamento, pela adoração de seus deuses, esta mesma
simbologia tinha como função manter a unidade, o respeito e a
admiração das forças ocultas que estavam por detrás dos
fenômenos naturais. Os seus códigos de justiça, de liderança,
de magia e curandeirismo transcendiam a superficialidade das
interações na sua tribo, o resgate da verdade era sentido

144
naqueles desejos e satisfações que eram permitidos em datas
especiais, o grupo humano procurava encontrar os caminhos
para poder conviver com as suas emoções e pulsões.
O termo psicossomático é de difícil compreensão
porque abrange a totalidade dos fenômenos sintomáticos do ser
humano, às vezes fica difícil especificar com certeza absoluta
sobre uma patologia. Mas é este o termo utilizado na
psicanálise para explicar que por detrás de um sintoma existe
um conflito inconsciente que pode gerar uma afecção orgânica.
Então, a primeira questão é explicar a natureza
inconsciente deste conflito psíquico e sua relação com a
alteração fisiológica, provocada pelo desequilibrio no
organismo. Freud explicou os sintomas histéricos através da
neurose. Ou seja, pela primeira vez na história os sintomas
eram explicados por uma repressão de uma emoção ou pulsão
vital, esta descrição nos levou até o inconsciente.
Sempre houve este debate em torno desta limitação
cultural fragmentada do ocidente, oriundos do racionalismo
iluminista da era vitoriana temos muito dificuldade que os
nossos conceitos de unicidade, integralidade, totalidade, sejam
aceitos pelas forças contrárias. Mesmo com a genialidade de
Freud, a descoberta do inconsciente ainda é muito pouco
aplicada na compreensão das somatizações. Como os sintomas
estão caracterizados por uma realidade fisiológica e orgânica
existe a tendência de anular qualquer contribuição dos fatores
psíquicos e emocionais na origem destes sintomas.
Estamos há mais de cem anos da descoberta desta
energia emocional inconsciente, e por conta da rigidez de
idéias e dogmas, ainda estamos atrelados a um modelo teórico
organicista que impede o avanço desta visão atual e inovadora.
Antes de ser descoberto por Freud o sintoma está diretamente
relacionado com algum tipo de comprometimento neuronal ou
alguma disfunção orgânica, mais especificamente a lesão de
algum nervo. Por isto mesmo todo efeito tinha uma causa, em

145
nenhum momento se ventilava a idéia que estes sintomas
estivessem além da consciência.
Foi muito difícil aceitar que o funcionamento
neurofisiológico, ou fisiopatológico, das reações neuro-
quimicas do cérebro estavam sendo reguladas pelas emoções,
ou seja, as respostas do sistema imunológico, dos hormônios,
sofriam a interferência do estado de humor e estas alterações
tinham sua origem nas pulsões e emoções recalcadas ou
reprimidas. Isto ficou amplamente comprovado quando Freud
realizou a sua visita a Charcot, era visível que através da
hipnose era possível sugestionar o aparecimento de certas
paralisias sintomáticas.
Ao começar a estudar a histeria, Freud conseguiu
perceber o poder da auto-sugestão hipnótica, acompanhados de
sintomas como, por exemplo; esquecimentos, teatralidade,
conversões histéricas, poderiam ser explicados através do
mundo das emoções. As paralisias das pernas e dos membros
do corpo eram sintomas que estavam recalcados e esquecidos
pela consciência. Freud começou a prestar atenção no discurso,
na linguagem não verbal, nos atos falhos, nos lapsos, nas
imagens, nos deslocamentos, nas condensações, das emoções
latentes, nos desejos reprimidos, para poder compreender o
significado do sintoma.
Freud estava interessado em compreender, através da
história de vida e na análise de seu discurso, das queixas, dos
sintomas. Logo depois, Lacan afirma que o sintoma se resolve
através da análise da linguagem, diz ele que o sintoma é
estruturado como linguagem e cuja fala dever ser libertada.
Freud, dizia que era preciso levar o paciente a tomar
consciência dos traumas sexuais inconscientes, esta elaboração
era a catexia libidinal reprimida e representada através do
sintoma psicossomático. Fromm faz uma leitura diferente sobre
a estrutura do sintoma, primeiro porque a dor e o sofrimento
são da condição humana, um sintoma não surge sem nenhum

146
valor ou finalidade. Acreditava que estes sintomas
denunciavam seu estado de “inumanidade” sua intenção era
elevar a condição humana ao seu mais alto valor produtivo.
A existência e a cultura aprisionam as pessoas em
ideologias, crenças, costumes, regras, normas, mitos, que
depois aparecem em forma de sintomas na sua subjetividade.
Este processo de internalização do superego em relação à culpa
e punição está enraizado na moral e no castigo. Estas emoções,
por serem dolorosas demais, acabam sendo recalcadas, como
esta energia emocional precisa realizar-se em desejo, sua única
forma de comunicação é o processo de atuação inconsciente
alocadas nos sintomas psicossomáticos. Cada paciente tem sua
própria maneira de interpretar a sua realidade subjetiva, estes
equívocos obedecem ao principio da experiência particular para
a generalização das vivências traumáticas.
Toda e qualquer manifestação de realização e
satisfação na existência, está ligada à presença da qualidade
destas relações e interações sociais, muitos são afetados pelas
suas necessidades inconscientes, de sua baixa auto estima, do
seu complexo de inferioridade, de sua megalomania, do seu
narcisismo, da sua perversão, estas neuroses acabam
bloqueando a expressão do potencial criativo. O
reconhecimento e a valorização são os desejos mais
importantes do ser humano, porque o afeto e o amor são as
condições básicas para a pessoa relacionar-se bem com a
realidade social e cultural. O real fica estendido às três
dimensões do ser humano no plano das relações, o
conhecimento interpessoal, o intrapessoal e o transpessoal.
A linguagem do sintoma denuncia uma existência que
traz no seu discurso ideológico, a expressão de um completo
estado de inconsciência. Esta realidade orgânica e psíquica
mostra a expressão de uma pessoa, com grandes dificuldades
de encontrar sentido para sua existência, e estabelecer relações
profundas de intimidade e amor. Como podemos perceber, a

147
psicanálise humanista transcende os desejos puramente
libidinais e de prazer erótico. No sintoma está escrito uma
linguagem metafórica e simbólica dos conflitos existenciais e
emocionais que são verbalizados através de suas doenças. A
dificuldade de expressar afeto e amor na relação com as
pessoas do seu convívio, e ao mesmo tempo a dificuldade de
aceitar a condição de ser desejado como pessoa.
Estes conflitos emocionais demonstram a contradição
e os equívocos de suas decisões e escolhas na sua existência.
Muito desta carência afetiva é sublimada nas compensações
obsessivas e compulsivas, esta vivência emocional pede um
espaço para fazer a experiência, e através dos seus erros e
acertos, encontrar-se consigo mesmo. Quando consegue
apreender o significado profundo da vida, existe a condição de
sair desta precocidade, da infantilidade, da imaturidade, este
debate profundo sobre os caminhos que cada pessoa tem de
descobrir para dar conta de suas necessidades inconscientes.
A sua sobrevivência psíquica na existência existe
porque soube com inteligência, utilizar todo o seu potencial
afetivo e emocional, para conseguir seu legitimo espaço na
sociedade. De qualquer maneira, sempre vão estar presente na
vida de algumas pessoas as faltas, falta de dinheiro, de amor,
de cuidado, de afeto, de compreensão, de justiça, de paz de
espírito, por isto mesmo as amizades, ou um verdadeiro amigo
é indispensável nestas horas de desespero e desamparo. Este
sintoma existencial provoca a evolução de outras áreas de sua
vida que se encontram alienadas ou prejudicadas pela
narcotização das adições psíquicas e físicas. O remédio mais
sagrado para o psíquico do humano é o amor, esta fonte
rejuvenesce o sentido de buscar um estado otimal na existência.
Mesmo com as críticas direcionadas à psicanálise
humanista. Sabemos da importância de compreender o homem
dentro de um paradigma multidimensional. A clínica
psicanalítica deveria levar em consideração esta unidade do

148
homem, esta subjetividade que está entrelaçada com a
metapsicologia e a psicopatologia. A clínica psicossomática na
psicanálise humanista, apresenta-se na compreensão das
simbologias que externaliza sua dor pelo canal de comunicação
do sintoma, ou seja, esta subjetividade interna torna-se externa,
por isto mesmo a única maneira de efetivar a cura é levar o
paciente a um processo de reflexão dialética sobre as matizes
constituintes da sua doença. Este processo de
autocompreensão, desta fenomenologia sintomática, consegue
levar o paciente a um profundo conhecimento do verdadeiro
sentido e da dignidade de sua existência.
O psicanalista não pode ser ingênuo de procurar
seguir dogmaticamente uma técnica. Se ao contrário, existir
uma sabedoria capaz de sair desta condição ingênua, e no seu
lugar levar o paciente ao autoconhecimento, com certeza
surgirá a plenitude de um processo de conscientização das
emoções latentes, esta criatividade pertence a uma
compreensão desta subjetividade pela capacidade de ser
flexível. O principal objetivo da clínica psicanalítica é, antes de
tudo, conhecer e descrever o processo de atuação inconsciente
das pulsões vitais, e emoções que obstruem a livre expressão
da energia potencializadora da realização pessoal.
O grande desafio que se coloca diante do psicanalista
na atualidade é saber: Qual é o problema escondido por detrás
desta somatização Esta subjetividade está imersa no total
desconhecimento sobre as dinâmicas inconscientes presentes
nestes atos sintomáticos. Descobrir com o paciente quais são os
seus desejos, que sonhos pretende realizar, esta meta clínica
nos remete a escutar a sua frustração, as suas decepções, as
traições, os desencantos, que são emoções que perturbam e
impedem este paciente de utilizar a sua energia psíquica com
mais eficiência, na sua vida. Todos os pacientes precisam dar
uma resposta aos desafios colocados pela existência, as duas
grandes questões, a integração da emoção e razão e o exercício

149
da vontade e liberdade. Esta questão nos remete a pensar sobre
uma antropologia filosófica e de sua projeção sobre uma ética.
Ao pensarmos sobre esta questão, podemos
vislumbrar uma concepção de homem baseado no seu desejo
de satisfação e realização de suas potencialidades, é através
deste ato produtivo que o esplendor de sua liberdade reinará
sobre a ótica da autonomia pessoal. Portanto, podemos então
concluir que este paciente é um ser livre e capaz de usar a sua
vontade, para assegurar a liberdade de ser, agir e pensar. Na
verdade, seu investimento durante este processo de libertação
pessoal é sair dos condicionamentos culturais e educacionais,
que não ajudam a viver a plenitude de sua liberdade e
responsabilidade na existência.
O psicanalista procura levar o paciente a integrar o
seu mundo emocional, e saber usar com inteligência a força de
vontade para exercer a liberdade de ser dentro de suas buscas e
realizações. Esta nova dimensão da clínica humanista leva o
paciente a sair dos condicionamentos de suas fixações, esta
imaturidade infantil é sempre regressiva. Este desejo de levar o
paciente a um processo de incondicionalidade, para possibilitar
uma nova experiência de autonomia, responsabilidade e
maturidade. Não estou me referindo aos condicionamentos
físicos e genéticos, é justamente este processo de integração
destas pulsões ontogenéticas e filogenéticas que possibilitam o
equilíbrio da energia psíquica.
Ao fazer a escuta sintomática desta dor orgânica ou
psíquica, resgata esta unidade perdida, talvez a divisão, a
fragmentação, seja a causa sintomática presente no
condicionamento desta doença psicossomática. É preciso
compreender e interpretar as simbologias imagísticas presentes
no real significado deste sintoma, este paciente precisa
direcionar a sua energia psíquica livre das fixações e regressões
do seu passado, este mesmo inconsciente é atemporal e sua
essência não pode ser compreendida dentro das categorias de

150
espaço e tempo. Na expressão neurofisiológica das emoções
patológicas se torna difícil identificar mediante as localizações
cerebrais a influência do hereditário. Esta herança
proporcionada pela evolução nos demonstra a autonomia e
inteligência presente em qualquer organismo vivo.
Esta mesma unidade do homem é explicada pela
teoria monista, que defende a tese que o ser humano deve sua
existência a um único princípio. Mas para encontrar a essência
e descobrir a autonomia da energia psíquica é preciso resgatar
o principio da incondicionalidade, esta foi uma das tentativas
para poder explicar a natureza da energia emocional.
Quando o ser humano encontra-se dividido, e por isto
mesmo exerce sua incongruência, inevitavelmente caminha em
direção da fragmentação e da doença. Mas ao mesmo tempo,
sabemos que esta experiência é fruto da divisão da
incompletude, para poder entender toda esta fenomenologia da
doença psicossomática, necessita de um método que não se
limite a uma única epistemologia conceitual.
A psicanálise precisa desta teoria sobre o homem,
sobre uma nova questão. Como o psicanalista resolve esta
questão da divisão razão-emoção Principalmente no modo de
expressão de determinadas doenças psicossomáticas, podemos
descrever quatro possíveis etiologias para uma pessoa adiquirir
uma doença. Em relação às doenças mais comuns que são
totalmente somatizadas no corpo, esta somatização nasce no
corpo e vive nele.
As neuroses psicoontogenéticas possuem sua
existência na história dos antepassados, sua presença pode ser
identificada nas imagens arquétipas daqueles antepassados que
nos predecederam. As neuroses orgânicas são muito
semelhantes às neuroses psíquicas, mas sua expressão
sintomática é o processo de somatização das emoções.
Para compreender a etiologia e a fenomenologia das
doenças psicossomáticas, ou dos processos de somatização e

151
psiconeurofisiológicas, temos de estudar primeiro o processo
desta alteração fisiopatológica provocada pela fisiologia
emocional, depois interpretar as repressões e recalques
escondidos na essência dos sintomas psíquicos. Além disso, é
importante compreender as transformações psicopatológicas
presentes nos conflitos existências, afetivos.
Para compreender esta estrutura psicogenética e sua
relação com a realidade, deste a antiga Grécia, Hipócrates
sempre defendeu a interferência dos aspectos emocionais sobre
os sistemas orgânicos. Hoje em dia ninguém pode desconhecer
a existência das doenças psicossomáticas, como por exemplo,
hipertensão arterial, enfarto do miocárdio, úlcera gástrica, e a
presença dos fatores psíquicos e psicogenéticos ou emocionais,
que influenciam sobre o processo da configuração de uma
patologia e seu desenvolvimento patológico.
Não seria demais presunçoso afirmar que a
psicanálise humanista de Erich Fromm vem aos poucos
influenciando, de maneira notável as ciências médicas e
também nas áreas das ciências humanas e sociais. Existe uma
cultura em geral que não aceita os pressupostos teóricos da
psicanálise sobre a concepção da natureza psíquica do homem,
em oposição aos conceitos dos paradigmas materialista e
determinista, em relação à natureza humana. Ao desenvolver
uma reflexão sobre uma “antropologia psicossomática”,
precisamos resgatar este diálogo entre as diversas ciências,
principalmente da medicina e psicanálise, que possuem o
mesmo objeto de estudo, que é o homem doente.
Este ser humano está atravessado por realidades
filosóficas, econômicas, sociais, políticas, ética e religiosa, para
servir de ajuda na compreensão das doenças psicossomáticas.
A psicanálise humanista sente-se chamada a fazer um estudo
sobre os processos de somatização, é preciso fazer uma
reflexão entre a teoria e a prática da clínica psicossomática,
este mesmo homem deve ser estudado dentro de uma

152
perspectiva transdisciplinar, com as várias maneiras de
interpretar esta questão específica.
A psicanálise humanista, e mais especificamente
Erich Fromm, chegou à seguinte conclusão: Que os filósofos,
como Spinoza, Mestre Eckard, Karl Marx, Shophenhauer,
Kant, Hegel, Husserl, Heidegger, Dilthey, de maneira indireta
estão presentes na elaboração dos conceitos das ciências
médicas e sociais, pois, todos fazem uma reflexão sobre os
fatores que estão por detrás das doenças psíquicas, humanas e
existenciais. Erich Fromm sofre a influência da tradição
judaica cristã e dos autores da modernidade, sua teoria se
constitui de uma análise dos fenômenos psíquicos
inconscientes da existência do homem, no centro de uma
cultura civilizatória.
A teoria da psicanálise humanista possui um método
de pesquisa e de análise do inconsciente11, ou seja, é uma
disciplina científica que atende às exigências epistemológicas
porque possui uma aplicabilidade nas ciências do espírito.
Todo o embasamento do conhecimento na medicina está
pautado sobre os conceitos físico-naturais, sobre esta influência
nasceu e desenvolveu-se todo o saber do médico na história do
conhecimento científico. Com o advento da descoberta do
inconsciente, realizada por Freud, surge a disciplina chamada
“psicossomática”.
O fato mais relevante na psicanálise humanista é de
levar em consideração na incidência destas doenças
psicossomáticas, as questões sociais, econômicas, políticas,
culturais, antropológicas, que de maneira diferente realizavam
sua contribuição para compreender este fenômeno das doenças
somáticas. No entanto, a própria medicina encontra-se obrigada
a rever seu método de pesquisa e sua epistemologia, que

11
Para um maior aprofundamento sobre esta epistemologia da teoria
humanista de Erich Fromm, recomendo a leitura do livro: A complexidade
do inconsciente na psicanálise, Editado pelo Itpoh no ano de 2008.

153
durante séculos estão pautados sobre a biologia, a química e a
física.
Sobre o encontro destas ciências, da antropologia
cultural e psicanálise, surgiu uma nova possibilidade de
compreender o inconsciente cultural, mas com um pensamento
bastante adiantado para a compreensão da época atual. Hoje
nos perguntamos: É possível uma disciplina científica como a
“psicanálise cultural humanista”? O que é realmente a
psicanálise humanista Esta reflexão se torna necessária
quando existe uma confusão sobre os limites de atuação de
cada ciência em particular, por exemplo, o lugar que ocupa no
saber clínico, o saber patológico, o saber psicossomático, o
saber antropológico.
O homem sempre foi objeto de estudo do saber
médico nas questões das doenças orgânicas, sua base de
compreensão baseia-se nos sistemas biofísico e bioquímico,
mas ao mesmo tempo reconhecemos que estes dois saberes não
podem dar conta do sofrimento humano. O fundamento do
“somático” deve ser um conhecimento que contemple o estudo
do homem, esta nova compreensão pode levar o futuro da
medicina a unificar, na sua metodologia de trabalho, outras
realidades e fenômenos que não são contemplados pelo
empirismo experimental. Estas disciplinas da anatomia,
fisiologia, biofísica, bioquímica, podem estar sendo estudadas
dentro de um novo paradigma das ciências do espírito.
A psicanálise, no estudo das doenças psicossomáticas,
precisa destas outras ciências do espírito e também da medicina
para estudar e conhecer o homem enquanto sujeito que sofre as
limitações do seu ambiente natural. Esta possível adaptação ao
mundo cibernético e econômico pode afetar a sua constituição
orgânica e psíquica, este sofrimento pode ser resolvido pela
ação destas ciências, pois, qualquer sujeito pode ser vulnerável
à ação de um vírus ou de uma bactéria que pode levá-lo a

154
morte. Mesmo a pessoa com saúde encontra-se impotente
diante de determinadas doenças.
A teoria da psicanálise humanista precisa desta
demarcação para poder fundamentar o seu saber sobre as
doenças psicossomáticas, mas é imprescindível estudar na
filosofia e antropologia para compreender esta realidade
subjetiva do homem. Ou seja, a saúde humana, as doenças, e as
ações do método clínico na psicanálise, precisam levar em
consideração a questão da formação do caráter, as influências
sociais e culturais, e os impactos dos momentos históricos,
políticos e econômicos sobre a constituição de seu estado
doentio ou de saúde.
Este estudo da mente e corpo é um tema que vem
pedindo uma maior atenção na psicanálise, a problemática das
doenças psicossomáticas exige uma maior compreensão destes
fenômenos da etiologia dos sintomas psíquicos e orgânicos. O
estudo das doenças psicossomáticas começou com Freud,
Ferenczi e Grodeck, foram estes grandes psicanalistas que
começaram este processo de investigação da mente
inconsciente com a interpretação da teoria psicanalítica. Na
Grécia antiga, a explicação sobre o fenômeno das doenças
estava relacionada às influências mágicas e míticas, naquela
época os fenômenos da natureza tinham poder para alterar o
funcionamento do organismo humano.
Logo depois, Alcemon começava a fazer seus
primeiros experimentos na dissecação de cadáveres, suas
pesquisas levaram-no à seguinte conclusão: o cérebro era o
centro da alma e da razão. Depois os filósofos pré-socráticos
começaram também a fazer as suas descobertas, Heráclito,
dizia que o centro do universo era o homem, Protágoras,
afirmava que o homem é a medida de todas as coisas, e
Empédocles defendia a importância do estudo das emoções,
principalmente o amor e ódio. Nesta época as doenças
psíquicas e orgânicas eram estudadas pelos filósofos. Surgiu

155
Hipocrates (256 A.C), este médico grego realizava um
diagnóstico multidimensional do homem, além disso, sempre
tinha presente a importância do diálogo nas suas entrevistas,
realizava suas questões sobre o momento que se deu início
estes sintomas, quais eram seus hábitos e costumes e
principalmente procurava relacionar o estilo de vida à sua
doença.
Hipocrates procurava entender a doença na sua
totalidade e não de maneira fragmentada, em partes, sua
principal teoria era que as doenças estavam ligadas às
alterações do estado de humor, do seu temperamento, do seu
meio ambiente e das atitudes no meio social deste sujeito. Não
acreditava que as doenças tinham uma relação com os
demônios, procurou métodos e teorias para desmistificar e
retirar esta concepção equivocada da medicina daquela época.
Platão foi muito infeliz ao dividir o ser humano em corpo e
alma, e ao contrário de Hipocrates, dizia que as emoções
tinham um papel inferior e sem valor, ou seja, não tinha
nenhum valor para explicar as doenças.
Na idade média houve um período negro de
obscurantismo e misticismo religioso, como a igreja tinha o
poder sobre a verdade da existência humana, os sacerdotes
procuram uma explicação metafísica ou espiritual para o
problema das doenças mentais e orgânicas. Este período foi
conhecido como a influência do poder do demônio e satanás
sobre o corpo humano, por isto mesmo eram muito utilizados
os rituais de exorcismo e da imposição de castigo para
exorcizar as possessões demoníacas. Sem dúvida, muitas das
bruxas e hereges que foram queimados na fogueira da
inquisição eram pessoas com distúrbios mentais como
esquizofrenia, psicose.
A liberdade começou a aparecer com o advento do
renascimento e sua orientação humanista, a humanidade
começou a respirar um novo ar, esta oxigenação da liberdade

156
científica e do conhecimento das leis intrínsecas dos
fenômenos naturais. Com os novos descobrimentos científicos,
a humanidade deixa de lado a apoteose do domínio teocêntrico
para voltar-se para as pesquisas da natureza cósmica, material e
humana. Com este novo momento histórico da renascença,
começa a prevalecer a comprovação e experimentação dos
fenômenos da natureza.
Este apogeu do racionalismo empirista colocava toda
sua confiança no poder da razão e da lógica formal. Com esta
nova diretriz das ciências, a medicina segue o paradigma do
materialismo físico-químico, em relação às doenças psíquicas
ou orgânicas o procedimento dos cientistas era o seguinte: todo
e qualquer fenômeno que acontece no organismo humano deve
ser estudado de maneira isolada e fragmentada.
Esta teoria do estudo na medicina do corpo humano é
dividida em matéria e espírito, sustentada pela epistemologia
de Descartes, este filósofo dizia que as doenças deveriam ser
estudadas pelas ciências físico-químicos, portanto, não existe
nenhuma relação destas doenças com o psíquico. Logo depois
surgiu Hegel com a sua filosofia dialética, da tese, síntese,
antítese, ou seja, procurava encontrar um sentido para estas
contradições na ideologia.
Desta maneira, a pesquisa metodológica do
racionalismo iluminista ficou dividida entre as explicações das
causas e efeitos e das relações de sentido e significado. Neste
segundo paradigma a subjetividade humana pode ser estudada,
aos fenômenos psicológicos conscientes e inconscientes
começaram a ser compreendidos sobre um novo olhar. Mas
mesmo assim, as ciências biológicas começaram a influenciar
os designeos dos diagnósticos das doenças orgânicas, com as
descobertas da microbiologia, dos estudos da fisiopatologia, da
anatomia, as doenças do corpo humano começaram a ser
descritas dentro de um modelo teórico organicista e fisiológico.

157
Ao mesmo tempo começava os questionamentos na área da
física e da sociologia.
Einstein conseguiu sair dos conceitos clássicos da
física moderna, para lançá-lo sobre um novo paradigma da
teoria da relatividade, e Karl Marx defendia a unidade dos
trabalhadores em todo o mundo como a única salvação para
combater o capital privado, desta sua teoria surge então o
comunismo. No fim do século passado a teoria psicanalítica é
sustentada sobre o conceito de uma energia emocional
chamada inconsciente. E com isto, Freud inaugura um novo
momento histórico no campo das ciências médicas, a sua tese
de que por detrás das reações humanas normais ou patológicas
existem emoção ou desejos que foram reprimidos, esta energia
emocional recalcada pode ser compreendida pela sua
mensagem simbólica através das doenças psicossomáticas.
A psicanálise surge como uma ciência capaz de
teorizar a subjetividade e ao mesmo tempo desenvolve um
método para analisar as patologias psíquicas. É uma teoria
preocupada em entender e descrever o processo das atuações
inconscientes desta energia emocional. Esta visão de Freud
sobre o estudo das doenças estava pautada sobre a
compreensão do homem integral, a primeira doença
psicossomática que chamou a sua atenção foi a histeria de
conversão.
Esta alteração fisiológica começava a ser estudada
sobre uma nova compreensão, o estudo da energia emocional.
Para chegar a descrever este novo processo de signo e
significado, foi preciso aprender a interpretar os sonhos,
fantasias e chegou-se a conclusão que estes sintomas eram a
expressão de alguma emoção ou pulsão que foi reprimido.
A psicanálise começava as suas pesquisas no estudo
das relações mente e corpo, seu principal problema era explicar
a estrutura e movimento da energia emocional reprimida e sua
manifestação patológica. Doenças psicossomáticas como, por

158
exemplo; histeria, hipertensão, úlceras, asma, começaram a ser
exploradas com mais profundidade a fisiologia das emoções no
cérebro humano.
A psicanálise como ciência, começou a interessar-se
por este campo de pesquisa. Esta aproximação da subjetividade
humana levou os psicanalistas a levantarem a hipótese de que
na etiologia do diagnóstico de alguma doença, deveria existir
alguma presença de emoções ou pulsões que estavam também
presentes nesta alteração funcional de algum órgão do corpo
humano.
A teoria psicanalítica defende a idéia que é
impossível separar o físico do psíquico ou vice e versa, ao
classificar as doenças em orgânicas e funcionais acaba-se
fragmentando o corpo humano em especialidades. No íntimo
de uma substância química está presente de maneira invisível
algum tipo de emoção ou imagem, estas reações bioquímicas
produzidas no cérebro, sofrem as interferências afetivas e do
seu estilo de vida. As doenças psicossomáticas sofrem com o
desejo do psiquismo inconsciente, na verdade existem outros
fenômenos sociais, culturais, educacionais, políticos e
econômicos que podem contribuir para a saúde ou a doença do
ser humano.
O estudo da gênese psíquica dos sintomas, ou das
doenças psíquicas e orgânicas, tinha na sua essência uma
origem emocional. Contudo, não podemos na atualidade
comprovar tais afirmações de acordo com as exigências das
ciências naturais. A teoria psicanalítica postula sua tese
principal de que na origem de qualquer doença, existe algum
componente psicológico e emocional. A psicanálise humanista
procura compreender o fenômeno das doenças psicossomáticas
dentro de uma visão integral, levando sempre em consideração
a sua existência interpessoal, intrapessoal e transpessoal. Os
dilemas da existência podem estar escondidos no íntimo de

159
uma doença, todo o processo de disfunção está relacionado aos
seus conflitos emocionais.
A revelação dos matizes das emoções inconscientes
demonstram a lógica do suicídio, da auto destruição, da
infelicidade, e também das doenças psicossomáticas. A
intenção primeira da psique obedece aos desígnios das
emoções, estas reações emocionais carregam consigo uma
determinação, uma intensão, um desejo a ser realizado, esta
busca incessante desta gratificação pretende preencher as faltas
de suas carências e necessidades fisiológicas e existenciais.
O psicanalista diante da doença faz a seguinte
pergunta: Qual o desejo latente que esta sendo manifesto
através desta doença Qual é o objetivo ou ganho secundário
deste sintoma Existe um destinatário oculto por detrás desta
doença? Na verdade a quem o paciente pretende atingir com
este tipo de dor orgânica Estas e outras hipóteses podem ser
levantadas para saber qual é realmente a intenção ou desejo
reprimido deste paciente.
Para compreender o fenômeno da doença no campo
psicanalítico, e de sua prática clínica, é importante levar em
consideração a relação analista-paciente. Esta postura
transdisciplinar, no estudo das doenças psicossomáticas, amplia
a exigência de mais estudo para compreender os fenômenos
subjetivos e somáticos da subjetividade humana. A psicanálise
vem se aprimorando no estudo, ensino, pesquisa e tratamento
destas doenças.
Na medida em que os estudos destas doenças acabam
sendo descritos e interpretados, surgem os questionamentos e
as dúvidas sobre um método especifico que possa atender a
todas as doenças. A psicanálise humanista tem como objetivo
desenvolver uma humanidade no tratamento destas doenças
com o paciente.
Todo psicanalista sabe da importância da sua prática
clínica na erradicação destas doenças psicossomáticas, que de

160
modo direto atingem a milhões de pessoas, cada vez mais,
vemos a necessidade de oferecer esta prática clínica para fazer
esta escuta da dor orgânica e emocional. O filósofo Montaigne
estava interessado em saber o quanto ele sabia sobre a natureza,
Rousseau, perguntava-se: Quem sou eu
Freud acrescentou; como eu sou; o que sou; e como
posso me conhecer. Fromm disse; como posso despertar no
meu íntimo o desejo de amar a vida em toda sua plenitude. A
teoria de Freud baseou-se nos seus estudos de casos clínicos;
suas descobertas mais importantes podem ser traduzidas sobre
o conceito do inconsciente, sua teoria afirma que a mente
humana é regida pelas pulsões e emoções profundas que
influenciam o comportamento humano.
Para Freud o inconsciente é ilógico e atemporal, e sua
dinâmica central é a realização dos seus desejos, esta busca de
gratificação em várias áreas da existência, este princípio do
prazer primitivo e arcaico aos poucos acaba sendo substituído
pelo princípio da realidade. O funcionamento do princípio do
prazer primário segue a lógica do mundo infantil, ou seja,
atitudes e desejos infantis permanecem atuantes na vida do
adulto.
Os sonhos é a manifestação concreta do mundo da
simbologia, é através destes símbolos, das personagens, da sua
energia emocional, que podemos conhecer as dinâmicas do
processo de deslocamento e condensação. No processo
secundário apresenta-se a maturidade e uma capacidade
progressiva de manifestar e realizar os seus desejos.
Na psicanálise, o fenômeno da doença começou a ser
estudado, na perspectiva da compreensão dos significados
ocultos e manifestos através dos seus sintomas. Na história da
doença é levada em consideração a origem de sua patologia
orgânica, de acordo com as exigências da medicina moderna,
mas ao mesmo tempo, procura-se descrever este ser que se
encontra doente, ou seja, a pessoa não é vista sobre este órgão

161
lesionado. O significado latente destes sintomas demonstra
sempre motivações e desejos inconscientes, o método no
tratamento procura elucidar e conhecer esta lógica simbólica da
linguagem do seu corpo. O psicanalista procura saber o
caminho que percorre esta energia emocional, no processo de
cronicidade de alguma doença.
Um dos conceitos centrais da teoria psicanalítica é a
compulsão a repetição, esta neurose é internalizada e depois
vivenciada sobre o ápice da identificação. Esta aprendizagem
emocional dificulta o paciente na sua interação consigo mesmo
e com o meio ambiente, esta gratificação permanece
aprisionada nos enlaces primitivos de uma criança que tem
medo de reagir ou comportar-se de modo diferente.
Esta repetição de alguns comportamentos que não
são funcionais à realização de sua existência. Esta fixação em
experiências frustrantes recorre sempre ao expediente das
regressões emocionais. Outro dois conceitos importantes é Eros
(Libido instintiva) direcionada para o sexo, amor e a
preservação da vida, e Tanatus, forças que representam à
agressão e o instinto de auto destruição.
Esta mesma fixação consegue regredir a alguma
repressão emocional, ou seja, uma vivência que representa uma
solução para algum tipo de medo ou frustração na sua infância.
Toda vez que o paciente confronta-se com estas situações,
busca no seu passado emocional a saída infantil e disfuncional
para solucionar seus problemas.
A regressão pode ser reconhecida nos doentes
psicossomáticos, quando os mesmos se apegam às doenças
para poderem manter os benefícios que lhes conferem na
existência. As fantasias são como verdades adiquiridas sobre a
realidade psíquica e principalmente das relações humanas,
estas imagens carregam sua própria verdade para convencer a
pessoa a defender o seu sofrimento.

162
Este fenômeno da regressão pode ser verificado nos
estados doentios de pacientes que não têm a coragem suficiente
para enfrentar determinados desafios da sua realidade, quando
são confrontados com estas experiências buscam seu refúgio
nas regressões emocionais e imagísticas do seu passado
infantil. Aqueles que carregam uma intensidade emocional
muito grande de culpa e medo, procuram na auto agressão o
processo de punir-se através destas doenças destrutivas.
O analista procura entender o processo de
deslocamento destas imagens para decifrar a maneira como o
paciente interpreta determinada realidade pessoal ou coletiva.
A teoria de Freud baseia-se na descrição do aparelho
topográfico; id, ego e superego. O id é a fonte da vida mais
conhecida como os instintos vitais, o ego, é o nível de
consciência que a pessoa tem entre o seu mundo e o mundo
externo, e por ultimo o superego são as informações
internalizadas da educação, cultura, moral e da religião.
A psicanalista Melaine Klein, Winnicott, Françoise
Dolto, Ana Freud, e outros, descreveram que a presença de um
superego castrador e tirânico pode desencadear na mente dos
adultos certas doenças, como por exemplo; esquizofrenia,
esquizóides, depressivos, masoquistas, autodepreciação.
Podemos verificar este tipo de sintomatologia quando
percebemos o comportamento do paciente diante de sua
doença. Esta organização corporal estrutura-se na infância e é
uma condição decisiva para o desenvolvimento de sua
capacidade de percepção e diferenciação entre sua mente e
corpo.
Outro tema interessante é a imagem corporal que cada
paciente tem sobre seu próprio corpo, esta representação
consciente ou inconsciente da imagem do seu corpo é de vital
importância para sua saúde orgânica e emocional. Existem
pacientes que estão com a sensação de que algo desagradável
está prestes a acontecer, esta sensação é mais conhecida como

163
ansiedade. Este estado emocional pode aparecer no corpo sobre
o estigma dos sintomas, esta ansiedade inconsciente é uma das
energias emocionais mais presentes nos sintomas
psicossomáticos, e por não poder expressar-se de maneira
consciente acaba aparecendo no corpo de forma inconsciente
através dos sintomas.
Este conflito psíquico permanece inconsciente e
latente sem a mínima consciência do sujeito. O mundo interno
é pautado por imagens de pessoas que tiveram algum tipo de
influência sobre a formação do caráter, esta introjeção de
vivências traumáticas pode manifestar-se no corpo em forma
de sintomas psicossomáticos.
Existem fases da vida em que o fenômeno do adoecer
se faz presente, por exemplo, a puberdade e a menopausa. As
experiências traumáticas do desmame, das atividades escolares,
as crises no casamento, o desemprego, a crise da meia-idade,
podem ameaçar o equilíbrio da homeostase psicofisiológica,
provocando em alguns órgãos reações patológicas.
Muito da saúde emocional e orgânica de uma pessoa,
depende do nível de consciência e do conhecimento sobre o
funcionamento dos seus conflitos emocionais, esta capacidade
de saber lidar com situações de conflito na sociedade e no
trabalho pode diminuir, e bastante, o nível de ansiedade e
angústia.
Cada paciente tem uma identidade específica em
relação a um tipo de uma doença psicossomática. Estes
fenômenos sintomáticos precisam ser colocados entre
parênteses, como diziam os gregos em “epoclé”, esta descrição
procura entender e sistematizar um método de solução ao
problema somático. A relação entre o somático e psíquico,
podem ser explicados com a ajuda das teorias da física quântica
de Heisenberg e da metafísica de Nicolai Hartmann.
A realidade é uma unidade formada por diversas
partes, porque toda tentativa de compreender o biológico pelo

164
mecanicismo, o psiquismo pelas reações físico-químicas, a
consciência pelos condicionamentos, numa tentativa de
explicar a totalidade subjetiva através da comparação de suas
partes é um equivoco. É quase impossível entender a
manifestação da energia psíquica inconsciente porque esta
revelação acontece através das metáforas simbólicas que
explicam a inter-relação do físico e psíquico.
Esta mesma diversidade de sintomas e de suas
estratégias de ação é muito diferente na sua constituição
psicofisiológica. Em efetivo, o mundo e a realidade subjetiva
são princípios ligados por uma união que não é possível ser
vista com a percepção humana, é através desta ordem na
desordem que o fenômeno se dá a conhecer. O sintoma
psicossomático traz consigo uma ordem e não um princípio.
Não existe nenhuma maneira de conceituar o fenômeno
sintomático, os paradigmas teóricos do materialismo e
espiritualismo têm se defrontado para explicar esta ordem na
desordem.
Antes de descrever o fenômeno do sintoma, temos
que entender a manifestação da energia emocional. O que
entendemos por psiquismo Como podemos conceituar ou
definir esta dimensão dos sintomas psicossomáticos na relação
com o humano no homem Ao perceber o sintoma, temos de
conhecer a etiologia do fenômeno em si mesmo, é preciso
descrever e conhecer esta “aparência” para apreciar com
objetividade a linguagem simbólica presente no real
significado dos seus processos fantasiosos e imaginários.
Este entrelaçamento entre o mundo vivido e a
consciência, não acontece somente na consciência da
experiência de uma pessoa, mas ao contrário, esta tomada de
consciência, expande-se além de si mesmo e incorpora todos os
acontecimentos da cultura e da sociedade. Este outro estado de
consciência do mundo tem seus significados e intenções. Na
verdade a consciência do mundo ou o mundo da consciência

165
acontecem simultaneamente, não existe esta separação, esta
relação mútua e complementar. No sintoma de um paciente
existe em algum grau de intensidade, certo grau de consciência
sobre as motivações conscientes e inconscientes da
configuração daquele sintoma.
Esta parte racional e cognitiva que explica o sintoma
consegue reduzir todo o fenômeno ao estudo da fisiopatologia
daquele órgão especifico. Esta percepção equivocada não
compreende a consciência de um mundo vivido no próprio
sintoma. Por isto mesmo é muito difícil explicar esta
subjetividade do sintoma e sua linguagem metafórica e de
sentidos, através de uma análise fisiológica e mecanicista do
órgão. Quando temos uma percepção de um órgão do
organismo humano, acontece a seguinte dinâmica: aquela
realidade de um órgão especifico é o efeito que aquele signo
produz na retina do olho através dos raios luminosos.
Ou seja, este efeito acontece puramente na
mundaneidade do fenômeno, no processo da formação da
imagem, os olhos e o órgão são a mesma coisa. No plano
cognitivo e racional não interessa a compreensão desta
fenomenologia sobre a análise da percepção daquele órgão do
corpo humano, ao contrário, existe o desejo de colocar em
palavras o significado do órgão. Na interpretação do fenômeno
psicossomático não podemos admitir este distanciamento ou
uma racionalização da divisão ou separação do sujeito e objeto.
Na clínica psicanalítica humanista se propõe uma
interpretação do fenômeno psicossomático, dentro de uma
percepção integral e multidimensional do paciente, portanto
com esta atitude se retira a possibilidade da ruptura e
fragmentação da análise diagnóstica. Esta aproximação entre o
conhecimento do funcionamento inconsciente e o
desvelamento do sintoma que se dá a conhecer, nos leva à
verdadeira compreensão do fenômeno psicossomático.

166
O paciente apresenta-se na clínica com a totalidade da
expressão do sintoma, esta presença do paciente está
representada pela comunicação de suas queixas, esta
originalidade atende às leis íntimas do fenômeno doentio.
Quando se inicia o processo de interação das intenções
inconscientes, é fundamental que o analista esteja inteiro para
acolher o sintoma.
Esta entrega do sintoma é um sinal de confiança, a
conquista do paciente é a regra básica para a sua
transformação, não existe tratamento sem a anuência e verdade
desta decisão pessoal. Este sintoma é uma conquista
inconsciente, sua vida rege através do sofrimento deste
sintoma. Para realizar a inversão de um outro tipo de satisfação
e realização, é preciso tomar consciência para buscar outros
prazeres mais saudáveis na sua existência.
Quando o paciente começa a descoberta destas
dinâmicas inconscientes, este novo conhecimento de si mesmo
amplia a condição de ser possuidor de uma nova consciência
sobre seu sintoma, o fenômeno psicossomático começa a se
revelar, em outras palavras, se dá a conhecer. Por isto mesmo,
a solução do sofrimento passa por esta nova interpretação do
sintoma, quando não existe mais o sintoma começa a
compreender que a energia emocional se dissipou pelo
completo desaparecimento. Na subjetividade destes novos
significados, o real sentido do significado começa a ter o poder
de gerar novos processos de simbolização com a ajuda de sua
imaginação.
Mas para conhecer o sintoma do paciente, é preciso
elaborar a sua existência, esta prática individualista e narcisista
não permite o avanço para descobrir as dinâmicas
inconscientes ou das mensagens simbólicas presentes nesta
sintomatologia doentia. É preciso, antes de tudo, que o paciente
queira conhecer e desvendar as matrizes ocultas que estão
escondidas no íntimo da neurose ou do complexo em

167
constelação afetiva e existencial. Na medida em que avança a
análise, ampliam-se as chances do paciente entender as
mensagens simbólicas presentes nos diversos significados
latentes daquele sintoma psicossomático.
Fromm, sempre defendeu a compreensão das
patologias psíquicas ou orgânicas levando em consideração o
nível de consciência sobre a sua existência12. Isto significa o
desejo de descobrir, no íntimo do fenômeno sintomático, uma
existência frustrada e infeliz. Quando a psicanálise humanista
leva em consideração a presença de um psiquismo que possui
uma alteridade e um desejo de evolução, esta mesma energia
emocional representa o desejo de potencializar a existência.
Isto significa que o paciente começa por uma decisão
pessoal um novo percurso de autoconhecimento e ao mesmo
tempo utiliza todo seu potencial de inteligência cognitiva para
ajudar-se na difícil tarefa de sua sobrevivência psicológica.
Todo este legado descoberto durante a sua análise possui a
condição de integrar os seus conflitos entre a realidade do
mundo vivido e a existência
Ao se conhecer, desaparece o sintoma, a dor é a
manifestação de algo que não é conhecido, mas que precisa ser
compreendido e interpretado. A evolução da consciência passa
pela interpretação destas emoções reprimidas ou recalcadas que
sustentam a presença da dor através do sintoma. O sintoma é
simplesmente um significado que precisa ser interpretado na
sua originalidade. Esta sua presença na vida do paciente faz a
denúncia ou a reclamação de um organismo que se sente
incompreendido e violentado.
A psicanálise humanista possui na sua essência este
desejo de conhecer em profundidade, o funcionamento
inconsciente destas sintomatologias. Mas para tal objetivo é
preciso conhecer a verdade sobre o paciente, esta relação de

12
Pereira, Salézio. O dilema do ser humano na existência. Ed. ITPOH,
Santa Maria, 2007.

168
compreensão em relação ao outro nos mostra o quanto somos
humanos. Então, sabemos que é possível conhecer a natureza
do sintoma, esta possibilidade é uma realidade objetiva quando
existe a cooperação, o desejo, a vontade de tomar consciência
sobre os descaminhos dos atos sintomáticos. Neste sentido o
materialismo se equivoca quando afirma que o psíquico é um
mero epifenômeno da matéria.
De acordo com o paradigma teórico do organicismo
materialista, os resultados das pesquisas da fisiologia e da
patologia cerebral, e algumas conclusões da genética, se
baseavam neste tipo de teoria. Os primeiros estudos do cérebro
era descrever as localizações ou mapeamento em zonas
especificas, e dos efeitos de algumas doenças que destruíam as
funções ou atividade psíquica.
Depois, surgiu a idéia de que estas doenças tinham
sua origem na hereditariedade, que era capaz de condicionar e
determinar a existência de determinadas doenças de acordo
com a influência de genes destrutivos. Mesmo que a psiquiatria
ou neurociência sejam capazes de comprovar suas teorias,
ainda acredito que a consciência seja capaz de ser autônoma,
apesar de sua dependência.
Os trabalhos científicos na área da neurofisiologia e
da neurociência estão muito adiantados e não temos dúvida da
contribuição da medicina à saúde do homem, no estudo de
localizar determinadas funções do cérebro. Todos sabem que
estas teorias foram realizadas em laboratório experimental,
primeiro são realizadas em animais e depois são aplicadas ao
ser humano com extremo rigor cientifico. Muitos cientistas
esquematizaram as respectivas zonas cerebrais, por exemplo,
da fala, da visão, do olfato, da audição, etc. Logo depois se
chegou à conclusão que o psiquismo se reduzia a um grupo
especifico de neurônios.
Mas este dogma teórico foi realizado num clima de
positivismo materialista, com este espírito da neurofisiologia

169
começaram a realizar novos estudos e chegaram à conclusão de
que existia a recuperação de áreas lesionadas no cérebro. O
que também foi verificado em estudos com animais. Isto levou
a uma nova conclusão de que outros centros do cérebro
assumiam estas funções das áreas que foram lesionadas. Com
estas descobertas não se podia mais defender a teoria das áreas
e sua função, e a segunda é de que existe em nosso cérebro
uma quantidade infinita de neurônios que se encontra
habilitado para assumir qualquer outra função.
Esta constatação levantou a seguinte questão: Onde
se encontram estes neurônios disponíveis para entrar em ação
no caso de uma lesão cerebral Diante desta questão levantou-
se a hipótese de que a comunicação neuronal é uma totalidade
holográfica e seu processo de comunicação está muito além das
categorias do espaço e tempo conhecidos pelos cientistas na
atualidade. Não nos resta a menor dúvida de que há mais de
dois milhões de anos o cérebro vem realizando seu processo de
evolução. Mas deixamos de lado esta discusão neuroanatômica
do cérebro e fixamos nossa atenção no processo de
humanização que se amplia pelas aprendizagens cognitivas e
emocionais.
Desde o primata hominídeo mais antigo até o homem
sapiens, a ciência médica acompanhou casos de pessoas que se
recuperaram de diferentes tipos de lesões neurológicas. Com
esta constatação começamos a admitir a inteligência
organísmica presente no íntimo de cada neurônio. Isto significa
que sempre vai existir a possibilidade de recuperação, esta
capacidade flexível do cérebro é uma herança ancestral e
biológica. Agora chegamos à conclusão que os neurônios
constituem-se o potencial da inteligência inconsciente e
organísmica, ou seja, é através desta massa crítica que o
homem possui o talento superior de buscar sua própria
realização.

170
Na psicanálise humanista existe o entendimento de
que esta realidade biológica está a serviço da evolução da
consciência humana, mas esta plenitude depende dos aportes
apreendidos durante nossa existência. Para entender o sintoma
é preciso pesquisar e tomar consciência dos desafios e
dificuldades que são colocadas no caminho de uma pessoa,
estes conflitos emocionais e existências propiciam uma direção
à descoberta de sua verdade.
A dor sentida num órgão é a demonstração das forças
psíquicas inconscientes que lesionam aquele órgão. Então, esta
relação entre o psíquico e somático não determinam o ser
psicológico do paciente, este estado sintomático é somente um
condicionante para expressar a patologia psíquica. Por
exemplo; toda a tentativa de tratamento farmacológico, de uma
intervenção cirúrgica, de um eletrochoque, tem como objetivo
resgatar a funcionalidade da atividade psíquica.
Na verdade não existe um diagnóstico preciso sobre a
sintomatologia psíquica ou orgânica de algumas doenças
psicossomáticas, não podemos simplesmente explicar ou
interpretar isto por aquilo. Ou seja, a condição psicossomática
é uma mera condição das emoções inconscientes, mas nunca
será sua causa, porque a autonomia do psiquismo segue as leis
da natureza humana. Às vezes escutamos alguns teóricos
defenderem a idéia de que existe a condição de realizar uma
cirurgia para descobrir as intenções psíquicas escondidas numa
doença.
Outros dizem que é possível uma intervenção
psíquico química, esta terapia farmacológica procura resolver a
etiologia da neurose de conversão através dos medicamentos e
não do conhecimento de sua causalidade. Este é o grande
perigo dos cientistas da área farmacológica, que receitam estas
drogas sem o mínimo senso crítico deste tipo de solução aos
sintomas psicossomáticos. E outros afirmam que a análise
deixará de existir e que num futuro próximo a terapia química

171
será a solução para todas as doenças. Na psicanálise
entendemos que mesmo com estas intervenções químicas “a
energia emocional” não sofre nenhuma alteração, temos que
entender que o psiquismo inconsciente não pode ser descoberto
e nem desbloqueado através de um tipo de medicação.
Sabemos que a condição física ou orgânica influencia
e altera o estado emocional, mas ao mesmo tempo não
podemos concordar que o psíquico é uma conseqüência da
matéria orgânica. O corpo é um fenômeno complexo, mas não
é a causa do psiquismo emocional. O sintoma psicossomático
limita a evolução da consciência, mas a análise e interpretação
do sintoma, liberta e devolve o desejo de continuar o
desenvolvimento da sua condição de saúde.
Para entendermos o sintoma é preciso compreender a
dinâmica existencial e emocional e sua relação com a dimensão
psicofísica, isto significa interpretar o sentido da existência de
certas emoções no seu caráter e a repercussão desta relação
entre a sua consciência e o organismo psicossomático. O órgão
afetado pelo sintoma é uma mera comunicação que está
condicionada às crenças, costumes, ritos, mitos, esta linguagem
simbólica expressa através do sintoma, os seus desejos latentes
que agora se encontram manifesto.
A opção de procurar a análise é uma liberdade
condicionada pelo seu sintoma, esta mesma condição
inviolável transcende a síndrome, porque mesmo quando sua
condição física é afetada pela doença, existe a condição de
continuar vivo, a destruição não consegue apagar seu caráter e
valores. Esta mesma condição de doença pode levar o paciente
a um novo encontro consigo mesmo, durante o processo de
recuperação psíquica acontece um fenômeno chamado
“autoprodução”, exercer a sua condição de sentir-se útil e criar
as condições para tornar a sua vida bastante eficiente. Mesmo
diante das heranças genéticas e seus condicionantes, o ser
humano permanece livre para utilizar suas “potencialidades”

172
para liberarem-se destes condicionamentos físicos e
existenciais.
O corpo humano tem uma inteligência inconsciente
capaz de atualizá-lo para tornar possível novas aprendizagens
em direção à sua realização. O corpo físico precisa deste
complemento de satisfação, reconhecimento, valorização, esta
é uma necessidade corporal que abre amplas possibilidades de
sua realização psíquica, porém é preciso interpretar as
exigências das pulsões e emoções. A origem do ser humano
carrega consigo a dualidade física e psíquica, mas na sua
totalidade é uma interação de energia emocional. Este ser
humano é fruto de um desejo consciente que acontece no
encontro do espermatozóide e do óvulo.
Temos a consciência de que nesta criança existe uma
realidade herdada dos cromossomos destes pais, no entanto não
temos como prognosticar a formação do seu caráter. As
condições físico-químicas e psíquicas estão presentes em
potência no organismo biológico, a utilização do raciocínio e
da inteligência leva este ser a uma realidade subjetiva
totalmente nova e criativa. Estas experiências e vivências
emocionais não podem ser transferidas por herança genética.
A autonomia, a individualidade, a criatividade, estão
acima da condição biológica, este processo de evolução pessoal
depende do grau de sua realização pessoal. Isto não significa
que estamos condicionados e determinados hereditariamente a
ficarmos doentes. O ser humano é uma unidade integrativa de
todos os seus sistemas do organismo, esta individualidade não
pode ser dividida ou fragmentada.
O ser humano é sempre uma novidade, como
anteriormente discutimos. Porém nos encaminhamos para
estudar este homem doente, e para falar deste processo de
humanização deste o princípio biológico e existencial, é
preciso conhecer as leis intrínsecas do fenômeno emocional. A
origem da emoção tem relação direta com a existência, nunca

173
poderemos negar que esta pessoa tem sua origem nos
cromossomos, recebemos sem dúvida esta herança
ontogenética e filogenética. Mas a formação do caráter, seus
valores éticos e sua criatividade na existência é algo
intransferível, cada pessoa tem o dever de buscar na sua
liberdade, a responsabilidade pela realização de uma história de
doença ou de saúde.
Concluímos que o homem é livre mesmo diante dos
condicionantes hereditários, talvez a psiquiatria e sua ciência
natural biológica e genética não concorde com este
pressuposto. Fromm, sempre defendeu o ser humano como
alguém aberto para ser livre e responsabilizar-se na existência.
Ao mesmo tempo, o homem tem de conviver com estes
condicionantes de sua liberdade, temos a certeza que existe um
potencial psíquico para transcender as limitações do biológico.
Os sintomas psicossomáticos que geram dor,
sofrimento, angústia, ansiedade, não são meros efeitos dos
fenômenos físico-químicos. O paciente, quando consegue
dispor de sua condição de assumir-se diante do seu sofrimento,
como um processo de aprendizagem, é capaz transcender o
significado da revolta e da indignação como uma mensagem
para realizar mudanças significativas em sua existência.
O paciente não está condicionado a sofrer através
destes sintomas, sua consciência é capaz de sair desta condição
da doença para a saúde. Diante desta constatação podemos nos
perguntar: Qual é o sentido da vida humana Qual é o
significado de seu sofrimento É possível ao homem
transformar o seu sintoma psicossomático numa aprendizagem,
que o ajude nesta difícil tarefa de sua humanidade Qual é o
maior sentido na existência de um homem A psicanálise
humanista de Fromm procura sair desta condição obtusa e
conformista das ciências reducionistas da condição do homem
no mundo. Estes dogmas teóricos e conceituais corrompem a

174
compreensão do homem na existência, seu destino e sua
realização.
Temos sair deste reduto reducionista e simplificador
da natureza humana, o homem não pode ser visto como uma
matéria destituída de vida. As ciências naturais são obrigadas a
admitir a existência desta realidade subjetiva, não se pode
compreender o homem sobre o paradigma materialista e
organicista. No estudo das doenças psicossomáticas temos que
levar em consideração o sentido e a intenção psíquica do
sofrimento humano. Não podemos concordar com este conceito
de um homem fisiológico e condicionado pela sua herança
genética, estas teorias fundamentalistas acabam reduzindo o
homem a um objeto como se fosse uma coisa material.
O humanismo de Fromm defende um conceito de
homem aberto a utilizar o seu potencial criativo em prol de
uma produtividade. A evolução da consciência passa por este
processo de auto-descoberta pessoal, não existe humanização
sem a vivência plena da liberdade e autonomia pessoal. O
paciente quando nega o seu sofrimento, está fugindo do
encontro consigo mesmo.
Para poder elaborar o sintoma é preciso de um
sentido e um significado maior que o faça lutar pelo seu amor à
vida. A existência contempla na vida a questão da dor, e o
sofrimento é um convite a buscar dentro de si mesmo as forças
capazes de superar-se e compreender o significado latente
destes sintomas na existência.
Quando o paciente utiliza o mecanismo de defesa,
para racionalizar ou narcotizar este sofrimento orgânico,
estamos diante de uma pessoa que não se encontrou ainda na
existência. Ao negar o significado real do sintoma, obscurece
ainda mais seu estado de inconsciência sobre decisões e
escolhas desumanizantes em relação a si mesmo e às pessoas
do seu convívio. A compulsão a repetição apresenta-se sobre a
vontade de vencer na vida através do trabalho sem limites.

175
Esta atividade profissional pode tornar-se a expressão
de vários sintomas, como por exemplo, dor muscular, insônia,
falta de apetite, irritação, nervosismo, este estado de vida
desencadeia um nível de “stress” agudo ou crônico. Este
escapismo no mundo da atividade profissional esconde sua
falta de tempo para conhecer outras instâncias do seu ser, que
se encontram decadente e desumanizantes.
Entendo que o psicologismo procura a objetividade
do fenômeno subjetivo, este método de mensurar, controlar e
neutralizar, é oriundo da proposta positivista. Quando o ser
humano é visto como uma simples máquina em funcionamento
e indiretamente é destituído de toda intenção psíquica, estamos
realmente diante de um objeto de pesquisa.

176
3.2. A Influência da Biofilia e da Necrofilia na Origem das
Doenças Psicossomáticas

O que estamos vivenciando na era da globalização é


uma interferência cultural arbitrária, estes conflitos de amor e
ódio, criação e destruição, paz e guerra, diálogo e discordância,
egoísmo e solidariedade, parecem indicar que esta dinâmica
dos opostos encontra-se no íntimo do ser humano e
experenciado por toda a humanidade.
O homem precisa saber conviver com os riscos que a
natureza apresenta, tais como: maremotos, terremotos. Se isto
não bastasse, a vida frenética da sociedade moderna pode
fragilizá-lo, expondo seu organismo aos riscos das doenças
psíquicas e somáticas. Existe de fato na natureza biológica uma
força maligna que é capaz de destruir e matar.
Estas forças destrutivas presente na essência da
natureza filogenética e cosmogênica com certeza possuem
todos os poderes para destruir nosso habitat natural. O homem
vem utilizando da ciência e de suas pesquisas cientificas para
poder impedir este processo de destruição. Por isto mesmo
podemos compreender porque o homem volta-se para a magia,
os mitos, as religiões, para buscar saúde e proteção a sua vida.
Estamos acompanhando vários rios em nosso país e
no mundo onde as enchentes devastam, plantações, campos,
cidades, casas, alimentos, escolas, deixando milhões de pessoas
flageladas e na pobreza absoluta. Ao mesmo tempo, os
incêndios criminosos na Amazônia destroem as arvores,
florestas, microorganismos. As aves e animais selvagens são
incinerados pelo fogo, em lugar da mata e da vegetação surge
um cenário de destruição, um ambiente hostil e árido, sem
vida.
Estamos acompanhando a todo o momento uma série
de terremotos, maremotos, furacões e tempestades
devastadoras em toda a extensão do nosso planeta. Enquanto a
177
camadas glaciares são degeladas por causa do efeito estufa,
milhões de pessoas indefesas são totalmente destruídas sem a
mínima piedade da natureza. E em nosso país milhões de
pessoas estão morrendo nos hospitais, vagarosamente, vítimas
das bactérias, toxinas, e de várias doenças destrutivas, tais
como, a leucemia, câncer.
Ao acompanharmos todo este quadro de violência da
natureza, outros estão morrendo de tédio, de tristeza, de fome,
de acidentes, a morte se aproxima com seu furor e rapidez.
Mesmo diante das respostas da natureza, a agressão do homem
continua com o desmatamento, a poluição, a exploração das
riquezas naturais sem o mínimo de escrúpulo. O homem não
consegue aprender o valor da solidariedade, da distribuição das
riquezas dos recursos naturais e culturais.
Devido ao egocentrismo e à ambição do homem
moderno, sem dúvida muitas das civilizações que se destruíram
servem de exemplo para todos nós, é preciso interromper este
processo de autodestruição. Além disso, o homem utiliza seu
potencial científico para desenvolver armas bélicas e bombas
nucleares usadas para destruir pessoas, igrejas, museus,
universidades, edifícios, e seres inocentes como os civis e
crianças.
Mas todo este arsenal bélico é financiado graças a
cobrança de impostos dos cidadãos, estes líderes utilizam o
poder bélico para ameaçar e controlar, através do medo, o
destino de muitas nações, esta falta de humanidade nas
decisões inconseqüentes destes líderes pode gratificar o desejo
sádico das suas vaidades pessoais e ao mesmo tempo
comprometer a vida da humanidade.
Qualquer pessoa com uma consciência crítica
consegue perceber os conflitos racistas, a exploração, a
dominação cultural, o egoísmo, a pobreza material, a fome, a
miséria quase absoluta, a ignorância, todas estas ações
proporcionam ações destrutivas. Como podemos perceber,

178
existem pessoas que utilizam seu tempo, dinheiro, esforço,
energia, para gerar conflitos, criar guerras, tudo com a intensão
de destruir. Esta pessoa serve-se de sua inteligência para
disseminar a dor e o sofrimento, e outros tantos acabam se
destruindo a si mesmos. É interessante observar este desejo
necrófilo pela morte e destruição.
Ao mesmo tempo em que o homem deseja a
liberdade, a saúde, a felicidade e fraternidade, desencadeia
ações para estabelecer a permanência da doença, da depressão,
do narcisismo e do individualismo. O psicanalista através de
seus atendimentos clínicos está ajudando estas pessoas a
conseguirem uma melhor qualidade de vida e com isto viver
mais com alegria e felicidade.
Seu trabalho é em defesa da vida, porque acredita no
valor universal da existência. Sua função é ajudar a preservar a
vida, com esta atitude acredita estar contribuindo para defender
a humanidade do encontro com a morte da criatividade, da
iniciativa, dos valores morais, da inteligência, e por fim da
morte da vida.
Depois de um grande investimento na defesa da vida,
muitos acabam se desiludindo e desistindo dos outros e de si
mesmos. Os psicanalistas percebem que os pacientes não
desejam curar-se de seus flagelos pessoais assim como dizem.
Muitas das pessoas mais próximas usufruem destas doenças na
família, e por isto mesmo não querem abdicar deste ganho
secundário, em outras palavras, consciente ou
inconscientemente não querem mudar e por isto acabam
alienados ao seu estado doentio de viver.
O psicanalista se dá conta que sua luta não é só contra
as neuroses ou psicoses, mas também por toda uma condição
social e cultural, dos seus condicionamentos, das
psicopatologias e perversidades apreendidas no decorrer de sua
existência. O objetivo do psicanalista, durante a sua análise é
impedir que os familiares e pessoas do seu convívio mais

179
próximo, possam atrapalhar a sua recuperação e que a decisão
do paciente volte-se para combater a doença e não deixar de
lutar pela sua recuperação.
Esta observação levou Sigmund Freud a defender a
existência de um instinto de morte, que mais tarde foi chamado
por Erich Fromm de desejo necrófilo. Este desejo de
autodestruição só acontece quando as condições propiciam a
realização de um desejo inconsciente de suicídio. Mas existe
uma contradição neste desejo de morte, se existe este impulso
para a autodestruição, por que muitas vezes o ser humano luta
desenfreadamente contra a morte. E porque nem todos buscam
o suicídio ou se destroem? Na verdade, percebemos um desejo
muito forte de superar os desafios e dificuldades, tanto interno
como externas. Talvez seja mais interessante descobrir de onde
surge este desejo de lutar pela vida e não explicar porque
morremos. A nossa conclusão é que o amor à vida, sempre
acaba triunfando sobre o desejo de morrer.
A teoria psicanalítica descreve este instinto como um
desejo de preservar a vida, amá-la, defendê-la e vivê-la
intensamente, é um estado de biofilia, e o outro, de extinguir
tudo que tem vida. Estas duas forças pulsionais estão sempre
em conflito, parece uma contradição, mas a dialética da energia
inconsciente é sempre criar e destruir, amar e odiar, ajudar e
explorar. Esta energia psíquica exerce uma força sobre as
condições emocionais do “eu”, levando o “ego” a direcionar-se
para o mundo externo.
Qualquer ser humano que deixar de ser “produtivo” e
ampliar a sua consciência, é o mesmo que desencadear o
processo de autodestruição pessoal, em vez de lutar pela vida e
enfrentar os seus inimigos acabam destruindo a si mesmos. Em
vez de amar os seus amigos, desenvolver seus projetos de vida
com uma opção de colocar seus talentos produtivos na ajuda da
comunidade, ao contrário, estas pessoas estão interessadas
numa única coisa: Tornar-se egocêntricas. Eis o princípio da

180
ambivalência, o amor e ódio caminham muito próximos um do
outro. Estas duas emoções são os símbolos destas duas
tendências presentes na natureza humana do narcisista.
Não existe uma droga capaz de livrar o homem desta
tendência autodestrutiva. Esta fenomenologia das doenças
psicossomáticas procura descrever e entender a manifestação
destes sintomas, de um modo peculiar e diferente em cada ser
humano. Sempre levando em consideração as transformações
que ocorrem na vida de um paciente, como por exemplo, o
ambiente de trabalho, a convivência na família, a situação
econômica, o nível cultural. Todos estes fatores externos
podem provocar algum tipo de desequilíbrio no organismo.
Ao analisarmos o sentido da vida de um paciente,
podemos compreender as suas ações inconscientes que
desencadeiam toda uma sintomatologia destrutiva, alguns
conseguem se destruir o mais rapidamente possível, outros
postergam a vida e vão morrendo aos poucos, e outros
procuram atitudes para provocar a sua morte. Existem os que
decidem lutar com valentia e coragem, esforço e ousadia para
superar todos os desafios que a doença coloca no seu caminho,
este desejo de amor à vida sobrepõe o da morte.
Este desejo de autodestruição acontece de maneira
inconsciente, é uma tarefa quase impossível ao analista
desvendar e superar as resistências e transferências durante o
tratamento deste tipo de doença destrutiva. Existem crenças,
verdades absolutas, valores morais e ganhos secundários que
são a expressão de um complexo neurótico que controla e
convence o paciente a buscar a morte em vez da vida. São
perceptíveis na vida aqueles que amam a vida e os que se
destroem completamente. Entretanto, muitas pessoas estão
neste processo de autodestruição, mas conseguem interrompê-
lo pagando um preço muito alto, para substituí-lo pelo amor a
vida.

181
Ou seja, esta transformação não acontece ao acaso, é
preciso antes de tudo tomar consciência sobre o preço que cada
um paga pelo sofrimento e a dor. Talvez o custo muito alto,
motive as pessoas a quererem sair desta situação de morte, nem
sempre os sintomas é a melhor saída para os seus problemas
existenciais. Quando um médico tem de amputar uma perna de
um paciente com o seu consentimento, esta decisão é tomada
de maneira consciente pelo paciente, pois está ciente que vai
perder uma de suas pernas, o ganho em relação a esta decisão,
é continuar vivendo, é uma espécie de autodestruição
preservadora.
A questão do autosuicídio ainda é uma incógnita,
porque alguns pacientes decidem se matar aos poucos através
do alcoolismo ou da adição de algum tipo de droga, seja ela
lícita ou ilícita. Estes pacientes não fazem o menor esforço
para sair desta condição, as atitudes são propositais; por
exemplo, procurar atitudes que possam afastá-los das pessoas
que amam, roubando, mentindo, falindo, etc. Este desejo
intencional, inconsciente de perpetuar a inimizade, a
desonestidade, a deslealdade, é o caminho trilhado para viver
no abandono e na solidão.
Este outro tipo de paciente é mais conhecido como
psicossomático, são aqueles que não se responsabilizam pelo
seu processo autodestrutivo dos sintomas somáticos, neste caso
o desejo de morte mostra sua cara através destas doenças. Esta
é a finalidade da psicanálise humanista, procurar saber os
motivos inconscientes que levarão estes pacientes, a esta
prática de autosuicídio sem a mínima consciência. Este sintoma
aparece simbolicamente neste ato destrutivo, aos poucos e de
modo sorrateiro o sofrimento e a dor tomam conta da vida do
paciente.
Esta relação entre o masoquismo e sadismo também se
encontra em um grande número de pacientes, que não são
capazes de suportar o sucesso, investem dinheiro e tempo em

182
vários projetos, mas depois, os frutos deste sonho estão
comprometidos pelo fracasso. Esta é uma maneira de destruir
sua auto-estima, de recriar para si mesmo uma imagem de
incompetente, de provar para si mesmo que a doença é a causa
de seu flagelo pessoal.
O suicídio é uma temática difícil de ser tratada, por
exemplo, certas comunidades não permitem que as pessoas do
seu convívio falem o seu nome, os jornais são proibidos de
publicar as notícias sobre os motivos do suicídio. Sem dúvida,
existem muitas alternativas para que o desejo de viver possa
influenciar o desejo de morrer, as pessoas estão buscando
novos recursos para fugir deste processo autodestrutivo.
Este processo de autodestruição tem suas motivações
inconscientes, por isto é importante enfrentar este tema e não
simplesmente negar a sua existência, porque é um tema
negativo, ou seja, esta atitude não muda em nada esta triste
realidade. Em qualquer parte do mundo é muito comum o
suicídio, portanto é fundamental esta discussão sobre as
motivações que levam uma pessoa a tirar a sua própria vida.
Estas explicações sobre as motivações do suicídio, não
soluciona os seus problemas, esta decisão é irracional e
fantasiosa em relação à existência. Este processo destrutivo é
muito parecido com as doenças psicossomáticas. Estes
sintomas têm sua origem nas influências culturais e sociais,
mas também dos desejos e pulsões que foram reprimidos. Os
conflitos podem aumentar a pressão arterial, levar o organismo
a experimentar um estado de tensão e nervosismo quase
insuportável, em alguns casos são toleráveis em outros, são
muitos dolorosos.
Para aquelas pessoas que amam a vida em toda sua
plenitude, não existe nenhuma situação desfavorável que
justifique a prática do suicídio. Existem muitas situações de
fuga da realidade para não enfrentar os traumas e situações de
desespero, porém queremos saber por que estes pacientes

183
procuram alguma situação na qual não possam fugir? O
suicídio é quase sempre o caminho equivocado para a solução
de seus problemas.
Muitos pacientes encontram nas suas defesas as
motivações inconscientes para poder lidar com estas situações
traumáticas da vida, no entanto, em alguns casos estas defesas
não conseguem impedir o desejo de morte. Portanto a
psicanálise pode nos ajudar a compreender esta aparente
irracionalidade do suicídio. É desta complexidade que estou me
referindo. Procurar saber os motivos que levarão este homem a
uma falência em vários setores de sua vida e depois
compreender os verdadeiros motivos que o levarão ao suicídio.
Uma das hipóteses mais plausíveis seria: Quais os
motivos que levaram a ganhar tanto dinheiro Porque toda esta
ambição em torno da riqueza? Sendo que o acúmulo de bens
materiais não resolveu a sua infelicidade, que tipo de culpa
inconsciente carregava em relação ao dinheiro que ganhava?
Quais as fantasias que tinha em relação ao dinheiro e sua
família? Porque será que muitas pessoas ricas, que perderam
tudo, não se mataram? O suicídio de uma pessoa sempre
começa muito antes da sua morte, o que nos deixa intrigados
em relação ao suicídio, é saber por que o amor à vida não foi
mais forte do que a morte.
Cada pessoa tem uma maneira muito particular para
lidar com os seus problemas, mesmo diante das suas fraquezas,
prejuízos, fracassos, decepções, traições. De onde surge este
desejo de estar atraído pela morte e destruição? Todos sabem
que o final trágico de uma morte é somente o prenúncio de
vivências passadas que acabam vencendo o desejo de viver.
Então, como poderemos falar sobre o suicídio quando este
mesmo paciente já se encontrava morta?
Em alguns casos os salvamentos acontecem de
maneira acidental e inesperada, quando um amigo ou parente
consegue retirá-lo de uma triste tragédia. O suicídio na verdade

184
é o homicídio de si mesmo, ao mesmo tempo encontra-se
presente na pessoa do assassino e do assassinato. Existe um
desejo inconsciente do paciente autodestruir-se, sua disposição
é seguir a risca o seu ritual de morte, existe uma espécie de
submissão. Está completamente dominado por esta idéia fixa,
da fantasia que a sua morte possa retirá-lo desta agonia, para
que exista a confirmação da morte é preciso ter o desejo de
matar-se e também de ser morto.
Mesmo os suicidas que decidem pela morte não
encontram plena satisfação nesta decisão. Em alguns casos
estas pessoas que sobreviveram à tentativa de suicídio e que
são socorridas, pedem insistentemente, ou mesmo imploram,
para que salvem suas vidas. É uma violência praticada contra si
mesmo, que envolve três aspectos principais, a questão da
morte, o desejo de matar, e o de ser morto. Sem dúvida, cada
um destes fatores carrega consigo motivações conscientes ou
inconscientes.
Ninguém gosta de pensar e discutir sobre este assunto.
E muitos reprimem toda e qualquer manifestação de alguma
emoção, alguns pacientes quando se encontram sobre uma forte
depressão, começam com ameaças a seus familiares de que vão
se suicidar. Mesmo contra a orientação de um profissional,
muitos destes familiares retiram esta pessoa do tratamento,
mesmo que haja risco de suicídio. Muitos ridicularizam
dizendo que isto é uma chantagem emocional. Que no fundo
não tem coragem de cometer suicídio, que estes pacientes não
estavam falando sério, logo depois vem a público que tal
pessoa se deu um tiro, se enforcou, ou se afogou em algum rio.
Porque algumas pessoas fingem que este problema
não existe. Muitas vezes estas atitudes impensadas podem levar
o paciente a esta prática destrutiva. Existem de fato algumas
explicações sobre as técnicas, e interpretações sobre o suicídio.
Na verdade o suicídio de homens e mulheres acontece quase na
mesma proporção, em torno dos quarenta anos de idade,

185
principalmente pessoas solteiras e são muito mais comuns na
área urbana do que na rural. Em geral o suicídio tem chamado
muito pouca atenção dos psicanalistas. A psicanálise é uma
ciência interessada neste fenômeno da autodestruição, existem
motivações inconscientes e compromissos secretos que podem
induzir uma pessoa ao suicídio.
Pretendo aprofundar os motivos conscientes e
inconscientes que estão muito além das simples explicações
das certidões de óbito, das seguradoras ou dos seus familiares.
Explicações essas que dizem que o suicídio foi decorrência de
seu estado doentio, da situação econômica, da traição de sua
esposa, do abandono de seus filhos, da reprovação no
vestibular, das exigências descabidas dos pais, etc.
Estas explicações atenuam, mas não nos responde a
perguntas mais profundas, por exemplo, quando existe um
homicídio numa comunidade, todos têm interesse em saber
quais foram os motivos e os jornais publicam uma extensa
matéria sobre o fato acontecido. É claro, depois de um tempo
todo caso é descoberto, graças à ajuda de algum detetive. Não
existe o mesmo interesse em relação ao suicídio.
No meio do senso comum circulam alguns
diagnósticos finais; o suicídio é uma prática de uma pessoa
fragilizada pelos seus problemas pessoais, e em alguns casos é
considerado como uma espécie de loucura. O suicídio não é
uma fuga temporária, esta prática de tirar a sua vida não
soluciona em nada os seus problemas pessoais ou familiares.
Por mais que uma pessoa não tenha nenhum tipo de
religião, ou seja, extremamente materialista, esta atitude
suicida demonstra que não acredita no futuro ou tenha
capacidade e inteligência para suportar os problemas da
existência. Como é possível viver sem uma crença no futuro
Embora muitos cientistas e intelectuais critiquem tal posição,
não podemos esquecer que esta expectativa inconsciente sobre

186
um projeto de vida no futuro, está presente independente de
nossa vontade.
Depois de compreendermos um pouco mais sobre o
processo inconsciente de autodestruição, alguns fazem uma
opção de cometer um suicídio lento e gradativo e outros de
maneira violenta. Podemos acompanhar numerosos artifícios
da neurose necrófila, este desejo de provar a si mesmo e a
todos de que não vale a pena viver.
A adição ao álcool, maconha, cocaína, crack, é um dos
caminhos escolhidos para realizar a autodestruição. A neurose
necrófila crônica leva a pessoa a buscar situações de auto
mutilação, de violência, a pessoa manipula todas as situações
para alcançar seu objetivo final, a invalidez completa de ação
sobre a existência.
Este estado de inconsciência posterga a morte, o
suicídio é acompanhado de muito sofrimento, os compromissos
inconscientes obedecem ao desejo de agressão às pessoas do
seu convívio. A vontade de expiar algum tipo de pecado, de
aceitar a submissão do sofrimento, pelo seu sentimento de
culpa, e por fim um desejo de perpetuar na sua vida este
processo de autodestruição.
O desejo necrófilo de autodestruição crônica é uma
espécie de morte em vida, aos poucos o organismo vai
perdendo suas funções, mas assim mesmo ainda vive. Esta
cronicidade necrófila é acompanhada por ampliação do seu
sofrimento, esta dor orgânica é o pagamento que realiza na sua
vida para expiar as suas culpas.
No cristianismo são permitidos dois tipos de
suicídios, o martírio e o lento suicídio asceta, um conflito de
forças opostas para poder frear a ação dos desejos pecaminosos
da carne. Portanto, este instinto sexual é aberrante e não
pertence à natureza humana, por isto mesmo deve ser
combatido, negado, e em alguns casos com a utilização dos
castigos físicos para mutilar o corpo que se encontra em

187
pecado. Durante a idade média, os monges e ascetas do
monastério, eram tratados com todas as lisonjas e
admoestações de valorização por este tipo de prática no
domínio dos desejos da carne. Em relação aos hereges e
pervertidos sexuais, eram perseguidos e muitos terminaram
seus dias sobre o fogo da santa inquisição.
As privações, os sofrimentos, a negação do corpo,
tinha como um desejo de reparação dos pecados da fantasia e
da imaginação, esta austeridade do superego, levava estes
crentes ao delírio e alucinações, de ouvir vozes, como por
exemplo: O demônio com sua voz sedutora disse o seguinte;
não existe nenhum pecado que não possa ser perdoado quando
existe uma completa conversão ao evangelho.
Deus está sempre disposto a dar o perdão, no entanto
aqueles que se martirizam e cometem violência contra o seu
corpo não encontram misericórdia e paz na eternidade. Esta
alucinação nunca foi aceita por aquelas pessoas envolvidas
pelo estado necrófilo de autodestruição, porque sua defesa
argumenta que estas são palavras do demônio para que perca a
fé e deixe fluir os desejos da carne.
Com certeza esta ascética espiritual é acompanhada
de um desejo necrófilo de destruição. Não tem a mínima
consciência sobre esta violência física e psicológica que é
realizada de forma passiva. Este desejo de submeter-se a uma
vida de sacrifício, fome, flagelação, renúncia do sexo, pobreza,
tem a nobre missão de defender uma ideologia.
Toda vez que existe algum desvio de conduta, é
necessário a punição, e em muitos casos todo este processo de
auto-expiação dos pecados é realizado de maneira inconsciente.
Também não é diferente para cientistas que se expõe nos
centros de pesquisa de radiação, ou de algumas profissões de
risco, este desejo de ser herói, de tornar-se um patriota, um
mártir, um defensor da causa da liberdade.

188
Em alguns casos este martírio ou suicídio consciente
é aceito socialmente, porque a cultura valoriza este tipo de
atitude quando é usada na defesa da vida e dos diretos
humanos. Ou seja, existe uma utilidade social, de repente, a
vida ceifada desta pessoa, pode ajudar no processo de
libertação de milhões de outras, ou mudar o rumo da história.
Há certos tipos de masoquismo que não são
aprovados socialmente, outros chamam de sacrifício voluntário
porque está mais parecido a um egoísmo. O mártir ortodoxo
não é muito franco sobre sua real intenção, mas reconhece a
necessidade do sacrifício, algumas pessoas que são vítimas
deste processo de autodestruição crônica negam até o fim que
são eles mesmos que estão procurando este objetivo na vida.
Um mártir feito por si mesmo não pode ser alguém
que morreu de câncer, de acidente de automóvel. Os inválidos
neuróticos ou hipocondríacos estão sempre acompanhados de
sintomas físicos, ou de lesões reais nos seus órgãos. Muitos
destes pacientes se aproveitam de qualquer tipo de doença para
sustentar e intensificar a sua condição de neurótico. São
aqueles pacientes que os médicos dizem; você não tem
absolutamente nada.
Não existe nenhuma comprovação de algum tipo de
doença orgânica, ou seja, estas doenças e sintomas são frutos
de sua imaginação, que são mentiras simuladoras dos seus
sintomas. Todo este sofrimento faz parte de suas necessidades
inconscientes de serem punidos, incompreendidos,
negligenciados, maltratados, uma espécie de mártir.
As neuroses de conversão crônica não são muito
conhecidas, porque sabem simular e esconder muito bem a sua
neurose. Este tipo de paciente sempre tem a tendência ao
exagero de sua doença, estão sempre procurando a existência
de algum tipo de sintoma, existe sempre uma fobia em relação
às doenças e sua imaginação fantasiosa é muito fértil, porque
conseguem descrever a sua doença no futuro.

189
As doenças são sempre irreais e imaginárias e tem a
tendência de associar os seus últimos sintomas aos penúltimos,
sua qualidade de vida é viciada pelas queixas dos seus
sintomas, são estas doenças que lhe trazem infelicidade.
Sempre exigem atenção das pessoas do seu convívio familiar.
Quando não conseguem seu objetivo de atenção, começam a
irritar a paciência dos seus parentes. Existe uma tendência à
compulsão a repetição, porque quando conseguem a cura, em
seguida arrumam outro tipo de sintoma e inicia-se todo o
processo novamente.
Para entendermos de fato este quadro neurótico,
podemos perceber que sempre está presente a inveja agressiva,
em conjunto com um processo de autopunição gradativa e
crônica destes neuróticos. Este ganho secundário da doença
tem como função um deslocamento de sua raiva e perversão,
no sentido de se aproveitar da boa vontade de outras pessoas.
Alguns mártires e ascetas desenvolvem este método para a
prática da punição, com uma única diferença, estes conseguiam
a aprovação social por estarem ligados a uma ideologia política
ou religiosa. Este tipo de neurose de autoflagelamento
acompanhado de punição tem um caráter narcisista e
prepotente na sua teimosia onipotente.
A narcisista precisa se revestir desta submissão
masoquista em relação a uma pessoa ou à instituição, portanto,
o corpo é fonte do pecado e de sensações demoníacas. Esta
divagação do delírio persecutório esconde o seu medo de viver
a sexualidade, pelo menos vive a dor e o sofrimento de maneira
simulada com a aprovação da sociedade. Estes neuróticos
conseguem persuadir e convencer um número muito grande de
pessoas, sobre o valor de seu sofrimento, porque tudo isto é
oferecido como um pagamento pelo que recebem de Deus.
Mas o conflito destas pessoas é o desejo de morrer e
em outros momentos, de viver, tal é verdade que alguns
pacientes chegam a dizer: “preferia morrer a estar sofrendo

190
deste jeito”; estão se referindo à sua morte em plena vida, em
alguns casos parentes começam a rezar para que a morte seja
realmente o descanso desta pessoa.
Este tipo de neurose nunca recorre ao suicídio, apesar
de sempre estarem ameaçando. Alguns dizem que estes
pacientes com neurose conversiva crônica são vítimas de um
infeliz destino cruel. Mas em algum nível de consciência, o
paciente sabe que existe uma gratificação nesta prática
masoquista. Este prazer na dor é tão significante que não existe
nenhum interesse de curar-se.
É algo bastante assustador que uma pessoa encontre
prazer na dor e no sofrimento, e sabemos como é complexo
esta questão do prazer e da dor, é algo muito difícil de ser
explicado e compreendido. Às vezes algumas pessoas
percebem que os sofrimentos que vivem são em menor
proporção daqueles que sentem, mas como estes medos são
invisíveis fica muito difícil fazer um diagnóstico preciso sobre
este sintoma. Bom, de uma coisa podemos ter certeza, é muito
mais importante para uma pessoa viver continuamente com
seus sintomas hipocondríacos do que ser alvo de críticas, de
cobranças, de humilhações, de rejeições, do abandono.
Temos que concordar, é uma experiência terrível
quando pessoas e amigos nos abandonam na mais completa
solidão, sem amor, sem afeto, sem a presença de um amigo,
enfim parece que a decisão de procurar no sofrimento uma
saída para as suas necessidades, não é tão ilógica como parece
ser. Estes pacientes sabem que o amor e o afeto deveriam ser
encontrados de uma outra maneira, mas o fato é que se
encontram impotentes para consegui-lo, em outras palavras, é
melhor ter algum tipo de piedade, cuidado, amor, do que a
morte solitária e o abandono.
A neurose conversiva leva estes pacientes a pagarem
um preço muito alto, um sacrifício pago com a morte do corpo,
tudo isto para receber uma mínima quantidade de afeto. É claro

191
que existe uma interpretação equivocada sobre esta decisão
pessoal, esta fantasia irreal sobre o ganho secundário em torno
de sua destruição é uma espécie de psicose. Este conflito entre
as forças de destruição sedimentadas na necrofilia e o desejo de
amar a vida e lutar por tudo aquilo de bom que a existência
oferece, é interminável. Existe de fato uma vontade de morrer
ao lado da vontade de viver, quando as experiências forem
fortes o bastante, o paciente morre de sua doença, ao contrário,
quando o desejo de viver está acima da morte, existe a
transformação, a mudança, a cura definitiva.

192
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