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A Superação

dos Traumas
na Psicanálise

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P436s Pereira, Salézio Plácido
A superação dos traumas na psicanálise / Salézio
Plácido Pereira. – Santa Maria: Ed. ITPOH, 2012.
177 p.; 15x21cm.
ISBN: 9788586991271
1. Psicologia 2. Psicanálise
3. Trauma psíquico
I. Título.
CDU 159.964.2

Ficha catalográfica elaborada por:


Maristela Eckhardt CRB-10/737

Produção Gráfica:
Jeferson Luis Zaremski

Revisão Ortográfica: Andréa Alves Borgert

Impressão:
Gráfica PP | Santa Maria - RS

Editora: Instituto de Psicanálise Humanista


Rua dos Miosótis, 225 | Bairro: Patronato
CEP: 90.800-020 | Santa Maria - RS.

Fone: (55) 3222.3238


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saleziop@gmail.com

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Sumário.

Introdução ..................................................................... 06

Parte I

1.0 A superação dos traumas na infância .................... 10


2.0 A superação dos traumas: Realidade ou fantasia . 51
3.0 A complexidade da teoria da superação .............. 100
4.0 O Caminho da superação ..................................... 125

Parte II

5.0 Descobrindo a capacidade de superar-se ............ 157


6.0 Promoção da superação na educação ................. 175

Bibliografia .................................................................. 196

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Introdução.

Em todas as ciências da saúde e educação e


principalmente na psicanálise humanista, pensamos em
fazer uma reflexão para conhecer com mais
profundidade sobre a potencialidade do ser humano de
superar-se diante dos problemas e traumas
psicológicos.
A psicanálise evidencia no tratamento o
acompanhamento prático da capacidade, da
criatividade, do poder de decisão, da capacidade de
enfrentar determinados obstáculos e conseguir com
esta experiência ser mais maduro e corajoso. Sem
dúvida o tema da formação do caráter e temperamento
pode influenciar a capacidade de superação.
Existe uma questão central deste processo de
formação do caráter, esta palavra é conhecida no nosso
meio social quando nos referimos a alguém que possui
um desvio de caráter, e aqueles que sofrem de um
estigma, estereótipo, rótulo, para explicar uma
determinada patologia psíquica.
De certa maneira uma pessoa acaba ficando
discriminada e torna-se uma vítima de seu próprio
desvio de caráter, acredito que não podemos encaixar
ou explicar uma atitude pelos paradigmas do
behaviorismo, da biologia, da genética, porque é muito
difícil enquadrar o ser humano em uma teoria
reducionista e mecanicista.
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Estas falsas teorias acabam por prejudicar o
desenvolvimento do potencial humano, mas as
civilizações que nos antecederam nos mostraram vários
tipos de evolução, e em todas as civilizações
encontramos histórias, costumes, mitos, rituais, que
tratam da questão da superação ou dos ritos de
passagem de certas provações. Os riscos do fracasso, da
decadência, dos conflitos, sempre existiram e não
obstante temos que conviver com a questão da
limitação humana. A psicanálise procura compreender
as estratégias de ação, a fim de saber como funciona
estes métodos de superação.
Talvez a maioria dos psicanalistas acredite neste
potencial humano de resolver problemas e enfrentar
situações complexas e muito difíceis. Muitos não
possuem os recursos financeiros, outros não acreditam
em si mesmos, no entanto, todos sabem da necessidade
que o ser humano tem de conhecer-se nas suas
atuações inconscientes. Cada vez mais aparecem
desafios para superar, alguns de difícil solução, como no
caso de doenças crônicas ou destrutivas, e outros mais
simples, como os traumas e bloqueios emocionais.
Este tipo de vivência não é meramente uma
ilusão, todo momento acompanhamos tragédias e
sofrimentos de todos os tipos. Mas ao mesmo tempo
reconhecemos que muitas pessoas conseguiram pela
sua força de vontade e determinação, a solução de seus
problemas ou mesmo, a cura de uma doença que estava
sendo desenganada pela medicina.

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A psicanálise oferece além de uma teoria, o
tratamento destas neuroses e doenças psicossomáticas.
Muitos destes pacientes adolescentes, adultos, famílias,
conseguiram comprovar sua capacidade de superação
além de seus limites afetivos e existenciais. Alguns
conseguiram elaborar e resolver muitos traumas que
estavam impedindo a vivência de seu potencial psíquico.
E de alguma maneira ainda encontram-se num processo
de evolução pessoal, a solução destes traumas liberou
uma energia criativa, capaz de lançar-se em objetivos
superiores aos da média das pessoas em geral.

Este mesmo trauma conseguiu fazer com que


este paciente desenvolvesse uma capacidade de utilizar
o seu potencial para alcançar objetivos mais nobres na
sua vida pessoal e familiar. Este potencial inconsciente é
uma energia capaz de transformar um sonho em
realidade. Porque o trauma desencadeou este potencial
de criatividade e determinação. Este sofrimento, esta
dor, esta perda, reverteu-se em um recurso para realizar
os seus objetivos.
De onde surge esta potência que transformada
em força é capaz de resolver problemas pessoais e
sociais? Eis o grande questionamento da psicanálise
humanista. Temos consciência que este “potencial” é
um processo de superação encontrado nos romances,
nos filmes, na Bíblia, enfim, todos enfocam este poder
de transformar sonhos em realidade. A superação dos
traumas, não é apenas um sonho, um mito, uma
fantasia, uma utopia, mas uma capacidade que tem a
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força de motivar, e de modificar a maneira de
interpretar determinados traumas e problemas
enfrentados na vida.
Se admitirmos a existência deste “potencial” de
transformação no ser humano, então deveremos saber
os meios de utilizar com eficiência esta energia, para dar
uma resposta aos desafios que a existência coloca todos
os dias na nossa vida. Muitas hipóteses podem ser
propostas para resolver os problemas do “humano” no
homem, mas ninguém pode negar a importância deste
estudo na psicanálise para tornar a análise mais prática
e eficiente. Os traumas estão acompanhados dos
medos, por isto é fundamental um estudo das emoções,
acredito que todas estas exigências da existência dentro
de suas limitações e possibilidades, podem ajudar a
colocar em prática a ética da vida, uma coerência entre
a forma de ser, agir, pensar e emocionar-se.

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1.0 - A superação dos traumas na infância.

Nenhuma criança pode desaparecer com este


desejo, porque existe um investimento de energia
sustentado na raiva e no ódio, todo seu esforço está
dirigido para conseguir aquele tipo de satisfação. Esta
reação emocional remete a uma vivência infantil,
mesmo naquela experiência de abuso físico, emocional
ou sexual possui um desejo de experimentar a
segurança, procura esconder ou reprimir estes segredos
que preenchem a falta de carinho, afeto e amor. O
despertar precoce do desejo sexual propicia a vivência
deste tipo de prazer, mesmo que seja através da
exploração e dor, sua consciência aprendeu que esta
pulsão sexual deve estar ancorada na destruição
masoquista.
Sua culpa é enorme, ao mesmo tempo precisa
esconder este segredo, e por outro lado aplica as
sanções e punições que acha merecedora por estar
vivenciando um prazer que é proibido pela cultura ou
sociedade. As crianças sofrem grande risco de serem
abusadas e a negligência acentua o estado de
insegurança, medo e culpa. Podemos notar uma
necessidade de segurança e cuidado, por sentirem-se
desamparadas e abandonadas são presas fáceis para o
pedófilo. O desejo destas crianças é estar protegidas
contra este tipo de exploração sexual, privadas do amor
e cuidado tornam-se inseguras e agressivas.
Estas crianças desenvolvem a capacidade de
superação, porque são obrigadas a protegerem-se
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contra as agressões e violências de toda ordem, sua
única preocupação é fugir daqueles adultos que
oprimem e destroem a sua autoestima. A sobrevivência
emocional é seu único objetivo, por isto mesmo
chamam atenção com atos destrutivos, violência física,
rebeldia, desobediência.
Demonstram e escancaram a sua revolta e
indignação por estarem sendo destruídas na sua
intimidade, e como consequência deslocam o ódio na
destruição de outras pessoas.
Não é preciso provar que estas experiências na
infância e todos os abusos sofridos permanecem nas
memórias, este estado de inconsciência é o lugar onde
estão os registros e as marcas dos traumas sofridos com
os abusos. Por isto mesmo todas as emoções reprimidas
e recalcadas permanecem interferindo e prejudicando
as relações afetivas e amorosas.
A psicanálise surge como uma ciência interessada
em estudar as motivações inconscientes que estruturam
um tipo de emoção ou pulsão. Toda esta vasta
experiência da infância permanece desconhecida, mas
atua independente da vontade. Os conflitos coexistem a
todo o momento nas suas relações, a origem do ódio, da
inveja, do ciúme, da ambição é difícil de elaborar e
compreender pela capacidade lógica da criança.
Porque muitas crianças viveram a experiência de
violência, e inconscientemente por necessidade de
amor, reconhecimento e valorização, fizeram a opção
de viver este tipo de psicopatia, naquele momento foi

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uma forma de sobrevivência e de conseguir algum tipo
de prazer, agora é uma rotina em sua vida.
Quando observamos um adulto violento e
agressivo, de certa forma, revive aquelas experiências
emocionais de sua infância, este deslocamento
regressivo procura nas reminiscências de suas memórias
aquele trauma violento que estruturou o seu modo de
conseguir prazer sexual. Todas as estratégias do adulto
para viver o mundo dos prazeres estão ancoradas nas
aprendizagens e experiências emocionais de sua
infância, uma criança pode identificar-se com o agressor
ou repudiá-lo, porém precisamos entender que os
abusadores na maioria das vezes são os pais ou
parentes de sua convivência familiar. A grande questão
a ser pensada é: Como esta criança pode confiar no
amor dos adultos quando na sua inocência foi
violentada?
A primeira e mais fundamental experiência na
vida da criança é a necessidade de segurança e amor.
Aquelas crianças que sofreram algum tipo de abuso
vivem o trauma de negar, esconder, racionalizar,
deslocar, narcotizar esta enorme dor, estão impotentes
e fragilizadas para conseguirem realizar a verdadeira
experiência de amor.
Todas estas emoções acabam sendo projetadas
de forma inconsciente na vida adulta, estas sensações
de dor e abandono são deslocadas para pessoas do seu
convívio social. A defesa da negação surge como
proteção do único modo de obter prazer, às vezes nega

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a sua existência, porque é quase insuportável a
convivência com qualquer forma de violência e estupro.
Observamos pessoas projetando em outras os
motivos de sua infelicidade, porque assumir esta
emoção da dor é elaborar o trauma, a revivência traz
experiências dolorosas de pessoas que amava e
admirava, por isto mesmo, permanece em segredo na
família. Estes pactos inconscientes possuem um custo
muito alto, porque este ódio acaba destruindo o amor e
respeito na convivência social, alguém desta família se
encarrega de manter o sigilo deste segredo, ninguém
deve tocar ou falar deste tema, a penalidade é a
exclusão e abandono do amor da família.
Para uma criança diferenciar as atitudes
saudáveis daquelas desagradáveis depende das
emoções, sua experiência vai fazer a diferença nas
relações afetivas e sociais. Nenhuma criança adere à dor
como uma forma de prazer, o prazer na dor é um
ensinamento que recebe do mundo dos adultos.
Deveria ser normal uma reação de desprazer frente a
uma experiência de dor.
Infelizmente este trauma sexual acompanha a
sua vida, o que pode acontecer na adolescência é o
desenvolvimento de uma capacidade de superação. Esta
mesma dor capacita a pessoa a tomar uma decisão e
buscar o amor, esta reação pode desencadear um
desejo de substituir a emoção negativa por uma
positiva.
Esta realidade subjetiva pode desenvolver
métodos mais eficientes e prazerosos daqueles
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vivenciados no seu trauma sexual, aprende nas relações
o convívio com emoções mais produtivas, como por
exemplo, a ternura, compaixão, bondade, alteridade. A
questão do abuso nos remete a pensar sobre o “toque”,
esta sensação desagradável de tensão e medo acaba
por neutralizar qualquer reação de afetividade.
Existem situações em que a excitação e
provocação podem desencadear toda uma fantasia
traiçoeira, enganosa e provocar reação de distância do
contato afetivo, depois desenvolve um narcisismo
baseado nas experiências primárias, uma experiência
que esconde por detrás destas imagens um prazer
sádico identificado com a satisfação da violência e a
negação do amor.
Sem consciência acredita estar fazendo o bem,
proporcionar prazer ao outro, não consegue perceber
que sua iniciativa é destrutiva e desumana, sua prática é
perversa e permeia segundo suas intenções, o desejo de
afastar-se de tudo aquilo que é bom e belo.
Esta maldade está inserida no contexto de
violência e vulnerabilidade que esta criança encontra-se
envolvida, os motivos e intenções do violador são
desconhecidos. Algum grau de consciência existe, mas a
pulsão compulsiva é mais forte e acaba tornando seu
prazer altamente perigoso e destrutivo, a agressividade
utiliza a inocência e precocidade da criança para
instrumentá-la a serviço do seu prazer doentio.
O deslocamento projetivo do sadismo cruel
esconde uma sexualidade infantil e primitiva, fixada em
experiências de abandono e violência, desenvolve todas
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as ações possíveis para a sua destruição pessoal. Esta
força destrutiva é uma forma de apaziguar a
consciência, pelas suas atitudes de violência cometidas
contra terceiros, a culpa é verificada no sofrimento que
atua dentro de si mesmo. A repressão do amor, do
afeto, do carinho, da intimidade, propicia o
aparecimento da necrofilia, é um fato patológico
bastante presente nas famílias mais do que possamos
imaginar.
Todos têm medo desta força destrutiva que atua
independente da vontade, a negação da capacidade de
amar é a morte da própria vida, sem dúvida são estas
neuroses malignas que atuam e agem sem sua
percepção. A morte do amor, da afeição, da ética,
sempre esteve presente na história da humanidade, e
muitas civilizações desapareceram completamente
devido à violência, à ambição e ao poder devastador do
sadismo. Este processo de destruição pessoal vem
sempre acompanhado de alguma culpa, o desejo de
reparação envia uma mensagem de tristeza e mal estar.
Ao viver a culpa precisa de alguma maneira punir-se
para fazer as pazes com a consciência.
A pulsão destrutiva remonta as origens de nosso
ser primitivo, esta força foi denominada por muitas
civilizações como o demônio, o satanás, e em outras
culturas como forças a serviço da maldade. Somente
Deus como entidade superior pode fazer frente às
forças do mal. Esta explicação teológica sempre foi
acompanhada de reforços e prêmios de uma vida eterna
depois da morte, sendo assim a morte física não
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acontece, pois a crença na imortalidade da alma retrata
o modo como os homens explicam a questão da morte.
Toda criança gostaria de estar protegida contra
os perigos da afirmação do seu “eu”, sua identidade
humana é afrontada quando os abusos e violências
destroem a sua potencialidade de amar. A criança
consegue enxergar e vivenciar as emoções negativas
que provocam dor e sofrimento, está sozinha e não tem
condições de enfrentar ou sair deste quadro de perigo.
Toda experiência negativa ou positiva acaba sendo
projetada para dentro de si mesma, ou nas atitudes
agressivas e violentas do seu convívio social e
principalmente na escola.
A criança precisa fazer a catarse emocional, este
surto de agressividade e violência é a maneira que
encontrou para defender-se deste tipo de violência.
Todo comportamento agressivo é combatido com
punições e castigos, este tipo de educação favorece a
crença de que é uma criança muito má, a sensação de
culpa precisa negociar com o superego autoritário, que
castiga, e exige alguma forma de autopunição.
A dor e o sofrimento, as agressões violentas
fazem parte da sua convivência diária, como afirmei
anteriormente este estereotipo reforça ainda mais o
ódio e a raiva contra si mesmo. Aprende a não gostar da
sua imagem, esta emoção torna-se uma energia
incontrolável, precisa fazer a catarse.
Esta sensação de não ser aceito, de ser criticado,
punido e agredido, explode dentro de si e sufoca, acaba
assim buscando o amor através da dor. Na vida adulta
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algumas pessoas vivem o tormento da raiva e ódio de
duas formas, contra si mesmo ou projetada nos outros.
Este desejo sádico e necrófilo de bater, matar, destruir,
é o resultado de todas as emoções negativas reprimidas
e recalcadas, ao frustrar-se desencadeia um ataque
emocional perdendo a consciência do que estão
fazendo, não conseguem perceber as atrocidades e os
males de seus comportamentos.
E neste instante sofrem todos os tipos de abuso
dos aparatos repressores que comprometem a sua
integridade física, porque seu desejo de destruir e matar
são incontroláveis. Ao prestar atenção sob os motivos
que levaram esta criança a estar com raiva, podemos
compreender a sua agressividade. Quando temos uma
criança cheia de ódio contra um adulto, percebemos
que bate nas suas bonecas, quebra seus brinquedos, de
certa forma desloca para estes objetos a sua raiva. As
crianças recebem ensinamentos para afastar-se dos
negros, dos pobres, e sem perceber começam a ser
indiferentes, frios e distantes com estes seus colegas.
O torcedor critica o seu time quando está
perdendo, porque frustra as suas expectativas. Todos
projetam em algum grupo as suas frustrações, em
alguns casos as ações agressivas são métodos usados
para expressar a indignação, raiva, vingança e ódio.
Inconscientemente catalogam aquelas pessoas como
boas ou más, existe um desejo de ferir e maltratar
aquela pessoa que proporciona amor e cuidado, sua
estratégia consiste em fazer alguém desistir de amá-lo,

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pois tem a plena certeza de que não é digno de receber
este amor.
Ama algumas pessoas e odeia outras, busca o
prazer sádico para dar vazão à energia destrutiva,
escolhe suas vítimas para transferir a agressão. Esta
pulsão de sobrevivência ensina a preservar e cuidar da
saúde psíquica e orgânica, pois protege as pessoas
amadas das quais depende para sobreviver. O bode
expiatório serve para projetar toda raiva e ódio, esta
atitude aparece no relacionamento infantil, onde as
crianças desenvolvem ciúme e inveja em relação
àqueles que são elogiados e queridos pelos seus pais.
Muitas de nossas emoções são compensadas e
projetadas em coisas e objetos, aquele
descontentamento com uma roupa pode esconder uma
raiva reprimida. Estas projeções acontecem de fato, esta
parte da raiva pode ser transferida para aquele tipo de
objeto, por isto torna-se insatisfeita. A ambição, a
inveja, a violência estas emoções acabam sendo
projetadas no externo, e consegue diminuir sua
insatisfação quando rouba, castiga, humilha e despreza
o seu objeto de aversão.
Em todas as relações do ambiente familiar e de
trabalho existe este processo emocional da
ambivalência, esta economia das emoções precisa de
certo investimento para haver aquele tipo de resultado.
A emoção do ódio aparece com mais frequência quando
o sujeito frustrado não consegue usar esta
agressividade para harmonizar e equilibrar a
intensidade das reações emocionais vingativas e
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destruidoras. Muito das emoções dos pais são passadas
e sentidas pela criança, acaba absorvendo as neuroses,
este conceito de bom e mau, certo e errado, pode estar
invertido e tornar-se um valor, quando na verdade é um
equívoco.
A renúncia e a rejeição de certas atitudes
negativas fazem parte do processo de superação, o
adulto ensina a criança a postergar a realização de um
desejo, em vez de satisfazê-la ensina a conquistar os
objetivos. Desenvolve na criança a capacidade de saber
esperar o momento certo. Saber lidar com a frustração
é fundamental, porque toda forma de ansiedade
exagerada prejudica e impede a realização de objetivos
mais saudáveis.
A frustração faz parte do desenvolvimento do
caráter, saber conviver com as faltas desenvolve na
pessoa uma capacidade de interpretar este seu desejo,
ao afastá-la da dependência, criou a condição da
autonomia, aos poucos aprende a ser mais criteriosa
nas suas escolhas de investimento psíquico, a saúde
psíquica precisa deste espaço de desenvolvimento da
potencialidade. Confiança para a autoestima,
autonomia para ter coragem de investir na inteligência e
na superação das dificuldades, capacidade para
enfrentar e jamais fugir e esconder-se nas compulsões e
adições.
O prazer de viver depende da realização de seus
objetivos, o organismo é capaz de sentir a vibração e
satisfação em viver, inconscientemente busca o amor, a
saúde, a realização, consegue provar a si mesmo que é
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competente para gerenciar e administrar o seu
potencial de energia psíquica. Durante a vida estará
envolvido na trama do prazer, procurando ser mais
humano e evoluído, o início do sucesso depende das
experiências positivas que aprendeu para ser um
vencedor. Aprendeu por conta própria a buscar o seu
sustento, foi capaz de passar por vários tipos de
sofrimento, para no futuro conquistar aquela sensação
de prazer e satisfação.
A superação precisa sair da dependência e
necessita afastar-se daquilo que é oferecido sem
nenhuma exigência ou esforço, a fortaleza de uma
pessoa encontra-se em sua capacidade de criação e de
viver todos os prazeres da existência. Ser independente
significa saber conviver com qualquer tipo de
dependência, algumas dependências são salutares e
imprescindíveis por algum momento na vida, mas chega
o momento de realizar o desmame, a independência
proporciona a maturidade emocional, toda superação é
lenta e gradativa, qualquer ruptura súbita pode ser
traumática.
Normalmente o processo de superação precisa
de um projeto de vida. Isto inclui uma aceitação da
perda, quando isto não acontece surge a raiva, o ódio, a
agressão, que nas devidas proporções torna-se
patológica. A rejeição é uma negação da pessoa amada,
ao sentir-se ferido e abandonado também rejeita
qualquer forma de expressão de amor, em alguns casos
é comum o sujeito depreciar-se, violentar-se,

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autodestruir-se, como um meio de afastar-se das
pessoas e indiretamente castigá-las pelo seu abandono.
Esta perda de confiança, de bondade, de
alteridade, em parte se explica, porque duvida e não
aceita o amor gratuito, sua desconfiança acentua na
pessoa amada a mágoa, a decepção e a vingança.
Quando existe o abandono e castigo numa relação,
podemos pensar sobre o desejo de vingar-se e fazer o
outro sofrer, é uma maneira disfarçada de projetar seu
ódio e aversão ao sexo oposto, esconde nesta emoção a
sua dificuldade de dialogar e viver a intimidade.
Quando o adulto despreza uma criança, maltrata,
deprecia, humilha, colabora para que não aprenda, não
acredite em si mesmo e muito menos viva o amor, desta
forma está propagando a crença de que se alguém não
quer sofrer, então não deve amar. O grande perigo é
quando o adulto consegue negar e afastar de si mesmo
qualquer vivência de prazer e alegria, esta maneira
disfarçada esconde a inveja e o ciúme através da crítica
e perseguição, esconde a sua impotência em viver a
dimensão do amor.
Afastar-se das relações afetivas com desprezo é
uma forma de agredir e fazer sofrer as pessoas amadas,
esta defesa é mais conhecida como formação reativa,
no inconsciente o desejo de criticar e depreciar é
obsessivo, no entanto consegue nas relações disfarçar a
raiva reprimida. A criança precisa elaborar a sua
frustração, por exemplo, quando não consegue aquele
brinquedo da vitrine pode agir de duas formas.

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A primeira é tornar-se violento, chorar, gritar,
como forma de pressionar os pais a comprar o seu
presente, por outro lado, pode ignorá-lo, coloca
defeitos e desmerece aquele objeto desejo, argumenta
de todas as formas que aquele brinquedo não é útil e
atraente. Como sente frustrado, racionaliza e nega a
importância deste brinquedo, reprime a emoção como
única forma de viver sem o brinquedo. Na verdade a
criança deslocou para a racionalização e negação a
emoção da raiva, porém a frustração pode voltar contra
si mesmo.
As vezes acredita que não é digna de receber
aquele brinquedo, que precisa de castigo ou sentir-se
agredida física ou psicologicamente por desejar algo que
é bom e bonito. Assim, quando não consegue algo fica
triste e sente-se inferior as outras crianças. Talvez sinta
culpa por receber o amor generoso através do gasto
enorme de dinheiro dos seus pais na compra do
presente.
Muitos adultos vivem com esta criança interior,
interiormente lutem com todas as suas forças para
esconder a frustração, mas aos poucos começam a
projetar nas pessoas do seu convívio diário esta sua
insatisfação. Procura fazer com que ninguém as aprecie,
fazem questão de desmerecer e criticar todo gesto de
afeto e amor.
É um método sutil, inteligente, mas em vez de
resolver a frustração, deslocam para alguém que será a
tela de projeção de sua raiva. Aos poucos as pessoas
começam a conhecê-los, em vez de viver o amor,
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projetam o ódio e a raiva, o final é sempre muito triste,
pois estão sozinhos e na solidão.
Muitos adultos repetem as emoções vividas na
infância, procuram afastar-se do amor, desprezar e
rejeitar o afeto, esta reação psicológica pode ter ligação
com alguma forma de abuso, porque acreditam que
novamente serão usados e manipulados. Por isto
mesmo, vivenciam esta experiência como uma
inspiração para vingar-se e retaliar ou mesmo perseguir
aqueles que amam. Quando esta atitude é repetitiva na
vida procuram o suicídio, e quando não sabem mais o
que fazer, a raiva é transformada em fúria de vingança
contra si mesmo.
Como esta pessoa não consegue viver a
dimensão do amor, está desapontada, o ódio pode
voltar-se contra a sua própria vida, e finalmente
consegue um meio de destruir-se. Todas as formas de
abuso trazem consigo a experiência de desprezo e
rejeição, e talvez seja a origem de toda a desconfiança.
O trauma traz consigo a infidelidade, as traições,
deslealdade, mentira, perversões escondidas nas
adições e compulsões. A sua insegurança e a
instabilidade emocional faz com que não permaneça em
nenhum emprego e menos ainda numa relação de
afeto.
Este adulto é uma criança desapontada, mas
carente de amor, seu investimento nas conquistas tem o
objetivo de encontrar o seu amor, mas depois que
encontra faz de tudo para ver-se livre e distante, em
seguida desaparece da vida daquela pessoa, suas
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emoções são conflituosas, desajustadas e irrealizáveis.
Assim obedece ao ritmo de sua compulsão,
independente da qualidade e quantidade de conquistas,
depois de abusar e fazer sofrer o seu amor, desqualifica
e despreza com o objetivo de começar tudo novamente.
Todas as emoções seguem a projeção
inconsciente, estas reações no modo de pensar e agir de
maneira infantil e egoísta é uma forma de prazer
proibitivo e genital. Indiretamente estas formas de
relações são camufladas com agressão e violência,
quase sempre estão acompanhadas da relação
sadomasoquista. Todo investimento de tempo e
dinheiro é no sentido de manipular e afastar-se de
qualquer experiência verdadeira de amor, pois a criança
experimentou a violência, a traição, a perversão, então
é normal o adulto vivenciar o amor como algo
ameaçador e destrutivo. Foge do amor porque tem
medo de ser abusado, desprezado, magoado, portanto
este desejo é insaciável, no fundo segue as
determinações das compulsões e adições.
Mas a vingança está latente, aos poucos esta
prática hedonista aumenta ainda mais a sua
insatisfação, seu descontentamento torna-o uma presa
fácil da sede de vingança, quando ameaçado ou
inseguro, desloca a emoção para a catarse sexual ou no
ativismo do trabalho, de qualquer modo esta atitude
reduz momentaneamente o estado de frustração.
O abuso reacende no seu íntimo o desejo de
vingança, emoções desejosas para desapontar, agredir e
violentar, é uma revivência da infância, naquela
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experiência aprende a abusar, ofender e agredir toda
esta confiança, acredita estar sendo correto ao
identificar-se com o seu agressor.
Quando a dor é insuportável e as compulsões não
conseguem dar conta da raiva, surge a ficção de buscar
a segurança nas drogas lícitas e ilícitas. Pelo menos
consegue ser reconhecido e valorizado no seu grupo de
dependentes químicos, quando toma consciência que a
união deste segredo é o mesmo do seu abuso. O
traficante ocupa o lugar do agressor.
Quem foi abusado física e psicologicamente ou
sexualmente, desenvolve um estado de insegurança,
porque a qualquer momento pode estar sendo
ameaçado e perseguido por um adulto violento. Sua
ansiedade e pânico aumentam na medida em que
percebe sua alegria sendo retirada de sua vida, como
não consegue viver o prazer, passa pela existência
mendigando afeto e reconhecimento, por isso mesmo,
desenvolve uma vitimização, um coitado que continua
sendo abusado pelas neuroses, infelizmente não abre
mão de sua culpa, precisa sofrer e sentir-se um zé
ninguém, revive aquele ato de violência que
transformou-o num objeto de uso.
Felizes os que tiveram um pai e uma mãe com
sabedoria para cuidar e proteger a sua saúde psíquica
dos psicopatas de plantão. Aqueles que fizeram a
experiência da bondade, do amor, da confiança, do
carinho, do prazer, conseguiram conquistar confiança e
a certeza de que vale a pena viver o amor.

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São capazes de experimentar pelas suas
emoções este estado de bem estar, alegria, felicidade,
arraigado a um imenso prazer de viver. Esta emoção
permanece latente e transformando-se no seu potencial
de criatividade, de força de vontade, de determinação,
coragem, confiança, perseverança, qualidades
indispensáveis para fazer frente aos obstáculos da
existência.
A superação das faltas inclui a decisão de
desenvolver as qualidades e capacidades que não
existem, mesmo na idade adulta é possível modificar
seu estilo de vida. Muitos fogem do amor dizendo que é
algo muito ruim, mas esta experiência particular não
pode ser transformada numa generalização. É muito
estranho as pessoas fugirem dos prazeres que oferecem
realização e satisfação, no entanto isto é muito comum,
ao fazer esta opção, porque alguma emoção nos
convence a continuar pensando desta forma. A neurose
insiste em preservar aquela imagem negativa a respeito
do amor ou da sexualidade, mas quando descobre o seu
engano, consegue fazer nascer do seu íntimo um novo
desejo ardente de viver todas as dimensões do prazer.
Aceitamos a vivência do amor, apreciamos a
bondade, a afeição, a sedução, mas o compulsivo sexual
também possui estas qualidades, seu desejo de amor e
sexo esconde a necessidade de segurança, e
infelizmente a compulsão pode levá-lo ao esgotamento
físico e emocional.
Esta ambivalência de amor e ódio pode levá-lo a
racionalizar dizendo que é bom demais para ser
26
verdade. A forma de pensar assegura no seu entender
que sua bondade permanece inalterável, e procura
falsas justificativas e desculpas para desviar o foco em
questão. Pois qualquer forma de aprofundamento de
suas atitudes pode comprometer a sua imagem de
conquistador e másculo.
Muitas vezes algumas mulheres têm uma nobre
missão, tornar-se uma mártir para salvar o seu grande
amor, assume todas as formas de violência e submissão,
obediente ao seu papel de boazinha e querida. Mas aos
poucos a sua infelicidade chega a um grau alarmante e
neste caso é muito comum alguma forma de suicídio,
como uma forma de fugir deste tipo de ambiente
conturbado e violento. Desta forma cumpre com a sua
nobre missão de uma mulher que morrer em nome do
amor, na sua fantasia estava certa, conseguiu fazer o
seu amor feliz, através de sua morte.
Muitos não conseguem separar as boas emoções
das ruins, e na inversão assumem um papel destrutivo,
sem perceber assumem a dor como forma de punição.
Justificam que a raiva reprimida deve morrer consigo,
como se fosse um túmulo, preferem deixar esta imagem
aos filhos e amigos, pois foram capazes de abdicar das
coisas boas da vida em prol da família. Passam a ideia de
bondade e amor, segundo sua percepção se imaginam
renunciando todas as formas de prazer em prol do amor
ou da família.
As emoções conseguem influenciar e às vezes
assumir um papel que não é condizente com a felicidade
e realização pessoal, este exagero é um equívoco ao
27
viver sobre uma crença destrutiva. A superação
depende deste impulso vital, pois a emoção potencializa
e motiva a busca por soluções para o seu problema, este
fenômeno do querer é fundamental para a realização
dos objetivos. Poderíamos chamá-lo de uma pulsão de
vida. Porque ao amá-la, luta sem cessar para alcançar
esta felicidade. Ninguém consegue viver sozinho na
existência, o outro é uma condição e me possibilita viver
a dimensão do amor.
Esta pulsão social é uma vivência arcaica e
primitiva dos grupos humanos que viviam em bandos
para poder sobreviver. Existe a necessidade da
companhia, do afeto, do amor, da amizade, do calor
humano, é uma energia emocional conquistada ao
longo da existência com a intenção de servir de potência
para fazer frente às outras necessidades.
A superação do ódio contra si mesmo precisa da
experiência do amor, e muitos são sábios, pois
distribuem amor para evitar qualquer manifestação de
ódio. Ninguém está imune a esta carência de afeto e
amor, aqueles que possuem amigos estão seguros, pois
sabem que nos momentos difíceis podem contar com
aquela pessoa. As amizades sinceras estão implicadas
num conjunto de qualidades éticas, indispensáveis para
que a ameaça da exploração e da traição seja extinta.
Algumas pessoas assumem uma máscara de
bondade e reúnem parasitas em sua volta, se deixaram
explorar e manipular em nome do amor, e assim
assumem o papel da mãe ou do pai que tudo oferece
sem exigir nada em troca, é o tipo de amor
28
incondicional que está à disposição de todos, que nunca
frustra e sempre tem para preencher as faltas. Esta
fantasia de sempre dar e nunca receber esconde o seu
medo de intimidade, por um lado procura cativar e
aproximar pessoas que possam dar-lhe afeto, mesmo
que seja através da exploração financeira para não ficar
sozinho, e sem este afeto.
Esta quantidade de amigos está a serviço de sua
carência emocional, a fantasia lhe proporciona
segurança e amor contra a solidão e o vazio existencial.
Este afeto possui suas raízes nos jogos de interesse,
assim quando o dinheiro acaba geralmente os bons e
queridos amigos desaparecem, e neste instante surge a
depressão, a ideia de suicídio, porque descobre que os
seus amigos eram na verdade parasitas, e toma
consciência que deixou filhos, família, esposa,
abandonados e reduzidos ao sofrimento e dor.
Umas pessoas querem o reconhecimento e
valorização, por isto possuem muitos amigos. Este é o
caso de guardar os ovos em cestas diferentes, para
diminuir o impacto das frustrações e perdas. Preenche
esta carência afetiva fazendo varias amizades, pois tem
medo da intimidade, porque ainda não sabem dar e
receber afeto. Tem muita dificuldade de estar em
silencio consigo mesmo.
Algumas procuram no sucesso e na popularidade
social o reconhecimento e valorização de suas
qualidades, por isto possuem uma enorme variedade de
amigos e pessoas do seu convívio pessoal. É o caso de

29
guardar os ovos em diferentes cestas, pois com esta
atitude acreditam que nunca estarão sozinhos.
Devido aos traumas precisam de segurança
contra as agressões, ao perder a esperança de viver o
amor e carinho, sentem-se injustiçados e mal
humorados. Ao procurar satisfazer o desejo de viver o
amor de maneira obsessiva nega esta sua experiência de
intimidade.
Esta contradição pode desencadear várias
emoções negativas, quando o seu desejo for frustrado,
esta experiência pode levá-lo ao encontro da inveja,
ciúme, ódio e vingança. Salvo raras exceções, pode ser
que alguém vivencie de fato este amor não
correspondido na sua infância, somente a superação
pode trazer de volta a vontade de amar a vida.
Os adultos revivem as emoções experimentadas
na sua infância, sabe a diferença entre a alegria e a
tristeza, o amor e o ódio, estados de euforia e
desanimo, bem diferente da frustração e desencanto.
Todos buscam a felicidade e o bem estar, o afeto, a
ternura, o carinho, é como o leite na boca de um bebê,
esta sensação de gratificação e satisfação tem como
finalidade afastar-se da dor e aproximar-se do prazer.
Ninguém vive sem amor, todos precisam desta sensação
de bem estar e realização, procuram afastar-se destas
emoções negativas que produzem um estado de
insatisfação e agressividade.
O desejo de viver com prazer e satisfação é uma
realidade pulsional que procura neste estado de vida
uma condição de querer receber, uma força que
30
pretende preencher esta lacuna das faltas. A cobiça, a
ambição, são emoções distorcidas que procuram
reforçar o medo de não conseguir sobreviver, isto está
muito presente naquelas pessoas mesquinhas e egoístas
que querem o melhor para si mesmo e o pior para os
outros. Esta perversão é uma inversão, na sua fantasia
proporciona a segurança, este tipo de atitude leva a um
stress crônico e no esgotamento de suas forças
psíquicas e orgânicas.
Todos querem o melhor, isto tem uma relação
direta com a pulsão de vida, este desejo de tornar-se
agressivo na busca de resultados atende ao prazer de
ser. Pelo resto da vida esta pessoa procura
inconscientemente proteger-se, para não morrer por
falta de comida e amor, seu desejo é continuar vivo e
não morrer.
Esta pulsão de vida está acima de qualquer
trauma ou bloqueio, porque mesmo as experiências
mais dolorosas não conseguem fazer desaparecer este
desejo de transcender e resolver os seus dilemas
pessoais. Este desejo de superação relaciona-se com a
busca de realização pessoal, da aquisição de bens
materiais, estudo, dotes físicos, beleza, inteligência,
privilégios. Todas estas vantagens que a existência
oferecer para aqueles que se tornaram dignos destas
conquistas.
A superação dos traumas neuróticos leva ao
encontro da potencialidade, criatividade, da força de
vontade, da sinceridade, da honestidade, qualidades
que comprovam a sua humanidade, este autoconceito
31
de é eficiente, capaz, aumenta sua autoestima, torna-se
digno de receber o amor e os benefícios que a vida tem
para oferecer. Cada conquista amplia a sua confiança,
cada problema superado, evidencia que é capaz de
enfrentar qualquer tipo de adversidade, vive em estado
de graça aprendeu a conviver com nossa humanidade. É
capaz de desenvolver e promover ações benéficas para
tornar-se competente na vida.
Uma autoimagem positiva e um conceito
produtivo de si mesmo desenvolvem no íntimo da
pessoa, confiança e a capacidade de fazer frente aos
medos, a certeza de que não precisa de punição e muito
menos destruir-se. Existe uma grande razão para negar
as perdas, pois estas emoções aproximam da dor, e
ainda mais, de idealizar na inversão deste sofrimento de
que é indigno de receber amor e afeto, de não ter
dinheiro, de não ser bem sucedido numa profissão, isto
desenvolve muita ansiedade e angústia. Quando não
sabe desenvolver dentro de si mesmo estas qualidades
capazes de oferecer segurança emocional.
O exagero no acúmulo de bens materiais,
esconde insegurança e medo do dinheiro, na sua
fantasia este poder do dinheiro é capaz de conseguir
tudo aquilo que lhe falta, amor, sexo, prestígio,
reconhecimento, tudo pode ser comprado. Sua
segurança encontra-se baseada no ter e não no ser, por
isto a preocupação com os seus bens, as coisas
materiais têm mais valor que as pessoas, e quando
começa a ficar pobre entra numa perturbação
emocional, tem muito medo de ficar pobre e viver na
32
miséria. Como não tem muita segurança procura nas
coisas materiais a solução de suas inseguranças.
Tem inveja e ciúme daqueles que possuem mais
que ele, frustrado gostaria de aumentar ainda mais seu
patrimônio, está sempre preocupado porque no seu
delírio persecutório tem sempre alguém querendo
roubá-lo. A proteção é deslocada para o dinheiro e
posses, porque acredita nas qualidades que precisa
alcançar pode ser alcançada através do dinheiro. Tem
inveja e ciúme daqueles que possuem mais, não se
conforma com o que tem, sempre quer mais, e assim
sente-se obrigado a viver sobre o domínio da sua
compulsão.
É muito fácil perceber que esta compulsão do
exagero em adquirir coisas materiais leva a pessoa ao
completo esgotamento de suas forças psíquicas e
orgânicas, então começa a sua grande frustração
porque está doente, e agora não pode usufruir de tudo
aquilo que conquistou com muito trabalho, suor e
dedicação. A doença consegue afastá-lo por um tempo
da compulsão, entristecido por esta vivência procura os
verdadeiros culpados de sua privação, exagero e
privação, assim revive o problema da compulsão, não
consegue equilibrar-se nas relações com o mundo do
trabalho.
Esta crença de quem tem posses e dinheiro é
muito feliz e quem é pobre é um castigo, ainda perdura
no seu modo de pensar. Quem consegue sucesso
econômico ou melhora sua qualidade de vida é visto

33
como traficante, ladrão, desencadeia uma critica terrível
contra aqueles que conseguem um lugar ao sol.
A inveja e o ciúme são duas emoções destrutivas,
o ciumento sempre acredita que estão lhe roubando a
pessoa amada, e em alguns casos o ciumento não confia
porque traiu várias vezes, como não confia em si
mesmo, projeta na pessoa amada a desconfiança desta
traição. Os traumas mais sérios são aqueles que
precisam lidar com as perdas da pessoa amada.
A culpa sempre vem acompanhada do passado, e
cobra muito por não ter podido ajudar e fazer mais pela
pessoa que tanto amou, desenvolve esta dor aflitiva e
cheia de remorso. Estas emoções fazem parte da
condição humana, o único modo de evitá-las é
reprimindo, alguns são muito invejosos, estão sempre
descontentes e insatisfeitos, pois estão convencidos de
que são merecedores deste estado de infelicidade.
Muitas vezes esta pessoa que representa não ter
nada esconde a verdade para explorar e aumentar ainda
mais o seu lucro. Quando a inveja faz parte da mentira,
iniciou-se um processo de desconfiança, seu desejo é
satisfazer-se e viver seguro explorando outras pessoas.
Este é o grande perigo daquelas pessoas que se fazem
de vítima, mas no seu íntimo escondem a sua
voracidade e cobiça.
Esta inveja é perversa porque tem a pretensão de
apropriar-se e roubar para enriquecer, outro tipo de
invejoso é aquele que comenta que não tem nada e não
faz nenhum esforço para adquirir, nunca se esforça para
ter algum êxito na vida. Neste caso percebemos que a
34
inveja e os sucessivos fracassos não conseguem tirar
nenhuma vantagem, neste instante inicia o processo
depressivo.
Este é um caminho perverso de querer superar-
se, pois procura na acomodação e no papel de vitima
um ganho secundário para poder explorar. Esta sua
neurose consegue tornar a sua vida uma mentira.
Investe muito tempo, dinheiro, reflexão, na sua fantasia
acaba por viver ainda mais a frustração, nunca é capaz
de experimentar o prazer do sucesso. Procura o seu
bem estar por vias indiretas, acredita que não precisa
fazer nenhum esforço, este tipo de prazer encontra
satisfação quando prejudica, explora e engana as
pessoas que confiaram na sua pessoa.
Existem pessoas que têm o prazer sádico de
alegrar-se com a tristeza, esta patologia possui a
intenção de invejar e querer enganar para possuir, esta
deturpação é inconsciente, pois não conseguem fazer
algo de bom, estão fixos nesta forma de invejar. Para
superar esta emoção na qual esta envolvida, precisa
tomar consciência sobre este estado de inconsciência.
O desenvolvimento do caráter da criança começa
neste processo de interação, este apoio, incentivo,
confiança, faz com que procure ser mais eficiente na
solução de seus problemas. A presença do outro é
condição “sina quo” para aperceber-se de sua
humanidade, quando o adulto acolhe, respeita, elogia,
confia, confirma a esta criança o calor humano tão
merecido e desejado.

35
Toda criança precisa conviver e experimentar
estas emoções de prazer e desprazer, esta relação com
o meio social, cultural e educacional introduz na sua
autoimagem uma personalidade que confia no seu
potencial. Esta criança imita atitudes recebidas, todo
este cuidado, carinho, afeto, desenvolve as qualidades e
os valores humanos. Com uma autoestima elevada e um
conceito muito bom de si mesmo está pronto para
internalizar uma imagem positiva de sua pessoa.
Seu caráter começa a ser estruturado nestas
identificações funcionais e constituem um privilégio de
estar sendo agraciado com a presença de outro ser
humano. Esta formação do caráter baseia-se nas
experiências que possui com os outros seres humanos.
Este processo de identificação pode estar impregnado
de imagens positivas ou negativas de alguma pessoa
que admira e confia.
A autoestima, o autoconceito, a autoimagem,
depende da qualidade de suas relações, estes vínculos
podem ser a sua salvação ou também o seu desastre.
Porque estas qualidades éticas proporcionam à criança
a vivência do amor incondicional, este amor está acima
de qualquer característica física, mas pode incentivar ou
motivar para receber reconhecimento e valorização do
mundo dos adultos. Esta iniciativa de procurar a
criatividade, novas soluções para seus problemas.
Este processo de identificação pode ser muito
funcional ou totalmente alienante e pode basear-se nas
capacidades e qualidades, esta confirmação do adulto
sobre a sua capacidade devolve a autoestima e o
36
autoconceito, isto fortalece a capacidade da criança de
relacionar-se e resolver problemas de um modo original
e criativo.
A formação deste caráter da criança depende da
qualidade da mãe, do exemplo dos pais e da convivência
harmoniosa com seus irmãos e familiares. O narcisismo
primário é este processo de superação exitosa sobre as
suas relações amorosas e afetivas. Esta identificação
desenvolve a autoestima e torna possível este amor por
si mesmo, um amor capaz de conquistar o impossível, a
emoção se caracteriza como uma fonte inesgotável de
superação.
Esta atitude de amor a si mesmo e aos outros
reforça a alteridade e impulsiona a pessoa a propiciar as
condições de vida para a realização de seus desejos.
Esta capacidade de criação, inovação, invenção, solução,
é a essência da criatividade de satisfazer-se e realizar-se
na existência. O outro é condição primária para estreitar
laços de amizade e respeito por toda uma vida, e neste
instante a humanidade é revivida com a ternura e o
afago do calor humano.
Aquele que consegue superar o ódio, a raiva, o
egoísmo, a ambição, a violência, o ciúme, a inveja,
conquista a amorosidade, estreita relações íntimas e
verdadeiras, e prepara-se para viver a dimensão da
humanidade. Quem vive o amor fraternal ou erótico
possui uma consciência capaz de fazer a experiência de
segurança e confiança. Ao superar todas as
adversidades da irracionalidade torna-se generoso,
bondoso, amável, esta é uma experiência de sucesso e
37
realização, capaz de agregar na sua vida sabedoria de
viver com alegria e viver em paz.
Qualquer pessoa precisa estar consciente de seus
limites e também dos outros, e em muitos casos
precisam dos valores éticos para realizar plenamente
seus desejos. A falsa expectativa gerada a partir de uma
idealização impede o diálogo com as frustrações. Este
estado emocional em conjunto com os valores propicia
a vivência da alegria, tem consciência de que é capaz de
amar e de receber amor.
A alegria é uma emoção importante e
fundamental para superar as tristezas. As emoções
possuem sua origem num sistema de crenças, costumes,
mitos, lendas, presentes na história de vida. A cultura
pode ensinar como superar-se, este processo de
ressignificação produz uma mudança na percepção e no
seu comportamento. Existe sabedoria em retirar do
caos a essência de algo proveitoso e útil à vida.
A superação precisa da criatividade para sair
daquele modelo de pensamento repetitivo, pois na sua
rotina alcança sempre os mesmos resultados. E para
haver mudanças, deve acontecer o novo, por isto é
inevitável que a saúde tome lugar da doença. Esta nova
criação é fruto de um desejo que transgride o antigo, o
formal, é uma atitude libertadora, porque torna-se
criativo diante das convenções sociais e culturais.
Muito do processo é inconsciente ou consciente,
mas independente de uma ação, o desejo aparece
transcrito naquele tipo de emoção exteriorizada. Todos
deveriam aprender a reverter um quadro de sofrimento
38
em prazer, o que não é o mesmo que viver o prazer
através da dor, o desafio torna aquele momento muito
especial, pois impõe o confronto, o quanto de
inteligência e capacidade possui para sair daquela
situação de angústia, tristeza, ansiedade, para a
satisfação e realização.
Este estado de alegria é uma oposição à tristeza,
e consegue mesmo vivendo no sofrimento, encontrar
sentido e significado nesta experiência, esta
transcendência é necessária para não reprimir a dor,
desconhecer, negar, fugir, e deixar-se dominar pelo
sofrimento. A superação é um caminho de
possibilidades que se abre para encontrar sentido
naquele sofrimento, este é o grande triunfo, porque
mesmo nesta situação desfavorável e insegura consegue
sair em defesa da alegria e felicidade.
Esta defesa contra o sofrimento é um desejo
arraigado nas profundezas do seu amor à vida. Esta
atitude contribui para a saúde psíquica e orgânica, pois
consegue reverter algo de dor em prazer, este novo
significado pode viabilizar algo que era desprazeroso em
alegria e realização. A essência da superação é a magia
que a criatividade e inteligência emocional conseguem
realizar.
De certo modo quem consegue superar-se é
porque tem uma boa autoestima, coragem pode fazer
frente às culpas, medos e castigos impostos pelo
superego. Esta condição de saber lidar com situações
estressantes e de pressão mostra a capacidade de
superar-se diante das tensões acumuladas. A culpa, a
39
punição, o castigo desqualifica e desmerece qualquer
tipo de conquista, é preciso esclarecer e conhecer os
conteúdos que reforçam a neurose destrutiva.
A superação é uma qualidade ligada à
sobrevivência, a capacidade de pensar sobre o prazer e
desprazer nos abre um caminho para formular novos
conceitos, hipóteses, estratégias de ação, incluindo a
esperteza de aproximar-se daquelas pessoas que podem
ajudá-la a sair daquela situação de perda na existência.
Esta capacidade criativa de superar-se não é um dom,
talento, vocação, mas uma condição inata que podemos
chamá-la de “potencialidades” que fazem parte da
natureza humana. Este desejo de mudar a situação de
desprazer insere-se neste contexto da análise, porque
esta reflexão é uma arte aliada à sabedoria do sujeito.
Na análise abre-se um espaço para refletir sobre
a sua condição existencial afetiva, familiar e profissional,
e de todos os modos precisa de uma resposta sincera e
verdadeira para aquela vivência pessoal. Esta relação
entre o “EU”, o “SUPEREGO” e o “INCONSCIENTE” nos
transporta para um mundo de possibilidades e
incertezas, e este conhecimento de si mesmo sobre a
sua autoestima, seu processo destrutivo, suas neuroses,
podem levá-lo a tomar consciência sobre este processo
de vitimização, ou encontra-se dominado pela sua
mania de grandeza, talvez o seu narcisismo impeça de
olhar a realidade com humildade e sinceridade.
Quando uma pessoa não se realiza e encontra-se
insatisfeito procura nos mecanismos de defesa, uma
forma de proteção para enxergar a realidade. Quando
40
um grupo de pessoas induz, cerceia e seduz uma pessoa
a fazer parte daquela patologia, indiretamente força a
fazer uma escolha, mas a decisão de fazer parte do
grupo violento e destrutivo tem o premio de receber
afeto e reconhecimento.
O afeto e amor acontecem pela capacidade de
uma pessoa de relacionar-se, esta necessidade
inconsciente está presente em todo ser humano. Todos
precisam deste afeto, na falta desta experiência a vida
encontra-se comprometida. É como as adições e
compulsões, num momento a privação e no outro o
excesso, em muitos casos a pessoa está consciente de
que não é merecedora da valorização e do amor. O
isolamento, a solidão, é uma decisão de afastar-se das
pessoas amadas.
Na fantasia o narcisista diz que não precisa do
afeto, e que o amor é algo insignificante, estão sempre
na defensiva, escondendo com extrema inteligência
todas as suas carências, este disfarce inclui a mentira, as
deformações da realidade, autossuficiência,
onipotência, e que muitas vezes acaba sendo projetado
nos outros. Quando a capacidade de relacionar-se está
bloqueada e impedida de manifestar-se, pode surgir
uma vontade de superar-se e procurar sair da condição
de isolamento.
Quando pensamos em superar, possuímos a
tendência de pensar sobre as possibilidades de
conseguir com sucesso este desejo, a promoção dos
prazeres da existência nesta constante relação com este
lado transdisciplinar, amplia a compreensão da saúde
41
como da patologia. Os conflitos neuróticos estão sendo
elaborados e estruturados desde a infância, mas ao
mesmo tempo este estado de consciência consegue
fortalecer e tornar este sujeito forte e capaz para
resolver seus conflitos. Cada conflito superado aumenta
a confiança e a capacidade de acreditar ainda mais em si
mesmo e na sabedoria de caminhar ao lado de sua
saúde psíquica.
A superação dos traumas é uma longa jornada de
convivência com a dor emocional, não existe saída a não
ser enfrentar as forças inconscientes que se opõem para
expulsar da consciência qualquer motivo de
compreensão sobre as emoções destrutivas. Estes
mesmos pensamentos e emoções reprimidas são
expulsos e recalcados, depois todas as defesas fecham a
porta da compreensão para poder lidar com estes
traumas.
Sem dúvida aos poucos as barreiras
intransponíveis da compreensão começam a fazer efeito
sobre este novo estado de consciência. Porque ao
compreender as motivações inconscientes de seu
processo de falência existencial consegue se quiser,
mudar a direção do investimento da energia psíquica.
As leis dos fenômenos emocionais do nosso
inconsciente são muito diferentes da nossa maneira de
raciocinar os acontecimentos. Porque muitos modos de
pensar e emocionar-se são aprendidos de maneira
inconsciente, por isto mesmo o sofrimento é aceito sem
nenhum tipo de questionamento, passivo, se compraz
na dor, como se fosse algo do destino, ou de forças
42
sobrenaturais. Quando começa a refletir sobre a sua
vida emocional nos defrontamos com duas realidades: A
fome e o amor, uma está ligada ao “instinto de
sobrevivência” e o amor é uma emoção que produz
muita energia e satisfação.
Podemos também acrescentar o “Instinto de
conservação” ligado à relação sexual e reprodução da
espécie. Tanto as “emoções” como os “instintos”
procuram através da inteligência organísmica viver os
diversos tipos de “prazer”. Ninguém pode contestar que
estes instintos e emoções podem ser a causa de nossa
alegria, felicidade ou da tristeza e insatisfação. Por
detrás desta “superação” encontra-se atuando sem a
nossa mínima consciência uma diversidade de emoções
e pulsões. A vida emocional e pulsional são alicerces da
força de vontade, do desejo de superar as limitações.
O ódio, a inveja, o ciúme, o egoísmo, o
narcisismo, são forças destrutivas e levam à pessoa a
um processo de privação e morte. O amor, a alegria, a
felicidade, a solidariedade, o perdão, a alteridade, a
compaixão, são forças unidas entorno do prazer de viver
e promover a vida em toda sua extensão. A existência e
todos os tipos de prazer estão sendo orientados pelas
emoções e pulsões, mas existe uma emoção ligada à
agressividade que mesmo estando presente no ódio, na
inveja pode não ser destrutiva. A energia psíquica
oriunda da emoção do amor pode tornar-se muito
agressiva e violenta quando acompanhada de um tipo
de traição, às vezes o amor pode tornar-se um caminho
de destruição.
43
O objetivo da existência é viver a plenitude do
amor e da felicidade, e todos estão à procura do
caminho que leva à salvação da saúde psíquica, as
pulsões de vida produzem uma biofilia, um amor muito
especial pela vida, e ao mesmo tempo acompanhamos
muitas pessoas usando as emoções destrutivas para dar
vazão à agressividade. E todos buscam a qualquer
preço a paz, segurança financeira, amorosa, e
conseguem aplicar na vida a potência de agressividade
para alcançar os seus objetivos.
São muitos os prazeres que a vida oferece, e cada
pessoa alcança um nível de satisfação e realização nos
traumas que pretende superar, o resultado é produto
da inteligência emocional utilizada com sabedoria. Estas
emoções em conjunto com o ambiente familiar e do
trabalho ajudam na superação de muitos momentos de
dificuldades com relação à saúde psíquica e orgânica.
Cada superação é um novo nascimento do seu
“eu” uma tarefa que não tem como fugir, pois enquanto
formos humanos, temos que enfrentar a potência de
destruição ancoradas no ódio, na cobiça, ambição,
inveja, este tipo de emoção traz insegurança, e é capaz
de influenciar os seus valores éticos e morais.
Esta capacidade de superação na existência nos
possibilita vivermos a agressividade como uma força
capaz de nos ajudar e nos defender dos confrontos com
a existência. A questão da violência é inata no homem,
se alguém tem dúvida a este respeito escute as notícias,
guerras, roubos, homicídios, sequestros. Esta barbárie
está presente no nosso sistema límbico e não
44
precisamos provar, basta somente olhar a nossa volta e
encontramos pessoas com mau caráter, egoístas,
narcisistas, ciumentas, gananciosas. Ao conseguir
perceber a presença destas emoções, o sujeito
acometido não tem a mínima consciência das atitudes
destrutivas.
O sujeito em questão não tem consciência sobre
as suas atitudes destrutivas e maldosas, porém o preço
que paga socialmente e emocionalmente é muito caro.
Muito deste comportamento narcisista têm origem
nestas emoções, e muitos não querem ou não se deram
conta da importância de superar este estado de
desumanização.
Pois a quantidade de energia que gastam para
reprimir ou diminuir o impacto das atitudes sobre suas
vidas é interminável, estas emoções egoístas e
agressivas quando associadas ao prazer sádico são
capazes de procurar na violência física e emocional a
excitação para obter a gratificação sádica e violenta.
Os filmes, as notícias, a literatura, todos estão
repletos de atos de crueldade, muitos sentem uma dose
de prazer em desqualificar e humilhar uma pessoa, a
agressividade é compensada nos esportes, filmes,
guerras, terrorismo, esta tendência é inata, de certa
forma todos os seres humanos devem saber superar e
desviar este desejo sádico de agressão para ações
benéficas e meritórias socialmente. A superação é um
estado de prazer agradável, quando nos tornamos
eficientes, conseguimos realizar nossos objetivos em
alguma área de nossa vida.
45
Este prazer em competir está relacionado a estas
emoções agressivas, por isto mesmo o problema da
violência no âmbito familiar e na sociedade vem
aumentando de forma assustadora. Ao mesmo tempo
estas emoções agressivas podem ser sublimadas e
usadas a favor da qualidade de vida. Em todas as áreas
de nossa existência precisamos de um grau de
agressividade para fazer frente às adversidades, porque
os submissos e masoquistas perderam a qualidade
preciosa e vivem o tormento do sofrimento. Mesmo o
amor precisa da humanização, superar-se como homem
necessita de certo grau de agressividade, este
investimento é indispensável para realização e
satisfação.
O instinto de conservação está ligado à
sexualidade como reprodução da nossa espécie, as
emoções agressivas estão presentes em nós mesmos e
nos outros, queiramos ou não somos reféns da violência
inata, muitos não querem pensar sobre esta realidade e
por isto mesmo, reprimem ou recalcam esta
agressividade. Muitos aprenderam através dos valores e
virtudes a canalizar a agressividade em ações produtivas
socialmente, ninguém aceita de bom grado a violência
e, portanto a sublimação e superação das pulsões é um
processo fundamental.
Este “instinto de conservação” é uma realidade
humana muito primitiva, e em todas as culturas e
sociedades sempre ritualizaram o medo da destruição.
Não é um assunto muito prazeroso, mas é fundamental
para não tornar a vida um ambiente desagradável e
46
cheio de violência. Agora podemos começar a entender
as motivações inconscientes que leva um ser humano a
tornar-se violento e agressivo, uma das hipóteses seria
um estado de completa frustração e insatisfação de
viver socialmente. Porque qualquer tipo de prazer que
uma pessoa deixa de obter pode considerar uma
espécie de frustração, como não aprendeu a resolver ou
superar as suas necessidades básicas, procura no roubo,
na violência física, nas atitudes sádicas, uma maneira de
roubar a paz e tranquilidade de alguém, e sem dúvida a
pessoa afetada por esta agressividade despertará
dentro dela este desejo de defesa, e nestes casos pode
tornar-se violenta.
As perdas, as dores, ou todas as formas de
violência podem desencadear a pulsão agressiva, as
atitudes devem estar devidamente integradas e aceitas,
caso contrário acontece o conflito. Porque quando
alguém encontra segurança em suas ações denota o
significado de uma identidade. Cada pessoa possui sua
originalidade através da maneira de interpretar a
realidade, independente se os outros gostam ou não,
para preservar esta especificidade do seu caráter é
preciso força de vontade.
A todo instante estamos sendo avaliados,
criticados, elogiados, enfim existem aqueles que gostam
da nossa maneira de ser e outros que detestam.
Evidentemente há muita inveja e ciúme nestes
comentários, e na maioria dos julgamentos. Este desejo
de superar-se e ocupar um lugar na sociedade se
defrontam com estes tipos de pessoas carentes destas
47
necessidades, e por sentirem-se pequenas e inseguras
preferem deslocar para as fofocas e perseguições.
Esta atitude emocional encontra-se escondida
nas profundezas do inconsciente, a criança emocional
precisa relacionar-se e realizar os desejos dos quais não
tem competência. Por isto esta pessoa inveja as
qualidades e capacidades de criatividade e inovação
daqueles que possuem iniciativa, alguns porque não
têm aquela coragem e determinação, outros porque são
brutos e insensíveis.
Existe ainda a inveja dos homens em relação às
mulheres pelas várias capacidades de “potencia” que a
natureza lhes presenteou, a sensibilidade, inteligência,
criatividade, maternidade, etc. Esta fantasia de querer
ocupar o seu lugar, demonstra uma inveja em relação
ao sexo oposto.
Algumas mulheres invejam a capacidade
empreendedora, a coragem, a força física, a liderança,
mas independente dos homens e mulheres, o que pode
mesmo influenciar no sucesso e fracasso da existência é
a confiança em si mesmo. Ambos podem conhecer e
utilizar com inteligência as suas potencialidades, as
provas de autossuficiência e competência estão muito
além da categoria de gênero. A definição desta
competência em superar as adversidades da existência
ultrapassa a questão genital.
Não é porque os homens possuem pênis que
serão mais eficientes e seguros e da mesma forma, não
é uma vagina que desenvolverá a capacidade de
resolver problemas. Agora a inveja, o ciúme, a
48
competição desleal, a falsidade, são emoções presentes
tanto no homem como na mulher independente de sua
condição de gênero.
Nenhuma mulher será melhor e mais qualificada
que um homem porque são mães e estão
amamentando. Não é a capacidade que a natureza lhes
presenteou para gerar filhos e amamentá-los que a
diferencia e distancia dos homens. Um homem pode
tornar-se generoso e colaborador no cuidado de seus
filhos e não sentir nenhum tipo de inveja de ser mãe,
até porque é pai.
A maioria das atividades e desejos dos homens e
mulheres é inconsciente, e todo ser humano
independente desta categoria de gênero possui esta
“potencia” para tornar-se mais humano e menos
inseguro. Esta realidade da sensibilidade e da
racionalidade pode estar presente em diferentes graus
tanto em homens como nas mulheres, e assim muitos
homens podem gerar e dar à luz a muitos
empreendimentos e invenções.
Esta particularidade de “animus” e “anima” se
fazem presentes tanto no sexo feminino como no
masculino, a criatividade depende muito do esforço e
dedicação para superar e encontrar prazer num tipo de
profissão. Masculino e feminino são duas faces da
mesma moeda, porque os desejos são comuns, e se
existe alguma inveja isto é fruto do incentivo de uma
determinada cultura, religião, política, sociedade, pois
esta influencia pode nortear a formação do seu caráter.

49
Todos os seres humanos independente de classe
social, religião, cultura, estão buscam realização, e
ninguém pode considerar-se pronto e acabado, ou que
conhece toda a verdade da natureza. Em todos os
comportamentos podem existir uma sublimação que
torna possível uma pessoa tornar-se produtiva mesmo
diante de uma enorme dificuldade.
Sobre as influências sociais e culturais o processo
de visualização da existência segue os princípios das
regras, normas, leis, costumes, rituais, mitos,
religiosidade de uma comunidade de pessoas que
acreditam neste estilo de vida.

50
2.0 - A superação do trauma: Realidade ou fantasia.

A psicanálise é uma ciência da vida que procura


pesquisar a origem, os meios, os métodos, que uma
cultura utiliza para resolver os traumas oriundos de
catástrofes, enchentes, maremotos, furações, acidentes
de trânsito, e outros relacionados com os abusos
emocionais, físicos e sexuais, perdas de um grande
amor, da morte de um amigo. Como havíamos
comentado esta “potencia” para superar e enfrentar-se
diante dos desafios dos traumas e bloqueios emocionais
remonta a origem da humanidade.
Por isto é necessário fazer algumas reflexões
sobre este processo dinâmico da energia psíquica
utilizada para resolver os seus problemas. Porque
algumas pessoas possuem mais coragem e
determinação que outras? Como se explica a eficiência
do sistema imunológico para enfrentar determinadas
doenças como o câncer? Ainda não temos explicações
definitivas, mas diante dos desafios que a existência nos
coloca, independente da questão financeira, amorosa,
afetiva, todos indiretamente devem dar uma resposta a
estas necessidades fisiológicas e afetivas.
Estamos falando de necessidades básicas como
muito bem definiu Maslow, como por exemplo, a
autorrealização (Afetiva e Intelectual), autoestima,
reconhecimento e valorização social, segurança
emocional, financeira e fisiológica. Desde o momento
que o homem tomou consciência de sua existência,
iniciou-se este processo de busca e solução das
51
necessidades básicas para a sua sobrevivência orgânica
e psicológica. E um dos grandes desafios foi aprender a
relacionar-se com os outros e constituir uma família.
Este ambiente social e cultural foi sem dúvida a base da
constituição da formação do caráter de uma pessoa.
Esta subjetividade pertence a este mundo de
experiências em conjunto com a inteligência cognitiva e
emocional, o bem estar, a realização e satisfação
pessoal, a alegria, a esperança, a confiança em si
mesmo, são potencialidades que devem ser
desenvolvidas e conquistas através da superação de
enormes adversidades em várias áreas da existência.
Todos nós concordamos que independente de raça, cor,
condição social, religião, existe este potencial inato, de
ser capaz de amar, de aprender, de ser ético, de
coragem, de perseverança, de perdoar, de inteligência,
de criatividade, de sensibilidade, enfim competências
valorativas que sustentam a sabedoria para fazer frente
aos traumas e catástrofes.
Acredito que esta capacidade de “superação”
possui uma relação direta com as virtudes e valores
aprendidos no seu meio cultural. O grupo social pode
ser de grande ajuda no sentido de ensinar as estratégias
para tornar-se forte e corajoso. As qualidades pessoais
como honestidade, sinceridade, bondade, dedicação,
disciplina, respeito, são internalizados pelo tipo de
educação recebida na família e depois utilizada no meio
social. A capacidade de ser responsável e dedicado para
empenhar-se na solução de um problema ou na
realização de um objetivo depende e muito da
52
competência pessoal. Por isto mesmo, os pais devem
educar seus filhos dentro de um ambiente de respeito,
solidariedade, valoração, reconhecimento, desafios,
tolerância, amor, respeito, condições básicas para uma
pessoa viver uma ética no ambiente familiar e
profissional.
A família em parceria com a escola deve
desenvolver nas crianças uma autoestima, um
autoconceito e imagem de confiança, uma consciência
de que possui este “potencial” para desenvolver-se
durante a sua existência. Esta consciência é fruto da
educação familiar e escolar e amplia as possibilidades
de colocar em prática toda sua inteligência emocional e
cognitiva, quando uma criança aprende que tem todos
os recursos para conseguir seus objetivos, então
podemos dizer que esta aprendizagem é responsável
pela sua coragem e ousadia no sentido de testar as suas
potencialidades.
As instituições têm o dever ético de viabilizar a
evolução destas “potencialidades”, porque os traumas,
as humilhações, a fome e miséria, podem preparar a
pessoa para fazer frente às adversidades. Se esta pessoa
consegue orientar toda a sua energia psíquica para uma
finalidade específica, com certeza sua inteligência será
usada para sua superação. Muitas pessoas estão
sofrendo, outras procurando os meios para sair da dor,
mas sem dúvida os profissionais da área da saúde
psíquica podem ser solidários e humanos para ajudá-los
na difícil tarefa de superação das dificuldades.

53
Esta potencialização dos recursos tem sua origem
no processo de aprendizagem da superação, cada ser
humano desenvolve estratégias e metodologias eficazes
para resolver determinados problemas. Esta
produtividade humana precisa da força de vontade, esta
atitude é capaz de fazer frente aos traumas e perdas
que colocam a prova sua capacidade de enfrentar os
acontecimentos inesperados, estes desafios são
vivenciados nas situações mais difíceis como a morte, a
perseguição, guerras, maremotos, tsunamis,
terremotos, miséria, despertam este estado de
fortaleza, a vontade tem um significado de garra,
coragem e determinação.
Esta segurança emocional possui a condição de
jamais deixar alguém desanimar ou se abater diante de
um fracasso ou de um trauma, ao contrário, cada
experiência dolorosa reforça ainda mais sua força de
vontade de alcançar o seu objetivo. Muitas tragédias,
falências, ensinam pela experiência uma humildade e
simplicidade para saber lidar com situações futuras de
perdas. Esta dinâmica psíquica inconsciente retrata a
robustez de alguém que não tem medo, sendo capaz de
resistir e fazer frente às situações limítrofes da
capacidade de um ser humano. Sua relação com as
experiências mal sucedidas não recaem na repetição,
sua resposta é a inovação a uma situação concreta.
Crianças que sofreram abusos físicos, emocionais
ou sexuais, se tornarão vulneráveis, a sua confiança
pessoal, no entanto aprendem que existe uma solução,
investir em conhecimento, determinação, disciplina,
54
para ser flexível o bastante, adaptando-se conforme a
realidade. Podemos com certeza afirmar que a
necessidade de superação é uma condição da natureza
humana, ao observar os comportamentos, sabem que a
cada desafio necessitam de uma resposta inteligente
para não conviver com a frustração, mesmo este
sofrimento pode tornar-se o centro de potência para
saber lidar com as situações complexas e difíceis da
existência.
Existem pessoas ou mesmo grupos humanos que
enfrentaram situações muitos difíceis de sobrevivência,
mas a sua pulsão de vida torna-se mais forte que a de
morte, por isto mesmo se agarra aos valores e procura
projetar toda energia psíquica num futuro promissor,
nada pode impedir alguém de realizar seus sonhos.
Existe é claro uma maturidade emocional capaz de
saber o tipo de problema, mas nada impede que utilize
sua experiência e inteligência para solucioná-lo de
forma positiva. Esta capacidade de decisão é a
manifestação da força capaz de mobilizar o seu ser para
resolver um tipo de problema.
Isto não significa que a pessoa esteja imune aos
sofrimentos da existência, depois de resolver um
trauma deve estar preparado para confrontar-se com
outro tipo de problema, enfim este processo de solução
de traumas é dinâmico, versátil, complexo, mas nenhum
é capaz de impedir o desejo de alguém fazer a mudança.
Mesmo que o trauma esteja relacionado com a morte
de uma pessoa amada, nada impede de pensar numa
atitude saudável e positiva.
55
Nossa limitação tem suas raízes na condição
orgânica e emocional, talvez este tipo de experiência
possa dizer a alguém o que é possível e o que é
impossível. Mas nada pode impedir o ser humano de
usar a sua liberdade, de preparar-se e desenvolver sua
inteligência numa área específica para fazer frente às
limitações pessoais. Estes potenciais interagem com as
emoções, o modo de pensar, os desafios sociais e
culturais, sustentado em suas experiências da infância é
capaz de fazer frente aos traumas afetivos, econômicos,
familiares e sexuais.
Algumas crianças que sofreram abuso e
negligência pela sua vulnerabilidade social ou pelo
excesso de superproteção trazem na sua memória o
registro da sua experiência, as imagens possuem um
significado na vida, dependendo de uma série de fatores
que podem contribuir ou prejudicar o desenvolvimento
de suas capacidades durante um período do seu ciclo
vital. Alguns traumas estão relacionados com doenças
graves, depressões, falência familiar ou econômica,
alcoolismo, drogadição.
Este tipo de trauma potencializa um processo de
vitimização, a pessoa torna-se um masoquista, aprende
a ter prazer através do sofrimento, às vezes esta prática
torna-se parte da sua vida, esta situação reforça o
complexo de inferioridade, a única saída é procurar nos
psicotrópicos a solução para os seus problemas.
Aquelas crianças que nasceram num lar cheio de
cuidado, carinho, amor, não estão isentas de conviver
algum momento de sua vida com algum tipo de
56
problema, como por exemplo, doenças graves, falência
econômica, perda de alguém que amava, estas vivências
trazem consigo a supressa da dor e sofrimento. Certos
acontecimentos não dependem da classe social,
condição econômica ou mesmo familiar, pois
determinados grupos de amigos ou ambientes podem
desencadear algum tipo de psicopatologia, como no
caso da simpatia, da inteligência, da capacidade de fazer
amigos, de saber negociar, estas qualidades podem ser
observadas num psicopata.
Esta qualidade aprendida numa família estável e
equilibrada pode em determinado momento da vida de
alguém ser utilizada para o processo de destruição
pessoal. Para entender o processo de superação
precisamos estar atentos e entender como uma pessoa
interpreta determinados acontecimentos, pois a
maneira de refletir sobre determinadas experiências
pode influenciar no processo de formação do seu
caráter. Devemos saber fazer a intervenção com
sabedoria, pois um potencial pode estar sendo utilizado
como um recurso para sustentar um ganho secundário.
Porque todo processo de falência afetiva e
econômica tem a ver como esta pessoa utiliza seu
“potencial” para sustentar o funcionamento
inconsciente da neurose necrófila. Por isto é
fundamental que os profissionais da saúde saibam
compreender com funciona o investimento de sua
energia psíquica. Para isto as redes sociais de
atendimento, os educadores, psicanalistas, e outros

57
tipos de atendimentos percebam as defesas e
estratégias de vitimização e destruição.
Muitos destes traços de caráter carregam consigo
uma repetição transgeracional, este círculo vicioso se
sustenta em base ao seu processo de identificação
inconsciente, para isto a pessoa precisa libertar-se dos
bloqueios emocionais originados nos traumas dos seus
antepassados. Quanto mais consciência sobre o
processo de dominação neurótica, melhor a capacidade
de modificar e utilizar um determinado tipo de recurso
emocional. Esta mudança de atitude é funcional à sua
saúde psíquica, e também a todos os familiares e
amigos que convivem e indiretamente estão intoxicadas
por este tipo de problema.
Este questionamento é muito saudável, a decisão
de sair de um vício, de alterar uma maneira de pensar,
de investir num objetivo, é fundamental para começar a
sair da zona de conforto para viver a alegria e felicidade.
Todos possuem muita experiência de sofrimento
entorno de uma “adição”, somente uma reflexão
profunda e um amor sincero são capazes de mobiliar o
seu pensamento e capacidade no sentido de
transformar a sua vida. A teoria é importante, porém é
preciso saber quais os fatores que podem tornar uma
pessoa forte o bastante para fazer frente às
compulsões.
A superação inicia-se desde o nascimento do
bebê, daquele momento em diante aprende a lidar com
as perdas e conviver com os afetos positivos, este
processo de aprendizagem precisa de um educador, o
58
pai, a mãe, o avô, os tios, os amigos. Estamos torcendo
para que esta criança tenha uma rede de relações
positivas em valores e virtudes, e aos poucos se sinta
confiante, corajosa, feliz, em condições de enfrentar
situações de stress, angústia, ansiedade, e que possa
sair sem nenhuma sequela depois desta experiência.
Todas as dificuldades ou traumas necessitam de
um desejo de transformação, a superação exige da
criança uma reação favorável para aprender a conviver
em grupo e na sociedade. Então aos poucos a criança
sente-se aceita, elogiada, reconhecida e amada, esta
experiência positiva reforça a repetir estes valores e
assim, possui a confiança necessária para enfrentar
determinadas dificuldades. Aprender a resistir e
sobreviver aos desafios sem maiores complicações, uma
criança abandonada e sozinha precisa desenvolver
estratégias para poder sobreviver, por isto mesmo
aprendeu a ser forte e capaz de enfrentar determinados
sofrimentos.
Muitos fatores podem desencadear um talento
especial para superar determinadas dificuldades ou
carências. Por exemplo; um jovem que tenha timidez e
uma inibição para se relacionar com o sexo feminino
pode tornar-se um líder, esta necessidade de aparecer e
chamar atenção das garotas não resolve a timidez, mas
consegue permanecer vivo e atuante, pelo menos
encontrou um sentido para viver. Aos poucos este
trauma pode ser a provocação para tornar-se
comunicativo, esperto, criativo, dinâmico, tudo isto para
compensar o medo do sexo oposto. Um problema de
59
inibição pode ser a motivação para destacar-se no seu
grupo de amigos ou na sua comunidade, indiretamente
este trauma pode ajudá-lo a desenvolver outras
potencialidades adormecidas ou latentes. Este trauma
psíquico pode torná-lo um excelente negociante, com
inteligência e capacidade de destacar-se no mundo dos
negócios.
Pelo menos pensa que com este seu talento e
posição social pode conseguir o afeto e atenção das
garotas que tanto gosta. Aqui podemos interpretar os
fatores que podem desencadear a motivação para
“superar-se” de algum tipo de trauma ou problema,
então o desenvolvimento destas habilidades passa por
uma decisão de empenhar-se, dedicar-se e esforçar-se
para conseguir um lugar de destaque na sociedade, na
verdade a sua pobreza, a inibição, naquele meio social e
cultural foi o que desencadeou este desejo de sair da
condição de pobreza intelectual e econômica.
Cada pessoa tem sua própria experiência, da
infância, adolescência, juventude e mesmo na vida
adulta, este aprendizado é um legado cultural capaz de
mobilizar todos os seus recursos para superar-se em
suas dificuldades. Diretamente a superação está ligada à
evolução pessoal, este estado de consciência pode ser a
chave para decidir com mais eficiência diante de seus
problemas, não existe uma receita pronta, nem
tampouco conselhos ou manual de sobrevivência,
descobrimos nas soluções de cada superação uma
originalidade aliada à criatividade uma originalidade
muito particular.
60
Ao estudarmos este conceito de “potência” para
superar-se das feridas e traumas de uma infância difícil,
independente das ideologias, crenças, costumes,
tradições de uma cultura, podemos em todas as
manifestações observar as famílias e mesmo as crianças
na procura de um modo de vida mais digno e justo. Este
desejo de superação é uma potencialidade inata e pode
ser amplamente desenvolvida com a ajuda do seu meio
social, para conhecermos a potência da segurança, da
confiança, da coragem, da criatividade, precisamos
entrar em contato com a história de vida. Em cada
historiografia notamos a presença da capacidade de
enfrentar traumas e sofrimentos, aos poucos aprende a
contar consigo mesmo, as suas conquistas torna-se o
alimento que sustenta a sua motivação.
Em cada história de vida encontramos exemplos
de superação, o estereótipo é composto de muitas
dificuldades, falta de amor, de afeto, de dinheiro, de
cultura. Mas nem mesmo este ambiente inóspito pode
podar ou bloquear o desejo de sair da condição de
miséria humana. O desenvolvimento da capacidade de
força e determinação acontece nas relações
estabelecidas num grupo social, e tem reflexos
avaliativos numa determinada sociedade. Este talento
especial de saber desenvolver o “potencial” de
comunicação ou liderança se explica pelas necessidades
de sobrevivência psicológica e afetiva. Começa a ter
consciência de que precisa contar consigo mesmo, a
única pessoa capaz de ajudá-lo é ele mesmo, assim

61
entende que precisa responsabilizar-se pela sua
existência.
Por exemplo, a morte do pai e da mãe, ou dos
dois, pode exigir-lhe mais dedicação ao estudo e
empenho na sua existência, as necessidades afetivas e
econômicas podem exigir deste adolescente maior
compromisso em aprender a manter-se sozinho. Não
existe acomodação e muito menos vitimização, o
confronto com a sua sobrevivência é inevitável, não
existe opção, precisa caminhar nesta direção, mesmo
que a inferioridade, a fome, a baixa autoestima, a
pobreza, caminhem ao seu lado, mas independente
destas situações precisa lançar-se na busca de soluções
cada vez mais eficazes e duradouras para sair da
situação de pobreza econômica e cultural.
A falta de amor, a solidão, as carências afetivas,
podem ser o principal motivo para sair em busca de
uma solução para seus problemas. Quando não existe
alguém para ensinar é preciso sair em busca do
conhecimento, para que isto aconteça é preciso um
desejo de querer imensamente de viver. Para suportar
todas as “faltas” é preciso dar significado a sua
existência.
O seu inconsciente procura um sentido para
continuar a viver, caso contrário, decide por um
caminho onde a sua destruição é inevitável, como o
mundo das drogas, do roubo, da violência e de tantas
maneiras de ir de encontro à morte. Mas a base de todo
este desejo depende dos valores aprendidos na família,
numa instituição, além disso, precisa conviver com a
62
culpa de conseguir por mérito próprio o
reconhecimento social, e por isto mesmo não se vê
digno de receber os ganhos que a existência tem para
lhe presentear.
No começo uma criança que não tem pai e mãe
aprende a lidar com o abandono de seus parentes, e
mesmo com as contradições, as injustiças, os abusos,
acaba sofrendo nas mãos de adultos inescrupulosos e
doentes. São estas crianças que depois precisam passar
quase toda uma vida resolvendo “traumas” que
incomodam e perturbam a sua felicidade.
Quando convive com alguém que está passando
fome torna-se solidário, e prontamente presta-lhe
ajuda, esta solidariedade é uma condição de superar-se
através do carinho e afeto daqueles que precisam de
sua experiência. Este método de superação inclui
valores que devem ser respeitados e vivenciados no
grupo, honestidade, solidariedade, humanismo,
colaboração, alteridade, bondade, caridade, enfim
condições básicas para que a superação de fato
aconteça.
Estes mesmos traumas e bloqueios tornaram-se a
pedra angular do seu sucesso, sua produtividade nasceu
do desejo de superação, a consciência lhe ensina que a
realidade precisa ser conquistada, para isto é necessário
estar disposto a ser flexível, virtuoso, para conviver e
alcançar seus objetivos. Como são muitos os traumas e
problemas para resolver como a situação econômica,
afetiva, profissional, intelectual, moradia. Outras
compulsões e obsessões prejudicam a canalização da
63
energia psíquica. Sair da condição destrutiva para a
vivência de um amor verdadeiro é um itinerário árduo e
paciencioso, precisa de tempo para naquele momento
especial da sua vida, priorizar um destes problemas e
solucioná-lo. Esta é a grande tarefa daqueles que
pretendem superar-se diante das compulsões e adições.
Quando a experiência é traumática num
ambiente familiar é muito comum a fuga, esta é uma
maneira de sobreviver e procurar em outro lugar um
espaço para colocar em prática os seus desejos. O fato
de fugir de casa é uma estratégia de sobrevivência
psíquica, isto demonstra a decisão de procurar o melhor
para a sua vida. Estas faltas impulsionam qualquer
pessoa a procurar um sentido e um lugar que lhe
propicie as condições para desenvolver suas
capacidades. A liberdade é uma prerrogativa de seu
desejo de respirar num ambiente onde possa exercer o
seu potencial, aprende a conquistar a liberdade, esta
mesma liberdade lhe ensina a ser responsável por suas
decisões.
As influências do meio familiar e social são
decisivas para uma tomada de decisão, principalmente
quando alguém é rejeitado, humilhado, agredido,
castrado, perseguido, não tem outra saída a não ser o
rompimento com este tipo de ambiente. Muitos não
conseguem deslocar a agressividade para uma
profissão, acabam sendo dominados e enfraquecidos
pelo domínio da autoridade, infelizmente esta pessoa
encontra-se presa num laço simbiótico, a submissão
pode ser a origem dos seus distúrbios e doenças. Alguns
64
vivem na mais completa frustração por isto mesmo
projetam a sua raiva e ódio nas pobres vítimas que
encontram pelo caminho.
Talvez este tema das “potencialidades” vista
como uma força psíquica encarregada de fazer frente
aos desafios na existência seja uma novidade para a
psicanálise, porém nunca foi para os grandes homens da
história e de tantos outros que souberam utilizar este
recurso poderoso na solução de seus dilemas pessoais.
Este tema da “superação” nos remete a pensar sobre o
processo histórico das ciências, muitos cientistas como
Gugliermo Marconi, Thomas Edison, Pasteur, Galileu
Galilei, Leonardo da Vinci, mostraram o potencial de sua
disciplina e determinação prevaleceu diante de sua
acomodação.
Os cientistas estão diante deste processo de
“superação” quando procuram nos métodos de
pesquisa novas descobertas para a solução de suas
hipóteses. Assim a ciência vem aos poucos fazendo seu
papel em várias áreas do conhecimento humano, este
processo de evolução é uma “superação” das
dificuldades e problemas. Assim estas mesmas
descobertas podem colocar em risco a sobrevivência da
humanidade, quando Einstein descobriu a fórmula para
a realização da Bomba Atômica todos sabiam do poder
de destruição em massa.
E isto aconteceu em Hiroshima e Nagasaki, sem
dúvida ainda hoje temos que conviver com mais de
trezentos mil mortos, sem falar nas tragédias das usinas
atômicas de Chernobyl, onde a contaminação radioativa
65
de uma cidade tornou-se um fantasma. Isto nos mostra
o quanto a ciência é vulnerável nas descobertas dos
segredos escondidos na essência dos fenômenos da
natureza, da mesma forma podemos fazer uso destas
descobertas com a finalidade de ajudar a humanidade a
“superar” as doenças, vírus, bactérias, fome, misérias,
que possam estar comprometendo a existência do
homem em nosso planeta.
E traduzindo toda esta experiência para pensar
sobre este “potencial” psíquico, uma energia inteligente
transformada em emoções e pulsões colocada a serviço
da qualidade de vida do ser humano. É uma tarefa difícil
e complexa de entender e descrever este processo de
atuação inconsciente na vida do ser humano, mas
devemos utilizar a nossa inteligência e força de vontade
para “superar” mais esta dificuldade e fazer uma
reflexão psicanalítica sobre o que nós entendemos por
este conceito. O ser humano encontra-se sempre diante
de um ambiente estimulador e motivador para a plena
realização de suas potencialidades, como também
encontra muitas dificuldades, traumas, perdas,
fracassos, que podem colocar em risco a sua
sobrevivência psíquica.
É incontestável a presença deste “desejo de
superação”, esta qualidade de proteger e garantir a sua
sobrevivência pertence à pulsão de vida, isto remonta
ao início do homem sobre a terra quando aos poucos
passou a ser senhor de si mesmo, porém no decorrer da
história da humanidade, acompanhamos os avanços e
declínios da luta incansável do homem para superar-se
66
diante da pulsão de morte. Este duelo entre a vida e a
morte está presente não somente na vida existencial,
mas também no interior de cada célula, de cada
cromossomo, enfim deduzimos que esta pulsão de vida
se aproxima muito do “desejo de superação” sair de
uma condição de pobreza e miséria para a abundância e
riqueza, da falta de amor e carinho para um ambiente
de afeto e compreensão.
Este desejo de “superar-se” encontra-se na
essência de cada ser humano, a natureza não nos deixa
abandonados, dispõe esta força de vontade para sair de
encontro à realização dos prazeres. Em todos os escritos
onde a imaginação está presente sempre encontramos
a determinação, coragem, ousadia, originalidade,
qualidades atribuídas a “potência de ser mais”.
Podemos constatar na história de vida de qualquer
pessoa a presença deste “desejo de superação”, uma
necessidade que instiga alguém a descobrir estratégias
e métodos capazes de solucionar um trauma, bloqueio
emocional. Um processo de tentativas e erros, mas
também de acertos, aquele que não desanima diante
das dificuldades acaba fazendo suas descobertas e
realizações pessoais.
Este é o grande mistério, se assim podemos
chamar, da “potência”, esta pulsão encarregada de
garantir a sobrevivência psíquica e orgânica. Mas a
motivação inspira e aproxima da pessoa este desejo de
“superação”, inconscientemente procuramos pelos
caminhos mais fáceis a vivência deste paraíso aqui na
terra. A psicanálise como ciência procura descrever este
67
processo de atuação inconsciente daquelas pessoas que
vivem com saúde emocional e de milhões de pessoas
que sofrem com os traumas. Não existe qualquer
medicamento ou psicotrópico capaz de eliminar ou
fazer desaparecer de uma vez por todas a convivência
com os traumas psicológicos.
Na análise dos pacientes podemos observar o
desenvolvimento do processo da estruturação do
trauma, e também na superação do mesmo. O trauma
emocional carrega consigo uma tristeza, um
desencanto, um desequilíbrio, e podemos constatar que
este estado emocional influencia e molda o estilo de
vida, e ao mesmo tempo descobrimos como acontece o
processo de “superação” diante de tantos problemas.
Em cada uma das vivências emocionais existe a
condição de tornar-se mais confiante ou inseguro, mas
ninguém pode aprender a resolver seus dilemas sem
antes ser capaz de posicionar-se e defender-se daqueles
que querem destruí-lo. Esta aprendizagem emocional é
fruto da vivência que pode torná-lo vulnerável e fraco
devido ao trauma sofrido ou forte e corajoso pela sua
experiência.
Em cada experiência de vida resgatamos e
acrescentamos ao nosso legado cultural contribuições
importantes para o nosso processo de evolução, estes
talentos, capacidades, potencialidades traduzem na vida
de uma pessoa, uma competência especial para saber
lidar com determinados conflitos emocionais. Esta
sobrevivência orgânica, precisa da inteligência cognitiva
e emocional para continuar este processo de evolução
68
de sua consciência. As pessoas são complexas e reagem
de maneira diferente diante de um problema, alguns
são inseguros e cheios de medo, outros mostram
coragem e determinação, anseiam e gostam do desafio,
sabem que através da “superação” podem se torna
ainda mais capazes para assegurar-se de sua eficiência.
Existem três tipos de pessoas que reagem diante
de suas difíceis e complexas, a primeira sente-se
impotente e sem condições desiste do desafio, a
segunda suporta e aceita, mas não consegue resolver
aquela situação, enrola, dissimula, e gasta uma enorme
energia para esconder que não tem coragem e
determinação para enfrentar-se. A terceira é aquela
pessoa que possui energia, disposição, vontade,
curiosidade. É claro que este exemplo é muito simples, e
poderia causar uma modificação na reação das pessoas.
Dependendo do ambiente também pode motivar e
ajudar, fortalecer e ser uma espécie de âncora para esta
pessoa fazer a passagem do medo para a coragem.
Existem várias teorias que defendem a
interferência na constituição deste processo de decisão,
como por exemplo; a hereditariedade, condição social,
cultura, grau de instrução, os traumas psíquicos, podem
ser algumas das variáveis a influenciar este estado de
insegurança ou segurança. Aqui nos defrontamos com o
grande questionamento da condição genética e cultural,
agora podemos perceber que este estado emocional
depende muito mais do afeto e amor do que
propriamente da genética. A consciência sobre o
caminho que deve fazer para realizar suas escolhas
69
encontra-se muito próximo da ternura, do acolhimento,
da sinceridade, da confiança, da partilha, da
honestidade, a vivência destes valores são condições da
clínica, e proporcionam ao desejo a vontade de superar-
se.
A hereditariedade é uma constituição genética de
raças ou condição social de seus antepassados e fazem
parte deste genótipo, porém não podemos recair
novamente num determinismo biológico ou organicista,
mesmo que alguém apresente este tipo de
comprometimento ou deficiência como no caso um
paraplégico, ainda assim é possível realizar os seus
sonhos. A grande questão na atualidade é conhecer na
história de vida quais os fatores que contribuem para
uma maior segurança emocional, isto nos leva a pensar
sobre aquelas pessoas inseguras e cheias de medo.
Uma pessoa insegura e com muitos medos é
sensível às demandas dos problemas que a vida coloca
para resolver, este estado de pessimismo, derrotismo,
desânimo, apatia, desencanto, pode estar diretamente
relacionado a algum trauma, esta emoção dolorida pode
ser o representante da culpa, punição ou boicote
pessoal.
Todos os traumas psíquicos, humilhações,
abusos, abandono, rejeição, podem funcionar como um
motor para acionar a coragem ou o medo. Qualquer
emoção que carrega na sua essência este medo, com
certeza torna-se uma presa fácil para a dominação de
uma neurose destrutiva. Todos devem aprender a
superar os problemas e dificuldades que a vida
70
apresenta, não basta fantasiar, sonhar ou imaginar, é
preciso de uma atitude para atender as exigências e
necessidades orgânicas e psíquicas.
A transformação é inevitável, porém o
sofrimento, a dor, o abandono, a solidão, podem ser
uma fonte de estímulo na procura da saúde, do prazer,
da aceitação, da convivência fraterna, enfim de certa
forma dependemos do tipo de ambiente e das pessoas
com as quais convivemos. A interação reforça a
confiança ou determina a insegurança, indiretamente
estamos sendo avaliados externamente e internamente
pelo superego. Trata-se então de entender a
complexidade da pressão social, familiar, institucional
sobre a vida de uma pessoa, algumas não suportam esta
pressão e desenvolvem um estado de stress,
esgotamento físico e emocional e doenças
psicossomáticas.
Determinadas experiências de vida podem
contribuir para a estruturação de uma neurose, isto sem
dúvida consome energia, tempo e dinheiro, este é o
grande risco que todo ser humano convive quase
diariamente, depois de uma série de aprendizagem
desenvolve uma imunidade psicológica para fazer frente
aos desafios sem adoecer. Mas não existe a condição de
alcançar este estado de bem estar e felicidade, sem
antes passar por estas experiências. A superação tem a
ver com uma atitude de crescimento, evolução, prazer,
realização, satisfação, é preciso querer e aceitar esta
condição.

71
Em todos os ambientes traumáticos sempre
vamos acompanhar a existência de inibições, timidez,
fobias, ansiedades, angústia, agressão, violência, devido
à dificuldade de canalizar este seu potencial para ações
mais prazerosas na vida. A frustração desencadeia uma
sensação de mal estar, de inveja, de tristeza, de ciúme,
as emoções aparecem porque as potencialidades das
conquistas e realizações acabaram sendo infrutíferas e
fracassadas. Este é o principal problema de uma pessoa
que se culpa e não se perdoa pelos equívocos cometidos
em uma determinada época de sua vida, ao invés de
entender e procurar sair daquela compulsão à
repetição, concentra sua energia e pensamento na
eficácia da reparação, para ficar com a consciência livre
de qualquer culpa, decide então castigar-se.
O sofrimento e a dor acompanham a pessoa pela
vida afora, como está atrelada a este tipo de dor, aos
poucos isto passa a ser normal, o anormal seria alguma
experiência de amor e afeto. A culpa obedece aos
desejos de um “outro” que representa uma autoridade,
como existe muito medo de desobedecer, prefere viver
neste tipo de acomodação, conviver com a dor e
sofrimento torna-se um ganho adicional, pois aprende a
fazer-se de vítima, e pela dor e a doença consegue o
afeto e atenção. Procura viver o amor pela dor, esta
inversão está de acordo com os padrões de conduta de
seu processo de identificação, porque a aprendizagem
pode ser internalizada através dos exemplos e
testemunhos de vida.

72
Então a pesquisa na psicanálise pode
compreender a doença e o sofrimento sobre dois
enfoques: Aqueles que vivem neste ambiente e
adquirem a doença, outros que conseguem elaborar,
confrontar, esclarecer e interpretar estes traumas e
realizar os seus sonhos. Quem vive num ambiente
produtivo e acolhedor, mas não conseguiu mobilizar ou
motivar-se para realizar os seus objetivos.
Os problemas acontecem em todos os tipos de
ambientes, porque uma pessoa da classe alta pode ser
um psicopata ou esquizofrênico, a condição social, raça,
cor, religião, inteligência, escolaridade, não exclui a
possibilidade da presença da patologia. Por isto mesmo
é complexo estudar este conceito da “superação”, até
porque quem conseguiu resolver suas questões
particulares e familiares encontra-se distante destes
grupos que vivem na miséria e doença.
O psicanalista convive com todos os tipos de
sofrimento psíquico, mas na atualidade o analista não
fica restrito à história de vida da infância entorno do
trauma, mas procura as forças latentes chamadas de
“potencial”, que talvez já estivesse presente na sua vida
e por algum motivo foi deixado de lado, neste caso é
preciso trazer à consciência estas qualidades e através
das experiências vividas com sucesso, retomar e
elaborar de maneira diferente o seu problema atual. O
fato mais importante é fazer que o paciente perceba a
diferença entre fantasia e ou realidade, estamos
resgatando aquele potencial adormecido nas
profundezas de seu inconsciente.
73
Esta é uma das mudanças significativas da
“Psicanálise Humanista”, este método de intervenção
está ancorado na potencialidade do paciente, pode ser
que exista a resistência em não querer admitir esta
qualidade, negando, racionalizando, ironizando,
consegue esconder a pérola preciosa, mas isto não
significa sua inexistência, este recalque aprisiona e
esconde o desejo de evolução e realização, ao negar
ofende e agride na essência o grande projeto da
natureza humana. Por isto mesmo deve estar preparado
para receber uma mensagem que aparece de forma
sintomática ou simbólica em cada fracasso ou doença.
Outros procuram situações de violência e
destruição para não viver mais este desespero, e
pensam que o único modo de livrar-se destas emoções
e pulsões é pelo método da narcotização ou destruição
pessoal. Hoje é o grande tema da psicanálise, como
ajudar uma pessoa a sair da condição de autodestruição
para aproveitar e conviver com todos os prazeres que a
vida tem a oferecer. Assim, o tratamento analítico passa
ser um espaço de conquistas e de superações, mesmo
frente a adições e compulsões, o sucesso na cura
depende do investimento de tempo, estudo e
investimento desta pessoa na solução deste problema
pessoal.
Às vezes certos traumas não têm o mesmo efeito
sobre algumas doenças psicossomáticas, ao contrário
desenvolvem uma capacidade de superar doenças, vírus
e somatizações. Por isto mesmo é difícil classificar ou
demonstrar quem tem esta capacidade de “superação”,
74
de outros que sofrem e adquirem doenças diante do
mínimo de stress. Podemos descrever alguns tipos de
pessoas que conseguiram superar as maiores tragédias
e traumas e outras no qual sucumbiram em doença e
morte, e algumas ainda continuam vivendo, mas sem
qualidade de vida, destaque também para àquelas
pessoas superficiais que vendem bem sua imagem, mas
são extremamente frágeis e vítimas diante de qualquer
dificuldade.
Os que acumularam força e criatividade pelo
dinamismo das suas experiências com os traumas,
conseguiu fazer a leitura correta do seu sofrimento e
utilizaram isto a seu favor, usaram a pobreza para
tornarem-se ricos, fizeram da doença o caminho para
viver com saúde, das neuroses para viver em equilíbrio e
satisfeitos, das adições para aprender a ajudar a quem
precisa.
Enfim esta pessoa é robusta e forte para fazer
frente às adversidades, não desiste fácil de seus
objetivos, procura de todas as formas um caminho que
inclui paciência, tolerância, reflexão, determinação,
treinamento, inteligência, para aprender com aquele
tipo de experiência de dor e sofrimento. O potencial de
vida utiliza o seu desejo para passar por uma série de
dificuldades, estes obstáculos podem tornar-se a prova
concreta da sua capacidade de superação.
Esta força psíquica tem muito a ver com a
convicção e disciplina em alcançar um determinado
objetivo na vida, que pode ser amor, dinheiro, cultura,
realização, status. Cada um com as suas escolhas, a paz
75
de espírito conduz a pessoa a viver em harmonia
consigo mesmo, com os outros e com a sociedade. O
limite para alcançar objetivos na vida depende dos seus
sonhos e de sua capacidade para gerenciar e resolver
conflitos, pessoais ou num grupo de pessoas. Então, nos
perguntamos: O que leva uma pessoa a enfrentar a dor
e sofrimento e jamais abrir mão de sua felicidade? Este
estado de perseverança, de paciência, de simplicidade,
de humildade. Consegue estar aberto às novas
aprendizagens, possibilita esta condição flexível e
incorporar no seu caráter novas descobertas.
Voltamos a comentar que é impossível estar
imune aos traumas e sofrimentos da existência, a
diferença é que alguns estão dispostos a testar os
limites de sua capacidade de resolver problemas.
Existem limites, mas alguns deles podem ser superados,
cientistas como Madame Curie vivia na pobreza e
trabalhou como empregada doméstica para economizar
o dinheiro para pagar a sua faculdade de física na
Sorbone. Enfim nem mesmo a fome, a humilhação, o
frio, a falta de dinheiro foi capaz de impedir-lhe de se
tornar a única mulher no mundo a conseguir dois
prêmios Nobel de física e química. São os exemplos de
pessoas determinadas em alcançar seus objetivos, para
isto existe um desejo que não pode ser abandonado por
alguma frustração.
Todos têm consciência das justificativas e
desculpas que várias pessoas apresentam para esconder
as verdadeiras razões da sua fuga ou desistência. Neste
caso Madame Curie poderia utilizar a condição de viver
76
na pobreza e sem dinheiro, da falta de educação e
cultura, pois com dezesseis anos teve que trabalhar
como empregada doméstica porque seu pai não podia
pagar-lhe seus estudos, ou da morte prematura de sua
mãe. Se olharmos por esta perspectiva tudo indica que
seu sonho estava mais para um delírio, uma fantasia,
mas a realidade mostrou que este sonho era possível
graças a sua determinação e perseverança, conseguiu
acreditar em si mesma, recebeu de seu pai a liberdade
para realizar o seu grande sonho.
Mesmo nas condições menos favoráveis o ser
humano possui o desejo de superar-se diante de tantos
empecilhos e dificuldades, sempre existe nenhuma
chance de realização, sem esta coragem, ousadia, força
de vontade, e saber que o êxito ou o sucesso
necessariamente passam pela transposição de todos os
medos e traumas. Nada impediu a superação desta
mulher, podia tornar-se vulnerável, fraca, depressiva,
revoltada com a vida, porque tinha todos os motivos
para tornar a sua vida um mar de lágrimas. Mas este
desejo de ser alguém, de tornar-se uma cientista foi a
mola propulsora de seu sucesso, conseguiu glória e
reconhecimento do mundo científico pelo
descobrimento do polônio.
Este tipo de superação nos mostra que a vida
para ser prazerosa e consistente deve necessariamente
passar por este desejo pessoal, esta dedicação, estudo,
agregou grande vantagem ao assumir-se como
autodidata. Tornou-se professora de si mesma,
conseguiu e extrapolou todos os limites dos “nãos”, não
77
posso, não é para mim, eu sou pobre, não tenho
condições financeiras, não consigo ninguém para me
ajudar, enfim, sair da condição do “não” e começar a
viver o “sim”, mas esta afirmação positiva na existência
precisa de estudo, empenho, dedicação, perseverança,
seriedade, coragem, humildade, qualidades
indispensáveis na vida de qualquer vencedor.
Esta “superação” insere a pessoa num contexto
de dificuldades para resolver, aceitar a ideia de sucesso,
de saúde, de viver o amor, de usufruir da sexualidade, é
uma condição a “priori” da busca incansável do
reconhecimento e valorização. Eu acredito que o
sucesso e a saúde devam estar acompanhados dos
valores éticos, pois não acredito que um mentiroso,
perverso, falso, consiga de fato ser feliz, muitos
acreditam que pelo caminho da corrupção, do engano,
da hipocrisia, chega-se mais fácil e com menos tempo
aos seus objetivos. Porém quando a poeira que estava
escondida em baixo do tapete vier à tona, termina com
tudo e todos. E todos são atingidos por esta psicopatia
da mentira e máscara.
A “superação” da qual nos referimos está
relacionada com estas qualidades, valores e virtudes,
esteio do caráter de uma pessoa. Esta consistência lhe
proporciona a liberdade de ser único e nas suas ações e
descobertas possui esta originalidade que transcende e
encontra-se acima dos espíritos medíocres e
mesquinhos. A fortaleza, a grandeza, a robustez de
quem vive a cada momento uma consciência carregada
de força de vontade, com espírito de garra e
78
determinação. Esta conquista da nobreza da condição
humana. Sem este desejo a vontade não existiria, o
reconhecimento precisa de empenho e investimento em
inteligência emocional e cognitiva.
São horas, dias, meses e anos de renúncia e
muitos prazeres para fazer uma opção por uma vida
que procura na sabedoria e inteligência, o caminho para
a felicidade, porque existem prazeres que estão muito
aquém e distante da “superação”, então é preciso
decidir-se com coragem e ousadia para saborear os
frutos da árvore da existência oferecidos àqueles que
são dignos de sua apropriação.
Por isto o processo de autoconhecimento é
imprescindível porque pode levar a pessoa a voltar-se
para dentro de si mesma e no fundo de sua alma
encontrar as respostas à solução de seus traumas. Estar
disposto a viver com saúde e felicidade depende muito
do quanto a pessoa está decidida a investir na qualidade
de sua vida.
Além de tudo, é preciso ação, a práxis, porque a
interpretação teórica sem a vivência prática é uma
perda de tempo, no confronto somos capazes de
observar o movimento das emoções que podem estar
bloqueando a passagem da energia da vida. A saúde
tem a ver com a realização e satisfação, sem culpa e
perdoando-se pelos equívocos cometidos, segue
adiante nesta trajetória de aprendizado e superação.
Quando existe este desejo arraigado nas profundezas da
alma, sempre encontraremos um caminho de solução
para todo tipo de problema. Podemos não concordar ou
79
achar uma estupidez, mas para muitas pessoas a morte
é descanso. Alguns pensam que desta forma estão
resolvendo o seu problema da dor e sofrimento.
O sofrimento e a dor não é uma tragédia final,
este determinismo do trauma psíquico como fonte de
infelicidade pode ser visto sob outra ótica, pois a
convivência com a dor faz parte da existência, e não
temos como nos esquivar, a não ser que alguém decida
narcotizar ou recalcar a emoção.
Porém os prejuízos na vida serão enormes, a falta
de consciência sobre as decisões inconscientes levam às
escolhas inconsequentes na vida. Quando o psicanalista
percebe a resistência de uma pessoa a viver com saúde,
felicidade e alegria, chega à conclusão da existência de
um prazer masoquista em viver no fracasso.
Às vezes é difícil aceitar esta interpretação, a
tendência é continuar na acomodação, muitos não
querem arriscar, mudar ou muito menos pensar. Depois
reclamam e se revoltam, criticam tudo e todos.
Infelizmente muitas racionalizações e negações o
induzem a não pensar, e nesta zona de conforto
esconde-se sobre os ganhos secundários, dependente e
submisso segue sem nenhuma reclamação as diretrizes
do sádico.
Mas a infelicidade pode de um momento para o
outro tornar-se o caminho da realização, tudo depende
de como a pessoa interpreta estes acontecimentos em
sua vida. Se pensarmos bem a sua saúde depende da
doença, porque através desta experiência pode
descobrir um caminho de alegria e satisfação.
80
Em algum momento pode estar desanimado,
triste, cansado, esgotado, esta experiência de certa
forma atinge a todos, porém esta condição emocional
pode ser transformada em coragem, alegria, vitalidade,
energia, como condição para “superar” os problemas de
sua existência. Esta capacidade de transformação varia
muito de pessoa a pessoa, o que nos leva a acreditar
que as dificuldades mostram alguma verdade escondida
de si mesmo.
A força de vontade combate o desânimo, a culpa,
a tristeza, a decepção, a traição, o desencanto, emoções
capazes de fazer qualquer pessoa desistir de realizar os
seus sonhos. A superação está atrelada ao desejo de
mostrar a si mesmo o quanto é eficiente e capaz. Esta
experiência bem sucedida reforça a confiança,
determina suas estratégias e descobre um método
eficaz para resolver sua baixa autoestima, seu complexo
de inferioridade.
A ciência psicanalítica numa sociedade
excludente e individualista pode ajudar e muito as
pessoas a conviver e resolver as questões da culpa e
fracasso, entender as defesas e estratégias daquelas
pessoas envolvidas num trauma, e fizeram de sua
experiência um caminho de felicidade e realização.
Quais são os valores éticos que permitem a
concatenação desta força psíquica utilizada para
resolver problemas de todo tipo? Aos poucos a
consciência é iluminada, aprende também a proteger-se
e procurar nos ambientes sadios um lugar proveitoso e
exitoso para alimentar a sua fome de realização. Isto é
81
muito importante, aproximar-se de pessoas e
instituições em busca de ajuda para fazer frente às
adições e compulsões destrutivas.
É difícil para um pai, uma mãe, um professor,
proteger e cuidar das decisões e escolhas dos filhos e
alunos, então alguns conseguem inclusive criar
ambientes saudáveis que propiciam as condições de
ajuda e acompanhamento neste processo de
recuperação do trauma. Esta elaboração precisa destes
recursos de qualidades especiais para ajudar na
mudança definitiva em relação a uma determinada
emoção, para isto, qualquer pessoa precisa de tempo,
estudo, terapia e determinação para sair da condição
traumática da pobreza de espírito e econômica. Todo
processo de dependência afirma a convicção de que é
uma pessoa imprestável e sem condições de realizar os
seus sonhos.
Em situações extremas a ajuda deve ser imediata,
mas com o tempo, deve-se priorizar a autonomia e
confiança, porque a dependência de dar tudo infantiliza
e torna as pessoas viciadas na acomodação. A questão
da “falta” deve ter um significado na vida da pessoa,
não é por acaso que existe esta debilidade, outorgar a
outro esta incumbência é desistir de aprender a
superar-se. Este potencial tende a aumentar em
eficiência e agilidade quando investido de experiências
exitosas, caso contrário, permanece latente e ausente
de qualquer esforço pessoal para exigir de si mesmo a
utilização de sua inteligência emocional.

82
A prevenção da saúde psíquica inicia-se desde o
nascimento da criança, continua na educação dos
valores e virtudes na família, e desenvolve-se com o
aprendizado intelectual nas escolas, este ambiente
propicia à criança as condições para enfrentar as
situações mais adversas e traumáticas, esta
potencialidade latente revela uma energia que faz
frente à preguiça e ao desânimo. A psicanálise tem a
nobre tarefa de ajudar estas crianças e pessoas a
descobrir este potencial criativo latente no seu
inconsciente, trazer à consciência as qualidades e
valores é o primeiro passo para colocá-lo em prática na
solução dos problemas.
Queremos um paciente com força, energia e
capacidade para fazer frente aos desafios. Os problemas
tornam-se uma provação para procurar uma solução, e
neste intermédio de tempo a pessoa ganha em
aprendizado e experiência. A capacidade de
recuperação de um acidente, de uma perda amorosa,
de uma morte, pode ser plenamente resolvida com a
ajuda da medicina, da terapia analítica e da aceitação do
limite. Porque a morte de alguém pode nos delegar uma
maior responsabilidade pela condução de nossa vida. A
necessidade de recuperar-se de um fracasso financeiro,
de uma perda, de uma doença, nos leva a pensar sobre
o desejo de superar-se diante dos obstáculos que
impedem a aproximação com a saúde, o amor e a
felicidade.
São muitas as provações, traumas, neuroses,
dificuldades, mas ao vencer estas adversidades
83
podemos dizer que somos competentes e capazes de
superar qualquer tipo de crise na vida. Tomar
consciência do problema, admitir sua existência, e
depois partir para a “práxis” uma dialética que se
apresenta nesta interpretação. Uma tese se constitui a
partir de um problema, o confronto com o contraditório
pode ser a solução para fazer a síntese do problema.
Estar convicto e preparado para dar o melhor de si
mesmo na superação das limitações pessoais, esta sábia
decisão merece aplausos, pois contempla o desejo de
sair daquela situação de perda na existência.
A superação nasce da fonte de potencialidades e
desencadeia uma série de reações emocionais capazes
de transformar a realidade, esta energia pulsional é
capaz de diminuir ou mesmo fazer desaparecer por
completo os efeitos de um trauma. O trauma deve ser
analisado dentro de um contexto mais amplo das
catástrofes ambientais, cataclismos, terremotos,
maremotos, tsunamis, guerras, violência urbana,
quando as pessoas se reúnem e decidem em conjunto
reerguer uma cidade ou mesmo minimizar a fome e a
miséria. É inevitável e não temos como fugir do
confronto com o stress da vida moderna, a ansiedade,
os traumas, as traições, as frustrações, estas
experiências acabam afetando a vida de qualquer
pessoa, às vezes em menor ou maior intensidade.
As catástrofes naturais atingem pobres e ricos,
negros e brancos, saudáveis e doentes, e todos estão
vulneráveis a estes acontecimentos, porque não
sabemos nem o dia e muito menos a hora que a
84
destruição aparece sem piedade. Este fenômeno deixa
as cicatrizes de traumas gigantescos na vida de uma
pessoa, principalmente quando perde todos os seus
familiares, são experiências amargas e de difícil solução.
As marcas são profundas demais e a dor da perda leva
inevitavelmente a alucinação como uma forma de negar
e não aceitar a realidade trágica e traumática.
O objetivo do tratamento psicanalítico na
psicanálise humanista, foi sempre resgatar este
“potencial” de valores e qualidades adormecidos pelo
estado de inconsciência ou alienação cultural, somente
a força de vontade pode reerguer qualquer pessoa
numa situação depressiva. Trabalhar com a esperança
de utilizar suas potencialidades dentro de um sentido de
vida, onde se possa incluir o amor, o afeto, a segurança,
e o bem estar de sua família. O ambiente analítico é
este lugar de resgate da decisão pessoal de sair de
qualquer tipo de adição, compulsão ou mesmo falência
econômica e afetiva.
Qualquer paciente encontra-se vulnerável a estes
ambientes doentios que fomentam a competição
desleal, a falsidade, a pressão, a negligência, e os abusos
de poder. O psicanalista deve estar atento para ajudar
na condução da solução deste tipo de problema, são
vários os desafios colocados para o paciente e seu
analista, por exemplo; desemprego, falta de dinheiro,
depressão, síndrome do pânico, divórcio, perda de um
amigo, morte de um familiar, adições de todos os tipos,
neuroses, psicoses, esquizofrenias estão presentes no
dia a dia do analista. Então quanto maior as
85
experiências frustrantes e fracassadas maior é o risco de
desenvolver traumas psíquicos, um fato é quando existe
um problema para resolver, o outro é quando se têm
cinco ou seis problemas para resolver.
Neste caso a probabilidade de surtar ou entrar
numa crise existencial é quase certo. Agora como
podemos interpretar um determinado tipo de
problema? É difícil e complexo, pois o que hoje
consideramos problema no dia de amanhã pode ser a
salvação para resolver uma crise específica na vida. Pois
não temos bem claro a intencionalidade e o desejo
inconsciente em estado latente e escondido por detrás
dos sintomas de falência. Até mesmo porque é
impossível não ser afetado de alguma forma pelo stress
leve, moderado, agudo e crônico.
Quais são os traumas que podem levar uma
pessoa a uma exaustão das suas forças psíquicas e
orgânicas? Toda esta experiência pode tornar-se uma
fonte de ajuda na superação e diminuição do efeito do
stress, aos poucos observa, reflete, e na ação modifica
sua trajetória de vida para diminuir ou mesmo fazer
desaparecer por completo aquele sintoma de
ansiedade. Este olhar crítico e consciente ajuda e muito
no esforço para reduzir um determinado tipo de
problema.
Quando o stress toma conta da pessoa podemos
considerar a presença dos sintomas psicossomáticos
como lesões nos órgãos internos, insônia, dores no
corpo, inflamação da musculatura, e outros
complicações que podem levar o organismo a um
86
completo desequilíbrio de suas funções. Esta relação de
conflito entre a pessoa e o ambiente pode levar a uma
interpretação equivocada sobre o modo de agir numa
determinada situação. Pode por exemplo, fantasiar ou
imaginar em proporções gigantescas um problema
bastante comum, isto acontece em pessoas sob o
domínio de emoções, as depressivas, desanimadas e
vítimas da carência afetiva. Esta interpretação
equivocada pode indicar que é impossível resolver uma
situação colocando em perigo todo o seu potencial de
inteligência.
De tudo isto se soma a existência do trauma,
aliado as frustrações é um caminho seguro para a
depressão, estes bloqueios emocionais sobrevivem e
dominam a pessoa graças ao conflito neurótico. São os
abusos emocionais, físicos e sexuais, que podemos
tratar como um trauma psíquico. Cada pessoa tem uma
percepção daquela realidade baseada na sua
autoestima, autoconceito e autoimagem, são três
categorias importantes que auxiliam na interpretação
da experiência.
O acúmulo de frustração pode levar ao completo
esgotamento, em todas as tentativas de solução
procura-se um resultado favorável, caso aconteça o
contrário, pode desaparecer por completo as suas
forças físicas e psíquicas. O que não podemos é ter
medo dos desafios, quando alguém começa a mentir
para si mesmo inicia-se o processo de anestesia do seu
potencial. Acreditamos que qualquer ser humano pode
mudar e transformar completamente a sua vida, pois é
87
possível sair de uma situação de psicopatia e adições
para a saúde e felicidade.
Ninguém pode desmerecer as pressões sociais e
culturais que estão influenciando a maneira de ser,
pensar e agir, o sucesso profissional pode transcender o
sofrimento psíquico, este processo de superação está
muito além das crises, doenças, traumas e independe da
sua condição social. O paradoxo, a contradição, em
relação à determinada superação pode deixar um
significado de inúmeros traumas ainda não resolvidos.
Este é o preço do processo infinito da satisfação e
realização, e da capacidade de enfrentar as situações
difíceis da existência.
Nos períodos de crise existencial, o ser humano é
obrigado a pensar sobre o que está acontecendo
consigo mesmo, esta é a complexidade da capacidade
de superar-se diante dos problemas, e tudo isto
depende do tipo e intensidade do problema. O trauma é
a exposição da pessoa ao conflito emocional, esta
mesma raiva pode desencadear uma solução para o
relacionamento, porque toda vivência emocional
carregada de raiva, ódio, medo, pode bloquear e
impedir a expressão do potencial afetivo e amoroso.
Estes registros marcam a força do trauma, o medo
aparece disfarçado na estruturação das compulsões e
compensações.
Esta necessidade inconsciente de amor, afeto,
valorização, dinheiro, pode ser a motivação para
procurar alternativas e novas experiências para procurar
no afeto de um amigo, no amor e valorização de uma
88
pessoa importante, a substituição daquele amor
materno ou paterno que não foi possível vivenciá-lo.
Este trauma tem a marca da revolta e indignação, na
falta de amor e cuidado perde-se muita energia, tempo
e dinheiro, em afetos substitutivos e falsos. Este é o
grande trabalho analítico a realizar, ajudar o paciente a
elaborar e solucionar os traumas, enquanto o paciente
vê no problema o impedimento do desenvolvimento de
seus objetivos, o analista encontra a abertura para
pensar sobre esta recuperação.
Esta nova interpretação sobre uma experiência
impulsiona e motiva o paciente a sair daquela condição
de perda para começar a ganhar, e assim aprende a
abrir novas possibilidades de solução. A falta de limites
pode lançar o jovem em experiências catastróficas, e o
excesso de cuidado pode atrofiar e impedi-lo de se
lançar rumo aos novos desafios. A superproteção dos
pais retira a chance de aprender por si mesmo a
resolver os seus problemas financeiros e afetivos.
Esta potencialidade pode fazer frente às
condições de abandono e humilhação, todos estão
preocupados em cuidar e prevenir este tipo de trauma,
mas nem sempre conseguem, os jovens gostam do
perigo e procuram afirmar-se diante de seus pais e
professores fazendo justamente o contrário. O proibido
torna-se o mecanismo de excitação e realização,
inconsciente destas ações procura no perigo, na
violência, nas brigas, na inimizade, a afirmação de sua
liderança. A solidão, o abandono, favorece a incidência
muito comum da inibição, o silêncio, a falta da palavra
89
advém deste ambiente que não estimulou a
comunicação ou a reprimiu quando ela quis manifestar-
se.
Podemos citar alguns problemas que podem
traumatizar uma pessoa, quando o ambiente familiar é
violento e agressivo; os pais têm transtornos de
personalidade; pais com adição e compulsões, morte do
pai ou da mãe, violência física, emocional e sexual,
pobreza ou miséria absoluta, prostituição, doenças
crônicas, e desastres naturais. O trauma está
entrelaçado por uma série de fatores como a condição
econômica e cultural de uma família, a saúde psíquica
dos pais, a convivência comunitária, a idade da criança,
e pactos inconscientes que escondem os segredos da
família.
Partimos da hipótese que o ambiente favorável é
uma condição para o aparecimento das potencialidades,
porém existem jovens que tinham tudo para se
sobressair na vida e acabaram na mais completa
falência. Então esta afirmação pode ser verdadeira para
alguns casos, mas nem todos os ambientes conseguem
convencer ou fazer que este jovem coloque em prática
toda sua potência como ser humano. Às vezes acontece
o contrário, esta situação favorável, este ambiente sem
problemas pode desencadear um processo de
dependência e vitimização. A superação pode acontecer
em ambos ambientes na falta e no excesso, portanto o
equilíbrio, e o bom senso nos dizem que o trabalho, a
conquista, aumenta significativamente a sua
autoestima.
90
Uma criança precisa desenvolver o seu potencial
intelectual, como por exemplo, diante de um ambiente
que castra e reprime, pode desenvolver por conta
própria o seu grau de inteligência, capacidade criativa,
confiança pessoal, liderança, atenção e concentração,
controle de suas emoções, relacionamento afetivo,
prazer em comunicar-se, flexibilidade, compaixão,
empatia, ternura, humor e capacidade de decisão. A
superação pode estar acompanhada de ajuda e apoio,
mas neste caso a criança aprende a lidar com as suas
próprias forças, para desenvolver o seu potencial. Hoje
a psicanálise pode além de estudar as doenças mentais,
priorizar a descoberta de seus recursos e utilizá-los de
maneira inteligente para superar os seus problemas.
O psicanalista humanista sabe como analisar as
neuroses, mas ao mesmo tempo direciona seu olhar
para utilizar de maneira criativa as potencialidades
latentes e inconscientes, depois de descobrir estas
qualidades, pode ajudá-lo a colocar em prática. Quais os
fatores internos e externos capazes de mobilizar este
potencial criativo para superar as suas adversidades?
Qual é o significado da superação? Quais as condições
propícias para desenvolver esta capacidade? Como a
superação é um processo subjetivo e complexo, não
temos respostas definitivas para esta atitude de
coragem.
A pessoa que aprendeu a superar as adversidades
da existência é alguém muito feliz e produtivo, este
potencial de superar as limitações emocionais e
traumáticas nos chama a atenção mesmo naqueles
91
casos em que houve abandono, negligência,
humilhações e todo tipo de maus tratos, interessante
que nestes casos a criança desenvolve uma capacidade
de buscar soluções e alternativas possíveis, e jamais
desiste de si mesma, procurando sem cessar uma
resposta para o seu problema específico. Esta sua
perseverança enaltece a força de nunca afastar-se de
seus objetivos. Aprendeu a fortalecer-se diante de seus
traumas, tornou-se forte e capaz de fazer frente às
piores adversidades.
A felicidade e a realização pessoal encontram-se
na capacidade de conquistar e resolver problemas, esta
vivência propicia uma segurança, certeza, confiança,
alegria, satisfação em saber que é uma pessoa dinâmica
e criativa. Aprendeu a procurar nas suas frustrações um
lugar para pensar a novidade, seu olhar não está
atrelado a um processo de vitimização, desculpas e
justificativas, assume o resultado, responsabiliza-se pelo
seu investimento, enfim em algum momento descobre
um novo caminho, esta descoberta enaltece e amplia
sua capacidade de fazer frente aos desafios que a vida
apresenta. Isto serve para resolver os problemas
afetivos, familiares e financeiros.
A superação destes desafios na existência
contempla os riscos, as frustrações, os cuidados
afetivos, as oportunidades de aprendizagem, os traumas
do abandono, como estes conceitos fazem parte da vida
de qualquer pessoa, em menor ou maior intensidade,
não existe nenhuma forma de fugir destas experiências.
Mas sem dúvida o ambiente escolar, a família, a cultura,
92
a sociedade podem nos explicar como as pessoas
aprendem a superar-se diante de conflitos e traumas
pessoais e existenciais.
Por detrás de toda capacidade de superação
estão as emoções, esta energia pode desencadear uma
reação fisiológica em todo o organismo, este estado de
satisfação precisa das conquistas na sua vida pessoal. As
emoções sofrem as interferências destes contextos,
talvez a emoção da coragem possa mostrar a qualidade
humana de saber enfrentar determinados tipos de
desafios. Este estado de felicidade e bem estar possui
suas raízes na superação de seus traumas e bloqueios
emocionais, então podemos considerar que os
problemas tornam-se a fonte de solução das
inseguranças.
Esta alegria e felicidade produzem um estado de
realização e satisfação existencial, esta “potencia” pode
ser compreendida como a capacidade de enfrentar e
solucionar problemas, ninguém pode duvidar que
depois de uma conquista, as emoções de alegria
produzem este estado de realização. Até o presente
momento a psicanálise colocou sua atenção para
pesquisar e compreender a etiologia das patologias
neuróticas e psicóticas, somente agora consegue
entender esta complexa atitude, de compreender este
estado de felicidade e realização pessoal.
Sem dúvida o esforço, a dedicação, a
determinação, a vontade, podem desencadear todo
este investimento de energia psíquica para tornar-se
mais capaz e eficiente na resolução de seus traumas e
93
problemas pessoais. Existem dois conceitos para
analisar, um de satisfação e outro de insatisfação, este
desejo de avançar em direção ao prazer pode nos
explicar a determinação em querer o melhor para si
mesmo. A saúde psíquica depende do estado de
satisfação e realização, se vive feliz. São muitos os
fatores que podem dizer se uma pessoa caminha na
direção da saúde ou prospera na sua busca inconsciente
pela doença.
A saúde orgânica e psíquica tem uma relação
direta com o estado de felicidade ou infelicidade, cada
pessoa tem consciência sobre o seu estado emocional,
isto é possível quando experimenta a angústia, a
ansiedade, o desespero, os medos. A consciência de
alguém torna possível perceber os seus transtornos
afetivos ou de personalidade, e ambos os casos,
algumas pessoas tomam a liberdade de falar e comentar
sobre as suas atitudes.
O grande problema surge quando nos
defrontamos com a “neurose de caráter” esta rigidez
afasta qualquer tipo de “diálogo” sobre as suas atitudes,
neste caso temos que conviver com uma pessoa
distante, fria e insensível. Em todos os diagnósticos
encontram-se as complexidades culturais e
transgeracionais que compõe este estado subjetivo,
além de levar em conta o contexto cultural como os
costumes, tradições, crenças, religiosidade, mitos. No
campo social podemos observar os direitos humanos, a
liberdade de expressão, a situação política e econômica,

94
todos estes fatores podem influenciar ou não no
despertar da potencialidade humana.
Em algumas sociedades políticas como o
capitalismo moderno, se valoriza muito a competição e
o individualismo, em outras a cooperação e a felicidade
de todos os membros de sua família e da comunidade.
Em qualquer sociedade os valores da riqueza, do status,
do dinheiro, inteligência, saúde, pobreza, podem
desencadear um interesse por um tipo de desejo. Assim
as virtudes, os valores, o caráter, a personalidade, estão
impregnados pelo tipo de cultura e a sociedade onde
vivem. A formação do caráter passa pela vivência destes
fatores que podem ajudar ou inibir o seu processo de
adaptação na sociedade, pois o sucesso na vida
profissional, afetiva ou profissional é subjetivo e
complexo para ser avaliado por uma determinada teoria
na psicanálise.
Mas sem dúvida existe a relação dinâmica entre
as “faltas” e o desejo de “conquista”, e cada experiência
pode ajudar e muito na formação de um “self” com uma
autoestima elevada, uma imagem positiva de si mesmo,
um conceito de credibilidade de sua pessoa, esta
estrutura emocional tem uma influência direta na
superação das dificuldades e na elaboração de seus
traumas. Quem está neste estado de vantagem,
consegue sem dúvida viver uma experiência de prazer e
satisfação na existência, consciente ou
inconscientemente todos querem o melhor, mas muitos
procuram nas experiências de sofrimento um alento
para se punir e castigar.
95
A existência tem um poder sobre o estado
emocional de felicidade ou infelicidade, este é o grande
dilema, aprender a superar as adversidades de toda
ordem que aparecem inesperadamente, a solução
destes impasses dependem das aprendizagens
emocionais que tornam a vida mais eficiente e
realizadora, por isto mesmo cada pessoa é única e
insubstituível. Voltando ao nosso tema da “superação”
chegamos a compreender que a coragem pode
desencadear no cérebro a sensação de vitória e bem
estar. Todos de alguma maneira passaram por alguns
momentos difíceis na vida, mas a determinação e força
de vontade foram maiores, o desejo de biofilia propiciou
as condições para fazer frente à necrofilia.
Estas vivências tornaram-se um antídoto para
fazer frente aos dilemas existenciais. Aos poucos
podemos entender todo este processo de evolução de
consciência depende do investimento de inteligência e
prioridades que a pessoa realiza na sua vida. Estamos
neste processo de evolução da consciência, as
descobertas e superações nos ensinam o verdadeiro
caminho da realização, e somos capazes de aprender
com a falsidade, com a ineficiência, com as perversões,
com a mentira, com as perseguições, isto nos ensina o
valor de uma ética que inclui o respeito pela felicidade
do outro.
Vamos pensar sobre este conceito na psicanálise
humanista, “produtividade”, tornar-se produtivo não
significa adquirir coisas e bens materiais, porque no
momento em que alguém perde o dinheiro ou posição
96
social, consegue o inevitável, não sabe como olhar-se no
espelho, perdeu sua identidade, por culpa ou auto-
sabotagem, inicia um processo de autodestruição
pessoal, tudo isto para fazer as pazes com o seu
superego.
Ser produtivo é alinhar-se com as exigências da
natureza humana, este critério nos leva a compreender
as estratégias de ação das nossas potencialidades,
mesmo sabendo de tudo isto, ainda assim, é muito
difícil satisfazer todas as nossas paixões e devaneios.
Para descrever o que entendemos por uma pessoa
“produtiva” devemos levar em conta a sua saúde
psíquica e orgânica, uma pessoa sob o domínio das
compulsões e obsessões encontra-se mais vulnerável a
torna-se improdutiva, porém este exemplo reacende a
reflexão sobre a capacidade de superar todos os tipos
de sofrimentos e enxergar o lado bom da existência.
Independente dos sintomas e doenças que
podem surgir num determinado momento de sua vida,
pode a qualquer momento decidir pela solução de sua
vida. De certa forma o sintoma desencadeou pela
doença o seu desejo de sair da condição de dor, e
mesmo a psicopatologia não consegue definitivamente
nos explicar o fenômeno da saúde psíquica. Não temos
nenhuma dúvida que jamais poderemos exterminar da
condição humana os sintomas psiconeuróticos, todo o
avanço científico não faz desaparecer por completo a
angústia, porém os psicofarmacos conseguem
neutralizar e sedar aquele tipo de sintoma ou emoção
por determinado tempo.
97
Temos uma preocupação com a nossa saúde
orgânica e psíquica, isto porque é fundamental que o
corpo encontre-se funcional e equilibrado para fazer
frente aos desafios da existência. De certa forma
estamos aprendendo a superar e enfrentar os vírus,
bactérias, doenças, esta atitude enaltece o desejo de
viver e não morrer, mas o cuidado de si mesmo tem
haver com a realização e satisfação. A coragem está
ancorada numa emoção produtiva, este estado de
satisfação produz a força para trabalhar, estudar, e com
a ajuda de sua inteligência realizar todos os seus
sonhos.
A existência oferece todas as condições para
qualquer pessoa desenvolver uma capacidade de fazer
frente aos piores obstáculos que a vida possa colocá-la
diante de seus sonhos. As circunstancias difíceis, como
fome, miséria, falta de dinheiro, abandono, rejeição,
estudo, podem levá-lo a destruição e a outros a
superação, ao conseguirem entender que estas
provocações estão contribuindo para tornar as pessoas
melhores e não o contrário. Esta estrutura emocional é
capaz de fazer frente ao “stress”, e na capacidade de
tornar-se criativo, sabe aproveitar cada oportunidade
para aprender e fortalecer-se nas suas estratégias de
resolver problemas.
Quando um jovem não possui família, pode
procurar num outro ambiente as pessoas certas para
identificar-se, de agora em diante esta será a sua nova
família, e muitas pessoas de sua comunidade ou do seu
convívio pessoal podem ajudá-lo nesta difícil tarefa de
98
superação de seus traumas. Jovens que possuem
família, não possuem estas qualidades e capacidades de
superação e comunicação, entendo que o meio social
pode ajudar ou prejudicar alguém a encontrar um
sentido na sua existência. Mas este potencial criativo é a
fonte de sua criatividade, mesmo nestas condições
adversas, consegue forças para tornar-se mais forte e
corajoso e assim descobre a essência da vida. O sucesso,
a saúde, a felicidade são consequências de sua
capacidade em utilizar suas potencialidades, por isto
mesmo, podemos chamá-lo de produtivo.

99
3.0 - A complexidade da teoria da superação.

Esta reflexão sobre a superação nos leva a pensar


sobre os desafios financeiros, familiares, pobreza e das
doenças como câncer, AIDS, leucemia, e outras menos
graves. Para compreender esta reflexão sobre a
superação temos que levar em consideração a situação
econômica, política, cultural, educacional e social, a
realidade complexa e instavel.
Digo isto porque nada é estático, até porque as
condições sociais e políticas também se modificam, e
cada pessoa interpreta de uma forma diferente a
realidade. Por exemplo, quando um jovem enfrenta no
seu meio social, violência, roubos, mortes, e famílias
violentas que cometeram todo tipo de abuso físico,
emocional e sexual. Mesmo assim, consegue elaborar e
avaliar no seu contexto, uma saída para esta situação
existencial, a própria condição desfavorável, serve como
um impulso para procurar uma saída para a sua
realização afetiva ou profissional.
Esta violência psíquica e física interfere no tipo de
reação de um jovem sobre a sociedade, porque com
esta idade tem condições de avaliar mediante seu
sistema de valores os seus traumas. Alguns recorrem a
instituições de sua comunidade como o único meio de
proteção, talvez todos estes traumas possam de fato
abalar a sua autoestima, porém estas mesmas
100
experiências podem fortalecer a sua coragem e ousadia
para enfrentar os dilemas na existência.
Isto depende do grau de iniciativa de procurar
ajuda e exigir-se nesta difícil tarefa de superação, este
seu drama inicial pode aos poucos sendo solucionado
com algumas conquistas pessoais que podem fortalecer
sua confiança. A complexidade da superação enfrenta
dificuldades quando o nível de stress, angústia e
ansiedade são altos, este estado de insegurança e vazio
existencial pode ser diminuído ou anestesiado com uso
de bebidas alcoólicas e drogas. As exigências da
sociedade, a convivência com as injustiças e todo tipo
de violência, pode desencadear uma reação de revolta e
indignação, estes pequenos grupos acolhem
adolescentes e menores infratores para utilizá-los em
roubos e tráficos de drogas.
Estes jovens estão perdidos sem rumo, muitos
não conseguem utilizar o seu potencial para fazer frente
a estes problemas de forma autêntica e saudável, o
mundo do crime é um caminho sem volta, muitos estão
numa camisa de força, pois estão envolvidos com
delitos, roubos, prostituição, drogas.
Outros jovens não aceitam este tipo de vida,
fogem daquele ambiente e tornam-se capazes de
refazer a sua vida, e procuram na religião, nas escolas e
outras entidades, um caminho para superar seu estado
de abandono. Aprendem com o tempo a encontrar uma
solução para o seu problema, desenvolvem um
autocontrole ético e não dependem de ninguém para
tomar as suas decisões.
101
Possuem facilidade para relacionar-se e estão
sempre disponíveis para ajudar, esta ética da
solidariedade é uma prática comum, como recebeu
ajuda, apoio, entende e retribui da mesma forma. Sem
dúvida a família, as tradições, a cultura, a religião, são
espaços sociais importantes para alguém encontrar
ajuda e cooperação. Muitos jovens recebem uma
incumbência de ajudar no sustento de sua família, por
isto começam a trabalhar muito cedo, a
responsabilidade de cuidar dos seus irmãos, de estudar,
de conviver numa sociedade de diferentes classes
sociais. Isto nos leva a pensar sobre o desejo de
superação e o fato de conseguir espaço com muita
dedicação, determinação e coragem.
A psicanálise deveria olhar com mais atenção
para este tipo de pessoa que conseguiu superar todas as
adversidades do caminho da autodestruição. Mas em
algum momento de sua vida, fez uma opção mais
consciente, pelo afastamento completo de todos os
tipos de drogas e vícios. Esta decisão favoreceu uma
prática de vivência de valores ainda não
experimentados, esta vontade de aprender a relacionar-
se, e cooperar na sua comunidade, possibilitou a
vivência do afeto, reconhecimento, valorização, e logo
depois, com todo este legado de experiência aprendeu a
ser eficiente e útil socialmente.
Porque toda sociedade tem seus valores, e
aqueles que não conseguem são castigados e presos.
Neste ambiente começa a conviver com a corrupção e
as injustiças que permeiam neste ambiente de correção.
102
Os adolescentes observam os adultos, e sabendo do
poder destes agentes da injustiça, procuram no seu
silêncio encontrar um meio para continuar vivo.
A produtividade depende destes dois fatores: o
tipo de sociedade e as decisões pessoais, aqueles que
tiveram a chance de encontrar um adulto para ajudá-los
a realizar seu projeto de vida, com certeza desenvolvem
o seu potencial de inteligência. E muitos conseguem
com garra e determinação porque aceitam aquela
oportunidade. Com o tempo são capazes de
desenvolver uma gratidão e chegam inclusive a
preencher as expectativas daqueles que acreditaram na
sua pessoa.
Alguns entendem que o trabalho profissional em
conjunto com seus estudos pode ser a salvação, outros
se identificam com algum professor, um amigo, um
religioso. Pessoas que pelo seu exemplo positivo podem
influenciar a maneira de viver de outras. Este processo
de identificação junto com a afetividade pode ser a
motivação para seguir em frente com os seus projetos
de vida.
Hoje em dia nenhum caminho é muito fácil,
vivemos numa sociedade excludente, a maioria não tem
condições de alimentação e estudo. Além disso, muitas
crianças estão em casas lares e orfanatos, porque não
têm uma família para ensinar-lhes os valores morais e
éticos. Uma minoria consegue com facilidade ocupar o
seu lugar na sociedade, pois tem todos os cuidados e
investimentos para tornar-se um médico, empresário,
cientista, entre outras profissões.
103
E uma grande parcela da população não tem o
mínimo para atender as suas necessidades básicas,
todos devem de alguma forma, pelo menos aqueles que
decidirem desta forma, começar a trabalhar e estudar
muito cedo, para encontrar os meios de sobreviver
diante da fome e miséria. Mas independente das
condições sociais, existe o desejo que incendeia a alma,
e impele o seu ser a tornar-se uma pessoa justa e capaz,
esta força interna pode ser entendida como o potencial
de transformação da vida. Nascer pobre não é uma
condição determinista para viver na miséria cultural,
intelectual e econômica, esta vivência depende muito
de sua aceitação pela acomodação ou da sua
indignação, procurando sair da condição existencial.
Esta superação inclui uma luta desigual pela
sobrevivência, com o desejo de conseguir um espaço na
sociedade onde possa usufruir de tudo que a existência
possa oferecer de bem estar, tranquilidade, condições
financeiras, conhecimento. A princípio este processo de
superação acompanha a existência até os seus últimos
dias, então entendemos que a autoestima tende a
aumentar a confiança em si mesmo.
Além de reforçar e garantir a coragem e
determinação para superar qualquer tipo de trauma,
enfrentar inclui determinação, coragem de ser. A
depressão, o desânimo, a apatia, a preguiça, podem
estar atrelados a alguma experiência de “stress” que
supere a sua capacidade de suportar aquela frustração
ou perda.

104
Esta capacidade de “superação” encontra-se
escondida na história de vida, porque uma vida sem
sentido não vale a pena viver, e sem dúvidas as
paranoias, as deformações da realidade, as
esquizofrenias, os estados delirantes, as alucinações,
são o resultado de traumas que ainda não foram
elaborados. Estas sequelas emocionais podem desviar a
pessoa de seus objetivos, com medo da confrontação e
esclarecimento, inicia todo um processo de
afastamento, torna-se arrogante, prepotente, narcisista,
mentiroso, intolerante, maneiras de afastar-se de
qualquer tipo de intimidade e convivência saudável.
Este talvez seja o custo de um “trauma”, e
somente com muito esforço, coragem e determinação
para sair deste estado de alienação, neste sentido
podemos observar uma pessoa que procura a sua
“superação” mesmo diante de doenças graves e difíceis.
No filme a mente brilhante mostra que a doença
esquizofrênica, com seus delírios e paranoias não
conseguiram impedir os objetivos do professor
universitário de ganhar o prêmio Nobel em matemática.
Os sintomas existenciais podem aparecer num
momento em que a pessoa menos espera, e naquele
instante ainda não possui a força e determinação para
fazer frente ao trauma antigo, que se juntou ao novo.
Este acúmulo de sofrimento está muito acima da
capacidade de resposta, a única reação neste caso é o
surto psicótico. Este é o preço a pagar, não existe
maneira de fugir do confronto destes traumas, alguns
chegam inclusive a suicidar-se.
105
Em muitos casos podemos pensar no desespero,
na depressão, ao perceber que todos os esforços e
dedicação não conseguiram apagar a culpa e a dor de
um “abuso físico”, porque nem sempre a força de
vontade consegue fazer frente à infelicidade. Neste caso
é imprescindível a terapia analítica, onde o analista faz o
papel do cuidador na transferência, esta maternagem
pode devolver a confiança e a coragem.
Todas as pessoas que se culpam acabam no
fracasso de seu projeto de vida, mas a relação fraterna e
amiga de um professor, dos pais, da família, da escola,
dos amigos, do analista, podem ser as bases de seu
desejo de “superação”. Porque a vontade de viver é
conhecida como “biofilia”, quem é alegre, contente,
feliz, está ancorado num sentido de realização. Esta
teoria pode ser complementada com os estudos de
Alfred Adler, pois na sua biografia relata uma infância
com sérios problemas de doença, sua constituição física
e psíquica influenciou toda a sua vida, ensinando-lhe a
superar as dificuldades emocionais e profissionais.
A “superação” é um caminho de aprendizagens,
porque cada dificuldade resolvida agrega um valor de
maturidade e segurança, para enfrentar outros
obstáculos mais difíceis, desta maneira podemos
entender que todos os tipos de sofrimento, acabam
reforçando e ampliando a confiança, para conseguir
realizar os seus objetivos. Os traumas difíceis e
complicados, como no caso do holocausto, uma guerra,
um acidente de carro, então nos perguntamos: Seria
possível mesmo depois desta experiência, encontrar
106
força e vontade para continuar a viver e desenvolver
outras potencialidades ainda desconhecidas?
Esta questão nos leva a pensar sobre o impacto
de um trauma ou doença na vida de uma pessoa, muitos
desenvolvem a capacidade de superação em momentos
difíceis da vida. Este potencial inconsciente desenvolve
suas forças criativas, e naquele instante como um passe
de mágica, começa a fazer escultura, a pintar, cantar, e
depois este talento torna-se a sua âncora ou o meio de
sobrevivência econômica e emocional.
Grandes homens na história conseguiram nos
momentos mais difíceis de sua vida desenvolver este
potencial enterrado, esquecido, esta energia
inconsciente é um lugar de “potência a favor da vida”.
Tornar-se forte significa sair de uma condição de perda
na existência, para exigir-se de si mesmo o
aperfeiçoamento de talentos e capacidades
adormecidas, enquanto a dor instigava o mal estar, a
percepção entendia a necessidade da mudança.
A análise humanista deveria listar junto ao
paciente esta sua capacidade de superação, porque
estas qualidades e valores éticos podem ser a tábua de
sua salvação. O desejo de felicidade e saúde mostra o
quanto o ser humano está disposto a colocar sentido
em sua vida, torná-la significante. Retirar da existência
toda a riqueza que a existência tem a oferecer.
As deficiências ligadas ao Mal de Parkinson, visão,
audição, esquecimento, dores no corpo e aquelas
relacionadas à vida, como por exemplo; o abandono, a
falta de dinheiro, moradia, alimentação, afeto, amor,
107
plano de saúde, tudo isto leva a pessoa a vários tipos de
perdas e prejudica a sua qualidade de vida. O único
modo de sobreviver neste ambiente das incertezas é
estar atento e qualificado para entender, e ser capaz de
transformar uma situação de “stress, pressão”, em uma
oportunidade para sair fortalecido, e responder às
exigências da natureza humana.
A depressão, a esclerose e outras doenças podem
estar associadas a um estado emocional de sentir-se
inútil, viver com indiferença, porque a perda da esposa,
de um amigo, da mãe, do pai, pode diminuir este desejo
de viver, e esta solidão, isolamento, tristeza, em
conjunto com outros traumas pode levá-lo a um
abandono das suas relações sociais. Isto é tão verdade
que todos sabem, quando a morte acontece na vida de
um casal é questão de meses e anos, o parceiro
desenvolve uma doença e também morre. Outras viúvas
ou viúvos encontraram outro sentido à vida, souberam
sair do estado de depressão e luto e mesmo diante da
perda não perderam o prazer de viver.
Quando a família cuida e dá afeto, a pessoa tem a
propensão de continuar a viver com alegria e felicidade.
Este vazio da relação é preenchido ou sublimado com os
netos e filhos. Toda pessoa deveria contemplar em sua
vida a questão da inteligência, mesmo durante o
trabalho profissional é importante conhecer-se, saber
lidar com as emoções, e estar aberto a aprender outras
atividades que propiciem prazer e realização, sair da
rotina, fazer novos amigos, estudar, cultivar um espírito
empreendedor, e jamais esquecer-se de desenvolver o
108
seu potencial para contribuir de maneira positiva na
comunidade.
A análise de certa forma propicia ao paciente o
encontro consigo mesmo, este aprendizado lhe abre as
portas para utilizar o seu potencial para proteger-se de
futuras doenças, esta é a melhor prevenção. Pois em
algum momento é preciso parar e refletir sobre os
ganhos e perdas de uma vida. Cada pessoa precisa
elaborar perdas, fracassos, mágoas, escondidos e
esquecidos pelo envolvimento da sua sobrevivência
física. Mas o corpo reclama e exige uma elaboração das
emoções e perdas latentes, fonte de tristeza e
depressão.
Nesta questão não existe receita pronta, a
superação exige esta flexibilidade, criatividade,
dinamismo, determinação, qualidades adquiridas ou
existentes podem ser melhoradas, ninguém pode fugir a
esta questão do envelhecimento, não temos como fugir
do tempo, portanto é inevitável aprender a valorizar
não somente o mundo do trabalho e as questões
financeiras.
O tempo nos leva ao encontro de nossas
limitações, de nossa saúde, da condição física,
econômica, e estas perdas podem tornar-se um trauma.
Esta imunidade ao desânimo e apatia é sem dúvida o
remédio para superar-se e jamais desistir do seu futuro.
A única vacina capaz de tornar alguém imune à tristeza
e acomodação é o caminho do conhecimento de si
mesmo por intermédio da psicanálise.

109
Este estado de observação sobre os
acontecimentos da vida diária podem ensinar muito
sobre as descobertas e aprendizagens da vida
profissional, podemos citar conhecimentos, ganho
financeiro, amizades, reconhecimento social, podem ser
utilizados a serviço da comunidade ou de pessoas que
precisem deste seu conhecimento. Todas as pessoas
devem estar envolvidas na comunidade, porque este
trabalho com crianças, idosos, presidiários, escolas,
pode ser de grande ajuda na solução dos problemas
sociais.
Esta atividade social favorece a descoberta de
novas amizades, e ao mesmo tempo aumenta sua
autoestima, eleva seu conceito sobre os demais, e
cultiva um amor comunitário, este afeto é importante
para o relacionamento com o seu grupo de amigos,
desenvolve o seu potencial criativo. Saúde psíquica tem
a ver com alegria e realização pessoal e afetiva, e sem o
convívio com pessoas isto é impossível. Estes vínculos
propiciam a vivência daquelas necessidades carentes de
atenção.
A pessoa que ama a vida, ama a biofilia, este
amor especial esta condicionado a conhecer e
desenvolver a sua cultura, atividades artísticas, festas,
música, pintura, arte culinária, dança, escrever, viagens.
Assim a vida é plena de sentido, porque o tempo é um
processo de novas descobertas, de mudanças de
atitudes, de evolução emocional, porque em algum
momento de nossa vida podemos viver desejos que não
foram possíveis de realizar quando éramos jovens.
110
A qualidade de vida tem a ver com a disposição
para viver intensamente o seu potencial, tornar-se
produtivo para si mesmo e seus semelhantes, este
legado das “humanitas” é a grande conquista, porque
sem esforço e dedicação nada pode acontecer. É preciso
a confiança de que somos capazes de realizar os nossos
objetivos. A renúncia e a perseverança é um caminho
que abre novas possibilidades de realização pessoal,
afetiva e profissional.
Todas estas conquistas fazem parte da sabedoria
e não da inteligência, os ganhos na existência possuem a
tendência a ampliar-se. Sentir-se produtivo, reforça o
conceito pessoal, melhora sua autoimagem, e favorece
sua capacidade de superação, este estilo de vida cria as
condições para se viver feliz e com saúde.
Desta forma mantém-se a esperança de viver
com saúde, longe de todo tipo de doença, e sem dúvida
esta atitude existencial aumenta a vontade de viver. A
existência impõe algumas condições para viver com
saúde no seu sentido mais amplo, amor a vida, vontade
de superar-se, capacidade de doar-se, viver em paz
consigo mesmo e com os demais, quanto mais vive,
mais interesse tem de aprender consigo mesmo e com
as pessoas com as quais convive.
As pessoas que aprenderam a superar-se são
curiosas, sabem onde pretendem chegar, estão
interessadas pela sua felicidade e estão determinadas a
realizar os seus objetivos. Toda pessoa que aprendeu a
superar os seus traumas está em paz consigo mesmo,
vive feliz e alegre, tem disposição e ânimo, mesmo a
111
força física já não sendo mais a mesma, ainda assim,
encontra-se feliz e disposto a viver com intensidade.
O tema é como “envelhecer com saúde
emocional”, esta atitude de fé, acreditar na
possibilidade da realização de seus sonhos. Uma fé
desprovida de neurose e doutrinação pode ajudar
qualquer pessoa a tornar-se amiga e participar de
projetos sociais. Sempre existe a oportunidade de fazer
novos amigos, de aprender, de perdoar-se, de utilizar o
seu potencial de inteligência, enfim, o desejo é capaz de
incendiar o espírito e levá-lo ao encontro deste centro
gerador de conquistas e alegrias.
A existência pode trazer experiências
traumáticas, ao vivenciar aquelas situações de
sofrimento, revolta, indignação, injustiça, pode
favorecer a formação de um caráter de desconfiança,
medo, raiva, ódio, convencendo-se de que o amor não
existe. Esta sua interpretação baseia-se nas suas
experiências de perseguição, abandono, humilhação e
todos os tipos de violência.
No entanto estas emoções favorecem uma
interpretação sobre o seu modo de ver a sociedade,
além disso, encontra-se sozinho, abandonado e sem
amigos. Este estado emocional de solidão é o
estereótipo das frustrações e perseguições, esta
pequena passagem pela vida, retrata uma experiência
de castração de seu potencial humano. Uma decisão
deve estar precedida de maturidade e consciência, caso
contrário, o resultado destes investimentos é de mais
perda e sofrimento.
112
O ser humano é o retrato daquilo que recebeu,
mas ninguém pode esquecer que antes mesmo de uma
experiência traumática de injustiça, existem os valores
éticos, como bondade, justiça, força de vontade,
inteligência, compaixão, alteridade, estas emoções
encontram-se latentes e reprimidas pelo tipo de vida
que teve que assumir. Mas quando começa a conviver
com outras pessoas de bem, inicia-se o desabrochar do
potencial adormecido e reprimido.
O olhar sobre o seu mundo vivido precisa ser
reinterpretado à luz do perdão, primeiro deve perdoar-
se, pois violência gera mais violência. Para que exista
uma segunda chance é necessário apostar na mudança
de atitudes em relação a si mesmo e aos demais. O
amor é esta disposição para fazer o bem, isto inclui
atenção, cuidado, estudo, inteligência, simplicidade,
qualidades que podem representar a estética do amor.
A neurose é o representante das emoções, elas
guardam no seu silêncio as injustiças, as violências, a
corrupção, esta realidade emocional induz a uma
interpretação sobre o conteúdo emocional de sua
existência. O único modo de sair da condição de
autodestruição e violência é ser capaz de transcender a
raiva e o ódio. Mesmo assim todos precisam elaborar
este conteúdo do seu passado, são recordações e
vivências que trazem consigo os medos e as vinganças.
A superação de todas as emoções oportuniza a vivência
de uma nova vida, a sociedade deve mostrar a esta
pessoa a oportunidade de voltar a confiar nos valores

113
éticos e sociais, esta verdade consegue transformar
emoções embrutecidas pela vingança.
O único modo de um sujeito conseguir sair desta
dinâmica de violência e autodestruição é ser capaz de
devolver a si mesmo a sua humanidade, aprender que o
amor está acima do ódio, pois a solidariedade é um bem
maior que o egoísmo. Esta nova experiência de vida
produz no seu modo de interpretar os seus
pensamentos e atitudes uma convergência para
investimentos de produtividade.
A humanidade é a revivência dos valores éticos
internalizados na sua infância, a bondade, sinceridade,
honestidade, humildade, a capacidade de devolver a
dignidade perdida. Ainda assim o trauma conduz este
sujeito a desconfiar de qualquer atitude de afeto e
amor, seus pensamentos encontram-se na natureza de
sua vingança, estas recordações trazem experiências
que convalidam a utilização da violência e da maldade.
Quem viveu por muito tempo o trauma do
abandono, da rejeição, da repressão, da violência, da
humilhação, desenvolve estratégias de defesas para
desconfiar de qualquer atitude de afeto. Este mundo do
amor, da valorização, do reconhecimento, não existe
para o seu mundo vivido, como sua autoestima
encontra-se infectada pela perseguição procura saber
quais os interesses deste outro na sua vida.
Quando uma vida está confundida com o
egoísmo e a violência sua disposição interna é procurar
de todas as formas uma aproximação com a
autopunição. Este processo de castigar-se segue a
114
doença masoquista da culpa, por muito tempo estava
condicionado a enxergar-se como um ser desprezível e
incapaz. Esta imagem distorcida da experiência afetiva
segue a determinação da interpretação realizada
naquele momento da história de sua vida, mas nada
impede de reinterpretar e dar um novo significado a
estas emoções, isto significa em psicanálise, aprender a
superar-se.
Sua intenção é fazer as pazes com o seu
superego, aprendeu a conviver com a violência física e
emocional, destruído interiormente não consegue
enxergar-se numa convivência social saudável. Sua
imagem é a projeção de suas atitudes destrutivas, seus
pensamentos seguem a lógica de seu conceito pessoal,
por isto mesmo pretende seguir aquilo que as suas
experiências lhe prescrevem, convencido de que não
tem nada de bom a oferecer, procura nas suas atitudes
um enfrentamento com todas as ações de bondade e
amor, retribui com perversão, maltrato, exploração,
como um castigo a todas as pessoas que pretendem
amá-la.
Sua retaliação segue os princípios de que não é
merecedor daquela oportunidade, do amor, do afeto,
da confiança, é o retorno regressivo das fixações que
estruturaram a sua neurose necrófila. Insatisfeito e
inseguro sente-se um ser desprezível, sem valor,
culpado por incomodar e atrapalhar a vida dos outros,
desenvolve uma lógica para sentir-se livre de si mesmo.
A prisão, os homicídios, os roubos, as compulsões, as

115
traições funcionam como um retorno de sua condição
humana por não ser merecedor de atenção e afeto.
Não consegue sustentar uma relação de
confiança e bondade, sente-se indigno de viver este
amor. Todos deveriam formar um caráter onde
experiências positivas fossem o norteador de suas
atitudes, quando uma criança consegue desenvolver
apreço, respeito e carinho pelos seus cuidadores. Sente-
se feliz e realizada ao fazer o bem para o próximo,
demonstrando seu verdadeiro afeto. É capaz de
responsabilizar-se pelos seus atos, e confia nas suas
iniciativas, pois tem certeza de que tem capacidade de
realizá-las. Criou-se num ambiente onde tinha a
liberdade de expressar suas emoções e aprendeu que
mesmo as situações problemáticas podem ser
solucionadas.
Aprendeu a resolver os problemas, tomou
consciência de que certas atitudes prejudicam a si
mesmo e aos outros, permitiu-se procurar ajuda para
superar as suas dificuldades. A criança que aprendeu a
superar-se é alguém preparado para viver e retirar o
lado positivo de suas experiências, por exemplo; a perda
de pessoas amadas num acidente, a mudança
inesperada para outra cidade, ou o abandono de seus
cuidadores. Estas crianças são mais determinadas e
dispostas a competir para dar o melhor de si mesmo.
Mesmo diante da pobreza e da miséria não se
abate tão facilmente, consegue apesar de todas as
dificuldades ter a capacidade de sair desta condição
social e cultural. Todos de certa forma são vulneráveis
116
aos acontecimentos que podem gerar insegurança,
trauma, medo e ansiedade. É preciso enfrentar estas
situações de risco sem fragilizar-se, e quem não gostaria
de estar acobertado pela segurança e proteção de uma
sociedade mais justa e igualitária? Por isto aquelas
crianças que aprenderam a superar-se diante dos
obstáculos que a vida lhe criou, desenvolveram uma
maior força de vontade para buscar os meios de
proteção, sabem que não estão imunes aos traumas e
bloqueios. Possuem consciência para fortalecerem-se e
enfrentar seus problemas, e terem a capacidade de
desenvolver suas potencialidades.
Ser capaz de resolver problemas e realizar os
seus objetivos pode ser a saída para a saúde psíquica e a
qualidade de vida, aprendeu a escolher as pessoas
certas para desenvolver a sua capacidade humana. Os
sofrimentos foram apenas graus de compreensão que
precisava para estar acima de seus traumas, e sair
vencedor e fortalecido das experiências de dor e
sofrimento.
Esta criança aprendeu a potencializar a sua
confiança e fortalecer a sua autoestima, e isto de certa
forma tem a ver com a sua saúde psíquica. Muitas
crianças que nasceram num ambiente de pobreza e
miséria ou com problemas de alcoolismo e
esquizofrenia conseguiram encontrar felicidade, amor, e
possuem saúde emocional.
Então como devemos pensar sobre aquelas
crianças que mesmo abusadas conseguiram transformar
a adversidade, o trauma num caminho de superação e
117
autoconhecimento. Estas crianças desenvolvem uma
força de vontade, uma disposição para aprender, são
cooperativas e humanas, e fortalecidas por estas
experiências tornam-se adultos fortes e capazes de não
desistir de seus sonhos. Além disso, estão abertas a
aprender com as novidades, e sempre valorizam muito
as iniciativas para resolver um problema, estão sempre
atentas e curiosas para tirar proveito de qualquer
experiência que possa acrescentar um novo
aprendizado.
Estas crianças encontram-se abertas a aprender
qualquer atividade que possa torná-las mais eficientes e
seguras, estão sempre dispostas a trocar experiências e
aprender, existe uma sede e uma necessidade de
tornar-se mais pessoa, estão seguras de suas escolhas e
sua autonomia proporciona uma segurança para
resolver os seus problemas. Muitos educadores
acreditam que o apoio, fé e amor ajudam a resolver
seus problemas, outros acreditam que o castigo, culpa,
disciplina rígida possa reconciliá-las com a sociedade.
Hoje mais do que nunca os educadores e
autoridades públicas estão preocupados com a
prevenção e promoção de certas qualidades e ações,
para ajudar uma criança a tornar-se mais segura e
confiante e fazer frente às adversidades da existência.
Como as doenças, a violência, o uso das drogas, os
traumas na sexualidade, doenças transmissíveis,
gravidez precoce, abuso infantil. Por isto é fundamental
um programa de ações para potencializar a capacidade

118
de comprometimento e felicidade naqueles grupos de
vulnerabilidade social.
Estes resultados dependem muito do apoio às
famílias e uma atenção aos pais, os serviços de saúde, a
escola, e outras instituições podem desenvolver um
trabalho em rede, para incluir a família e as crianças
para que se sintam seguras e com saúde psíquica. Em
primeiro lugar as instituições de ensino e saúde devem
conscientizar os adultos sobre a importância do
desenvolvimento da inteligência e das competências
emocionais, para no futuro poderem se relacionar com
segurança no seu ambiente de trabalho ou de estudo.
Estas instituições deveriam fazer um trabalho
interdisciplinar e ajudar estas crianças a desenvolverem
a capacidade de “superação”. De proporcionar uma
consciência sobre as suas qualidades e potencialidades
e resgatar a sua identidade como agentes de
transformação pessoal, acima de tudo convencê-las de
que possuem todas as condições de superar e realizar os
seus sonhos. Resgatar a coragem para fazer frente aos
desafios da existência, cada dificuldade possui suas
causas específicas e também os seus riscos. Por isto é
preciso um método estratégico para responder a altura
esta provocação.
O espaço do diálogo inclui dois temas em um
grupo de trabalho, primeiro necessitam de uma
abertura para falar sem preconceitos sobre qualquer
tipo de problema, segundo desenvolver métodos
estratégicos capazes de resolver estes desafios. O
objetivo da superação dos traumas ou problemas
119
existenciais é tornar os grupos mais confiantes para
enfrentar estes desafios, e depois retirar o proveito das
experiências aprendendo a beneficiarem-se dos ganhos
na existência.
Qualquer criança pode aprender com a sua
experiência de dor e sofrimento, e saber o que precisa
aprender desta experiência, em todas existe algo de
sucesso e outras de fracasso. Os aprendizados podem
ser aperfeiçoados e utilizados, esta maior confiança, sua
determinação e coragem lhe conferem a capacidade de
analisar e corrigir ações que impediram o seu êxito.
Estas conquistas devem estar atreladas a sua iniciativa e
não delegá-las a terceiros, a perseverança, honestidade,
iniciativa, podem garantir maior saúde emocional e
orgânica.
Os desafios podem ser a oportunidade de
desenvolvimento como ser humano, a psicanálise
humanista reflete sobre este potencial de criatividade
nas crianças, nem sempre uma experiência dolorosa
traz somente sofrimento, pois ajuda a amadurecer, a
tornar-se simples e humilde diante de situações
complexas e difíceis.
Esta capacidade de “superação” das crianças é
muito importante depois na vida do adulto, em
qualquer estágio da vida humana é possível sobreviver e
resolver os seus problemas de pobreza, financeiro,
afetivo, amoroso, familiar, econômico, familiar, estudos,
doença, e tantas outras atrocidades do mundo da
natureza.

120
Esta capacidade do ser humano de saber dialogar
e comunicar-se com os outros, abre as portas para
aumentar a qualidade de suas relações humanas, e
estas redes de amizade e cooperação social podem ser
decisivas para a sua realização profissional e felicidade
pessoal. Esta é a questão central da análise no século
XX: Seria possível potencializar um paciente para tornar-
se confiante e corajoso para superar e sair mais forte
mesmo depois de uma experiência frustrante?
A análise deve ser um processo de
desenvolvimento das potencialidades e qualidades no
sentido de promover a capacidade de superar os
traumas e medos. As condições positivas da análise são
afeto, compreensão, ternura, confiança, experiências
que podem devolver a capacidade de tornar-se capaz de
enfrentar situações difíceis e complicadas da existência.
Esta dinâmica inconsciente pode neste processo de
identificação resgatar uma imagem favorável para
permitir-se vencer na vida, o analista promove a sua
cura por intermédio do seu amor.
Como existem pacientes que mesmo em
situações depressivas e destrutivas conseguem com a
ajuda da análise ver em si mesmo algo de positivo, que
possa motivá-lo a continuar as suas conquistas? Existem
pacientes comprometidos com a análise, outros são
negligentes e vivem sob o risco de destruir-se, e
também aqueles que desistiram de si mesmos.
Na verdade são as qualidades de caráter que são
capazes de ajudar nesta decisão, estes valores e virtudes
dão forças para enfrentar o processo analítico de cura
121
das enfermidades. Existe neste paciente o desejo
sincero de viver com saúde, ser feliz, e saber conviver
em harmonia com a família.
A família e seu ambiente social e cultural podem
influenciar e muito o desenvolvimento do caráter da
criança, e muitos pacientes provaram que é possível
mesmo em situações de doença crônica, traumas,
bloqueios, sair desta condição e viver com qualidade de
vida.
A análise é um ambiente de proteção e cuidado,
a intenção do analista é criar um ambiente de
produtividade, confiança, ética e maturidade, valores
que não estiveram presentes na sua infância, esta falta
precisa ser superada com a convivência sincera numa
relação de alteridade e amorosidade.
Cada paciente precisa dar uma resposta para
todas as suas necessidades inconscientes, porque as
carencias podem colocar em risco a sua integridade
psíquica, sabendo disto precisa tomar a decisão de
proteger-se na análise. Esta proteção, segurança,
afetividade tornar-se uma força como a coragem,
ousadia, para fazer frente aos seus medos e inibições, as
neuroses possuem o poder de destruir a vida humana e
torná-la sempre improdutiva e infeliz, por isto a
potência consegue fortalecer a capacidade de tomar
decisões e fazer escolhas pessoais produtivas
socialmente.
A análise é um processo dinâmico de superação,
um suporte para posicionar-se a favor da saúde, e ser
capaz de elaborar, confrontar, esclarecer e interpretar
122
as influências sociais e culturais para resgatar em si
mesmo a confiança básica e a capacidade de sair
daquela situação de doença e fracasso. E, além disso,
tomar consciência das suas potencialidades e
qualidades pessoais para resolver os problemas, mesmo
com a interferência do ambiente externo consegue
sobrepor-se aos empecilhos.
Na análise o paciente está envolvido em um
processo de “superação”, toma consciência de que as
neuroses conseguem obstruir o seu potencial humano,
por isto precisa tornar-se produtivo e seguro, suas
relações devem estar ligadas à família, à comunidade,
ao seu trabalho profissional, e outras atividades
culturais e intelectuais que fazem parte de seus valores
pessoais. Quanto maior o resultado de seus objetivos,
maior será o poder de superação, é uma garantia de
capacidade para tornar-se imensamente criativo.
A neurose maligna tem o poder de estender esta
obsessão e compulsão aos níveis de adição e obstrução
do potencial humano. Quanto maior a capacidade de
superar-se, maior será a capacidade de enfrentar as
neuroses, todos estes fatores acabam interferindo e
alterando o processo dinâmico da inteligência cognitiva,
emocional e sociocultural, todas podem ajudar ou
prejudicar o desenvolvimento do potencial humano. As
conquistas, os sucessos desenvolvem a autoestima, uma
maior confiança em si mesmo para enfrentar situações
de desemprego, morte e pobreza.
Na análise é importante entender todo este
processo de superação como tomada de consciência dos
123
bloqueios neuróticos, além disso, identificar quais são as
emoções que podem estar interatuando entre si, e
depois descobrir como elas se relacionam com as
adversidades e seu processo de superação. A solução de
qualquer problema passa por esta consideração positiva
de si mesmo, quando o paciente consegue gerar novas
expectativas positivas sobre o seu desempenho na vida
afetiva e no mundo do trabalho cria as condições de
realizar o seu sonho.
Os desafios que a existência apresenta, os riscos
das neuroses podem desencadear uma multiplicidade
de dificuldades e problemas pessoais oriundos do
mundo familiar, da bioquímica do corpo, da fisiologia
dos sistemas, da capacidade interpretativa dos
neurotransmissores, da qualidade vida afetiva e das
relações sociais e culturais.

124
4.0 - O caminho da superação.

A psicanálise humanista nos ensina sobre a difícil


tarefa de conhecer-se, o caminho da superação tem a
ver com a capacidade para aprender a fazer diferente,
isto significa que não devemos copiar e sim criar as
condições para fazer do nada tudo aquilo que uma
pessoa mais deseja. Mas é insubstituível a pessoa do
analista, neste diálogo o paciente relata toda a sua
intimidade, conhecemos então seus traumas, mesmo
que o paciente não tenha recordações de sua família, da
imagem de seu pai ou mãe, ou que simplesmente
guarde nas suas lembranças a imagem de algumas
pessoas que foram significativas na sua existência.
Mas em algum lugar existe este analista
humanista, uma pessoa capaz de fazer este trajeto de
superação. Todos os seres humanos reclamam este
cuidado afetivo. Talvez seja possível aprender com a
história de vida e aprender a questionar, a refletir e
procurar a luz nesta escuridão existencial. O analista
pode ser a luz no caminho do seu paciente, aprender
com a natureza os segredos deste caminho de
felicidade, assim esta decisão de saber encontrar os
recursos na existência para sobreviver a todo tipo de
tempestades emocionais.
Então, como descobrir na análise este caminho
de superação? Devemos dar tudo e não exigir nada em
troca? Como um paciente pode aprender a se cuidar e
subsistir aos efeitos de seus traumas? É possível
desenvolver esta capacidade de autonomia e confiança
125
no decorrer do processo analítico? Será que a cura está
relacionada com a capacidade de prevenir-se e saber
cuidar de si mesmo? As reflexões, as interpretações, as
confrontações, esclarecimentos podem ser a estrada
para compreender o seu destino na existência? Como
prevenir-se da catástrofe do fracasso e da doença? A
análise seria este remédio para não cair nas armadilhas
das neuroses?
A análise propicia um espaço para pensar a
existência, e nunca é tarde para aprender com os seus
erros, e ninguém é tão pobre que não possa oferecer
nada a si mesmo, aos poucos inicia um processo de
conquistas, e a primeira delas é aceitar que é digno
desta felicidade. Estar convicto de que nunca vai desistir
dos seus sonhos, e a única coisa que deve abandonar é
o pessimismo e a tristeza, mesmo assim, as emoções
fazem parte da vida de qualquer paciente. Além de fazer
de tudo para preservar a sua integridade e identidade,
nem sempre é saudável confiar em todos, vale a pena
estar atento e deixar de ser ingênuo, perceber que
algumas pessoas têm o poder de perturbar e nos
prejudicar.
O analista deve estar atento que seu paciente
deve estar preparado para enfrentar os desafios da
existência encontrados na sua vida, esta capacidade de
superar-se e superar as adversidades traumáticas
dependem de sua experiência de vida. A análise
fortalece e exercita o desejo sagrado numa pessoa, a
capacidade de confiar nas suas potencialidades, e
durante este processo aprender a fazer vários tipos de
126
conquistas, esta superação tem haver com o seu
aprendizado que fica deste processo de
autoconhecimento. E em meio às dúvidas, incertezas e
desconfianças surge o silêncio como um espaço para
encontrar a o caminho de sua energia criativa.
A primeira superação é aprender a lidar com os
seus medos, manter a tranquilidade, saber resolver os
seus traumas, sair da prisão emocional, seria a sua
primeira e grande conquista. Durante a análise o
paciente consegue alimentar o seu espírito com a
lucidez de seus pensamentos, e inicia um processo de
autoperdão a fim de despir-se de preconceitos contra si
mesmo. O ambiente analítico consegue rejuvenescer,
dar alegria, e encontrar o equilíbrio e a segurança para
poder confiar em si mesmo. Aprender a superar o seu
estado de inconsciência, sentir-se livre e sem nenhuma
culpa para desfrutar de tudo aquilo que a natureza
propicia aos homens íntegros e éticos.
A existência é um lugar de ganho e não de perda,
e todas as oportunidades ditadas pelas experiências
devem ser muito bem utilizadas a favor de si mesmo;
este processo de análise consegue retirar a essência
positiva dos ensinamentos. Talvez a única e
imprescindível lição é que precisamos uns dos outros,
ninguém supera-se sozinho, o narcisista acredita que na
sua solidão e isolamento conseguira superar o seu
estado depressivo. Quando nos sentimos onipotentes e
oniscientes estamos ocupando o lugar de Deus, e
indiretamente prejudicamos o desenvolvimento de
nosso potencial, cada vez que magoamos, violentamos,
127
ou agredimos a nossa pulsão de vida, cometemos o
maior de todos os erros, nos afastamos do encontro
com a inteligência da vida.
A relação consigo mesmo torna-se prioridade
para usar as emoções a seu favor e não contra, cada
atitude de autoagressão e desprezo reforça sempre uma
violência contra a natureza da superação. Este espaço
leva a pessoa a refletir e perdoar-se e também perdoar
todos aqueles que pela sua ignorância emocional não
souberam entendê-lo e compreendê-lo nas suas
reclamações. Quando a simplicidade e humildade estão
presentes na existência, existe a possibilidade de
reconsiderar e levar em consideração os ensinamentos
de saber conviver com os equívocos e ser capaz de
desculpar-se pelas suas inseguranças.
Todos os envolvidos neste processo de análise
acabam confrontando-se e descobrindo novas formas
de interpretar a realidade, este aprendizado acontece
na relação dialógica, as contradições nos mostram a
necessidade da evolução pessoal. O conhecimento de si
mesmo é uma segurança para discernir o bem do mal, e
acima de tudo que as potencialidades humanas não se
percam ou acabem no esquecimento. Estar preparado
para confrontar-se com os momentos bons e ruins que a
vida oferece, e mesmo nos mais difíceis traumas saber
proteger-se para jamais desacreditar de si mesmo.
Porque mesmo no sono, existe o sonho, este
estado de atenção redobrada leva à pessoa a lidar com
os infortúnios e desencantos da vida, consciente que
possui inteligência para procurar proteção e cuidado.
128
Consciência sobre os movimentos das dinâmicas
inconscientes, dos pactos, das adições, compulsões, e
de tudo que nos rodeia e nos convida a fazer parte do
prazer destrutivo. Ser dono de si mesmo é ter a
capacidade de conviver com todas as compulsões
prazerosas e enganosas, e com segurança encontrar-se
fortalecido pelos seus valores éticos.
A superação daqueles prazeres primitivos e
arcaicos é a motivação principal para desfrutar de todos
os aprendizados que a existência oferece. Saber, estar
consciente de que a potência encontra-se na coragem
para confrontar-se com os inimigos de nossa saúde
psíquica e orgânica. Estar preparado para saber utilizar
este potencial de inteligência emocional como uma
força capaz de fazer frente às decepções e traições
humanas.
Estamos envolvidos numa cultura que valoriza o
raciocínio, a acumulação de bens materiais, e ensina as
suas vítimas a esconderem-se por detrás de uma
máscara, estas futilidades superficiais distanciam as
pessoas ainda mais do centro desta força emocional
conhecida como coragem e ousadia. Esta força precisa
ser, direcionada, ampliada e utilizada a favor do bem,
todos deveriam acreditar neste potencial de energia
psíquica, na inteligência organísmica, e valorizar este
tipo de conhecimento.
Como não podemos tocar, medir, enxergar este
potencial de superação e criatividade. Precisa de calma,
prudência, tolerância e paciência, sabe entrar em
contato com este centro de força psíquica, e sabe que
129
muitos dos pensamentos negativos surgem pelo
domínio dos fantasmas. Muitas vezes desconfiamos de
tudo e de todos, sentimos apenas o desejo de desistir,
esta emoção de tristeza é humanamente
compreensível, mas as perdas são inevitáveis, porque
nos ensinam pela separação, o reencontro com nossas
potencialidades.
O desenvolvimento das nossas qualidades precisa
da superação, podemos até fixar-nos naquelas
recordações de perda e sofrimento, enfim a tristeza faz
parte de um luto necessário, não existe evolução sem
perda. Em algum momento devemos confrontar a nossa
capacidade de suportar as inseguranças e medos, e em
qualquer momento de nossa existência podemos utilizar
este potencial como defesa e proteção de nossa saúde
psíquica. Todos deveriam reclamar o seu direito à
felicidade, alegria e bem estar, infelizmente muitos se
acomodam, aceitam o sofrimento sem questionar.
O vencedor é quem coloca todo este potencial de
inteligência e sabedoria a favor de sua qualidade de
vida, é preciso estar disposto a reivindicar e lutar pelo
seu espaço. Ninguém é ingênuo, o confronto com os
desafios são inevitáveis, e a grande batalha é vencer os
medos, ter responsabilidade pelas suas escolhas e
sempre procurar desenvolver a melhor das habilidades
em si mesmos. Quando formos fortes o bastante para
superar todo tipo de desafio, então poderemos nos
tornar um líder, pois o reconhecimento e a valorização é
o segredo para aumentar a certeza de que estamos no
caminho certo.
130
A morte de um líder deixa suas marcas e
mistérios, quando estes ensinamentos são passados de
geração após geração, pois muitos gostariam de saber
como conseguiu tanto prestígio, poder e admiração.
Mesmo depois da morte, aquela imagem continua viva
e presente nas memórias daqueles que continuam a
desbravar e superar-se diante do seu destino inevitável.
O grande segredo da existência é superar este estado de
ignorância, e onde impera a barbárie encontra-se a
violência e a morte, o rumo de cada história de vida
depende do estado de graça e bem estar.
Os conflitos e discussões são frutos da ignorância,
a prudência nos ensina que devemos aceitar viver no
prazer e afastar-nos das frustrações, para isto é preciso
conhecer-se, porque todos os desejos precisam estar de
acordo com o seu tempo de evolução. Todas as
civilizações e sociedades conheceram o caminho que
conduz à liberdade e à justiça, porque toda esta energia
psíquica foi utilizada a favor da evolução da raça
humana.
Existe este potencial dentro de cada ser humano.
O inconsciente é esta fonte inesgotável de energia e
sabedoria, precisamos dialogar e utilizar esta força a
favor da existência. Muitos homens provaram ser
possível superar as adversidades. A ciência ainda é uma
criança engatinhando na compreensão dos fenômenos
da natureza. O homem aprendeu a utilizar a sua
inteligência e com suas descobertas científicas
conseguiu uma melhor qualidade de vida. A psicanálise
é uma ciência da vida e procura entender o destino na
131
vida dos homens do prazer e da dor, como a energia
psíquica é invisível, somente conseguimos enxergá-la
quando nos encontramos diante de nossas emoções e
pulsões.
A natureza humana reflete nas ações a
integridade e inteligência de suas escolhas, o corpo e a
mente nunca adormecem, pois estão envolvidos pelo
seu estado de consciência, eis o segredo de viver com
saúde. Estamos acostumados a nos alimentar de
maneira errada, nossas amizades, o ambiente de
trabalho, nossa cultura, nos empurram para um estado
de ignorância. Cada pessoa deve aprender a lidar com as
suas frustrações, desilusões, traições, estar consciente
desta realidade, e ao mesmo tempo saber que a
esperteza, a sensibilidade, a curiosidade, podem ser as
balizes de sua capacidade de superação.
Como descobrir na existência esta capacidade de
saber tirar o néctar de cada fruta? A vida pode ser muito
produtiva, saborear cada conquista, estar consciente da
compulsão escondida no prazer descontrolado. Além
disso, é preciso aprender a renunciar certos tipos de
prazeres, porque naquele momento existem outras
prioridades acima daquela pulsão. Saber conviver com a
falta, não deixar-se afetar pela frustração de não estar
vivendo aquele tipo de prazer, muitos destes desejos
estão acompanhados de fantasia e ficção, a ganância e o
descontrole é o caminho da patologia.
Cada conquista deve ser realizada com prazer e
gratidão, em cada detalhe é preciso da consciência para
relacionar-se com sabedoria nas suas escolhas e
132
relacionamentos. De que serviria a existência se nos
fosse dado toda compreensão dos segredos da
natureza? Em um simples passe de mágica
resolveríamos todos os nossos problemas. A grande
lição da existência encontra-se no controle das emoções
e pulsões. Esta aprendizagem é um atributo da
natureza, somos seres incompletos, insatisfeitos e
vagamos pela existência a procura de respostas,
buscamos solucionar de uma vez por todas os nossos
problemas. Mas talvez o sentido da vida esteja
justamente no processo de descoberta, de confrontos e
soluções.
Talvez leve uma vida inteira para entender o que
a natureza tem a nos dizer. Mas tudo acontece no seu
tempo e de acordo com a capacidade de compreender
os segredos da existência, a vida nos ensina a cada dia, e
através do ser humano a natureza se apresenta. É na
análise que temos a oportunidade de compreender o
sentido e significado da vida, e aprender a resolver os
desafios mais profundos do nosso ser, e tudo isto está
acontecendo, alguns com consciência e outros
inconscientes. As emoções somente podem ser
percebidas quando aparecem em forma de sintomas
psicossomáticos, são os mais diversos tipos de doença
que tomam a forma daquele potencial reprimido.
A natureza não está interessada no racionalismo,
sua intenção é levá-lo a realizar-se plenamente, esta
energia psíquica é sobrevivente de milhões de culturas e
sociedades que não existem mais, muitos sucumbiram,
mas a hereditariedade, a ontogenia permanece com os
133
seus desejos inalterados. A cada civilização consegue
tornar-se mais produtiva e consciente de sua evolução,
esta energia psíquica é o resultado de todas as
superações já experimentadas pela raça humana, e
podemos contestar e contrair seus desejos, porém é
incontestável que esta energia sobreviveu às
intempéries do tempo.
Todo este aprendizado está presente no íntimo
de cada gene, as células, órgãos, os sistemas, estão
conscientes de sua finalidade, o organismo consegue
enxergar o caminho da destruição, por isto mesmo a
pulsão se antecipa com a ajuda dos sintomas para
informar e impedir esta escolha destrutiva. A totalidade
da existência passa por este processo de evolução de
consciência, somos muito mais que carne e osso, temos
um espírito feliz ou infeliz. Muitos se protegem dos seus
medos com a ajuda de suas máscaras sociais, outros
vivem em conflito constante com as emoções.
Quando olhamos uma pessoa enxergamos muito
além do corpo, podemos ver nos seus olhos a sua dor, a
sua alegria, e atravessados por esta comunicação não
verbal, o corpo fala de sua amargura, de seus
sofrimentos, e muitas das cicatrizes podem falar
daquelas marcas não superadas. O analista vê além da
máscara, não está interessado na aparência física, pois
estes profissionais prestam atenção nas emoções,
desejos, medos, ansiedade e realizações. E todas estas
conotações fazem parte de um ser em evolução, mas é
preciso empatia, sensibilidade, estudo, e compreensão
para enxergar por onde escorre a energia da vida.
134
Podemos verificar se a pessoa superou os seus
traumas através da palavra, seus comentários nos
indicam em que plano a sua energia psíquica se
encontra. O corpo físico e psicológico depende do
estado de satisfação das emoções e pulsões, tudo o
mais é insignificante, porque para ser produtivo e
superar os traumas é preciso disposição. A neurose e as
doenças psicossomáticas consomem o potencial de vida
que cada ser nutre dentro de si mesmo. Será realmente
que temos a competência de superar-nos nas piores
atrocidades, isto realmente é possível?
Ao descobrir esta fortaleza, então está preparado
para aceitar-se nesta condição de viver com saúde e
felicidade, e através das soluções de suas experiências
de vida, descobrirá que tem competência para
interpretar os desejos do seu mundo psíquico. Estamos
procurando por esta “força psíquica” e pela capacidade
de nos livrar da doença e fracasso, queremos descobrir
este poder dentro de nós mesmos. E aos poucos
compreendemos que necessitamos ser um pouco de
médico, de músico, de artista, de vidente, de mágica, de
feiticeiro, andamos por vários caminhos para chegar a
nós mesmos.
Porque a existência apresenta a dor, o
sofrimento, a neurose, as doenças, porque devemos
sofrer e morrer? Porque temos que passar fome de
amor? Porque tudo é tão difícil? Porque somos tão
fracos para superar as nossas adversidades? Diante de
um psicanalista, o ser humano poderia desabafar e
encontrar as respostas para os seus sofrimentos,
135
dúvidas, incertezas. Com muita determinação e
coragem se torna possível entender os desígnios da vida
em cada ser humano. Depois de muita escuta, o analista
deixa claro que é preciso superar a ignorância
emocional, pois esta é a fonte do sofrimento.
Neste momento o paciente está dividido, e com
certeza sua neurose é mais forte, portanto deve fazer
com suas escolhas. Mas independente de sua decisão é
responsável, pois não tem como fugir do compromisso
da evolução pessoal, é preciso humildade para aceitar
ajuda do próximo. O narcisismo é um modo muito
particular de enxergar o mundo pela janela do egoísmo,
do medo, da partilha, da fraternidade.
Os amigos e familiares se preocupam com a sua
dor e o sofrimento, o paciente busca nos psicotrópicos
uma saída fácil para adormecer e anestesiar aquelas
emoções. Porque vivemos na dor e nos afastamos da
saúde? Como estas pessoas desperdiçam a existência
com as suas falsas ilusões? Por que devemos acreditar
que a pobreza ronda sem cessar a nossa vida? Temos
consciência do que estamos fazendo conosco mesmos?
Como enxergar a verdade? Como aprender a lidar com
as contradições da existência, prazer e dor, bem e mal,
pobreza e riqueza, saúde e doença, amor e ódio?
A superação nos convida a sermos melhores, este
não é um drama pessoal, mas coletivo. De agora em
diante começamos a acreditar na força e no poder de
nossas emoções e pulsões, procurando na essência de
sua humanidade a originalidade do seu ser. Precisamos
nos convencer de nossa potencialidade e confiar na
136
nossa capacidade de superação. Este poder ilimitado de
força e coragem existe dentro de nós, é preciso
encontrar este potencial para colocar toda esta força a
serviço da sua felicidade.
Cada “insight” atua silenciosamente na
compreensão do mundo das emoções, este estado de
lucidez e prudência é fruto de anos ininterruptos de
conhecimento de si mesmo. Quase ninguém possui
consciência sobre esta inesgotável fonte de
potencialidade, mais conhecido como inconsciente,
neste lugar jorra a vida em abundância, criatividade,
saúde, alegria e felicidade, é uma energia inteligente e
misteriosa, por isto esconde-se sobre as simbologias e
imagens presentes nas suas memórias. Mas algum dia
estes segredos serão revelados, então
compreenderemos a intenção e o desejo da energia da
vida, quando estas emoções forem libertadas com
certeza estarão promovendo a sua evolução.
O mesmo acontece com qualquer ser humano. Se
você começar a se escutar e elaborar os conteúdos do
mundo das emoções, este potencial de vida iniciará seu
caminho, isto se você estiver disposto a deixar que isto
aconteça, é muito importante ser capaz de refletir sobre
o seu ponto de vista. Determinadas crenças limitam o
seu potencial criativo, algumas vezes uma emoção de
inferioridade pode levar a sentir-se inútil e incapaz de
realizar os seus sonhos. Depois de tomar consciência é
preciso reagir a este estado emocional arraigado nas
profundezas do seu inconsciente, sem saber as suas

137
atitudes procuram no prazer da dor a limitação de seu
estilo de vida.
O consciente sempre utiliza os mecanismos de
defesa, como o racionalização, a negação, repressão,
deslocamento, formação reativa, este vasto arquivo de
memória do passado, sobrevive graças às emoções, e
inconscientemente recorre a estas lembranças e
experiências para sustentar o seu medo. Sem perceber a
sua resposta surge do fundo de suas memórias,
independente de sua vontade, as emoções conseguem
impor a sua verdade. Desta forma as emoções oferecem
uma resposta instantânea à fuga, e assim a vida começa
a mostrar os seus resultados insatisfatórios ou
frustrantes.
Precisamos entender as nossas reações
emocionais, não podemos tomar decisões levianas e
impulsivas, estar em sintonia com aquilo que acontece
no organismo, nos dá a vantagem de reagir com
consciência sobre uma determinada decisão. Ninguém
pode mudar o mundo ou a natureza, as pessoas mudam
no momento que quiserem, por isto com paciência e a
tolerância conquista-se a tranquilidade de assumir-se
por completo. Saber aceitar-se é fundamental, no
silêncio de sua frustração consegue elaborar estes
medos, porque toda vez que alguém se volta para
dentro de si mesmo pratica um ato de amor.
O amor é este desejo de superação, encontra-se
atraído pela saúde, harmonia e integridade. A pessoa
produtiva encontra-se num ambiente de prazer e
satisfação, este método aumenta a autoestima, o
138
conceito de si mesmo, e melhora a autoimagem, estes
ganhos levam a um estado de prazer, e toda experiência
agradável e exitosa tende a ser repetida. Neste nível de
consciência reage a favor das ações de felicidade e
alegria, estas emoções começam a fazer parte da vida,
porque escolheu viver deste modo. Esta escolha exige
esforço, inteligência, consciência, compreensão, força,
uma potência colocada a serviço da pessoa.
Realiza escolhas e também faz suas renúncias, a
mente inconsciente aponta aquele tipo de prazer, a
pessoa tende a dar uma resposta àquele desejo, e
quando começamos a rejeitar situações, momentos,
oportunidades de realização e satisfação. A consciência
tem o poder de rejeitar e fazer escolhas, fazer a opção
do prazer e fugir da dor. A mente inconsciente
acompanha todas as suas escolhas, está sempre atenta
e concentrada nos tipos de emoções experimentadas
por sua pessoa, mágoa, raiva, ódio, inveja, ciúme, e
tantas outras experiências dolorosas.
A energia emocional trabalha no silêncio, seu
modo de interpretar a realidade existencial depende do
tipo de emoções que vivenciamos, esta estrutura
emocional possui a sensibilidade e coragem para levar
ao autoconhecimento. As pessoas procuram o analista
porque precisam entender as suas fobias, ansiedades,
angústias, mas aquilo que não está na palavra,
encontra-se no corpo. Seu interesse é viver em paz, e o
único modo de encontrá-la é dentro de si mesmo,
portanto, o primeiro passo é admitir a sua existência, e

139
de que nem sempre a nossa razão tem explicações para
compreender o nosso coração.
Quando as emoções levam à desconfiança, ao
pessimismo, violência, irritabilidade precisa-se prestar
atenção e entrar em contato com esta realidade, pois
do contrário iremos reprimir, castrar ou negar a sua
aparição. Temos medo de encarar as emoções negativas
ancoradas no passado, porque existe uma relação entre
nós e estas emoções, porque por muitos anos fizeram
parte do nosso modo de vida. Esta atitude emocional
ajuda a pessoa a distanciar-se da experiência do amor,
da alegria, do prazer, estes estados existem. A questão
é: as emoções conseguiram obedecer ao seu desejo?
Estamos protegidos da experiência da dor, do engano,
da traição?
A pessoa após uma longa reflexão consegue
perceber que a maneira de interpretar a realidade é
uma extensão daquilo que sente e pensa. Quando inicia
esta abertura para poder refletir e aprofundar estas
emoções de dor e sofrimento, podemos confirmar que a
sabedoria conseguiu despertar dentro do seu “eu” este
estado de força e potência.
A saúde psíquica pode retornar a vida de
qualquer pessoa, basta deixar que esta simplicidade
apareça e tome conta, porque ao admitir a necessidade
de transformar-se eleva em dignidade a sua realização
pessoal. Talvez a maior das prioridades na existência
seja a máxima de Sócrates “conheça-te a si mesmo”,
pois toda a exigência da vida moderna nos coloca uma
agenda cheia de afazeres, mas devemos priorizar o
140
cuidado de si mesmo, o psiquismo precisa deste espaço
para elaborar e interpretar o que acontece conosco.
Depois de tantos afazeres e tarefas estamos
esgotados e estressados, e neste instante precisamos do
lazer, da distração para recuperar as nossas energias,
sentir alívio e tranquilidade. Torna-se um adicto do
mundo do trabalho também não é uma solução, porque
sem perceber torna-se uma compulsão. Este estado de
“Stress” aparece no rosto, no corpo, nos olhos, nas
tensões musculares, esta denúncia de seu mal estar,
aparece nos sintomas. Esta compulsão ao trabalho eleva
o nível de colesterol e aumenta a pressão arterial, de
certa forma está moldando algum tipo de doença
psicossomática.
Não importa o nível de “stress” é preciso fazer
algo, perder o medo de mudar, encarar os fatos, este
estado de inconsciência pode levá-lo a morte. Quem
não sabe por onde anda, jamais vai chegar ao seu
destino. Esta tomada de consciência sobre o seu modo
de viver é fundamental para iniciar uma série de
mudanças, e quando começar a sair desta atitude
destrutiva, então a saúde vem ao seu encontro. Existe
de fato uma grande recompensa por entender e
compreender a magia e o milagre da energia emocional.
Quem descobriu seu modo de agir encontrou um
tesouro, e nesta criatividade descobre o seu potencial
para resolver seus traumas. Mesmo quando alguém
comenta sobre uma doença nos damos conta da
existência de uma inocência, não consegue perceber e
tampouco admitir que este sofrimento do corpo está
141
encoberto pela sua autoimagem. Atrás da doença
existem reclamações, abusos, repressões, recalques, e
ninguém pode fugir do encontro com a dor. A doença
nos leva a ser sinceros, porque o resultado do sintoma
encontra-se estruturado nas camadas de experiências
que originaram aquela neurose.
O olhar, o rosto, a boca, as mãos, contam o tipo
de emoção que escondem as histórias de seu passado,
porque naqueles traumas estão as alegrias, tristezas,
vitórias, derrotas, raiva, ódio, e todo tipo de
experiência. O corpo conta a história, este estado de
inconsciência esconde o grau de ignorância que torna
impossível entender o fracasso e o sofrimento de outra
maneira. O modo de falar sobre o trauma denuncia o
seu estado de inocência, pois não consegue entender a
origem da neurose, nem mesmo os rótulos, conceitos,
explicações, conseguem resolver a estrutura desta
neurose. Todo ser humano possui uma consciência,
uma autoimagem, uma autoestima, um autoconceito, e
muitas são as emoções estão escondidas nestes
estigmas, inconscientemente acaba atrelando o seu
modo de viver àquele tipo de trauma.
O consciente realiza a compreensão racional, seu
modo de pensar defende um estilo de vida com
fracassos sucessivos, esta situação pode ser analisada
quando o superego consegue distorcer e impregnar de
defesas um trauma específico. O trauma emocional é
uma experiência que pretende fugir do encontro com a
dor, por isto nunca mais quer viver novamente aquela
experiência. Quando as defesas do ego entram em ação,
142
a negação, a repressão, o recalque, propiciam um
julgamento distorcido de si mesmo.
As imagens que movimentam a energia
emocional são os rótulos e estereótipos, utilizamos uma
nomenclatura para formular uma resposta sobre uma
atitude. E nestas palavras estão os preconceitos que
levam a uma condenação. Quando somos capazes de
aceitar as pessoas como são e não como gostaríamos
que fossem, estamos conseguindo olhar com clareza e
profundidade para o ser humano. A desumanidade
acontece quando os vícios e preconceitos se antecipam
no julgamento de um comportamento, esta forma de
ver limita e impede de enxergar a outra pessoa de
maneira diferente.
Ao olhar uma pessoa o analista não está viciado e
alienado num estereótipo, esta atitude pode perceber
outras qualidades encobertas ou escondidas na
neurose. A vida do paciente é um espelho onde o
analista pode se enxergar, por isto mesmo não devemos
nos preocupar em colocar uma etiqueta no sintoma do
paciente, devemos colocar nossa atenção no rumo que
vamos conduzir a fim de encontrar prazer e alegria. A
existência do potencial no inconsciente, é um presente
da natureza para ser conquistado e utilizado a favor da
felicidade humana.
Muitos são os fatores que podem contribuir para
o desenvolvimento da capacidade de superação, como
por exemplo, problemas familiares, orgânicos e
bioquímicos, cognitivos, afetivos, econômicos, culturais.
Esta potencialidade de transformação da realidade
143
pessoal e social é uma consequência do processo de
incorporação de novas aprendizagens, precisa
desenvolver estas habilidades para atender todas as
suas necessidades biológicas, afetivas e sociais.
Ninguém nasce com esta capacidade de resolver
problemas, ao contrário é um processo que precisa
deste espaço de reflexão e aprendizagem e pode
acontecer dentro da escola, da família ou totalmente
afastado destas instituições. Duas qualidades básicas
são necessárias para a pessoa desenvolver-se na
infância, a primeira trata-se de saber usar o seu
potencial cognitivo e emocional, o segundo ter um
desejo de vencer e abrir-se aos desafios da existência.
As conquistas pessoais influenciam na formação
de seu caráter, onde a determinação, a coragem, o
desejo de ser melhor, ocupa um lugar muito especial em
sua vida. Este potencial de evolução encontra-se
presente em todo ser humano independente de classe,
etnia, religião, situação política e econômica, porém o
meio social cultural precisa viabilizar o aprimoramento
destas suas qualidades e capacidades.
A reflexão sobre as relações destes diversos
fatores sobre a utilização ou não deste “potencial de
superação”, desenvolve a capacidade de otimismo, pois
tornou possível que a vida se tornasse interessante e
exitosa. Quando uma criança aprende a fazer suas
atividades com sucesso, depende de vários fatores e
circunstâncias para favorecer ou dificultar a realização
destes objetivos. Não podemos determinar com
absoluta precisão quais seriam estes fatores, e se estes
144
objetivos na verdade ajudaram a tornar a sua vida mais
prazerosa e feliz.
Naquelas crianças que sofreram abusos físicos,
emocionais ou sexuais geralmente ocorre um quadro
depressivo, de ansiedade, angústia, psicopatias.
Resultado óbvio do abuso que acontece nas classes
pobres e mais ricas de nossa sociedade. E dentre todos
estes fatores o mais sério deles é a violência política, ou
aqueles que não querem refletir sobre o problema
social das crianças delinquentes.
Podemos considerar que em algumas áreas da
existência esta criança ou adulto, conseguiu diante das
dificuldades encontrar uma resposta ao seu problema, e
em outras não conseguiu ser tão eficiente. Penso que
esta capacidade precisa de tempo e maturação para
aprender a tornar a vida mais eficiente e feliz, a
superação em qualquer área da vida vem sempre
acompanhada de uma experiência positiva.
O ambiente social, cultural, educacional ajuda a
estruturar uma patologia psíquica ou ajuda a formar um
sociopata, por outro lado desenvolve uma capacidade
de liderança e inteligência podendo esta pessoa tornar-
se um grande cientista. Toda a questão norteia como a
criança ou pessoa percebe ou interpreta aquele tipo de
acontecimento. A complexidade aparece quando não
sabemos o impacto de uma perda sobre o
desenvolvimento do caráter, e quando esta experiência
interfere de maneira negativa ou positiva sobre a sua
vida.

145
A interação entre a interpretação sobre um
acontecimento e a maneira como a experiência
interfere sobre o desenvolvimento da inteligência ou
das emoções. Quando enfrenta muitos problemas ao
mesmo tempo se pressupõe que saiba escolher por
critérios quais deles precisam de uma solução mais
urgente. Ao mesmo tempo em que para uma criança
aquele ambiente é fonte de angústia e ansiedade para
outra é um estímulo, motivação para procurar um novo
ambiente mais prazeroso.
Cada um de modo muito particular interpreta as
“dificuldades ou problemas” com base em seus
costumes, crenças, qualidades e valores pessoais. A
capacidade de resolver problemas está relacionada às
etapas da maturidade emocional e cognitiva, um
multidimensional relacionamento pode beneficiar
conquistas e benefícios em proveito próprio.
Algumas pessoas conseguem superar os traumas
e outras não têm um final feliz, desenvolvem
psicopatologias e doenças mentais porque não
conseguiram ou tiveram as competências emocionais
para enfrentar naquele momento o trauma. A
psicanálise enfoca a importância do desenvolvimento
das competências, organização, planejamento, objetivos
específicos, são exemplos que ajudam no sucesso
profissional.
Para conhecer este processo de desenvolvimento
e a capacidade de superação é importante durante a
análise especificar estas qualidades, elas podem ajudar
a compreender o sucesso durante a sua história de vida.
146
Com referência às doenças psíquicas é importante
esclarecer a relação das necessidades afetivas e
econômicas, e descobrir quais são as potencialidades e
estratégias pessoais utilizadas para prevenir-se e
promover a sua saúde psíquica.
Todos podem em algum estágio de sua vida
descobrir métodos e estratégias vantajosas para utilizar
de maneira eficiente no combate a todo tipo de doença.
Aprende a lidar com situações de pressão e stress,
reduz muito qualquer tipo de sintoma psicossomático,
assim em conjunto com a análise as potencialidades
adormecidas ou sedadas pelos seus medos, começam a
surgir na consciência.
Quem gosta de si mesmo, preocupa-se em
investir na prevenção de futuras doenças, pensa sobre
os resultados de seus investimentos, esta flexibilidade
acentua o valor da sabedoria concentrada na
responsabilidade e compromisso que assume em
relação a sua saúde psíquica.
Qualquer pessoa em algum momento de sua vida
pode desenvolver uma doença, ou sofrer um colapso
financeiro, mas ao mesmo tempo possui a
determinação e coragem para mudar paradigmas,
crenças e ideologias. Tem a inteligência de buscar
dentro de si a capacidade de aprender com estes
desafios, e sair desta experiência amplamente
fortalecida.
Existe uma grande diferença de buscar solução
num “auxiliar mágico” um milagre divino, e de outros
que conseguem produzir dentro de si mesmo esta
147
magia, entende a necessidade de uma decisão positiva e
saudável. Este sujeito encontra-se envolvido neste
esforço contínuo, precisa compreender todo este
processo inconsciente do mundo das emoções e
pulsões. Sabe usar a seu favor todo o potencial de
inteligência emocional e colocá-lo em prol de sua
evolução de consciência.
Existem qualidades indispensáveis na essência
desta “potência” tais como honestidade, sinceridade,
humildade, perseverança, bondade, perdão, compaixão,
alteridade, paciência, tolerância, força de vontade, elas
ajudam a fortalecer a existência da ética da vida. Se não
existe amor, desenvolve um interesse de estudar e
conhecer em profundidade os motivos e situações que
bloqueiam a existência da emoção em sua vida. Na falta
do dinheiro está disposto a trabalhar e aprender novos
meios de ganhar mais e investir na sua qualidade de
vida. E assim consegue livrar-se de todos os bloqueios e
crenças que impede o desabrochar de sua potência de
amor à vida.
É importante entender a análise como um
processo de superação das limitações psíquicas e
emocionais, isto inclui uma ética comprometida com a
saúde, esta decisão responsável mostra a vontade de
aprender com aqueles dispostos a ajudá-lo, como no
caso dos psicanalistas, professores, colegas de trabalho,
e outras pessoas de sua relação que participam e
conhecem quais são as suas limitações emocionais.
Gostaria de fazer algumas reflexões sobre o papel
da equipe de trabalho, ou de um grupo de profissionais
148
interessados em desenvolver algum projeto social.
Atualmente é indispensável a existência de projetos de
promoção e prevenção da saúde, esta orientação pode
caracterizar-se pela evolução teórica e conceitual de sua
área de atuação. O objetivo do grupo de trabalho é
desenvolver nos participantes as qualidades humanas
indispensáveis para fazer frente aos seus objetivos.
Ao reconhecer em si mesmo este potencial de
superação, pode socializar no seu grupo as suas
estratégias e métodos para solucionar determinados
tipos de problemas. Esta escuta pode ajudar a equipe de
trabalho a aprender uns com os outros, e depois serem
capazes de ajudarem-se mutuamente. Assim o grupo
consegue utilizar a riqueza deste potencial para alcançar
metas e objetivos.
O grupo pode descrever quais as suas
potencialidades e identificar qualidades que possam
potencializar a capacidade de resolver problemas
dentro de uma família, instituição ou na empresa onde
trabalham. Reconhece e sabe o valor das suas
qualidades éticas aprendidas com os seus pais e
educadores, esta capacidade de envolvimento de todos
os membros do grupo para alcançar objetivos comuns.
A reflexão do grupo sobre suas qualidades
confere a todos o direito de lançar-se na realização de
objetivos. Pode escolher algum tipo de superação de um
dos membros como motivação para ampliar ainda mais
a discussão e aprofundamento sobre este processo de
superação. Todos podem resgatar de sua história de
vida alguma experiência que conseguiram passar pela
149
“superação” de ideias, dinheiro, relações, psíquicas,
emocionais, familiares. O grupo também pode
identificar em outros grupos alguém que possui a
qualidade de fazer frente aos traumas e problemas
pessoais.
Quando o grupo começa a analisar as suas
histórias de vida, ao revelar as estratégias utilizadas
para sair fortalecido daquela experiência negativa,
percebe que estes desafios podem ser a perda da mãe
ou do pai, a demissão do seu emprego, um acidente,
uma falência econômica, e retira dos seus participantess
métodos de solução destes traumas. O grupo torna-se a
força de sua transformação pessoal.
O acúmulo de experiência pode ser socializado
para despertar o desejo do outro em aprender a utilizar
esta potencialidade pessoal a favor do seu grupo de
trabalho. Esta solidariedade social é fundamental para
que as pessoas se ajudem e consigam através deste
esforço coletivo a superação de seus objetivos. Existem
pessoas que sofreram um trauma e no dia seguinte
estão dispostas a sair e enfrentar aquela situação, e
outras permanecem como sedadas por longos anos de
sofrimento, sem qualquer tipo de iniciativa para
resolver aquele tipo de problema.
Cada desastre ou falência representa sempre
perda e prejuízos para um grupo de trabalho. Mas ao
mesmo tempo pode mobilizar a capacidade de
inteligência e tornar as pessoas mais solidárias e
comprometidas em começar a reerguer-se com suas
próprias forças. Existe esta disposição de organizar-se e
150
empreender uma série de ações em conjunto, com o
objetivo de delegar aos membros do grupo atribuições e
metas para a solução deste problema de falência
econômica.
O grupo funciona como escudo protetor para os
seus membros, e utiliza suas capacidades valorativas e
competências para fazer frente à experiência negativa e
encarar um novo desafio. Um grupo pode desenvolver
uma autoestima que faz todas as pessoas se sentirem
importantes e orgulhosas de si mesmas e da realização
de seus objetivos. Esta satisfação em pertencer aquele
grupo amplia o vínculo de confiança e bem estar, e
aprende a socializar os seus conhecimentos para utilizá-
lo de forma eficaz no enfrentamento das adversidades.
Este grupo pode persistir na busca de valores,
crenças, costumes, ideias favoráveis as transformações
e mudanças que se fazem necessárias, sem dúvida estas
três condições de um grupo de pessoas pode ser a força
capaz de mobilizar todo o potencial para fazer frente
aos obstáculos. Primeiro trata-se da autoestima, depois
do autoconceito e por último a autoimagem deste
grupo de pessoas.
Esta identidade cultural e de propositos pode
desenvolver um espaço para melhorar e qualificar com
mais produtividade certas capacidades com o objetivo
de utilizar a favor do grupo. Valores como a honestidade
e sinceridade são básicos para criar um clima de mútua
ajuda e confiança, esta transparência dos objetivos do
grupo elimina qualquer chance de corrupção e
desonestidade.
151
O que as pessoas do grupo não devem concordar
é no fanatismo, machismo, autoritarismo e mentiras.
Não podem renunciar a sua autonomia e tampouco
delegar a outros as responsabilidades que são suas, esta
imagem grupal fortalece o empobrecimento das
relações e dificulta muito qualquer tipo de resposta
para aqueles tipos de problemas. É preciso valorizar a
participação democrática, todos aprendem a ter vez e
voz, esta experiência aumenta a confiança e nas
lideranças que precisam fazer frentes ao inesperado.
Surge a esperança destas pessoas do grupo de
tornarem-se produtivas e interessadas em ajudar o seu
colega a superar-se diante de uma dificuldade, esta
perspectiva nos leva a acreditar que é possível viver com
qualidade de vida, bem estar e alegria. Quando todos os
sujeitos do grupo sentem-se incluídos e inseridos dentro
de um projeto maior da instituição, que contempla a
distribuição de lucros, saúde psíquica e qualidade de
vida.
Em qualquer sociedade os grupos devem estar
atentos as políticas públicas para a população em geral,
esta estrutura FUNCIONAL de mudança e flexibilidade
respeita o processo de individuação e autonomia para
sentir-se forte e com coragem para saber lidar com suas
limitações tais como: sentimento de culpa, de
inferioridade, inseguranças, desânimo, apatia,
pessimismo, adições, nervosismo, compulsões,
neuroses, psicoses.
Outra atribuição do grupo é aprender a lidar com
as limitações e dificuldades de cada pessoa, observar o
152
desenvolvimento de certas neuroses que impedem a
aplicação de imediato de suas potencialidades. Por isto
todos estão envolvidos neste clima de euforia e
determinação de fazer frente a estes traumas, através
da escuta torna-se possível a ampliação da capacidade
para ter coragem e ousadia para resolver seus
problemas. Esta transformação pessoal depende da
contribuição positiva de cada experiência efetiva.
A capacidade do ser humano de saber resolver
seus problemas e retirar o melhor, mesmo daquelas
experiências traumáticas, superando assim todo tipo de
sofrimento e dor, capaz inclusive de se deixar
transformar por estas vivências. Porque cada
dificuldade abre possibilidades para exercer mais a sua
criatividade para recuperar-se e conseguir usufruir
daqueles tipos de perdas e sofrimentos.
Seu organismo consegue ativar seu sistema
imunológico para combater qualquer tipo de vírus ou
bactéria, mesmo nas situações mais estressantes
desenvolve uma resposta positiva para voltar ao estado
de homeostase anterior. A superação é este processo
evolutivo de conhecer-se em profundidade
principalmente naquelas qualidades e capacidades que
tornam o sujeito mais eficiente e capaz.
O psiquismo humano é capaz de desenvolver
uma imunidade como forma de se proteger contra um
meio de violência e marginalidade, que neste caso
favorece a psicopatia. Aprendem a ter coragem e força
para solucionar situações de stress e pressão social.
Estas qualidades tais como: flexibilidade, sensibilidade,
153
coragem, afetividade, capacidade de suportar a dor,
amor próprio, resistência ao fracasso, amor a vida,
bondade, ternura, inteligência emocional,
autoconhecimento, fazem da superação um caminho de
realização, abrindo caminho para a saúde e felicidade.
Como defendia Harry Stack Sulivan as relações
intrapessoais, interpessoal e transpessoal são os meios
para desenvolver todas estas qualidades, nesta
interação consegue aprender sempre algo e adquirir
novas capacidades. Muitas pessoas aprenderam a
perdoar-se pelos seus erros e além do mais
conseguiram superar muitos traumas, possuem a
capacidade potencializadora de saber curar-se e de sair
mais fortalecido de uma experiência catastrófica. Por
isto mesmo nos perguntamos como pode pessoas que
foram abandonadas, ou que tiveram famílias psicóticas
e esquizofrênicas, desenvolverem esta força de vontade
de procurar a saúde e viverem mais felizes e saudáveis.
A capacidade de aprender a sair destas situações
de sofrimento e dor, e transformar esta experiência em
força e determinação para alcançar outros objetivos
mais nobres, merecem o reconhecimento e valorização
por esta atitude pessoal. Agora vou descrever este
caminho de autoconhecimento na psicanálise capaz de
ajudar uma pessoa a encontrar o seu caminho de
realização pessoal.
A análise pessoal leva esta pessoa a refletir sobre
aquele núcleo que desintegra o seu potencial de
inteligência emocional, e exige que esta força e
determinação seja usada a favor de sua saúde e
154
felicidade. Desenvolve durante este processo de
conhecimento, habilidades emocionais capazes de
mobilizar este desejo de sair das limitações, é um
exercício contínuo de saber enfrentar seus problemas
sem recair na depressão ou na solidão.
A análise ajuda a pessoa a relacionar-se melhor
consigo mesma, e ser capaz de resolver seus traumas
com a clara intenção de ser capaz de viver uma
intimidade no amor e nas suas amizades, além de
aceitar o amor e ser capaz de oferecer seus afetos para
as pessoas que ama. O processo de cura é feito de
exigência e superação, deve ter a sabia iniciativa de
colocar a prova todas as capacidades e qualidades
pessoais.
Saber usar de sua esperteza para dosar paciência
e prudência nas decisões difíceis que exigem este grau
de tolerância para consigo mesmo, esta capacidade de
equilibrar ansiedade e tranquilidade pode ajudá-lo a
ganhar mais tempo para encontrar as respostas mais
apropriadas para aquelas provocações da existência.
Muitas vezes é preciso rir de si mesmo, e saber lidar
com as limitações humanas, e quando tudo parece que
vai terminar, consegue com sua criatividade e
determinação estratégias para colocar ordem no caos.
A psicanálise humanista é uma ciência que utiliza
um método de análise com a intenção de resgatar os
valores éticos da vida, por isto, é imprescindível este
processo de evolução de sua consciência, uma
humanização comprometida em defesa da paz, da
justiça e oportunidade de salvar a dignidade humana de
155
todos os seres. E mesmo aquelas crianças que não
tiveram o cuidado e carinho podem na idade adulta
permitir-se viver esta experiência, a isto poderíamos
chamar de superação.
Agregar valor e experiência a novas
oportunidades de aprendizados no campo emocional,
afetivo e sexual. É preciso saber entrar nestes conflitos,
mas também sair deles com novas aprendizagens a fim
de ajudá-lo a tornar-se mais humano. Na solução de
qualquer tipo de neurose benigna é preciso de ajuda e
apoio da família e amigos e de um bom psicanalista.
Estar decidido a desenvolver seu potencial de
criatividade e aprender com as suas experiências, novas
estratégias para resolver estes conflitos neuróticos.

156
Parte II

5.0 - Descobrindo a sua capacidade de superação.

Muitas pessoas em situações de pobreza, stress,


depressão, divórcios, alcoolismos, adições às drogas,
abuso sexual, conseguiram sair desta condição, ou seja,
esta pulsão de amor a vida, despertou o seu potencial
de coragem para sair desta situação de sofrimento,
conseguiram delinear um projeto de vida. Mas para sair
destas situações difíceis e complexas de uma neurose,
esquizofrenia, drogadição, todos devem ter apoio de um
psicanalista, dos familiares, para todos os efeitos este
amor conseguiu mobilizá-lo para sair da situação
destrutiva.
Todos os sujeitos que conseguiram sair de uma
situação traumática de forma saudável devem muito
aos valores e virtudes do seu caráter, ou seja, estes
valores e qualidades foram o pilar de sustentação para a
sua mudança. Esta superação tornou-se possível porque
este sujeito considerou e aceitou aquela parte boa do
seu caráter. Todos possuem o direito à transformação, e
mesmo nas situações mais difíceis consegue utilizar o
seu potencial criativo para tornar-se produtivo e fazer
frente a estes obstáculos. Sem dúvida a superação de
qualquer trauma deve levar em conta o ambiente
familiar, os vínculos sociais e a sua cultura.
Hoje acompanhamos as sociedades do primeiro
mundo caminhando para a pobreza, e com isto milhões
de pessoas encontram-se desempregadas e excluídas do
157
processo de ascensão social. Este processo político,
econômico e educacional ajuda a proliferar os
problemas da drogadição, alcoolismo, marginalidade,
homicídios, violência urbana, e esta situação deixa suas
sequelas de doenças psíquicas, mortes, prisões, crise de
valores, famílias desfeitas. Estas políticas globais da
economia e educação ainda concentram uma grande
riqueza de bens nas mãos de alguns privilegiados, e falta
urgentemente uma distribuição de renda mais justa e
igualitária à população marginalizada.
Faltam políticas de saúde pública sérias,
educativas e de prevenção, principalmente aos
psicanalistas humanistas que procuram contribuir para
amenizar os problemas sociais. A qualidade de vida
afetiva é fundamental para resgatar a sua autoestima e
encontrar novos meios de solução de seus problemas.
Queremos, no entanto enfatizar a importância da
superação como um valor a ser agregado à clínica
psicanalítica, porque a natureza da superação impõe
muitos desafios ao psicanalista e cientista social, para
entender a complexidade deste potencial de
transformação.
Hoje a psicanálise humanista inicia um processo
de reflexão sobre as causas deste potencial humano
para a solução de problemas pessoais e de sua
coletividade. A superação está ligada a este processo
complexo e invisível de desenvolvimento e promoção de
suas qualidades e capacidades pessoais, independente
de sua etnia, raça, religião e condição social. Este
potencial humano, conhecido como “superação”
158
consegue motivar as pulsões e emoções para fazer
frente aos problemas complexos e difíceis de sua
existência, sem comentar a capacidade criativa e seu
dinamismo para cada problema em sua vida.
A superação encontra-se num estado de
mudança, e em muitos casos não depende do ambiente
e muito menos do cuidado de alguma instituição.
Muitos conseguiram por decisão própria mudar a sua
vida, encontrou dentro de si este potencial de força,
necessária para voltar a viver com alegria e saúde. Uma
das características destas pessoas é sua capacidade de
flexibilidade de conviver com diversos tipos de culturas,
ideias, conceitos e maneira de viver. A abertura a
novidade impede de aceitar novas ideias e melhorar a
sua qualidade de vida.
A promoção e prevenção da saúde psíquica
precisa do conhecimento, não existem grandes chances
para aqueles que vivem sobre o tormento da ignorância
emocional e da alienação social. Cada sujeito pode
desenvolver uma aprendizagem para tornar-se forte e
com coragem para fazer frente aos novos desafios,
porque sabe que o resultado de sua vida depende da
sua maneira de pensar e viver. Esta experiência
fantástica de maturidade é uma qualidade humana, de
certa forma os problemas são uma provocação para
medir o grau de determinação e ousadia para enfrentar
e resolver uma dificuldade pessoal ou coletiva. Quando
este enfrentamento é positivo e realizador, a pessoa sai
desta experiência fortalecida e convicta que esta
melhorando a sua confiança em si mesmo.
159
Todos nós conhecemos pessoas que se
encontravam em situação complicada e difícil e
conseguiram uma solução exitosa para aquele tipo de
problema, e outros que infelizmente se entregaram ao
processo destrutivo, uns morrendo aos poucos e outros
que já partiram para outra vida. A experiência pode nos
ajudar a desenvolver nosso potencial e devolver a
confiança na nossa capacidade de resolver problemas, e
aprender que muitas vezes é preciso conversar com
quem já passou por situações similares ou parecidas.
A solução dos problemas exige um aprendizado,
naqueles casos em que a pessoa tem ajuda na
promoção e desenvolvimento de seu potencial criativo,
consegue convencer-se através de sua inteligência e
capacidade pessoal, pode resolver os seus conflitos
pessoais, familiares ou no ambiente de trabalho. Como
as relações sociais são importantes com certas pessoas
em que se pode confiar e são capazes de vincular-se
afetivamente e amorosamente, e sua ternura é capaz de
colocar os limites e ajudá-lo a sair das atitudes
destrutivas.
Este ambiente social e cultural pode acentuar e
devolver o desejo de incorporar ao seu caráter, valores
e virtudes das quais já não existia mais, e acima de tudo
possam através de trabalhos sociais devolverem-lhe a
capacidade de sentir-se útil, e desenvolver outras
capacidades e qualidades pessoais.
Todo ser humano precisa desta humanidade,
necessitamos de pessoas que possam nos ajudar
quando estamos precisando, ou numa situação
160
destrutiva, e às vezes colocar o limite necessário para
poder aprender a proceder de maneira integra e ética.
Aos poucos todas estas superações devolvem o apreço,
o carinho, o amor, a confiança daquelas pessoas do seu
convívio pessoal, este novo ambiente abre as portas
para continuar a fazer algo de bom e saudável às
pessoas amadas, aprende na existência a amar e aceitar
as suas qualidades e também das pessoas de sua
convivência.
O valor ético de todo este processo analítico é ser
capaz de responsabilizar-se pelas suas atitudes, esta
autonomia lhe devolve a liberdade de ser, e neste
ambiente de confiança, de conquista, de aceitação,
aumenta a certeza de que seus objetivos serão
alcançados. Aos poucos perde o medo de falar de si
mesmo, dos problemas que lhe colocam medo, e torna-
se humilde e sincero na busca de ajuda para sair
daquela situação de adição ou compulsão. A análise é
um lugar para pensar a compulsão, as obsessões, e
todas as atitudes destrutivas. O lugar de encontro com o
analista é sublime e sagrado, porque o paciente pode
ser ele mesmo. Este encontro ajuda a preparar-se para
enfrentar os desafios, aprender a viver, a conviver com
as perdas, a suportar os fracassos e aprender com tudo
isto.
A vida está inscrita nos desejos obscuros que
pertencem à natureza humana, estas emoções são o
alicerce que transformam o sentido e direção da
existência. Não temos como antecipar os encontros e
desencontros das pessoas que deixaram suas marcas,
161
independente da profissão e dos seus sonhos, todos
estão inconscientemente buscando a realização dos
seus desejos. Pode não ter consciência, mas os fatos
estão acontecendo independente de sua vontade, mas
existe uma intenção, um desejo que norteia a ação e as
escolhas e nos leva ao encontro daquilo que
procuramos.
Como estamos envolvidos pelos desejos da
cultura seguimos sem questionar um ritmo de vida que
tem muito a ver com acontecimentos que confirmam
nossa ignorância emocional, sem saber estamos sendo
conduzidos por estes desejos desconhecidos, que nos
encaminham ao encontro daquelas carências que
precisamos preencher no espírito, lugares dentro de nós
sedentos de amor e afeto. De todos os modos estas
atitudes serão traduzidas em pensamentos, num
caminho onde provavelmente vai encontrar aqueles
desafios e dificuldades que ensinarão a estrada a seguir.
As nossas escolhas estão envolvidas num
invólucro de incógnitas e mistérios que nos
surpreendem, e todos os eventos sempre nos ensinam
algo, mesmo aqueles que nos mostram sofrimento e
dor, naquelas palavras encontram uma história de
abandono e insegurança. Pessoas que aparecem sem
dizer nada e nos ensinam o caminho da superação, não
há como viver sem aprender a ajudar, e nesta ajuda
conseguimos resolver questões reprimidas e recalcadas
pelo medo de nos levar ao encontro da nossa verdade
interior. Ao tentarmos entender e compreender a dor

162
dos outros estamos querendo saber este caminho da
superação da tristeza, do fracasso, da doença.
No corpo está escrito uma história que conta os
segredos, o não dito, os pactos que forçam todos a
reprimir e sofrer em silêncio, estes contratos
inconscientes tornam-se uma carga pesada, muito difícil
de superar. Entramos em contato com a energia da
desgraça, da vaidade, da mentira, da doença, da morte,
da tristeza, palavras que envaidecem a destruição e
negam o valor da existência.
E nos perguntamos os motivos que levariam
alguém a procurar o suicídio, a falência, a fuga do amor,
a solidão, por obediência a um medo. Um trauma
obscurecido pela experiência da violência, e da
experiência de medo e terror, diante da violência que
consegue deturpar e fazer desaparecer o verdadeiro
amor.
Todos trazem recordações da infância, de pureza,
camaradagem, união, amorosidade, ternura e
comunhão de pensamento e emoções. Mas aquela
criança precisa aprender com os seus traumas, porque
nem todos os seus desejos serão realizados e outros
tantos dependerão muito mais de seu investimento,
trabalho e decisão. Mas as imagens estão carregadas de
uma história, de como cada um encontrou um antídoto
para sedar a sua dor. Estas emoções são os
representantes das imagens que transformadas em
personagens transformam-se em pai, mãe, avós e
pessoas amigas, e daquela vivência as memórias

163
interpretaram aquelas emoções, e podem ser de
decepção, mágoa, raiva e abandono.
Num outro sentido a vida está submergida neste
quantum de energia psíquica, este fenômeno emocional
pode nos dar o tom de silêncios que não somos capazes
de compreender, mas que pelo olhar e a expressão do
rosto, podemos fazer uma leitura do que se passa no
íntimo de cada um. Mesmo na ingenuidade existe uma
sinceridade, aquela realidade que não conseguimos ou
não queremos enxergar, mas a nossa humanidade não
desiste, pois o amor é uma realidade, talvez o amor não
consiga expressar-se em toda sua magnitude.
São estas recordações e sentidos dos olhares e
palavras que denotam o significado da aceitação ou da
rejeição, e de todos os desafios, existem aqueles
distantes de nossa capacidade de solução ou
intervenção, situações traumáticas que escapam de
nossa limitada compreensão, estes fatos são reais e
continuam na memória, imagens que depois de anos
continuam vivas e atuantes como se não houvesse
tempo e nem espaço. E naquela experiência
visualizamos a dor da perda, na impotência, na raiva, no
ódio, naquilo que nos tornamos.
Fechados e entristecidos realizamos um pacto
emocional com os traumas, e assim revoltados e
indignados projetamos a infelicidade nas pessoas. Em
toda a família existe uma história que fala e conta os
porquês daquele suicídio, daquela doença, ou do
fracasso. Conseguimos visualizar o papel que cada um
ocupa na constelação, os sintomas e os bloqueios giram
164
entorno daquela emoção de ódio, raiva, abandono,
revolta, este núcleo gera infelicidade, porque como
humanos nos sentimos impotentes para viver a
imensidão do amor.
Se não existisse este desejo de viver o amor,
ninguém casaria e teria filhos, este desejo nos instiga a
procurar nas relações uma segurança para aplacar ou
diminuir a angústia que mata aos poucos nossa vontade
de viver. Naquele ser está inscrito uma emoção, ela
norteia todo seu pensamento e consome toda sua
energia. O papel que cada um ocupa nesta história de
vida reproduz as incongruências e incoerências de
relações fechadas e inseguras.
Ninguém pode dar aquilo que não tem, podemos
criticar ou esbravejar, brigar, exigir, pressionar,
reclamar, mas o fato é que ficaremos com a nossa
frustração de não viver aquela experiência de amor.
Enquanto crianças não temos consciência dos jogos, das
mentiras, das perversões presentes na vida dos nossos
mestres. E aos poucos começamos a nos dar conta de
como fomos usados, sacrificados, usurpados e
negligenciados.
Esta revolta de esbravejar com ferocidade atende
aos segredos que todos devem suportar para viver
entorno daquela máscara, e assim muitos levam para o
seu túmulo aquela carga pesada para não prejudicar o
bom nome da família. Em nome da decência, da
lealdade, do compromisso, muitos vivem um falso
“self”, este tipo de abuso emocional, físico ou sexual,
pode petrificar o corpo como uma rocha sem
165
sentimentos, sua essência é frieza e sem amor,
dissimula esta dor com a ajuda dos psicotrópicos ou
adições do álcool e drogas.
Naquele corpo estão inscritas as palavras de um
sintoma que se esconde sobre os traumas, experiências
dolorosas carregadas de humilhação, violência e
abandono. Quando alguém se fecha para o mundo das
relações, desconfia e não acredita mais no amor, além
de viver sobre o domínio daquele recalque, e manifesta-
se através da ansiedade, angústia, medo e todos os
tipos de fobia, e sem saber o que fazer, percebe que
outras pessoas estão sofrendo, e o único modo de
resolver tudo isto é calar-se, fechar-se e falar somente o
necessário.
Chega o momento que alguém da família não
consegue suportar por muito tempo este segredo, e
tudo acaba em doenças psíquicas, delírios, paranoias,
esquizofrenia, psicose e outros modos de fugir da
realidade triste e cruel. A culpa em fazer parte deste
conluio reacende a necessidade urgente de se punir,
então o castigo é inevitável, de alguma maneira o corpo
pretende pagar o preço desta obediência ao pacto
inconsciente. O corpo é o lugar onde aparece o sintoma
da família, das dores, do não dito, quando as palavras
não podem ser comunicadas indiretamente estas
mensagens aparecem em forma de doença.
A atração inconsciente das mentes humanas se
comunica por um processo de superação de suas
necessidades, muitos chegam a dizer que todos os
acontecimentos e encontros possuem um sentido e
166
significado naquele momento histórico. De maneira
diferente e por caminhos distante ambos buscam a
mesma solução para um determinado problema. A
doença, o sintoma, realça um desejo mórbido de
destruição, mas o lado bom da energia da vida tenta
com todas as suas forças fazer frente a este desejo de
destruição.
Mas nem sempre a vida prevalece sobre a morte,
em muitos casos a doença se torna inevitável, aquela
dor emocional precisa de algum modo ser interpretada
e levada à consciência, este caminho da tomada de
consciência é a salvação de seu espírito. Podemos
pensar nas motivações inconscientes que podem levar
uma pessoa a se destruir, e poderemos responder a este
questionamento sobre diversos prismas.
O primeiro tem a ver com a culpa e o medo de
tracionar o pacto, o segundo que alguém descubra a
existência deste segredo, por isto deve estar sempre
vigilante e atenta para representar um papel, este
estereótipo reforça ainda mais um gasto enorme de
energia psíquica, levando esta pessoa a um
esgotamento físico e orgânico. Mesmo a doença
conclama e exige uma tomada de consciência, este
segredo precisa ser revelado, a carga está pesada
demais, neste momento está insuportável.
Este sofrimento aparece no corpo como uma
atitude de solução final para os seus problemas, e
esquece que inconscientemente a sua destruição
pretende trazer à tona os segredos desta família. A
superação acontece pelo simples sinal do afeto, pelo
167
amor afetivo decide enfrentar e juntar forças, a morte
da vida no corpo transforma-se na negação do prazer e
de ser capaz de viver o amor. Mesmo neste estado de
inconsciência a manutenção deste segredo torna-se
insuportável.
Mas as marcas daquelas emoções acabam
fazendo parte da formação do caráter, são aquelas
histórias de família que acabam transcrevendo a
qualidade e o sentido que cada um consegue dar à vida.
E tudo começa numa família, e naqueles desejos de
superar traumas e problemas neuróticos
transgeracionais. E na inocência de cada um surge este
estado de inconsciência, de crenças e interpretações
que estrutura um tipo de emoção. As primeiras
experiências na infância mostram o modo como cada
um vive o amor e o afeto no ambiente familiar.
E muitas experiências da infância mostram o
quanto é caro a vivência do amor, e ninguém poderia
escapar do encontro com a inveja, o ciúme, as
transgressões, a alegria, a felicidade, a esperança, mas
queira ou não, lá está o adulto no seu papel de
cuidador, e nem sempre este adulto está preparado
para dar conta deste amor tão exigido pelas crianças.
Um adulto traz consigo neuroses e bloqueios
escondidos a sete chaves, e os filhos idealizam uma
perfeição, ou acreditam que seus pais possam
preencher as lacunas de carência de amor.
E assim cada criança vive neste mundo
atormentado por problemas e dificuldades dos adultos,
e de certa maneira sempre restam recordações de afeto
168
e amor que nos fazem acreditar na vida. Então damos
ênfase àqueles momentos mágicos onde o carinho, a
ternura, a confiança, a amorosidade, estiveram
presentes, muitos se agarram a estas recordações com
unhas e dentes, porque as outras precisam ficar
recalcadas no mais profundo do inconsciente.
Esta inteligência da superação nos convence de
que vale a pena viver e lutar pela experiência de amor,
mesmo sendo criança tem a capacidade de pensar e
refletir sobre os problemas dos adultos, mas às vezes o
ódio e a raiva são mais fortes e tornam as relações
cheias de violência, oprimem e cerceiam a liberdade de
ser, convencem de que não possuem nada de bom,
humilham, menosprezam e desqualificam estas
crianças. Esta experiência em família é capaz de herdar
os valores éticos e morais. Muitas aprendizagens
importantes desta constituição do humano têm sua
origem nesta relação primária.
E o caminho da superação ou da destruição surge
também deste encontro com estes ensinamentos, estes
mestres podem nos ensinar que a vida apesar de todas
as suas dificuldades, pode tornar-se o lugar ideal para
viver a felicidade. Quando a criança não tem consciência
se identifica e acredita que seu pai e mãe são os seus
heróis, somente mais tarde entende que o príncipe
tornou-se um sapo, que os adultos são incoerentes e
mentirosos, assim se desfaz aquele ideal de perfeição e
precisa aceitar a realidade humana, dos erros e acertos,
do bem e do mal.

169
E aos poucos toma consciência das
incongruências e das dificuldades dos adultos, percebe
que nem tudo é perfeito, pois é preciso saber viver com
as incoerências e limitações humanas. Percebe que os
adultos também têm seus problemas, e toma
consciência da enorme jornada a percorrer neste
mundo de alegrias e tristezas. Aprende apesar de tudo a
superar o desânimo, a apatia, o pessimismo, a sua
revolta, e as frustrações mal digeridas pela sua vida.
Principalmente naqueles lares onde os pais não
se entendem, há brigas e discussões sucessivas, e
projeções de emoções de um passado que se torna
presente, esta revelação acontece pela revivência da
raiva e ódio que cada um carrega dentro de si mesmo.
Estes conflitos neuróticos são os resultados de vidas mal
resolvidas, pessoas que não resolveram bem as suas
neuroses e desta forma perpetuam de geração após
geração a continuidade de sua revolta e ódio.
São felizes as crianças que tiveram um lar com
cuidado, carinho, compreensão, amorosidade, e aquelas
que não conseguiram viver neste ambiente acabam
internalizando uma imagem muito pobre de si mesmas.
Porém com o tempo precisam entrar em contato com
estas emoções, mas algumas pessoas infelizmente,
passam pela existência sedadas, utilizando as drogas
lícitas ou ilícitas. Onde não existe o amor com certeza
está o ódio, e este ambiente familiar pode tornar-se um
lugar de conflitos e disputas de ideias e reclamações.
Na infância também existem os confrontos com o
poder, quem pode ter mais valorização e
170
reconhecimento dos pais, quem é mais esperto para ser
amado, de certa forma todos são reféns destas
competições, e as sequelas dos ciúmes e invejas
aparecem sempre disfarçados. Esta prisão emocional
das emoções negativas bloqueia o potencial da
confiança e criatividade, e neste turbilhão de emoções a
vida acaba se constituindo. A vida emocional possui sua
profundidade e também lugares que jamais teremos
acesso, me refiro às experiências emocionais dos seus
antepassados.
E nesta parte escura da infância começa a
vislumbrar um novo amanhecer com a ajuda da
consciência, aos poucos começa a entender este jogo da
vida e da localização exata de cada peça, e cada
acontecimento traz novas revelações, esta força de
vontade de aprender a lidar com as emoções pode
tornar-se a sua força, a capacidade de movimentar-se e
sobreviver a todos os perigos que esta energia possa
apresentar. E neste caso os traumas precisam de uma
solução, porque a ferida precisa ser curada, eis a tarefa
que a existência colocou na vida de cada ser humano.
Pois é preciso transcender as suas próprias limitações
emocionais.
Muitos têm sorte, outros competência, mas
enfim é preciso descobrir dentro de si mesmo estas
qualidades e potenciais que podem fazer a diferença. E
assim a humanidade vai tomando seus contornos com
sua especificidade, e cada um retira destas experiências
algo de bom ou ruim, isto depende da sensibilidade e da
compreensão sobre aquele ambiente. A marca profunda
171
que nunca se desfaz é a experiência do amor, o cuidado
dos irmãos, o afago dos avós, a ternura dos tios, a ajuda
de um amigo, estas podem vir a ser experiências
libertadores ou traumatizantes.
Espera-se o melhor e quase sempre não
acontece, salvo raras exceções, mas ninguém pode tirar
a alegria do rosto da criança, da sua espontaneidade, da
liberdade de correr, de sentir-se amada, de viver
perigosamente, de viver o amor, estas e outras vivências
são as matrizes de sua humanidade, por intermédio
destas relações familiares desenvolve a capacidade de
respeito, amor, bondade, honestidade, compreensão, e
desta experiência nasce a confiança, a força de vontade,
a coragem, a espontaneidade, a perseverança em seguir
em frente e jamais desistir.
Cada criança desenvolve na sua infância
estratégias de superação de seus traumas, algumas
delas são eficazes e outras reforçam e escondem um
ritual para fugir do encontro com aquela emoção que
produz angústia e ansiedade. Quer segurança e
presencia a estupidez, precisa de amor e convive no
meio do conflito, gostaria de segurança e percebe um
futuro incerto, idealiza uma relação de respeito e sente-
se violentado na sua autoestima, precisa da ternura e
calor humano e encontra-se diante da projeção das
frustrações dos seus pais.
E aquela criança procura inconscientemente em
lugar para proteger-se contra todo este tipo de violência
e negligência, existem defesas para esconder certas
emoções. Inconscientemente procura na droga, a fuga
172
para sedar a sua dor, neste lugar existe a tranquilidade,
a paz, a segurança, uma realidade sem nenhum tipo de
sofrimento. A segurança emocional surge quando é
possível viver da união, da confiança, do afeto daquelas
pessoas que ama.
Ninguém consegue viver nesta ilusão por muito
tempo, pois o efeito químico ou o processo de alienação
não dura para sempre, em algum momento precisa
entrar em contato com a sua realidade, e como não
existe alternativa resta somente enfrentar os seus
medos, angústias e incertezas. E nada é mais sagrado
que aqueles momentos de solidariedade e afeto, e
vivenciá-lo o máximo que puder, porque é uma
lembrança de alegria, amor, união, isto proporciona
segurança e bem estar.
O trauma torna-se esquecido quando recalca
aquelas emoções dolorosas, e a única maneira de
sobreviver é retirar da sua memória atual aqueles
traumas, seria o único modo de continuar vivo, por isto
mesmo não se lembra da sua infância. E neste mundo
da negação procura sedar a memória das lembranças
dolorosas de seu passado. E assim permanece sobre o
domínio das emoções, raiva, medo, ódio, inveja, ciúme,
mágoa, acabam dominando a forma de pensar e agir
desta pessoa.
Os adultos procuram dissimular e esconder seu
estado de infelicidade e sem consciência insinuam aos
filhos os seus preconceitos, crenças, dificuldades. Não
percebem a influencia na formação de caráter de seus
filhos. Principalmente aqueles pais angustiados,
173
estressados e frustrados, afirmam inverdades e
demonstram uma força e alegria vindas do álcool. É
uma falsa alegria, uma euforia passageira, perdida e
confusa na orientação de seus filhos passa todo este
estado de frustração e desencanto contra si mesmo e
sua família.
As crianças são espertas e percebem as
incoerências, vícios e adições dos seus pais, e procuram
esconder as verdadeiras causas de seus problemas
pessoais. Toda esta agonia interior tem suas raízes
numa história que recria as lembranças de sua infância,
os pais não estão imunes a esta realidade, procuram
narcotizar ou sedar sua dor emocional. Os prejuízos são
enormes, enganados pela sua adição preferem sedar a
consciência para não pensar sobre o trauma, e desta
atitude surgem as consequências, aquelas pessoas que
o amam, percebem o nível de sofrimento, angústia e
infelicidade escondidos por detrás daquela garrafa de
bebida.
Sobre o efeito da química do álcool torna-se
corajoso e distante de qualquer expressão afetiva, sua
intenção é magoar aquelas pessoas, sua única finalidade
é estar sozinho, e na solidão gozar com o seu
narcisismo. Infelizmente sua angústia acaba
contaminando a todos, pois o nervosismo e
preocupações o acompanham durante toda vida. Passa
a maior parte de sua vida tentando driblar e esconder
seus segredos, e para aliviar sua angústia e tristeza
torna-se um dependente do álcool ou das drogas.

174
6.0 - A promoção da capacidade de superação
na família e na educação.

A psicanálise pode ser uma ciência a serviço da


saúde psíquica, mas para compreender as atitudes dos
alunos, como repetência, violência, acomodação,
evasão escolar, precisamos nos questionar em
diferentes momentos históricos e sociais as maneiras de
pensar das classes dominantes. Estas teorias na
educação produzem jargões e estigmas que explicam,
mas não resolvem e muitos menos contribuem para a
solução dos problemas na educação.
Este modo de pensamento acaba determinando
estereótipos e comportamentos baseados nos históricos
dos problemas de aprendizagem ou nos alunos com
déficit de atenção. E assim as teorias sempre trazem
novas nomenclaturas para explicar as anomalias,
violência, reprovação, a dificuldade de aprender.
Podemos constatar esta reflexão como uma verdade
porque os educadores e os pais sempre colocam seu
foco de atenção no problema, e nunca procuram
entender e compreender as motivações das dificuldades
pessoais ou do grupo.
Os diretores, supervisores, psicopedagogos,
orientadores educacionais e psicólogos da educação
devem ampliar e expandir sua compreensão sobre um
novo modo de pensar os problemas de aprendizagem,

175
porque o foco de atenção é a repetência e a evasão, e
percebe-se que algo não está funcionando bem.
Este método não é funcional para levar os alunos
a prender, e todos entram em crise quando aparece um
novo paradigma que nos mostra onde se encontra a
limitação metodológica e didática, e ninguém gostaria
de admitir que às vezes o problema encontra-se
naquele que ensina e não naquele que aprende.
Quando pensamos somente no negativo,
limitamos qualquer possibilidade de superação daquele
problema específico. Neste momento gostaria de frisar
sobre a importância da família em resgatar no aprendiz
a força de vontade para procurar uma solução, e que
através da reflexão dos pais se abram novos horizontes
na capacidade de desenvolver uma criatividade.
Todos querem uma receita ou uma resposta
pronta para resolver o seu problema, e os pais deveriam
prestar mais atenção não nos problemas, dificuldades,
doenças, falhas, fracassos, notas baixas, mas abrir seus
olhos e levar em consideração outros métodos e saídas
para aqueles tipos de problemas. Por exemplo, se um
pai tem um filho que se droga, é natural que exista uma
rejeição social na escola e na família.
No entanto esta pressão acaba favorecendo o
drogadito a acreditar no poder de sua adição, isto quer
dizer, este dependente químico não tem condições de
sair desta adição. Do mesmo modo quando um aluno
tira notas baixas, passamos a ideia de que não tem
inteligência e capacidade para ser alguém na vida. E se
alguém fracassa numa tentativa de inventar algo novo é
176
taxado como sendo um fracassado, um perdedor, e
assim a família e a escola reproduzem a exploram o
comportamento negativo, o resultado como fracasso.
Este estigma não está somente na educação, na
família, mas no ambiente de trabalho, nas
universidades, nas instituições de pesquisa. Este modelo
teórico de enfocar sempre o negativo tornou-se o
paradigma teórico de várias ciências humanas, e nos
levam sempre a pensar e reduzir uma pessoa àquela
patologia, ao diagnóstico daquela doença, sem perceber
estamos rotulando e inibindo qualquer reação contrária
deste paciente ou aluno.
Este diagnóstico é redutor, negativo e
determinista, de certa forma sugestiona esta pessoa a
acreditar que não tem capacidade e condições de
resolver problemas. Em vez de enfatizar a importância
de tomar iniciativas e utilizar a sua criatividade
sustentada nos seus valores e capacidades pessoais para
resolver seus dilemas, centra o poder da cura ou da
solução na magia do seu mestre. Como se o milagre da
transformação pessoal estivesse fora de si mesmo,
depositado no centro de inteligência do professor ou de
seu médico.
Estes diagnósticos enfatizam a deficiência e
negam qualquer utilização de recurso do paciente ou do
aluno. Existe uma perversidade, querem impor uma
verdade, quem possui a capacidade e inteligência para
resolver aqueles problemas são os detentores do saber
e nunca o paciente, e assim assumem esta atitude
passiva e delegam a outro a solução de suas dores,
177
muitos se transformam em meros receptores de
conteúdos, passivos e conformistas tornaram-se
obedientes e ficam aguardando o grande milagre na sua
vida.
Os profissionais da área da saúde e educação
possuem este modelo teórico de saúde mental, porque
o estudo e as práticas procuram respaldo nos novos
conceitos e descobertas que possuem a intenção de
salvaguardar velhos paradigmas teóricos. Inclusive
muitas das ciências humanas como a educação,
psicanálise, medicina, psiquiatria, e algumas
psicoterapias estão orientadas em descrever e entender
aquele fenômeno com a compreensão do meio
ambiente e da cultura.
Infelizmente não estão interessadas na solução,
muitas prolongam os problemas por anos, e não
discutem e nem abrem um questionamento sobre esta
prática clínica que não traz nenhum resultado. Ou seja,
este método não consegue levar o paciente a mudanças
significativas em sua vida, como no caso do alcoolismo,
a drogadição, a violência, a repetência escolar, a
dificuldade de aprender, transtornos de
comportamento.
O que pretendo dizer é que a psicanálise como a
educação deve fazer um esforço enorme para enfatizar
mais as qualidades e valores das pessoas. Contudo é
necessário buscar novas teorias e métodos de trabalho,
capazes de resolver e enriquecer as práticas dos
profissionais da área da educação e saúde,
principalmente na questão da superação, que possam
178
valorizar mais a confiança em si mesmo, e que estas
pessoas possam de fato acreditar no seu potencial de
transformação.
Depois desta nossa reflexão sobre a importância
de enfocar primeiro as qualidades e capacidades e
depois realçar a dificuldade, refletimos sobre como
fazer a diferença na solidificação do vínculo, no
aumento da autoestima, na imagem favorável e num
conceito mais realista e fidedigno de sua pessoa.
Devemos fazer justiça a esta comunicação, porque
realçar os valores e qualidades pessoais pode fazer a
grande diferença numa prática que está interessada em
resgatar o potencial de transformação do paciente ou
do aluno em questão.
Porque o exercício de ensinar e clinicar deve
atender a estas indagações: O método consegue ações
frutíferas e produtivas na vida desta pessoa? Tem noção
clara de suas qualidades e potencialidades? Está
disposto a utilizá-las para solucionar os seus traumas e
bloqueios emocionais? Possui a confiança necessária
para acreditar que é possível a cura? Esta disposta a
fazer esta caminhada para superar suas neuroses e
promover os sonhos em realidade? Enfim o desejo de
ser capaz de construir algo onde até então estão
somente escombros, iniciar do nada, redefinir seu papel
na família e na sociedade.
A transformação ou a cura de qualquer doença
precisa da elaboração destes novos contextos, da
família, da relação com os pais, do amor, dos afetos, do
mundo profissional, do casamento, da história de sua
179
família, e de tantos outros fatores que estruturam as
suas emoções. Ao tomar consciência das atitudes que
não funcionais para a sua aprendizagem procura nos
seus professores o exemplo, a dedicação, a
competência, para construir um diálogo que possa ser
produtivo e libertador.
Esta prática pedagógica fortalece e enaltece uma
relação de reciprocidade e valorização daquilo que já
conquistou, este reconhecimento fortalece ainda mais o
vínculo entre professor e aluno, um discurso que
incentiva a utilização de suas competências emocionais
e cognitivas, e deixa de enfatizar e endeusar os seus
problemas e dificuldades pessoais. Procura levá-lo ao
encontro de sua capacidade de superação saindo deste
modelo da critica, cobrança e da dificuldade.
Todos os profissionais podem fazer uso do
enfoque nas competências pessoais e do grupo,
precisamos de um novo enfoque que valorize a
iniciativa, a mudança, a novidade, e assim abre a
possibilidades de viabilizar as potencialidades
emocionais e cognitivas do grupo de alunos em sala de
aula. O educador pode motivar a família e os alunos e
responsabilizá-los pelo seu sucesso na aprendizagem e
na saúde, e deixar de culpá-los e inferiorizá-los pelos
seus fracassos.
Muitas pessoas tiveram traumas, perdas,
bloqueios emocionais, doenças crônicas e malignas, e
mesmo assim conseguiram superar e seguir adiante em
busca de saúde e felicidade. Abandonaram o discurso de
vitimização e começaram a desenvolver as suas
180
competências, esta atitude deu lugar às novas
interpretações e propostas de solução para a sua vida.
A importância de enfatizar a “superação” na
educação nos permite pensar mesmo diante dos
problemas de aprendizagem, dos transtornos de
comportamento, da apatia e desânimo, que fizeram
parte de uma família, escola, sociedade, de saber que
estas pessoas possuem potencias e inteligência
suficiente para procurar as respostas para seus
problemas, e que jamais possamos duvidar desta força
de vontade de procurar uma maneira de viver mais
saudável e produtiva.
Esta capacidade de superar permite tolerar,
controlar, descobrir novos métodos de atenuar ou
mesmo resolver estas experiências, resultados dos
traumas e bloqueios pessoais ou de um grupo. Porque
quando consegue compreender a origem destes
traumas pode desencadear o desejo de superar esta sua
dificuldade momentânea.
Todas as dificuldades e problemas que aparecem
para impedir a realização de uma pessoa, de uma
família, de uma comunidade, provocam a existência de
potencialidades para desenvolver capacidades que
conseguem resolver estes obstáculos. Este desejo de
superação permite a permanência da esperança e
consegue fazer frente ao desânimo e apatia, melhora a
situação emocional, aprende a lidar com estes
sofrimentos originados nestas experiências traumáticas,
ao interpretar, esclarecer, sem nenhuma fuga, isto é

181
possível compreender e procurar com coragem por uma
solução.
Os traumas sempre deixam suas sequelas de
carência, abusos, superproteção, humilhação,
abandono, insegurança, naqueles grupos que deixam a
pessoa vulnerável à vivência de novas violências. O
apoio e afeto são fundamentais para dar a volta por
cima, e oportunizar a vivência afetiva num grupo onde
seja possível resgatar a confiança, a ética, a verdade, a
autoestima.
Nos casos onde a pobreza, a marginalização
social, a humilhação por ter uma cor diferente, a prisão
por roubo, abandono da escola. A falta de profissionais
na rede pública para ajudá-los nesta difícil tarefa de
ressocialização, principalmente na confiança em suas
capacidades e de conseguir autonomia e liberdade para
centrar-se na evolução de sua produtividade criativa. As
instituições devem promover projetos de inserção social
e conseguir o reconhecimento e valorização das redes
de apoio governamentais e não governamentais.
Existem vários fatores que podem influenciar de
maneira negativa a formação do caráter daquele
sujeito, estes medos, fobias, inseguranças, complexos
de inferioridade impedem o desenvolvimento de suas
potencialidades. Ninguém pode negar que o fator
emocional influencia e pode traduzir-se em eficiência ou
desistência da vida. Este é o grande desafio da clínica
analítica, conseguir propor aos pacientes o
desenvolvimento de suas capacidades de superação,
precisamos de uma resposta positiva por parte do
182
paciente para transcender todos os efeitos nocivos de
sua neurose.
A psicanálise procura desvelar estes fenômenos
emocionais que impedem a utilização correta de suas
potencialidades, mas naqueles casos crônicos
poderemos conviver com a frustração, ainda é muito
cedo para termos todas as respostas para ajudar as
pessoas a superar todas as suas dificuldades. São muitas
as qualidades indispensáveis para desenvolver e
conseguir superar certas neuroses, estas e outras
potencialidades são capazes de ajudar a recuperar a
autoestima, o autoconceito, a autoimagem, que podem
colaborar na conquista deste estado emocional de bem
estar e realização.
Existe este potencial inconsciente que pode ser
utilizado a favor de uma coerência, de emoções
verdadeiras, de eficiência, de confiança, de coragem, de
determinação, forças capazes de superar qualquer tipo
de problema. Existem por exemplo, famílias que diante
de uma crise financeira ou amorosa, acabam saindo
mais fortalecidas e mais maduras para viver de maneira
diferente. O psicanalista humanista deve estudar estes
processos inconscientes que beneficiam a solução dos
conflitos neuróticos e por sua vez conseguem ajudar
outras famílias.
Hoje podemos concordar que os sofrimentos
neuróticos nem sempre são a fonte de desgraça, mas
uma oportunidade de confrontar e utilizar o seu
potencial de criatividade e determinação. Vários
pacientes nos mostraram que todos contam com este
183
potencial de energia criadora, a disposição para superar
as neuroses e contribuir para a evolução de uma
inteligência capaz de fazer escolhas e tomar decisões, e
resolver os problemas pessoais e existenciais.
Toda crise existencial precisa prestar sua atenção
nas qualidades e capacidades para colocar em prática as
suas potencialidades. Este potencial encontra-se a
disposição de todos, e indiretamente nos encaminha a
melhorar a nossa condição humana, nos torna mais
afetivos, coerentes, sinceros, estudiosos, determinados
e comprometidos, qualidades intrínsecas que podem
fazer a diferença na vida de uma pessoa. Hoje a
psicanálise humanista deve propiciar campo de pesquisa
para conhecer estas qualidades e capacidades inerentes
e presente no inconsciente humano, deixando de lado a
ênfase na destruição neurótica.
A psicanálise tradicional precisa fazer uma
revisão de sua teoria determinista e causal, porque
estavam muito preocupados com a etiologia, e destas
interpretações surgiram as crenças e verdades
conceituais, por exemplo, toda criança que tiver os seus
pais ausentes provavelmente será neurótica ou
apresentará algum tipo de comportamento antissocial.
Estes estigmas são ultrapassados porque sempre
culpam as mães e as famílias, este modelo teórico
precisa sair do reducionismo simplista em relação aos
estudos da saúde psíquica.
Muitos estudos científicos e do resultado da
prática clínica de muitos pacientes alcoólatras,
compulsivos, psicossomáticos, ou da vivência caótica no
184
ambiente familiar de drogas, violência, abusos, e apesar
de tudo isto conseguiram recuperar-se e sair da
condição de sofrimento, hoje possuem uma ótima
qualidade de vida. Durante o tratamento foi
intensificado a autoestima, a coragem de sair desta
condição de sofrimento, ser capaz de viver com alegria e
disposição, desenvolver melhor sua capacidade de
confiança, e ampliar ainda mais a sua capacidade de
solução de problemas.
Tudo nos leva a pensar que estas potencialidades
não são inatas e podem ser aprendidas através de
processos de erros e acertos, por exemplo, como
aprender a ser pessimista, a ser impotente, a ser
responsável e determinado. A educação pode favorecer
a confiar nas suas capacidades, aprendendo a dominar e
controlar melhor as suas emoções, e acima de tudo
desenvolver uma autoestima baseada na avaliação de
seus professores.
Alguns pacientes conseguem alcançar seus
objetivos durante a análise, porque a situação de
pobreza impõe uma decisão de sair desta condição,
estas experiências de conquistas pessoais favorecem
uma confiança na realização dos projetos. Aos poucos
este paciente começa a tornar-se forte e corajoso e
deixa de ser queixoso e resmungão, percebe que
existem ganhos como valorização, reconhecimento,
amizades, que ajudam no desenvolvimento de sua
competência social e afetiva.
Esta pessoa confiante e determinada nos seus
objetivos aprende a ser assim pelos valores e
185
experiências que passou na sua família, escola e
comunidade onde vive. Isto depende muito das
investidas de seus projetos sociais e afetivos, pois seu
resultado é sempre positivo e cheio de sucesso, esta
experiência reforça ainda mais a sua autoestima na
realização dos seus objetivos.
Então como explicar que estas pessoas que
sofreram violência familiar, abusos sexuais e abandono
conseguiam desenvolver-se normalmente? Porque esta
atitude contradiz as teorias em voga, e talvez a
explicação mais plausível seja a sua capacidade de
ancorar-se nas imagens e experiências positivas dos
seus relacionamentos para fazer frente a estes dilemas,
entendemos que esta criança tinha todas as condições
para ser psicótica, bipolar, hiperativa, mas aconteceu o
contrário, estes traumas produziram um choque
emocional, mas não foi forte o suficiente para
desenvolver-se numa patologia.
Porque muitas pessoas que vivem em situações
de miséria e pobreza conseguiram desenvolver talentos,
dons, capacidades para viver com ótima qualidade de
vida. Os ganhos secundários da vitimização e exploração
sempre foram um dos conceitos principais da
psicanálise, sem dúvida esta atitude enaltece a
acomodação, não conseguiram fazer a passagem das
adversidades para a superação, infelizmente ficaram
atrelados a um discurso de vítima e coitado,
aprenderam a usurpar e seduzir suas vítimas para
conseguir sobreviver graças ao seu estado de pobreza e
miséria.
186
A psicanálise humanista procura oferecer ao
paciente qualidade de vida, por isto entendemos que
além da terapia, precisa desenvolver outras
capacidades, como inteligência cognitiva, emocional,
afetiva, amorosa e transcender as limitações de crenças
e medos, esta será a terapia analítica do terceiro
milênio, porque o psicanalista sabe fazer a escuta de
algumas patologias como a esquizofrenia, psicose,
abusos, adições, compulsões, fracassos, traumas,
negligência, porém com um novo olhar uma nova
interpretação.
A ciência psicanalítica encontra-se a frente da
psiquiatria, medicina, direito, políticas públicas, porque
abriu um espaço para o estudo transdisciplinar. Muitas
pessoas ou grupos humanos conseguiram com certo
êxito enfrentar e resolver seus problemas de miséria,
pobreza, traumas, e esta situação coloca em confronto
os paradigmas tradicionais, porque estas teorias têm
uma maneira estereotipada de interpretar estes
fenômenos da realidade.
O enfoque destas ciências na atualidade dos
traumas, abusos, patologias, doenças, em referência a
estas limitações, carências, desvios, conseguem
elaborar diagnósticos cada vez mais complexos e difíceis
de compreender, porque explicam, mas não resolvem as
causas, simplesmente demonstram as consequências
desta patologia. E procurar resolver os sintomas
utilizando métodos farmacológicos ou terapia
comportamental para normalizar aquele desvio de
conduta.
187
A proposta da psicanálise humanista estende sua
atenção nos “potenciais” adormecidos pela consciência
humana, e juntos procuram um método aplicável capaz
de seguir adiante com os seus projetos de vida. Na
clínica, nas salas de aula, nas empresas, devemos
desenvolver estratégias e métodos capazes de
aumentar a capacidade da pessoa acreditar em si
mesma. Geralmente toda avaliação enfoca o negativo e
deixa de acentuar o positivo, assim acabamos
reforçando e diminuindo a autoestima desta pessoa.
Precisamos utilizar criatividade, dinamismo,
determinação, coragem, originalidade, ousadia.
Fomentar o estudo deste fenômeno capaz de resolver
problemas e curar doenças, tornando a pessoa
competente e capaz de utilizar seu potencial de
inteligência emocional a favor de sua felicidade. Esta
competência precisa do aporte de um psicanalista que
acredite na capacidade de recuperação, para isto, é
preciso paciência, tolerância, compaixão, bondade, dar
o tempo necessário que este paciente precisa para
voltar a acreditar em suas potencialidades.
Em muitos casos clínicos de pacientes difíceis é
preciso sem dúvida incluir a terapia de família, de casal
e de outras terapias, este aspecto consegue mobiliar
outras pessoas de sua convivência para conseguir um
ambiente saudável e produtivo, pacientes depressivos
ou a beira de um suicídio. Não tenho nenhuma dúvida
que o psicanalista deve fazer uma formação nestas
áreas para conseguir envolver a família na solução dos
problemas do seu paciente.
188
A psicanálise sempre levou em consideração os
conflitos inconscientes, os pactos, as defesas, as
fantasias, os sonhos, mas deixou de levar em
consideração aquelas forças em potencial que estavam
inconscientes no paciente. Este potencial pode ser de
muita ajuda na recuperação da saúde psíquica, e hoje
temos certeza que mesmo aqueles pacientes
vulneráveis, neuróticos compulsivos e obsessivos,
podem desenvolver a capacidade de investir e colaborar
com o psicanalista na sua recuperação psíquica.
Desta relação transferencial nasce a confiança em
si mesmo e nos outros, amplia sua capacidade de
comunicação, aprende a respeitar seus limites e dos
outros, consegue estabelecer um canal de diálogo com
as suas emoções, desenvolve com mais coragem a sua
criatividade e dinamismo, aumenta sua autoestima,
autoconceito, autoimagem e amadurece para um
compromisso ético em fazer e dar o melhor de si
mesmo em prol de sua saúde psíquica. Esta é a
esperança de conseguir elaborar as emoções da inveja,
ciúme, ódio, raiva, ambição e conscientizar-se do valor e
da importância da alegria, o humor, a felicidade, a
ternura, a ética, a compaixão, a capacidade de estar
consciente de seu processo de saúde psíquica.
Isto não significa que umas pessoas possuem
estas capacidades e outras não, mas a decisão de alguns
pacientes em utilizar seu potencial, qualidades e
capacidades na existência. Antes mesmo de iniciar a
análise com este paciente, é preciso deixar claro e bem
definido quais os problemas a resolver, e estar
189
consciente que deverá ultrapassar as suas limitações na
sua forma de pensar e ser.
Estar disposto a falar a verdade e incluir na sua
vida esta pauta de querer conhecer-se para utilizar com
mais eficiência as suas potencialidades. Ser capaz de
admitir suas qualidades e capacidades existentes, e
desenvolver o desejo de ampliar e melhorar ainda mais
suas experiências positivas. Estar convicto de que o
único modo de vencer as suas neuroses é debruçando-
se sobre si mesmo, por isto é preciso este espaço de
tempo para organizar e planejar a sua existência, esta
revisão de vida é capaz de levá-lo a uma tomada de
consciência sobre as suas conquistas e suas perdas na
existência.
O psicanalista deve estar atento para as
transferências, o paciente é capaz de aceitar o amor e
afeto do analista, ou seja, consegue transcender o seu
narcisismo. Demonstra que confia e acredita neste
processo de desenvolvimento de sua competência
emocional, em que ele mesmo é o grande protagonista
que procura transformar-se para ser mais eficiente na
vida. Nas suas respostas encontra-se lógica,
entendimento e capacidade de lidar com as suas
defesas, possui a capacidade de entender e
compreender os significados latentes que obstruem as
suas potencialidades.
É importante que o paciente tome consciência de
que pode transcender os traumas vividos na sua família,
e podemos pensar como pode vários membros de uma
família possuir os mesmos traços de caráter que
190
potencializam a superação de problemas graves.
Existem diversos tipos de “potencialidades” que podem
ser desenvolvidas numa cultura familiar, como por
exemplo, a capacidade de fazer inventos, de imaginar e
prever a solução no futuro. Estas pessoas aprenderam a
não culpar-se pelos infortúnios e desastres naturais,
entendem que este fenômeno da natureza não pode ser
atribuído a uma pessoa.
Esta humanidade apreendida nas relações
afetivas de uma família ensina a comunicar-se a
qualquer preço com a verdade, de expressar suas
emoções, de ser honesto e solidário com os outros,
estar convicto de seus valores e virtudes, e saber que
sua cumplicidade pertence a toda aquela comunidade.
Esta flexibilidade na família e de aceitar o diferente
torna as pessoas mais abertas e menos rígidas para
conviver harmoniosamente. Sua humanização inclui o
aprendizado dos cuidados e preservação de tradições e
crenças funcionais, ficam fortes para superar as
adversidades da vida.
As regras rígidas dificultam a convivência numa
sociedade, e certas crenças, ritos, mitos, costumes,
acabam dificultando a solução dos problemas, porque
são antiquados e não são funcionais para resolver as
situações na atualidade. Os adultos enfrentam nos
embates com os jovens as discussões que exigem uma
mudança de postura referente aos temas já
desgastados, e não mais conseguem atender as suas
demandas. Nem o uso do autoritarismo, do castigo, das
ameaças, das punições, consegue torná-los obedientes
191
e submissos, e todos estes conflitos de gerações abrem
espaço para pensar e dialogar novas formas de
relacionamentos.
Todos sabem que os adultos devem conquistar a
obediência e admiração pelo seu testemunho de vida,
este prestígio e admiração devem estar acompanhados
de uma coerência de vida e principalmente pelas
vivências de valores e virtudes éticas. O respeito não se
consegue com a imposição e ordem arbitrária aos
jovens, este status de superioridade e poder afasta
ainda mais qualquer possibilidade de intimidade e
confiança, pois os adultos não permitem quaisquer
questionamentos e críticas ao seu modo de pensar e
viver.
Os adultos quando questionados nos seus
valores, utilizam seu arsenal de poder para coibir e
manipular qualquer crítica a sua pessoa, usam uma
máscara de confiança, quando na verdade são
extremamente inseguros e cheios de medo. Quando as
relações são superficiais e suas ações escondem-se
sobre estes estigmas, as relações tornam-se frágeis e
vulneráveis para sustentar uma relação verdadeira.
Quem possui o poder acredita que pode impor os
seus desejos, e ninguém pode expressar suas emoções
de desgosto e desprazer sobre suas decisões, porém
este tipo de vínculo distancia e gera muita mágoa e
raiva, e assim os prejuízos desta desconfiança
aumentam a solidão, o isolamento, o silêncio é o único
modo de viver nesta família. E assim estas crianças
precisam aprender a se virar sozinhas, e não possuem
192
nenhuma chance de receber cuidado e carinho, a
solução destas inibições e traumas corre por conta de
sua capacidade e boa vontade de superar todas as
adversidades.
Na vida adulta permanece fechado e isolado de
outras relações familiares, ao mesmo tempo seu
potencial afetivo e amoroso encontra-se adormecido ou
bloqueado pelo medo de expressar este tipo de
emoção. Mas toda esta situação familiar e pessoal não
impede esta pessoa de tomar a decisão e sair da
condição de infelicidade e tristeza, esta pessoa pode
desenvolver uma capacidade de inovar e criar as
condições propícias para viver intensamente a sua
humanidade.
E mesmo diante de todos os empecilhos
consegue aproveitar a experiência do passado como um
ensinamento para poder superar todas as suas
impotências, medos, inseguranças, inibições, miséria de
amor e dinheiro, e assumindo-se na existência como
cúmplice deste novo amor pretende dar-se a si mesmo.
E além de resolver seus dilemas pessoais, muitas vezes
consegue arrumar tempo para auxiliar e ajudar outras
pessoas em dificuldade a aprender a superar-se.
Este estado de alteridade e solidariedade é um
estímulo a mais para motivar os outros e para
desenvolver suas capacidades adormecidas pelo seu
estado de inconsciência. E aos poucos aprendem no
grupo a colocar em prática o seu potencial criativo,
desenvolvendo assim várias potencialidades úteis.
Aprendem a lidar com os seus limites, a conseguir o
193
afeto, arrumar tempo e investimento para cuidar de sua
pessoa, decidir o momento certo de viver diferente e se
permitir novas tentativas, até conseguir alcançar os seus
objetivos.
Toda a formação psicanalítica tradicional enfatiza
a importância do sofrimento, das doenças psíquicas, das
psicoses, esquizofrenias e psicopatias. Chegou o
momento na psicanálise humanista de rever esta
postura teórica, de refletir somente sobre a etiologia da
neurose, deixando de ver as potencialidades e
experiências de alguém que superou muitos problemas
em sua vida e de saber utilizar este método, ou
ampliando sua interpretação para superar este novo
tipo de sofrimento.
Todo psicanalista deve saber que é possível na
escuta analítica o reconhecimento das suas
potencialidades, e fomentar e desenvolver estas
capacidades que o tornaram forte e corajoso. Ao
descobrir que possui estas qualidades e capacidades
pode com certeza utilizar a favor de sua vida, desta
forma o paciente sai mais convencido que tem as
condições para fazer frente a este desafio na existência.
O psicanalista que atende problemas de violência
familiar, abusos de todos os tipos, agressões verbais e
físicas, pode em algum momento adoecer pela falta de
análise, porque como ser humano também precisa fazer
sua supervisão. Mas independente dos casos clínicos
estamos sempre aprendendo a alterar e modificar nossa
interpretação sobre um problema específico. O
profissional da saúde flexível e aberto a aprender novas
194
formas de intervenção e diagnóstico, avaliação,
prognóstico e tratamento, está indiretamente
aprendendo a superar-se de um paradigma tradicional
que não consegue ajudá-lo a ser eficiente na sua clínica.
Quando o psicanalista é humilde sabe que tem a
capacidade de obter êxito em suas tomadas de
decisões, sabe que não deve julgar, condenar, ou fazer
predições para o futuro, pois pode rotular e reduzir as
possibilidades das pessoas em resolver seus problemas,
de todo modo é bom participar ativamente de um grupo
de estudos, cursos, formações, para promover e
atualizar a sua clínica. Este esforço contínuo em ajudar
as instituições a vencer suas dificuldades, também é
uma forma de tornar-se mais humano e comprometido
com a saúde psíquica das pessoas.

195
Bibliografia.

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emocional na Infância. Santa Maria: Ed. ITPOH, 2008.
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________; Teoria e Técnica da Psicanálise
Humanista. Ed. ITPOH, Santa Maria. 2012.

197