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O Dilema do Ser

Humano na
Existência

1ª. Edição

ITPOH - Santa Maria - RS


2007
P436d Pereira, Dr. Salézio Plácido

O dilema do ser humano na existência. Salézio


Plácido Pereira. – 1ª. ed. – Santa Maria, Ed.
ITPOH, 2007. 227 p.; 23 cm.

1.Filosofia 2.Ser 3.Existência 4.Felicidade


5.Psicanálise Humanista 6. Humanismo I. Título

CDU 111.1
Ficha Catalográfica Elaborada por
Maristela Eckhardt
CRB-10/737
CDU: 111.1

Diagramação e arte da capa


Jeferson Luis Zaremski

Correção do Português
Diomar A. Konrad e Carla Froner

Impressão:
Imprensa Universitária, UFSM

Editora: ITPOH - Instituto de Psicanálise Humanista


Site: www.itpoh.com.br
Dr. Salézio Plácido Pereira
Fone: (55) 3222.3238
E-mail: saleziop@gmail.com
psicanalisehumanista@gmail.com

2
O dilema do ser humano na existência

Voltaire é um homem de um combate, de um combate


cotidiano pela felicidade. Não por uma felicidade mítica, mas
sim por uma felicidade terrestre e ao alcance de todos. Trata-se
de tirar o homem da tirania e da miséria. O homem não pode
ser feliz quando não assume todas sua potencialidade de
homem, quer dizer quando não vive a liberdade e o bem estar.
O fanatismo, a imbecilidade, a pobreza produzem a ignorância,
a escravidão, a guerra. A felicidade é fruto da inteligência e da
coragem, a felicidade é fruto da civilização, da sua nobreza, e
da grandeza do homem livre. Em relação ao futuro do amanhã
ninguém pode escapar. Cada um escolhe seu destino aqui na
terra e deve fazê-lo ele mesmo. (Jean Oricux, Navater, 2000,
Pág. 16)

3
Sumário

Prefácio................................................................................. 05
Agradecimentos................................................................... 08
Introdução............................................................................ 09

Capítulo I

1.0. O sentido do ser na existência......................................... 12

1.1. As diversas faces do ser.................................................. 51

1.2. A relação entre a psicanálise humanista de Erich


Fromm e a existência................................................... 114

Capítulo II

2.0. O existencialismo é uma expressão do humanismo...... 136


2.1. A relação entre o dilema humano e a existência........... 167
2.2. A ética da vida em defesa da humanidade no homem... 186
2.3. Uma análise do conceito do potencial humano na
psicanálise humanista. ................................................ 201

Reflexões finais................................................................. 223


Bibliografia......................................................................... 225

4
Prefácio

A existência do humano é talvez o fato mais profundo


e misterioso que vivênciamos durante na vida. O simples fato
de escrever sobre este tema implica um ato que fundamenta sua
importância e todo aquele que se anima a fazê-lo merece
destacar-se horizontes profissional e ético.
Vemos aqui então que o Dr. Salézio Plácido Pereira
comprometido com a sua obra e a sua vez oferece ao leitor um
texto muito esclarecedor e inquietante. Seu questionamento em
relação à existência do ser humano está presente em todo seu
livro através do tema central “O dilema do ser na existência”,
que relembra a pergunta inicial da Esfinge de Tebas. Uma
existência que se desenvolve em uma “Umwelt” enquanto
mundo circundante de um “Mitwelt”, mundo com o outro, de
tal modo que o semelhante é o mais importante espelho da
identidade humano. Identidade que se conjuga dentro de
valores que o autor insiste até o extremo, porque deve ser
mantido para que a vida tome sentido contínuo e transcendente.
O círculo vital em sua constante evolução implica
numa leitura dinâmica e criativa já que compreender o
fenômeno humano em sua profundidade deve
imprescindivelmente ser abordado desde diferentes
perspectivas. De cada uma delas se poderá dizer algo, não tudo,
enquanto este “algo” contenha já a totalidade. A importante
contribuição da teoria de Edgar Morin é exemplificada pelo
autor realmente através de seu conteúdo. A verdade aqui
mencionada como afirma Adler não é estática. É o paradigma
da renovação constante que dá conta de tudo, que novamente
surge como princípio ético que deve estar presente em todos os
processos da vida.
O modo como algumas pessoas robotizam suas vidas,
sobretudo em na atualidade são considerados pelo Dr. Salézio

5
Plácido Pereira como um conflito necessário que precisa ser
resolvido, descoberto, denunciado, e articulado aos efeitos de
sua compreensão e modificação. O autor insiste até o limite
possível da dor, sobre a necessidade da restauração dos valores
transcendentais reprimidos pelo despotismo, o autoritarismo,
tanto científico como político, as guerras, as injustiças, a fome,
etc. E se pergunta implicitamente se não existe outra forma de
viver neste mundo.
Poderia o azar superar o seu destino? Qual o valor dos
paradigmas criados pelo homem? Que tipo de paradigma
pertencemos hoje? Ao da indiferença como se estivéssemos
fascinados pela magia do nada, pelo vazio sem sentido, pelos
conteúdos desprovidos de conteúdo. A repetição como um
buraco negro, realiza aqui sua obscura e mortal aparição
fundada nos discursos alienantes dos que detém alguma forma
de poder. A natureza da vida tem sua própria inteligência, mas
alguns homens se dedicam a destruí-la, enquanto outros a
reconstroem e protegem com sua nobreza. O enriquecimento, a
solidariedade, a busca da verdade, o respeito pela ordem
pacífica, e que este mundo possa seguir dando volta na sua
forma original e harmoniosa, como fazem todas as galáxias
deste universo.
Tornar consciente o inconsciente é o lema mais
importante da psicanálise e que o Dr. Salézio Plácido Pereira
propõe a partir deste lugar, um olhar mais abrangente e
profundo na leitura do mundo que rodeia. Um olhar que se
direciona para os fatos sociais e seus efeitos sobre a
personalidade. Por isto eu considero que o autor produz um
benefício secundário buscando autores humanistas de
diferentes posições que contribuem através de uma leitura
intertextual, permitindo a compreensão da dimensão existêncial
necessária para a evolução da psicanálise atual. Adler, Fromm,
Heidegger, Frankl, Rollo May, Martin Buber, oportunamente
são os pilares para que o autor ofereça de forma direta, franca e

6
sincera ao leitor que se enriquecerá com o conteúdo deste livro.
Estudar o ser humano desde diferentes abordagens filosóficas e
teóricas permite que a potência do ser, como está mencionado
pelo autor em alguma parte deste livro, que “seja uma fonte
inesgotável de luz na evolução e proteção do ser” nas suas
mais diversas faces.
Não vai faltar ao leitor inteligente, que poderá realizar
um “insight” sobre o conceito de paz, baseado no amor, na
verdade, na justiça e na liberdade, que o autor propõe como um
novo paradigma da existência do homem dentro do grande
contexto da vida que o criador deu para recriar sua obra com
dignidade própria de sua imagem e semelhança.

Jorge G. Garzarelli – ph.D.


Psicanalista e Doutor em Psicologia Clínica
Pela Universidade Del Salvador da Argentina.

7
Agradecimentos

Quando pensei em escrever este livro fiquei


entusiasmado com o tema e logo que foi possível comecei a
estudar os filósofos e psicanalistas existêncialistas, e através
disto me dei conta também de como foi a minha existência.
Este agradecimento pertence verdadeiramente à natureza da
vida que tornou possível a existência do meu ser. Mas também
não podia deixar de agradecer aos meus pais pelo que
souberam me proporcionar e de presente me colocaram na
existência para que eu pudesse experimentar um pouco desta
felicidade, por isto sou muito grato a eles.
A existência é o maior presente que o ser pode
receber, porque indiretamente é ela que proporciona as
condições para que pensamos usufruir do legado das
“humanitas”. Este aprendizado de erros e acertos, de fracassos
e vitórias, de amor e ódio, ensinam que sempre temos que estar
alertas, com uma atenção redobrada sobre os fatos que
circulam em na vida, que acabam ajudando ou interferindo em
na realização nesta existência.
À minha esposa e demais amigos que compartilham
comigo esta existência cheia de conquistas de saúde e paz, me
leva a acreditar que podemos viver imensamente cada
momento sem desistir de nossos projetos. Não existe a
perfeição, porém a humanidade ensina que devemos nos
esforçar para poder transcender e ser um sinal de luz na
escuridão.
Quando estava escrevendo este livro recebi o convite
para ser membro da sociedade psicanalítica italiana, através do
meu amigo e colega Dr. Romano Biancoli, vice-presidente da
Sociedade Internacional de Psicanálise de Erich Fromm, sem
dúvida foi uma honra e ao mesmo tempo um incentivo a mais
para continuar a escrever livros que possam ajudar as pessoas a
serem mais felizes e se realizarem plenamente na existência.

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Introdução

Estudar a existência é um dos temas mais


apaixonantes e ao mesmo tempo bastante difícil, primeiro
porque são muitos e excelentes psicanalistas e filósofos que
temos que estudar para desenvolver esta temática contribuindo
para uma melhor compreensão sobre o fato de existir. A
existência nos convida a pertencer ao mundo da evolução tal
qual faz a natureza seus os caminhos por onde escoa a energia
da vida que são bastante diferentes do modo de compreensão
da racionalidade da humanidade atual.
O homem mostrou nas mais diversas civilizações que
tem o poder de desenvolver-se através da ciência e descobrir os
mistérios e as leis do funcionamento dos fenômenos cósmico e
humano ou mesmo social, e todos os seres estão convidados a
entenderem melhor o processo consciente ou inconsciente da
influência da existência sobre o ser humano. No primeiro
capítulo tentei descrever com clareza a importância da
existência na qualidade de vida das pessoas como também no
sentido da vida.
Não existe algo que seja mais importante do que a
nossa existência, porque através dela estamos imersos numa
espuma de energia onde todos estão mergulhados, alguns seres
dotados de uma consciência mais aprimorada conseguem fazer
da vida um dom especial para aprender com ela, apropriar-se
do legado cultural e ancestral para ser mais humano. Onde
existe o humano também deve estar à preservação da vida em
toda sua extensão, e o maior ser entre todos os seres dos
cosmos é o homem, este ser é especial porque tem consciência
de que pode transcender as suas pulsões biológicas e
transformá-las num legado de conquistas, onde a inteligência, a
ética, o respeito, a justiça, a liberdade, esteja acima da ambição,
da exploração e da barbárie.

9
Este é um livro para pensar a existência desde sua
constituição, desenvolvimento e infinitas possibilidades
pertencentes ao ser humano para utilizá-las a favor da grandeza
da raça humana. Uma existência cheia de sensibilidade,
prudência, esperança, sabedoria, inteligência, onde cada ser
possa num ambiente de prosperidade e amizade desenvolver
todo o seu potencial humano. Nesta interação abrem-se mil
possibilidades e uma delas é saber decidir pelo melhor
caminho, aquele caminho que dignifica e realiza em toda sua
extensão a beleza e a maravilha que brota do íntimo de cada
ser, a bondade, a solidariedade, a compreensão, a cooperação,
no sentido de entender-se em toda a grandeza das qualidades e
valores que estão presentes na humanidade.
Procurei sistematizar de forma simples e
compreensível a relação entre a existência, o ser, e a
psicanálise humanista. Sem dúvida são duas categorias que
estão bastante presentes nas discussões psicanalíticas, até
porque o “ser” dotado de consciência necessita da psicanálise
para aprofundar-se ainda mais e conhecer com mais
abrangência as instâncias psíquicas inconscientes. A
psicanálise humanista permite desenvolver uma teoria onde
possa incluir “o sentido do ser na existência”, para poder
enxergar com mais clareza os atenuantes, necessidades, ou
dificuldades que porventura surjam e dificultem a realização
humana.
A psicanálise humanista não consegue olhar o “ser”
fora do âmbito de sua “totalidade” justamente porque hoje é
quase impossível querer explicar a “existência” sobre um
paradigma de um determinismo pulsional da libido ou de uma
única teoria. O homem tem a capacidade de transcender e está
muito além do sexual, mesmo que possamos concordar com o
valor e importância, existem questões muito mais complexas e
de maior valor na existência do ser do que propriamente a
“libido sexual”, e por isto mesmo que hoje consigo entender

10
outras teses, tão importantes ou talvez mais influentes do que
afirmava Sigmund Freud a cento e cinqüenta anos atrás. Não é
uma crítica ao “Pai da Psicanálise”, mais a necessidade de
mudança se faz absolutamente necessária e urgente.

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1.0. O sentido do ser na existência

O ser humano tem uma natureza biológica ligada às


pulsões de vida e morte, mas o ser que estamos tratando é um
“ser” com consciência, esta instância psíquica propõe um
significado para poder se relacionar de diferentes formas e
interagir com outros níveis de consciência. O ser não é estático,
sua originalidade transforma-se em criatividade nos diversos
lugares que a consciência ocupa lugar. Esta imprevisibilidade
do ser aumenta ou diminui dependendo das condições da
existência. Porque é justamente a existência que dá sustentação
ao ser, possibilita um universo de vivência afetiva e emocional
para inserir os valores na humanidade deste ser.
Estas duas realidades do nascimento do ser e do
sentido de pertencer a um outro ser resgatam a dependência
inicial como um aprendizado necessário para poder
transformar-se naquilo que é mais especial e importante:
tornar-se um “ser” humano. É esta humanidade que está
entrelaçada aos mais diversos fatores sociais, históricos,
políticos, econômicos, para consolidar a formação do caráter.
Mesmo que o ser tenha um mínimo de consciência sobre as
diversas formas de intervenção que acabam interagindo, em
algum outro nível, também conhecido como inconsciente, estão
sendo registrados todos estes acontecimentos. Mas a
consciência toma o rumo daquilo que é mais prático e
necessário para a sobrevivência afetiva e emocional naquele
momento presente. A pulsão mais forte não é a sexualidade,
mas a garantia do cuidado afetivo, do amor dos adultos, esta
necessidade é a mais importante porque lhe possibilita
confirmar na sua própria história a segurança de uma
humanidade experenciada na relação com outros seres
humanos.
É esta relação dialógica e dialética que acabam
propiciando ao ser as condições básicas para o

12
desenvolvimento pleno de sua personalidade. Esta apreciação
do mundo tende a refletir-se nas sensações e sentimentos
experimentados. São na verdade estas imagens incorporadas de
um significado de ternura e cuidado que torna possível a
experiência dos valores humanos. Existem na verdade uma
infinidade de possibilidades desde diferentes perspectivas e
interpretações de tornar-se um “ser”, estamos nos referindo ao
ser que se constitui a partir de vivências carregadas de
emoções. Este aprendizado é que torna a mundaniedade
possível ao ser, esta incorporação do real viabiliza aquilo que é
mais preciso, a substância carregada de sentido na sua
existência, para elevá-lo à máxima dignidade, quando são
oferecidas as condições para que a humanidade possa se
cumprir durante sua evolução.
E neste olhar cheio de expectativas que o ser vai
moldando sua personalidade através da expressão do amor, do
afeto, do carinho, da atenção, esta confirmação sustenta a
aprendizagem durante o tempo dedicado à proteção e a ternura.
É neste processo de interação, repleto de emoções tanto de
competição, de raiva, de ódio, de ciúme, de inveja, como
também de amor, de compreensão, de amizade, de saudade, de
proteção, que se forma o conteúdo do psiquismo humano. É a
partir desta carência que se dá início ao elo de aproximação
destas consciências. E a partir do nível de consciência do
existir, que o ser pode ser cuidado, de acordo com o valor e o
investimento de tempo e de amor, sendo capaz de
comprometer-se nesta situação onde a renúncia significa um
aporte de atenção na formação de um ser.
O ser traz em si uma síntese do infinito, do eterno, do
temporal, da liberdade, da necessidade, uma vez que não é
auto-suficiente, só poderá realizar-se, se realizando com o
eterno, e, no entanto se não consegue tal relacionamento cai
no desespero. O homem no desespero tem o costume de se
considerar vítima de circunstâncias externas, mas quando

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reconhece que o problema é interior, e tenta curar a si mesmo,
a situação só tende a piorar1. Este momento transcende a
condição física, existe nesta busca um desejo de auto
superação, de sair de uma condição dependente para poder
afirmar-se numa autonomia. Todos os seres humanos e mais
propriamente o ser com “consciência” está plenamente
consciente de sua liberdade e responsabilidade, condição básica
para poder superar as suas próprias limitações. Um homem
torna-se um ser com consciência depois de percorrer um largo
caminho de aprendizagens e conquistas. É sem dúvida esta
formação psíquica daquilo que o ser mais valoriza, por isto
tento expressar que Sigmund Freud talvez tenha se equivocado
quando afirmou que a “libido” ou mais precisamente o desejo
sexual fosse realmente o grande dilema do ser na existência.
O ser não tem como prever os acontecimentos
futuros, sua única opção é buscar forças para poder dar conta
dos desafios da existência. São uma enormidade de
acontecimentos que acabam pegando de supresa qualquer “ser
em evolução” este conceito diz respeito ao processo de
desenvolvimento intelectual, afetivo, amoroso, econômico,
profissional, familiar e sexual. Dentro de todos estes confrontos
o ser tende a buscar a cada dia mais afirmação, autonomia e
poder de decisão, porém não podemos esquecer que tudo isto
faz parte da formação de uma humanidade que nem sempre é
consciente. É a partir desta inconsciência que começa a
ressurgir esta vontade de transcender as próprias limitações
humanas, mesmo sobre a proteção de pessoas queridas ou
mesmo de uma família, ou de um grande amor, ninguém está
livre de conviver com algum tipo de perda.
O cérebro está impregnado destas vivência afetivas,
da ternura, do cuidado, e começa a descobrir através de suas
experiências o significado do amor, este vínculo está muito

1
Giles, Thomas Ransom. História da Fenomenologia e do
Existencialismo. São Paulo, EPU, 1989, pág. 14.

14
além de uma simples convivência, alguns tipos de amores
tendem a se tornarem imortais. É através deste testemunho,
desta paz, desta lealdade, desta honestidade, desta bondade,
desta sinceridade que o ser começa a identificar-se com aquilo
que o ser humano tem de mais nobre e importante enquanto
valor de vida. Isto não significa que em alguns momentos
experimente no seu íntimo alguma raiva provocada por alguma
frustração, ou imensa alegria, quando consegue realizar suas
conquistas por conta própria. De todas as relações que
estabelece com o mundo das emoções humanas, existe uma
emoção que aparece como em primeiro plano: a confirmação
de que é amado. Por isto esta incorporação é muito mais
importante para um ser do que propriamente a descoberta do
sexo. É muito mais complexo para uma criança em
desenvolvimento fazer esta confirmação do valor do afeto.
Todo ser vem ao mundo despreparado e dependente,
por isto mesmo o valor maior não está na amamentação, na
higiene, na alimentação ou cuidados com a sua sobrevivência,
mas na certeza de que existe um amor capaz de proteger e
cuidar para que este ser possa desabrochar todo o seu potencial.
Os adultos conscientes de sua missão assumem este legado
para poder dar continuidade ao processo evolutivo da raça
humana. São inúmeras as adversidades que alguém tem que
enfrentar durante sua existência. Talvez o fato mais importante
independente da condição social é o ser ter consciência de que
pessoas muito próximas a si acreditam nele, estes fatos
pronunciados pelos adultos são incorporados ao ser como uma
verdade sentida em cada célula de seu corpo. Todo ser passa a
descobrir um universo de imagens humanas que podem
despertar amor ou ódio, desejo ou aversão, alegria ou
sofrimento.
Poderíamos perguntar: De todos os fatores biológicos
ou existênciais o que realmente é mais importante para a
felicidade humana? E assim passamos à vida em busca desta

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realização amorosa e existêncial, incluindo aí a utilização da
inteligência como condição de proteger a vida. Existem na
realidade algumas formas de pensar que acabam sendo
interpretadas e depois assumidas pelos conceitos que se
tornaram crenças com respeito a alguma experiência. Muitos
acabam generalizando uma experiência e fazendo dela uma
verdade. O particular se expressa na emoção transformando-se
numa generalização ridícula e sem sentido. Mas quando se
torna uma crença acaba pagando o preço de suas próprias
decisões. No meio cultural e social não existe uma única
alternativa para decidir são várias as opções que a existência
oferece. E sempre em qualquer escolha a consciência entra em
ação, como também todo um legado ético e de valores. São na
verdade estas descobertas que vão confirmando na sua
existência escolhas que promovem ou que destroem o ser.
Não existe o certo e o errado para aquele que se
encontra num estado de inconsciência, para aquele que se
encontra num estado mais primitivo e arcaico, seus atos não
penam sobre a sua consciência. Então o modo como o ser
humano apreende o real acaba interferindo na sua realidade
psíquica, e depois a própria pessoa através de sua consciência
acaba se reconhecendo como um ser que tem uma
individualidade, uma autonomia, uma liberdade, uma
responsabilidade, uma afetividade, um compromisso, etc. Para
se tornar humano o ser precisa de gestos de humanidade, são
estas atitudes que podem ensinar que vale a pena ensinar, amar
e desejar. Existe uma dependência para o ser aprender a ser,
talvez porque o “ser” seja o único animal humano capaz de ter
consciência da solidão, do recolhimento, da meditação, da
reflexão, da compaixão, do perdão, da fúria ou da agressão, etc.
Esta mesma consciência pode ser o acionador da
culpa. Culpa é quando o ser realiza algum comportamento que
é contraditório e indiretamente foge da responsabilidade da
vida, principalmente quando nega as emoções básicas,

16
reprimindo-as, recalcando-as, e com isto não permite que o ser
floresça e mostre toda a sua beleza natural. Não existe outro
caminho do que a experiência direta, vivida 2. A finalidade de
Gabriel Marcel, não é descrever a existência humana, mas
captar e revelar o ser enquanto ser, que conjuntamente com
Nietzsche, defende a idéia de que “no ato de vir-a-ser” tudo é
superficial, ilusório, sem dimensão: o enigma que o homem
precisa resolver só pode ser solucionado pela vivência
verdadeiramente autêntica, imperecível. O homem só agora
começa a padronizar e aprofundar a sua fusão do vir-a-ser.
Paul Tillich, teólogo e existêncialista cristão, defende a idéia
de que “se você não tem “coragem de ser”, perde seu próprio
ser”; Sartre; “você é o resultado de suas próprias decisões” 3.
A existência é um caminho sem volta, sua expressão é
utilizar o máximo de inteligência, de criatividade, de
imaginação, com isto consegue mesmo diante dos problemas e
desafios, encontrar uma solução para alguns enigmas que se
apresentam desde diferentes lugares. Quando o homem é uma
criança não tem idéia clara e objetiva do que ele na verdade vai
ser, este ato de vir-a-ser tem a ver com a infinita possibilidade
de ser; ser um pai de família, ser um médico, ser um agricultor,
ser um cientista, ser um professor, são muitos os caminhos que
aparecem aos olhos do ser. Mas ao mesmo tempo a existência
exige uma decisão diante daquilo que é oferecido, enquanto o
ser humano não decide; sua vida fica paralisada, enrolada,
confusa, justamente porque ainda não tem certeza do que
necessita para si, esta falta de consciência clara e objetiva do
seu papel na existência, é absorvida pela angustia que muitas
vezes pode levá-lo ao desespero.

2
Verneaux, Roger. Lecciones sobre existêncialismo. Buenos Aires, Ed.
Club de Lectores, 1952, pág. 201.
3
May, Rollo. A descoberta do Ser. Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1988, pág.
89.

17
A indecisão é o caminho mais fácil para o desperdício
de energia psíquica, quando um ser não consegue orientar-se
com segurança, sobrevém quase sempre à ansiedade,
insegurança e desespero. O ser pode entrar numa confusão,
sem possuir as qualidades de sair deste conflito. Quando o ser
não consegue ser útil e colocar em prática suas capacidades
intelectivas e volitivas vivencia uma espécie de frustração, esta
sensação de inutilidade produz um sentimento de “menos
valia”, ou seja, uma auto-estima muito desfavorável em relação
a si mesmo. E quando o ser encontra-se neste dilema
existêncial sua decisão consciente ou inconsciente é sempre
livrar-se de si mesmo. O único modo do ser começar um
caminho de auto superação é reconhecer este estado emocional
de desespero, de angustia, de ansiedade, pois, ao encontrar-se
com esta realidade psíquica inicia-se um processo de tomada
de consciência dos motivos pelos quais o seu ser esta envolvido
em determinadas tramas de perda existêncial.
Só o fato de tomar esta consciência e entender que já
se encontra em um nível superior, daqueles que nem sequer
tem idéia de seu processo de alienação, por isto mesmo
encontram-se cada vez mais confusos e infelizes. Aqui
confrontamos com um ponto básico na maneira de enfrentar os
desafios da existência, pois, existem aqueles que estão
dispostos a lutar por uma vida mais digna e feliz e os outros
que decidiram não querer bem o seu próprio ser, por isto
inconscientemente decidiram pelo processo de auto destruição
pessoal e familiar. E nas palavras de Kierkegaard este tipo de
ser humano que não quer a si-próprio e de querer a si-próprio
é chamado de fraqueza ou do maior desafio já encontrado pelo
ser humano 4.
A formação desse “eu” transcende qualquer tipo de
desejo. Pois, acontecem eventos que mudam a trajetória de um
caminho que estava sendo percorrido. O que remete a pensar é
4
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 15

18
sobre a ingenuidade ou estado de inocência deste ser em
gestação. Mas o valor maior que oferece as bases de segurança
emocional a um ser é a credibilidade e a confiança das pessoas
mais próximas na sua convivência. Ao mesmo tempo existe um
desejo de alcançar metas e objetivos na sua vida, mas este
investimento exige coragem, ousadia, determinação, e muita
paixão para poder lançarem-se integralmente na busca de uma
realização pessoal, financeira, científica ou familiar. Este
empreendimento necessita de uma disciplina, de simplicidade,
de perseverança, de dinamismo para poder voltar a acreditar
em si mesmo. Esta consistência do “eu” se da a partir dos
enfrentamentos que necessariamente vai ter que dar conta, por
isto mesmo, estes desafios possuem a qualidade de fortalecer e
tornar o caráter do ser uma rocha sustentada em base a verdade,
ou mais precisamente na autenticidade de uma vida.
Seria quase impossível desvendar o enigma do futuro,
porque não existe um amanhã pronto e acabado. Mesmo que
um clarividente possa descrever com detalhes o que vai
acontecer daqui a vinte anos, ainda assim, este ser precisaria
contar com a essência de seus valores pessoais, isto demonstra
que o futuro está acontecendo neste preciso momento, porque o
passado se transfigura naquilo que já foi e não é mais, e o
presente é uma condenação destas duas categorias. O espaço se
constitui a partir daquilo que o ser tem a oferecer, é uma
atitude inteligente quando alguém consegue transferir para o
real a imaginação ou sonho produzido na mente. Este espaço é
a qualidade da essência expressa numa virtualidade material,
esta práxis é a valorização social enquanto capacidade de
transformar o real a partir das condições aprendidas de sua
realidade. Esta demonstração é carregada de crenças, de
verdades, apreendidas no decorrer da existência, por isto torna-
se inevitável o preparo para poder aceitar as limitações
impostas pela na natureza.

19
O homem em si traz consigo o gérmen da criação, e o
ser se torna mais consistente na sua envergadura de existir
quando é capaz de suportar as adversidades e frustrações da
existência. Esta grandeza é uma vivência do poder limitante de
lidar com as perdas e fracassos e que diante destas realidades
somos envolvidos pela emoção. A grandeza de um ser é poder
gerar-se com força e determinação na existência, os fracos
sucumbem e desistem de enfrentar os desafios, muitos
escolhem os psicotrópicos, vícios, doenças, como uma maneira
muito sutil de fugir dos compromissos da existência. Qualquer
tipo de adição ou doença acaba simplesmente paralisando e
neutralizando a presença da coragem, por isto, o medo é a raiz
de todos os males, principalmente os medos fictícios, e
ilusórios. Por isto o ser é livre para escolher mais não pode
prescindir da ajuda e do cuidado afetivo.
Esta dependência afetiva é o elo de união que
confirma a força dos valores humanitários, sem esta carência
seriamos como seres esquizóides, frios, distantes, racionais,
produtivos, ligados somente a um aspecto da vida, por
exemplo, trabalhar. Porém se faz necessário pensar no ser que
tem medo do amor e foge do contato afetivo, estas emoções
acabam formando uma opinião sobre as relações, e se o
conceito é convalidado em base a esta opinião, este ser tende a
oprimir no íntimo do espírito humano, suas emoções. É neste
momento que a psicanálise surge como uma ciência capaz de
desvendar este segredo, ajudando o ser a encontrar-se com sua
humanidade.
São muitos os fatores que podem desencadear este
processo de desânimo, apatia, tristeza, que acabam tomando
conta do ser humano, ou seja, este estado emocional tem
relação direta com os sonhos e desejos que foram frustrados.
Talvez em algum momento da vida nem todo ser é tão forte e
saudável que não precise reavaliar e refletir sobre o resultado
de suas próprias decisões. Muitas crenças estão alicerçadas nas

20
emoções de raiva, ódio, mágoa, ressentimento, muitos utilizam
estas mesmas emoções para poder provar a um “outro” o valor
do seu amor.
Este estado de inconsciência pode levar o “ser” a um
estado de solidão e erros sucessivos na existência. Quanto
menor auto-estima maior é o valor da carência, por isto mesmo
tende a doar-se e em alguns casos entregar a própria alma, para
conviver e receber umas migalhas de afeto. É isto que acontece
quando o “ser” em desespero, acaba se despersonalizando para
ser ele mesmo. Este desejo que o “ser” tem de tornar-se
autêntico e verdadeiro, necessita de uma autoconsciência. Se na
verdade o ser quer tornar-se algo, ou busca preencher o seu
interior com alguma expressão afetiva, é porque o ser ainda
não é. Mas quando o “ser” inicia este processo de descoberta
pessoal o desespero diminui ou acaba desaparecendo
completamente. Sem dúvida o “ser” busca libertar-se do seu
próprio “eu” que é para se tornar um “eu” de sua própria
invenção 5.
A consistência do ser na existência depende do tipo
de adversidades ou dificuldades encontradas durante o seu
percurso, os adversários, os inimigos, os invejosos, servem de
estímulo para lidarmos com nossas fraquezas, porque é diante
destes dilemas que o ser cria coragem para fazer deste
confronto uma oportunidade para provar para si mesmo e
indiretamente aos seus oponentes a força e o poder de decisão.
Cada dificuldade que se apresenta é um ganho a mais na
existência, este cabedal de experiência possibilita uma
provocação retirando-lhe do conformismo e do papel de
vitimização. Todo ser tende a ampliar seu estado de
consciência procurando sempre superar-se diante destes
obstáculos tornando-se mais humano e mais sábio.
Agora é preciso ter a prudência e inteligência para
utilizar toda sua energia vital contra aqueles que estão
5
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág.15.

21
providenciando a sua ruína. É inegável o valor da consciência
como condição para enxergar as armadilhas, os boicotes, as
chantagens, as mentiras, este é o primeiro domínio que o “ser”
tem de ter sobre si mesmo, conhecer em profundidade os seus
próprios pontos fracos e não deixar-se levar pelos infortúnios
da vida. O ser consciente de sua tarefa na existência deve estar
preparado para o bom combate, talvez em algum momento
necessite ser mais flexível e menos rígido, em outro mais
decidido e menos inseguro, é preciso desta sensibilidade para
poder enxergar além das aparências. No momento do bom
combate, não existe o medo, mas sim a segurança para poder
dar uma resposta à altura aos seus adversários.
Na concepção do psicanalista Rollo May, que talvez
ao lado de Erich Fromm tenha sido um dos maiores
psicanalistas humanistas do século passado, o conceito do ser
na existência: “a consciência disso e a ação nessa consciência
são o gênio do homem como sujeito. (...) O existir corajoso
nesse dilema, dá crédito, é a fonte da criatividade humana 6”.
O ser na existência necessita da ação, mas não de qualquer
ação, de uma ação com um sentido, desde o momento que o ser
humano começa a tomar consciência, sua percepção ainda não
é clara o suficiente para poder apreender com segurança quais
os valores e atitudes que promovem a vida. Na medida em que
amplia seu raio de compreensão do real cabedal cultural e
emocional começa a dar a tonalidade de sua personalidade.


Rollo May nasceu na cidade de Ada, Ohio, em 21 de Abril de 1909.
Bacharel em Língua Inglesa no Oberlin College no ano de 1930. Foi um
dos discípulos de Adler em Viena, realizando sua formação psicanalítica.
Em 1949 obteve o seu Doutorado em Psicologia Clínica. Desde então
trabalhou nas melhores instituições de ensino dos Estados Unidos, como na
Universidade de Havard, Yale e Princepton. Faleceu aos noventa anos
deixando uma enormidade de publicações na área psicanalítica existêncial
humanista.
6
May, Rollo. A psicologia e o dilema humano. Rio de Janeiro, Ed. Vozes,
Petrópolis, 2000, pág. 43.

22
Esta práxis de vida é uma necessidade para poder dar conta de
sua própria sobrevivência, muitas vezes o ambiente familiar, e
social influenciam a direção do investimento da energia deste
ser.
E como falar da genialidade de um ser, como tinha
dito anteriormente esta consciência está num processo de
evolução e metamorforse, mas sem dúvida existem muitas
variáveis que podem direta ou indiretamente influenciar nos
rumos da existência de um sujeito. A consistência da essência
do ser necessita desta vivência, esta práxis, é o sustentáculo do
seu poder de decisão. Um dos fatores que podem influenciar e
muito é o tipo de expectativa dos pais, familiares e amigos
sobre a própria pessoa. Esta gestação do ser em consciência
passa por vários estágios, onde inclui os desafios, os sucessos,
os fracassos, os ganhos, as perdas, etc. Não temos como fazer
uma previsibilidade do que poderá acontecer a um “ser”,
porém, ao certo é que muitos acontecimentos paradoxais
acabam testando a capacidade de reação e determinação deste
ser.
Na constituição da essência do ser existe algo muito
singular e importante que é o desenvolvimento da criatividade.
Pois justamente a criatividade é um aprendizado para superar
dificuldades e desafios existênciais oriundos do tipo de
objetivo que deseje alcançar. É esta capacidade de suportar as
rejeições, humilhações, fome, miséria, perseguições,
incompreensão, que possibilita ao ser conseguir fazer esta
passagem, ter um caráter determinado e cheio de força para
cada momento que passa, fortalecer-se ainda mais, esta
autodeterminação recria dentro de si uma confiança, uma
esperteza, uma visão que é própria daqueles destemidos e
corajosos. Trilhar um caminho na existência precisa desta
decisão, de uma iniciativa que leve consigo uma paixão, uma
certeza. Digo isto porque aquelas pessoas que descobriram
muito cedo a sua vocação podem aproveitar com mais

23
sabedoria e prudência o tempo aplicado no alcance de seus
objetivos.
Cada dificuldade, cada problema, cada desafio, coloca
o ser em permanente contato com o seu legado cultural de
valores e de sua inteligência. Um ser quando pensa o real
consegue somente no início de sua jornada saborear a vitória
através dos sonhos ou fantasias, mais isto não significa uma
derrota ou uma fuga do real, ao contrário permanece no íntimo
do ser como uma semente que pretende germinar. O terreno
fértil vai depender e muito da disciplina, da determinação, do
amor a uma profissão, da motivação das pessoas que lhe são
muito especiais.
Em tudo e inclusive na felicidade a perseverança e o
amor naquilo que realizam é uma fonte inesgotável de força
para caminhar em direção da realização de seus sonhos. Uma
existência necessita deste estímulo que podemos chamar de
“um desejo não realizado” esta latência permanece oculta mais
é fonte inesgotável de luz para seu caminho. Talvez a ponte
que faça a ligação do ser à existência seja o amor, o afeto, o
carinho, das pessoas que ama, fonte estimuladora de
investimento de energia para mostrar o quanto de capacidade e
inteligência existe no interior de seu ser.
Um fato inusitado que qualquer ser humano vai se
defrontar na existência é a questão de saber se relacionar com
os outros seres. Ao tomar consciência da importância e
relevância deste ato o ser aprende a escutar e valorizar o
conteúdo de existência do outro, podemos inclusive notar o
valor e a importância de um grupo, uma instituição, dos
professores e amigos, na existência de um ser. Porém um ser
só será capaz de expressar-se nas relações interpessoais a partir
das suas condições intrapessoais e transpessoais que conseguiu
absorver principalmente na relação com os seus pais e
familiares. A família ainda é o centro de identidade de um ser.
Dependendo da capacidade de se comunicar através de seus

24
valores muitas portas poderão ser abertas durante o caminho,
mesmo porque enquanto uma consciência está atenta e observa
a incongruência de uma outra consciência, o sentido inverso
também faz sentido.
Talvez um dos valores mais requisitados pela
existência do ser seja o grau de honestidade e sinceridade que
possibilita ampliar nas relações uma maior confiança e
profundidade nas amizades. Cada ser desenvolve dentro de si
potenciais que podem ser de extrema importância aos outros, e
muitos podem valer-se desta potencialidade para poder ajudá-
lo a sobreviver. A existência então possui a condição de
potencializar a estética do ser, além de reativar inteligências
que num primeiro instante estavam paralisadas, esta
provocação coloca em cheque a capacidade que este ser tem
em solucionar problemas, sejam eles afetivos, emocionais,
econômicos, profissionais ou familiares.
O que na verdade um ser quer para si, através de sua
dedicação a uma causa, a insistência em desvendar um segredo,
a perseverança em dar continuidade a um objetivo, demonstra
um ser seguro de sua busca. Mas muito da existência tem a ver
com a sinceridade de alguém comprometido consigo mesmo,
tem a simplicidade de reconhecer os seus pontos cegos, tem a
grandeza de perceber na sua trajetória onde tem de melhorar.
A maior qualidade de um ser, talvez seja a capacidade
de suportar frustrações, porque mesmo diante das investidas,
nem sempre alguém consegue alcançar seu objetivo. Quando
se fracassa ou se perde é preciso refletir sobre os motivos, ou
dificuldades que impediram de alcançar aquela meta. Esta
grandeza de aprender com os erros e fracassos fazem parte
daqueles que não desistem assim tão facilmente. E neste
momento podemos perceber a importância das pessoas amigas
e próximas a nós, porque as palavras de estímulo, de
compreensão, de crédito, estimulam o ser a continuar em busca
de seu objetivo. A genialidade do ser não surge do acaso, mas é

25
fruto de muita persistência, estudo, seriedade, sinceridade, etc.
Valores estes indispensáveis a qualquer ser, porque consegue
fazer deles uma energia capaz de resolver os problemas
insolúveis da humanidade. Para todo aquele que entende a
existência consegue fazer dela um espaço para reencontrar-se
consigo mesmo.
Um ser necessita além de inteligência e determinação,
sensibilidade, humildade e um domínio bastante amplo de sua
angustia e ansiedade. Muitos por um tempo bastante curto, mas
que parece uma eternidade, tem de submeter-se a algumas
atividades que não são do seu agrado. Interessante que este
processo de conquista na existência exige por parte do ser
alguma forma de sacrifício. Porém fica entendido que aquela
atividade que exerce é mais um passo rumo ao seu objetivo. A
existência não é uma estrada reta, existem muitas curvas,
subidas, descidas, e impedimentos, que necessariamente
precisa dar a volta.
A paciência, e a tolerância possibilitam ao ser a
realização do seu projeto de vida que está em andamento
mesmo que necessite fazer um percurso mais longo, porém
reconhece que a vitória cedo ou tarde tende a aparecer. Agora
se pensarmos sobre o sentido deste ser na existência, podemos
perguntar sobre as motivações inconscientes que fazem com
que utilize todo o seu potencial em favor de si mesmo,
tornando-o um ser que vive na existência com alegria e
satisfação. E perguntamos: Existe espaço em nossa sociedade
para este ser que procura este reconhecimento?
A grandeza do ser aparece na espontaneidade de
colocar o seu potencial em favor da humanidade, esta diferença
é fundamental, porque é sempre um ser que realça a novidade,
realiza descobertas, sua força vital eleva-o em dignidade, este
resultado positivo da existência desperta no olhar alheio uma
curiosidade sobre a magnificência deste ser. Quanto aos fatos
colhidos na existência acaba comprovando a qualidade do ser.

26
O respeito, a admiração, o reconhecimento, a valorização,
nasce dos frutos que alguém acaba colhendo na existência. As
portas começam a se abrir, é algo natural e inevitável para o ser
que faz a diferença, porque consegue acrescentar, inovar,
modificar, ou mesmo colocar em xeque algum determinado
conhecimento. Este entusiasmo é contagiante, está impregnado
de uma busca, existe nele uma paixão, para descobrir no íntimo
dos fenômenos da natureza as leis de seu funcionamento.
Esta genialidade precisa confirmar-se nesta confiança
porque sempre vão ter aqueles que compreenderão a iniciativa
de tal empreendimento como aqueles que morrerão de inveja e
ciúme. Não vou me ater à perversidade do ser, prefiro falar
daqueles seres que fazem à diferença na existência. São destes
seres especiais que a humanidade necessita para poder resolver
seus problemas. A existência apresenta muitas portas e todas
elas sempre exigem de algum modo um aperfeiçoamento, uma
aprendizagem para poder dar conta daqueles desafios.
E assim o ser interage com estas aberturas podendo
entrar e sair, observar, pensar, decidir, para poder atender aos
desejos pulsionais do ser. Existem necessidades básicas a
serem atendidas, como por exemplo, a fome, sede, sexo, amor,
afeto. Na maioria das vezes as necessidades de moradia,
profissão, família e amor se alcançam na metade da vida.
Atendidos estes pedidos surge no íntimo do ser outras
realizações como a cultura, inteligência, pesquisa, lazer, e
novas aprendizagens que possam dar maior consistência e valor
ao ser.
Entre todos estes desejos, existe um em particular que
é de extrema importância, estamos falando de como se da o
aprendizado do amor. Talvez porque ninguém vive para si
mesmo, e ao mesmo tempo ninguém é auto suficiente para
dizer que não precisa de alguém, temos consciência de nossas
limitações. O amor é uma expressão da procura do
conhecimento recíproco, do respeito, da ética, do cuidado, de

27
ambos compartilharem momentos bons e difíceis, esta
iniciativa atende a importância do outro sexo na sua vida.
Quando a relação é feliz, alegre e realizadora, ambos os seres
desfrutam deste momento mágico da convivência. Mas se isto
não acontece muitos começam a desacreditar e criticar a
relação. Mas gostaria de acentuar que muitos homens na
história demonstraram o valor de uma relação matrimonial. É
claro que quando se inicia uma relação a dois, abre a
possibilidade de ambos se conhecerem em profundidade, nada
é mais significativo e importante do que uma grande vivência
no amor. Aquelas relações que geralmente dão certo incluem a
valorização, o diálogo, o silêncio, a aceitação, a satisfação, o
compromisso, o respeito, a cooperação, a colaboração, etc. E
isto é uma possibilidade real, ninguém pode afirmar que não
existam seres capazes de tal convivência, ou seja, estas atitudes
humanas realçam e mostram o real sentido da humanidade do
ser.
As vitórias, as conquistas, a superação das
dificuldades em conjunto, demonstram do quanto de belo e
maravilhoso existe na relação humana. Quando a relação é feita
de interesses e manipulações todos nós já sabemos o trágico
resultado. O amor é feito de admiração, de confiança, de
reciprocidade, de bondade, de perdão, de compaixão, de
tolerância. Desta forma, o ser torna-se uma fortificação na
existência, até porque quando se encontra cansado da
existência recorre ao porto seguro e lá abastece seu ser com
afeto e amor. Esta relação “EU”, “TU” exige uma maturidade
para o diálogo, a compreensão e a liberdade, onde ambos estão
em uma sintonia de plena comunhão na realização de seus
objetivos na existência.
Qual o sentido de um ser realizar um projeto sozinho,
sem a participação de ninguém. Qual o ganho existêncial de tal
empreendimento? A vida se torna mais fácil quando temos
alguém para dividir, a marca do ser se enaltece na expressão de

28
sua alegria e satisfação, o amor consegue proporcionar uma
paz, uma motivação, sabemos das dificuldades, mas a
existência é isto mesmo, aprender a superar-se. Não existe
melhor termômetro para conhecer-nos que a presença de um
outro em nossa vida, principalmente daquele que temos
intimidade, confiança e convivência diária.
Cada ser se fortifica na sua essência não pela beleza
externa ou estética, mas pelo modo de como conduz sua vida
na convivência com aqueles que nos momentos mais difícieis
necessitavam dele. No íntimo do ser existe uma essência capaz
de agir inconscientemente a favor da proteção da vida, cada um
escolhe por intuição ou intenção o caminho que deseja seguir,
porém ninguém pode questionar o resultado alcançado, ou seja,
este investimento psíquico esta revestido de uma crença, de um
desejo, que é capaz de recolher da existência os frutos de suas
decisões. A essência do seu ser está constituída de vitórias,
conquistas, alegrias, satisfações vivenciadas no decorrer de
suas batalhas, esta constituição psíquica consegue enxergar
mais longe canalizando toda sua energia para alcançar os seus
objetivos.
Todo ser busca uma “auto-afirmação” esta
característica é essencial para sustentar uma imagem autêntica
fortalecendo o centro de sua identidade como pessoa7. É desta
coragem, personificada numa sinceridade imbuída de todas as
pequenas vitórias que está sendo capaz de alcançar no decorrer
de seu investimento, de tempo e inteligência ou mesmo
econômico. A decisão não pode estar desligada dos valores,
são os pilares que sustentam o ser durante a sua caminhada, os
motivos são inúmeros, mas esta quantidade de energia
empregada na existência consegue somar, aglutinar forças,
buscar soluções, enfim colabora de alguma forma para uma
melhoria de qualidade de vida não somente sua, mas talvez da
humanidade. Cada ser pode usar sua inteligência para buscar
7
Verneaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 29

29
sua auto-afirmação, mas também colaborar na solução dos
problemas de sua comunidade, este talvez seja o papel mais
importante de qualquer pessoa, que seja útil para si, mas
também consiga ajudar o próprio homem a encontrar soluções
mais eficientes para poder preservar a vida.
O ser não é um problema, ele é um mistério; que é
algo bem diferente.8 Os problemas são as pedras, o rio, o
desfiladeiro, que se apresentam no caminho, sendo assim se faz
necessário descobrir novos métodos para poder superar estas
dificuldades, estes problemas acabam fazendo um teste para
saber como lidar com as emoções como o medo, ansiedade, a
angustia, o desespero, sua natureza é levar o ser a um processo
de mais profundidade e autenticidade. O ser não consegue fazer
sua escolha porque está coagido por medo, delega a um “outro”
uma função que é sua.
Gostaria de citar o conceito de mistério de Gabriel
Marcel: “O mistério é de outra ordem, pertence a uma esfera
transcendente, que podemos, no entanto chamá-la meta-
problemática ou meta-técnica. É um problema que se apóia em
seus próprios dados, ou melhor, que se apóia sobre suas
próprias condições imanentes de possibilidades9. Todo e
qualquer problema que se coloca diante do ser torna-se uma
provocação que exige uma reflexão em ação, é sobre estes
dados colhidos dos fenômenos da natureza, que inicia-se uma
curiosidade para desvendar algum tipo de mistério a ser
descoberto, por exemplo, uma bactéria, ou vírus, o homem não
consegue enxergar a olho nu, porém isto não invalida a sua
presença e poder de devastação e morte.
Existe uma enormidade de mistérios que a ciência
atual diz ter encontrado uma solução, mas esta verdade é
sempre pejorativa, porque a natureza do vírus toma proporções
de transformação de morte, mesmo com a utilização de

8
Verneaux, Roger. Op. Cit. 1952, pág. 204.
9
Ibidem, pág. 204.

30
técnicas e métodos avançados com a ajuda da tecnologia, o
problema da morte é insolúvel. No íntimo dos fenômenos da
natureza o cientista consegue conhecer uma pequena parte de
sua infinitude e quanto mais se aprofunda na descoberta deste
mistério da vida mais dúvidas ou complexas hipóteses acabam
tomando conta do raciocínio do cientista. O mistério é sempre
maior em complexidade que o problema, mesmo porque o
problema é apenas uma pequena questão da totalidade do
mistério. Quando o ser consegue através da sua inteligência
descobrir algum método para combater um problema
apresentado na existência, sua lógica não é simplesmente atacar
e procurar uma solução final para o problema, mas
compreendê-lo na sua expressão, além de decifrar a sua
mensagem não em relação ao fato em si, mas ligado ao
contexto de seu ecossistema.
Porque esta é a lógica da natureza onde toda e
qualquer manifestação está relacionada com a manutenção da
vida, este é o seu segredo, sua verdade é indecifrável. Sua
cognição faz parte de uma outra realidade ainda desconhecida
pela humanidade, este é o grande dilema, quanto mais distante
o homem estiver da inteligência da natureza mais atrocidades e
barbáries estarão acontecendo na humanidade. Cada descoberta
científica aumenta apenas a complexidade dos fenômenos da
natureza, é claro que existe uma insistência competitiva do
homem com aquele ser que o gerou, no seu íntimo, esta
rivalidade é fruto da ignorância do ser, de tomar consciência de
que ele é a própria natureza. Em tudo, é encantador saber do
processo infinito dos fenômenos complexos e indissolúveis
colocados pela natureza diante do homem, muitas perguntas
sem respostas, este é um processo contínuo de buscar
incessantemente métodos para a solução de problemas.
O ser pertence à natureza do afeto como expressão
dos vínculos que estabelece com as pessoas do seu convívio
social ou familiar. Como interpretar o significado de um modo

31
de expressar afeto, como entender a manifestação da saudade,
este mistério está além de uma compreensão objetiva. Quando
se fala de uma emoção, indiretamente se descreve uma
vivência de alguma época de sua vida. É difícil de entender que
a segurança afetiva não termina quando alguém consegue uma
estabilidade financeira ou profissional, o estatuto do “ser” é
diferente do “ter”. Esta é uma constatação de pessoas sensíveis
que saíram da segurança afetiva de um lar e que depois
começam a sentir-se com insônia, tristeza, abandono ou
depressão.
Logo depois perde a motivação de realizar as tarefas,
esta sensação de mal estar é a saudade que se expressa no “ser”
chegando ao limite da exaustão quando se inicia um
desfalecimento, um esgotamento, quando repleto desta energia
chamada afeto, amor, saudade. Muitos homens não querem
passar uma imagem de fraqueza, por isto sofrem na solidão,
não procuram tratamento, recalcam estas emoções tão plenas
de humanidade.
Toda e qualquer expressão da necessidade de afeto e
amor mostra o valor destas pessoas na vida deste ser. Este
amor, este afeto é muito mais precioso do que qualquer outro
projeto. Este mistério das carências do organismo demonstra a
necessidade deste remédio que revigora e amplia o sentido na
existência. Aquelas pessoas que amamos têm um alto preço e
seu valor é inigualável, porque nesta relação temos certeza da
sinceridade, da honestidade, do cuidado, valores vivenciados.
A presença do outro é o medicamento que combate
qualquer tipo de solidão ou tristeza. Seja num ambiente de
trabalho, na escola ou na família. Porque está repleto de
confiança, liberdade, afetividade, compreensão, sinceridade,
fazendo com que o “ser pessoa” se sinta em casa. Neste
ambiente é permitido ser ele mesmo, viver sua autenciticidade,
sentir-se amado, valorizado e reconhecido. Mesmo que
vivencie uma pobreza material, não possua todas as novidades

32
tecnológicas, ainda assim consegue experimentar no fundo de
seu espírito uma alegria, uma satisfação de estar ali com as
pessoas que ama.
Muitas vezes o “ser” fracassa na existência, para
poder se recompor é necessário um período de meditação, de
reflexão, de análise, e bastante diálogo com alguém de
confiança para poder avaliar com precisão os motivos de um
sofrimento. É neste momento que o humano transcende e enche
de satisfação e entusiasmo aquele que estava desfalecido, este
mistério da transmutação de seres em comunhão carrega
vitalidade e como num toque de mágica coloca o outro ser no
lugar que sempre deveria estar ao lado da alegria e da
satisfação. E principalmente quando são capazes de aceitá-lo na
sua totalidade mesmo diante dos seus fracassos. Talvez neste
momento a pessoa possa se permitir fazer novas experiências,
buscar o encontro de outras pessoas e realizar novas amizades.
A sociedade exige ética e respeito à dignidade do homem, este
limite se faz necessário ao ser porque alguns extrapolam e
utilizam o não-ser para projetar e prejudicar a confiança no ser.
A auto-imagem de alguém pode ser descrito numa
circunscrição de suas realizações, mas também de nossos
valores, todos buscam o reconhecimento do ser,
inconscientemente querem ser aceitos socialmente, por isto o
esforço, dedicação, empenho, para poder preencher os
requisitos de uma pessoa bem sucedida. Na verdade que tipos
de imagens carregamos no íntimo em relação às pessoas ou
ambientes que foram ingratos, maldosos, ou de expressão, de
valor, de admiração, de valorização. Sem termos a devida
consciência estes ambientes estão impregnados de emoções,
são a essência da vivência, seu conteúdo nos faz pensar e
repudiar ou ao contrário, nos alegra e com isto, nos
aproximamos. No final de tudo todos buscam um porto seguro,
querem estar com alguém que possam confiar integralmente a
sua vida. Um ser desta espécie pertence aos seres de valor. Sua

33
contribuição à realização do “outro” é sempre o seu objetivo.
Mesmo nestes tempos difíceis o “ser” sabe que seus medos têm
o poder de vendar-lhes os olhos, esta cegueira temporária
poderá torná-lo ainda melhor ou jogá-lo na obscuridade, na
perdição, no vício, na adição, todo este sofrimento são
tentativas de erros e acertos para poder voltar ao seu porto
seguro, lá onde possa confiar e ser ele mesmo.
Sem dúvida, o ser precisa ir além deste momento de
reflexão, meditação, necessita de um tempo de crescimento
espiritual em todos os sentidos da sua existência. Muitas
feridas para serem curadas verdadeiramente precisam retomar
sua força original, sua coragem, sua vitalidade, somente assim
poderá enfrentar os problemas oriundos da existência. O tempo
favorece a maturidade, a compreensão, porque é através da
alteridade que o ser se torna especial para o “outro”. Este
significado da essência traduz-se numa elaboração de uma
imagem altamente significativa e importante para ambos.
Não existe como fugir dos compromissos da
evolução, do ser, alguns se permitem um tempo de
confrontação, esclarecimento, interpretação sobre os eventos,
mas sabem que não podem se esquivar de suas
responsabilidades indefinidamente. A natureza organísmica na
sua intenção principal busca o desenvolvimento de todo o
potencial presente no íntimo deste ser, a cada estágio, em cada
etapa da vida, novas exigências começam expressando o seu
desejo. O ser angustiado, perplexo, confuso, sente-se
desesperado porque não consegue enxergar a luz no fundo do
túnel. Seu compromisso é fazer esta descoberta diante do
mistério da vida, algo que só ele pode fazer por “si-mesmo” e
ninguém poderá realizar em seu lugar.
Na existência existe um ser em especial, chamado o
“mestre da vida” aquele que inflamado de amor é capaz de
cuidar e oportunizar ao “outro” uma experiência que acabe
dignificando o humano no homem. Esta sapiência da bondade,

34
da compaixão, da solidariedade, abre espaço para o recomeço
de alguém que deseja ardentemente encontrar-se na existência.
Não existe somente o lado bom da vida, é bom saber que existe
o mal. A maldade pertence aos insatisfeitos e perversos, pois
quem pratica o mal está encoberto de infelicidade, é um “ser”
que está distante da essência nobre, sua intenção permeia o
desejo da destruição. Quem sofre do bloqueio “do medo de
amar” está predestinado a propagar a inveja, a agressão, a
frieza, a antipatia, buscando realizar seu grande objetivo,
conviver com a sua própria solidão.
O lado do mal obedece a perversidade, a safadeza, os
interesses, a manipulação, a arrogância, a prepotência, o
orgulho, a vaidade, a inveja e o ciúme, existe na verdade uma
grande dificuldade de admitir a sua necessidade de amor, o seu
estado de carência, por isto mesmo parte para a agressão, o
distanciamento, a rivalidade, tudo para que as pessoas não se
aproximem, indiretamente passa uma imagem de uma pessoa
chata, sisuda, autoritária, no seu íntimo vive um conflito
enorme, porque além da solidão precisa gastar uma quantidade
enorme de energia para manter intacta a sua máscara.
A constituição da segurança ontológica precisa ser
comprovada pelas exigências sociais e culturais ou do nível de
cobrança pessoal, desta forma cada ser vai descobrindo seu
próprio modo de ser e assim num processo de avaliação, e
julgamento, acaba internalizando uma imagem favorável ou
desfavorável sobre “si-mesmo”. Se existe um nível de
consciência bastante evoluída este ser é capaz de fazer uma
auto-avaliação, uma autocrítica, sobre as potencialidades que
acabou desenvolvendo em decorrência de suas aprendizagens.
Quando um ser inicia uma caminhada na existência
principalmente aquelas pessoas que necessitam começar do
zero, em várias áreas, seja no afetivo, na sexualidade, no amor,
no econômico, no social, no cultural ou no cognitivo, primeiro
começa a andar a pé, precisa do ônibus, depois adquire uma

35
bicicleta, uma moto, um carro, etc. Este é um processo de
aquisição de qualidades que acabam dando tranqüilidade ao
ser, pois sua arte, sua maestria em determinadas áreas acabam
despertando o interesse dos outros. Para aqueles que
perseveram na existência sempre existirá a possibilidade do
reconhecimento e valorização. Em algum lugar há necessidade
de uma pessoa como você.
É no início de cada desafio que o ser acaba se
colocando a prova, em muitas atividades inclusive no primeiro
emprego, pode ter que trabalhar sem receber nada. Não porque
não seja merecedor, mas porque não tem experiência, ou seja,
não aprendeu a dar conta dos problemas, neste momento é
preciso simplicidade, paciência e perseverança para poder
alcançar o nível de aprendizagem desejada, caso contrário,
ninguém pode exigir algo de alguém se não consegue dar nada
em troca. Esta é a lei da vida, primeiro alguém tem de ajudá-lo
nesta árdua tarefa de superação de suas dificuldades,
principalmente a lidar com as suas expectativas, suas
frustrações, para depois alcançar no seu meio profissional o
ganho necessário para poder suprir as suas necessidades.
Existe um caminho a ser percorrido de diversas
aprendizagens na existência, fiz questão de realçar o
profissional, mas existe o amor, as amizades, a inteligência, os
prazeres, os afetos, etc. Quem faz por merecer encontra em
algum momento de sua vida o mérito e o reconhecimento.
Toda esta existência necessita de uma essência de sinceridade,
de honestidade, de coragem, de simplicidade, condição básica
para poder superar as suas próprias exigências e expectativa em
relação a si mesmo.
Qual é o “valor do ser”? Aquele que conseguiu
aprender a ganhar a sua própria subsistência, além de cultura,
maturidade, possui ética capaz de enlouquecer os hipócritas, é
espontâneo e sincero sendo reconhecido pelos seus. Nem tudo
esta perdido, existem pessoas de valor inigualável em

36
humanidade, talvez não na mesma proporção que os perversos
e manipuladores. O indispensável no íntimo do ser é a força, a
coragem e a vontade, que não pode ser substituída por nenhum
psicofármaco ou por uma euforia proporcionada por alguma
reação neuroquímica de uma medicação no cérebro. O êxtase
químico também é possível, e acontece de fato, por exemplo,
no cérebro dos adictos. Este procedimento parece muito fácil,
não coloca ao ser humano exigências em termos de desafios ou
responsabilidade, exige somente que tome os psicotrópicos.
Trabalhamos sempre com a hipótese da liberdade de
ser, e cada um pensa e age conforme sua consciência, mas tudo
aquilo que é muito fácil ou resolvido num passe de mágica,
gera desconfiança e precisa da parte de cada “ser humano” uma
reflexão crítica e muito séria sobre os efeitos colaterais destes
medicamentos ou este tipo de alucinação superficial que acaba
incorporando na sua existência.
Desta maneira a vida vai realizando-se para completar
a sua trajetória, todo o investimento da energia é canalizado
para uma mesma direção, neste momento é fundamental contar
com os seus familiares e amigos no apoio de sua preparação
intelectual e emocional para enfrentar os momentos bons e
ruins. Uma vez passada uma experiência que não foi
satisfatória cabe a pessoa reerguer-se com todas as suas forças
para poder desenvolver seu potencial. Quando existe uma falta
em qualquer área da vida a pessoa pode colocar a disposição
este potencial com a finalidade de atender ou suprir certas
necessidades materiais, emocionais ou afetivas.
Esta vontade de ser inclui um investimento de sua
energia intelectual ou mesma afetiva, ou seja, quando existe a
decisão de fato, quando está clara na sua mente esta certeza,
não resta a menor dúvida de que utilizará todo o seu
conhecimento a favor do seu objetivo. E somos capazes de
entender que a sobra de algum recurso econômico tem sua
origem no resultado do investimento de sua inteligência, de sua

37
criatividade, de sua força física, de seu tempo, de sua força de
vontade, etc. Esta organização financeira tem sua origem numa
aprendizagem que exige reflexão e planejamento, tudo com a
finalidade de que o dinheiro possa servir como condição, como
base, para realizar os seus sonhos.
Existe é claro uma referência a aquelas pessoas que se
deixam escravizar pelo dinheiro, numa corrida desenfreada em
busca de bens materiais, quando o ser se deixa dominar por
este tipo de compulsão ao consumo de coisas a pessoa acaba
perdendo seu centro de referência, justamente porque não é
mais dono de si-mesmo e muito menos de seu tempo. Seu
argumento é de que não tem tempo para a família, para seus
familiares, para seus filhos, para seus amigos, enfim sua única
verdade esta em viver para adquirir e não usufruir, muitas
vezes o próprio consumo desenfreado de coisas materias eleva
o ser num nível de ansiedade e stress que chega a comprometer
a sua saúde. A escravidão tem sua origem na preocupação, na
falta de tempo para si, no comprometimento de sua saúde. Em
si o dinheiro ou os bens materiais na existência não são bons e
tampouco maus, não podemos fazer um juízo de valor sobre o
“ter”, porque sem dúvida existem pessoas que possuem
dinheiro e sabem aproveitá-lo colocando a serviço de sua
qualidade de vida, que neste caso é bem diferente.
Esta autonomia em poder prover o seu próprio
sustento econômico propõe uma condição favorável para o
desenvolvimento de sua individualidade. Quando o ser é
tomado desta virtude se eleva em dignidade, e muitos outros
homens sábios reconhecem a diferença entre um ser e outro.
Sempre existe o medo por parte dos pais de que os vícios e
prazeres possam desvirtuá-lo do seu bom caminho. Quase
sempre os pais estão atentos aos ambientes e amigos que seus
filhos freqüentam porque através deles podemos antecipar o
tipo de influência que pode prejudicar ou modificar a trajetória
de vida de alguém.

38
Existe sempre a necessidade do acompanhamento e o
estabelecimento de limites porque esta é uma clara
preocupação com as decisões que poderão influir nos desígnios
de sua existência. Muitas decisões equivocadas na existência
podem ter sua origem na má influência de amigos muito
próximos à pessoa podendo inclusive trazer sérias
conseqüências, principalmente quando alguém tem que viver
longe de sua família, e como não tem seus familiares por perto
tem de decidir por si-mesmo.
A única arma eficaz para uma pessoa é seus valores e
virtudes, porque na verdade será o antítodo contra qualquer
tipo de desvirtuamento fácil e comprometedor. Qualquer
pessoa necessita desta seriedade para consigo mesmo, não
permitir desviar-se do seu caminho, tudo na vida necessita
destas condições éticas para ser eficiente, com dedicação,
paixão e muito amor, naquilo que realiza, seja no trabalho ou
nos estudos. Nesta etapa da vida precisa fazer uma escolha e
colocar como prioridade o seu objetivo. Porque a existência
oferece outros prazeres, como festas, passeios, férias,
dispersões.
Parece-me que toda esta descontração pode ser
realizada quando a pessoa tem bem claro que esta atitude não
está prejudicando o andamento de seu projeto. Para que a
pessoa possa se descobrir, realmente necessita estar mais
próxima possível de um ambiente onde possa usufruir as
condições para as suas descobertas, quanto mais exercita o seu
cérebro e compreende o seu potencial, mais eficiência vai ter
na sua profissão. A imaginação pode com a ajuda da admiração
oferecer as condições para a descoberta de sua paixão, tudo isto
para desvendar os segredos de alguma área da ciência ou da
existência que possa excitá-lo para ir ao encontro a solução de
seu problema.
Quando o “ser” toma uma decisão para alcançar um
objetivo precisa de muita dedicação e interesse. De um

39
momento para outro coloca todo seu empenho para realizar
seus objetivos, mesmo que dentro de certas exigências precise
superar alguns obstáculos. Este tipo de decisão inclui muitas
horas de estudo, de experiência, de convivência, de preparo,
para poder dar conta de um sucesso eminente. O despreparo faz
jus a aqueles que deixam para última hora sua decisão ou
delegam ao poder da sorte, de uma promessa, de um santo, o
provável insucesso. Ninguém vai a algum lugar sem antes
decidir o lugar que pretende chegar, do mesmo modo a pessoa
tem que decidir e estar convicto do que pretende ser na vida.
E quando acontece o sucesso não é simplesmente por
vontade de alguém ou de “Deus”, mas do seu esforço,
dedicação, empenho, e muita horas de prática e domínio sobre
algum projeto que pretende realizar. Depois de uma conquista
vem a vitória e neste momento o ser merece um momento de
confraternização, de festa, de divulgar a notícia. Quando
alguém consegue alcançar algum sucesso na existência acaba
indiretamente envolvendo todos os seus familiares, todos
participam daquela comemoração, porque se tornou um
momento muito especial, onde todos saboreavam indiretamente
mais esta vitória.
Depois de alguma conquista cabe o momento de
desfrutar com sabedoria este ganho na existência. E assim o
“ser” vai percorrendo os degraus de evolução, porque a sede de
conquista é infinita e ilimitado também é conhecer-se em
profundidade e em extensão o poder de atuação das forças da
natureza. Logo mais surgirá em sua mente outros desafios, e
assim sucessivamente, e novamente terá que conviver com a
ansiedade, angustia, nervosismo, medos, etc. Contra todas as
adversidades existe um ser que se mantém firme em seus
propósitos, esta euforia acende no íntimo de cada ser a
motivação necessária para se fortalecer e colocar toda sua
atenção na descoberta dos fenômenos ainda desconhecidos.

40
E mesmo as experiências da vida e dos laboratórios
fazem com que a vida se apresente cada vez mais misteriosa,
estes fenômenos fazem com que aumente a curiosidade sobre
as reações íntimas de cada fenômenos além de desvendar as
leis internas de seu funcionamento. Qualquer ser precisa da
realização com sucesso de algumas tarefas para poder orgulhar-
se de si-mesmo estes tipos de conquistas ampliam o entusiasmo
de continuar na difícil tarefa de ampliar através de muito
esforço uma eficiência cada vez maior.
O conhecimento de qualquer área de atuação não se
dá ao acaso e muito menos através de algum milagre, onde os
conceitos são armazenados em seu cérebro. Todo aprendizado
é lento e gradativo, precisa e muito de estudo e uma séria
reflexão sobre as suas dúvidas, este amadurecimento, esta
assimilação, vai aos poucos fornecendo toda a certeza de que
precisa para poder afirmar-se com mais segurança sobre
alguma forma de pensar. Em todas as áreas do conhecimento
sempre vão existir aqueles que se sobressaem.
É preciso neste instante de muita dedicação e esforço
para poder superar-se e ocupar o primeiro lugar, ou um dos
melhores. Nem toda competição é prejudicial, este jogo de
vaidades faz com que se coloca a prova o orgulho e a
competência diante de alguma disputa. E quando não se
consegue alcançar o primeiro lugar tentamos buscar
justificativas e desculpas para nós mesmos, convencidos de que
isto não é o mais importante. Muito destas cobranças pessoais
surgem de uma determinada cultura ou sociedade e não temos
como enfrentá-las, porque toda a sociedade está estruturada
desta maneira.
Esta tomada de consciência de que o conhecimento
exige além de boa vontade uma capacidade intelectual para
resolver problemas lógicos, por isto exige-se muita paciência e
perseverança para que o cérebro possa arquivar os conceitos
necessários para depois formular suas descobertas. A ciência

41
não necessita de descobertas estupendas e intuições geniais que
na verdade é realmente inútil à ciência, em vez de ajudar
acabam atrapalhando a sua evolução. O conhecimento exige
persistência, dedicação e muito estudo. Para poder estar nesta
área de conhecimento se necessita de prazer e paixão, para
alcançar os objetivos científicos através das provas e
experiências que nunca acabam. Para fazer tudo isto é preciso
satisfação e enamoramento, pois se trata quase de um
casamento. Talvez com o tempo a profissão comece a exigir
poucos amigos, mas que sejam sinceros e que tenham algum
tipo de inteligência para poder acompanhar as suas idéias. É
perfeitamente compreensível que alguns prazeres ou
habilidades pessoais sejam prejudicados para poderem dar
consistência e valor a escolha preferida.
Muitas das nossas decisões acabam sendo
incorporadas ao seu “ser”, quando fazemos parte de uma
determinada atividade, o seu fascínio tem o poder de nos
hipnotizar exigindo sempre e cada vez mais. Mas estas
exigências sempre acabam proporcionando momentos sublimes
de satisfação e realização, sendo esta a nossa maior
recompensa. Muitas vezes estamos convencidos que aquela
vocação é para o futuro de nossa vida. Chega um momento na
existência que os lucros começam a surgir na sua plena
espontaneidade, tudo isto porque a semente conseguiu crescer,
florescer, desenvolver-se e produzir excelentes frutos, ao que
tudo indica chegou o momento da colheita. De todas as formas
a lógica diz que quem planta um pé de laranja não poderá
colher abacate. Quando uma existência é sustentada por valores
éticos, os frutos têm uma ótima qualidade, isto é devido a
recompensa pelo investimento que fez durante uma trajetória
de vida.
Mas o sentido do ser na existência muitas vezes
também sofre a influência de crises políticas, econômicas, ou
da influência da própria natureza sobre o plantio do alimento

42
tão necessário para matar a fome da população. Porque quando
falta alimento e uma distribuição injusta da riqueza de um país,
surgem os pobres e miseráveis, os problemas sociais, como a
violência, os saques a supermercados, o tráfico de drogas, toda
esta população marginalizada do processo de ascensão social
acabam invadindo mansões, fazendo seqüestro dos
empresários, matando e roubando, diretamente conseguem
propagar o terror nas cidades que nem mesmo a polícia
consegue deter o número de homicídios e roubos.
E quando isto acontece, indiretamente acaba afetando
todas as classes sociais. O desemprego, a fome, a miséria estão
presentes nas favelas aumentando o nível de insatisfação dos
trabalhadores em geral. Além do mais, cientistas, professores,
buscam como última alternativa as greves no serviço público,
prejudicando ainda mais as classes marginalizadas que
dependem dos serviços essenciais da saúde e educação.
Se não bastassem todos estes problemas sociais,
temos que acompanhar diariamente através dos meios de
comunicação os contínuos escândalos de corrupção que
diariamente atingem as autoridades dirigentes do país. E
sempre recaímos nas mesmas promessas dos políticos que
utilizam os debates e seminários para dizer que temos que dar
uma atenção à massa faminta, uma melhor distribuição de
renda, promessas e mais promessas e a população acredita que
sua dor e sofrimento serão recompensados numa vida eterna.
Quanto maior a pobreza e a miséria, há um aumento
na mesma proporção dos problemas da fome, saúde e
educação, as pessoas sem saber a quem recorrer, procuram
milagres oferecidos pelas religiões. Assim conformados nesta
triste situação acreditam que fazem parte de uma casta que veio
ao mundo para sofrer e a esperança é que através da morte
receberá da parte de Deus o pagamento devido por tudo aquilo
que passarão aqui na terra. Ingenuamente acreditam que todo o

43
seu problema de saúde, falta de educação, de moradia, são
obras de satanás, do diabo e do demônio.
Qualquer pessoa que vive numa determinada
sociedade acaba convivendo com estes problemas sociais,
políticos e econômicos, que interferem também na sua
qualidade de vida, inclusive todo intelectual tem um
compromisso ético de socializar o seu conhecimento para
ajudar na solução destas injustiças que acabam marginalizando
uma grande massa da população. Esta consciência política é
fundamental para interferir junto às autoridades competentes
com a finalidade de modificar o estado de injustiça que vive
milhões de brasileiros.
Um cidadão deve amar o seu país, e fazer de tudo
para lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, lutando
com toda sua força sempre a favor da liberdade de expressão e
não aceitar de forma alguma a interferência dos regimes
autoritários. O seu país é a nossa casa, devemos além de cuidar
do desenvolvimento de seu ser, socializar o seu conhecimento,
este sentido na existência de alteridade de participação é muito
importante para ampliar o nível de conscientização destas
imensas massas oprimidas e marginalizadas do processo de
ascensão social.
Muitas vezes o “ser” recai numa desilusão quando as
expectativas não são alcançadas socialmente, mas independente
disto não devemos perder a esperança devemos continuar a ser
patriota. Porque quanto melhor estiver a população de um país,
em relação a alimentação, saúde e educação, menores serão os
níveis de violência em todos os âmbitos da sociedade. Se não
fossem as religiões e seitas proibindo a manifestação da
rebeldia e indignação fazendo acreditar que este
comportamento não é bem visto aos olhos de Deus, com
certeza poderíamos ter experimentado uma revolução social em
larga escala, mas todos nós sabemos que a expressão desta
indignação e revolta social é uma questão de tempo, mais cedo

44
ou mais tarde, milhões de pessoas vão querer participar da
festa, ou seja, querem comer uma fatia do bolo.
Ações paternalistas somente postergam o problema, o
que as autoridades exigem destas classes famintas e miseráveis
é aceitar a sua condição social. Não existe maneira de fazê-los
aceitar esta condição e muito menos através da violência e
agressão, das prisões, etc. Esta situação social no Brasil é
nefasta e prejudica e muito os projeto de vida de pessoas que
pretendem viver dignamente e em paz.
Quando se vive numa sociedade onde não existe
violência e injustiça, onde a democracia é vivida em toda sua
extensão, proporciona as condições sociais para o cidadão
viver com segurança e liberdade. Para viver em qualquer
sociedade necessitamos da tranqüilidade e da paz tão
necessária para cuidarmos uns dos outros e através disto,
realizarmos nossos projetos de vida. Toda esta análise social
leva a pensar que este modelo capitalista, egoísta e excludente
não inclui a maioria da população brasileira.
Em outras palavras o estado encontra-se
desacreditado, enfraquecido, e sem dinheiro para poder
investir, justamente porque todo o trabalho da população é
revertida para pagar os impostos e acaba sendo usado para
pagar juros da divida interna e externa. Desta forma sempre
faltará recursos para investir na educação, saúde, ciência e
tecnologia, na estrutura dos meios de transporte, etc. Toda esta
reflexão tem a finalidade de conscientizar o leitor sobre os
prejuízos e dificuldades que podem ser apresentados no
decorrer da existência. O sentido do ser na existência depende e
muito também deste meio social, cultural, histórico, político e
econômico, sem dúvida esta realidade interfere e às vezes
impede, dificulta a realização de um projeto de vida.
Os fenômenos da natureza são claros e verdadeiros,
ao cientista compete saber descobri-lo com humildade e
respeito, mas também pronto para ficar maravilhado ou

45
entediado com o que o fenômeno que revela. Mas um cientista
sabe que as convenções científicas são feitas pelos homens e,
portanto, está sujeita a vaidade, orgulho, e interesses pessoais.
Alguns se consideram uma espécie de profeta intocável
diretamente iluminado por Deus, seus dogmas e ortodoxias
também são protegidos porque foram inventados por ele, é por
isto que persistem no erro. Não existe nada mais decepcionante
que ter de admitir que uma outra descoberta superasse de vez a
sua verdade.
Quando alguns grupos hegemônicos utilizam todo seu
poder e influência para abalar a credibilidade de algum
cidadão. Difamar, perseguir, ameaçar, divulgar inverdades,
com o objetivo de vender uma falsa imagem diante da opinião
pública. Qualquer um pode enfrentar estas acusações de cabeça
erguida, com certeza lutará para se defender e muitas vezes,
estas mesmas perseguições podem ser a sua salvação.
Todos os “gênios” da humanidade que descobriram
algo de novo no seu caminho e que contrariavam os achados
científicos da academia ortodoxa foram injuriados,
perseguidos, ridicularizados e humilhados. Os dogmáticos
custam a aceitar novas teorias e idéias, existe também uma
tendência ao conformismo além do medo da inovação porque
esta novidade exige mudança e transformação no mundo das
idéias e conceitos. Na verdade não é o cérebro que pretende
negar uma evidência, mas o “ser” que se sente ameaçado e
mágoado, quando alguém tenta mostrar que a sua forma de
pensar esta equivocada. Todo homem de ciência sabe que sua
teoria existe com uma única certeza, que em algum momento
uma outra teoria mais atualizada venha tomar o seu lugar, mas
nunca será esquecida pela humanidade, porque indiretamente
serviu de base para as outras teorias.
Existem diversos exemplos de cientistas que foram
queimados vivos ou tiveram que pedir desculpas ou negar seus
descobrimentos, como foi o caso de Galileu Galilei que

46
descobriu que os astros e planetas estavam em movimento e
que a terra não era o centro do universo, com a descoberta de
seu telescópio conseguiu enxergar e provar que os planetas
giravam em torno do sol. Este princípio contrariava os dogmas
religiosos da Igreja, por isto mesmo achou-se no direito de
fazer com que estes hereges experimentassem o inferno aqui
mesmo na terra através de suas prisões e torturas e em alguns
casos, as pessoas foram queimadas vivas na fogueira, tudo isto
em nome da Santa Madre Igreja. Giordano de Bruno foi
queimado vivo durante na Idade Média pela santa inquisição
porque publicava textos denunciando as vendas de
indulgências e terreno no céu.
Os papas achavam-se donos da verdade e acreditavam
que podiam extirpar da face da terra qualquer tipo de
conhecimento que pudesse abalar as suas verdades eternas.
Muitos pagaram com a própria vida, enfrentaram preconceitos,
ódio, perseguição, e até mesmo Jesus Cristo foi crucificado
pelo poder constituído do Império Romano. Qualquer cientista
sabe que não basta amar a verdade, tem a incumbência de saber
defendê-la, mesmo que isto possa provocar aversão e
ressentimento.
Todas as pessoas que trabalham com o conhecimento
experimentam alegria e entusiasmo quando de alguma maneira
acabam sendo reconhecidos socialmente. Esta curiosidade de
conhecer o íntimo do fenômeno leva o cientista a teorizar para
depois realizar o experimento, pois a prática sem a teoria é
apenas uma rotina acompanhada de um condicionamento. A
teoria tem a finalidade de criar a invenção, as descobertas não
acontecem de imediato, precisam de tempo, aos poucos passam
por diversas etapas, a teoria com o tempo se torna mais aceita e
comprovada, podendo ser de grande ajuda à humanidade ou ao
contrário, ajuda a destruí-la. Uma teoria científica deve ser
consistente e para isto deve ser verdadeira, sólida, evidente e
desta forma para obter o seu reconhecimento é questão de

47
tempo, por isto uma teoria científica não é boa ou ruim,
depende do modo que será usada.
Uma teoria deve ter uma utilidade para poder atender
aos problemas que um determinado fenômeno apresenta para
isto precisa de muito estudo, pesquisa, e persistência para
realizar as suas descobertas. Qualquer cientista deveria
agradecer ao “problema de pesquisa” porque indiretamente o
tornou famoso e reconhecido, a dificuldade de um, torna-se a
oportunidade de outros. No mundo da ciência sempre existirá
aqueles que favorecem e aceitam as novas descobertas e outros
que procuram ridicularizar e criticar, defendendo com unhas e
dentes os conceitos antigos, como se fosse uma verdade
inabalável.
Toda nova descoberta científica ou teórica causa uma
espécie de fúria porque contraria verdades pré-estabelecidas,
forçando as pessoas a enxergarem a existência de um outro
modo, todas as tentativas são válidas, inclusive o boicote no
meio científico ou social. Aqueles que detém o poder da
ciência não gostam que alguém faça sombra, ou seja, que seja
mais importante que as suas descobertas.
A perversidade é de praxe. A hipocrisia se faz
presente quando aqueles mesmos que prepararam a
perseguição se aproximam e tecem elogios frios, obedecendo
aos protocolos, tentando passar uma falsa imagem de pessoas
amáveis e dóceis, na verdade são cordeiros revestidos de lobos.
Alguns nem dão a este trabalho, afastam-se sem ao mínimo dar
uma satisfação, são completamente indiferentes. A verdade
mais dura é que em alguns momentos o “ser” tem de contar
consigo mesmo, usar sua habilidade política, criatividade, bom
senso, e recriar o ambiente necessário para a sua produção
intelectual. Aqueles que ficam reclamando e aguardando algum
tipo de solução do poder constituído correm o risco de passar
toda uma vida sem realizar o mínimo. Mesmo no silêncio de
sua pesquisa alguém pode por conta própria e mesmo sem

48
ajuda de ninguém, recriar o ambiente para realizar o seu projeto
científico. Esta perseverança é absolutamente necessária e
muitas vezes a dedicação é o fator crucial para o seu sucesso
profissional.
Mesmo um cientista de laboratório enfrenta os
dissabores da incompreensão acadêmica e científica, mesmo
que seja possível demonstrar em laboratório mediante provas
fidedignas e verdadeiras sobre um determinado fenômeno.
Quando um cientista procura demonstrar através de
comprovações o seu achado científico, sempre estará presente
algum cético ou uma estrela da ciência para derrubar algum
experimento ou teoria. Diante da ignorância dos outros corre
se o risco de ser chamado de louco, estes homens não
conseguem se perdoar em relação a aquilo que não conseguem
entender.
Algumas vezes são chamados de “palhaços
presunçosos” e não são as pessoas mais simples, muitos do que
proferem estas frases são colegas de trabalho ou mesmo de
alguma academia científica. Todos aqueles que de alguma
forma contribuíram com a ciência, muitas vezes, foram
caluniados e perseguidos. Como no caso da Madame Curie,
quando descobriu o “polônio” e a radioatividade, pesquisas
estas realizadas num galpão abandonado em Paris, local onde
se tornou o seu laboratório de pesquisa.
Desta maneira o cientista é um ser na existência que
além de conviver com as perdas afetivas e dissabores
acadêmicos precisa saber conviver com as ironias e
comentários cheios de sarcasmo. Muitos se deixam levar por
este tipo de confronto e acabam comprometendo a sua vida
particular e familiar, em algum momento o ser precisa de um
descanso, desligar-se dos problemas do seu trabalho, caso
contrário pode absorver todos estes problemas e torná-los uma
preocupação constante, correndo o risco de um colapso
nervoso ou de uma depressão. O ser precisa tomar consciência

49
de que não é imune às doenças e dificuldades emocionais. De
certa forma o organismo fica doente para poder frear uma
corrida que está prestes a desencadear um acidente catastrófico.
É no final da vida que o “ser” sofre muitas dores
físicas e emocionais, resquícios adquiridos pela existência,
quando o organismo não consegue mais dar conta das
exigências do trabalho intelectual é quando o alerta entra em
ação comunicando-se através dos sintomas, que existe uma
limitação física e psíquica para poder produzir, dizendo em
outras palavras que é necessário a paralisação ou diminuição da
carga de trabalho.
Na velhice o “ser” experimenta a decadência e a
limitação do seu organismo, quando experimenta as dores e
sintomas que o impedem de trabalhar. Existe um momento que
todas as energias foram consumidas restando ao ser um pedido
de socorrro, o corpo tem uma linguagem própria do
desconforto, comunica a dor e sofrimento. Mesmo na velhice
estamos cercados de pessoas que ao longo da vida estiveram
presentes conosco e que neste último momento reconfortam-
nos com a sua presença. Muitas vezes ao médico cabe somente
dizer o dialógico, utilizam algum tipo de medicamento para
diminuir algum a dor. E talvez a honra de um grande homem
não seja a construção de uma estátua ou o recebimento de
algum título de “honoris causa” mais por poder ter ajudado a
humanidade a viver melhor.

50
1.1. As diversas faces do ser

Não existem somente dois tipos de “ser”; existe uma


multiplicidade: o ser material, o ser vivo, o ser consciente, o ser
espiritual, o ser possível, o ser real, o ser íntimo, o ser
consciente, o ser necessário, o ser finito, o ser infinito, etc.
Reduzir esta diversidade a uma única posição do “ser em si e
para si” é desconhecer gravemente a riqueza do ser, é em um
certo sentido impor ao ser um sistema rígido e estreito que
repugna e leva-o à fragmentação10. Toda esta expressão do ser
nos remete a pensar o ser por excelência, podemos então
pensar um “ser inconsciente” de todas as ações catastróficas
que consegue realizar durante a sua existência.
Este estado de inconsciência demonstra o nível de
desconhecimento que o ser tem em relação a si mesmo. O
maior flagelo da humanidade é não saber conduzir-se com
consciência, afirmamos este fato porque o “ser emocional” não
está separado da totalidade de suas buscas e decisões. Mas em
todo “ser” esta multiplicidade complexa de emoções aparecem
nas ações em defesa da humanidade ou no seu extermínio, cada
ser reclama para si um lugar de direito na existência, muitas
vezes as expectativas acabam sendo frustradas porque aquilo
que mais deseja alcançar esta distante ou mesmo inexistente
em sua vida.
Existem muitas emoções num “ser” e esta diversidade
está sempre presente, mas depende daquelas que teriam mais
chance e oportunidade de expressão, são os acontecimentos e
principalmente as vivências boas ou ruins que acabam tomando
conta do “ser” na existência. “Este lugar do homem que ocupa
no cosmos, suas relações sociais, com o destino, sua
compreensão dos amigos, e sua existência como ser, que sabe
que vai morrer, suas atitudes em todos os seus encontros,
ordinárias e extraordinárias, com o mistério que compõe a
10
Verneaux, Roger. Op. Cit. 1952, pág. 313.

51
trama da vida11”. “E ao mesmo tempo o homem surge na
solidão em meio da angustia de um projeto único e pioneiro
que constitui o apelo a ter algum valor diante do fato de que
sou eu quem mantém em seu ser, valores; nada pode proteger-
me contra nós mesmos; separado do mundo e de minha
essência por este nada que eu sou, tenho de realizar o sentido
no mundo e de minha essência; somente eu decido isto, sem
justificativas e desculpas12”.
Martin Buber explicita o valor da consciência capaz
de auto afirmar-se e procurar os melhores recursos para
conseguir acalmar o seu espírito. Um espírito atribulado pelas
emoções negativas acaba influenciando o projeto de vida de
uma pessoa, talvez a alucinação de suas crenças misturadas
com alguma emoção de raiva e ódio, possam invadir a
consciência e fazê-lo refém de suas ideologias.
O lugar do ser na família faz renascer dentro de si
exigências ou fantasias que possam distanciá-los cada vez mais
de si-mesmo, é muito difícil saber com fidedignidade se a
pessoa que está envolvida no conflito tem consciência das
emoções, talvez em algum momento possa ter a percepção de
sua insatisfação, do seu descontentamento, do vazio
existêncial, da falta de sentido na existência, em algum nível
deve perceber o seu estado de inibição e solidão.
Mas independente do seu estado emocional a sua
imaginação pode delinear uma estratégia para conseguir
alcançar os seus objetivos. Muitos homens da história
conseguiram mostrar que é possível a realização de um sonho,
cada ser depois de estar convencido de uma ideologia é capaz
de colocar em jogo a própria vida. Esta necessidade de auto-
afirmação, de ser valorizado e reconhecido, combatendo com
todas as suas forças aquelas pessoas que cometeram alguma

11
Buber, Martin. Que és el hombre. México, Fondo de Cultura Económica,
1992, pág.13.
12
Verneaux, Roger. Op. Cit. 1952, pág. 184.

52
atitude injusta consegue fazer o impossível para forçar o meio
social a aceitar as suas próprias ideologias.
O que podemos pensar daqueles “seres” que utilizam
sua inteligência e potencial para destruir e matar. Quais são as
condições inatas ou adquiridas que possam ajudar o ser a
tornar-se “humano”, como justificar atitudes e comportamentos
que acabam não promovendo a vida, ao contrário, manipula e
utiliza os amigos e pessoas muito próximas para colocar a
serviço de sua neurose. Como identificar no “ser” esta intenção
destrutiva de si-mesmo e dos outros? É possível alterar uma
consciência que foi rejeitada, humilhada, criticada, desprezada,
no sentido de convencê-lo a agir de modo contrário? Um “ser
humano” traduz um significado amplo de diversas
compreensões e interpretações, talvez uma hipótese possa ser
que um ambiente faça valer o assassinato como um valor.
Estas convenções sociais dependem e muito do meio cultural e
educacional, estas outras regras e normas tipificam um outro
tipo de justiça.
São estas analogias que acabam traduzindo a intenção
de um desejo, esta força motivadora de alcançar um objetivo
tem muito a ver com o ambiente sócio-político-econômico de
um determinado contexto histórico, esta fenômenologia das
relações no âmbito familiar e sócio-cultural podem colocar em
evidência um tipo de ser, o homem para tornar-se um “ser”
precisa de uma humanidade, esta manifestação ontológica na
história de vida do ser, que acaba sendo contemplada. O único
meio do “ser humano” de comunicar ou estabelecer um diálogo
é a “palavra”. É pela palavra que os seus argumentos são
compreendidos, na plena expressão de seu discurso, que o
homem mostra quem ele é.
O porta voz do ser é a palavra, é através dela que o
ser consegue contar a sua história permitindo o conhecimento
do seu “ser”. Pela palavra consegue descrever o seu real e ao
mesmo tempo interpretar a realidade, a palavra consegue fazer

53
com que apareça do fundo da consciência a essência do nosso
ser. A palavra é uma essência da apresentação da existência,
em nosso conteúdo consegue traduzir a representação
simbólica ou imagística das variáveis presentes na
comunicação de uma emoção. Pela palavra o “ente” toma vida
e sua nobreza enaltece a essência da intenção do ser, toda esta
complexidade acaba produzindo compreensão para aprofundar
seus mais diversos significados a face do seu ser.
A natureza da palavra propõe a instauração de um
vínculo entre um ser e outro, esta flexibilidade possibilita o
diálogo, são duas consciências de seres com compreensão
diferente que conseguem através da escuta da palavra
transcender as discussões ideológicas, porque em nenhum
momento existe o desejo de provar ou convencer e muito
menos impor alguma verdade ao “outro”. É uma escuta de
valorização, de alteridade, de amorosidade, de aprendizagem,
no sentido de que ambos possuem a qualidade de somar
experiências diferentes para compreender e entender o “ser”
em sua dignidade.
Esta presença contém um olhar atento ao desejo
inconsciente do que o “outro” necessita, um encontro
permeado de calor humano, verdade e aceitação, sua intenção é
encontrar-se no outro, descobrindo juntos, conseguindo
transcender os jogos de interesses e egoísmos, esta maturidade
centrada em querer bem, impõe a existência o afeto e o amor.
O diálogo é muito mais que o encontro de duas pessoas
permeada de palavras, é preciso antes estar inteiro, sem
dispersão, com um olhar profundo conseguir comunicar ao
“outro” a possibilidade da confiança, da sinceridade, da
honestidade, da amizade, esta troca de olhar cria as condições
de valorização de uma aceitação incondicional, não existe um
interesse que através do diálogo alguém possa mudar de
opinião ou deixar uma ideologia e seguir uma outra.

54
O outro ser é uma condição indispensável para eu
poder existir, nesta relação dialógica e dialética os seres
constituem uma existência independente e autônoma com a
mais ampla liberdade, não como uma “coisa”, mas um “ser”
que consegue apropriar-se das vivências para ampliar sua
consciência na existência. Ninguém pode solucionar a si-
mesmo, o outro é condição básica para estabelecer uma relação
de complemento das faltas, esta evolução é sempre carregada
de diversos sentidos e significados porque se coloca a
possibilidade de sempre haver surpresas.
Como dialogar com as crenças dogmáticas
petrificadas pelo tempo? Eis a questão, cada ser se investe no
direito de defender sua ideologia, mesmo aquelas que trazem
sofrimento e dor, esta liberdade sem consciência é o conceito
mais próximo que consigo chegar para mostrar o estado de
inconsciência de um ser. Ninguém basta a si mesmo. O ser é
pura expressão das relações dialógicas aproximando, fazendo
com que a comunicação sirva de uma ponte para aproximar os
seres, cada ser com sua bagagem cultural e histórica fazem um
esforço para poderem imaginar nas diferenças uma chance para
aprender. “O Eu se torna Eu em virtude do Tu. Isto não
significa que devo a ele o meu lugar. Eu devo-lhe a minha
relação a ele. (...) Nem meu Tu é idêntico ao Eu do outro, nem
seu Tu é idêntico ao meu Eu 13”.
Existem níveis de relação intrapessoal, interpessoal e
transpessoal. São condições a “priori” que estabelecem os
requisitos para dar identidade mesmo diante das diferenças
pessoais. Não existe a condição de uma objetividade exata com
os diferentes tipos de relações, na relação é possível conseguir
uma escuta do seu nível de satisfação, dos seus pensamentos,
das suas emoções, dos seus interesses, dos seus desejos, etc. Ao
entrar em contato consigo mesmo o ser em si consegue tomar
consciência de como se constituiu naquilo que ele é, mesmo
13
Buber, Martin. O Eu e o Tu. São Paulo, Centauro, 8ª. ed., 2001, pág. 59.

55
assim ainda encontra-se muito distante de descrever a
metamorforse de suas emoções.
Esta consciência de estar conectado através das
relações afirma a condição do valor e o conceito que um ser é
capaz de descrever sobre si-mesmo. Quando existem duas
pessoas numa atitude de diálogo o tempo passa muito depressa
porque na alteridade, está presente a empatia, esta atitude
congruente e verdadeira eleva o ser a entrar numa comunhão,
como se fosse possível dois seres se tornarem um só. Isto
tipifica o nível de entendimento e de admiração onde ambos
são ambientes para expressar e desenvolvimento da
potencialidade dos seus seres, esta liberdade de ser proporciona
a coragem para ser autêntica, esta leveza é plena de significado,
pois oportuniza a existência do amor, do afeto, da
aproximação, isto é um dos modos da expressão do amor. A
relação deixa de ser penada, como se fosse um fardo e torna-se
leve e agradável.
O problema da relação Eu-Tu aparece quando ambas
as intenções estão próximas, atraídas por um desejo perverso,
esta vivência relacional provoca o engano, a mentira, a
manipulação, a chantagem, a vitimização, isto leva a crer que
existe uma intenção perversa sem um nível de consciência, ou
esta consciência está invadida por intenções destrutivas, para
poder retornar a uma relação saudável é preciso antes tomar
consciência daqueles fatores externos ou internos que são
capazes de alterar a sua atitude entre a consciência e a sua
mundaniedade, ou seja, que consiga tomar consciência do
sentido do seu ser na existência.
Não é o mundo que acaba se instaurando no ser, mas
é através do poder das relações que a palavra toma sentido
dando consistência ao ser. O ser é uma biblioteca ambulante
colhendo durante sua curta existência o maior número de
informações possíveis para poder interpretar melhor a si
mesmo e a mundaniedade. Este ser-no-mundo precisa da

56
existência mais muito mais da palavra como veículo portador
da educação, da cultura, e todos os problemas e desafios
necessitam do diálogo para reparar as arestas dos conflitos
pessoais e existênciais.
O essencial na vida de qualquer ser é o poder de sua
decisão em admitir que possa realmente realizar um objetivo
ou alcançar uma meta ou aceitar que esta impossibilitada para
tal tarefa. Esta consciência de que existe uma potência como
vontade, sendo uma espécie de combustível do espírito quando
consegue entender que pode saber, esta curiosidade transforma
o ser numa espécie de autodidata, alguém que é capaz de se
questionar decidindo com liberdade o caminho que pretende
seguir. O ser na existência não está saudável naquilo que já
sabe, mas na infinitude de conhecimento que necessita saber.
Que tipo de criatura será esta que pode saber, deve saber, e le
cabe esperar?14
De um outro ponto de vista todos sabem que o ser
também chamado de criatura humana sabe que pode saber, ou
seja, tem consciência que o saber pode lhe proporcionar uma
espécie de poder, sobre si mesmo, sobre os outros, e sobre o
universo. Esta contextualização do saber necessita de uma
existência que ensina sua sabedoria que é diferente do
cognitivo, um saber que é apreendido na vivência desta
erudição é diferente dos modelos escolares controlados pelo
estado. Existe sim um saber, mas nem todos têm acesso a este
saber, são muito poucos os que conseguem se apropriar de um
conhecimento que pode e muito conscientizá-lo sobre o seu
“modus operandi”, esta existência lhe confere o direito de
saber e dos modos de como os saberes institucionais e
ideológicos acabam manipulando a sua consciência.
Porque ao esconder o ser, perdemos justamente
àquilo que mais apreciamos na vida. Pois o sentimento do ser
esta profundamente ligada ás questões mais íntimas e
14
Buber, Martin. Op. Cit. 1992, pág.14

57
fundamentais, questões de amor, morte, ansiedade, afeto. (...)
Sem valores existiria somente um amargo desespero15.
Quando um ser não consegue expressar o seu potencial inicia-
se um processo de auto-punição pessoal, porque seus talentos,
dons, criatividade, estão impedidos de se manifestar, e quando
o ser não manifesta suas qualidades é porque está obstruído por
alguma repressão. O que poderia levar as pessoas a esconder e
não utilizar o seu potencial?
A hipótese é que são vários os fatores que acabam
contribuindo para o ser tornar-se um não-ser, apagado,
desiludido, desacreditado, desqualificado, humilhado, acaba
decidindo por não ter a coragem de expressar as suas
capacidades. Recolhido nos medos profundos, o ser sofre
quando experimenta a insegurança, o descrédito imposto pela
sua própria consciência, torna-se um ser insignificante na sua
expressão diante da existência. Outro modo de pensar é
entender que este ser está fragilizado e não tem confiança em si
mesmo, por isto persiste no caminho de esconder-se sempre
das oportunidades, deste modo ofende, agride e reprime aquilo
que é mais sagrado, o potencial para inovar, modificar, perdido
nas suas próprias desculpas e justificativas permanece preso a
um estilo de vida conformista e alienante.
Com este sentimento de inutilidade não permite
enfrentar os desafios que a existência apresenta. Sem o valor da
coragem perde em qualidade. Paul Tillich sustenta que: se não
temos coragem, perdemos o seu ser. O homem é a criatura
particular da natureza, cujo ser depende da sua coragem; e, se
não é capaz, por causa do grau de patologia ou circunstâncias
externas terrivelmente adversas, de afirmar o seu ser, ele
perde-o gradualmente16. A falta de coragem é o paradoxo do
medo, mais a coragem necessita de uma postura de ação,

15
May, Rollo. A descoberta do Ser. Rio de Janeiro, Rocco, 1988, pág.11.
16
May, Rollo. A psicologia e o dilema humano. Petrópolis, Rio de Janeiro,
Vozes, 2000, pág.131.

58
mediada por uma consciência que sabe que tudo tem um preço,
mas ao saber disto não foge dos enfrentamentos e não busca
nas fugas uma desculpa para não encarar com coragem aquilo
que a existência coloca no caminho.
A coragem é saber que tem condições de superar todo
e qualquer empecilho que se coloque na sua trajetória,
portanto, é desta natureza da vontade de poder que o ser precisa
estar imbuído para transcender inclusive suas patologias, ou
seja, existe sim a condição de lutar com todas as suas forças
para poder sueperar-se mesmo diante dos quadros de
dificuldades externas. O que existe são probabilidades do ser
interessar-se em adquirir coragem para desenvolver autonomia
necessária com o intuíto de preservar a existência do seu ser.
Um outro existêncialista chamado Jean Paul Sartre
considerado um humanista ateu nasceu em 1905 na cidade de
Paris e morreu nesta mesma cidade em 1980, uma de suas
frases celebres é esta: “o inferno são os outros” Homo homini
lupus, o homem é um lobo para o homem, baseado nesta frase
proferida por Hobbes onde colocava o estado da “natureza”
anterior a sociedade; aqui ao contrário é a “sociedade”
mesma que está em guerra. Com muito mais profundidade
escrevia Hegel: “Cada consciência busca a morte da outra”,
esta afirmação mesmo distante da teoria de Hegel, tem se
afirmado na escola existêncialista porque expressa com
excelência a sua tese. Olhando ao outro, nego sua liberdade,
faço dele um objeto no mundo 17.
Este tipo de análise depende do nível de consciência
de cada ser, qualquer tipo de generalização desta tese pode
cometer sérias injustiças, desde as civilizações mais antigas o
homem traz no íntimo de seu espírito uma realidade paradoxal
explicitada por Platão e depois utilizada por Sigmund Freud na
psicanálise, trata-se do conceito de Eros e Thanathos, duas
pulsões presentes no mesmo ser. Esta dualidade participa do
17
Verneaux, Roger. Op. Cit. 1952, pág. 188.

59
processo de evolução da consciência humana, uma destas
instâncias tem um resquício histórico e ancestral com as
pulsões mais primitivas e arcaicas e a outra com a assimilação
e incorporação dos valores culturais e sociais desenvolvidos
pela humanidade.
Sartre se refere à expressão das emoções destrutivas
e perversas no íntimo do homem que talvez nem tenha plena
consciência de sua ação, é impossível de aceitar de que o
homem possa ser comparado a um lobo, todos nós sabemos
que o homem traz consigo esta ancestralidade das pulsões do
mundo animal, mas ele não é um animal, ao contrário, faz parte
da raça humana, muitos seres humanos mostraram que
conseguiram transcender este estado escatológico na
existência.
É claro que falta ao homem um caminho de evolução
bastante longo e difícil, mas esta não é uma tarefa impossível,
na verdade temos que conviver com estas duas realidades
pulsionais ambas buscando um nível de convivência que se
tornem possíveis a vivência e aceitação desta natureza mais
primitiva e por outro lado a incorporação dos valores éticos,
culturais e sociais indispensáveis para a convivência pacífica
entre os seres humanos. Não podemos partir de alguns casos
esporádicos, generalizando e propagando uma espécie de
pessimismo niilista sobre o ser humano. A meu ver a
humanidade conseguiu aprender sobre duras penas o quanto é
prejudicial a ganância, a ambição e o poder, porque na verdade
são estas emoções compulsivas e destrutivas que acabam
devastando o legado cultural de seus antepassados.
Não podemos afirmar que este estado é fixo e que
estamos determinados biologicamente ou hereditariamente a
conviver eternamente com este estado necrófilo de existir. O
homem mostra a cada civilização o desenvolvimento de sua
inteligência e principalmente na evolução da ciência em várias
áreas do conhecimento, porém a incógnita ainda permanece,

60
será que as pessoas mais conscientes de seu papel neste
universo serão capazes de ajudar a manter a paz e a justiça.
Todos sabem que este é o grande desafio da existência da
humanidade entender que é preciso sair desta condição
mesquinha e egocêntrica de dominação e poder para uma
relação mais humana e fraterna.
Muitos gênios da humanidade conseguiram com a
ajuda de sua inteligência encontrar muitas soluções para
combater diversos males que impedem as pessoas de viverem
mais tempo de vida. Podemos citar um Einstein que descobriu
a teoria da relatividade e a fórmula da energia atômica, de
Galileu Galilei que inventou a telescópio comprovando que a
terra não é centro do universo, de Madame Curie que descobriu
a radioatividade para realizar o raio-X, de Sigmund Freud
afirmando que a mente consciente não tem consciência dos
desejos inconscientes, de Luis Pasteur que descobriu a
existência dos microorganismos e bactérias presentes no ar e
que se necessitava fazer uma assepsia nos objetos cirúrgicos,
além de tantos outros homens que colocaram toda uma vida
para ajudar a humanidade a superar todas as adversidades que
impedem de viver melhor.
Um outro filósofo existencialista que eu considero
humanista é Gabriel Marcel. Um dos temas interessantes
relacionado à vontade de poder em Nietzsche, do complexo de
superioridade de Alfred Adler, e surge então a discusão deste
conceito da “posse” no existêncialismo. O desejo de posse é
quando alguém acredita ser dono de uma pessoa ou de suas
qualidades, como também pode sentir culpa quando apresenta
algum desequilíbrio. Quando um “ser” interioriza a possessão
de um objeto sua sensação de poder e domínio aparece
transfigurado na expressão do seu rosto, existe certo prazer em


Gabriel Marcel nasceu em 1889. Graduou-se em Filosofia. E estendeu
seus estudos a crítica literária, o teatro, a música, através de sua reflexão
filosófica. É considerado um existêncialista cristão.

61
estar sobre a posse do “outro”, mas na verdade a emoção não
tem o poder de fazer desaparecer o sentimento de liberdade
presente no interior do ser. Existem pessoas que permitem
“submeter-se ao outro” a deixar-se usar, a ser tratado como um
mero objeto. Depois existe uma tendência a querer submeter o
outro como um “objeto de posse”, forçando-o a aceitar esta
condição.
E por último a tendência a “excluir” o outro da
“possessão” considerando como um privilégio pessoal18. Esta
transgressão está muito bem elaborada no livro de Erich
Fromm, chamado “Anatomia da destrutividade humana”, onde
procura descrever o processo das reminiscências arcaicas e
primitivas de todo o legado ontogenético e filogenético
presente em cada célula humana. A compreensão deste desejo
de “posse” tem uma relação direta com a sensação de ter
“poder” sobre um “outro”, a dominação pode acontecer de
diversas formas por uma atitude masoquista onde se acostuma
com a idéia da agressão física e a violência psicológica. Mas
antes de considerarmos também a possibilidade patológica
temos de levar em conta o processo condicionante que
estruturou esta pessoa a ter prazer na dor. O ser humano não
nasce com esta tendência, este desejo não é inato, todos
sabemos que existe sim esta relação do dominador e do
submisso.
Gostaria de esclarecer que o dominador para tornar a
sua vítima submissa, desenvolve algumas estratégias para
efetivamente conseguir a aceitação da sua condição de
explorado. É muito interessante compreender como acontece
esta relação dialética da briga e afastamento, dos pedidos de
desculpa e reconciliação e a volta da estabilidade emocional
entre o dominador e a vitima. Não sei qual dos dois ganha com
este tipo de relação, podemos inclusive levantar a hipótese de
que ambos necessitam desta relação para poder fazer a catarse
18
Verneaux, Roger. Op. Cit. 1952, pág. 202.

62
das suas emoções. A vítima submissa apresenta uma imagem
de si-mesmo de covardia, falta de decisão, medo do abandono,
baixa auto-estima, medo da solidão, e nesta condição seu ser
aparece sem força para buscar algo melhor para si-mesmo.
O dominador pode apresentar quatro características
principais. A primeira tem a ver com a imposição, o
autoritarismo, e agressão física, que é uma das formas mais
primitivas e arcaicas de dominação. A segunda é subjugar o
“outro” a uma condição de inferioridade, para isto utiliza a
estratégia da “menos-valia”, ou seja, desqualificar,
menosprezar, humilhar, rejeitar, tudo isto para diminuir ao
máximo sua auto-estima e principalmente o seu auto-conceito.
A terceira forma de dominação e posse e fazer-se de
vítima, para isto é necessário desenvolver algum tipo de vício,
ou comportamento que diminua ainda mais a imagem pobre da
vítima. A quarta forma de dominar é “aprisionar” o “outro”
desenvolvendo algum tipo de doença, retirando qualquer tipo
de liberdade, é uma maneira sádica e sutil de manipulação, isto
significa: “você não vai viver a sua vida, vou colocá-lo ao meu
serviço”, é o tipo de doente prepotente e insatisfeito, faz
questão de dizer que é infeliz por culpa do outro.
Quando existe uma relação de posse, ambos as
pessoas envolvidas acabam sofrendo e sendo infelizes, talvez a
ciência mais próxima para explicar estas relações seja a
psicanálise. A vítima pode buscar ajuda, como se fosse uma
descarga de consciência, mais ao mesmo tempo sente-se
bastante culpada pelo sofrimento do dominador, indiretamente
carrega consigo o medo das ameaças de abandono, de suicídio,
de falência, sente-se obrigada a continuar na relação porque é
uma espécie de missão, não consegue decidir de modo
diferente porque se sente pressionada a pensar, ser e agir de
uma determinada maneira. Desacreditada de si-mesmo convive
com este sofrimento, sabe que esta relação produz dor, brigas,

63
violência, traição, mas ao mesmo tempo sua auto-estima está
tão em baixa que confunde “posse” com amor.
É Melhor esta condição do que não conviver com
ninguém, temos que entender que a “posse” do outro não
acontece por mero acaso. Trata-se de um compromisso
consciente ou inconsciente que ambos estão condicionados a
uma convivência de muita violência e conflito. Mas o mesmo
comportamento que gera a discórdia faz com que o dominador
em algum momento mostre-se vulnerável, carinhoso, bondoso,
e prometa que nunca mais vai realizar tal comportamento.
Logo depois a vítima exerce seu poder de dominação, sua
sensação é de satisfação porque de alguma forma se sente
benfeitora, prestigiada, sendo uma pessoa de valor, assim se
constitui uma relação entre momentos de amor e ódio. Ambos
estão envolvidos por um drama existêncial onde a patologia
retira a liberdade de decidir.
Outra situação aparece discursos de um círculo
vicioso envolvendo filhos, parentes, amigos, e outras realidades
com uma única finalidade de dominação. Se pensarmos com
mais cuidado podemos perceber que algum tipo de “emoção”
ou “desejo” impõe este tipo de atitude, até porque depois de
realizado o sofrimento, geralmente surge à auto-depreciação, o
pedido de desculpas, o pedido de perdão, etc. Talvez o segredo
seja de serem impotentes para conviverem com alguém de um
modo mais saudável.
Este pacto inconsciente consegue manter o vínculo e
fazer dele o elo de aproximação entre ambos. É possível duas
pessoas conviverem numa relação onde existe traição, engano,
exploração, adição, violência? E se existe esta realidade
existêncial entre estes dois seres, que tipo de poder a dor exerce
sobre ambos? Podemos então levantar a hipótese de que ambos
têm seus ganhos secundários nesta relação, ou seja, as
deficiências de um são preenchidas com alguma qualidade do
outro, por isto que existem as brigas e discussões, pois

64
percebem que estão sendo explorados, mais ao mesmo tempo
não podem abrir mão deste tipo de prazer e satisfação
oportunizada por esta relação sadomasoquista, ou seja, o ganho
secundário.
“Desta forma, o processo de ajudar outras pessoas
pode na verdade torná-las conformistas e tender a destruição
de sua individualidade19”. Esta é a grande questão de como
ajudar através do tratamento psicanalítico estas pessoas a
conseguirem viver uma existência feliz. Porque como
salientamos anteriormente a função do psicanalista consiste em
alcançar e elaborar junto com o paciente o encontro com estas
emoções, precisa sem dúvida aprender a repensar este modo de
relação doentia, porque não é fácil acreditar que alguém possa
vender sua alma deixando-se possuir e dominar, acreditando
que esta é a única forma de viver o amor e o afeto. Este
conformismo de se deixar manipular e ser objeto de posse é
uma tendência a adaptar-se a um modo patológico de viver.
Temos que trabalhar com a hipótese da liberdade de existir
desta forma, de seguir sua teimosia, para defender o seu
orgulho e vaidade pessoal. Independente das decisões e
escolhas que ambos os seres realizam na existência podemos
constatar que este tipo de relação acaba gerando muito
sofrimento e dor.
Na verdade quando Gabriel Marcel diz que “Utilizar
as idéias como algo de sua propriedade, por outro lado
submeterem-se as suas idéias mortificando alguma parte de si
mesmo; e por outra parte colocando-se em oposição aos
“outros”, tanto para conservar tais idéias, como para fazê-la
triunfar frente a todos e contra todos20”. Na teoria psicanalítica
podemos chamar esta atitude de “neurose de caráter” é uma
espécie de rigidez de pensamento alicerçado numa verdade
absoluta, absorvido pela sua vaidade e orgulho, acabam

19
May, Rollo. Op cit. 1988, pág.17.
20
Verneaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 203.

65
armando sempre algum conflito com as pessoas com as quais
convivem, esta falta de flexibilidade na maneira de existir.
Quando a pessoa sem a devida consciência é
dominada pelas idéias acaba sempre pagando um preço que
pode inclusive prejudicar o seu organismo. Todo ser tem uma
idéia representacional do significado de existir e faz da
existência um trampolim para fazer valer as suas ideologias.
Acredito que os erros, e prejuízos que alguém comete na vida
são porque não conseguiram transcender as emoções
destrutivas, formadas através de suas idéias equivocadas que
acabam interferindo ou mesmo destruindo uma vida.
Um “ser” é basicamente o fruto da incorporação de
idéias apreendidas no convívio do seu meio ambiente e social e
mais especificamente a sua família. Muitas destas idéias
passam de geração a geração, ter estas idéias e seguí-las a risca
é o compromisso afetivo do amor que expressa aos pais. O
afeto pode acontecer através da incorporação de idéias,
conceitos e imagem de representação da realidade. Se uma
pessoa tem dificuldade de disvincular-se deste tipo de “idéia -
fixa” é porque esta obsessão tem um vínculo direto com algum
progenitor.
Muitas idéias têm seu lado positivo, porque através
delas conseguimos entender a intenção do outro em relação a
mim mesmo, em conseqüência disto outras tantas funcionam
num plano inconsciente de que não temos a mínima idéia do
seu poder de atuação, mas que na verdade elas estão a serviço
de uma identificação, de um projeto, de uma realização, que é
muito mais dos pais do que propriamente da pessoa.
Algumas idéias acabam se concretizando na mente da
pessoa como uma verdade absoluta trazendo consigo uma
violência e exigência descabida contra si-mesmo, agredindo,
violentando, e produzindo no seu próprio corpo sintomas,
doenças que acabam sendo resultado de uma maneira
equivocada de existir. A existência necessita analisar esta

66
produção de idéias, caso contrário, as idéias podem se tornar
uma espécie de existência, este desvirtuamento fantasioso
coloca o ser em séria desvantagem porque tende a cobrar-se e
exigir-se além daquilo que ele pode dar. Mais tarde aparecem
todas as seqüelas e dores que foram depositados no corpo por
culpa de uma compulsão ao trabalho, por exemplo. Enfim, toda
esta adição torna-se violenta à existência, não permite ao ser
enxergar além do que está estabelecido, muitas doenças surgem
com o intuíto de tirar a venda dos olhos do ser, porque o
“cego” não consegue enxergar além de suas idéias absolutistas.
A doença é a expressão da natureza organísmica
comunicando um deslize ou forma equivocada de existir. É
preciso entender a lógica inconsciente do organismo para não
agredir e ofender suas pulsões e emoções, caso a pessoa
persista numa existência agressiva provavelmente o organismo
vai produzir uma resposta à altura quando se sente
desrespeitado no seu ciclo de evolução.
Nas palavras de Gabriel Marcel “O desejo, em
primeiro lugar, busca sempre a possessão e tem por
companheira a angustia de perder o que se tem, e o desespero
de não tê-lo em sua totalidade21”. Todo ser está impulsionado
pelos “desejos” e muitos acabam se perdendo no decorrer da
caminhada são abocanhados e dominados pela compulsão do
“ter”, ter conhecimento, ter dinheiro, ter um apartamento, ter
um amor, ter filhos, ter amigos, ter poder, ter reconhecimento,
ter influência na sociedade, ter domínio sobre os outros. São
inúmeras as formas de expressão do “desejo de poder” e muito
desta incorporação cultural tem relação direta com o superego,
são justamente este modelo de ser, baseado nas exigências,
cobranças e culpas que acabam gerando muito sofrimento.
Como existir fora desta condição imposta pelo
superego? Somos todos filhos da cultura, queiramos ou não
fomos condicionados pela educação e pelos valores da
21
Verneaux, Roger. Op. Cit. 1952, pág. 203.

67
sociedade a comportar de uma determinada maneira. Quando o
resultado de uma existência produz doença, falência, dor,
sofrimento, perda, seria interessante o “ser” fazer uma pausa e
analisar este estado de angustia, encontra-se angustiado porque
vive na existência sempre inseguro e com muita incerteza. Se
está ansioso é porque tem medo realmente de não conseguir
realizar o seus desejos e muitos acabam se desesperando
quando estão esgotados e não possuem mais força para lutar
contra as doenças emocionais e orgânicas.
O desejo mais positivo nas palavras de Gabriel
Marcel é o “desejo de autonomia, e por último, pelo homem
que aspira a posse, a administrar ele mesmo a sua vida, como
administra os seus bens, exclui toda intervenção exterior. O
ponto de vista do “ser” reduz o homem ao nível dos objetos e
coisas. Mas o homem transcende este plano: ele é um ser22.
Numa sociedade eminente capitalista se propõe como máximo
valor o “lucro” mais dependendo do tipo de trabalho realizado
os níveis de exigência podem estar acima do que o organismo
pode dar, e desta forma inicia-se um processo muito doloroso
de dor e sofrimento, estou me referindo quando a própria
pessoa administra a sua vida baseada nas metas de seus
negócios.
Sem ter plena consciência do que está fazendo
consigo mesmo obedece aos desejos compulsivos, seu estilo de
vida é a sua verdade, portanto, não interessa qualquer tipo de
crítica ou observação, obcecado por realizar determinada
metas, trabalha quatorze ou dezesseis horas por dia, a sua vida
pertence ao trabalho, este é seu valor maior e nada mais é
importante que isto, o dependente do trabalho utiliza o tempo
para fugir de si-mesmo e das questões mais íntimas e
particulares, por isto que o trabalho nem sempre é fonte de
prazer mas de stress e angustia, ansiedade e alguns casos de
sofrimento.
22
Verneaux, Roger. Op. cit. 1952, pág. 204.

68
Este é o problema do ser em relação ao trabalho,
deixa de ser pessoa para se tornar um “objeto” que produz
lucro, distanciando-se cada vez mais de seu íntimo e de das
pessoas de seu convívio pessoal. Mas quando se inicia o
processo de autodestruição a própria pessoa reclama da
existência e diz que todo aquele dinheiro fruto do lucro não
tem o menor significado para ele, no seu desejo inconsciente
pode passar a idéia de que em posse do “dinheiro” todos os
seus problemas existências, afetivos, e familiares estarão
resolvidos, ao se deparar com a dura realidade que o dinheiro
não dá conta de todas as exigências do organismo e da
existência que todo este poder é uma bela ilusão, porque amor,
afeto, carinho, sinceridade, calor humano, não se compra.
E quando aparece alguém vendendo afeto, sexo, amor
é pago com uma contribuição, através do poder do dinheiro, a
pessoa sabe que esta conquista não acontece pelos valores e
qualidades que tem, é simplesmente por um jogo de interesses
e neste caso o outro ser também é um “objeto” de consumo,
uma espécie de mercadoria. Quase sempre este tipo de
negociação acaba em tragédia, porque ambos estão nesta
relação por uma obrigação, uma necessidade, não é algo
espontâneo e livre. Novamente aparece o fenômeno da
possessão, do domínio, da compra, da imposição. Mas aqueles
que permitem este tipo de negociação pagam um preço muito
alto, acrescido com juros e correção, através da humilhação, da
rejeição, da inutilidade, da submissão, etc. Parece-me que o
preço de quem se vende é muito alto. Pergunto: Será que vale a
pena pagar este preço?
Os valores humanos nunca acontecem de forma
automática. “O ser humano pode perder seu próprio ser por
uma escolha sua, coisa que não pode fazer uma árvore, nem
uma pedra. A afirmação do ser cria valores na vida. A
individualidade, o mérito e a dignidade não são coisas que dão
de graça através da natureza, mas sim coloca numa tarefa a

69
realizar através de nós mesmos23”. Será realmente que somos
conscientes plenamente sobre as escolhas que realizamos em
nossa existência? De que maneira poderia abarcar a intenção
dos acontecimentos e sua posterior influência sobre nossas
decisões? Se tivéssemos a certeza que determinadas escolhas
eram corretas em nossas vidas, com certeza não existiria
nenhum tipo de sofrimento ou fracasso? Penso que ao
contrário, muito do que pensamos, sentimos ou realizamos, não
temos plena consciência do tipo de influência que tem sobre a
existência.
O processo de formação da consciência é contínuo
não é algo estanque é um tipo de milagre que vai acontecendo
aos poucos, mas a sabedoria da vida indica que existem valores
éticos que enaltecem a dignidade do humano no homem. Na
consciência permanece escondido como uma espécie de
segredo os “desejos inconscientes” que cada ser humano
carrega lá no seu íntimo. Mas para poder dar sentido aos
valores é necessário antes vivê-los, este testemunho é o
veredicto final capaz de propor a saúde e felicidade, por isto
mesmo a condição do “ser” pertence ao modo de como assume
e vivencia os seus valores, existe alguns valores como a
sinceridade, a honestidade, a simplicidade, a sabedoria, que não
se aprende na escola e muito menos nos centros acadêmicos,
sua incorporação na vida é assimilada na infância, mesmo
porque os gestos de humanidade e desumanidade se
apresentam ainda na infância e de um momento para outro,
aparece o egoísmo, a competição, a mentira, etc.
Os valores não dependem do ambiente material ou de
uma situação socioeconômica favorável, isto não é uma
garantia para a existência dos valores num determinado ser. Os
valores são aprendizagens passados de geração e geração e
muitos deles são apreendidos sobre duras penas, pois é uma

23
May, Rollo y otros. Existencia: nueva dimensión en psicología y
psiquiatría. Madrid, España, Gredos, 1977, pág. 52.

70
exigência dos adultos e da sociedade a obediência a certos
valores. E mesmo assim esta criança emocional está presente
através das emoções no mundo psíquico do adulto, os valores
são a âncora que possibilita a convivência em harmonia no
meio social.
A humildade em algum momento da vida pode se
tornar um valor e em outras circunstâncias torna-se uma
patologia quando é confundida com submissão. A grande
questão na existência é que nenhum ser nasce pronto, acabado,
terminado, são muitas as aprendizagens, os encontros e
desencontros que podem causar prejuízos na auto-estima.
Um outro valor inestimável é a realização de um
sonho na existência. Porque no sonho está presente o nível de
persistência, de inteligência, de perseverança, de motivação, de
esperança, de eficiência, etc. São muitos os valores
indispensáveis à realização plena do ser, os valores são o
remédio mais eficaz para a saúde emocional. Quem é ético
possui o valor da justiça não pratica a injustiça, quem é
verdadeiro para consigo mesmo não consegue ser falso para os
outros, quem é seguro de si, não passa insegurança e medo,
quem possui a integridade a sinceridade não tem necessidade
de ser hipócrita ou de representar uma máscara social.
Quem possui dignidade e honestidade não pratica a
corrupção, quem possui o dom do amor não produz a discórdia,
quem tem dentro de si a bondade não precisa explorar e
dominar, quem possui estes valores propõe para si e aos outros
uma ótima saúde, porque consegue estender no ambiente onde
convive esta alteridade, esta empatia, tornando-se desta forma
amado e respeitado. A doença precisa da perversão, da mentira,
da falsidade, do sadismo, da corrupção, da dominação, todas
estas atitudes psicológicas podem até ser conscientes, mais de
alguma forma são desconhecidas pela própria pessoa que as
pratica.

71
Estas atitudes traiçoeiras da existência movimentam a
discórdia, a competição, a solidão, o individualismo, o
egocentrismo, o narcisismo, um ser infectado por estes tipos de
atitudes acabam ficando doentes. A saúde é uma prática de
vida, necessita além da teoria uma vivência dos valores
maiores que possibilitam à confiança, a alteridade, a
compaixão, a cooperação, no caso para aqueles que fizeram por
merecer. Toda e qualquer culpa necessita fazer uma descarga
de consciência, complementa-se a isto a autopunição, ou seja, é
uma prática de perda de energia e uma péssima qualidade de
vida. Uma consciência tem de ter muita firmeza para ser fiel
aos seus princípios, esta congruência comportamentos
confirmam a qualidade de vida de uma pessoa, quando
notamos alguém em conflito, dividida, falando mal de si
mesmo e dos outros, temos a clareza de que está dominada por
algum tipo de neurose e isto significa sempre sofrimento.
Muitas vezes estamos inseguros e não temos muita
certeza sobre os desígnios do seu futuro. Ma a existência é
feita de valores, são as cores que dão vida e sentido a cada ser.
Muitas das expectativas das quais os seres acabam criando para
si mesmo, precisa de um certo investimento de inteligência,
tempo, e dinheiro. E tudo isto é passível de realização, cabe a
cada “ser” ter a paciência e a necessária perseverança para não
desviar-se do caminho proposto. O valor da dignidade de
assumir-se na existência com a devida coragem, de exigir-se ao
máximo, naquilo que sabe fazer de melhor. Mesmo diante
daquelas tempestades que nos pegam de supressa, que
sacodem, e ainda que caídos temos de ter a decência de saber
levantar e enfrentar com todas as suas forças estes maremotos
da existência.
Não é qualquer traição, humilhação, incompreensão,
injustiça, perseguição, que tem o poder de nos derrubar, ao
contrário, façamos disto a nossa fortaleza, comece por provar
para si mesmo de que é merecedor do melhor que a existência

72
oferece. Mesmo diante dos contratempos, das decisões,
aprende quem melhor sabe dar-se o devido valor. O primeiro
obstáculo nunca pode fazer com o desânimo possa impedir a
continuidade de um objetivo que está sendo perseguido.
Podemos adiar por um tempo, reavaliar os ganhos e perdas,
mas persistir sempre em busca daquilo pode ajudar a ser mais
feliz. Existem momentos que temos enfrentar os possíveis
desafios que possa ser encontrado no decorrer de nossa
caminhada. Quando um ser incorpora um desejo de realizar-se
num projeto de vida. Às vezes surgem dificuldades,
econômicas, afetivas, materiais, é neste momento que se deve
recorrer a sua inteligência e criatividade para não paralisar a
continuidade da realização do seu objetivo.
A diferença de um ser em relação a um outro depende
unicamente no grau de envolvimento e persistência, para
chegar a aqueles resultados que espera para sua vida, em vez de
usar os empecilhos da existência para esconder-se da
responsabilidade e do compromisso consigo mesmo, utiliza as
pressões, os bloqueios, os impedimentos, para aumentar ainda
mais a sua força para caminhar em direção ao sucesso. Jean
Paul Sartre afirma que: “pela sua liberdade o homem é para si
mesmo seu próprio fundamento." Não é, para dizer a verdade,
o fundamento do seu ser, justamente porque ele não é Deus,
não se origina, mas sofre, ao contrário uma contingência
irremediável. Mas este é o fundamento do seu “nada” que
acaba sendo fundamento de sua existência, ele se faz existir.
Assim também, o homem enquanto ser livre deve aplicar o
princípio de Heidegger. “A existência precede e condiciona a
essência24”.
Com esta consciência o ser pode utilizar a sua decisão
para investir com liberdade a sua inteligência em proveito
próprio, estamos tratando de umas das probabilidades onde o
curso da existência atende ao desejo do autor. A liberdade
24
Verneaux, Roger. Op cit. 1952, pág.179.

73
precisa saber conviver com os valores e, além disso, estar livre
para usar todo o seu potencial para realizar o seu sonho. Os
termos adotados por Jean Paul Sartre (1905-1980) Filósofo foi
um dos expoentes do existêncialismo contemporâneo. O seu
pensamento reflete a preocupação existêncial de que o homem
deve sempre fazer uma opção quanto à sociedade, família,
estado, cultura, educação. Existe uma multiplicidade de
caminhos. Sua teoria parte dos seguintes conceitos do “Em si”,
pertencem ao vocabulário de Hegel. Em Hegel a dialética se
expressa pela tese, antítese, e síntese. E a tese é o “em si”. O
ser dado a si mesmo. A antítese é o “para si” o ser alienado,
dividido, que esta fora de si mesmo. A síntese última é o ser
em “si-para” o espírito universal, o absoluto Deus25. O ser na
existência inicia seu caminho com um sonho, logo depois
constitui-se através da experiência num domínio mais intenso e
profundo para dar segurança e robustez ao “em si” para
conseguir esta metamorforse necessita do autoconhecimento, o
ser quando encontra-se dividido, em conflito, confuso, doente,
não consegue centrar sua atenção no potencial de energia que
tem dentro de si-mesmo.
Esta distinção do “em si” produz uma liberdade que
será conquistada com muita luta, esforço e dedicação, para
aproximar-se da liberdade de ser, antes precisa conquistar-se na
sua plenitude humana. O significado do “em-si” tem ligação
com esta paz de espírito dos bens sucedidos na existência, é
desta harmonia, deste equilíbrio, desta determinação, que o
torna livre para poder optar, sabe que quanto mais autonomia,
mais individualidade, mais autodomínio, mais inteligência,
mais condição existirá para poder usufruir desta ampla e
irrestrita liberdade.
Somente depois desta consciência de conseguir este
espaço próprio para desenvolver e colocar em prática a sua
potencialidade que se dá início o “para-si” quanto mais
25
Vernaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 176.

74
liberdade de ser, mais chance terá de se auto constituir-se em
segurança pessoal. Esta descoberta do que se pode encontrar na
existência é transformada no cuidado para não recair nas
ideologias impregnadas de dominação e alienação que atentam
contra o direito de ser livre.
A alienação do ser esta impregnada de conformismo
e submissão, ou seja, não existe liberdade para poder decidir ou
escolher diferente, esta preso nas suas armadilhas neuróticas.
Quando mais autoconhecimento dos movimentos de suas
emoções na existência, mais condição para agir com
humanidade com aqueles que estão presos na malha da
ignorância emocional. Esta condição na existência do “para-si”
tem uma relação direta com a paralisação do exercício da
criatividade, da inteligência, inerte, fica entregue as
determinações e conselhos dos outros.
Depois de fazer-se valer diante do “em-si” e do
“para-si” surge o mistério do “si-para” e a primeira pergunta
que se levanta é de onde vim, qual é o sentido nesta existência,
e para onde vou depois da morte. Quanto o ser percebe que
também participa de uma finitude, seu olhar se ergue aos céus e
diante da imensidão do universo fica perplexo do sentido e
significado do seu ser nesta existência. Este é seu grande
dilema de saber lidar com este ser absoluto chamado Deus.
Não existe maneira de negar a sua existência porque
em cada “ser” conhecido e desconhecido no cosmo participa
desta orquestra maravilhosa muito bem dirigida pelo seu
maestro. Existe uma harmonia nesta grande sinfonia do
universo, tudo estas interligadas às partes e as partes fazem
parte do todo. E desta forma o “ser humano” coloca-se no
curso desta grande corrente de feitio de ser, agir e pensar,
procurando a melhor maneira de reencontrar-se consegue desta
forma participar da infinitude desta sinfonia musical do
universo.

75
“Não a liberdade se realiza e manifesta por seus
“projetos”, pela atividade que exerce, pelo seu comportamento
global em relação ao mundo. Cada um apreende sua liberdade
pelos seus atos em relação ao mundo e pretende transforma-lo,
em definitivo o homem se descobre no mundo como um ser
livre, seria, pois esta que esta tomada textualmente de Lequier,
mestre e amigo de Renouvier: “realizar, e realizando, fazer-se,
e não ser outra coisa que isto”. O homem não é livre para ser
livre, está “condenado” a ser livre26. No seu ato de pensar
desmancha e constrói realidades, a imaginação é o elo de união
que torna possível a liberdade do ser para realizar, sua força
esta posta na sua confiança, criatividade, determinação,
arraigada a uma paixão muito forte por tudo aquilo que
acredita.
Esta união de ser livre para realizar leva ao encontro
de conhecer novas realidades, estabelecer interessantes relações
de amizade, ampliar à confiança em si mesmo, é quando
começa aparecer esta liberdade preenchendo as lacunas, as
faltas, aproximando-o cada vez mais de uma prática
humanitária, nada é mais saudável e verdadeiro do que os
projetos realizados em comum, onde ambos trocam idéias,
experiências, e ao mesmo tempo, vivênciam uma afetividade, o
humanismo, necessita desta liberdade para confiar no outro,
onde a confiança, a admiração, o afeto, o amor, continua
existindo mesmo depois de décadas, ou talvez de toda uma
existência. “Caminhante não há caminho o caminho se faz ao
caminhar” se este caminhar se realiza num projeto pessoal e
individual tem sua validade, mais o valor maior é quando se
torna possível na convivência para poder com liberdade vibrar
com as conquistas e realizações de um grupo de pessoas.
A liberdade pressupõe a utilização de uma condição
de menos valia do ser, onde o ser encontra-se sozinho, perdido,
confuso, pobre, e triste, mas quando decide por vontade própria
26
Vernaux, Roger. Op cit. 1952, pág.179.

76
usar a sua liberdade para procurar um caminho onde seja
possível a vivência plena das faltas e carências oriundas da sua
própria existência. Por si só este fato de existir, traz consigo
muitos bloqueios, medos, ansiedades, vícios, preocupações,
angustia, mas esta mesma realidade cheia de problemas, pode
ser o antídoto contra o veneno da desesperança, do desespero,
da depressão.
E neste momento o ser precisa estar envolvido por
algum objetivo maior além do material, algo que movimente
seu ser. Neste momento o entusiasmo para viver tem de estar
além de um vício, ou das faltas amizades, o ser precisa se
emocionar e sentir que esta falta de amor, de carinho, de afeto,
de dinheiro, de esperança, de calor humano, de amizades, seja
um motivo a mais para que reúna seu potencial para
transcender estas faltas, mesmo estando acima de suas
condições, entusiasmar-se com a existência é voltar para dentro
de si e lá no fundo do seu espírito procurar a força, a coragem,
a determinação, para assumir-se livremente por um longo e
árduo caminho em busca desta realização pessoal, econômica,
profissional, religiosa, amorosa, enfim todas as instâncias
presentes no ser que clamam por uma atenção a estas faltas.
Sartre afirma que “Cada um é responsável não só
pelos seus atos e das suas conseqüências, como atualmente se
admite, mas de si mesmo enquanto ser, porque ele faz a si
mesmo, e do mundo todo, “cujo peso leva somente ele, sem que
nada e ninguém possam aliviá-lo.” Não existe desculpa
possível, porque as escolhas são gratuitas e não pode
justificar-se, não pode haver culpa, nem tristeza, por ter vivido
de tal maneira, justamente porque faz parte da condição
humana; só existe somente uma imensa angustia, que é o
sentimento que faz parte da existência27”. Sou obrigado a
discordar da maneira como interpreta a existência do ser na
realidade vivida, quando um ser é tomado de uma expectativa
27
Vernaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 182.

77
para preencher uma “falta”, seu organismo, sua inteligência,
suas estratégias acenam com um desejo enorme de que aquele
desejo seja realizado, mas quando isto não acontece, qualquer
ser experiência a frustração, deste momento em diante começa
a lidar com emoções, que antes eram desconhecidas pela sua
pessoa, vivencia estas emoções independente de sua vontade,
muitos dos seres humanos estão aprendendo com as duras
penas e mesmo que não queiram acabam arcando com as suas
conseqüências.
Quando o ser olha para o passado e toma consciência
de que poderia ter feito melhor, ou percebe que de alguma
forma cometeu sérios prejuízos a uma outra pessoa, neste
momento surge a culpa, esta tomada de consciência é
importante porque torna possível um código de valores para
garantir a vida em sociedade. Muitas vezes por culpa dos meios
econômicos, de estrutura de poder, de dominação, bloqueiam a
livre expressão do ser, existe sim uma culpa social, somos
indiretamente afetados pelo tipo de sociedade que vivemos.
Existem outros casos onde o peso da existência é
superior a força da sua capacidade emocional, é deste peso de
culpa, de medo, de falta de sentido, de solidão, de falta de
amor, que surge um ser iluminado que é capaz de um gesto de
humanidade. Neste caso temos compaixão de um ser
amargurado por estar vivendo uma existência infeliz. É neste
convite entre um e outro que ambos podem dividir as
responsabilidades e desafios para que o peso das decisões se
tornem mais leves e compartilhadas, este amor fraternal é uma
característica dos valores humanitários, somos responsáveis
não somente por nós, mas também pelos amigos e por toda a
humanidade.
As desculpas existem, as justificativas também, as
injúrias, as perseguições, as mentiras, a inveja, o ciúme, todas
estas formas de relação fortalecem o ser na sua constituição de
saber conviver com a perversidade, com os medíocres, com

78
todos os tipos de seres humanos, bons ou ruins, esta vivência
transcende para fazê-lo entender a complexidade das situações
paradoxais onde a decadência, a destruição, a solidão, o vício, e
outras tantas manifestações mostram o ser decadente, caído,
desvalido, enfraquecido, abandonado, perdido. É neste
momento que surge a compaixão, um gesto de humanidade, um
amor fraternal, comprometendo-se em retirar o outro desta
condição de indignidade. Se em algum momento o homem
tornar-se egocêntrico e narcisista desligando-se de qualquer
compromisso social e com aqueles desvalidos pela existência
corremos um sério risco de fazer desaparecer a humanidade da
face da terra.
Muitas das escolhas não são de todo racionais. Pascal
já dizia que “o coração tem razões que a mente desconhece”
em outras palavras não são os conceitos e interpretações da
realidade que tem o poder de proporcionar a realização e a
felicidade a uma pessoa, mas somente o encontro de um amor
fraternal, de respeito, de confiança, de crédito, de esperança, é
que faz ressurgir na pessoa do outro o desejo de recomeçar para
alcançar uma existência mais feliz. Quando um ser humano
estende a mão a um outro, ou pratica algum gesto humanitário,
faz com que apareça no íntimo daquela pessoa depressiva,
revoltada, um novo significado e um desejo de voltar a
acreditar no amor, pois indiretamente está presenciando e
vivênciando este gesto humano, fora de qualquer condição de
interesse, ideologia, ou manipulação.
Um ser pode encontrar-se inseguro e neste medo do
futuro recair num estado de angustia, mas não podemos
desacreditar que este mesmo ser tome consciência do seu
estado e delibere por viver diferente, tomar atitudes diferentes,
isto é plenamente possível inclusive elaborar as suas crises
existências oriundas das culpas, medos, angustias ou
ansiedades. Um ser pode estar envolvido nestas condições da
existência por algum momento de sua vida depois decide

79
diferente e começa uma nova vida. A vida é plena de
significados positivos de encontros de vitória, de amizades
verdadeiras, de realizações e conquistas, a maneira que alguém
considera a existência depende muito de como está vivendo no
momento e cada um avalia e projeta nos seus escritos ou na
forma de falar, por isto mesmo o ser humano tem a verdade em
teoria. A verdade pode ser conquistada com a mais plena
liberdade através da incorporação da sinceridade, de
honestidade, de uma busca constante de autoconhecimento.
È impossível prever o futuro, mas independente desta
constatação o futuro depende das ações neste preciso momento,
o resultado de uma história depende dos acontecimentos do
passado, o futuro está acontecendo, se realizando, sua
diversidade é enorme porque cada ser direciona-se para algo
que possa atender a sua demanda interna. Para não estar em
falta consigo mesmo em primeiro lugar o sentimento de
gratidão, de reconhecimento, pela oportunidade de viver e
realizar nesta existência um projeto de vida. Viver é isto e não
aquilo é bem mais que isto e é aquilo, pois tudo aquilo é visto
que isto tudo e não é nada.
Os problemas de violência, agressão, morte, são
mostrados constantemente pela mídia, pelos jornais, e
noticiários televisivos, além de divulgar as imagens de países
que se encontra em guerra, fazem com que o homem olhe para
dentro de si mesmo, depois se sinta impotente e fraco para
resolver estas questões da agressão, procuram algum tipo de
explicação, refúgio ou segurança em alguma religião,
ideologia, ou na força militar. “Muitos procuram fora de si
mesmos; uns acreditam na ilusão da vitória e poder; outros;
em tratados e decretos; outros; ainda, na destruição da ordem
vigente. Mas são muitos poucos os que buscam dentro de si,
poucos os que se perguntam se não seria mais útil à sociedade
humana se cada um começasse por si, se não seria melhor, em
vez de exigir dos outros, coloca em prova primeiro a sua

80
própria pessoa, em seu foro interior, a suspensão da ordem
vigente, as leis e vitórias que apregoam em praça pública28”.
Carl Gustav Jung é sem dúvida um dos psicanalistas de grande
relevância na sociedade atual porque sua teoria é muito rica e
importante para compreender o homem sobre a ótica da
mitologia, dos arquétipos, do inconsciente coletivo, da anima e
animus, sua teoria é extremamente interessante.
A compreensão da psicanálise Junguiana defende a
tese de que análise pessoal pode desenvolver no homem um
processo de autoconhecimento proporcionando para si um
caminho de descoberta sobre o real sentido da existência
humana. Muitos seres humanos tentam desesperadamente
buscas nas obsessões e compulsões externas uma solução para
o seu drama interior. O tratamento analítico amplia a
consciência e desenvolve no íntimo de cada um uma melhor
compreensão de sua humanidade, quanto mais o ser consegue
se conhecer mais chance tem de sair deste estado de impotência
e transcender este estado primitivo e arcaico que tornam os
homens obcecados pela guerra, violência, dominação,
exploração, acreditam que seu próprio ser é uma espécie de
“semi-deus” alguém com poderes ilimitados que pode dar e
retirar a vida. Toda esta selvageria primitiva realça o quanto o
“ser” está distante das forças instintivas que inconscientemente
produzem tais catástrofes sociais.
Mas aquele homem que olha dentro de si consegue
perceber o seu estado de limitação e que a verdadeira
segurança não está nas coisas materiais ou externas, mas se
encontram no íntimo das forças instintivas da natureza. Este
estado de consciência de que cada um deve fazer o seu próprio
projeto de vida, buscando nas suas ações uma congruência,
uma autenticidade, um testemunho, como a expressão
verdadeira de um “humano” de verdade. Se cada ser humano

28
Jung, Carl Gustav. Estudos sobre psicologia analítica. Obras completas.
Vol. VII. Petrópolis, 3ª. ed., Vozes, 1991, pág.15.

81
realiza esta grande tarefa de começar primeiro na sua casa
amplia as possibilidades de fazer com que a existência de certo.
E com este testemunho de entender-se na sua complexidade
interior, buscando a partir de suas dúvidas e incertezas a
decisão mais correta para encontrar-se na solução daqueles
medos, bloqueios, patologias, que acabam distorcendo,
modificando, a real compreensão do movimento sutil de seu
mundo emocional.
Cada pessoa nasce com uma missão de criar coragem
para transcender as suas limitações, em vez de reclamar,
revoltar-se, indignar-se, voltar-se para pensar a energia
presente fenômenos do organismo, encontrando algum novo
caminho que possa dar a resposta às suas dúvidas e incertezas.
Quanto maior a consciência do ser sobre si mesmo, maior é a
responsabilidade pela sua felicidade, sua saúde, seu sucesso,
seus fracassos, suas dores, suas frustrações, etc.
O fato de encontrar-se na existência é uma das
maiores oportunidades que a vida oferece para a realização
pessoal, porque indiretamente provoca no “ser” a necessidade
de produzir, de realizar, de fazer, tudo isto com a intenção de
torná-lo mais feliz e realizado. Esta constante busca de
satisfação torna o organismo um centro de combustão capaz de
produzir todas as energias necessárias para garantir a
sobrevivência. O único fato impossível de resolver é o encontro
com a morte espiritual, emocional, amorosa, afetiva,
econômica, familiar, etc. São muitas as mortes que o “ser”
precisa enfrentar no decorrer de sua existência.
Rollo May, um dos maiores expoentes da psicanálise
humanista existencial, assevera que aquele que “conseguir ser
com autenticidade e individualidade consiste essencialmente
em saber escolher; ser ele mesmo implica uma luta amorosa
com os outros “eus”; ser ele mesmo, por último, só é possível
por um desenvolvimento no mundo. A liberdade é o manancial
original (Ursprung) da existência, o ato da transcendência

82
pelo qual o eu deve emergir no mundo, afirmando-se de
maneira radicalmente original, recriando-se a si mesmo.
(Selbstschopfung)29”. Não existe outra forma que começar a
compreender a manifestação dos desejos de um ser que
pretende ser “autêntico”, “congruente”, “autônomo”, esta
perpesctiva mostra uma realidade psíquica consciente baseada
nos desejos da vontade.
Mas existem outras realidades escondidas, ausentes,
latentes, que se manifestam através das emoções e nas decisões
pessoais. Por isto o “Conhece-te a ti mesmo” de Sócrates tem
muito a nos ensinar, quanto mais a pessoa conhece suas
fraquezas e valores maior chance tem de não projetar
insatisfações, cobranças, imposições, crenças, para aquelas
pessoas do seu convívio pessoal. Esta instância psíquica
implica nas escolhas e decisões porque não são totalmente
conscientes. Esta outra realidade inconsciente acaba
favorecendo a o “ser-para-nada” um ser desprovido daquilo
que é mais essencial e importante na sua vida, esta qualidade
quando não consegue aparecer na existência do ser, acaba
indiretamente contribuindo para fomentar a certeza de sua
inutilidade, neste momento decide pela sua autodestruição
pessoal. O “ser-para-nada” tem a proteção das neuroses, ou
seja, são desejos conscientes de buscar sempre o melhor, sua
ação de vontade é de “ser-para-tudo” com vigor, entusiasmo,
motivação, alegria, felicidade, mas a sua sensação na existência
é de esgotamento, dificuldade, conformismo, apatia, desânimo,
muito medo, pânico, manifestações estas que tomam conta do
seu “ser” sem a sua menor consciência.
Estas duas realidades do “ser-para-nada” e o “ser-
para-tudo” estão presentes quando o ser não consegue ser
verdadeiro, congruente, honesto e sincero. Inicia-se o processo
de esgotamento de sua energia psíquica, portanto, sem tomar

29
May, Rollo y otros. Psicología existencial. Buenos Aires, Paidós, 1963,
pág.130.

83
consciência das emoções inconscientes a existência permanece
neste estado de inconsciência30. Esta dicotomia gera uma
confusão no mundo das emoções, perdido nas suas
racionalizações acaba perdendo espaço para a sua identidade
pessoal. O “Ser-para-nada” apresenta um desejo consciente de
buscar tudo aquilo de bom e maravilhoso que a existência
oferece, porém, outros “eus” desconhecidos mais atuantes
permanecem sobre o domínio da neurose.
Quando procura todo tipo de solução externa para
resolver o seu problema na existência, como por exemplo,
melhorar a saúde, ganhar algum dinheiro, ter um grande amor,
estabelecer relações profundas de amizade, inconscientemente
investe tempo e dinheiro na procura de algum conselho,
milagre, previsão, esquecendo que a solução encontra-se dentro
de seu próprio ser, sendo condição indispensável voltar-se para
um reencontro com o seu potencial interior, para alcançar este
objetivo é preciso fazer sua análise pessoal, é preciso desta
coragem íntima e muito particular para defrontar-se com os
seus dilemas pessoais, acrescentando a tudo isto uma certa dose
de simplicidade para poder aprender a partir do outro e consigo
mesmo.
Talvez muitos com certeza, alcançam estes objetivos.
Mas não é o caso dos dependentes químicos, dos adictos ao
trabalho, dos ninfomaníacos, etc. Gostaria de explicitar com
maior clareza como se apresenta esta psicopatologia existêncial
e emocional digo isto porque ambas são muitos importantes e
acabam se complementando, estas duas realidades aparecem
sobre a roupagem disfarçada da fantasia e a realidade. Todo o
“ser-para-nada” vivência uma atribulação, um incomodo, um
esgotamento de suas forças psíquicas porque quanto mais se

30
Para entender com mais profundidade este tema queira ler o livro “A
natureza inconsciente das emoções” publicado pelo ITPOH, na cidade de
Santa Maria no mês de setembro de 2007.

84
debate, mais se afunda no desespero, no pessimismo, e na
autodestruição.
Quando Rollo May comenta sobre a existência dos
diversos “eus” relembra o conflito psicopatológico da rigidez
de atitude em relação à representação dos objetos, coisas, e
pessoas, existem uma crença solidificada em base a alguns
personagens que acaba incorporando a sua personalidade.
Neste caso a pessoa tem a função de incorporar diverso papéis,
máscaras ou personagens. Existe de fato uma inteligência e
uma produção de trabalho que acaba tendo um resultado
contrário aos seus desejos inconscientes. A pergunta que acaba
acontecendo é porque sou assim? Como isto foi acontecer
comigo? Estou numa ansiedade enorme, me sinto com uma
espécie de transtorno de humor, estou percebendo que a vida
não vale a pena ser vivida, tudo dá errado para mim, estas
queixas denunciam o nível de dificuldade de reencontrar a sua
identidade pessoal, o ser-para-nada vive esta realidade, e
muitos acabam buscando auxílio nas drogas ilícitas ou licitas
como uma forma de modificar o seu modo de enxergar a
realidade e de alcançar objetivos.
Todos nós somos conscientes que as drogas produzem
um efeito no cérebro de euforia, entusiasmo, que talvez o
auxilie a combater este estado de desânimo, apatia, tristeza,
frustração e insatisfação. O remédio ou as drogas ilícitas
recriam uma realidade fictícia, ilusória, fantasiosa, muito
parecida com os personagens assumidos no decorrer de sua
existência, a realidade algumas vezes é muito exigente não
porque seja como um determinismo, mesmo porque para
muitas outras pessoas é agradável e cheia de realizações.
Estes núcleos neuróticos existem independentes da
vontade da pessoa são vivências presentes no mundo das
emoções e representadas através das imagens que acabam
retratando a sua realidade psíquica, o “ser-para-nada” não
consegue utilizar o seu “potencial vital” para produzir atitudes

85
saudáveis e benéficas para a sua existência. Este conflito entre
o “querer-ser” e o “ser-para-nada” eleva a perda da energia
psíquica levando o “ser” a um completo esgotamento de suas
forças psíquicas.
O “ser-para-nada” demonstra boa vontade, iniciativa,
entusiasmo, para enfrentar as demandas da existência, mas
quando se sente inseguro, com medo, recorre a uma das suas
personagens, neste momento inicia-se o processo fantasioso
que o atira no mundo da mentira e do engano. Esta
incorporação de “eu” fictício e irreal representa um papel de
vencedor, de coragem, de sinceridade, de honestidade, tudo
com a intenção de agradar a uma autoridade, ou utilizá-la para
ser aceito socialmente, enquanto está envolvido nesta dinâmica
fantasiosa, aumenta a confiança e poder deste núcleo
complexual inconsciente.
Caberia fazer um estudo com estes tipos de pessoas
para identificar a relação destes personagens com alguma
dificuldade ou bloqueio que vem enfrentando na sua vida.
Estes diversos papéis que o “ser-para-nada” vivência acaba por
anular e recalcar o seu potencial produtivo, como está
absorvido por este papel precisa utilizar sua inteligência,
sedução, envolvimento, para convencer as pessoas mais
próximas de si mesmo que está sendo vítima de alguma
perseguição. Os métodos são os mais diversos, faz o papel de
agredido, pede desculpa, e justifica suas ações, distorce a
realidade, manipula afetivamente e sexualmente, explora
emocionalmente e economicamente, etc.
Nesta triste situação aumenta o nível de angustia,
desespero e ansiedade, seu silêncio destrói o seu coração,
perdido na alteração destes personagens, acaba no final de cada
relacionamento ficando sozinho consigo mesmo. Impregnado
por esta ideologia dominante representa muito bem o seu papel,
é neste sentido que o existencialismo não pode afirmar que
basta somente saber escolher ou decidir, o racional, a vontade,

86
não consegue ser mais forte que estes núcleos patológicos
inconscientes.
A psicanálise humanista31 procura identificar e
compreender este “ser” fragmentado, dividido, incongruente,
mentiroso, e falso. Temos que perceber que a emoção da raiva,
do ódio, e do medo do amor é muito mais forte que seu
raciocínio, sua intenção é bacana, maravilhosa, mas por onde
passa deixa o seu rastro de dor, sofrimento, infelicidade,
manipulação, e difamação. O “ser-para-nada” está flertando
com o patológico, com a perversão, com a ilusão, com a
fantasia, este concluo é a sua verdade, seu mundo é a própria
mentira, distante de si e das pessoas mais próximas. Não
consegue segurança pra si e muito menos para os outros. Assim
realiza segundo sua intenção este papel muito triste e
decepcionante porque é um ser que está se destruindo aos
poucos, o mal que está fazendo não é para os outros, mas para
si mesmo. Quando encontramos um “ser-para-nada” podemos
ter certeza de que se encontra em sérias dificuldades na
existência e em muitos casos com comprometimento de sua
saúde.
Para poder estabelecer um contato mais próximo à
realidade da sua subjetividade temos que admitir o quanto esta
pessoa se encontra dependente desta imagem. A doença
psíquica está intrinsecamente relacionada com a dificuldade de
reorganizar-se na existência e principalmente resgatar a sua
identidade pessoal, viver uma “existência fictícia” é dar
permissão à “fantasia” para assumir o seu “ser”. O caminho
mais próximo para voltar a ter saúde é utilizar o seu potencial
criativo além de produzir algo que lhe proporcione muito
prazer e satisfação. O “ser-para-nada” leva este nome para
identificar aquele ser que não consegue ser produtivo, no final

31
Para mais informações, leia o livro de minha autoria “Considerações
sobre a “Psicanálise Humanista” de Erich Fromm, editado no ano de 2006
pelo ITPOH.

87
da sua história acaba terminando num estado de insignificância
e desamor, fazendo a experiência amarga do abandono e da
rejeição. Ao valorizar a expressão do narcisismo, do
egocentrismo, da manipulação, inconscientemente está
decidindo, escolhendo, por uma existência muito infeliz. Esta é
a primeira desumanidade cometida contra si mesmo, escolher o
caminho do sofrimento.
O tema é longo e extenso, mas gostaria de
acrescentar aqui quais os motivos que levam um “ser” dotado
de consciência a optar por viver na dor, na perda, no fracasso,
no engano, todos nós sabemos das diversas hipóteses que
podemos levantar para poder entender esta decisão. Sem
dúvida, os fatores norteadores desta práxis tem relação com a
infância, família, valores éticos, baixa auto-estima, auto-
conceito muito pobre de si mesmo, bloqueios, e muitas outras
variáveis que poderíamos levantar. Mas na verdade um “ser”
que não conseguiu reerguer-se deste estado de penúria vive
distante e confuso consigo mesmo.
As relações sado-masoquista afirmam que existe um
prazer na dor. É levantada esta possibilidade de que algumas
pessoas possam encontrar prazer através da dor, do sofrimento,
da rejeição, do abandono, revive no seu íntimo esta vivência do
gozo através da perda na existência. E utiliza estes resultados
desastrosos e cheios de sofrimentos para chamar a atenção,
pedir ajuda, buscar afeto, receber cuidados, como uma espécie
de ganho secundário.
Esta carência afetiva impõe ao “ser-para-nada” uma
auto desvalorização de sua pessoa, desiludido, apático,
descrente, pessimista ou triste, permite que um outro manipule
e explore, não se importando com as conseqüências. Estas
situações catastróficas permite sentir-se que não está morto. O
“ser-para-nada” tem um potencial, tem inteligência, mas seu
compromisso é para ser “um nada” na existência. Como utiliza
diversos personagens nas suas atuações, confunde-se, não

88
passa segurança nas suas ações, esgotado, ansioso, angustiado,
desesperado, geralmente recorrem à adição, como no caso do
álcool ou entorpecentes, para anestesiar a consciência e sair do
confronto com esta triste realidade que vivencia. É a mais
triste experiência que alguém possa experenciar, porque sabe
do seu potencial, mas não consegue utilizar toda esta energia a
seu favor. No final das contas temos que escutar um rosário de
justificativas, desculpas, protegendo-se de seus medos, esta
fuga do encontro consigo mesmo e mais especificamente de
suas emoções, fortalece ainda mais o poder de atuação do
medo.
Todos os adictos incorrem no erro de reprimir a
expressão de suas emoções e as liberam quando estão sobre o
efeito da drogas. Se alguém perguntar para um adicto: Você
está ingerindo bebidas alcoólicas? Sua resposta será bastante
rápida e cheia de convicção: “Faz muito tempo que não faço
uso de bebidas alcoólicas”. Neste momento esta atuando a
“persona” uma máscara que tem como objetivo alterar a
realidade e mentir com convicção para si mesmo e para os
outros. Esta é a dificuldade para conviver com este tipo de
pessoa, ou nos afastamos de sua perversidade, ou continuamos
a mentir para nós mesmos que está tudo bem, isto também é
uma grande mentira, este faz de conta, contribui para dar
continuidade à patologia do vício, mas em algum momento de
sua vida esta triste realidade termina sempre numa tragédia,
com escândalos, violência, sofrimento, prisão ou morte.
No que diz respeito ao “ser-para-tudo”, há uma
consciência com valores diferenciados, assume que tem
dificuldades, consegue ser sincero consigo mesmo, admite suas
limitações, está disposto a superar-se, permite-se aprender e a
evoluir, sabe escutar, sabe executar. Esta abertura para
transcender uma consciência primitiva e arcaica, abre
possibilidades de auto superação de suas deficiências e
dificuldades, sua atenção está direcionada para o que está

89
acontecendo consigo mesmo, esta reflexão sobre os fatos bons
e ruins despertam no seu íntimo uma gratidão para aqueles que
de certa forma já trilharam este caminho.
Não existe perversão, mas sim sinceridade,
honestidade, trabalho, investimento, estudo, dedicação,
humildade, valores presentes no seu ser, este “ser-para-tudo”
abre um leque de possibilidades para alcançar todos os
objetivos da sua vida, por isto mesmo não é de estranhar
quando a felicidade, a saúde, o amor, o dinheiro, e tudo aquilo
que a existência tem a oferecer e que está aguardando a hora
mais oportuna para presentear aqueles seres que merecem esta
retribuição. A existência gosta de valorizar as pessoas não por
lástima, pena, ou doença, mas por determinação, coragem,
ousadia e decisão. A existência consegue favorecer um
ambiente onde o “ser-para-tudo” possa usufruir de absoluta
satisfação.
Nas palavras de Rollo May conseguimos
compreender muito bem o “ser-para-tudo”: “Se me dedicasse a
pensar com sinceridade porque e como surgiu o problema,
chegaria a diversas hipóteses, talvez a mais importante: a
pessoa existente. Chegaria a darme conta de tudo, à fonte real
de dados que possuo, a saber, este ser humano que
experiencia, esta pessoa que surge agora, o devir é “construir
um mundo” segundo a expressão dos psicanalistas existênciais
e de maneira imediata32”. Toda a pessoa consciente de sua
existência começa a colocar em dúvida suas crenças e verdades
adquiridas ao longo da existência, não por insistência de
alguém ou de alguma teoria psicanalítica, mas pelo simples
fato de que sente, percebe e concluí que algo está errado no seu
modo de existir. O “ser-para-tudo” este aberto à novidade, a
novas experiências, é flexível, sincero, e capaz de investir com
tempo e dinheiro nesta magnífica tarefa que é a análise do seu
inconsciente.
32
May, Rollo. Op cit. 1963, pág. 26.

90
O grande desafio é sempre ter a coragem de
recomeçar a vida por um caminho diferente daquele do qual já
estava acostumado e para que isto aconteça é necessário
conhecer novas pessoas, culturas, estudar e analisar-se num
processo ininterrupto em busca da paz, da alegria, da
satisfação, de poder estar colocando o seu serviço a saúde
emocional e orgânica. Esta persistência é o caminho mais
seguro para seguir adiante sem estar preso à dogmas,
ortodoxias ou ideologias, saber que não existe a verdade
absoluta, existe sim muitas verdades, que cada pessoa acaba
descobrindo no decorrer de suas experiências. O “ser-para-
tudo” carrega em seu íntimo sinceridade, honestidade, ética,
porque seu único compromisso na existência, não é estar a
serviço das expectativas dos outros, mas em procurar o
caminho que possa abrir as portas de sua evolução pessoal,
familiar e profissional.
O primeiro sinal de saúde psíquica é saber que pode
relacionar-se com os outros e não ser traído pela sua neurose,
digo isto porque o autoconhecimento é condição básica para
alguém alcançar a felicidade, desta forma se torna possível à
convivência entre os seres. O “ser-para-tudo” é um ser que está
presente de corpo e alma, seu olhar, sua vida, sua atitude,
mostram aquilo que tem na sua essência. É bom ressaltar que o
“tudo” tem relação com a totalidade da existência, está ligado
ao ser multidimensional, transgeracional, dentro desta
compreensão o “ser-para-tudo” está convidado a trilhar o
caminho da transdisciplinariedade, de uma visão do conjunto,
de incluir o todo, de compreender a existência numa visão mais
abrangente e sistêmica.
Na existência contamos com esta ampla liberdade de
refazer-se quando a vida, não apresenta os resultados
esperados, é desta liberdade que precisamos para poder
permitir-se decidir diferente, orientando-se na existência por
um caminho que produz bons frutos e resultados. É preciso de

91
consciência para poder decidir entre o bem o mal, entre a
felicidade e a infelicidade, existe sim o “ser-para-tudo”, aquele
que tem a força psíquica e sapiência, utilizando a sua
flexibilidade para não se deixar cegar pelas neuroses. A
liberdade de ser está sempre a favor da saúde, quando as suas
decisões confabulam para tornar o “ser” mais feliz e realizado.
Não existe possibilidade do ser humano dizer que a
liberdade quando mal empregada atrai para si a saúde, ao
contrário, produz conflito, inimizades, ódio, raiva, esta
libertinagem tem o invólucro da perversão. A saúde emocional
precisa da vivência de muitos valores na existência, esta paz,
esta tranqüilidade, este sucesso, precisou de um alto
investimento de ganhos para poder realizar-se como um “ser-
para-tudo” não temos como falar em saúde emocional ou
orgânica quando o mundo das emoções vem à tona e acaba
projetando no outro ou na existência a sua patologia neurótica.
O “ser-para-tudo” utiliza esta liberdade para investir
seu tempo, inteligência, dinheiro, para tornar-se com o tempo
um “ser” com qualidade, deixa de ser apenas mais um na
mesma, ou um mero objeto de manipulação, sua intenção é
escolher com uma consciência amorosa, está comprometido em
todas as instâncias da existência para buscar sempre o melhor
resultado, sua energia psíquica está impregnada de um desejo
de superação, este tipo de existência no ser consegue colocá-lo
em vantagem, isto significa o seu maior valor, porque está
imaginando com os pés no chão, um caminho de conquista,
este é líder por excelência, primeiro realiza uma existência de
saúde, alegria, paz e satisfação. Esta eficiência é capaz de
contagiar a todos os outros, motivando-os a seguir este tipo de
decisão na existência.
O “ser-para-tudo” vivencia uma relação de
cooperação, de valorização, acreditando em suas próprias
potencialidades, não faz da dificuldade uma justificativa para
desistir das suas buscas. Sabe que existem apenas

92
probabilidades e um mundo de incertezas, mas também tem
consciência que pra conseguir os bons frutos da existência
precisa utilizar sua criatividade. Usa sua inteligência para
retirar da natureza, da música, das ciências, da economia, da
arte, da literatura, uma oportunidade para desenvolvê-lo ainda
mais a favor de si mesmo. Então surge a possibilidade de
aparecer o reconhecimento. Não temos como desqualificar, a
essência da criatividade, da inteligência, da coragem e da
persistência, este ser está impregnado de uma certeza, sabe
realmente o que busca na existência.
“Se a existência escapa a toda empresa intelectual de
sistematização, é porque ela é antes de um ato de invenção
quanto à maneira de vivê-la que escolhemos; jamais somos
capazes de determinar de antemão o que faremos, nem o que
seremos33”. Mesmo que o ser faça alguma espécie de
programação sobre sua existência temos que levar em
consideração as interferências de vários acontecimentos que
por mais bem que planejamos é impossível prever com
antecipação o resultado final da existência. O mistério dos
acontecimentos futuros não podem ser pensados, representados
ou demonstrados, esta objetivação sobre a existência é da
ordem da impossibilidade, o único recurso disponível para o
ser é a “intuição” concreta desta intencionalidade psíquica,
capaz de interceder a favor da energia psíquica.
Existem situações inusitaveis e inexplicáveis de
acontecimento inesperado de perda e ganho, mas a existência
continua. Mesmo com o ser fragilizado, tem a capacidade de
suportar estas perdas afetivas ou econômicas, sua força está no
amor, na esperanças de que é capaz de depositar no futuro,
Encara a existência de forma positiva, sua trajetória tem um
rumo certo, nada consegue impedir sua evolução pessoal, este
diferencial da sua inteligência criadora da novidade, está acima

33
Huisman, Denis. História do existencialismo. Bauru, SP, Edusc, 2001,
pág. 65.

93
das mentes atrofiadas pelo medo e do conformismo, sua força
aparece em todos os momentos de sua vida, esta segurança
contagia seu ambiente de trabalho, onde todos podem se
embebedar desta semântica positiva em favor da existência.
O único caminho do ser compreender-se é a partir do
conhecimento de seu interior, o único meio de saber sobre o
grau de sua satisfação na existência tem relação com o nível de
consciência adquirida pelo seu ser na vivência destas
experiências. Estas três instâncias da subjetividade,
individualidade e existência, pertencem às qualidades inerentes
e indispensáveis para dar vida, força, determinação, para
desobstruir os empecilhos que aparecem inesperadamente ao
ser na existência. Quando o ser sofre a repressão de suas
potencialidades, sua debilidade é inevitável, inseguro, sem
consciência de seus atos, encaminha-se para dar sustentação à
revolta imposta por causa daquelas emoções que foram
recalcadas. Esta desintegração da identidade, de sua auto
imagem, de sua auto-estima, de seu conceito pessoal, pode
desencadear um processo de alienação, decidindo a favor do
conformismo, da acomodação, com esta atitude se torna
irresponsável diante de si mesmo34.
Rollo May diz que “Nietzsche e Kierkegaard eram
mais exatos quando descreviam o homem como um organismo
que da mais importância a certos valores, o prestígio, o poder,
a ternura, o amor, que o prazer sexual e até a própria
sobrevivência35”. Esta é a diferença central entre a teoria
psicanalítica humanista e a Freudiana, enquanto uma defende a
tese da pulsão da libido como sendo a força propulsora do ser,
dizendo que a base da etiologia das neuroses surge a partir da
repressão sexual, a teoria da psicanálise humanista defende a
tese: O amor e principalmente o afeto são as condições básicas

34
May, Rollo y otros. Psicologia existencial. Buenos Aires, Paidós, 1963,
pág. 20.
35
Ibidem, pág. 23.

94
para o plena saúde emocional do ser humano, a falta de amor,
carinho e afeto constituem a base da estrutura da neurose, a
marca dos bloqueios emocionais não toma o complexo de
castração como norteadora do prejuízo do desenvolvimento
humano, mas as privações do amor, quando experiencia o
abandono, a rejeição, a negligência das condições básicas, o
abuso, a violência psicológica e física, etc.
Sem dúvida que Sigmund Freud ao relacionar a
natureza do homem com a natureza biológica (Umwelt); seus
impulsos, pulsões e aspectos análogos à experiência fez uma
grande contribuição. Mas Binswanger dizia que a teoria de
Freud realiza uma compreensão nebulosa e epifenomêmica do
homem em relação ao seu semelhante (Mitwelt), e que se
despreocupou por completo do âmbito do homem em relação
consigo mesmo (Eigenwelt)36.
Também convém dizer que as obras de Charlotte
Buhler, Gordon Alport e Kurt Goldstein ajudarão e muito a
sistematizar de modo diferente o papel dinâmico do futuro da
personalidade existente, por exemplo, o crescimento, o
desenvolvimento, e como chegar a ser, apontam
necessariamente a um futuro, como defende Nietzsche ao
desenvolver o conceito de “vontade de potência”, do “ser
produtivo” de Erich Fromm, além de todos outros recursos
como a imaginação, a esperança, o desejo, que podem lançá-lo
no futuro; quando se tenta objetivar a subjetividade humana
perde-se a dimensão do amanhã. Os desafios, as ameaças, os
contratempos, os problemas, a apreensão, a ansiedade,
direcionam o ser para o futuro (ausência de futuro-ausência de
neurose), a realização de si mesmo necessita de sentido sem
referência a um futuro normalmente ativo, a vida pode ser uma
Gestalt no tempo, e assim sucessivamente37.

36
Ibidem, pág. 34.
37
Ibidem, pág. 67.

95
A recomendação de Rollo May é que desde o início
do tratamento o psicanalista humanista se decida por uma
orientação a seguir, mas esquecendo neste momento o
problema do diagnóstico. A relação entre analista-paciente
pode ser estabelecida sobre a base da existência do paciente
como ser-no-mundo e do analista como existente e participante
deste mundo38.
No entender de Alfred Adler a sua compreensão da
existência tem de resolver os problemas, deveres e obrigações
sociais, da relação entre o Eu e Tu, de estabelecer o contato
com o seu meio ambiente. A segunda questão vital é sua
profissão e vocação, e a terceira, tem de dar conta do erótico,
do amor, do casamento e do econômico39. Também defende a
tese de que o “ser” está determinado por um objetivo. E afirma
que nenhum homem pode pensar, sentir, desejar e sonhar, sem
que tudo isto esteja determinado, condicionado, limitado,
selecionado, dirigido por um objetivo. Esta disposição acontece
de modo natural com as exigências do organismo e do mundo
externo e com a resposta que o organismo se vê obrigado a
retribuir40.
Qualquer criança sabe que os compromissos
impostos pelos pais, pela escola e pela sociedade são
exigências benéficas para a formação da inteligência e do
caráter. Esta vivência emocional presente no seu ser enaltece a
humanidade quando consegue ter consciência dos seus erros e
limitações. Também chama a atenção quando as emoções
negativas como o ciúme, inveja, ódio, raiva, agressão, aparece
nas suas atitudes. Este suporte emocional dos pais é condição
fundamental no processo da formação do seu caráter, por isto
em alguns momentos o adulto precisa ensinar e limitar a

38
Ibidem, pág. 30.
39
Adler, Alfred. Conocimiento del hombre. España, Madrid, Calpe, 4ª.
ed., 1963, pág. 191.
40
Ibidem, pág. 23.

96
expressão de sua indignação e insatisfação, porque sua reação
normal é buscar o máximo de afeto e prazer não medindo as
conseqüências para alcançar a atenção dos adultos.
Neste processo de formação do caráter a criança é
totalmente dependente das reações e dos modos de interpretar o
mundo a partir daquilo que os adultos dizem e fazem. Só mais
tarde na adolescência e juventude que existe a possibilidade de
modificar a maneira de pensar, de sentir, de desejar, de sonhar,
independente da pressão que esteja sofrendo por parte da
sociedade ou da sua família. O ser convencido pela sua decisão
não volta atrás, é capaz de utilizar todo seu potencial para
poder salvar a sua autonomia e determinação, não vacila diante
dos condicionamentos limitantes da situação econômica,
afetiva, seu objetivo permanece intacto, esta convicção
pretende dar uma resposta à altura daqueles que não acreditam
na sua pessoa. A decisão permanece desde sempre ancorada em
escolhas verdadeiras e fundamentais que são capazes de
proporcionar a segurança que tanto procura.
Alfred Adler foi um grande psicanalista humanista,
assim o considero pela sua orientação teórica quando diz que o
ser “comporta-se talvez, como até agora, de um modo muito
superficial e pensa em tomar uma emoção sobre um novo
aspecto, outra matriz, que acabou mudando algo. Em alguns
casos práticos podemos convencer das poucas mudanças que
acontecem neste homem, de tal sorte que esta mesma
aparência acaba desaparecendo, a não ser que se altere o
curso mesmo de sua linha de orientação existencial 41”. Esta
me parece ser a grande questão: como se dá este processo de
conscientização nas escolhas e decisões pessoais? São estes
processos emocionais inconscientes desconhecidos pela
consciência que acaba tendo uma existência à parte na mente
humana. Logo depois o ser admirado, extasiado, diante das
probabilidades que a existência oferece, encaminha-se para
41
Ibidem, pág. 18.

97
assumir uma postura de investimento numa determinada área
de sua vida, esta decisão também pertence aos valores sociais e
culturais de uma determinada época histórica. Encantado com
as expectativas das pessoas do seu convívio, sente-se na
obrigação de preencher as expectativas tão almejadas e
esperadas pelo mundo dos adultos.
Quando se fala em emoção pensamos no poder de sua
ação na determinação de uma decisão, enquanto a pessoa
permanecer ausente, descompromissada, monótona,
cumpridora de obrigações, desanimada, sem entusiasmo, sua
energia psíquica funciona num nível de baixa freqüência de
total apatia, quanto mais dúvida, incerteza, em relação à
existência, menor será a chance de alcançar o seu objetivo.
Para poder lidar com as situações de enfrentamento,
competição, disputa de afeto, muitas vezes impelido por uma
emoção de ciúme, acaba aprendendo a cometer injustiças, toda
ação desprovida de uma ética está sobre a manifestação de
alguma emoção negativa.
Então como “tornar a emoção sobre um novo
aspecto” o que Adler está tentando dizer é que a qualidade da
existência tem muito a ver com os tipos de emoções que uma
determinada pessoa vivencia. Depois de incorporada uma
emoção de medo, por exemplo, medo de perder afeto, se torna
inseguro, começa a enxergar nas pessoas que se aproximam da
pessoa amada, um possível rival, pois existe a possibilidade de
alguém roubar o seu afeto ou amor, diante desta perda
eminente, torna-se possessivo e violento ou ao contrário,
esconde-se atrás de uma depressão.
O que nós podemos deduzir deste conceito de
“matriz” entendo como um “complexo de constelações”
interligadas entre si que tem como objetivo produzir uma
atitude em relação a algum medo. Como sair desta prisão
“matriz” para poder vivenciar na existência uma entrega de
afeto e amor? Se uma “matriz” está convencida de sua verdade

98
acaba priorizando o afastamento, a fuga, substituindo ou
compensando em alguma fantasia imaginária, a satisfação que
não pode realizar na realidade. A existência leva o ser ao
encontro destas necessidades e exigências do organismo, e do
outro lado, os desafios, como um convite para sua superação,
ambas estão interessadas em realizar os desejos emocionais
inconscientes para tornar a vida mais agradável e saudável.
Toda esta fenomenologia emocional não está distante
da vida psíquica e não pode ser considerada como uma
realidade separada, fechada, distante, estes fenômenos das
emoções só podem ser entendidos na sua plena manifestação
existêncial quando forem aceitos dentro de um princípio da
totalidade. Onde as partes estão interligadas ao todo, porém, a
análise da “matriz” emocional pode oferecer os caminhos para
identificar por onde está escoando a energia, logo depois, de
perceber este padrão de conduta no estilo de vida da pessoa,
será necessário explicitar, descrever e interpretar os desejos
ocultos, as emoções recalcadas, aprendidas na mais primitiva
infância e depois repetida na vida adulta42.
Os conflitos existem porque é necessária a
convivência com outras pessoas como condição para receber
atenção e afeto, são momentos únicos que acabam unindo,
quando são capazes de perceber que existe algo em comum,
mesmo que em alguns momentos tenham de defender as suas
verdades, contrariando uma imagem personificada e
estigmatizada pelo grupo social, conquistando o espaço dentro
de sua família43. Porque se insiste tanto na valorização do ser?
Porque nos aproximamos para ter sua amizade, de fazer parte
do seu ciclo de amigos? Queremos pessoas que pertencem a
uma extirpe verdadeira, única, original, para nos proporcionar,
alegria, satisfação, confiança, cooperação, valores básicos para
sustentar uma relação. Todos os fenômenos da natureza

42
Ibidem, pág.13.
43
Ibidem, pág.12.

99
obedecem a um princípio de movimento para exercer o
potencial que está inscrito do genoma de uma planta, em um
animal, de um organismo vivo, do ser humano, esta pulsão
vital busca desenvolver-se em todos os âmbitos da existência,
relacionando-se com os mais diversos ambientes, sua memória
genética é capaz de prever, alterar, modificar, atacar,
reconhecer, para poder ser útil e prática na existência44.
Todo ser humano obedece ao desejo da natureza
organísmica, esta destinado a realizar seu objetivo, por
exemplo, um deles é a fecundação e a continuação da espécie
humana neste planeta, buscar o amor, afeto, para sentir-se
seguro nesta existência, utilizar a força de sua inteligência para
conseguir os recursos econômicos para prover a sua
sobrevivência, e quando esta missão imposta pela natureza não
é realizada, mas ao contrário, é agredida, negligenciada,
esquecida, a linguagem sintomática e corporal, mostra sua
força através da atuação das pulsões e emoções, na obediência
irrestrita às determinações da inteligência da vida, esta energia
se comunica pela expressão dos sintomas, se existe
consciência, as mudanças e transformações acontecem de
modo natural sem nenhum tipo de prejuízo para a pessoa.
Para termos uma compreensão do pensamento de
Alfred Adler em relação ao dilema do ser na existência, é
necessário compreender que a saúde depende do sentido ético
de pertencer a uma consciência com valor, “o resultado é de
confiança, fidelidade, franqueza, amor, verdade, etc. São
realmente exigências impostas e conservadas por um princípio
de validade geral em prol da comunidade 45”. Desta forma
acaba concluindo que sem autoconhecimento não existe
liberdade. No entanto a liberdade supõe a consciência de uma
lei: “Sem lei não existe liberdade” porque muitas das
possibilidades que são oferecidas pela existência, não são

44
Ibidem, pág. 21.
45
Ibidem, pág. 34.

100
assumidas ao azar, ao destino, as escolhas somente são livres
quando estão baseadas numa tábua de valores. E por último,
“sem livre arbítrio não existe liberdade”. Através do livre
arbítrio é possível a espontaneidade, o sonho, a fantasia46.
Podemos dizer que Sorem Kierkegaard (1813-1855)
nasceu em Copenhague em cinco de maio, é o pai do
existêncialismo moderno. Ele afirma que a “existência é o que
separa47”. Sua crítica se refere à impossibilidade de formar
conceitos e relacioná-los à realidade, a pessoa tem existência
única e não se aproxima dos conceitos, este “em-si” transparece
na sua essência uma originalidade, uma criatividade, que torna
impossível expressá-las ou nomeá-las através de um conceito,
sua imanência pertence à individualidade, estão interligadas
umas nas outras e ao mesmo tempo ao seu espírito. Sua
conclusão é de que as convenções dos conceitos da ciência só
conseguem compreender o real e indiretamente deturpa a
pureza, aniquilando a verdadeira essência do ser. E termina
dizendo que “Não pode haver sistema na existência 48”.
Um ser verdadeiro consegue ser um testemunho,
mesmo diante dos combates interiores, na superação dos seus
medos, e no tremor quando se encontra diante de cometer uma
injustiça, consegue exercer uma fortaleza diante da tristeza do
espírito e dos abalos morais. Um ser para conseguir dar um
testemunho de verdade precisa superar seu estado de pobreza
interior, e buscar forças para transcender a humilhação, o
desprezo, a rejeição, o ódio, a vingança, a ironia, quando
alguém conseguir chegar neste estado de verdade, realmente
conseguiu expressar a plenitude da compaixão49. Só um
homem muito superior em consciência pode estar acima destas
emoções e sentimentos, sua integridade é de uma nobreza que

46
Ibidem. pág. 132
47
Verneaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 43.
48
Ibidem, pág. 43.
49
Ibidem, pág. 39.

101
não consegue regredir a este estado primitivo de consciência.
Por estar mais acima tem ampla condição de exercer o perdão.
A definição conceitual, pela abstração, realiza através
do pensamento, ou seja, compreendendo a natureza, a essência
do ser, para identificar as características de sua individualidade,
deixando de lado a existência.
A pesquisa empírica tem como objetivo, entender,
compreender, descrever, confrontar, esclarecer, interpretar as
essências ou possibilidades não do real, mas do existente.
Então Kierkegaard afirma que “existe uma luta de morte
travada entre o pensamento e a existência 50”. Muito de seu
conhecimento atual, seja por hipótese, divaga pela incerteza do
seu modo de pensar e existir. Para finalizar o pensamento sobre
a existência, Roger Verneaux afirma que: “nenhum raciocínio
pode explicar-me, eu, minha vida, minhas decisões que realizo
desde meu nascimento, minha morte. Como conseqüência o
melhor que pode fazer a filosofia é abandonar as loucas
pretensões de racionalizar o universo, concentrar sua atenção
sobre o homem e descrever a existência humana tal como ele é.
Só isto importa o resto não tem sentido51”.
Martin Heidegger (1889–1976) nasceu em Messkirch,
em Badem no sul da Alemanha. Fez seus estudos com os
jesuítas onde obteve sua vasta cultura clássica. Afirma que o
homem tem a capacidade de dar um sentido às coisas e a sua
própria maneira de existir, a dificuldade se encontra quando
vivencia uma existência inautêntica, gerando um ser
inautêntico. Situa-se com ele todas as coisas numa inverdade.
Não é que as palavras expressem um erro, e seus discursos não
são falsos. Mas as palavras não conseguem descrever a
verdade, por isto sua interpretação é falsa, tudo que não é
verdadeiro é pura aparência52. Este processo de “autenticação”

50
Ibidem, pág. 43.
51
Ibidem, pág. 17.
52
Ibidem, pág. 102.

102
do ser na existência precisa de momentos de auto reflexão, pois
com o conhecimento sobre as origens da formação do seu
caráter, pode muito bem despertar no seu íntimo, aquelas
forças capazes de transformá-lo num ser de bem.
A inautenticidade tem relação com os códigos
culturais e sociais, existe na verdade uma convenção ética e
moral passada de geração a geração, estes antepassados
sentiram a necessidade de uma transparência, uma sinceridade,
realçando o compromisso com a sua diferença pessoal,
ninguém é igual ao outro, os modos de vestir, de falar, de viver,
de existir, de comer, de amar, de produzir, de prazer, são
muitas as diferenças dos gostos e atitudes, pela necessidade de
ocupar um espaço que identifique o seu ser. A inautenticidade
tem a ver com a dificuldade de assumir na sua totalidade, no
sentido de ser como ele é, inseguro, confuso, prefere seguir os
códigos culturais e sociais assumindo uma máscara irreal e
ilusória. O falso “self” diminuiu o valor do ser, absorvido por
estas falsas imagens, segue um caminho vazio e sem vida,
porque estas imagens não podem dar calor humano.
E nesta falta, esconde a inautenticidade, procurando
se esconder atrás do irreal, fictício, ilusório, um ser inautêntico
caminha para a morte emocional e depois psíquica, sua
orientação na existência obedece aos princípios da falsidade,
do engano, da mentira, perde a essência do ser, abandona o
desafio de enfrentar-se consigo mesmo, fazendo de sua vida
uma espécie de navio sem porto, vagando pela existência sem
uma rota precisa, perde-se por inteiro num mar sem sentido.
Quando o ser é tomado deste vazio existencial perde o rumo da
existência, perdido neste mar de ilusões sofre o impacto da
ansiedade e da angustia, enganando os outros, engana-se a si
mesmo.
Quando consegue alcançar outros objetivos na
existência, o custo da sua inautenticidade é muito alto, porque
todas as suas conquistas trata-se de uma prática de vida

103
fantasiosa, mentirosa, e hipócrita, um ser desprovido de valores
vende a alma para o diabo, nada importa na sua vida, seu
critério é um só, manipular e explorar. É o tipo do ser que não
propicia as condições de gerar calor humano, solidariedade,
compaixão, compreensão, perdão, ao contrário, por ser
inautêntico mais parece um robô desprovido de afeto, carinho,
sensibilidade, sua atuação é meramente racional e lógica.
Nem todo o dinheiro do mundo vai conseguir
devolver a autenticidade. O poder do dinheiro pode comprar
bens materiais, amizades, sexo, luxo, mulheres, amigos, e
muitos sem se darem conta pagam com a vida. Envolvidos pela
sedução do poder material esquecem os valores mais preciosos
da existência, a família, amigos verdadeiros, os filhos, os pais,
tudo isto não tem mais um significado, aqueles que o amavam
decidem afastar-se por completo, porque perceberam que não é
a mesma pessoa mesmo sabendo que tem muito dinheiro e
poder. Aceita este distanciamento porque tem medo de que
robem a sua fortuna, de que copiem seus projetos, de que
peçam dinheiro, de que descubram os segredos de seus
negócios, vive sempre num completo estado de angustia e
ansiedade. Para poder sair desta armadilha do poder é preciso
dar um salto de qualidade de vida, resgatando seus valores, sua
autenticidade, que é a sua maior verdade. Primeiro é preciso
acolher a angustia e as revelações que esta traz consigo53.
Então qual seria o significado da angustia na
existência? Para entendermos temos que comparar com os
medos, porque o medo sempre tem um motivo bem definido,
quando situado no plano biológico, dependendo do momento e
das circunstâncias onde vive o homem. A angustia não pode
ser caracterizada nem definida, e muitas pessoas dizem “não é
nada, não existe nada” mesmo assim tudo parece perder o
sentido, parece que a casa esta caindo, as forças estas

53
Vernaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 102.

104
desaparecendo, esta experiência acontece no seu mundo
interior e no ambiente onde existe.
O mundo até familiar (Umwelt) se reveste de
estranheza (Umheimlichkeit) e sentimos ao mesmo tempo em
que o próprio ser vacila, se desliza até o nada. A angustia, em
si, é a experiência do nada54. Para a existência da angustia o
ser tem de encontrar-se em conflito, quando o ser está perdido
e indeciso a probabilidade é que aumente a sua angustia, aflito
porque não tem um grande amor, porque desconfia de si
mesmo e de todos. Tem medo de ser enganado e rejeitado.
Perdido no seu narcisismo, vagueia pela existência sem
sentido, na ausência do amor, acaba se confundindo nos seus
devaneios, suas decisões equivocadas ampliam seu estado de
angustia.
Muitos produzem, trabalham, mas não conseguem
alcançar o bem mais precioso na existência, fazer uma
experiência verdadeira de amor. Na solidão, existe o
isolamento, onde não existe calor humano, afeto, e desta forma,
o ser termina ficando triste, magoado, carente. Acreditava que
os bens materiais podiam resolver todos os seus dilemas,
frustrado com o tempo empregado em torno desta expectativa,
termina num vazio existêncial. Não podemos esquecer do
interesse de aproximação de pessoas não pelo valor do ser e
sim pelo ter. Ou seja, a verdadeira conquista de um amor exige
uma postura ética e humana, diferente de pessoas que utilizam
a sedução e os jogos de conquista para tirar vantagem em
proveito próprio.
Não podemos negar sua condição humana, mas
podemos superá-la, transcende-la. Em lugar de perder-se nas
conversas da multidão, o homem se levanta diante da
sociedade e no seu silêncio; frente a si mesmo; assume a

54
Binswanger, L. Sigmund Freud. Reminiscences of a friendship. New
York: Grune & Stratton, 1957.

105
condição de homem e se coloca diante da verdade55. Temos de
ter cuidado, prudência e sabedoria, para não perder-nos na
existência, indiretamente sempre estamos correndo o risco de
sermos pegos de supressa, sabendo disso o homem coloca-se
numa atenção constante sobre o que acontece consigo mesmo e
no seu meio social, ou seja, é um ser precavido, portanto, sabe
que a existência precisa ser conquistada diariamente. Muitas
vezes o homem decide por criar possibilidades que por
enquanto ele ainda não é, e que talvez nunca alcance, e assim
mesmo isto significa existir.
Para Heidegger a existência autêntica é uma falta
(Schuld). Para compreender esta questão paradoxal, que é uma
contradição sobre tudo o que dizemos até o presente, inclusive
sobre o heroísmo do ser autêntico. Esta falta não é de uma
ordem moral, mas de uma origem ontológica. Na visão de
Leibniz, a finitude é vista como um defeito, um mal, o “mal
metafísico”, mas a existência autêntica consiste em ratificar e
assumir a finitude própria do ser humano, esta lacuna é a falta.
Se esta limitação não é uma moral em si mesma tem suas
repercussões morais.
É impossível ao homem autêntico estar em paz, ter
“boa consciência”, sendo que jamais é aquilo que quer ser, mas
sim que pretende chegar a ser56. Os fenômenos do cosmos é no
entender de Kant um ser para nós; toda a fenomenologia
reveste-se de um sentido humano pelo simples fato da presença
humana, é o sentido objetivo do dasein, o “não eu em
afirmação e pelo esforço do seu eu para realizar-se57”.
Não podemos identificar um ser simplesmente porque
existe. Existem muitos seres que não se questionam, sua
consciência esta sedada pelos placebos da cultura, por isto
mesmo vive de forma alienada, não possui grandes aspirações e

55
Vernaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 105.
56
Ibidem, pág. 106.
57
Ibidem, pág. 110.

106
seu maior interesse é viver o momento presente do seu
cotidiano, toda sua energia e esforço são colocados para
atender as pulsões básicas; sede; sexo; fome; moradia;
trabalho, etc. Devemos perguntar sobre a qualidade do ser, e
trocar a questão do “o que é” por um “há um ser”, só existe um
ser quando consegue evoluir sua consciência, interrogando-se
sobre os fatos que acontecem consigo mesmo; está sempre
envolvido na busca de respostas para suas perguntas, consegue
estar na existência sem ser engolido pelas seduções e
superficialidades, então esta sabedoria faz crer que o ser “não
é isto ou aquilo”, mas a sua postura como “ser” que está
continuamente buscando “ser” neste intervalo da falta,
transcendendo do mágico, mítico, arcaico, primitivo, para um
estado de consciência de plena lucidez e integralidade58.
Para comentar sobre o conceito de “Dasein”
formulado por Heidegger, entende-se que é aquilo que ele faz
ser o ser, para compreendê-lo é necessário acompanhá-lo
dentro de uma temporalidade, e assim podemos formular a
seguinte compreensão o “dasein” é o lugar dimensional, o
espaço de desenvolvimento próprio, o campo de manifestação
do ser. Ora não pode haver compreensão do ser senão em pleno
desenvolvimento, ou seja, em ato. O dasein assim definido é
confrontado, no mundo, a duas estruturas. Uma é o que torna
possível a ação (vivido) na existência, a outra é aquilo porque o
mundo se oferece a ação59.
Entre estas duas instâncias permanece oculta e
ausente e talvez ainda desconhecida pelo ser, as motivações
conscientes ou inconscientes, para procurar este espaço no
tempo histórico, cultural, social, necessita desenvolver sua
inteligência e criatividade, este vir a ser, está numa atualização
constante rumo a um processo mais humano, cheio de
esperanças, no sentido que esta consciência, estes valores

58
Ibidem, pág. 100 e 102.
59
Ibidem, pág. 103.

107
éticos, pode contribuir enormemente para tornar-se um “ser-
para-tudo” decidindo com sabedoria o caminho do respeito, da
colaboração, mas também da exigência e da produtividade,
humano e cultural. O vir a ser precisa deste espaço de evolução
da consciência.
Escolhe no presente uma decisão a favor da vida, da
vontade de superar-se, de alcançar objetivos, de lutar sempre a
favor do amor, de exercer sua liberdade, de acreditar no seu
potencial, de erguer-se com virtude mesmo diante das críticas,
de perseverar diante das faltas, de assumir-se por inteiro pelo
seu “dasein”, de usar de sua criatividade e inteligência para
contribuir para melhorar a sua qualidade de vida e das pessoas
de sua comunidade, busca uma disciplina e nunca desistir de si
mesmo. Estas qualidades sempre estão presentes no ser que
pretende ser, seu maior valor é ser honesto e sincero consigo
mesmo.
“A vida só encontra sentido em seus atos, e não em si
mesma, como se ele estivesse sobre determinada de antemão
por alguma entidade. A angustia Nietzschiana de existir afirma
de certo modo que “o homem não é senão o conjunto de seus
atos”, que a “vida não tem sentido a priori: cabe a cada um,
vivendo, dar-lhe um sentido60”. Mesmo que estejamos
determinados por uma existência mortal, independente de estar
num lugar histórico, cultural, econômico, social, esta condição
social e humana pode ser a motivação para sair desta condição
da morte da ignorância, da morte do econômico, da morte da
potencialidade, da morte da vontade de viver, e de tantas outras
mortes que teremos que assumir no seu devido momento, não
fazendo ao ser humano nenhuma espécie de julgamento ou
condenação, simplesmente assumí-la com toda a grandeza de
ser.

60
Nietzsche, Friedrich. Aurore. Trad. Hervier. Paris, Gallimard, Livro I,
pág. 22.

108
Sabendo que vamos ter momentos de exaltação,
euforia e outros de tristeza e depressão, é deste sentido de vida
que estamos falando, um ser caminhando rumo a excelência da
saúde, do bem estar, da alegria, da satisfação, não deposita a
culpa de seus fracassos pela falta de sorte ou azar, as assume
integralmente na sua existência, tornando estes momentos um
espaço para transcender seu estado de ignorância emocional.
Karl Jaspers (1883-1969) Graduado em filosofia com
doutorado em filosofia é um dos expoentes do existêncialismo,
sendo médico psiquiatra e depois psicanalista; assumiu a
cátedra de filosofia na Universidade de Heidelberg no de 1916
e depois foi desligado do seu ensino por causa da
descendência judaica de sua esposa. Vamos descrever uma
pequena síntese do pensamento deste grande existêncialista.
Afirma que: “como última conseqüência, se escolher é
escolher-se, o desejo de liberdade encaminha para o futuro em
qualquer escolha determinada, surgindo desta forma um
grande paradoxo: a existência se preocupa infinitamente
consigo mesma; convém dizer, deseja realizar-se
infinitamente; mas jamais pode realizar-se de maneira
limitada, ser tal ou qual ser, não simplesmente não ser61”.
Este desejo de transcendência de estar acima das
condições limitantes da natureza humana, mostra a ilimitada
possibilidade de um futuro melhor, as descobertas científicas,
as novidades tecnológicas, desperta um horizonte infinito de
possibilidades e probabilidades mesmo diante das incertezas.
Esta curiosidade de conhecer em profundidade as leis
intrínsecas da natureza, propiciou os avanços da ciência no
sentido de desvendar os mistérios do homem e do cosmos.
O homem procura desesperadamente conhecer com
profundidade no mundo subatômico da antimatéria o destino de
nossa humanidade. Os microorganismos, as bactérias, a
complexidade da rede de interações presentes nestes sistemas,
61
Vernaux, Roger. Op cit. 1952, pág. 133.

109
onde a vida recria com toda sua sabedoria a mais de quatro
bilhões de anos, quando se tornou possível a vida inconsciente
em nosso planeta. E a mais de dois milhões de anos quando o
homem tomou consciência da sua existência. Utilizando em
escala ascendente as descobertas científicas e culturais das
sucessivas civilizações que nos antecederam, o aprendizado
necessário para conhecer-se melhor, e em decorrência disto
buscar as soluções para que a vida continue a se expandir, e
que esteja garantida a evolução da matéria e da consciência em
nosso planeta.
Esta realidade é infinita está fora dos nossos cálculos
de espaço e tempo, seu código de comunicação e evolução
segue outras diretrizes, este é o paradoxo: ordem, desordem,
organização, desorganização, aleatoriedade, caos, harmonia,
etc. A natureza trabalha com estas duas realidades que estão
presentes em qualquer fenômeno, e nesta metamorforse todos
os seres participam durante o seu curto espaço de tempo de
vida com a diversidade e a espontaneidade da inteligência da
natureza.
Quando o ser na existência não consegue se realizar
plenamente acaba culpando a existência, ou outras pessoas
próximas de si mesma, justamente esta “falta” mostra o fator
limitante de sua consciência, ao pensar, refletir, sobre esta
“falta” inicia-se o processo de ansiedade, angustia, sua
realidade psíquica e emocional tem de lidar com o futuro
incerto, desenvolvendo neste espaço de tempo algumas
escolhas que serão determinantes para a sua felicidade. Mesmo
utilizando a liberdade de forma autêntica esta condição não
garante o sucesso, ou seja, o fracasso faz parte da existência e
pode aparecer em qualquer momento de sua vida, esta
avaliação depende dos códigos de valores e exigências da
sociedade e da cultura.
E sobre os olhos do “superego” que o ser propõe uma
avaliação do significado de fracasso e sucesso. Mesmo com

110
todas as habilidades e conhecimentos desenvolvidos pela
ciência nos dias de hoje, o homem ainda se encontra muito
distante da infinitude e de todos os seus desenvolvimentos o
mais difícil é a transformação da consciência, são as crenças,
ideologias, verdades absolutas, interpretação da realidade,
vaidades pessoais e científicas, rigidez de caráter, alguns dos
empecilhos que impedem uma maior liberdade do seu ser,
retardando ou impossibilitando o acontecimento de sua
transcendência com um futuro seguro na existência do seu ser.
A confirmação do ser se realiza mediante a sua
liberdade que é uma decisão absolutamente pessoal. Parece-
lógico ver nisto a consagração da solidão e do segredo. E isto
é uma verdade, em um sentido, pois ninguém pode escolher por
mim, exercer minha liberdade, existir em meu lugar. Ao mesmo
tempo isto não é mais que um aspecto da verdade. É
igualmente certo que o homem não pode realizar-se na
solidão62. Querendo conquistar a liberdade o ser pode não
entender o seu significado maior, a liberdade não significa ser
livre para não realizar nada, para fazer de conta que está
realizando algo, que se martiriza com o tempo pois não agüenta
mais a rotina e a monotonia.
Ser livre é antes de tudo confiar no seu potencial de
realização. Porque é muito importante ter um sonho ou
imaginar algo de bom para si, mas mais importante é o sentido
da “práxis”, de uma ação norteadora e realizadora de um sonho
que se torna realidade. Mas a liberdade em fazer o que quiser e
no momento que achar mais conveniente, não é também uma
liberdade saudável, usa deste tempo livre para agredir o seu
“ser” com bebidas alcoólicas, drogas, más companhias,
divertimentos inúteis, envolvido nesta condição de massa, não
tem consciência da inutilidade da liberdade, e de sua péssima
aplicação em sua vida.

62
Ibidem, pág. 134.

111
A liberdade precisa de consciência. A liberdade de
investir em relações saudáveis tem como objetivo utilizar o seu
conhecimento no sentido de superação de sua angustia, de sua
ansiedade, de sua depressão, de sua doença, de sua falta de
amor. Este falta de integridade, contribui para se tornar uma
pessoa vulnerável aos convites de algum tipo de adição.
Prejudicado por esta crença, aliena-se numa ideologia
superficial, que não consegue atender as demandas da
necessidade de afeto e de amor.
Quando o “ser” se acha no direito de conduzir a sua
vida em base a sua verdade, depositando toda sua confiança no
seu racionalismo ou na defesa de alguma ideologia copiada de
algum teórico, acaba sempre na solidão, na desilusão, na
falência econômica, na doença, isto porque os outros não
suportam participar desta imposição de idéias. Ansioso por
acalmar o vazio existêncial, acredita que os falsos amigos, os
falsos ideais, os falsos remédios, as falsas bebidas, podem
atenuar, diminuir, fazer desaparecer nem que seja por algum
momento, seu estado de insatisfação, de culpa, de medo, de
insegurança, de insensatez, de frustração.
O vazio existêncial sempre precisa de uma atividade
para preencher o tempo no cumprimento rígido de uma
disciplina, necessita desta produtividade para poder diminuir
com os seus ganhos econômicos o seu complexo de
inferioridade. Esta é uma maneira disfarçada de vender uma
imagem de que é um ótimo trabalhador, uma pessoa
responsável, assim vicia-se numa existência de cobrança, de
exigências descabidas, de muita culpa, de sofrimento, de dor, e
por último é tomado de um estado de depressão.
O álcool, os medicamentos, as drogas, o consumismo,
preenche de certa forma esta falta de sentido na vida, todo este
estilo de vida proposto pela sociedade consumista e capitalista
é desumana e alienante. Queremos falar da liberdade o ser,
enfrentar-se diante dos seus medos, da falta de amor, de afeto,

112
de carinho, de um espaço para descansar o seu espírito, as
compulsões servem somente para esconder as deficiências e os
medos inconscientes de vivênciar uma experiência verdadeira
de realização na existência.
Viver desta forma é não ter consciência das
inverdades que comprou para si, primeiro que sua carga de
trabalho está acima de suas capacidades, sua dependência ao
dinheiro, sua falta de tempo. Estas obsessões contribuem para a
realização de alguma desgraça na sua existência, a liberdade
mais verdadeira e significativa é aquela que está a serviço da
evolução, da saúde, do bem estar, da vivência do amor, da
dignidade, da inteligência. O ser não consegue viver a
existência por ser portador de uma teoria sobre a existência,
não existe esta condição de viver a existência seguindo os
passos, idéias, orientações, de algum teórico.
Ao lançar-se na existência perde o medo e consegue
através de suas conquistas aumentar a sua auto-estima, com
isto acredita mais em si mesmo. Consegue fazer uma avaliação
de algumas verdades de quando ainda era ingênuo e
inconsciente. Com este aprendizado consegue dar conta de sua
realização, pois conseguiu perceber que sua existência é
diferente de todos os outros, o caminho que tem recorrer não
pode ser delegado a um outro. Delegar ou passar uma
procuração a uma outra pessoa é incorrer num sério erro, em
vez de oportunizar-se uma vivência, foge do seu compromisso,
acreditando que através desta omissão vai resolver o seu
dilema.

113
1.2. A relação entre a psicanálise humanista de
Erich Fromm e a existência

O olhar de Freud para o homem na existência tem


suas raízes numa visão capitalista burguesa de uma economia
de mercado, sendo que isto não permite dizer que sua teoria
esteja errada, pretendo afirmar que este não é o único modo do
homem viver em sociedade, ou seja, dentro deste tipo
capitalismo selvagem e excludente63. O homem do terceiro
milênio apresenta diversos problemas na área da saúde mental,
um deles é a depressão o outro o consumo de drogas licitas e
ilícitas. Além do mais a teoria psicanalítica para ser verdadeira
deve ter a missão de cuidar e curar as pessoas com o seu amor
ao próximo, precisa exercer sua ética humanitária.
A teoria da psicanálise freudiana defende a tese num
substrato psicológico da teoria dos instintos, culpando a
sexualidade por todos os males da infelicidade humana. Se
olharmos o homem como um “ser” material, um objeto, uma
coisa, sem vida, sem espírito, podemos então defender a teoria
materialista, de um feixe de pulsões libidinais que acabam
comandando mecanicamente a distribuição da energia no
organismo64.
Talvez Freud tenha suas razões e procurou convalidar
sua teoria sobre estas variáveis em base ao tipo de homem que
estudava empiricamente na sua observação clínica, como todas
as suas pacientes apresentavam um quadro histérico, sua
pesquisa apontava em direção de uma repressão sexual. Hoje
estamos diante de uma sociedade globalizada com sérios
problemas sociais e econômicos associados ao poder das
tecnologias virtuais, com informações passadas em tempo real

63
Fromm, Erich. La crisis del psicoanálisis. Barcelona, España, Paidós,
1971, pág. 54.
64
Ibidem, pág. 55.

114
via satélite e por internet, estamos diante de uma outra
realidade globalizada.
Desta forma Freud defendeu com paixão, mas sem
muita razão científica que os traumas sexuais representam um
papel decisivo em algumas perturbações neuróticas, afirmando
categoricamente que “todas as neuroses e toda a conduta
humana são determinadas pelo conflito entre os instintos
sexuais e sua auto conservação65.” Este modelo teórico tem
sua sustentação conceitual no mecanicismo “hidráulico”,
tensão crescente, desprazer, distensão, prazer, nova tensão, etc.
Dizendo que este impulso está presente em todas as esferas
íntimas e vivas e funcionam sem estimulação especial, mas sua
força motivadora não é mais forte que a dos instintos que
trabalham hidraulicamente66.
Esta concepção da natureza de homem de Freud
segue o paradigma do pensamento racionalista iluminista e do
pessimismo do século dezenove, que acabou influenciando o
conceito de “inconsciente”. Mas não podemos tirar o mérito de
que mesmo diante de alguns questionamentos entendemos que
o poder da razão se expressa diante de tudo e no fato de que o
homem pode entender sua irracionalidade através do uso da
razão. “Deste modo, Freud fundou a ciência da irracionalidade
humana. A teoria psicanalítica 67”. Esta sua descoberta o
colocou entre os maiores homens da ciência da história da
humanidade. Toda esta exposição da elaboração teórica desta
ciência chamada psicanálise, recai sobre seu objeto de
pesquisa: o homem e a expressão do seu inconsciente. Expõe
que o homem não é livre porque está determinado por um
inconsciente e pelo superego 68.

65
Ibidem, pág. 55.
66
Ibidem, pág. 57.
67
Ibidem, pág.61.
68
Ibidem, pág.63.

115
O erro de Freud foi considerar as mulheres como se
fossem homens castrados sem uma sexualidade feminina,
sempre defendeu a virilidade dos homens e dizia que as
mulheres tinham um superego debilmente desenvolvido, que
não mereciam a confiança dos homens, tudo isto não é mais
que uma versão ligeiramente racionalizada dos preconceitos
patriarcais de seu tempo69.
Esta visão machista e patriarcal além de ser
preconceituosa em relação à mulher afirma que o homem tem
de dominar e tentar esconder seu medo das mulheres70. Não
fala em nenhum momento em suas obras da relação com a sua
esposa e nem menciona a mesma como fonte de sua felicidade,
sempre que fazia suas viagens deixava Amália em casa e
passava as férias com a irmã de sua mulher71. A questão mais
pertinente foi este tipo de projeção dirigida para as mulheres
em decorrência do verdadeiro problema do seu casamento, ou
seja, racionalizou sem dar-se conta do que estava fazendo.
Quanto ao amor na sua existência se tornou objeto de pesquisa,
conseguiu tornar o amor em um problema científico, mas na
sua vida pessoal ficou seco e estéril. Seus interesses científicos
intelectuais eram mais importantes que o amor, acabaram
asfixiando e ao mesmo tempo se converteram em substitutos de
sua experiência de amor72.
Freud foi muito influenciado pelos pensadores do
iluminismo e principalmente do racionalismo, acreditava que
seria possível compreender intelectualmente as causas de sua
neurose, sua fantasia baseava-se que através do conhecimento
se tornaria possível realizar as mudanças que produziam seus
sofrimentos. Defendia a tese na utilização do conhecimento

69
Fromm, Erich. La misión de Sigmund Freud. México, Fondo de Cultura
Económica, 1981, pág. 34.
70
Ibidem, pág. 41.
71
Ibidem, pág. 36.
72
Ibidem, pág. 38.

116
intelectual, seu esclarecimento, confrontação e interpretação,
sobre os sintomas lhe concediam o poder de curar as neuroses.
A neurose de Freud tinha sua principal preocupação com esta
dependência e uma insegurança muito grande em relação a sua
situação econômica e profissional, tinha um medo muito
grande da fome e da pobreza. Caso queira conhecer com mais
profundidade esta dificuldade existêncial de Freud queira ler no
livro “Considerações sobre a “psicanálise humanista” de Erich
Fromm no capítulo onde se trata sobre o “humanismo de
Sigmund Freud”.
Erich Fromm quis ser fiel e valorizou aqueles
descobrimentos que tinham valor, mas não podia concordar
que fosse substituída a filosofia humanista por uma filosofia
material mecanicista. O homem não é uma máquina regulada
por uma química de tensão e relaxamento. A tese central da
psicanálise humanista se baseia no princípio de que o ser
humano deve ser analisado na sua “totalidade” subjetiva e
objetiva na sua condição humana existêncial.
De acordo com a ideologia patriarcal de Freud o
homem é mais racional, realista e responsável que a mulher, e,
portanto está destinado pela natureza a ser seu dirigente e
guia73. O dinamismo da natureza humana está baseado antes
de tudo numa necessidade do homem, de expressar sua
inteligência diante do mundo, antes da necessidade de usar o
mundo como meio para a satisfação de suas necessidades
fisiológicas74.
Karl Max defende uma compreensão da natureza
humana diferente de Freud, pois afirma que os “Instintos são
relativos” não formam parte integrante da natureza humana,
mas que devem sua origem a determinadas estruturas sociais e
certas condições de produção e comunicação, isto significa que
em grande parte as motivações humanas são determinadas pelo

73
Ibidem, pág. 66.
74
Ibidem, pág. 80.

117
processo de produção, e mais precisamente neste ponto,
encontramos a diferença decisiva entre a psicologia dinâmica
de Marx e Psicanálise determinista e fisiológica de Freud75.
Desta forma temos de estudar e comparar as
diferentes concepções presentes nas teorias em relação à
natureza humana. Qual é na verdade sua concepção de
natureza humana? Faço esta pergunta por que é a partir deste
conceito que vamos começar a enxergar o homem de um modo
e a existência de outro. Questões como: Qual é o sentido do
homem na existência? O que na verdade devemos fazer e pelo
que devemos nos esforçar? O que podemos conseguir superar
ou chegar a ser nas sociedades humanas? Que tipo de
comunidade gostaríamos de viver e que tipo de mudança
deveria realizar? Ela é diferente para os homens e mulheres?
Para responder estas e outras questões depende da maneira de
como pensamos a natureza humana. Se acreditarmos que a
natureza humana é “verdadeira” e “inata” nos seres humanos
defendemos um princípio biológico e fisiologista. Se por outro
lado pensamos que não existe uma natureza humana
“essencial” somente uma pré-disposição do organismo para ser
adaptada e modificada através da sociedade. Que o homem é
produto das forças econômicas, políticas e culturais76.
Karl Marx chegou à conclusão que “a natureza real
do homem é a totalidade das relações sociais”, defendendo sua
posição de que cada pessoa é produto do estado econômico
particular da sociedade humana na qual ele vive, além de negar
a existência de um Deus. Tudo isto no início do século
dezenove. Jean Paul Sartre, filósofo e escritor com uma
orientação existêncial humanista afirmava que era ateu, diz na
sua teoria que a natureza humana não está determinada pelas
condições sociais ao contrário, afirma que o ser humano

75
Ibidem, pág. 79.
76
Stevenson, Leslie, Haberman L. david. Diez teorias sobre la naturaleza
humana. España, Madrid, Catedra, 1998, pág. 21.

118
encontra-se livre para decidir o que gostaria de ser, e fazer na
existência. Spencer se contrapõe a estas teorias dizendo que a
sociobiologia atual são frutos de uma evolução por estarem
dotados de padrões de conduto biologicamente determinados e
específicos de cada espécie77.
Seria interessante ressaltar que quando estes teóricos
utilizam à expressão “homem” estão se referindo a todos os
seres humanos. Faço esta observação para não caracterizar um
discurso machista centralizando na atenção sobre o homem
masculino. Toda esta explanação sobre o conceito de “natureza
humana” tem como objetivo alertar sobre a forte influência que
pode exercer sobre a existência de uma pessoa. Por exemplo,
se afirmamos que um Deus todo poderoso e supremo criou o
homem com uma intenção de ajudá-lo, protegendo-o na
existência, temos então que admitir que qualquer tipo de
decisão deva ser dirigida ao seu poder, e no momento em que
precisamos de ajuda, recorremos aos seus representantes aqui
na terra. Se por outro lado estamos dentro de um paradigma
teórico de que somos produtos da sociedade e da cultura e
constatamos que estamos sendo explorados e injustiçados,
então temos que organizar a população para mudar através de
ações políticas, com uma ação efetiva, uma transformação
social a ser realizado historicamente.
Se aceitarmos o postulado de Sartre de que somos
plenamente livres, não temos como escapar de nossa decisão
individual, temos que enfrentar as escolhas, assumindo todas as
conseqüências dos seus atos diante da existência. Se somos
partidários de uma teoria biológica mecanicista determinada
geneticamente, somos produtos dos impulsos, pulsões e
instintos condicionados pelos genes. Ao aceitarmos esta teoria
temos que admitir esta outra natureza, oriunda das
reminiscências do mundo animal presente no sistema límbico
de nosso cérebro.
77
Ibidem, pág. 22

119
Muitos teóricos ou cientistas acabam sendo
influenciados pelas suas crenças particulares, do seu meio
social, cultural, histórico, político, econômico, educacional.
Podemos constatar estes paradigmas teóricos autoritários que
absolutizaram uma verdade sobre a “natureza humana” e sua
relação com a existência. A teoria marxista de Lênin e Stalin
conseguiu implementar pela força, esta visão do socialismo nos
paises comunistas, e todo e qualquer tipo de questionamento
que colocasse em dúvida esta teoria social, corria sérios riscos
de ameaças, tortura, desaparecimento, e talvez colocando em
risco a própria vida.
Outro exemplo do qual nunca devemos esquecer em
nossa cultura ocidental foi o poder totalitário do cristianismo
que tinha um procedimento muito parecido com os comunistas
e ditadores militares. Na idade media quem ousasse questionar
ou levantar alguma dúvida sobre as verdades estabelecidas,
eram chamados de hereges, além de serem excomungados,
estigmatizados como filhos do diabo e do satanás, logo depois
eram julgados pela santa inquisição, muitos foram queimados
vivos na fogueira, tudo isto em nome da santa madre igreja. A
filosofia existêncialista de muitos filósofos defendem uma
teoria de que não existem valores objetivos para a vida
humana, mas tão somente escolhas subjetivas e individuais.
A base de toda teoria incluindo os sistemas de valores
tem como finalidade determinar o que é bom ou aquelas ações
que resultam más para o ser humano, desde que se entenda qual
é a sua natureza humana78. Erich Fromm afirma que não é a
consciência que determina a vida, mas a sim a vida que
determina a consciência. Não é a consciência dos homens a que
determina sua existência, mas sim o seu contrário, sua
existência social é a que determina a consciência79. Aqui
podemos constatar a orientação teórica deste grande

78
Fromm, Erich. Op cit. 1971, pág. 99.
79
Ibidem, pág. 91.

120
psicanalista humanista sobre a existência, mas quem estuda
esta instância da vida são os existêncialistas.
A finalidade da psicanálise humanista de orientação
social consiste em explicar as atitudes psíquicas e as
ideologias socialmente pertinentes e em especial suas raizes
inconscientes em termos de sua influência das condições
econômicas sobre as ânsias da libido80. A grande crítica de
Erich Fromm sobre a psicanálise freudiana recai sobre a sua
concepção de homem, que funciona como uma espécie de
ideologia, afirmando que são produtos de certos desejos,
impulsos, pulsões, instintos, interesses e necessidades, que por
si mesmos em sua grande medida, encontram expressão nas
racionalizações, quero dizer, como ideologias81.
Quando a psicanálise se der conta que este “homem”
é constituído de uma totalidade de fatores que acabam
influenciando direta ou indiretamente suas atitudes e
comportamentos, sejam eles conscientes ou inconscientes, sem
dúvida sua orientação teórica vai ser uma epistemologia
transdisciplinar. Um homem quando está na existência não traz
consigo somente uma carga hereditária ou um corpo físico, no
seu íntimo está presente uma existência subjetiva incorporada
por representações, internalizações, identificações, vivências,
injustiças, alegrias, fracassos, etc.
É desta existência subjetiva que nascem as “atitudes
psíquicas” este legado humanístico é incorporado ao ser.
Quando um ser humano inicia seu caminho, sua trajetória é
incerta, é claro que a existência está presente em cada escolha,
mais importante que tudo isto é a sua trajetória, sendo que a
primeira decisão é sair de seu isolamento, do seu
individualismo, buscar no meio social e cultural
relacionamento com pessoas para refazer e alcançar sua
realização pessoal.

80
Ibidem, pág. 182.
81
Ibidem, pág. 191.

121
Quando o olhar presencia uma imagem do futuro
apresenta-se diante dele uma realidade que consegue tornar-se
algo concreto, este símbolo não é somente uma névoa muito
condensada que não consegue ver com exatidão. Na medida em
que suas escolhas indicam o caminho de sua intenção. Se dá
início a um processo de reflexão, junto com toda esta dimensão
racional, surge às emoções de raiva, ódio, amor, aversão,
medo, todas elas são resgatadas do seu passado, uma existência
imagística adicionada ao ser como representação subjetiva.
Neste ser encontra-se duas forças bastante presente no “ser”,
uma energia baseada nas experiências do amor.
Sua intenção é propagar este desejo de amor a vida,
esta ação existêncial e humana é chamada por Erich Fromm de
“biofilia”, a outra é propagar a vingança e o desejo de
destruição, conhecida como necrofilia82. A biofilia tem na sua
essência uma sensação de bem estar, um sentimento de
satisfação, uma emoção de alegria, tem um caráter de bondade,
de colaboração, de cooperação, de solidariedade, sua intenção é
caminhar nesta direção junto com os outros semeando a paz e a
justiça através da humanidade.
Uma outra força emocional é uma tendência à
destruição uma espécie de desejo de morte também conhecida
como necrofilia, um ser amargurado, revoltado, indignado, que
busca sua realização através da destruição do outro, sua missão
é extravasar seu ódio, raiva, inveja. Este olhar não consegue
admitir a vivência, ou existência do bem, estas ações do amor
provoca no seu âmago uma reação agressiva tomada de uma
aversão ao afeto e amor, não consegue admitir a existência da
biofilia “o amor à vida” ao contrário sua missão é propagar
sem medida suas ações de destruição.
Existe um prazer imenso no “desejo de morte”, é
tomado por uma possessão de raiva e ódio, inconscientemente
está sobre o domínio desta compulsão, a origem desta emoção
82
Ibidem, pág. 236.

122
surge primeiro de uma forte rejeição e sentimento de injustiça
sofrida sobre os cuidados dos seus pais, familiares, esta
vivência de abandono, de sofrimento, de solidão, de
negligencia, é a única verdade que experimentou até o presente
momento. Esta experiência na existência desenvolve aversão,
negação, pessimismo, revolta, descrença, deste modo seu ser
fecha-se para o mundo afetivo, ao amor e para as relações.
Isolado das relações afetivas acaba se tornando frio, distante,
racional, calculista, não consegue demonstrar nenhuma reação
afetiva, no fundo do seu inconsciente paira o medo do
abandono e da rejeição.
Sem dúvida esta idéia da “natureza” ou da “essência”
do homem, quer dizer, daquilo pelo qual o homem é homem,
não combina, como tantos outros conceitos, que possa
descrever em termos positivos, dizendo que é no íntimo,
encontra-se uma estrutura fixa, com certas qualidades
invariáveis, como o bom ou mau, amor e ódio, livre ou não
livre, etc. A “essência do homem” é um conflito que só existe
nele: A oposição entre “ser da natureza”, estando sujeito a
todas suas leis e, ao mesmo tempo, “transcender a natureza”
porque o homem é único em sua individualidade, que é
consciente de si e de sua “existência”; é, de fato, “na natureza
o único caso em que a vida se tornou consciente 83”.
A existência mostra que “todas as paixões e desejos
do homem normal, neurótico, psicótico, são tentativas de
resolver este conflito essencial84. Tudo indica que esta
inusitada situação da vivência assumida consciente ou
inconscientemente pela escolha deste ser na existência
influencia sem dúvida seu estado de saúde. Por isto mesmo
todo conflito tende a se esclarecer com outros seres, ou seja,
esta sua bagagem emocional e cultural vai se confrontar com

83
Fromm, Erich. O inconsciente social. México, Paidós, 2ª. ed., 1990, pág.
41.
84
Ibidem, pág. 41.

123
situações de bondade, de maldade, de ternura, de agressão.
Toda esta experiência desencadeia uma série de emoções
incorporadas a partir de sua representação de mundo. Este
legado cultural e emocional possui a força de representar o “ser
na existência”. Quando existe problemas pode utilizar a
reflexão para resolvê-los da melhor forma possível, agora a
capacidade para fazer esta análise da realidade depende e
muito do estado emocional, por exemplo, se uma pessoa está
muito revoltada por toda uma série de injustiças que sofreu, sua
tendência é desconfiar e não aceitar nenhuma forma de ajuda e
muito menos colocar entre “parênteses” seu conflito
emocional.
A existência tem identificado no ser, uma espécie de
“caráter social” desenvolvido no cerne da sociedade, mais para
sabermos qual deles é mais ativo e que chegue a ter
predominância na formação de sobre o “caráter” de uma pessoa
numa sociedade depende em grande medida da sua estrutura
social que cumpre a função seletiva mediante suas formas de
vida, seus ensinamentos, castigos e recompensas85. O ser
humano não vive fora deste contexto social, cultural
educacional, religioso, político, econômico, são justamente
estes fatores que acabam desenvolvendo no “ser” e
determinando a constituição da essência do seu caráter. São
estas vivências de maus tratos, de violência, de agressão, de
sofrimento, de traição, de injustiça, de alienação, de ignorância,
de fracassos, de decepções, ou ao contrário, de amor, de
cuidado, de justiça, de conhecimento, do ambiente familiar, do
carinho, do afeto, da boa alimentação, dos valores vivênciados,
do exemplo dos adultos, sem dúvida será decisivo na formação
do tipo de caráter. Este caráter tem seu processo de formação
na existência juntamente com todos os outros fatores
vivênciados e assimilados pelo “ser” na luta pela sua
sobrevivência psíquica e física.
85
Ibidem, pág. 44.

124
Esta condição propicia a dignidade necessária para o
pleno desenvolvimento de um caráter que vai somar e
acrescentar na sociedade, ao contrário do outro que terá menos
probabilidade de alcançar esta saúde emocional, ambos os
seres com este caráter não sofrem qualquer tipo de
determinação existêncial. Uma pessoa com um caráter bom
pode se tornar por contingência da existência numa pessoa
muito má, e uma outra de caráter mau, criminoso, violento,
pode se tornar uma pessoa muito boa. Esta transformação
depende unicamente das escolhas e experiências que vai
receber do seu meio social. Nunca podemos desacreditar de um
ser humano, sempre existe uma possibilidade de cura. A cura
de valores éticos, de amorosidade, de compreensão, parece algo
utópico, queiramos ou não, este é o único remédio que
realmente funciona.
Mas se seu conceito de existência e de prazer humano
supera a de uma excitação erótica prazerosa, independente de
sua origem, e se seu interesse refere-se à vivência de
experiências de amor, de ternura, de simpatia, que são muitos
superiores ao sadismo e de sua atração pela morte e barbárie.
Caso escolhêssemos este caminho mostraria para nós um
retrocesso na evolução humana, este renascimento das
perversões, inclusive com todos seus preciosos enfeites e com
todas as reserva de Marcuse86. Outras interpretações tornam
possível a anulação ou desaparecimento destas emoções
destrutivas que anulam o espírito e as relações humanas.
O ser encontra-se neste grande dilema e precisa fazer
sua opção, sua escolha, entre o bem e o mal, a justiça e a
injustiça, o amor e o ódio. Muitos fazem a opção para viver na
perversidade, no engano, na mentira, roubando, matando,
repetindo tudo àquilo que acabou de aprender ou vivênciar no
seu meio social. Seu rosto mostra uma realidade de tensão,

86
Ibidem, pág. 146.

125
angustia, distanciamento, desconfiança, insatisfação, carrega
este peso sobre o seu espírito.
Na existência este ser está tomado por esta vivência
emocional, precisa dos psicotrópicos e tranqüilizantes, do
álcool, de brigas, de fantasias, ou se entrega à compulsão
sexual, ao consumo de drogas, tudo isto com o objetivo de
neutralizar seu vazio na existência, sua apatia, seu desânimo.
Muitas destas atitudes na existência tem a finalidade de
impedir que este estado de angustia, de medo, de infelicidade
chegue ao nível de sua consciência87.
Este é o resultado de uma existência que procura a
satisfação de todas as suas necessidades fisiológicas e
biológicas e quando alcança estes objetivos encontra-se
insatisfeito, portanto não consegue estar em paz consigo
mesmo, em alguns casos chegam a ficar doentes, mesmo tendo
a dispor tudo o que necessita em forma de bens materiais,
como casa, carro, dinheiro, poder. Mas acaba faltando o calor
humano que é o mais essencial dos estímulos para dar
continuidade a convivência humana, que substitui a solidão,
fortalece a fraternidade. Quando este ser não consegue fazer
esta experiência, desenvolve processos psicóticos,
esquizofrênicos, quando estas condições não são vivênciadas
existe a forte tendência a desenvolver alguma forma de
patologia88.
Existe um outro tipo de dilema na existência que a
própria ciência ou terapia analítica encontra-se envolvida.
Muitos criticam o método do tratamento psicanalítico buscando
outras terapias alternativas, como iridologia, cromoterapia,
florais de bach, fitoterapia, hipnose, regressão a vidas passadas,
e muitas outras que seria quase impossível descrever todos os
seus nomes. Existem críticas a psicanálise, psicologia,
psiquiatria e as terapias alternativas, como existem também os

87
Fromm, Erich. El amor a la vida. Barcelona, Paidós, 1985, pág. 33.
88
Ibidem, pág. 34.

126
defensores, mas na verdade temos de conviver em paz com
todas estas propostas terapêuticas. Não podemos por um
simples ato de vontade, ou por força política ou policial impor
a inexistência destes métodos ou técnicas terapêuticas.
Acredito que cada uma dessas abordagens terapêuticas tenha
seu valor, mais é fundamental que o profissional faça uma boa
formação na sua área de atuação, acompanhado de uma ética e
seriedade.
Muitas vezes recaímos numa crítica infundada e
desleal por medo da concorrência de mercado, neste caso o
problema não está na atuação terapêutica e sim numa disputa
de mercado. Em relação à psicanálise e seu método de
tratamento, quando o paciente não consegue um resultado
satisfatório frustrando a expectativa do paciente, talvez porque
não foi feliz no diagnóstico e por isto mesmo o método
analítico não era aconselhável neste caso.
Dizer que a psicanálise não cura ninguém é uma
blasfêmia. Esta afirmação não se baseia somente na minha
experiência de analista a mais de vinte anos, os resultados
obtidos são excelentes, esta confirmação também se baseia em
relação a outros colegas. Muitas vezes não é problema de
competência, mas sim na escolha de pacientes equivocados
para fazer o tratamento psicanalítico, neste caso faltou uma boa
supervisão clínica e bastante estudo.
O tratamento psicanalítico realizado pelos pacientes
tem confirmado o desaparecimento por completo de alguns
sintomas e outros conseguiram pela primeira vez conhecer-se
com mais profundidade, a partir de sua própria experiência
existêncial e depois disto se tornaram mais, sensíveis, honestos
consigo mesmos, sabendo usar melhor sua liberdade, tendo a
condição de se aproximar mais da realidade e se afastar de seu
mundo de fantasia. Se a psicanálise consegue alcançar estes
objetivos no tratamento considero algo extraordinário e
importante que às vezes passa despercebido e não se valoriza o

127
suficiente. Algumas pessoas ainda acreditam que a única forma
de curar as doenças é através de um médico e na utilização de
medicamentos. “Se não pode tomar algum remédio, nada pode
ajudar a este paciente89”. Os medicamentos são a sua
salvação. E se isto não bastasse exige do analista que a cura
deve ser a mais rápida possível.
Querendo tornar a terapia um placebo, tudo muito
simples, tudo é sem esforço mental, sem reflexão, bastante
autosugestão, é este tipo de terapia que se procura hoje em dia,
como algo bastante rápido como as tecnologias, ou seja, a
solução dos problemas existências é para ontem. Passa-se a
idéia de que a terapia analítica é parecida com a ingestão de um
medicamento, é leve, rápido, e com efeito automático no
cérebro. Ou seja, o milagre é como resolver os problemas da
existência sem nenhum esforço emocional ou mental, uma
espécie de magia, milagre. Todos nós sabemos que esta
fantasia não existe, nada na existência existe sem esforço,
coragem, transformação e decisão.
A análise exige disciplina, disposição, decisão,
esforço, dedicação, coragem, porque sem estas condições
motivacionais da parte do paciente nada se torna possível, não
basta somente fugir de si mesmo, propondo o auto engano,
antes disso necessita um grande esforço para superar as
frustrações, as decepções, os sofrimentos, porque caso
contrário nunca alcançará nada na existência.
A análise é um trabalho exigente, para pessoas
corajosas e determinadas, e aqueles analistas que tentam
facilitar o processo estão indiretamente também se
enganando90. A análise é um lugar para vivênciar emoções,
não se pode ficar no âmbito das racionalizações intelectuais. Se
a análise descamba para intelectualizar sobre o significado e
suas interpretações para poder esclarecer tudo, nada vai ser

89
Ibidem, pág. 138.
90
Ibidem, pág.141.

128
modificado, porque a transformação passa pela elaboração das
emoções. Não basta somente comentar sobre a sua etiologia ou
demonstrar seu quadro psicopatológico91. É preciso entrar em
contato com as emoções através de uma vivência profunda de
ressignificação de seus medos, de sua angustia, de sua falta de
afeto, de seu isolamento, somos frutos de uma forte crença que
a dimensão racional pode tudo e as emoções e sentimentos não
tem nenhum valor.
A análise em minha opinião tem neste ponto um papel
muito importante e essencial, como prática de
autoconhecimento, ajuda a pessoa a tomar consciência de sua
própria realidade, de libertar de suas ilusões enganosas. Tomar
consciência dos sintomas produzidos pelo recalque de sua
energia vital, como no caso a angustia e a ansiedade.
Quando toma consciência destas emoções se
vislumbra a possibilidade de chegar a vivênciar a existência de
uma outra maneira, como objeto de seu interesse, da sua
capacidade de gerar vínculos saudáveis e duradouros, de sua
potencialidade criadora, contando que a pessoa esqueça que é
um objeto e que comece a vivênciar as emoções não como um
ser alienado que produz atitudes e sentimentos prejudiciais a si
mesmo e a outras pessoas, mais como alguém capaz de
alcançar a felicidade.
Muitas pessoas compreendem hoje que quando se tem
tudo e já usufruí de tudo, sentem-se insatisfeitos e desanimados
diante da existência e somando a esta situação não encontram
nenhum sentido na vida, porque estão deprimidos, angustiados,
e perguntamos: Para que viver então, se tudo o que fazemos só
serve para comprar mais um carro mais novo e moderno92? E
alguns descobrem na análise que o homem não vive só de pão e
de poder, que isto não basta para garantir a felicidade, mas sim
aumentam o estado de angustia e originam conflitos

91
Ibidem, pág.144.
92
Ibidem, pág.143.

129
intermináveis. E deste estado de alienação onde a crença se
torna uma verdade, uma espécie de dogma, esta rigidez de
caráter retira a possibilidade de qualquer mudança, seu
caminho na existência já está pré-estabelecido, sua finalidade
consiste em trabalhar e adquirir, não se importa com as
conseqüências que esta escolha possa ocasionar ao seu
organismo ou a outras pessoas do seu convívio.
Impregnado por esta ideologia segue sua trajetória
numa espécie de “lavagem cerebral” não pensa em outra coisa
a não ser o trabalho, assim fica muito mais fácil viver porque
inconscientemente sabe que está bloqueado para a expressão do
amor e do contato humano, sua fuga consiste em esconder-se
atrás do trabalho e não enfrentar o mundo de suas emoções, as
reclamações dos filhos, da esposa, de seus amigos e familiares
não tem a menor importância, todos estão errados ao
questionarem o seu modo de viver, a única pessoa certa em
toda esta discussão trata-se de sua pessoa.
Mas é sempre bom levar em consideração os
resultados de todas as agressões feitas ao seu organismo ou a
pessoas muito próxima de si mesma. Em algum momento
surgirá no corpo alguma doença para alertar o estilo de vida
doentio ou consumista, desta forma não tem saída, a sua
existência equivocada começa a expressar-se através da dor, do
sofrimento, da doença, este é o preço pago por tomar decisões
num estado de inconsciência, em última instância, o
organismo, a existência, começa a questionar o seu modo de
pensar e de viver, a natureza organísmica exige uma reflexão
sobre estes sintomas que aparecem em algum órgão do corpo.
Vejamos estas palavras deste grande psicanalista
humanista chamado Erich Fromm, “Portanto, não é o homem o
que está determinado, mas sim as alternativas entre as quais
ele deve decidir, estas sim realmente podem ser
determinadas93”. Esta sua forma de pensar é o resumo do
93
Ibidem, pág. 214.

130
existencialismo, quando questiona o “determinismo” procura
realçar o valor da “escolha” e da sua “decisão” estas podem ser
realmente determinadas pela na consciência. A existência
compõe e estrutura-se com a ajuda do nível de consciência
valorativa, ou seja, de sua decisão de fazer da vida um
ambiente onde todos possam ter voz e vez ou um martírio de
agonia e sofrimento. Tomada à decisão é um caminho sem
volta. Somos conscientes das escolhas que estamos priorizando
para sermos mais felizes ou infelizes? O estado de
inconsciência ou de consciência aparece quando o “ser”
começa a fazer uma experiência consigo mesmo de
autodestruição ou de alegria e satisfação.
E assim nada mais belo na existência do que observar
um homem que ama a vida, porque são fáceis de reconhecer
entre os demais, e não existe nada mais atrativo do que um
homem que ama e notamos que ama não só a uma pessoa, mas
sim a vida em toda sua expressão. Mas existem homens que
não amam a vida, ao contrário, odeiam.94 O que acaba atraindo
sua atenção não é a vida mais sim a destruição, logo depois se
faz de vítima e inicia um rosário de queixa sobre a existência.
As influências culturais e educacionais ou mesmo
aquelas orientações no seu meio social, mais tarde pode exercer
ou favorecer uma escolha baseada em valores, por exemplo, se
uma pessoa sofreu muito com a pobreza e a miséria, pode
depois de conseguir seu espaço na sociedade, começando a
defender os mais pobres e marginalizados. Se um jovem
acompanha as notícias através dos meios de comunicação ou
mesmo vivencia a exclusão social, a exploração dos mais
pobres, o capitalismo selvagem, pode desenvolver um sentido
mais crítico no decorrer de sua existência defendendo um
socialismo democrático. Desde a origem da família o ser
começa a sofrer toda uma orientação de valores políticos e
éticos, como religiosos, esta assimilação cultural e social
94
Ibidem, pág. 193.

131
encaminha a pessoa, para depois assumir na existência num
certo estilo de vida.
Se uma criança vive uma infância com pais
neuróticos e depressivos ou sente-se sensibilizado por estas
questões de sofrimento, pode despertar na vida adulta um forte
interesse em compreender esta irracionalidade do
comportamento humano95. Estamos relatando a existência de
Erich Fromm resgatando desde a sua infância, adolescência e
juventude o processo de formação de seu caráter e sua vocação
para exercer a profissão de psicanalista e de cientista.
Quando se convive com um pai muito angustiado e
com mau humor pode desencadear um afastamento afetivo por
medo de suas reações e com isto os pais perdem a autoridade
sobre os filhos. Quando se tem um pai muito fechado e ausente
com grandes dificuldades de expressar o afeto, deixando
transparecer um forte complexo de inferioridade e
desconfiança. Inseguro consigo mesmo e com os próprios
filhos influencia de forma negativa o caráter das pessoas que
convivem com ele.
É muito difícil para uma criança ou um jovem ter que
defender a sua mãe devido ao seu sofrimento. A sua mãe
chorava muito e sentia-se na obrigação de defendê-la contra
seu pai. Ele mesmo afirma “como filho único estava numa má
situação” quando não se tem o afeto necessário, apenas muita
disciplina e obrigações a cumprir. Inconscientemente não
aceita que o próprio filho tenha autonomia e liberdade. Deste
modo podemos compreender a origem dos sentimentos
ambivalentes de amor e ódio em relação aos pais e o
desenvolvimento de uma sensibilidade muito grande em
relação ao sofrimento humano. Por isto conseguimos entender
a existência de Erich Fromm, seu desejo era muito forte e sua

95
Funk. Rainer. Erich Fromm: el amor a la vida. España, Paidós, 1999,
pág.16.

132
luta insaciável a favor da liberdade e contra toda forma de
autoritarismo.96
Sempre que um adolescente começa a questionar e
entender a sociedade e suas contradições com a ajuda de algum
adulto. No caso Oswald Susmann empregado de seu pai, fazia
este papel de orientação e esclarecimento político e religioso,
além de ocupar o espaço afetivo de seu pai, por isto mesmo
Fromm descreve este amigo como “uma pessoa extremamente
correta, cheia de coragem, um homem íntegro. E termina
dizendo “eu devo muito a ele97”. É claro que a educação tem
muito a ver com a formação do caráter de um jovem, no caso
de Fromm sua mãe estava sempre presente e talvez com uma
exagerada superproteção, além das fotos dele na escola com
seus colegas, não tinha nenhum tipo de amizade com as outras
crianças de sua comunidade.
Na existência sempre existem acontecimentos que
surpreendem a todos, foi o caso de uma vizinha que era muito
amiga sua, de repente sem muitas explicações acabou
cometendo suicídio. Esta experiência fez com que “começasse
a interessar-se pelas estranhas e secretas causas das reações
humanas98”. Ficou impressionado com o suicídio desta jovem
de apenas vinte e oito anos, que era muito bonita e inteligente.
Todos concordam que a adolescência é um período muito
difícil e da mesma forma não foi nada fácil para Fromm. Ele
se identificou no estudo dos profetas do antigo testamento e
acabou sendo uma espécie de modelo em sua vida religiosa,
pessoal e social99.
Os profetas do antigo testamento diziam que o
“homem deveria encontrar as repostas para os problemas de
sua existência”, e que estas respostas deveriam consistir no

96
Ibidem, pág. 20.
97
Ibidem, pág. 22.
98
Ibidem, pág. 31.
99
Ibidem, pág. 36.

133
desenvolvimento de sua compreensão do amor, e diziam que a
humildade, a justiça, é inseparável do amor e do entendimento.
Eles viviam o que falavam. Não estavam obcecados pelo
poder, pela ambição, pela exploração, mas ao contrário, se
afastavam dele. Inclusive do poder de ser um profeta. O poder
não os impressionava e anunciavam a verdade mesmo quando
esta implicava na prisão, o desprezo e a morte100.
Podemos então compreender a influência deste tipo
de formação cultural e religiosa no processo de formação do
carater de Fromm e de suas implicações decisivas na escolha
de sua futura profissão, como também no seu modo de encarar
a existência. Erich Fromm sempre esteve dentro desta prática
de vida não era passivo frente aos problemas da psicanálise e
da existência, exercia fortemente sua postura teórica contra
toda forma de alienação, dogmatização e ortodoxia.
Esta limitação cultural e literária de seus pais o
motivou a buscar um caminho onde estivesse perto de pessoas
cultas, e inteligentes para que pudesse aprender algo sobre suas
dúvidas particulares. Assim vários intelectuais e psicanalistas
fizeram parte da vida teórica e científica de Erich Fromm, o
rabino da sinagoga chamado Talmud Rabinkow, sua amiga,
analista e depois sua esposa Frieda Reichann e seu analista
George Grodeck, o grande médico e psicanalista da cidade de
baden-baden.
Foi aprovado na sua tese de doutorado em filosofia
com o título “A lei judia: contribuições do judaísmo a
diáspora”. O diploma foi emitido no dia quatro de setembro de
1925 na cidade de Heidelberg no ano quinhentos e quarenta da
fundação da universidade101. No dia dezesseis de junho de
1926 logo depois de se doutorar em filosofia acaba contraindo
o matrimonio com Frieda Fromm no dia de aniversário de sua
mãe. Mas no ano de mil novecentos e trinta e um estava com

100
Ibidem, pág. 37.
101
Ibidem, pág. 58.

134
tuberculose e se encontrava a mais de dois anos separado de
sua esposa na suíça. Grodeck interpretou que sua doença era
uma expressão de seu desejo de separar-se de sua mulher, pois
sofria muito com todo este conflito matrimonial, então Fromm
tomou consciência da situação e pediu a separação102.
Seu pai morreu no dia vinte e nove de Dezembro de
1933 e sua mãe três anos mais tarde no dia vinte e três de
Fevereiro de 1959 em Nova York de câncer. Depois de ter
chegado ao fim da sua relação com Karen Horney no ano de
1943, acabou casando com Henry Gurland no dia 24 de julho
de 1944. No ano de 1956 conseguiu concluir a primeira turma
de psicanalistas humanistas na cidade do México. E depois de
sete anos constituiu o Instituto Mexicano de Psicanálise na
cidade do México, inaugurado no dia oito de março de 1963103.
Esta foi uma pequena demonstração das influências
que sofreu Erich Fromm neste processo da formação do seu
caráter e no desenvolvimento da psicanálise humanista com
uma orientação social e existêncial. Sem dúvida deixa um
legado precioso de mais de cinqüênta livros escritos para serem
estudados e compreendidos, sua contribuição à ciência
psicanalítica talvez seja a mais atual e próxima da humanidade,
sua preocupação sempre esteve ao lado da qualidade de vida,
das condições básicas da sobrevivência, da igualdade de
oportunidade, da justiça social, da distribuição das riquezas
produzidas por um país, pelo amor e dignidade do ser humano.

102
Ibidem, pág. 63.
103
Ibidem, pág.157.

135
2.0. O existencialismo é uma expressão do humanismo

Esta relação entre a existência e o humano, é um tema


que remonta as origens da história do humanismo, e dos
diversos tipos de humanismos desenvolvidos pela humanidade
como um valor indispensável para uma reflexão.
Especialmente em se tratando dos valores éticos em busca de
uma maior autenticidade do ser. Para poder pensar sobre o
“humanismo” temos de ir ao encontro de sua essência, dos
valores assumidos e incorporados no seu caráter durante o
processo de formação antropológico e existêncial. A existência
dispõe muitas condições para o processo de evolução de sua
consciência psicológica, emocional, espiritual, ecológica,
social, cultural, educacional, política, econômica, descobrindo
destro de si mesmo as potencialidades através do esforço
constante de auto-superação buscando incessantemente a
transcendência.
Sem a existência não poderíamos formular um
pensamento sobre as teorias do existêncialismo, da mesma
forma não poríamos pensar o humanismo sem o homem, para
entendermos primeiro o significado do “humanismo” temos
que aproximar a “essência” do “ser homem” condicionado e
absorvido pela sua condição emocional e existêncial. Ao
comentarmos sobre a existência do ser no mundo vivido, temos
que nos reportar ao nível de consciência sobre o “sentido do
ser” na existência, este alerta é importante, pois muitas vezes a
existência e suas exigências tomam conta do seu tempo, pois o
que se encontra em jogo é a sua sobrevivência.
A realização dos seus objetivos envolve quase todos
os momentos do ser, sendo assim o seu próprio “ser” fica no
esquecimento ou em segundo plano. E quando o ser não se


Essência: Além de designar a natureza da sua causalidade este conceito
pretende mostrar a intencionalidade de sua práxis presente no íntimo da
energia vital em evolução biológica e da consciência.

136
encontra neste processo de “vir-a-ser” encontra-se paralisado,
estagnado, alienado, sua subjetividade permanece inalterada.
Sem consciência adota na sua vida um estilo conformista e
subalterno, esta falta de coragem não acrescenta quase nada na
sua condição humana.
Tenho consciência que ao escrever este texto não
estou preocupado com seguir os conceitos e terminologias de
uma determinada corrente teórica do existencialismo, minha
intenção é entender o valor e a importância destas duas
instâncias do “humanismo” e do “existencialismo” como uma
compreensão básica para poder pensar o “ser” diante das suas
decisões, escolhas, liberdade, responsabilidade, esta análise
subjetiva e não objetiva leva a interpretar e aproximar da
essência epistemológica do paradigma teórico da psicanálise
humanista.
Estamos buscando entender o “ser” na sua existência
para poder interpretar as atitudes e escolhas do homem diante
das provocações de uma mundaniedade perversa. Queremos
com isto mostrar o valor da “psicanálise humanista” na busca
da auto-superação dos conceitos ultrapassados e esclerosados
pela história da psicanálise clássica, também conhecida por
freudiana. As diversas correntes teóricas e metodologias
aplicadas no tratamento psicanalítico apresentam uma tentativa
de dar uma reposta á existência do ser humano e
principalmente de sua desumanidade.
Esta é a nossa intenção mostrar que a psicanálise
clássica está baseada nos postulados mecanicistas, materialista,
positivista, determinista, fisiológico. Foi durante o período
racionalista e iluminista que Freud formulou sua concepção de
natureza humana. Queremos com isto demonstrar o equívoco
destes paradigmas que deram a fundamentação de uma visão
do homem distante daquela que defende a psicanálise
humanista de Erich Fromm. Não temos nenhuma dúvida de que
o “existêncialismo é um humanismo” seu caminho

137
epistemológico não está ligado à estrutura lingüística e muito
menos à sua lógica, ao contrário queremos compreender a
manifestação do inconsciente pela lógica da existência, com a
interpretação do sentido do ser na sua vida. Temos um dever
ético de não assumir nenhum compromisso ideológico e muito
menos pela tradição da psicanálise clássica. O desejo de
Fromm se estende para procurar uma solução humana e
transdisciplinar para o sofrimento humano.
Muitos não entendem de que humanismo se trata, não
é o humanismo cristão ou religioso, dos gregos, dos romanos,
renascentista, socialista, mas de uma “humanitas” carregada de
uma simbologia comunicante dos valores éticos da essência na
existência104. Estamos tentando demonstrar o humanismo
presente na essência do ser, entendido aqui na expressão desta
subjetividade comunicada através dos pensamentos,
simbologias, imagens, emoções, linguagens, totalizando a
personificação da formação de um caráter, de um estilo de
vida, mostrando uma compreensão bastante particular da
interpretação do seu mundo vivido a partir de seus valores e
influência religiosa, cultural, familiar e sócio-histórica.
A psicanálise humanista entende que o conceito de
biofilia, como uma energia em forma de um amor muito
especial pela sua existência. Esta inter relação entre existência
e organismo depende e muito de como está acontecendo a
relação com as pulsões vitais, esta é a condição essencial para
compreendermos o sentido deste ser na existência, ou seja,
estamos propondo a tomada de consciência desta instância
psíquica que pode bloquear a expressão do potencial da vida,
ou por outro lado, ajuda na realização em varias dimensões do

104
Para compreender com mais profundidade sobre os diversos humanismos
e sua origem histórica na minha tese de doutorado em Psicologia Social
realizado na Argentina: Pereira, Salézio Plácido, A psicanálise humanista
e a incorporação do paradigma da complexidade na formação analítica.
Buenos Aires, Universidade John Kennedy, 2005.

138
ser. A necrofilia tem muito mais relação com o processo de
autodestruição, do não-ser na existência, da rejeição do ser,
uma agressão do ser por estar insatisfeito com a existência,
começamos então compreender que esta “energia vital” pode
estar a favor da saúde ou de forma oposta, estruturando o ser
em doença.
Todo psicanalista acaba tomando consciência de que
o ser está numa direção na existência, ao interpretar este
sentido de vida, o próprio ser toma consciência da necessidade
de mudar de direção, se assim desejar. Ao esquecer-se de si
mesmo, ao priorizar questões materiais e superficiais como
mais importante que o seu ser, pode com o tempo desencadear
uma espécie de adormecimento do potencial do ser. Temos
interesse em fazer desabrochar no íntimo do “ser” aquelas
“essências” porta vozes da realização e da eficiência, mesmo
diante de qualquer problema ou desafio, este potencial, está
presente, latente, oculto, precisamos fazer com que esta força
reapareça e faça valer o humano, essência esta que busca a
dignidade do homem e seu processo de humanização.
Quando o “ser” aqui designado como sendo uma
“pessoa humana” e não uma “coisa”, “objeto”, começa a tomar
consciência da condição essencial da liberdade para pensar,
para refletir, para mudar, para fazer uma metanóia em suas
crenças, alcançando a verdade do “ser” através do tratamento
analítico, inicia-se um processo de crescimento do seu
potencial de amor a si mesmo e a vida, é essencial não
compactuar com nenhuma espécie de dogma ou ideologia,
assumir esta postura é fazer uma violência ao estado
embrionário do humanismo presente no “ser”, quanto mais
verdadeiro e autêntico, mais humano, mais ético, mais sincero,
mais honesto, condição básica para viver em paz consigo
mesmo, e com seus semelhantes, com muita saúde.
O grande problema da humanidade foi utilizar a
ideologia intelectual, cultural, religiosa, política, econômica,

139
para dominar a subjetividade humana, enquanto o homem não
for artífice de sua existência permanece com medo, inseguro,
perdido, confuso, a espera de um guru, de um salvador, de um
messias. Precisa de alguém para dizer o modo de como ele tem
de viver sua existência. Neste estado de sujeição e dependência
delega esta função da reflexão sobre a existência a uma
instituição, a um pensador, ao estado, a uma autoridade,
alienados na sua condição de ser permanece como um “objeto”
de manipulação, tornando-se escravo, que não realiza o seu
projeto de vida, mas coloca toda sua vida para escravizar-se em
função das ideologias dominantes. Quando mais dependência,
mais alienação, muito mais dificuldade deste ser para poder
sair desta condição de medo, o medo tem a ver com a
inexistência de sua identidade, de um caráter, não existe uma
motivação pelo que viver, mas fazer da sua vida uma extensão
para cumprir ordens e obrigações. Esta negociação da alma, do
espírito, delega ao locador a grande tarefa de realizar a sua
felicidade.
Somente através de um processo analítico, o ser pode
voltar a ser, saindo desta condição de locatário para ser dono de
seu ser. São muitas as possibilidades e probabilidades da
realização do ser, porém sem um processo de
autoconhecimento com uma decisão firme para fazer
prevalecer a saúde e a realização do ser. Podemos constatar na
história de vida de qualquer ser humano a presença desta
dinâmica inconsciente fazendo acontecer uma existência com
saúde ou doença. Em outras palavras fazer com que o ser faça
acontecer os seus desejos, sonhos, fantasias, e realizações. É na
existência desta historicidade da evolução da consciência que o
ser acaba se humanizando, esta essência humana tem como
prerrogativa tornar o homem uma possibilidade na existência.
Ao tomar consciência sobre o desígnio de sua
participação na história consegue decidir modificando esta
alteridade, não simplesmente pelas palavras, ou de sua

140
reflexão, mas pela expressão das emoções, o vigor desta
atemporalidade revive na sua subjetividade, o passado,
presente, futuro, confundindo-se em alguns momentos da
existência no aparecimento de alguma atitude através do sonho,
ou da fantasia. Sempre aparece a denúncia de uma emoção que
se apresenta como força propulsora de um comportamento
positivo ou negativo. Esta vivência subjetiva demonstra a
necessidade de identificar e reconhecer estes núcleos
neuróticos. Tomar consciência desta intenção inconsciente,
porta voz de uma verdade baseada na violência e na
agressividade.
Na sua expressão emotiva repete por compulsão ou
obsessão uma verdade absoluta sobre a sua interpretação de
mundo, ao direcionar-se na existência com esta atitude de
desconfiança, de egoísmo, de raiva, de ódio, contamina com
sua desumanidade atitudes para a proliferação da barbárie. No
encontro da desumanização, o ser consome muita energia,
protegendo-se contra aquilo que plantou quanto mais
consciência, mais presentes permanecem às emoções do
sentido e da realização do ser.
É nesta busca de projeção do “ser-para-tudo” que a
existência se eternaliza através da história de vida.
Convalidando pela autenticidade do vivido torna-o mais
humano. O sentido na vida tem como objetivo preciso criar a
possibilidade de oportunizar ao ser um aproveitamento da sua
energia psíquica direcionando-a em busca de saúde, paz,
satisfação, realização. A psicanálise humanista vem esclarecer
e descrever o processo de atuação inconsciente desta práxis e
seus subseqüentes resultados, quando utiliza a existência para a
evolução ou para a destruição.
“A presença do passado no presente é a necessidade
do futuro105. Um passado constituído de vida presente em cada

105
Heidegger, Martin. Sobre o humanismo. Rio de Janeiro, Edições
Tempo Brasileiro Ltda., 1968, pág.15.

141
olhar expresso da face humana, no movimento dos seus braços,
no sorriso disfarçado de esperança, de um olhar cheio de
questões, passado este revestido de cicatrizes presentes no
espírito humano e corporificado em forma de sintoma no
organismo este “ente” constituído de uma presença no presente
retrata os ganhos e perdas da existência, sua função é utilizar a
sua linguagem para descrever a sua compreensão do seu ser no
mundo.
O futuro está caracterizado pela formação do ser na
expressão de sua totalidade, denunciando os atos sintomáticos
e ao mesmo tempo recorrendo à esperança de um futuro
melhor, como então interagir com estas duas seqüelas do tempo
e saber que o futuro está na consciência, na inteligência, para
poder entender e compreender as mensagens do organismo,
presentes no passado, representado pela dor, e da sua vontade
de viver no presente, de uma decisão capaz de dialogar com o
sintoma e interagir com as emoções que foram recalcadas,
reprimidas, aparecendo somente à estrutura da doença instalada
no ser sem vida. “Nada melhor que uma ética como máximo
interesse na humanidade que me humaniza106”.
É na humanidade e através dela que o ser acaba se
humanizando, permitindo a ética mostrar a essência de sua
humanidade. Este ser é incansável nesta busca do “ser-para-
tudo” decidido a percorrer a sua existência com os valores
éticos, base de sustentação do seu caráter.
É muito difícil definir o conceito de humanidade
porque mesmo antes de pensá-la raciocinamos com o seu
106
Savater, Fernando. Humanismo Impenitente. Barcelona, España,
Anagrama, 2ª. ed., 2000, pág. 14.

Este eu desenvolvi para caracterizar a mundaniedade da vivência do ser
tanto no sentido pessoal como existêncial. Em si este termo mostra um ser
aberto a todas as possibilidades de auto-superação, de autoconhecimento, de
uma transcendência que passa antes pela tomada de consciência de que sua
responsabilidade é de auto-recriar para o “tudo” não incorrendo no risco
existêncial de ser um “nada” que tem relação com a insignificação do ser.

142
sentido humano, arraigado nas profundezas de sua consciência,
sua abrangência comporta toda a genialidade dos seus
antepassados, vivênciados e incorporados inconscientemente e
transmitidos de geração a geração. Possui a capacidade de
poder conviver com todos os recursos disponíveis que a
produtividade do homem conseguiu socializar para tornar a
humanidade do homem. Este legado das “humanitas”
acrescenta ao seu ser a oportunidade de saber decidir com
inteligência qual o melhor caminho para alcançar os benefícios
da existência. Todos estão convidados a fazer um processo de
transcender o ser mesmo na intransigência.
Infelizmente em nossa sociedade são muitos poucos
os que têm oportunidade de constituir-se de uma educação para
a existência, de vivenciar os valores indispensáveis para dar
testemunho ético. Na falta destas condições temos de conviver
com a barbárie, com a corrupção, com os jogos de interesse,
devido à falta de solidez ética nas instituições públicas,
desenvolve nas lideranças políticas e sociais um egoísmo, uma
compulsão desmedida pelo poder, onde nem a própria
democracia não consegue dar conta, estas lacunas não podem
ser resolvidas pelas leis do aparato jurídico, necessita a
formação de líderes autênticos, para isto a humanidade
necessita de homens dignos de sua existência e não de
máquinas mortíferas, de corruptos e corruptores, temos que
fazer prevalecer à oportunidade e igualdade de condições neste
processo de educação do ser.
Quando a humanidade resplandece com toda sua
genialidade no ser humano então podemos dizer que sua razão
possui uma práxis de ação inteligente. Porque consegue fazer
de sua existência um lugar para viver a autenticidade, a
congruência, a sinceridade, a solidariedade, a integridade, estes
valores com certeza estarão presentes no seu ser fisiológico,
religioso, psicológico e político. Neste processo dialético do ser
surge a necessidade de dialogar esta essência do humano

143
adquirida neste espaço público da sociedade que aos poucos
acaba sendo incorporada pelo homem na humanidade.
“Humanizamos o que acontece no mundo e em nós, quando
falamos e, com este diálogo, aprendemos a ser humano107”.
Nesta interação emocional surge através da comunicação
dialógica os antecedentes cultural e humanitário presente no
discurso, procedente da ética, fazendo ressurgir na presença do
diálogo a compaixão, o amor, a bondade, o perdão, o outro só
consegue conhecer a expressão do humanismo por meio do
testemunho contido nas palavras e nas suas ações.
Demonstra humanidade quem consegue ter
compaixão com uma pessoa doente, quem se sensibiliza diante
do sofrimento e do esforço da superação do outro, procurando
sempre realizar algo para diminuir a dor. A humanidade é uma
disposição de compreender a dor, dando sua importância no
seu contexto vital, de identificar-se com a dor alheia por
experiência própria. A referência principal da dor humana pode
ser estendida a todos os seres humanos de acordo com uma
doutrina que tem mais peso na tradição do oriente do que no
ocidente108.
O humanismo na psicanálise aparece no vínculo entre
o analista e o paciente quando estende-se sobre o “setting”
analítico uma atmosfera de compreensão, de compaixão, da
vivência da possibilidade de resolver a dor do paciente, mas o
sofrimento é a condição humana aparecendo ao analista para
receber um olhar de esperança e fé na solução de sua incógnita,
são momentos únicos e um diálogo profundo sobre a
compreensão da dor humana, ao falar na dor o lado humano
aflora quando o organismo não consegue dar conta dos
problemas da existência.
No entender de Rousseau a piedade é uma condição
inata que repudia e rejeita a existência do sofrimento alheio, a

107
Savater, Fernando. Op Cit. 2000, pág. 22.
108
Ibidem, pág. 24.

144
dor é uma forma de uma punição humanamente aplicada pelo
inconsciente para lidar com os excessos do egocentrismo e do
narcisismo. Na sua forma de entender o “amor próprio” e
“piedade” se encontram antes estabelecida entre “virtude” e
“compaixão” isto significa que a segunda é um princípio
punitivo e desta forma humaniza o primeiro109.
Para Schopenhauer, a compaixão tem também um
aspecto fundamentalmente imediato e intuitivo, surge através
da expressão do seu caráter muito mais do que os
racionalismos, porque a pessoa supersticiosa não tem a lucidez
racional, mas utilizam a compaixão por serem mais sensíveis e
menos racionais. Porque muitas vezes a intelectualidade
desenvolve no seu ser um caráter egoísta e narcisista e mais
tarde pode inconscientemente sabotar o seu próprio ser110.
No humanismo está muito presente a “fraternidade”
que é uma espécie de movimento para criar os laços de
amizade e união entre os seres humanos. Esta mesma
fraternidade pode estar presente nos momentos difícieis da
existência, quando a dor, o sofrimento, as perdas, surgem de
modo inesperado, esta dor pode ser dividida, compartilhada, e
ao mesmo tempo desaparecer pelo menos naquele instante, a
insegurança, os medos, a solidão, podem ser substituídas pela
presença do calor humano, a solidariedade torna possível
enfrentar momentos difícieis fazendo com que a vida se torne
mais tranqüila e segura quando somos capazes de contar com
os outros111.
O humanismo resplandece em toda sua grandeza
quando no íntimo do analista surge um desejo muito forte de se
interessar pela dor humana proporcionando desta forma um
ambiente propício para a ressignificação do sofrimento. Muitas
vezes acaba ocupando-se da dor do outro porque seu

109
Savater, Fernando.Op Cit. 2000, pág. 27.
110
Ibidem, pág. 29.
111
Ibidem, pág. 33.

145
“sofrimento” conseguiu fazer com que entrasse em contato
com as suas próprias limitações do humano presente no seu
organismo. Aprendeu que não basta revoltar-se ou criticar a
dor, mas faz-se necessário ritualizar o sofrimento, compreende-
lo na sua mais íntima comunicação.
O tratamento psicanalítico procura levar o “ser” a
utilizar todo seu potencial, como por exemplo; decidir com
mais coragem para solucionar seus problemas, buscar forças
para sair de sua depressão. Aprender que a grande lição na
análise é utilizar-se do autoconhecimento para não agir de
forma inconsciente, cometendo atos inconseqüêntes, tomar
consciência que uma palavra ou uma ação pode piorar ainda
mais a sua desgraça na existência. Significa todas as ações
inconscientes são desumanizadores porque reforçam e ampliam
a existência da destruição em todos os sentidos. “A imensa
concessão recíproca de cada um para os outros e de todos
para cada um, do que a nada corresponde e todos merecem,
em dar sempre questionando, é imprescindível a
humanidade112”.
Quando existe uma vontade do psicanalista em curar
a ferida do paciente, este mesmo desejo tem de existir naquele
que busca ajuda, este sofrimento pode se tornar uma fonte
inesgotável de autoconhecimento saindo da aparência, para ir
de encontro à autenticidade, aprendendo a lidar com a sua
energia vital inconsciente para alcançar o estado de saúde
desejável. Uma ferida miserável fecha muitas portas, mas abre
outras, talvez mais secretas e íntimas, as portas da condição
humana, um lugar analítico onde se possa festejar o
ressurgimento da sua humanidade curando estas feridas de dor,
sofrimento, traição, desespero, tristeza, etc113.
“Tudo produz repugnância quando alguém abandona
sua própria natureza e realiza tudo aquilo que não é próprio

112
Ibidem, pág. 36.
113
Ibidem, pág. 44.

146
dele. Ao perder a natureza própria, ao abandonar o
humanismo e suas exigências de jogo limpo com o semelhante,
tudo fica viciado pela náusea: O mesmo da miséria alheia que
a saúde e a vitória própria114”. Existe uma situação paradoxal
em que o homem pode deixar de utilizar a sua humanidade
para dar vasão a barbárie, mas não ao contrário, não se pode
forçar a um homem a incorporação de uma humanidade precisa
antes de sua permissão. O fato mais relevante para o homem
não é acumular poder e dinheiro para si mesmo, fazendo disto a
sua existência, mas antes saber ler nas entrelinhas as leis
secretas dos fenômenos psíquicos, que revelam o íntimo do ser,
outras necessidades mais urgentes e talvez mais importantes
que o capital econômico, talvez seja o capital emocional.
O fundamento da análise humanista é descrever como
aparece o ser através da sua fantasia, demonstrando desta
forma a diferença entre a realidade e a ficção, de que sua
limitação consiste na necessidade da presença do outro. Porque
é através do outro que se torna possível nos conhecermos, sem
o outro não teríamos as condições para termos intimidade,
confiança, amor, afeto, condições inalienáveis para poder
exercitar nossa humanidade. E nesta intersubjetividade o ser
amplia os horizontes de sua subjetividade com condições de
precisar com certa eficiência a realidade do outro. O homem
não é totalmente livre para poder decidir com o único auxílio
de seu raciocínio, basta observar os discursos cheios de boas
intenções, mas na vida apresenta muito pouco ou quase nada. É
livre para pensar, refletir, mas depende das suas emoções pra
poder alcançar uma maior integralidade.
Existe uma preocupação do humanismo em colocar
no centro da existência o “homem” como um ser dotado de
capacidade de reflexão, análise, decisão, autoconhecimento.
Aprendendo a desenvolver um projeto de vida onde a saúde, a
paz, a felicidade, o financeiro, a alegria, a realização realmente
114
Ibidem, pág. 46.

147
aconteça em sua vida, buscando sempre ser o centro de sua
decisão, contribuindo naquilo que for possível para melhorar as
condições de existência do seu semelhante. O tratamento
analítico humanista não pode recair numa filantropia, mas
numa ajuda que ensina o ser a responsabilizar-se e utilizar-se o
potencial para alcançar a sua dignidade humana. Toda forma de
paternalismo incide no fato de assinalar a sua condição de
impotência, pobreza, ineficiências, esta pedagogia não
soluciona os seus problemas simplesmente posterga para um
momento mais tarde na sua vida.
Para compreendermos melhor o fundamento teórico e
epistemológico da psicanálise humanista temos que
compreender a “tese principal da psicanálise humanista: Que
as paixões fundamentais do homem não estão enraizadas nas
necessidades instintivas, mas nas condições significativas da
existência humana, na necessidade de encontrar uma nova
relação entre o homem e a natureza, uma vez perdida a
relação primária da fase pré-humana115”. Fica expressamente
clara a visão de Erich Fromm sobre a fundamentação teórica
desta abordagem na psicanálise, trata-se de estudar na sua
essência a “existência” e depois a “natureza humana” do
homem, somente assim vamos prosseguir numa combinação
entre a existência e a natureza humana que também pode ser
chamada de “ser” na “existência”, mas o fato desta humanidade
estar presente nas civilizações são apresentadas através do
homem na sua existência.
“A espécie humana chamada “homem” pode definir-
se não somente anatomicamente ou fisiologicamente, as
pessoas pertencem e tem em comum qualidades básicas, leis
que governam seu funcionamento mental e emocional e as

115
Fromm, Erich. Psicoanálisis de la sociedad contemporánea. México,
Fondo de Cultura Económica, 1976, pág. 8.

148
aspirações ou designeos de encontrar uma solução satisfatória
ao problema da existência humana116”.
Não temos atualmente um conhecimento completo
sobre a natureza humana tanto no aspecto saudável como
patológico, o que temos são teorias baseadas em alguns
fundamentos filosóficos e sociais tentando formular um
conceito sobre saúde mental. Um homem pode estar
condicionado pela sua patologia, pela sua condição econômica,
histórica, social, porém o fato dele se encontrar nesta situação
momentânea não permite dizer de que este ser humano nunca
vai mudar. Com certeza alguns não mudam outros mudam, mas
se estiver decidido e convencido das vantagens da mudança
com certeza isto vai acontecer.
A concepção de “natureza humana” ainda encontra-se
numa situação paradoxal porque não temos como formular um
conceito definitivo sobre a essência do homem, muitos teóricos
colocam sua atenção sobre a manifestação patológica
influenciando muitos adeptos destas teorias a defender uma
definição errada sobre a saúde mental do homem. Muitos
teóricos da filosofia, sociologia e da psicanálise dizem que a
maleabilidade desta natureza, que as forças ambientais
influenciam e moldam a mente do homem, é como se fosse
uma folha de papel branca onde são escritos os respectivos
textos da cultura e da sociedade e que por si mesma não tem
nenhuma qualidade intrínseca117.
O grande problema é determinar diante das diversas
culturas e sociedades em relação a saúde ou a doença as
diversas maneiras de vivenciá-las ou aceitá-la. Precisamos
reconhecer as leis internas da natureza humana e descobrir os
objetivos mais adequados para seu desenvolvimento e
desdobramento. “Exatamente como o homem transforma o
mundo que o rodeia, se transforma a si mesmo no processo da

116
Ibidem, pág.18.
117
Ibidem, pág.19.

149
história. O homem é a sua própria criação. Assim mesmo pode
transformar e modificar a matéria da natureza de acordo com
a natureza dos mesmos, e só pode se transformar de acordo
com a sua própria natureza118”.
Defendemos um ponto de vista que não é biológico
nem sociológico porque ambos são independentes entre si.
Temos de transcender esta dicotomia de que as principais
tendências e paixões humanas são resultados da existência total
do homem, que são algo definido e comprovado, e que algumas
delas conduzem o homem a saúde ou a doença e outras a
felicidade e infelicidade. Nenhuma ordem social determina ou
cria estas tendências fundamentais, mas se determina quais hão
de manifestar-se ou predominar entre o número limitado de
paixões potenciais.
“O homem, tal como aparece em qualquer cultura
dada, é sempre manifestação da natureza humana, mas uma
manifestação que em sua forma específica está determinada
pela organização social em que vive119. Esta interpretação do
humanismo normativo de que sempre existiram acertos e erros,
vitórias e fracassos na existência humana. Esta maneira de
pensar sobre uma possível lei geral do psiquismo humano de
suas inferência estatísticas em relação a alguns achados numa
determinada faixa etária, num tipo de comunidade, não pode
tornar-se uma espécie de verdade para aquela realidade
específica, até porque o número de dados são sempre
questionáveis dentro desta visão probabilística, convertida em
números e seus percentuais, tentando provar a sua veracidade
quando na verdade os costumes, tradições, o tipo de
alimentação, a maneira de encarar a vida, são muitos diferentes
uns dos outros, esta expressão aparece nas mais diversas
sociedades, etnias, raças, culturas e maneiras de interpretar a
realidade.

118
Ibidem, pág. 19.
119
Ibidem, pág. 19.

150
Esta forma de generalizar como um critério universal
determinada pesquisas com alguns casos. Afirmando que um
determinado medicamento tem eficácia total sobre um
determinado problema mental, este tipo de “validação
consensual científica” publica estes dados e depois utiliza uma
grande vulgarização e marketing para tornar aceito estes
resultados no meio dos profissionais de saúde. “Se supõe
ingenuamente que o fato das maiorias das pessoas que
concordam com um tipo de idéia e sentimento não comprova a
validez destas afirmações. Isto está muito longe da
verdade120”. Da mesma maneira que a grande maioria da
população mundial se torne dependente do alcoolismo, ou seja,
o fato de tornar um vício em virtude, pelo simples fatos de a
maioria estar bebendo álcool, possa ser validade como uma
verdade, por isto mesmo muitas ideologias na humanidade
tornaram-se uma patologia social.
Temos então a base epistemológica da psicanálise
humanista, a saber; “qual é a natureza do homem e quais são
suas necessidades que nasce desta natureza? Depois de termos
examinado o porquê da existência da sociedade com os
instintos do homem e entender o papel anterior no
desenvolvimento da pessoa humana, descobrir o conflito
referente à natureza humana na existência e as causas destes
conflitos121”. Este talvez seja a núcleo de estudo sobre o
homem e sua relação com os conflitos que tem origem direta
do seu mundo emocional e do confronto com os jogos de
interesses morais, éticos, econômicos e políticos de uma
determinada sociedade.
A inexistência da humanidade no homem não retira a
possibilidade de que possa um dia desenvolver plenamente
estas potencialidades. As condições do homem estão
plenamente realizadas pela natureza para buscar a

120
Ibidem, pág. 20.
121
Ibidem, pág. 28.

151
sobrevivência e atender aos seus instintos básicos, como fome,
sede, sexo, num primeiro momento da sua existência, mas de
acordo com cada pessoa outras instâncias podem ser realizadas
e satisfeitas num plano muito mais superior, estamos falando
da necessidade de cultura, de inteligência, do amor, da arte, da
música, do lazer, e tantas outras formas de manifestação da
felicidade humana.
Este paradoxo entre natureza animal e natureza
humana deixou de ser através do processo de evolução uma
expressão dos instintos, quando a adaptação à natureza perdeu
seu aspecto ameaçador, quando sua ação deixou de estar
determinada pelos mecanismos de transmissão hereditários. Foi
quando o animal conseguiu transcender a natureza, quando
conseguiu sair de uma condição passiva de criatura tornando-se
animal mais consciente de sua existência, nasce o homem.
Neste momento a condição animal conseguiu se emancipar na
natureza assumindo uma posição ereta e vertical, o seu cérebro
cresceu muito mais que em outros animais superiores. E assim
foram preciso mais de dois milhões de anos para que o homem
tomasse consciência e conseguisse transcender sua condição
animal e desta forma a existência adiquiriu consciência de si
mesma122.
O homem persuadido por esta condição pulsional de
sua natureza biológica tem consciência das suas grandezas e
limitações na existência. Jogado no mundo das incertezas se
agarra com determinação aos valores humanos incorporados
desde sua infância. Sabe das dificuldades e todos os tipos de
aprendizados que terá que enfrentar e o maior deles é o medo
da frustração, inserido neste contexto precisa saber se
relacionar, e ganhar a confiança no seu meio social,
desenvolver ao máximo suas potencialidades de inteligência,
perseverança, estudo, dedicação, trabalho, para poder pensar na
projeção do seu ser no futuro. Esta sua condição natural de
122
Ibidem, pág. 27.

152
pobreza espiritual ou material mostra apenas algumas das
conquistas que cada ser tem de realizar para poder alcançar o
seu reconhecimento social.
Nesta interação entre a natureza humana primitiva e a
natureza humanizada com os valores morais e éticos se torna
possível transcender e alcançar com simplicidade e humildade
o espaço comunitário e social tão importante para o
desenvolvimento de seu caráter. Ganhar a confiança dos outros,
tornar-se um líder, desenvolver todas as suas potencialidades, e
usar da criatividade para poder buscar novas soluções que
possam atender aos mais fracos e desvalidos. Existindo desta
forma a pessoa transcende de uma condição do ser-para-nada
para projetar-se na sociedade onde vive num ser-para-tudo. O
valor da humanidade no homem está acima de sua condição
biológica e animal, seus valores, suas crenças, sua
religiosidade, sua fé, são capazes de mobilizá-lo e colocá-lo
numa posição de superioridade diante dos outros irmãos
humanos.
“A existência humana é diferente neste ponto a todos
os demais organismos, se encontra em um estado de
desequilibrio constante e inevitável. A vida do homem não
pode “ser vivida” repetindo o padrão de sua espécie; somente
ele pode vivê-la. O homem é o único animal que pode ficar
deprimido, sentir-se expulso do paraíso. O homem é o único
animal para quem sua própria existência constitui um problema
que tem que resolver e do qual não pode escapar. Não pode
regredir ao estado pré-humano de harmonia com a natureza,
tem que seguir desenvolvendo sua razão até conseguir ser dono
de sua natureza e de si mesmo123”.
E neste homem está presente todas as condições
biológicas para fazer frente aos desafios da existência. Todo
homem necessita de um começo, digo isto porque me refiro às
aprendizagens em varias áreas da existência humana, mas sem
123
Ibidem, pág. 27.

153
dúvida uma delas é ganhar o seu próprio sustento, ou seja,
conseguir estar apto a ter uma profissão para poder garantir sua
sobrevivência. Existem na realidade duas realidades bastante
presente na humanidade o bem e o mal, a justiça e a injustiça,
que no decorrer das suas experiências e relações poderá
desenvolver por um processo valorizativo a expressão de uma
delas.
Ao tomar consciência desta dupla condição
indiretamente é exposto a um contato com ambas as forças do
seu organismo, e desta forma está sempre buscando soluções
novas para as contradições de sua existência, de encontrar
formas cada vez mais elevadas de unidade com a natureza, com
seus próximos e consigo mesmo, esta é a fonte de todas as
forças psíquicas que movimentam o homem, de todas suas
paixões, afetos e ansiedades124.
A existência pode proporcionar a qualquer pessoa as
oportunidades mais comuns a todos os mortais, porém se faz
necessário uma vontade para aprender, é preciso além disto
uma perseverança, uma ética verdadeira, uma postura de força
e coragem. Com estas qualidades o ser humano pode dar início
do “nada” e alcançar o “tudo” porque este movimento para “ser
mais” em conhecimento, em cultura, em negócios, em relações,
em estratégias, pode elevá-lo a mais alta dignidade de ser
humano. Esta realização no mundo vivido não pode ser
delegada a uma segunda pessoa e muito menos a um milagre
transcendente, o milagre encontra-se na decisão de buscar as
melhores condições, para alcançar os benefícios da existência,
e depois saber compartilhar com os seus semelhantes.
Mas tem consciência do seu infortúnio, dos seus
erros, existe a capacidade de utilizar sua competência
valorizativa para buscar de maneira mais aprimorada a
realização de um determinado objetivo. Sem dúvida a
apresentação de suas competências se realiza através do seu
124
Ibidem, pág. 28.

154
trabalho, seja intelectual, no mundo dos negócios, nas
estratégias de administração, com a finalidade de colocar em
prática e de forma útil todo o potencial criativo.
Este é o mapa de poder escalar com segurança o mais
alto pico da existência, em todas as suas formas e expressões.
Quando esta iniciativa é corroborada com as garantias de seu
aprendizado, sua imagem começa a ser reconhecida e
valorizada no seu meio social, desta relação aumenta a
confiança nas suas futuras ações, sua palavra toma peso e
consegue mobilizar outros seres para caminhar na mesma
direção.
“Na medida em que o homem é humano, a satisfação
destas necessidades básicas não basta para fazê-lo feliz, nem
basta sequer para proporcionar-lhe saúde. O ponto
arquimedico do dinamismo especificamente humano desta
singularidade da situação humana; está no conhecimento da
psique humana que apoia-se na análise das necessidades do
homem procedentes das condições de sua existência125”. O
significado do homem na existência precisa das qualidades
valorizativas e uma crença muito forte em si mesmo além de
pessoas e amigos que possam ser de auxílio neste processo
transcendental do nascimento de si mesmo.
Tornar-se um homem novo, conseguir sair de uma
condição inferior para ir em busca de uma auto-superação de
suas próprias deficiências, no plano psíquico, afetivo, familiar,
econômico, amoroso, e de outras manifestações emocionais
que precisam de uma ressignificação na sua existência. Quando
o ser se torna útil a si mesmo, inicia-se um processo de
segurança emocional, segurança econômica, sua vida começa a
ter sentido e valor, não porque seja diferente dos outros, mas
conseguiu com maestria e inteligência superar a sua condição
de inumanidade. Este é um aspecto da esperteza de um ser na
formação de uma personalidade, em cada atitude, em cada
125
Ibidem, pág. 29.

155
decisão, em cada relacionamento, mostra seu verdadeiro caráter
transfigurado na estética da beleza do seu ser.
“O nascimento, pois, no sentido convencional da
palavra, não é mais que o começo do nascimento no sentido
mais amplo. A vida toda de uma pessoa não é outra coisa que
o processo de dar-se nascimento a si mesmo; realmente, temos
nascido plenamente quando morremos, talvez este trágico
destino da maior parte das pessoas que acabam de morrer
mesmo antes de ter nascido126”. O humanismo na essência de
cada emoção precisa estar atento para o processo do eterno
renascimento.
Renascer é oportunizar um novo tipo de nascimento
muito mais elaborado e capaz de viver melhor. Cada desafio
precisa de paciência, calma, tranqüilidade, prudência, para
poder agir com mais eficácia.
Quando nos referimos ao nascimento temos a nítida
impressão do cuidado que temos que ter com a sobrevivência e
a sua posterior saúde. Ao nascer o humano inicia o seu
processo existêncial saindo de uma condição uterina para
lançar-se no mundo dos humanos. Sua sobrevivência não
depende de si, é um ser frágil que necessita de cuidados
higiênicos, afetivos e de alimentação, sua condição inicial não
favorece em nada a sua autonomia, até que um dia começa a
dar os primeiros sinais de comunicação, sua emoção aparece na
expressão do choro através da fome, sede, ou sono. Depois
utiliza algumas de suas estratégias de chamar a atenção para
poder ter o cuidado dos adultos, para atender as suas
necessidades fisiológicas, alimentares, e emocionais.
O nascimento de um novo ser precisa em primeiro
lugar da coragem e do aprendizado para resolver as suas
necessidades fisiológicas e emocionais, esta exigência da
natureza permite o nascimento da criatividade. O homem não
pode existir de forma passiva e conformista, ao contrário
126
Ibidem, pág. 29.

156
precisa se posicionar com alternativas de solução diante os
problemas da existência. “Mesmo que o ser humano satisfaça
todas as suas necessidades instintivas, consiga resolver o seu
problema humano, juntamente com todas as suas emoções.
Estas necessidades instintivas não estão enraizadas em seu
corpo, mas presentes nas peculariedades mesma de sua
existência127”.
Aqui talvez esteja à chave central da teoria da
psicanálise humanista, justamente porque Sigmund Freud
defendeu na sua teoria, a existência de pulsões, emoções e
desejos inconscientes, baseado na expressão da libido. Temos
que concordar que a sexualidade tem um valor e sua pulsão
libidinal é muito poderosa enquanto instinto, mas mesmo assim
não é a força mais poderosa que atua sobre o homem, e mesmo
as frustrações sexuais não causam perturbações mentais. “As
forças mais poderosas que motivam o comportamento do
homem nasce das condições de sua existência, de sua
“situação humana128”.
Enquanto seu corpo exige alimentação, desejo,
sexual, descanso, a sua consciência precisa decidir quais os
valores que deve cultivar e satisfazer, e quais necessidades que
deve deixar de lado para desaparecer. Existem motivações
conscientes e inconscientes capazes de mobilizar o ser para
buscar uma transformação interior, recriando em si mesmo as
capacidades mais elementares para despertar o instinto
primário do amor, potencializando-se a criar as condições da
proliferação da solidariedade, da cooperação, da alteridade, em
detrimento da pulsão destrutiva de morte, este desejo está
imerso na vontade de impedir a violência, a morte e destruição.
Ao renascer para a vida e usufruí-la em toda sua
abundância, existe uma tendência de alcançar os degraus
sucessivos da evolução em busca de novas conquistas, novos

127
Ibidem, pág. 31.
128
Ibidem, pág. 31.

157
desafios, procurando testar as suas competências na existência.
Este é o milagre do saber conduzir-se pela existência nesta
corporalidade de uma humanidade que se torna presente em
cada expressão de afeto, de amor, de solidariedade, nesta
atitude existencial demonstra sua plena humanidade.
Então podemos verificar que as necessidades básicas
e as emoções do homem nascem desta condição de sua
existência. Tanto as necessidades emocionais presentes no
sistema límbico do cérebro, que tem sua origem do mundo
animal, e das pulsões fisiológicas como a sede, a fome, o sexo,
surgem destas reações emocionais e químicas produzidas no
interior do organismo humano. Quando estas mesmas
necessidades não são atendidas ou ofendidas, inicia-se um
processo de reclamação do organismo pronunciando-se através
dos sintomas. A realização e satisfação destas pulsões
emocionais e existenciais são condições básicas para a saúde e
o equilíbrio mental129.
As grandes paixões humanas como, a ânsia de poder,
a inveja, seu desejo para conhecer a verdade, a vontade de
amar, a fraternidade, sua destruição, sua criatividade, todos
estes motivos despertam determinadas emoções e tudo isto não
tem nenhuma relação direta com o desejo sexual. A libido é
somente uma das pulsões presentes no organismo, mas as
necessidades psíquicas oriundas da existência humana devem
ser satisfeitas de uma maneira ou outra, para que o homem
não fique doente, assim como as necessidades fisiológicas
precisam ser atendidas para que a pessoa não morra130.
Como dizíamos anteriormente se uma das
necessidades emocionais não for satisfeita a conseqüência
imediata será a doença, se levarmos em conta o caráter da
existência humana a conseqüência direta é a instalação de uma
neurose. Fromm tem um conceito sobre saúde mental que: “se

129
Ibidem, pág. 62.
130
Ibidem, pág. 62.

158
caracteriza pela capacidade de amar e de criar, pela liberação
dos vínculos incestuosos com o clã e o solo, por um sentimento
de identidade baseado em si mesmo, como sujeito e agente das
próprias capacidades, pelo desenvolvimento de sua
capacidade interior e exterior a nós, quero dizer, pelo
desenvolvimento da objetividade e da razão131”.
Existe de fato uma dificuldade muito grande dos
psiquiatras e psicólogos para poder aceitar as idéias da
psicanálise humanista. Toda esta resistência tem sua origem
postuladas no materialismo filosófico onde as premissas são
sustentadas em uma visão fisiológica e positivista que de certa
forma distorce a verdadeira imagem da condição humana. A
psicanálise humanista e sua epistemologia defendem a análise
da totalidade da expressão da personalidade humana, sua
interação com a sociedade, a natureza, enfim é uma espécie de
prática humana de vida, tal como resulta das condições da
existência humana132.
O ser humano não pode ter liberdade de pensamento
se não tem liberdade emocional; e não pode ter liberdade
emocional se em seu modo de viver é um ser dependente e sem
liberdade em suas relações econômicas e sociais133. Na
estrutura epistemológica da psicanálise humanista a origem dos
estados psicopatológicos estão ligados a falta de produtividade
e do uso correto de suas potencialidades, na falta do
desenvolvimento na existência destas duas condições começa
aparecer os sintomas emocionais e irracionais e as condições
incestuosas e destrutivas134. O fato de estar sofrendo é um
indício de alguma carência ou a ausência de algum
desenvolvimento emocional em alguma fase de sua existência,
quando consegue tomar consciência pela análise dos motivos

131
Ibidem, pág. 63.
132
Ibidem, pág. 64.
133
Ibidem, pág. 226.
134
Ibidem, pág. 227.

159
de seu sofrimento libera sua energia e criatividade para voltar a
ter saúde e alegria.
Existe uma tendência inata em seu organismo que
garante a saúde orgânica e mental, esta pulsão quando
desaparece pelo simples fato de uma repressão que dá início as
doenças e em alguns casos distúrbios patológicos mais graves.
Na teoria Freudiana as repressões afetam as pulsões sexuais, e
na teoria humanista as repressões atingem as paixões
irracionais, as emoções de inutilidade e isolamento e a
dificuldade de viver o amor e o seu potencial de criar e
produzir na existência135. A verdadeira cura depende do nível
de autoconsciência para decidir corretamente produzindo um
novo rumo em sua vida, porque é justamente no seu modo de
existir que dá consistência ao núcleo neurótico ou o aumento
de sua saúde e vitalidade.
A origem da psicanálise humanista tem muita ligação
com a existência de Erich Fromm. Podemos dizer que os
valores religiosos do judaísmo, sua formação política, foram
importantes no processo da formação epistemológica e teórica
da psicanálise humanista. Utilizou conceitos psicológicos para
descrever e falar da experiência das forças psíquicas da energia
vital, do correto uso do potencial humano, da vivência
adequada da razão e do amor, e de sua orientação produtiva do
potencial psíquico inconsciente, da expressão do amor a vida
através da sua biofilia, ou seja, o modo de existência do ser a
favor da vida136.
Fromm percebia que os problemas e dificuldades
enfrentadas na existência desempenhavam a função de um guia
que impulsionava a evolução do ser humano, diante deste
impacto com os desafios, surge no seu íntimo uma força que
toma o nome de potencial, para as experiências da práxis

135
Ibidem, pág. 227.
136
Funk, Rainer. Fromm: Vida e Obra. Barcelona, España, Paidós, 1987,
pág. 13.

160
negadoras que permite que a autenticidade e a criatividade
comecem a aparecer na sua existência137.
Toda a prática pedagógica que tem como objetivo
massificar, alienar, domesticar, condicionar, tornar os seres
obedientes e dóceis a uma ideologia, merece um
questionamento bastante sério porque são instituições que
buscam a normalização, o conformismo, a geração de pessoas
dóceis e fáceis de alienar, são obedientes e não questionam
qualquer ação destes líderes, porque estão sendo alvo de uma
lavagem cerebral. Condicionados ideologicamente por estas
teorias, políticas, religiosas, psicológicas, científicas, racistas,
tendem a pensar que a única forma de pensar a realidade social
como uma verdade precisa é esta verdade. Erich Fromm tinha
bem claro que uma sociedade ou instituição encontra-se doente
quando a pessoa que vive nela acaba persuadida por estas
situações de desamparo, ignorância, insegurança, desenvolve
sintomas, porque participa indiretamente da doença social138.
Fromm defendia que a vida é digna de ser vivida e
que todo ser humano tem a capacidade suficiente para
desempenhar com certa eficiência os seus deveres e obrigações
que foram destinados na cadeia contínua do processo da
existência139. Entendia a “psicanálise humanista” como uma
espécie de práxis de vida em que todas as ordens e todas as
manifestações da vida, como por exemplo; a economia, o
estudo, as relações, os valores, os bens materiais, o psíquico, o
espiritual, estejam integrados entre si num perfeito equilíbrio
de harmonia entre estas partes para possibilitar a evolução das
capacidades humanas e o desenvolvimento das pulsões arcaicas
emocionais mostrando-se integradas ao uso correto de sua
racionalidade140.

137
Ibidem, pág. 15.
138
Ibidem, pág.15.
139
Ibidem, pág. 52.
140
Ibidem, pág. 54.

161
“Também para Fromm, uma orientação humanista
que determina em sua totalidade a uma práxis da vida, é a
condição de possibilidade para o desenvolvimento das
faculdades humanas criadoras e autênticas para as
possibilidades das escolhas humanistas no âmbito da
antropologia filosófica141”. Temos então o esclarecimento da
importância do caráter biófilo neste processo de humanização,
afirmando-se como um valor a permanência de verdadeira
relações de confiança, amizade, segurança, alguém em que se
possa confiar, agregando a isto uma união, uma compaixão, um
amor fraternal, para religar e fazer-se presente numa ação
norteadora do bem, da caridade, da ajuda, da cooperação, da
solidariedade, compromisso efetivo de caráter eminente
humanista. Esta humanidade congrega, busca a união e
soluções em conjunto, são capazes de colocar seus dons e
talentos como usufruto a toda comunidade.
Todas as perseguições, problemas, dificuldades,
movimentam o ser em busca de uma solução possível, esta
prática de vida enaltece e eleva o ser a sua máxima condição de
humanidade. Encontra-se presente nas obscuridades de sua
intimidade uma força geradora, de presença, de comunhão, de
participação, de realização, de liderança, para distribuir de
forma igualitária as chances e condições para que todos possam
pelo menos uma vez na vida pensar a existência com o auxílio
de um psicanalista humanista. “A observação no campo
humano não resulta de um distanciamento objetivo mais sim de
uma participação solidária com o próximo e esta observação
consiste no conhecimento em que o observador compreende
sua participação sem por isto neutralizá-la fria e
desapaixonadamente142”.
Acredito que o verdadeiro humanismo se manifesta
na relação entre o analista e seu paciente, quando existe um

141
Ibidem, pág. 55.
142
Ibidem, pág. 84.

162
ambiente regado de confiança, onde ambos têm uma atitude de
buscar a compreensão dos motivos do seu sofrimento. No
entanto é muito importante o analista empregar todo seu
conhecimento científico para poder decifrar os códigos
simbólicos comunicado pela energia inconsciente e depois
trazer esta realidade psíquica emocional para o estado
consciente. O analista utiliza sua práxis para não se opor às
crenças, mas utilizá-la de modo adequado ao tratamento,
porque o objetivo não é mudar sua concepção religiosa,
filosófica, política, mas antes integrar este legado cultural para
ajudá-lo a entender-se melhor na sua essência de ser.
Esta opção humanista de orientar todas as estruturas
singelas da existência, da autonomia e do desenvolvimento do
homem se encontram presentes no pensamento
143
sociopsicológico de Erich Fromm . Desde então os teóricos
da psicanálise tem se debruçado sobre os enigmas da
subjetividade humana partindo do pressuposto que sua atenção
não pode estar direcionada para o aparato psíquico mas em
toda a extensão da existência do homem. Outro fator
interessante como fonte de estudo e pesquisa está no olhar que
a psicanálise humanista tem em relação ao inconsciente, pois o
inconsciente é a totalidade da manifestação na existência das
potencialidades em favor da realização e felicidade pessoal.
Compreendo esta força pulsional vital como um centro de força
que impulsiona o organismo a evoluir, além disso, desenvolver
todo seu potencial rumo a uma maior integração do seu
organismo com o ambiente ou de outro modo do ser na
existência.
“O dinamismo da natureza humana está enraizado
antes de tudo na necessidade do homem de expressar suas
faculdades diante do mundo, mesmo antes de suas
necessidades de utilizar o mundo como meio para satisfazer

143
Ibidem, pág. 100.

163
suas necessidades fisiológicas144”. Porque o objetivo da
psicanálise humanista é conseguir a união do homem com a
natureza, o naturalismo realizado no homem e o humanismo
realizado na natureza. A necessidade de autorrealização no
homem é a raiz da dinâmica especificamente humana145.
Além do ser humano ser um complexo fisiológico e
químico possui também uma consciência, uma inteligência,
emoções, sentimentos, capazes de alterar a fisiologia do seu
organismo, estas alterações neuroquímicas produzidas no
cérebro na diminuição da serotonina é apenas a conseqüência
de um ser humano perdido, confuso, sofrido, que acaba
retraindo-se para um processo de inibição, isolamento,
alterando por meio desta emoção de “tristeza” o complexo
funcionamento físico-químico do cérebro.
Quando o ser humano encontra-se diante de certos
desafios encontra-se confuso, depressivo, triste, e esgotado,
porque não tem mais forças para continuar a sua caminhada,
esta necessidade interior de autorrealização no afeto, no amor,
no profissional, no econômico, no casamento, instiga o ser a
procurar um caminho que lhe tire deste estado de pobreza, esta
saída só é possível através da ajuda de outro ser humano, e ao
encontrar esta pessoa terá encontrado a sua máxima riqueza, o
amor da outra pessoa.
A desumanização do homem passa por uma série de
frustrações sendo que o mais importante é sentir-se
indiscriminado, injustiçado, manipulado, pois sente na própria
carne a traição, o ciúme, a inveja, a ganância, emoções
extramente prejudiciais às relações humanas, esta realidade
existe independente de sua vontade, por isto mesmo precisa ser
muito forte emocionalmente para poder dar conta desta
“irracionalidade humana” conquistando seu espaço para

144
Fromm, Erich. La crisis del psicoanálisis. Barcelona, España, Paidós,
1971, pág. 80.
145
Ibidem, pág. 81.

164
encontrar um caminho específico e particular para desenvolver
seus potenciais.
“Não é a consciência a que determina a vida, mas
sim a vida que determina a consciência. Não é a consciência
dos homens que determina sua existência, mas sim, ao
contrário, é a sua existência social que determina sua
consciência146”. Quando o ser encontra-se na existência é
capaz de enfrentar a realidade ou retrair-se, isto significa
arrumar desculpas e justificativas para esconder os seus medos
colocando-se á prova, estes confrontos entre o processo de
idealização social e o preço a pagar por um determinado estilo
de vida tem a ver com a existência. Uma existência pode estar
acontecendo sem necessariamente a pessoa estar consciente do
que está acontecendo com a sua vida, movidos por uma pulsão
de poder muitos deixam que este fato interfira em sua vida
fazendo de sua pessoa uma escrava do trabalho. Este estado de
inconsciência com certeza produz muito sofrimento, dor,
decepção, raiva, ódio, porque indiretamente está ligado às
dinâmicas inconscientes da autodestruição.
O inconsciente é uma energia produzida no meio
social, este mesmo “inconsciente cultural e social” guarda
todas as emoções e sentimentos vivênciados durante toda uma
existência, esta energia de crenças e imagens que estão
presentes nos mais insignificantes pensamentos, não existe
nenhuma idéia sem que antes tenha passado por uma
experiência, então sabemos que esta representação social e
cultural do inconsciente não pode ser simplesmente uma pulsão
libidinal e que toda infelicidade e dor humana está relacionada
a uma repressão da sexualidade. Começamos então a entender
o avanço indiscutível desta corrente teórica na compreensão do
conceito do inconsciente formulado por Freud. Todos sabem
que a base de sustentação teórica da psicanálise freudiana é a

146
Ibidem, pág. 91.

165
libido sexual ligada à pulsão biológica baseada nos princípios
do fisiologismo mecanicista.
Estamos como que extasiados sobre a implicação de
uma teoria que propõe a unificação, aproximação, e o estudo
do inconsciente humano a partir da sua existência. Para
explicar este humanismo temos que nos remeter a uma
compreensão do que entendemos do movimento humano no
homem, em outras palavras do que precisa um homem para se
tornar um ser humano. É deste processo evolutivo, físico,
psíquico, emocional, econômico, profissional e tecnológico que
vamos compreender este homem humano sendo capaz de
transcender e humanizar as suas pulsões biológicas. Além
destas considerações temos que remeter ao estudo
paradigmático de seus paradoxos, das suas limitações, de suas
inseguranças, de seus medos, dimensões estas que estão muito
mais a frente que o biológico, ou seja, esta energia chamada
consciência precisa de uma existência que seja capaz de
integrar, equilibrar e dar um novo significado a sua vida.
Pensar a psicanálise é aproximar-se cada vez mais do
lado humano presente no homem, porque o analista não tem
condições de fazer suas interpretações ou aplicar seu método
analítico independente de sua corrente teórica, sem antes entrar
em contato com esta humanidade presente nas palavras,
sentimentos, e emoções verbalizadas durante a sessão de
análise. Para compreender o humanismo é necessário antes de
entendê-lo, vivência-lo, é neste ambiente de mútua
reciprocidade onde o olhar de ambos está focado na existência,
procurando identificar os motivos inconscientes desta
desumanidade que o próprio autor pratica a si mesmo de
maneira inconsciente. O humanismo psicanalítico aparece
como uma verdade não apenas porque está escrita em algum
livro, ou porque alguém falou, mas por uma vivência grandiosa
de alegria e saúde resultado do seu próprio esforço e dedicação.

166
2.1. A relação entre o dilema do ser humano e a existência

A existência se apresenta conforme o pensamento de


Nietzsche, no fato de sermos estranhos a nós mesmos, de não
compreendemos, de que estamos completamente condenados
por esta lei (pois não existe ninguém que não seja estranho a si
mesmo), orienta seu pensamento para compreender
empiricamente a realidade da existência humana. Nesta
condição Nietzsche não coloca o homem num nível de
divindade mais de animalidade, porque no seu entender o
animal é mais forte e astuto, mas nem por isto é a coroa da
evolução animal.
Na realidade o homem é o mais deficiente dos
animais, o mais doente, o que se extraviou dos seus instintos
mais perigosamente. Mas com tudo isto é o animal mais
interessante147. E assim percebemos os descaminhos
percorridos por este paradoxo imerso nas profundezas do
inconsciente, sem dúvida estamos tentando dar vasão e ao
mesmo tempo reprimir estas pulsões biológicas que entram em
confronto com as leis, regulamentos, regras, normas, de uma
sociedade.
Faz-se necessário compreender esta dimensão
existêncial e como se entende este conceito. O conceito de
“existência” tem sua origem na raiz ex-sistere, que significa
“impor-se, emergir”, esta terminologia acabou influenciando a
arte, filosofia, psicanálise, mostrou que não podemos tratar o
ser humano como um ser estático, proveniente dos mecanismos
e padrões repetitivos, e sim enxergá-lo como um ser emergente
em formação, por isto o enfoque existêncialista é sempre
dinâmico: a existência refere-se ao vir-a-ser, a evoluir
transformando-se. Seu empenho é para compreender esta

147
Giles, Thomas Ransom. História do existencialismo e da
fenomenologia. São Paulo, EPU, 1989, pág. 28.

167
transformação não artefato sentimental, mas como estrutura
fundamental da existência humana148.
Cada ser necessita reencontrar-se com as suas forças
que por um descuido da existência acabaram ficando no
esquecimento ou recalcadas, queremos dizer que muitas destas
potencialidades foram quase entorpecidas por uma maneira de
pensar equivocada, sua dimensão tomou como refém o seu
racionalismo, nesta condição utilizou da reflexão como um
refúgio para esconder-se do seu mundo emocional.
Basta dizer que somos também reféns de na infância,
adolescência, juventude. Este ser acaba vivênciando na
existência provocações, dilemas, desafios, buscas, problemas, e
num piscar de olhos se dá conta da necessidade de agir para
poder combater e transcender os seus medos. Esta existência é
cheia de vazios, desencontros, faltas, não porque estas
necessidades não possam ser preenchidas ou alcançadas, mas o
seu devir está direcionado para outras demandas, por isto
mesmo estas decisões nem sempre são conscientes, e sim na
maioria das vezes inconsciente.
A existência coloca o ser em confronto com as suas
necessidades, de amor, de afeto, de dinheiro, de amizades, de
posição social, e diante disso encontra-se num paradoxo sem
saída, precisa criar, inventar, para poder dar conta destas
buscas, é fundamental juntar todas as suas forças e transformá-
la em coragem, esta situação num primeiro momento parece
impossível de alcançar, mas ao longo percurso do caminho sua
obra prima vai tornando-se uma realidade, além disso, este
esforço desencadeia na essência do seu ser muitas qualidades,
tais como, ousadia, determinação, perseverança, coragem,
confiança, inteligência, condições básicas para aprimorar-se
como ser eficiente, capaz, realizador, empreendedor.
Existem emoções como a ansiedade, a angustia, os
ganhos secundários, as compulsões, as obsessões, que
148
Buber, Martin. O eu e o tu. São Paulo, Centauro, 8ª. ed., 2001, pág. 53.

168
indiretamente prejudica ou impede a expressão da
potencialidade deste ser na existência. Toda neurose tem sua
origem numa distorção da realidade produzida pela sua mente,
sua forma de raciocinar busca no vazio de suas palavras,
justificativas para vender uma ótima imagem de si mesmo,
necessita de aceitação social, familiar e afetiva. Existem outras
exigências que estão presentes no ser humano sem sua
consciência, por exemplo, seu alto nível de exigência, seu
perfecionismo, sua culpa, sua imagem desfavorável de si
mesmo, estes e outros núcleos neuróticos estão presentes na
vida emocional do ser, sem esta autoconsciência terá enormes
dificuldades para poder decidir com mais certeza e
autenticidade.
É desta ignorância emocional que estamos tratando,
pois estas emoções têm forte influência sobre nossas decisões,
que nem sempre são conscientes, quanto maior
desconhecimento destas forças dinamizadoras do medo, mais
angustia, mais ansiedade, mais insegurança, este modo de ser
na existência interessa somente a anulação de si mesmo, esta
dependência das emoções negativas sustenta a presença das
perversões influenciando o ser a viver num estilo de vida
infeliz. Seu raciocínio parece lógico, sua argumentação é muito
convicente, mas o seu rosto, o seu corpo, a sua existência,
comunica nas entrelinhas da sua linguagem não verbal, um
estado de apatia, de tristeza, de culpa, de punição, de desânimo,
de depressão.
Este é o seu castigo, não gostar de caminhar ao lado
da saúde, do sucesso, da realização profissional, afetiva, pois
desta forma estaria se distanciando muito rápido do convívio
com os seus familiares. Preso no meio desta culpa, vagueia
pela existência, procura enganar-se ao máximo, pode culpar
todas as pessoas pela sua infelicidade, encontra-se com um
olhar perdido no horizonte.

169
Nietzsche recomenda “que o ser humano possa se
tornar aquilo que é, fazer sempre o que quiser, seja uma
dessas pessoas que podem querer. Normalmente as pessoas
nada fazem pelo seu verdadeiro “eu”, mas apenas pelo
fantasma do seu “eu”, formado no cérebro por aqueles que o
rodeiam; por conseguinte vivem em uma nuvem de opiniões
impessoais, de apreciações fortuitas e fictícias, e acrescenta
que se exige é uma meta alta e transformadora, meta
vislumbrada com clareza que só o homem pode alcançar149.
Esta busca da autenticidade precisa de um
autoconhecimento do verdadeiro significado do seu ser na
existência. Ao querer algo, sua mente se lança em busca de
imagens. Porém o quanto este ser está seguro daquilo que ele
quer?
Sem dúvida são estas decisões, de tempo, dinheiro e
estudo, que vão estabelecer as demarcações no seu imaginário
social um conceito ou imagem da sua pessoa. Como ser livre
na existência o ser quer racionalmente, mas emocionalmente se
autoboicota na realização de suas metas. A esperança consiste
nesta apreciação do existêncialismo dizendo que sempre existe
a possibilidade de mudança de pensamento, das emoções, de
posicionamento, de crenças, de ideologias, é desta
autenticidade que o ser necessita para poder sair desta nuvem
de ignorância, elevando o seu ser a mais alta dignidade que a
existência lhe permite, ou até onde possa alcançar.
Conhecer-se em profundidade, elevar-se acima desta
condição racional, querer saber mais sobre sua humanidade. É
necessário buscar a compreensão do mundo das emoções , é
uma exigência da natureza descobrir os segredos presentes
recônditos do inconsciente. Ao tomar consciência do sentido e

149
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 28. 1989

Para ler mais sobre o mundo das emoções veja o livro de minha autoria
intitulado. “A natureza inconsciente das emoções”, publicado pelo ITPOH,
em Santa Maria, 2007.

170
significado do seu ser na existência, como um ser espiritual que
tem este poder de colocar-se acima de sua própria existência,
de priorizar não somente as coisas materiais, mas também a sua
dimensão fisiológica e psíquica, e cada uma das instâncias da
existência-vivida, e de modo particular a sua existência150. Esta
escolha pode ser colocada no centro de sua vida, estando acima
da convenção espaço e tempo, integrando-se com um ser na
natureza e depois sendo a natureza.
A filosofia será então simultaneamente a expressão
da vida e o meio de que servimos para vivê-la, de forma que
não pode ser apenas um sistema objetivo e abstrato olhado de
fora, mas uma realidade viva e pessoal, uma realidade que
aprecia no seu justo valor os homens virtuosos ou canalhas,
covardes ou heróis, porque é desses elementos que é
constituído o ápice da nossa realidade existencial151. Todo ser
humano mesmo sem ter consciência em cada ato de sua
existência, está fazendo uma escolha, contra ou a favor de uma
idéia, estas decisões possuem repercussão na sua existência.
A estética do ser tem muito a ver com a constituição
da sua beleza interior, com suas qualidades, com sua eticidade,
enfim, com todas aquelas ações que promovem a vida, de
maneira nenhuma é um ser imediatista, impulsivo, irracional,
imaturo, infantil, pois sabe que este tipo de ser é um elemento
da natureza. Mas tem consciência que precisa transcender este
estado primitivo ou mítico para evoluir na sua humanidade. O
olhar do pessimista enxerga o ser humano com brutalidade.
Sua percepção de estética norteia-se numa avaliação externa e

150
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 137 e 161. Max Scheler
(1874-1928) abre uma metodologia através da fenômenologia para
pesquisar e descrever a vida emotiva, incorporada a uma metafísica
axiológica a sociologia do conhecimento, a filosofia e a religião.
151
Ibidem, pág. 5 e 22 - Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), talvez seja
o pensador de mais destaque dentro desta corrente existencialista, por ser o
primeiro a pensar a existência do homem, e por sua influência teórica na
fenômenologia e existencialismo contemporâneo.

171
superficial de sua beleza, não consegue enxergar o lado
invisível do mundo de suas emoções e dos seus valores éticos,
esta estética não conta na avaliação de seu raciocínio. O valor
da beleza de um ser não está na configuração estética de seu
corpo, pois este tende a envelhecer com o tempo, nem mesmo
as plásticas mais sofisticadas podem devolver uma imagem do
passado, como que seu paradigma estivesse na vivência eterna
da juventude.
A beleza estética do ser está ligada a autenticidade, a
verdade, a coragem, a ousadia, a força psíquica, a integridade,
o lado feio do ser aparece através das suas atitudes, na
existência da falsidade, da mentira, do medo, da falta de
determinação, do desânimo, do pessimismo, da fragmentação,
da falta de iniciativa, da acomodação. A beleza do ser no
sentido da continuidade da existência está na sua flexibilidade,
na sua intuição, na sua prudência, na capacidade de saber
perdoar, na socialização do seu saber, na força que produz cada
palavra, um ser que é capaz de cuidar-se para tornar-se belo em
estética, cada área da sua vida é analisada e cuidada, existe um
carinho todo especial realizado pela sua própria pessoa.
O mesmo sentimento que um escultor coloca na sua
obra prima, motivado por uma emoção sincera para desenhar
na pedra bruta a expressão de sua interioridade, consegue
realizar um milagre, pois, recria no íntimo de uma pedra bruta
a estética de alguma forma vida, com beleza, harmonia, sentido
e significado. A natureza bruta foi lapidada com a ajuda da
emoção humana tornou-se uma obra de arte, da mesma forma a
existência pode aos poucos ser lapidada com muito amor,
paciência, vontade, para tornar-se uma verdadeira obra prima
de alguém que soube ser capaz de utilizar todo seu potencial
artístico e humano para transformar a brutalidade em beleza
ética e estética .
Todas as emoções de ódio, amor, raiva, alegria,
inveja, solidariedade, ambição, doação, compaixão, estão

172
presentes no íntimo do ser humano, surgem a partir de um
desejo interno, projeta-se nas suas relações e consigo mesmo,
produzindo um ambiente de competição, de insegurança, de
medo, levando o ser a investir-se de um comportamento de
desespero. Ficando a deriva, preso e escravo das imagens do
passado ou das ficções do futuro, não consegue viver o
presente, o presente coloca diante do ser alguns desafios que a
consciência entende que não tem capacidade de solucionar, por
isto mesmo, utiliza como fuga realidades fictícias e irreais para
não confrontar com a realidade esta emoção que aparentemente
não tem sentido.
Diante deste paradoxo paradigmático existêncial de
angustia e desespero o ser precisa procurar uma saída para este
impasse, porém não é necessária uma atitude demasiada
extrema e rígida, nem tampouco uma liberdade desencarnada,
pois mesmo sabendo que a pessoa possui muitos fatores que
tem por força a liberdade, por outro lado, existem forças
biológicas que não tem origem na sua vontade, mas encontra-se
submetido a estas mesmas emoções, a solução deste paradoxo
existêncial passa pela realização destas duas realidades para
lançá-lo a busca do sentido ético-existêncial152. Esta tomada de
consciência faz com que percebamos os impactos de uma
civilização por demais comprometida com o medo de lidar com
as pulsões primitivas e arcaicas, a história já mostrou os
diversos métodos que utilizou para lidar com a barbárie.
“Na verdade, para trazer à tragédia a cena, em
qualquer sentido, é exigido que a pessoa seja interpretada nos
seus três mundos, o mundo da pulsão biológica, destino e
determinismo (Umwelt); o mundo de responsabilidade para
com o semelhante (Mitwelt); e o mundo no qual a pessoa pode
ser consciente (Eigenwelt) do destino que somente ele, naquele
momento, esta lutando contra153”. Quando o ser humano

152
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 09 e 10.
153
May, Rollo. A descoberta do ser. Rio de Janeiro, Rocco, 1988, pág. 145

173
consegue ter um olhar mais abrangente acima da realidade
rudimentar a ser conhecida, descobre no íntimo do fenômeno
existente os modos, as interações, os desejos, a sobrevivência,
as lutas, o nascimento, a morte, a vida, em si o processo
evolutivo que acontece e está presente no mais íntimo
microorganismo vivo.
Entende que esta acontecendo à renovação da vida e
mesmo pensando que estamos enxergando a existência, na
verdade apenas enxergamos de modo superficial, a grosso
modo, o máximo que conseguimos aproximar é da
superficialidade da realidade. Não temos a menor idéia de
como descrever o fenômeno na sua totalidade, temos a
tendência de fragmentar o fenômeno para poder conhecê-lo por
partes. Quanto tempo levaria para descobrir seus mistérios? O
seu mistério poderá ser conhecido em um ano, um século,
civilizações, ou levaremos toda uma eternidade.
Mas não é qualquer ser que tem esta consciência na
existência, estamos tratando de um ser com uma visão ampla
da realidade, com astúcia, força e determinação, um olhar
atento, silencioso, mas ao mesmo tempo, sabe que não é a
realidade que está olhando, tem consciência que indiretamente
participa de toda esta fenomenologia. Sabe que na existência
mesmo diante da mais alta plenitude e abundância da natureza,
está presente a morte. Não estamos falando da morte natural,
comentamos sobre a liberdade de tirar a vida do seu
semelhante, e da responsabilidade de lutar contra esta pulsão
destrutiva do homem.
Sabemos que mesmos depois de duas guerras
mundiais, de sua destruição, da violência, da barbárie, ainda
existe no íntimo de ser uma busca pela paz. Temos a esperança
de que os homens busquem um novo caminho, uma nova
direção que se iniciou a dois milhões de anos, quando o homem
tomou consciência, estamos procurando transcender os limites
do primitivismo humano.

174
Ainda hoje temos muita incerteza sobre o futuro da
sobrevivência de nossa espécie. Temos um arsenal bélico e
nuclear com poder de destruir três vezes o nosso planeta.
Apresenta-se esta enorme tarefa de não repetirmos a barbárie e
guerras que destruíram muitas civilizações. O homem precisa
superar seu egoísmo narcisista, sua obsessão pelo poder, seu
desejo de acumular sempre mais, enfim estas atitudes
colaboram para dar vazão a esta pulsão destrutiva que no
passado destruí civilizações inteiras. Nosso planeta precisa de
uma nova consciência civilizatória para poder continuar
existindo, todo este progresso científico e tecnológico de nada
servirá, se a água estiver poluída, se não tivermos mais ar puro
para respirar, se as queimadas das matas continuarem, se a
exploração nefasta das espécies da natureza continuar.
A nossa sobrevivência neste planeta depende destas
ações de proteção e cuidado do nosso habitat natural. O homem
encontra-se diante deste grande dilema, precisa urgentemente
de uma nova política econômica, de distribuição de renda mais
justa, de educação para todos, do combate à fome e miséria, do
acesso aos bens culturais e materias, estas condições são
básicas para que não se amplie em escala mundial, a violência,
os homicídios, os seqüestros, o tráfico de drogas, os homicídios
por roubo, as guerras. Para realizar este enorme desafio
precisamos de um líder com uma consciência ecológica e
humanística, para poder dar uma resposta a esta enormidade de
problemas e dificuldades que encontramos em nosso planeta.
Nesta ancestralidade humana carregamos muitas
gerações de vivências e experiências na esperança de que o
homem saiba utilizar todo este legado da humanidade para
poder criar e não destruir. De onde surge esta emoção do medo
do homem de ser atacado, destruído, aniquilado? De onde
surge esta vontade de ter poder, de reprimir, de escravizar, de
corromper? Que tipo de prazer é este onde o ódio é mais forte
que o amor, que a violência é mais forte que a paz? De onde

175
surge este desejo de dominação, de impor sofrimento aos
outros? Porque o homem tem este tipo de prazer de impor-se
aos demais através da sua superioridade? Utilizam suas
ameaças de extermínio como se fosse um animal irracional, sua
força baseia-se nas armas da morte, sua pior arma é seu olhar
cheio de ódio, de vingança, um mar de sangue das vítimas das
guerras escorre nas veias do nosso planeta. Utilizam todos os
seus recursos para investir em armamentos, na construção da
bomba atômica, nas armas químicas.
Servem-se de toda tecnologia militar para ampliar o
poder de dominação sobre os outros povos da humanidade.
Mesmo assim o homem sente-se muito confortável e seguro
atrás dos seus armamentos bélicos, seu maior objetivo é
proteger-se contra a ameaça dos outros paises, Não percebem,
ou se percebem fingem que não sabem que a guerra, seja ela
qual for, aumenta esta corrida armamentista, muitas vidas
humanas são oferecidas em sacrifício pelo simples fato do
homem não saber dialogar para resolver conflitos entre paises.
Esta megalomania de poder mostra a dimensão
doentia, onde os próprios homens acreditam que são inimigos
em potencial uns dos outros, estes lideres são rígidos, e
obedecem a sua pulsão de dominação e morte, para tornar-se
um lider autoritário, preferencialmente deve ser adestrado
numa ideologia perversa, primeiro extingue qualquer
identidade humana, depois reprime qualquer tipo de emoção e
compaixão, assumir-se como uma máquina mortífera a serviço
do poder dominante, tudo isto em nome do amor a pátria e a
serviço do poder constituído. Uma grande massa humana
encontra-se subjugada, explorada, manipulada, massacrada,
dominada, deixando estes seres humanos a mercê da sorte, sem
capacidade de reação, estritamente dominados pelo poder,
permanecem em silêncio, esperando a morte chegar, sem forças
e com medo da morte, preferem obedecer e oferecer o seu
corpo como sacrifício numa última tentativa de sobrevivência.

176
Seus rostos estão repletos da mensagem existêncial da
experiência, que outrora estão presenciando um gosto amargo
de cansaço, de tristeza, de tensão, de esgotamento, de
desesperança, desnutridos e sem força seguem de cabeça
cabisbaixa, pois, não conseguem olhar para o futuro, seu
presente mostra a pouca probabilidade de sobrevivência, nestes
ambientes de pobreza absoluta a pulsão da violência e a
submissão dos mais fracos se tornam uma rotina.
Este primitivismo pulsional de violência se faz
presente quando a vida é ameaçada, a natureza em toda sua
sabedoria oferece a vida e coloca nas mãos dos homens a
decisão de continuar o seu processo de evolução. Esta é a
maior guerra que o homem tem de travar dentro de si mesmo,
para poder lidar com estas forças destrutivas e violentas que
estão a serviço da competição, da dominação, da subjugação,
um desejo arcaico e primitivo que remonta as origens de nossa
pré-história.
A sobrevivência não significa somente prover a
alimentação, mas conseguir manter intacta a sua dignidade da
liberdade de pensar, a liberdade de ir e vir. Mesmo o pior
regime autoritário, numa sociedade totalmente desumanizada,
nunca vai conseguir extirpar do fundo da consciência humana o
desejo da bondade, da compaixão, porque mesmo impedidas de
se manifestar continuam existindo. São muitos os artifícios
utilizados pelos seres humanos para conseguir a sua
sobrevivência emocional, psicológica, econômica, afetiva,
amorosa, e um dos meios mais adequados é o suborno, a
prática da corrupção, oferecer ao poder instituído algo a mais
para conseguir um meio de alcançar a sua liberdade.
Ao tomar consciência da existência, o homem
consegue ironizar ou alienar-se com algum tipo de droga,
fugindo do confronto das mazelas de nossa própria sociedade.
Consciência significa perceber com extrema exatidão onde
encontrar o seu ser.

177
Ser capaz de refletir sobre sua condição ideológica,
ironizar, mentir, disfarçar, ritualizar, mistificar, são todas as
formas possíveis encontradas para dar um sentido a sua
existência. E se pergunta: Qual o sentido e significado
ideológico e cultural que a política, o país, o estado, impõe ao
seu ser, qual o resultado desta irracionalidade? Muitos
encontram-se fragilizados na sua auto-estima, na sua
dignidade, e pelo medo da morte admitem a submissão, a
exploração, encurralada neste tipo de existência, o exemplo da
desobediência é a punição com a morte. Será que podemos
compreender o prejuízo do condicionamento e de algumas
crenças que conseguem idiotizar o ser humano?
Como se faz para anular a expressão da identidade de
um ser? Quais os prêmios e reforços que podemos utilizar para
torná-los um ser mais fácil de manipular? De que maneira as
instituições utilizam a expressão emocional e valores sociais
para mitificar, em nome da honra, do mérito, para tornar-se um
herói? Como podemos explicar que o ser humano seja capaz de
entregar a sua própria vida a uma ideologia religiosa ou
política? Mesmo em situações de extremo risco da vida, a
ideologia permanece inalterável, que droga é esta que torna
estes seres autômatos, como se fossem uma máquina obediente
sem consciência? Será mesmo possível modificar a mente das
pessoas e torná-las inaptas para pensar e refletir?
Seres humanos treinados para se tornarem uma
espécie de autômato, obediente, calado, submisso às ordens,
permanece alienado as exigências que o poder oferece. O
condicionamento do estímulo, resposta e reforço estão
presentes em quase todas as instituições quando desejam
manipular as mentes e colocá-las a seu serviço, através de uma
atitude de total submissão. Sem questionar, sem capacidade de
pensar e refletir aceita as regras do jogo, permanece numa
existência a serviço da ideologia vigente. Os detentores do
poder sempre alertam da impossibilidade da mudança, seus

178
argumentos procuram convencer seus aprendizes que qualquer
tentativa de desobediência é considerada um ato de subversão à
ordem estabelecida.
Este tipo de sistema prefere pessoas obedientes e
submissas às ordens pré-estabelecidas, aquele que conseguir se
adaptar as regras, normas, regulamentos, recebe no final do
adestramento um premio, aqueles que ousaram serem
diferentes que desobedecerem ao poder constituído recebem
algum tipo de castigo. Este processo da normatização dos
modelos a serem internalizados tem como objetivo anular a
identidade desta pessoa, porque aqueles que acreditam no
modelo de perfeição apresentado tendem a renunciar a sua
própria identidade. Quando alguém anula sua personalidade e
prazeres pessoais para assumir um outro modelo de vida, temos
a clara convicção de que se trata de uma lavagem cerebral.
E sempre procuram repetir uma mentira muitas vezes
até se tornar uma verdade inquestionável. Sem coragem, sem
força, sem autonomia e coragem, seu corpo assume uma outra
identidade, trata-se da negação do ser, este processo ocorre de
maneira inconsciente porque se oferece ao futuro discípulo
vantagens, proteção, afeto, com o objetivo de fazê-lo acreditar
com toda sua certeza naquele tipo de ideologia. São estas
crenças condicionantes que acabam fazendo a cabeça deste ser.
Quando o corpo está tomado pelo esgotamento de
suas energias, encontra-se impedido de alimentar o seu espírito
com afeto, amor, carinho, desnutrido sem as condições básicas
de sobrevivência, prefere a morte, a viver nesta condição. A
cada dia a tortura aumenta na violência imposta ao ser. Este
tipo de existência não contempla as condições mínimas de
sobrevivência humana. Usam estas pessoas para uma finalidade
específica muitas vezes está atrelada ao poder produtivo e
destrutivo. Se for capaz de produzir seu ser decadente, ainda
tem uma serventia para ser explorado como força de trabalho
pelo poder instituído.

179
Quanto o ser está mais vulnerável na existência a
probabilidade de continuar existindo é mínima, porque sempre
vão existir doenças, vírus. Um organismo mal alimentado é
uma fonte inesgotável para hospedarem de parasitas e doenças.
Além de enfrentar toda esta espécie de infortúnio, como a falta
de alimentação, moradia, estudo, outros desfalecem porque já
não encontram um sentido para viver, neste caso, entregam-se
à morte. Ou, seja, cansaram de viver. Quando o ser aceita a
derrota interior indiretamente está cometendo um crime contra
sua própria sobrevivência, devíamos levar em conta a
importância da esperança mesmo diante dos infortúnios da
existência. O ser humano jamais deveria desistir de conquistar
a sua liberdade de ser.
O problema ao pensar a existência é o debate interior
sobre as suas crenças, compromissos, pactos, promessas, etc.
Quando surge a possibilidade de mudar ou enfrentar de modo
diferente um problema, surge então a culpa, o medo da
punição. O pior de todos os males não é a autoridade externa
do estado, mas aquela incorporada através dos rituais sociais e
institucionais. Dependendo da rigidez do superego a pessoa
prefere optar e decidir pela obediência mesmo que isto atente
contra a sua vida.
O poder do superego na existência tem a ver com
compromissos assumidos anteriormente, sua existência
inconsciente permanece inalterada levando as pessoas a
decidirem sempre a favor da ordem preestabelecida, não
importando as reais conseqüências para a sua sobrevivência,
muitas vezes a ordem é um imperativo maior do que o valor de
sua própria pessoa. Mesmo na pior das situações os seus
superiores impõem uma crença irreal. Fazem questão de
acentuar o gesto heróico para confirmar o valor do sofrimento.
Aquele que está sendo vítima da ideologia precisa ter certeza
de que encontra-se realizando através do seu comportamento
uma atitude que pode torná-lo um mártir.

180
É importante para a humanidade entender que seu
sofrimento não é culpa do estado ou de qualquer instituição de
poder, mas deliberadamente acredita no destino, em um karma,
um espírito que se incorporou ao seu ser, por isto, sente-se
aliviado, porque é um outro ser que é responsável pelos
problemas que tem na sua própria vida. Todos devem estar
convencidos nesta existência de que sua doença, sua miséria,
sua dor, sua fome, obedece aos princípios daqueles que “não
foram escolhidos por Deus”. Nunca um ser humano pode
pensar que é um escravo do sistema, este tipo de dedução pode
levá-lo a uma revolta, a mostrar sua indignação. Os aparatos
ideológicos do estado querem impregnar uma crença nos
cidadãos, existe um poder instituído e, portanto todos devem
obediência ao poder judiciário, legislativo e executivo.
Na existência aquele ser que pensa diferente, que tem
coragem para viver autenticamente, pode ser taxado de louco,
paranóico, esquizofrênico, herege, porque é diferente, não
segue as normas e a maneira de pensar da cultura vigente.
Socialmente a civilização impõe também suas crendices que
nem sempre promovem a vida e liberta ao homem, às vezes,
prolifera-se em grande quantidade a exploração, a
manipulação, a alienação. Tudo na existência tem muita
ligação com o poder instituído da ordem vigente, por isto
mesmo precisa impregnar as mentes dos subordinados uma
obediência irrestrita a uma imagem. Não é qualquer imagem
trata-se de uma imagem do representante do poder instituído
que lhe confere a condição de reprimir, matar, oprimir,
ameaçar, torturar, tudo isto em nome da ordem vigente. E todos
aqueles que praticam atos da barbárie não percebem que são
peças utilizadas para manter a grande engrenagem da
maquinaria social.
Quando estamos presentes diante dos desafios da
existência, os ditos superiores afirmam que é necessária a
coragem.

181
De que coragem estamos falando? Uma coragem
arraigada à obediência para cumprir ordens superiores?
Coragem para persistir no caminho da obediência para morrer e
matar? Coragem para dar a vida em troca de uma ideologia,
uma ordem, um pais? De que coragem estamos falando, desta
coragem idiotizada pelo poder instituído? Coragem para
oferecer a morte em sacrifício como uma espécie de mártir?
Esta coragem coloca em risco a sua vida, veja bem por um lado
o ser está atravessado pelas crenças ideológicas e ao mesmo
tempo tem de enfrentar ideologias contrárias as suas. O
enfrentamento é inevitável tudo com a pretensa idéia de
defender a honra e seu status, prefere utilizar a tortura, o
sofrimento, do que ceder um milímetro nas suas idéias.
Aqueles que pretendem enfrentar a ideologia do poder
constituído são perseguidos e seus corpos são transformados
em troféu de honra. Todo aquele que pretende lutar pela
liberdade pode acabar diante da morte. Porque estes que
ousaram ser diferentes, são exemplos de coragem, preferem
tentar a liberdade, a aceitar a condição de escravo, ou seja,
viver na submissão, pelo medo, pela agressão física, pelos
castigos e torturas, entrega o seu ser aos designeos do agressor.
De todas as formas de agressão a de maior tirania é tirar a vida
de uma outra pessoa. Por isto aqueles que se investem do poder
sem estar preparados acabam encantados numa espécie de
delírio, só porque tem o poder de defender a vida ou de tirar a
vida, acredita que é uma espécie de Deus.
Esta é a loucura esquizofrênica dos regimes
totalitários, líderes participam deste delírio coletivo, sua
vaidade não tem limites. E todos devem estar ao seu serviço,
sua palavra é divina, não pode ser questionado. É desta loucura
infernal da qual estamos falando, a obediência cega destes
seres programados, para matar e destruir em nome de uma
ideologia. Entender os princípios do dogmatismo ortodoxo das
ideologias é uma questão complexa e difícil de alcançar,

182
simplesmente não existe diálogo, flexibilidade, mas
inflexibilidade e rigidez.
Existem pessoas muito mais preocupadas no que os
outros dirão a seu respeito do que o seu sofrimento pessoal. O
que é a loucura, senão uma maneira equivocada de viver a
existência. Existe um “status quo” para dar os devidos nomes à
loucura de cada um, mas a maior delas é aquela instituição que
fomenta a morte, a violência, e a destruição. Quando um
homem encontra-se diante do desemprego, do abandono,
entregue a uma existência sem amparo, seu ser fica entregue as
intempéries do tempo, das doenças, de todos os tipos de fome,
torna-se uma presa muito fácil aos abutres da selva de pedra.
Perdido, sozinho, sem ninguém para ajudar, percorre
a existência sem uma finalidade precisa, porque não tem nem
idéia aonde quer chegar. Sem consciência a liberdade pode
tornar-se um tormento em vez de libertar-se, aprisiona o ser na
sua perdição, de tanto procurar a liberdade sem sentido, acaba
perdendo todas as suas forças. Onde a liberdade poderia ser a
chance de sua descoberta, acaba encontrando somente tristeza,
dor, humilhação, cansaço, perdido e correndo atrás da liberdade
não tem consciência que a liberdade exige um sonho, um
objetivo, uma meta. Para utilizar adequadamente a liberdade a
favor de um bem maior, ou seja, a sua própria felicidade é
preciso usar a inteligência emocional e cognitiva.
Chega um momento que o organismo não suporta este
estado de esgotamento, as perdas de energia são constantes,
estando muito próxima do seu limite, neste momento o ser tem
de tomar uma decisão, mudar o itinerário ou persistir no
mesmo caminho. Eis o dilema do ser na existência. Mas
aquele que persiste na sua busca acaba encontrando aquilo que
procura. A existência pode ser benéfica para aqueles que
persistirem no seu objetivo. Por exemplo: Quando um grupo de
pessoas encontra-se diante da mais feroz autoridade. É possível
utilizar o seu silêncio para boicotar qualquer tipo de ordem?

183
Um erro pode colocar tudo a perder ou comprometer todo o
trabalho de um grupo. Assim mesmo no silêncio e obedientes
às ordens, este trabalho pode não produzir ou alcançar os
resultados desejados. Mesmo o pior tirano necessita de seus
súditos, porque sem a sua energia não consegue tirar proveito
do seu poder, desta forma todo seu autoritarismo começa a se
comprometer, mesmo com a sua presença de morte e medo,
não consegue impor um rítimo de trabalho, e mesmo assim o
resultado é sempre ruim ou péssimo.
E quando não consegue seus objetivos é sempre o
mesmo método arcaico, primitivo e desumano, ameaça,
agressão física, violência psicológica, tudo com a simples
finalidade de obter obediência irrestrita a autoridade. O poder
tem esta característica, alcançar a adesão dos adeptos pela
persuasão do medo, da culpa, da agressão, às vezes utiliza
prêmios, e castigos, mas independente do método o poder tem
como finalidade acabar com qualquer tipo de enfrentamento a
sua autoridade. A triste realidade é colocar em questão o brilho
e a vaidade de um ditador, sua arrogância, sua teimosia não
tem limites, sua raiva, todo o seu ser está impregnado de uma
sofisticada vaidade muito particular. Quando pensa que age
com extrema inteligência, está praticando atos de barbárie e
violência, porque no lugar do bom senso só existe ignorância,
revolta e ódio.
Fora destes ambientes tomados de delírio
persecutório, existem seres que obedecem à lei do amor, da
lealdade, da solidariedade, da cooperação, mesmo sendo de
outra raça, língua, origem ou etnia, ainda assim a compaixão, o
cuidado, a proteção, a lealdade, o direito a vida, sempre vão
estar presentes. Existe uma outra força capaz de desbancar
qualquer império, aquela oriunda das profundas convicções em
defesa da vida. Quando um ser tem dentro de si estas forças
para combater todo tipo de autoritarismo, precisa saber utilizar
a sua sabedoria existêncial, de paciência, tranqüilidade,

184
perseverança e convicção. Seu caráter permanece firme aos
seus objetivos. Sabe aproveitar a situação como um jogo de
forças psicológicas para atingir as mudanças necessárias, a
única arma é sua inteligência, suas estratégias, sua capacidade
de suportar sofrimento, sua persistência em não mudar de
direção. Não entra nesta dinâmica de competir para ser o
melhor a qualquer custo, não se deixa corromper pelas ofertas
materiais, sua idoneidade ética está acima de qualquer valor
monetário.

185
2.2. A ética da vida em defesa da humanidade no homem

Quando examinamos em termos gerais as


profundezas inconscientes da natureza humana e suas relações
com as pulsões e emoções percebemos uma inter-relação com
uma ética da vida. O objetivo maior é tornar a vida digna de
ser vivida, e reconhecer os valores éticos morais em defesa da
vida, a dignidade do homem, a cooperação, e desenvolver
ações para que toda a comunidade humana possa usufruir dos
frutos oferecidos pela humanidade.
Estamos tentando entender as manifestações destas
intuições morais que são potentes e universais, somos tentados
a começar a pensar que estas dimensões éticas estão enraizadas
em nossas pulsões, e outras manifestações que tem mais
ligação, com a origem, a cultura, a educação, a sociedade, por
exemplo; existe um impulso inato a se chocar diante da morte
de alguém ou de enxergar ferimentos de sangue. Muitos têm a
tendência automática de sair em socorro das pessoas feridas ou
em perigo.
Esta dimensão pulsional tem como incumbência
defender a vida em toda sua extensão. Podemos compará-la
com o seu desejo de comer doce. Da aversão íntima aos
sabores amargos, ao cheiro de produtos estragados, ou do medo
de altura, percebe-se caindo do local, todas estas manifestações
são de fundo inconsciente e pertencem à natureza humana, ou
seja, esta condição biológica, ancestral, onde se encontram
reações morais ligadas à cultura, religião e sociedade.
É da natureza humana procurar sempre ter um
respeito a vida e buscar a integridade, esta condição emocional
não é porque raciocinamos e decidimos, porque acreditamos
que seja importante manter este comportamento, ao contrário,
em vez do poder racional, existem desejos, emoções, que
aparece em qualquer momento da vida, esta realidade
inconsciente diz respeito a toda a raça humana.

186
Para entendermos a essência da humanidade no
homem, temos que discernir os seres humano que são dignos
de respeito e outros que tem compaixão pelo sofrimento alheio.
Também é importante analisar os sentimentos de indignação e
revolta, diante das injustiças, tragédias, assassinatos, que são
obras da pulsão irracional do ser humano. Como podemos
então valorizar a vida e torná-la digna de ser vivida. Temos que
levar em consideração que viver não é somente consumir e
trabalhar, estas atividades são importantes, mais devemos ter
uma consciência superior, onde possamos contemplar a guerra,
a cidadania, o heroísmo, a vaidade, o orgulho, a bondade, a
sabedoria, para percebemos nestas escolhas o que na verdade
consegue produzir e reproduzir um modo de vida mais digno e
humanizado.
Temos que acreditar que o ser humano é capaz de
escolher um tipo de vida diferente do senso comum, um dos
valores básicos é o direito a vida, a proteção, a liberdade de
expressão. Toda forma de alienação e manipulação ideológica é
uma ameaça a saúde psíquica, temos o dever de estipular uma
ética das relações para estabelecer quais os critérios que
utilizamos para aceitarmos algumas condutas sem ferir a
integridade, a lealdade, a honestidade e a cooperação.
Esta eticidade na existência permite a defesa dos
valores fundamentais para uma convivência respeitosa em
sintonia a alguns acordos a serem vivenciados pelo grupo
humano. Fromm, afirma que seria necessário transcender ao
egoísmo, a vaidade, ao orgulho, ao narcisismo, para poder
alcançar as dimensões mais altas e sublimes da condição
humana, o amor, o respeito à vida, a humildade, a sinceridade,
de tal modo que a vida mesmo possa se tornar a expressão da
potencialidade na existência do homem154.

154
Fromm, Erich. Budismo zen y psicoanálisis. México, Fondo de Cultura
Económica, 1964, pág. 88.

187
A existência da ciência psicanalítica foi uma resposta
ao grande problema da crise existêncial do homem ocidental,
oferecendo de forma concreta um tratamento que fosse capaz
de orientar, ajudar, curar, as mazelas da dor e sofrimento
humano. Desta forma podemos verificar no desenvolvimento
muito recente da psicanálise humanista ou também chamada
“análise humanista” ou “existencialista”155. Vamos descrever
com bastante as bases epistemológicas de sua concepção de
homem e da sua existência, como condição básica da
fundamentação teórica da psicanálise humanista. A teoria
humanista está implicada dentro de uma concepção
transdisciplinar por isto mesmo utiliza outros conceitos
humanistas, filosóficos e religiosos. Também seria interessante
descrever o método específico através do qual poderíamos
alcançar o objetivo central do tratamento na psicanálise
humanista156.
O homem pode escolher por distanciar-se do
humanismo e vivenciar a inumanidade, esta sua opção de
isolamento mostra o quanto está distante das condições de
respeito a vida e da dignidade humana, sem estas condutas
éticas muitos mostram o seu lado mais obscuro, assim como a
crueldade e a violência. No caminho realizado na existência
todos indistintamente lutam ou pensam acreditar que estão em
direção de encontrar-se com a verdade. Existem espíritos
jovens presentes corpos dos nossos antepassados, é uma
espécie de coragem para não conformar-se com o estabelecido,
com o conformismo, com a injustiça, com as inverdades,
somente os espíritos jovens presentes nos corpos mais idosos
podem utilizar toda sua sapiência para poder ir ao encontro da
verdade. E nesta longa caminhada na busca destas verdades o
ser permanece no seu silêncio interior. Cada solução na
existência confirma que no íntimo do ser é possível transformar

155
Ibidem, pág. 89.
156
Ibidem, pág. 104.

188
as emoções antagônicas encarregadas de defender uma fixação,
em outras palavras uma idéia obsessiva.
Quando o homem consegue olhar a existência através
de sua consciência, suas conclusões não são obtusas e
tampouco radicais existe sempre a possibilidade do inesperado
em relação aos descobrimentos. De fato existe uma diferença
entre o dever e a responsabilidade, ou seja, de uma consciência
autoritária e uma consciência humanista. A consciência
autoritária está programada para obedecer às ordens de algum
poder instituído que encontra-se totalmente submisso. A
consciência humanista também se faz presente no âmbito das
instituições sociais com a diferença de estar consciente do seu
dever ético no respeito à vida e na defesa dos direitos humanos,
aparece em suas decisões e atitudes a humanidade
personificada em cada ser humano, é dono de si mesmo, não
depende da ordem de ninguém157.
Desta maneira o homem na existência persegue sua
própria ideologia amparada nas suas verdades, caminha em
direção de sua salvação ou destruição, neste caminho poderá
encontrar muitas dúvidas, decepções, verdades, frustrações,
porque assim é a existência. Protegido pela sua insensatez
constrói seus castelos ideológicos para esconder-se de outras
verdades. Existem verdades escondidas entre os muros que são
iguais as pedras, são rígidas e frias, seu poder de imposição é
espelhado no tamanho de suas construções.
Nestas instituições todos pensam da mesma forma,
tem os mesmos costumes, se vestem da mesma maneira, e
comungam a mesma ideologia, seus rostos estão impregnados
de desconfiança e medo, cada um tenta sobreviver por mais
tempo e absorve a perseguição ficando no silêncio. Sua mente
está impregnada de preconceitos, medos, rituais, escondem-se
sob o manto do poder instituído, o maior de todos os medos é

157
Fromm, Erich. La revolución de la esperanza. Buenos Aires, Fondo de
Cultura Económica, 1990, pág. 88.

189
de serem descobertos os segredos que estão guardados e
vigiados sob o manto da vergonha e da impunidade.
O fato mais importante é o despertar do espírito de
compaixão, do amor, do sentido de justiça e da verdade, em
resposta a situação política e social e cultural de na sociedade
industrial de seus dias e das ações que este despertar provoca.
O despertar do humanismo se expressa hoje em dia pelo
protesto contra todos os tipos de guerras, contra toda forma de
tortura praticada em qualquer parte do mundo, contra a
proliferação das armas nucleares, contra a cegueira em relação
ao perigo da destruição da vida, a causa do desequilibrio
ecológico, contra qualquer forma de racismo, contra qualquer
impedimento da livre expressão de idéias, contra o aumento da
miséria da ignorância material e espiritual, da exploração
ideológica dos meios de comunicação social, do consumismo
desenfreado, contra a forma de exploração no mercado de
trabalho, transformando o operário numa máquina produtiva. A
consciência humanista defende e protege a vida em todas as
suas instâncias lutando a favor da sobrevivência do homem
neste planeta158.
Os homens tendem a acreditar muito mais nos
símbolos das tradições milenares, incorporam doutrinas,
teorias, como uma espécie de dogma, não conseguem enxergar
além daquela realidade, sua vida, seu pensamento, suas ações,
estão repletas de ideologia. Quanto mais presente estiver uma
ideologia na vida de uma pessoa, mais poder e verdade terão
sobre as pessoas que vivênciam as suas leis, normas e regras.
Existe um caminho ideológico para a manipulação das mentes,
este estado de adormecimento da consciência tem o
consentimento e aceitação conformista do ser.
Toda esta incorporação doutrinal ou teórica oferece
algumas vantagens para a aceitação do seu esforço em
renunciar a sua própria liberdade de ser e pensar. Impregnados
158
Ibidem, pág. 138.

190
de uma verdade não ousam questioná-la e muitos menos
colocá-la em discusão, primeiro porque é muito mais cômodo
estar na ignorância e segundo este ser está atrelado a esperança
dos prêmios que poderão ser alcançados a qualquer momento.
É preciso antes saber dos modos utilizados para poder atrair a
presa a uma ideologia. De todos os males o mal maior é não
poder pensar a própria existência.
Esta é a grande razão que os grandes sábios da
humanidade combateram com todas as suas forças, alguns
pagando com a própria vida, porque ensinavam a liberdade de
expressão, a autonomia, a individualidade, a identidade, a
reflexão, dizendo que seria necessário vencer a ambição, a
inveja, a falsidade, o ódio, fazendo de sua vida um espaço para
vivenciar o amor, a participação, a solidariedade, como
condição a alcançar um estado otimal do seu ser159.
Os grandes líderes da humanidade como Buda, Jesus
Cristo, Eckart, Spinoza, Giordano de Bruno, Galileu Galilei,
Schweitzer não eram pessoas omissas com a ética humana.
Suas ações incluíam a prática da justiça, e a grande maioria
destes grandes humanistas foram perseguidos, caluniados, por
dizer a verdade e por praticar as virtudes. Tinham plena
consciência que o valor maior do ser humano não estava
atrelado aos títulos, poderes, dinheiro, ostentação social, mas
também tinham consciência que os detentores do poder
poderiam utilizar a força e o assassinato para poder proteger as
suas ideologias de dominação160.
Geralmente os poderes constituídos escondem-se
atrás de uma doutrina ideológica, muitas delas manipulam e
utilizam o ser humano como mão de obra barata para dar
continuidade ao processo de alienação. Toda ideologia
doutrinal necessita ostentar seu poder através dos bens
materiais, estas obras gigantescas tem como objetivo

159
Fromm, Erich. Del tener ao ser. Madrid, España, Paidós, 1990, pág.19.
160
Ibidem, pág. 35.

191
impressionar os futuros discípulos mostrando o poder de
domínio durante décadas, séculos, milênios. O ser humano
precisa de um referencial para poder encaminhar-se na
existência, perdido na sua própria autonomia e liberdade acaba
entregando-se a estas obras faraônicas do poder ideológico.
Hipnotizados e sugestionados por estas idéias escolhem por
negar a essência de sua identidade. O primeiro passo é
desenvolver a crença em seus discípulos, de que a verdade esta
presente numa doutrina, representada e vigiada nas palavras de
um ícone, uma imagem, uma personalidade.
Quanto maior o estado de inocência e ingenuidade
maior será o processo de anulação do seu “eu real” para
internalizar um “eu irreal”, é como assumir uma outra
identidade, desta forma acaba imitando, repetindo, vestindo-se,
pensando, vivendo, como a imagem personificada de sua
verdade. Ao dizer sim a ideologia deixa de ser sua própria
pessoa para incorporar um outro “eu”, desta forma segue todos
os passos doutrinais, incluindo as normas, regras, leis,
documentos, escritos, etc. Sua mente não consegue pensar por
si mesmo, suas reflexões e idéias pertencem à ideologia
dominante, sua obrigação é copiar, decorar, reproduzir. Não é
permitida de forma nenhuma a expressão da originalidade de
seus próprios pensamentos, sua vida é uma extensão, uma
cópia, de alguém que acredita ter a verdade.
Ao limitar-se a este tipo de existência acabam ficando
presos a uma visão de mundo muito restrita as suas crenças, a
cada momento amplia a distância entre o seu “eu real” e o “eu
irreal”, existe uma espécie de pacto inconsciente, carrega
consigo o antídoto de sua alienação, a culpa e o medo.
Algumas pessoas desenvolvem uma ação de punição por
desobedecer ou descumprir alguns compromissos com a
imagem ou instituição. Sobrecarregam-se de muito trabalho
com a finalidade de mostrar o seu amor à instituição, na
verdade é uma escolha de um tipo de existência baseado em

192
tudo aquilo em que não se pode enxergar e verificar, toda ação
baseia-se no princípio da imaginação e fantasia.
A saúde emocional do psiquismo humano está
relacionada à emancipação dos laços de sangue e de sua terra,
de sua mãe e pai, de qualquer tipo especial de fidelidade ao
Estado, instituição, partido ou religião. O caráter
revolucionário é de um humanista no sentido em que sente em
si mesmo a toda a humanidade e em que nada humano lhe é
estranho. Ama e respeita a vida. É um cético e um homem de
fé161. Toda a educação ou ideologia institucional que manipula
as mentes e condiciona comportamentos através de promessas,
castigos e recompensas diminui a capacidade de autonomia e
independência pessoal.
O grande propósito do humanismo tem a ver com o
exercício pleno da sua liberdade, educando-se para vencer o
seu próprio narcisismo. Este é o princípio de todo o amor, de
toda fraternidade, porque com o narcisismo distanciamos
mutuamente, tornamos agressivos e incapazes de compreender-
nos162. O próprio Freud não gostava da medicina, mais tinha
uma admiração pela política e a ética. Este interesse político
humanitário se deu no ano de 1910 quando se interessou em
ingressar numa “Irmandade Internacional para a Ética e a
Cultura”, fundado por Knapp e presidido por Forel163.
Desta forma existia o conflito do Freud humanista e o
teórico positivista. No plano científico e teórico chega à
conclusão de que o homem só tem uma alternativa de destruir-
se a si mesmo (lentamente, através de suas doenças) ou de
destruir os demais, ou de causar sofrimento a si mesmo e aos

161
Fromm, Erich. La condición humana actual. Barcelona, España,
Paidós, 1981, pág. 76.
162
Fromm, Erich. El arte de escuchar. Barcelona, Espana, Paidós, 1991,
pág. 194.
163
Fromm, Erich. La misión de Sigmund Freud. México, Fondo de
Cultura Económica, 1981, pág. 20.

193
seus semelhantes. O humanista não concorda com esta postura
derrotista e pessimista em relação ao ser humano de tornar uma
guerra a solução racional para a existência humana164.
É muito importante observar o humanismo de Freud
em quase toda sua existência, porém a influência científica e
teórica bem como os conceitos da natureza de homem baseado
na medicina e biologia fizeram com que se distanciasse ainda
mais da sua condição humanitária. Esta dualidade de um
homem voltado para amar a humanidade debatia-se de frente
com um legado científico e cultural que negava sua expressão
emocional, simplesmente pelo fato de olhar o corpo como uma
matéria sem nenhum tipo de vida, nos leva a crer na força
ideológica do materialismo de sua época.
Sem dúvida que o pensamento mais importante do
humanismo seja a idéia de que toda a humanidade está contida
em cada ser humano e que o ser humano se desenvolve sua
humanidade através do processo histórico e social165. Desta
maneira Fromm chegou a conclusão de que a experiência de
fundir-se se realiza em primeiro lugar na comunhão com o
inconsciente e de uma psicanálise que tenha o objetivo de
tornar consciente o inconsciente, induz a pensar no novo
humanismo. Através do autoconhecimento, o inconsciente se
transforma na grande idéia da universalidade do homem e de
sua viva experiência, de forma que se trata da realização vivida
do humanismo166.
Quanto maior a repressão da espontaneidade, da
originalidade, da alegria, da satisfação, maior é a expressão da
repressão, incluindo o medo, a angustia, a ansiedade. Podemos
compreender que no inconsciente está a condição potencial
para a realização de todas as suas possibilidades, desde as

164
Fromm, Erich. Grandezas y limitaciones del pensamiento de Freud.
Madrid, España, Siglo Veintiuno Editores, 10ª. ed., 1997, pág. 151.
165
Funk, Rainer. El amor a la vida. Buenos Aires, Paidós, 1995, pág.134.
166
Ibidem, pág, 135.

194
pulsões do animal irracional até a tendência repressiva do
homem buscando sua transcendência, a recuperação do
inconsciente é a realização mesma da experiência do
humanismo167. O humanismo se caracteriza pela fé que tem no
homem, em suas possibilidades de desenvolvimento para
conseguir chegar a etapas mais elevadas, acreditando na
unidade da raça humana, na tolerância, na paz, na razão, e no
amor, como forças que permitem ao homem realizar-se a si
mesmo e converter-se naquilo que ele pode ser168.
A psicanálise é um método para que o homem possa
chegar à plena realização de sua humanidade, ao converter o
inconsciente no consciente transforma a idéia teórica
humanista da universalidade, é a verdadeira humanização
vivenciada dentro de si mesmo a partir do tratamento
psicanalítico. O humanismo transcende o poder perverso da
engenhosidade da irracionalidade estabelecendo a correta
correspondência entre o mito, os fantasmas, as fantasias e a
realidade. Em cada ser humano este presente estas duas
realidades em potencial, a humanidade tem insistido nos
valores éticos como condição para o pleno desenvolvimento do
processo de humanização do homem.
A psicanálise humanista tem interesse em entender o
homem, a sua natureza humana e encontrar novos caminhos
para salvaguardar a felicidade, a criatividade, a integridade, a
liberdade, e exigir o desenvolvimento das potencialidades
humanas, o seu amor a existência é o seu próprio marco de
orientação teórica169. A orientação teórica da psicanálise
humanista busca defender a morte da vida, a automatização do
homem, seu isolamento de si mesmo de seu semelhante e de si
mesmo. Procura viabilizar o seu bem estar, desprendendo-se do

167
Salvador Millan; Sonia Sogman Del Millan (Comp.) Erich Fromm y el
psicoanálisis humanista. México, Siglo Veintiuno, 2ª. ed, 1982, pág. 104.
168
Ibidem, pág. 122.
169
Ibidem, pág. 59.

195
seu egocentrismo, renunciar a ambição, compulsão, a inveja,
deixar de engrandecer-se a si mesmo, afastar-se de qualquer
ação megalomaníaca como forma de engrandecimento.
Desta maneira podemos compreender a diferença
entre a psicanálise freudiana e a humanista, ambas estudam o
inconsciente humano sobre diferentes premissas, enquanto a
psicanálise ortodoxa compreende o homem desde o
materialismo físico-químico a psicanálise humanista se baseia
no valor do materialismo dialético, ou seja, o homem é o
produto de suas condições sócio-histórica além de seu modo de
existir170.
A função do medo nas diversas civilizações teve
muitos nomes, todos tinham como objetivo comum afastar
qualquer ser humano de sua verdade pessoal, não permitia de
nenhum modo qualquer tipo de questionamento,
principalmente se levantasse dúvidas sobre as verdades
milenares pré-estabelecidas. Restou aos discípulos a estratégia
de ficar em silêncio e comunicar-se através de gestos e
símbolos os seus pensamentos para poderem sobreviver nestes
ambientes ideológicos e dogmáticos.
O domínio é imposto pela inescrupulosa possessão
das mentes, muitos ficam iludidos numa espécie de delírio
persecutório, outros aderem às verdades esquizofrênicas como
um estereótipo imagístico para seguir a determinação da
imposição ideológica. Esta loucura é o distanciamento cada vez
maior da sua natureza de homem se afastando e negando sua
condição humana. Imbuídos deste estratagema são presas
fáceis de serem manipuladas e todos aqueles que ousarem
questionar estas ideologias são perseguidos e chamados de
hereges.
O humanismo está presente no íntimo de cada homem
desde o mais prudente até o mais ingênuo, portanto, sua ação

170
Fromm, Erich. Espíritu y sociedad. Buenos Aires, Paidós, 1992, pág.
89.

196
na existência dependerá da força das fixações incorporadas
pelo superego como uma verdade. O fato de um grupo de
pessoas ou mesmo uma instituição dizer que são portadores de
uma verdade não confirma esta ideologia ou doutrina como
uma afirmação universal. O grupo tem a finalidade de se
autoproteger além de prover a sua subsistência, por isto a
importância da hierarquia. Outro valor cultuado pelos
discípulos é a obediência. Quanto maior o poder de dominação
da instituição, maior a chance de expandir a doutrina das seitas.
A imagem aparece como um signo de poder e
ostentação, nela está inscrita a mensagem a ser decifrada, seu
conteúdo remete a compreender o estado de graça, o valor
inestimável de sua divindade, então é preciso antes colocar-se
como um ser insignificante, sem valor, diante dos bens
materiais e a divindade. Talvez no íntimo desta imagem esteja
escondido o núcleo de seu poder de dominação. Eis a incógnita
de um ser em estado de inconsciência. Não consegue adquirir
consciência para poder olhar a imagem como imagem e não
como algo divino e com vida.
A consciência humanista tem a liberdade de
questionar e autogerir-se em autonomia sobre seus próprios
pensamentos não se ilude com falsas imagens e promessas, em
última instância não se deixa manipular, esta atenta a cada fato
ou acontecimento, em relação ao movimento sutil de suas
emoções e ideologias. Todas as expressões da capacidade
humana estão a serviço da existência. O homem não pode
viver sem fé, pode defender-se negando a fé, mas de uma
maneira ou de outra acaba acreditando nos meios cibernéticos,
nas ideologias políticas, dogmas das religiões, em algum líder
político ou religioso, enfim depois de acreditar com fé nestas
ideologias, se dá conta de começar a ter fé em si mesmo, e
voltar a acreditar nas suas próprias capacidades produtivas.
A ética humanista, em contraste, defende que se o
homem está vivo, sabe o que está permitido e viver realmente

197
significa ser produtivo; não emprega seus poderes para nenhum
tipo que transcenda ao homem, mas utiliza a favor de si
mesmo; dando um sentido a sua própria existência; buscar a
excelência de ser um “humano”171. Muitos filósofos e cientistas
defendem que a natureza humana está hereditariamente
determinada a agredir seus semelhantes, a ser invejoso,
ciumento, perigoso a menos que seja impedido pelo medo.
A ética humanista se opõe a estas afirmações, insiste
em dizer que o homem é bom por natureza e que a pulsão
destruidora não faz parte integral de sua natureza172. O ser
humano traz dentro de si todas as possibilidades para se
desenvolver num gênio ou num santo, ou tornar-se um
assassino e ignorante. Muito da constituição do seu caráter
depende bastante do ambiente onde viveu, além da
incorporação dos valores sociais, culturais e religiosos, a
formação da sua idoneidade, de sua bondade, de sua
honestidade, caracteriza em si a humanidade incorporada
através da existência.
Muito dos seres humanos carregam o estigma da
barbárie durante a sua vida. Algumas práticas de violência, da
mentira, da inveja, do ciúme, estão relacionados ao meio social
e histórico, as condições políticas e econômicas desfavoráveis
ao desenvolvimento dos valores éticos, todos sabemos que
existem exceções a qualquer regra, mas mesmo assim
sustentamos que este ambiente influencia na determinação e
utilização dos aspectos destrutivos e violentos arraigados na
sua constituição biológica do mundo animal. Esta reflexão
constitui o ponto final do valor do humanismo no processo de
valorização de uma ética social e comunitária arraigada às
condições culturais e religiosas de seu ambiente social.

171
Fromm, Erich. Ética y Psicoanálisis. México, Fondo de Cultura
Económica, 1991, pág. 268.
172
Ibidem, pág. 227.

198
Mesmo que alguns seres humanos não encontrem as
condições para receber os cuidados necessários ao pleno
desenvolvimento psicológico e emocional ou econômico no
seu meio social, não impede que mesmo diante de situações
extremas e de difícil situação, que a pessoa desenvolva em base
a identificações positivas e novos aprendizados, em outros
ambientes os valores e virtudes tão necessários ao
desenvolvimento de seu caráter.
É bom salientar que não existe uma determinação
psicogenética de impulsos hereditários que condicionem os
comportamentos humanos. Como afirmamos anteriormente um
assassino pode tornar-se um santo, um bandido pode se tornar-
se um salvador de vidas. O que estamos tentando dizer que
depende muito das pessoas próximas a si mesma, da
interpretação do que aconteceu consigo mesmo, dos valores
éticos e sociais incorporados e internalizados em algum
determinado momento de sua existência.
Indiretamente estamos falando que em última
instância o que decide um estilo de vida ou molda toda uma
existência é uma decisão muito pessoal e particular, que pode
ser de revolta e indignação ou de superação e transcendência.
São as mais diversas situações e experiências que podem
induzir ou impedir a execução de um tipo de atitude benéfica
ou destrutiva, mas se realizar uma análise mais profunda,
sempre vamos confrontar com alguma emoção de ódio ou
amor.
Esta emoção sustenta-se por intermédio de vivências
e experiências para poder conseguir o posto mais alto de
valorização e reconhecimento. Se a sociedade conseguir
mostrar o valor do amor e oportunizar uma chance de
mudança, mesmo para aqueles que neste momento encontram-
se pagando alguma pena judicial, isto poderá reverter num
momento de gratidão e reflexão, onde a pessoa pode decidir

199
continuar na sua prática de delito e violência ou de lutar a favor
da justiça e do amor.

200
2.3. Uma análise do conceito de potência
na psicanálise humanista

A ética humanista defende que a saúde do homem e


sua existência têm relação direta com a realização e satisfação
do ser na existência. Portanto a educação, a sociedade, a
cultura, a religião, tem muito a ver com isto, ou seja, pode
indiretamente ou diretamente ajudar no processo de formação
do caráter do ser humano, estamos tentando dizer que
atualmente está prevalecendo em nosso meio social certo
relativismo ético e uma dificuldade dos pais e autoridades de
praticar valores, como por exemplo, a bondade, a justiça, a
caridade, a solidariedade, etc. Os pais e as autoridades
constituídas desconhecem que muitos dos comportamentos dos
seres humanos, como os juízos de valor que elaboramos,
determinam nossas ações e sobre sua validez descansa na saúde
mental e na felicidade173.
Em muitos casos o sintoma neurótico tem sua origem
num conflito moral, o êxito do esforço na análise depende da
compreensão e da solução do problema moral da pessoa. A
influência do iluminismo dizendo que o homem pode confiar
na sua própria razão como um guia para estabelecer normas
éticas válidas, podendo defender-se a si mesmo, sem ajuda da
revelação, nem da autoridade da Igreja para saber o que é bom
e mau174. Esta interpretação valorizou ao extremo o
racionalismo como solução final para os problemas humanos.
Hoje constatamos que foram trezentos anos na defesa de uma
teoria equivocada, muitas das ações humanas são motivadas
pelas emoções, ou seja, estamos vivendo um novo paradigma
da inteligência emocional diferente do raciocínio lógico de
descartes.

173
Ibidem, pág. 10.
174
Ibidem, pág. 17.

201
Existe a ética autoritária sustentada nas leis, regras,
normas, oriundas do poder jurídico, estatal constituído, ou seja,
são estes regulamentos que acabam prescrevendo as normas de
conduta. Na ética humanista é a própria pessoa que adquire
força e competência para poder decidir e ao mesmo tempo
fazer suas próprias regras e atitudes, é claro que a fonte final é
a agência reguladora, mas a pessoa em si é o sujeito de sua
própria matéria175. Não existe nada de mais importante e
superior nem mais digno que a própria existência. Estou
tentando dizer que é fundamental que o ser humano se
autodetermine em base a uma natureza ética, deve estar
relacionado com algo que possa transcender ao homem. Por
isto mesmo um sistema social e econômico que valorize acima
de tudo os bens matérias e o poder aquisitivo não pode ser
verdadeiramente moral e ético, porque com o tempo esta
mesma pessoa se tornaria um egoísta e narcisista176.
O importante da ética humanista é sua afirmação em
defesa da vida. A virtude é a responsabilidade diante da
própria existência. O mal se refere à negação e mutilação das
potencialidades do homem. O vício é uma irresponsabilidade
em relação a si mesmo177. A potencialidade tem muito a ver
com a coragem de ser, as mesmas dificuldades e sofrimentos
que por um momento estavam sendo interpretadas como um
empecilho aos olhos de outra pessoa, pode ser utilizada como
uma alavanca propulsora da utilização do seu potencial. A
psicanálise se torna importante neste processo de ascensão e
desenvolvimento porque é capaz de identificar os núcleos
neuróticos ou emocionais, que impedem a expressão desta
força de criatividade, de dinamismo, de ousadia, de coragem,
de determinação, de confiança, sinônimos do que poderíamos
chamar de potencialidade do ser.

175
Ibidem, pág. 20.
176
Ibidem, pág. 25.
177
Ibidem, pág. 268.

202
Temos que admitir na própria constituição biológica
do sujeito o fundamento das qualidades das quais necessita
para compreender, utilizar e refletir sobre sua própria condição
humana. É dentro desta genealogia biológica inata que o ser
mostra todas as suas necessidades, sejam de ordem afetiva, ou
de sobrevivência orgânica, mas cabe a nós identificar o valor
do sentido de suas percepções e de modo muito particular de
compreender a sua realidade pessoal e externa.
Desde a vida intra-uterina o ser se potencializa para
constituir-se na perfeição da natureza humana, e assim
permanecem depois do nascimento biológico os outros
nascimentos de ordem de realização e satisfação na existência.
É complexa não por um desejo ou determinação humana, a
sabedoria e inteligência biológica da natureza, precisa de nove
meses para constituir-se na primazia da inteligência da vida na
terra, não estamos tratando de qualquer organismo vivo,
estamos referindo a um ser com consciência de si mesmo e dos
outros.
Sustentada e garantida na sua constituição orgânica
este ser em gestação passará talvez seus próximos noventa anos
gestando-se em sabedoria, em inteligência, num mundo de
aprendizagens cognitivas e emocionais e ninguém sabe o
desígnio final de seu destino. Muitos tentam antecipar e
descobrir como será o futuro, mas as probabilidades e
incertezas em relação à imortalidade pertence somente ao
tempo eterno da vida.
Não existe outra saída, a primeira experiência é
conviver com um estado de ansiedade, angustia, porque
nascemos dependentes de amor, afeto, cuidado, alimentação, e
assim acabamos constituindo como um ser em relação, e nada
pode substituir a presença amiga e terna do calor humano, nem
o mais potente remédio pode fazer desaparecer esta
necessidade, talvez possa impedir que esta emoção possa
aparecer na consciência, mas temos certeza de que será

203
somente por alguns momentos. Temos que aprender a amar, a
dar afeto, a se alimentar, a ganhar o próprio sustento, a
respeitar os outros, a praticar uma ética, a realizar-se
profissionalmente, a resolver nossos dilemas pessoais, a
superar-se nas adversidades, a conquistar a confiança dos
outros, a ocupar o seu espaço, a demonstrar todo o potencial
humano e intelectual.
Tudo isto nos remete a uma séria reflexão sobre o
espírito humano e do desenvolvimento de suas qualidades,
especialmente sobre a formação do seu caráter. Se
imaginarmos um recém nascido, vamos nos dar conta de sua
completa vulnerabilidade, porque ainda não tem a autonomia
necessária e muito menos uma consciência que possa guiá-lo
pelos caminhos da existência. Ao fazer esta constatação
compreendemos que o seu ser é a existência, ao longo de suas
aprendizagens, muito do legado social e cultural vai fazer parte
de sua constituição.
Muitas das potencialidades estão alicerçadas na
paixão, no amor, uma espécie de dedicação que transcende a
experiência comum, estar apaixonado por algo e descobrir o
valor de uma experiência subjetiva de valores. Quanto mais a
paixão se manifesta num valor maior em relação a existência,
mais dedicação, determinação, convicção, estas ações acabam
esboçando o desenho do futuro ser.
Nietzsche afirma que para realizar-se basta ao
homem cultivar em si esta natureza178. Porém constatamos que
a maioria dos homens nunca se realiza na sua plenitude
existêncial. O que nos distingue dos animais não é o fato de
nós sermos superiores a eles em inteligência, ao contrário, está
no fato de que o ser humano possui a potência transformada em
dons, talentos e capacidades capazes de colocá-lo numa
posição muito acima da condição animal. A natureza

178
Giles, Thomas Ramsom. História do existencialismo e da
fenomenologia. São Paulo, EPU, 1989, pág. 28.

204
encarrega-se de injetar no íntimo de cada ser humano esta
“potentia”, um desejo de auto-superação, de transcendência, ao
entrar em contato com esta dimensão da natureza torna-se
capaz de realizar-se em profundidade e extensão na existência.
No entender de Kierkegaard a verdade torna-se
existencial quando a pessoa vive aquilo que acredita, serve-se
deste potencial para alcançar objetivos mais profundos. A
pessoa é uma energia viva, ativa, autodeterminante, que surge a
partir de situações concretas de escolhas, situações estas que o
homem focaliza todas as suas potencialidades numa decisão
que ressoará por toda sua vida179. Inconscientemente todos
estes desejos não estão delineados conscientemente, esta
instância da existência passa pela experiência de uma
dicotomia existêncial, uma dualidade entre a razão e emoção, e
como estamos acostumados a pensar na interpretação da
realidade externa e sobre nós mesmos nem sempre é fidedigna
ao nosso potencial.
Muito daquilo que somos tem a ver com a mutilação
e negação destas potencialidades, quando se reflete em
potência vislumbra-se um ser realizando-se e produzindo ações
a favor da existência. Quando nos atemos ao fato de que a
limitação intelectual tem relação direta com a realidade
emocional. Esta força pulsional impele ao homem fazer da
existência um trampolim para a sua felicidade, porém muitas
vezes fica somente na fantasia, mas de algum modo uma
emoção mais forte acaba predominando, como um advogado a
favor da paralisia existêncial. E paralisado o ser deixa de
crescer e desenvolver-se, acaba retraindo-se, e com o tempo
utiliza toda sua energia de forma punitiva e destrutiva.
A energia psíquica necessita da confirmação dos
ganhos existênciais para poder dar a si mesmo um nome; cada
conquista, cada vitória, cada aprendizado, é um determinante
que com certeza influenciará no poder sistematizador da
179
Ibidem, pág. 07.

205
energia mental. A fluência do ser depende desta energia de
vida, de atitude, de coragem, de decisão, fortalecendo-se e
aumentando sua potência de resolução e ação. Em base a esta
energia psíquica todo ser exerce uma força para alcançar
objetivos, a preguiça, o desânimo, a apatia, o pessimismo, as
justificativas, são formas indiretas para não utilizar as suas
potencialidades, de realização, de produtividade, de
entusiasmo, de satisfação, de positividade, de coragem, enfim
prefere se esconder por escolha consciente ou inconsciente
atrás de uma doença, de uma justificativa para não utilizar o
potencial do seu ser.
Podemos então levantar várias hipóteses sobre esta
escolha pessoal, muitos seres humanos estão impregnados por
uma cultura de exigência fora da normalidade, possuem um
superego castrador e perfecionista. A exatidão do ser tem
relação com a inferioridade, com a falta de percepção de que
não existe perfeição, mas sim evolução. É difícil caracterizar o
que entendemos por perfeição numa determinada cultura ou
sociedade. Muito do perfecionismo existente se baseia numa
imagem mentirosa, muitos apontam aquela imagem como o
exemplo, o modelo a ser seguido.
Com base nestes princípios a pessoa começa a exigir
de si mesmo aquilo que a imagem já fez. Quando mais se
exige, mais culpa, mais ansiedade, mais medo de não
conseguir, preso nesta armadilha do modelo imagístico se torna
uma presa fácil, justamente porque acaba ficando debilitado,
enfraquecido, desconfiado, sua auto-estima diminui, seu
conceito pessoal fica alterado, isto tudo desencadeia, através da
existência, um complexo de inferioridade.
A natureza faz com que uma árvore ou um animal
tende a atender aos seus “planos” condicionados pelo
ambiente, a “existência humana” não só contém diversas

206
possibilidades de modos de ser, sem que esteja atrelada a esta
multíplice potencialidade do ser180.
O que um ser humano deveria desejar e outros não,
você saberia me responder? Alguém já disse a você quantos
desejos você poderia desejar? As buscas dos seus sonhos são
motivados por que tipo de desejos? Que tipo de certeza você
tem em relação a algum desejo que possa realmente solucionar
a sua existência? Como desejar potencializando-se como
pessoa na existência? Estas e outras perguntas todos nós temos
que responder durante esta breve estada neste planeta.
Todo ser humano é uma potencialidade em ação, em
cada descoberta, em cada aprendizagem, em cada relação,
aproxima-se cada vez mais de sua própria humanização. Este
potencial está circunscrito pelas convenções sociais, e muitas
delas não colaboram para desabrochar a confiança em si
mesmo. Muitas pessoas deixaram de ser criativas, espontâneas,
verdadeiras, porque acabaram ficando entristecidas com as
experiências ruins e negativas. Por uma atitude precipitada
acabou reprimindo ou recalcando estas potencialidades.
Todas estas tentativas de conhecer-se a si mesmo
passa por uma curiosidade, por realizar uma investigação muito
particular sobre a existência. Quanto maior a consciência
menos o medo toma conta das iniciativas em buscar as
soluções para a realização de sua existência. Todo cuidado é
pouco, porque além de conviver com estas convenções sociais,
jurídicas, culturais, muitos acabam sendo envolvidos pelas
falsas promessas das ideologias sociais e culturais.
Quando estas injustiças sociais, familiares, escolares,
forem internalizadas como um foco de recalque dos desejos
que não puderam ser realizados, a tendência é recalcar o
potencial de criatividade e liberdade de expressão. A liberdade
de comunicação e ação só voltará em cena na existência

180
May, Rollo y otros. Existencia: nueva dimensión em psiquiatría e
psicología. Madrid, España, Gredos, 1977, pág. 86.

207
quando a pessoa permitir ressignificar esta emoção. Depois de
fortalecer advogando um crédito a sua capacidade de realização
se torna possível a prática das suas potencialidades. As
exigências da existência é o primeiro confronto que uma
criança precisa saber enfrentar, para poder manter em
condições a sua saúde emocional e orgânica.
As vivências emocionais são muitos cheias de medos,
por exemplo; de não conseguir superar-se, de avançar, de
conseguir conquistar os recursos econômicos e intelectuais
para assegurar a tranqüilidade e segurança tão necessária. Em
alguma fase da vida os desafios que a sociedade impõe, tais
como eficiência, inteligência, competitividade, produtividade,
podem-se tornar em novo desafio a ser conquistado. Por ordem
de critério qual o seu desejo mais importante? Ser aceito e
reconhecido na comunidade onde vive? Ser amado e desejado
pelos seus pais? Encontrar um grande amor na sua vida?
Conseguir uma posição de destaque social e econômica na sua
sociedade? Ter uma inteligência acima do normal?
Se de alguma forma você prioriza um desses desejos
outros terão que esperar o seu devido tempo, o investimento de
tempo e dinheiro para alcançar a sua realização, em algum
nível temos que recalcar alguns desejos provisoriamente e
valorizar por ordem de escolhas outros mais importantes.
Mesmo que alguns desejos acabem sendo reprimidos, porque
não foram escolhidos, eles não deixam de existir, esta instância
permanece esquecida por um longo tempo, até que a
consciência ou a existência necessite de sua potência.
Uma das questões ainda por ser decifrada é o quanto
um ser humano consegue agüentar de pressão e stress na
existência, pois, quando a pressão está acima das condições
psíquicas de resolver um problema, muitos seres refugiam-se
nos seus delírios, nas alucinações, nas fantasias, e neste lugar
alguns se encontram como se estivessem num paraíso perfeito.
Um mundo de uma realidade sem exigências, sem confusão,

208
sem conflitos, sem competição, sem perseguição, sem ódio,
sem raiva, enfim um mundo desejável para aqueles que não
aceitam ou tem medo de enfrentar a própria realidade
existêncial.
Cada potencial tem o seu significado, ajudam na
solução dos problemas e dificuldades pessoais. Qualquer
pessoa em diferentes níveis e de diversas maneiras desenvolve
uma potência de ação na existência. Esta práxis é a energia
potencializadora de seu sucesso e fracasso. Inclusive para
adoecer, e poder fracassar na existência tem de existir uma
potência para realizar este desejo mesmo que seja inconsciente.
Muito deste potencial da existência tem haver com o modo que
a pessoa enxerga a realidade, são estes construtos da
inteligência que tornam possível uma interpretação e uma
avaliação dos acontecimentos, sem isto seria impossível
internalizar uma representação imago-emotiva da realidade.
O mundo externo é representado potencialmente por
estas imagens acopladas no cérebro. É com esta sensibilidade,
ingenuidade, emotividade, curiosidade, que o ser potencializa o
seu cérebro para representar a realidade. A vida precisa do
olhar do outro para confirmar em algum nível a satisfação ou a
realização de um desejo. Além de a pessoa compartilhar algum
potencial em particular com os outros, sabe da importância e
do valor da socialização, da solidariedade, da comunhão, da
partilha, de seus potenciais com outros seres humanos. Esta
alteridade é a essência mais sublime das relações humanas.
Serem capaz de ensinar, de trocar, de vivenciar, num mesmo
espaço de tempo, estas e outras realidades potencializadores da
felicidade. A vida fica mais fácil quando um outro consegue
ajudar alguém a abreviar as feridas da sua ignorância
emocional.
Existe na verdade uma relação da pessoa com suas
próprias potencialidades, muitas vezes alguns optam por
reprimir algumas por um tempo, outras estão bloqueadas por

209
alguma experiência aterradora impedindo a vivência mais
prazerosa de alguma emoção mais profunda, a pessoa tem
consciência das suas carências, também percebe sua deficiência
em alguma área específica, mas esta tomada de consciência não
basta para dar conta da solução do bloqueio. Muitos dos
potenciais acabam surgindo mediante os confrontos sobre a
existência, a fome, miséria, desencanto, sofrimentos, podem ser
um fator a mais para despertar outras potencialidades como,
por exemplo, saber ganhar dinheiro, estudar, defender-se,
relacionarem-se, estas mesmas situações de dificuldade podem
ser a oportunidade de começar a aprender a ganhar o próprio
sustento, desenvolvendo de maneira criativa a sua existência.
Quando na verdade se pode ter outra chance? Como
suportar os momentos difícieis? Quem pode nos dar uma
oportunidade para demonstrarmos o nosso potencial? Todas as
dificuldades na existência existem com a finalidade de
provocar uma reação na pessoa, indiretamente exige a
utilização do potencial intelectual e emocional na solução
daquele tipo de problema. Quando a potencialidade não
aparece é porque a mente encontra-se sobre o sono profundo da
alienação.
A potência pode ser entendida como o acúmulo de
soluções e aprendizados que uma pessoa realizou numa
determinada época histórica da existência, isto significa que as
demandas e interesses modificam o centro de utilização de
alguma potência específica para resolver determinados tipos de
problemas. Podemos falar dos diversos tipos de potência: como
inteligência cognitiva e emocional, como viabilizadora do seu
ganho econômico, do desenvolvimento do seu
autoconhecimento, da aprendizagem em relação ao amor e a
sexualidade, em encontrar-se consigo mesmo na existência.
São estas mesmas dificuldades que colocam em cheque a nossa
capacidade de reação, é diante destes desafios, que somos
chamados a dar uma resposta a determinadas situações. Além

210
de estimular a utilização da inteligência em todos os sentidos,
amplia as condições de vivência e experiência, mostrando para
si mesmo e aos outros, o seu nível de capacidade que tem para
resolver problemas na existência.
E muito do trabalho, do esforço, da dedicação, do
empenho em uma função, está relacionada ao amor que temos
às pessoas que indiretamente dependem de nós. Este amor é
uma forma de potência que motiva a procurar algo melhor e
proporcionar condições mais dignas de vida a todas as pessoas
que convivem conosco. Um outro potencial é a admiração que
as pessoas têm para com as nossas realizações em varias áreas
da existência.
A admiração é o reconhecimento tão necessário na
existência, principalmente daquelas que convivem conosco
todos os dias, portanto este esforço é recompensado pelo amor
recebido através da aceitação destas pessoas. Este estado de
gratidão leva-nos a reconhecer e saber que existem pessoas que
são capazes de dar a vida por nós, é deste amor humano, desta
sensibilidade, do compromisso, da verdade, vivenciada através
de ações concretas no convívio diário que nos potencializamos
para amar ainda mais nossa existência.
As crianças são sensíveis e atentas para tudo aquilo
que acontece ao seu redor, seu olhar, sua escuta, sua atenção
está voltada para os comportamentos e atitudes do mundo
adulto, neste momento o seu potencial de inteligência
emocional começa também a formular suas hipóteses, seus
raciocínios, suas reflexões, procuram entender e buscar uma
lógica para determinados problemas dos adultos. Em muitas
oportunidades percebem os problemas e busca ajudar do seu
modo, existe de fato uma sensibilidade em potência que vai
desenvolvendo-se para compreender e aprender como
sobreviver na existência. Dependente de cada ambiente social e
cultural a criança vai desenvolver certo potencial. Existe para
cada realidade específica da criança uma potencialidade mais

211
urgente que vai ter prioridade sobre as outras, isto significa que
o ambiente pode ajudar ou atrapalhar o desenvolvimento da sua
potencialidade.
Cada atitude deve ser vista como parte integrante da
existência, todas as potencialidades da existência tais como: as
pulsões, a libido, o amor, necessitam ser vistas sobre o olhar do
humanismo; isto significa compreender estas forças dentro de
uma visão da totalidade, incorporando a esta interpretação, a
compreensão do ser multidimensional. No entender de Rollo
May, “Não se pode querer o que não se conhece”, se não se
tem uma idéia do fim a ser alcançado, a fim de realizar, do
bem consumir, a vontade permanece adormecida. Sua obra é
desencadeada por uma pulsão. Para que a vontade possa
entrar em ação, é necessário que se apresente o que se
represente, ou se busque um objetivo maior e melhor181.
Nas palavras de Karl Jaspers; o que perdemos?
Quantas oportunidades deixamos escapar? Porque não
conseguíamos compreender ou não tínhamos a consciência
necessária para poder decidir com mais maturidade? Por que
deixamos passar um problema mesmo com toda nossa
bagagem de conhecimento, justamente naquele momento
preciso e único, uma decisão correta poderia oferecer um
melhor resultado na existência. Será que faltou a simplicidade,
a intuição, a sensibilidade, virtudes, valores, cheios da presença
humana? Portanto temos de entender o ser humano dentro
desta categoria de humanidade. Supõe-se que o psicanalista
seja um experto; mas se não consegue ser diante do ser
humano, sua técnica vai ser inútil e muito possivelmente
prejudicial182.
Estudar o ser humano é buscar a compreensão desta
autenticidade da natureza, da inteligência da vida, da
criatividade humana, das forças culturais presentes no ser

181
Ibidem, pág. 299.
182
Ibidem, pág.112.

212
humano, todas estas potencialidades estão presentes na
natureza do ser humano e pertencem a existência da
mundaniedade e todos somos capazes de vivenciar, reconhecer
e conhecer. Embora seja muito complexa a pesquisa sobre o
potencial humano, podemos lançar algumas hipóteses para
entender a manifestação da potência na condição humana. Por
exemplo; quanto mais a pessoa se sintir livre de pressões e
ameaças mais capacidade terá para desenvolver seu potencial
de se relacionar com as pessoas do seu meio social. Uma
ansiedade poderá ser elaborada na existência e resolvida
quando a pessoa for capaz de perder o medo de usar as suas
potencialidades, principalmente aos temas dos quais existe
certo medo de ação.
Sempre e em todos os momentos de sua existência o
ser humano vai estar diante deste dilema de existir a
probabilidade de ser e de não ser. Ou em outras palavras o
“ser- para-tudo” e o “ser-para-nada” ou ainda do “eu autêntico”
ou do “eu falso”, daquelas pessoas que cuidam e gostam de si
mesmo e de outras que boicotam e impedem a livre expressão
do seu potencial. E diante deste dilema começamos a pensar se
realmente somos livres para poder decidir com liberdade
emocional e racional na existência. Talvez quanto maior
consciência em relação à existência, na mesma proporção
maior responsabilidade e compromisso consigo mesmo, para
utilizar ou não seu potencial, e nesta condição existêncial está a
decisão muito particular do paciente, que não depende do
psicanalista.
Só podemos entender a inexistência do potencial
humano na existência admitindo a existência da repressão,
partimos do entendimento que as potencias são inatas e outras
adquiridas, porém quando as potencias não existem, a
conclusão lógica é de que foram reprimidas. Quanto maior a
utilização do potencial humano mais o ser se destaca na
existência, existe uma liberdade para expressar e desenvolver o

213
seu potencial, o ser não se encontra reprimido, inibido, sem
forças, com medo, escondido, desanimado, ao contrário, este
ser encontra em plena forma, com coragem, energia e
determinação para alcançar os objetivos com sentido na
existência. Quanto mais utilize um potencial na mesma
proporção aumenta o grau de eficiência e gerenciamento do
mundo emocional e racional na existência.
O conceito de “vontade de potência” de Martin
Heidegger significa que a pessoa tome a decisão de ser a
própria potência, ou querer ser seu próprio querer, ou a mesma
coisa que querer o seu próprio ser. Significa ainda, querer ser
mais, vontade de auto-afirmar-se no sentido de incrementar,
enaltecer e fortalecer aquilo que a pessoa é essencialmente. A
vontade de potência é o ímpeto autocriativo comum a todos os
seres humanos, mas esta transcendência esta vontade auto-
reveladora é própria da essência da vida. A essência de tudo
que é vida é a vontade de potência, a vontade de ser183.
A psicanálise tenta compreender a manifestação
inconsciente da ansiedade quando o ser humano aparece com
algum potencial para solucionar na sua existência; mas esta
mesma possibilidade origina um medo, uma espécie de
insegurança, este tipo de ameaça ao ser na existência faz com
que inconscientemente busque uma tendência para sempre
negar a existência do seu potencial. Qualquer ser humano que
se lance em busca de um novo projeto de vida inevitalvemente
experimentará a ansiedade, porque toda potencialidade
impulsiona a nascer, a crescer e a desenvolver-se
emocionalmente.
Exercer a liberdade é caminhar ao lado da ansiedade,
ao gozar desta liberdade para exercer uma potencialidade,
precisa saber conviver e administrar a ansiedade, no entender
de Soren Kierkegaard; “a ansiedade é a realidade da liberdade
em estado de potencialidade anteriormente materializada nesta
183
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 117.

214
liberdade184”. A ansiedade normal é extremamente importante
e positiva para a pessoa desenvolver o seu potencial, pois na
mesma experiência da ansiedade renasce a esperança de que
surja uma nova potencialidade no ser, por isto mesmo a
presença da ansiedade não deixa que o ser desapareça na
existência, sendo um “ser-para-nada”. A ansiedade é um
recurso benéfico que o ser humano tem de aprender a lidar para
realizar-se através dos projetos utilizando o potencial. Mas
quando a pessoa renega e renúncia a realizá-los, escondendo o
potencial, ou seja, decide não utilizá-lo, acaba recaindo em
culpa e logo depois num processo de autopunição. Quando
estamos conscientes de que traímos a nós mesmos por não
utilizar nosso potencial, recaímos sempre nas queixas e culpa.
O grande psicanalista existêncialista Medard Boss,
afirma que o paciente era culpado por ter reprimido dentro de
si algumas potencialidades essenciais. Por isto mesmo tinha um
complexo de culpabilidade. E mais adiante diz: “esquecemos
de ser, por não colocar a altura de seu ser, por viver uma vida
inautêntica, por escondermos no anonimato conformista das
“pessoas” então de fato temos perdido seu ser e neste sentido
somos um “fracasso185”. Se tu fechas tuas potencialidades, te
torna culpado, contra tudo aquilo que te foi dado na tua origem,
e que esta no centro do teu ser.
No meu entender o “ser” significa “potentia”, a fonte
de potencialidade e criatividade. O ser é aquela força potencial
pela qual a vida toma sentido tornando-nos mais humano e
capaz de transcender a nossa própria inumanidade. Quando
empregamos este termo no sentido de realização do ser
humano, entendemos que se trata de alguém que se encontra
num processo de vir-a-ser, ou seja, um ser que potencialmente
pode ser alguém, para entendermos o ser humano tem de voltar
e olhar para onde está direcionada a sua intencionalidade,

184
May, Rollo y otros. Op cit. 1977, pág. 76.
185
Ibidem, pág. 77.

215
colocar nossa atenção para este movimento e principalmente no
que está se tornando.
Só podemos ampliar seu potencial psíquico quando
formos capazes de conhecer e de transformar a existência numa
potencialidade verdadeira. Não resta nenhuma dúvida que o
tempo mais importante para o ser humano é o futuro, mas o
futuro depende das nossas ações presentes e do valor que
colocamos em cada representação do passado. Podemos
colocar as seguintes questões como forma de reflexão sobre a
existência. Para onde estou caminhando? O que estou fazendo
com a minha vida? O que eu vou ser no futuro?
O grande dilema do ser humano na existência é que
nascemos dentro de uma condição determinada pelos nossos
instintos, ninguém nasce como um anjo, tampouco como um
diabo, e ninguém é uma espécie de Deus, não somos uma
planta e na verdade somos tudo isto, carregamos este legado
das “humanitas” no íntimo de cada genoma. Esta natureza
predispõe de muita potência, porém necessita-se das condições
culturais, educacionais, sociais, políticas, econômicas, para
poder fazer evoluir esta herança ancestral, e cada ser é lançado
ao mundo para poder exercitar o seu grau de responsabilidade e
liberdade diante de si mesmo, pois são dois potenciais
fundamentais no processo de condução da existência.
Existe uma ordem que deve ser respeitada, uma
lógica e a outra ontológica. Porque primeiro surge uma
gestação no processo da vida intra-uterina e depois se torna
homem, começa a exercer o poder do raciocínio, de produzir e
por último utiliza todo seu potencial em prol da produtividade
na existência. O ser humano é carregado desta vontade de
superar a si mesmo, isto pode ser evidenciado nos esportes e
competições, porque existe um desejo inconsciente de expandir
a sua força, a vida em si mesma é força, evolução,
transformação, potência e vontade de potência.

216
Uma das maiores virtudes citadas por Nietzsche na
formação do caráter humano é a honestidade, a coragem,
sobretudo a coragem ética, a generosidade, a gentileza, a
integridade intelectual, autodisciplina e o autodomínio186. Todo
ser humano que permanece alienado, não tem nenhum desejo
de se aperfeiçoar e tampouco de ajudar os outros a se tornarem-
se fortes e grandes. Não existe ganho existêncial sem
disciplina, dedicação, esforço, simplicidade, antes é preciso
uma auto-educação no sentido da própria pessoa exigir-se uma
melhor condição de vida e indiretamente motivar os outros
para partilhar desta experiência de vitória. Mas existem seres
fracos, impotentes que não são capazes de suportar as
exigências da existência o que é muito lamentável. Todo
grande homem deve ter compaixão e compreensão por aqueles
mais fracos187.
Temos de ter consciência de que podemos estar no
caminho do não-ser ou do ser-para-nada. Termos a atenção
concentrada para tudo àquilo que a existência oferece, mas que
ameaçam e podem destruir seu ser, nunca podemos desvirtuar a
nossa potencialidade para o conformismo, queixas,
pessimismo, doenças, porque este é lado trágico da existência,
todo resultado desastroso é a evidência explícita do estado de
inconsciência. A luta se manifesta de todas as formas para
combater a existência do não-ser, procurando dar mais
vitalidade e determinação para poder ser.
No entender de Sigmund Freud as forças da vida
estão em pé de guerra com as forças da morte, é sempre o
grande dilema, o ser contra o não ser, mas no final da
existência acaba sempre triunfando a força da morte. O
thanathos ou pulsão de morte precisa ser levado a sério, pois é
uma verdade ontológica, do mesmo modo que a agressividade,
ódio, violência e autodestruição do organismo humano. A

186
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 40.
187
Ibidem, pág. 43.

217
pulsão de vida e de morte esta presente em qualquer organismo
do ecossistema. Viver de morte e morrer de vida. Este
significado transcende-se diante da imortalidade do ser, pois na
sua essência está a renovação, a metamorforse, a continuidade,
o aprimoramento, a evolução do gênero humano.
É através destas potencialidades dos
microorganismos, das bactérias, dos órgãos, dos tecidos, da
célula, que a potência da vida se junta para dinamizar a
existência na sua extensa diversidade de espécies, esta
dinâmica está presente em todo o mundo vegetal, mineral,
animal, e humano e através deste processo de evolução que o
ser humano atualiza-se em potencial de criação e renovação.
Foi Sigmund Freud o primeiro gênio da humanidade que
conseguiu trazer a consciência para esta dimensão emocional, o
significado da interpretação, confrontação e esclarecimento,
destes símbolos e imagens, também chamado de
“inconsciente”, ou que preferimos chamá-lo hoje em dia de
“potencialidades inconscientes da experiência” a postura deste
grande cientista questionando o racionalismo voluntarista
vitoriano foi uma grande vitória para a humanidade, porque
devolveu a esperança de que o homem possa se compreender
as reminiscências antropológicas e biológicas da existência
humana.
Freud conseguiu que a humanidade desse uma
atenção para áreas ainda desconhecidas e latentes da
personalidade humana no mais profundo do ser, alertou que
seria preciso estudar estas forças irracionais, pulsões de morte,
as repressões das emoções que se tornaram inaceitáveis. Todas
estas potências das pulsões vitais acabaram sendo reprimidas e
esquecidas pelo racionalismo iluminista e positivista. Segundo
Nietzsche os seres humanos acabam se diferenciando uns dos
outros através do uso ou não do seu potencial.
A maioria da humanidade permanece num estado de
brutalidade e inconsciência não conseguindo colocar-se acima

218
de sua condição animal, o objetivo do homem na existência é
transcender o mundo da irracionalidade animal, ou seja, deve
potencializar o ser para sair desta condição de brutalidade e de
barbárie. O verdadeiro ser humano conseguiu expressar-se
através dos grandes santos, filósofos, artistas, foi com eles que
aprendemos que é possível chegar a este estado de graça e
beleza. A grande massa da humanidade permanece na luta pela
sobrevivência e muitos não conseguem ir além do estado
natural dos instintos básicos do animal. O inferno por assim
dizer é o estado natural do homem. Somente um esforço sobre
humano é que poderá ascender ao céu, deixar o mundo animal
e adquirir um valor e uma dignidade que não tem igual em toda
a natureza188.
O conceito de “vontade de poder” implica na auto-
realização de suas potencialidades; exigindo que a pessoa
vivencie intensamente em sua própria existência particular. A
vontade de poder em Nietzsche pode ser caracterizada como
uma categoria ontológica, quer dizer, um aspecto inseparável
do ser. Não significa agressividade, nem desejo de competição,
nem outra explicação por estilo, designa bem mais a pessoa
afirmando seus direitos, sua existência e suas possibilidades,
isto realça “o valor de ser de uma pessoa” como observa Paul
Tillich em seu estudo sobre este autor.
Sem dúvida este conceito de “vontade” muito citado
nas obras de Nietzsche refere-se a um traço básico de nossa
existência. Podemos verificar a todo o momento este potencial
na existência, sem isto não conseguiríamos nos tornar humano.
A semente se torna árvore independente de qualquer escolha,
mas o homem não pode ter a realização da vida se não desejar
os encontros. Animais e plantas, a natureza e o ser são apenas
um. No homem, porém, a natureza e o ser jamais se
confundem. Os valores humanos não são dados pela natureza,

188
Ibidem, pág. 34.

219
mas internalizado por nós através da cultura como uma meta a
ser alcançada189.
A vontade de potência segue tudo que é vivo, esta
perseguição está em todas as partes e em todos os caminhos,
tudo isto com a finalidade de conhecer a natureza. Este poder,
esta expansão, este desenvolvimento, esta evolução, esta
realização das potencialidades internas através da existência
vivida é que constitui a essência básica da dinâmica das
necessidades conscientes e inconscientes. Este impulso básico
dos organismos vivos está atrelado ao desejo de progressão, de
evolução, caso exista uma repressão deste desejo desencadeia-
se a neurose.
O objetivo da existência ou mesmo do organismo
biológico não se refere a diminuir a tensão libidinal, do
equilíbrio, da adaptação. O objetivo do organismo na sua
totalidade é viver intensamente a própria “potentia”. O
homem não deseja o prazer e sim o poder. De fato a felicidade
não significa ausência de dor, mas sim num forte “sentimento
de poder”. Também considera a saúde um subproduto do uso
do poder, que aqui significa concretamente a faculdade de
superar a doença e o sofrimento190.
O dilema do ser humano pode ser entendido nesta
metáfora do princípio de reconciliação de Dionísio e Apolo,
entre natureza e perdição, entre desperdício e finalidade, entre
o sujeito empírico e o verdadeiro sujeito que é a vontade de
potência. Só onde existe vida, existe vontade. A vontade de
potência não é simples vontade de viver. Há muitas coisas que
o ser humano aprecia que estão além da vida, mas nas suas
apreciações fala da vontade de potência.
Mesmo a criação de valores é essencialmente a
racionalização da vontade de potência. Talvez a vontade de
potência em nossa sociedade globalizada tenha mudado, mas o

189
May, Rollo. Op cit. 1988, pág. 85.
190
May, Rollo y otros. Op cit. 1977, pág. 52.

220
vulcão permanece ativo, e tudo aquilo que no passado não fazia
por medo de Deus agora faz por amor ao dinheiro, porque tem
a sensação de máxima amplitude de poder. Mesmo no auto-
sacrifício pode ter um sentimento de poder, pois a pessoa acaba
se identificando com uma potência maior, que pode ser um
deus, um homem, e através desta imagem acaba se glorificando
em sua força e poder191.
Uma formulação alternativa do núcleo do
existencialismo europeu consiste em dizer que trata-se do
dilema insuperável da existência humana, representada pela
separação entre as aspirações e limitações, entre aquilo que o
ser humano é, e o que gostaria de ser. Este dilema traz
novamente o problema da identidade pessoal. Uma pessoa é a
sua vez atualidade e potencialidade. E através deste conflito
básico da aceitação ou da repulsa com o que o paciente
raciocina diante de suas próprias potencialidades, todo ato
repressivo de qualquer potência implica numa perda de
consciência da liberdade, esta é sua dinâmica, assim o fato de
reprimir ou negar esta liberdade pressupõe sua possibilidade.
Desta forma podemos concluir que o determinismo psíquico é
um fenômeno secundário e trabalha sempre em uma área
limitada. O dilema principal é: Como a pessoa usa a sua
liberdade para expressar em primeiro lugar suas
potencialidades; a repressão é uma forma de utilizá-la192.
São inúmeras as situações que colocam a pensar sobre
a existência, conforme o tipo de decisões, sua repercussão
influenciará no sucesso ou fracasso de cada pensamento, no
entanto sabemos que estas mesmas idéias personificam-se
através dos resultados alcançados na existência. É quase
impossível dar conta de todas as amplitudes, principalmente
quando os sonhos se tornam fantasias distanciando-se cada vez
mais da realidade.

191
Giles, Thomas Ransom. Op cit. 1989, pág. 36.
192
May, Rollo y otros. Op cit. 1977, pág. 108.

221
Ou seja, os sonhos de prazer, satisfação, bem estar,
realização, precisa de certo senso de realidade, caso contrário
todo o potencial acaba se tornando frustração, as fantasias
levam para um mundo da irrealidade, buscar o prazer na
realidade é diferente de alcançá-lo na fantasia. A vida não é
uma espécie de jogo onde se tenta a sorte, toda tentativa de
buscar uma solução sem organização e planejamento acaba
sempre atraindo mais azar e ignorância. Sem consciência a
existência propicia a cada um o potencial que precisa para
realizar-se, mas exige ao mesmo tempo uma simplicidade para
poder aprender com aqueles que de algum modo alcançaram ou
utilizaram toda a sua potencialidade.
Quando a potencia é utilizada a favor da imaturidade,
da compulsão, do vício, da teimosia, acaba sempre em perda e
prejuízo, a lição da existência não está na repetição e sim na
diversidade, a sabedoria não se encontra na rigidez de caráter,
ao contrário, todo ser precisa saber perder e ganhar, retirar-se e
enfrentar uma determinada situação, mas independente de
qualquer ação todo ser precisa estar bem preparado para o bom
combate. Somos então um ser potencializado para vencer a
existência temos a nosso dispor toda a energia psíquica
necessária para enfrentar os dilemas na existência. Como a
existência apresenta muitas facetas, cabe a cada um fazer suas
escolhas, estando atento ao bom mestre, aquele que já
conseguiu fazer para si, enfim a experiência é única e
insubstituível no processo da evolução muito particular das
potencialidades de cada um, o esforço está lançado, nesta
grande corrida rumo a felicidade, temos o dever de não jogar
nossas forças em atitudes imaturas e infantis, o pior de todos os
males é sangrar e matar a sua própria potência de ser.

222
Reflexões finais

A existência como potência realizadora do ser


humano, talvez seja a experiência mais feliz na evolução de na
espécie humana, saber que temos condições de superar todos os
momentos mais difícieis de nossas vidas. Cada um com o seu
tempo, com sua capacidade de articulação, de sinceridade, de
busca, de entusiasmo, para poder concretizar todos os sonhos
de sua vida. Ao ser é dado o corpo e no corpo está a potência e
nela e por ela se sobressai aquela vontade de vencer na vida,
são muitos os obstáculos, decepções, frustrações, medos,
incompreensões, rejeições, mas o fortalecimento do potencial
da busca está justamente neste processo de superação.
Este livro foi uma tentativa de compreender melhor
os designeos da existência humana. A existência está cheia de
atrativos e armadilhas, são as cicatrizes das frustrações, das
perdas, das derrotas, que elevam o ser acima de sua própria
dignidade, porque é através destas provocações que o ser
enaltece a sua humanidade, a solidariedade, a cooperação, a
compaixão, a vontade de ser, a vontade de poder, tudo isto não
é para ser um a mais na existência, mais um ser com distinção,
com dignidade, com potencialidade, com originalidade, para
poder alcançar o status de poder ser chamado de “humano”,
para não sermos confundidos como uma besta arrogante, fria,
irracional e violenta, é este esforço que temos que fazer para
poder sair deste dilema.
Para colocar a prova todo potencial de força criativa,
dinamismo, inteligência, criatividade, oferecendo em forma de
gratidão a existência todo legado de realizações, na luta por
uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna para todos. O
ser tem o potencial de não-ser ou para-não-ser-nada, ou ao
contrário para-ser-tudo, esta é a questão principal que cada ser
humano vai ter que debater-se consigo mesmo para poder

223
decidir utilizar ou não o seu potencial. Cada um paga o próprio
preço que acha conveniente.
A psicanálise representa um ser a caminho de
realizar-se no potencial, o desejo imenso de ser capaz de amar
e deixar-se amar, aparece no íntimo deste ser a ressonância dos
dilemas biológicos, culturais, políticos, econômicos que
atravessam na vida de cada um. Esta energia impregnada de
vontade de ganhar na existência pode ser chamada de potência
para a realização, um ser que não se esconde atrás da pobreza,
da miséria, das injustiças, das reinvidicações, das desculpas,
mas assume por inteiro a existência fazendo dela um lugar de
conquista, de realização, porque descobriu que o centro de
solução esta dentro de si mesmo e naquelas potencialidades e
valores que foram capazes de conduzi-lo à saúde e felicidade,
este ser se autoriza a usufruir de todos os potenciais oferecidos
pela natureza e pelos seres humanos.
E quando o ser começa a desconfiar de suas próprias
verdades absolutas se dá início o processo de cura, muitas
vezes não é a existência em si a causa de seu sofrimento, a
angustia, ansiedade, solidão, desespero, depressão, mais a
causa, encontra-se muito próximo a sua maneira de pensar, as
crenças, ideologias, e medos inconscientes são fontes
potencializadoras da infelicidade.
Ao fazer esta descoberta o ser encaminha-se em
direção ao amor, ao afeto, a realização, a confiança em si
mesmo, percebe que a vaidade e o orgulho são mais uma das
traições da existência. No entanto consegue tirar de dentro de si
toda força necessária para poder fazer frente aos desafios e
incompreensões da existência, este potencial se atualiza a cada
momento da vida, em cada vitória, em cada empreendimento,
em cada realização. Minha intenção foi explicar que a
psicanálise é a expressão do potencial humano, de todas as
forças que conduzem para o bem de si mesmo e de sua
comunidade. Eis a essência do ser na existência.

224
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