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Biofilia do

Amor.

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P436b Pereira, Salézio Plácido
Biofilia do amor / Salézio Plácido Pereira. – 1. ed. – Santa Maria :
Ed. ITPOH, 2013. 290 p. ; cm.
ISBN 9788586991332
1. Psicanálise 2. Psicopatologia 3. Neuroses
4. Biofilia 5. Amor I. Título.
CDU 159.942.52
Ficha

Ficha catalográfica elaborada por Maristela Eckhardt CRB-10/737

Produção gráfica:
Jeferson Luis Zaremski

Revisão ortográfica: Andréa Alves Borgert

Impressão:
Inov9 – Gráfica e Editora – Santa Maria – RS

Editora: Instituto de Psicanálise Humanista


Rua dos Miosótis, 225 – Bairro Patronato
CEP: 90.8000-020 – Santa Maria – RS

Fone: (55) 3222.3238


www.itpoh.com.br
saleziop@gmail.com

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Sumário.

Introdução...................................................................05

1.0 -A biofilia do amor.....................................................09

2.0 -O significado da biofilia como potência de amor.....61

3.0 -Quando o amor renova a esperança de viver........120

4.0 -Mesmo na morte os pactos têm o poder de esconder


o medo de amar.......................................................153

5.0 - Quando o amor está acima de qualquer doença..192

6.0 -O amor precisa da verdade para curar as


doenças....................................................................234

7.0 - Os caminhos que abrem as portas do amor..........273

Bibliografia................................................................294

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Introdução.

Este livro procura descrever as situações


complexas de personagens que envolvem nesta trama do
amor, num primeiro momento procura demonstrar os
pactos inconscientes e segredos que atormentam e
sustentam a continuidade da neurose destrutiva. A
neurose precisa do segredo para perpetuar-se
eternamente na mente inconsciente, assim, procuro
mostrar as complexas relações dos seres humanos
envolvidos entorno destas emoções vivenciadas na
família. Trata-se apenas de uma reflexão sobre a
importância do amor na vida de qualquer ser humano, e
procuro demonstrar que o amor pode transformar-se em
ódio, são estas tramas da inveja, ciúme, ambição,
mentiras, traições, que podem esconder as simbioses e
desejos incestuosos por detrás das desgraças familiares.
Toda e qualquer neurose, psicose ou
esquizofrenia surge a partir das relações incestuosas, a
simbiose esconde o desejo e perpetua pela psicopatia as
mentiras e inverdades que destroem a beleza do amor.
Neste primeiro momento demonstro que o verdadeiro
amor pode causar inveja e ciúme, aqueles que são
ingênuos, não percebem a maldade dos adultos que não
sabem conviver e admitir a expressão do verdadeiro
amor. São estes pactos inconscientes que podem traduzir
sempre um compromisso, onde todos podem estar
seriamente contaminados pole desejo reprimido.

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Continuo a descrição das complexas redes de
relações dos seres humanos em relação às pessoas que
vivem para cumprir promessas e obrigações, infelizmente
estes pactos inconscientes trazem desgraça, porque
muitos acreditam que seu destino é salvaguardar a
memória daqueles que morreram e se esqueceram de
viver a própria vida. Neste capítulo demonstro que tudo
tem seu início num pacto, onde todos acabam sendo
vítimas dos compromissos inconscientes, infelizmente
aqueles que continuam vivos assumem um modo de vida,
um amor, um casamento, que não está sustentado no
amor, mas numa dívida, na obrigação e no cumprimento
de uma promessa.
Viver a biofilia do amor não é uma tarefa muito
fácil, sempre nos convida a refletir sobre as origens
destes sofrimentos que se tornam um problema para
aqueles que estão envolvidos nestas relações. O amor
precisa da saúde psíquica, dos pais, da família, dos
amigos, porque a debilidade e a fragilidade humana
começam sempre pelo ciúme e inveja, e como o amor é
dócil, sublime e maravilhoso, muitas pessoas não
suportam conviver com esta emoção, de nada adianta
lutar por um amor quando a simbiose obstrui a liberdade
de viver aquilo que todos têm por direito. O amor inicia
neste caminho de encontros e desencontros, onde tudo
parecia maravilhoso e sublime, inicia-se uma série de
acontecimentos inconscientes que trazem emoções
destrutivas.
O amor sempre traz consigo este laço de vontade
de viver, mesmo diante das forças culturais e sociais
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permanece inalterável o desejo insaciável de viver a
plenitude da biofilia. São experiências e acontecimentos
inesperados que fortalecem os vínculos com o amor
próprio, autoestima, assim cada ser humano espera a sua
oportunidade de viver com intensidade a experiência do
amor, e quando o amor aparece, não existe tempo e nem
espaço, são as comunicações inconscientes, os desejos
sinceros de viver a plenitude desta emoção, que cada
pessoa esforça-se ao máximo para fazê-lo acontecer em
sua vida.
Assim este livro retrata histórias, faz reflexões,
assina-la algumas interpretações, e leva o leitor a pensar
e refletir sobre esta importante emoção, e situa-lo num
plano de consciência. Ao escrever este livro pensei em
ajudar aqueles que estão fazendo esta leitura para que se
permitam viver o amor, e descobrir dentro de si o
potencial para amar. São experiências da existência, das
relações humanas, dos conflitos inconscientes, das
simbioses mal resolvidas, das emoções destrutivas, tudo
com a intenção de esclarecer e demonstrar as
verdadeiras causas que impedem um ser humano de
viver o amor.
A biofilia do amor passa pela experiência
verdadeira de humanização, ao aprender a amar perde o
medo de se deixar amar, uma sensibilidade para proteger
a vida, defendê-la em toda a sua expressão e cooperar
para que mais pessoas possam vivê-la com intensidade,
alegria e satisfação. A psicanálise humanista realiza esta
reflexão para alertar sobre os verdadeiros impedimentos
que causam tanta tristeza e desarmonia na sociedade.
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Um ser biófilo está repleto de amor, porque vive em toda
sua extensão, talvez seja isto, uma humanização
verdadeira precisa do cuidado, do carinho, do afeto, do
afago, da ternura, daqueles que vivem esta experiência
de amor na família.

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1.0 - A biofilia do amor.

Algumas frases chegam às memórias como


imagens de beleza, estética, livres para circular pelo
cérebro. Este é um dos mistérios das sinapses. Depois de
um dia de trabalho surgem algumas reflexões sobre como
as pessoas vivem a dimensão do amor. Quando o coração
reclama seus afetos, surgem nas memórias aquelas
recordações, e nestas imagens estão pessoas que
marcaram época na história de sua humanização.
Temos a grata satisfação de recordar de pessoas
que marcaram profundamente a vida com seus gestos de
amor. Existem muitas histórias para contar, boas e ruins,
cheias de aprendizados, e outras estão fechadas num
cofre para que ninguém descubra estes segredos. E
existem aqueles interessados em fazer a revelação,
porque quando a mente inconsciente coloca todo seu
esforço para fazer esta revelação, é porque necessita
elaborar, compreender, confrontar-se e interpretar os
ganhos e perdas que esta história influenciou em sua
vida.
Este esforço é motivado pelo desejo imenso de
conhecer-se, existem fatos, acontecimentos, sofrimentos,
sucessos, que precisam de uma escuta. Este encontro
entre o analista e seu paciente é marcado pela ansiedade,
tensão, mas ao fim muitos desistem, inventam desculpas
e fogem deste encontro, outros sabem utilizar a sua
coragem para enfrentar os seus medos. No início da
sessão de analise são elaboradas as regras éticas que vão
normatizar esta relação de confiança. Esta história jamais
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foi revelada a ninguém, esta condição é a segurança que
o paciente possui para estabelecer uma relação de
intimidade.
Mas todas estas exigências e apreensões
possuem seu sentido de resguardar a identidade destas
pessoas envolvidas nesta história de vida. A história de
vida é do paciente e quase sempre é do analista. Esta
humanidade está inscrita na escuta atenta sobre algumas
intervenções, que tem como objetivo esclarecer ao
paciente a compreensão de suas dificuldades. Às vezes
estas intervenções são difíceis de serem respondidas, as
resistências se utilizam das defesas para desviar a
atenção daquela questão difícil de responder.
Para decifrar este fenômeno do amor, precisa
aprender a escutar, esta escuta inclui afeto e
compreensão, mas esta atitude não exclui as
intervenções que procuram obstinadamente a verdade.
As atitudes defensivas fazem parte da proteção destes
segredos, em certos momentos do seu relato, começa a
chorar, em outros tem surtos de raiva e ódio, esta é a
valsa das emoções, surgem do nada e tomam um vulto de
uma tempestade. Embora saibamos da importância de
falar sobre as emoções, muitos se calam, e neste silêncio
têm medo de encontrar-se com cenas do seu passado.
O relato histórico da sua vida mostra a qualidade
flexível da energia psíquica que percorre nas sinapses,
são imagens que aparecem e somem como se fossem um
fantasma. Estas imagens começam a esboçar uma
realidade de fenômenos em palavras e emoções. Ao
escrever num diário, sofre a metanoia de uma
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elaboração, pelo menos o cérebro está consciente desta
sua busca, este seu desejo segue as orientações de suas
pulsões.
As escolhas dependem das decisões, e uma delas,
é tornar público algo que é privado, porque os ambientes
culturais, as famílias, as pessoas envolvidas, contam a sua
história. Esta é a sua interpretação pessoal sobre estes
acontecimentos, por isto mesmo, é uma situação muito
delicada, porque envolvem pessoas das suas relações.
Existe uma preocupação que ao divulgar os segredos
daquela “persona” possam começar a desatar as
ataduras daquela ferida que ainda não se curou.
Ninguém tem o direito de manchar o nome de
uma pessoa ou fazer um julgamento precipitado e
indecoroso em relação às memórias de seus
antepassados. Mas a existência exige esta reflexão, entre
os diversos tipos de compromissos, talvez o mais
importante seja realmente conhecer os segredos da
emoção chamada amor. O amor aparece nas telas do
cinema, nos artigos dos jornais, nas tragédias da morte,
nos contos de fadas, converteu-se num assunto
importante e fundamental para a felicidade humana.
Quando um paciente procura um analista para
falar sobre seus amores, precisa relatar uma história, e no
decorrer das análises começa a convencer-se de que o
amor exige conhecimento, qualidades, valores, ética, um
conjunto de atitudes que tornam possível a existência
desta emoção. Algumas histórias são muito convincentes,
outras deixam muitas dúvidas, às vezes é preciso fazer
esta viagem à infância, adolescência, juventude, adultez e
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velhice. Além de acompanhá-lo nos diversos ciclos de sua
maturidade, precisa entender as exigências naquelas
culturas, sociedades, que fizeram parte de sua história de
vida.
Este processo analítico de compreensão das
relações amorosas, precisa de vários encontros para
pensar e viajar nas memórias do passado, as
interpretações favorecem o surgimento de novas
sinapses, existe um mundo novo formando-se a partir de
novas reflexões. Esta coragem de viajar pelo tempo e
compreender seu passado são portas que se abrem para
entender-se e compreender-se enquanto narra a sua
história de vida.
Muitas vezes o paciente simplesmente fala
daquilo que conhece, e faz suas apreciações a partir dos
recursos que dispõe em suas memórias, e outras
estratégias incluem pessoas, cidades, acontecimentos,
costumes, crenças, medos, incertezas, aflorando como
um caminho para conhecer e aprofundar estes lugares
que foram significativos e importantes em sua vida. Uma
existência é feita de memórias, sinapses que resolveram
encurtar uma experiência traumática. O cérebro continua
seu percurso, mas nem sempre está consciente dos seus
desejos, existe negação, timidez, inibição, fugas, adições,
como estratégias para esconder os “segredos” do amor.
Os temores do amor, as dores do amor,
escondidos nas memórias sepultadas há muito tempo,
mas latentes e atuantes sem a sua mínima consciência. A
existência conta com a ajuda das surpresas, que podem
proporcionar momentos de rara beleza emocional, são
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encontradas nas memórias, as recordações podem trazer
ao consciente esta história de vida. O relato depende da
interpretação pessoal do ator desta vivência, mas isto
não significa que esteja exata, que seja perfeita.
As memórias são como livros escritos, diários que
fizeram anotações preciosas para serem pensadas e
transcritas num papel, esta elaboração retrata um lugar
num determinado tempo histórico e esta história inspira
poetas, músicos, pintores a tratar do tema do amor. Cada
palavra conserva na sua tentativa descritiva a
demonstração de um cenário, este detalhe pertence ao
mundo da natureza, das plantas, das flores, do encanto
enfeitiçado que cada imagem enaltece as memórias do
cérebro, esta fábrica de criatividade dos amantes que
fazem de tudo para encantar o seu parceiro de amor.
Esta inspiração nasce do desejo de refletir na
análise os efeitos do amor na vida de uma pessoa, estas
intermináveis queixas sobre o amor nos convencem
sobre a importância desta emoção, este tipo de relação
terapêutica enriquece analista e paciente. Porque nos
levam ao conhecimento íntimo dos encantos que o amor
conseguiu transformar em sua vida. Este é um grande
esforço que todos devem fazer para entender e
compreender os segredos e desvendar os seus mistérios.
São as fantasias, a imaginação, os sonhos que conseguem
agregar valor à existência, e o analista consegue conhecer
a intimidade do paciente, ao aproximar-se desta
humanidade, graças a este momento de confiança e ética
proporcionado na análise humanista.

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Assim o analista consegue aproximar-se deste
convivo e descobrir as incógnitas por um processo
exaustivo de interpretação, confrontação e
esclarecimento sobre uma emoção decisiva na existência.
Mas nem tudo é revelado, existem segredos que
denotam a vergonha de expor aquela vivência, o
superego esconde os pormenores e censura a verdade.
Conhecemos através destas histórias de amor as
conquistas, vitórias, sucessos, alegrias e também suas
tragédias.
Mesmo com toda a preparação emocional do
psicanalista humanista, ainda assim, não tem como
abarcar toda a vasta realidade dos pormenores que
passam despercebidos à percepção daquele que realiza a
escuta analítica. Existem fatos que foram recalcados, e
outros não foram possíveis de relatar porque sentiu
vergonha, medo. Talvez esta realidade emocional nunca
seja realmente conhecida, o único modo de desvendá-las
talvez seja pela interpretação simbólica dos conteúdos e
significados das imagens que aparecem em seus sonhos.
O psicanalista tem como seu guia a interpretação
destes símbolos, as imagens são como a via régia que
conduz a compreensão da estrutura de uma neurose.
Sem dúvida esta é uma das profissões mais exigentes,
porque o analista está investigando a origem e a essência
daquela dor. Para capturar a essência deste fenômeno
emocional é preciso experiência e intuição, porque as
emoções se parecem a algo muito comum e efêmero,
mas sua aparição pode desencadear uma série de
reações fisiológicas e neuroquímicas.
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O símbolo aparece nos seus disfarces para poder
trazer à consciência a sua mensagem, sua denúncia fala
de um “EU” que com o tempo tornou-se esclerosado,
porque sua liberdade de ser, de viver, de sorrir, ficou
enrijecida pelo tempo. Este potencial de liberdade ficou
embrutecido pelas mágoas e ressentimentos, seu corpo
está cansado de tanta desilusão, sente não ter as forças
que precisa para caminhar por aqueles lugares sombrios
e estranhos de sua mente inconsciente.
Sua coragem começa a desvanecer, conformado
com a situação, aceita sem nenhuma contestação a rotina
de sua vida diária; e assim muitas das perguntas ficam
sem respostas. Muitos destes segredos ainda estão
soterrados pelo seu completo desconhecimento, e a
lógica da compreensão final fica perdida por uma
geração, e ninguém tem o poder de forçar uma pessoa a
recuperar estas recordações. Ficamos apenas com nossas
hipóteses: E devemos respeitar a sua decisão de
abandonar, interromper por um tempo, ou jamais desistir
de conhecer-se.
Esta é a atitude mais coerente e ética, pois cada
paciente deve também aprender a fazer suas escolhas e
tomar decisões, e depois arcar com os ganhos e perdas
desta sua maneira de interpretar os seus segredos e
traumas. A única maneira de destruir toda a vasta
experiência emocional é reprimindo e recalcando
qualquer manifestação daquela emoção de amor. Porque
não temos como impor nossos desejos, as defesas
neuróticas são muito fortes e potentes, conseguem

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articular uma lógica para proteger a experiência do
medo.
No fundo de seu espírito não gostaria de revelar-
se, prefere arcar com as consequências de uma existência
que não foi analisada, e assim passa os dias ruminando e
tentando vender uma falsa imagem de si mesmo. A
preparação emocional de uma história de vida está
entrelaçada pelos diversos tipos de interpretações que
realizou sobre a sua existência. Este seu olhar de medo,
de pavor, de inibição, de silêncio, de solidão, de
isolamento, podem transformar e reduzir o seu caráter a
viver como um monge budista.
Infelizmente cada paciente interpreta a sua
existência de acordo com as suas experiências, por isto
mesmo, muito deles são cínicos, distantes, e afastam-se
de qualquer relação humana mais produtiva. O amor
exige a partilha, toda intimidade apesar dos seus limites
estende-se muito além do que pensamos. Ao refletirmos
sobre estas histórias de amor podemos chegar à
conclusão de que esta humanidade do paciente não é
muito diferente do analista.
Escrever sobre a biofilia do amor, não é uma
tarefa muito fácil, ainda mais num mundo cada vez mais
insensível e traiçoeiro nas relações humanas. Onde os
valores éticos não são mais importantes, mas os bens
materiais e a riqueza tornaram-se o valor maior numa
sociedade consumista e capitalista. Muitas pessoas
procuram vender a imagem de sucesso, e para alcançar
estes objetivos tornam-se pessoas frias, calculistas e
distantes. Não existe mais paixão e tolerância pelos
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equívocos, todos estão prontos para denunciar, cobrar,
exigir e perseguir aqueles que cometerem algum tipo de
atitude disfuncional.
Muitos conseguiram matar a grande paixão pelo
amor, às pessoas, à existência, ao trabalho, ao estudo,
aos filhos, possuem apenas algum tipo de sentimento,
existe uma dificuldade em expressar e viver as emoções
profundas e genuínas. Quem se conhece não projeta suas
frustrações, torna-se mais sensível, esta delicadeza é
indispensável para fazer a escuta da biofilia, este amor
especial pela existência inclui a sua pessoa. Um analista
humanista precisa desenvolver a sensibilidade antes de
começar a analisar qualquer paciente.
Espero que este livro possa ajudá-lo a voltar a
acreditar no amor, ou talvez amplie ainda mais suas
dúvidas das quais já tinha, mas desejo que esta reflexão
possa elucidar as suas crenças sobre esta importante
emoção. O amor à vida inclui a experiência verdadeira de
amor por si mesmo, e talvez possa reacender a chama
dos afetos para continuar como muitos amantes a não
abrir mão daquilo que é mais fundamental na existência,
viver uma grande história de amor. Quem sabe ainda
exista espaço no seu coração para que este amor volte a
brotar, e de suas raízes experimentar a doçura dos raios
do sol que alimenta a vida, e nas suas veias sentir a
alegria de que existe um motivo maior para continuar
existindo.
É um mistério a mente dos amantes, quando a
emoção assegura a tarefa de ajudá-lo a encontrar um
sentido na existência, mesmo que não saiba, toda esta
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experiência vai desenvolver-se. Por este motivo as
emoções revelam sua vocação para amar a vida. Mesmo
que para viver este grande amor tenha que enfrentar
muitas dificuldades. Talvez precise de meses, anos,
semanas, um dia, não importa o tempo, interessa saber
que esta emoção é capaz de realizar os seus sonhos.
Sempre encontramos pessoas que gostam e
apreciam a vocação para o amor, e para viver esta
emoção é preciso horas de dedicação, estudo e
conhecimento de si mesmo, aos poucos aprender a
conquistar o grande amor. É preciso conhecimento,
interesse, curiosidade, para aprender sobre o amor. As
lembranças desta experiência retrata um colorido original
que encanta os olhos e impressiona os sentidos, então o
ser humano utiliza este encanto para tornar mais sublime
a experiência de amor.
Depois de algum tempo entende que o valor
maior da existência é viver o amor, esta emoção pode ser
vivida de diversas formas e em muitos lugares, pode
amar uma criança, uma família, amigos, e todos estes
amores reforçam sua vontade enorme de amar a vida. A
biofilia do amor é esta energia pulsional que conduz a
pessoa a uma experiência verdadeira de felicidade. Se o
amor é saudável sempre encontra motivos para continuar
amando. O amor é uma conquista, não se compra com
bens materiais, não se vende, não é uma mera
mercadoria, uma coisa para vender fotos, um beijo para
fazer manchetes.
Precisa descobrir que esta fonte do amor
rejuvenesce o espírito, aprende a conquistar com muito
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esforço, esta experiência não se encontra em qualquer
lugar, aparece quando menos se espera, não tem dia e
hora para acontecer. Pode gostar, como se gosta de uma
laranja, de um carro, de uma casa, de uma profissão,
amar é muito mais que gostar, é saber cuidar deste amor,
é comprometer-se com a evolução desta emoção.
Quem pretende viver a dimensão do amor não
pode deixar-se conduzir pelo seu estado de inconsciência,
porque as neuroses podem determinar um caminho sem
volta, quem precisa fazer o roteiro desta viagem é o
próprio viajante, estar consciente deste desejo e de todas
as implicações que esta experiência propicia. Quem está
interessado em viver o amor deve assumir este
compromisso de conhecer-se e conhecer a profundeza
desta emoção.
Todos tiveram sua experiência de amor no
passado, estas recordações aparecem na consciência
clamando por uma explicação, ao visitar este mundo de
imagens se compromete em encontrar um significado
para cada uma delas em particular. É preciso
competência emocional para sair deste ciclo repetitivo de
sofrimento, saber usar esta experiência para se tornar um
bom amante e para chegar a este estado é preciso
humildade, sinceridade, honestidade e muito
conhecimento de si mesmo.
Os amores são maravilhosos, os relacionamentos
esporádicos e sem compromisso, sempre terminam em
frustração. A fuga do amor. Para entrar na vida de outra
pessoa deve conhecer as qualidades éticas, os interesses,
e sua história de vida. Os amores estão sempre cheios de
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promessas que acabam não acontecendo, falam daquilo
que não podem assumir, a incapacidade para ser
autentico decepciona e distancia os amantes dos seus
amores. Neste caso, o amor não encontrou um lugar
seguro para permanecer, e quando toma uma decisão já
é tarde demais. O seu amor encontrou outro amor.
Ninguém vive eternamente de um amor, inclusive
pode sobreviver à perda deste amor, mas isto não
interessa, é preciso continuar vivendo e esperar
acontecer o encontro com este grande amor. Às vezes a
exatidão, a perfeição, as exigências descabidas, a atração
pelo domínio e poder pode contribuir para afastá-lo do
amor, as oportunidades da existência sempre colaboram
com estes encontros de pessoas interessadas em amar. A
superficialidade, a mentira, o teatro, a máscara, torna as
relações superficiais, nesta condição a energia do amor
acaba sendo sufocada e morre aos poucos. Mata de tédio
e desgosto o seu grande amor.
Muitas pessoas vivem o amor romântico dos
filmes, romances dos seus ídolos, não tem consciência
que estão num caminho equivocado, porque a fantasia
não consegue absorver o impacto da desumanidade do
ser humano. Como conviver com o lado de suas sombras,
como combater estes fantasmas. No começo a fantasia
incrementa a sua paixão, apaixonado não consegue
enxergar as limitações do amor, seus olhos enxergam as
qualidades. Não existe espaço para pensar sobre as
dificuldades, entorpecido pela paixão desconhecem as
neuroses e dificuldades do seu grande amor.

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Faltou maturidade porque depois de um tempo
de convivência inicia-se o processo de separação, o
divorcio é inevitável. Como explicar este acontecimento,
no início de sua relação só existia espaço para elogios e
palavras de apoio e incentivo, passado um tempo
acontece a distância, a indiferença toma conta da
relação, estão juntos, mas preferem a distância dos seus
corpos. De onde surgem estas violências, agressões,
palavras que ferem e no lugar do amor, existe ódio e
vingança?
Como que tudo isto foi acontecer? Como pode
este grande amor sofrer deste vírus da morte? Neste caso
é preciso fazer o luto, enterrar os seus desafetos, e
começar a refletir sobre o significado desta perda. Precisa
conhecer os desejos reprimidos, enlaces de um superego
castrador, e quando termina a relação sempre fica muito
pouco para apreciar ou valorizar. Será que sempre
esperamos muito deste amor? O que torna as pessoas
esperançosas por descobrir as incógnitas escondidas nas
memórias de um cérebro?
No amor se espera pouco e percebe-se que
naquela relação recebeu muito mais que imaginava, são
pessoas desconfiadas da existência do amor, a
banalização, o distanciamento, as críticas, a negação
desta emoção surge uma formação reativa. Desprezam e
afastam-se daquilo que mais precisam e necessitam,
descobrem que passaram uma vida para adquirir bens
materiais, pagar contas, e sair nas páginas dos jornais,
estavam crentes de que eram pessoas importantes, a

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existência passou depressa demais e não houve tempo
para pensar no amor.
O amor ainda está preso aos seus medos, paga o
preço da sua inibição, e assim termina uma vida, todas
estas emoções e experiências estão guardadas num
segredo que somente a pessoa conhece. As memórias
são os guardiões desta história de vida, quem poderia
descobrir os códigos para abrir a caixa preta que esconde
a verdade de uma vida que conta uma história sobre o
amor. O cérebro dialoga com a psique, sobre como
resolver a perda, como livrar-se deste fardo do passado,
como não negar uma experiência, para no final da vida
conviver com as feridas emocionais.
Talvez esta perda ensine a valorizar o amor, pois
cada um vive como pode a qualidade e a intensidade dos
sentimentos e emoções, depende muito de como cada
um prioriza o amor em suas vidas. Quem investe no amor
colhe os frutos de sua dedicação, aprende que esta é a
única experiência verdadeira que vale a pena lutar, nem
todas as conquistas, sucessos, dinheiro, posses, títulos,
podem preencher este vazio da falta de amor. O amor
precisa de cuidado constante, saber que o caminho
apenas começou, e que existe uma estrada para conduzir
ao paraíso da felicidade.
A existência também apronta; aprende a conviver
com as boas e más notícias, o inconsciente é este registro
de recordações que acompanham pelo resto de sua vida,
não interessa o lugar, estado ou país, elas estarão sempre
bem guardadas para num momento oportuno aparecer e
pedir explicações sobre aquela experiência. Todos
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carregam sobre os seus ombros este passado, os olhos do
cérebro colhem todas as imagens boas e ruins, tristes e
alegres, e todas pertencem à profundidade do
inconsciente.
Muitas histórias de amor não têm um final feliz,
vemos ódio, homicídios, os semblantes mostram o medo
e angústia, os corações estão feridos, a solidão, a tristeza
tornaram-se seus cúmplices, agora sobraram apenas as
emoções de ódio e raiva. Alguns estão desesperados e
pedem ajuda a deus, aos amigos, não sabem o que fazer
para sobreviver a esta perda. Alguns possuem a
sensibilidade e aprenderam com a lição, estão
conscientes de que não existe nenhuma glória ao sair
vitorioso nestes embates jurídicos.
A necessidade de amor clama e exige uma
resposta, não pode ser mais uma aventura esporádica,
precisa de um lugar para descansar. Estas conquistas que
têm como objetivo satisfazer as necessidades fisiológicas
do sexo não conseguem preencher a lacuna da falta de
cumplicidade e intimidade. Porque a idade avança, o
tempo passa como um passe de mágica, não pode
esperar muito tempo para explorar e descobrir a essência
desta energia do amor. Este aprendizado do amor inicia
na infância, o primeiro amor inicia na relação com os pais,
irmãos e parentes da família e depois se estende para os
amigos da escola, e assim por diante.
O amor é este processo itinerante de encontrar-
se com o seu lugar na existência, com certeza passa por
diversas experiências de afeto, e deixa suas marcas na
vida de muitas pessoas. A imaginação devolve em alegria
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aquelas cenas de realização, porque às vezes precisa abrir
as portas das memórias para deliciar-se naquelas
imagens que viabilizam uma vivência de extremo prazer e
felicidade. Naquele instante sente-se invadido por estas
fantasias, fecha seus olhos e navega no mar de
tranquilidade, entrega-se às energias representadas
naquelas imagens.
Alguns lugares ficaram marcados para sempre,
esta vivência tornou-se imortal, não conseguimos apagar,
ao contrário, de vez em quando sentem saudade e
entram em contato com estas recordações. Isto explica
porque estas pessoas tornaram-se especiais, bonitas.
Estas cenas são a motivação para fazer frente às
decepções, esta ancora realiza o impossível e
proporciona segurança, certeza de que vale a pena amar.
Em cada relação de amor, aparece no rosto algo de
temor, sempre se antecipa e vive a ansiedade que algo
pode acontecer, precisa estar preparado para viver aquilo
que a existência reservou para a sua pessoa.
Às vezes as exigências e preocupações são
imensas que a pessoa prefere colocar sua atenção numa
área específica de sua vida, ao refletir sobre a sua
maneira de amar, pode devolver-lhe a condição de
montar este quebra cabeças, e abrir-se para novas
possibilidades desta experiência. Superar os medos,
decepções, perdas, para descobrir nas profundezas de
seu inconsciente o método mais original e eficaz para
lidar com o mundo das emoções, esta é uma decisão
muito sabia.

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Quando a consciência volta-se para o seu mundo
interior, abre as portas daqueles cenários, onde era o
autor principal desta obra teatral, agora precisa deixar
sua intuição encontrar o caminho seguro desta sua busca.
A consciência interage com os cenários e atores e decide
dialogar com aqueles que ainda não conhece. Está
decidido a encontrar as respostas para as suas questões,
e precisa estabelecer este diálogo, porque esta
conversação pode indicar-lhe o caminho mais curto e
com menos sofrimento para encontrar-se com o seu
amor.
Este amor por si mesmo é o início do novo
caminho, agora está à procura das incógnitas deste seu
mundo emocional. Este resultado se deve ao seu desejo
de dialogar com as emoções, ao revisar sua vida,
compreende os pontos frágeis, descobre a debilidade de
seu caráter, e esclarece para si mesmo o seu potencial, a
sua força de vontade, a sua coragem, a dedicação deste
amor pela vida. Agora pode observar com conhecimento
para aquelas cenas e descrever o seu significado.
Quem procura uma solução, sempre encontra
respostas para o seu dilema, mesmo que o cansaço, a
dúvida, a solidão diminuam a intensidade de seu desejo,
quando a mente está cansada de tanto pensar, esgotada,
precisa descanso, de tranquilidade e paz, para recompor-
se e armazenar novas energias e seguir adiante na
jornada de conhecimento de si mesmo. Uma pessoa não
precisa de bens materiais, de poder, de status, mas uma
qualidade é indiscutível, o desejo sincero de conhecer-se

25
e procurar nas profundezas da sua psique as respostas
para as suas angustias.
Ao encontrar um lugar para dar repouso ao seu
espírito, descobre que o amor não é algo desconhecido,
sua única regra era paciência e dominar sua atitude
impulsiva. Nas suas reflexões encontrou algumas
respostas que serviram para a sua vida, a primeira é que
o amor tem suas próprias regras que são capazes de
conduzi-lo ao estado de felicidade. Segundo é preciso
prudência e sabedoria para desfrutar dos momentos de
incerteza. Terceira coisa é deixar que as emoções
seguirem o curso normal de seu caminho, entender a
mensagem nas entrelinhas dos acontecimentos.
Existe algo de espetacular numa nova conquista,
porque surge um desejo de fazer o melhor para encantar
o olhar daquele que pretende conquistar, alguém para
viver uma história de amor. O desejo é uma
demonstração da força que a pulsão de vida exerce sobre
os sentidos, os olhos estão focados no seu objetivo de
conquista, enquanto isto a fisiologia encarrega-se de
propagar pelo organismo os hormônios, de fato aquela
sensação de bem estar e felicidade começa a encantar o
corpo.
O medo do vínculo ainda pertence à esfera do
superego, que utiliza do passado com a finalidade de
fazer valer a sua interpretação daquela experiência
específica, e ao quando se sente atraído para viver a
dimensão do amor, surge a emoção do medo, uma
inibição que cala a voz interna, impede a pessoa de
decidir, seus pensamentos tomam outro rumo, esvazia-se
26
em conversas frívolas e sem sentido para preencher
aquele espaço do desejo. O desejo da escopofilia de
Freud passa pelos sentidos, o erótico se antecipa e
nomeia o sentido daquele olhar.
Um olhar de tristeza misturado com ousadia,
porque o amor precisa do prazer para aproximá-los, a
união, a intimidade, pertence a este afeto de proteção,
de segurança, de cuidado, de felicidade, pelo menos
sente que existe esta condição, seu olhar está sendo
direcionado naquele sentido, encontrar-se com o amor
verdadeiro é o mesmo que descobrir um novo caminho
para a sua realização. A saúde do corpo possui suas raízes
neste bem estar, na sensação de prazer, de alegria e
felicidade, porém, este estado emocional é uma
conquista gradativa que cada ser humano deve encontrar
na existência.
A biofilia é a energia psíquica que se antecipa à
razão e motiva as pessoas a viver a dimensão de “Eros”
uma sensação de imenso prazer que pode levá-lo a um
conflito enorme, superar os seus medos ou transgredir as
regras da sociedade. O amor de “Ágape” se volta mais
para o amor fraternal, distancia-se do erótico, muito
diferente do amor de filiação maternal ou paternal, a
descoberta do amor erótico não acontece muito distante
do fraternal, ambos os amores estão presentes no olhar
daquele que ama.
O grande problema é quando surge o conflito
neurótico, enquanto a pulsão de vida vive e anuncia a
vivência deste amor, o superego se antecipa e desenvolve
culpa, traz à consciência seu estado de vida, e prenuncia
27
a possível punição pela sua decisão equivocada.
Enquanto o corpo pede o prazer, a razão impede a sua
realização, mas nem sempre o conflito neurótico
consegue desfazer ou atrapalhar uma experiência
verdadeira de amor.
Às vezes este olhar ingênuo desconhece as
verdadeiras razões do poder de atuação do seu superego,
este encontro é inevitável, o conflito entre o prazer
erótico e os limites impostos pela educação e cultura.
Todos estão inseridos neste contexto social, ninguém
pode fugir da pressão, da vigilância e controle de uma
moral que está disposta a condenar e julgar aqueles que
ousam transgredir aquelas regras. Entre o amor e a
pessoa existe uma parede que impede aos olhos
perceber com profundidade as verdadeiras razões de
ambos estarem sendo afastados da vivência desta
emoção.
A ciência psicanalítica está a procura das
evidências para entender a complexidade deste
fenômeno do amor, as motivações são sempre
inconscientes, porque se as pessoas tivessem consciência
sobre as suas atitudes e escolhas não existiria dor e
sofrimento. Porque o amor tem algo de mágico e
maravilhoso, consegue unir os pensamentos e
sentimentos num único objetivo, aprender a sobreviver e
viver através das experiências que estão sendo
compartilhadas.
A natureza resolveu deleitar-se sobre as emoções
femininas e enfeitiçar com a sua beleza os olhos do
espírito masculino, esta atratividade é puramente
28
inconsciente, um desejo que nasce da esperança de
partilha, de aprender juntos um com o outro, apesar de
sentirem e emocionar-se de maneira diferente, de
interpretar a realidade existencial de vários ângulos,
ainda assim, é possível para estas duas pessoas
aprenderem a respeitar as suas diferenças e aceitar as
limitações. Este é o aprendizado de dois cérebros
dispostos a viver a experiência de amor, de sexo, de
intimidade, de trocas, enfim, conviver com o outro é
também uma oportunidade para crescer e aprender a ser
melhor como pessoa.
São dois mundos de apreciações e
interpretações que diferem em vários temas e
aproximam-se em outros, os corpos estão interessados
em resolver a sua carência de afeto, ninguém vive bem
com a solidão, isolado e dialogando com o seu
narcisismo. O egoísmo procura fechar as portas para
qualquer tipo de experiência de amor, sua proteção
contra a intimidade possui suas raízes nas frustações e no
desencanto de suas experiências. Confunde-se o amor
das pessoas como um castigo que não conseguiu
preencher as lacunas de suas carências.
Cada ser humano expressa sua visão de mundo,
os únicos recursos disponíveis para relacionar-se com os
outros são as experiências de amor que viveu na sua
infância, mas isto não significa o fim de tudo, mesmo
aqueles que tiveram uma falta deste amor podem na
juventude, ou mesmo na idade adulta aprender a amar.
Existe tempo para tudo, para aprender a amar precisa da
coragem, lançar-se num mundo desconhecido e aos
29
poucos montar este grande quebra cabeça das relações
humanas e viver a dimensão do amor. O lado
interessante da existência é este estado de inconsciência
que impele as pessoas a percorrer um caminho que
nunca foi consciente, talvez esta ingenuidade seja
necessária para aproximar-se do amor.
Este estado de consciência não acontece distante
de uma “práxis”, os hormônios, a fisiologia dos sistemas,
estão perceptivos a esta realidade, o corpo se movimenta
pela existência a procura deste elo perdido, consciente
de suas necessidades pode simplesmente se recusar a
escutá-las, pode inclusive reprimir, racionalizar, negar a
necessidade de amor em sua vida. Mas este movimento
racional em explicar a realidade de suas emoções pela
razão não resolve o dilema de seus desejos. Ambos estão
fisgados por este desejo de amar, isto significa viver com
a máxima intensidade o prazer da segurança emocional.
Às vezes qualquer tipo de relação humana produz
alegria, satisfação, realização, outros infelicidade,
distorções e falsas interpretações da rejeição. Mas
enquanto persistir este desejo de ser feliz existe a
possibilidade de viver a alegria, a descontração, a
felicidade. Muitos insistem em dizer que a felicidade, o
amor, a compreensão, a realização dos afetos não
existem, e que tudo isto não passa de divagação ou
fantasia. Cada pessoa interpreta a existência a partir de
sua experiência ou das ideologias, doutrinas que estão
influenciando sua falsa percepção da realidade.
Mas o amor precisa de seus adornos para se
completar, estou falando da confiança, sinceridade, da
30
honestidade, valores éticos essenciais para dar
consistência à formação do caráter de uma pessoa.
Quando existem estes valores encarnados no caráter, a
disposição para que permaneça e perdure por toda uma
existência. O amor de biofilia retrata este grande desafio
que é suportar e viver com toda intensidade esta
experiência, muito das desavenças, conflitos,
desconfianças, traições, possuem suas raízes na vivência
desta ética da vida.
Existe um núcleo emocional onde reside uma
experiência que pode nortear a percepção daquela
pessoa em relação a um tipo de emoção específica, esta
interpretação nasceu de uma falsa percepção que
generalizou e defende como tese para não resolver seus
medos e inibições. No final de cada história percebe-se
um medo muito grande em viver o amor, os fantasmas
do passado são como sombras que perseguem sem pena
e nem piedade, o único modo de exorcizar estes medos e
inibições é encontrar a outra metade da sua “anima”,
porque ao completar-se se sente digno de amar a
existência.
Cada ser humano encontra-se na existência com
uma única finalidade, a de realizar os seus sonhos e mais
especificamente o sonho de viver uma grande
experiência de amor, e cada um mostra suas qualidades e
habilidades para encantar e conquistar o seu amor. Mas o
amor precisa ser admirado, cortejado e respeitado, talvez
nem tudo seja perfeito, porque a perfeição aponta para o
final, a imperfeição abre inúmeras possibilidades de
completar o vazio na existência. Este espaço de
31
desumanidade abre as portas do sofrimento que aos
poucos acaba sendo transcrito em forma de sintomas em
cada órgão do corpo.
Às vezes o único princípio da razão não consegue
explicar os segredos e experiências que se tornaram uma
cicatriz no seu caráter. É interessante observar, porque
ao lado do amor esta a alegria, o bem estar, a felicidade,
a produtividade e a realização, talvez por isto que muitos
insistem em viver esta emoção, porque não consegue
desfruta-la sozinha. Existe uma alegria que pode ser
representada, o disfarce do sorriso fabricado, esta
inconsistência da falta de congruência entre o viver e o
falar, este é o grande paradoxo das relações humanas,
saber decifrar este grande enigma da falsidade, da
insensatez e da ingratidão.
Ainda assim ninguém possui o poder de enxergar
como se tivesse óculos com raios ultravioletas para
perceber o que se passa no íntimo de cada fantasia.
Talvez possamos nos surpreender e nos darmos conta de
que devemos estar preparados para lidar com as
limitações humanas, com as perdas, com as mortes, com
os abandonos, com as traições, com os subornos, assim
poderia estar preparado para lidar com o inesperado.
Esta prepotência do ser humano em garantir um estado
de onisciência de saber e conhecer tudo e a todos, é um
grande engano sobre aqueles que convivem ao seu lado.
As dores emocionais são todas as formas de
abuso, porque a violência se utiliza da brutalidade, da
irracionalidade e pratica a desumanidade, e muitas vezes
as piadas são a única forma que encontra de ironizar ou
32
exorcizar suas dores. São as histórias que encontram os
fatos, é uma maneira disfarçada de fazer uma catarse
sobre algum tema proibido ou de difícil comunicação. As
alegrias, o sorriso, fazem parte deste estado de saúde, de
qualquer forma estas histórias sempre têm a ver com a
existência, são temas cruciais que retratam algum
aspecto de seu caráter. A existência plena de sentido está
enraizada neste estado de prazer, de realização de
satisfação naquilo que trabalha.
O amor ao trabalho, aos amigos, a um clube é
diferente do amor a uma pessoa, mas para que esta
emoção apareça na vida é necessário um estado de
animo, de força de vontade, de que sinta prazer em viver,
trabalhar, amar. As obsessões são desejos priorizados e
vivenciados sem importar-se com outras formas de
prazer, esta pulsão surge na consciência e toma conta,
seus pensamentos e sentimentos estão enfeitiçados por
este estado de plena satisfação, não deixa de ser uma
sublimação bem sucedida, estar envolto nesta atmosfera
de descoberta, da novidade, de provocar as sensações é o
que faz da vida uma relação com o inesperado.
Cada um fala e vive de acordo com seus prazeres,
e muitos deles podem afirmar-se como autoestima,
autovalorização de talentos e capacidades nutridos pelo
desejo de satisfação. Aos poucos cada um revela um
pouco de seu caráter, desejos, prazeres, profissões,
amizades que podem ser livre e espontâneo, extrovertido
ou inibido, fechado e introvertido. A normose petrifica-se
em cima do antigo, vive do passado e defende suas
tradições, perdeu a ligação com a espontaneidade. A
33
própria inibição pode ser a causa de sua criatividade,
cada pessoa encontra-se consigo mesma nestes embates
emocionais.
O amor precisa de um lugar para complementar-
se com a espontaneidade da alegria, da realização e
satisfação, mas em algum lugar da sua psique há este
desejo de superar-se, buscar o melhor e procurar nas
entrelinhas da existência um aprendizado que ensine a
tornar-se um ser especial, os desafios aparecem a cada
dia, são os questionamentos que se baseiam na vivência
de emoções. O corpo humano insere-se neste contexto
de relações culturais para estar aberto à novidade, e
jamais fugir do confronto com as suas inibições, tudo o
que acontece está entrelaçado na malha fina das relações
afetivas e amorosas.
Ao menos todos os seres humanos deveriam
permitir-se fazer aquilo que gostam, algo que produz
prazer, ao reprimir este potencial de alegria, de
espontaneidade, de criatividade, desencadeia um estado
de tristeza, com o tempo pode tornar-se uma depressão.
Todos estão envolvidos nesta atmosfera e procuram
desesperadamente um ambiente onde o oxigênio não
esteja poluído, o lugar que cada um ocupa na existência
depende do significado e valor que cada um escolhe para
priorizar na sua vida. São estas escolhas que contribuem
para realçar determinado potencial do seu caráter, e
sempre observamos que os investimentos nas pessoas
fortalecem os vínculos do amor.
O único equívoco que alguém pode cometer é
utilizar-se do amor para dizer que renunciou aos seus
34
sonhos por causa dos filhos, esposo ou da família. Porque
depois o tempo cobra a ausência de prazer, em seu lugar
surge a depressão, observa e convive com a alegria e
disposição daqueles que gerou e vive na angustia de seu
estado de insatisfação. A falta de realização profissional
pode desenvolver um estado deprimente, porque fazer o
que não gosta e justificar que esta sua infelicidade se
deve ao tempo e investimento que realizou para tornar a
vida dos seus filhos mais felizes é um equivoco.
Geralmente quando um paciente se aproxima de
alguma área que precisa ser aprofundada resolve
racionalizar ou jogar conversa fora, para não enfrentar-se
com aquela parte de sua vida mal resolvida. Porque todos
sentem a necessidade de falar de si mesmo, quando
descreve sua história de vida escuta suas incoerências e
descrenças pessoais, este lugar das “humanitas” encontra
sentido, neste diálogo interativo entre pessoas que vivem
este amor afetivo. Todos precisam deste espaço para
falar de si mesmo, de provocar o desejo de conhecer as
suas qualidades e valores, e neste enlace de intimidade
consegue viver a ternura, amizade, consideração e
respeito pelo espaço desta escuta.
Uma das emoções que atrapalham e impedem a
vivência do amor é o complexo de inferioridade, a baixa
autoestima, o descredito em si mesmo. O que prevalece
é a insegurança. Esta cultura da neurose fortalece o
vínculo da insignificância, pois cada emoção vivida pode
ajudar a viver num ambiente de produtividade, todos
podem respirar um ar de liberdade e espontaneidade. E
de todas estas ações produtivas renasce um novo ser,
35
capaz de interagir e coexistir com as pulsões de vida e
morte, e nesta luta sobrevive aquele que foi capaz de
aprender a desenvolver o seu potencial humano no que
diz respeito ao cognitivo e emocional.
Cada pessoa está imersa nesta cultura imposta
pela educação, às vezes esta moral pode desencadear
bloqueios, compulsões e adições, porque cada pessoa
aprende a interpretar a sua realidade emocional a partir
de sua experiência emocional, o paraíso precisa desta
liberdade de ser, de emocionar-se e viver com
intensidade cada emoção. Nem sempre as pessoas têm
tudo o que querem, levamos em consideração que o ser
humano é um ser insatisfeito por natureza, e
indiretamente todos precisam desenvolver uma
criatividade para tornar o ambiente agradável e
produtivo.
Cada tradição traz consigo seus costumes,
canções, literatura, religiosidade, este arcabouço de
vivências prospera para um encontro produtivo. A
alienação nasce das chantagens, de fazer-se de vítima
para ganhar afeto, elogio, credibilidade. Não entende que
a vida exige conhecimento, produtividade, investimento
em inteligência, estão acostumados a uma existência sem
esforço e dedicação. Estão sempre se fazendo de vítima,
de coitado, de triste, como uma forma de receber
atenção, carinho e amor.
Precisa de permissão do superego para vivenciar
estes momentos de descontração, de afetividade, porque
de fato existe uma preocupação obsessiva com a imagem
social, a sensação de medo e culpa toma conta do corpo,
36
as mãos ficam trêmulas, a musculatura fica tensa, esta
fisiologia segue um contexto de transgressão. Depois de
algum tempo a verdade prevalece, e assim o ser humano
torna-se íntegro, verdadeiro, sincero, com a sua
representação daquilo que de fato pertence à condição
humana.
Ninguém deixa de ser menos pessoa por viver um
amor as escondidas, ninguém é bom ou mau por viver um
amor proibido, às vezes as pessoas são fracas
moralmente, mentirosas, mas boas de coração.
Conhecemos pessoas assim, que não podem assumir
compromissos porque vivem trocando de parceiro como
se trocasse de roupa. Todos os seres humanos estão
predestinados a deixar uma herança amorosa, este
legado do amor engrandece a raça humana, contribuindo
para este processo de humanização do homem.
Esta herança ancestral permanece com suas
histórias no inconsciente coletivo de uma sociedade,
aquelas pessoas que viveram diretamente com o agente
de sua formação do caráter, identificam-se e internalizam
inconscientemente as emoções, experiências muito
parecidas com os seus antepassados. Porque não existe
outra maneira de apreciar e julgar a realidade se não for
por meio do processo de identificação, cada pessoa
insiste em fazer valer o seu modo de pensar, que nem
sempre é funcional e adequado ao seu projeto de vida.
Desta maneira cada um retrata nas suas histórias
um pouco deste sofrimento, ninguém está imune ao
engano, a dor e a decepção, esta carga emocional
acompanha suas vítimas. Estes segredos inconscientes
37
conseguem propagar-se como um tormento na vida de
seus filhos, por isto mesmo que aquele que vive o
complexo neurótico dos pais não entende os porquês de
tanto equívoco e sofrimento em suas vidas. São estas
histórias de amor frustrado que acabam interferindo
emocionalmente na vida dos seus filhos, de certo modo
todos procuram no casamento segurança, filhos,
estabilidade, mas nem sempre os sonhos acontecem
como se planejava, muitas vezes este amor acaba se
perdendo pela vida afora.
A existência oferece ganhos, às vezes é preciso
elaborar as perdas, cada pessoa interpreta a partir de
seus valores e filosofia pessoal um modo muito particular
de viver. Uns adoram viajar como se fosse um nômade,
outros gostam de estar naquele lugar onde se criou, mas
o problema da solidão precisa de uma resposta, a
convivência com os amigos, familiares, pode suprir a
carência da presença de pessoas. Cada pessoa escolhe
um tipo de existência que acredita ser o melhor para si
mesmo, precisa estar sempre viajando, conhecendo
lugares e pessoas, não consegue acostumar-se a uma
rotina diária.
Não é que não precisam de ninguém, mas
procuram suprir suas carências ao seu modo, portanto
não conseguem criar raiz em nenhum lugar, apesar de
gostar de pessoas e saber de sua importância preferem
viver neste espaço particular, são autônomas e amam a
sua liberdade. O grande problema das relações humanas
e principalmente daqueles que assumem um
compromisso de viver juntos é acreditar que as pessoas
38
podem ser uma mercadoria, esta maneira de interpretar
as relações como posse, ele é meu, ela é minha, ainda
persiste como uma forma de controlar as vidas das
pessoas.
Porque viver em família tem suas vantagens
quando existe o princípio de respeito e liberdade, onde as
pessoas aprendem a viver com autonomia e criatividade.
E nem sempre todos tem vocação para o casamento, é
preciso dedicação, companheirismo, compromisso para
viver em família. Num sentido mais amplo as pessoas de
uma família aprendem a compartilhar, dividir e ser
solidário, e existem as vantagens da convivência para
saber dividir, ser solidário com as pessoas de seus
relacionamentos.
Não é a mesma coisa amar as pessoas e amar
alguém em particular, muitas não concordam, acham
estranho, questionam e criticam as que fizeram esta
opção por um amor que está acima do individual. Esta
ética da família judaico cristã acentua e valoriza muito
este contrato particular da monogamia. Esta forma de
pensar as relações valoriza a convivência em família e
despreza quem vive sozinho e solitário, um narcisista
preocupado em viver para si mesmo.
Muitos destes modelos de família não
conseguem atender às exigências da sociedade moderna
e globalizada, a concepção dos modelos de família
mudou drasticamente, colocando em conflito o modelo
tradicional do ocidente. Quando os fatos enaltecem a
realidade precisa compreender que as decisões precisam
de coragem e ousadia para lançar-se num novo
39
relacionamento, toda e qualquer pessoa tem medo das
mudanças, as crises fazem pensar e estas reflexões
ajudam a fomentar as mudanças.
Todas as pessoas gostam de elogios e de serem
apreciadas, pois isto faz parte da conquista e ajuda na
autoestima, melhora o conceito de si mesma, porque
assume este tipo de relação. O amor rejuvenesce o
espírito e torna as pessoas mais bonitas e simpáticas,
além disso, colabora para assumir-se com coragem na
mudança que se faz necessária. Este desejo faz com que
realize coisas que até deus duvida, este movimento da
emoção do amor impele para conquistar e ficar perto de
alguém que ama.
Não interessa muito os riscos, a emoção recria
uma crença interna de voltar a experimentar aquilo que
propicia segurança e confiança, assim nasce uma amizade
que se transforma em intimidade, erotismo e
sexualidade. Quando menos se espera acontece o
inesperado, a euforia toma conta, este estado de alegria
pertence às conquistas, sentir-se amado, viver por causa
de um grande amor, realça o valor da existência. O
superego social segue as normas da moral, sua exigência
é punir aqueles que desobedecem ou negligenciam as
normas e regras da cultura ou de uma religião.
Não existe nada pior que o abandono, a rejeição,
a crítica, o julgamento, a pessoa sente-se sozinha e
inferiorizada pelo olhar de condenação, estar neste lugar
de pessoa não grata deve ser muito horrível. Este é o
preço para aqueles que transgredem as normas e leis de
uma moral social ou religiosa, nada pior que sentir-se
40
sozinha e abandonada. Às vezes a emoção do amor é
mais forte e impulsiona a enfrentar qualquer tipo de
pressão ou medo, porque esta experiência de sentir-se
amada é algo único e insubstituível, chega ao ponto que
vale a pena arriscar para viver este momento mágico do
amor.
Porque o ser humano sente-se atraído por esta
emoção, chegando ao ponto de colocar em risco seu
nome, profissão, casamento, etc. O que existe de mágico
e maravilhoso que impele a ambos a continuar nestes
encontros proibidos talvez seja a reação da dopamina,
serotonina que realiza no cérebro uma cegueira química
para medir quaisquer consequências, prefere correr o
risco que deixar de viver esta pulsão de intenso prazer do
amor. É esta ponte entre as emoções e o cérebro que
constitui-se neste espaço para fazer a experiência da
segurança emocional, um lugar para provar o amor e
decidir se deve ou não fazer a passagem para o
compromisso do casamento.
Uma ponte de pensamentos, emoções e
incertezas que podem ofuscar e impedir a passagem para
esta experiência sublime do amor, esta sombra persegue
todo ser humano como se fosse um fantasma, e nesta
escuridão sente-se inseguro e com medo de assumir-se
neste processo de transformação. Mas para chegar ao
outro lado da existência é preciso além de desejo, muita
coragem e ousadia para realizar sonhos em relação ao
amor.
Talvez a escuridão seja os medos que precisa
enfrentar para poder alcançar a luz, nesta passagem
41
existe um ganho, aprende que a vida é feita de desafios,
as crises e dificuldades convidam seus atores a responder
a altura de suas provocações. Neste caminho os olhos se
voltam para a realidade complexa do mundo das
emoções e nas pequenas frações de descobertas
consegue seguir seu projeto de vida, depois desta
caminhada cada pessoa fica marcada pelas
interpretações que realizou no decorrer de cada olhar
sobre a realidade do amor.
No final de cada existência as experiências
tornam-se uma luz que ilumina cada decisão que precisa
ser tomada, e no final de cada jornada realiza seu sonho
de alegria e felicidade. São estas complexas realidades do
mundo das emoções que realiza o sonho de qualquer
pessoa, e neste momento de extrema felicidade são
únicos e maravilhosos, por isto mesmo se deve curtir ao
máximo, porque nem sempre a existência comtempla tais
experiências de amor. O lugar representa um momento
mágico de extrema alegria e felicidade que está sendo
oferecido pela emoção do amor.
Às vezes estes encontros são experiências de
total plenitude, porque ambos vivenciam o prazer total
de dois espíritos que comungam a mesma experiência de
amor, esta relação fortalece os laços de confiança e
aumenta o prazer de viver. Descobre que nem todos os
desejos podem ser realizados na sua plenitude, e que
muitas vezes o amor materno exige renúncia de um amor
erótico, estes emaranhados problemas dos afetos trazem
a discussão os julgamentos precipitados baseados nos
códigos morais de pessoas desprovidas de humanidade,
42
para compreender estes momentos que aparecem de
surpresa para aproximar as pessoas a fazer esta vivência
plena de amor.
Todos em algum momento fazem suas
descobertas pessoais, e nesta constatação da verdade
surge a raiva como uma reação de aversão a pessoa que
amava. Ninguém gosta de dividir seu afeto, e de certo
modo percebem aquele clima de segredo, fingem que
não veem, e preferem continuar na cegueira emocional é
mais cômodo não conhecer a verdade, porque ao
conhecê-la, precisa ser humano o bastante para saber
perdoar e reconhecer que muito além desta descoberta,
existe uma quantidade de qualidades que suprem este
pequeno tropeço de sua relação.
Aos poucos percebem que os mais prejudicados
são aqueles que preferem morrer, ao quebrar algum tipo
de pacto, vivem infelizes, sustentam aquela rigidez de
pensamento até o final de suas vidas. Para transgredir é
preciso coragem, ousadia e amor no coração, porque ao
esconder-se sobre a rigidez de uma doutrina religiosa, de
uma crença, de uma ideologia, acaba favorecendo a
solidão, a infelicidade, a insatisfação em viver, por isto
desenvolve um rancor, uma tristeza, que precisa ser
deslocada para pessoas e seres da natureza, a violência
torna-se explicita, não consegue estar em comunhão com
a sua biofilia.
Todos os pais e mães, educadores, são
responsáveis em mostrar o valor da biofilia, um amor
transparente e verdadeiro que não deixa suas sequelas,
mas que consegue aproximar e oferecer a oportunidade
43
deste aprendizado para que os filhos possam viver esta
experiência de amor filial, materno, paterno, com os
amigos e sua família. Esta é a grande descoberta do
motor que movimenta a saúde na existência, a alegria de
viver, a vontade de existir, o desejo de defender a vida, a
paz, a bondade, e tudo isto se torna possível quando o
combustível emana desta energia emocional conhecida
como amor.
Porque os espíritos dos ancestrais estão vagando
pela natureza e viajam pelos cosmos, sua presença pode
ser apreciada numa flor, nos animais, na correnteza da
água, nas árvores, nos pássaros, e em tudo aquilo que
tem vida e coopera ecologicamente para garantir a
permanência do ecossistema. Assim os fantasmas
acabam cooperando indiretamente para a felicidade das
pessoas, e mesmo naquelas energias que não podemos
enxergar ou tocar existe vida, a comunicação na natureza
não precisa do som de vozes, no silêncio dos seus códigos
genéticos encontra-se uma natureza biófila interessada
em garantir a vida e combater com todas as suas forças a
morte.
E a pior das mortes é perder a capacidade de
continuar amando e deixando-se invadir por esta
atmosfera de amor as pessoas, ao seu trabalho, aos
amigos, aos estudos, ao conhecimento de si mesmo, e
talvez a pior das traições não seja uma relação sexual,
mas o impedimento de proporcionar a pessoa amada de
deixá-lo amar. Esta estrada escura precisa do
conhecimento, da descoberta, dos estudos, da reflexão,
dos valores éticos para iluminar o caminho certo, que nas
44
encruzilhadas da existência saiba usar a sabedoria para
fazer a melhor escolha, a vida precisa deste
esclarecimento para seguir sendo um caminho de
descobertas e inovações.
A renúncia sempre faz parte desta relação com as
pulsões, esta condição especial de saber lidar com
situações extremas de prazeres, é muito diferente da
repressão de uma pulsão em si mesma. Confirma-se que
ao analisar a existência existe mais probabilidade de
tornar possível a utilização deste potencial pra produzir
saúde, paz, alegria e felicidade. O “setting” analítico
recria na relação afetiva a vivência de emoções que
podem deixá-lo mais livre para conhecer este mundo das
pulsões.
Aquilo que foi bom para os outros pode ser uma
motivação para as outras pessoas, esta comparação é
sempre indesejável, porque ao comparar-se entende que
as experiências dos outros podem resolver os seus
problemas, grande engano, somos muito diferentes um
do outro, a natureza humana retrata esta condição
original e única destas experiências. Ao comparar deseja
realizar uma cópia, e nem sempre este método é
funcional para aquele que realiza os seus sonhos, porque
ao fazer este espelho desrespeita a originalidade e
criatividade de suas experiências, sem dúvida esta
identificação recai sempre na negação e repressão de
suas potencialidades.
Cada pessoa precisa fazer o seu caminho, muitos
procuram copiar, mas as respostas não satisfazem a
solução daquele problema específico, por isto mesmo é
45
preciso fazer uso da criatividade e da inteligência
emocional para entender as complexas redes de
comunicação destas emoções, aos poucos começamos a
entender a importância da psicanálise como pilares
capazes de sustentar a compreensão sobre o que se
passa consigo mesmo. Sobre esta investidura da neurose
de caráter aparece a estética de um ser que está
interessado em fazer da existência um lugar de biofilia,
de amor à existência, as pessoas e por tudo que é belo e
bom.
Nunca é tarde para recomeçar a amar, e o
primeiro amor é cuidar do seu espírito, da sua psique, da
sua vida, isto precisa de um amor encarnado naquilo que
produz sanidade e não loucura e neurose. Um amor pela
verdade inclui a solução definitiva de neuroses que
perturbam o sossego, a alegria, e a vontade de viver. A
depressão está reclusa na sua prisão emocional, porque
diante dos seus olhos está a culpa, os medos, as fobias, as
inseguranças, a ansiedade, a punição que impedem a
pessoa de avançar.
Pensa e deseja amar, mas não pode porque as
grades de sua ignorância não permitem que utilize a sua
inteligência para com esforço e dedicação descobrir os
segredos destes códigos que possam oferecer a liberdade
para sentir livre e a vontade para deixar-se amar; e saber
que o amor exige justiça e verdade, todas as panaceias da
fantasia persecutória estão implicadas neste prazer de
destruir-se.
A falência de um casamento, financeiro,
amizades, alegria, saúde, retrata uma realidade que pode
46
estar sendo repetida inconscientemente sem o mínimo
de consciência sobre o que está acontecendo. O
relacionamento humano existe para propiciar alegria,
felicidade, vitória, sucesso, saúde e não o contrário,
quando isto acontece, é porque a tristeza, a depressão,
as compulsões, os vícios, tomaram conta da psique,
ninguém está determinado ao fracasso e muito menos
viver na dor. Todos possuem este potencial de esforço
próprio para fazer frente a estes grandes desafios, para
fazer este investimento de tempo e cultura, precisa que a
inteligência esteja aberta e flexível para pensar o
diferente e não repetir sempre a mesma queixa.
Ninguém pode fugir de si mesmo, as emoções
acompanham a pessoa vinte e quatro horas por dia, não
existe nenhum modo de fazê-las desaparecer, a única
condição é neutralizá-las, reprimi-las, narcotizá-las com
psicotrópicos ou com algum tipo de drogas. Mas mesmo
assim, esta energia não desaparece, estas reações
químicas nos neurotransmissores impedem o seu
aparecimento, porque quando vem à consciência traz
consigo a dor, a ferida se abre por isto ninguém gosta de
fazer curativos.
Para viver com saúde é preciso este gesto de
grandeza, de sabedoria, de amor à vida, ser biófilo é estar
consciente de que a amorosidade pertence ao prazer de
viver, de aceitar a realidade naquilo que não pode mudar,
mas ser um eterno insatisfeito na sua condição de
sempre melhorar para chegar num nível de existência
que possa oferecer a si mesmo um lugar aprazível e
alegre, onde exista satisfação e realização pessoal. Isto
47
significa um descontentamento consigo mesmo, uma
ética pela verdade, um compromisso de utilizar a sua
inteligência para viver com saúde, ao situar-se deste
modo na existência abre um caminho de biofilia.
Não existe um tempo ou uma quantidade de
anos, sempre é momento de mudança, ninguém está
velho ou ultrapassado para viver a biofilia. O que precisa
é de atitude verdadeira e consciente para com coragem e
verdade encontrar aquele lugar de saúde e felicidade que
dignifica e engradece qualquer ser humano. Sempre é
tempo de mudança e transformação, a todo instante
estamos neste processo de metamorfose, a renovação
das células no organismo, das ideologias, das emoções,
das virtudes e valores, podem ser desfeitos e modificados
a qualquer momento, a única qualidade desejável neste
caso é uma atitude de fé, acreditar que o impossível
existe. O amor não é uma ficção, uma mentira.
Quando se encontra com a verdade a sensação
de traição aparece, porque mostra como a realidade é de
fato, neste instante se retira e não consegue entender
que uma pessoa possa viver por detrás de uma mentira.
De fato não é uma mentira, mas um medo escondido
sobre o manto das obrigações, dos deveres de mãe, do
casamento, etc. Não entende que viver na duplicidade é
também trair o amor que alguém retribui gentilmente,
este paradoxo enaltece e favorece o aparecimento da
doença, às vezes a doença retribui a pessoa uma morte
agradável, porque a vida tornou-se insuportável.
O que impede uma pessoa de tomar suas
decisões? O que de fato é importante na existência?
48
Quem ganha e quem perde quando o amor não
acontece? Entre todos os tipos de amor, quais deles é
mais forte e de maior relevância na condição humana? O
que uma pessoa é capaz de fazer em nome do amor?
Será que realmente o amor desaparece? Talvez o grande
empecilho nas pessoas é o ciúme, porque esta
insegurança favorece a desconfiança, projeta nas
fantasias o medo de ser abandonado, da traição, estas e
outras emoções instigam o conflito, enaltecem a crítica, e
distancia o amor de suas vidas.
A metamorfose das emoções se retroalimenta a
partir das fantasias e falsas deduções originadas por
causa do ciúme e da inveja. Porque ao questionar ou
criticar sem uma prova concreta recaímos de novo numa
violência, este tipo de diálogo favorece o aparecimento
das mágoas, ressentimentos, qualquer pessoa sente-se
injustiçado, se entristece por este julgamento
precipitado. Estes medos inconscientes são capazes de
propagar este vírus mortal da mágoa, este estado de
insatisfação de rebeldia, acaba sendo transferida na
relação pelas frustações e sonhos que não foram
realizados.
Às vezes as decisões são difíceis de tomar,
porque envolve família, filhos, bens materiais, pressão
social, e ninguém prefere optar pelo novo, a mudança
precisa de certa dose de coragem, e nem sempre as
pessoas estão dispostas a lançar-se num novo
relacionamento. Os fantasmas do medo pairam sobre os
seus pensamentos, como por exemplo: “não vai dar
certo, a pessoa não me ama de fato, estou velho demais”,
49
são várias as justificativas e desculpas que utilizam para
deter-se naquele estilo de vida. É muito difícil fazer a
mudança, pois inicia uma série de questionamentos e
desconfianças em relação ao seu novo amor, esta nova
adaptação e aceitação da maneira de ser e viver é outro
entrave para iniciar uma nova relação de amor.
É muito difícil perder aquilo que conquistou, e
indiretamente sabe que aquelas pessoas precisam do seu
apoio, cuidado, orientação, sua presença é uma
necessidade. Além disso, a alegria e felicidade do parceiro
podem contagiar e colocar em crise o seu modo de vida,
geralmente esta inveja é projetada em forma de raiva e
ódio, não consegue aceitar a ideia de que alguém consiga
viver com autonomia e liberdade, justamente as
qualidades que não possui. O outro é sempre um espelho
para que conheça as suas qualidades e fragilidades, e
assim inicia uma série de discussões, brigas,
desentendimentos sobre a maneira que cada um vive a
sua vida.
Este é outro grande problema, como conviver
com a liberdade, implicando o seu modo de pensar e
viver, estas discussões acirradas aumentam as mágoas, e
assim repetem uma relação baseada na violência. Às
vezes é melhor não precisar de ninguém quando existem
dificuldades que não deixam que aquele sonho se realize.
Existem pessoas que não conseguem fingir, fazer de
conta que está tudo bem quando não está, precisam falar
sobre o que senti e assim saber o que se passa nesta
relação.

50
Mas nem sempre as explicações conseguem
diminuir a insegurança, as projeções utilizam todas as
estratégias para criar um ambiente de briga, discussão, e
que no final termine o relacionamento, conscientemente
justifica que precisa de um grande amor, e
inconscientemente afasta justamente da sua presença
aquela pessoa que ama. Este é o conflito neurótico,
porque na sua insegurança tem medo do amor, de
romper com o estabelecido. Mas aquelas pessoas que na
sua intenção desenvolvem este desejo de viver uma
grande experiência de amor, com certeza em algum
momento de sua vida as circunstâncias desenvolvem
situações para que esta ocasião aconteça.
No fundo de qualquer problema de conflito ou de
fracasso, falência, encontramos sempre uma emoção,
uma energia que sofreu com o tempo uma metamorfose,
que se tornou insegurança, angustia e ansiedade. Agora
vive na psique como uma energia intrusa que defende o
passado e analisa a realidade e suas experiências atuais,
sempre em base naquelas emoções. As emoções são este
canal de energia por onde escorre a biofilia, este talvez
seja o maior desafio dos seres humanos no sentido de
evolução do seu espírito, de sua psique, de sua
existência.
Com razão, o discurso defende o razoável, mas a
emoção do medo destrói aquilo que pertence ao desejo,
eis a origem do sofrimento, da tristeza, da dor. Por isto
não consegue entender e fica perplexo diante destas
decisões que produzem o fracasso, luta e enfrenta
desafios e no final de sua história, surge esta emoção
51
para trazer a desgraça e a falência. E este é um fato que
vem acontecendo de maneira repetitiva, por isto,
encontramos pessoas sofrendo, outras somatizando, e
por fim aqueles que desistiram de viver.
Nas relações humanas existe a condição da
felicidade e da infelicidade, do sucesso e fracasso, do
amor e ódio, a verdade e mentira, estas contradições
assinalam que o ser humano encontra-se neste processo
de evolução de consciência, de humanização. As perdas,
os fracassos, as traições fazem parte deste processo de
superação e aprendizagem, mas a marca do amor jamais
será apagada da memória. Porque o verdadeiro amor é
uma experiência da verdade, da sinceridade, da alegria,
da segurança, e quem viveu estas emoções e qualidades
éticas permanece na saudade e jamais esquecerá aquele
momento de amor em sua vida.
Chorar pela perda de alguém, por uma traição,
pelo medo do abandono, pelo compromisso de um
casamento, pelos filhos, existe pessoas e lugares onde a
imagem está carregada de outros amores, e nem sempre
o amor erótico consegue ocupar o seu devido lugar na
vida destas pessoas. Mas quem chora pela perda de
alguém que amou pode contar-se feliz, pelo menos foi
capaz de viver esta experiência, teve a coragem e ousadia
para experimentar o gosto deste fruto proibido, e assim
desenvolveu uma capacidade de envolver-se pelos bons e
saudáveis relacionamentos.
De repente o conflito moral aparece com toda a
sua força, a vigilância, o controle, a pressão social, possui
seus olhos e não mede nenhum esforço para condenar e
52
punir as suas vítimas. O superego possui seus
representantes que assumem esta tarefa de cuidar da
vida dos outros, como se fossem soldados encarregados
em proteger os valores da família e combater qualquer
tipo de transgressão. Por isto existe o medo, esta fobia
existe em todo lugar, os vigilantes utilizam de um
presente, de uma visita inesperada para averiguar se
tudo está de acordo com a normalidade.
O corpo, os cabelos, as roupas, o ambiente, deve
estar como sempre, dentro daquele estereótipo que as
pessoas estavam acostumadas a enxergar e conviver. O
preço que as pessoas acabam pagando por viver o
proibido, aquilo que não pode ser aceito consome
energia, tempo, esgota-se em sofrimento e dor. Querer
viver o amor e não poder, eis o conflito neurótico, porque
nem sempre a moral está a serviço da felicidade, muitas
vezes a obsessão moral pode trazer muita tristeza,
consome-se numa duplicidade de vida e acaba esgotando
todas as suas forças.
Como conviver com um amor que é impossível
viver, são vivências complexas e de difícil solução, às
vezes é possível tomar uma decisão mesmo que seja
difícil, no entanto é possível fazer esta escolha e assumir
as consequências, mas quando começa a conviver com a
rotina e com os filhos, inicia-se todo o processo do
silêncio, e chega o momento inevitável, porque esta
situação não pode perdurar para sempre, naquele
momento é preciso certa audácia e coragem para tomar
uma decisão.

53
Porque naquele instante precisa de força e
coragem para sair daquele estado de tristeza, o silêncio
fala, os olhos estão apreensivos para enxergar o seu
amor, e naquele momento surge a imagem, seu conteúdo
mostra a oportunidade de que alguém está esperando
por uma decisão, basta somente um passo. Mas o
superego paralisa suas pernas, suas mãos estão trêmulas,
seu corpo paralisado, não consegue se mexer, existe o
desejo, mas está impossibilitada de caminhar.
O que resta de um grande amor são apenas
olhares que ficaram com a saudade, com aquilo de bom
que o carinho, a ternura, a verdade, a bondade tem a
oferecer para a grandeza humana, e assim os olhares se
comunicam e num gesto de despedida sorriem de alegria,
porque nem sempre a vida permite viver a totalidade do
amor, mas em alguma parte dele foi possível
experimentá-lo, assim cada um assume suas escolhas e
responsabiliza-se pelas suas decisões, e nem sempre está
livre para abandonar o seu egoísmo.
Está distante de todos e de si mesmo, neste
momento de decisão perde-se no espaço do seu tempo, e
a única defesa que resta para diminuir a dor e utilizar as
defesas de racionalizações, negação, projeções, para
disfarçar e neutralizar a ferida que foi provocada por este
grande amor. Nem sempre os grandes desafios são
possíveis de viver, a insegurança é o caminho mais seguro
para fuga, às vezes a oportunidade, a chance está a sua
frente, mas o superego rígido segue a orientação de uma
moral, e depois de muitas chances, o único que resta é

54
conviver com a saudade, e talvez um dia possa contar
esta história para um analista.
O que resta desta experiência são apenas
recordações, imagens que retratam a realidade de que o
amor existe, e de que nem sempre a existência
proporciona o melhor, aprende a conviver com as perdas,
e aprecia o melhor ensinamento de suas vidas, que não
existe a perfeição, a exatidão ao conviver com suas
incongruências e contradições assume-se nesta condição
humana de aprender a aceitar as perdas e conviver com
as neuroses de caráter. Está consciente que precisa
tomar aquela decisão, mas existem emoções mais fortes
que as decisões da razão.
Talvez passe a existência se perguntando, porque
não decidiu diferente, e procure justificativas para aquela
decisão, o que resta são as divagações deste diálogo
interior que tenta entender o inexplicável. Assim,
aprende que as oportunidades não aparecem todo dia a
sua porta, se deixam levar pelo comodismo e a rotina,
infelizmente cada um deve assumir-se por inteiro pelas
escolhas que fez. E tudo acaba na rotina de um passado,
permanece somente esta reflexão sobre as raízes que
podem identificar a essência desta biofilia.
Muitos passam a vida sofrendo em silêncio,
aguentam e suportam esta decisão, deixam de viver o
amor saudável para salvaguardar o amor doentio. Este
amor de saudade, de perda, de desespero, é uma ferida
profunda que mais tarde pode tornar-se um câncer, esta
doença precisa somente de tempo, porque a emoção
vivida jamais desaparecerá de sua consciência. Nem
55
sempre as palavras e os discursos conseguem dar conta
desta falta de amor, mas no fundo de sua alma o amor
continua numa outra extensão, como o amor aos filhos,
casa, animais, plantas, fala-se aqui da totalidade de um
amor da biofilia.
O amor consegue preencher as expectativas
daquele momento, mas nunca esqueçamos, as pessoas
mudam, a sociedade se transforma. Está inserida nesta
metamorfose da existência, a rotina, a repetição, a morte
da criatividade. Talvez nem todas as expectativas que
tem em relação ao amor sejam preenchidas, e descobre
que existem diversas formas de viver o amor, mas a
beleza, a pureza, a lealdade, a verdade do amor o torna
admirável na existência de qualquer pessoa.
Nem sempre as pessoas tem coragem de dizer a
verdade, porque a verdade poderia naquele momento
impedir a convivência, as pessoas não estão preparadas
para elaborar e interpretar muitas emoções e
experiências. A psicanálise humanista nasce desta utopia
humana que busca no processo de humanização um
aprendizado que possa ser útil para viver com saúde.
Sobre as escolhas de um caminho diferente naquela
encruzilhada da existência, ninguém pode prever com
precisão os ganhos e prejuízos daquelas experiências, os
resultados dependem sempre deste estado de ânimo, de
alegria e satisfação naquele investimento específico de
sua existência.
Não temos a menor certeza de que as outras
pessoas seriam capazes de entender e compreender este
segredo, um amor proibido, desta beleza que a biofilia
56
propicia aos amantes do amor. Ao aproximar-se do amor
produtivo, do amor pelos seres humanos, pela pátria,
pela natureza, pelos amigos, e de todos os amores
renasce a esperança de que esta biofilia reacenda nos
corações dos homens a solidariedade, a bondade, a
compreensão, a ternura, o perdão, a aceitação da
limitação, sustentáculos da pulsão de vida que faz arder
nos espíritos dos homens de bem e de paz que clamam
por justiça e liberdade.
E talvez o sofrimento amadureça e torne os
corações humanos menos embrutecidos pela violência,
pela barbárie, e amplie a sensibilidade para outros
horizontes. Que as relações estejam repletas de
solidariedade, de amorosidade, de amizade, e que a
moral, ideologias, teorias, doutrinas, estejam distante das
relações de amor. A dor, a perda, traz muito
ensinamentos e pode ampliar ainda mais a humanidade,
porque quem viveu a perda de um amor sabe entender a
fragilidade da existência, por isto entende que a amizade
está acima do orgulho, da vaidade e das ideologias.
Mas de algum modo este segredo precisa ser
compartilhado, elaborado, compreendido, este conteúdo
necessita de uma reflexão destituída de moralismo, de
preconceitos, de julgamentos, para elaborar e perdoar-se
se assim for necessário. Entender que a humanidade
pertence também às decepções, fracassos, traições,
perdas, esta realidade precisa ser integrada e
harmonizada em relação à existência, e de certa forma
esta relação analítica engrandece a relação humana,

57
torna as pessoas mais confiantes e seguras sobre o que se
passou em suas vidas.
Porque o amor nunca pode desaparecer da vida
do ser humano. O analista ajuda a pessoa a retomar o
caminho do amor, e talvez a experiência mais exitosa seja
mesmo a relação entre analista e paciente, onde dois
seres humanos estão envolvidos nesta busca incessante
de viver com a mesma intensidade a fraternidade do
amor em suas vidas, esta humanidade de dois
inconscientes comprometidos até o fim de suas vidas
para proteger, cuidar, ajudar aquelas pessoas que ama,
um amor capaz de transpor o egoísmo, o narcisismo, a
vaidade, o orgulho, a inveja, o ciúme, e no final da vida
saber que valeu a pena investir tanto tempo neste
aprendizado sobre o tema do amor.
Um amor que está comprometido nos bons e
maus momentos, uma atitude de seriedade e
honestidade para fazer justiça e provar que o amor é uma
verdade que de fato existe. Muitas pessoas não sabem a
quem agradecer, aos cosmos, a natureza. A existência
desta biofilia do amor que apesar do tempo, torna esta
emoção eterna, nem o tempo é capaz de desfazer ou
apagar as lembranças dos amores que tornou possível
este cuidado do outro.
A finitude do amor não termina com a morte de
uma pessoa que ama, pois permanece nas mentes
daquelas pessoas que vivenciaram aquele afeto, aqueles
que convivem com a pessoa amada, conhecem os seus
sonhos, e também tem a consciência de que nem sempre
é possível realizá-los, em algum momento é preciso pedir
58
desculpas e perdão à pessoa amada. Na velhice restam
somente às recordações daqueles momentos que
tornaram o amor sublime e maravilhoso, estas imagens
possuem uma conotação de emoção, de saudade, de
alegria, por isto atuam na mente inconsciente.
As memórias eternizam estas vivências de amor,
porque elas estão impregnadas desta biofilia, do amor às
pessoas, à natureza, à família, aos amigos, ao estudo, ao
conhecimento de si mesmo, e de todas as ações que
dignificam a existência humana. Seu significado fica
impregnado em cada símbolo, nos olhares, nos
presentes, e em tudo aquilo que fez parte desta
totalidade maior do amor, não existe nada sem um
sentido, quando as mãos e os olhares tocam a dimensão
de um gesto de ternura, de retribuir e congratular-se com
aquilo que tornou possível a biofilia do amor.
No inconsciente restam somente as imagens de
lembranças que se eternizaram pela descrição do sentido
e significado daqueles símbolos, por isto o amor
verdadeiro nunca morre, torna-se eterno e nunca
termina nas mentes daqueles que amaram de verdade o
seu grande amor. E naqueles símbolos resta somente o
que ficou de bom, do significado deste amor, porque
cada um oferece o que tem de melhor em si mesmo,
amar e ser amado não é nenhum delírio, é uma realidade
que a natureza exige de cada ser humano.
A existência ensina esta grande lição de amor, e
que cada pessoa nunca desista de investir e acreditar na
sua existência, porque podemos aprender a vivê-lo com
toda a intensidade e valor, e jamais esquecermos de que
59
somos somente cinzas lançadas na atmosfera, que por
algum descuido deita-se sobre uma folha, com o tempo
os microrganismos sentem-se a vontade para participar
da evolução dos cosmos, contribuindo como matéria viva
e energia, deixando seu legado das “humanitas” para que
os outros sofram menos e vivam melhor.
Que cada ser humano possa cumprir a sua
promessa com a existência, fazer o melhor que puder
para ser feliz e viver se possível a dimensão biófila do
amor, a sua companheira, aos amigos, a sua pátria, a
verdade, a justiça, a natureza e aos cosmos, assim
estaremos contribuindo com o que tem de melhor em si
mesmo. E naquele instante desaparece fisicamente, mas
permanece vivo nas lembranças daqueles que amou,
torna-se essência desta biofilia da natureza e volta a sua
morada quando termina a jornada.

60
2.0 - O significado da biofilia como potência de
amor.

Nestas passagens da existência existem aquelas


marcas de um passado que institui uma cena para ser
colhida pelos olhos, e naquele ambiente silencioso
existiram vidas que deixaram uma história, cada ser
humano tem uma especificidade de ser original e criativo,
mesmo sem consciência seu potencial de amor direciona
as suas ações para viver aquela dimensão do afeto. Esta
pulsão pode ser reconhecida em cada gesto, nas escolhas
que cada pessoa precisa fazer para poder sobreviver às
surpresas que a existência tem a oferecer a cada ser
humano.
Quando olhamos o passado não sabemos a força
que estas imagens podem ser colhidas por cada neurônio,
são energias vivas que transcendem a razão, recordações
que podem estar transcritas numa folha de papel, pois a
escrita pode tentar descrever o que aconteceu durante
aquela vida. A morte não morre sozinha, está sempre
acompanhada destas imagens que possuem o colorido
das emoções na memória daqueles que estão vivos e
convivem estas recordações de uma história de vida, ao
trazê-la à consciência interage com aquilo que está vivo e
não morto.
O ambiente físico está intacto, mas vazio de
expressão humana, naquele local resta somente
recordações de uma história que ficou registrada em
cada árvore, animal, flores, que fizeram parte do seu
61
modo da convivência com aquelas pessoas que não
existem mais. O ser humano tem necessidade de voltar
ao passado ou apegar-se às tradições e costumes de um
determinado tempo histórico. Porque o passado pode
trazer ao presente aquilo que foi presenciado e vivido
pelos seus antepassados, são experiências que ficaram
registradas nas memórias daqueles que viveram aquele
momento histórico de sua vida, e naquela humanidade
todos estavam interessados em viver o amor, cada um ao
seu modo, esta criatividade é inevitável, pois através da
inteligência emocional se torna possível viver o bem estar
e a alegria.
Existe a ponte que une e liga o passado ao
presente, os neurotransmissores que fazem deste
impulso elétrico a magia de transformar imagens em
emoções, este mundo codificado em signos, sinais e
símbolos traduz a realidade da emoção do amor nos
significados mais profundos da realização humana. O ser
humano procura aninhar-se naquele ambiente e utiliza
todos os seus esforços para constituir sua família, filhos e
seu ganho econômico para garantir sua sobrevivência.
Este desejo de proteger-se sobre o cuidado do outro é
uma necessidade que pode garantir a estabilidade e
segurança na existência, talvez por isto, seja bastante
procurada.
A morte de uma mãe, de um pai, deixa um
passado que precisa ser elaborado mesmo que seja
depois de seu desaparecimento físico, mas existem
segredos que não podem ser ditos ou confessados aos
filhos, porque sempre vai existir o cuidado de não
62
machucar, ferir ou magoar aquelas pessoas que admiram
e veneram os pais. Talvez seja uma simples fantasia
procurando distorcer a realidade, ou um medo da
rejeição que se esconde através de um diário, a ausência
desta escuta pode ter diversos significados.
Depois da morte estes segredos podem ser
revelados, e quase sempre estes temas estão
relacionados com a traição, a culpa, a punição, mesmo
nesta condição de fazer as escondidas não tem medo de
transgredir a moral vigente. O adulto tem consciência do
proibido, porém o desejo de viver o prazer do amor é
maior que o seu medo, estas revelações podem estar
transcritas num diário, num livro, ou num confidente,
este passado não está morto, conseguiu sobreviver à
morte física, sua história pode ajudar os filhos a
tornarem-se mais humanos.
Neste cenário a morte reúne os familiares e
muitos deixam este legado para ser confrontados,
esclarecidos e interpretados a luz da experiência dos seus
filhos, amigos e parentes. O segredo reúne as pessoas
interessadas para pensar sobre o que restou da morte,
muitos estão interessados no inventário dos bens
materiais, infelizmente este passado precisa ser dito
como uma catarse, para que mesmo depois da morte a
pessoa possa ser entendida e compreendida nas buscas
do amor. O amor inclui seres humanos que estão
esperando as ordens do destino para viver com a
intensidade que puder este momento único e
imprescindível da experiência do amor.

63
A morte de uma pessoa querida e amada
consegue reunir aquelas pessoas levá-las a pensar sobre a
importante condição da existência humana, sobre os
benefícios e malefícios das escolhas feitas durante uma
existência. Estes encontros estão marcados pelo vínculo
afetivo, daquelas experiências de amor fraterno e familiar
que tornou possível viver a humanidade, o amor é a
expressão dos gestos de ternura, compaixão, bondade e
solidariedade, uma experiência que une e torna possível
viver este calor humano.
Estes vínculos podem ser observados num
abraço, no aperto de mão, num beijo, são expressões que
mostram o quanto um ser humano aprecia do outro
pelos laços do afeto, o amor é uma vivência que perdura
por toda uma vida, são os momentos de mutua ajuda que
ajudam a fortalecer a sua humanidade, além disso,
propicia para quem experimenta o amor, paz,
tranquilidade, segurança, bem estar, felicidade. Por isto
mesmo que o amor desperta muito ciúme e inveja, são os
humanos que unem num só pensamento, e todas as
diferenças e problemas pessoais desaparecem por
completo naquele momento.
Os filhos se surpreendem com este gesto de
desligamento do mundo físico para o espiritual, se assim
podemos chamá-lo, além das burocracias e crenças
religiosas, o defunto deixou as suas marcas de amor, não
existe nenhum modo de apagá-las ou negá-las de seu
valor na vida daquela pessoa que morreu, porque suas
imagens estão alocadas nas memórias daqueles que
continuam a viver. E como esta energia continua viva e
64
atuante no cérebro daqueles que vivem, indiretamente
seu espírito permanece eterno na vida daquelas pessoas
que amou.
Quando o ser humano morre, a única emoção
que consegue lembrar-se deste antepassado é o amor.
Muitas atitudes daqueles que morreram não puderam
ser compreendidas, porque por detrás do seu desejo,
estava um segredo que enquanto estava viva não podia
ser revelado, agora depois da morte, existe esta condição
de liberdade de revelar emoções, experiências, vivências,
que naquele momento não podiam ser compreendidas. A
força da cultura gera apreensões, inibições, vergonha e
um medo de ser rejeitada, a proteção contra estes
estigmas sociais é o silêncio, o segredo, porque os
fundamentalistas de plantão estão prontos para fazer o
seu julgamento, e estão ansiosos para condenar o
transgressor destas normas morais.
A pessoa está envolvida nestas tramas das
questões jurídicas, materiais e financeiras, alguns com
seu esforço conseguem atender as exigências de uma
sociedade capitalista que valoriza a aquisição de bens
materiais, porque as indústrias sobrevivem do consumo
de coisas, portanto a publicidade encarrega-se de
convencer as pessoas das vantagens de priorizar a
aquisição de bens materiais como condição de sua
felicidade. Muitos seres humanos passam a vida para
adquirir coisas e bens materiais, como num lampejo de
luz a vida está por desaparecer, e talvez seja muito tarde
para voltar ao passado e fazer diferente.

65
Depois da morte da mãe ou do pai, continuam na
disputa pelos seus bens materiais, e acabam esquecendo
aquilo que existe de mais sagrado, a evolução da sua
consciência, não existe muito o que dizer depois da
morte de uma pessoa amada. Nestes momentos existe
tensão, desconfiança e um medo de conhecer a verdade
sobre a história de vida de sua mãe, às vezes o superego
consegue manipular a sua vítima, que somente depois da
morte sente-se autorizado a revelar os seus segredos.
O segredo não pode ser revelado a estranhos,
esta intimidade deve ser preservada, interessante como
as pessoas lidam com estas questões que envolvem
traição. Mesmo depois da morte o falecido tem suas
explicações para convencer seus ouvintes de que tinha
suas razões para viver aquele amor, mesmo na
clandestinidade, e todos ficam estarrecidos porque
ambos conseguiram enganar-se e enganar a todos ao
mesmo tempo. Ninguém gosta de ser desprezado,
humilhado, julgado, existe de fato uma preocupação em
não ser aceito ou criticado, por isto mesmo muitos
preferem o segredo a assumir-se publicamente.
A existência propicia o encontro, o amor, e
muitos não sabem os porquês, mas em certa altura da
caminhada ambos tomam caminhos diferentes. Estas
recordações estão mais vivas do que nunca nas
memórias, o tempo passa, mas aquelas cenas de amor
jamais se apagarão, algo motiva a emoção do amor a
expressar tudo aquilo que sente pelo seu amado, e um
dos meios de elaborar este passado é durante uma
sessão de análise. Quando o analista escuta aquela
66
história e elabora na sua mente as imagens e momentos
que marcaram a vida daquelas pessoas.
Está bem claro na essência desta humanidade
existe a sede de amor, independente de ser homem ou
mulher, ambos estão a procura deste tesouro perdido. Ás
vezes bastam alguns momentos para fazer toda a
diferença numa existência, talvez não importe a
quantidade de tempo que as pessoas estão juntas, mas a
intensidade e qualidade deste amor que experimentam
enquanto estão juntos. Esta experiência é uma marca
decisiva para aqueles que fazem a escuta desta traição,
neste momento todos possuem uma imagem daquela
pessoa, no entanto precisa aceitar que existiram
experiências proibidas que somente foram expressadas
depois da morte.
Para quem escuta produz uma
contratransferência, porque esta atitude contraria as
normas, costumes, tradições de uma determinada cultura
ou religião. A primeira reação daqueles que fazem esta
escuta é rejeitar, negar, racionalizar, justificar, aquele
tipo de experiência, mas nem mesmo as defesas
conseguem esconder o desejo de conhecer o que está
implícito nesta transgressão. O humano se dá conta que
precisa de amor quando estes antepassados estão
mortos, não existe outra solução a não ser elaborar e
aceitar aquela dimensão do amor que viveu escondida.
Esta marca está registrada com algumas perdas,
são histórias de amor, que abrem caminho para imaginar
sempre o melhor e nunca o pior, mas chega um
momento que este segredo precisa ser conhecido,
67
elaborado, confrontado e esclarecido. Porque no
inconsciente dos filhos permanece o conhecimento
daquilo que foi proibido, no momento que este
“segredo” se revela, todos se sentem libertos, aquela
traição não é mais um problema, porque aquela emoção
foi compartilhada e aceita por todos, talvez esta atitude
seja muito parecida com o perdão.
Para compreender a emoção do amor aparecem
muitas indagações sobre as motivações que levaram o
falecido a manter este segredo por tanto tempo, os
objetos retratam simbolicamente uma realidade de
significados, depois da morte alguns objetos carregam na
sua essência um significado que pode ser imaginado, mas
jamais conhecido em toda sua intensidade. Estes objetos
eram presentes símbolos que retratam toda uma história
de vida, naquelas imagens estão o sentido e significado
de toda uma existência.
A energia psíquica é uma realidade que não pode
ser tocada, vista, mas sua expressão pode ser sentida,
ainda está muito mal esclarecida a manifestação desta
energia psíquica. Na expressão destas palavras estão os
segredos íntimos que devem ser revelados, porém quem
escuta sente raiva, medo, ansiedade, mas independente
do que as palavras provocam é preciso aprofundar e
esclarecer este passado inserido nesta realidade de
imagens e acontecimentos.
Ao escutar entende e compreende que estas
verdades não podem ser enterradas com a morte. Todo
ser humano experimenta um pouco da morte do amor,
aos poucos o amor desaparece como uma névoa e
68
evapora, mas nunca deixa de existir. E nada melhor que
conhecer a autenticidade de uma pessoa, o único meio
de chegar à essência desta verdade é por intermédio da
autenticidade, dar-se a conhecer é dizer a verdade e
assumir-se nesta grandeza de aceitar-se assim como é na
sua autenticidade.
A vida passa rápido demais, são estes pequenos
instantes da existência que são capazes de marcar por
toda uma vida, um momento único e verdadeiro de amor
chegou para viver um pouco deste encanto da magia do
amor. Muitas vezes os pais e filhos que vivem por muitos
anos ou quase toda uma vida, permanecem estranhos, e
nada melhor que com a ajuda de sua maturidade possa
assumir-se nesta condição de falar a verdade.
Interessante que a mentira é usada para
preservar aquelas pessoas que ama, mas o efeito é
catastrófico, porque esta energia é vivenciada
inconscientemente pelos seus filhos, queira ou não,
estarão presos a esta experiência pelo resto de suas
vidas. O único modo de ambos se libertarem é dizer a
verdade e assumir-se na sua humanidade, e algumas
pessoas não conseguem durante a sua vida falar sobre
isto.
Mas as imagens podem trazer à consciência
esclarecimento e aceitação daquele tipo de experiência, o
passado deve ser elaborado, esta escuta traz alívio e
liberta a todos deste segredo. Os antepassados precisam
de compreensão e entendimento sobre aquilo que estão
falando, estas histórias precisam realmente ser narradas

69
para serem elaboradas. O que todas as pessoas esperam
de alguém é gratidão e não rejeição.
O passado está representado nas memórias por
estas emoções, simplesmente é possível reproduzir em
cenas estas pessoas e lugares que marcaram a vida de
uma pessoa. A imaginação faz da existência um lugar de
recordação, de presença viva daquelas que existiram num
momento histórico, mas que agora fazem parte desta
emoção do amor. Em qualquer cultura a necessidade da
presença dos pais na educação dos filhos é uma
necessidade, a família passa a ser o alicerce que molda o
caráter daqueles que recebem esta educação ética e
emocional.
Aprender a conviver com as limitações dos pais é
uma exigência do relacionamento, por outro lado, os pais
devem saber perdoar os seus filhos pelos seus equívocos,
este ambiente esconde também aqueles desejos que não
podem ser conhecidos, nem sempre as necessidades
coincidem com as oportunidades. Todo ser humano
almeja o melhor, e exige daqueles que convive ética e
respeito pela sua autoridade, mas os filhos desconhecem
que estes pais maravilhosos também desejam uma
experiência verdadeira de amor.
A família passa a ser aquela rotina, um lugar onde
os filhos podem dialogar e aprender com seus pais, esta
interação afetiva demonstra o quanto de amor existem
entre eles. Muitas pessoas acabam pela circunstância da
vida se acostumando a viver de uma forma silenciosa. Por
natureza o ser humano é insatisfeito, esta pulsão do
amor impele as pessoas a não suportar a solidão. A falta
70
de afeto e amor pode ser escondida por algum tempo,
mas não por todo o tempo.
Para aqueles que vivem fechados em seu próprio
mundo, não acrescenta em nada a sua vida afetiva, ao
mesmo tempo a liberdade proporciona escolhas que
estão arraigadas às crenças e valores éticos daquela
cultura em particular. A rotina de uma dona de casa
consegue preencher com afazeres a sua obrigação como
mãe, a sua atenção está voltada para aquelas tarefas das
pessoas que dependem de seu trabalho. Mas ao revestir-
se deste papel de mãe, assume também os cuidados que
toda criança precisa para poder desenvolver-se.
Este envolvimento dos afazeres de uma casa, da
alimentação, pode ser uma maneira de expressar o seu
amor materno, assim as pessoas que vivem nesta família
aprendem os valores éticos dos seus pais, mas nem
sempre as relações são perfeitas, existem dificuldades
emocionais e neuroses que podem impedir o
florescimento do amor. O amor sempre existiu, a
dificuldade das pessoas que convivem com esta emoção,
dependem da intensidade e a qualidade deste amor, esta
pode ser uma das exigências desta humanidade do
homem, que precisa aprender desde criança conviver e
envolver-se nesta emoção do amor.
Existe um sentido nos olhares e na maneira de
como cada um encara a questão das relações humanas,
por este processo de identificação é possível absorver um
modelo de conduta induzido pela atitude dos pais. Sem
dúvida este movimento emocional do silêncio e das
dificuldades de expressar as emoções pode estabelecer
71
um pacto no estilo de vida de um tipo de família. O
silêncio é uma imposição, porque a inexistência da
palavra impede o aparecimento das fraquezas e
dificuldades, por detrás deste silêncio existem desejos
sendo reprimidos.
A crise existencial ou mesmo no âmbito da
família surge quando não existe este ambiente para
expressar as emoções e tampouco para manifestar o seu
amor, quando a palavra não existe, inicia os gestos de
insatisfação e tristeza, a falta do diálogo e da verdade,
impõe um silêncio que pode representar simbolicamente
diversos significados, e o maior deles seja realmente a
sombra, as neuroses dos adultos que não conseguem
elaborar e tampouco interagir neste nível com seus filhos,
não que eles não queiram, mas porque estão bloqueados
e não sabem como expressar este amor.
A contingência da existência estrutura um modo
de ser e uma maneira muito particular de relacionar-se
afetivamente, ninguém pode culpar-se ou sentir-se
injustiçado por não ser merecedor deste amor,
infelizmente cada pessoa projeta nas suas relações as
dificuldades de expressar e comunicar aquilo que está
sentindo. Cada ser humano faz o que pode para resolver
suas pendências, o desejo da razão e suas explicações
não conseguem livrar do seu cérebro deste medo de
expressar suas emoções.
Isto é o que consciente ou inconsciente as
pessoas procuram de diferentes maneiras, esta vivência
do amor, o corpo exala este desejo de ser amado, o
cérebro ajuda na manifestação da fantasia, e assim o
72
corpo manifesta através do olhar a necessidade de amar
e receber este afeto. São várias as formas de viver esta
emoção, cada um dentro de suas limitações, ninguém
está livre das neuroses que se manifestam na rigidez de
caráter, na insensibilidade, na dificuldade de expressar as
emoções, no medo de viver o amor, cada um reflete nas
relações aquilo que vivencia inconscientemente.
O amor exige esta cumplicidade ética de
intimidade e respeito, independente do gênero que
constitui esta relação, ambos precisam aprender a cuidar
um do outro, esta expressão de querer e fazer de tudo
para a felicidade do seu companheiro é uma
manifestação de amor. O amor pode manifestar-se de
diversas formas, e talvez a maior delas é aceitar as
limitações e aprender a viver dentro daquilo que ambos
entendem por amor. O corpo possui uma sensualidade
que precisa desta atenção, o afeto passa pela experiência
sensorial, auditiva, corporal e da visualização.
Quando um dos pares entende o amor pela
experiência auditiva e o outro pela visual, percebe uma
distonia em viver a emoção do amor, não precisamos
mudar o modo como cada um aprendeu a sentir o amor,
simplesmente entender que o outro precisa ouvir a voz
dizer “eu te amo”, para o parceiro é bobagem, pois
entende que o amor é verdadeiro quando alguém abraça,
beija, e toca-lhe o corpo. Outro precisa de um gesto
concreto deste amor, por isto o presente, um buque de
flor, uma pulseira, é algo concreto que visualiza como
amor.

73
A insatisfação inicia seu percurso quando a
necessidade afetiva e de sentir-se correspondida não está
sendo contemplada na relação, neste instante começa a
viver o distanciamento, o corpo está entristecido, prefere
a solidão, o isolamento, sente vontade de chorar,
encontra-se num estado depressivo. A depressão está
presente na maneira como cada um interpreta a sua
realidade, o cérebro interpreta as imagens daquela
realidade, assim sente-se insatisfeita, descontente, com
raiva e agressiva. As emoções conseguem deixar o olhar
triste, o corpo descuidado, o rosto tenso sem alegria.
A pior das crises na existência é viver num
ambiente onde existe a repetição, a rotina, não existe a
novidade, nem crescimento, tampouco evolução da
consciência, a vida se torna chata, enfadonha, e aos
poucos vai perdendo a graça de viver. Estabelece a crise
existencial, os valores, a moral, os costumes, as crenças,
os segredos, as promessas, os pactos, passam por uma
nova avaliação, o corpo sente na sua própria carne a
pressão desta rotina, deste estado de infelicidade e desta
vivência de amor.
Quando a pessoa está presa a estas crenças e
promessas dos pactos inconscientes, seu superego
consegue convencê-la de que é melhor morrer
defendendo este tipo de vida, do que experimentar algo
diferente. Principalmente quando existem os filhos, as
vezes o conflito emocional e existencial tem a ver com
experiências do passado que não foram bem elaboradas
e sem perceber projetadas no seu parceiro.

74
Muitas destas neuroses acabam vencendo o
amor, e outras são vencidas, porque a existência pode ser
um espaço de conhecimento e descobrimento das
potencialidades e limitações de ambos, por isto, é preciso
ternura, paciência, bondade, compaixão, perdão, nesta
busca inconsciente do amor. Porém, existe uma condição
ética para poder experimentar esta humanidade,
sinceridade, estar disposto a vencer com a ajuda do
companheiro suas dificuldades emocionais.
Quase sempre a neurose vence, porque existem
as belas desculpas e justificativas, como dinheiro,
trabalho, falta de tempo, estas defesas reforçam ainda
mais o poder das neuroses sobre o domínio da destruição
pessoal. Todos percebem que sua vida escorre ladeira
abaixo, infelizmente muitos estão cegos e preferem
esconder nas defesas racionais, não conseguem ser
sinceros consigo mesmos, muitos preferem perder um
grande amor, desfazer uma família do que dialogar. A
neurose de caráter é este machismo autoritário que sofre
as mazelas de uma cultura falida, um engano, porque
esta disposição em impor sua maneira de pensar não tem
nada a ver com o amor.
Este lado humano sempre precisa de ajuda, não
necessariamente financeira, ou no mundo do trabalho,
mas na solução deste impasse na relação. Porque
representar um papel e segurar esta máscara vinte e
quatro horas por dia leva qualquer pessoa a um
esgotamento total de suas forças, por isto mesmo, é
muito comum a depressão. A doença do corpo é sempre
o acúmulo das vivências que acabam adormecendo o
75
desejo de viver e ser feliz, pois em cada uma destas
células vivencia um pouco da emoção de tristeza,
desencanto e indiferença para consigo mesmo e com os
outros.
Talvez umas das principais dificuldades de nossa
cultura ocidental oriunda do judaísmo cristão, seja a
negação do corpo, e com isto a dificuldade de manifestar
os gestos de afetividade. Pois cada pessoa entende e
procura viver seus prazeres ou aquilo que propicia o
sentido a sua existência, são os valores e qualidades
pessoais aprendidos na sua família. Estes desencontros
culturais na formação do caráter podem ajudar ou
complicar na vivência da intimidade, todos sofrem os
resultados desta vivência afetiva, mas isto não significa
um determinismo, porque mesmo na idade adulta é
possível reinventar e viver diferentes formas de amor.
Quando duas pessoas assumem este
compromisso de constituir uma família, é um gesto de
plena expressão para viver este amor fraternal, sem
dúvida, os conflitos, as brigas, as discussões, os
desentendimentos, acabam proliferando como um vírus
que se transforma numa mágoa, ressentimento, estas
emoções ao longo da convivência acabam influenciando e
afastando as pessoas que sempre amou. Uma mágoa vem
sempre acompanhada de alguma frustração, uma
sensação de injustiça, uma incompreensão, que surge
como uma verdade sobre aquele acontecimento,
geralmente a pessoa fica cega naquele tipo de vivência,
não gosta de falar sobre aquele momento, prefere

76
esconder, reprimir, recalcar e deixar no esquecimento
aquela experiência frustrante e decepcionante.
Cada ser humano independente da condição do
seu gênero tem dentro de si este potencial para poder
reavaliar e repensar a sua relação. Não se pode ter tudo
ao mesmo tempo, mas pensa em realizar este sonho, aos
poucos várias conquistas vão norteando e fazendo com
que este caminho comece a abrir-se para esta nova
realidade do amor.
Às vezes a mente coloca seu foco nas
experiências negativas e ruins que está experimentando,
não consegue aceitar as suas conquistas, as vitórias, o
potencial, por isto a emoção da raiva e ódio conseguem
cegar a pessoa e deixá-la obsecada na sua decisão de
prejudicar e destruir aquele que um dia foi o seu objeto
de amor.
Não existe uma receita para viver a dimensão do
amor, o que existe é a flexibilidade para poder permitir-
se ser maleável e aceitar que as derrotas ou fracassos não
são necessariamente o fim de tudo. Porque em cada
acontecimento surge uma oportunidade para aprender
com os equívocos e sair daquela condição fantasiosa, que
pretendia encaixar as pessoas dentro de sua condição
ideológica. Liberdade para aprender com os outros,
abertura para escutar a ressonância destas experiências
emocionais, ambos possuem um duplo sentido de anular
ou estimular a vivência desta ou aquela emoção.
A mente inconsciente desloca sua atenção para a
inferioridade, descobre no processo de vitimização as
racionalizações para defender o continuísmo de um
77
modelo de vida doentia e infeliz. O humano no homem
precisa do outro para fazer este redescobrimento de si
mesmo, um processo de fazer este confronto entre as
limitações e também de suas potencialidades. O
potencial é sempre inconsciente, porque a natureza
persegue aquilo que o cérebro tem de melhor a oferecer,
a felicidade humana, esta força pode ser representada
pelo pensamento, pela imaginação, pelo seu desejo
imenso de viver esta felicidade.
O humano aparece por detrás deste desejo
insaciável de ser feliz, isto é tão verdade que quando
alguém não consegue viver esta experiência geralmente
adoece, e procura na doença a sua destruição. O amor é
este elixir que revigora e deixa as pessoas fortes e
corajosas para experimentar o que existe de melhor na
condição humana, sentir-se amado, desejado e querido
por todas as pessoas que convivem direta e
indiretamente com sua pessoa. Tudo na vida leva a
pensar, esta reflexão é o caminho de abertura para viver
com mais qualidade a dimensão do amor.
Ao refletir sobre esta condição do amor,
descobre que nem sempre as crises é o fim de tudo,
talvez esta experiência anuncie um novo momento em
sua vida, o que era o fim, tornou-se a abertura do início,
aquilo que a mente pré-anunciava como uma perda ou
fracasso tornou-se o estímulo para lançar-se a novas
experiências, não se trata de traição, porque a pior
traição é negar a si mesmo a vivência do verdadeiro
amor, a vida passa muito rápido, ninguém pode viver em

78
função de dogmas, pactos, promessas, ideologias, o
humano está acima destas convenções sociais.
A pessoa surge em primeiro lugar e nunca as
exigências de um superego que cumpre com a vigilância,
a punição, a obrigação, os medos que atrelam o ser
humano num mar de lamurias e falsas desculpas para
continuar naquele tipo de sofrimento. A existência
cumpre seu papel quando a felicidade, a realização, a
alegria está presente no corpo humano, o corpo é o
receptáculo de todas estas vivências, nele se atrela estas
experiências que podem fomentar a saúde e a vontade
de viver ou então, a doença e a vontade de destruir-se. A
psicanálise serve para estabelecer este vínculo ético com
a humanidade de cada ser humano, uma distinção para
fazer a escuta de crenças e verdades estabelecidas que
faça jus a sua felicidade ou infelicidade.
O conhecimento de si mesmo pode atenuar e
prevenir de vivências frustrantes, a pessoa inteligente se
antecipa e procura neste gesto de humildade e
sinceridade, um mestre, um analista, pode descobrir-se e
utilizar o seu potencial para viver este grande amor à
humanidade, incluindo nesta decisão, o cuidado de si
mesmo.
Este é o primeiro ato de amor, cuidar de suas
feridas, debruçar-se sobre as suas emoções, interagir e
descobrir os desejos de suas fantasias, sair desta
condição ingênua e fragmentada da existência, para
poder propor-se a novidade de um novo ser em gestação
contínua, provocando insistentemente o nascimento de
um novo “eu”.
79
Esta reflexão é um caminho solitário de
aprendizagem, cada pessoa em particular deve descobrir
na existência e permitir-se viver este seu potencial de
amor, não existe nenhum modo de fugir deste encontro
inevitável com o amor a si mesmo, ao outro, a
humanidade, aos filhos, aos amigos, enfim encontra-se
rodeado de pessoas que desejam participar deste amor, a
todos interessam a vivência desta emoção, porque é
capaz de aproximar, solidarizar-se, ajudar, cooperar, e
assim, tornar o homem humano, capaz de amar.
Existe um caminho a ser percorrido e uma
estrada que não sabe onde termina, mas é preciso
coragem para avançar rumo ao desconhecido, a cada
jornada faz novas descobertas, ninguém tem plena
certeza do que está por acontecer, mas o ser humano
deve estar preparado para saber responder à altura as
provocações que a existência coloca em seu caminho, e
fazer destas experiências uma oportunidade para tornar
mais resistente e corajoso para outras tarefas mais
importantes. Os desafios, as frustações são embates
necessários para aprender a lidar com as diferenças.
O ser humano precisa de satisfação para poder
criar coragem, e saber que nem sempre arruinar-se, a
perda torna-se aprendizado, e assim amadurece mesmo
com a dor, e depois se recolhe sobre aquilo que constitui
sua humanidade, é dentro de sua visão de mundo, de sua
inteligência emocional, de suas categorias de análise, que
prioriza algumas áreas de sua vida em detrimento a
outras. Mas o corpo é o espaço que se constitui como a
casa, e cada órgão ou sistema vital acompanha todos os
80
acontecimentos pela comunicação das emoções, este
canal de comunicação é sentido e vivido por toda a
complexidade funcional do organismo humano.
As influências sociais e culturais interferem na
autoestima, o conceito pessoal, a imagem de si mesmo,
inconsciente de suas escolhas acaba refletindo sobre o
lugar onde vive. Este organismo está interligado por
todas as partes que constitui cada órgão específico,
independente de sua função existe uma energia
inteligente mais conhecida como pulsão e emoção, que
torna-se o canal por onde escoa a energia da vida. Então
podemos concluir que a morada das emoções é aquela
pintura que cada um realizou em si mesmo.
Todas as pessoas são a expressão da natureza, da
beleza, do colorido, da intensidade emocional, da
diversidade, da originalidade, da simplicidade, daquilo
que cada um faz com o seu corpo, a estética serve como
prenúncio do desejo, o perfume, o colorido da roupa, as
tinturas, os adereços têm uma nobre função de atrair, de
tornar-se belo, de encantar, de provocar no outro o
desejo de participar daquilo que é bom, produtivo e
amoroso. Um ser está constituído por esta atração em
particular, de aproximar-se daquilo que é belo, atraente,
e que de certa forma é capaz de tornar-se uma fonte de
prazer.
Existem várias belezas nas diferenças e
tonalidades, na maneira de ser e viver, ninguém sabe
muito bem os porquês desta decisão, ao realizar estas
escolhas, sente e vibra com esta presença humana,
naquele momento acredita que elegeu o melhor para a
81
sua felicidade. Existe esta atração por tudo que é belo e
maravilhoso, um ser humano possui estas qualidades
éticas que pode enaltecê-lo na sua condição de humano,
o contrário também é verdadeiro. Mas a beleza intima de
uma pessoa constitui-se pela simplicidade de seu gesto,
da singularidade de suportar aqueles que não o amam, e
saber que não pode tudo, mas que pode fazer de tudo
para viver este amor.
Cada pessoa colhe aquilo que planta, se sua
semente foi cuidada e regada com carinho, amor e
ternura, com certeza vai receber o calor humano, e
utilizar o seu potencial para fazer a diferença, aprendeu
que na essência do seu psiquismo existe este respeito
pela pessoa humana. Por isto que a psicanálise sempre
volta para a sua antiga explicação, a infância é esta
semente que tem o potencial de torna-se belo e
produtivo, tornando-se capaz de fazer aquela
contribuição única no momento certo, que gera os
resultados esperados. Este potencial humano produtivo
está na essência da sua psique, que o faz desabrochar na
beleza de suas ações e na contribuição daquilo que
constitui como segurança e determinação na existência.
O ser humano precisa deste espaço para poder
brilhar, de lutar pela sua beleza estética, de saber que é
digno de viver feliz, de não sentir-se culpado, porque
outros não tiveram a mesma chance, o terreno não era
fértil e a planta nasceu comprometida, mas o sol, a água,
os nutrientes, conseguiram ajudar quem se ajuda. Todas
as pessoas deveriam em algum momento da vida fazer
este processo de escuta da sua psique, entender suas
82
emoções e concentrar seu pensamento e energia em
ações que possam produzir saúde e disposição.
O cultivo pessoal é uma exigência da existência,
porque todos os problemas e dificuldades existem com
uma finalidade, levar o humano a transcender e aprender
com suas limitações, todos estão convidados a sair desta
condição alienante e massificante do modo de viver de
uma sociedade cibernética e individualista. Resgatar as
relações afetivas é sinal desta gratidão que enaltece a
condição humana, aprendendo a compreender a
complexidade destes fios que tecem o tecido das relações
afetivas, e possuindo a sabedoria de ser paciente para
desatar estes nódulos que constituem os blocos que
confundem e impedem a energia da vida de produzir
ações benéficas na existência.
O ser humano precisa da alegria, descontração,
lazer, amigos, lugares, passeios, descobertas, prazeres
que possam despertar a mente para viver este prazer de
viver, cada um constitui a tonalidade da música que faz
da letra uma realidade daquele momento em especial. Ao
estar nesta completa meditação de uma experiência de
abandono, a solidão talvez seja a experiência mais
terrível e assustadora, porque ao estar só, não pode
contar com ninguém, e neste estado egocêntrico e
narcisista se fecha como se fosse uma ostra, porque tem
medo de tudo e de todos.
O amor biófilo não se estende somente as
pessoas, antes, podemos percebê-lo quando oferece o
afago e ternura a um animal, o cuidado de uma flor, das
plantas, e tudo que tem vida e precisa de cuidado. A
83
biofilia aparece nesta manifestação humana, esta
expressão estabelece uma relação de amorosidade, de
afeto, sentida pelas plantas e animais, que também
precisam deste amor, agora imagina como um ser
humano pode viver sem amor, é impossível, porque
existe a necessidade biológica e afetiva de sentir-se
amado e desejado.
Quando uma pessoa esta de bem com a vida
estende este seu amor, a tudo e a todas as espécies que
precisam deste cuidado, não existe medida pra expressar
o amor. Este encontro com a essência de sua biofilia pode
tornar viável os seus desejos mais profundos e
verdadeiros, abrir-se a novas experiências, permitir-se
viver para além das formalidades que estruturam a vida
num quadrado perfeito, entender que em algum
momento, precisa fazer este processo de metanoia, de
oxigenação do mundo das emoções.
Em algum instante necessita sacudir as poeiras
que se instalam e impede à circulação do ar, esta limpeza
da psique inclui transparência. Chega um momento que
uma atitude pode fazer a diferença, altera e tornar a vida
funcional e especial. Estas experiências podem surgir sem
ao menos avisar, inconsciente de suas ações provocam
uma mudança inesperada que torna a vida vibrante e
atraente, porque obriga a ambos, a sair de uma condição
alienante e vivenciar algo novo.
A curiosidade é este desejo de conhecer, de
descobrir, desvelar o que está encoberto pela falta de
visibilidade, transgredir a norma moral, o proibido, o
pecado, também é uma maneira de adentrar neste
84
mundo misterioso da subjetividade que ainda não
conhece. O medo consegue paralisar o olhar e fixá-lo
numa compulsão repetitiva de uma atitude. O desejo de
saber transgredir as regras e normas deve ser maior que
o controle moral do superego, parece um paradoxo, vive
na rotina, mas quer sair desta culpa, não consegue ser
sincero com as suas emoções.
Ao mesmo tempo o corpo se transforma, os
olhos vibram com a novidade, aparece a curiosidade para
transgredir estes pactos, aos olhos daqueles que vigiam e
defendem a moral, não entendem as motivações desta
repressão. Mas a incerteza do futuro retrata nesta
experiência uma nova esperança, entende que pode
permitir-se viver esta novidade do amor, a história se
torna atraente e bela, por tudo aquilo de bom e
maravilhoso que pode oferecer e proporcionar as pessoas
honestas e sinceras com a sua qualidade de vida.
As inseguranças e incertezas são o lugar propício
para viver esta segurança nos braços do amor, se todos
tivessem a clarividência de prever o futuro a vida
perderia a sua graça, a novidade, a descoberta, tudo
estaria perfeito e, portanto não necessitaria fazer este
caminho de inovação. O ser humano possui a capacidade
de dar e receber amor, de lançar-se a novos
relacionamentos, de estar aberto à novidade.
De certa forma sente-se perdido em algum
momento de sua vida, não sabe muito bem para onde ir,
a única saída é perguntar, dialogar, aprender com
alguém, o caminho mais curto e saudável para chegar ao
seu objetivo. Encontrar-se na vida ou fazer as pazes com
85
a existência, precisa antes de tudo viver o amor, sem
amor não existe colorido e beleza nas atividades e
realizações, esta emoção pode abrir o caminho do
reencontro consigo mesmo. Para fazer esta caminhada é
preciso de coragem, determinação, leveza, e saber que o
impossível está prestes a acontecer.
Quem pretende salvar a sua vida precisa do
amor, porque esta união de proximidade, de admiração,
de compreensão, favorece a expressão plena da
humanidade no homem. Inconscientemente todos fazem
esta peregrinação na existência, um caminho, uma luz,
uma ponte, que possa mostrar esta energia que ilumina a
passagem da sombra para a lucidez. Como existe uma
grande dificuldade de expressar em palavras o que sente,
o inconsciente utiliza-se de metáforas e experiências para
mostrar o caminho de retorno a si mesmo.
A consciência sabe o que quer, mas não sabe
como fazer isto acontecer na sua vida, e neste sentido
torna-se dependente do amor do outro, do diálogo, das
conversas, do olhar, da convivência, da intimidade, laços
de ternura que conduz a esta passagem para a salvação
da sua psique. Não estamos falando de entidades, nos
referimos às emoções e pulsões que norteiam as ações
inconscientes, que por ventura a cultura nominou com
outros nomes, querem dizer a mesma coisa com
explicações diferentes.
O superego está coberto de intimidação, inibição,
paralisia, e desenvolveu uma série de disfarces que estão
contemplados numa máscara que esconde a verdadeira
necessidade deste ser, mostram-se fortes, mas são
86
fracos, não sabem amar, destroem e fazem questão de
instigar a descrença e a violência, porque não foram
contemplados com a experiência verdadeira do amor.
Estão envaidecidos deste prazer necrófilo de destruir, de
corromper o sagrado direito de viver e ser feliz, por isto,
utiliza-se do seu egoísmo e narcisismo para fortalecer
ainda mais a sua ambição.
O “eu” está como que sedado por estas falsas
verdades do superego, as crenças limitantes e alienantes
mataram e recalcaram a vontade de voltar a amar, na sua
solidão consome seus psicotrópicos como um agente
químico devorador de tristezas, devolvendo ao cérebro
uma substância capaz de enaltecer a superficialidade e a
mentira daquela emoção. Todos estão procurando a
ponte que pode propiciar a passagem para viver o amor,
sem esta ligação estaria impedido de chegar ao outro
lado da experiência.
O inconsciente é uma energia que está além da
dimensão racional, sua compreensão da realidade está na
totalidade da natureza, sua ação perpassa os limites dos
sentidos da percepção, por isto mesmo é capaz de utilizar
deste mecanismo de atração para aproximar-se das
emoções e necessidades de outra pessoa, que talvez seja
a sua, porque esta atração une nas diferenças a mesma
pulsão. Por algum momento, por longos anos, aquelas
pessoas vivem juntas aprendendo e vivendo segundo as
suas necessidades, quando conseguem realizar seus
sonhos e objetivos sentem que conseguiram dar conta na
existência do sentido de viver.

87
Porque o positivismo racionalista da
modernidade entende que ao reprimir as emoções e
controlar seu fluxo normal, poderia dominar e prescrever
os componentes químicos capazes de influenciar no seu
estado de animo e motivação. A farmacologia não está
interessada em compreender e interpretar os conflitos e
exigências sociais que pesam sobre a família. A terapia
analítica interpreta estes sintomas como uma linguagem
das imagens e símbolos, para libertar o paciente do
processo ideológico de alienação.
Chamam a isto de terapia comportamental
cognitiva, ainda não sei o que é pior, viver atrelado a
estas exigências sociais e culturais ou tornar-se um
revoltado, pelo menos consegue exteriorizar a sua
indignação. Mas isto contraria os desejos pré-
estabelecidos daquela organização social, enfim
acreditam que podem utilizar as emoções e submetê-las
ao controle racional, por isto que a razão possui este
status de racionalização. O fundamento de sua terapia
baseia-se neste processo de adaptação social, cultural e
educacional, os condicionamentos reforçam aquelas
atitudes aceitos pelas classes sociais que defendem
aquela ideologia econômica.
Mas como todos percebem, a existência é feita
de mistérios, de incógnitas, de incertezas, nada está
pronto e tudo está por ser definido, este é o estado da
incompletude, daquilo que não se tem, e de tudo aquilo
que se pode conseguir, as incertezas e as possibilidades
andam juntas. A energia inconsciente utiliza outro tipo de
comunicação que ainda desconhecemos, mas todos
88
podem conviver com as supressas boas e malignas,
porque acontece independente da vontade, então
devemos pensar que existe um ponto de atração
inconsciente que se comunica independente da razão.
Existe nas pessoas esta energia psíquica que
procura na intenção uma comunicação com aquele lugar,
este campo eletromagnético possui uma identidade na
informação, que se torna exata sobre os seus desejos
inconscientes.
O psicanalista é este profissional que possui esta
sensibilidade e conhecimento para saber interpretar as
verdadeiras razões daquele conflito humano, nada
acontece por acaso, porque nas profundezas do
significado, aquelas emoções encontra-se a verdade
sobre a origem daquele acidente.
Existe este fluxo de energia que se antecipa no
tempo e recria uma chance para que aqueles desejos
aconteçam, por isto mesmo, a razão naquele momento
se desconcerta e procura explicações para aquela reação
emocional que está acontecendo, porque aquele
encontro fugiu do seu controle racional.
Alguns falam em amor a primeira vista, outros
em destino, mas todos concordam com o fato, que
aquele momento não aconteceu pelo simples desejo da
razão, não houve uma logística pensada e organizada
capaz de prover aquele acontecimento. O ser humano
retrata no corpo e nos seus olhares os verdadeiros
sentidos de suas necessidades inconscientes,
independente de ser homem ou mulher, ambos estão
atraídos por este desejo irresistível de viver o amor. Num
89
primeiro momento entra em ação o superego,
procurando o controle da situação, depois surge a
espontaneidade e as defesas acabam desaparecendo, no
seu lugar, surge a tranquilidade e segurança.
Todos procuram esconder suas verdades
pessoais, escondem as razões do coração, disfarçam a
verdade sobre seus sentimentos, procura no enlace de
suas palavras o discurso para esconder os verdadeiros
fatos. Toda pessoa passa a ser interessante como fonte
de aprendizado, pois a atração é algo irresistível e
incontrolável, está muito além do controle da razão.
Talvez a sensualidade precise da ingenuidade, da
sinceridade, daquilo que retrata a originalidade que os
torna sedutores.
Todos estão sedentos em viver as experiências
verdadeiras de amor e muitas vezes encontram
decepção, traição, atitudes que enaltecem a necrofilia.
Mas independente da condição social, profissão ou
posição social, existe algo que encanta e adormece os
sentidos, os olhos estão petrificados ou hipnotizados por
aquela imagem, ambos entendem que as palavras e
discursos não interessam mais, existe algo de atrativo
que está acima das palavras. O corpo enaltece as
mentiras que estão contidas nas palavras, a tonalidade da
voz, a rigidez muscular, a tensão nas mãos, comunicam
uma realidade no organismo que destoa de suas palavras.
Quando fala, o som evidencia desmotivação, os
olhos fogem do confronto, o sorriso é triste, a cabeça
cabisbaixa, as mãos tensas, falam de outra realidade, da
sua necessidade de amor. A carência naquele momento
90
serviu de motivação para avançar rumo ao mundo
desconhecido dos afetos, talvez aquela oportunidade seja
única em sua vida, e nem sempre a transgressão traz a
desgraça, às vezes propicia a vivência daquilo que mais
precisava a experiência de viver um verdadeiro amor.
Porque o proibido excita e convida a fazer aquilo
que está reprimido, existe algo de mágico em contrariar
as normas pré-estabelecidas, quebrar as regras e
aventurar-se num caminho que talvez não tenha volta. É
preciso correr este risco? Todos estão enlouquecidos por
este amor, são capazes de fazer qualquer coisa,
abandonar família, emprego. O que existe de mágico no
amor que consegue enfeitiçar as mentes mais
esclarecidas? De onde surge este desejo com tamanha
força que é capaz de abandonar tudo e começar do zero
um novo romance?
Na transgressão, o nervosismo, a vergonha, o
medo, aparece porque está desobedecendo às ordens do
superego, ao afrontar os conselhos dos seus pais, sente
esta tristeza, desânimo, apatia, torna-se culpa para
procurar uma punição pela sua falta de amor. Enquanto
alguns vivem de acordo com as normas pré-
estabelecidas, e de certa forma aceitaram esta condição
de vida, preferem não pensar, porque refletir torna-se
um incômodo, aceitam e tornam-se submissos as
migalhas de afetos e daquilo que sobra de amor. Aceitam
e vivem de acordo com esta realidade, avistam toda a
realidade, mas para sobreviver fingem que não enxergam
nada.

91
Esta coragem de ser confronta-se com a
acomodação, pelo menos encontrou um sentido maior na
sua vida, é preciso ousadia para saber que o amor está
próximo do ódio e da dor. Por isto não pode ter medo, se
pensar assim, nunca se permitiria viver o amor, antecipa-
se porque o pior vai acontecer e ninguém gosta de
experimentar a rejeição e o abandono, escondem-se por
detrás das compulsões, obsessões, vícios, doenças, a
fragilidade física impede qualquer compromisso para
viver a dimensão do amor.
O único modo de fugir desta realidade é sedar a
consciência com seus psicotrópicos, drogas, porque
anestesiam a dor de sua consciência, talvez não seja por
acaso, o consumo exagerado de drogas ilícitas e
medicamentos. Estas são as supressas da existência, ao
mesmo tempo em que gera desconforto, abre novos
caminhos para fazer inovações. Assim, ambos se lançam
neste novo desafio de conhecer-se, existe um itinerário a
ser cumprido, para fazer da sedução uma conquista, este
tempo é necessário para colocar em primeiro lugar a
pessoa e não os jogos infantis e sexuais, que deveriam ser
vividos na adolescência.
Ambos estão sendo levados pela pulsão de vida,
este motor que impulsiona o sentido da paixão, os
impulsos se envaidecem de suas conquistas, porque os
olhos estão seduzidos pela beleza, neste instante o corpo
não obedece mais as leis e regras da razão. O coração
bate mais forte, o desejo se acentua, e não existe
experiência mais gratificante que viver este momento
único e mágico do amor. Existe no encontro o silêncio
92
que fala pela presença, pelo olhar, pela postura do corpo,
alguém precisa preencher este silêncio com histórias,
palavras, mas é possível captar a energia que se
movimenta naquele encontro.
Para sentir-se vivo e produzir, é preciso amar,
tornar-se fértil, e assumir-se neste compromisso de
expressar o amor para o além dos seus limites. Mas o
conhecimento da história de vida do seu parceiro é
condição para entender e compreender a maneira de ser
pensar e agir de uma pessoa, este processo de
conhecimento acontecerá por toda uma vida, e cada um
tem sua história em particular para revelar ao seu
companheiro.
As questões da relação se complicam quando
inicia com mentiras sobre a sua história, por medo de
perder a amizade e conquistar o seu amor, distorce e
engana, diz que é solteiro enquanto é casado. Notamos
que a questão ética acompanha o processo de
internalização da imagem do outro, ao mesmo tempo em
que conversa sobre a sua vida, seu cérebro aguarda
aquele momento de sinceridade e honestidade.
Talvez por isto que nas relações exige-se muita
ética, transparência, verdade, inclusive para fazer justiça.
Neste diálogo ambos não sabem o que fazer para agradar
e seduzir o seu parceiro, fazem de tudo para chamar a
atenção, é o início da conquista, procuram ser simpáticos
e mostrar-se interessado pela maneira como cada um
vive sua vida. Assim os interesses são recíprocos,
gostariam de conhecer-se, de saber das qualidades e

93
valores, de tudo aquilo que pode somar para sustentar
esta relação prazerosa de amor.
É um novo caminho, novas perspectivas surgem,
no início sabem que devem manter toda cautela possível
para não decepcionar o seu parceiro, ambos estão
estudando um ao outro, ceder ou esperar é uma
condição muito comum para aquele momento da
conquista, em outras circunstâncias não sabemos. Coloca
sua atenção sobre como vive sua vida, amplia o raio de
percepção para além dos seus desejos. Conhecer os
desejos, prazeres e maneira de viver do seu mundo
vivido, é uma prioridade na relação.
O conhecimento daquilo que dá prazer a sua
vida, e de como aprecia seu tempo, é uma condição para
análise desta pessoa que está prestes a se envolver, todo
cuidado é pouco, paciência, observação, sobre o tipo de
satisfação e realização que este parceiro encontra sentido
na sua existência. Inicia-se uma grande amizade, como
são adultos sabem dos prós e contras desta relação, não
sabem bem o que está acontecendo, mas existe alguma
emoção perturbadora que incomoda e aumenta o estado
de ansiedade.
Este outro ainda é um desconhecido, talvez esta
aventura amplie a excitação de correr risco, sofre as
consequências da adrenalina que escoa pela corrente
sanguínea, enfim aos poucos a confiança, o
companheirismo, a coragem, amplia-se permitindo
sentir-se a vontade diante da presença do seu objeto de
amor. A descontração diminui com a ansiedade, aos
poucos o desejo aparece no olhar de quem possui o dom
94
de estabelecer esta união, sem perceber os olhares estão
enxergando de maneira diferente este encontro, existe
um despertar natural deste desejo de amar, algo
aproximou estas pessoas para viver aquele momento
intenso de amor.
Esta é a intensidade de uma emoção de dois
seres que olham e percebem que existe algo mais além
daquela amizade, este encontro pode fomentar uma
aproximação, são dois mundos distantes que pretendem
interessar-se um pelo outro. O primeiro ato de
receptividade responde a este desejo de estar junto, de
conviver, de participar, existe neste encontro algo de
magia, de bem estar, de querer estar junto. Os
hormônios enaltecem o valor do afeto, de sentir a
presença do outro, de dar e receber carinho e amor.
Nem todos estão preparados para o inesperado,
o corpo enaltece a presença do seu desejo, de viver, de
segurança, de cumplicidade, de compreensão, emoções
que propiciam a vivência de tudo de bom e maravilhoso
que existe num ser humano. A pulsão de vida está acima
da razão, porque nem mesmo os códigos morais e éticos,
conseguem impedir a liberação da pulsão do amor, uma
força que está enraizada nesta energia emocional de
amar e também de ser amado.
Existe o medo da rejeição, das suspeitas, da
falsidade, do abandono, vivências que aparecem de
maneira inconsciente sem o pleno controle da razão,
quando surge o tema do amor, a insegurança surge como
um antídoto para paralisar e não deixar que o pior

95
aconteça, estas vivências do passado aparecem na forma
de cobranças pelo superego.
Uma cultura do medo, da cobrança, da vigilância,
da perseguição, quando afronta os códigos morais de
uma determinada sociedade, por isto mesmo a tensão, a
ansiedade aparecem nas mãos que estão geladas, no
olhar sombrio, na timidez de cada palavra, num corpo
que faz questão de esconder-se para não mostrar seu
complexo de inferioridade.
Apesar de tudo, o ambiente, os gestos, falam por
si mesmos, principalmente quando sente que algo
diferente está sendo vivenciado, o sorriso está repleto de
nervosismo, o corpo fala daquilo que sente, não existe
nenhum modo de esconder aquela emoção. Existe uma
mistura de emoções medo e prazer, vontade de sair e
ficar, uma experiência inexplicável para quem vive aquele
momento único e mágico do encontro. Por isto mesmo,
as emoções de qualquer ordem são sempre
inconscientes, e quase sempre dominam a situação,
impondo e fazendo valer o seu desejo.
Existe algo desconcertante, perigoso, de censura,
quando trata-se de viver uma experiência do amor
proibido, qualquer pessoa ficaria entusiasmada diante de
um encontro as escondidas, infringir as normas éticas do
bom relacionamento, as vezes é a única saída. O
superego consegue impor-se através do domínio, da
punição, do medo, porque ninguém gosta de ser
ridicularizado, perseguido, julgado e condenado, existe
de fato esta força moral social e religiosa. Todos de certa
forma sentem-se presos a estas normas e regras, porque
96
ninguém é capaz de viver longe da cultura de uma
sociedade.
Por isto mesmo, constata-se que o inconsciente
representa as forças morais que conduzem o
comportamento do que é certo e errado. Um drama que
aparece no início de qualquer relacionamento é a
segurança sobre algum traço de seu caráter, são dois
mundos, duas formas de interpretar a realidade, de
encarar os problemas, de valorizar a existência. E nem
sempre é fácil coordenar as ações do bom
relacionamento, porque muitos confundem relação a
dois com prisão, domínio, posse, porque se esqueceram
das velhas promessas de autonomia e liberdade.
E quando a liberdade, a individuação, a
autonomia desaparecem da vida de uma pessoa, sufoca e
consegue matar a criatividade, confiança, e
determinação. Geralmente o diálogo e conhecimento de
seu parceiro são decisivos para aproximar-se ou não de
uma convivência mais profunda, ainda assim, existe
muito medo e tensão sobre o início desta paixão, porque
através deste desejo incontrolável está a sexualidade. A
natureza humana utiliza-se de seus adornos e seduções
para enfeitiçar e encantar aquela pessoa que é objeto do
seu amor.
De fato existe um nível de consciência sobre o
que está acontecendo, porém este mistério do mundo
subjetivo esconde as verdadeiras razões daquela
aproximação, são estes fenômenos da relação a dois que
deixam ambos extasiados pela efervescência da fantasia.
Mas o mais importante de tudo isto é o desejo insaciável
97
por viver a plenitude deste amor, uma carência que
acompanha o ser humano a cada passo pela sua
existência, porque o pior dos medos é a solidão, e não
existe nada que possa ocupar este lugar do outro.
As imagens da fantasia seguem o itinerário da
neurose, geralmente os bloqueios, os pensamentos
negativos, as falsas justificativas, escondem a verdade
sobre o que se passa no íntimo daquela pessoa. Os
abusos físicos, psíquicos e emocionais sempre trazem
velhas recordações de um passado que acaba por
interferir sobre as escolhas, porque o olhar e seus
julgamentos dependem das emoções que escondem no
seu íntimo o medo do abandono. Tal insegurança
enaltece e fortalece a solidão, o isolamento, e com isto
empobrece as suas relações, porque na pior das
hipóteses procura na pessoa errada as respostas para
confirmar o seu medo da rejeição.
As escolhas nem sempre são conscientes, esta
dimensão inconsciente pertence a estas imagens que
estão sendo direcionadas pelas emoções. O complexo de
inferioridade possui suas armas capazes de matar
qualquer tipo de aproximação no mundo dos
relacionamentos, quanto maior o medo de perder o
outro, mais a necessidade de controlar, de vigiar e
controlar. As racionalizações, negações, seguem a
direção da estrutura da neurose maligna, porque
enaltecem a solidão, defendem o isolamento, e possuem
fortes argumentos de que não existe ninguém sincero e
capaz de amá-lo de verdade.

98
Assim esconde-se sobre suas falsas
racionalizações, o medo prolifera-se por todos os gestos,
sente-se livre para viver as compulsões e adições. A
biofilia do amor precisa que na essência desta vivência,
exista confiança, cuidado, cumplicidade, afetividade,
respeito, se existiu esta falta nas relações com seus pais e
irmãos, compromete e impede de viver esta experiência
de amor.
É claro que existe exceções, muitas pessoas
tiveram que fazer anos de análise, descobrir-se para
poder viver a emoção do amor, mas a grande maioria das
pessoas não tiveram a mesma sorte, ficaram prejudicadas
pela falta deste vínculo, enfim, não adianta se lamentar,
fazer-se de vítima, de coitado e miserável, utilizam do seu
passado para justificar o prazer masoquista.
No início deste processo de conhecimento
mutuo, existe muito cuidado para preencher as
expectativas, por isto, muito do que falam é para
conquistar e demonstrar de que vale a pena confiar em
sua pessoa. Este processo de convencimento vem junto
com a sedução, procuram com insistência fazer com que
aumente a sua credibilidade. Uma das questões muito
sérias está relacionada com o tema da traição, na cultura
atual a fidelidade é colocada como uma qualidade, a
sinceridade, por isto este processo de conhecimento do
outro acontece durante toda uma vida.
Geralmente os olhos estão voltados para
enxergar as qualidades e não percebem os defeitos,
depois de um longo tempo, a paixão deixa de existir,
então aparece aquilo que não gostaria de ver, porém
99
nem sempre a subjetividade consegue enquadrar-se ou
adequar-se ao desejo. As práticas autoritárias no
relacionamento aumentam ainda mais o sofrimento,
porque procuram com insistência fazer valer a sua
palavra, e não existe espaço para compreender e muito
menos entender as motivações que levaram aquela
relação amorosa a ruina completa.
Porque onde existia amor agora aparece dor e
ódio, no início tudo era um mar de rosas, beijo, sexo,
troca de carícia; depois inicia o processo de desgaste,
aparecem as crises, as dificuldades, a desilusão, a tristeza
e quase sempre a depressão. Isto nos faz pensar o quanto
as pessoas estão mal preparadas para viver esta emoção,
infelizmente muitos sofrem e acabam adoecendo pela
falta de amor, está mais que comprovado que a
indiferença, a mágoa, a raiva, não resolvem o problema
da intimidade.
São dois fatores importantes neste processo de
conhecimento, a origem de sua família e se pretende ter
filhos ou se já tem filhos, esta conversa é corriqueira,
qual é a sua profissão, etc. Às vezes a relação deixa de ser
uma conquista e passa a ser um contrato de risco que
inclui uma boa convivência, jogos de interesses, aquela
cumplicidade não existe mais, é coisa do passado. Cada
pessoa vive sua realidade, realiza suas escolhas e toma
decisões, às vezes acertadas e equivocadas, não existe
um parâmetro para enaltecer esta qualidade em
detrimento de um defeito de caráter.
Estamos numa sociedade consumista e capitalista
onde a pessoa vale mais por aquilo que ela tem, do que
100
os valores que cultiva em sua vida, mas todos concordam,
quem assume este estilo de vida, em algum momento
não suporta e não aguenta mais viver naquele papel de
mentira. Quando as pessoas faltam com a verdade e
sinceridade a desconfiança acentua um mal estar nestas
relações, aos poucos esta neurose de caráter desenvolve
um interesse pela mentira, superficialidade, falsidade,
estas atitudes favorecem o desastre inevitável da relação.
Como muitas aprenderam a representar seu
papel, não gostam de pensar a relação, aceitam as coisas
como são, e mesmo na doença e sofrimento continuam
no seu processo de autodestruição. Infelizmente a
superficialidade e a falsidade prosperam a passos largos,
as decepções, as traições, a falsidade está na pauta do
discurso daqueles que sofrem por falta de amor.
Todos percebem, os olhos enxergam aquilo que
não deveria ver, mas a carência é mais forte que a
percepção da realidade, naquele momento de
fragilidade, envolve-se numa relação doentia e
comprometedora, que em vez de produzir paz, alegria e
felicidade, provoca sofrimento e mágoa.
Inconsciente de suas ações toma decisões
equivocadas, estas escolhas precisam ser resgatadas, às
vezes o preço é alto demais, e numa atitude de
desespero somatiza ou desenvolve algum tipo de doença.
A doença é o lado frágil e sensível da existência afetiva,
como as emoções não conseguem aflorar, não existe
espaço para viver este amor. Sempre utilizam das defesas
racionais para sustentar a sua imagem de segurança e
felicidade baseados nas normas e leis externas que
101
favorecem a aparência, a monotonia, a rotina de uma
vida sem graça, sem vida, sem alegria, sem esta
expressão de criatividade, o amor desaparece, e em seu
lugar aparecem os sintomas psicossomáticos.
Não existe nada muito fácil entorno do amor,
principalmente para aqueles que trazem na sua bagagem
emocional frustrações, inferioridade, medos, abandonos,
abusos, que mesmo numa situação financeira e
intelectual aprazível, não consegue solucionar o impasse
destas emoções que se alastram como um vírus sobre a
intimidade do casal.
Muito do que está acontecendo é inconsciente,
geralmente acompanhamos as queixas, críticas, frutos de
uma catarse que precisa acontecer, e o pior, sem análise
desta relação a experiência pode voltar a repetir-se,
assim, confirma a sua tese, realmente o amor não existe.
O amor possui suas exigências, porque nem
sempre os bens materiais suprem ou conseguem
preencher este vazio existencial, esta emoção carrega na
sua essência uma vivência que comprova e aprende que
vale a pena viver pelo caminho do cuidado, do afeto, do
respeito e sinceridade, estas qualidades éticas enaltecem
e deixam o amor com uma estética de beleza, de
proximidade, de raridade. Mas a ética não é uma
condição da razão, mas um aprendizado concreto e real
que estabelece os níveis e graus dos investimentos desta
relação humana.
Quando o casal começa a concorrer ou disputar,
quem tem mais poder, surge então a vingança, ódio,
raiva, estas emoções afastam e não colaboram para unir
102
as pessoas. Mas todos têm suas fantasias e desejos, e
nem sempre falam a verdade, ao contrário, mentem e
dizem aquilo que as pessoas querem ouvir, falta
sinceridade, honestidade, porque representa este papel
de ator, esta envolvida nesta mascara da mentira, não
existe coerência e congruência entre aquilo que diz e
vive. As decepções e as descrenças em relação ao amor
enaltece a presença da neurose maligna.
A vida é cheia destas surpresas, o ser humano
nunca está contente com aquilo que conquistou, existe
de fato a insatisfação, porque nasceu para viver o melhor
e não o pior, não pode estar contente com as suas
realizações, porque acredita que existe sempre algo
melhor para viver. Esquecem que por detrás daquele
corpo, da relação sexual, do olhar de sedução, existe uma
subjetividade de traumas, medos, inibições.
O ser humano carrega estas duas realidades, e
quase sempre, procura o melhor e não o pior. Entende
isto como algo natural, porém precisa aprender a
conviver com as perdas, os fracassos, e acima de tudo,
perdoar-se e perdoar aquelas pessoas que não
conseguiram preencher as suas expectativas.
A humanidade reacende este grande debate
entre a fantasia e a realidade do que é possível viver
numa relação de amor, independente da sua condição de
gênero heterossexual, homossexual, bissexual, porque o
amor está muito além da simples condição genital, então
percebe que não é apenas um pênis, vagina, ânus, que
pode dar conta desta relação, talvez possa ser um meio
de prazer, porém não garante a continuidade de
103
valorização e respeito deste amor a dois. A pessoa
humana não depende do seu pênis ou vagina para ser
feliz, mas de sua inteligência, de seus valores éticos, de
sua honestidade que servem para resolver qualquer
questão de gênero.
Numa sociedade patriarcal e machista é muito
comum enaltecer e defender o heterossexual e
recriminar o homossexual, mas no final das contas,
descobrimos que os ciúmes, a inveja, as inseguranças, os
medos, as agressões, o autoritarismo, aparecem em
todas as relações amorosas. Depois de um tempo a
relação dissipa-se em conversas frívolas e sem sentido,
principalmente quando os filhos saíram de casa e estão
realizando os seus sonhos de amor. A crise de abster-se
do prazer tem a ver com este encontro consigo mesmo,
de perder o medo de ser autentico, e deixar de lado esta
tentativa de vender uma imagem de segurança.
Existem diferentes tipos de amor, amor a uma
casa, ao trabalho, aos filhos, amigos, animais, plantas,
porém o maior desafio ainda encontra-se nesta interação
a dois, como a sociedade não valoriza e muito menos
prepara os adolescentes para viver esta dimensão da
alteridade, muitos aprendem através dos erros e acertos,
e junto com isto, acumulam desconfiança, mágoas,
violências, enfim, estão infectados pelo vírus do medo de
amar. Cada pessoa possui uma subjetividade que precisa
encontrar sentido, porque naquele momento histórico de
sua vida não conseguiu preencher suas expectativas,
agora encontra-se descontente, infeliz, precisa abrir-se a
novas experiências.
104
O inconsciente pode desenvolver muitos
caminhos para proliferar a sedação da consciência, a
negação dos afetos, a expressão do amor, existe muitas
formas e meios para afastar ou impedir a vivência desta
emoção. Os sintomas psicossomáticos, as doenças
crônicas, aparecem como a saída mais plausível e
inteligente para situações difíceis de resolver, porque na
doença não existe questionamos e sim compaixão, pena.
Entende este sofrimento como uma causalidade orgânica
e não como reminiscências de experiências dolorosas de
emoções.
Quando percebe a expressão do inconsciente,
pelo caminho do discurso, principalmente quando a voz
inferiorizada pela desconfiança esconde as verdadeiras
razões de sua insegurança. A palavra nem sempre diz a
verdade sobre o que se passa no seu mundo emocional,
porque determinadas afirmações e constatações podem
ser muito difíceis de falar e aceitar. A neurose existe
como uma experiência que zela pelas suas verdades, a
estrutura de engano, de usurpação da confiança, da
exploração, da mágoa, enaltece a expressão de sua
dinâmica de acabar a relação sempre com abandono e
traição.
Porque algumas pessoas vivem este tormento?
Porque fazem de tudo para conquistar o seu amor, a
confiança, a intimidade, depois de fazer com que o outro
se apaixone, inicia-se o processo de afastamento, desta
forma a emoção da raiva expressa aquilo que vivenciou
como sendo amor. Muitas vezes a neurose estrutura-se
sobre uma falsa percepção da realidade, este é o caso
105
mais comum, vive o amor doentio como se fosse
abandono, traição e exploração.
Por isto este tipo de neurose leva a pessoa a um
completo esgotamento de suas forças psíquicas, suas
decisões são mais egocêntricas e narcisistas do que
solidaria e ética. A pulsão necrófila impõe seu desejo, a
neurose se beneficia da ingenuidade e carência afetiva,
estes casos se confirmam quando existe um casal
sadomasoquista, ao recriar a condição do sofrer, alguém
experimenta a dor da traição. Mas independente do seu
estado de consciência, ambos seguem um itinerário de
cumplicidade, porque sabem de antemão que suas
discussões sempre terminam em agressão e violência.
Fala de amor, quer viver o amor, procura o amor,
defende o amor, mas a sua vida está tomada pela
compulsão, uma pulsão destrutiva que racionaliza e
justifica seus atos como um caminho de autodestruição.
Um gozo que aparece por detrás do sofrimento, por isto
ocupa este lugar sádico, ao masoquista cabe viver em
silêncio este abandono, na solidão, no isolamento
procuram o amor destrutivo e vivem esta psicopatologia.
A razão diz estar sóbria destes vícios, e proclama com
suas verdades como se fosse o único caminho possível
para viver este amor por intermédio da dor.
A pessoa muda, as exigências aparecem, os
desejos acontecem, a vida é mudança e ninguém pode
ficar parado no túnel do tempo por incorrer no erro da
repetição e do fracasso. A inteligência da natureza
organísmica segue este caminho de auto atualização, de
aprendizagem, de descobertas, de curiosidade, este
106
processo de evolução da consciência que perdura por
toda a existência, não existe nenhum modo de viver sem
perceber que a mudança é inevitável, o contrato precisa
ser refeito.
Sempre existem mudanças, mas para que
aconteçam, precisam de uma nova experiência, de
diferentes formas todos estão em busca deste amor, e
para descrever esta emoção precisa estar consciente de
que as crises são inevitáveis, nem sempre a rotina e a
mesmice consegue preencher as expectativas daqueles
que vivem o amor. Esta dimensão do estado de
inconsciência favorece a existência destas vivências
amorosas, que podem resolver problemas ou criar novos
desafios, depende sempre do nível de consciência sobre
o que está acontecendo na vida emocional.
As pessoas tem medo de mudanças, mas elas são
inevitáveis, é uma necessidade para haver transformação
e evolução. Não existe vida sem desafios e mudanças, a
rotina, a repetição não desenvolve a inteligência, todas as
experiências boas e ruins dependem da interpretação de
cada pessoa. Nem sempre possuem aquilo que desejam,
mas tem a capacidade de em algum momento de sua
vida realizar os seus sonhos, parece-me que este
aprendizado em relação às perdas, é uma oportunidade
para seguir mudando a maneira de pensar, ser e agir em
relação ao amor.
A única pessoa que pode contar nos momentos
difíceis é consigo mesmo, este fantasma do medo
persegue a todos, porque imagina sempre o pior e nunca
o melhor, e neste caso prevalece a acomodação, a rotina,
107
não existe estudo, aprendizagem, tudo está como sempre
esteve, da mesma forma. O medo é uma emoção que em
alguns casos pode ajudar e em outros prejudica,
principalmente quando precisa tomar decisões. O
problema é que estes medos acabam entorpecendo a
consciência, tornando-se uma espécie de droga que
aliena e paralisa qualquer ação no sentido da mudança.
Talvez a beleza da vida esteja no desconhecido,
nos acontecimentos inesperados, nas descobertas. A
existência se alinha de acordo com os desejos, e quase
sempre possui a mesma intenção, sem perceber as
decisões e realizações esta de acordo com as pulsões,
neste sentido a natureza humana fecunda sua
transcendência sobre os desejos inconscientes. Ninguém
pode aventurar-se a relatar no presente o que acontecerá
no futuro, mas esta realidade do passado pertence à
qualidade do presente e certamente influenciará a
competência deste futuro.
O sentido mais belo da existência relaciona-se
com aquilo que jamais poderá prever com absoluta
certeza, principalmente as experiências de amor, afeto,
alteridade, sendo que a vida vai desenhando seus
contornos, e aos poucos este formato preenche o
colorido das emoções, muitos são os caminhos que uma
pessoa precisa percorrer para chegar a um objetivo.
Como existe este princípio da imprevisibilidade, todos
torcem e fazem de tudo para que os acontecimentos
sejam maravilhosos e produtivos. Não existe nada sem
um sentido maior, as perdas provocam em qualquer
pessoa, um novo processo de ressignificação, nasce desta
108
vivência um olhar mais profundo e diferente para poder
sobreviver emocionalmente e psicologicamente.
É claro que estas atitudes contrariam a evolução
da consciência, as psicopatias e doenças crônicas
possuem uma única finalidade, traduzir todo este legado
das “humanitas” em dor e sofrimento. Apesar de tudo
renasce a esperança, porque certos valores éticos
enaltecem e dignificam a espécie humana, como
responsabilidade, respeito, honestidade, sinceridade,
sensibilidade e gentileza. Estas qualidades fortalecem e
dignificam o que existe de mais belo e sublime no amor,
sem elas o coração endurece, os olhos ficam fixos na
desconfiança e a timidez impede um diálogo mais
profundo sobre a condição de vida.
E uma das condições para viver com saúde e
alcançar a felicidade é estar de bem consigo mesmo,
gostar do que faz, e acima de tudo, não mentir para si
mesmo. A vida é ótima, tranquila, as pessoas são
camaradas, existe paz, não falta nada, esta realidade é
uma verdade porque existe solidariedade, compreensão,
ajuda mutua, esta convivência propicia uma segurança
material e emocional. Este princípio de cooperação e
fraternidade ainda existe, e quem experimenta esta
alteridade sente-se cuidado, afetado por este amor
fraterno das pessoas de sua comunidade.
Numa cidade pequena ainda se pode viver com
tranquilidade, não existe roubo, homicídios, permanece
um principio ético de um cuidar do outro. Esta
solidariedade mostra o quanto de bondade e amor ainda
existe no coração destas pessoas. Pode viver sem medo,
109
não existe uma insegurança generalizada nestas
pequenas comunidades de pessoas, porque nestas
relações ainda existe confiança, sensibilidade e
compreensão. Podemos perceber nos laços de amizade e
fraternidade, uma humanidade que se avizinha a uma
irmandade de pessoas, que se cuidam e protegem-se
umas as outras.
A preocupação excessiva e obsessiva sobre o que
os outros vão dizer são resquícios de uma identidade
desconfiada e insegura, que acaba projetando seus
medos sobre muitas pessoas. Na infância se ganha muitas
coisas, afeto, compreensão, cuidados, atenção, educação,
mas ganhar a confiança, o amor das pessoas que se ama,
não é tarefa muito fácil, porque todos independente de
ser homem ou mulher, possuem a mesma condição
humana, e procuram de diferentes maneiras, encontrar-
se com o amor de alguém.
Nesta caminhada cada um escolhe o seu roteiro
para percorrer, porque esta necessidade inconsciente de
amor precisa ser satisfeita, os antigos sonhos eram bons
sonhos, e muitos deles apesar de serem bons não se
realizaram, assim aprende a conviver com a frustração
daquilo que não conseguiu, apesar de tudo o ser humano
almeja por objetivos bons e saudáveis, muito deles
ficaram apenas na imaginação, outros foram vivenciados
na fantasia, mas às vezes a realidade é dura demais para
que façam parte de sua vida.
O ser humano está sempre procurando o seu
verdadeiro amor, porque sem esta emoção é uma flor
sem perfume, sem vida, sem cor, perde o sentido e o
110
desejo de viver. Quando experimenta o amor a vida volta
a brilhar, o organismo sente-se reabilitado, os olhos fixam
na imagem da pessoa amada. O sentido da existência
passa pela realização dos seus sonhos, porque ao
alcançar seus objetivos sente-se realizado e feliz. A
competência favorece uma aproximação com a saúde,
porque viver com resultados positivos facilita uma
relação favorável com a existência.
Toda e qualquer experiência mesmo aquelas
infrutíferas podem ser usadas em algum momento a
favor de sua evolução pessoal. Inconsciente de suas
atitudes não sabe, não tem certeza sobre nada, apenas
viaja pelo tempo e tenta situar-se num espaço limitado,
por isto, todos são admiradores do calendário, do relógio.
De certa maneira as emoções não sofrem com o castigo
do tempo, sua expressão está arraigada nas profundezas
do inconsciente, sua genética passa de geração após
geração, e assim permanecem eternas. Até que um dia,
alguém tenha a coragem e lucidez para estabelecer uma
relação dialógica com estas emoções, que muitas vezes
trazem na sua essência de fenômeno muito medo e
inibição.
As emoções são vivências carregadas de crenças
que interpretam a realidade dos fenômenos sobre um
crivo pessoal, e assim desenvolve-se uma humanidade
quando possui a sensibilidade de se colocar no lugar do
outro e sentir o que o outro está sentindo. Esta empatia
enaltece a qualidade humana, porque torna possível
compreender o que a outra pessoa está sentindo.
Podemos então, entender e perdoar ações que possam
111
impedir uma tomada de decisão, porque sabemos que o
medo da rejeição, do abandono, da critica, do julgamento
pode impedir alguém de lançar-se nesta grande busca de
viver o amor.
A coragem, a sabedoria, a intuição, a
sensibilidade, a paciência, a bondade, o perdão, a
percepção, são qualidades desenvolvidas no decorrer de
uma existência, estas experiências não podem ser
substituídas com psicotrópicos e algum tipo de conselho.
Neste instante inicia-se uma corrida para viver esta
emoção. O conhecer-se mutuamente dos seres humanos
exige da parte de ambos, uma convivência para saber
mais sobre a sua história de vida. Os seres humanos estão
abertos para transgredir os seus medos e ir além dos
códigos de conduta repetitivos.
Precisa da coragem para transgredir crenças e
códigos de conduta que impedem de viver aquela
experiência, porque em nome da obrigação, da
obediência, tornam-se reféns de um superego castrador
e limitante, que não colabora em nada para viver o amor.
É preciso autoestima e tranquilidade para permitir-se
descobrir as novidades a respeito desta emoção, porque
a oportunidade descortina-se diante de seus olhos, mas o
medo e as promessas impedem a pessoa de lançar-se e
viver por direito esta experiência maravilhosa.
E neste jogo da transgressão existe a punição por
desobedecer aquela crença, deveria ser normal as
pessoas apreciarem o belo, o bom, o saudável, quando
encontra-se na existência, mas infelizmente dizem uma
coisa e fazem outra totalmente ao contrário. Este é o
112
princípio da contradição das pulsões de vida e morte, é
preciso amor próprio, liberdade, coragem para viver esta
experiência verdadeira de amor. Os obstáculos e
dificuldades são muitos, em vez de fugir e racionalizar
esta experiência com falsas justificativas descobre que as
perdas, fracassos, decepções fazem parte da existência, e
muitas vezes não tem as condições emocionais para
elaborar estas vivências.
A transgressão possui este mistério de silêncio,
de medo misturado com ousadia, de conhecer o
inesperado, esperando que o melhor possa acontecer.
Este processo de conquista enaltece a humanidade e o
desejo de encontrar-se seguro numa relação, pois o amor
tem esta contingência de tornar os amantes felizes. Por
ora, existe este encanto do desconhecido, da esperança
de encontrar aquilo que lhe falta, pelo menos espera que
esta pessoa tenha muito a oferecer, porque não existe
experiência mais triste do que a solidão.
E todos sabem o valor de uma pessoa com
qualidades éticas, alguém em que se possa confiar, esta
raridade é uma realidade, e neste silêncio, a timidez
começa a se desfazer e procura no olhar do outro a
aceitação incondicional do seu amor. Assim cada um
tenta entender este investimento do amor, esta atração,
este olhar de desejo, de cumplicidade e ao mesmo tempo
o drama da culpa, da moralidade, das cobranças, do
medo da transgressão, este estado de tensão e
nervosismo encontra sentido no olhar desta proibição.
E neste olhar existe a vaidade, a vontade de
despertar o desejo, um corpo também possui sua
113
linguagem. Para entender este processo de conquista
precisa realmente sentir confiança, liberdade e vontade
de estar na presença de alguém que poderia ser seu
grande amor. Neste momento tudo é possível, porque
nestes olhares existe admiração, alegria, alteridade, pois
a relação está apenas começando, ainda não existe a
mágoa, ressentimentos, brigas, xingamentos, por
enquanto o clima é favorável para que estas pessoas
desejem realmente estar juntos.
Porque curtir este clima de alegria e felicidade é
muito saudável, a indiferença, a solidão, o isolamento
tolhe as potencialidades daquele que deseja amar. Cada
pessoa procura no amor a expressão daquilo que gosta
de fazer, e na maior parte do tempo de sua vida passa na
família e no trabalho. Família, trabalho, estudo, acabam
envolvendo a pessoa na maior parte de sua vida, por isto
é importante que ambos tenham prazer naquilo que
fazem e também de estar juntos.
O amor precisa desta segurança emocional, de
saber que pode contar com a confiança. Cada um
participa destas obsessões e compulsões, às vezes a
timidez é tanta que precisa de algum tipo de droga para
liberar e descontrair este estado de ansiedade. Todos
participam de diferentes formas desta conquista da
felicidade, isto inclui pessoas, amores, lugares, profissões,
amantes, nesta tentativa de encontrar-se com o seu
verdadeiro amor. As inibições possuem esta cara de
nervosismo, de ansiedade, fica estampada no olhar de
cada um, a timidez, a falta de coragem e liberdade para
assumir-se na sua autenticidade.
114
A neurose de caráter pode ser considerada como
cumplice das regras e normas do superego, ser submisso
a vontade dos outros, não conseguir viver com
autonomia e tampouco usufruir da liberdade, talvez esta
neurose seja a pior experiência de um ser humano. Todas
as pessoas que são ajustadas demais e defendem uma
moral farisaica, possui esta qualidade de reprimir,
representar um papel demasiado perfeito, este caráter
rígido é próprio das pessoas obsessivas e controladores,
negam a expressão das emoções em sua vida.
Existe uma normalidade apregoada pela cultura e
exigida pela sociedade, onde todos acabam por
obedecendo sem questionar, toda vez que alguém tenta
sair desta condição, o superego surge como uma agente
que reprime qualquer manifestação de liberdade.
Restringido na sua espontaneidade psíquica, o corpo
paralisa-se de acordo com a sua rigidez de caráter. Este
movimento do corpo expressar no seu espírito, a falta de
criatividade, é porque o corpo está preso a estas
experiências de rancor, repressão, abusos, que acabam
aparecendo na timidez de suas mãos, no medo da
proximidade, é como que o organismo se antecedesse e
agisse por conta própria para fugir de algo violento e
agressivo.
A interação dos amores sofre com esta repressão
dos afetos, porque o corpo não consegue interpretar no
olhar do outro como uma ligação de entrega e alegria.
Seu afastamento realiza a denúncia de que realmente o
prenúncio de algo ruim está prestes a acontecer, não
existem palavras, mas o código dos estímulos elétricos
115
dos neurônios começam a fazer sua passagem pelos
neurotransmissores, nesta comunicação inconsciente
estes hormônios preparam o corpo para o afastamento, a
rigidez é a expressão da adrenalina que está contida e
represada como um antídoto de proteção.
O prazer de estar junto, de conviver, de
trabalhar, de conversar, de dançar, de estudar, de
produzir, de amar, talvez esteja na essência daquilo que
estimula e motiva as pessoas a amar a existência com
toda sua expressão. O outro torna-se um espelho para
que cada um possa se olhar, e neste olhar saiba apreciar
e descobrir o lado bom, as qualidades éticas, os valores, e
aprenda a digerir, compreender e acima de tudo perdoar.
Nesta instância da vida, o amor começa a
amadurecer, possui mais experiência para poder ser
capaz de conviver com as dificuldades, os equívocos, as
decepções, as traições e de tudo aquilo que mostra que o
príncipe se tornou um sapo. Na verdade ninguém nunca
foi um príncipe e tampouco um sapo, estas duas
realidades são projeções feitas de acordo com a
interpretação do desejo que cada um possui em relação
às pessoas com as quais convive.
Todos estão inseridos nesta busca, muitos
deveriam encontrar e viver a dimensão do amor, mas são
poucos os que sabem interpretar com lucidez as
oportunidades que a vida apresenta, as experiências são
este legado das “humanitas” de um ser que procura na
constituição de sua vida um caminho de saúde e
felicidade. Por isto existe a reflexão, a expressão daquilo
que não pode falar, dos ouvidos que não querem ouvir,
116
ou dos olhos que desviam do seu foco, porque é doloroso
demais enxergar aquela cena do passado.
Mas o ser humano é cheio de sensualidade, de
sexualidade, de amorosidade, de bondade, de
compreensão, de alteridade, esta essência é capaz de
fazer da imagem um prazer que precisa ser apreciado. A
imagem enaltece aquilo que precisa contar a sua história
através das palavras, porque senão o corpo fala através
dos sintomas, o lugar do diálogo, da elaboração pode
acontecer em qualquer lugar, desde que tenha respeito,
e que ambos aprendam a escutar e respeitar a maneira
de viver.
Porque ambos estão nesta busca, toda a
humanidade vive este tormento, alguns alucinaram e
optaram pela esquizofrenia, outros expressaram sua raiva
e ódio e estão atrás das grades, e muitos estão sofrendo
a enfermidade como se fosse um castigo, viver de agonia,
de dor e sofrer as sequelas das feridas que acabam
adoecendo o corpo, matando a expressão do potencial da
vida.
Todos estão tomados por este frenesi cultural,
são estas escolhas que acabam indiretamente afetando a
qualidade de vida, na constituição biológica está o
símbolo daquilo que pode trazer alegria, bem estar e
saúde, e de tantas experiências que por obra do ofício,
precisa aprender a elaborar e aplicar aquilo que mais
convém, como algo que possa acrescentar a sua cultura.
Todo ser humano procura este espaço para falar de si e
das coisas que gosta, de suas conquistas, este espaço da

117
palavra, da escuta está cada vez mais veiculado nas
interlocuções da mídia e da comunicação virtual.
Este espaço do olhar, da palavra, das histórias, já
não possui espaço na agenda humana, porque acreditam
que isto é uma perda de tempo, outros porque não
resolve nada, então, não resta outra solução. Tornar-se
individualista, egocêntrico, narcisista, uma praga que se
alastra pela humanidade. E muitos estão hipnotizados
pelo poder de sedução das imagens, dos vídeos, dos
filmes, esta virtualidade aos poucos toma o lugar do
humano no homem, este tempo de curtir é coisa do
passado, ninguém tem tempo para mais nada, mas tem
muito tempo para trabalhar e envolver com questões
externas, seu mundo interno, sua história de vida não
precisa ser conhecida, ao contrário, deve ser escondida,
porque muitos procuram vender uma imagem, seu
estereótipo segue as diretrizes de uma sociedade
superficial e materialista.
Gostam de consumir carros, casas,
computadores, bens materiais e por fim pessoas; tratam
os outros como se fossem coisas, acreditam que por
direito adquirido podem possuir e mandar, controlar,
manipular, como se fossem um mero objeto a ser
apreciado e depois abandonado. Perdeu-se o encanto do
tempo, um tempo onde as pessoas possam se deliciar um
com o outro, as amizades não podem existir, porque os
ciúmes, a inveja, o poder de dominação é mais forte que
compartilhar os afetos. O ser humano vem se fechando
cada vez mais no seu casulo e ninguém tem mais tempo

118
para nada, porque todos estão com a sua agenda muito
cheia de compromissos.

119
3.0 - Quando o amor renova a esperança de
viver.

O amor surge através de várias pessoas, às vezes


sua presença é forte, em outros momentos da existência
desaparece. O início do amor surge sempre na infância,
adolescência, juventude e termina num relacionamento,
mas tudo parece um grande mistério. Existem milhões de
pessoas espalhadas pelo mundo, como justamente
aquela pessoa existiu para viver esta experiência de
amor, seria possível explicar esta aproximação, o
interesse dos seres humanos por esta busca inconsciente
do amor.
Como explicar esta emoção que realiza o
inexplicável, aproximar duas pessoas para constituir uma
família, esta vivência propicia entre muitas coisas, o
carinho, a ternura, a admiração, o cuidado, a intimidade,
a sexualidade, estas vivências tornam possível a
humanidade. Às vezes o amor é tão expressivo que não
pensamos na possibilidade da sua perda, mas temos que
considerar que esta é uma realidade. O amor nasce da
fraternidade, este aprendizado acontece nas relações
afetivas da família, às vezes os pais estão atarefados
demais com suas preocupações que esquecem que tem
filhos.
Não existe tempo para conversar com os filhos,
este é um dos maiores problemas da sociedade moderna.
Enquanto os adultos se acostumaram com a sua rotina e
conversas fiadas, os jovens estão à procura deste seu
grande amor, são experiências diferentes em momentos
120
únicos e mágicos que fazem desta emoção uma espécie
de paixão. O cérebro experimenta este estado de alegria
e suprema felicidade, ninguém mede esforços ou tempo
para encontrar o seu grande amor.
Além disso, a convivência com outra família
ensina a arte da paciência, porque precisa conviver com
costumes, crenças, religião, culinária, moral, existe um
modo próprio de cada família de relacionar-se. São os
momentos de lazer, brincadeiras que tornam a vida mais
fácil, esta descontração retira do ambiente as ansiedades.
Nestes encontros dos namorados nas casas de família,
sempre é regado com um almoço ou janta, esta
confraternização tem como finalidade aproximar os
irmãos, pais e outros parentes do futuro genro.
No início do relacionamento existe de fato esta
aproximação, a vivência sublime do amor antes da
velhice e da morte, esta é a única certeza de continuar
vivo. Na juventude permanece esta força de vontade,
criatividade, dinamismo, coragem, iniciativa, alegria, esta
energia contagia a todos. Os espaços são poucos para
transgredir as normas da família. A sexualidade é sempre
vista como algo proibido, tudo tem que ser feito às
escondidas, este clima de tensão e medo incita ainda
mais o prazer. Os conflitos aparecem em forma de
ciúmes, pois entre os irmãos existe uma competição em
estado latente que procura o poder, estas relações entre
irmãos estabelecem as normas e regras da convivência
familiar. Cada um luta pelo espaço, procura liberdade e
autonomia e busca inconscientemente os afetos dos pais.

121
Fazem parte de uma família, significa também
seguir suas regras, esta hierarquia deve ser obedecida. As
famílias possuem um código de ética, escolhem as
pessoas certas para estabelecer as suas relações, neste
ambiente de alegria estabelecem os primeiros vínculos
do amor, de amizade ou de intimidade. Mas o
nascimento do amor pertence aos laços de fraternidade,
esta é a primeira experiência verdadeira do amor
fraterno. Cada pessoa na família desenvolve o seu
potencial de ser capaz de amar, o ambiente entre os
irmãos é um laboratório perfeito para aprender a amar.
Cada pessoa da família se esforça para
desenvolver suas potencialidades, seja no estudo, nas
artes, nas relações, no trabalho, enfim cada um luta por
este espaço de reconhecimento e valorização. Este
esforço tem como objetivo chamar a atenção dos pais,
gostam de receber elogios e serem reconhecidos pelas
suas proezas pessoais. Nestas relações familiares fica
muito bem especificado a dinâmica do poder, a presença
do líder, são estas interações entre os seres humanos que
fazem com que os afetos possam seguir o caminho do
amor fraterno ou erótico.
Este desejo de viver o prazer da felicidade, da
realização, encontra suas barreiras na existência, quando
enfrenta-se com as decepções e frustrações. Neste caso o
caminho mais fácil são as drogas, como por exemplo;
álcool, maconha, psicotrópicos, etc. Esta alteração
emocional propicia um estado de imenso prazer e a
liberação da censura, sente-se mais livre, tem coragem
para demonstrar um pouco de seu caráter oculto. Estes
122
dons e talentos pessoais podem ser potencializados ou
reprimidos, depende de como cada membro da família
interpreta estas qualidades pessoais.
Porque não tem vivência mais importante do que
o carinho, a ternura, saber que não está sozinho; esta
manifestação do amor pode desencadear naqueles que
conseguem viver, ciúmes, inveja, raiva. Os olhos se
entrecruzam nas disputas afetivas. O incesto é uma
manifestação de amor doentio entre irmãos que não
permitem que ninguém participe desta intimidade. Existe
uma cumplicidade e intimidade doentia e simbiótica em
alguns relacionamentos que podem prejudicar esta
experiência de amor, isto significa uma competição
inconsciente para não dividir com ninguém este amor
afetivo.
A saúde psíquica precisa romper com estes laços
simbióticos, sair desta condição vincular e assumir-se
numa outra relação erótica, são estes momentos mágicos
de transição, esta ruptura com a família é necessária para
poder lançar-se em novas experiências, por isto mesmo a
sociedade estabeleceu a formalização do casamento. Na
juventude existe esta ingenuidade saudável, pura e
sincera, onde os sentimentos encontram vazão nas
emoções do amor.
Os olhares apaixonados retratam apenas a paz,
tranquilidade e uma confiança inabalável no futuro. A
natureza tornou a estética do corpo, o colorido dos olhos,
a formosura do rosto, a espessura da pele, num deleite
de prazer e satisfação. Um corpo está sendo favorecido
pelo encontro destas emoções, a pele, as mãos, o olhar, o
123
andar, os cabelos, tudo está envolto nesta atmosfera de
conquista e prazer. Os olhos cultuam a beleza, o cuidado,
a proteção, sente-se na obrigação de vigiar e controlar
cada movimento no sentido de afastar qualquer tipo de
sofrimento.
Olhares de desconfiança, de apreensão, de medo,
de perda, neste instante não precisam de palavras,
frases, o corpo manifesta seu desejo, os olhos
comunicam a sua decisão. Todos ficam apaixonados pela
beleza feminina, a doçura, a sensibilidade, a bondade, a
maternidade, os gestos de carinho, de ternura, que fazem
da mulher um encanto. Os olhos estão enfeitiçados por
este desejo ardente de viver o amor, são experiências
únicas e privadas de recordações que marcaram para
sempre a vida do ser humano.
Nesta pureza de intenção, o corpo está
entorpecido pela paixão, esta química do amor é
indescritível, em muitos casos pode tornar-se obsessão,
compulsão, um desejo imenso de dominação, esta
overdose pode tornar-se adição. Porque naquele
momento, esta paixão convence a pessoa, a possuir e
tornar-se dona da outra pessoa.
O amor incentiva o desejo de união, de
compartilhar as suas emoções, de viver com intensidade
estes momentos inesquecíveis de intimidade. O amor
pertence a esta atmosfera de aventura, esta emoção
possui uma energia capaz de lançar-se no mundo
desconhecido das relações. Existe na essência desta
energia emocional um engrama capaz de persuadir as
pessoas a procurar este lugar de afeto.
124
Não existe um caminho único para viver a
dimensão do amor, estes laços de ternura significam os
vínculos que unem as pessoas. O amor pertence a esta
esfera de liberdade de ser, de produzir, de criar, de
respirar ar puro. O namoro aparece sobre estas
condições de viver em liberdade, de conquistar, de
querer estar junto, depois surge o casamento, e os
vínculos obedecem a uma rotina, os ideais desaparecem,
surge a competição, inicia-se o processo desesperado de
dominação.
A convivência depende desta condição
emocional, ou mais especificamente da segurança, as
incertezas, inseguranças, ciúmes, incomodam e trazem as
famosas brigas e discussões. Quando menos se espera
acontece o inexplicável, as bifurcações da existência
alertam para um acontecimento inesperado, o encontro
com a emoção do amor. Os olhos estão sedentos desta
sede de amar, mesmo no silêncio do corpo aparecem às
necessidades que afloram sobre os olhares mais
desconcertantes.
Este caminho abre infinitas possibilidades de
vivências inesperadas, talvez seja isto que torna atrativo
as aventuras amorosas, aquele instante único onde dois
espíritos se encontram para viver aquela paixão, aos
poucos esta química entorpece as censuras, e
potencializa uma esperança de preencher este vazio da
existência. O amor propicia este amadurecimento, estas
fases desenvolvem a cumplicidade, ambos conhecem e
sabem os limites de seus direitos e deveres.

125
Aprendem com o tempo a adentrar nas
profundezas da intimidade. O conhecimento de si mesmo
é uma condição para não projetar e transferir
responsabilidades que são suas. Quem começa a fazer
parte de uma família precisa se acostumar com os rituais,
manias, costumes, ciúmes, competições, e dificuldades
no relacionamento. São as limitações e neuroses pessoais
dos pais que aparecem projetadas na vida dos seus filhos,
estes vínculos podem tornar-se agressivos quando
acompanhados de ciúmes.
Quanto ao namoro aparecem as inseguranças,
medos, mas o amor aparece com o seu bônus, alegria,
realização, satisfação, esta paixão consegue enxergar na
sua frente somente as qualidades e nunca os defeitos.
Nas famílias os filhos seguem uma ética, são exigências
de atitudes, faz parte da educação, então não existe
outra saída a não ser conquistar a confiança de seus pais.
Esta experiência de amor cria a necessidade de estar
juntos, por isto mesmo aprendem a burlar as exigências
da dinâmica familiar. É quando inicia a mentira, o engano,
a ruptura, os enfrentamentos, um processo de confronto
com o poder familiar, uma necessidade de
independência, de provar que é capaz, de superar as
dificuldades.
E muito desta estética do ser, serve para
despertar o desejo sexual, nas famílias mais tradicionais a
sexualidade não é permitida pelos pais. Mas como o
desejo é muito forte, a pulsão de vida aparece para
aproximar e aumentar o amor entre os seres humanos.
Homem e mulher estão dispostos a vivenciar esta
126
experiência de orgasmo e prazer, não importa se é
proibida, a força da união aproxima e tornam-se
cúmplices desta transgressão familiar.
A beleza de dois espíritos que vivem naquele
momento a novidade, uma atração de prazer, os olhos e
a mente estão envolvidos naquele desejo enorme de
possuir e ser possuído, uma entrega de afeto, carinho e
amor. Esta nudez representa a confiança, um presente,
um momento sublime de passagem para o mundo dos
adultos, este ritual de conquista oferece suas
compensações de estarem juntos, e uma delas é a
sexualidade.
A natureza é muito sabia e antes mesmo do
homem existir, realizou o seu grande desejo, a
continuidade da espécie humana por centenas e milhares
de anos. A biologia explica a pulsão sexual, o desejo de
procriação está inscrito nas células dos genes e este
estado de inconsciência enaltece uma inteligência que
programou os “instintos” e desenvolveu nesta pulsão de
vida o nascimento de novos seres humanos.
Qualquer pessoa pode utilizar os métodos
anticoncepcionais, camisinha, etc., parece preventivo e
útil, mas independente desta decisão, o desejo continua
latente. A pulsão de vida instiga o desejo de maternidade
e paternidade, o corpo sente a transformação e a
necessidade de atender estas exigências fisiológicas. O
inconsciente aparece nestas transformações de intenso
prazer que a sexualidade propicia e estes dois espíritos,
que estão envolvidos nesta conquista, querem viver este
prazer intenso.
127
Os riscos da proibição, os olhos do superego dos
pais, o medo de engravidar, das doenças venéreas, da
AIDS, estão envolvidas nesta relação sexual. A
sexualidade mudou o comportamento dos amantes. Este
momento está marcado pela humanidade, o respeito
pelos sentimentos e emoções que ambos vivenciam; a
dignidade de compromisso, de conhecer e dar o melhor
de si mesmo como complemento do significado do outro
em sua vida. Dois corpos se entrelaçam e vivem aquele
momento de intenso prazer. Logo depois surge a
realidade, não há meios de continuar escondendo ou
negando a presença deste desejo sexual.
Os pais estão preocupados e com razão, pois tem
medo que seus filhos possam sofrer; aos poucos esta
cultura familiar começa a entender as transformações na
maneira de ser e viver. Estes filhos estão crescidos e
agora possuem asas para voar, dispostos a conhecer
outros lugares e fazer suas próprias experiências, este é o
desfecho final dos relacionamentos, a procura da
autonomia e liberdade para constituir sua própria família.
Esta investida de ambos, em transgredir as normas e
procurar viver a sua intimidade, é uma decisão saudável
de pessoas que gostam de fazer suas histórias.
A família saudável deveria ficar feliz com este
desejo de autonomia, tomar consciência desta
maturidade dos seus filhos e respeitar suas escolhas,
acompanhar suas experiências. O desfecho destes
namoros encontra resistências, desconfianças, ciúmes,
advertências, em relação aos caminhos que este amor
propicia a estas duas pessoas. Sentir-se amado,
128
reconhecido e valorizado é uma experiência sublime de
aceitação, agora o cérebro pensa emocionalmente, não
existe cobrança, brigas ou exigências, este momento é de
curtição, porque o amor faz parte de sua história.
Ambos estão interessados em fazer desta relação
de amor um caminho para a sua realização, agora
precisam conquistar a confiança dos adultos, os pais
estão atentos e acompanham estas decisões, mas nem
sempre tem certeza do que é mais correto naquele
momento. Os adultos também têm seus problemas, e
nem sempre conseguem dar testemunho da importância
deste amor. Porque nesta vivência, não conta muito a
idade cronológica e sim a segurança emocional para
poder sustentar a relação de intimidade.
Sentir-se livre para expressar o amor, a
sexualidade depende sempre da educação. A formação
do superego, daquilo que é permitido e proibido, chega
um momento em que os pais são obrigados a enfrentar-
se com esta realidade. O incesto, o complexo de Édipo
precisa ser superado, e nada mais saudável que uma
terceira pessoa para desfazer este vínculo de afeto. Existe
a diferença entre o amor afetivo do erótico. Como
elaborar a possível perda? Como deixar que estes jovens
amadureçam e passem por esta experiência única e
insubstituível de conhecer os caminhos do amor?
O superego dos pais dialoga e critica a invasão, a
quebra das normas, a vivência precipitada do sexo, o
envolvimento prematuro, estas racionalizações
escondem a emoção da perda do amor. Agora precisa
dividir este afeto, os pais não são o centro de atenção,
129
ficam irritados porque estão roubando seu filho ou filha.
Observam a reação e comportamento desta nova pessoa
na família, dependendo das reações dos irmãos e dos
pais, podemos descrever este processo, como aceitação
ou de rejeição.
Mas independente dos desejos dos pais, este
amor encontrou seu curso normal, a fluidez desta energia
os torna cada vez mais fortes e unidos. Esta transgressão
é saudável porque ajuda a amadurecer e participar destes
ensinamentos do mundo do amor. Este momento é
mágico, porque favorece a vivência maravilhosa da
expressão dos sonhos e fantasias, este é o momento da
presença do príncipe e da princesa. Porque é inevitável e
imprescindível viver esta experiência afetiva, amorosa e
sexual, algo de mágico está acontecendo, estão
enfeitiçados por este olhar, se pudessem estariam vinte e
quatro horas juntos.
Que atração irresistível é esta de querer estar
juntos? Porque faz tanto bem? Que substância química é
esta que prioriza o afeto? Esta é a magia dos encantos,
estão como hipnotizado um pelo outro, não existe nada
mais importante no mundo que não seja esta história de
amor. Adolescência, juventude, seria esta segurança da
presença e do cuidado do outro em sua vida. Dois seres
humanos que estão nesta procura de segurança, de
carinho, de ternura, as emoções conseguem traduzir a
essência da humanidade no homem.
O humano precisa desta experiência de amor,
para saber que é importante saber amar, e permitir-se
ser amado, são estes sonhos que estavam adormecidos
130
nos genes e que agora estão sendo manifestos pelo
desejo intenso de amor. Este querer tornar-se um, a
cumplicidade da unicidade de pensamentos e ações, faz
com que cada ser humano cumpra este papel na
existência. Inconscientes de suas ações procuram
desesperadamente a vivência deste amor, e onde não
existe esta emoção, aparecem no seu lugar o ódio, a
vingança, a insatisfação e violência.
O amor ensina a ter respeito e cuidado com o ser
amado. O que torna estas pessoas amáveis? De onde
surge a ternura que não termina nunca? Nem mesmo o
tempo e a idade consegue extinguir esta experiência das
memórias. Qual é a certeza de que um dia não
abandonaria o seu amor? Porque mesmo quando não
existem mais atrativos no corpo, o amor continua vivo e
floresce como as sementes no campo?
Esta magia do amor enfeitiça os seus amantes,
parece que naquele momento estes dois espíritos são
únicos, envolvidos neste prazer intenso de estar juntos e
viver este orgasmo existencial. São pessoas
transformadas pelo toque mágico da natureza, esta
energia está numa harmonia perfeita com o universo.
Naquele instante a energia emocional torna-se vida com
consciência e experimenta aquela sensação de êxtase e
felicidade, talvez a experiência mais sublime e sagrada.
Esta comunhão de espíritos pertence a um único
pensamento, saber que a existência brinda esta emoção a
todos aqueles que conseguem entender a lógica da sua
natureza. São os representantes da natureza, filhos da
terra, descobrem este estado de graça, de não estar
131
sozinho. Este pacto com a natureza contribui para a
vivência da verdadeira paz de espírito, somente esta
entrega verdadeira ao amor, um amor que está
comprometido com o cuidado do outro. É preciso estar
consciente deste processo de superação de seus medos,
e o pior dos medos é amar.
Para viver o amor na sua plenitude, é necessário
paz de espírito, pureza, transparência, verdade nas
intenções. O amor é um gesto de confiança e
solidariedade, uma demonstração de confiança e
lealdade, uma atitude de fazer o melhor que pode pela
alegria e felicidade da outra pessoa. Um espaço que se
abre para viver todo o potencial produtivo de sua
inteligência, uma alegria que brota deste espírito
renovado pela esperança do seu desenvolvimento
emocional.
Existe nesta intenção um desejo enorme de fazer
com que a felicidade e a alegria aconteçam na sua vida,
para poder amar de verdade, antes é necessário amar a si
mesmo. O amor transcende ao raciocínio lógico das
explicações mecanicistas, sua energia contagia e floresce
bem estar, paz de espírito, e um sentido para viver. Quais
os atrativos do caráter de uma pessoa que permanece
para sempre como um estigma deste amor? Este vínculo
do amor permanece eterno mesmo depois da morte?
Que essência ou substância química do cérebro é capaz
de realizar tamanha proeza?
O amor é como estar com fome, sede, sono, esta
pulsão demonstra sua força quando consegue aumentar
cada vez mais a necessidade desta emoção. A natureza na
132
sua sabedoria encontrou os meios de unir dois espíritos
num mesmo objetivo, ficar juntos e constituir uma
família. Prevalece sempre o desejo de fazer uma história
de vida, mas nem sempre este amor é compreendido
pelos adultos. Os adolescentes vivem com a intensidade
esta emoção, não medindo as consequências de suas
atitudes, às vezes prejudica os estudos, trabalho,
amizades, etc.
Estes conflitos surgem quando os pais
desaprovam este tipo de relacionamento cedo demais,
esta precocidade pode traduzir-se em brigas, discussões.
Existe um estado de alegria, felicidade, ao encontrar-se
com o seu amor, quando o inesperado existe, estes
adultos desaprovam este tipo de relação porque
acreditam que é prematura. Sente que os irmãos, pais,
afastam-se e tornam-se indiferentes com a sua presença,
isto é sinal de que não é bem vindo, algo está
acontecendo nesta família.
O amor destes jovens encontram estas barreiras,
são interpretações e avaliações dos pais em relação aos
seus filhos. O amor é muito contagiante, não existem
limites, tempo, espaço para vivê-lo, isto assusta,
desencadeia ciúmes e inveja. Os adultos acreditam que
possuem a verdade e tomam suas decisões em nome do
poder hierárquico, estes ataques emocionais de raiva e
ódio dos pais dificultam ainda mais a solução deste
conflito.
Na falta de diálogo aparece a autoridade
impondo e exigindo de ambos a obediência as suas
decisões, e quando esta norma é transgredida inicia-se o
133
processo de julgamento e condenação, então surgem as
punições. Este estado de enfrentamento e
distanciamento dos pais em relação ao casal de
namorados, dificultam a solução deste problema. Os
adolescentes não sabem conviver com a liberdade,
extrapolam no tempo que estão juntos, como não
estudam e tampouco conseguem realizar suas tarefas,
são criticados e punidos.
O amor enfrenta este ambiente, porque os pais
tem esta responsabilidade de cuidar de seus filhos,
principalmente quando um garoto está envolvido neste
tipo de relação que não tem limites. Os sintomas desta
relação aparecem quando não comparece ao colégio, não
dorme bem de noite, sua avaliação na escola é muito
ruim. Os pais não aceitam que este namoro interfira no
rendimento de seus estudos, inconformados e revoltados
iniciam um processo de enfrentamento, medem as suas
forças, e fazem deste namoro um caso de disputa
pessoal.
Quando as normas e regras são interpretadas
como uma punição, os adolescentes não sabem conviver
com a frustração e decidem partir para o confronto,
desobedecem as suas ordens, fazem o teste dos limites e
de quanto os pais conseguem suportar ou não a pressão
desta relação. Este grau de infantilidade e imaturidade
em relação as tarefas e obrigações, não é bem vista pelos
pais, o conflito familiar chega a um nível de agressão
física, violência psicológica, abusos, estes jovens sofrem
pelos pais, que não sabem dialogar e chegar a uma
decisão em comum.
134
O grande problema destas relações familiares
nunca foi o amor, a imaturidade, a falta de limites, mas o
diálogo para resolverem juntos, com a ajuda dos pais, os
problemas que este relacionamento estaria provocando.
O ataque emocional dos pais surge pela sua frustração
dos filhos desobedecerem e colocarem em xeque a sua
autoridade, como não sabem resolver estes problemas
que surgem da falta de limites, partem para a agressão,
ameaças, punições.
O casal de namorados convive com este
ambiente de medo, agressões, indiferença, este clima
propicia a vivência da mentira, como enganar, fazer de
conta que estão obedecendo às regras e limites, quando
na verdade é justamente o contrário, diante deste
conflito a raiva e ódio aparece como uma emoção
presente no olhar e na postura do corpo daqueles que
não concordam e sentem-se prejudicados por esta
relação amorosa.
Estas sanções são impostas, a retaliação é
seguida de um comportamento agressivo, porque seu
objeto de amor está sendo roubado. Indignado e
revoltado experimenta a raiva e frustração. A tensão
nervosa aparece na tonalidade de sua voz, compreende
os limites como um desejo dos adultos de acabar com o
seu grande amor. Não aceita estas regras, porque além
de serem impostas sem consultá-lo, sente-se injustiçado
por uma decisão que prejudica a vivência do seu grande
amor.
Os argumentos dos jovens enfatizam que não são
mais crianças, se amam, tem responsabilidades, e
135
precisam aprender a obedecer estas regras. Agora
experimentam as sanções, proibições, para priorizar os
estudos e jamais o seu amor, estão com medo, esta é a
primeira vez que estão distantes um do outro, impedidos
de se encontrar, os olhos se enchem de tristeza porque
não estão mais juntos. Agora aprecia a presença do seu
amor através das fotografias, cartas, vídeos, uma maneira
de remediar e matar a saudade.
Será mesmo que este casal de namorados poderá
suportar esta distância? Como está sozinho procura no
grupo de amigos, a solidariedade, a compreensão do seu
problema. Agora escuta uma saraivada de sugestões e
conselhos para lutar pelo seu amor, está pedindo socorro
com muita sede deste amor, não suporta mais a
distancia. As atitudes de retaliação a esta decisão
começam aparecer, as brigas e desentendimentos
surgem descontroladamente.
Como não existe uma solução, precisa transgredir
estas regras para conversar com o seu amor sobre o
domínio desta emoção, é capaz de fazer qualquer coisa
para encontrá-la, começa a sentir uma sensação
desagradável de tristeza e abandono. Não sabe como
conquistar e voltar a viver aquela experiência de amor,
confuso, perdido, procura se comunicar por telefone,
mas é inútil ninguém atende ao seu chamado,
encurralado por estas situações procura uma solução.
A capacidade de suportar a frustração e adiar as
gratificações está enraizada nestas experiências afetivas.
A emoção da raiva pode incentivar a imaginação a uma
pratica destrutiva de proporções gigantescas, onde os
136
prejuízos são incalculáveis. A emoção invade o cérebro e
conduz o pensamento a uma fixação para viver o prazer
do amor, esta experiência gratificante deixa a pessoa
cega para olhar a realidade. Esta invasão emocional
torna-se inconsciente porque seu único desejo é viver
novamente aquela experiência de amor.
A raiva e o ódio realizam suas ações através de
uma punição a todos aqueles que impediram a vivência
do seu amor, sua consciência sabe que esta atitude é
equivocada, mas a emoção está envolvida nesta
devolução violenta de sua frustração. A emoção possui
uma inteligência que pode ser usada para o bem ou para
a destruição, exige reparação, também quer castigar ou
poder levar alguém a pensar assim: “se eu não posso
viver este amor, ninguém vai viver no meu lugar”. Todas
as suas ações estão comprometidas com sua emoção de
ódio.
Amor e ódio, duas emoções sempre de mãos
dadas, realidades antagônicas, mas que procuram
disputar o seu espaço nas relações afetivas. Esta é a
contradição da razão diante da emoção, tragédias,
mortes, suicídios, homicídios fazem parte desta triste
história da reparação emocional. Depois surge o
arrependimento, a culpa, o medo, o abandono, as
condenações, mas nada disso, devolve os prejuízos de
uma violência, de um trauma, de uma vida. Depois deste
ato impensado precisa conviver com a inconveniência de
suas decisões.
A emoção é uma energia que se espalha e
contagia cada célula do organismo, todos os sistemas
137
pertencem agora a esta disposição química, o corpo
humano é refém desta emoção, sua força se estende por
todos os poros, cada emoção cumpre com seu objetivo,
depois de iniciar o processo deste contágio, não existe
um meio de impedir que a energia se dissipe por todos os
sistemas do organismo. A calma, a tranquilidade, a paz,
volta aparecer depois que a virulência terminar com a sua
finalidade.
Algumas emoções tem este poder destrutivo, e
outras altamente produtivas, no final de contas a vida e
seus resultados dependem das qualidades e intenções de
cada uma destas emoções. Porque para viver o amor,
precisa aprender e transcender todos estes obstáculos. O
sofrimento é inevitável, a frustração, as mágoas, os
ressentimentos, fazem parte desta história de
confrontos. Dependendo dos resultados destas relações,
pode-se deduzir quais serão as consequências no futuro
deste vínculo.
Qualquer atitude de violência aproxima-se das
emoções destrutivas, ao conviver ou viver com esta
energia, constata-se que o final é sempre de infelicidade
e sofrimento. Porque detrás de uma atitude
inconsequente esconde-se uma emoção de raiva, ódio,
inveja ou ciúme, esta energia destrutiva impede ou
bloqueia a vivência desta experiência do amor. Estas
emoções destrutivas possuem o poder de fazer
desaparecer qualquer experiência de amor, de ternura e
compaixão. Sua única função é terminar com este tipo de
amor.

138
Depois das investidas irracionais e impulsivas
destas emoções destrutivas surgem os prejuízos e
castigos que a culpa insiste em fazê-lo reparar. Esta
reparação do superego são penas impostas por viver este
amor proibido. Fragilizado, arrependido, entristecido,
deprimido, não tem meios adequados para reparar o
dano emocional que causou a outra pessoa. Agora
precisa entender que enquanto estiver sobre o domínio
destas emoções destrutivas, o resultado será sempre dor,
sofrimento e prejuízo de toda espécie.
Esta dor pela falta de amor, deprime e
desencadeia uma série de sintomas, as vezes torna-se
violento, estas experiências aproximam-se de outras
pessoas que vivem o mesmo drama, dificuldades.
Entende que não é a única pessoa que sofre por não
poder viver o amor, agora começa a descobrir que seus
atos impulsivos e atitudes inconsequentes
desencadearam todo este fracasso. As dores emocionais
são administradas com os psicotrópicos, aos poucos estas
emoções são sedadas, com a interrupção do seu fluxo
normal, experimenta um estado de alienação.
Depois do resultado do fracasso, da reclusão de
suas emoções, volta seus pensamentos para as
recordações, estas imagens aparecem na sua mente
como uma realidade, pois consegue fazê-lo experimentar
uma sensação de alegria e bem estar. Estas imagens
sintetizam o conteúdo de sua energia, pois traz à
consciência esta emoção de alegria, satisfação e
realização, sua presença não deixa a mente descansar,
este desejo transforma-se numa obsessão, uma
139
compulsão desenfreada que não mede as consequências
de suas atitudes. Está dominado pelo princípio do prazer
e muito distante do princípio da realidade.
Inconsciente de suas atitudes permanece recluso
na sua raiva, esta insatisfação demonstra a imaturidade
para lidar com situações frustrantes. E nesta situação de
stress e esgotamento emocional inicia um processo
psicótico, agora procura justificativas para convencer-se
desta perseguição, em outros momentos alucina e
conversa com estas imagens. Como não suporta esta dor
da separação prefere a morte, infantilizado por esta
neurose destrutiva, decide não viver mais, eis o início do
seu suicídio.
Como este amor pode desencadear todo este
processo patológico e destrutivo? Como ainda não
aprendeu a lida com as emoções, a vida torna-se muito
difícil, alguns pagam um preço muito alto. As recordações
das cenas que provocam ou instigam ainda mais aquele
seu estado depressivo e de fúria, sua mente está focada
no pessimismo. Estas imagens trazem um cenário de
raiva, medo e agressão, esta energia começa a invadir sua
consciência e pretende convencê-lo desta sua paranoia.
A confusão entre a realidade e fantasia inicia
quando aparece este estado de aceitação de sua perda,
quando perde um grande amor aparece a inferioridade,
sem autoestima e um conceito pobre de si mesmo, perde
a referência do seu “EU”, agora não sabe mais quem
realmente é: perdeu o referencial de sua identidade e o
sentido para existir, não tem mais nenhum objetivo. A
sua imagem está prejudicada porque encontra-se
140
sozinho, e nesta solidão não sabe como viver sem o seu
grande amor.
Enlouquecido pela perda do seu amor, esbraveja
raiva e ódio, esta é a sua loucura, como pode aceitar viver
desta forma, aos poucos sua morte se aproxima, porque
não tem mais sentido viver nesta solidão. Esta perda o
deixou enfraquecido e irritado consigo mesmo e com
todos, agora vive no desespero, encontra-se num beco
sem saída, está com muito medo, não encontra uma
solução para as consequências das suas atitudes.
Esta é a triste realidade deste amor obsessivo,
uma compulsão sem controle, e nestes casos o melhor
remédio para impedir a expressão desta raiva é a
utilização de psicotrópicos, esta camisa de força química
consegue adormecer e aliená-lo completamente da
realidade. Esta forma de contenção é o único meio
possível para impedir o suicídio, nestes casos, as drogas
conseguem paralisar este fluxo de recordações e impede
de entrar em contato com a sua dor emocional.
Ninguém suporta este processo de
autodestruição, porque todos acompanham dia após dia
a debilidade da mente. A ideologia favorece a ignorância
deste estado de rigidez, de não aceitar a perda, de fazer
prevalecer as suas ideias, de não procurar mudar,
prevalece à teimosia. Sua mente está presa ao passado,
vive de acordo com as suas fantasias. Está convicto de
sua paranoia esta é a única verdade que consegue
entender, todos tem interesse em prejudicá-lo.
Seria mesmo impossível esquecer o primeiro
amor? Existe algum método ou remédio para apagar da
141
memória estas recordações? E muitos dos dramas que
acontecem com os filhos são apenas uma repetição
destas frustrações que inconscientemente não foram
resolvidas pelos seus pais. Estes segredos acabam sendo
revelados, pois de algum modo precisam fazer esta
catarse, entender seus significados, os filhos podem ser a
extensão dos problemas amorosos e afetivos que não
foram bem elaborados na vida destes adultos.
A solução dos conflitos inconscientes dos filhos
passa pela solução dos segredos e pactos inconscientes
desta família, que esconde e finge que vive o amor, mas
engana a todos, em algum momento as atitudes
agressivas e violentas dos filhos podem fazer a denúncia
daquilo que não estão vivendo. O filho serve como um
paciente identificado para desencadear na vida dos pais,
a solução dos seus conflitos amorosos. Este estado
inconsciente realiza um caminho emocional que acaba
sempre em conflito e sofrimento no âmago destas
famílias.
Quando os pais colocam em palavras estas
emoções e falam a verdade sobre o seu modo de viver o
amor, desobriga, retira do filho a incumbência de resolver
os problemas amorosos no lugar dos seus pais, ao falar
com o filho sobre estas verdades, desobstrui esta energia,
e retira do filho a obrigação de resolver
inconscientemente esta questão do amor. As paixões, os
amores dos filhos, podem trazer à consciência antigas
questões que não foram resolvidas no âmbito pessoal.
Não existe a “palavra”, mas aparece o sintoma,
como um alerta para estas questões inconscientes,
142
quando a coragem toma o lugar do medo, a verdade se
sobressai apesar das mentiras, então começamos a
ensaiar o processo de cura psíquica. O inconsciente é
uma energia inteligente que estabelece este grau de
comunicação entre estes desejos frustrados e
negligenciados dos seus pais. Esta energia dispõe deste
código simbólico, para procurar pessoas, lugares, fatos,
com o intuito de trazer a tona aquele tema que não foi
resolvido no âmbito da vida emocional.
No instante que os pais deixam de representar e
esclarecer os porquês de sua conduta abre um
precedente para aliviar a culpa e medo dos filhos. A
palavra quando acompanhada da verdade autentica, não
precisa representar ou fazer de conta que vive o amor,
quando na verdade experimenta a hipocrisia e falsidade.
Esta energia emocional circula entre as mentes
inconscientes daquelas pessoas envolvidas nesta
semântica de mentira e inverdades.
É sempre o filho mais sensível que capta esta
dimensão do não dito, que é vivido com sofrimento e dor.
Ao fazer a escuta da verdade dos seus pais, liberta e
permite que seus filhos permitam-se viver o amor, e não
precisa usar a sua vida para resolver estes pactos
inconscientes, que são de responsabilidade dos seus pais.
Por isto é “inconsciente”, não tem consciência sobre esta
dor, este sofrimento, esta situação existencial do filho
traz a tona as dificuldades amorosas do casal, quando a
verdade aparece e existe transparência em relação a este
tema do amor, estão libertando os filhos deste pacto
inconsciente.
143
Existem pais que estabelecem este concluo
inconsciente, uma simbiose erótica com a filha, ou vice-
versa, esta neurose simbiótica pode impedir a existência
do amor. Este incesto inconsciente esconde as
verdadeiras razões desta fúria e violência, este discurso
enaltece os equívocos e provoca reações de ódio e raiva
no seu inimigo. Trata-se de simbiose, este vínculo
inconsciente permanece oculto aos olhos daqueles que
convivem neste estado de inconsciência. Muitos
confundem fúria, agressão, violência, abusos, com
proteção e cuidado, mas na verdade escondem o seu
desejo reprimido de controlar e manipular a sua filha ou
filho.
A violência psicológica dos pais pode bloquear a
vivência do amor dos seus filhos. Cada família retrata o
seu drama pessoal, uma que vive o amor de forma
escondida e proibida, e a outra, onde os pais estão
envolvidos nesta simbiose, por isto superprotegem e
negociam com a impotência e falta de autonomia para
mantê-los presos a sua neurose maligna. Cada um
esconde de si mesmo os seus dramas, são emoções que
foram reprimidas ou recalcadas por medo, interesses,
inseguranças, que depois aparecem nos sintomas
familiares.
A virulência de suas palavras é dura e cruel,
porque não sabem conviver com a perda do seu amor de
filiação, não existe o contato físico, mas o incesto é a
vivência psíquica deste amor entre o pai e a filha, a mãe e
o filho. Esta simbiose é difícil de resolver, porque a
emoção não aceita dividir com ninguém o seu afeto,
144
amor, etc. As visualizações da possível perda deste afeto
aumentam ainda mais o seu medo, sua única arma é
tornar-se autoritário, ameaçar, chantagear e desqualificar
de todos os modos o seu inimigo número um, que pode
ser o seu genro ou nora.
São estas marcas que ficam impregnadas no
psiquismo como se fossem cicatrizes de feridas que ainda
não foram curadas. Agora esta dor pertence ao complexo
de édipo, sua alma está entristecida por não poder viver
este amor, estas neuroses fomentam e contagiam os
envolvidos a continuar neste clima de disputa e
competição pelo mesmo objeto de amor. Adoram medir
suas forças, para ver quem está com a razão, ou ainda,
exigem de seu objeto de amor uma tomada de decisão, e
utilizam da pressão psicológica para forçar uma decisão:
“Ou você ama seu pai, ou este bastardo e intruso? Você
precisa decidir”.
Mas a vida continua, as feridas precisam ser
cicatrizadas, as atitudes destes jovens são de coragem e
ousadia, os adultos se conformam facilmente com a
rotina e a falta de amor. Representam muito bem este
papel, por detrás da bondade, da receptividade,
encontramos uma pessoa submissa e obediente ao pacto
simbiótico, percebe tudo, mas não tem coragem para
falar sobre este segredo de família.
Enquanto esta neurose maligna prevalece nos
relacionamentos, os filhos estão impedidos de viver este
amor, estas famílias aprenderam a representar muito
bem os seus papéis, ninguém gosta de enfrentar-se com
as suas verdades. O conformismo, a indiferença aparece
145
como a única solução nestas famílias, os atores
aprenderam muito bem a representar a vivência deste
amor. Todos percebem o sofrimento e a dor que esta
neurose perpetua em todas as gerações, mas ninguém
está disposto a libertar-se destes pactos inconscientes.
A verdade e a sinceridade dos jovens assustam os
adultos, sabem como seduzi-los e são capazes em nome
do amor de tornarem-se cúmplices deste pacto de
mentira. Estas simbioses impedem o florescimento e o
desenvolvimento do potencial do amor, não conseguem
lidar com a autonomia e produtividade, estão sempre
propensos de fazer o que podem para impedir ou
bloquear a sua expressão, por isto mesmo entendemos
que estas atitudes inconscientes fomentam e
reproduzem estas neuroses.
E quando explodem os prejuízos emocionais
destas simbioses são incalculáveis, os pais procuram
desculpas para enfatizar o seu papel de vítima, enquanto
não resolverem esta cumplicidade doentia e simbiótica
em relação aos filhos, a doença passará de gerações após
geração, até o momento que alguém tenha a coragem e
ousadia de levar a sério o amor. A vitimização são estas
justificativas que culpa sempre o outro, nunca assumem a
sua participação nestes pactos patológicos, aparentam
ser bonzinhos, amáveis, sensíveis, mas são fracos e cheios
de medos, estão dominados pelas chantagens, preferem
amargar e sofrer com a infelicidade dos filhos do que ser
sinceros consigo mesmos.
Passam uma imagem de compreensão,
sensibilidade, amabilidade, mas inconscientemente não
146
se permite viver esta dimensão do amor, não é por acaso
que escolheu aquele tipo de homem ou mulher, existe
um desejo oculto, latente que se manifesta em cada
etapa de sua vida. Usam da sedução para passar uma
imagem de compaixão, tudo para não assumir a sua culpa
nesta história de sofrimento, atiram a sujeira para
debaixo do tapete, falta transparência e sinceridade.
Na maioria das vezes o casamento está falido, os
filhos vivem uma dimensão do amor que alguns pais não
conseguiram viver. Observar, enxergar, conviver com esta
relação de afeto, cuidado, carinho incomoda a todos, este
espelho mostra a possibilidade de viver diferente. Isto
causa inveja, ciúmes, e iniciam-se as projeções e
perseguições, esta vivência incomoda, e traz o tema do
amor para ser vivido e não representado.
A dissimulação, a sedução, a omissão representa
um amor reprimido, por isto mesmo ninguém tem
condições de saber ou conhecer as fantasias e desejos
que se passam na mente de um pai ou mãe. Mas é
plenamente compreensível quando os pais se voltam
contra a vivência deste amor. Os adultos procuram passar
a ideia de perfeição, sabedoria, quando na verdade
também estão sofrendo por causa do amor ou não estão
bem nas suas relações afetivas.
Depois de um tempo começamos a perceber o
papel destes pais na intervenção do relacionamento
amoroso e sexual dos filhos, sem dúvida, mesmo casados
sofrem deste mal do amor e projetam sua raiva, em
alguns casos, invejam a experiência de amar. E quando
conhecemos as fantasias projetadas sobre os filhos?
147
Quem não gostaria daquela alegria e felicidade, sabemos
que o neurótico não consegue conviver e aceitar a
vivência deste amor. Justamente por isto inicia-se a
avalanche de fofocas, comentários, tudo com o objetivo
de impedir e desmoralizar aqueles que vivem este amor.
Como são jovens, não sabem se defender, mas
entendem que existe algo de anormal e muito estranho
acontecendo nesta família. Nos casos patológicos a mãe
compete com a filha, agredi e menospreza a figura
masculina. Isto demonstra este processo de formação
reativa, critica, coloca defeitos, mas no fundo era tudo
que gostaria que acontecesse na sua vida.
Não consegue conviver com este estado de
alegria e felicidade de sua filha, por outro lado, o pai
procura fazer uso de seu poder, impõe e intervém para
salvar a vida desta garota inocente, tudo é muito bem
dissimulado para esconder este incesto psíquico.
Esta dinâmica neurótica enlouquece qualquer
pessoa. A competição aparece quando a mãe instiga o
esposo a tomar providências, ingênuo, inconsciente deste
desejo, parte para a ofensa, tudo está muito claro,
gostaria de viver este amor que a filha vive, mas como
sua carência é enorme, tem inveja e ciúme deste amor.
Quem poderia desconfiar desta projeção patológica de
uma mãe em relação a sua filha, talvez por isto que exista
o conflito e a inimizade.
A neurose compactua sempre com a traição, e
sabe utilizar as mentes ingênuas e mal preparadas para
colocar seus planos em ação. Nas famílias que são
portadoras de saúde psíquica o amor consegue fluir e ser
148
vivenciado, na verdade é o que todos desejam, mas nem
sempre acontece desta forma. Quando a mãe regride a
esta fase da adolescência, demonstra com esta atitude o
seu desejo inconsciente de competir com este amor de
sua filha.
Este deslocamento afetivo projeta na competição
aquela experiência afetiva que viveu com seus pais, na
sua fantasia acredita que tem mais direitos que os seus
filhos. Não consegue conviver com a liberdade e a
sexualidade, esta sempre criticando, perseguindo e
persuadindo a todos para não aceitarem o namorado de
sua filha, porque esta vivencia de amor desencadeia um
mal estar, inveja e ciúme pela cumplicidade simbiótica
desta família.
Porque acredita que tem o direito de
experimentar aquilo que não conseguiu, não tem
nenhuma culpa, está disposta a viver a dimensão do
amor. É algo inimaginável, choca, mas nas mentes
doentias, isto é perfeitamente normal, precisa utilizar
pessoas para poder viver seu romance doentio.
A fantasia é desfeita porque não encontra
respaldo na sua patologia, quando se defronta com a
frustração da negação, torna-se agressiva e violenta, este
é o grande problema das neuroses, projetam seus
desejos e gostam de adaptar e enquadrar o seu objeto de
amor de acordo com as suas fantasias. Por isto, não
encontra respaldo e nem aceitação por parte da pessoa
que está sendo alvo deste desejo. Precisa recompor-se e
conviver com esta rejeição, sente-se abandonada, sua

149
sedução, estratégias maquiavélicas não conseguiram dar
conta deste desejo de amar.
O amor exige um caminho natural de ética, os
neuróticos escondem suas verdadeiras razões, não são
coerentes, dissimulam, fazem este papel de vítima para
atrair a atenção de seu objeto de amor. Agora precisa
conviver novamente com a frustração amorosa, é quando
o feitiço vira contra o feiticeiro. As razões que explicam
estes conflitos nas relações, acontece porque
inconscientemente as neuroses começam a mostrar a sua
cara, neste momento entende os “modus operandi”
destas emoções destrutivas.
Mas o amor verdadeiro consegue passar por
todas estas turbulências e salvaguardar a essência
daquilo que une esta emoção, sinceridade, bondade,
alteridade, honestidade, este tipo de caráter está tomado
por esta humanidade. Ninguém consegue desfazer aquilo
que por direito é seu. Estas neuroses sofrem a
metamorfose e transformam-se em vítimas de suas
emoções, a direção destas pulsões é destruir e matar
tudo de bom e belo, mas nem sempre é infalível em suas
ações.
Depois da morte do “phatos” a energia
emocional está livre para reencontrar-se com o amor,
esta emoção precisa encarar a nova realidade,
conscientizar-se de que o caminho está aberto para
transpor todas as barreiras que impedem a sua vivência.
O coração tem razões que a razão não consegue explicar,
comenta o filósofo Pascal, este confronto com a verdade

150
esclarece estes medos e traumas que fizeram do amor
uma experiência de dor e perda.
Agora é preciso assumir este amor. A prova do
amor vem acompanhada deste sentimento que não
termina nunca, por isto esta emoção tem esta nobreza, o
tempo passa, as experiências se acumulam, mas a
sensação de inteireza, de paz e alegria nunca termina,
quando está na presença do seu amor. Por isto que os
verdadeiros amantes nunca desistem de lutar e travar
verdadeiras batalhas para ficar com o seu parceiro.
De alguma forma o amor acaba prevalecendo
porque estas experiências são únicas e verdadeiras. O
amor ensina a fortaleza da coragem, a ousadia, os
equívocos, e nesta semântica circula uma energia que
sempre volta com o mesmo tema: desilusão, separação,
ruptura, solidão, este embate entre as pulsões de vida e
morte acontecem a cada instante. As emoções estão
envolvidas com este desejo de amar a vida, a si mesmo e
aos outros, representa tudo aquilo de mais belo e
sublime que a pulsão de vida pode oferecer.
A biofilia do amor representa a unidade
inseparável da alegria e felicidade, este lugar de
compreensão, de confiança, de duas pessoas que buscam
esta felicidade, manifestação do bem, sair deste estado
de inocência e amadurecer, aprender a lutar por tudo
aquilo que é digno desta emoção. Biofilia do amor pode
ser traduzida como um remédio eficaz contra qualquer
manifestação neurótica, este desejo insaciável de ser
amado e amar, ninguém podem sentir-se culpado por ter
tentado viver esta experiência de amor.
151
O amor biofilo propicia as condições de
encontrar-se com o seu verdadeiro sentido na existência,
superar os medos, desfazer pactos, amadurecer e tomar
decisões, o amor exige responsabilidade, conhecimento
de si mesmo, revelações que podem ajudar na
compreensão daquele que não aceita a perda, os lutos, as
mortes, as mágoas, estão na essência desta biofilia de
Eros.
Esta emoção do amor deve unir-se a ética da
verdade, a mentira é escrava da neurose, sair desta
condição do medo e voltar os seus olhos para um
horizonte de confiança, das condições que este amor
pode prover a todos aqueles que souberam defender-se
das armadilhas do ódio. Esta sensibilidade é uma pureza
de espírito que encanta, mostra a essência de sua
humanidade, apesar de todos os problemas e
dificuldades, o amor é este remédio que cura as dores do
espírito.

152
4.0 - Mesmo na morte os pactos têm o poder de
esconder o medo de amar.

Na estrutura da energia estão aqueles signos e


sinais predispostos a tornar real o verdadeiro significado.
Estes sonhos começam a se delinear por conta do desejo
desta natureza, estas necessidades básicas interpõem-se
naquela força como um desenho que se estrutura na
pulsão. Toda esta simbologia precede de uma essência
inteligente que conhece a intenção primeira da natureza,
e neste emaranhado de códigos genéticos existe o
encontro com a realidade da existência, este impulso
precisa tornar-se consciente para concretizar aquela
pulsão.
A energia pulsional vibra na essência de cada
célula, enfim o segredo da natureza é continuar este
processo de metamorfose na elaboração de cada
emoção, são infinitas as condições em cada realidade,
para que aconteça a criatividade e originalidade de cada
ser humano. Chamo de realidade aquilo que a cultura, o
meio social, condição econômica e política estrutura nas
mentes das pessoas, uma forma de pensar, interpretar,
viver de acordo com estes valores éticos de cada ser
humano.
A realidade a que me refiro está impregnada de
uma história, pois cada fenômeno ou necessidade de
sobrevivência precisa da inteligência para tornar possível
a preservação da sua vida. O ser humano presencia as
forças da cultura e procura adaptar-se a estas exigências
morais e estéticas, nem sempre consegue ser fidedigno
153
as aspirações e expectativas daquela cultura. A energia
psíquica está representada em cada célula por vínculos
de amor e afeto. Existe algo de sobrenatural e divino nas
relações em que o amor está presente, estes laços de
confiança, de ternura, de bondade enaltecem aquilo que
cada pessoa prioriza na sua existência.
Talvez o amor seja esta energia que aparece
transfigurada no discurso e daquilo que foi possível fazer
em nome das qualidades e virtudes que juntas as outras
emoções, como a coragem, a alegria, influencia na sua
humanidade. O ser humano conhece as debilidades e
forças presentes na sua natureza, mas nem sempre a
pulsão de vida consegue impedir o progresso e ascensão
da morte. Depois de uma existência começa a pensar
sobre aquilo que restou desta experiência de amor, e
neste instante o silêncio se torna órfão das palavras.
A mente humana nunca tem suas certezas sobre
estas escolhas, são estes caminhos que tornam a vida
estupenda, ninguém pode descrever com certeza
absoluta sobre esta estrada que conduz à felicidade, cada
pessoa faz o melhor que pode por si mesmo, e talvez
alguns segredos nunca deveriam ser revelados, não por
medo de falar sobre, mas respeitar estas pessoas que não
estão preparadas para entender o modo como cada um
escolheu viver. Cada pessoa acaba escolhendo suas
crenças e valores, uma filosofia de vida, algo em que
acreditar, e assim, termina sua breve estada aqui neste
planeta. Ninguém tem claro o que entende por amor e do
seu significado em sua vida.

154
Cada pessoa nasce desta relação entre o físico e a
natureza, sua inteligência consegue entender naquele
momento preciso o que está acontecendo em sua vida,
observa seus gostos e desenvolve uma apreciação
favorável para alguns tipos de prazeres. Aquela situação
existencial se vive naquele instante como um passe de
mágica, se transforma de um momento para o outro
numa emoção. Começa a perguntar-se: Que forças são
estas que atrelam o pensamento a realização destas
pulsões?
Na existência muitas questões estão a procura de
respostas, segredos, pactos, histórias escondidas, mas
nem mesmo a razão consegue impedir o aparecimento
desta verdade, mas na verdade aparece como
protagonista desta emoção. Como o inconsciente
consegue resgatar e desencadear uma busca por
respostas que possam resolver a sua angústia? Como este
inconsciente cultural interpreta os lugares que poderiam
revelar este passado, esta realidade transcultural que
está nos recônditos da mente humana?
A energia inconsciente utiliza símbolos e imagens
que procuram avisar sobre os perigos da existência,
existem nomes, lugares, espaços dos quais não se podem
falar, estes pactos exigem que este segredo não seja
revelado. Porque ao falar sobre eles conhece a verdade,
entende os motivos de determinadas atitudes, e muitos
juram pela sua vida que guardará segredo. Às vezes o
passado é um tesouro, porque revelam às motivações
inconscientes de desejos obscuros e proibidos, estes
acontecimentos não podem ser conhecidos.
155
Todos são influenciados pela cultura familiar,
estas crenças, as emoções, os desejos, as crendices
retratam a realidade daquele contexto religioso, militar,
econômico e ideológico. As circunstâncias históricas,
econômicas e políticas sempre mostraram o lado obscuro
da pulsão destrutiva e outra na defesa intransigente da
paz.
Guerra e Paz, momentos de uma única
experiência, fatos e acontecimentos que determinam a
vida e morte de milhões de pessoas. O ser humano
procura defender-se deste monstro que aparece sem ao
menos avisar, suas ações estão repletas de crueldade,
existe no seu íntimo, o desejo de matar e destruir.
E neste ambiente cultural encontramos diante
dos seus olhos algumas verdades que ninguém gostaria
de pensar ou ouvir, mas a morte deixa muitas incógnitas.
Às vezes algumas respostas são duras e cruéis,
começamos a entender porque muitas pessoas preferem
o silêncio a falar do seu passado, estes segredos guardam
o lado sombrio, traiçoeiro, que engana. A sinceridade
está predisposta a falar destas verdades, e muitas delas
não são muitos agradáveis, porque todos esperam ouvir
algo de bom, às vezes a realidade é totalmente diferente
daquilo que se esperava.
Muitos procuram de todas as manheiras
amenizar ou pelo menos tornar a dor um pouco menor.
Os relacionamentos possuem esta condição de cada um
ao seu modo, adequar-se a relacionar-se com as questões
do amor. Algumas pessoas acabam racionalizando, as
palavras são secas e frias, o corpo está emudecido, resta
156
apenas aquele gesto de compaixão. Um corpo manifesta
seu prazer ou desprazer pela tonalidade das roupas que
usa, pelo olhar fixo e profundo, pelas palavras suaves que
têm o poder de reprimir com profundidade aquele tipo
de emoção.
A emoção reveste-se da cultura e impõe através
de uma imagem, nesta simbologia está impregnado no
corpo aquele tipo de sofrimento, porque muitos destes
segredos não podem ser revelados, e ninguém pode
entender o presente sem analisar o passado, estas
recordações são verdades que representam aquele tipo
de realidade emocional.
As histórias são contadas para entender muitos
dos segredos que acabaram sendo enterrados por
gerações, em algum momento as emoções precisam
estabelecer uma comunicação com o consciente. E
quando este processo de descoberta inicia seu caminho,
todas as pessoas envolvidas nestes segredos pedem sigilo
absoluto.
Porque o passado pode transformar-se num
tesouro, são pessoas que trazem sobre a sua história uma
maneira muito particular de interpretar a realidade,
talvez porque cada um viva segundo seus pensamentos,
ideias, escolhas; estas “ideologias” estão impregnadas em
cada célula neuronal e acabam aparecendo nos traços
sofridos do rosto e das mãos. Existem muitos tipos de
amores, amor por um homem, por seus filhos, pelo seu
país, pelo seu time de futebol, pelos amigos, etc. Mas
este amor enaltece e possui a força de transformar
sonhos em realidade. Cada pessoa realiza sua existência
157
de acordo com as suas crenças, seria como a bússola que
cada um carrega consigo para nortear as suas decisões na
existência.
Todos os seres humanos terminam sua trajetória
quando se encontra diante da morte, neste instante
reflete e pensa sobre aquilo que foi capaz de fazer, não
somente para si mesmo. A morte mostra a finitude
daquele amor, neste instante precisa lidar com a perda, o
luto seria uma tristeza ou alegria de viver naquele tempo
com aquela pessoa muito especial.
A elaboração e o confronto desta perda denuncia
a existência deste “pacto” que faz entender a presença
de cada um na história do outro. A despedida nos mostra
que precisa conviver com tudo aquilo que não foi possível
resolver, as emoções permanecem vivas e atuantes e
precisam ser compreendidas.
O luto é este retrato da falta de presença, de
aceitar a finitude daquele amor, todos referenciam este
momento, esta falta de amor precisa de algum modo ser
preenchida pela presença de outros amores, este é o
gesto simbólico do amor, um ritual que se traduz numa
mensagem de despedida, e parece que nenhuma
explicação pode convencer alguém da sua necessidade.
Ninguém gosta de perder alguém que amou, e
no final de tudo, todos sabem que cada um ofereceu em
vida aquilo que tinha de melhor. Os equívocos fazem
parte da humanidade, quase ninguém gosta de lembrar-
se disto, mas as limitações humanas fazem recordar-se da
finitude da vida.

158
A morte traz à consciência a importância da vida,
e do modo como cada um viveu, aqueles que ficaram
com a sua imagem, podem ao seu gosto desfazer-se
delas, ou fazer de tudo para guardá-las no seu coração.
Somos humanos, ninguém é menos que ninguém, todos
possuem esta grandeza de reconhecer na finitude de sua
vida os momentos de alegria e tristeza, de ganhos e
perdas, e assim, cada um fica com o que tem de melhor
ou pior no final de uma vida. O silêncio leva ao encontro,
desta morte traiçoeira, ninguém sabe o dia ou a hora,
mas esta incerteza convida cada ser humano a cuidar de
sua vida.
Antes é preciso amar a vida do que racionalizá-la,
justificá-la ou defendê-la. Quem conviveu com alguém
que morreu, aprendeu algo de bom e útil. Existem muitas
tragédias, incêndios, maremotos, terremotos, acidentes,
tsunamis, enfim a morte aparece revestida de muitas
formas, existem muitos modos de morrer, existe uma
morte de agonia, de imprudência e injustiça, mas todas
elas retratam o mesmo drama de perder a vida sem
desejar a morte. A tragédia nos mostra este lado
desumano e nefasto da necrofilia, são situações de
conflito que anunciam a convivência com a morte.
Quem pode proteger-se da morte? Quem pode
ter certeza de que viverá para sempre? Nem sempre o
abrigo da casa dos pais é uma garantia para afastá-lo da
morte. Muitos conseguem proteger-se do seu egoísmo,
do narcisismo, e em muitos casos nem mesmo a morte é
capaz de transformar o caráter de uma pessoa, às vezes
nos surpreende, porque a morte pode trazer muitos
159
significados para algumas pessoas que conviveram com a
sua presença. Mas independente da sua presença ou não,
o ser humano esta viciado numa maneira de pensar
equivocada sobre a existência e as relações humanas.
Todas as ideologias políticas, religiosas e
econômicas estão por detrás da morte, são estes
conflitos mal resolvidos que acompanham a vida das
pessoas, amar a vida, cuidar dela, mas por algum motivo
a morte ceifou mais uma vida. Muitos procuram a morte,
outros a morte persegue sem desistir de sua vítima. A
morte está revestida desta imagem de poder e
autoridade, ideologias que fomentam a raiva e ódio,
mentes inconscientes de suas ações. Agora estão
preparadas para defender o seu amor à pátria, a uma
instituição, a um partido político, estão impregnados do
dever ético e matam em nome do amor.
Existem consciências que sabem viver e defender
a vida, amam a vida acima das ideologias, mas não são
todos que pensam desta maneira. As tragédias ceifam
vidas inocentes, e permanecerão nas memórias daquelas
gerações futuras, este inconsciente coletivo é capaz de
lembrar-se dos detalhes daquelas mortes. Muitas destas
pessoas fazem questão de esquecer-se deste passado,
outros jamais esquecerão, porque tiveram uma vivência
muito profunda com aquelas pessoas que morreram.
Quando uma pessoa procura entrar em contato
com o seu passado, está a procura de respostas, talvez de
uma memória que a faça recordar-se de seus amores,
porque o amor torna a vida mais agradável, pelo menos o
cérebro sabe como produzir estes hormônios sagrados
160
capazes de viver feliz e alegre. O amor precisa
estabelecer suas próprias regras. Como alguém pode
dividir o seu amor materno por outra mulher, do seu país
por um amigo, do seu trabalho por uma namorada, enfim
é preciso saber conviver com todos estes tipos de
amores.
Mas existe um amor muito especial, o amor entre
verdadeiros amigos, de uma mãe para com seu filho, de
dois jovens amantes. O amor se serve do narcisismo, do
egoísmo, das aventuras, das mentiras para impressionar
e conquistar aquela pessoal especial, por isto utiliza todas
as suas estratégias de poder e convencimento,
despertam a atenção e admiração do seu objeto de
amado.
Todos querem viver o amor, talvez a profissão, a
competição tenha algo a ver com a conquista deste amor,
as proezas, as seduções têm como objetivo impressionar
e vender uma imagem de segurança e inteligência. A
conquista de uma pessoa precisa destes atributos, para
encantar e enfeitiçar aquela que teima em viver aquela
experiência de amor.
Algumas pessoas são privilegiadas em viver esta
dimensão do amor, e muitos estão atentos aos olhares
daqueles que precisam deste amor, pois ele passa
inevitavelmente por esta admiração. Quando o amor
inicia na vida de uma pessoa, existem aqueles que não
sabem ou tem medo de aproximar-se desta emoção,
portanto preferem destruir, invejar e sentir ciúmes. Estas
emoções norteiam a vida, porque todos os seres
humanos desejam ser amados e de alguma forma
161
aprender também a amar. A vida é esta grande incógnita,
ninguém pode ter plena certeza do que vai acontecer no
futuro, todos querem e preferem o melhor, mas nem
sempre os fatos acontecem desta maneira.
Existe um inconsciente, esta energia semântica e
cultural possui o endereço correto de suas buscas. Nas
memórias do cérebro estão o retrato das imagens,
emoções e acontecimentos, são pessoas transformadas
em energia, alocadas nas memórias do passado,
permanecem vivas para serem interpretadas.
Estas imagens possuem o poder de colorir a
existência e as emoções, para enaltecer o dom da vida,
são recordações de um passado que revive sobre erros e
acertos. Os julgamentos, as condenações, a moral, as
culpas, as mágoas, decepções, mesmo depois da morte,
permanecem latentes e atuantes na vida de qualquer
pessoa.
Qual é mesmo o significado do amor na
existência? Existe um único tipo de amor? A vida passa
rápido demais para ficar preso aos acontecimentos
negativos, pelo menos aqueles que não fogem de sua
verdade pessoal estão fazendo sua análise pessoal. O
relacionamento entre os seres humanos são eternos e
duram para sempre, independente do seu tempo, ou dos
seus acontecimentos, este retrato foi uma experiência
que se tornou real. O amor passa inevitavelmente por
este processo de maturidade, de criatividade, de perdão
e aceitação.
Todos possuem a capacidade de voltar ao
passado e reviver naquelas imagens, as emoções daquele
162
tipo de amor, mas as ações de cumplicidade e intimidade
de um passado fazem parte da vida de muitas pessoas. O
amor de amizade permanece como sempre, naquelas
horas que mais alguém precisa, muitos têm dificuldades
em elaborar suas perdas, racionalizam, negam, não
aceitam a realidade, enfim, preferem narcotizar a dor da
perda a compreendê-la em toda sua extensão. As drogas,
psicotrópicos, álcool e outros métodos de narcotização
podem ser uma excelente fuga deste sofrimento.
A liberdade diante da perda vem sempre
acompanhada de raiva e ódio, pois culpa o outro por não
ter permitido vivê-la na sua máxima intensidade, os
ambientes nutrem aquela energia, ninguém percebe, mas
são como fantasmas que perseguem aquelas emoções
não resolvidas.
Cada pessoa guarda nas profundezas de suas
atitudes segredos não revelados; pois as motivações são
inúmeras, por exemplo, por respeito a um amigo. Muitos
sentem a obrigação de continuar presos a estes vínculos,
porque é muito difícil romper com estes pactos
inconscientes. Os mortos vivem como energia mesmo
depois da morte física.
E no instante da morte aparecem muitas
interrogações, os filhos começam a interessar-se pelo
passado deste amor, estas imagens parecem numa foto,
mas são de carne e osso, esta energia representa aquilo
que o ser humano tem de mais sagrado, o amor que
viveu com aquela pessoa.
A vida passa depressa demais, ninguém pode dar-
se ao luxo de passar pela existência sem ter
163
experimentado o amor. Muitas das decepções e alegrias
do amor podem ser absorvidas inconscientemente pelos
filhos, aquilo que os pais deixaram de viver por medo ou
inibição podem ser incubados, achando-se no direito de
vivenciá-lo em retribuição ao amor que recebeu.
Qual é mesmo o mistério desta atração por um
amor? Que poder é este do amor que induz a assumir
compromissos e responsabilidades por aqueles que
amam? O que existe de atraente e erótico, que faz
respirar e envolver-se nesta trama do amor? Que
dimensão é esta do inconsciente? Quais as qualidades
desta atração que leva a ambos a esta atração recíproca?
O quanto de consciência existe nestas conquistas?
Quando existe amor é reciproco o desejo de querer o
bem do outro? Todos são ou não dependentes deste
amor? O amor poderia ser considerado uma necessidade
afetiva?
O diálogo dos vínculos obscurece a razão e traz a
tona a dor do sofrimento, a perda, raiva, indignação,
revolta, estes pactos inconscientes induzem a vítima a
ocupar o lugar do morto. Às vezes ocupa um lugar de
vigia e controle, de defesa do caráter do defunto, da
sexualidade, entende que precisa estar na defesa daquele
que tanto amou, provoca brigas, discussões,
desentendimentos, tudo com o objetivo de controlar as
atitudes e deixar que a viúva continue casta e obediente
aos desejos do defunto. A morte sempre leva as pessoas
a refletirem sobre o sentido na existência, este diálogo é
fundamental entre pais e filhos para poderem entender e
compreender os desejos daqueles que continuam vivos.
164
O grande problema é estar preparado para
escutar esta história, revelar estes segredos e encontrar-
se com a verdade. É preciso dizer as razões sobre como
aquele que viveu interpreta suas atitudes, uma das
exigências no relacionamento é a fidelidade, o passado
aparece naquelas imagens da juventude, são estes
segredos que atormentam a vida daqueles que
continuam vivos, mas a culpa exige a punição. O único
modo de resolver esta questão é falar a verdade, estas
emoções do amor proibido, de amar escondido ou de não
poder expressar o amor por medo, pode ser a origem de
uma doença.
São emoções que perpassam a compreensão
racional, e mesmo sem muita consciência sobre este
modo de agir, interferem na sua vida futura, do outro e
daqueles que convivem com sua pessoa. São sonhos que
desde a juventude permanecem vivos na memória,
projetos, realizações, que estão na essência daquele
jovem, a força, determinação, coragem, ousadia,
qualidades efetivas, podem conquistar o interesse de
uma pessoa que ama. Às vezes, nem sempre recebe o
amor de uma garota, mas de amigos, dos pais, enfim,
mostra através de suas realizações um pouco do seu
caráter.
As virtudes devem ser apreciadas pelas ações
efetivas que demonstrem um resultado, são muitos os
caminhos que alguém pode se predispor para realizar os
seus sonhos. Este amor à vida, conquistas, projetos,
demonstra a energia empreendedora de uma pessoa. O
amor pode ser conquistado num primeiro momento pelo
165
visual, o erótico, algo pulsional desperta este interesse
sexual, uma paixão acompanhada de prazer. Depois o
amor se envaidece de ser capaz em conquistar também
as qualidades, virtudes, e talvez uma das mais
importantes, o espírito de coragem e iniciativa para
realizar os seus sonhos.
Muitos sonhos na juventude acabam sendo
comprometidos pelas ideologias equivocadas que matam
e terminam sempre em violência. Estas ideologias são
fomentadas pelas instituições que dizem defender a vida,
mas na verdade enganam e prometem a morte. A cultura
de uma sociedade viciada pela mentira e o engano, os
jovens ainda não conseguem fazer uma interpretação
correta dos riscos que aquela profissão tem em sua vida.
O desejo de aventura, de provar que é forte, que possui
coragem, que não tem medo da morte; estas e outras
iniciativas exageradas podem levar à completa
destruição. Inconsciente desta decisão pode
comprometer a sua vida afetiva e amorosa, pois a
profissão exige uma dedicação, interesse, entrega total
de seu tempo.
O amor pode desencadear uma reação
motivacional, não existe cansaço, este desejo de
conquistar o seu amor pode ser a fonte inspiradora de
seus sonhos. O amor erótico, pela pátria, pelos amigos,
possui diversos significados. Os símbolos estão na
essência de cada sonho a ser realizado, muitos deles
estão impregnados de fantasia. O amor possui a força
capaz de mover montanhas, tudo com a finalidade de
conquistar o seu grande amor. O amor pode ser a
166
salvação ou a morte de um espírito. Os desejos estão
entrelaçados nestes fios que tecem cada tecido de um
órgão, este corpo pertence às influências das palavras e
das emoções que agora fazem parte de sua história.
As decisões estão sempre permeadas por estes
desejos do amor. O amor possui esta força pulsional de
segurança, de necessidade de afeto, de receber atenção e
cuidado. O que enobrece o amor é a força que
encaminha ambos para viver uma vida juntos, as
promessas feitas e as mudanças que forçam as pessoas a
seguirem fielmente aquele pacto ou ser capaz de desfazê-
lo, isto depende muito dos valores culturais,
religiosidade, são muitos os fatores que influenciam uma
decisão, que pode repercutir por toda uma vida.
Quais são as motivações de ambos os sexos? Da
forma de pensar de uma mulher ou do homem? Daquilo
que cada um pode encontrar como fonte inspiradora de
sua conquista, me parece que toda esta escolha é
inconsciente, por isto mesmo pode trazer sérias
consequências para viver no futuro este amor.
A saúde psíquica, a realização de um projeto de
vida, a vivência de um grande amor, depende em última
instância de conhecimento de si mesmo, porque muitas
destas pulsões seguem a orientação e o desejo de sua
natureza biológica. E nem sempre as pulsões possuem a
certeza de suas escolhas, seu único objetivo é satisfazer e
atender as suas necessidades, neste instante precisa de
inteligência para aprender a postergar, renunciar se
preciso aquele desejo. As pulsões exigem a realização

167
daquele orgasmo, do amor, da posição social, da
profissão.
Sem consciência sobre o investimento desta
energia psíquica, termina por tomar decisões imaturas e
infantis, neste instante começa a sua grande aventura
para viver esta experiência de amor. A natureza erótica
apresenta no corpo humano os atrativos para aproximar
estas duas almas num único interesse, vivenciar este
amor. Por isto mesmo o sexo não pode ser simplesmente
uma descarga genética, mas a união, o respeito, a
consideração, a alegria de viver uma experiência de
descobertas emocionais. Estes momentos são únicos,
emoções que permanecem eternas, de um projeto de
seres humanos dispostos a investir nesta experiência de
amor.
O amor sofre esta transformação ao longo dos
anos, são várias as metamorfoses que os corpos e os
órgãos sofrem ao fazer esta passagem, às vezes a
poligamia é mais forte que a monogamia, porque sempre
traz a tona o velho problema da traição. A natureza
sexual não sofre dos males da moral, de uma religião, que
estão sempre dispostos a fazer o jogo da cultura, da
sociedade, e muitos aprenderam a grande lição e
tornaram-se espertos, pois desenvolveram duas atitudes,
uma para se adequar as normas e regras da família
tradicional e a outra que tem liberdade para viverem
vários amores.
Tudo nos leva a entender que estes “segredos”
nem sempre são eficazes, existem olhos que observam,
vigiam e controlam de longe estas atitudes, com o
168
objetivo de proteger seus interesses. Quando o passado
começa a ser desenterrado aparecem às verdades sobre
a maneira como cada pessoa interpreta e vive a
existência. Os questionamentos começam a surgir sobre
esta filosofia de vida, aquelas que não se enquadram
dentro dos costumes e tradições de uma cultura são
perseguidos e criticados.
Os conflitos de crenças, costumes e tradições
podem desencadear um verdadeiro incêndio, cada um
escolhe um papel que pretende desempenhar ou
representar. Existem situações e acontecimentos que
fogem ao controle de qualquer pessoa, são outros
interesses que propõe um estilo de vida mais agressivo,
estão propensos a fazer qualquer coisa pelo poder e
dinheiro, este é seu único deus, sua devoção invoca esta
compulsão para viver de acordo com a transgressão e
violência. São ideologias que estão na essência de uma
emoção de raiva e ódio, entregam suas vidas a um
fanatismo, estão dispostos a fazer qualquer sacrifício em
nome daquela “ideia”.
A existência percorre um caminho dirigido pelas
ideias da mente humana, estas crenças limitam um
pensar reflexivo sobre a sua realidade. Tornam-se
obsessivos, estão envolvidos por aquele estilo de vida. Às
vezes o amor a uma ideologia, é mais forte e violento que
um vínculo humano. São experiências emocionais que
produzem raiva e ódio, estão interessados em eliminar os
inimigos, fazem da existência uma guerra contínua, todo
seu investimento procura salvar e dar continuidade a
estas “ideologias”, esta espécie de alienação realça o
169
fator preponderante da necrofilia. Um amor exagerado
pelo prazer de matar e destruir, seus pensamentos estão
repletos deste desejo de poder e dominação, este amor
narcísico e solitário é o sacrifício que pretende oferecer
como oferenda a sua ideologia.
Na juventude existe liberdade de expressar às
emoções, de viver a sexualidade, aos poucos a educação,
a religião, a cultura, impõe um controle compulsivo sobre
a espontaneidade da alegria, da negação do corpo, da
autenticidade de ser. Aos poucos estes jovens tornam-se
adultos e começam a assimilar o duplo discurso nas suas
vidas, os rostos ficam sérios, o sorriso desaparece, o
corpo fica tenso e rígido, perde a espontaneidade de
viver segundo a sua natureza.
Este dilema da “fidelidade” é um problema que
acompanha a cultura, porque nem sempre os seres
humanos conseguem cumprir com esta demanda. O
amor proibido, os beijos escondidos, entre estes
encontros e desencontros da emoção, surge às escolhas,
os envolvimentos, as conquistas. Momentos que marcam
para sempre a vida amorosa, homens e mulheres estão
interessados em viver este amor, cada um segundo suas
estratégias.
Este processo de idealização da mulher ou do
homem perfeito acaba desmoronando quando se inicia a
descoberta deste duplo discurso. Efetivamente um ser
humano não consegue abarcar todos os desejos daquela
pessoa que ama, muitos dos seus interesses estão acima
daquilo que o outro pode oferecer.

170
São catástrofes, incêndios, guerras, tragédias que
acabam mudando o rumo da existência de milhões de
pessoas. A sociedade tem leis que exigem das pessoas o
cumprimento do seu dever cívico, mesmo que isto custe
a sua vida, ninguém pode viver distante desta realidade
nociva e incongruente das decisões de líderes lunáticos e
esquizofrênicos que decidem em nome da pátria, da
salvação, de um deus, matar, violentar, estuprar,
prender, eis o poder de decisão de uma ideologia que um
líder possui em suas mãos. As pessoas ficam tristes,
sabem o que lhes espera, mas mesmo assim, são capazes
de abandonar a família, o seu grande amor, filhos, para
defender os interesses ideológicos de uma sociedade
doente e esquizofrênica.
A ideologia sempre faz suas cobranças, exigindo
que cada um cumpra com suas obrigações, ameaça com
seu poder bélico qualquer ação contrária, não existe
saída. Por isto existe investimento na mídia, com filmes,
publicidade, com o intuito de convencer a população
sobre a necessidade de proteger o seu país com a vida de
milhares de jovens.
O discurso é sempre o mesmo, tudo vai dar
certo, voltarei assim que a guerra terminar, agora precisa
assumir seu posto de comando, são argumentos que não
justificam esta aproximação com a guerra e carnificina.
Mas cada um vive segundo suas ideologias e defendem
intransigentemente esta maneira de interpretar a
existência.
Estes desencontros culturais interferem na
vivência da intimidade, são interesses obscuros
171
incompreensíveis, mas que muitos defendem com
intransigência a necessidade do conflito. A única forma
de amenizar a perda de uma relação são as promessas de
um futuro melhor, uma utopia de uma vivência perfeita.
O amor permanece ausente quando enfrentam os
primeiros conflitos e interesses, o desespero para não
perder o seu amor, impele a ambos, a tomar decisões
precipitadas. São maneiras estupidas e infantis de
compensar a perda, porque na separação existe o
sacrifício, a doação, a perda, a solidão, para poder
resolver este conflito de interesses iniciam-se as
tratativas dos pactos conscientes e inconscientes.
Para não perder o seu grande amor, prometem
casamento, presentes, fidelidade, para deixar a outra
pessoa comprometida com os seus segredos, ambos
fomentam a necessidade do pacto da aliança, do
casamento escondido, e depois inicia as declarações de
amor. Esta emoção de amor acaba sendo contaminada
por estas ideologias, crenças e promessas que terminam
não sendo atendidas. Por isto muitas pessoas vivem
numa ilusão, presas ao passado, obedecem sem
questionar as suas promessas. Este é o poder da cultura,
porque em cada decisão, estão presentes os costumes e
tradições de uma determinada sociedade.
A alienação é a pior doença, o cérebro está
condicionado a viver de acordo com aqueles princípios e
regras, seu olhar está preso naquele tipo de
interpretação, não consegue enxergar de modo
diferente. Tudo pode acontecer desde que siga as regras
e normas daquela ideologia, nem sempre o amor provoca
172
alegria e felicidade, às vezes o romance passa por
momentos difíceis e dolorosos, a causa é sempre a
mesma, a permanência da rigidez de ideias. No âmbito
das relações aparece uma competição velada, formas de
pensar diferentes, cada qual procura defender sua
maneira de interpretar a realidade.
Estas rupturas ideológicas trazem sempre
sofrimento, mágoa, rancor, ódio, porque estão
comprometidos com desejos contraditórios, como por
exemplo: “eu nunca amarei outra pessoa, eu sei que
vamos morrer juntos, você é a única pessoa que existirá
em minha vida, não existe outra pessoa mais importante
para mim do que você”. Os anos passam, mas os
sentimentos ficam e as emoções permanecem eternas e
passam de geração após geração, os filhos acabam
herdando estas emoções, inconscientes deste seu estado
de infelicidade, não compreendem as forças destas
tradições e costumes sobre as suas vidas.
A perda de um grande amor, de um filho, de um
amigo paralisa as ações no tempo, surge neste espaço
uma reflexão sobre as experiências exitosas, de prazer,
alegria, dor e sofrimento, esta avaliação culmina com
este luto, naquele momento sua vida está voltada para
defender, questionar ou livrar-se dos seus pactos. O luto
é um processo de conscientização sobre aquilo que nunca
perdeu e que ainda vive nas lembranças daqueles
momentos inesquecíveis de amor e intimidade, de
rebeldia e aceitação, este fluxo de emoções adormece e
aceita aquela perda.

173
Ao fazer este luto pode partir para novas
experiências, cada pessoa vive desta originalidade do
amor, e ao permitir-se sair desta condição de vítima e
sofrimento, de culpa, punição, é capaz de viver outra
experiência mais autentica e verdadeira sobre o amor.
Sempre existe este espaço para permitir-se viver o amor,
sem o luto, isto se torna impossível, esta reflexão sobre
aquela relação pode trazer consequências muito
produtivas sobre como cada um pretende viver o amor.
A pessoa que está afetada pela perda agride os
amigos, filhos, parentes, esta raiva é o resultado de sua
dor. A elaboração deste passado precisa deste espaço de
reflexão, num primeiro momento experimenta a solidão,
o isolamento, precisa desta intimidade para dialogar com
as suas emoções. Este retraimento é muito parecido com
a depressão, mas na verdade é uma enorme tristeza,
agora sem a presença do seu amor, precisa dar um novo
significado a sua vida. Assim, não há como adormecer,
sedar, narcotizar esta dor da perda, esta emoção precisa
ser elaborada, compreendida, perdoada, ressignificada,
condições “a priori para voltar a viver”.
Outras gerações estão vivenciando
inconscientemente estas perdas, esta tristeza invade os
lares, as emoções de todas as pessoas estão envolvidas
neste tipo de perda. O ser humano não se convence com
poucas palavras ou explicações sobre a perda de um
grande amor, principalmente quando vem acompanhada
de uma tragédia, são estes inconvenientes da existência
que faz com que muitos se revoltem e caminhem para
um processo de autodestruição. Abafar, reprimir, isolar,
174
esconder aquela emoção, aumenta ainda mais a angústia,
a dor aumenta, neste instante é preciso elaborar,
compreender, entender e interpretar os ganhos e perdas
desta oportunidade de conviver com esta pessoa amada.
São estes “segredos” que atormentam e não
deixam o espírito em paz, de alguma maneira existe este
interesse em entender as motivações deste processo
destrutivo. Uma espécie de punição pela culpa de não
estar a altura do reconhecimento e valorização do seu
amor. Por medo de viver a verdade do amor acabam
anestesiando com drogas, adições a emoção de
infelicidade. Este segredo do passado deve permanecer
enterrado, ninguém tem o direito de exumar este corpo e
conhecer as verdadeiras causa desta morte. O encontro
desta verdade pode desencadear uma solução ou
aumentar o ódio e isolamento.
Os filhos destes casais carregam esta história em
suas memórias, não podem fingir que está tudo bem,
quando percebe no rosto de seus pais a infelicidade, sai à
procura de respostas para aquele tipo de tristeza. Os
antepassados conversam o tempo todo com os vivos,
suas mensagens aparecem nas emoções e sentimentos
que ficaram memorizados. O interesse de todo ser
humano surge quando existem estes mistérios que não
foram bem explicados, existem histórias que não estão
escritas, mas permanecem atuantes e se manifestam nos
sintomas daqueles que estão vivos.
Descobrir o que aconteceu no passado, pode
explicar muito sobre o que está acontecendo no
presente, os adultos são muito espertos e procuram de
175
todas as formas proteger as vítimas do conteúdo de
algumas verdades que provocam dor e sofrimento. Esta
história do não dito, aparece nos sintomas orgânicos e
existenciais, são pactos agendados e acordados ainda na
juventude e que permanecem por toda a vida. Em se
tratando-se do amor, estas verdades permanecem como
um segredo, uma tratativa sobre o que deveria
acontecer, caso existisse algum tipo de incidente,
estamos falando de acordos entre jovens e familiares,
sobre este “pacto inconsciente” que permanece latente,
atuando indiretamente nas vidas destas pessoas.
São verdades que jamais podem ser ditas, por
isto mesmo, chamam de “pactos inconscientes” aqueles
que são acordados entre um grupo de pessoas numa
determinada época, esta energia emocional começa a
atrapalhar a vida daqueles que vivem este drama
indiretamente.
Estes pactos envolvem decisões e segredos sobre
uma pessoa. São verdades esclarecidas numa época da
vida, mas depois tornam-se um empecilho, porque
naquele momento histórico era funcional e resolvia o
problema do amor. Depois os tempos mudaram, a vida
tomou seu próprio caminho, cada um precisa fazer a sua
história, este segredo é um peso, uma carga que todos os
envolvidos acabam carregando sobre as suas costas.
Naquele momento todos concordam em manter
este segredo, depois este fantasma persegue aqueles que
estão vivendo. O amor não consegue viver a sua
plenitude, porque esta decisão está acima desta emoção,
talvez seja outro amor de amizade, seja mais forte que o
176
amor erótico, mas enfim são amores conflitantes e
disputam um lugar nas memórias destas pessoas que
estão sendo alvo de seus segredos. Como alguém poderia
arranjar, coordenar, planejar, para que amores diferentes
pudessem coexistir conjuntamente?
Por detrás de um “Pacto” existe um desejo de
proteger o seu “amor”, está preocupado em deixar
alguém no seu lugar, este legado de humanidade pode
ser de uma grandiosidade, generosidade, compaixão, mas
ao mesmo tempo, envolve a todos num compromisso de
proteger a pessoa amada. Então, este amor representa o
desejo daqueles que morreram e aquele que ocupa este
“lugar”, pretende atender as demandas daquele segredo.
Enfim, o pacto está sendo efetivado, tudo em nome do
“amor”, esta pessoa pode não saber em palavras sobre o
conteúdo deste pacto, mas absorve inconscientemente a
sensação de estar vivendo com um defunto através de
uma pessoa viva.
Algumas pessoas ficam remoendo este “segredo”
com medo de revelar ou desfazer aquele pacto, o único
modo de curtir esta perda ou narcotizar esta pesada
carga afetiva do amor é esconder-se de si mesmo e de
todos. A solidão é uma dura pena, este sofrimento
ameniza a culpa, mas não resolve o seu passado, é
quando a energia emocional procura o ponto de
equilíbrio, nas reminiscências do seu passado busca
elaborar os encantos do amor. Todos estão afetados por
esta atmosfera do amor, um amor que está envolvido
com este pacto, ambos sentem-se na obrigação de

177
manter o sigilo absoluto sobre o que aconteceu naquela
determinada época histórica.
O único inconveniente é quando aparecem as
histórias de outros tempos que ninguém sabia, é quando
as verdades que estavam soterradas acabam vindo a
tona. Estes sinais simbólicos retratam a verdade sobre
um amor que foi vivido, contudo sempre existe uma
prova, um fato, um acontecimento que revela aquilo que
estava escondido, enterrado. Os mortos falam através
das imagens do passado e são capazes de se comunicar
através das emoções, estes símbolos possuem uma carga
de energia emocional que se traduz em uma história que
estava repleta de amor. A morte de uma pessoa amada
pode tornar-se uma fonte de angustia, de ansiedade, de
tristeza, pois este encargo velado torna-se um grande
peso, quase insuportável para aquela pessoa que está
viva.
O inconsciente coletivo é uma energia que se
movimenta com inteligência para resolver estes “pactos
inconscientes” que depois se tornam conscientes, pois as
pessoas envolvidas acabam experimentando um pouco
ou quase tudo desta carga afetiva. Pessoas, eventos,
acontecimentos, podem ser utilizados para trazer um
“símbolo” como uma incógnita que precisa ser decifrada.
É muito interessante compreender esta comunicação
inconsciente que aparece nos símbolos, signos e sinais,
são mensagens que chegam por vias indiretas ao seu
objetivo, fazer a denuncia deste pacto.
Os caminhos seguem diferentes percursos, e
aquele pacto acaba se transformando numa realidade,
178
estes contornos dos afetos estrutura a origem destes
pactos, geralmente sempre pretende proteger alguma
pessoa que é fruto deste amor, não existe tempo e nem
espaço para esta energia emocional aparecer e pedir uma
solução para aquele tipo de sofrimento. Alguns fazem
uma opção pelo silêncio, as palavras não saem da boca
destes atores, mas pronunciam-se nas ações veladas e
escondidas de seus pensamentos.
Muitas verdades sobre a morte acabam sendo
escondidas, porque a perda de uma pessoa amada traz
muito sofrimento e dor. A culpa e o medo do futuro
aparecem quando a tragédia da morte aproxima-se e tira
do convívio aquela pessoa amada, amores vividos numa
dimensão de lealdade e respeito.
Quando a morte aparece na voz profética
daquele que comentou sobre a sua possível existência,
pode desencadear muita culpa, inconsciente de seus
desejos, a vítima pode resolver seus problemas num
acidente aéreo, de carro, num incêndio, etc.
Cada pessoa em especial resolve seus dilemas
pelo caminho da morte ou do silêncio lento e gradativo
de um processo autodestrutivo, porque estes “pactos”
acabam transformando em culpa, aquilo que não pode
ser elaborado e compreendido em vida. Cada pessoa
envolvida nestes segredos participa em intensidade e
igualdade de sofrimento, por estar participando ativa ou
indiretamente do pacto. O inconsciente coletivo registra
estes acontecimentos, percebe o sofrimento, sente que
existe algo estranho acontecendo, mas não consegue

179
descobrir a origem ou a história que poderia explicar
todo este segredo.
O silêncio, as reflexões escondem as mentiras,
este pacto pretende proteger o objeto de amor pela via
indireta da mentira, porque a verdade traz sofrimento. As
palavras não precisam ser ditas, mas certas atitudes
podem ser entendidas, são as mensagens não verbais que
denunciam as notícias das tragédias; um simples olhar, a
voz embargada pela emoção, a posição fetal do corpo, as
mãos sobre o rosto, são sinais que podem ser traduzidos
num significado. O corpo manifesta pela tensão do rosto,
pelo olhar fixo, pela sinceridade do abraço, uma verdade
que é muito difícil de ser verbalizada.
Quem participa desta interação de comunicação
não verbal percebe a dificuldade que o receptor tem de
dar a notícia, por mais difícil que seja, independente da
forma como cada um recebe esta mensagem de morte,
alguns com revolta e indignação, outros com desmaios ou
sem nenhuma reação, são capazes de neutralizar a
emoção. Para não sofrer, reprimem qualquer
manifestação de dor. São imagens que trazem na sua
essência uma história de segredos, sua única missão é
amparar, proteger e garantir mesmo diante de uma
tragédia eminente, a continuidade daqueles vínculos.
Esta interpretação sobre o medo de perder o
amor de sua vida pode amparar-se nestes pactos que
podem garantir a continuidade deste amor, são maneiras
de resolver o problema da perda, uma fantasia onde
todos participam na solução daquele amor impossível,
mas que pode continuar com a aprovação de uma outra
180
pessoa. Ocupar o lugar de alguém que morre, assumir
esta condição para satisfazer o desejo do defunto, são
questões difíceis de prever sobre a influência desta
relação amorosa.
Um pacto precisa da conveniência e
compartilhamento daquela ideia que está sendo colocada
em prática, existe a aceitação incondicional daquela ação
em conjunto, este segredo pode ser entre duas ou mais
pessoas. Esta é uma decisão precipitada e infantil de
fazer um pacto para dar continuidade ao amor do
defunto. Quando duas ou três pessoas se reúnem para
salvaguardar a existência deste “segredo” porque
acreditam que desta maneira racional resolvem o seu
compromisso inconsciente.
A vida é feita de mudança e transformação, os
pactos seguem uma orientação rígida e regressiva no
tempo, não consegue acompanhar e entender as
mudanças que estão acontecendo, estas ideias deixam de
ser funcionais e adequadas para aquele momento da
historia. De solução começa a tornar-se um problema de
difícil saída, todos ficam atrelados àquela cena imagística,
ninguém tem a coragem de trair, de quebrar, de falar a
verdade, conviver com estes segredos se torna uma
tortura.
Este laço afetivo defende e protege aquele objeto
de amor, para que um pacto torne-se realidade é preciso
a aceitação de todas as pessoas que envolvem este
segredo. Estes símbolos representam uma lembrança,
uma magia que carrega uma emoção de amor, este
conteúdo apresenta um significado de alguma crença
181
religiosa, política, militar, econômica. Estes pactos tomam
a proporção de uma verdade absoluta, palavras que
ecoam por toda a eternidade. Neste instante todas
invejam aquele amor, pois este estado de graça enaltece
a condição humana, ao seu grau mais elevado.
O único inconveniente são as ideologias que
afastam as pessoas do amor e as convencem a fazer uma
opção pelo ódio, este estado de alienação pode provocar
este conflito. Quando alguém começa a recordar-se de
uma pessoa amada que morreu, sua intenção psíquica
entra em contato com aquela energia emocional que está
sedimentada em suas memórias. Os mortos ressuscitam
e aparecem revestidos de desejos, sua energia se
comunica naquelas mentes onde se encontram aquelas
cenas.
Cada pessoa estabelece estas relações afetivas de
acordo com o seu ambiente cultural que permitem ou
não, viver a dimensão do amor. E neste processo de
reflexão sobre a existência, surgem descobertas e
evidências dos pactos inconscientes, um morto não está
morto de fato, a morte física se deteriora com o passar
dos anos, restando somente um cadáver. A morte
psíquica nunca acontece, porque estas imagens estão nas
memórias daquelas pessoas que o amaram, seu espírito
vive através destas emoções de amor, de ódio, de raiva,
etc.
Ao descobrir as raízes deste sofrimento na
história de vida aparecem ao mesmo tempo descobertas
que não tinham interesse, mas elas estavam onde
ninguém esperava. Depois de conviver com estes
182
segredos torna-se cumplice. Agora pertence à esfera
destas tragédias, ao envolver-se nestas escavações do
passado, precisa aprender a conviver com a violência, as
ameaças, as torturas, agora este segredo está ligado a
outras histórias que também fazem parte indiretamente
daquele pacto inconsciente. A pressão psicológica, o
medo, o risco de vida aumenta o nível de adrenalina no
seu sangue, mas independente do que está vivendo
emocionalmente, não existe nenhum modo de retornar
aquela situação do passado.
Inconsciente do resultado deste processo de
descoberta, sua maneira de emocionar-se encontra por
detrás deste morto, outras histórias e vínculos que jamais
gostaria de saber, por isto, é cumplice e pertence a este
pacto. Um fato está ligado ao outro, e assim por diante,
quem faz parte deste “segredo” ameaça com morte,
agressões, e utiliza tipo de chantagem com o objetivo de
afastá-lo do encontro com a verdade.
Agora quem está envolvido, sofre todo tipo de
sedução para resolver aquilo que está na essência do
símbolo, aqueles que deveriam enfrentar a situação não
podem aparecer, porque senão estariam quebrando o
pacto, por isto utilizam um terceiro, geralmente uma
pessoa ingênua para fazer o trabalho de solução deste
pacto.
A pessoa envolvida se torna de agora em diante
coautora desta história, seu cérebro responde a esta
sedução, acredita que o risco de sua vida poderá ajudar
alguém a viver mais feliz. Está sendo usado, seduzido
pelas palavras de carinho e atenção, resolve assumir este
183
compromisso de solucionar de vez o segredo. O agente
deste pedido é uma das pessoas que realizaram o pacto,
mas tem medo, e sua culpa não permite que fale a
verdade. Por isto geralmente utilizam um terceiro, a
vitima é sempre inocente, aos poucos começa a entender
a gravidade desta descoberta.
Infelizmente é tarde demais, está sendo usado
como um bode expiatório por aqueles que não têm
interesse que este “pacto” seja revelado, existem pessoas
que vigiam, câmeras que filmam seus passos, máquinas
que tiram fotos, sua vida passa por um controle. Esta
pressão psicológica acontece dos dois lados, agora não
tem mais liberdade, sabe que perdeu a espontaneidade e
meteu-se numa enrascada insolúvel, não existe como
voltar atrás e desfazer daquilo que descobriu, estas
verdades trouxeram-lhe consequências desagradáveis.
Não lhe resta outra saída a não ser seguir em
frente, então decide encontrar-se com uma das partes
envolvidas neste pacto, precisa de ajuda e proteção.
Aqueles que vivem o segredo que foi posto pelo pacto,
continuam anestesiados pela dor, mesmo depois da
morte do autor do pacto, os coadjuvantes continuam na
proteção e defesa intransigente do acordo que foi
estabelecido, estas regras não podem ser desfeitas. O
único objetivo destas pessoas neste processo do pacto é
realizar o sonho do falecido, indiretamente a pessoa
morta vive através das pessoas dispostas a levar adiante
a efetivação deste pacto.
O pacto inconsciente revela as exigências de
como aquela pessoa deve ser cuidada, amada, vigiada,
184
controlada, mas as vítimas desconhecem os verdadeiros
motivos desta elaboração, num primeiro momento todos
aceitam, somente mais tarde é que começam a perceber
que este acordo esconde algum tipo de medo em nome
da proteção do amor, aparece à culpa e a raiva da
traição.
O autor do pacto tem suas razões para passar
uma imagem de bondade e caridade, pretende defender
e fazer valer a existência do seu amor a qualquer preço,
mas no fundo de sua alma, esconde a verdade sobre o
medo de viver este amor ou de perdê-lo. Esta é a grande
verdade que se esconde por detrás deste pacto
inconsciente.
Aqueles que sobreviveram as intempéries do
tempo perseguem na concretização deste plano, e estão
pressionados pela promessa de cumprir com o desejo
daquele que morreu; agora o que conta não é mais o
amor, mas cuidar daquele que ficou sem amor, alguém
deve tornar-se responsável por proteger aquele que
perdeu o seu amor. Ninguém questiona se a vítima está
disposta ou gostaria de viver o amor desta maneira, se
aceita o desejo daquele que morreu; para os atores do
pacto nada disso interessa, precisam efetivar e colocar
em ação aquilo que prometeram a pessoa falecida.
Este objeto de amor sabe que existe um plano,
um pacto que precisa ser efetivado, por isto mesmo não
pode afastar-se ou dizer não a este pedido de casamento.
Todos estão interessados em salvaguardar a imagem do
falecido, existe uma pressão para proteger este

185
“segredo” mesmo que isto tenha que custar a própria
morte.
Quando os atores pretendem desfazer este
pacto, produz muito sofrimento, inicia uma série de
questões sobre o impacto desta verdade na vida dos
filhos. Como um filho pode interpretar que o seu
nascimento não foi fruto do amor, e sim de um pacto
para salvaguardar a memória de uma pessoa falecida que
foi seu amor no passado?
Esta é uma situação complexa e de difícil solução,
porque ninguém sabe a reação de uma pessoa quando
descobre uma verdade sobre os seus pais, porque todo o
amor que recebeu partiu do seu pai, muitos concordam
que a verdade liberta, que os filhos devem saber a
verdade, que precisam de uma chance para poder livrar-
se deste pacto que permanece latente em seu
inconsciente.
Quando a dor da perda de uma pessoa amada é
demais para suportar, existe a tendência de negar e
afastar-se de qualquer manifestação de afeto. Esta
notícia da morte termina com os sonhos daqueles que
projetaram uma família feliz e alegre, agora ao contrário,
amarga a sua perda e precisa concordar em executar o
pacto, consolidá-lo definitivamente.
Mas o pacto não é infalível em sua execução, pois
a efetivação deste projeto ocasionou a perda da
liberdade, da autonomia, da autenticidade. O corpo está
comprometido com os prejuízos do impacto deste
“segredo” sobre a sua vida, os envolvidos estão cegos,
surdos e mudos para esta dor, não enxergam as
186
verdadeiras razões e das motivações inconscientes que
cada um contribui para salvaguardar este “segredo”.
A realidade é cruel, pois o resultado deste pacto
é tristeza, morte, desilusão, decepção. Não tem a mínima
consciência sobre estas escolhas que terminaram em
destruição de uma vida, restou somente a ideologia de
um corpo aprisionado por ideias delirantes de poder e
ambição.
A ideologia consegue algo notável na vida das
pessoas, retirar a capacidade de enxergar a realidade e
afastar-se cada vez mais da verdade. O grande
questionamento da psicanálise enquanto ciência é saber
as motivações inconscientes capazes de desencadear,
tamanha atrocidade em nome do amor. Como as pessoas
não percebem o que estão fazendo com as sua vida?
Porque em nome deste amor fraternal, oferecem suas
vidas, como um sacrifício para proteger e fazer valer a
continuidade deste pacto? Que vínculo é este que tem o
poder de dominar as consciências e fazê-las escravas
desta verdade, uma mentira com lógica para agradar e
obedecer à memória do falecido?
Às vezes o sofrimento é insuportável, os filhos
percebem que devem fazer alguma coisa para impedir
que este luto torne-se uma tragédia. Porque o luto é para
elaborar a morte, e não oferecer a sua vida como um
holocausto a memória daquele que morreu. Guardar o
luto, referenciar e solidarizar-se com a memória daquele
que morreu; assim estas pessoas podem levar décadas de
anos ininterruptos para responsabilizar-se mutuamente
pelo sigilo da verdade.
187
A atmosfera emocional destes atores é de
apreensão, medo, ansiedade. Cada um começa a
interpretar os efeitos nefastos do pacto, e exige que
alguém tenha coragem para desfazer o pacto, o único
modo de acabar com todo este sofrimento é falar a
verdade sobre o passado.
O medo é aterrador, porque ao falar a verdade,
alguém pode sair prejudicado nesta revelação. Como
alguma pessoa pode entender um pai ou uma mãe,
quando foi traído no seu amor materno. Porque o que
existe de mais sagrado nos vínculos de pais e filhos é
saber que foi amado, que o amor existiu e que seu
nascimento aconteceu, graças à existência deste amor.
Então, não existe nada mais decepcionante em saber que
sua vida estava atrelada a um pacto de pessoas que
estavam interessadas em salvaguardar um amor
simbiótico. Um amor a três, um incesto que pretende
perdurar para sempre, este lado doentio da obsessão que
não mede as consequências de suas decisões, mesmo
que isto envolva pessoas dos laços afetivos de uma
família.
Eis o grande conflito: Como desfazer este pacto,
quando os filhos já estão adultos? Os filhos têm
capacidade e maturidade para entender o que aconteceu
no passado? Qual é a influência desta revelação na vida
destas pessoas envolvidas neste pacto inconsciente? A
verdade tem o poder de fazer desaparecer o medo do
casamento? Esta tomada de consciência liberta mesmo
da continuidade deste incesto psíquico? São muitas as
questões e dúvidas que começam a surgir quando se
188
pretende tomar uma decisão desta envergadura. Mas
existem diversas maneiras de trazer a tona estes
segredos.
Todos aprendem na vida a demonstrar força e
coragem, não sabemos bem os porquês, mas as máscaras
representam esta segunda natureza, todos são forçados a
jamais demonstrar uma emoção, o medo, a tristeza, a
mágoa, a raiva, o ódio, não podem aparecer, precisam
dar lugar a coragem, a aceitação, nestes pactos muitas
vezes, um dos atores acaba absorvendo e assumindo com
dedicação e obediência os desejos do falecido. Ainda
mais, quando estão culpados por amar a mesma pessoa
do morto, pois consideram os únicos membros desta
família fictícia.
A verdade começa a ser revelada, primeira
mentira, a casa onde mora não é sua, segundo, o seu
verdadeiro pai morreu num acidente. O fantasma do
falecido aparece nestas memórias, nas lembranças das
roupas, as fotos estão protegidas num lugar seguro,
esperando o momento de serem reveladas; por detrás da
parede, esconde-se um mural que conta a história
verdadeira, esta é a prova concreta que o segredo existe.
Agora chegou o momento de destruir a parede e mostrar
a verdade, conhecer quem são estes personagens que
construíram este pacto. Porque no momento em que o
falecido foi enterrado, também foram escondidas as
provas deste passado do falecido.
Quando os filhos conhecem a verdade, saem em
defesa daqueles que amaram e não aceitam a traição, o
engano, a mentira; ficam revoltados, indignados e com
189
muita raiva, ódio do que fizeram com aquele que
suportou e representou o seu papel coadjuvante durante
toda uma vida.
Dois atores deste pacto estão mortos, o ator
principal aquele que teve a ideia de fazer o pacto, aquele
que foi escolhido para casar com a sua amada, caso ela
morresse, estes não estão fisicamente presentes, mas
vivem nas memórias e lembranças, e seus nomes são
lembrados a todo o momento.
Os que estão vivos, aquele que protege e nunca
foi capaz de viver o amor verdadeiro que tinha por esta
mulher, é a única pessoa do sexo feminino que estava
sendo disputados por estes três homens. Agora o pacto
começa a ser revelado em todos os seus detalhes. Este
amor escondido por detrás deste pacto revela toda a
verdade sobre este relacionamento a três. Os filhos
expressam sua dor através da raiva, porque sabem que
foram usados, ficaram de fora deste amor materno.
É claro que os filhos não concordam e não
entendem a dimensão deste pacto, porque suas atenções
e desejos estão voltados para o afeto do falecido. Como
uma pessoa pode estar presa a um símbolo, e neste
significado deixar que sua vida ficasse presa ao passado,
viver no passado, viver do passado.
Os vivos que vivem a intenção dos mortos, toda
uma vida para realizar um sonho de alguém que se
tornou mártir, por medo de enfrentar a realidade de
perder o seu grande amor. Agora está tudo esclarecido,
conhece a origem deste pacto, sabem que todos foram

190
usados e usaram do pacto para fugir desta experiência de
amor.
A temática escondia este medo inconsciente de
amar, de não ser capaz de suportar a perde deste amor,
por isto fundaram e estabeleceram as regras e normas
deste pacto que defendia a permanência da ilusão, da
utopia, da mentira que nunca se realizaria, este é o triste
final desta história de amor.
As perguntas dos filhos são as seguintes: Por que
demoraram tanto tempo para revelar este segredo? Estes
filhos deste casal tornaram-se um acidente na vida deles?
Todos que participaram deste pacto morreram aos
poucos, ficaram mutilados, e aguardavam no silêncio a
oportunidade de viver o amor.
Todos precisavam expiar esta culpa, e uma das
formas de punir-se foi não viver o amor, sofrer por causa
do amor, esta dor fazia as pazes com o seu superego. A
existência sem consciência é a mesma coisa que
caminhar em meio ao nevoeiro e não saber que logo ali
na frente existe um desfiladeiro. Estas emoções
conseguem conturbar os pensamentos, direcionar a
existência num caminho de destruição, porque estes
vínculos que se escondem por detrás de um pacto,
escondem a mentira dos outros e de si mesmo.
A emoção do medo precisa deste processo de
racionalização, estas defesas protegem a razão do
encontro com a emoção, esta energia emocional é uma
espécie de trauma psiquico, porque circula na vida destas
pessoas. Passa de um para outro, esta energia se renova
graças ao medo, enquanto estes segredos não forem
191
revelados a energia emocional continua viva como nunca,
passando de pai para filho, fazendo sofrer gerações e
gerações. As promessas feitas aos mortos possuem este
poder de anulação do amor, mas ninguém está livre das
promessas que faz, cumprindo ou não.
Mas chega um momento na vida que é preciso
coragem para se afastar destes fantasmas que rondam e
impedem a vivência do amor, a única decisão possível é
desfazer-se destes pactos que acabam ceifando vidas
inocentes, tudo em nome da lealdade, das promessas, do
compromisso, da obrigação, etc.
Mas depois de livrar-se destas promessas é
possível voltar a amar e fazer novas compromissos, mas
ninguém sabe se é possível cumpri-la na integra. Depois
desta decisão a energia se dissipa, as pessoas se sentem
aliviadas, livres e felizes por não fazerem mais parte
daquele pacto.

192
5.0 - Quando o amor está acima de qualquer
doença.

Todos os homens possuem este amor narcísico


pela sua vaidade, este discurso defende um amor
especial pelo conhecimento, quem ama dedica-se de
corpo e alma para descobrir aquelas incógnitas sobre um
mundo de fenômenos misteriosos. Este amor pela
pesquisa descobriu a fórmula da bomba atômica na física,
em vários campos do conhecimento, como na medicina,
na astronomia, na tecnologia, os avanços mudaram a
maneira de viver do homem. Mas a ciência exige além da
dedicação amorosa, resultados que sejam aplicáveis a
aquela realidade. Os fenômenos da natureza desafiam os
cientistas a desvendar o próximo segredo, quem
pretende ser aquele que mudara o rumo da humanidade.
A mente humana escuta no silêncio aquele
discurso que enaltece a inteligência especial. Talvez este
amor obsessivo pelo conhecimento, possa trazer
prejuízos à interpretação da realidade, este amor pode
esconder os medos e inseguranças, esta obsessão é o
único modo que encontrou para resolver a sua
inferioridade. O deslocamento de sua energia psíquica
para o conhecimento, compensa a sua falta de
capacidade de amar. A mente humana possui esta
dimensão inconsciente da megalomania, da competição,
com a intenção de resolver esta necessidade de amor.
A apreciação positiva de uma instituição pode
tornar-se um tipo de amor numa sociedade ou cultura,
este gesto de reconhecimento e valorização aumenta sua
193
autoestima, dignifica sua imagem e enobrece seu
conceito pessoal. O grande problema entre o amor ao
conhecimento e o amor por si mesmo, está no nível de
compreensão de sua própria realidade. Porque este amor
pode elevar o nível de exigência a uma intensidade
insuportável por não saber lidar com as frustrações. No
silêncio, a fantasia é capaz de distanciar-se da realidade e
começar a elaborar o seu plano neurótico, para fugir do
confronto da frustração.
Porque o único modo de receber este
reconhecimento e valorização é através da capacidade do
raciocínio, resolvendo a sua inferioridade. No silêncio
conflituoso convive com os seus medos, no seu
isolamento, constrói seus castelos de sonhos. A fantasia é
este recurso que a mente inconsciente tem para projetar-
se no futuro, na solução do conhecimento de uma
metodologia, da hipótese que possa confirmar aquela
necessidade de resposta ao seu problema de pesquisa.
As imagens que acompanham a fantasia podem
ajudar ou prejudicar na elaboração de um método
específico, mas enfim, a mente está dotada deste
prodígio especial, ser capaz de lançar-se no futuro e
procurar nas profundezas dos fenômenos os segredos da
natureza ou uma solução para o seu dilema existencial.
Entre o delírio, a alucinação, a fantasia, a
imaginação, existe um ser humano a procura deste amor.
O investimento exagerado numa certeza absoluta torna a
mente refém de suas próprias ideologias, um vazio entre
as imagens e a realidade. Nestes ambientes muito
competitivos prevalece o individualismo, o egoísmo, o
194
narcisismo, emoções que enaltecem a desumanidade.
Neste mundo de vaidades cada um possui seu histórico
pessoal, pois estão interessados em fazer do
conhecimento o caminho de sua realização pessoal e
profissional. O intelectual esconde estes segredos
pessoais de medos e fracassos que não podem ser
pensados.
A soberba envaidece a ignorância pessoal,
acredita que pelo caminho de sua inteligência pode
desmerecer, humilhar, desqualificar aqueles que não
possuem o mesmo nível de convivência social. O
complexo de inferioridade retrata no rosto, nas mãos
trêmulas, no corpo enrijecido, no olhar cheio de medo,
aqueles traumas refém de suas emoções. A dificuldade
de relacionar-se, de competir em igualdade, de viver a
intimidade, porque o complexo de inferioridade é uma
emoção que empobrece as suas relações amorosas e
afetivas, deslocando para a inteligência a solução de seus
problemas pessoais.
O ambiente de muita competição favorece
aqueles que aprenderão a ser vencedores, a lidar com a
frustração da perda, mas nem sempre a realidade do
mundo do conhecimento tem as respostas para todos os
problemas humanos. No mundo científico da lógica, da
racionalidade, dos números, dos algarismos, das
fórmulas, existe um ser humano procurando encontrar-se
consigo mesmo. E talvez o maior problema a ser
descoberto, seja a fórmula da felicidade, um método
eficaz que possa tornar-se único e verdadeiro para viver a
dimensão do amor. Entre a frieza das fórmulas e dos
195
cálculos obstinados em querer ocupar o lugar de deus,
existe a humildade para reconhecer a pobre condição
humana das carências e limitações pessoais.
Quando a mente humana não consegue ou não
aprendeu a resolver adequadamente seus
relacionamentos humanos, surge então, a magia da
fantasia, a imaginação tece no raciocínio lógico uma
logica destituída de valor real para poder compensar sua
pobreza de amor. A realidade torna-se então, o foco de
interesse de sua obstinada atenção, seus olhos, sua
percepção estão envolvidos nesta interação entre as
imagens e a realidade virtual.
Existe uma energia agressiva que pretende
resolver a sua inferioridade, através da sua imaginação,
na fantasia a realidade se adapta e realiza seus desejos.
Além da inferioridade, a carência de amor e valorização
invade a sua consciência, de algum modo o cérebro exige
a satisfação desta pulsão de vida, viver o amor, o afeto, a
ternura, a amizade com a intenção de diminuir a solidão.
Este processo de imaginação recria na sua
fantasia os personagens que ajudam a conviver com os
seus medos, não tem mais controle sobre a realidade,
estas imagens são como personagens da sua vida,
depende em última instância da convivência com estas
energias que representam aquelas faltas da sua psique.
De algum modo o cérebro desenvolve estas
defesas com o objetivo de viver o amor, ao relacionar-se
com suas fantasias, as imagens personificam-se com um
estereotipo no seu caráter, aos poucos começam a fazer

196
parte de sua vida, pois agora desenvolveram sua própria
caracterologia.
Ao mesmo tempo assume um personagem
extrovertido, comunicativo, amistoso, irresponsável, o
lado oposto de seu caráter. São duas partes que
interagem entre si por necessidade de sobrevivência,
quando os medos ampliam a um nível insuportável, o
único modo de solucionar esta demanda, é recriar um
mundo fictício e visionário onde os desejos e sonhos
acabam se realizando.
A inibição é produto da inferioridade, uma
emoção que destrói sua confiança, diminui sua
autoestima, e deturpa seu pobre autoconceito. Este
medo inibe sua capacidade de relacionar-se, de conviver
socialmente. O superego não consegue admitir a
existência de algum tipo de perda ou frustração.
Existe este prejuízo enorme na convivência das
suas necessidades inconscientes, porque precisa de
alguma adição para poder expressar suas emoções, sem
perceber suas palavras agridem as pessoas e amigos e
afasta de sua convivência as pessoas que mais ama. O
alcoolismo, as drogas lícitas ou ilícitas convertem-se num
estimulante que provoca a alegria superficial, a
extroversão, a coragem, a ousadia, tudo sobre o efeito
nefasto desta reação química. Como precisa expressar
suas emoções e não consegue, torna-se aliado e
dependente das drogas, sua natureza neurológica sofre a
interferência química, modificando e tornando viciado
cada parte destas sinapses nos seus desejos de alegria e
felicidade.
197
Depois do efeito destas drogas, surge a
consciência de sua solidão, uma alegria que precisa de
uma reação química externa para poder ser vivida, esta
anestesia consegue apagar momentaneamente a falta de
amor, ao retomar a sua consciência percebe o grau de
infelicidade e carência.
Este desejo de amar e ser amado torna-se uma
necessidade de homens e mulheres, atingem a todas as
idades e classes sociais, a convivência com a solidão não é
uma experiência muito agradável, entendo que o ser
humano nasceu para compartilhar e aprender nas
relações de intimidade e companheirismo o
desenvolvimento deste legado das “humanitas”.
Cada pessoa percorre um caminho na tentativa
de encontrar-se com este amor pelos filhos, pela família,
pelos amigos, enfim o amor torna-se compromisso,
responsabilidade, porque não estão mais sozinhos,
existem filhos que dependem de sua saúde psíquica, de
sua segurança emocional, da alegria do casamento, da
felicidade deste casal.
O amor é capaz de exalar uma doçura nos
relacionamentos, uma ternura no cuidado das pessoas,
uma alegria na vivência desta maternidade. Estes são os
desafios do relacionamento, onde cada homem e mulher
sentem-se convidado a partilhar e viver com ética e
dedicação este amor fraterno por estas pessoas de sua
convivência.
Existem diversas formas de realizações, de alegria
que brota destas conquistas, a natureza é sabia quando
propicia ao ser humano esta experiência de realização na
198
maternidade e paternidade. O grande tema são os
conflitos, os desentendimentos, as contradições, as
mentiras que acabam fortalecendo as neuroses benignas
e malignas.
A decepção sempre vem acompanhada desta
falta de sinceridade, porque a superficialidade e a
mentira não deixam que a autenticidade seja a marca de
uma relação. Às vezes nos perguntamos: O que mata o
amor? O que produz raiva? Talvez seja a decepção, a
frustração pela traição, um investimento que acabou em
fracasso.
Mas ninguém tem o poder de saber o que vai
acontecer antes de se relacionar, as pessoas são
complexas e possuem seus segredos, desejos, e nem
sempre a maneira de interpretar a vida e os
acontecimentos são os mesmos. Cada um procura
explicações para entender a origem destas brigas,
desentendimentos, abusos, violências, que se nutre das
discussões que provocam mágoa e ressentimento.
Aos poucos estas emoções de raiva acabam
fazendo desaparecer a ternura, o carinho, o abraço, o
beijo, a relação sexual, este afastamento dos afetos tem a
ver com a decepção, a perda da admiração, em ambos os
casos, o casal não entende as motivações de tanta
cobrança e violência psicológica.
Temos que entender que a neurose se apropria
das emoções do medo e da raiva para fugir deste
compromisso do amor, procura desculpas e justificativas
para defender e proteger a sua compulsão. O medo de
amar aparece por detrás destas falsas explicações, não
199
tem a paciência e nem calma para resolver suas
inseguranças, em algum momento de suas vidas o
fingimento não consegue mais dar conta desta
representação teatral.
A indiferença, as traições, as decepções, corroem
e destroem a essência do amor, em algum momento da
existência é preciso encarar a verdade e assumir esta
humanidade, de saber que nem sempre existem vitórias,
aprender a conviver com as derrotas se torna
indispensável.
Todo ser humano possui este orgulho, uma
vaidade de fazer acontecer na sua vida aquilo que é mais
caro à existência, viver a plenitude do amor, qualquer
tipo de perda ensina que nem sempre se está com a
razão, ou de que alguém conhece tudo sobre o amor.
Estas crises amorosas fazem duas coisas numa pessoa,
produz raiva, ódio, vergonha, dor e por outro lado, alarga
os horizontes de sua experiência, compreende que esta
relação ensinou um pouco mais sobre as dificuldades dos
mistérios desta emoção humana chamada amor.
Nem sempre a ruptura, o término de um
relacionamento é o fim desta procura pelo amor, devido
ao sofrimento e os conflitos que ambos vivem, talvez seja
a decisão mais sensata a ruptura desta relação. Mas o
término de um relacionamento não significa à solução do
problema, as arestas, as experiências, os traumas, as
dores, as dificuldades do diálogo, trazem a tona todos os
problemas que estavam debaixo do tapete. A natureza
humana exige de qualquer ser humano o
desenvolvimento de suas potencialidades, e uma delas é
200
aprender a amar e deixar-se ser amado, em ambas as
situações precisa investir neste conhecimento de si
mesmo, porque ninguém é autossuficiente para resolver
as suas demandas sem ajuda de ninguém.
O machismo vem sempre acompanhado de um
narcisismo idiota e infantil, porque acredita na
observância de sua verdade e não sabe escutar as
verdades do outro. Muitos sofrem numa relação e
procuram de todas as formas disfarçar ou fazer de conta
que está tudo bem, este segredo de infelicidade e tristeza
fica escondido a sete chaves em seu coração. Tem medo
e vergonha de assumir a verdade de sua relação, de seus
sentimentos e emoções, porque ao reprimir este estado
de infelicidade pode começar a deslocar para algum
órgão do seu corpo esta dor.
A isto chamamos de psicossomática,
experiências frustrantes de sonhos que terminaram em
desilusão e frustração, qualquer pessoa deve entender
que elaborar, compreender, esclarecer e interpretar o
significado desta experiência em sua vida, é uma
condição para viver com saúde. A saúde é um estado de
consciência que traz consigo estes antecedentes, por
muito tempo estava inconsciente do esforço que fez para
aguentar e suportar uma mentira em sua vida. O
desgaste de energia, o consumo de tristeza, invade cada
célula de seu corpo, aos poucos a energia se dissipa em
doença, o organismo inteligente se entristece e não
aceita viver deste modo, a única maneira de sair desta
condição de frustação é o caminho da morte.

201
Por isto mesmo as doenças sempre iniciam pelo
caminho do sintoma, e aos poucos se transformam numa
metástase, uma agressividade que estava reprimida,
agora se desloca com toda sua destruição naquele órgão
específico. Todos são capazes de entender as
manifestações da negação da doença, das explicações e
racionalizações que explicam sem conhecer em
profundidade a sua causa. Mas o fato mais triste e
desolador é que uma tristeza, frustração, decepção,
perda, traição, pode transformar-se num sintoma
psicossomático, alterando o funcionamento, lesando e
comprometendo a função daquele órgão específico no
organismo.
Quando uma vida é vivida sem prazer, ou
contrariada no seu desejo, existe um esforço enorme
para poder fazer a vontade do seu parceiro, porque uma
relação a dois assume contornos que exigem que a
pessoa deixe de lado muitos dos seus prazeres e invista
nas escolhas do seu parceiro. Quando estes
investimentos dão certo, as glórias e vitórias são
compartilhadas por todos, mas quando o resultado é
negativo, iniciam-se as discordâncias e brigas que depois
acabam sempre culpando alguém por este fracasso. A
derrota não é fácil de digerir, a tendência é projetar a
culpa no seu parceiro. Mas naquele momento a raiva não
permite uma reflexão mais detalhada e profunda deste
estado de infelicidade.
Algumas pessoas enganam-se ao entender que
amar alguém é ser capaz de aguentar e suportar as
safadezas e traições. Mas em todos estes conflitos
202
permanece oculto e latente o medo de amar, ou de
permitir-se viver a dimensão do amor. As traições, as
amantes, os casos amorosos, aos poucos trazem a tona
este grau de infelicidade, e muitos acreditam que a
mudança de pessoas e lugares seja a solução de seus
problemas. Procura uma solução externa, explicações
religiosas, místicas, esotéricas, e não conseguem admitir
que seus medos inconscientes de viver este amor, são a
causa e origem de todo sofrimento na família.
Existe um sorriso falso e dissimulador, muitos
sabem disfarçar muito bem seu estado de infelicidade,
sorrindo e escondendo as verdadeiras razões deste
estado de tristeza. Ao não assumir a emoção e tentar
vender uma imagem de alegria, este investimento de
negação pode transformar-se em desespero, angustia,
que aos poucos encontra sua morada na doença. Estes
segredos do relacionamento acontecem porque as
pessoas têm vergonha de falar sobre eles, preferem
aguentar e suportar todo este fingimento, do que dizer a
verdade, acostumados a viver no desgosto, aos poucos a
dor torna-se rotineira e companheira de sua existência.
A manutenção deste “segredo” é um pacto que
fez consigo mesmo, e para suportá-lo precisa investir
numa demanda grande de energia psíquica, nem mesmo
a sensibilidade, a amorosidade pelos filhos consegue
resolver este estado de sofrimento. No silêncio de sua
solidão sofre as consequências da corrosão do seu
espírito, uma alma que aos poucos fica despida de sua
coragem para enfrentar os seus problemas. A meiguice, a

203
ternura, a bravura, são deixados de lado, seus olhos
preferem acreditar na salvação de sua relação.
É quando surgem as grandes interrogações do
relacionamento, das decisões, escolhas, que seguem uma
orientação neurótica para sustentar e dar vazão as
compulsões. Porque ninguém está muito consciente
sobre estas decisões apressadas e improdutivas, estas
escolhas sempre tomam o contorno de algum desejo que
precisa da distância e do isolamento para poder viver a
sua mentira ao seu modo. Quem está viciada numa
relação confusa e problemática, sempre acredita que o
clima afetivo e emocional tende a resolver-se com o
tempo. Insistem e investem toda sua energia e vitalidade
numa pessoa que às vezes não vale a pena.
Seria como um lobo revestido de ovelha, seu
investimento está voltado para dar conta do narcisismo
pessoal. Certas decisões e escolhas estão sustentadas em
uma neurose, quando isto acontece, o desastre da
relação é inevitável; explico, existem segredos e emoções
que circulam entre as pessoas de uma família, todos
percebem a sua existência, até porque elas criam um mal
estar, um clima pesado, na maioria das vezes tem a ver
com disputas de afetos. Não aceitam e não gostam de
incluir um terceiro na relação, gostam de estar longe de
tudo e de todos, e acreditam no poder de seu orgulho
pessoal.
Todo este contexto das relações esconde a matriz
que origina toda desavença, discórdia, e decisões
apressadas. Quando uma pessoa está sobre o controle de
uma emoção, diz e toma decisões impensadas e
204
impulsivas, depois com o decorrer do tempo surge o
arrependimento, o pedido de desculpas, as justificativas
que procuram de todas as maneiras, convencer o
parceiro que no futuro tudo vai dar certo. Muitas destas
escolhas escondem as verdadeiras causas de uma
decisão, em algum nível sabe que está fazendo o outro
sofrer, mas não importa, este é o preço que aquela
pessoa merece pagar.
As emoções de raiva, ódio, inveja, ciúme,
escondem destes conflitos familiares à verdadeira causa
destes afastamentos repentinos. E nestes casos, alguém
da relação deve abandonar amigos, familiares, tudo em
favor de um projeto maior, os desejos do seu esposo. São
perdas, afetos, amores deixados de lado, para investir na
felicidade do seu amor, acreditam e valorizam a decisão
do seu grande homem. Porque uma pessoa quando está
distante de seus pais e amigos, sente-se fragilizada,
insegura, e com menos condições de saber defender-se
das armadilhas neuróticas.
Por isto certas escolhas e tomadas de decisões
escondem os verdadeiros motivos de uma mudança.
Quando esta intenção está acompanhada de sinceridade
e honestidade a tendência é dar certo, o contrário
também é verdadeiro. Ninguém tem consciência sobre a
implicância de certas decisões na vida de uma família,
quase sempre existe engano, exploração, dominação,
fracasso, decepção. O amor possui estas duas realidades,
porque tem o poder de causar inveja, às vezes ninguém
está preparado para compartilhar ou dividir com os
outros o seu objeto de amor.
205
Sua ânsia por viver este amor é tamanha que
prefere dominá-la e ter tudo para si, qualquer insinuação
de divisão sente-se traído, com raiva, porque surge o
ciúme, inseguro acredita que vão roubar o seu grande
amor. Não sabe, tem medo de compartilhar o amor, este
amor está protegido numa redoma de vidro e não pode
ser tocado ou apreciado por mais ninguém. Existem
muitos amores que aparecem num momento de decisão,
o amor dos amigos, dos filhos, dos parentes, da esposa,
enfim, cada um com a sua provocação, muitos estão
dispostos a cobrar e monitorar se este amor está
acontecendo.
São decisões que possuem um custo, a perda da
presença daquelas pessoas importantes não é muito
agradável, afastar-se daquelas pessoas que ama, mas
enfim este é um processo inevitável, cada um deve fazer
sua própria experiência de amor. As emoções captam o
sentido da escolha, quem perde um vínculo fraterno se
entristece com a ausência daquele que ama, só existe
uma maneira de mostrar a indignação desta perda, a
frieza, o distanciamento, como uma forma de desaprovar
ou mostrar a sua contrariedade em relação àquela
decisão.
A despedida nem sempre é fácil, deixar pessoas
que ama e refazer uma nova vida, apostar numa nova
relação, desfazer os vínculos incestuosos, acabar com a
simbiose, por um lado ajuda na solução de sua
autonomia, por outro, precisa aprender a contar consigo
mesma. São estes momentos que trazem à consciência as
verdadeiras emoções que faz chorar e rir ao mesmo
206
tempo, mesmo assim, é difícil viver a verdade da emoção,
a dissimulação ajuda a tornar a decisão menos dramática,
fazendo de conta de que tudo está bem. Na vida também
se aprende a ser indiferente aos seus desejos e acabam
por priorizar os dos outros.
Assim as emoções vão contando as suas histórias,
aquele corpo simplesmente expressa aquilo que ele
entende como verdade, assim seu pensamento está
voltado para a realização de sua compulsão, faltou-lhe
competência para ser verdadeiro consigo mesmo, não
tem a consciência madura o suficiente, para saber que
esta decisão pode estar afetando a vida de outras
pessoas e de seus filhos.
É uma imprudência acompanhada de
inconsciência, os fatos acabam por denunciar a
infantilidade, mas existe uma saída para todas estas
experiências, saber escutar e enxergar com o coração o
resultado de suas ações, mas o narcisista é orgulhoso e
preconceituoso, primeiro porque tem a verdade e
segundo, não precisa de ninguém.
Nenhuma pessoa acha interessante conviver com
uma perda, entristece qualquer coração, a vida fica
despida de um sentido maior, e cada pessoa precisa
neste instante, de sua segurança emocional de ser capaz
de renunciar as suas compulsões, priorizando naquele
momento, um novo tipo de vida pessoal. Esta é a
grandeza das mentes flexíveis em qualquer idade,
capazes de refazer a sua vida, permitir um novo começo,
aprender a aceitar as perdas e estar aberto a fazer novas
experiências. Entender que a vida apresenta situações e
207
acontecimentos que não estavam anotados no seu
planejamento, estas supressas, propiciam a existência de
uma crise, mas também oportunizam a muitas pessoas
uma nova chance para refazer as suas vidas.
Nem sempre uma perda é término de tudo,
talvez seja o início de tudo aquilo que ainda não se
realizou, mas a experiência é uma tentativa de mostrar
aos pais e outras pessoas que possui competência própria
para gerenciar a própria vida. Ninguém pode esquivar-se
desta vaidade pessoal, porque estes vínculos não são
desfeitos de uma hora para outra, são eternos e duram
para sempre, por exemplo, o amor de uma mãe por um
filho, pelos amigos. Todos percebem o valor de uma
amizade, da presença de alguém que ama, e quando
menos espera, surge algo que tira do convívio pessoal a
presença daquela presença maravilhosa.
O que fica é a saudade, um olhar num horizonte
longínquo que acompanha o afastamento gradativo desta
pessoa amada, são todas estas questões de foro íntimo
que ficaram sem uma solução, ninguém é perfeito que
nunca cometa algum equivoco. Existe um valor na vida
destas pessoas que preenchem a lacuna da falta de amor
afetivo, erótico e fraternal.
Nestas horas faltam palavras para expressar a
emoção da perda, o silêncio fala mais alto, a tristeza
invade os olhares e muitos preferem chorar a perda desta
pessoa. Porque é a única coisa que resta fazer, nada mais
consegue explicar ou diminuir a dor da perda de uma
pessoa amada.

208
Cada um tenta disfarçar ou lidar com esta
emoção do amor, o impacto maior aparece naquele que
precisa tomar a decisão de sair deste ambiente familiar.
Quando as decisões são tomadas em base a uma
necessidade ou realidade concreta, qualquer pessoa
aceita com facilidade a perda, mas não esqueçamos, esta
necessidade pode ser mascarada. Ao não receber afeto,
ou sentir-se ameaçado na sua relação amorosa, o
rejeitado parte para o ataque, o resultado desta
intervenção é o aumento da rejeição, este ciclo de
agressão e violência é interminável.
Todas as pessoas a sua volta percebem o clima de
disputa afetiva, os filhos são os que mais sofrem porque
seus desejos e pensamentos não são levados em
consideração. É uma viagem sem retorno, um caminho
sem volta, quando estas disputas emocionais entram em
jogo, ninguém ganha com esta estupidez, todos perdem.
As sequelas sempre aparecem nas crianças, porque
sofrem com a ausência daqueles que amam. A
insensibilidade e indiferença repercutem através das
pessoas que vivem nesta família, é sempre uma
incógnita, a intensidade dos traumas, conhecer o que se
passa no íntimo daqueles que vivem este processo de
ruptura afetiva.
O discurso destas vítimas afetadas por esta
decisão é sempre mentirosa e fantasiosa, seu objetivo é
fazer os filhos acreditarem que esta decisão foi a mais
acertada. O adulto sabe representar e aprendeu a dizer
aquilo que não acredita, tudo para contentar o esposo,
um pai ou a mãe, em nome do amor tornam-se servis e
209
obedientes, esta confusão acaba por desgastar ainda
mais a relação, porque as decisões não são claras, ficam
subtendidas.
O investimento de energia torna-se cada vez mais
exaustivo e improdutivo, o cansaço, a apatia, o desânimo
esgota todas as forças que alguém tem para poder
manter a aparência. Este é o lado irônico, utilizar os filhos
para dizer algumas verdades ao seu companheiro, não
existe franqueza e sinceridade, as comunicações são
feitas num duplo discurso.
Mas as crianças são inteligentes, tem
sensibilidade e mesmo com sua pouca experiência
conseguem perceber a incongruência deste discurso que
não diz a verdade, as palavras são utilizadas para maquiar
a realidade, porque esconde a verdadeira causa desta
decisão. Se ainda não bastasse, o poder dos pais em
relação aos filhos acontece quando se exige silêncio,
adesão as suas decisões, imposição de ideias, aceitação
dos seus conselhos, depois não entendem, porque os
adolescentes não gostam ou afastam-se da convivência
dos adultos.
Nas famílias o diálogo deveria ser uma condição
para resolver problemas e conflitos de toda ordem, mas
não é o que acontece, quando as decisões são tomadas
de forma autoritária e individual, aquelas pessoas que
são obrigadas a aceitar esta condição, aprendem a ficar
em silêncio, caladas aceitam sem questionar as
imposições das figuras de autoridade que são os pais e
mães. Qualquer pessoa fica revoltada e indignada com
este ambiente autoritário e prepotente, onde não existe
210
espaço para a escuta, aos poucos todos aprendem a
representar um papel para agradar aos pais, mas
afetivamente estão distantes deles.
A solidão é algo insuportável, porque é um
egoísmo que não abre mão para aprender com os outros,
esta humanidade precisa da presença humana, estas
relações de conflitos e indiferença colaboram para a
vivência destas emoções na solidão, ficam perdidas no
tempo. Quando a solidão chega a níveis gritantes, não
existe saída, é preciso chamar atenção ou iniciar um
processo de formação de sintomas. Porque a doença
pode ser um pedido de ajuda, uma linguagem que o
corpo fala daquilo que a mente não tem coragem de
pedir.
Alguns não aprenderam na convivência, receber
afetos que precisavam para saciar sua sede de amor,
como não sabem conquistar uma amizade verdadeira,
sua linguagem inconsciente pode ser interpretada através
dos sintomas existenciais e psicossomáticos. De alguma
forma precisa da presença humana para não sentir-se
sozinha, as reclamações, a tonalidade da voz está
envolvida pela mágoa e ressentimento.
Não é muito confortável para nenhuma pessoa
conviver com esta perda, de alguma forma alguém deve
tomar o seu lugar, e o único modo de dar um novo
sentido na vida é possuir a coragem de se lançar em
busca deste amor. Sem este combustível o espírito
enfraquece, enlouquece e morre de tedio.
Todos os seres humanos são contagiados por esta
necessidade de aproximação, de envolver-se nos afetos,
211
nem sempre satisfazem as expectativas e desejos do seu
amante, isto é natural, porque desejam o melhor e não o
pior para si mesmo. A grande questão é esta: Esta pessoa
tem condições de atender a esta imagem idealizada do
seu desejo?
Ninguém pode ignorar a necessidade do amor,
porque somente o amor é capaz de contagiar,
proporcionar vida e alegria. Existe um receio para
envolver-se no amor, quase todos estão vacinados pelo
medo de amar, existe uma crise de credibilidade, de
honestidade, muitas pessoas brincam com os
sentimentos dos outros.
Toda relação parte do conhecimento de alguém,
porque consegue apreciar as partes obscuras de sua
sombra. Esta talvez seja o grande mistério do amor, que
transforma as pessoas em saudáveis e motivadas para
conviver com as limitações, inicialmente as intenções são
sempre para preencher uma lacuna social, mostrar à
sociedade que convive com uma mulher, enfim as
pessoas são usadas, e servem somente para aquela
ocasião, este é um pacto, uma negociação, como não tem
nada a perder, aceitam este papel ridículo, e aprendem a
representar.
Na existência parece existir este precedente de
fechar e abrir novas portas, quando menos se espera o
amor bate a sua porta, mas antes disso, é preciso estar
aberto a viver esta dimensão afetiva. O inconsciente
possui a prerrogativa, de aproximar pessoas que estão
procurando o mesmo objetivo. Apesar disto, as neuroses
se utilizam das defesas para se precaver e antecipar
212
qualquer tipo de alegria e felicidade, muitos escondem
seus verdadeiros desejos, enquanto a razão diz algo, o
coração mostra o contrário. É natural o medo de começar
qualquer relação, e muitos estão vacinados contra todo
tipo de exploração, abusos, violências, etc.
O amor institui este desejo que é mais poderoso
que qualquer racionalização, mas nem sempre o par
oposto possui os valores e qualidades que num primeiro
momento pensava possuir. Este medo de amar é um
cuidado especial para não se envolver e depois sofrer. A
insegurança e tensão seguem a sua intuição, mesmo com
a farta experiência não consegue superar este seu medo
de avançar e encarar uma relação que pode inovar, ou
complicar de vez a sua vida.
Os homens sedutores e conquistadores possuem
a qualidade de mostrar-se viril, para evidenciar sua
masculinidade utilizam do sexo para provar o quanto
gostam deste prazer. Uma cantada torna-se uma
agressão, não sabem respeitar as emoções e os sonhos
desta pessoa que está sendo conquistada, geralmente
são rejeitados e abandonados por aquelas que estão
sendo seduzidas.
Mas os casais apostam muito nesta mudança de
atitude, de ambiente, de lugares, etc. Existe de fato uma
esperança de que seus sonhos se realizem, esta atitude
positiva no início desta nova aventura a dois pode
desmistificar seus medos. A mudança de ambiente pode
ajudar a fazer este novo recomeço, mas nem tudo é
alegria, quando começa o trabalho, a rotina extenuante
dos compromissos, distancia ambos deste vínculo de
213
afeto. Depois disto, inicia as cobranças, as reclamações,
as desconfianças, geralmente começam aparecer quando
chega tarde do trabalho.
A insegurança surge como um turbilhão, sempre
acompanhado de fantasias, a vida agitada mostra que as
prioridades estão relacionadas ao seu trabalho e não as
pessoas com quem convive. O mundo do trabalho
envolve as pessoas numa série de compromissos e
atividades, torna-se difícil encontrar tempo para as
pessoas que ama. A única maneira de descobrir um novo
significado na existência é estabelecer novos vínculos de
amizade, os amigos verdadeiros são aqueles que
preenchem o vazio existencial com a sua fraternidade.
No mundo dos adultos acontecem estas crises
existenciais que podem desencadear um novo sentido
para viver, aproximar-se dos amigos, tornar-se produtivo,
expressar seus afetos, receber carinho, podem devolver a
qualquer pessoa em depressão, um novo animo para
voltar a acreditar no amor. Esta necessidade inconsciente
de amor e afeto incomoda e altera as atitudes, aumenta
o nível de ansiedade, angústia, insegurança. Como uma
pessoa poderia viver sem a emoção do amor?
Porque a falta de amor traz muito medo da
solidão, e neste tempo percebe que a presença do ser
humano é fundamental para compartilhar estes
momentos de alegria e tristeza. Todos os seres humanos
deveriam estar preparados para estas novas experiências,
superar os medos, e estar abertos a novos
relacionamentos, isto inclui conhecer os hábitos, prazeres
e atitudes. Este envolvimento afetivo exige de ambos um
214
respeito ético de confiança, de lançar-se nesta procura do
amor. Para viver esta dimensão é preciso superar os
medos dos fantasmas que cerceiam a sua liberdade de
ser autêntico.
Muitos pensamentos não são pecaminosos, mas
aquilo que acontece na fantasia pode ser vivido pelo
cérebro. Nem sempre os relacionamentos são perfeitos
para conseguir viver o amor, talvez seja porque existe a
doença, outros, porque existe um amante, o fato de estar
casado não significa que esteja feliz, porque os problemas
aparecem, as dificuldades no relacionamento se
acentuam e muitos ficam sem viver a dimensão do amor.
A carência de amor e afeto pede sempre a presença de
amantes que possa preencher este vazio na existência,
ninguém pode viver sem amor, pode negá-lo, criticá-lo,
fingir que não existe, reprimi-lo, mas esta não é uma
solução funcional para a sua felicidade.
Por isto começamos a entender a existência dos
amantes, e os motivos das traições, porque muitos ficam
arraigados a crenças religiosas, e sentem muita culpa de
viver com outra pessoa este novo amor. Por isto na
maioria dos casos, este amor pode ser vivido desde que
seja escondido, porque acreditam que socialmente estão
proibidos de assumir-se nesta condição de amantes.
Enfim, todos aprendem que é preciso esconder as suas
emoções, e para ser aceito socialmente, nada melhor do
que representar que está bem e feliz.
As traições sempre trazem à cena a emoção da
vingança, neste instante ambos começam a viver a
dimensão do amor proibido, o amor reacende e anima as
215
pessoas a sentirem-se renovadas e motivadas para viver.
No amor está a esperança de viver a felicidade, de sentir-
se alegre, esta renovação inclui a vida de partilha e
intimidade com a pessoa amada, para encontrar-se face a
face com esta emoção do amor, é preciso romper as
barreiras da repressão, da culpa, do medo, das ameaças,
porque esta sensação de insegurança pode impedir a
vivência da nova experiência.
Quem ama consegue expressar no seu olhar o
brilho de sua satisfação, a existência toma um novo
sentido porque agora precisa conquistar, seduzir e
convencer o seu objeto de amor de que vale a pena
investir na relação. O maior de todos os medos é a
sensação de que a outra pessoa não se sente a vontade e
tampouco sentiu prazer na sua presença, a rejeição vem
sempre acompanhada deste complexo de inferioridade.
Pelo menos agora a pessoa encontrou um motivo
para viver, seu corpo, sua pessoa existe para fazer outro
feliz, este objetivo motiva qualquer pessoa a cuidar-se de
si mesmo, de voltar a amar-se de verdade. O amor
consegue fazer com que aumente sua estima, se valorize,
de entusiasme pela vida, este estado de bem estar e
felicidade é propiciado por esta experiência sincera de
amor. Existe um interesse em encantar, enfeitiçar,
envolver o parceiro neste romance de extremo prazer,
este desejo de fazer com que a pessoa amada sinta-se
feliz, por isto mesmo, pretende dar o melhor de si.
Todos desejam ser apreciados, valorizados e
reconhecidos, porque espera ouvir isto da pessoa que
ama, é indescritível esta emoção que o coração sente,
216
porque estes momentos são únicos e, deixa na mente
inconsciente a marca de profunda satisfação e alegria.
Todos querem ser entendidos e compreendidos na sua
maneira de viver e interpretar a realidade, e muitas vezes
não se consegue um consenso porque a comunicação
sofre de algum tipo de ruído.
Este autoengano de fingir que não enxerga a
realidade, é plenamente compreensível porque conhecer
a verdade é doloroso demais, mas quando esta cena se
apresenta diante dos olhos não existe nenhuma forma de
justificar esta realidade, é difícil, cruel, decepcionante,
saber que aquela admiração se tornou raiva e ódio. O
confronto com a verdade liberta ambos deste fingimento,
de fazer de conta que se amam, quando na verdade se
machucam e violentam, e neste momento precisa tomar
uma decisão.
O narcisista é o que mais sofre porque não sabe
conviver com a frustração. O surto de cólera surge
quando o seu amante decide desligar-se do
relacionamento, geralmente neste momento recorre aos
familiares e amigos. É difícil recomeçar, mas é preciso
libertar-se deste inferno do faz de conta e permitir-se
viver com sinceridade e verdade.
Ninguém pode esquecer que o tempo provoca
transformações, a realidade é feita destas escolhas, por
isto mesmo a sua realidade não se encaixa dentro
daquela visão de mundo de seu passado, são espaços
preenchidos com afetos diferentes, pessoas que pensam
e possuem uma maneira de interpretar os fatos dentro
de outro paradigma.
217
Os laços afetivos de uma família permanecem
para sempre, porque este amor nunca termina. Mesmo
nos momentos mais difíceis os pais estão presentes com
seu aconchego e amor. Quando existe uma separação,
algo de errado aconteceu com este casamento, e todos
sabem o preço de perder a pessoa amada, os filhos não
aceitam, não compreendem, e geralmente procuram
culpar um dos pais pela falência no relacionamento.
Alguns saem em defesa daquele que acham que
está sendo injustiçado, tomam as dores, e reforçam ainda
mais sua revolta e rejeição, estas emoções de raiva e ódio
destroem seu estado de ânimo e motivação. Seu olhar de
admiração e afeto está tomado por uma fúria
descontrolável, este é um dos problemas quando as
separações são repentinas e cheias de brigas e
desentendimentos.
Ninguém antevê a possibilidade de isto
acontecer, mas os fatos não mentem, é insuportável
conviver com a indiferença e a falta de amor, de atenção
e dinheiro, em alguns momentos, passa fome, vergonha,
apesar de viverem juntos tem os seus amantes às
escondidas. Esta duplicidade exige um investimento de
energia emocional para fazer tudo as escondidas, e
depois na presença do seu ex-amor representam um
papel como se nada estivesse acontecendo. Esta relação
denuncia a falta de caráter e idoneidade de ambos,
porque fingem que não possuem uma amante, mas
vivem como se estivessem numa relação a três.
Por um lado qualquer forma de ruptura ocasiona
tristeza, e por outro liberta a todos deste ambiente de
218
falsidade, porque existe uma violência implícita nesta
atitude de duplicidade, um deles cumpre com o desejo de
punir e fazer o outro sofrer. As crianças captam
inconscientemente esta nova realidade da separação e
começam a viver melhor, os mais velhos sofrem porque
esta perda não estava nos seus planos, e independente
da separação dos pais existia amor. Agora precisa aceitar
e elaborar esta realidade de aprender a conviver sem a
presença de ambos em sua vida.
Ninguém pode duvidar deste sofrimento, mas
aos pouco começa a elaborar a perda, no início existe a
negação, depois muita raiva e ódio, esbraveja sua revolta
contra tudo e todos, e por fim, começa a elaborar e
aceitar sua nova condição de vida, somente o tempo cura
estas feridas, o perdão precisa deste espaço para
compreender e entender que precisa continuar a viver e
deixar os outros seguirem seu caminho natural. Esta
aprendizagem acontece pelo caminho da dor, a
maturidade emocional surge como uma defesa para
poder contar suportar os momentos difíceis da vida.
O amor abre espaço na família para as
confidências, aquelas verdades que precisam ser ditas,
compreendidas e elaboradas, estar junto diminui este
estado de tensão e ansiedade, a presença das pessoas
que ama fortalece esta aceitação nesta nova condição de
vida. Nesta ocasião é preciso humildade para recorrer
àquelas pessoas que ama, estes amigos estão com as
portas abertas para acolhê-lo e ajudá-lo a refazer a sua
nova vida. Aqui presenciamos a verdade do poder do
amor, porque esta emoção não desaparece com o tempo,
219
permanece mesmo na ausência daquelas pessoas que
ama.
Porque quando o amor existe, propicia alegria,
bem estar e realização, o colorido da existência é feito de
tons fortes, desaparece aquele tons de cinza, preto e
branco. O corpo está tomado por este feitiço químico, a
fisiologia do rosto mostra jovialidade e satisfação em
viver, por isto está sempre motivado, alegre e contente.
Este é o grande remédio do espírito humano, um
composto químico de diálogo, companheirismo,
intimidade, sexualidade, afetividade, que alimenta cada
célula com a substância de esperar sempre que o melhor
vai acontecer.
Cada neurônio vibra e contagia-se por este
estado emocional de bem estar, realização, um prazer
intenso e verdadeiro em querer viver e amar a vida com
toda intensidade. O amor contagia cada sistema
fisiológico do organismo, a vitalidade é percebida e
sentida nas funções que garante e promove a vida, o
corpo exala felicidade, os olhos brilham como uma luz
irradiante, todo o ser está tomado por emoção. É
inegável que as emoções têm a ver com este estado de
alegria e satisfação, realização e bem estar.
A saúde precisa da alegria como os pulmões
precisam do ar para respirar, desperta esta motivação de
amar, tem energia a sua disposição para realizar os seus
sonhos, está investida de um sentido na existência, a
coragem aparece e consegue superar os medos. Ninguém
sabe se isto vai durar para sempre, mas independente do
que pode acontecer no futuro, este futuro está
220
acontecendo sobre cada decisão tomada, esta escolha
funciona com as pessoas certas, porque propicia uma
experiência de vigor e satisfação.
Esta experiência é tão maravilhosa que muitos
não acreditam que está acontecendo, é algo mágico e
fantástico, aqueles que não resolveram a sua culpa,
medos, inseguranças, possuem a tendência inconsciente
de fugir do encontro com a emoção do amor. Talvez
porque acreditam que não são merecedores deste amor,
estariam traindo alguém por receber e viver a dimensão
do afeto.
Não se acham dignos de receber de alguém este
afeto, por isto mesmo, não gostaria de ser rejeitado e
abandonado como aconteceu nos relacionamentos
anteriores, sempre fantasiam que o pior vai acontecer, e
antes que a tragédia se aproxime da rejeição e abandono,
preferem antecipar e arrumar algum tipo de briga,
discussão, como uma desculpa que justifique sua decisão
para romper com este relacionamento.
Muitas pessoas se sentem incomodadas por
achar que estão atrapalhando, que não são dignas de
estar vivendo aquele momento de alegria, como
sofreram abuso psicológico e emocional, precisam fazer
as pazes com o superego, por isto, é muito comum
procurar um modo de se punirem, e a mais correta é
sofrer, chorar, sentirem-se abandonadas. Sentem-se
inseguras e com muito medo de precisar deste amor, de
serem abandonadas, rejeitadas, revivem na relação o seu
complexo de inferioridade. Por isto confidenciam a um

221
amigo os seus medos, esta insegurança atrapalha e
revivem no túmulo do passado os seus fantasmas.
O ser humano é feito de experiências, estas cenas
de imagens que percorrem aquele caminho neuronal,
solicitam ao cérebro a utilização de sua inteligência para
interpretar com lucidez aquela realidade, estas
interpretações estão contagiadas pelas crenças da cultura
que é um modo muito particular de entender e
compreender a vivência do amor.
Muitas vezes a mente inconsciente desavisada
de sua interpretação ilógica pretende impor ao seu
amante aquilo que entende por relação a dois. É onde
começa os conflitos, desentendimentos, porque entende
que o outro deve ceder e anular-se, ou submeter-se aos
desejos, esta situação provoca raiva e distanciamento.
Mas quando um casal se separa não significa que
tudo está resolvido, este amor do passado não
desaparece de repente como um passe de mágica, esta
emoção do amor pode ser transformada em ódio, agora
precisa negar a existência deste amor, e não pode mais
aceitar a viver com alguém que traiu o pacto e a fez
sofrer.
O amor e ódio estão sempre presentes nestes
conflitos conjugais, esta indiferença ou distanciamento é
uma maneira de punir e fazer o outro sofrer, onde existia
amor e companheirismo, agora existe tristeza e raiva. As
emoções são este mapa, mas as pessoas desconhecem o
tesouro que precisa ser descoberto, neste estado de
inconsciência, as neuroses cumprem com o seu papel de

222
distorcer suas emoções inconscientes destruindo o seu
relacionamento.
Depois de uma separação surge o pedido de
desculpas e arrependimentos, quase sempre existe o
perdão, e ambos se oportunizam uma nova chance para
juntar os pedaços do vaso quebrado, mas a raiva e a
mágoa também acompanham este retorno à convivência,
agora precisam fazer um novo pacto para recomeçar a
relação. Nas questões do amor existem estes momentos
de medo e também de superação, são estas experiências
vividas que ensinam como viver a dimensão do afeto, os
prós e contras desta vivência modificam a percepção que
cada um tem sobre a existência. Existe um risco em amar,
o primeiro é de dar certo e viver feliz, segundo, uma
crise, o abandono, a perda, a rejeição. Ninguém está
absolutamente seguro sobre o caráter ético destas
pessoas envolvidas numa relação amorosa.
E um dos objetivos do amor é provocar alegria e
não tristeza, agora, porque fazem o contrário, é uma
questão para ser analisada. Isto significa que o
conhecimento de si mesmo é uma das condições para
não projetar sobre o parceiro, emoções e traumas mal
resolvidos. As despedidas dos amantes de certa forma
ajudam a superar aquela perda, pois aquele ombro amigo
naquele momento de dificuldade pode ajudar a
reencontrar-se com suas emoções e descobrir que o
amor ainda existe. Nem sempre a traição consegue
apagar ou fazer desaparecer tantas experiências positivas
de uma vida de amor.

223
Por isto mesmo, ambos devem superar seu
orgulho e vaidade pessoal, o que resta depois destas
experiências de amor são as recordações felizes que
contribuíram para a felicidade. Estão guardados na sua
memória aqueles momentos sublimes e maravilhosos de
uma companhia que enalteceu e fortaleceu o amor. Às
vezes se ganha e perde no amor. Ambos precisam
aprender a conviver com a solidão e a saudade. O
interessante disto tudo, é que esta pulsão inconsciente
de vida norteia a existência do ser humano. Uma
natureza que está interessada em viver este estado de
pleno prazer e satisfação.
Toda e qualquer experiência nos encaminha para
uma tomada de decisão, aprender com os sentimentos e
emoções, são o melhor caminho para reencontrar-se com
o amor perdido. E depois disso, precisa descobrir que o
engano e a mentira não desaparecem pelo simples desejo
da razão, porque existem outras psicopatias
inconscientes que instigam aquele sujeito a continuar no
caminho da mentira e perversão. Pessoas adultas agem
como uma criança, porque como não sabem resolver
seus problemas, procuram remediar a situação mentindo
e distorcendo a realidade. Dizem aquilo que a pessoa
amada gostaria de ouvir.
As decepções, as contradições fazem parte desta
construção patológica da “perversão”, este narcisismo
voraz está interessado na satisfação plena dos seus
prazeres e não mede as consequências das suas atitudes,
tudo porque não inclui, ou não se importa com a

224
repercussão emocional na vida daquelas pessoas que
convive.
Este tipo de caráter perverso é capaz de matar a
sua vítima e levar o caixão até o cemitério, não existem
medidas e nem limites para satisfazer seus prazeres
pessoais. Um narcisismo infantil e predatório, desprovido
de humanidade, banaliza suas relações e sucumbe num
processo de autodestruição pessoal, não consegue
estabelecer e dar continuidade a este vínculo afetivo.
Quando menos se espera, aparece uma notícia
desagradável, é quando estas emoções e traumas podem
ser transformados em sintomas crônicos. Isto nos ensina
que esta realidade do mundo das emoções precisa ser
elaborada, confrontada, esclarecida e interpretada para
ressignificar os traumas e mágoas que ficaram latentes e
atuando no corpo, como uma linguagem que precisa de
uma resposta.
A descoberta de uma doença, um sintoma,
caracteriza-se pela presença de uma mágoa, raiva, ódio
que está destruindo aquele órgão específico do
organismo. Ninguém pode enxergar a dor presente na
essência daquele órgão necrosado, porém esta realidade
existe e pode destruir uma vida.
Esta notícia inesperada sempre acontece depois
de um exame de rotina, neste caso a doença não espera,
seu processo destrutivo é rápido, agora não existe como
protelar ou esconder-se deste mundo de frustações e
desencanto, estas experiências aparecem em forma de
um nódulo. Esta energia emocional incorpora o desejo
latente do estado de infelicidade e tristeza. Neste caso as
225
doenças ou sintomas possuem uma linguagem que se
comunica através do sofrimento e dor, enquanto o
discurso da razão procura anular a tristeza, o organismo
manifesta a verdade através da doença.
Ninguém pode negar ou esconder um sintoma,
uma doença, esta constatação realiza a denúncia sobre
alguma área de sua vida que está sendo esquecida, a
pulsão de vida exige uma atenção especial, fazendo com
que a pessoa reflita e pense sobre a sua existência, recria
naquele órgão a doença.
Como sempre a única defesa que resta é negar a
existência daquela doença maligna, procura conforto nos
conselhos e diagnósticos paralelos ao da medicina, e
todos apostam de alguma forma que podem diminuir o
impacto desta notícia, mas o fato é que a doença
continua sua ação nefasta sobre aquele órgão.
Algumas pessoas conseguem elaborar e sabem
escutar o que a doença tem para dizer, são flexíveis e
procuram ajuda e cura para a sua doença. E na maioria
dos casos conseguem com os medicamentos e terapia
emocional entender as motivações inconscientes deste
processo de destruição.
Existe uma flexibilidade e aceitação da doença,
alguns negam, escondem, racionalizam e fazem de conta
que aquela doença não existe. Não há nada mais
incômodo do que conviver num mesmo lar com uma
pessoa que mente, utiliza de sua psicopatia para dominar
e colocar as pessoas a serviço de sua neurose.
Esta emoção de “raiva” pode tornar-se agressiva,
voltando-se contra o seu organismo, porque este estado
226
de infelicidade é insuportável, conviver com falsidade,
talvez este estado de raiva e violência volte-se contra si
mesmo. A destruição de um organismo pode acontecer
de diversas formas, e uma delas é o câncer benigno ou
maligno, as pessoas que amam ficam transtornadas e
choram de medo de perder aquela filha, então
perguntam: como isto pode acontecer? É claro, muito do
que acontece num organismo e na vida de uma pessoa,
se desconhece totalmente, ninguém tem o poder de
saber realmente o que se passa no íntimo de uma pessoa,
muitos imaginam, comentam, mas não sabem com
precisão o que está acontecendo.
Uma das hipóteses é de que estas emoções
podem transformar-se num cisto e depois tornar-se
maligno, pronta para destruir a vida, nestes casos é
preciso esperar sempre o melhor e preparar-se para o
pior. Neste momento grave de uma doença podemos
perceber o valor do amor, porque as pessoas que
possuem vínculo ficam desesperadas, a não ser que os
nódulos malignos se alastrem pelo organismo. As
crianças percebem que a sua mãe está doente, todos
procuram consolar e diminuir o seu sofrimento. Mas são
espertas e sabem que a morte se aproxima de sua mãe,
estão cientes que de agora em diante precisam aprender
a contar consigo mesmos.
Cada pessoa expressa uma opinião pessoal sobre
o que está ocorrendo, mas o fato que a doença mexe
com todos, e nada melhor do que proporcionar ao
doente descanso, férias, mas estas pessoas percebem o
lado trágico do convite, são os presentes que oferecem
227
antes de morrer. Querendo ajudar, acabam
atrapalhando, pois o doente percebe que esta intenção
não consegue distanciá-lo dos seus problemas. O doente
está acometido de uma angústia, a única maneira de
conviver com este “câncer” maligno é negar a sua
existência, por isto precisa disfarçar e fazer-se de forte
para cuidar de seus filhos.
E existem amigos que mesmo na doença, estão
presente com seu afeto, são solidários, fazem de tudo
para ajudar na recuperação desta pessoa amiga, porque
acreditam que um pouco de descontração, alegria, possa
ajuda-la a enfrentar a sua doença. Talvez por isto, muitos
não concordem com a ideia de uma mulher que não
trabalhe, porque ao ser dona de casa e cuidar de seus
filhos, torna-se dependente de seu esposo, esta
submissão e falta de autonomia, pode custar-lhe um
preço bastante alto.
Hoje em dia muitas mulheres tiveram que
começar a profissionalizar-se e ganhar o seu próprio
dinheiro, entenderam que a dependência e submissão é
um risco muito grande, pois no momento em que são
abandonadas, recaem numa depressão, e depois de
muito tempo precisa aprender uma profissão para poder
sobreviver.
Muitas pessoas se afastam porque não
conseguem conviver com a doença, é um lado trágico do
câncer. Ninguém gosta de encarar a realidade e enxerga-
la tal como ela é, neste momento compreendemos que o
amor solidário não abandona a pessoa que fez parte de
sua vida. Esta é a maior prova de amor.
228
Depois começam as provocações para encontrar
os culpados que deram origem à doença, e nem sempre
comprar brigas alheias e punir alguém, resolve o
problema do casal. A transgressão a ordem natural das
pulsões, provocou este desequilíbrio, esta instabilidade,
um triste fim para quem estava disposto a ser feliz, às
vezes o câncer maligno é tão feroz, que os medicamentos
não conseguem fazer frente ao processo destrutivo. E
quando o diagnóstico é totalmente desfavorável, a
pessoa entra em desespero, porque não sabe como lidar
com a morte.
A morte é este fantasma que se aproxima com
passos lentos, quem está sobre o seu domínio sente-se
preso e dominado pela perda eminente da vida, este é o
grande conflito entre razão e emoção. O desespero surge
quando não existe mais esperança, as pessoas que amam
compartilham deste sofrimento, alguns surtam, outros se
deprimem, a doença acaba afetando a todos aqueles que
participam da sua vida afetiva. A perda da vida é
eminente. Como deixar as pessoas que ama? Como
aceitar viver sem elas? É difícil para uma mãe ou um pai
aceitar a morte de um filho.
E neste momento, todos precisam deste amor, o
significado do acolhimento, da segurança, do carinho, da
presença amiga, do olhar que fala tudo e não consegue
dizer nada, porque uma perda não precisa de palavras
para ser descrita. Neste momento ninguém gosta de
estar sozinho, pois a solidão, o isolamento é a pior opção
para resolver e conviver com as perdas, às vezes um

229
simples abraço, um acolhimento consegue dizer aquilo
que não pode ser explicado em palavras.
Quem não precisa de um ombro amigo para
chorar, para desabafar e fazer a catarse necessária, e
neste silêncio dos corpos que se abraçam, se encontra o
calor humano, uma humanidade que tem compaixão por
aqueles que sofrem, e no silêncio encontram-se ligados à
perda. Todos querem a prova deste amor, e talvez a
maior de todas as manifestações de amor, esteja neste
ato de presença humana e afetiva, nestes momentos
difíceis de viver e aceitar a presença da morte.
O amor transparece sobre a forma de uma
presença humana que encarna e suporta a dor da perda.
Dialoga com o doente procurando entender os motivos
destas brigas continuas, e entendem que as exigências
descabidas, o perfeccionismo é uma forma de obsessão.
Mesmo nestes momentos difíceis da doença as
pessoas que convivem entorno desta pessoa amada,
encontram-se nos corredores dos hospitais. O
inconsciente conhece as causas daquela doença, e sabe
que precisa dialogar para assumir a educação das
crianças, os adultos precisam sair do seu pedestal e ser
capazes de transcender as mágoas e ressentimentos do
passado. Às vezes os pais não conseguem falar para os
seus filhos sobre a terrível doença, mas as crianças sabem
fazer a leitura dos lábios, entendem a expressão de
desespero dos adultos e não precisam de palavras para
saber que a morte levou a sua mãe.
Assim começam as discussões sobre quem deve
educar as crianças. Neste caso a vida continua, o papai
230
precisa trabalhar; é preciso reconhecer as debilidades,
fragilidades, dificuldades, porque além de perder a
pessoa amada, o papai precisa afastar-se de seus filhos,0
para poder sobreviver financeiramente. Agora precisa
implorar pelo perdão a si mesmo, porque sabe que as
traições e os conflitos são a causa indireta desta doença.
Não sabe como fazer para pedir perdão à pessoa amada,
nervoso, inquieto e muito triste, no leito da cama do
hospital iniciam uma conversa sobre a falência do seu
amor.
Eles não acreditam, mas estão dialogando,
procurando entender os motivos que desencadearam
estas traições, ambos estão feridos e magoados, mas
agora é o momento da reconciliação, de entender que as
crianças devem ser educadas e cuidadas por alguém. A
esposa explica que as obrigações e os cuidados de quatro
crianças é muito, precisa deixar que a avó materna ocupe
o lugar de mãe e proteja os seus filhos.
Olhando nos olhos de sua esposa doente na cama
do hospital, reconhece sua fragilidade e da dificuldade
que tem em educar as crianças, então concorda que
fiquem com a sua sogra. Depois desta decisão, ambos se
abraçam e choram, porque sabem que o amor não
desapareceu, agora pede para o marido trazer as crianças
para que no dia seguinte, possa despedir-se deles, pois o
quadro geral da doença se agrava.
Como haviam combinado no outro dia, os seus
três filhos estavam no lado de fora do quarto do hospital
aguardando a sua hora de conversar com a mãe. O
silêncio e o estado de ansiedade são insuportáveis
231
naquele momento, as amigas sofrem, porque existia
naquela amizade um amor fraterno verdadeiro, sincero, e
agora precisam aceitar também a sua perda.
Agora a mãe mesmo doente precisa ser forte e
corajosa para conversar sobre a doença e fazer sua
despedida, quem entra é o mais velho, em pé e fitando
nos olhos da sua mãe, diz, estar com saudades, quer que
a mãe volte para casa. Então com carinho conversa e
orienta seus filhos de como deve ser com as pessoas que
vão cuidar deles, e acalma ambos, quando começam a
chorar, mostra que tudo o que fizeram juntos, os bons e
os maus momentos fazem parte desta grande história de
amor.
Depois desta despedida a mãe fica chorando
muito, porque sabe que a morte se aproxima e os filhos
que amava acabaram de sair por aquela porta, mas a
revolta ainda está estampada nas atitudes do arrimo da
família. Agora todos estão envolta da cama do hospital, o
silêncio encobre os olhares com apreensão, porque
sabem que a morte pode chegar a qualquer momento.
Não resta mais nada a fazer, simplesmente esperar, mas
naqueles olhares está a expressão do amor, da bondade,
da humanidade, e de todas as ações que engradecem as
relações humanas.
Sem ao menos avisar parou de respirar, agora
estava morta. Este é o momento de chorar e falar do
amor que uma mãe sente pela sua filha. Mas ao mesmo
tempo reconhece que parou de sofrer, e diz que não
existe nada pior no mundo do que perder um filho, que
emoção dolorosa, a tristeza toma conta de todos, mas
232
sempre existe alguém que expressa o amor e cuidado.
Como é difícil enfrentar a vida sozinho sem um dos pais, a
única maneira de enfrentar esta perda é fazer de conta
que ela não existe, é doloroso demais para uma criança
que está apenas iniciando a vida.

233
6.0 - O amor precisa da verdade para curar as
doenças.

O amor nasce deste desejo de viver a


maternidade e paternidade, a família é o ambiente onde
as crianças desenvolvem os primeiros sinais de saúde ou
doença. É onde tudo acontece. Neste ambiente as
experiências se acumulam entorno destes afetos,
homens e mulheres estão em busca desta vivência de
amor.
As marcas da infância ficam retidas nas
memórias para toda uma vida, algumas destas cenas
podem ser lembradas, outras se tornaram parte de um
passado que não existe mais. As perdas na infância de um
dos pais, deixam uma marca profunda nas emoções,
talvez esta falta possa ser compensada por um esforço
em ser mais precavida e competente na existência.
Todas as crianças dependem da educação dos
pais, e daquele vínculo de afeto e confiança, são
situações inesperadas que exige uma postura diferente
para poder encarar a educação de uma criança. Os
adultos sofrem com as perdas e precisam erguer a cabeça
e seguir em frente, não podem deixar-se levar por uma
depressão, existe uma criança que precisa de sua ajuda e
orientação. Neste instante da perda, os adultos podem
querer compensar com promessas e presentes a dor da
morte do seu pai, mas a criança percebe e entende que
também precisa esforçar-se para viver a autonomia.
Os adultos podem desenvolver uma insegurança,
um medo superior aos da criança. Mesmo nas perdas
234
irreparáveis da morte de um pai, algum outro vínculo
pode preencher este vazio, aos poucos a vida toma o seu
curso normal, esta criança passa pela adolescência e
aproximar-se da juventude, estes são os estágios de
desenvolvimento inevitáveis e fundamentais para a
formação do caráter de uma pessoa. Os afetos sempre
foram temas de controvérsia, de crises, de aproximações
e separações, são os dilemas desta busca de amor, não
importa qualquer a idade, a vivência deste amor
consegue proporcionar um prazer e alegria na existência.
Os ciúmes, as invejas, as defesas, são frutos deste
medo de amar, porque nem sempre as pessoas estão
preparadas para viver com honestidade uma experiência
de amor. Porque o amor exige entre outras coisas,
dedicação, compreensão, cumplicidade, intimidade,
condições que podem fornecer ao amor o combustível de
que precisa para continuar a viver esta experiência.
Na convivência com amigos, amigas, inicia-se um
vínculo fraterno, o primeiro e mais leal, é o amor
materno ou paterno. São as várias caras do amor, e
nestas relações, nem sempre as pessoas possuem um
caráter fiel às exigências do amor, porque mesmo entre
duas pessoas amigas, pode existir inveja e ciúme, isto
significa querer as capacidades e qualidades que o outro
possui.
Porque o amor exige além da delicadeza,
sensibilidade, lealdade, sinceridade, autenticidade,
também propicia a vivência da alegria, da
espontaneidade, uma pureza do espírito que ainda não
esteja corrompido pela mentira e engano. O amor está
235
muito acima das necessidades biológicas do sexo. Os
sonhos, os desejos às vezes estão longe de serem vividos,
mas ninguém pode prever aonde termina uma relação,
isto depende de como os hormônios interagem no
cérebro para produzir um estado de plena realização.
Todos os seres humanos possuem sentimentos e
emoções, e de alguma maneira, consciente ou
inconsciente, estão a procura deste amor, e o único lugar
onde podem encontrar a vivência desta emoção é através
da conquista do afeto, do carinho, da ternura, da
atenção, de uma pessoa capaz de amar.
E muito da realização deste amor, depende de
como a pessoa trata esta questão dos “afetos” em
relação a si mesmo, pois quem não é capaz de amar-se e
cuidar-se, tem poucas condições ou quase nenhuma
chance de amar e cuidar de outro ser humano em
qualquer nível desta emoção.
A base do amor sustenta na existência e
permanece de acordo com a autoestima, o autoconceito
e autoimagem, estas condições favorecem um ambiente
propicio para a vivência desta emoção. As inibições
pertencem a este mundo dos medos, de ser traído, da
morte, do abandono, que muitas vezes choca-se com as
vivências do passado, ninguém pretende reviver este
trauma da perda conscientemente, mas inconsciente e
sem perceber, percorre o mesmo caminho, para mais
uma vez, viver a dor através do amor. Existe um prazer
masoquista no sofrimento, sem consciência é capaz de
acostumar-se a viver de acordo com os abusos que sofreu
na infância.
236
Assim cada ser humano está a procura da
inevitável experiência do amor, o amor é aquela energia
que dá sentido à existência, consegue diminuir a
angustia, a solidão, a tristeza, impõe um novo significado,
consegue juntar forças para lançar-se em busca de novos
projetos pessoais. O amor acontece nesta atmosfera
inconsciente, são pulsões que obedecem ao ritmo natural
dos seus desejos, necessidades de carinho, afeto,
cuidado, humanizam e amadurecem as relações
humanas. A consciência precisa iluminar a existência na
análise daquilo que está fazendo consigo mesmo, das
competências e necessidades que estão sendo utilizadas
em prol deste objetivo pessoal.
O conhecer-se a si mesmo é a primeira exigência
e a menos valorizada pelo ser humano, inconsciente das
suas pulsões e emoções inicia sua maratona de
conquistas sem ao menos perceber que este seu estado
de inconsciência, distancia-se em perdas e abandonos
sucessivos das pessoas que ama. Esta contradição nasce
nestas condições impróprias para florescer esta emoção.
O estado de inconsciência é uma espécie de
alienação, porque está envolvida num ativismo de
conquistas que sempre termina em brigas e discussões,
nem ao menos param para pensar sobre o que está
acontecendo, como as dores são profundas, anestesia
com bebidas e ansiolíticos estas perdas que aumentam
ainda mais o seu medo de amar.
Aos poucos o êxtase, a alegria que não pode ser
encontrada na vivência de um grande amor, acaba numa
relação de amizade, este amor fraterno caminha na
237
direção de narcotizar as emoções da perda, não existe
um espaço para elaborar as perdas. Como as drogas
lícitas e ilícitas propiciam alegria e prazer sem cobrar
nada em troca, muitos acreditam que este é o caminho
mais curto e eficaz para viver a alegria.
Ao narcotizar as emoções escondem de si mesmo
as dores de perdas do passado que insiste em não ser
elaborado. Querem viver o prazer, gostam de estar
alegres, mas o caminho que escolheram é o das drogas,
querem fazer a experiência do êxtase, não importa as
consequências desta atitude.
Procuram disfarçar ou esconder de si mesmo a
impotência para viver o amor. Todo jovem deve prestar
atenção nas amizades, porque este tipo de relação pode
provocar interesse pelo mundo das drogas, estas
influências são prejudiciais ao desenvolvimento e solução
dos seus conflitos, pois apresenta ao amigo a solução dos
seus problemas pelo caminho da narcotização de suas
emoções e sentimentos.
Existe uma inibição, uma impotência, uma
perversão que seduz e envolve estes jovens ingênuos, a
fazer da droga a única experiência eficaz contra seu
estado depressivo. Os pais e mães desconfiam, mas
quando descobrem os tipos de drogas que estão usando,
é tarde demais, este é o grande problema, do proibido,
do escondido, os jovens possuem um desejo enorme de
transgredir as normas familiares e sociais.
Esta é uma fonte de angústia para todos os pais.
Observam, pensam, refletem, mas não sabem o que
fazer, desconfiam que existe algo de errado nas atitudes
238
dos seus filhos, mas para não julgar precipitadamente
acompanham a triste decadência de uma vida humana.
Como a droga é um tema controverso, muitos jovens e
adultos acabam sofrendo, primeiro porque estão
sedando a consciência, segundo sentem-se culpados por
trair a confiança dos seus pais.
Terceiro, sentem a necessidade de castigar-se, e
começam a aceitar todos os tipos de punições, junto com
a droga surge a droga da rejeição, do abandono, da falta
de amor. Depois inicia a dependência, sem saber, torna-
se escravo desta compulsão química, todos gostariam
que este estado de prazer nunca terminasse, mas
ninguém gosta de sair deste estado paradisíaco.
Esta falta de amor, de segurança emocional, de
afeto, pode ser utilizada inconscientemente para juntar-
se a um grupo de dependentes químicos para viver o
amor pelo caminho destrutivo. Neste instante a mente
viaja e acredita na realização dos seus desejos, cada
membro do grupo satisfaz sua necessidade em especial,
ninguém fala de sua dor, mas ambos curtem este estado
de prazer através do sofrimento, por isto mesmo, sentem
a necessidade de proteger-se, o único modo que
encontram para enganar-se é vender uma falsa imagem
de si mesmo, através da mentira.
Os jovens acreditam que burlar o sistema faz
parte desta condição da inteligência, transgredir as
normas e fazer experiências proibidas, como as
experiências sexuais. As mães estão apreensivas e
desconfiadas, não existe a verdade. E ninguém está
interessado em falar das suas emoções, todos fingem que
239
está tudo bem, aparentam estar felizes, fazem de conta
que tudo isto faz parte da condição normativa da
existência. De alguma maneira é preciso quebrar o
silêncio, alguém precisa falar sobre o que está
acontecendo, os adultos não podem enterrar a cabeça na
terra como se fosse uma avestruz.
Neste momento é preciso coragem para poder
abrir um diálogo, porque esta atitude destrutiva
comunica um estado de infelicidade. Às vezes é preciso
dizer algumas verdades, com ternura e amorosidade, a
prova do amor vem acompanhada do interesse em
resolver aquele problema e não na sua indiferença.
Existem muitas maneiras de fingir, de aparentar, de
diminuir a dor. Quando o nível de ansiedade é muito alto,
muitos sentem a necessidade de descontrair, de relaxar,
os ansiolíticos são drogas perfeitas para escamotear e
esconder as verdadeiras causas desta alegria superficial.
Ninguém pode entender muito desta atitude,
mas o diálogo é muito difícil e complicado quando
pensam de forma diferente e interpretam a vida com
sentidos antagônicos. Porém o diálogo ainda é o caminho
mais efetivo para dirimir e resolver estes conflitos, estes
encontros são tensos porque trazem temas que
precisavam de uma solução.
Nem sempre é fácil encarar a verdade, os adultos
também sofrem deste mal, não possuem a coragem
necessária e muito menos conhecimento para falar desta
dor, do sofrimento, das perdas, esta semântica
permanece como um fantasma, todos fazem de conta
que está tudo bem, mas no íntimo estão todos perdidos e
240
confusos. O ambiente familiar é tomado por esta
atmosfera de mentira, de medo, de fingimento, o preço a
pagar por este investimento superficial é muito caro.
Muitos pais tentam compensar ou resolver os
problemas dos filhos dando dinheiro, carros, presentes,
como não sabem dar amor, acreditam que os bens
materiais preenchem este vazio na vida dos filhos.
Existem outras formas de dizer que ama uma pessoa, mas
quando falta a palavra é preciso dar coisas, mas os bens
materiais não podem ocupar o lugar dos afetos, esta
atitude é antagônica e contraditória.
Os adultos procuram compensar com presentes
o que não conseguem vivenciar nas suas relações, ao
mesmo tempo, entendemos a limitação humana, e cada
um entende e interpreta a expressão do amor de acordo
com aquilo que aprendeu de seus pais.
O ambiente cultural favorece este sofrimento às
escondidas, porque os seres humanos estão distantes de
si mesmo, muitos filhos procuram representar para os
pais aquilo que não são. É difícil viver esta autenticidade?
São conversas superficiais, palavras ocas, os olhos
pretendem dizer a verdade sobre o que sentem, mas
como ninguém gostaria de ser considerado um fraco,
preferem continuar representando o seu personagem de
forte. Assim, ambos concordam em fazer de conta que
está tudo bem, as comunicações sempre estão
acompanhadas de temas superficiais, mas ninguém tem
coragem o suficiente para falar da sua dor emocional.
Mas quando as verdades aparecem sobre estas
questões do casamento, relacionamento, muitos são
241
orgulhosos e vaidosos, preferem sofrer que concordar
com aqueles que lhes apontam onde está o erro. Estas
disputas existem nas contradições de preferir sofrer a
fazer os outros sofrerem por suas escolhas. Estas
decisões seguem o preceito moral, os desejos do outro,
estas escolhas estão enraizadas nestes laços afetivos,
algumas pessoas são muito sensíveis e preocupadas com
a felicidade daqueles que amam, e infelizmente esquece-
se da sua felicidade. E quando percebem já é tarde
demais.
As verdades não são ditas por inteiro, são meias
verdades, porque é muito sofrido conviver com elas, às
vezes os adultos sentem, percebem que certas decisões
podem arruinar uma vida, ou tomar proporções
gigantescas de sofrimento, por exemplo; a escolha da
pessoa equivocada para casar, um sócio de uma empresa,
um amigo em quem confiar, estas escolhas afetivas
podem ser o caminho da felicidade ou da mais completa
destruição.
Porque nem todos nascem com vocação para o
casamento, muitos assumem esta postura para provar a
si mesmo e encarar a relação como um desafio para
mostrar aos seus pais que estava certo, uma atitude de
autoafirmação. Utilizam o amor para resolver pendências
e conflitos de relacionamento, o final desta história é
sempre infeliz, cheia de tragédias.
Nem sempre a razão tem as competências para
fazer uma análise fidedigna sobre as questões do amor,
já dizia Pascal: “O coração tem razões que a razão
desconhece”, a simples racionalização ou
242
Intelectualização não consegue dar conta de toda esta
demanda do amor. Todos procuram mostrar-se forte e
imbatível diante de uma decisão, mas no seu íntimo são
fracos e vulneráveis, limitados e cheios de medo.
Preferem não correr o risco de assumir-se neste desafio,
esconde de si mesmo a sua verdade. Mas as emoções
percorrem outro caminho, muito diferente das razões da
razão, sua confidência está atrelada aos desejos da
pulsão, uma existência que procura de todas as maneiras
o prazer e felicidade.
Confundem amor com fuga dos seus problemas,
utilizam o amor para neutralizar e esconder as
verdadeiras razões do seu amor, fazem do amor um bode
expiatório, um laboratório de experiência para reprimir
aqueles desejos inaceitáveis, esta duplicidade de
sentimentos enraíza-se num estado de infelicidade e
sofrimento. Quando o amor não encontra a verdade, a
autenticidade naquilo que se propõe a viver, inicia-se um
processo de somatização, de sintomas de dores. A
negação da pulsão de vida encontra-se diante de um
superego que exige uma decisão que se volta contra si
mesmo.
Ao faltar com a verdade consigo mesmo, paga o
preço do desgaste e da perda de energia, porque sua
agressividade volta-se contra o potencial de vida. Muitos
usam os seus relacionamentos para salvar as pessoas,
tomam suas escolhas como uma missão redentora para
levá-las ao encontro do amor, acreditam ser capazes de
transformar, converter e convencer o seu grande amor, a
mudar seus valores e estilo de vida. Fazem do amor um
243
espaço para afirmar-se como pessoa competente, em
proporcionar a salvação daqueles que insistem em não
viver o amor.
Não sabemos quem tem as respostas para todos
os problemas do amor, talvez a dificuldade que todos
trazem seja a dificuldade de identificar este desejo de
viver ao lado da dor e sofrimento, as escolhas de homens
e mulheres têm a ver com a pulsão de vida e morte.
Muitos morrem tentando e esforçando-se ao máximo
para viver a dimensão do amor. Em vários casos o
casamento é uma forma disfarçada de conseguir sair de
casa ou de contentar os pais. Talvez esta realidade esteja
mudando, mas o fato deste duplo discurso amplia a
insegurança dos filhos, os pais afirmam que gostaria que
cada um tivesse vida própria, trabalho, uma família, por
outro lado, criticam, diminuem, colocam defeitos na
escolha de seus parceiros.
O conflito delineia-se a partir desta constatação,
quando os pais ainda não conseguiram resolver seus
dilemas pessoais, vivem o drama da separação, do medo
do filho superar as suas crenças pessimistas, enfim a
família esconde as verdadeiras razões destas brigas, que
envolvem quase sempre seus filhos, genros e noras.
Conscientes dizem que estão torcendo pela sua
felicidade, pela realização. Inconscientes, acentuam os
defeitos, denigrem a imagem, fazem cobranças, tudo com
o intuito de trazer de volta para a convivência os filhos
que se foram. Eis o grande problema de solucionar o
desafio das simbioses entre pais e filhos.

244
Este duplo discurso mostra a contradição de
como vivem seus pais, os jovens percebem a
incongruência e afastam-se procurando a sanidade,
livrar-se deste ambiente nefasto e doente. São os adultos
que não sabem aceitar a perda, o sucesso, a realização
dos seus filhos, quando a família está doente o amor
desaparece, em seu lugar aparece o ódio, as brigas, a
doença, somatizações, os conflitos emocionais
aumentam na medida em que o amor desaparece de suas
vidas. Todos têm muito medo da solidão, do abandono, a
simbiose torna-se a última alternativa para continuar com
este incesto inconsciente.
Os conflitos nas relações aparecem quando pais e
filhos possuem interpretações diferentes sobre alguma
decisão em especial, são disputas dos filhos que
pretendem afirmar-se na contramão de uma escolha. A
hipocrisia incomoda quando a verdade não é dita, não é
vivida, passa a ser representada. Surgem as
contrariedades, chantagens, ameaças, culpas, medos,
com o desejo de fazer valer a sua decisão. São
enfrentamentos, disputas, competições que procuram na
violência psicológica o caminho para resolver os seus
conflitos.
Muitas destas decisões são inconscientes, neste
instante surge a efervescência das emoções, raiva,
mágoa, ressentimento que distanciam as pessoas num
mesmo ambiente de convivência. Todos possuem suas
crenças e acreditam que estão fazendo tudo como
deveria ser, mas se algo dá errado, procuram despejar
sua raiva e ódio em algum bode expiatório. A isto eu
245
chamo de imaturidade, são visões diferentes sobre um
mesmo tema.
Quando um sonho inicia seu desejo sobre uma
inverdade, sua estratégia segue a direção da mentira. O
grande problema é fazer de conta, fingir que tudo está
certo, negar a verdade e teimar em fazer o oposto, agora
porque as pessoas insistem em ser oposição, ainda é um
tema para entender este processo de afirmação pessoal,
que precisa do confronto, das brigas para provar a sua
força física.
Na verdade todos os seres humanos são vaidosos
e orgulhosos e ninguém gosta de perder, todos querem
ganhar, alguns preferem sofrer, a voltar atrás numa
decisão, como é difícil para uma pessoa admitir seus
equívocos. O orgulho é uma emoção que impede este
laço de amor, sufoca seu desenvolvimento, impede sua
expressão emotiva, esconde-se nos recônditos da mente
inconsciente para iniciar o seu processo de sofrimento.
Como tudo indica, existe uma atitude irresponsável,
leviana e imatura para lidar com as questões do amor,
paterno, materno, erótico, fraterno, em decorrência
deste estado de inconsciência, inicia-se um sonho que se
utiliza de muletas.
Nem todo conhecimento consegue resolver estes
impasses das relações humanas, muitas decisões são
apressadas, não possuem um planejamento familiar,
como o nascimento dos filhos, as despesas financeiras,
etc. Todos aprendem a representar, a falar aquilo que o
outro gostaria de ouvir, sem autenticidade, ambos
precisam conviver neste ambiente, mais a traição da
246
verdade começa sua denúncia através das somatizações.
Esta mesma fragilidade desmorona-se com o tempo,
porque o teatro consegue enganar por certo tempo,
depois estes papéis tornam-se cansativos e consomem
toda a energia. Esgotado e sem forças encontra-se numa
depressão.
É uma questão de tempo, cedo ou tarde a
máscara deixa de existir, a nudez do ser aparece. Esta
relação utiliza as próprias fraquezas para juntar forças,
em comum acordo, acreditam que podem vencer na vida
ou realizar seus sonhos através do sentimento de
rejeição, de abandono, de confronto. Ambos não gostam
de ser questionados sobre as suas decisões. Mesmo
assim, existe esta identificação em comum, para provar a
que são capazes e eficientes para tomar suas decisões.
Fantasiam e alucinam acreditando que o amor consegue
resolver todas as suas rejeições e inseguranças.
Neste sentido o amor é conduzido para
solucionar neuroses, fazem do casamento um espaço
para resolver seus problemas pessoais e no meio de tudo
isto, encontram-se as crianças. Inconscientes de suas
ações projetam seus dilemas pessoais na convivência
com os pais e amigos. Talvez esta seja uma realidade
específica sobre um tipo de relacionamento, mas é muito
comum ridicularizar e menosprezar suas decisões, esta
ironia, este desprezo ou crítica é uma forma de amenizar
ou tentar controlar a ansiedade.
Uma alegria fictícia e irreal é incorporada, estas
emoções não são verdadeiras, existe uma insegurança,
um medo de viver. É o tipo daquela garota sorridente,
247
feliz, que aceita tudo, perdoa tudo, tudo está bem, não
reclama de nada, aguenta qualquer abuso, não tem
opinião própria. Existe uma ausência de verdade em suas
emoções, foge como o diabo desta cruz dos seus
traumas, a todo instante nega esta emoção. Com esta
futilidade e falsidade qualquer relacionamento tem dia e
hora para terminar.
O amor não pode ser um faz de conta, uma
brincadeira, uma experiência, um espaço para resolver
conflitos de relacionamentos, este tipo de infantilidade
amplia as chances de que o sonho termina em fracasso.
Os pais além dos conflitos e decisões de seus filhos,
precisam conviver com as suas próprias indecisões e
questões que ficaram em aberto, desejos ocultos que
ainda não se manifestaram, mas que acabam
aparecendo, porque o tema dos filhos, trazem a tona,
estas questões não resolvidas. Os pais também estão
atrás deste amor, de viver a felicidade, de converter a sua
vida num lugar de prazer.
Os conflitos aparecem quando o casal não sabe
dialogar ou resolver os impasses, as contrariedades e
disputas de afetos sempre envolvem parentes, pais e
amigos. As respostas sempre estão carregadas de
agressividade, de violência, por melhor que alguém
procure uma alternativa para aquele ambiente, é sempre
desprezado e criticado.
Os diálogos desaparecem, e no seu lugar
instalam-se as discussões e brigas, tudo é motivo para
agredir e abusar emocionalmente. Este tipo de relação
emocional destrói qualquer possibilidade da vivência do
248
amor, porque o amor exige maturidade, respeito,
ternura, compreensão, na falta destas condições surge no
seu lugar insegurança, agressão, indiferença,
distanciamento, é o início de algo que vai por um
caminho de autodestruição.
O ponto crucial de uma relação em conflito são as
desavenças e mágoas, esta disputa do casal em competir
sobre quem é mais eficiente, realça os defeitos. Às vezes
estes confrontos emocionais trazem à consciência medos
e inseguranças do passado, revivem no casamento os
dramas da infância, adolescência, repetem os dramas e
conflitos dos seus pais.
Todos têm o direito de fazer suas tentativas, o
seu modo de procurar viver o amor, mas não tem o
direito de prejudicar e deixar pessoas traumatizadas, o
grande problema nestes conflitos do casal é que quase
sempre, uma das partes acaba sendo prejudicada nesta
competição.
Adoram apontar os erros e equívocos do seu
parceiro, e não é de estranhar que no outro dia peçam
perdão e tudo continua como se nada tivesse acontecido.
A violência começa a fazer parte da sua convivência,
acaba tornando-se normal, atos de agressão verbal,
menosprezo, humilhação, desqualificação. Como todos
estão interessados em defender a sua verdade, não são
capazes de entender a mágoa, a raiva escondida naquele
tipo de discurso, as emoções são projetadas sobre o
parceiro que acaba sendo o espelho para a sua estupidez.
Quase sempre as violências vêm acompanhadas
de indiferença, críticas e muita cobrança. Uma das partes
249
está interessada em fazer valer a sua verdade, porque a
maneira como interpreta a realidade é fidedigna com o
seu exemplo vida. Portanto, aqueles que convivem no
seu dia a dia com a sua pessoa, devem aos poucos se
adaptar a sua filosofia, e todos aqueles que não se
enquadrarem dentro destas regras, normas, exigências,
sofrem as consequências de seu abandono, de suas
punições, de chantagens que utiliza para dominar aqueles
que ousam ser livres e autônomos.
Como pode o amor florescer num ambiente cheio
de hostilidade? Quando cada um acredita que tem a
verdade? Como fazer para chegar a uma negociação
deste conflito? Primeiro o casal briga, discute, agride,
menospreza, humilha e depois pede desculpas e afirma
que está apaixonado, que está vivendo o melhor
momento de sua vida, porque encontrou o seu grande
amor. Como conviver com estas mentiras? Até onde o ser
humano pode suportar toda esta superficialidade?
Incrédulos, distantes, utilizam das chantagens para poder
barganhar e dominar ainda mais o objeto de amor.
Outro problema nos diz respeito à dependência
econômica, se já não bastasse a emocional, agora surge
esta agonia financeira. A convivência com o sogra se
torna um problema quando interfere nas relações de
afeto dos filhos com o marido. Todos os pais carregam
este estigma de ciumentos, querem fazer o melhor e
acabam fazendo o pior. Estas interferências e opiniões
não são bem vindas, os jovens se acham no direito de
fazer suas escolhas, independente dos gostos pessoais de
sua família.
250
As disputas de afeto, de poder, de domínio,
entram em jogo quando este objeto de amor começa a
ser disputado entre a sogra e o marido de sua filha.
Quando existe uma simbiose entre mãe e filha, as
disputam tendem a ser acirradas e violentas, são
situações muito difíceis que precisam da ajuda de uma
terapia de família ou de casal. Esta dinâmica das relações
em família pode ser observada durante o jantar, almoço,
onde aparece espontaneamente o espaço que cada um
ocupa nesta família.
Existe aquela autoridade que senta na cabeceira
da mesa, um líder, que com suas intervenções apresenta
o seu poder. Os olhares se cruzam, mas o silêncio
permanece, todos são indiretamente dependentes de seu
afeto, do dinheiro, das opiniões, de sua ajuda, então num
gesto de submissão, todos concordam sem questionar as
decisões daquele que resolve a vida de todos.
Em muitas ocasiões este ritual não segue
estritamente as regras, sempre existe aquele que ousa
questionar, interferir, falar a verdade, apesar de ser
criticado e perseguido por este chefe de família, não tem
medo, segue irredutível neste confronto, ambos estão
medindo forças para provar a si e aos outros, a
tenacidade e determinação de suas verdades.
Às vezes o cinismo, a ironia provoca um surto de
raiva, uma das estratégias é levantar a voz, bater na
mesa, e impor sua autoridade através da violência. Os
outros familiares ficam tensos e preferem relaxar
consumindo álcool, o ambiente se torna agressivo, existe

251
disputa entorno daquele afeto, a situação fica cada vez
mais explícita.
As relações humanas provocam todo este tipo de
violência quando o tema principal é o amor. O amor
propicia segurança, solidariedade, confiança, amizade e
afasta o fantasma da solidão. Neste caso aquele que sai
de casa e deixa a sua mãe ou pai, sofre as consequências
desta sua escolha, porque chega um momento que se faz
necessário o rompimento desta simbiose. Porque esta
dependência tende a aumentar com os anos, podendo
chegar num patamar de anulação total, sem experiência
e confiança pessoal volta sempre ao estágio anterior,
permanece ligado a esta simbiose.
Os filhos procuram de todos os meios sair fora
deste vínculo doentio e controlador, de algum modo este
afastamento é saudável porque propicia uma
oportunidade de caminhar com suas próprias pernas, a
resolver seus problemas e a ganhar o seu sustento. Este
deveria ser o curso normal de desapego afetivo, como
muitos adultos não resolveram suas carências e têm
medo de ficar sozinhos aprisionam seus filhos numa
dependência mútua. A estrutura do caráter deste filho
está comprometida, porque se sente inseguro e com
medo de tomar decisões, esta fragilidade emocional é a
causa de sua depressão.
A família é um lugar onde os vínculos de afeto
podem tornar-se a causa de muitos conflitos, muitos pais
não sabem lidar muito bem com a perda, com o sucesso,
com a alegria, a felicidade, porque vivem de acordo com
a sua necessidade de amor. Quando o amor filial ocupa o
252
lugar do erótico existe uma inversão complicada, porque
aparece um vazio existencial. A coragem e ousadia dos
filhos desestruturam a todos os membros da família,
porque insere neste ambiente a condição de viver o amor
erótico, afetivo, filial sem estar atrelado à simbiose. A
mesma crise pode servir para provocar uma reflexão
crítica sobre sua atitude, e quando alguém pensa, existe a
possibilidade de mudança.
A mesma crise que poderia desencadear uma
série de conflitos pode servir como motivação para
pensar a autonomia e liberdade, porque a acomodação, a
rotina, a tradição, os costumes fazem parte desta cultura
da alienação. Numa sociedade que exige cada vez mais,
criatividade, determinação, coragem, segurança, ousadia,
não é funcional quando a família se fecha sobre um
paradigma antigo, tradicional e antiquado para lançar
pessoas na sociedade totalmente perdidas e confusas.
A família precisa repensar a sua prática de
formação de caráter de seus filhos, ainda mais, quando
os pais compensam a miséria econômica do passado,
protegendo com dinheiro e bens materiais os seus filhos,
como proteção para que não sofram e passem trabalho.
Existem adultos que não sabem viver no
equilíbrio, alguns reprimem e fecham-se no seu
isolamento, outros se tornam libertinos, boêmios,
conquistadores, não conseguem estar em paz consigo
mesmo na solidão, precisam de pessoas, conversas,
músicas para preencher aquele vazio, estão sempre
ativos, viajam, fazem festa, adormecem a consciência
com suas bebedeiras.
253
Porque resolveram o seu problema econômico,
estão aposentados, trabalharam a vida toda, e agora não
sabem o que fazer com o seu tempo. Improdutivos, se
culpam por estar nesta ociosidade, como não possuem
nenhum objetivo maior nas suas vidas aguardam a morte.
Ou vivem de consultório em consultório a procura de
uma doença para chamar a atenção de amigos e filhos
para receber um pouco de afeto.
É muito triste chegar no final da vida e não ter
um objetivo para continuar vivendo, aprendendo,
estudando e apreciando a vida. Sente-se inútil e torna-se
um fardo para os outros, as consequências da tristeza são
nefastas para a sua saúde. Portanto, o que pensar
quando a existência insiste em não dar certo, a angústia,
ansiedade aparece denunciando uma dificuldade de
relacionar-se e resolver conflitos.
Porque o diálogo exige escuta, compreensão,
ternura e ser capaz de amar as pessoas, quando esta
condição não existe, quem ocupa este lugar é o
autoritarismo, as inseguranças, e nesta situação fica
muito difícil de estabelecer um diálogo para resolver
problemas de relacionamento.
Um dos problemas mais comuns é idealizar um
relacionamento, a imagem de um herói, do príncipe, do
amante perfeito, com o tempo esta imagem acaba se
deteriorando e a decepção começa a interferir naquela
projeção. Todos possuem um código de ética e
expectativas sobre o que deve ou tem a oferecer como
segurança para estabelecer um vínculo de
relacionamento. É difícil para qualquer pessoa entender o
254
sofrimento neurótico, a solidão, a autodestruição, o
fingimento, porque são máscaras que afastam as pessoas
das suas relações mais íntimas.
A dor de uma experiência está repleta de medo,
as drogas lícitas ou ilícitas são utilizadas como um
placebo que ajuda a anestesiar e esquecer aquela ferida
que insiste em não ser curada. Os amigos e pessoas que
estão próximas do seu convívio pessoal são dependentes
deste processo destrutivo, porque ninguém gosta de ver
uma pessoa capaz e idônea escolher este caminho do
alcoolismo. Quem observa o espetáculo destes
alcoólatras compulsivos, desenvolve uma compaixão por
aquele ser humano que está cavando a sua própria
sepultura.
Nas relações dos seres humanos existem aquelas
supressas inesperadas ou decisões precipitadas, mas esta
é uma realidade muito difícil de aceitar, porque estamos
falando sobre as perdas. Este impulso de Eros favorece
este elo de aproximação entre os seres humanos de uma
carência que precisa ser cuidada. Uma vida que está
entristecida pela ausência do amor. Esta solidão reforça
ainda mais o seu grande medo de amar, este é o grande
conflito entre querer viver a afetividade e ao mesmo
tempo negá-la, racionalizá-la e fingir que está tudo bem.
Podemos perceber que esta tristeza acontece
pela falta de amor, de amigos, de familiares, aumenta na
mesma proporção que se sente sozinho, este vazio
começa a corroer o seu espírito, de fato existe uma
inibição, um medo sorrateiro que impede a vivência da
emoção do amor.
255
A grande maioria das pessoas que se encontram
neste vazio existencial, não consegue suprir sua
necessidade afetiva, compensa nos ansiolíticos, bebidas
alcoólicas, drogas de todas as espécies, como uma
maneira de enganar-se a si mesmo, indiretamente sufoca
suas emoções, controla seu estado de angustia e
ansiedade pelo caminho das adições. As drogas lícitas ou
ilícitas propiciam a vivência química no cérebro desta
alegria superficial, aumenta sua extroversão, demonstra
coragem e alegria.
As drogas são o substituto desta falta de
confiança, coragem e determinação para poder enfrentar
e resolver suas frustrações, ao anestesiar as emoções
sente-se vacinado contra qualquer tipo de rejeição e
abandono. Independente da inteligência ou das
condições econômicas sofre com a falta de amor e
termina curtindo no seu isolamento a solidão. O amor
possui esta essência de tornar a existência com mais
sentido, ninguém vive para si mesmo, ao relacionar-se
com as pessoas aprende a receber e dar amor.
Mas chega um momento na vida que as
exigências da sobrevivência impõem novas experiências,
estes vínculos entre a mãe e os filhos, marido e mulher,
amigos, estão carregados de apegos. As neuroses
benignas estão latentes e esperam a ocasião certa para
institui o conflito, depois disso, existe a ruptura, a
separação.
Muitos disfarçam com um sorriso o
distanciamento daquele amor afetivo, mas na verdade
ainda desconhecemos o efeito desta perda de amor
256
sobre a vida da pessoa. Porque ao recalcar esta emoção,
escondê-la, ou fingir que a perda não existiu, sua
manifestação pode tornar-se um sintoma, com o tempo,
uma doença crônica.
Quem poderia imaginar que por detrás de uma
doença existe a falta de amor, ou desta dificuldade de
lidar com suas perdas. Porque para além dos conflitos e
desentendimentos entre as pessoas que se amam, existe
aquela realidade de presença, de ajuda, de diálogo, de
companheirismo, de confiança, de proteção, em outras
palavras a vivência deste amor.
Esta ruptura nas relações por contingência da
existência pode custar muito caro, algumas pessoas
desenvolveram defesas perfeitas para jamais demonstrar
suas emoções, estão sempre alegres e contentes e nada
pode abalar sua pessoa, outros se fecham num mundo de
silêncio e jamais compartilham as suas dores e mágoas.
No instante da despedida existe este
afastamento gradativo deste amor dos amigos, materno,
paterno, etc. Em alguns casos se torna necessário como
fator de crescimento e desenvolvimento de sua
autonomia, mas cada pessoa interpreta de uma maneira
muito especial sua perda. Porque se existe a insegurança
e o medo para enfrentar uma nova realidade, então
podemos pensar no desgaste emocional e as dificuldades
que terá que enfrentar.
São duas perdas, aqueles que ficam e aquele que
vai embora, talvez isto ninguém possa negar, o valor
deste vínculo propiciado pelo amor, porque todos sabem

257
que amor cuida, vigia, protege e está sempre presente
nos momentos mais difíceis da vida.
O amor é tão importante, é capaz de despertar
inveja e ciúme, parece que o ser humano tem esta
dificuldade de compartir, dividir, aceitar que seu objeto
de amor possa ser amado por outras pessoas. O ciúme
recria na pessoa este estado de insegurança porque no
seu delírio fantasioso tem absoluta certeza de que seu
amor será roubado.
É difícil para o ciumento dar-se conta desta sua
situação, seu estado de inconsciência pode propiciar
muita tristeza e desilusão, porque ao afastar-se das
pessoas amadas, nos seus inúmeros propósitos, nem
sempre o discurso racional consegue justificar ou
racionalizar seus desejos perversos e traiçoeiros.
Porque nem sempre os afastamentos amorosos
tem uma explicação plausível, as neuroses escondem sua
verdadeira cara, não são sinceras e representam bem o
seu papel. Mas enfim, a vida precisa continuar, estas
despedidas das pessoas amadas em nome de outro amor
pode fazer este tipo de renúncia.
Todos sabem que racionalmente não seria
preciso esta tomada de decisão, infelizmente não é o que
acontece, pois a pessoa ciumenta cobra e exige do seu
parceiro, como forma de provar seu grande amor, o
abandono das pessoas que ama.
Vejam só a contradição, porque alguém teria que
afastar-se de pessoas que ama com o único intuito de
dedicar todo o seu amor ao seu companheiro? Em quase
todas as famílias existe sempre este obstáculo a ser
258
superado. A disputa entre o amor filial, fraterno, do
erótico. Na falta destas pessoas de sua convivência,
precisa saber que deverá estabelecer novos
relacionamentos e conquistar novos amores. Todos
sabem a dificuldade de encontrar verdadeiros amigos e
pessoas sinceras para poder confiar as suas confidências
e intimidades.
O amor é capaz de propiciar aos seus amantes
este interesse da escuta, da cooperação, da
solidariedade, porque quem ama deseja o melhor para
aqueles que se afastam da convivência por inúmeros
motivos. Esta situação de despedida é muito difícil para
todos, para lançar-se num novo projeto de vida, se faz
necessário refazer novos amigos e conquistar outros
amores, mas o momento de partida chega sem ao menos
avisar. Quando as emoções do medo da separação são
dolorosas, a única defesa possível é esconder de si
mesmo que este amor não é importante, mas a verdade é
que ninguém pode esconder o valor deste amor.
Esta ruptura das pessoas que amava é como um
corte que sangra profundo no espírito, agora é preciso
encarar a realidade e lançar-se na busca de novos amores
para poder suprir a carência. Como é difícil perder
alguém que se ama! De onde surgiu esta emoção que
estabelece estes laços profundos de carinho, ternura e
cuidado? O amor verdadeiro não sufoca, cuida e zela pela
felicidade daquela pessoa amada, o ciumento sente-se
feliz em afastar a pessoa que ama dos seus familiares,
acredita que ao não amar seus amigos e pais, poderá
canalizar todo este amor a sua pessoa.
259
A psicanálise humanista estuda as escolhas sobre
a ótica da felicidade e realização pessoal, isto inclui o
amor, a saúde psíquica, a ética, os projetos, a profissão, a
família, os filhos, a inteligência, cultura, entre outros
fatores que podem cooperar para o sucesso individual e
coletivo. Ao estudar os desejos inconscientes nos
deparamos com escolhas não funcionais para
proporcionar alegria e saúde.
Muitas destas decisões estão ancoradas nas
projeções inconscientes de neuroses malignas e
benignas, estas pulsões sofrem a forças dos impulsos que
exigem a sua plena satisfação ou realização. A
consciência racional não consegue satisfazer os desejos
conscientes, esta lógica do pensar nem sempre satisfaz
estas necessidades inconscientes, existe uma dimensão
de energia psíquica que precisa expressar seu potencial,
este caminho está sendo escolhido nas melhores das
intenções, no entanto, os frutos que colhe destas
decisões estão comprometidos pela sua neurose.
Muitas pessoas se anulam ou deixam de realizar
os seus sonhos para priorizar o sonho do seu parceiro, do
marido, de um filho, etc. O tempo passa, as pessoas
realizam os seus sonhos. Como os seus desejos não foram
realizados, existe mágoa, ressentimento, raiva, emoções
reprimidas, isto não significa que elas deixaram de existir,
simplesmente foram deixadas de lado, mas estas
frustações incomodam, desestabiliza, gera insegurança,
insatisfação, em alguns casos, estes mesmos adultos
começam a culpar as mesmas pessoas que os ajudaram,
por causa de sua doença ou infelicidade.
260
Estas renúncias são produtos de sua fantasia,
porque em nenhum momento os filhos e pessoas de sua
convivência fizeram este tipo de exigência. Mas enfim, as
frustações e desencantos calam fundo na alma de um ser
humano, esta frustração pode contribuir para um estado
de tristeza que mais tarde pode ser transformado numa
depressão. Pelas obrigações e compromissos assumidos,
prioriza a realização das outras pessoas, e fazem uma
opção, em primeiro lugar a felicidade das pessoas do seu
convívio pessoal, se esquecem de si mesmas, por isto
tornam-se rancorosas e insatisfeitas.
Esta motivação em estar juntos depende também
do sucesso dos seus empreendimentos na existência e
profissional, as conquistas confirmam a competência em
saber gerir a própria existência. Este estado de alegria e
satisfação anuncia um prazer enorme em continuar a
viver juntos, os fracassos, as traições, as perdas
enfraquecem e acabam sempre em conflitos e
discussões. Neste instante surge uma euforia contagiante
de muita alegria, porque todo ser humano deseja realizar
seus sonhos, ninguém vive por muito tempo entorno dos
fracassos e desilusões.
O ser humano é uma extensão desta totalidade
da existência, são inúmeras experiências que acabam por
tornar a vida mais eficiente e prazerosa. As realizações
reforçam e traduzem-se em alegria contagiante. Mas as
questões do mundo externo não conseguem apagar ou
fazer desaparecer as atitudes infantis e imaturas, este
processo de falência produz tristeza, por isto mesmo as

261
emoções estão entrelaçadas neste tecido existencial e
afetivo.
A psicanálise procura descrever este processo de
atuação inconsciente. Um estilo de vida comprometido
pelos desejos, muitos deles se realizam, porém é preciso
prestar atenção sobre a verdadeira intenção que motiva a
realização ou a fazer uma escolha.
Todo ser humano tem interesse na vivência deste
amor, e muitos não medem sacrifícios e renuncias para
fazê-lo acontecer nas suas vidas. Mas o amor exige além
dos filhos alguns valores, sem esta ética, torna-se
impossível estabelecer um relacionamento de confiança.
Além da sexualidade, dos filhos, da profissão,
existe este laço de sinceridade, não se trata somente da
traição sexual, mas de um compromisso que envolve
muitas pessoas. Existe a dimensão de confiança, de
ternura, admiração, esforço desta relação faz com que
tudo comece a dar certo. A profissão torna-se um álibi
para poder chegar tarde e justificar sua ausência da
intimidade. Mas as crianças são sensíveis e conseguem
perceber a verdade no coração dos seus pais, esta
sincronicidade emocional é vivenciada intuitivamente
pelos filhos, esta sinergia retrata aquela emoção
verdadeira e não aquela que está sendo representada.
Por intermédio desta emoção visceral as crianças
vivem o drama dos seus pais, muitas delas curtem no seu
silêncio a dor da infelicidade, esta sensibilidade infantil se
antecipa e curte aquele momento de verdade. Esta
energia não pode ser vista, mas as crianças sentem os
tipos de emoções que circulam nestes ambientes. Os
262
adultos não percebem, mas estão atentas a todos os
assuntos de relacionamento, e se antecipam no seu
sofrimento aquilo que um dos pais está sentindo.
A solidão investe-se de um lugar na existência e
toma conta de sua pessoa, infelizmente as carências de
atenção, de carinho, afetos, ficam relegados a um
segundo plano. Este isolamento contribui e muito para
viver em depressão, porque naquele lugar vive sem um
significado maior na existência. Quem não tem um
sentido na existência experimenta o vazio existencial que
está de mãos dadas com o pessimismo, a tristeza, o
criticismo, a apatia, o desânimo, um estado emocional
que pode ser caracterizado como depressão. O que
motiva a uma pessoa a possuir este desejo biófilo de
viver, de amar a existência, de extrair de si mesmo a força
que norteia as escolhas e suas decisões?
O que a emoção do amor tem a ver com a saúde
psíquica? Primeiro esta necessidade de ser amado e de
amar é uma competência da natureza humana, ao
mesmo tempo a dependência tornar-se a tábua de sua
salvação, ou o contrário, o seu inferno. Muitas pessoas
estão neste estado fóbico, medo de interagir, de amar, de
fazer amigos, de relacionar-se, de confiar, de entregar-se,
e como um caramujo esconde-se por detrás de suas
inseguranças. Existem discursos racionais muito bem
elaborados que contribuem para dar continuidade a este
tipo de vida improdutiva e infeliz.
Estas carências afetivas forçam as pessoas a
saírem do seu casulo, precisam encarar a existência de
frente ou refugiar-se numa doença, é preciso coragem
263
para ser um humano com estas qualidades, muitos
prefere a primeira opção, porque a doença crônica e
destrutiva, um acidente, pode ser plenamente aceito pela
sociedade em geral.
A solidão estremece a confiança no futuro,
porque ninguém está seguro, feliz isolado. As pessoas
que estão neste estado depressivo se irritam facilmente,
tornam-se agressivas e não querem conversar com
ninguém, inclusive qualquer manifestação de alegria
incomoda a quem se encontra neste estado de luto.
As perdas colaboram para atirar a pessoa
neste fundo do poço, somente um novo sentido na vida
pode retirar àquela pessoa do seu estado de luto, a
negação, a raiva, elaboração, aceitação, pode ajudá-lo a
perdoar-se e lançar-se em novos objetivos na sua vida. Ao
encontrar-se nesta desilusão não aceita e não entende
como alguém pode ser feliz, esta enorme tristeza
consegue tornar a existência um lugar depressivo, de
abandono, de rejeição, de injustiça, situações pensadas e
vividas, mas que não corresponde a realidade.
A falta de amor na vida de uma pessoa, consegue
torná-la rancorosa, fria, racional, critica e distante, seu
corpo entristecido pela falta de amor, projeta nas suas
relações este estado de infelicidade. Nem mesmo a
prepotência, o orgulho, a vaidade, o poder, o dinheiro,
consegue devolver este estado de alegria. Como tem
dificuldades de lidar com as emoções, racionaliza tudo e a
todos, e para cada situação em particular tem uma
explicação específica, neutralizar qualquer manifestação
emocional.
264
Procuram esconder aquilo que é mais sagrado na
existência, a sua necessidade de ser amado e permitir-se
amar. O caráter extrovertido comunica muito bem seu
estado de alegria e felicidade, mas esta superficialidade
mente e esconde também a sua solidão. Como existem
muitas exigências nos relacionamentos e muitas pessoas
podem ser aquilo que elas são na verdade, decidem
incorporar ao seu caráter este personagem alegre,
contente, feliz e realizado. A Vida é tão bela que não
existe tempo para o sofrimento, assim pretende esconder
as suas carências e sofrimentos com este tipo de fachada.
É preciso entender e não julgar as atitudes, pois
são manifestações inconscientes que acabam trazendo
consequências a sua vida pessoal, muitos falam aquilo
que as pessoas gostam de ouvir, existe de fato uma
pressão cultural, social, religiosa e política sobre como as
pessoas deveriam viver. E muitos são adeptos destes
estigmas que são aceitam pela cultura, ninguém entende
muito bem o porquê destas atitudes, mas enfim como
todos aceitam, também é normal a sua aceitação.
Algumas pessoas utilizam de estereótipos
profissionais para despertar o interesse de outras
pessoas, mas não entendem que estas relações do
mundo dos negócios estão viciadas nos jogos de
interesse, ninguém está comprometido com a saúde e
felicidade da outra pessoa. O desejo de estabelecer
vínculos não está atrelado ao amor, mas na
representação de um estereótipo social, com o tempo
esta atitude pode tornar-se uma rotina. Existe de fato a
exigência social que precisa de pessoas para fazer o papel
265
de representação teatral, os atores coadjuvantes
assumem aquele tipo de personagem para vender uma
imagem de felicidade.
Porque as pessoas não podem ser aquilo que na
verdade pretendem ser? Seria porque existe o medo de
serem criticadas e rejeitadas? Não suportariam o
abandono daquele grupo social? Quando os desejos se
complementam existe um estado de euforia, aos poucos
as resistências deixam de existir, no seu lugar abrem-se
inúmeras possibilidades, é preciso coragem para sair
deste estado de couraça e permitir-se viver novas
emoções. A emoção do amor é um elixir de reação
química misturada com o desejo que se transforma numa
força muito maior que o poder do raciocínio.
Esta pulsão do amor é mais poderosa que as
explicações e racionalizações da mente consciente. Existe
de fato um superego social que vigia e pune aqueles que
transgredem suas normas, para isto existe todo um
aparato jurídico que se interpõe ao social, para conter e
controlar as pulsões violentas e agressivas.
O superego individual pertence a este mundo
cultural das crenças, costumes, religiosidade, que acabam
sendo comunicados pelo corpo e nas decisões e escolhas
pessoais. O superego individual possui a preocupação
moral e ética para ser aceito e valorizado no seu meio
social.
Será mesmo que o ser humano está dominado
por estas forças culturais e sociais? Certas atitudes
produzem uma reação emocional que quando
confrontados com os valores e crenças pessoais,
266
desencadeia emoções muitos fortes. O grande medo é
lançar-se num novo relacionamento, porque nem sempre
existe ética e verdade, as neuroses justificam suas ações
para sustentar os vícios do narcisismo.
As intenções possuem este desejo racional num
primeiro momento, mas esta outra dimensão emocional
aparece como a primazia de sua decisão, então inicia
todo um processo de culpa, porque seus objetivos no
amor não acontecem, a autodepreciação acentua ainda
mais a sua solidão.
A mente inconsciente sofre com a falta de amor,
o corpo se entristece e às vezes adoece, a única
motivação verdadeira é aquela que pensa nas pessoas
que ama. O amor maternal é diferente do erótico, do
fraternal, estas dimensões afetivas acontecem sem a
mínima consciência destes vínculos e podem durar toda
existência.
A maternidade é uma experiência que amplia e
fortalece a coragem de viver, o amor da mãe por um filho
é algo inexplicável. Mas ninguém gosta de ouvir certas
verdades sobre seus relacionamentos, existe esta
dimensão da esperança, do voto de confiança, do perdão,
que fazem com que muitas mulheres passam a tornarem-
se mártires para salvar o seu casamento.
A dura realidade é de que todos estão
percebendo o que está acontecendo, a pessoa envolvida
na relação sempre acredita que a relação pode mudar.
Quando aparecem as dificuldades econômicas, afetivas,
iniciam-se as brigas e desentendimentos, porque as
dificuldades exteriores fazem a denúncia de que ambos
267
estão faltando com a sinceridade. O mártir é aquela
pessoa que sofre em silêncio, não fala a verdade com
medo de preocupar as pessoas, então se fecha no seu
mundo particular, e procura até o último momento
esconder a verdade do seu relacionamento.
São questões que nunca se resolvem, mas a
pessoa envolvida na relação não desiste nunca do seu
grande amor, porque tem a convicção de que poderá
mudar o seu companheiro, investe muito tempo de sua
vida, dedicação, perdão, paciência, tudo com o sincero
interesse de fazer com que a pessoa amada mude de
atitude na sua vida. Estas situações de crise produz
sofrimento, ninguém fica alegre quando percebe o
ambiente tenso e cheio de dificuldade, as únicas pessoas
a quem pode recorrer são aquelas amadas.
Mas isto não significa que receberá ajuda, ao
contrário, muitas vezes é criticada, questionada, a pessoa
envolvida nestas relações de perda, sabe das fraquezas
do seu companheiro, mas enfim existe a esperança de
que a realidade econômica, afetiva, amorosa, possa
mudar ainda permanece.
Em muitos casos, estas pessoas chegam a
humilhar-se e assumem dívidas estrondosas, tudo com a
intenção de salvar o seu casamento. Este ambiente de
insegurança e falsidade é absorvido pelas crianças que
convivem com estes pais, existe uma falta de alegria, os
olhos estão entristecidos, não se percebe nenhum tipo de
entusiasmo pela vida.
O ambiente começa a piorar quando aparecem as
mentiras, neste caso o ciúme torna-se agressividade. A
268
desconfiança aumenta na mesma proporção de sua
insegurança. A ética precisa de valores, honestidade,
sinceridade, compaixão, são indispensáveis para saber
renunciar, porque ninguém gosta de ser enganado,
usado, manipulado; a perversão procura seu prazer no
sadismo. A formação do caráter estabelece a segurança
numa relação e aumenta a confiança, a liberdade, a
autonomia, isto implica na vivência destas suas
qualidades pessoais.
Quando observa as doenças, os sintomas
psicossomáticos, a desilusão, a solidão, começa a
entender a manifestação desta ética que ajuda a vivência
da paz, o equilíbrio entre a expressão das emoções e a
realização das pulsões, propicia as condições para viver a
saúde ou a doença. A doença aparece na vida de uma
pessoa depois de muito tempo, naquele sintoma existe
uma história de dor, traição, frustração, raiva, ódio, que
estão alterando o funcionamento daquele órgão. Existem
pessoas muito sensíveis que conseguem suportar uma
traição, mas não por todo o tempo, em algum momento
aquela pulsão ou emoção transforma-se num agente
agressor que destrói a vida completamente.
Por muito tempo a pessoa convive com este
estado de infelicidade, as emoções ficaram relegadas a
um segundo plano, porque todas as pessoas acreditam
que podem reverter ou modificar a atitude de alguém
que ama muito. Com o tempo a relação fica desgastada,
o corpo está sensível a esta falta de amor, não existe mais
diálogo, então inicia este processo de elaborar a perda do
amor. Muitos apelam para Deus, procuram na religião
269
algum tipo de milagre, procuram conselhos de amigos,
dos pais, mas os olhos enxergam que seu parceiro está
distante e o amor afastando-se de suas vidas.
A saúde precisa da vivência do amor, porque a
intuição sente que aquele amor está acabando, porque a
mentira, a perversão, retira da pessoa a admiração. As
crianças vivem a angústia, escutam as brigas e
ressentimentos dos pais, e sentem vergonha das gritarias.
O ambiente familiar está cheio de cobranças e acusações,
o medo começa a tomar conta, a raiva e o ódio iniciam
sua trajetória para ampliar seu domínio sobre a doença.
Este estado de violência e infelicidade pode ser
transformado em doença, porque o único modo de uma
pessoa sentir-se livre de suas obrigações e libertar-se dos
compromissos da existência é a morte.
Muitas vezes a pressão, as exigências, as
cobranças são insuportáveis, as dificuldades afetivas,
amorosas, financeiras, aumentam gradativamente a
raiva. Aquelas emoções reprimidas são projetadas sobre
os filhos, porque o nível de stress e tensão está
insuportável, precisam fazer a catarse. Este estado de
infelicidade enfrenta os dissabores da indiferença, das
mentiras, do engano, emoções e atitudes que magoam e
entristecem qualquer ser humano.
O abandono é uma espécie de violência, uma
irresponsabilidade que sobrecarrega aquela pessoa que
se sente obrigada a cuidar dos filhos. Os
constrangimentos são enormes, porque a tendência é
ampliar as dificuldades financeiras, talvez naquele
momento da humilhação e rejeição precisa reprimir a
270
emoção de raiva e ódio por encontrar-se naquela
situação de penúria. No final das contas percebe-se que
as emoções são vivências existenciais que permanecem
latentes nas memórias do cérebro humano.
Este estado de inconsciência expõe filhos e
outras pessoas ao mais completo constrangimento e
vergonha, estes adultos não medem suas ações, depois
acabam sofrendo porque não estavam maduros para
serem responsáveis pela educação dos seus filhos. As
crianças sentem-se envergonhadas e começam a
entender as dificuldades financeiras desta crise conjugal,
em alguns casos existem pessoas bondosas, amorosas
solidárias, que prestam algum tipo de ajuda.
Sabemos que esta atitude é elogiável, mas não
resolve o problema conjugal e muito menos financeira,
por aquele momento diminui a fome e solidão. Os
problemas devem ser encarados, esta busca constante de
segurança numa relação matrimonial, depende antes da
estabilidade e equilíbrio psicológico, saber enfrentar
estes dilemas, muitos fingem que não existe o problema,
e fantasiam que uma segunda relação resolve seus
problemas, em vez disso, aumenta ainda mais, pelo
simples fato de que ninguém gosta de ser enganado. Esta
talvez seja a pior traição, porque a mentira tem como
finalidade desvirtuar e fazer de conta de que algo não
está acontecendo, quando na verdade vive justamente o
contrário.
O ambiente fica tenso, as crianças ficam
inseguras e com muito medo, estão divididos, não sabem
o que fazer, sua atenção e preocupação esta relacionada
271
a situação existencial, os reflexos desta instabilidade
emocional e insegurança afetiva, projetam-se no
desempenho da aprendizagem das crianças que vivem
neste ambiente de tensão, brigas, discussões. Muitas
crianças ficam apreensivas, nervosas e tensas, como não
sabe como fazer para resolver os problemas, se fecham
no seu próprio mundo, deixam de conversar, ficam
isoladas, estão tristes, acabou a felicidade.
As tensões por estado de infelicidade e
desarmonia familiar acabam sempre em brigas e
discussões, o nível de stress aumenta na medida em que
ampliam-se os seus problemas de ordem afetiva e
financeira. Este stress pode desencadear uma série de
violência psicológica e física, porque este estado de
infelicidade pode projetar todos os tipos de violência.

272
7.0 - Os caminhos que abrem as portas do amor.

Sabia que apesar de ser mulher aquela imagem


significava algo mais importante em sua vida, não
importava o que tinha acontecido, se aquela relação
trouxe tristeza e decepção, estava inquieto precisava
dialogar para conhecer as razões deste sofrimento. Não
estava interessado em revidar ou fazer justiça, encontrar-
se acima desta emoção de raiva, agora era o momento de
ouvir, esta escuta das mágoas e ressentimentos aos
poucos começava a entender os porquês deste fracasso.
Entendeu que não bastava criticar, apreciar, era
preciso envolver-se nesta busca pessoal, descobria que
mesmo nas situações de traição e decepção, é possível
abrir um canal de comunicação para entender as razões
daquela decisão. Interessante esta imagem feminina lhe
recordava as cenas de um grande amor, e sentiu que
precisava elaborar e dialogar com esta energia
aprisionada em seu inconsciente. Este espírito estava
mais vivo que nunca, mesmo sabendo que estava morta a
mais de nove anos.
A morte do seu grande amor não conseguiu
apagar de suas memórias estas recordações que lhe
traziam calma, plenitude e bem estar, sabia que estava
em contato com uma emoção, a sua emoção de amor,
agora era eterna, pois a imagem estava nas memórias do
seu cérebro, se falasse disto para alguém, lhe chamariam
de louco, mas o fato era de que esta imagem estava viva,
apresentava diante dos seus olhos, com aquele sorriso,

273
ternura, alegria, nem mesmo o câncer conseguiu apagar
as marcas que estas emoções lhe deixaram na sua vida.
Estava convicto de uma coisa: Esta imagem lhe
deixou saudades, ensinamentos, experiências e não
pensava mais naquele câncer devastador, nutria-se num
diálogo daqueles temas que não foi possível resolver
enquanto estava viva. Precisava resgatar as pazes com
esta imagem feminina, a imagem nutria-lhe de uma
esperança, de voltar a viver uma experiência de amor,
não precisava ser igual, necessitava comemorar aquele
relacionamento, sabia que esta imagem queria dizer-lhe
algumas palavras. Não tinha mais medo, estava disposto
a renunciar ao seu orgulho, parar de criticar e reclamar,
culpar deus, a família, filhos, tinha que ser corajoso para
assumir-se como protagonista nesta história de amor.
Sabia que não tinha mais a sua presença física,
mas podia dialogar e resolver aquelas questões que
ficaram pendentes, sem resposta, talvez porque não
tinha compreendido, mas estava disposta a compreendê-
lo. Percebia que ambos estavam sempre cheio de tarefas,
preocupados com a sua sobrevivência, não tinham muito
tempo para estar junto, o trabalho profissional, a
educação dos filhos não propiciava este tempo para
dialogar.
Aos poucos estavam totalmente distantes um do
outro, os filhos seguiram o caminho natural de fazer a sua
história de autonomia e liberdade, decidiram fazer suas
escolhas, era algo que deviam descobrir sozinhos. Ambos
se alegraram por viver estes momentos sublimes de
educação e amor aos seus filhos, agora se encontravam
274
somente nas festas de final de ano e nos aniversários.
Naquele dia era especial, porque a família estava reunida.
Aquilo que a mente vive como fantasia a emoção
experimenta como realidade.
Este é o segredo as emoções, enquanto vivem as
memórias se encarregam de registrar estes momentos de
alegria, de realização e felicidade. Esta paz de espírito
pode ser sentida no som de suas palavras, nas
conversações vivencia um ambiente de compreensão, as
pessoas se entendem, ninguém está preocupado em
defender suas teses, todos estão interessados em
absorver este clima de tranquilidade.
A vida dos filhos, os amigos, deixam somente
recordações, aquele lugar que cada um ocupa nos
espaços que estão reservados no coração. Neste lugar de
paz e tranquilidade é possível fazer esta experiência de
identidade, de saber que fez o melhor possível para viver
o amor. Depois de um tempo todos vão embora, na
melhor idade convive com estes momentos de
despedida, aceita com naturalidade o curso normal da
vida, mas os olhos não mentem. Todos percebem que
existe uma tristeza naquele olhar, mas ninguém tem
coragem de levantar esta questão, preferem o silêncio.
Como sabiam se respeitar não precisava colocar
em público, algo que vivenciava como privado merecia
este espaço, porque se esta mulher explicasse o que
tivesse acontecido ninguém entenderia e jamais lhe
perdoariam. A imagem feminina procurava explicar a este
vivente, estas suas emoções que estavam repletas de
sonhos, esperança e amizade. A energia emocional estava
275
sendo representada por esta figura feminina que insistia
em dialogar com a consciência do seu interlocutor.
Fez questão de falar de como se sentiu quando
conheceu o amor de sua vida; dizia que tinha apenas
dezoito anos, estava apenas começando o seu curso de
graduação na universidade, sobrevivia e pagava a
anuidade com seus trabalhos como professora numa
escola para crianças, naquele passado não tinha quase
nenhuma experiência sobre o amor, considerava-se
muito jovem, e muitas de suas amigas não comentavam
sobre a sua vida particular.
Disse que enamorou-se de um colega de escola, e
depois de sua formatura teve um romance as escondidas
com o professor de pedagogia da sua universidade.
Naquela época fazia questão de passear pelas ruas da
cidade com o seu amor, mas infelizmente seus pais eram
muito tradicionais e ortodoxos em relação ao namoro,
para não complicar seu relacionamento, preferiu
terminar. Dizia que era jovem e muito bonita, seus
cabelos eram negros, seu corpo exalava sensualidade,
sempre foi fiel aos seus sonhos.
Num belo dia uma pessoa resolve abrir as portas
do seu coração, decidiu que precisava encontrar
respostas para as suas dúvidas, e a única chave que
poderia revelar os seus segredos era a sua coragem.
Sabia que muito do seu sofrimento tinha algum tipo de
ligação com o seu passado, não suportava mais viver
daquela maneira, precisava tomar uma decisão, pois
aquele estado de depressão e pessimismo era
insuportável.
276
Desceu ao escritório e marcou sua primeira
sessão de análise, depois saiu a caminhar pela rua, ficou
pensando sobre o que iria falar naquele encontro, chegou
perto do seu carro, retirou as chaves do seu bolso e
dirigiu-se ao endereço de seu analista. Começaram a
surgir vários temas na sua cabeça, falar do seu primeiro
relacionamento, da sua antiga esposa, os traumas de sua
infância, as suas decepções, os vícios e adições, e sua
história de vida que remontava as origens de uma cidade
pacata do interior.
Estas recordações custaram-lhe algumas lágrimas
de saudade, de tristeza, de sofrimento, e decidiu falar do
seu relacionamento afetivo da sua ex-esposa, se sobrasse
tempo comentaria algo sobre a sua timidez. Ligou o rádio
do seu carro e começou a escutar uma música, pensou
um pouco sobre o papel social que representava na
sociedade, e depois de respirar fundo sentiu fortes dores
no seu coração, colocou sua mão sobre esta dor,
acalmou-se e ligou o seu carro.
Sentado ao volante começou a pensar sobre
estes temas; deveria ser rápido e lógico na sua exposição,
porque aprendeu que na vida tudo deve ser pensado
antes de falar, surgiram imagens de seu tempo de escola,
de seus amigos, do lazer e divertimento, das roupas que
vestia, da casa onde morava. Sua mente estava invadida
por um mundo de imagens que reportavam a sua história
de vida, não tinha consciência por onde deveria começar,
enfim uma coisa sabia: deveria aprender a dominar a sua
ansiedade.

277
Quando estava a uma quadra do consultório do
seu analista se olhou no espelho, e ficou a pensar qual
seria a avaliação sobre as roupas que estava usando. Sua
mente estava fértil na produção destas imagens, pois
estava muito preocupado com a sua aparência. Olhou no
seu relógio e percebeu que estava na sua hora,
estacionou seu carro e saiu em direção à sala de
atendimento, pelo menos conseguiu chegar na hora
marcada.
Sentou-se na sala de espera, e seus olhos
estavam fixos nas revistas e jornais sobre a mesa, atirou-
se para trás e aguardava ansioso cada minuto que
passava, enfim o analista apareceu e convidou a entrar
no seu consultório. Ao sentar-se enxergou sobre a mesa,
umas fotos da família do seu analista, sentiu vontade de
desviar a finalidade daquele encontro para fazer alguns
comentários sobre aquelas pessoas, mas percebeu que
seria uma infantilidade, uma fuga, um engano.
Agora que conheceu o analista, estava mais
confortável não tinha mais pressa, começou a gostar
daquele encontro, sentia-se compreendido e existia algo
que unia esta conversa. Gostou de falar de sua vida, e
prestava muita atenção sobre cada intervenção, percebia
que as anotações estavam aumentando à medida que
falava sobre a sua história de vida. Estas recordações
surgiam como um passe de mágica, e tinha consciência
de que aquelas anotações seriam os temas das próximas
sessões de análise.
Percebeu que suas fantasias aumentarem, que o
medo tomava conta de sua pessoa, e a emoção não tinha
278
nada a ver com o seu analista. Sabia que estas memórias
estavam sedentas de compreensão, estas sinapses
precisavam fazer novas interpretações, as recordações
serviam de roteiro para voltar aos lugares e
acontecimentos que estavam relacionados com a sua
solidão. Quando estava terminando a primeira sessão de
análise, prestou atenção nas informações que o analista
estava falando, percebeu que se tratava de uma aliança
de trabalho.
Ao sair do consultório se despediu do analista,
colocou o cartão de visita com o dia e horário no seu
bolso, quando chegou perto do seu carro, sentiu uma
vontade de chorar, olhou para os lados e reprimiu a sua
emoção, estava sozinho, pela centésima vez pensou na
importância do amor e de como é triste a solidão. Como
poderia voltar para casa sozinho? Sem filhos ou esposa,
não tinha ninguém para conversar, esta solidão corroía o
seu espírito, mas sabia que devia suportar a tristeza.
Estava carente, de pessoas, amigos, gestos de ternura,
esta maneira de pensar levou a conclusão de que estava
na contramão da existência.
Quando chegou ao apartamento, sentou-se em
frente ao quadro dos seus pais, fixou por um tempo a
imagem de sua família, estava com raiva e experimentava
uma vontade enorme de quebrar tudo. Mas percebeu
que deveria abandonar esta ideia, porque esta atitude
não resolveria o seu problema. O seu único refúgio era o
seu trabalho, pelo menos conseguia por um tempo se ver
livre destas suas emoções que angustiavam e
depreciavam a sua pessoa.
279
Sentia-se velho, antiquado, rígido, e percebia seu
pessimismo em relação a sua vida e as pessoas, olhou-se
no espelho, seus cabelos estavam brancos, seu rosto
apresentava um retrato do seu cansaço, as rugas
sugavam a beleza da estética, seus olhos azuis
confirmavam pelo menos um sinal de avidez e esperança.
Percebeu que o analista representou naquela sessão de
análise, este espelho, estas emoções estavam aflorando e
fazendo pensar com mais seriedade sobre a sua condição
humana.
Estava ficando velho e não gostava desta ideia,
queria simplesmente ficar idoso; Mas como conviver com
a solidão que aumentava a cada dia? De onde surgia esta
indiferença em relação aos seus bens materiais? Não
entendia muito bem este afastamento, porque na sua
juventude era muito materialista, valorizava e muito as
suas conquistas econômicas. Agora percebia que investiu
muito tempo de sua vida no acúmulo destes bens e havia
esquecido de si mesmo. Esta talvez seja mais uma de suas
justificativas para não confrontar-se e esclarecer o que
estava acontecendo com a sua vida.
Um fato era incontestável, estava sozinho, nunca
tinha experimentado tamanha solidão, como era filho
único não tinha irmãos para procurar, seus pais estavam
mortos, os parentes estavam distantes de sua vida
pessoal. O único momento de descontração que sentia,
era quando comprava leite e pão no mercado da esquina,
pois o proprietário sempre contava algumas piadas que o
faziam rir. Também gostava muito do dono da livraria,

280
era uma pessoa sorridente e alegre, estava sempre
disposto a encomendar os seus livros.
Estas eram as pessoas que surgiam na sua
memória, e tentava fugir a qualquer preço da imagem da
sua ex-esposa que tinha se separado ha muito tempo,
este e outros relacionamentos sempre terminavam em
brigas, discussões, traições, e por fim no afastamento.
Sabia que estava com mais de sessenta anos, e guardava
muito vivo aquelas recordações na sua memória, naquela
época saiam juntos, sonhavam e se amavam, viajavam e
trocavam juras de amor. O seu apego exagerado ao
trabalho atrapalhou e muito o seu casamento, não tinha
certeza de que este fracasso se devesse ao trabalho
profissional, porque a sua companheira sabia antes
mesmo de estreitar o seu vínculo que precisava deste
trabalho.
Sempre perguntava por que o amor consegue
terminar com as paixões? Quais as fantasias que
acompanham nos ideais daquele que escolhe o seu
parceiro? As pessoas deveriam saber que não podemos
satisfazer plenamente todas as necessidades. Mas de
algum modo, todos estão procurando esta outra metade
que possa preencher o seu vazio na existência. Assim que
termina o encanto, o feitiço, as pessoas desaparecem
frustradas, e depois deste triste cenário inicia-se o
processo de separação, e no final das contas existem as
recordações desta relação.
O único recurso para abafar ou esconder este
fracasso no amor e sedar a consciência, utilizar os
recursos químicos para produzir uma alegria superficial.
281
Quando se perde um grande amor, nada mais interessa, o
mundo fica preto e branco, não sente mais o perfume, a
vida não tem mais graça. Não entendia os motivos do
abandono de sua esposa, mas esta era a realidade,
deveria começar do fim e finalizar a sua compreensão a
partir do começo. Precisava de um esforço redobrado
para continuar a viver, tinha que encontrar um novo
sentido para a sua vida.
Talvez mudar de cidade, encontrar novas
pessoas, mudar de profissão, novos ambientes poderiam
ajudá-lo a esquecer o passado e proporcionar novas
experiências do amor. Não sabia como responder as suas
indagações, suas emoções eram como um mar
turbulento, e depois desta tempestade sentia paz, esta
tranquilidade que tanto procurava. Como amar a vida e
relacionar-se com a natureza depois destas vivências de
fracasso e sofrimento.
No outro dia estava diante do seu analista, ao
fitá-lo nos olhos disse que gostaria de falar um pouco
sobre o que gosta de fazer. Naquele dia fazia um calor
insuportável, os carros passavam pela rua e atrapalhavam
a sua concentração. Procurou colocar sua atenção nos
detalhes de como sentia suas emoções, quais eram
mesmo as sensações desagradáveis, e recuperou de sua
memória uma canção de amor. Gostava muito de ouvir
aquela letra da música porque dizia-lhe muito a respeito,
esta viagem ao seu interior lhe trazia recordações
magníficas de um passado que dava saudade.
Deitou a sua cabeça para trás, e deixou-se
envolver por aquelas canções, quando percebeu estava
282
sendo acordado, sentiu um arrepio, e perguntou-se: “Fui
eu quem a deixou, ou foi ela quem me deixou?” A
imagem daquele passado era magnífica, as memórias
conseguiam reproduzir com uma fidelidade
impressionante as cenas de amor que vivera no passado.
Aquela experiência de amor era algo bonito,
excitante, de uma rara beleza, uma experiência única e
especial, pelo menos podia transportar-se para este
passado e viver novamente aquelas cenas que lhe
proporcionavam prazer e realização. Recordava de
quando era jovem e ficava horas e horas envolvido nestas
fantasias de amor, e sentia-se muito frustrado quando
saia desta experiência.
Porque naquelas suas fantasias de adolescente
conseguia ser o ator principal desta história, tinha o
poder de escolher a garota mais interessante, estava
sempre bem vestido, conversava com desenvoltura,
naquele mundo de imagens não existia abandono e
frustração.
Quando acordava deste sono profundo de
fantasia, percebia que a realidade existencial era
totalmente diferente, sentia-se impotente e fragilizado
para absorver os impactos destas relações amorosas.
Sabia e tinha consciência desta sua fuga, mas este
devaneio, delírio, alucinação, devolvia-lhe a motivação
para continuar a viver, e naquele estado conseguia
atender as demandas de suas necessidades. Mas ao
mesmo tempo, percebia que o seu corpo reclamava de
amor, aquelas fantasias eram a ponte entre o seu
imaginário e a realidade do mundo dos afetos.
283
Quando estava em casa se envolvia nos projetos
de seu trabalho, e convivia com algumas mulheres
interessantes, mas nenhuma delas lhe chamava a
atenção, estava vivendo um luto, a perda do seu grande
amor, nada conseguia preencher este vazio. Estava
sozinho e precisava escutar, ouvir os pedidos do seu
coração, seu espírito exigia novas amizades, seu corpo
reclamava afeto, mas mesmo assim, decidiu refugiar-se
na sua solidão. Estava triste e desanimado, era uma
espécie de depressão, estava cansado demais para iniciar
um novo relacionamento.
Quando chegava a noite, os fantasmas de suas
neuroses começavam a circular pelas habitações do seu
quarto, agora não tinha mais companhia para tomar
cerveja, assistir um filme, ir jantar ou mesmo viajar. Esta
era a dura realidade de sua história, esta solidão quase o
enlouquecia, sentia no peito uma dor insuportável, sabia
que não tinha ninguém para compartilhar as suas dores.
Agora precisava tomar uma pílula para adormecer a sua
mente, fazê-la parar de pensar, e dopado conseguia ao
menos dormir.
Agora se perguntava como poderia amar a vida,
se a solidão era sua companheira. Como viver esta
experiência de amor se esta emoção escorregava pelas
suas mãos, estava desacreditado, decepcionado,
esgotado, pois não acreditava mais na possibilidade de
viver a experiência de amor. Quando surgia a imagem
daquela mulher que amava suas palavras de carinho e
elogios calavam fundo na sua psique. Quando estava na
sua companhia sentia-se revigorado, entusiasmado,
284
fortalecido, competente e capaz de saborear a sua vida.
Agora experimentava esta emoção de tristeza, não tinha
ideia do quanto a amava, porque ninguém lhe disse isto
antes, agora comprovava a importância de sua presença.
Esta era a grande verdade, sua timidez, estas
emoções estavam corrompidas e intoxicadas pelo seu
medo de amar. Estava consciente de que fugia ao
encontro desta dor, por isto mesmo amava a distância e
procurava esconder o seu verdadeiro amor, viveu este
amor superficialmente, distante e no seu silêncio não
conseguiu entender a profundidade dos seus medos.
Talvez esta solidão seja o resultado da negação
do amor, um amor que foi sufocado pelos seus “medos”,
percebia que esta emoção estava em todos os lugares,
sentia que a “emoção” lhe acompanhava, era como um
ser estranho que acabava dominando os seus interesses.
O respeito, a honestidade, a sinceridade, não
conseguiu dar conta desta sua fobia, esta inibição foi
mais forte, conseguiu prevalecer a sua crença, não estava
disposto a encontrar-se novamente com este abandono.
Sua ferida estava aberta, precisa urgente de um curativo,
estava disposto a cuidar, mas nunca curá-la, agora sua
presença fazia parte de um pacto entre o seu medo de
amar e os sofrimento e seus abandonos. Indiretamente
sabia que possuía esta capacidade de conquistar, seduzir,
e depois de um tempo de intimidade, começava a
afastar-se e viver de acordo com a sua solidão.
Então, se perguntava se existiria uma satisfação
em fazer as mulheres sofrerem, qual era mesmo o
objetivo de suas conquistas amorosas, porque todos os
285
seus relacionamentos sempre terminavam em decepção
e raiva, brigas, desentendimentos. Estava vivendo de
modo indireto o amor na dor. Era possível experimentar
o amor através do prazer de sofrer, então, era um sado
masoquista, estava perplexo e muito confuso com estas
deduções. O fato era de que alguma verdade pairava
sobre sua constatação, porque afinal de contas estava
sempre conquistando novos amores para no final
terminar em dor e sofrimento.
Estes pensamentos faziam parte de suas
reflexões, não estava disposto a desistir de viver a
experiência de amor, parecia um coito interrompido,
existia o início, meio, mas nunca tinha um fim feliz.
Depois destas suas relações experimentava a melancolia,
a tristeza, e vivia nesta contradição, por um lado existia
este desejo insaciável de encontrar o seu verdadeiro
amor, por outro lado esta potência desaparecia quando
começavam as brigas e desentendimentos.
Depois de um longo tempo de existência, aquela
imagem se tornara eterna, alguns instantes pareciam
uma eternidade, podia viajar com sua fantasia para
lugares onde ninguém jamais pensou estar. Sentia que
aquela simples imagem tinha o poder de transportá-lo
para o túnel do tempo, era preciso controlar o fluxo
destas imagens, pois tinha medo de perder-se
totalmente, e jamais voltar a encontrar-se consigo
mesmo. Ele compreendia em parte que estas
recordações tinham a força magnética capaz de atraí-lo
para realidades muitos diferentes daquela que vivia.

286
Como estava dependente destas imagens não
podia abandoná-las, sabia que estas recordações traziam
consigo raiva, ódio, saudade, amor, carência, estava
quase que possuído por este estado melancólico que
despertava dentro de si este desejo de continuar
errando. Sua vida era uma tragédia e ao mesmo tempo
precisa sair deste estado de melancolia e pessimismo.
Recordava desde os seus tempos de criança das músicas,
gostava muito de conviver com as canções, porque
provocam e transmitiam emoções com profundos
significados.
Sentia esta atração pelas músicas do passado, ao
escutá-las surgiam na sua mente as recordações das
pessoas amigas, eram muitas as temáticas que tratavam,
como por exemplo, caminho, paisagem, distância,
saudade, amor. Estes sons despertavam no seu cérebro
uma sensação muito prazerosa que levava seu espírito
errante a pensar nestas palavras. Vou citar algumas delas:
“Estou muito perto do fogo, vejo um grupo de pessoas
que viajam, existiam comentários de que a salvação é
possível, quais são os teus segredos, gostariam de voltar
para casa, quero nadar ao lado de uma baleia”.
Gostava muito de recordar-se destas frases e de
outros nomes que diziam respeito à natureza, esta lista
de palavras eram enormes, transcrevia cada uma delas
em seus cadernos. Como passava muito tempo em seu
quarto a sua mãe percebia que existia algo de diferente
em seu caráter, havia comentários de que não conseguiu
falar até os quatro anos, mas não sabe como tudo isto
aconteceu, que de um momento para outro começou a
287
ler e escrever, e aos cinco anos era um dos melhores da
escola.
Os professores viviam angustiados e este seu
silêncio incomodava e frustrava os seus colegas, preferia
o silêncio, não gostava de falar. Os pais e seus
professores insistiam de que o estudo era importante
para ser feliz e realizar-se, que podia conseguir tudo
aquilo que desejava desde que se adaptasse às normas e
exigências do colégio, deveria ser obediente e fazer as
vontades dos seus mestres.
Escutava com atenção, mas seus pensamentos
estavam distantes, não tinha nenhum sentido os
problemas de matemática, de física e química. Gostava
do mundo de suas fantasias, conhecer lugares distantes,
ler seus romances, infelizmente ou felizmente a avaliação
de suas notas eram péssimas.
Como sua mãe foi chamada na escola conversou
com vários professores de disciplinas diferentes, e todos
diziam que este garoto adolescente vivia num mundo
diferente, seu silêncio dizia que não precisava das
exigências desta realidade. Sua mãe chegou em casa e
chamou-lhe para uma conversa: “Meu filho eu e teu pai
te amamos, mas às vezes chego a pensar que você
nasceu em outra família, porque tuas atitudes não têm
nada parecido com a nossa maneira de viver e ser”.
“Os professore afirmam que vives no teu próprio
mundo, não conversas com ninguém, gostas de curtir o
silêncio, estás sempre sozinho, agora eu peço como uma
mãe que te ama muito, por favor, aumenta teu interesse

288
pelas tarefas da escola, eu me coloco a disposição para
ajudá-lo nas tuas dificuldades”.
Mas às vezes fugia da sala de aula e refugiava-se
na biblioteca e começava a ler seus romances de
aventuras amorosas, e passava todo tempo a imaginar
aquelas cenas de amor. Quando voltava da escola,
gostava de caminhar perto de um rio, e observava com
atenção as pessoas caminhando, o barulho das águas, e
não gostava do barulho das fábricas e muito menos dos
automóveis. Nos finais de semana nadava neste rio,
adorava pescar e escutar os sons da correnteza do rio.
Ficava em silêncio e não falava nenhuma palavra, mas
pensava que deveria haver neste local, espíritos, magos,
fadas; estava convicto de que eles estavam naquela
floresta.
Como sua família era muito pobre, não tinha
dinheiro para pagar a universidade, e não sentia nenhum
desejo de frequentá-la, estudar e fazer as tarefas, sempre
foi muito dificil e cheio de dificuldades. Seu pai
trabalhava numa oficina mecânica, era uma pessoa
pacata, percebia que gostava muito de sua mãe, mas
quem tinha sempre que alimentar o cachorro era sempre
ele.
Quando estava com dezoito anos morreu seu
pai, e como não tinha outra qualificação profissional
alistou-se no exército, foi a maneira que encontrou para
ajudar a manter as despesas de sua casa. Esta sua decisão
não tinha nada a ver com vocação, procurou uma
profissão para sobreviver.

289
Sua mãe tinha cabelo preto, seus olhos
transmitiam alegria e satisfação, estava feliz pelo filho ter
se alistado no exército. Agora que estava viúva precisa
organizar e pensar na sua sobrevivência e de seu filho,
esta dura realidade chegava a sua consciência, tinha um
dever de mãe para educar o seu filho. A existência não
proporcionou muitas opções, morava numa casa simples,
tinha um filho e não tinha uma profissão, a única opção
era se dedicar de corpo e alma no cuidado de seu filho e
esperar que algo de bom acontecesse na sua vida.
Quando observava seu filho de uniforme militar
sentado à mesa tomando café, começava a pensar sobre
todas as exigências, cobranças, obediência. Estava
disposta a sacrificar sua vida para defender a sua pátria,
ao mesmo tempo pensava na classe de políticos, será
mesmo que valia a pena dedicar toda uma vida para
cumprir ordens e rotinas. Olhou com seriedade para o
seu filho, e perguntou: “Você percebe o que está fazendo
com a sua vida? Esta renunciando a sua liberdade para
obedecer a ordens entregando a sua vida, caso exista
algum tipo de guerra?” Respondeu: “Eu não tenho outra
opção, a não ser fazer este sacrifício para poder
sobreviver”.
Depois de chegar em casa, a mãe recordou-se
daqueles dias que o levava ao colégio, era um garoto
bonito, um ótimo jogador de futebol, as garotas estavam
sempre a sua volta. Sempre que saia a fazer compras, a
sua companhia era indispensável, porque adorava vestir-
se bem, era vaidoso. Quando as cartas chegavam, ficava
com os olhos cheios de lágrimas, porque não suportava
290
mais a sua solidão, este era o seu único filho, sabia que
lhe restava pouco tempo de vida, não existia mais nada
há fazer.
Numa outra parte do estado, encontrava-se uma
jovem que se apaixona por um homem e se casou muito
cedo. Teve dois filhos, uma menina e uma garoto, ambos
trabalhavam na agricultura, esta mulher aprendeu a
cuidar dos serviços da casa, e quando sobrava tempo
ajudava seu esposo nas lidas com a agricultura.
Estava envolvida na educação destes dois filhos e
na limpeza de casa, nas horas de folga gostava de ler
romances, jornais e revistas. Tinha um caráter silencioso,
não gostava muito de falar, porque a maior parte do
tempo estava sozinha, os filhos na escola, o marido
estava envolvido no plantio de milho.
Depois de arrumar a casa, estava cansada, abriu a
janela do seu quarto e observou as nuvens carregadas de
chuva, não demorou muito e começou a chuviscar, estava
anoitecendo, abriu a porta do armário e serviu um copo
de vinho, os moveis estavam limpos, um lustre servia-lhe
como espelho para apreciar as suas reflexões. Sentou-se
numa cadeira confortável que tinha pertencido aos pais
do seu esposo, e começou a pensar no seu grande amor
da adolescência, era um jovem pintor, amante da arte,
mas infelizmente teve a desaprovação de seus pais, eram
pessoas conservadoras e tradicionais.
Era uma mulher de cabelos negros, tinha um
caráter determinado, mas era muito tímida, e tinha muito
medo do seu pai. Talvez por isto tenha terminado com o
seu grande amor da adolescência, e depois disto
291
percebeu que o amor é uma grande conquista, estes
homens não caem do céu, não aparecem de repente
como num passe de mágica, ninguém aparecia para
resgatá-la desta sua solidão. Dava-se conta de que esta
dura realidade não lhe dava muitas opções na sua vida,
pelo menos seu marido atual oferecia uma condição de
vida estável.
Assim que não teve outra opção, a não ser casar-
se com seu esposo atual, era um homem dedicado,
trabalhador, honesto, e decidiu constituir uma família.
Quando percebeu os anos passaram como um passe de
mágica, estava comprando um belo vestido para a sua
filha, aquele era o dia de sua formatura. Pensava, seus
pais estavam mortos, tinha uma única irmã que se
correspondia através de uma carta, esta era a sua
realidade, estava vivendo nesta cidade do interior e agora
restavam somente estas pessoas em sua vida.
O dia esta terminando, o sol desapareceu,
começou a anoitecer, estava escuro, saiu do seu quarto e
desceu as escadas para procurar na cozinha um copo,
estava com vontade de tomar um copo de cerveja. Tudo
naquela casa tinha pertencido aos pais do seu marido,
sentia-se desconfortável com aqueles moveis, era como
estar numa casa de estranhos. Sentou-se a mesa, e
tomou aos poucos aquela cerveja, sentiu um enorme
prazer, abriu a gaveta do armário e retirou seu diário e
começou a escrever um pouco sobre a sua vida.
Tarde da noite começaram a chegar os seus filhos
e por último o seu esposo que tinha participado da festa
de aniversário do seu vizinho, agora subia as escadas para
292
descansar, este era o ritual de todos os dias, fechava as
portas e janelas da casa, e acendia as luzes, depois disto,
sentia-se com o dever cumprido, deitava ao lado do seu
grande amigo e companheiro e dizia boa noite. Não
existia nada mais a fazer, não podia reclamar de muita
coisa, tinha uma bela casa, dois filhos que estavam
deixando para fazer a sua vida e um marido trabalhador.
Mas naquela noite o sono não aparecia, levantou-se
tomou um tranquilizante para adormecer as suas
preocupações, mas mesmo assim, seus olhos insistiam
em manter abertos.
Sentou-se perto de sua cômoda, olhou-se no
espelho, com um ar de satisfação enxugou as suas
lagrimas, entendeu que não existe uma realização
perfeita na existência, estava feliz, e agradeceu aquela
família que fazia parte de sua vida. Observava com um
olhar de sabedoria as conquistas que realizou e tinha
plena consciência de que o futuro lhe aguardava com
ótimas surpresas, enfim, aprendeu a confiar na paciência,
sabedoria e tranquilidade para saber fazer as escolhas
acertadas.

293
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