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ANEXO 1

GRANDEZAS ELÉCTRICAS QUE CARACTERIZAM UMA TOMADA DE TERRA

A geometria complicada dos eléctrodos de terra e a heterogeneidade dos terrenos dificultam


o estabelecimento de um modelo cujo tratamento analítico possa ser simples e rigoroso.
Assim sendo é comum iniciar o estudo das resistências de terra considerando o caso dum
eléctrodo hemisférico (ou esférico) que nas instalações reais não existe por nada justificar a
sua dispendiosa construção.

Contudo, o tratamento analítico deste eléctrodo é particularmente simples e as conclusões


que se obtêm dão uma orientação inteiramente válida quanto ao que deve ser a boa prática
construtiva.
Além disso, quando o eléctrodo real puder ser tratado como uma fonte de corrente pontual,
isto é, quando a distância a que se considera o efeito do eléctrodo é grande quando
comparada com as suas dimensões, o modelo permite obter resultados numéricos válidos.

Considere-se então um eléctrodo hemisférico mergulhado num terreno homogéneo em que


o plano diametral da semi-esfera está coincidente com a superfície do terreno. Se for “I” (A)
a corrente total de descarga através do eléctrodo, devido à homogeneidade do terreno e à
configuração do eléctrodo, as linhas de corrente escoam-se radialmente em todas as
direcções, conforme se indica na figura seguinte:

Considerando que:

r – raio do eléctrodo hemisférico (m)


x – distância entre o centro do eléctrodo e um ponto exterior (m)
ρ - resistividade do terreno (Ω m)
I – corrente escoada através do eléctrodo (A)
Sendo 2πx2 a área duma semi-esfera de raio “x” a densidade de corrente “δx” no ponto “x”
sobre uma superfície equipotencial é dada por:

I
δx = (A / m2 )
2πx 2

Esta grandeza está também relacionada com o campo eléctrico “Ex” (V/m), perpendicular à
superfície equipotencial considerada, pela Lei de Hom, ou seja:

Ex
δx = ( V / m)
ρ

Igualando as duas expressões podemos exprimir o valor do campo eléctrico como sendo:

Ex I 1 ρI
= ou ainda que: E x =
ρ 2πx 2 2π x 2

Tendo em conta que a expressão local da lei de Ohm relaciona vectorialmente, a densidade
de corrente “δ” com o campo eléctrico “E”; E = ρ*δ, e que este está relacionado com a
tensão que aparece no terreno a uma distância “x” (qualquer) do eléctrodo e o infinito
(potencial nulo) sobre a superfície do terreno, pela função gradiente:

dU
E = −grad U = −
dx

podemos determinar a tensão Ux ao longo da superfície do terreno através da integração de


dU, desde “x” até ao infinito, obtendo-se a tensão induzida em “x” (Ux), ou seja:


ρ *I ρ*I

U x = E x dx =
x
2πx
= 0,16
x

constatando-se portanto que a tensão Ux é inversamente proporcional à distância do


eléctrodo e independente do raio deste.
A tensão “U0” a que o escoamento para o terreno da corrente “I” conduz todo o eléctrodo é
dada por:

ρ*I ρ *I
U0 = = 0,16 e designa-se por: Tensão de Defeito
2πr r

A resistência que se opõe ao escoamento da corrente “I” desde a superfície do eléctrodo até
ao infinito é portanto:

U0 ρ ρ
Rr = = = 0,16
I 2π x x

Uma fracção r/x desta resistência corresponde ao escoamento de corrente para além da
distância “x” e uma fracção (1-r)/x ao escoamento entre o eléctrodo e a distância “x”.
Particularizando, diremos que metade da tensão total é consumida entre a superfície do
eléctrodo e uma circunferência de raio duplo. Os potenciais do terreno, ao absorverem a
corrente de fuga do eléctrodo, variam segundo uma distribuição hiperbólica dada por: Ux*x
= 0,16 ρ*I = constante e assim, para uma dada corrente de terra “I”, as hipérboles têm por
parâmetro a resistividade “ρ” do terreno.

Daqui depreende-se que a resistência de terra é tanto menor quanto maior for o raio “r” do
eléctrodo e menor for a resistividade “ρ” do terreno.
Por outro lado a condutividade do terreno depende essencialmente da sua taxa de humidade
de tal modo que a uma profundidade de um metro a variação de resistividade entre o
inverno húmido e o verão seco pode ser da ordem de 1 para 4.
Assim, para baixar a resistência de um eléctrodo é comum usar-se sais higroscópicos e
carvão de madeira pulverizada na vizinhança próxima do eléctrodo.

Tensão de Passo

Decorrente do escoamento de cargas eléctricas para o solo através de uma corrente de


descarga “I”, pode definir-se o aparecimento de uma tensão ΔUp entre dois pontos da
superfície do solo distanciados do comprimento de um passo “p” considerado como tendo
0,8m.
Se o passo for dado entre o ponto à distância “x” do eléctrodo e o ponto à distância “x+p”, a
diferença de potencial entre estes dois pontos será dada pela expressão da tensão de defeito
substituindo “r” por “x”:

ρI ⎛ 1 1 ⎞ ρI p
ΔUp = ⎜⎜ − ⎟⎟ = * 2
2π ⎝ x x + p ⎠ 2π x + xp

Se a distância de passo é considerada com origem no eléctrodo, estamos na pior situação


em que a tensão de passo toma o seu valor máximo:

ρI p
ΔUp max = * 2
2π r + rp

se o passo for dado longe do eléctrodo onde x>p e consequentemente x2>>xp, então a
expressão anterior poderá ser simplificada para:

ρI p
ΔU = *
2π x 2
expressão esta, que permite avaliar qual a zona de segurança na vizinhança de eléctrodos de
terra desde que suja fixada uma tensão de passo, máxima admissível, que permita a
determinação da distância “x” de segurança em relação à localização do eléctrodo.

ρI p
x≤ *
2π U s p

Para concretizar, consideremos, como já foi referido, que o passo humano tem 0,8 m e que
a tensão de segurança é Us = 50V, resolvendo a expressão vem:

x ≤ 0,05 ρI

Todavia esta situação só apresenta alguma gravidade para as pessoas e particularmente


para o caso de grandes quadrúpedes, (em que “p” é consideravelmente maior do que o
passo humano) podendo haver perigo real de electrocussão quando as pessoas ou os
animais estejam junto aos eléctrodos de terra, durante a ocorrência de descargas de origem
atmosférica.