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JOHN BRADSHAW

CURANDO
A VERGONHA
QUE IMPEDE
_ DEVIVER
JOHN BRADSHAW

CURANDO
AVERGONHA
QUE IMPEDE
DEVIVER
Tradução de
CLAUDIA GERPE DUARTE
DEDI CATÓ RIA

CIP-Brasil. Catàlogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Bradshaw. John, J933-


Dedico este livro à minha esposa, Nancy, mulher
B79c Curando a vergonha que impede de viver/ John
Bradsbaw; tradução de Claudia Gerpe Duarte. - Rio
maravilhosa, que. cura minha vergonha tóxica amando-me
de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997. incondicionalmente.
Tradução de: Healing the shame that binds you Aos meus amigos de muito tempo (que costumavam ser meus
Inclui bibliografia
ISBN 85-0 l -04802·X filhos) Brad, Brenda e John. Perdoem-me pelas vezes em que
1. Culpa. 2. Psicoterapia. 1. Título. transferi minha vergonha para vocês.
c o o - 616.8522 Ao meu pai, Jack A vergonha tóxica tirou sua vida e nos
97-1474 CDU - 616.891
privou de seu convívio.

Título original norte-americano


HEALING THE SHAME THAT BINOS VOU

Copyright O 1988 by John Bradshaw

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil


adquiridos pela
EDITORA ROSA DOS TEMPOS
Um selo da
DISTRJBUJDORA RECORO DE SERVIÇOS DE rMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tcl.: S85-2000
que se reserva a propriedade Jiterâria desta tradução
Impresso no Brasil

ISBN 85-01-04802-X

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL


Caixa Postal 21.052
Rio de Janeiro, RJ - 20922-970
AGRADECIMENTOS

Quero agradecer a Gershan Kaufinan pelo trabalho inovador so-


bre a vergonha. Baseei-me fundamentalmente em seu livro SHAJ\-1E
para dar nome ao demônio que chamo de vergonha tóxica. Eu não
poderia ter escrito este livro sem seu esforço pioneiro.
Também sou grato ao escritor anônimo da publicação da Hazeldon,
denominada SHANJE, que muito me ajudou a compreender a vergo-
nha saudável, como aquela que indica nossa limitação humana fim-
damental, bem como a polaridade mais do que humana/menos do que
humana da vergonha tóxica.
Várias outras pessoas desempenharam um importante papel no
meu entendimento da dinâmica da vergonha. Estou falando de She1don
Kopp, Marilyn Mason, Merl Fossum e Teny KeUogg.
Kip Ftock, meu amigo e colega terapeuta de treinamento em Los
Angeles, ajudou-me muito a desenvolver os conceitos deste livro. Kip
e eu passamos inúmeras horas discutindo e esclarecendo o conceito
de vergonha.
Desejo agradecer a meus colegas do Center for Recovering
Faini Iies, em Houston (especialmente a Mary Bell), por seu constan-
te apoio.
Sou grato a John Daugherty, a George Pletcher e ao Rev. Mike
Falls, meus melhores amigos, por compartilharem comigo a dor e a
vulnerabilidade deles próprios. Esta aceitação destituída de vergonha
me permitiu dividir com eles minha vergonha tóxica. Juntos, diminu-
ímos o poder da vergonha tóxica em nossas vidas.
Sou grato aos meus editores, Peter Vegso e Gary Seidler por sua
contínua dedicação e apoio total ao meu trabalho. Agradeço a Marie
8 John Bradshaw

Stilkind por seu esmero na editoração do livro e por me incentivar a


confiar no meu estilo pessoal, bem como à equipe de produção da
Health Communications.
Minha agente publicitária, Diane Glynn, e sua talentosa assisten-
te, Jodee Bianca, foram bem além das suas obrigações para promo-
ver meu trabalho. SUMÁRIO
Este livro não teria sido escrito sem a incrível paciência de Barbara
Evans, que cuidadosamente datilografou inúmeras vezes meu origi-
nal (nas horas mais incríveis do dia e da noite). A compreensão que
Barbara tinha do material fizeram dela, param im, muito mais do que
uma datilógrafa. Prefácio 11
E antes que eu esqueça (o que faço com freqüência) minha mais
profunda gratidão está voltada para meu Poder Superior, cuja Graça
me salvou da minha vergonha tóxica. PARTEI-OPROBLEMA 15

1 As Múltiplas Faces da Vergonha 17


2 As Origens da Vergonha Tóxica 48
3 Os Lugares Onde se Esconde a Vergonha Tóxica 113

PARTE I I - A SOLUÇÃO 173

Introdução: O Processo de Externalização 175


Uma Parábola: O Prisioneiro na Caverna Escura 178
4 Deixando de se Esconder e Saindo do Isolamento 180
5 12 Passos Para Transformar a Vergonha Tóxica em
Vergonha Saudável 187
6 Libertando a Criança Interior Perdida 197
7 Integrando as Partes Rejeitadas 211
8 Amando a Si Mesmo 230
9 Curando as Memórias e Modificando a Auto-Imagem 243
1O Enfrentando e Modificando as Vozes Interiores 264
11 Lidando com a Vergonha Tóxica nos Relacionamentos 293
12 O Despertar Espiritu al 314

Epílogo 339
Apêndice 341
Bibliografia 345
PREFÁCIO

"E eles não tinham vergonha."


Génesis

Há dez anos passei por uma dessas descobertas que abalam a vida e
que mudou significativamente tudo para mim. Dei nome ao principal
demônio da minha vida. Eu o chamei de ''vergonha". Ao dar-lhe este
nome, tornei-me consciente do intenso poder de destruição que a
vergonha exerceu na minha vida. Descobri que eu sempre fora seu
escravo. Ela me dominava como um vício. Eu a manifestava; eu a
encobria de maneiras sutis e de outras não tão sutis; eu a transferia
para minha família, meus clientes e meus alunos.
A vergonha era o demônio inconsciente que eu nunca reconhe-
cera. Ao me tornar consciente da sua dinâmica, passei a perceber que
eJa é uma das forças mais destrutivas da vida humana. Ao dar nome
à vergonha comecei a ter poder sobre ela.
A vergonha em si não é má.É uma emoção humana nonnal. Com
efeito, para a pessoa ser verdadeiramente humana, ela precisa ter o
sentimento da vergônha. Ela nos fala e mantém dentro dos nossos
\
limites humanos, fazendo com que saibamos que podemos cometer,
e efetivamente cometeremos, erros e que precisamos de ajuda. Nos
faz ver que não somos Deus. A vergonha saudável é a base psicoló-
gica da humildade. É a fonte da espiritualidade.
Descobri que a vergonha como emoção humana saudável pode
se transformar na vergonha como maneira de ser. E assim, assumir
12 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 13

o controle de toda a nossa identidade. Ter a vergonha como identi- humana (o pecado original) é o desejo de sermos diferentes do que
dade significa acreditar que nosso ser é imperfeito, que somos defei- soJUOS ... de sermos mais do que humanos. Em sua vergonha tóxica (o
tuosos como seres humanos. Quando a vergonha se transforma em orgulho), Adão desejava um falso eu. E isto, provocou sua destrui-
identidade, ela se toma tóxica e desumanizadora. ção.
A vergonha tóxica é insuportável e sempre necessita de um dis- Depois de Adão alienar seu verdadeiro ser, ele se escondeu. "E o
farce, de um falso eu. Como sentimos que nosso verdadeiro eu é de- Senhor chamou Adão ... onde estás?" E Adão respondeu: "Ouvi Tua
feituoso e imperfeito, precisamos de um falso eu que não seja assim. voz no jardim e me escondi" (Gênesis, 3 :9-1 O). Antes da qued tan-
Quando nos tornamos um falso eu, deixamos de existir psicologica- to o homem quanto a mulher estavam nus e "não tinham vergonha"
mente. O processo de formação do falso eu é o que Alice Miller cha- (Gênesis, 2:25). Quando escolheram ser diferentes do que eram, fi-
ma de "assassinato da alma". Como um falso eu, tentamos ser mais caram nus e envergonhados.
do que humanos ou menos do que humanos. A vergonha tóxica é a A nudez simbolizava o eu vei:-dadeiro e autêntico deles. Eles eram
forma mais intensa de violência doméstica adquirida que existe. Ela quem eram e se sentiam bem dessa maneira. Não havia nada a ocul-
destrói a vida humana e é a essência de quase todas as formas de tar. Podiam ser perfeita e rigorosamente sinceros.
doenças emocionais. Gershen Kaufman escreve o seguinte: Esta descrição simbólica e metafórica de Adão e Eva é uma des-
crição da condição humana. O amor e a aceitação incondicionais do
"A vergonha é o sentimento que dá origem a muitos estados in- eu parecem ser a tarefa mais difícil para toda a humanidade. Recu-
teriores complexos e perturbadores: a depressão, a alienação, a sando-nos a aceitar nosso "verdadeiro eü", tentamos criar um falso
insegurança, a solidão, os fenômenos paranóicos e esquizóides, eu mais poderoso, ou desistir e nos tornarmos menos do que huma-
os distúrbios compulsivos, a fragmentação do eu, o perfec- nos. Isso dá origem a uma vida inteira de disfarce e segredo que são
cionismo, uma sensação profunda de inferioridade, a inade- a causa fundamental do sofrimento para todos nós.
quação ou o fracasso, as chamadas condições; limítrofes e dis- Amar e aceitar completamente a nós mesmos é a única base para
túrbios do narcisismo." sermos felizes e termos o amor de outras pessoas. Sem esse amor e
Shame aceitação completos, estamos condenados à debilitante tarefa de criar
\Jm falso eu. Este pode ser o si g n ificado simbólico da declaração lJíbli-
A vergonha tóxica destrói de tal maneira a função do nosso eu ca de que, após a queda, tanto o homem quanto a mulher iriam sofrer
autêntico que síndromes de vergonha se desenvolvem a partir dos em suas atividades naturais: a mulher no parto e o homem no trabalho.
disfarces do falso eu. Cada síndrome possui seu padrão característi- Como curar essa vergonha que nos escraviza? Onde repousa nossa
co particular. Ela se torna a essência da neurose, dos distúrbios de esperança? Este é o tema central deste livro. Gostaria de comparti-
caráter, da violência política, das guerras e da criminalidade. De to- lhar com você nas páginas que se seguem minha jornada pessoal na
das as.coisas que conheço, é a que mais de perto define a escravidão cura da vergonha. Essa jornada foi a questão mais importante da mi-
humana. nha vida. A vergonha tóxica encontra-se em toda parte. Ela é astuta,
A Bíblia descreve a vergonha como a essência e a conseqüênciá poderosa e desconcertante. Seu poder repousa na sua mali g n idade e
da queda de Adão. Em hebraico, Adão equivale à espécie humana; dissimulação.
simboliza todos os seres humanos. A Bíblia sugere que Adão não Na Parte I, tentarei tirar a vergonha de seu esconderijo, exami-
estava satisfeito com seu ser. Ele queria ser mais do que era; mais do nando suas múltiplas facetas e expondo suas origens e principais dis-
que humano. Ele deixou de aceitar suas limitações essenciais; perdeu farces. Mostrarei como a vergonha cria a impotência e a falência es-
sua vergonha saudável. A Bíblia sugere que a origem da escravidão piritual.
14 John Bradshaw

A Parte II oferece todas as maneiras que conheço de reduzir a


vergonha tóxica e de transformá-la, novamente, em vergonha saudá-
vel. Minha mais sincera esperança é que cada leitor, que esteja domina-
do pela vergonha tóxica, utilize este livro para se libertar desse amea-
çador inimigo.
PARTE I

O PROBLEMA
CAPÍTULO

1
As Múltiplas Faces
da Vergonha

Em virtude de suas origens pré-verbais, é difícil definir a vergonha.


Trata-se de um saudável poder humano que pode se transfonnar em
uma verdadeira doença da alma. Existem duas formas de vergonha: a
vergonha gratificante e a vergonha tóxica, que destrói a vida. Como
vergonha tóxica, ela é uma experiência dolorosamente interna de ex-
posição inesperada. É uma ferida profunda, sentida interiormente, que
nos separa de nós mesmos e dos outros. Nela, rejeitamos a nós mes-
mos. E essa rejeição exige um disfarce. A vergonha tóxica desfila em
muitos trajes e estilos diferentes. Ela ama a escuridão e a dissimulação.
Foi o aspecto sombrio da vergonha que escapou ao nosso estudo.
Como a vergonha tóxica permanece oculta e se disfarça, temos
que seguir sua pista aprendendo a reconhecer suas múltiplas faces e
seus inúmeros disfarces de comportamento.

A Vergonha como Uma Emoção


Humana Saudável
Ouvi recentemente uma entrevista com Joe Namath, da Broadway.
Ele falava francamente do seu fracasso em ser aproveitado pela im-
18 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 19

portante rede de emissoras que o havia contratado como A vergonha saudável nos mantém firmes. Ela é uma luz amarela
comentaristata esportivo. Sua voz deixava transparecer seu ue nos avisa de que somos essencialmente limitados. A verKonha
desapontamento. O qume chamou a atenção foi sua abertura e ;audável é a.fronteira metafisica fundamental para os seres huma-
sinceridade. Ele estava e pressando sua vergonha saudável. nos. É a energia emocional que adverte que não somos Deus - que
Parecia totalmente consciente que, apesar de suas inúmeras cometemos e cometeremos erros, que precisamos de ajuda; a que nos
realizações, tinha algumas verdadeir limitações. dá pennissão para sermos humanos.
A vergonha saudável é parte de todo poder pessoal humano. Ela
nos pennite conhecer nossos limites e, desse modo, utilizar nossa
A Vergonha como Permissão para Ser Humano* eneroia com mais eficácia. Nós nos orientamos melhor quando co-
nhec rn os nossos limites. Não nos desgastamos avançando em dire-
Nosso sentimento saudável de vergonha nos faz saber que s ção a metas que não podemos alcançar ou fazendo coisas que não
mos limitados. Ele nos diz que ser humano é ser limitado. Na ver podemos mudar. Ela possibilita que nossa energia seja integrada em
dade, nós, seres humanos, somos fundamentalmente limitados. Ne vez de irradiada.
1 u 1 d e nós ten,1 o poder ter 'um di um poder ilimitado. O pode
'!
1hm1tado que nos e oferecido por mmtos gurus da atualidade é u
esperança falsa. Seus programas, que nos atraem para o poder ili- A Vergonha como Um Estágio de Desenvolvimento
mitado, fizeram com que eles ficassem ricos, não nós. Eles tocam
nosso falso eu e fazem uso da nossa vergonha tóxica. Nós, huma- De acordo com Erik Erikson, a sensação de vergonha faz parte
nos, somos finitos. A limitação é nossa natureza fundamental. O fato do segundo estágio do desenvolvimento psicológico. No primeiro
de nos recusarmos a aceitar nossos limites dá origem a graves pro- estágio, a criança necessita estabelecer um senso de confiança fun-
blemas. damental que precisa ser maior do que a sensação de desconfiança.
A v r onha, saudável é uma emoção que chama a atenção Podemos compreender melhor a vergonha saudável compreendendo
paranossos hm1tes. A semelhança de todas as emoções, ela é uma esse estágio do desenvolvimento psicológico.
energia Precisávamos saber desde o início que podíamos confiar no mun-
em movimento, que nos incentiva a satisfazer nossas necessidades do. Este nos surgiu primeiramente na forma das primeiras pessoas
básicas. que cuidaram de nós. Precisávamos saber que podíamos contar com
Uma dessas necessidades básicas é a estrutura. Garantimos nos- alguém de fora, que estaria presente para nos apoiar de uma maneira
sa estrutura desenvolvendo um sistema de fronteiras, dentro dos quais humana e previsível. Se a pessoa que cuidou de nós era bastante pre-
operamos em segurança. A estrutura confere fonna à nossa vida. As visível, nos tocava e espelhava todos os nossos comportamentos, certa-
f ronteiras e a forma nos oferecem segurança e possibilitam um uso mente desenvolvemos um senso de confiança fundamental. Quando a
mais eficiente da energia. segurança e a confiança estão presentes, começamos a desenvolver um
Existe uma piada antiga a respeito do homem que "montou em vínculo interpessoal, que forma uma ponte de reciprocidade. Essa
seu cavalo e partiu em todas as direções". Sem fronteiras não temos ponte é crucial para o desenvolvimento do sentimento de valor pes-
limites e facilmente ficamos confusos. Seguimos em várias direções soal. A única maneira que uma criança tem de desenvolver o senso
desperdiçando-muita energia. Nós nos perdemos. Ficamos viciados do eu é relacionando-se com outra pessoa. Nós somos "nós", antes
porque não sabemos quando parar; não sabemos dizer não. de sermos "eu".
• Ver SI/AME, Hazeldon, 19&1 Nesse primeiro estágio da vida, só podemos nos conhecer no
20 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 21
que vemos refletido nos olhos daqueles que cuidam de nós. E com
três anos) foi chamado de "os terríveis dois anos", porque as
estes, cada um de nós precisou de uma ponte relacional para cres-
cer. ª
cr ianças começam a fazer suas explorações tocando, provando e
experimentando. As crianças de d01s . anos sao
- termosas.
. El as q e-
rel11 fazer a coisa a sua maneira (tendo sempre a pessoa que cuida
dela à vista) e quando são impedidas de fazer o que querem (pAor
A Ponte Interpessoal
ex·ernplo., a cada três minutos) ficam extremamente zangadas e tem
O relacionamento entre a criança e a pessoa que cuida dela evo- ataques de raiva. Neste estágio, a criança precisa m r posse d s
lui gradualmente a partir do interesse recíproco junto a experiências coisas a fim de experimentá-las através da expenencia premedi-
compartilhadas de confiança. Na verdade, a confiança é alimentada tada.
pelo fato de que passamos a esperar e contar com a reciprocidade de
resposta. À medida que a confiança aumenta, um vínculo emocional As Necessidades da Criança
é formado, penilitindo que a criança se arrisque e se aventure a ex-
plorar o mundo. EJe se torna uma ponte interpessoal entre a criança e O que a criança mais precisa é de que a pessoa que cuida d la
a pessoa que cuida dela. A ponte é a base do crescimento e do enten- seja fome porém compreensiva, e esta pessoa, P?r s a vez, pr c sa
dimento mútuo e se fortalece através de certas experiências, que pas-
que suas necessidades pessoais estejam sendo satisfe1tas pelo c?nJu-
samos a aceitar e das quais dependemos. O outro, a pessoa que cuida ge. Essa pessoa precisa ter resolvido as questões de seus relaciona-
de nós, se torna significativo no sentido de que o seu amor, respeito e
mentos e necessita ter um senso de responsabilidade pessoal. Quando
os seus cuidados são realmente importantes para nós. Nós nos permi-
este é o caso, ela pode estar disponível para a criança e prop orcionar-
timos ser vulneráveis visto que nos permitimos precisar da outra pes- lhe o que precisa.
soa. A criança precisa receber bons exemplos de vergonha saudável
Tendo a confiança fundamental sido estabelecida, a criança está
bem como de outras emoções. Ela necessita do tempo e da atenção
na posição de desenvolver a vergonha. Esta pode ser saudável ou tó-
da pessoa que cuida dela. Acima de tudo, precisa de fronteiras ade-
xica.
quadas. A pessoa que cuida da criança precisa estar disponível para
estabelecer limites. O controle externo necessita ser firme e tran-
O Desenvolvimento da Vergonha Saudável qüilizador. A criança precisa saber que a ponte interpessoal não será
destruída por seu novo anseio de fazer as coisas a sua maneira -
esse novo ímpeto em direção à autonomia. Erikson escreve o se-
Com mais ou menos 15 meses, a criança começa a desenvolver a
guinte:
musculatura. Ela precisa estabelecer um equilíbrio entre "segurar e
soltar". O primeiro desenvolvimento muscular se concentra em obter
" A firmeza precisa protegê-la da possível anarquia do seu ain-
o equiHbrio, quando a criança está em pé e andando. Isto estimula o da não treinado senso de discernimento, da sua inabilidade de
desejo de perambular e explorar, e para fazer isto, a criança precisa segurar e soltar com critério."
se separar das pessoas que cuidam dela.
Childhood And Society
Com efeito, Erikson afirma que a tarefa psicológica desse es-
tágio de desenvolvimento é alcançar o equilíbrio entre a autono-
mia, a vergonha e a dúvida. Esse estágio (de um ano e três meses Se uma criança pode ser protegida por limites firmes, porém
compassivos; se ela pode explorar, experimentar e ter acessos de rai-
22 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 23

va sem que a pessoa que cuida dela retire seu amor, isto é, recolha Helen Lynd escreve o seguinte:
ponte interpessoal, então a criança pode desenvolver um senso sa
dável de vergonha, que pode surgir como um momento de embara "Nosso sentimento é involuntariamente exposto; ficamos des-
por causa de uma falha humana normal ou como timidez e acanha cobertos."
menta na presença de desconhecidos. Este senso de vergonha é cruci On Shame And The Search For ldentity
e necessário como equilíbrio e limite para à recém-descoberta aut
nomia da criança. A vergonha saudável nos adverte que não somo o rubor é a manifestação dos nossos limites humanos. A capaci-
onipotentes. dade de enrubescer é a metáfora da nossa qualidade humana essen-
Lembro-me de certa vez ter começado uma palestra sobre " cialmente limitada. O enrubescimento se faz acompanhar do impulso
esferas mais remotas da natureza humana". Quando comecei a m de "cobrir o rosto", "enterrar o rosto", "salvar as aparências" ou "se
aproximar do palco, alguém delicadamente me avisou que minha br a enfiar no chão". Quando enrubescemos, sabemos que cometemos um
guilha estava aberta. Meu rubor e momentâneo embaraço foi avo erro. Por que teríamos essa capacidade, se os erros não fizessem par-
da minha vergonha saudável, dizendo-me para não me empolgar de te da nossa natureza fundamental? O rubor como uma manifestação
mais. do sentimento saudável da vergonha nos mantém finnes. Ele nos faz
Pascal afirmou certa vez: "Aquele que quer ser um anjo precis lembrar os nossos limites humanos essenciais. É um sinal para que
se tornar um animal.,, •• Tomás de Aquino disse que o homem é um não nos deixemos empolgar pela nossa excelência.
ser espiritual que para ser verdadeiramente espiritual precisa de um
corpo. Esta afirmação é semelhante à declaração de George San-
tayana: "É necessário nos tornarm os um animal para que um dia nos A Vergonha como Timidez
tornemos um espírito."** Precisamos do limite da nossa finidade
- que está sempre nos lembrando de que somos humanos e não A vergonha é uma fronteira natural que evita que sejamos expos-
divinos. tos feridos por um desconhecido. Muitos de nós ficamos tímidos
ou
diante da perspectiva de nos dirigirmos a uma pessoa estranha. Fica-
mos constrangidos, gaguejamos ou nos expressamos de uma manei-
A Vergonha como Embaraço e Enrubescimento ra desajeitada. Isso pode causar o embaraço. O sentimento saudável
de vergonha, da relutância em nos expormos, está contido na expe-
Numa situação embaraçosa somos apanhados desprevenidos - riência da timidez.
nos vemos expostos, quando não estamos preparados para isso. Nós O desconhecido, por definição, é alguém que não é familiar. A
nos sentimos incapazes de enfrentar uma situação na presença de ter- pessoa estranha não pertence a nossa família. Ela apresenta a ameaça
ceiros. Pode ser uma inabilidade física, uma sensibilidade interpessoal do desconhecido. Nossa timidez é nossa vergonha saudável na pre-
ou uma quebra de etiqueta inesperadas. sença de um desconhecido. Como todas as emoções, a timidez nos
Nessas situações, sentimos o enrubescimento que acompanha o adverte de que devemos ser cautelosos, que devemos tomar cuidado
sentimento da vergonha saudável. O rubor manifesta a exposição, a para não sermos feridos ou expostos. Ela é um limite que protege nossa
imprevisibilidade, a natureza involuntária da vergonha. essência na presença do desconhecido não familiar.
A timidez pode se tornar um problema sério, quando tem origem
na vergonha tóxica.
"Sou grato à publicação de Hazeldon sobre SHAME pelas citações de Pascal e Santayana.
24 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 25

A Vergonha como a Necessidade Básica experiência extremamente intensa; da qual nunca esqueci sequer um
da Comunidade aspecto. Richard nos pediu que pensássemos em uma ocasião da nossa
vida na qual tivéssemos tido a certeza de que estávamos certos. De-
Existe um antigo provérbio que diz: "Um único homem é nenhu pois de alguns segundos, lembrei-me de um incidente com minha
homem." Este ditado enfatiza nossa necessidade humana bási c a de esposa. Ele nos pediu que repassássemos a experiência na memória e
comunidade, que enfatiza nossa necessidade de rela c ionamentos, fizéssemos o seguinte: que a dividíssemos em c enas e as passásse-
nossa necessidade de uma vida so c ial. Nenhum de nós eria chegado mos como um filme. A seguir, pediu que passássemos o filme de trás
até aqui sem o apoio de alguém. Nós, seres humanos, prec isamos de para a frente e, depois, passássemos as c enas fora de seqüên c ia: as
ajuda. Nenhum de nós é suficientemente forte a ponto de não prec i- cenas do meio no início, as últimas no meio etc. A seguir, repas-
sar de amor, intimidade e diálogo em comunidade. saríamos a experiência novamente c omo fizemos na primeira vez.
Ao nascer, estamos simbioti c amente .ligados a nossa mãe. Somos De.víamos prestar uma atenção. extrema aos detalhes da experiên-
nós antes de sermos eu. Muita coisa depende desse relacionamento cia ·e ao sentimento de estarmos certos.
original. Depois de estabelec er, durante um ano e meio, o vínculo da Quando a repassei, não tinha mais a jntensidade da primeira vez.
confiança mútua,. c omeçamos a nos deslocar para testar nossa auto- Com efeito, prati c amente não senti nada da_ intensidade original.
nomia. Precisamos de um senso de vergonha que nos lembre de nos- Richard estava nos apresentando a uma forma de remapeamento in-
sos limites. Precisamos da nossa vergonha e dúvida para equilibrar terior, denominado trabalho de submodalidade. Não era isso que era
nossa re c ém-encontrada autonomia. importante para mim. O importante foi uma declaração que Richard
Precisaremos dos nossos pais ainda durante uma década, antes fez a respeito da c riatividade. Para mim, o maior poder humano é o
de estarmos prontos para ir embora de c asa. Não podemos ter nossas poder criativo.
necessidades satisfeitas sem depender daqueles que nos criaram. Richard Bandler de c larou que um dos maiores bloqueios à c ria-
Nosso sentimento saudável de vergonha está presente para nos lem- tividade é o sentimento de saber que estamos certos. Quando pen-
brar de que pre c isamos de ajuda. Não podemos ven c er sozinhos. samos que estamos absolutamente certos, paramos de buscar novas
Nenhum ser humano pode. Mesmo depois de termos alcançado al- infonnações. Estar certo nos impede de sermos curiosos. A curiosi-
gum senso de domínio, mesmo quando somos independentes, ainda dade e a admiração estão na essên c ia de todo aprendizado. Platão
teremos necessidades. Precisaremos amar e crescer. Precisaremos nos disse que toda filosofia começa na admiração. Assim, o sentimento
preo c upar com outras pessoas e precisaremos de que necessitem de da absoluta certeza de estarmos certos faz com que paremos de pro-
nós. Nossa vergonha func iona como um sinal saudável de que pre c i- curar e de aprender.
samos de ajuda, e de que precisamos amar e manter um relaciona- Nossa vergonha saudável, que é um sentimento da nossa frontei-
mento c arinhoso com outras pessoas. ra fundamental e da nossa limitação, nunca permite que acreditemos
Sem o sinal saudável da vergonha, não estaríamos em contato saber tudo. Nossa vergonha saudável nos alimenta, no sentido de que
com nossas necessidades essenciais de dependência. nos leva a bus c ar novas informações e aprender coisas novas.

A Vergonha como Fonte de Criatividade e Aprendizado A Vergonha como Fonte da Espiritualidade

Parti c ipei certa vez de um seminário com Ri c hard Bandler, um Abraham Maslow, o pioneiro Psicólogo da Terc eira Força, es-
dos fundadores da Programação Neurolingüísti c a (PNL). Foi uma creveu c erta vez:
26 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de ½ver 27

" A vida espiritual é... parte da essência humana. É uma carac- Nossa personalidade é sempre levemente neurótica e apresen-
terfstica delimitadora da natureza humana ... sem a qual a natu-
ta traços de distúrbios de caráter. O principal problema em nossa
reza humana não é completa."
vida é decidfr quais são nossas responsabilidades e esclarecê-las.
The Farther Reaches O f Human Nature Para realmente nos dedicarmos a uma vida de honestidade, amor
e disciplina, precisamos estar dispostos a nos comprometer com a
O que é espiritualidade? Acredito que ela esteja relacionada co realidade. Este compromisso, de acordo com Peck, "requer adis-
nosso estilo de vida. Creio que a vida está em eterna expansão e cres posição e a capacidade de sofrer um contínuo auto-exame". Essa
cimento. Assim, a espiritualidade diz respeito a esses dois elemen habilidade requer que tenhamos um bom relacionamento com nós
tds. Diz respeito ao amor, à verdade, à bondade, à beleza, ao dar e ao mesmos. É precisamente isso que nenhuma pessoa que se funda-
carinho. A espiritualidade diz respeito à totalidade e à plenitude. El menta na vergonha possui. Na verdade, uma pessoa toxicamente
é nossa suprema necessidade humana e nos impele a transcendermo envergonhada possui um relacionamento antagônic·o consigo mes-
a nós mesmos, a nos fixarmos à fonte suprema da realidade que ma. A vergonhatóxica- a vergonha que nos escraviza-é a base
maioria de nós chama de Deus. das síndromes neuróticas de comportamento e de distúrbio de ca-
Nossa vergonha saudável é essencial, como a base da noss ráter.
espiritualidade. Ao nos advertir de nossas limitações essenciais,
nossa vergonha saudável nos faz saber que não somos Deus. Nos-
sa vergonha saudável nos conduz na direção de um significado As Síndromes Neuróticas de Vergonha
maior. Ela nos faz saber que existe algo ou alguém maior do que
nós mesmos. Nossa vergonha saudável é a base psicológica da O que é a vergonha que nos escraviza? Como ela se estabeleceu
nossa humildade. em nossa vida? O q_ue acontece à vergonha saudável, durante esse
processo?
A vergonha tóxica, a vergonha que nos escraviza, é vivenciada
A Vergonha Tóxica como a sensação difusa de que sou imperfeito e defeituoso como ser
humano. A vergonha tóxica não é mais uma emoção que sinaliza
nossos limites; é um estado de existência, uma identidade essencial.
Scott Peck descreve tanto as neuroses quanto os distúrbios de
Ela nos confere uma sensação de inutilidade, uma sensação de fra-
caráter como distúrbios de responsabilidade. Peck escreve o se-
guinte: casso e de insuficiência como ser humano; é um rompimento do eu
com o eu.
"O neurótico assume um excesso de responsabilidade; a pes- É como sangramento interno. A exposição de si a si mesmo re-
soa com um distúrbio de caráter não assume responsabilidade pousa no âmago da vergonha tóxica. Uma pessoa com uma base de
suficiente. Quando os neuróticos estão em conflito com o vergonha evitará expor seu eu interior aos outros, mas, o que é mais
mundo, eles automaticamente supõem que estão errados. significativo: ela evitará se expor.
Quando as pessoas com distúrbios de caráter estão em confli- A vergonha tóxica é extr emamente penosa porque é a exposição
to com o· mundo, elas automaticamente pressupõem que o dolorosa do suposto fracasso do eu ao eu. Na vergonha tóxica o eu se
mundo está errado." toma objeto do próprio desprezo, um objeto que não é confiável. Como
The Road Less Traveled
um objeto no qual não podemos confiar, vivenciamos a nós mesmos
como não sendo dignos de confiança. A vergonha tóxica é vivenciada
28 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 29

como um tonnento interior, uma doença da alma. Se eu sou um obje 2. O trauma do abandono e a ligação dos sentimentos, necessi-
to não confiável, então eu não estou em mim. A vergonha tóxica dades e impulsos com a vergonha;
paradoxal e gera a si mesma. 3. A interligação das impressões da memória que formam co-
Existe a vergonha com relação à vergonha. As pessoas admitirão lagens de vergonha.
prontamente a culpa, a dor ou o medo antes de admitirem a vergo,;
nha. A vergonha tóxica é o sentimento de estarmos isolados e sozi A intemalização é um processo gradual e acontece durante um
nhos num sentido completo. A pessoa com uma base de vergonha é período de tempo. Todo ser humano precisa lutar com certos aspec-
perseguida por uma sensação de ausência e vazio. tos desse processo, que tem lugar quando os três processos acima são
A vergonha tóxica foi muito pouco estudada. Ela é facilmente sistematicamente reforçados.
confundida com a culpa. Freud estudou a ansiedade e a culpa, mas
negligenciou quase que completamente a vergonha.
Num recente artigo do New York Times intitulado "Shame Steps. A IDENTIFICAÇÃO COM MODELOS BASEADOS
Out of Hiding and into Sharper Focus", Daniel Goleman escreve o NA VERGONHA
seguinte:
A identificação é um dos nossos processos humanos normais.
"Os psicólogos, reconhecidamente mortificados e um pouco
desconcertados, estão tardiamente se concentrando na ver- Sempre temos a necessidade de nos identificarmos. Ela nos confere
gonha, uma emoção preponderante e poderosa, que de algum uma sensação de segurança. Ao pertencermos a algo maior do que
modo escapou até o momento de um exame científico rigo- nós, sentimos a segurança e a proteção da realidade maior.
roso." A necessidade de nos identificarmos com alguém, de nos sen-
tinnos parte de alguma coisa, de pertencer a algum lugar, é uma das
nossas necessidades mais fundamentais. Excetuando-se a auto-
A Vergonha como Uma Identidade - preservação, nenhum outro anseio é tão compulsivo quanto essa
A lntemalização da Vergonha necessidade, que começa com as pessoas que cuidam de nós e se
estende em direção à família, aos colegas, à nação e ao mundo. Ela
Qualquer emoção humana pode se tomar internalizada. Quando é VJsta sob fonnas menos intensas ao aderirmos a um partido políti-
isto acontece, a emoção pára de funcionar como uma emoção e se co ou torcermos por um determinado time. Nosso time nos propor-
torna um estilo caracterológico. Você provavelmente conhece alguém ciona uma maneira de vivenciarmos as poderosas emoções de ga-
que poderia ser chamado de "uma pessoa irritada" ou alguém que você nhar ou perder. No meu caso particular, desde pequeno sou um
chamaria de "débil mental". Em ambos os casos, a emoção se tornou torcedor incondicional do Notre Dame. Apesar de nunca ter estado
a essência do caráter da pessoa, sua identidade. O indivíduo não tem em South Bend, não ter freqüentado essa universidade, mesmo as-
raiva ou melancolia; ele é irritado e melancólico. sim sou um fã ávido e emotivo. Quando eles ganham, eu ganho.
No caso da vergonha, a internalização envolve pelo menos três Quando eles perdem, "fico na fossa".
processos: Essa necessidade de pertencer a alguém ou a alguma coisa expli-
ca a dedicação fanática que as pessoas têm com relação a um grupo ...
1. A identificação com modelos não confiáveis e baseados na ao gn1po delas.
vergonha; Quando as crianças têm pais com uma base de vergonha, elas se
30 John Bradshaw Curando a Vérgonha que Impede de Viver 31

identificam com eles. Este é o primeiro passo que a criança dá Além da falta de espelhamento, o abandono inclui o se inte:
pƒ”ƒ intemalizar a vergonha. Negligência das necessidades que dependem do desenvolvtmento.
Qualquer tipo de abuso.
. , . .
o enredamento nas necessidades ocultas ou v1s1ve1s dos pats ou
0 ABANDONO: O LEGADO DA das necessidades do sistema familiar.
RECIPROCIDADE DESTRUÍDA
Quaru.lo os Sentimentos, as Necessidades e os Impulsos
São Dominados pela Vergonha
A vergonha é internalizada quando somos abandonados. O ab
dono é o termo exato para descrever como perdemos nosso eu
autêtico e deixamos de existir psicologicamente. A s crianças não ˆƒ–‘†‡ƒ˜‡”‰‘Šƒ†‘‹ƒ”‘••‡–‹‡–‘•ǡƒ•‡…‡••‹†ƒ†‡•‡‘s impulsos instintivos naturais
pode saber quem são sem espelhos refletores. O espelhamento é feito é um fator ˆ—†amental nƒ transform ação da vergonha saudável
bƒ•‹…ƒ‡–‡pelas pessoas que cuidam da criança e é em vergonha toxtca. Ser dommado pela vergonha significa que ao
fundamental n‘• primeiros anos †e vida. O abandono inclui a perda termos qualquer sentimento, necessi • d Jue ou impulso,
do espelhament‘ Os pais que são emocionalmente fechados sempreficamosjmediatamente vergonhados. A ssen-c ia dinâmica
(todos os pais com— base de vergonha) não podem espelhar nem da nossa vida humana se estab1hza em nossos sentimen- , tos.
ratificar as emoções d‘•filhos. .
necessidades e impulsos. Quando a vergonha os d omma, ate mes-m ;
Como o primeiro período da nossa vida foi pré-verbal, nossa essência é atingida.
tu†‘ dependia da interação emocional. Sem alguém para refletir
no•sas emoções, não tínhamos como saber quem éramos. O A INTERLIGAÇÃO DAS MARCAS DA MEMÓRIA
esp‡lhamento permanece importante durante toda a nossa vida.
QUE FORMAM COLAGENS
PensF na experiência frustrante, que quase todos nós j á
DE VERGONHA
vivenciamos, d‡ falar com alguém que não está olhando para
nós. Enquanto vo…² está falando, a pessoa fica manuseando ou
lendo alguma coisƒǤ À medida que as experiências se acumulam.: a ess a se e-
‘••ƒ‹†‡–‹†ƒ†‡‡š‹‰‡—‘—–”‘‹’‘”–ƒ–‡ǡ…—Œ‘•‘ŽŠ‘• fende delas as imagens criadas por essas expenenctas sao regis-
tradas em s u banco de memória. Como a vítima não tem tempo
‘•˜‡Œƒ†‡—ƒƒ‡‹”ƒ„‡•‡‡ŽŠƒ–‡ƒ‡‹”ƒ…‘‘
nem apoio para lamentar a dor da reciprocidade rom ida, suas emo-
˜‡‘•ƒ×•‡•‘•Ǥ
ções são reprimidas e a dor permanece não-resolvida. As_ marcas
‘‡ˆ‡‹–‘ǡ”‹”‹•‘†‡ˆ‹‡ƒ‹†‡–‹†ƒ†‡…‘‘ verbais (auditivas) pennanecem na memó:ia ao das imagens
‹–‡”’‡••‘ƒŽŽ‡‡•…”‡˜‡‘•‡‰—‹–‡ǣ _lado
"O senso de identidade do ego é a confiança acumulada resul- visuais de cenas que causaram vergonha. A medida que cada nova
experiência perturbadora tem lugar, uma nova marca verbal e uma
tante do fato de que a uniformidade e a continuidade interio- de
res ... são igualadas pela uniformidade e continuidade do nosso
imagem visual
memórias se ligam às j á existentes, formando colagens
perturbadoras. _
significado para os outros." As crianças também registram os piores momentos das çoes de
seus pais. Quando a mãe, o pai, o padrasto, a madrasta ou seJa quem
Childhood And Society for que cuide da criança estão no auge do descontrole, eles ame ç
tremendamente a sobrevivência da criança. O alarme de sobrev1ven-
32 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 33

eia da criança registra profundamente esses comportamentos. Qual- prezível para si mesmo, não está mais em você. Sentir vergonha
quer experiência de vergonha subseqüente que lembre, mesmo que significa se sentir visto de uma maneira exposta e .inferiorizada.
vagamente, o trauma passado pode desencadear as palavras e as ce- Quando você é um objeto para si mesmo, volta o olhar para den-
nas desse trauma. A nova e a antiga experiências são então registradas. tro, observando e analisando cada mínimo detalhe do seu compor-
Com o tempo, cenas de vergonha são aglutinadas. Cada nova cena tamento. Esta observação crítica interior é dolorosa. Ela cria uma
fortalece a antiga, mais ou menos como uma bola de neve, que desce autoconsciência atormentadora que, nas palavras de Kaufman,
rolando por um morro, ficando cada vez maior à medida que vai acu- "oera um efeito aglutinante e paralisante sobre o eu". Esse acom-
º
mulando mais neve. panhamento interno paralisante causa o retraimento, a passivida-
Com o passar dos anos, muito pouco é necessário para desen- de e a inação.
cadear e.ssas colagens de recordações da memória. Uma palavra, uma As partes decepadas do eu são projetadas nos relacionamentos.
cena ou expressão facial semelhante podem acioná-las. Às vezes, o Elas são amiúde a base do ódio e do preconceito e podem ser vi-
estímulo externo nem mesmo é necessário. A simples recordação de venciadas como -personalidade dividida ou até como personalidades
uma lembrança antiga pode desencadear uma experiência intensamen- múltiplas. Isso acontece freqüentemente com vítimas de violência
te dolorosa. A vergonha como emoção tomou-se agora cristalizada e fisica e sexual.
enterrada no âmago da identidade da pessoa. A vergonha está pro- O fato de estarmos fragmentados e alienados dentro de nós me.s-
fundamente intemalizada. mos também cria uma sensação de irrealidade. Podemos ter a sensa-
ção di fu sa de nunca fazer parte de nada, de estarmos sempre do lado
de fora olhando para dentro. A condição de alienação e isolamento
A Vergonha como Auto-Alienação e Isolamento
interior também é permeada por uma depressão crônica de baixa
g raduação. Isso tem relação com a tristeza de perdern1os nosso eu
Sofrer de alienação significa que vivenciamos partes do nosso eu
autentico. Talvez o aspecto mais profundo e devastador da vergonha
como estranhas a nós mesmos.
neurótica seja a rejeição do eu pelo eu.
Por exemplo, se você nunca pôde expressar raiva na presença
da sua família, e fase torna uma parte alienada de você mesmo. Você
vivencia a vergonha tóxica quando fica zangado. Esta parte de você A Vergonha como o Falso Eu
precisa ser renegada ou decepada. Não há corno se livrar do seu
poder de raiva emocional. A raiva é a energia autopreservadora e Como jaz no âmago da vergonha neurótica, a exposição do eu
autoprotetora. Sem essa energia você se torna um capacho e puxa- ao eu, toma-se necessário fugir do eu. Conseguimos fugir do eu
saco das pessoas. À medida que seus sentimentos, necessidades e criando um falso eu. O falso eu é sempre mais ou menos do que
impulsos são dominados pela vergonha tóxica, uma parte cada vez hutnano e pode ser um perfeccionista, um palerma, o herói ou o
maior de você se torna alienada. bode expiatório da família. Quando o falso eu se forma, o eu au-
Finalmente, quando a vergonha passa a ser completamente têntico se esconde. Anos mais tarde as camadas de defesa e fingi-
internalizada, nada a seu respeito é adequado. Você acha que é mento se tornam tão densas que perdemos a noção de quem real-
imperfeito e inferior; tem a sensação de ser um fracasso. Não existe mente somos.
nenhuma maneira de você compartilhar seu eu interior, porque crucial perceber que o falso eu pode ser tanto um perfeccionista
você é um objeto de desprezo para si mesmo. Quando você é des- realizador quanto um viciado em um beco escuro. Ambos são leva-
34 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 35

dos a encobrir sua profunda sensação de auto-ruptura, o buraco ber que os tipos de distinção etiológicas detalhadas, oferecidos pela
sua alma. Eles podem se disfarçar de maneiras que parecem opostos conceitualização acurada e precisa, encerram um valor clínico e
mas cada um é impulsionado pela vergonha neurótica. Com efeito psicoterapêutico, também considero que parte disso é contraprodu-
aspecto mais paradoxal da vergonha neurótica é que ela é o cente.
principal motivador do super-realizado e do sub-realizado, da Meu estudo pessoal do trabalho de James Masterson sobre per-
vedete e bode expiatório, do "virtuoso" e do desgraçado, do sonalidades limítrofes, bem como minha experiência na observa-
poderoso e patético. ção de seus filmes profissionais, convencem-me de que existe uma
diferença mínima entre o tratamento de algumas pessoas baseado
toxicarnente na vergonha e o dele na personalidade ljmítrofe. Es-
A Vergonha como Co-dependên cia tou convencido de que a Personalidade Limítrofe de Masterson é
uma síndrome de vergonha neurótica. Ela é descrita da seguinte
Muito já foi escrito sobre a co-dependência. Todos estão maneira.
acordo que ela diz respeito à perda da individualidade. A co- Trata-se de uma síndrome dessas queixas, mais ou menos rela-
dependência é uma condição na quai não temos vida interior. A cionadas:
felicidade está do lado de fora. Os bons sentimentos e a auto-
afirmação situam-se no exterior. Eles nunca podem ser gerados 1. Distúrbio da auto-imagem;
a pado interior. Pia Mellody define a co-dependênciada seguinte 2. Dificuldade de identificar e expressar os próprios pensamen-
maneira: "Um estado doentio através do qual o eu autêntico é tos, desejos, sentimentos e a auto-estima autônoma regula-
man do oculto, de modo que o senso do eu ... de significado ... de dora;
esti e de ligação com as outras pessoas é distorcido, gerando 3. Dificuldade de auto-afirmação.
dor nos relacionamentos distorcidos." Não existe urna diferença
significativa entre essa definição e a maneira como descrevi a Borderline Adolescent to Functioning Adult: The Testo/Time
vergo internalizada. Acredito que a vergonha internalizadaseja a
essêcia da co-dependência.
A Vergonha como Essência Combustível
de Todo Vício
A Vergonha como Personalidade Limítrofe
A vergonha tóxica é a origem e o combustível de todos os com-
Kaufman considera que muitas das categorias de doenças em portamentos compulsivos e viciadores. Minha definição prática geral
cionais definidas no DSM IIII têm origem na vergonha do comportamento compulsivo/viciador é "um relacionamento
neurótica. Parece óbvio que alguns desses tipos de distúrbios Patológico com qualquer experiência que modifica a disposição de
estejam relacionadas com sindromes de vergonha . .Entre eles ânimo que tenha consequências que danifiquem a vida".
estão a personalidade dependente, a depressão clínica, os O impulso em qualquer vício diz respeito ao eu fragmentado, à
fenômenos esquizóides e personalidade limítrofe. Minha crença de que somos pessoas imperfeitas. O conteúdo do vício,
convicção pessoal é que a vergonha tóxica é um conceito seja ele de ingestão ou atividade (como o trabalho, o comprar
unificador do que é constantemente labirinto de definições e compulsivo ou o jogo) é uma tentativa de manter um relacionamen
distinções psicológicas. Apesar de perc
36 John Bradshaw Curando a Vergonha que Impede de Viver 37

to íntimo. A pessoa viciada em trabalho com seu trabalho, ou


alcoólatra com a bebida, estão tendo um caso amoroso. Cada d"
posição de ânimo se altera para evitar o sentimento de solidão
dor no lado oculto da vergonha. Cada viciado, ao agir, cria cons Figura 1.1. O ciclo CompulsivoNiciador
Alimentado pela Vergonha e a Regenerando
qüências que danificam a vida, que, por sua vez, geram mais ve
gonha. A nova vergonha alimenta o ciclo do vício. A Figura 1
apresenta uma imagem visual de como a vergonha internaliza
Sou um ser
alimenta o processo do vício, e como os vícios geram mais verg Falso humano
Identidade
com uma
nba, nos tornando ainda mais baseados na vergonha. A isto eh Sistema imperfeito Base de
ma-se de círculo vicioso. de Crenças e defeituoso. Vergonha
Sou um erro.
Eu costumava beber para resolver os problemas causados pe
bebida. Quanto mais eu bebia para aliviar minha solidão baseada
vergonha e na dor, mais eu me sentia envergonhado. A vergonha ge
a vergonha. O ciclo começa com o falso sistema de crenças que Conseqüências Pensamento
dos os viciados possuem, ou seja, que ninguém poderia querê-los Prejudiciais à Vida Distorcido
amá-los como são. Com efeito, os viciados não conseguem se am Desmaios decorrentes
Eles são um objeto de desprezo para si mesmos, Essa vergonha pr da ressaca
fundamente internalizada dá origem ao pensamento distorcido. E Insatisfação com o corpo
Ninguém poderia me
Apanhado em adultério
último pode ser reduzido à crença de que ficarei bem se beber, e Apanhado pela lei amar como eu sou.
mer, fizer sexo, ganhar mais dinheiro, trabalhar mais etc. A verg Doença venérea Preciso de alguma
A esposa pede o coisa externa para
nha nos transforma no que Kellogg denominou um "fazer humano, ser1otal e satlsfatório.
divórcio pelo excesso
em vez de um ser humano. de trabalho
O valor é medido no exterior, nunca no interior. A obsessão men (meta vergonha)
a respeito do relacionamento viciado específico é a primeira alte ·
ção da disposição de ânimo, visto que o pensamento nos afasta
nossas emoções. Depois de ficarmos obcecados durante algum te
po, tem lugar a segunda alteração da disposição de ânimo. Trata-
da "representação" ou do estágio ritualístico do vício. O ritual po
envolver beber com os.amigos, comer secretamente em nosso esco Ciclo de Remorso Alteração da
derijo predileto ou sair em busca de sexo. O ritual termina em embri Repre- meta• + - - Disposição
guez, saciedade, orgasmo, gastar todo o dinheiro que temos ou qu sentação vergonha de Animo
quer outra coisa.
Segue-se, então, o sentimento de vergonha por causa do nos Repre-
comportamento, e as conseqüências que causam dano à vida - sentando Momento de � s a
ressaca, a infidelidade, o sexo degradante, a carteira vazia. A me (estado de identificação)
vergonha é um deslocamento de afeto, uma transformação da verg
nha com relação ao eu na vergonha a respeito de "agir" e vivenciar