Série Análise Criminal | VOLUME 1

A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL
Distribuição Gratuita

Série Análise Criminal | VOLUME 1

A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL
MINISTRO DA SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS Paulo de Tarso Vannuchi GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Sérgio Cabral Filho SECRETÁRIO DE ESTADO DE SEGURANÇA DO RIO DE JANEIRO José Mariano Beltrame INSTITUTO DE SEGURANÇA PÚBLICA
Série Análise Criminal
Distribuição Gratuita

PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Luiz Inácio Lula da Silva

DIRETOR-PRESIDENTE Mário Sérgio de Brito Duarte VICE-PRESIDENTE Robson Rodrigues da Silva COORDENADOR DOS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA Paulo Augusto Teixeira

A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL

O conteúdo desta obra é de responsabilidade exclusiva dos autores e do Instituto de Segurança Pública. .Este livro foi produzido por meio de convênio firmado entre o Instituto de Segurança Pública e o Programa de Apoio Institucional às Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário da Secretaria Especial dos Direitos Humanos. financiado pela União Européia.

Projeto Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal Volume 1 A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL 2008 RIO DE JANEIRO 1ª EDIÇÃO .

total ou parcial. desde que citada a fonte. I. etc. e por qualquer meio. Série. Título.]. Mário Sérgio de Brito (Coord. – (Série Análise Criminal. – Rio de Janeiro: Riosegurança.) II Ribeiro. Andréia Soares (Org. Ludmila Mendonça Lopes (Org. v. guias. Coordenador Mário Sérgio de Brito Duarte. 116 p.Pinto.) II.Coleção Instituto de Segurança Pública Coordenador– Mário Sérgio de Brito Duarte Série Análise Criminal Organizadores – Andréia Soares Pinto e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Volume 1 A Análise Criminal e o Planejamento Operacional Autores Ana Paula Mendes de Miranda – IPP / Simoni Lahud Guedes – UFF / Doriam Borges – IUPERJ / Cláudio Beato – UFMG Elenice de Souza – UFMG / Paulo Augusto Souza Teixeira – ISP © 2006 by Instituto de Segurança Pública Tiragem: 150 exemplares Impresso no Brasil É permitida a reprodução. Duarte. [autores] Ana Paula Mendes de Miranda . Análise Criminal – manuais. CDD: 362.) III.[et al. 1) ISBN 978-85-60502-32-5 1. 2008.. Revisão Frederico César Girauta Maria Cláudia Ajuz Goulart Carmem Lúcia Teixeira Jochen Iara Cruz Fróes da Silva Projeto Gráfico Alexandre Lage da Gama Lima Thiago Venturotti Nunes Carneiro Diagramação Francisco Kelson Moreira de Sousa Organizadoras do volume Andréia Soares Pinto Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Ficha Catalográfica Johenir Viégas Elenice Glória Martins Pinheiro Coordenação Técnica Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Equipe técnica Lucas Botino do Amaral Daniel Keidel Bou Haya Coordenação Administrativa José Motta de Souza Apoio Administrativo Alexandre Corval Florisvaldo Moro José Renato Biral Belarmino A532a A Análise Criminal e o Planejamento Operacional / Organizadoras Andréia Soares Pinto e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro. III.12 ..

........................ ANÁLISE CRIMINAL E SENTIMENTO DE (IN) SEGURANÇA: CONSIDERAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA (Ana Paula Mendes de Miranda) ............................................................................................................................................ 105 PERFIL DOS ORGANIZADORES E AUTORES ............................ O POLICIAMENTO ORIENTADO PARA O PROBLEMA E A METODOLOGIA IARA (Elenice de Souza) .......................... 14 COLETANDO E EXTRAINDO INFORMAÇÕES DOS BANCOS DE DADOS CRIMINAIS: A LÓGICA DAS ESTATÍSTICAS DAS ORGANIZAÇÕES POLICIAIS (Doriam Borges).............................................................................................................................. 10 INFORMAÇÃO........................SUMÁRIO APRESENTAÇÃO (Mário Sérgio de Brito Duarte e Robson Rodrigues da Silva) .................................................................................................................... 116 ........ 63 EXPLORANDO NOVOS DESAFIOS NA POLÍCIA: O PAPEL DO ANALISTA............................................ USO DE INFORMAÇÕES E DIAGNÓSTICOS EM SEGURANÇA URBANA (Cláudio Beato) ............................. 7 INTRODUÇÃO (Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro e Andréia Soares Pinto) .......................... 92 OS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA E OS DADOS OFICIAIS (Paulo Augusto Souza Teixeira)..................................................................................................... 53 PRODUÇÃO............................ 42 O SISTEMA CLASSIFICATÓRIO DAS OCORRÊNCIAS NA POLÍCIA MILITAR DO RIO DE JANEIRO E A ORGANIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA POLICIAL: UMA ANÁLISE PRELIMINAR (Simoni Lahud Guedes) ..............................................................................................................................

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Em termos de Administração Pública. objetiva familiarizar atores do chamado sistema de justiça criminal e segurança pública (polícia. Nesse sentido. . São Paulo. definindo objetivos. do capitalismo e da democracia1. 14 ed. o conceito weberiano de “lucro renovável” pode ser traduzido por uma gestão eficiente. Pioneira. No campo da segurança pública. tanto no plano estratégico. traçando metas factíveis e construindo indicadores adequados de avaliação e de produtividade. Ele foi elaborado por 1 WEBER. segundo Max Weber. a otimização de recursos na busca de um “lucro sempre renovável”. O livro que ora temos o prazer de apresentar trata exatamente da Análise Criminal e faz parte de um conjunto de estratégias desencadeadas pelo Instituto de Segurança Pública. Ministério Público. mais precisamente no que diz respeito ao controle da criminalidade e das violências. O chamado planejamento estratégico deve contemplar. com vistas à modernização da segurança pública estadual.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 7 APRESENTAÇÃO Foi por uma postura racional que. como no tático-operacional. A ética protestante e o espírito do capitalismo. menos contemplativa e cada vez mais compromissada com o progresso tecnológico. M. Particularmente. Um de seus objetivos é o de habilitar profissionais na manipulação de softwares estatísticos e de geoprocessamento para a produção e análise de informações necessárias ao planejamento e à execução de políticas públicas de segurança eficazes. 1999. uma gestão que se pretenda moderna não deve abrir mão da Análise Criminal como instrumento otimizador de suas ações. um diagnóstico adequado da realidade. foram fatores decisivos para o surgimento do atual conceito de cidadão e da moderna sociedade industrial. justiça e presídios) com o instrumental científico-tecnológico construído pelo Instituto para uma gestão racional da segurança pública. a civilização ocidental se distinguiu no cenário mundial sustentada pelos pilares da ciência. com todas as novidades que o progresso científico-tecnológico pode hoje nos proporcionar. dos recursos disponíveis e dos óbices que eventualmente dificultem a consecução desses objetivos. eficaz e efetiva que utiliza a ciência para a alocação racional dos recursos públicos. função que entendemos ser uma das premissas do Estado-nação. a organização racional do trabalho e a ciência moderna. portanto.

por meio de uma postura moderna. possam de fato utilizar em toda sua plenitude o instrumental disponibilizado pelo ISP.isp. como todo processo. dispondo de uma base de dados confiável das ocorrências registradas em todo o território fluminense. abordados nos artigos que compõem o presente livro. com o Programa Delegacia Legal. no estabelecimento de padrões ou no mapeamento de tendências criminais. quer na projeção de cenários. esta é. nota 2. Por meio do mesmo convênio com a SEDH e a União Européia. A partir deles. Mesmo entendendo que a Análise Criminal seja mais do que a coleta de dados quantitativos para a produção de uma estatística criminal confiável. sem dúvida. na elaboração de inferências. 5 O piloto desse projeto foi iniciado no Município de São Gonçalo e a expectativa é de que. mais comumente conhecida como “cifra negra”. Seu primeiro resultado foi a Pesquisa de 2 Tanto esse quanto outros projetos ou programas aqui citados serão. muito em breve. ainda. da Polícia Militar e das Guardas Municipais5. o ISP produz a estatística criminal do estado que é divulgada mensalmente na página eletrônica do Instituto3 e no Diário Oficial do estado. Nesse sentido o estado do Rio de Janeiro já conta. de alguma maneira. sua primeira etapa.rj. 3 www.8 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL ocasião do Curso de Capacitação em Técnica Quantitativas e Análise Criminal. Seguindo essa ordem. depois.gov. juntamente com um ferramental analítico adequado. com o objetivo de integrar dados da Polícia Civil. Assim. Evidentemente que estamos falando de um processo de modernização que. . e desenvolveu. torna-se importante primeiramente a construção de bases de dados abrangendo informações sobre as práticas dos atores do sistema de justiça criminal. a sensibilização desses próprios atores para que. um dos projetos2 do convênio firmado com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e realizado pelo ISP com o financiamento da União Européia. o ISP também desenvolveu o projeto SIAD4 (Sistema de Integração de Análise de Dados).br 4 Cf. uma metodologia própria para a realização de pesquisas de vitimização que visam compreender o fenômeno da sub-notificação criminal. apresenta uma ordem de etapas que precisa ser respeitada. o ISP vem procurando cumprir sua vocação institucional de subsidiar a Secretaria de Estado de Segurança na elaboração de políticas públicas. ele possa ser expandido para todo o estado. desde 1999.

Percebe-se. foi estabelecido um diálogo com a Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro para que o mesmo programa também seja oferecido na Academia de Polícia Militar D. que o próprio Secretário de Estado de Segurança. o que já foi incluído no Planejamento Orçamentário para o próximo ano. João VI para Aspirantes recém-formados no Curso de Formação de Oficiais.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 9 Condições de Vida e de Vitimização6. pesquisadores e gestores de segurança pública em geral. a imensa potencialidade que representa este trabalho que. Dessa forma. o que atenderá à Matriz Curricular proposta pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. jornalistas. como uma capacitação a ser continuada neste e no próximo ano.SESEG. foi após a divulgação dos dados dessa pesquisa. inclusive. 7 Órgão que administra o recebimento das chamadas emergenciais 190. Outro grande passo do ISP nesse processo foi a criação de um Observatório de Análise Criminal no Núcleo de Pesquisas em Segurança Pública e Justiça Criminal NUPESP/ISP. é bom ressaltar que o sucesso do primeiro curso de análise criminal já nos aponta alguns avanços nesse sentido. Aliás. com isso. Sabemos que ainda há muito caminho ainda para percorrer e. . o ISP resolveu oferecer uma versão mais curta do mesmo curso para policiais. com o georeferenciamento dos dados das ocorrências policiais obtidas no Centro de Comando e Controle7 da Secretaria de Estado de Segurança . Nota 2. que possibilita o monitoramento espacializado das incidências criminais no estado. José Mariano Beltrame. realizada em 2006/2007 na Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro e recentemente divulgada pelo ISP. além das polícias estaduais. seria interessante contarmos também com dados sistematizados de outros atores do sistema de justiça criminal. num futuro muito próximo. problema que será discutido ao longo do presente trabalho. nesse aspecto. E ainda no intuito da sensibilização. No entanto. Dr. MÁRIO SÉRGIO DE BRITO DUARTE Diretor-Presidente do Instituto de Segurança Pública ROBSON RODRIGUES DA SILVA Vice-Presidente do Instituto de Segurança Pública 6 Cf. aventou a possibilidade de se iniciar uma série histórica para a avaliação das “cifras negras” no estado. deverá ser acrescido de outros artigos ou volumes.

principalmente a violenta. . Em boa medida. A análise criminal é entendida como um conjunto de processos sistemáticos direcionados para o provimento de informação oportuna e pertinente sobre os padrões do crime e suas correlações de tendências. para que esteja de fato capacitado a traçar ações de prevenção da criminalidade. os quais podem ter sua natureza e dinâmica. Contudo. eficiência e efetividade as atividades que lhe são destinadas. elevar a qualidade de vida dos cidadãos. eficiente e efetiva é aquela que consegue não apenas prevenir o crime. compreendidas através das técnicas de análise estatística. No âmbito das instituições que compõem o sistema de justiça criminal. Consciente deste fenômeno e pressionado pela demanda contínua de diversos policiais no que diz respeito à capacitação em técnicas quantitativas e análise criminal. estas se encontram armazenadas nas organizações que compõem o sistema de justiça criminal na forma de dados quantitativos. sobretudo. em especial. As ações que antecedem a elaboração da política e apontam suas virtudes e vicissitudes têm como sustentáculo as informações produzidas em sua implementação. após a implementação dessas. razão pela qual muito se tem discutido sobre quais habilidades devem ser consideradas indispensáveis ao agente de segurança pública. este instrumento parece ainda não integrar o cotidiano das organizações encarregadas da promoção da segurança pública na realidade brasileira. de modo a apoiar as áreas operacional e administrativa no planejamento e distribuição de recursos para prevenção e supressão de atividades criminais. esta afirmação também é válida. encontrase a de empreender uma boa análise criminal nos momentos que antecedem o planejamento das políticas públicas e. Entre as habilidades requeridas para o agente de segurança pública. Isto porque uma política pública eficaz. Daí porque a estatística criminal tem se revelado como um dos principais instrumentos no planejamento e avaliação das ações de segurança pública. mas.10 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL INTRODUÇÃO Existe hoje amplo reconhecimento de que nenhuma organização pública ou particular funciona bem sem recursos humanos capazes de desenvolver com eficácia.

Polícia Civil. O primeiro ministrou disciplinas capazes de dar suporte teórico à compreensão dos métodos quantitativos. trata-se de 1 O Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro é uma autarquia ligada à Secretaria de Segurança Pública. com financiamento da União Européia. Ou seja. entre os dias 7 de agosto e 11 de outubro de 2006. o ISP capacitou. cinqüenta e três agentes de segurança pública. Ministério Público. de ferramentas de análise estatística enquanto instrumento auxiliar na mensuração dos resultados das políticas públicas implementadas e instrumento principal na elaboração de ações policiais preventivas eficazes. Esses dados constituem uma gama de informações que poderiam servir como ferramentas no planejamento e avaliação de políticas públicas da área de segurança . A segunda parte visou dar suporte aos alunos na utilização dos dados de natureza criminal produzidos por cada uma das organizações que compõem o sistema de justiça criminal quais sejam: Polícia Militar.ISP1 propôs a realização do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal para os agentes de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. Por fim. através de um curso estruturado em três módulos. Alguns dos textos que integram o primeiro volume da série análise criminal foram produzidos pelos professores do curso ao longo das aulas. o terceiro módulo consistiu no compartilhamento de experiências de organizações policiais militares de outros estados da federação brasileira no uso de dados quantitativos enquanto ferramenta auxiliar na consecução do planejamento tático e operacional da unidade policial. foram abordados conteúdos relativos à introdução à estatística e à análise de dados. que produz mensalmente estatísticas relativas à ocorrência de crimes no estado. Nesta etapa. O Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal foi. na realidade prática destes agentes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 11 o Instituto de Segurança Pública . Este módulo teve como finalidade familiarizá-los com a utilização desses dados durante o exercício de sua atividade cotidiana. A partir do convênio entre a Secretaria Estadual de Segurança Pública e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal. quais sejam EXCEL e SPSS. portanto. um projeto de aperfeiçoamento dos agentes de segurança pública através da introdução. Judiciário e Sistema Penitenciário. A proposta de realização do curso teve como sustentáculo o fato de que vários agentes de segurança pública argumentavam que a não utilização dos dados criminais produzidos pela delegacia legal e tratados pelo ISP se devia ao desconhecimento das ferramentas de análise criminal. bem como programas mais utilizados neste sentido. portanto.

principalmente no que diz respeito às possibilidades de aplicação dessa metodologia a diversas bases de dados criminais (ou não) disponíveis no Brasil.12 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL trabalho construído não apenas a partir dos princípios teóricos e metodológicos que orientam a análise criminal. com ênfase na base construída pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. utilizado nos capítulos subseqüentes. O último capítulo discute a transparência dos dados na seara da segurança pública a partir da análise das ações desenvolvidas de forma integrada pelas polícias . O primeiro deles parte do estudo de caso de Belo Horizonte e salienta que as diversas ferramentas estatísticas ensinadas no Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal. mudar o quadro de não uso das ferramentas estatísticas enquanto instrumento e avaliação das políticas de segurança em razão do desconhecimento destas. viabilizam a redução da incidência criminal e. e a forma como os dados criminais têm sido produzidos e utilizados no estado do Rio de Janeiro. Assim. O outro capítulo enfatiza as capacidades requeridas para o moderno policial na produção e no uso das informações estatísticas e de como estas competências são ativadas e dinamizadas através da metodologia IARA (metodologia orientada para a solução de problemas composta por quatro etapas: Identificação. Análise. sobretudo. mas. Nele é desenvolvido o instrumental teórico acerca da importância da informação no planejamento e avaliação das políticas de segurança pública. Já o terceiro capítulo parte de uma dessas bases de dados. em especial a estatística. quando empregadas com o devido rigor metodológico. a partir do diálogo com os principais usuários das ferramentas de informação e gestão que foram ensinadas no Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal. O segundo capítulo apresenta uma discussão sobre os pressupostos da estatística criminal. Resposta e Avaliação . O primeiro capítulo analisa conceitualmente o papel da informação. A estrutura da obra em cinco capítulos reflete este propósito. para desenvolver a discussão sobre como foi montado e como hoje é operado o sistema classificatório das ocorrências policiais. os estudos publicados neste volume representam uma tentativa de reunir as principais reflexões sobre análise criminal e. Os capítulos 3 e 4 discutem a produção e o uso das informações criminais na elaboração de ações e diagnósticos em segurança pública.IARA). por conseguinte. na seara da segurança pública. a melhoria da qualidade de vida urbana. desta forma.

Andréia Soares Pinto Coordenadora responsável pelo projeto Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Coordenadora Técnica . Esperamos que a interação entre os diversos campos de conhecimento possibilite a percepção de que o trabalho policial não se esgota no atendimento e registro de ocorrências. desejamos suprimir uma lacuna na segurança pública. e das informações produzidas pelos Conselhos Comunitários de Segurança do Rio de Janeiro. propiciando ao leitor um instrumento de apoio e reflexão que possa contribuir efetivamente para a melhor aplicação dos conteúdos apreendidos durante o curso. Com o primeiro volume da série análise criminal. é uma atividade voltada para a identificação e resolução de conflitos. mas.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 13 e pelas comunidades.

Violências e Discursos. Mas o que são “dados”? São elementos de informações ou representações de fatos que servem de base para a formação de uma análise. nos séculos XVII e XVIII. cujo resultado será influenciado por diversos fatores. . portanto.14 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL INFORMAÇÃO. 1 Uma primeira versão deste artigo foi apresentada no Painel Políticas Públicas. em Coimbra. Tratou-se. de uma forma de conhecimento que surge como um dos elementos da teoria da arte de governar. A criação da palavra Estatística é atribuída ao pesquisador alemão Gottfried Aschenwall (1719-1772) com o sentido de ciência do Estado. O uso mais comum dos “dados” está relacionado à estatística. De acordo com a teoria da informação. Acreditava-se. relacionada ao desenvolvimento dos aparelhos administrativos do Estado.Isaac Joseph. durante o Simpósio da Rede Interdisciplinar de Estudos Comparativos (RIEC): Direito. entendido como um processo de interação do sujeito com o mundo exterior. informar significa comunicar os fatos. então. 2004. o espaço público e as políticas públicas. Justiça e Segurança Pública . que permitiria aos governantes ter um diagnóstico mais objetivo dos fatos concernentes aos seus domínios. enunciar uma mensagem permite a redução da incerteza sobre uma dada realidade. que constituiriam o ato de informar. e privilegiando uma visão dos fatos como “coisas”. que as cifras trariam mais credibilidade e legitimidade do que as descrições textuais. tornando-os públicos. no VIII Congresso LusoAfro Brasileiro de Ciências Sociais. ANÁLISE CRIMINAL E SENTIMENTO DE (IN) SEGURANÇA: CONSIDERAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA1 Ana Paula Mendes de Miranda A informação e a construção do conhecimento A informação é considerada usualmente como um conjunto de fatos (acontecimentos) e/ou dados a respeito de algo. cujo relato isento propiciaria a percepção da realidade como ela é. Nesse sentido.

depois.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 15 A busca pela objetividade e neutralidade é algo já amplamente discutido na teoria do conhecimento2. todo recorte estatístico é constituído por diferentes interpretações de um mesmo fato. Não há como negar que a metáfora se aplica bem a diversas formas de governos. há que se problematizar mais a inexatidão estatística sob o risco de perdermos um instrumento de análise necessário para a construção de políticas públicas. execução e redirecionamento das ações do sistema policial. conhecendo os dados e áreas de incidência. A estatística entendida como ciência do Estado se constitui em um exemplo privilegiado dessa relação entre saberes e poderes. Primeiro. bem como outros aspectos metodológicos da produção de estatísticas públicas. bem como para produzir máscaras e fantasias. tudo é produto de escolhas feitas pelos “analistas”. tendo sido bem demonstrada por Foucault (1990). a população e os diferentes setores da sociedade civil possam objetivar as demandas por providências do Poder Público e contribuir para o esforço comunitário contra a insegurança. muito embora haja um discurso de que os números sejam sempre exatos. que ao longo da história procuraram dissimular alguns fatos e exibir outros tantos. Porém. ao afirmar que todo saber é político. para a população conhecer o que está acontecendo ao seu redor. Assim. com o objetivo de obter os resultados que interessam aos governos. mas porque todo saber tem em sua origem relações de poder. A sua 2 Ver Kuhn (1974) e Morin (2005) . mas sim como sínteses construídas a partir da observação das realidades. O uso da informação estatística possui um caráter estratégico porque permite dar significado a infinidade de dados que inundam a administração pública. Conseqüentemente. que vai desde a escolha dos temas a serem investigados até os conceitos. não apenas porque foi produzido pelo Estado. principalmente. A inexatidão da informação estatística tem sido comumente interpretada como uma forma de manipulação intencional. como referência ao hábito de utilização de produtos de beleza para disfarçar imperfeições e realçar pontos positivos. mais ou menos democráticos. é preciso se pensar para que servem os dados na segurança pública? Servem para. e. o que explica a existência de um grau aceitável e conhecido de erro. orientar a administração quanto aos caminhos que deve seguir no planejamento. também. as estatísticas não podem ser compreendidas como uma cópia da realidade. Esta prática é tradicionalmente chamada de “maquiagem”. nacionais ou internacionais. Servem. para que. que analisou a complexa relação entre os saberes e o poder.

mas principalmente pelo impacto emocional destas ou daquelas ocorrências em função de quem seja a vítima ou o local onde tenham ocorrido. sendo exercida “para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio” (Brasil. A propósito da insegurança. no título V (Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas). no site www. como sendo um dever do Estado e direito e responsabilidade de todos. pode ser ampliada por inúmeros fatores. que fornecem mais detalhes sobre o fenômeno que se pretende estudar.rj. mais de 5. Não dão conta da (in) segurança subjetiva. de crimes ou outros eventos ocorridos em todo o seu território4.gov. polícia rodoviária federal. cuja Constituição em vigor estabelece as competências relativas à segurança pública.16 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL importância não está apenas na divulgação da informação. em processo de liquidação. é o contexto que vai determinar o sentido dos dados. O Estado do Rio de Janeiro é o único do Brasil que publica mensalmente em Diário Oficial os registros de ocorrência em delegacias. Por outro lado. 1990 e 1998). . 3 Embora as Guardas Municipais sejam citadas nesse artigo no §8. em seu art. mas sua função é apenas proteger o que sobrou do patrimônio da Rede Ferroviária Federal. segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública. O processo de quantificação para que seja útil à interpretação da realidade deve ser complementado pelas informações qualitativas. A informação como instrumento de políticas públicas O Brasil é uma república federativa. o que tem a ver pura e simplesmente com a quantidade das ocorrências criminais. 144.br. a polícia ferroviária federal é citada. 2004) pelos seguintes órgãos: polícia federal. não estão listadas entre os órgãos responsáveis pela gestão da segurança pública. Enquanto a cobertura de registros é de 100% no Rio de Janeiro. cumpre sublinhar que os dados estatísticos das polícias dão conta apenas do que se pode chamar de (in) segurança objetiva. formada por 26 Estados. 4 Essas informações estão disponíveis na internet.institutodeseguranca. polícia ferroviária federal. mas na transformação da informação bruta em algo que possa servir para orientar ações futuras. polícia militar e corpo de bombeiros militares3. polícia civil. independentemente dos dados objetivos. Portanto.500 Municípios e um Distrito Federal. também conhecida como sentimento de insegurança (Roché. que. a média nacional é de 86%.

Em 2000. vinculado ao Instituto de Segurança Pública6. Trata-se de um órgão que pretende promover a integração entre a metodologia acadêmica de pesquisa e a avaliação institucional do trabalho policial. O ISP está vinculado à Secretaria de Estado de Segurança Pública. 2000). Juntamente com a divulgação no Diário Oficial dos dados estatísticos sobre a criminalidade no Estado. pesquisadores que estudam a temática da violência. gerenciar e executar a política de segurança do Estado do Rio de Janeiro. e desagregar os dados por Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP)5.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 17 Este trabalho teve início em 1999. em especial. Nesse sentido. foi criado o Núcleo de Pesquisa em Justiça Criminal e Segurança Pública (NUPESP). inspetores e oficiais de cartório) e autoridades policiais (delegados). criada em dezembro de 1999. a fim de produzir mapas de risco com indicação de pontos de concentração de ocorrências de crimes. além de desenvolver e coordenar estudos sobre a justiça criminal e segurança pública. como parte do Programa de Qualificação Estatística e Relação com a Mídia. que possam contribuir para o aprimoramento profissional dos policiais. elaborando o planejamento da força policial que mais atenda às necessidades da sociedade. incorporar conhecimento especializado no tratamento das estatísticas. considera-se que a realização de diagnósticos. mas tem receita própria e gestão descentralizada. Os objetivos principais foram dar transparência aos dados. de forma a constituir-se numa política pública de segurança. proveniente ou não de fontes policiais. critérios de avaliação e a elaboração de medidas de desempenho consistentes é um trabalho que pode auxiliar tanto para avaliação da qualidade desse trabalho. quanto possibilitar o gerenciamento profissional da polícia. a gestão dos recursos policiais e o planejamento das ações têm sido orientados apenas pela “experiência” e “bom senso” dos agentes (investigadores. tendo como finalidades principais produzir os relatórios estatísticos sobre o sistema de segurança pública estadual. criminalidade e segurança pública (Governo do Estado do Rio de Janeiro. para assegurar. . Tradicionalmente. Participaram deste projeto diversos setores da sociedade. o Instituto de Segurança Pública (ISP) passou a publicar 5 Trata-se da correspondência geográfica entre a área de um batalhão da Polícia Militar (responsável pelo policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública) e uma ou mais circunscrições de delegacias da Polícia Civil (exercendo as funções de polícia judiciária e apuração de infrações penais) 6 O Instituto de Segurança Pública é uma autarquia. a definição de metas.

tradicionalmente. • Crimes passíveis de intervenção mais direta do Poder Público. trabalham apenas com dados relativos aos crimes que estão sob sua responsabilidade direta. • Crimes contra o patrimônio com o uso de violência .institutodeseguranca. outras formas de análise são realizadas e encaminhadas às polícias. roubo a transeuntes. Estes itens foram selecionados. em 2005. Paralelamente. roubo e furto de veículos. pela Secretaria de Segurança Pública. Os profissionais que atuam no sistema de segurança pública.rj. o estupro. roubo de carga. voltada para a análise de delitos relacionados a manifestações de violências interpessoais.cit . por exemplo. Essas informações não são divulgadas para não prejudicar as atividades policiais. principalmente o homicídio e o latrocínio. a fim de dar conta à população não só do significado dos números em relação às metas estabelecidas para o setor. Dando continuidade ao Programa de Qualificação Estatística foi lançada a Série Estudos. Embora. extorsão mediante seqüestro. o que dificulta o trabalho de planejamento. roubo em coletivos.gov. roubo a banco. tais como roubo a transeuntes. op. Dossiê Mulher. No primeiro número. não esteja incluído entre estes crimes”8. abordou-se os problemas das violências sexuais e agressões físicas no Rio de Janeiro e no mundo. roubo a residência. roubo em coletivo e latrocínio. essa postura não permite perceber a regularidade com que determinados delitos ocorrem. por atender aos seguintes critérios: • “Crimes violentos. assim considerados internacionalmente. já que são utilizadas para planejar as ações operacionais das polícias. não haja nada de errado nisso. roubo e furto de veículos.18 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL o Boletim Mensal de Monitoramento e Análise7. como também do que eles representam em relação às séries históricas sobre os crimes que mais preocupam a população. de modo a mapear as áreas e horários com maior concentração de ocorrências registradas. embora mereça atenção especial. 7 Também disponível no site www. Os crimes analisados mais profundamente são: homicídio doloso. razão pela qual.popularmente chamadas de assaltos.br 8 Ver Boletim Mensal.

gastando provavelmente tempo equivalente ao necessário para se realizar o registro. além de permitir que a administração pública conheça os principais problemas do ponto de vista da população. no entanto. onde o Estado tem a obrigação de atuar. o que contraria a legislação e as orientações governamentais atuais. para que se possa falar no emprego de estratégias preventivas. muitas vezes. como forma de centralizar o acesso aos dados na administração central e com o objetivo de reduzir o arbítrio policial. ainda hoje o registro de ocorrência só é efetivado quando a polícia assim o deseja. Do caos às ordens: a disputa entre a “política do sigilo” e a transparência política O Registro de Ocorrência é o documento produzido pela Polícia Civil que poderá iniciar um inquérito policial. como no caso do recebimento de seguro de automóveis. Ressalta-se que a organização e análise dos dados são importantes por dois aspectos: permite que as instituições policiais possuam insumos de qualidade para realizar seu trabalho. o policial leva algumas horas convencendo a vítima a não registrar o crime. . constitui-se em uma forma de sistematização mais independente do que a memória individual dos agentes. que assegurem a qualidade e a padronização da informação e do trabalho policial. ou nos casos de crimes contra a vida. Os policiais consideram fundamental esta forma de trabalho. visando reduzir a vitimização de cidadãos e policiais. já foi verificado que. Conforme já descreveu Roberto Kant de Lima (1995). Os policiais argumentam que estariam poupando tempo do cidadão. apresenta duas grandes dificuldades: romper com a tradição policial de reter as informações e não compartilhá-las. a partir do cruzamento das informações existentes nos bancos de dados das polícias. quando houver indício da existência de algum crime. A padronização da informação faz parte de um esforço de estruturação e organização das instituições policiais.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 19 A identificação de padrões. como por exemplo. Trata-se de buscar formas de controle institucionais. Esta estratégia. e enfatizar o aperfeiçoamento da qualidade das informações recebidas e processadas pela polícia. para fazer jus a direitos. já que se sabe que somente é registrado aquilo que é considerado mais importante. No entanto.

que incluem um número variável de itens para detalhamento11. a média de elucidação de cinco delegacias analisadas foi de 4%.20 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL É comum criticar-se este tipo de prática. para não contabilizar um número alto de casos não resolvidos9. classificando-a como um indício do despreparo policial. foi apresentado um levantamento que indicava a média percentual de 2. que trata dos crimes e contravenções. o que explica. que a classificação dos eventos é distinta também entre as duas instituições policiais. contravenções. assim como títulos genéricos que permitem a inclusão de eventos. nos quais se incluem os crimes tipificados na legislação brasileira. 003 – trânsito. Embora essas hipóteses não mereçam ser descartadas. acredito. de julho de 2003 (base junho). No Relatório Final do Projeto Avaliação do Trabalho Policial nos Registros de Ocorrências e Inquéritos Referentes a Homicídios Consumados em Áreas de Delegacias Legais (2005). 005 – diversas). ainda. . na qual a desordem e a particularização do conhecimento são mecanismos fundamentais para a distribuição e manutenção do poder10. Enquanto as categorias utilizadas pela Polícia Civil são quase totalmente relacionadas à legislação vigente no país. 10 Tal prática foi observada por mim em outras instituições públicas. Observa-se que há uma maior ênfase ao que se denomina modus operandi dos delitos. contudo. não se restringe às classificações penais. As classificações existentes na Polícia Civil totalizam cerca de 1200 títulos. sua análise explicita mais o modo pelo qual a polícia entende os conflitos sociais. 004 – assistenciais. do ponto de vista policial. 9 No Boletim de Monitoramento nº. 11 Ver RAMOS (2002) e GUEDES (2003). a classificação adotada pela Polícia Militar trata os eventos de forma mais genérica. que esse aparente descaso faz parte de uma forma tradicional de organização e controle de informações.7% de elucidação para os casos de homicídio. que abrangem a legislação relativa a crimes. eventos que são denominados de “assistenciais” e os procedimentos considerados administrativos. As classificações de ocorrências na Polícia Militar são agregadas em cinco grandes conjuntos (001 – crimes. incluindo além dos crimes. Ao contrário. O registro de ocorrência. 002 – contravenções. tais como Cartórios de Registros Públicos e Arquivos Públicos (MIRANDA 2000 e 2005). na prática. que não se encaixam nas demais. 02. Há que se considerar. assim como do interesse em manter um número baixo de registros. a existência de um número maior de títulos de ocorrência do que as classificações de crimes na legislação.

a classificação de um fato do ponto de vista policial pode se diferenciar da classificação do mesmo fato por parte do Ministério Público. apenas. podendo ser alterado a qualquer momento pela autoridade policial. atualmente em fase inicial de . a Polícia Civil do Rio de Janeiro adotou como procedimento regular. com o objetivo de criar um sistema nacional e integrado de informações. Além do caráter correcional. podendo ter. ainda. Ao fazê-lo autonomamente. muitas vezes. mas a prática tem revelado que esta tarefa é feita pelos agentes e. o que caracterizaria uma situação de “maquiagem das estatísticas”. estes títulos não são conferidos pela autoridade policial. ainda que inconscientemente. podem também demonstrar. estar tentando evitar que sejam cobrados a melhorar a sua produtividade na investigação de tais delitos.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 21 Um outro ponto importante. Outra situação ainda comum no cotidiano das delegacias é a classificação de um fato em um título diferente para não contabilizá-lo na classificação correta. a classificação dos títulos dos registros de ocorrência deveria ser realizada pelo delegado. diz respeito à transitoriedade do título da ocorrência na Polícia Civil. Tratase de uma classificação inicial e provisória que atende ao relato feito no “calor dos acontecimentos”. o encaminhamento dos registros em que há divergência entre o título e o fato descrito para a Corregedoria. pretende-se com isso influenciar indiretamente a qualidade dos registros de ocorrências. que pode ser modificado ao longo da investigação. A rigor. uma outra classificação quando do julgamento pelo juiz. Desde 2004. com a possibilidade do acompanhamento de um fato desde o registro da ocorrência até o seu julgamento. trabalho que posteriormente foi adaptado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. Infelizmente. a discricionariedade do trabalho policial. quando a Assessoria de Planejamento (ASPLAN) começou um trabalho de digitação e organização de banco de dados. em face a novos fatos e/ou outras informações obtidas durante o inquérito policial. Neste sentido. esse processo ainda está longe de ser realidade no país. que por sua vez fica encarregada de conferir e cobrar as alterações necessárias. os policiais podem. Assim. em função de um maior rigor na análise dos dados e. Ressalta-se que tal prática pode acontecer independentemente de uma ordem superior. É importante lembrar que a organização dos dados na Polícia Civil teve início em julho de 1997. uma análise aprofundada deste ciclo pressupõe que todas as instâncias do sistema de justiça criminal divulguem periodicamente seus dados. Isso ocorre quando há a predominância de um problema numa região e os policiais decidem não registrá-lo mais. conseqüentemente. da observação de um maior número de erros.

com informações sobre criminosos. e ao fazê-lo. Este processo. informantes e até registros de ocorrências. também existente. Rio Grande do Sul. Entretanto. deve ser considerada um indicador importante do impacto das políticas públicas em culturas institucionais. os diferentes formatos de classificação não permitem muitas vezes a comparação entre os mesmos. Quando não há nenhuma resistência é porque provavelmente as mudanças não estão surtindo os efeitos esperados. que mantém arquivos particulares. com a retirada das carceragens e a melhoria do trabalho investigativo. saúde ou educação já são há algum tempo regularmente coletados e analisados nacionalmente. bem como da tecnologia necessária para tal. Seu objetivo foi modificar completamente a forma de operar de uma delegacia de polícia. A divulgação sistemática dos registros de ocorrência possibilita um diagnóstico preliminar. a partir da organização das informações e também da prestação de um serviço público de qualidade à população. são raras as secretarias de segurança no Brasil que dispõem de departamentos de estatística e coleta de dados. em detrimento de uma outra imagem. ater-se apenas ao que foi registrado retifica a imagem da polícia como uma instituição destinada ao combate ao crime. a resistência não deve ser encarada negativamente. através da redação e divulgação de manuais. Uma outra mudança importante no processo de qualificação estatística do Rio de Janeiro foi a criação do Programa Delegacia Legal. porém apenas recentemente. Em levantamento realizado pelo NUPESP em 2004. No que tange à organização das informações. A resistência dos policiais às tentativas de padronização se soma à resistência com relação à publicidade dos dados. da polícia mediadora de conflitos intracomunitários e de agência que articula a população a outras agências estatais. Só se pode falar de efetividade de uma política pública à medida que ela provoque impacto nas rotinas de uma instituição. não incluindo as informações no banco de dados da instituição. insumo necessário à proposição de políticas públicas. 12 Os dados referentes à economia. São Paulo e Minas Gerais. ao contrário. há um esforço contínuo de padronizar as classificações. no entanto. Rio de Janeiro. embora limitado. em 1999. No entanto. essa política sofrerá conseqüentemente críticas dos que não desejam a mudança. constatou-se que dos 26 estados apenas quatro informavam regularmente seus dados. ainda encontra resistências por parte dos policiais. os dados oriundos das polícias passaram a merecer tal tratamento. dos problemas que a população leva ao conhecimento da polícia. o mesmo não se pode falar sobre os dados do poder judiciário . No entanto.22 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL implantação no Brasil12. Como ressalta Beato Filho (2000).

Atualmente. 13 Segundo FERREIRA (2004). ou seja. Atualmente. Destaca-se que esses dados são extremamente valiosos. que está analisando a situação dos bancos de dados das Polícias Civil e Militar visando a sua integração. os dados dos atendimentos realizados pela Polícia Militar. . hierarquiza e valoriza eventos. destacando que o sistema de registro trabalha conjugado a um sistema classificatório implícito. o trabalho "assistêncial" que é considerado menos nobre. que toma por referência a experiência vivida em anos de trabalho policial em uma outra classificação. visando à ampliação do conhecimento relativo aos fatos relacionados à segurança pública. O principal problema em transformar o conjunto de ocorrências em estatística está exatamente na dificuldade de transformar a classificação policial. 36% como fatos com procedimentos administrativos ou assistenciais (sem DP) e. 14% como atendimentos frustrados (não chegaram a se iniciar. contabilizados juntamente com procedimentos administrativos que também não findam nas DP13. seja através do serviço de emergência (190). está em andamento um projeto de Integração de Bancos de Dados da Polícia Civil. embora constitua 36% das atividades cotidianas. com financiamento da União Européia. a estatística. seja mediante o Talão de Registro de Ocorrência. mediante o cruzamento das informações14. desvaloriza outros e obriga à construção de liames entre o vivido e o registrado” (2003:7). “o sistema classificatório das ocorrências dirige o olhar para determinadas direções.obrigatória ou por opção das partes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 23 É essa imagem da polícia que o projeto de integração das informações entre as duas corporações e as Guardas Municipais pretende apresentar. cujos critérios lhe são exteriores. pretende-se promover a integração com as Guardas Municipais e a Justiça Estadual. 50% das ocorrências atendidas pela PMERJ classificam-se como condução à DP . construído e transmitido pela ação e observação do trabalho dos “mais experientes”. Numa segunda fase. 14 Este projeto é parte de um convênio com a Secretaria Especial de Direitos Humanos. a Secretaria de Segurança Pública e o Instituto de Segurança Pública. genéricos e pretendem alcançar uma universalidade. Simoni Lahud Guedes fez uma instigante análise sobre o sistema classificatório das ocorrências na Polícia Militar (2003). da Polícia Militar e das Guardas Municipais do Estado do Rio de Janeiro. não são sistematizados e analisados. Com eles. Assim. é possível observar diversas práticas relativas ao que se chama "feijoada".

evitando-se os monopólios. inconsciente. Publicidade dos dados e o sentimento de (in) segurança A descrição de como os dados têm sido produzidos e analisados é o ponto de partida para a discussão de como são construídas algumas representações a respeito da insegurança e o medo da violência e sua relação com a mídia no Rio de Janeiro. o que equivale à possibilidade de constituir e gerir fontes de informação. produzido e reproduzido por um grupo através de suas práticas. Esse desafio necessita ser enfrentado para que se possa efetivamente compreender que a relação entre informação e democracia é biunívoca.24 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Tal dificuldade se revela à medida que estamos tentando construir modelos de tradução que possibilitem a comparação entre os fatos registrados pela Polícia Civil. já é possível observar que há algumas divergências de classificações entre as duas instituições. uma não pode existir sem a outra (FERRARI. abrangendo os meses de junho. com os fatos registrados pela Polícia Militar. que atende a seus chamados. Foram selecionadas inicialmente 141 reportagens publicadas em jornais de circulação diária. relativos ao monitoramento 15 O conceito de tradição é entendido aqui como um determinado “padrão”. maio. a “política do sigilo” (1989: 13) corresponderia a uma velha tradição15 portuguesa que pretende esconder e sonegar os documentos. no que se refere à prestação de contas do uso de verbas públicas. Numa análise preliminar dos eventos. 2000). setembro e outubro de 2003. A adoção da transparência como modelo de ação política tem sido apreciada como discurso no país. chamada de “política do sigilo”. independentemente do tempo já decorrido. É preciso refletir também que esta relação deveria assegurar o direito-dever de informar. aonde o cidadão vai apresentar sua queixa. Entretanto. julho. o que corresponderia ao acesso a uma pluralidade de fontes informativas diferenciadas e de qualidade. ou seja. . este modelo contrasta com um outro. Sua característica principal é a expressão de um certo temor: os documentos públicos quando analisados podem significar censura a uma má administração. evitando-se as informações manipuladas por má fé e/ou por ocultação de fatos. o que certamente revelará o que é valorizado e desvalorizado pelas duas polícias. bem como o direito de ser informado. observável a partir das práticas rotineiras de funcionários públicos. junho e julho de 2004. das quais foram 38 selecionadas. em especial. fevereiro. Segundo José Honório Rodrigues.

e de Ciências Sociais. 16 O levantamento foi realizado pelos estudantes de Comunicação Social. escolaridade. os critérios de renda.000 pessoas. Botafogo. A seleção dos jornais ocorreu em função da participação de seus repórteres durante as entrevistas coletivas. “Rio de Janeiro” (Jornal do Commercio). Copacabana. Bonsucesso. O Dia. tendo sido realizada em nove bairros (Bangu. levando-se em conta o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de cada bairro. Com exceção do Jornal Extra. Esse silêncio não pode ser considerado casual. “Cotidiano” (Folha de São Paulo). Foram aplicados 400 questionários em cada bairro a partir de uma amostra por cotas de gênero e idade. Uma primeira constatação diz respeito ao espaço dado pelos jornais ao tema. Méier. Um outro ponto importante diz respeito aos jornais paulistas que muitas vezes dão um maior destaque aos fatos ocorridos no Rio de Janeiro e pouco falam sobre os eventos ocorridos em São Paulo18. os demais apresentaram suas matérias em seções chamadas de “Dia a Dia” / “Nosso Rio” / “Polícia” (O Dia). Andréia Soares Pinto. “Cidade” (O Fluminense e Jornal do Brasil). Pavuna. em fase de conclusão17. Misse e Miranda (2000). cujas matérias sobre as estatísticas aparecem no caderno denominado “Geral”. O Fluminense. quando foram apresentados os dados estatísticos. totalizando 2. Extra. 18 Ver também RAMOS E PAIVA (2005) .SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 25 dos dados referentes aos registros de crimes no Estado16. contando com a presença não só dos principais jornais fluminenses (O Globo. Bárbara Tiago Bono e Gabriel Souza. Participaram desse projeto os pesquisadores do ISP: Ana Luísa Vieira de Azevedo. A escolha deste recorte temporal está associada com a cobertura da imprensa durante a divulgação dos Boletins Mensais de Monitoramento e Análise. Santa Cruz). “Rio” (O Globo). “Cidades” (O Estado de São Paulo). pelo Instituto de Segurança Pública. taxa anual de homicídios e população. Muito menos se pode imaginar que a principal metrópole do país seja um paraíso na terra. Renato Coelho Dirk. Esta localização certamente não é casual e indica uma associação entre a representação do cotidiano da vida urbana ao aumento da violência e do crime. Lagoa. Eliane dos Santos da Luz. estagiários do ISP. conforme apontam Kant de Lima. o que já foi amplamente analisado pela ciência social brasileira. bem como de dois jornais paulistas (O Estado de São Paulo e A Folha de São Paulo). Jornal do Brasil e Jornal do Commercio). Campo Grande. Foram incluídas ainda algumas análises dos dados levantados pela pesquisa “Avaliação do sentimento de insegurança nos bairros da cidade do Rio de Janeiro”. 17 A pesquisa foi financiada pela FAPERJ.

” (2003: 35). ou seja. João Trajano afirma: “despojada de maior consistência analítica. consistente e informada do quadro em que os eventos relatados devem ser colocados. . no entanto. o que impossibilita qualquer tipo de comparação com os demais estados. se restringem a acionar os mecanismos afetivos de produção de notícia na veiculação de casos envolvendo a violência. o mais relevante seria a forma de abordagem. O espaço dado ao crime não é o único objeto interessante do ponto de vista analítico. ela faz parte dela. É gritante a ausência da contrapartida mais ponderada de uma exposição ainda que eventual. caos urbano e falta de controle por parte do Estado. portanto. 19 Sobre o tema ver BENEVIDES. Ela constrói um discurso e/ou uma imagem do transgressor como um Outro que é estranho. RONDELLI. como se o passado recente tivesse sido diferente deste quadro. 1999. CARDIA. e a mídia escrita. crimes contra a vida etc. a compreensão do modo como essas modalidades discursivas são construídas. Conforme nos assinala João Trajano Sento Sé. MINAYO. a quem se deve temer e. Como conseqüência os signos da violência passaram a ser os fatos que se apresentam sob a forma de desordem. em geral. em particular.26 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL já que é pública a posição da política de segurança pública do estado de São Paulo. contrária à divulgação de informações relativas aos problemas locais. 1994. tanto do ponto de vista acadêmico. Questionando a qualidade das abordagens a respeito da segurança pública. a imprensa. vivendo quase na animalidade. que deixa de ser exclusividade das classes pobres e se estende às classes médias e elites da cidade. expresso pelo discurso do “aumento da violência” a partir da década de 1980. É certo que a mídia não cria a realidade. os dados são divulgados pela internet de forma agrupada. 1981. que não pertence à sociedade. Atualmente. afastar do convívio social19. Este fato. que se constitui em torno da representação de um perigo social que poderia contaminar o país. 1997 e 2000. Isso coincide com o período de democratização do país e com a expansão do ‘banditismo”. A visibilidade dada à criminalidade do Rio de Janeiro em detrimento da existente em São Paulo é apontada por Michel Misse (1999) como a estratégia de construção de um “paradigma da violência carioca”. quanto jornalístico.. mas a falta de consistência analítica a torna um instrumento forte para a divulgação e reprodução dos atos de violência. tais como crimes contra o patrimônio. tem sido pouco analisado.

em um fenômeno de caráter polissêmico. Esta pode ser uma forma de expressar o descontentamento diante da realidade e até de deflagrar processos de renovação social.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 27 Essa visão conservadora predomina nas análises sobre a violência. a partir do ponto de vista da dinâmica cultural de uma dada sociedade. da marginalização do pequeno criminoso até a repressão militar de conflitos trabalhistas.1% disseram que exageram os fatos ocorridos. 67. trata-se de compreender o sentido que tem a violência. de uma disputa não “em favor da verdade”. a lei. mas sim dos efeitos de poder que se obtém ao se classificar o que é falso ou verdadeiro. A mídia é uma das instituições políticas. Por outro. constituindo-se. a circulação e o funcionamento dos enunciados” (1990: 14). assim.5% disseram confiar na Polícia Civil e apenas 29. a forma de representar novas identidades culturais ou ressimbolizar a situação de marginalidade.3% falaram que há uma diminuição dos fatos ocorridos. enquanto 38. tal como a universidade e a polícia. que produzem e transmitem verdades. assim. 48. a opção para reivindicar exigências sociais justas. Nos nove bairros da cidade do Rio de Janeiro pesquisados. e 21. A credibilidade desfrutada pelos meios de comunicação é um dos dispositivos de sua influência na construção dos discursos.6% afirmaram que os meios de comunicação refletem bem os fatos ocorridos. para o qual as análises normativas e morais não são apropriadas. portanto. a repartição. 30. conforme podemos observar a partir dos dados levantados na pesquisa “Avaliação do sentimento de insegurança nos bairros da cidade do Rio de Janeiro”. no sentido que Foucault definia como “um conjunto de procedimentos para a produção. .5% dos entrevistados afirmaram confiar nos meios de comunicação. a violência aparece como expressão limite de articulações culturais dinâmicas. Quando perguntados se o que sai na mídia sobre a criminalidade no bairro. que sustenta não ter a violência necessariamente uma conotação negativa. surge como uma realidade alheia e hostil à realização mais plena das tentativas democratizantes da sociedade em todos os níveis. dando. Ou seja. a violência no Brasil pode ser pensada a partir de uma dupla perspectiva: “por um lado. Nesse sentido.3% confiam na Polícia Militar. tendo como uma rara exceção o trabalho organizado por PEREIRA et al (2000). ou suas formas de manifestação. Trata-se. início a uma tentativa de superação da exclusão social” (PEREIRA et al. que se contrapõe à baixa credibilidade das instituições policiais. 2000:14-15).

só serviriam para reforçar as sensações de perigo e de insegurança. que geralmente partem do mesmo pressuposto. tomando como referência a manchete e o subtítulo da notícia. 19. durante uma entrevista coletiva20.1% dos entrevistados afirmaram que o destaque é grande. .3% das pessoas disseram que a atuação do crime organizado é responsável pelo destaque na mídia. 35. A recepção de uma mensagem veiculada pela imprensa. Estão em destaque as notícias relativas ao mesmo mês.5% apontaram que a cidade tem fama de ter uma polícia violenta. na medida em que transmite uma imagem de sinceridade e neutralidade. o que também o torna suspeito. A credibilidade maior dos meios de comunicação do que das instituições policiais assegura uma maior influência no público. cujo conteúdo seja proveniente de informações policiais. Quanto às razões para esse fato. 18. mas também entre os próprios jornalistas. 20 Essa estratégia vigorou durante o período de junho 2003 até junho de 2005. já provoca uma desconfiança a respeito de sua veracidade. A análise de algumas manchetes originadas a partir da apresentação pública de dados estatísticos permite fazer algumas considerações importantes a respeito da construção de narrativas sobre o crime (CALDEIRA. não só nos leitores. embora técnico. o fluxo de comunicação já tem seu início comprometido. 3.28 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Quando perguntados sobre o destaque dado às notícias sobre criminalidade no Rio.4% apresentaram outros fatores. 23. contra 22. que teriam a função de (re) ordenar o mundo a partir da repetição de histórias que. 77. Nesse caso. no quadro a seguir. optou-se por selecionar apenas as matérias que apresentaram de formas distintas as estatísticas de um mesmo período.1% responderam que isso se deve à importância da cidade no país. A isso se soma o fato de que os dados oriundos de fontes policiais são analisados por um órgão estatal. Considerando que a divulgação dos dados oficiais era feita mediante a apresentação de um resumo do Boletim Mensal.7% alegaram que a cidade tem fama de violenta. o que não ocorreria com as instituições policiais.9% que discordaram dessa idéia. 2000). por sua vez.

em comparação com o do ano passado Número de mortes em confrontos com a polícia aumenta quase 50% Estado comemora queda no número de carros roubados e fim dos assaltos a bancos 08/07/2003 O Fluminense Nova metodologia para analisar índices Roubos a lojas crescem Cai o número de assaltos. foram 917 civis mortos em confrontos. homicídios e latrocínios Estatística da violência em junho tem queda em 7 dos 10 índices principais A asfixia vai continuar 08/07/2003 22/07/2003 O Dia Jornal do Commercio O Globo 22/07/2003 29/08/2003 Extra 29/08/2003 29/08/2003 Jornal do Commercio O Fluminense Mais latrocínio e menos Secretaria de Segurança divulga assaltos e roubo de carro índices apurados em julho Aumenta número de roubos a lojas e residências no Estado Só índices de homicídio doloso e assalto a residência sobem Roubos e assassinatos crescem Secretaria de Segurança Pública considera gravíssima a situação em Niterói Violência: Em agosto houve queda em 8 dos 10 crimes monitorados Estatísticas de criminalidade no Rio indicam aumento de homicídios e ataques a residências no Estado 23/09/2003 Jornal do Commercio Jornal do Brasil 23/09/2003 17/10/2003 Folha de São Paulo Polícia do Rio mata mais do que em 2002 De janeiro a setembro de 2003. de 10 modalidades comparadas. apenas 3 tiveram alta em um ano Três tipos de crime tiveram aumento e sete caíram em maio Junho teve menos crimes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 29 Quadro 1: Cobertura jornalística das estatísticas policiais Data 08/07/2003 Jornal Jornal do Brasil Manchete Cresce o número de roubos no Estado Subtítulo Assaltos a pessoas comércio e residências são responsáveis pelo aumento da sensação de insegurança Segundo dados do Estado. incidência de 8 tipos de crime sobre queda ____________ 17/10/2003 O Globo Violência: índices caem. mas assalto a casas sobe .

nove dos 10 delitos considerados mais importantes sofreram redução em janeiro com relação ao mesmo período de 2003 Número de assaltos a residência é o único a não cair entre os 10 tipos de delito Números são menores do que os de março de 2003. Jornal O Estado de São Paulo. Mortes em confronto aumentam 80% Nove itens analisados apresentam queda ____________ Pelos números oficiais. Jornal do Brasil. Jornal Folha de São Paulo.30 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 14/11/2003 O Globo Estatística oficial aponta redução na criminalidade Índice de violência cai. mas estão em alta 14/11/2003 Jornal do Commercio Extra O Fluminense 18/02/2004 18/02/2004 18/02/2004 O Dia Perigo dentro de casa 21/04/2004 O Globo Estatística aponta redução em oito índices de criminalidade no Estado Em dez modalidades. Jornal O Fluminense e Jornal do Commercio . Jornal Extra. mas assalto ao comércio aumenta Caem os índices de violência no estado Secretaria divulga nova queda na criminalidade Nove crimes caíram. Jornal O Dia. invasão de casas é o e latrocínios no Rio crime tido como mais problemático na cidade Sobem índices de dois crimes Caem números de oito tipos de crimes 18/05/2004 18/05/2004 Roubos a pedestres e seguidos de morte cresceram mês passado Latrocínio confirma tendência de aumento e assaltos a pedestre têm 361 casos a mais ____________ 18/05/2004 Folha de São Paulo Números de latrocínios e de roubos a pedestres aumentam no Rio Fonte: Jornal O Globo. apenas latrocínio cresceu Oito crimes registraram queda no mês de abril Crescem roubos e latrocínio 21/04/2004 Jornal do Commercio Extra Jornal do Brasil O Estado de São Paulo O Dia O Globo Estatística mostra queda ____________ ____________ 18/05/2004 18/05/2004 18/05/2004 Sobe número de assaltos Apesar disso.

É sabido que não se pode falar de violência e sim de violências.). op. os jornais possuem uma postura ambígua. portanto. Estado paralelo etc. . cit. o que contradiz a proposta de Machado da Silva (1995 e 1999). e sim pela sua organização social e suas redes de sustentação. em especial as que se referem aos crimes econômicos (lavagem de dinheiro. questões distintas que só podem se tornar sinônimas quando se considera que na interpretação dada pela imprensa há uma mensagem oculta de que o Estado deve atuar para aniquilar os conflitos. De modo geral. Essa associação provoca uma série de equívocos. não chegaria à conclusão alguma. de que a criminalidade não pode ser compreendida apenas pela perspectiva de referência ao Estado (ausência do Estado. 21 Sobre a relação entre os crimes econômicos e a mídia ver Miranda (1999) e (2002). Violência e criminalidade são. Afinal. ora se referem aos números como a realidade nua e crua.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 31 Pobre do leitor que se utilizar de diversas fontes para estar bem informado! Se considerasse as manchetes publicadas em julho de 2003. ora insinuam que os números não são reais porque seriam maquiados. há uma confusão entre as noções de criminalidade e violência utilizadas propositadamente como sinônimas. que não correspondem à totalidade de eventos ocorridos no mês anterior. Nota-se ainda que a criminalidade aparece nas notícias como um conjunto de práticas (roubos e homicídios) resultantes da ineficácia da ação repressiva da polícia. integração e harmonia social (MISSE. e não apenas o papel do Estado. devendo ser entendidas como um conjunto de representações de uma idealidade negativa que se opõe às idéias de paz. que enfatizam o fato de que estamos trabalhando com os registros de ocorrência. numa concepção unitária e homogeneizadora da vida social. restaurando a ordem. A associação das noções de criminalidade e violência acaba também por obscurecer outras modalidades criminosas.). segurança. O que está em jogo é principalmente o questionamento sobre os mecanismos formais e informais de controle social. já que duas se referem à queda e outras duas se referem ao aumento dos crimes. consenso. Uma segunda observação diz respeito à representação construída sobre as análises elaboradas pelo NUPESP. relativas aos dados divulgados sobre o mês de junho de 2003. em primeiro lugar. corrupção. sonegação)21. o que teria acontecido com os registros de crime no estado? A primeira observação que podemos fazer é que.

Uma última observação corresponde à abordagem dada pelos diferentes órgãos de imprensa aos números. as narrativas denuncistas podem ainda reificar preconceitos e a definição de certos lugares e grupos como perigosos. dá maior ênfase a dados negativos. já que tornam plausível a idéia de que o leitor será mais uma vítima. Ao longo de nossa análise. o uso do presente significando um processo já ocorrido no passado. o Jornal do Commercio foi o único que informou os dados de maneira íntegra. que não favorece a reflexão crítica. ao mesmo tempo em que o faz acreditar que está lidando com a realidade (SERRA. através do subtítulo. o que faz com que o leitor tenha de imediato uma má interpretação dos dados.32 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL A terceira observação se refere ao uso constante dos verbos no tempo presente do modo indicativo. que seria a técnica mais adequada em face do conteúdo abordado. uma abordagem que privilegia a denúncia como forma discursiva. Já jornais como O Globo e Extra. do mesmo grupo editorial. não deixando de divulgar. as narrativas que enfatizam o crime fazem o medo proliferar. 1980). mesmo que não se tenha provas da veracidade da mesma. Embora seja possível. como revelam os dados levantados pela pesquisa “Avaliação do sentimento de insegurança nos bairros do Rio de Janeiro”. Ao contrário do que se pensa comumente. Assim. a leitura de um jornal pode conformar o leitor à condição de um sujeito receptor acrítico de informações. os dados relevantes em alta. A denúncia funciona como uma espécie de acusação. de forma a não gerar uma opinião ou interpretação direta sobre o assunto. observamos que o Jornal O Dia. valorizandoos. o que do ponto de vista gramatical. valorizam os dados de delitos em queda. significa que o processo ocorre simultaneamente ao momento em que se fala. em detrimento da descrição. em seus títulos. . Podemos concluir que há de modo geral. essa forma discursiva propicia ao leitor a impressão de que aquele fato continua contecendo na mesma intensidade. O jornal O Fluminense. revelando os números na íntegra apenas no decorrer do texto. O Jornal do Brasil destaca em suas manchetes somente dados de delitos em alta. Por fim. onde os fatos relatados equivalem a uma imputação de erro ou culpa a outrem. na Língua Portuguesa. por sua vez. apresenta em suas matérias os dados positivos dos índices. Essa abordagem privilegia a construção de um discurso homogêneo.

agitado. englobando termos e expressões espontâneas. Condições do local: deserto. 2004. As categorias da tabela agrupam informações obtidas através da pergunta aberta “O senhor saberia reconhecer um lugar perigoso? Quais suas características?”. pouco movimentado. desocupadas. drogados. trânsito parado ou parada em sinais. ambiente suspeito. Ocorrência de crimes e atos de violência: tiroteio. Presença de elementos suspeitos: pivetes. estranhas.00% Fonte: ISP. com becos. 4. assassinatos. 2. de acordo com os seguintes critérios: 1.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 33 Tabela 1: Características de um Lugar Perigoso Absoluto 1) Condições do local 2) Proximidade a outros lugares considerados perigosos 3) Sem policiamento 4) Lugares específicos 5) Todo lugar 6) Presença de elementos suspeitos 7) Ocorrências de crimes e atos de violência 8) Presença do tráfico de drogas 9) Com policiamento 10) Outros Total 1473 511 335 285 240 189 161 90 9 135 3428 % 43% 15% 10% 8% 7% 6% 5% 3% 0% 4% 100. comunidades carentes. hostil. pessoas armadas. desempregadas. pobres ou sem recursos. matagais. de má índole. pesado. mendigos. 3. . pessoas suspeitas. pesquisa “Analisando o sentimento de insegurança nos bairros do Município do Rio de Janeiro”. assaltos constantes. bandidos. Proximidade a outros lugares considerados perigosos: favelas. escuro. lugares desocupados. mal iluminado.

Os discursos produzidos tentam também reorganizar o mundo como uma ordem social homogênea e estática. incidindo sobre o sentimento de insegurança. Embora seja difícil mensurá-lo. do ponto de vista individual. Então. se os dados da criminalidade não incidem diretamente sobre o sentimento de insegurança e se as estatísticas são reconhecidamente imprecisas. em contraposição às experiências vividas em crimes. se associaria a uma sensação difusa de angústia ou de ansiedade que permaneceria para além dos acontecimentos e que não possuiria um objeto definido. O sentimento de insegurança é caracterizado. o sentimento de insegurança não é irreal ou imaginário. A forma simplista. Configura-se. deste modo. Sem policiamento. onde se teme o que se considera ser um grande perigo. O sentimento de insegurança. como essas narrativas são construídas acabam por reforçar modelos segregacionistas. 2003. O medo é uma construção social (DELUMEAU. que desorganizam o mundo. posto que tentam eliminar as ambigüidades e complexidades do processo de administração e controle de conflitos. 8. 25 . muitos de ordem subjetiva. A análise dos índices de criminalidade não serve para explicar o medo e o sentimento de insegurança22. e até caricatural. Presença de tráfico de drogas.34 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 5. pelo medo e a preocupação com a ordem. 1990). 7. um sentimento que resulta da crença de que não há risco ou perigo iminente. além do conhecimento sobre o número efetivo de ocorrências criminais. outros fatores. não se levando em conta os riscos mais freqüentes. caberia perguntar por que elas seriam informações relevantes para a construção de políticas públicas de segurança? 22 Ver Sento-Sé. que a segurança é. 6. Existem. Lugares específicos: exemplos de nomes de locais considerados perigosos 9. Com policiamento. no nível idealtípico do medo. segundo Roché (1990 e 1998). 10. Todo lugar: sem especificar condições. portanto. Outros: termos e expressões muito específicos.

É comum que policiais (civis ou militares) procurem por informações que sabidamente não são regularmente coletadas pelos próprios policiais. o envolvimento dos agentes na busca pela qualidade da informação. é sabido que muitas vezes somos seduzidos por programas de computador que revolucionariam o mundo!.. Reforça-se. e não particularista. aumentar a possibilidade de cobrança por resultados. mas ele tem que saber para que e como tratar as informações. como tem sido a tradição. provocam diversos questionamentos. que pode manipular mais informações em menos tempo. a utilização dos dados como base para a implementação de planejamento nas políticas de segurança de caráter universalista. No entanto. se soubéssemos o que fazer com eles. da delinqüência e das violências. e tampouco uma solução mágica para resolver o problema da criminalidade.. que só podem ser respondidos se a informação estiver disponível no banco de dados. assim. por conseqüência. Na medida em que são divulgados. É claro que a tecnologia facilita em muito o trabalho do analista criminal.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 35 Por que é preciso divulgar e analisar os números da criminalidade? É relevante a divulgação dos dados estatísticos por duas razões principais: dar visibilidade ao trabalho policial e. a análise criminal está diretamente relacionada com o enfoque teórico que orienta o recorte dos dados. pretendo ressaltar que antes de se iniciar a escolha desta ou daquela tecnologia. não basta somente cobrar resultados das polícias e demais órgãos do sistema de justiça criminal. é necessário se definir o que se pretende com ela. mas não o são. se as informações não forem coletadas – nos atendimentos e investigações – e informatizadas. “em termos objetivos (diminuição de riscos e perigos reais) e subjetivos (diminuição do medo)” (SILVA. E não há banco de dados de informações policiais. Na prática. a idéia de que a segurança pública é um serviço que deve ser oferecido pelo Estado a todos os cidadãos de modo racional. Considero que a divulgação de dados é o primeiro passo deste processo. 2003:1). pela população e pelo poder público. pois provoca. bem como possibilitar. Como resolver essa contradição? . como qualquer análise científica. ou qualquer outro. Com essa afirmação. mesmo que indiretamente. Tudo isso pode parecer obviedades. mesmo involuntariamente. Outro aspecto a considerar é que. É preciso que se considere que a análise criminal não é uma novidade.

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Devolver a pergunta é uma possibilidade concreta e imediata para a qualificação das informações contidas nos registros policiais. Outra possibilidade é a produção de relatórios analíticos, que originarão uma série de questionamentos sobre a validade das suas conclusões. Essas duas estratégias permitem indicar que jamais será possível a qualificação da informação policial, sem que os policiais se envolvam diretamente no processo. O resultado dessas ações pode ser constatado pela supressão e/ou redução de críticas dos pesquisadores aos dados do Rio de Janeiro23. Assim, a divulgação dos dados atende simultaneamente a dois propósitos: é uma prestação de contas à sociedade, e é também um instrumento poderoso de controle interno, já que permite identificar os gargalos da atuação policial. O segundo passo diz respeito à sensibilização dos policiais da importância e utilidade da análise criminal. Consideramos que antes de ensinar as técnicas de manipulação de softwares estatísticos e de geoprocessamento, é necessário que os policiais percebam o quanto essas ferramentas podem contribuir para a profissionalização das polícias. Nesse sentido, o ISP realizou I Encontro de Qualificação Estatística e Análise Criminal e a I Jornada de Qualificação Estatística e Análise Criminal, em 2004, voltado para os policiais militares e civis. Nos dois eventos, discutiu-se a necessidade do fortalecimento da integração entre as polícias; a necessidade de adequação das tecnologias à análise da dinâmica criminal; apresentação dos órgãos, produtos e serviços disponíveis; a importância do uso técnico das informações e recursos disponíveis atualmente na melhoria de qualidade dos serviços de polícia judiciária e dos serviços de polícia de preservação da ordem pública, tomando por base estudos de casos, onde delegados e oficiais apresentaram suas experiências concretas
23 Em abril de 2005, o ISP organizou o I Encontro Sistema Estadual de Estatísticas de Segurança Pública e Justiça Criminal, que teve como objetivo apresentar a situação do sistema à época, bem como as mudanças então previstas, possibilitando assim sua avaliação e a discussão de um novo modelo de divulgação dos dados, tendo em vista a incorporação de sugestões para a sua melhoria. Como conseqüência, foi criado o Grupo de Trabalho Sistema Integrado de Informações Policiais, formado por representantes de importantes núcleos de pesquisa da área, de várias instituições, a saber: Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes - CESeC; DataBrasil Ensino e Pesquisa/UCAM, Grupo de Estudos Estratégicos - GEE -Coppe - UFRJ, Laboratório de Análise da Violência - LAV/UERJ, Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana - NECVU/UFRJ, Núcleo de Pesquisa das Violências - NUPEVI- UERJ, Instituto de Pesquisa do Rio de Janeiro - IUPERJ Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro - SMS, Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas - NUFEP - UFF, Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli - CLAVES, além de contar com a presença de uma consultora da SENASP. Ver também SOARES et al (2005)

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e os resultados alcançados no uso das informações e recursos técnicos atualmente colocados a sua disposição. A análise criminal que é desenvolvida atualmente pela equipe técnica multidisciplinar24 do Instituto de Segurança Pública, através do Núcleo de Pesquisa em Segurança Pública e Justiça Criminal (NUPESP), tem como objetivo realizar estudos analíticos e sistemáticos tomando por base as relações entre as ocorrências registradas e os padrões e tendências (aumento, estabilização, redução) dos delitos em diferentes regiões do Estado25. Outra linha de atuação está direcionada aos métodos analíticos de diagnóstico, monitoramento e avaliação da própria performance das polícias, em especial, ao acompanhamento da redução da letalidade policial e da vitimização policial. Com base nas discussões realizadas em 2004 e com as demandas e obstáculos encontrados pela equipe do NUPESP, que identificou um aumento de demanda por dados pelos oficiais superiores, a mídia e as instituições de pesquisa, observou-se também a sub-utilização dos dados criminais em uma dimensão micro, ou seja, pelas unidades de segurança através dos responsáveis pelo planejamento. Desta forma, foi elaborada uma proposta de capacitação dos policiais militares no uso de técnicas de análise quantitativa e fundamentos metodológicos para traçar metas e mensurar resultados, voltada para o aperfeiçoamento do planejamento estratégico26. Ainda não se pode prever os resultados do curso, que será desenvolvido ao longo de 2006, mas pode-se afirmar que a aproximação entre profissionais da segurança pública e da comunidade acadêmica27 será extremamente profícua para a construção efetiva de políticas públicas para a segurança, voltadas para a prevenção dos delitos e para a redução da violência.
24 A equipe é composta por policiais civis, militares e pesquisadores, cuja formação é variada (cientistas sociais, geógrafos, estatísticos), bem como a titulação (especialistas em políticas públicas, mestres e doutores). 25 As variáveis utilizadas geralmente são dia da semana, hora, local, perfil da vítima, perfil do autor, modus operandi 26 O curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal foi desenvolvido com recursos da União Européia. 27 Outras parcerias já têm se mostrado exitosas no Rio de Janeiro: com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, no Curso de Extensão em Segurança Pública, que funciona desde 1999; com a Universidade Federal Fluminense, no Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública, criado em 2000.

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Não se pretende com a análise criminal medir qual é a quantidade de crimes que ocorrem, o que, aliás, é impossível, pode-se apenas estimar a subnotificação dos crimes que varia em função do seu tipo28. O que a análise criminal pode contribuir é no fornecimento de subsídios para ações do poder público, seja na dimensão tática, para que os policiais possam realizar melhor as investigações e o patrulhamento, seja na dimensão estratégica, de modo que os gestores e formuladores das políticas possam realizar projeção de cenários. Por último, urge salientar que a análise criminal não é um fim em si mesma, é apenas a primeira etapa para o desenvolvimento de políticas públicas e para a profissionalização das polícias, restando ainda muito trabalho a ser feito.

28 Crimes sexuais tendem a ser os menos registrados e informados, enquanto o roubo de veículos tem a menor subnotificação por causa do seguro

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deve-se definir: a. criminalidade e segurança pública têm sido cada vez mais estudados. . Neste sentido. introduzindo os usos e problemas metodológicos de uma pesquisa. baseado no rigor de certas exigências científicas.42 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL COLETANDO E EXTRAINDO INFORMAÇÕES DOS BANCOS DE DADOS CRIMINAIS: A LÓGICA DAS ESTATÍSTICAS DAS ORGANIZAÇÕES POLICIAIS Doriam Borges Introdução Nos últimos anos os fenômenos relacionados à violência. organizar. b. a motivação = importância associada ao trabalho. com o intuito de abordar este tema. o objetivo = qual a finalidade específica do trabalho. ainda existem algumas dúvidas no que se refere às abordagens e os métodos mais adequados para uma análise criminal. assim. as hipóteses a serem verificadas. Metodologia de Pesquisa A) Conceitos da Pesquisa Científica A estatística é um conjunto de ferramentas matemáticas que permitem coletar. a importância da gestão da informação no desenvolvimento de políticas públicas. discutiremos o estado das artes das pesquisas e bases de dados deste fenômeno no Brasil. c. auxiliar na tomada de decisões. como instrumento para a construção do conhecimento do tema. o objetivo principal desta discussão é apresentar de uma forma simples a idéia da pesquisa na área da violência. Na pesquisa científica. No entanto. e a criação e manipulação de ferramentas analíticas para o fenômeno da violência e criminalidade. Deste modo. descrever e analisar dados e.

o próprio observador impõe vícios na coleta. Na coleta de dados sobre uma população. por exemplo. ao invés de selecionar pessoas de todas as faixas etárias. Quanto maior o tamanho amostral. O erro do método está basicamente associado ao fato de usar um método errado para medir o que se quer.) para a boa coleta dos dados. na verdade. • decidir finalmente entre censo e amostragem. No censo. de material. assim.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 43 Além disso. Há perda de precisão neste último caso que está diretamente ligada ao tamanho da amostra tomada. duas podem ser as formas de se obter dados tais dados: o CENSO e a AMOSTRAGEM. No primeiro caso. de tempo. um erro por não consideração da variação que pode haver em um indivíduo (como não levar em conta o fato que a pressão de uma pessoa varia ao longo do dia). do método de observação e do próprio objeto. deve-se verificar a existência de trabalhos similares e de opiniões de especialistas sobre o assunto trabalhado. devem ser coletadas as informações de interesse sobre toda a população-alvo. • definir o tamanho de amostra. existem outros erros que devem ser considerados: os erros do observador. fazendo com que a informação sobre a população contida na amostra seja destorcida (como. resolve trabalhar somente com os jovens). Nestas pesquisas é muito importante também levar em conta o “esforço” em termos de recursos necessários (humanos. Além desta imprecisão amostral. denominado amostra. também maiores serão os custos associados a tal coleta. as informações sobre a população são exatas. enquanto que no estudo amostral. • verificar os custos associados à coleta. No entanto. maior a precisão. então: • definir quem é a população-alvo. No estudo censitário. Já na amostragem. mais próximo o subconjunto estará da população como um todo e. O erro do objeto é. Nesse último caso é preciso. etc. devese coletar informações apenas de um subconjunto da população-alvo. as informações sobre a população são apenas aproximadas. . um entrevistador.

incluindo aqui as variáveis principais (dependentes) e as secundárias (independentes ou explicativas). Neste tipo de avaliação é preciso observar e medir o fenômeno que se pretende modificar antes da intervenção da política pública. O monitoramento é o processo sistemático de registro e armazenamento das informações substantivas no continuum da ação de uma política. porque permite ajudar no planejamento. para ter certeza de que a mudança no fenômeno não foi devida a fatores externos a política pública. O sistema de monitoramento deve ser capaz de capturar as informações relevantes. As independentes. gerando recomendações para sua correção ou melhoria. precisas. B) Avaliação de programas públicos (programas sociais e políticas de segurança pública) A avaliação de políticas públicas possui um caráter estratégico. devemos medir novamente o fenômeno após certo tempo. é feito o pré-processamento da informação (através de codificação e digitação) e parte-se. que alimentam o processo de avaliação. seja sob a forma de utilização de técnicas adequadas para medir ou considerar características do objeto em estudo. que visam determinar seu mérito ou relevância. Deve-se ainda determinar quais os parâmetros (variáveis) que serão analisados. chamado de avaliação “antes e depois. Após a coleta. seja sob a forma de treinamento. A avaliação é um processo sistemático de análise das ações. sintéticas. execução e (re)direcionamento das ações do fenômeno. para a análise (estatística) e a interpretação dos resultados. sua qualidade. . programa ou projeto a partir de critérios definidos.44 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Para cada tipo de erro. Feita a intervenção. características e resultados de uma política pública. E isso se consegue criando condições favoráveis (técnicas e informacionais) para se estabelecer à obrigatoriedade do registro e processamento das informações definidas como relevantes. então. em muitos casos. utilidade ou efetividade. existe um controle que deve ser realizado. A fonte dos dados utilizada em uma pesquisa é dita primária (quando você mesmo realiza a coleta das informações de que precisa) ou secundária (quando se utiliza dados que uma outra pessoa coletou). com grupo de controle”. Não há avaliação sem monitoramento. Além disto. Neste sentido. são usadas para ajudar a descrever ou mesmo prever o comportamento das variáveis dependentes. será apresentado algum comentário sobre o método comparativo para a avaliação de políticas públicas.

um outro grupo. a saída de um sistema pode se transformar em entrada de outro sistema. pessoas e assuntos de interesse no ambiente ao redor da organização e dentro da própria organização. Pinheiro (2001) caracteriza essas três atividades da seguinte forma: • Entrada (ou input): envolve a coleta ou captação de fontes de dados brutos de dentro de uma organização ou de seu ambiente externo. • Saída (ou output): envolve a transferência da informação processada às pessoas ou atividades que a utilizarão. processamento e saída. nos dois períodos. recuperar. a única diferença entre os dois grupos deve ser a intervenção que está sendo realizada. a coordenação. como documentos. Gestão da Informação A) Conceito de Informação Laudon & Laudon (1999. o mais parecido com o grupo em que foi implementada a política pública. 4) definem sistema de informação como um “conjunto de componentes inter-relacionados trabalhando juntos para coletar.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 45 é preciso medir também. assim como o armazenamento de dados para uso futuro. Esses sistemas transformam a informação no sentido de facilitar a análise e visualização de assuntos complexos e a tomada de decisão. relatórios e dados de transações. O processamento pode envolver cálculos. que não tenha sofrido esta intervenção. Os sistemas de informação também armazenam informação sob várias formas. e o fazem através de um ciclo de três atividades básicas: entrada. comparações e tomadas de ações alternativas. que deve ser.” Os sistemas de informação contêm informações sobre lugares. . Em alguns casos. na medida do possível. processar. Este é chamado “grupo de controle”. armazenar e distribuir informação com a finalidade de facilitar o planejamento. a análise e o processo decisório em empresas e outras organizações. Idealmente. • Processamento: conversão dessa entrada bruta em uma forma mais útil e apropriada. o controle. p.

uma das principais preocupações é gerenciamento das informações necessárias para que os objetivos de exame ou controle sejam alcançados. permite uma previsão de crescimento do objeto estudado e ajuda na elaboração de estratégias.46 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL B) A importância e organização de banco de dados Quando se deseja controlar qualquer atividade ou processo. Maior integridade de dados: como os dados estão em apenas um local. reorganização e eficiência. Vantagens no uso de Sistema de Banco de Dados (SBD): 1. segurança / privacidade. Além de interligar todo trabalho da organização. reduz custos. restauração. Redundância reduzida: os dados são organizados por um SBD e armazenados em apenas um local. não existe o perigo de existirem cópias mantidas em locais separados. restrições. elimina duplicação de tarefas. . A forma mais eficaz de gerenciamento de informações é realizada através de um Banco de Dados. Figura 1: Fluxo de Bancos de Dados Informação Registrar Organizando os registros Fato Formulário Arquivos Banco de Dados Relatório Entrada Processamento Saída Um Sistema de Banco de Dados (SBD) possui as seguintes características: integridade / consistência. 2.

4. diversos programas utilizam os mesmos procedimentos. recuperação de veículos. O ISP . 6. foi utilizado a 9ª . para a codificação da causa de morte. ou. as coletadas pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde e as pesquisas de vitimização. Melhor proteção global: como os dados estão armazenados em apenas 1 local físico. bem como novos dados podem ser agregados ao banco a qualquer momento.O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) tem sua informação inicial gerada pela DO – Declaração de Óbito. Fontes de dados compartilhadas: é fácil localizar o fluxo que o dado faz. que é preenchida com base no atestado médico. Padronização do acesso aos dados: para acessar os dados. segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID).Registros de Ocorrência. estupros. destacamos três fontes de dados: as registradas pela Polícia Civil. No estado do Rio de Janeiro a base das estatísticas criminais é coletada através da Polícia Civil. por duas pessoas qualificadas que tenham presenciado ou constatado a morte. um monitoramento ou uma avaliação é preciso conhecer as fontes de dados. a confiança no backup é maior. O SIM classifica as mortes violentas como “Causas Externas”. Independência entre dados e programas: o programa não é afetado pela localização do dado. Na área da violência e criminalidade. 7. um total de 38 títulos de ocorrências criminais (homicídios. abrangendo todo o território do estado. ficando transparente ao programador e ao usuário final. dentro do banco de dados. 5. bem como controle de acesso. Do período de 1979 a 1995. C) Fontes de Dados Para realizar uma análise. cujo preenchimento é baseado nas categorias criminais definidas pelo Código Penal. na ausência de médico.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 47 3.Instituto de Segurança Pública divulga estes dados mensalmente. vários tipos de roubos. furtos etc) e nãocriminais (desaparecidos. Estes registros são divulgados segundo desagregação de AISP – Área Integrada de Segurança Pública – e segundo área de circunscrição de delegacia de polícia. número de registros de ocorrências etc). desde sua origem até seu destino. por meio dos RO . Manutenção mais fácil: o SBD cumpre a tarefa de atualizar os dados comandados de diversos programas.

As pesquisas de vitimização são um tipo de levantamento na população sobre a experiência com o crime. supondo que um indivíduo levou um tiro em um município Y. representando fenômenos sociais politicamente relevantes. enquanto que para as polícias a definição é feita segundo o Código Penal. Por exemplo. Além disto. e quantifica a ocorrência de violações específicas para aproximar à realidade os dados divulgados pelos órgãos oficiais. o crime ocorreu no município Y. Logo. e ao se trabalhar com os dados da saúde. estratégias de prevenção ao crime e avaliação dos serviços prestados pelas forças policiais. Com isto. as taxas de homicídio contabilizadas pelos dados da saúde são sempre maiores que as contabilizadas pelas polícias. enquanto que na saúde a morte é registrada no município X. e permitem tirar conclusões sobre o desenvolvimento dos fenômenos sociais em questão. Deste modo. Indicadores Sociais Em projetos sociais.48 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Revisão do CID. Para a Polícia. Pelo SIM os homicídios são definidos segundo a CID. que não podem ser medidos diretamente. por exemplo. e desde 1996 os óbitos passaram a serem classificados através da 10ª Revisão do CID (CID-10). atitudes com relação à polícia e a punição dos criminosos. as mortes por homicídio classificadas pelo SIM abrangem mais de um tipo de morte violenta registradas pelas polícias. que é o mais importante no estudo da segurança pública. e faleceu. e foi levado para um hospital do município X. Gera informações que eventualmente sirvam no desenvolvimento de políticas para o controle da criminalidade.São expressões numéricas de fenômenos quantificáveis. Como o próprio . levar em conta que o registro se refere ao local da morte e não o local de ocorrência. indicadores são parâmetros qualificados e/ou quantificados que servem para detalhar em que medida os objetivos de um projeto foram alcançados. dentro de um prazo delimitado de tempo e numa localidade específica. não é possível realizar comparações entre as duas fontes de dados. Tem como objetivo obter informações sobre a experiência das pessoas com respeito ao crime. os dados da polícia se referem ao local da ocorrência do fato. propensão a registrar queixa policial. Vale ressaltar que a definição de morte violenta dada pelo SIM é diferente da dada pelas polícias. risco de vitimização. enquanto que os do SIM se referem ao local do óbito.

atitudes. que busca expressar algum aspecto da realidade sob uma forma que possamos observá-lo ou mensurá-lo. medir a disponibilidade de bens. A primeira decorrência desta afirmação é. Baseiam-se na identificação de uma variável. Podem. estilos de comportamento. capacidade empreendedora. oferta etc. organização. como renda. sua capacidade de refletir. • Relevância: Enquanto propriedade desejável de um indicador social. escolaridade. os indicadores se referem a aspectos tangíveis e intangíveis da realidade. cidadania. habilidades. Uma iniciativa pode ser considerada como “relevante” se a mesma em seus objetivos mencionasse a orientação de políticas públicas. ou captar processos em termos de intensidade e sentido de mudanças. a relevância diz respeito à pertinência desse indicador para a tomada de decisão acerca dos problemas sociais. ou seja. Já os intangíveis são aqueles sobre os quais só podemos captar parcial e indiretamente algumas manifestações: consciência social. direitos legais. auto-estima. justamente. valores. ou seja. divulgação. serviços e conhecimentos. são uma espécie de “marca” ou sinalizador. A escolha dos indicadores em um projeto também ocorre em função dos ângulos que se quer avaliar: • Eficiência: boa utilização dos recursos • Eficácia: se as ações do projeto permitiram alcançar os resultados previstos • Efetividade: em que medida os resultados do projeto estão incorporados . que eles indicam mas não são a própria realidade. Neste sentido. conhecimentos. saúde. legislação. 2001: 26). de fato. o conceito abstrato que o indicador se propõe a “operacionalizar” ou “substituir” (JANNUZZI. algum aspecto que varia de estado ou situação. Os tangíveis são os facilmente observáveis e aferíveis quantitativa ou qualitativamente. poder. variação esta que consideramos capaz de expressar um fenômeno que nos interessa. formas de participação. gestão. Os indicadores podem ser utilizados para medir ou revelar aspectos relacionados a diversos aspectos sociais.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 49 nome sugere. Os indicadores sociais devem possuir duas características fundamentais: • Validade: A validade de um indicador corresponde ao grau de proximidade entre o conceito e a medida. por exemplo. liderança.

sem ter pretensão de dar conta da totalidade. além da identificação de padrões do fenômeno no tempo (horas. • Estudo Temporal: tem como objetivo verificar a existência de tendências. através de tabelas e gráficos. demonstrando seu poder de influência e irradiação. • ser simples. preciso e representativo no que se refere aos aspectos centrais da estratégia do projeto.Um bom indicador para monitoramento e avaliação de resultados deve apresentar as seguintes características: • ser coerente com a visão e com a concepção que as organizações tem sobre os objetivos. a principal tarefa a ser realizada é a análise dos resultados.50 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL a realidade da população atingidaImpacto: as mudanças em outras áreas não trabalhadas pelo projeto. meses. • Fornece informações relevantes e em quantidade que permite a análise e a tomada de decisão. sazonalidade (ciclos). se torna necessário transformar os dados brutos num conjunto de números organizados. • Aproveita as fontes confiáveis de informação existentes. e ser desenvolvido a partir de um bom conhecimento da realidade na qual se vai intervir. dias. e não apenas por especialistas. • Estatísticas Descritivas: possibilita a apresentação de dados quantitativos de forma manejável. viabilizando a descrição das variáveis. anos). capaz de ser compreendido por todos. Ferramentas para a análise de fenômenos da segurança pública Quando os dados estão coletados. Neste sentido. sem ser simplista. • considerar as particularidades do contexto. • ser viável do ponto de vista operacional e financeiro. que possam ser usados para demonstrar o comportamento do fenômeno estudado. Nos estudos de segurança pública deve-se sempre lembrar que ao se comparar os dados do verão com os do outono . • ser bem definido.

provavelmente. percebendo qual o local e o horário de maior incidência daquele crime. será encontrado um crescimento. Pode avaliar a variação geográfica na ocorrência de um fenômeno. Mas na comparação dos dados de um verão com os do verão anterior (em vez de com os meses anteriores) a influência do próprio verão estará controlada.Estudo Espaço-Temporal: analisa o fenômeno a partir das duas metodologias acima. • Estudo Espacial: descreve e visualiza distribuições espaciais. Pode. . por exemplo.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 51 anterior. acompanhar a incidência de algum tipo de crime por bairro variando a cada hora de um dia. visando identificar diferenciais de risco e orientar a alocação de recursos. descobre padrões de associação espaciais e identifica observações atípicas. devido ao fato de que o verão tende a ser mais violento.

Rio de Janeiro: Eduerj. Informação e democracia. J. Ana Paula M. Porto Alegre: Ed. Medindo a Criminalidade: Um Panorama dos principais Métodos e Projetos Existentes. V. Rio de Janeiro: Editora FGV. K. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. 1999. FERRARI.. Fórum de Debates Criminalidade. . Informação. C. In: Guimarães. Rio de Janeiro: Ipea e Cesec/Ucam. UFRGS. 2002. M. 2001. 2001. 2ª ed. C. CANO. T.52 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Bibliografia BEATO. A. 2000. C. Rio de Janeiro: Ipea e Cesec/Ucam. Fórum de Debates Criminalidade. 2001. 2004. 2001. I. de. LAUDON. Sistemas de informação com Internet. Belém: Instituto de Estudos Superiores da Amazônia. Rio de Janeiro: Ipea e Cesec/Ucam. Violência e Segurança Pública no Brasil: Uma Discussão sobre Bases de Dados e Questões Metodológicas I. MIRANDA. C. Coimbra. L. PINHEIRO. I. Métodos de Pesquisa Social Empírica e Indicadores Sociais. Fontes de Dados Policiais em Estudos Criminológicos: Limites e Potenciais. P. Introdução à Avaliação de Programas Sociais. KAHN. CANO. Registros Criminais da Polícia no Rio de Janeiro: Problemas de Validade e Confiabilidade. Violência e Segurança Pública no Brasil: Uma Discussão sobre Bases de Dados e Questões Metodológicas I. Indicadores Sociais no Brasil. P. SCHRADER. & Junior. Violência e Segurança Pública no Brasil: Uma Discussão sobre Bases de Dados e Questões Metodológicas I. política de segurança e sentimento de insegurança. 2004. Trabalho apresentado no VII Congresso Luso-Afro Brasileiro de Ciências Sociais. Fórum de Debates Criminalidade. Campinas: Editora Alínea. JANNUZZI. 2001. Democracia e Informação no final do século XX. LAUDON. Sistemas de Informação (Apostila do Curso de Graduação em Sistemas de Informação).

objetivo fazer algumas observações acerca do modo pelo qual um sistema classificatório de referência partilha da produção de habitus profissionais específicos (BOURDIEU. Sob esta perspectiva. Neste caso. prioritariamente. a produção destes saberes e deste habitus está. de imediato. . a partir do século XVIII. 1998. como constituídas de um “saber prático”.Mesa: Universos judiciários. Acentuo. e as análises históricas de HOLLOWAY. que não pretende de modo algum ser uma análise da prática policial no Rio de Janeiro (como a de KANT DE LIMA. Dito de outro modo. 1 Trabalho apresentado originalmente no Seminário “Formas primitivas de classificação”. o caráter preliminar e algo rudimentar desta reflexão. permite levantar uma ou duas hipóteses sobre os princípios sóciológicos que o animam. IFCS/UFRJ . o tema que trago permite relacionar esquemas geradores da ação e uma “teoria da prática”. para iniciar uma reflexão baseada em um material empírico um tanto novo para mim. 1997 ou CUNHA. principalmente.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 53 O SISTEMA CLASSIFICATÓRIO DAS OCORRÊNCIAS NA POLÍCIA MILITAR DO RIO DE JANEIRO E A ORGANIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA POLICIAL: UMA ANÁLISE PRELIMINAR1 Simoni Lahud Guedes Introdução Aproveito a ocasião da comemoração dos cem anos de publicação de um dos textos fundadores das Ciências Sociais. entre outros). certamente. como acentua Foucault (1979. 1980). como espero demonstrar. 1987). Minhas observações centram-se exclusivamente no referido sistema classificatório que. práticas classificatórias. Cem anos depois (junho 2003) promovido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Trata-se. característica fundamental das técnicas de poder. mediada pelas inúmeras formas de administração e gerenciamento da “população”. tomado em si mesmo. questão particularmente importante para a compreensão de atividades profissionais que se definem. 1980. 1994. suponho. de um exercício referente à relação entre a “função classificatória” e a construção de saberes profissionais. proporcionada pelos colegas do IFCS/UFRJ.

no mesmo curso. A relação com estes alunos. de modo assistemático . de 1997. o autor expõe e analisa as diversas “ocorrências” registradas pela Assessoria de Planejamento. . Refiro-me à monografia de conclusão do curso realizada por Júlio Cesar Ramos (2002). todos com longa inserção institucional. forma como são denominados. Trazem uma série de informações e interpretações sobre a corporação. relendo Durkheim. juntamente com dois documentos que me foram fornecidos para auxiliar na minha compreensão do sistema (um modelo do Talão de Registro de Ocorrências. também. p.ou sistematizadas em alguns trabalhos escritos. das classificações. resume o que seriam as “três qualidades fundamentais” da “função classificatória”: “é um sistema de distinções ou diferenciações. pela própria polícia militar. Neste curso. na UFF. um produto de nossa experiência coletiva. o sistema classificatório dos eventos com intervenção policial.54 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Esta reflexão é. os eventos sociais com a sua intervenção. constituído a partir de uma demanda dos então responsáveis pela política de formação dos oficiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Foi.nos exemplos de que se servem na sala-de-aula ou nas conversas informais em outros espaços . por esta via. com o Curso de Especialização em Justiça Criminal e Segurança Pública. Orçamento e Modernização da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em 2001. tem propiciado um olhar novo sobre esta instituição. Estes dados. de 1983) compõem o corpus sobre o qual pretendo fazer algumas observações. no meu caso especificamente. Algumas conversas posteriores. enfocando a possibilidade de uma parceria entre a sociedade e a polícia. minha proposta é bastante preliminar. de valor. 73). Acentua a dimensão hierárquica. Mauss e Hertz via Dumont. é um sistema hierarquizado e é um sistema que pressupõe uma totalidade”. um destes trabalhos escritos que despertou meu interesse acerca do sistema classificatório das “ocorrências”. Como se vê. Nesta monografia. expondo. que ocorre há mais ou menos quatro anos. justamente. uma parcela importante dos alunos é de oficiais superiores desta corporação. trouxeram algumas informações adicionais sobre o sistema classificatório em questão. e as Normas Gerais de Policiamento. Classificando as interações problemáticas e controlando os policiais que controlam a população DUARTE (1986. também por esta dimensão. com profissionais de outras turmas. na medida mesmo em que é para ela que dirigem quase todo o seu foco de atenção.

enquanto um construto interno à instituição. muito importante no sistema. visando à exaustividade e à sistematicidade. 002 – Contravenções. . O sistema opera em três níveis distintos de abrangência. Define-se. A um primeiro olhar. ordenando. registrando e medindo as experiências vividas. sinaliza seu objetivo maior de organizar a prática policial militar. como a maioria das classificações.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 55 enfatizando que as diferenciações não são simples dicotomizações. Classifica. tenha que lançar mão da categoria residual diversos. 005 – Diversas. ações policiais e situações sociais. interna aos níveis aparentemente equivalentes. e. em alguns momentos. tanto como uma declaração acerca das intervenções esperadas e legitimadas do policial militar quanto pelo detalhamento das situações sociais consideradas como “problemáticas”. 003 – Trânsito. ordena e hierarquiza. construído pela e para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (RAMOS. estabelecendo diferenciações e inclusões. compreendida. No seu primeiro nível. numeradas nesta ordem: código 001 – Crimes. Mas vejamos o sistema classificatório em questão. tem estas três características bastante evidenciadas. Esta ordenação. de valor. é. resultado de interpretações da experiência elaboradas por policiais experimentados. mesmo que. da perspectiva que assumo aqui. mas importam em uma dimensão interna de valor diferencial cujo paradigma seria exatamente a oposição direita-esquerda analisada por Hertz. por sua vez. 2002: 5). neste sentido. classificando. mais amplo. há uma série de indícios de uma outra diferenciação. ao mesmo tempo. A totalidade de que trata são as intervenções do policial militar na vida social denominadas ocorrências. torna-se mais minucioso nos níveis inferiores. por esta via. A propriedade da “antecipação totalizadora” é. O sistema classificatório aqui tomado como material para reflexão. pretendendo contemplar todo o campo dos possíveis. Contudo. Embora referida pelos profissionais como uma codificação que se pretende exclusivamente técnica. diferencia cinco grandes conjuntos de intervenções. ao tomar como objeto as inúmeras e diversificadas situações sociais em que a PM intervém ou é solicitada a intervir. sua característica maior. dialogando em muitos dos seus aspectos com as definições legais. sobre a qual falarei adiante. como “neutra”. certamente. denominadas amplamente de códigos. 004 – Assistenciais. pretendendo ser exaustivo nesta direção. há equivalência entre as distinções internas a cada nível.

dois tipos distintos de assistência. o segundo tipo legitima (e talvez até proponha) uma dimensão de relação do policial militar com os diversos segmentos sociais (parturiente. apresenta alguns “coringas”: termos absolutamente genéricos e amplos. portanto. auto furtado e direção perigosa) quanto a acidentes. sob este ponto de vista. auxílio à autoridade policial). pois retém sua inclusividade absoluta e o que estou chamando de sua propriedade de “antecipação totalizadora”. nas ciências. como diz Mauss (1968: 365). congregando quer os resíduos. Contudo. Aqui. na verdade. Mantêm relação estreita com esta legislação. condução de enfermo). O terceiro código – trânsito – é mais impreciso. o intermediário em abrangência. mal súbito. interpretando-a e buscando replicar seus termos e diferenciações. Supõem e propõem. a complexa e prolixa legislação brasileira acerca de crimes e contravenções é transformada em ocorrências identificáveis. quer uma perspectiva distinta sobre fenômenos já considerados. a categoria central é auxílio (presente. Quando se passa ao nível seguinte. o do meio em cinco. implícita ou explicitamente. Voltarei também a este ponto adiante. o “rótulo da ignorância”. mais implícita.56 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Nos dois primeiros códigos. o que não encontrou lugar nos códigos anteriores. Voltarei a este ponto ao final. indícios de uma outra classificação. o quinto código ocorrências diversas agrupa o inclassificável ou. É extremamente diversificado. há indícios da importância para a prática policial militar do primeiro grupo de ocorrências (001 – crimes). através da qual os dois tipos distintos de assistência são tornados equivalentes. Sua situação como o terceiro. abrindo-o para as interpretações construídas em outro território. em quase toda a especificação do código). O código 004 congregando as intervenções denominadas como assistenciais. O primeiro tipo refere-se àquelas atividades inerentes ao trabalho policial (auxílio a órgãos de meio-ambiente. é uma das características mais interessantes deste sistema. abriga. que denota os . mas nas quais o policial militar não é o agente principal. Para sustentar sua inclusividade. este conjunto é absolutamente fundamental ao sistema. replica esta relativa ambigüidade. classifica-se como “diversos”. referindo-se ao que. Finalmente. a meu ver. determinadas leituras do ordenamento jurídico da sociedade para a transformação de eventos em ocorrências no interior destes dois conjuntos. nos quais tudo cabe. pois pode referir-se tanto a crimes e contravenções (por exemplo. pois.

De fato. relacionando-o à construção da “experiência” e da prática dos policiais militares. assistenciais e diversas) comportam. Apresenta cinco subdivisões: crimes contra a pessoa. no interior da categoria crimes distinguem-se cinco outros grupos como é denominada a subdivisão seguinte. deduzidas de algumas diferenças observadas nas ocorrências registradas no documento de 1997 (Talão de Registro de Ocorrências) . crimes contra a administração pública e “outros crimes” (o diversos deste nível de abrangência que. para este código. replicando-a e interpretando-a. Assim. crimes contra o patrimônio). enquanto que as outras quatro categorias (contravenções. crimes contra o patrimônio. impondo-se a atuação diante de comportamentos e situações classificados como criminosos como a principal das funções precípuas da Polícia Militar. por exemplo. mas isso é.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 57 valores distintos atribuídos às diferenciações em cada nível. contando. é possível notar. garante a incorporação de todos os possíveis principalmente através dos seus próprios termos “coringas”. pela sua numeração. pelo investimento maior na diferenciação interna das ocorrências criminosas. segundo. O terceiro e último nível de abrangência é aquele no qual se classificam as ocorrências propriamente. como. impossível aqui. O valor maior atribuído ao código crimes fica duplamente evidenciado: primeiro. um único grupo. crimes contra os costumes e cerca de 20 no grupo 200. evidentemente. De qualquer modo. nos seus nove grupos (cinco do primeiro código e um para cada um dos outros). apesar da incipiência e assistematicidade do material coletado. Neste nível. contudo. exclusivamente. estas subdivisões contemplam os principais objetos da legislação penal brasileira. a relação institucional com a historicidade deste sistema classificatório. cada uma. por exemplo. o segundo nível é estabelecido exclusivamente pelo primeiro grupo. por exemplo. no sistema classificatório em questão o segundo nível existe. trânsito. todos os termos mereceriam ser analisados em termos do conjunto de diferenciações em que se situam. poderíamos dizer que é o primeiro e não apenas o número um. no grupo 300. na interpretação institucional de um aparato legislador muito amplo e diversificado. vagos e amplos. fazer algumas observações gerais e outras pontuais que permitam elaborar alguns dos significados veiculados por este sistema classificatório. É possível. crimes contra os costumes. os crimes contra a família). com um número variável de itens (entre sete. Na verdade. neste nível de detalhamento. Ou seja. de novo. Na verdade. em termos de valor.

as Normas Gerais de Policiamento (1983). o acréscimo de periclitação da vida e contra a honra. não o fazem sem reflexão. pois muitos elaboram críticas a suas imprecisões. qualquer explanação ou instrução sobre a codificação dos eventos. o desinteresse de profissionais experientes e graduados na instituição por tais textos). documento no qual estão minuciosamente registradas as formas previstas de policiamento. Mas não há. indicam uma certa naturalização deste sistema classificatório. é um modelo consciente. Na mesma direção aponta a ausência de textos que expliquem as diversas categorias classificatórias dos eventos e as formas de enquadrar o “acontecido” na classe adequada (ou. neste documento.58 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL e no registro apresentado em Ramos (2002. Não há diferenças nos níveis de abrangência mais amplos. documentos. o que dá no mesmo. regulamentos. acerca deste tema. A ausência de interesse em sua origem. nos crimes contra a pessoa. As alterações parecem se dar em termos de uma maior especificação no interior de alguns grupos. Mas é bastante interessante também que nenhum dos profissionais consultados (repito. surgindo como alguma coisa que “sempre esteve lá”. Indagados sobre isso. a constante atualização do sistema classificatório. nos termos de Lévi-Strauss (1967). mesmo num curtíssimo espaço de tempo. . Estas diferenças indicam. Incorporado como parte de sua atividade profissional. capitães. baseado em um setor de planejamento da PMERJ. Sob este ponto de vista. subtraindo à classificação vaga dos “resíduos” algumas intervenções que se tornaram significativas no processo social. explicando-se. por exemplo. de modo assistemático) tenha se referido às mudanças do sistema classificatório. De fato. que não pode ser precisada pelos alunos consultados. sendo enfocado como uma simples forma de registro. as formas de preenchimento do Talão de Registro de Ocorrências (Anexo III. Isto é bastante significativo em uma instituição absolutamente letrada. inconsistências e dificuldades. passim). nativo. membros da mesma corporação. bem como a falta de registro de suas alterações. 69). ele é amplamente conhecido por todos. na conversa com outros alunos do curso. transformadas em novos “problemas sociais”. percebi que atribuem a ele uma importância menor na organização de sua prática. inclusive. portarias e instruções. incluindo novas ocorrências (como. nos crimes contra o patrimônio. o acréscimo de roubo de veículo de transporte de valores). que se inscreve permanentemente em manuais. p. disseram que a referência eram as próprias categorias legais. sendo parte de seu saber comum e rotineiro. possivelmente. Entre eles. Apesar disso.

no código 01. implícito. grupo 200 (crimes contra o patrimônio). Assim. permitirá a compreensão das formas de classificação dos fenômenos de intervenção da polícia militar. todo o tempo. A busca do máximo de especificação quanto aos eventos. Talvez sua característica mais importante seja exatamente esta: o que ele não diz. conjugado a um outro. Toda prática conjuga. como demonstra Kant de Lima (1995: 53 segts).SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 59 Tudo isso indica que se trata de um esquema aparentemente muito detalhado. não devemos minimizar a importância da ordenação escrita desta prática. neste terceiro nível do sistema classificatório. sem nenhuma dúvida. pela observação e acompanhamento dos mais “experientes”. desvaloriza outros e obriga à construção de liames entre o vivido e o registrado. é sempre contestável. a maioria não escritos. faz com que diferentes princípios classificatórios sejam utilizados. Esta também é uma das razões das observações dos policiais militares. racionalizações. Minha primeira hipótese. cujos princípios mais importantes não podem ser depreendidos de sua inscrição textual. trabalho a que se dedicam alguns pesquisadores. além da categoria genérica furto (210). Trata-se daqueles construídos e transmitidos na própria ação. mas também muito geral de organização do vivido. Por exemplo. só o estudo das práticas policiais e da construção da “experiência”. este sistema classificatório convive e conjuga-se com diversos outros. já uma interpretação e algo que precisa de interpretação. nem definido. o espaço que abre para as interpretações e construções coletivas. com quem conversei. portanto. Mas. enfatizando. configurase. investindo contra o uso acrítico das “experiências” no trabalho dos historiadores: “Experiência é. são . sendo um dos mais importantes a classificação do público que é tirado pelos policiais. O que conta como experiência não é nem auto-evidente. garantindo o espaço na classificação para todas as formas de furto. teorias nativas e saberes implícitos. se. Como acentua a historiadora Joan Scott. ao mesmo tempo. O sistema classificatório das ocorrências dirige o olhar para determinadas direções. por essa via. a importância maior de algumas ocorrências em detrimento de outras. 1999: 48). normas explícitas. nesta profissão. absolutamente não apreensível nos documentos escritos. muitas vezes não reconhecidos como tal. de modos distintos e em proporções variáveis. portanto. sempre político” (SCOTT. A acumulação de “experiência” é aqui compreendida como parte do processo fundamental de construção de saberes coletivos. acerca das inconsistências do sistema. hierarquiza e valoriza eventos. na análise preliminar deste sistema classificatório: o sistema de registro trabalha.

estabelecimento de ensino. ou mediante fraude. responde. em “problema de segurança” maior pelos segmentos sociais dominantes. no nível maior de abrangência. estacionado na garagem interna de um estabelecimento comercial. Nesse sentido. o furto da carga de um caminhão de transporte. como aquele que envolve “destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa ou com abuso de confiança. sobretudo. estabelecimento financeiro. Continuando a usar como exemplo as especificações sobre furto. a uma enorme concentração da atividade do policial militar nos eventos neste setor: segundo dados da própria PM. sinalizando também seu valor em relação a todos os objetos furtáveis. a saber. Assim. simultaneamente. intenção de folclorizá-lo. escolas e residências) ou objeto (autocarga) relacionase quer com sua maior freqüência quer com a visibilidade maior que tenham estas ocorrências na sociedade. poderíamos elaborar a hipótese de que a importância maior da especificação de locais (no caso. Este pequeno exercício. 2002). coletivo. utiliza-se como critério de classificação os meios pelos quais o furto é cometido. Visa demonstrar. bancos. neste instrumento legal. lojas.60 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL utilizadas outras oito categorias que expressam princípios distintos: uma refere-se a uma figura do código penal (furto qualificado. escalada ou destreza”). absolutamente. residência). em cada momento. lançando ao limbo genérico da primeira categoria (furtos tout court) os ocorridos em outros locais. portanto. do código 003 – trânsito. o estudo sistemático das inclusões e exclusões ocorridas no sistema – se é que ocorreram – permitiria desenredar alguns indícios sobre o que vai se tornando mais ou menos importante na atuação policial. na verdade. como furto de autocarga. não visa. meios de transporte. como furto qualificado (pois rompeu-se um obstáculo). seis termos referem-se ao local do furto (auto. Poderiam ser encaradas como parte fundamental da relação da polícia com o que é transformado. avançar a reflexão em uma outra direção. o ponto que já enunciei acima. Tudo isso também nos . fazer coro aos questionamentos internos em relação à propriedade e/ou eficácia das categorias especificadas. valorizando aqueles cometidos em alguns locais e. Permite. Uma única categoria refere-se ao objeto do furto (autocarga). neste caso e só neste caso. Assim. poderíamos pensar que a existência. como furto em estabelecimento comercial e. ademais. que poderia ser repetido em vários pontos do sistema classificatório em questão. estabelecimento comercial. com toda a ambigüidade que apresenta. ele é muito bem sucedido e muito bem construído. da qual se arrombou a porta. de modo algum. ainda. Sob esta perspectiva. definido. cerca de 56% das intervenções em 2001 foram classificadas neste código (RAMOS. pode ser classificado simplesmente como furto. Não tem também. por exemplo. que é fundamental o que ele não diz e o espaço que abre para a construção coletiva de interpretações. por exemplo.

(2) examinar os usos e impactos dos índices na forma como são divulgados pela mídia. pois ao mesmo tempo em que reproduz a proposta de redução de índices. relação com a Secretaria de Segurança Pública. intencionalmente. Nessa direção creio que seria produtivo: (1) examinar os usos e impactos dos índices na organização interna da prática policial em seus diversos níveis (relações com as outras instituições de policiamento. após ter estabelecido o postulado de que “a classificação das coisas reproduz a classificação dos homens”. particularmente. segundo a reportagem do Jornal do Brasil.). mas movendo-se no campo aberto pela utilização. a experiência de outros). o conjunto das atividades da polícia militar e os eventos “problemáticos” da vida social2. buscando pensar. Experiência obrigada a se auto-inscrever para produzir estatísticas. produção de normas etc. nas quais o saber produzido pelas estatísticas é o eixo das técnicas de poder. através dos inúmeros índices que produz. aquele segundo momento em que. de princípios operatórios distintos. tradução minha). p C2. em 08 de maio de 2003.171 homicídios” pode ser lida como. A manchete da reportagem “Limite do ano: 4. ela é suscetível de reagir sobre a sua causa e contribuir para modificá-la. 1968: 184.) as idéias são organizadas sobre um modelo que é fornecido pela sociedade. pelo menos.” (DURKHEIM e MAUSS. insistem. em última instância.. as reações expostas na própria reportagem explicitam a necessidade de se “reduzir a zero” os homicídios e seqüestros.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 61 faz recordar o objetivo mais amplo. expõe um número que pode ser absolutamente assustador para os cidadãos comuns. em seguida. 2 O lugar ocupado pela produção de índices estatísticos é absolutamente central para avaliação da prática policial. Talvez pudéssemos dizer que os policiais. Aqui é útil relembrar Foucault e a questão fundamental do gerenciamento das populações. a função classificatória. limitada pela classificação pré-existente (ou seja. simultaneamente. no processo dialético contínuo de realimentação entre os dois níveis: “(. Também creio ser útil lembrar Lévi-Strauss e as diferenças entre modelos mecânicos e estatísticos. (3) examinar a diferença entre usos internos e externos das estatísticas. na interpretação das ocorrências em que se envolvem. . neste caso. aprender a classificar sua vivência em determinadas direções. irônica. o Secretario de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. estipulando “uma média percentual de 12% para a redução de. teria estabelecido em termos estatísticos as metas da política de segurança. entre outras coisas. Anthony Garotinho. Assim. na classificação.. 10 delitos”. por exemplo. na produção de estatísticas que medem e avaliam. De certo modo. operam com modelos mecânicos para transformá-los em modelos estatísticos. Gostaria de terminar lembrando que realizei aqui apenas um pequeno exercício a partir do texto de Durkheim e Mauss. O que está no meio disso é o vivido e a “experiência” dos profissionais envolvidos que devem. Mas uma vez que esta organização da mentalidade coletiva exista. demonstrando a precedência lógica da organização social sobre o sistema classificatório. Assim. implícito neste sistema classificatório: produzir estatísticas sobre as ocorrências policiais. concretiza-se.

Paris: Minuit. M. Florianópolis: Editora Mulheres. Estudos Históricos. n. Petrópolis: Vozes. 1967. 1995. Propostas de mudanças nas estratégias de intervenção policial no Rio de Janeiro com vistas à polícia cidadã. História da sexualidade I. FOUCAULT. DURKHEIM. A aventura antropológica. A polícia da cidade do Rio de Janeiro. 1987. MAUSS. Paris: PUF. e MAUSS. 1980. Rio de Janeiro. R. 1997. . e Ramos. M. Júlio Cesar. De quelques formes primitives de classification. Rio de Janeiro: FGV.62 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Bibliografia BOURDIEU. Classificação e valor na reflexão sobre identidade social. 1977. A. RAMOS. (orgs). 1998. 2002. Rio de Janeiro: Graal. 1968. LÉVI-STRAUSS. T. DUARTE. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. FOUCAULT. FGV. M. Sociedade e polícia – uma parceria possível. M. Joan. leituras. L. F. HOLLOWAY. Claude. 22. Le sens pratique. Falas de Gênero. Vigiar e Punir. Os domínios da experiência. Rio de Janeiro: Forense. CUNHA. R. análises. Essais de Sociologie. Experiência. A vontade de saber. In Mauss. Microfísica do poder. Niterói. Paris: Minuit. Sociologie et anthropologie. M. ESTADO MAIOR. M. POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. P. D. É. Normas Gerais de Policiamento. Teoria e pesquisa. Seus dilemas e paradoxos. In Leite. Repressão e resistência numa cidade do século XIX. SCOTT. Thomas. Teorias. Antropologia Estrutural.). 1986. (org. Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública. In Cardoso. Rio de Janeiro: Graal. 1930-1942. Les tecniques du corps. o nascimento da prisão. Olivia. 1999. 1979. 1983. Polícia no Rio de Janeiro. KANT DE LIMA. Lago. FOUCAULT. da ciência e da lei: os manuais da polícia civil do Distrito Federal. 1968. M.

independente das implicações para o problema da delinqüência. bem como efetuar testes de teoria mais sofisticados. do aumento do medo e da percepção de risco das populações nos grandes centros urbanos.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 63 PRODUÇÃO. 1. Crime and Violence diagnostics and information. sem instrumentos e com orientação puramente impressionista. programas e projetos de segurança desenhados com base neste conhecimento. considera-se como bem sucedido. World Bank Working papers. 35135. como se estivéssemos inevitavelmente destinados a conviver com o medo e a insegurança. temos uma situação de incremento acentuado das taxas de criminalidade. Essa é uma situação grave que compromete seriamente os estudos realizados. que dentre as diversas causas de crime hoje na América Latina. No que diz respeito ao impacto específico de políticas e programas sociais. ou tampouco da 1 Versão resumida de 2. . Podemos dizer. As implicações dessa situação para o desenho e avaliação de políticas de segurança são óbvias. p. Não há uma avaliação dos custos destes programas frente aos resultados alcançados. USO DE INFORMAÇÕES E DIAGNÓSTICOS EM SEGURANÇA URBANA1 Cláudio Beato Dados e programas de prevenção Não há estudo exploratório ou revisão de literatura sobre criminalidade. Políticas na área da criminalidade e justiça. 1-45. Washington DC. . na América Latina. v. BEATO FILHO. O desafio que enfrentamos hoje em estudos criminológicos na América Latina diz respeito justamente às bases de informações necessárias para que se possa avançar no alcance das proposições empíricas. pois a necessidades de tais projetos são tão urgentes que. são efetuadas em vôo cego. Sem esse conhecimento não temos ação efetiva e conseqüente. O ceticismo e descrença diante da aparente impossibilidade de se obter resultados estão “naturalizando” os fenômenos da criminalidade e violência. Como conseqüência. 2005. destaca-se a nossa ignorância sobre a matéria. esta situação é ainda mais obscura. C. C. quaisquer que sejam os resultados alcançados. n. violência e políticas de controle na América Latina que não comece ou termine enfatizando as inúmeras deficiências nas bases de informações sobre criminalidade e violência. sem dúvida nenhuma. e as políticas.

um aspecto recorrente é a incerteza acerca do que realmente está ocorrendo. extensão. e deficiências das agências de estatísticas em reportar o crime e a violência. e evolução desta patologia”. A escassez de informação nas bases de dados sobre criminalidade e violência Relatório recente do Banco Mundial que tratou dos impactos que a violência e a criminalidade têm tido para o desenvolvimento sustentado e combate da pobreza nas América Latina ressalta que o problema mais imediato é que os “dados são grosseiramente inadequados. e a informação em conhecimento que permita uma base de ação sólida e consistente através de programas de prevenção. e o natural interesse em identificar e reorientar políticas de prevenção de crime a partir de decisões baseadas em modelos de custo e benefício. violência e insegurança. além de possibilitar a avaliação dessas ações. como transformar estes dados em informação. O diagnóstico deste fenômeno e o desenho de políticas pertinentes enfrentam desde o princípio os problemas da medição e observação. cujas gravidades parecem ser proporcionais aos níveis de violência”. Esta aula vai discutir como podemos levantar dados a respeito de problemas de segurança.64 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL efetividade deles. mas em construir e delinear sistemas que ajudem. a primeira prioridade na agenda emergente para tratar do problema na região é a necessidade de se incrementar a base de conhecimento sobra a natureza. (RUBIO. e seguindo a mesma ordem de preocupações ao referir-se ao problema da violência e criminalidade na Colômbia. falta de levantamentos sistemáticos de dados. Qual o impacto efetivo deles nas taxas de violência e criminalidade? Que aspectos funcionaram melhor? Qual o lapso de tempo necessário para que se produzam efeitos? Que tipos de combinações são necessários para a produção de resultados promissores? Como evitar gastos desnecessários com abordagens que na realidade são inúteis. 1998b: 2) . ter uma percepção mínima acerca do que está ocorrendo. As razões incluem problemas graves de sub-registro de vítimas. antes de qualquer coisa. Da mesma maneira. 1998). embora bem intencionadas? A análise dessas questões é cada vez mais necessária. dada a freqüente escassez de recursos que nossos governos nos mais diversos níveis tendem a enfrentar. destaca que para falarmos de “crime. (RUBIO. Assim. A sugestão dada pelo autor é claramente inusitada: a prioridade da agenda está não nos resultados a serem buscados.

o BID (nota técnica 2) alerta para três tipos de problemas que podem surgir: (a) mesmo que os homicídios tendam a ter menos problemas de sub-registro. nas suas mais diversas modalidades. ainda assim eles persistem. (b) muitas formas graves de violência nem sempre terminam em homicídios como.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 65 Diante dessa ausência. a violência doméstica ou as diversas formas de agressão interpessoal. tornam-se o indicador para compararmos cidades. divididos pela população e multiplicados por cem mil habitantes. estado ou país. Contudo. a utilização dos homicídios como parâmetro comparativo sobre a violência também acarreta crítica acerca da sua validade. seja para efeitos de alocação de recursos. regiões e países. Estudos recentes mostram como a dinâmica espacial e temporal dos homicídios é bastante distinta do que ocorre com outros tipos de crime (BEATO. e distinto do que ocorre com outros tipos de delitos que afligem dramaticamente a população tais como as diversas modalidades de crimes contra o patrimônio. ao passo que os delitos contra a propriedade ocorrem mais nas regiões ricas. Para efeitos de elaboração de programas de controle e prevenção. Daí alguns estudiosos e policy makers adotarem a taxa de homicídio como indicador de criminalidade em uma cidade. Os homicídios. poderíamos argumentar que o problema mais grave em relação às taxas de homicídio seja que ele tem um padrão de comportamento bastante específico. Eles são calculados como o número de homicídios. tende-se a subestimar outras formas tais como a violência física e a intimidação. No entanto. ou problemas legais de classificação são menores. (c) quando se utiliza o homicídio como principal medida de violência. 2000). A razão de se utilizar este denominador de dez ou cem mil habitantes. isto nem sempre é verdadeiro. esta qualificação é necessária. além de graves problemas de inconsistências entre diferentes tipos de fontes. pois algumas avaliações de sistemas de informação mostram como os dados de saúde tendem a ser mais reportados em cidade e regiões que contam com sistema de coleta em 2 Taxas são o número de delitos que ocorrem em um grupo de dez ou cem mil habitantes. é que isso nos permite comparar o número dos delitos em relação a populações de tamanhos distintos. Isto se deve ao fato de que esta é uma modalidade de crime em que o sub-registro. por exemplo. a tendência tem sido utilizar os dados de homicídio coletados usualmente pelos sistemas de informação de saúde. dado que existem sérios problemas de sub-registros em relação aos crimes contra o patrimônio. Assim. por exemplo. seja para efeitos de análise. país. ou até mesmo como comparação entre países2. região. . Na verdade. Homicídios ocorrem mais nas regiões pobres de uma cidade.

aquele que ocorre entre pessoas que têm um prévio relacionamento. Apenas o homicídio primário. as similaridades entre as taxas ocultam importantes diferenças. Podemos ter a mesma taxa de homicídios em duas cidades e. institucional. 1995).66 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL organizações mais bem estruturadas. Os homicídios não-primários. elas são bastante diferentes. 1979.58. PARKER. a taxa de morte por homicídios entre os jovens entre 15 e 29 anos é 34% maior do que as taxas no mesmo grupo de idade em São Paulo.35 homicídios por cem mil habitantes. vinculados a casos de assalto ou roubo. Estes números nos indicam que. No entanto. existe a discussão acerca da agregação de coisas diferentes sob o mesmo rótulo de homicídio. distribuições serem completamente diferentes (LYNCH. Além disso. . isto é. segundo o SIM – Sistema de Informações de Mortalidade. tendem a seguir o mesmo padrão de outros delitos contra a propriedade. 1999). teve uma taxa de homicídio de 59. A região metropolitana de São Paulo também teve um taxa parecida de 55. as mortes por armas de fogo representaram 87% das mortes por homicídios no Rio de Janeiro. ASSUNÇÃO E OTTONI. (c) homicídio primário entre pessoas não íntimas tais como amigos e. embora as taxas sejam parecidas. no entanto. 1980. Tomarmos as definições oficiais da ocorrência de homicídios nos leva à falsa idéia de que todos eles têm uma mesma motivação3. (d) homicídios primários entre pessoas íntimas tais como familiares. SMITH & PARKER. No ano de 1996. taxas de homicídio podem ser indicadores agregados que terminam ocultando uma série de fenômenos distintos que podem ser do interesse do planejador em conhecer. social ou demográfica (KATZ. 1988). 1989). No Rio de janeiro. do ponto de vista de sua composição. Toda a digressão acima não nos deve conduzir à falsa idéia de que os homicídios não são indicadores extremamente importantes da situação de violência 3 Muitos estudos tendem inclusive a analisar os distintos tipos de homicídio como se todos tivessem uma mesma causa definida por fatores ordem estrutural. foram classificados quatro tipos de homicídio: (a) homicídio não primário resultante de roubo. sejam eles de ordem socioeconômica. (b) homicídio não primário como resultado de outros crimes. ao passo que em São Paulo elas representaram 47% (BATITTUCI. Finalmente. 2002) Por outro lado. a região metropolitana do Rio de janeiro. Isto em geral ocorre nas cidades pólos de cada região (CASTRO. correlaciona-se com indicadores socioeconômicos de desenvolvimento. Nessa perspectiva. Uma forma de compreendermos a diversidade de tipos poderia ser tratá-los com base no relacionamento entre o agressor e a vítima (PARKER & SMITH.

(b) Treinamento e terapia para famílias que tivessem crianças que houvessem demonstrado comportamento agressivo na escola. Isto não ocorre por acaso. Estes programas foram comparados ao impacto que a introdução da lei dos “Three Strikes”5 teve sobre as taxas de crime na Califórnia. Os programas de intervenção incluíam (a) visitas a lares por assistente logo após o nascimento das crianças durante até os seis anos de vida. . em 1993. ou homicídios resultantes de uma dinâmica doméstica de conflitos e agressões. 4 No Brasil. investigado pelas delegacias de crimes contra o patrimônio. Compreender a distribuição de homicídios que ocorrem vinculados a razões de ordem utilitária tais como o latrocínio4. (c) quatro anos de incentivo monetário para induzir garotos carentes a se graduarem. A comparação favorece amplamente os programas de intervenção e. pois eles são mais eficazes. o que está sendo discutido é a extrema diversidade de fenômenos que existe em apenas um delito. reforma da justiça e das organizações policiais. Isto nos sugere fortemente a necessidade de se compreender todas estas nuances para a elaboração de programas que sejam eficazes. isto significa o assalto seguido de morte. não importando a gravidade do delito cometido. Pelo contrário. ou que estivessem em vias de serem expulsos dela. Terminou o ano de 2002 com 1902 homicídios.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 67 e criminalidade e determinados locais. no qual analisou-se o impacto de diferentes estratégias para prevenção de crimes através de programas de intervenção comparada à introdução de legislação dura. estabelecendo que após a terceira reincidência o delinqüente terá uma pena de 25 anos. além de projetos de reurbanização. Isto é corroborado em estudo realizado pela Rand Corporation. em especial. inclusive. os de incentivo monetário na forma de uma “bolsa escola”. A cidade de Bogotá registrou. com resultados mais duradouros e muito mais baratos do que as estratégias de repressão adotadas tradicionalmente. que é. (d) monitoramento e supervisão de jovens secundaristas que tenham exibido comportamento delinqüente. Cidades colombianas como Bogotá e Cali também vêm adotando com bastante sucesso programas de prevenção envolvendo jovens. 5 A legislação dos Three Strikes é extremamente severa. Informações e programas de prevenção A tendência recente na América Latina tem sido a de incorporar crescentemente componentes de prevenção social e situacional de crimes na agenda das políticas públicas de segurança.352 homicídios. 4.

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reduzindo a menos da metade suas taxas de homicídios por cem mil habitantes, conforme vemos no quadro abaixo. O programa “Seguridad Y Convivencia Ciudadana” articulou simultaneamente programas na área de justiça e polícia envolvendo desenvolvimento tecnológico de comunicação e bases de dados para a polícia, além da provisão de equipamentos. Além disso, projetos voltados para grupos vulneráveis e de recuperação de espaços públicos foram implementados, além de fortalecimento do sistema de justiça e reforma das instituições policiais através de programas de treinamento e equipamentos. Gráfico 1: Taxa de Homicídios por cem mil habitantes em Bogotá e Colômbia

Fuente: Instituto Nacional de Medicina Legal y Ciencias Forenses - Bogotá-CO

Da mesma maneira, Cali, durante os anos 1980 e 1990, assistiu grande crescimento das taxas de homicídios, que passaram de 23 por cem mil habitantes em 1983, para 90 em 1993. O programa Desenvolvimento, Segurança e Paz –DESEPAZlidou com fatores de risco identificados no contexto específico de atuação do programa, tais como o álcool; as armas de fogo; cultura de resposta violenta ao conflito; impunidade e ineficiência da justiça e da força policial e; pobreza, desigualdade social e marginalidade. A primeira área estratégica desenvolvida foi a produção sistemática de informações sobre a violência que pudessem servir de base para a elaboração de planos e estratégias. Duas abordagens foram adotadas para o levantamento de dados: (1) epidemiologia da violência, sob a coordenação de uma epidemióloga, um grupo, no qual estavam representantes da polícia, fiscalização, saúde, medicina legal e escritório de direitos humanos, reunia-se semanalmente a fim de estudar detalhadamente os

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eventos violentos ocorridos na última semana e preparar relatório a ser analisado pelo Conselho Municipal de Segurança. (2) Pesquisas de opinião, a fim de avaliar a qualidade dos serviços de justiça e de polícia, que era realizada a cada seis meses.

Informações municipais de segurança Quando estamos tratando de programas de prevenção, temos que desenvolver um sistema de informações que não esteja relacionado apenas aos dados de criminalidade, violência e segurança pública. A intervenção em fatores de risco da violência pressupõe alguma indagação acerca de quais são eles, bem como do impacto na criminalidade. Alguns deles encontram-se expressos nos dados relativos à segurança pública. Outros, entretanto, devem ser buscados no contexto socioeconômico no qual ocorrem os crimes, e daí a necessidade de uma base extensa de informações que não se relaciona apenas às agências de justiça e controle, mas a variáveis que expressam este contexto e informações sobre organizações e instituições que podem estar influindo positiva ou negativamente sobre os padrões de criminalidade. A recente experiência que está sendo implantada em algumas cidades americanas através do NIJ denominada de COMPASS (Community Mapping, Planning, and Analysis for Safety Strategies) constitui-se num bom exemplo de utilização intensiva de dados de diversas origens. Seu objetivo é justamente implementar sistemas de mensuração de eventos criminais e comunitários que possam servir a propósito de planejamento e análise. Assim, quaisquer bases de dados disponíveis podem vir a compor um armazém de dados, que congregaria informações criminais, comunitárias, informações mapeadas e pesquisas de opinião e comportamento.

Obstáculos a uma abordagem empírica dos problemas de criminalidade e violência Dados que sejam informações e informações que se constituam em conhecimento. Todas as dificuldades e vicissitudes expostas acima nos apontam para um problema que é central na constituição de conjuntos de dados que possam auxiliar a elaboração de planos e projetos. Ter dados sobre um fenômeno não significa necessariamente ter informação disponível. Sabemos que existem muitos dados em diversas organizações, mas a desorganização em seu armazenamento não os torna

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facilmente disponíveis para sua utilização. O custo financeiro ou até mesmo político da organização desses dados muitas vezes inviabiliza qualquer utilização mais sistemática deles. Registros policiais encontram-se em forma manuscrita e dispersos em porções e salas mal preparadas. Por outro lado, muitos dos detentores de informações vitais para a compreensão de um problema podem ter muitas e variadas razões para não os fornecerem aos representantes do poder público. No que diz respeito aos dados oficiais sabemos que informações criminais e judiciais são precárias, pouco sistematizadas e sua divulgação é errática. Isto torna difícil a construção de séries históricas, além de inviabilizar as comparações inter e intra-regionais, ou internacionais6. Algumas condições afetam negativamente essa qualidade que tem a ver com características das organizações encarregadas da coleta destes dados. Uma delas referese às tecnologias de processamento de dados: raramente as organizações policiais ou de justiça possuem computadores integrados em rede e submetidos a mecanismos eletrônicos de coleta de dados. Ainda usa-se muito papel no preenchimento das ocorrências, sendo o computador uma máquina absolutamente estranha ao cotidiano dos quartéis e delegacias. Outra tem a ver com a qualificação das pessoas alocadas nas atividades de coleta e registro de informações. É sempre importante lembrar que quando se pretende montar um sistema de informações, deve-se ter pessoal minimamente qualificado para a tarefa, que tenha um domínio no manejo de bancos de dados eletronicamente disponíveis, planilhas e, se possível, de algum software de análise estatística de dados. A par das condições necessárias para se transformar dados em informações que possam ser utilizadas pelos agentes destes programas, temos outra ordem de fatores a conspirar contra a transformação dessas informações em conhecimento. A primeira tem a ver com a centralidade dessas atividades no conjunto das práticas organizacionais. Estatísticas são produzidas por departamentos e unidades que nada tem a ver com o planejamento operacional das organizações e
6 Ver (1) “INDICADORES SOCIAIS DE CRIMINALIDADE” Trabalho elaborado de acordo com o convênio SG nº 033/86 e o Termo de Renovação SG-003/87, celebrados entre a Fundação João Pinheiro (FJP) e o Ministério da Justiça - Programa Ruas em Paz. (2) IBGE, Rio de Janeiro. Pesquisa de vitimização: dificuldades e alternativas. Rio de Janeiro, 1985. Mimeo. (3) PACHECO, Lúcia Maria M.; CRUZ, Olga Lopes da; CATÃO, Yolanda S. D. Construção de indicadores de criminalidade. Rio de Janeiro, IBGE. Mimeo.

que diz respeito a um certo tipo de cultura institucional e política ainda prevalecente em muitos setores da administração pública. NEWMAN.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 71 setores encarregados da prevenção e controle da criminalidade. e em alguns casos aterradores. entretanto. Análises mais compreensivas da criminalidade urbana são descartadas em favor da confecção de relatórios insípidos e de nenhuma serventia para os propósitos finais destas agências. Acrescente-se a isto que muitas vezes há um excesso de informações solicitadas no preenchimento de boletins de coleta de dados. A ausência de avaliações e estudos científicos. É bastante comum que. mas estratégias sólidas e permanentes ao longo do tempo que devem ser perseguidas disciplinadamente (SHERMAN et al. como atestam um sem número de autores que reclamam a montagem de bases de dados . entretanto. Outras condições referem-se à utilidade deste tipo de informações para o trabalho de ponta das organizações policiais e judiciárias. Existe outra ordem de problemas. provavelmente. Vamos a alguns deles: “Nossos problemas de criminalidade são tão urgentes que não posso ficar perdendo tempo com estudos e avaliações. Nesta área não existem improvisações ou insights bem intencionados.” É verdade que os problemas de crescimento da criminalidade e violência nos grandes centros urbanos têm sido marcantes. Raros são os países que dispõem de sistemas de aferição confiáveis sobre o problema da criminalidade e violência. na ausência de qualquer orientação mais racional. deverá torná-los pior ainda. Mitos que paralisam policy makers Um dos principais problemas relativos à formulação de políticas públicas diz respeito a alguns mitos bastante presentes nas elites políticas e gerenciais na área de segurança. que se traduzem numa disjunção percebida pelos profissionais entre a informação e sua prática cotidiana. mais ineficazes. Este é um quadro freqüente na América do Sul. Estamos vivendo a difícil situação de não sabermos quais os problemas mais graves simplesmente porque não temos quase nenhuma informação sobre eles. as políticas sejam as mais tradicionais e. 1999). 1997.

As organizações policiais latino-americanas são reféns de antigos modelos de gerenciamento. 2001b) “Para que estatísticas detalhadas? Quem quiser informações sobre a criminalidade. Muitas vezes. provavelmente. 2000.” Este é. Apenas os “grandes crimes” ou os fatos notáveis são objeto de atenção por parte de jornalistas. enfrentando bandidos com armas mais poderosas e ganhando um salário miserável. mais grave que o sucateamento material das polícias é seu estado de indigência administrativa e gerencial. Por outro lado. 1998b. devemos equipar as nossas polícias que andam em carros velhos. tendo que reagir ao sabor dos fatos espetaculares noticiados pela mídia. ou sob a pressão de figuras influentes. nossos policy-makers não são donos de sua própria agenda. estes fatos envolvem pessoas que supostamente não deveriam ser vítimas da violência (em geral da classe média para cima). “Para enfrentar os nossos graves problemas de criminalidade. BUVINIC e MORRINSON. 1988. os eventos que mais a afligem são os pequenos delitos urbanos. antes de tudo. que leia os eloqüentes relatos que nossos jornais de circulação diária trazem sobre o tema. pois ignora o fato de que a mídia é seletiva em relação aos fatos criminais noticiados. 2000b.” Um exemplo eloqüente da ausência de diagnósticos é a famosa resposta de “aparelhamento das polícias” que muitas vezes nossos prefeitos tendem a repetir em suas cidades. muitos deles de inspiração militar. Poderíamos arriscar um diagnóstico alternativo que. RUBIO. Conseqüentemente. o mais preconceituoso dos argumentos. BEATO. 2000). 1999. Esta é uma dimensão da violência urbana que apenas estatísticas detalhadas são capazes de fornecer. desconhecendo a violência cotidiana e corriqueira nos espaços urbanos em que habitam grupos desprivilegiados. . através da provisão de recursos materiais para as organizações policiais. BEATO.72 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL (FJP. que não se coadunam à realidade da criminalidade urbana de nossos dias (BUVINIC e MORRINSON. se é verdade que grandes crimes noticiados pela imprensa são importantes na formação da percepção de nossas populações. MOSER e SHARADER. que nem sempre resultam em ferimento ou morte das vítimas.

encarregada 7 As outras ferramentas dizem respeito ao desenvolvimento de estratégias adequadas à prevenção e soluções específicas para problemas. tornando possível a construção de uma base de dados que agregue os mais diversos tipos de informação. deverá efetuar uma análise detalhada de dados para formulação de estratégias. A base espacial torna-se o denominador comum de todas estas bases de informação oriundas de diferentes fontes. até a orientação focalizada para problemas específicos. serviço de inteligência. em especial bases de dados geocodificadas. e à definição de modalidades de implementação e institucionalização destes programas. bem como para o treinamento de agentes destes processos a nível local. trânsito. Todas estas informações são processadas pelo sistema que as encaminha a uma unidade de análise. informações recebidas de outras agências e associações de programas de prevenção. habitações e prédios. da justiça criminal e de dados censitários. bem como para o monitoramento e avaliação de resultados. com distintas unidades de contagem. igreja etc. mobilização comunitária. ou de desenvolvimento social. reforma da justiça. escolas. Em nível local (municipal) podemos encontrar várias informações que contribuem para a formulação de atividades de prevenção. que poderão ser mostradas em mapas digitalizados. O programa Safer Cities das Nações Unidas recomenda a utilização de três tipos de ferramentas para a formulação de planos e projetos de prevenção.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 73 Identificando problemas de criminalidade e violência Tanto o processo de construção de parcerias como de solução de problemas são dependentes de uma definição prévia de qual será a comunidade objeto do processo de intervenção. . arquivos de homicídios. O sistema é alimentado por: (a) fontes não policiais tais como órgãos da administração pública que cuidam de parques. Definir problemas relacionados à violência e criminalidade significa também definir grupos de interessados na solução destes problemas. A construção desses geoarquivos consiste na montagem de bases geo-referenciadas de informação de diversas fontes administrativas. O primeiro tipo refere-se justamente aos dados e informações a serem levantados para determinar a extensão e a natureza dos crimes7. Qualquer programa de prevenção que envolva seja a utilização de estratégias de redução de oportunidades. (b) fontes policiais referentes às bases de dados sobre quadrilhas e gangues. (c) grupos comunitários produzindo informações resultantes de encontros formais e informais com a comunidade. Isto envolve a formulação de planos estratégicos e de mobilização de grupos. mapas de diversos tipos de crimes. dados de outros órgãos de justiça criminal etc.

74 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL da identificação de “hot spots”. Registros oficiais e administrativos são produzidos por organizações policiais. Informações oficiais As informações oficiais podem ser coletadas a partir de dados disponíveis nas agências oficiais encarregadas da produção de informações a respeito de crimes e criminosos. O usual é que apenas algumas dessas informações estejam disponíveis de forma fragmentária e dispersa em distintas organizações e agências públicas. um dos problemas com este tipo de fonte de informação refere-se aos eventos que não chegam ao conhecimento da polícia pelas mais diversas razões. surveys de vitimização e auto-resposta ou observações experimentais. a orientação a ser seguida é a de organizar o maior número delas. A montagem dessas várias frentes de informações deve-se ao fato de que não existe uma fórmula única de classificação. São muito raros os exemplos de um gestor que disponha simultaneamente de um sistema com esta diversidade de informações organizada de forma sistemática e consistente. Mais adiante nos dedicaremos a este tipo de problema conhecido como “cifra negra". associações e organizações da sociedade civil. Cada organização encarregada do processamento de crimes e criminosos os classifica de acordo com seus objetivos e orientações. Existem várias possibilidades para se obter informações a respeito de criminalidade. . juizes e prisões). bem como das próprias agências da justiça criminal (polícias. Conforme veremos adiante. mensuração ou definição de delitos criminosos. Esta informação é disseminada posteriormente para os encarregados do policiamento. violência e sobre as organizações de polícia e justiça. hospitais de pronto-socorro e organizações encarregadas da emissão de atestados de óbito dentre outras. ou então podemos (b) produzir estes dados através de observações diretas. Podemos consegui-las através de (a) fontes secundárias tais como os dados oficiais e registros administrativos existentes. além da comunidade. Assim. promotoria. de unidades especiais da polícia e aos órgãos da administração municipal envolvidos. de forma a se montar um mosaico incompleto de uma paisagem bastante complexa. Trata-se de uma estrutura que visa integrar uma grande gama de informações em um sistema único que congregue a polícia com agências públicas e civis.

Mesmo ao tomarmos apenas os delitos de homicídio. 308. 312. Em alguns estados. as diferenças entre essas fontes podem chegar a quase 50% dos homicídios registrados. Belo Horizonte. por exemplo. o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. Conforme vemos no quadro adiante: Quadro I: Modelo de informações sobre fluxos e taxas de produção da justiça criminal SEGMENTO ORGANIZACIONAL Polícia Militar Polícia Civil Ministério Público Justiça Censo Penitenciário PAPÉIS Ocorrências Inquéritos Denúncias Processos PESSOAS Prisões Indiciados/Implicados Denunciados/Acusados Condenados Populações Prisionais Fonte: Indicadores Sociais de Criminalidade. que por sua própria natureza nos levariam a supor um menor grau de subnotificação. observamos diferenças resultantes das distintas tarefas que cada uma das organizações policiais cumpre. como Rio de Janeiro e São Paulo. e já foram observadas outras vezes (FJP. Centro de Estudos Políticos e Sociais. O Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde registra as . A tabela 1 ilustra essa discrepância em relação aos eventos atribuídos a cada uma das organizações no que diz respeito aos homicídios. e o SIM. há três sistemas de classificação de crimes violentos: o das Polícias Militares Estaduais. As discrepâncias são bastante expressivas. dados da Polícia Militar são agregados pela Polícia Civil. Em 1991. a Polícia Civil. a PMMG havia contabilizado 231 homicídios.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 75 A par do problema da “cifra negra”. as dificuldades em tomar as estatísticas policiais referem-se também ao domínio de eventos com que cada organização do sistema de justiça lida. em relação aos homicídios. 1987 No que diz respeito às etapas iniciais do processamento de crimes e criminosos no Brasil. Polícias Civis e. que se encarrega da apuração do crime. Conforme se vê. 1987). Fundação João Pinheiro.

documento gerado por atestados de óbito conferidos por médicos. como homicídio. o que irá gerar outro tipo de documento de ocorrência. no momento seguinte encaminhá-la à Polícia Civil por meio de algum documento de ocorrência (BOs). Já nos registros de óbitos. 2000). . até o ano de 1995. A Polícia Civil tomará essas ocorrências. resultam das próprias diferenças nas funções de cada organização. portanto. tendo como referência o Código Penal. ou como morte resultante de agressões. As diferenças observadas. PC e SIM. mais recentemente. conforme inquérito conduzido pela Polícia Civil. no capítulo relativo a causas externas. classificado nas Estatísticas de Mortalidade. Assim. uma classificação de homicídio ou tentativa de homicídio na Polícia Militar poderá ser qualificada mais adiante como homicídio doloso. latrocínio ou lesão corporal seguido de morte. homicídio culposo. A Polícia Militar limita-se a registrar as ocorrências verificadas no local para. Tabela1: Homicídios registrados em Belo Horizonte (1991-1999) Sistema de Informações sobre Mortalidade 308 280 274 261 373 396 436 Ano 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 Polícia Militar 231 196 197 218 235 259 271 368 428 Polícia Civil 312 286 293 295 321 323 326 433 505 Fonte: PM. bem como outros casos que se tornam homicídios posteriormente. para efetuar investigações no sentido de classificá-los juridicamente.76 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL ocorrências resultantes dos registros de óbitos preenchidos por profissionais da área médica. a causa de morte pode ser uma “perfuração por objeto contundente” (OLIVEIRA et alii.

dado que a possibilidade de ocultação da materialidade do crime é menor. podem-se perfeitamente prever os números contabilizados por uma das organizações policiais pelos números da outra. homicídios são delitos com supostamente números pequenos de subnotificações. haver um certo padrão de diferenças entre as bases de dados. as informações são congruentes o suficiente a ponto de podermos contar com um alto grau de previsibilidade de uma fonte de informação a partir da outra. não haveria por que serem tão distintos. restando-nos então avaliar a congruência entre as diferentes fontes de dados. tal como a de ser vítima de um latrocínio. Contudo.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 77 Números tão discrepantes são úteis para se trabalhar? Números tão discrepantes poderiam comprometer as bases de dados utilizadas para mensurar um tipo de delito que. Embora distintas em magnitude. Essa resposta significaria compreender a natureza dos crimes violentos e das condições de sua ocorrência. Afinal. por exemplo: . não é assim que ocorre. Qual é a cadeia de eventos e qual o peso de cada fator para que um determinado resultado ocorra? Estatisticamente. em tese. Como mensurar e utilizar estes números? Nenhuma dessas informações isoladamente é suficiente para responder a indagações sobre as chances de vitimização de diferentes tipos de crimes. não obstante as diferenças. isso significa apreender as probabilidades condicionais associadas a um lugar ou situação particular. de tal forma a verificar a possibilidade de. Gráfico 2: Regressão Homicídios PM e PC em Minas Gerais Fonte: PM e PC de Minas Gerais No caso de homicídios.

Além disso. é de que haja um assalto para cada 74. 1993:416) O entendimento dessas cadeias de eventos implica o levantamento de bases de dados e informações não imediatamente disponíveis às organizações policiais. Possibilidades alternativas de levantamento de dados Várias formas alternativas de coleta de informações e de dados têm sido sugeridas e adotadas para contornar alguns dos problemas com as diversas fontes de informação. de tal forma a delinear probabilidades condicionais. qual a probabilidade de que ele atirará e. portanto.24 assalto por dia em um universo de 92. A capacidade de ligar dados de diferentes fontes para a análise de problemas específicos de criminalidade e violência. outras formas mais .600 corridas no ano. é uma limitação importante nas bases de dados policiais.” (REISS.801.735 corridas. se tomarmos a população residente no centro da cidade. Surveys de vitimização têm sido crescentemente sugeridos como importantes instrumentos para fornecer informações complementares às estatísticas criminais produzidas pelas organizações do sistema de justiça criminal. chegando a 8 por cem mil. Uma possibilidade de como se fazer isso é o que veremos adiante. o que equivale a quase dez vezes a taxa média da cidade. a taxa de assaltos a transeuntes em 1997 foi de 758 por cem mil habitantes. que alguém sairá ferido. Dado que muitos problemas de segurança são bastante localizados e manifestam-se em uma área geográfica bastante reduzida. que ele resultará em morte. qual a chance dele constituir-se numa ameaça à vida e. especialmente delitos não comunicados aos agentes do sistema.78 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL “A cadeia de probabilidades condicionais para um latrocínio incluiria as chances de ser abordado num dado lugar e situação por um assaltante e das chances deste assaltante estar armado com uma arma de fogo. constituindo uma ameaça à vida. O risco de morte por corrida efetuada é de 1 para 27. se atirar. Dado a tentativa de assalto. O mesmo ocorre em relação a roubo à mão armada contra transeuntes no centro da cidade. este número decresce para quase dez vezes a taxa de BH. Qual a taxa de risco associada à possibilidade de um motorista de táxi vir a ser vítima de assalto ou de homicídio? No caso de Belo Horizonte. O denominador deve ser a população flutuante ou a população residente? Em Belo Horizonte. ocorreu em 1999 uma média de 1. O risco da atividade ocupacional. Se tomarmos a taxa em relação à população flutuante. dado o ferimento.672 corridas/dia.

ou de delitos cuja classificação não encontra amparo nas formas oficiais de categorização. não obstante serem um importante avanço em relação aos sistemas oficiais. Grupos focais com moradores e interessados da região. Nos últimos anos estes surveys têm sido freqüentemente sugeridos como estratégia de redução dos sub-registros. pela Polícia Civil e as taxas obtidas através da pesquisa realizada no município de Belo Horizonte pelo CRISP. furtos e roubo de carro. as medidas tomadas para autodefesa e a possível utilização de drogas por parte dos agressores. conseqüências econômicas etc). permitindo uma avaliação da dimensão da cifra oculta de crimes. arrombamentos. nem sempre chegam ao conhecimento das autoridades judiciárias e policiais. bem como da produção de dados que não são coletados. Pesquisas desta natureza são pertinentes porque complementam os dados oficiais de segurança. pelas mais diversas razões. Nele. (b) os agressores e seu relacionamento com as vítimas. . Este é o caso de eventos que. tenham sido eles comunicados à polícia ou não. Além disso. A pesquisa buscará obter informações sobre (a) as vítimas.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 79 baratas de se obter informações podem ser utilizadas. entrevistas com pessoas chave. agressões. ou cuja produção é bastante deficiente. Em busca da “cifra negra” Outra forma de aferir as taxas de criminalidade seria através de surveys de vitimização. Ele compara as taxas de furto registradas pela Polícia Militar. e (c) os delitos e as circunstâncias em que ele ocorreu (hora e local. O objetivo das pesquisas amostrais de vitimização é obter informações detalhadas da freqüência e natureza de crimes como estupro e violência sexual. assaltos. O gráfico seguinte é um exemplo das diferenças entre as taxas de ocorrências registradas pelo sistema de justiça e pelo survey de vitimização. uso de armas. a produção de surveys de vitimização também produzem dados incompletos e inconsistentes. Contudo. buscar-se-á obter informações suplementares sobre a experiência das vítimas com o sistema de justiça criminal. pode-se ver que o tipo de investigação aqui proposta permite um melhor dimensionamento da ocorrência do fenômeno a que se propõe conhecer do que apenas o uso das taxas oficiais de ocorrências. observação participante e até mesmo lançar mão de gravações em vídeo podem ser recursos bastante eficazes para o levantamento de informações.

0 12.8 754.5 17. 2001 Pesquisas de vitimização são importantes também na medida em que permitem maior conhecimento acerca da percepção que a população constrói a respeito dos agentes de segurança pública. descreve as diferenças de taxas para outros delitos considerados na pesquisa.7 19.6 2.3 20.4 5.5 Taxa 1.2 14. por sua vez. Constitui-se. portanto.114.1 17.2 PMMG Razão 8.6 307. 2002 A tabela abaixo.0 348.6 738. .8 28.Survey de Vitimização em Belo Horizonte.252. PC e survey vitimização Fonte: CRISP . num instrumento de avaliação direta das pessoas sobre a atuação do estado na segurança pública. além das experiências vividas junto a essas instituições.3 PC Razão 67.090.80 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Gráfico 3: Estimativa proporção denúncias PM.Funil de ocorrências Crime Roubo Furto Invasão de domicílio Agressão sexual Agressão física Survey Vitimização Taxa 8.1 4.8 15.357.4 358. Tabela 2: diferenças estimativas de taxas .9 6.3 3.005.984.0 300.3 Taxa 132.4 10.5 Fonte: CRISP – Survey de Vitimização em Belo Horizonte. As tabelas seguintes descrevem os percentuais referentes à opinião que os entrevistados manifestaram sobre as polícias no município de Belo Horizonte.

4% 2.8% PC 7. 67. 53. como os EUA e Inglaterra.0% Tabela 4 .0% 2.0% Fonte: CRISP – Survey de Vitimização em Belo Horizonte.8% 2.8% das vítimas de agressão não recorreram à polícia. Conforme o perfil de violência detectada pelo survey. 8 O mais eloqüente caso de sub-registro refere-se aos delitos de violência doméstica dirigidas contra a mulher e crianças. os agentes de segurança pública podem dirigir esforços através de campanhas educativas e do estímulo a denúncias de uma série de delitos que escapam ao seu registro8. investigações desta natureza possibilitam também maior cientificidade no planejamento de políticas públicas.9% PC 6.7% PC 4.4% PC 51.4% Favela não violenta PM 19.9% 46. Estas informações podem ser valiosas no planejamento de estratégias para o combate à criminalidade violenta e para medidas de mensuração sobre as estratégias adotadas na prevenção da criminalidade.1% 2. pelos mais diversos motivos. a cifra de pessoas que não registram queixa na polícia é bastante significativa e similar a de outros países. No Brasil.Você acha que as polícias em Belo Horizonte: PM Trabalham muito bem e razoavelmente bem Muito ou razoavelmente violenta com a população Fonte: CRISP – Survey de Vitimização em Belo Horizonte. 2002. Além disso. .7% 58. Sua avaliação ao longo do tempo permite uma descrição precisa da evolução da criminalidade. na medida em que tornam viável o acesso a informações sobre a natureza e a extensão de crimes.5% das vítimas de furto e roubo e 60.4% Favela violenta PM 27.1% 1. Segundo suplemento de vitimização incluída na pesquisa PNAD de 1988.4% 2. como proposto neste projeto.Já foi vítima de extorsão pela polícia? Bairro não Você já foi vítima de: Violência Extorsão violento PM 12. 2002. Os estudos de vitimização permitem ainda a comparação entre taxas de diferentes cidades ou áreas da mesma região metropolitana. bem como dos hábitos que levam as pessoas a reportarem crimes à polícia.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 81 Tabela 3 .

Na verdade. O mapa abaixo nos dá uma informação bastante conhecido de todos: a distribuição da população mundial. não é bom instrumento para revelar crimes contra empresas. Por outro lado. . por exemplo. este tipo de enquete. Elas não substituem. mas não produzem bons dados a respeito de organizações comerciais. A proporção dos que não acreditavam na polícia como motivo para não recorrer a ela é maior quando se trata de roubos e furtos (27. em virtude do desenvolvimento da informática. ou orientar políticas focalizadas ao nível de vizinhança.82 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL No caso de agressões. 17. A simples visualização dos dados no espaço permitiu identificar que eles estavam ocorrendo ao redor de alguns poços de água contaminados pelo vibrião.7% não acreditavam na polícia. Tal como ainda ocorre em nossos dias. contudo. Sua visualização. 20% julgaram que não era necessário. não obstante sua importância para descortinar a “cifra negra” de alguns tipos de delitos. que tornou possível a utilização de mapas eletrônicos e dos sistemas geográficos de informação eletronicamente disponíveis. A utilização de mapas para a análise de dados de diferentes naturezas já possui uma longa tradição. O segundo mapa ilustra casos de crimes contra a pessoa e contra o patrimônio em regiões da França. 19. esta distribuição era distinta quando levamos em contas variáveis de desenvolvimento socioeconômicas. Esta é uma área que avançou bastante nos últimos anos.7%). Não devemos negligenciar o fato de que pesquisas de vitimização são instrumentos que produzem informações a nível individual. as limitações decorrentes do tamanho da amostra neste tipo de pesquisa terminam por torná-la inoperante como instrumento de definição de políticas e programas a nível local. Incorporando dimensões espaço-temporais: o uso de geoarquivos Uma das ferramentas mais importantes para a análise criminal são os mapas. Os mapas a seguir são do século XIX. entretanto. Não se deve. nos fornece uma imagem muito mais eloqüente do que a informação através de tabelas. superestimar os benefícios deste tipo de pesquisa. O primeiro ilustra a localização dos casos de cólera em Londres.5% resolveram sozinhos e 14.4% disseram que não queriam envolver a polícia. A produção de pesquisas que revelem o tamanho das vitimizações de empresas contribuiria para compreendermos importantes aspectos do crime organizado em grandes centros urbanos. mas complementam as outras formas de levantamento de dados.

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 83 Figura 1: Map of Cholera Death and Locations of Water Pumps Figura 2: Balbia and Guerry (1829) Maps Comparing Crime and Instruction .

ufmg. Sistemas de informação têm servido para a detecção de padrões e regularidades. 1998). Lawrence W. 27. sabemos também que um grande número dessas ocorrências geralmente origina-se num pequeno número de ofensores. Gartin. Patrick R. Michael E. Para o analista. . pois mapas podem ser uma maneira fácil de conceber. n.84 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Exemplo de Mapa do Século XIX A simples visualização de informações em um mapa nos permite uma compreensão mais fácil. de maneira a dar suporte às atividades de policiamento. Isto permitiu descortinar um dos princípios de análise espacial mais importante: a de que se trata de fenômeno bastante concentrado tanto espacial como temporalmente10. a tendência recente na organização de dados policiais tem sido a de incorporar a dimensão espacial tanto para a explicação como para o planejamento de ações e estratégias de controle. A base espacial torna-se o denominador comum de todas essas bases de informação oriundas de diferentes fontes.. a criminologia tem estado atenta às dimensões temporais da criminalidade. Contudo. Além disso. Esquematicamente. pp. visualizar e analisar um problema difícil9. 27-55. apresentando conseqüentemente uma possibilidade melhor de compartilhar informações. Esta propriedade é essencial para quem quer desenvolver projetos e programas de prevenção de crimes. A criação de unidades de análise de crimes tem se constituído num dos principais suportes para o desenvolvimento de policiamento comunitário e de solução de problemas. Criminology. vol.crisp. 1989: “Hot Spots of Predatory Crime: Routine Activities and the Criminology of Place”. da justiça criminal e de dados censitários. bem como para prestar contas à comunidade sobre problemas relativos a segurança (Buslik e Maltz. Tradicionalmente. Geoarquivos e análise criminal A construção de geoarquivos consiste na montagem de bases georeferenciadas de informação de diversas fontes administrativas. 1. a montagem de um geoarquivo é representada a seguir: 9 Uma ao introdução ao estudo do mapeamento de crimes encontra-se disponível no endereço www. e Buerger. a incorporação de dimensões espaciais na análise adiciona um novo e importante elemento de explicação do fenômeno. com distintas unidades de contagem. Reconhecer os determinantes das tendências verificadas ao longo do tempo tem sido a questão crucial para muitas perspectivas explicativas e de atuação sobre o fenômeno. tornando possível a construção de uma base de dados que agregue os mais diversos tipos de informação.br 10 Ver Sherman.

incidente • Territórios quadrilhas • Prisões • Jurisdições delegacias • Liberdade condicional GEOARQUIVO Análise Problemas Desenvolvimento Estratégico Prevenção + Intervenção Comunidade e Agências sistema justiça Informações oriundas de diferentes fontes tornam possível a montagem e superposição de mapas temáticos de diferentes fontes. Mapa 1: Homicídios por distribuição de renda em setores censitários de Belo Horizonte Fonte: IBGE / CRISP / PMMG . ofensor. tais como o mapa adiante com informações a respeito da renda média de setores censitários superposto a mapas de homicídio na cidade de Belo Horizonte.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 85 Figura 3: Montagem de um geoarquivo Comunidade Exemplos de dados: • Mapas de ruas • Uso Urbano • Dados demográficos • Mapas cognitivos • Território quadrilhas e grupos • Escolas Agências Justiça Criminal Exemplos de dados: • Ligação Vítima.

nos deteremos um pouco nos dados a serem utilizados. o que termina por dificultar a acumulação de conhecimento na área. um conjunto de técnicas e métodos tem se desenvolvido para a identificação de hot spots. Como regra. Sua origem. Ou então. De uma forma geral. entretanto. e outros tipos de dados. ilustrando crimes. Um dos problemas inerentes à criação de unidades deste tipo é particularmente agudo no Brasil. Para tal. que tem servido de base para o planejamento conjunto entre diversas agências públicas (TAXMAN e McEWEN. Logo adiante discutiremos com mais detalhes esta possibilidade. Por outro lado. Por ora. pode estar nas mais diversas organizações e locais. ou. Toda a infinidade de informações municipal e de crimes pode ser representado visualmente. conforme vimos. poderíamos compor um quadro de informações da seguinte maneira: . podemos utiliza-los para fins analíticos: analisa dados e expõe resultados. Análises mais compreensivas da criminalidade urbana são descartadas em favor da confecção de relatórios insípidos e de nenhuma serventia. sequer. abundam estudos de pouco rigor e pouco vinculados às mais sólidas tradições teóricas de estudos em criminologia. chamadas telefônicas. uma formação especializada neste tema. ou áreas com alta incidência de criminalidade. acidentes de trânsito. Mapas podem ser utilizados para fins descritivos.86 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL O resultado mais visível da montagem de geoarquivos está na possibilidade de realizar análise específica para problemas locais (mapa 1). Estatísticas são produzidas por departamentos e unidades que nada têm a ver com o planejamento operacional das organizações policiais. Quais informações devem ser coletadas? Diversos tipos de informação podem vir a compor um banco de dados que possa subsidiar programas de prevenção. 1998). a tradição de estudos criminológicos de natureza quantitativa ainda é bastante incipiente no Brasil Não temos nenhum centro de formação em criminologia. Conseqüentemente. A ausência de um enfoque específico voltado para a análise de crimes que cumpra as funções acima mencionadas é decorrente da fragmentação organizacional no trato das informações por parte das organizações policiais. deveríamos tentar obter informações que fossem pertinentes aos problemas com os quais estamos lidando.

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 87 Quadro I: Variáveis dependentes – crimes violentos Crimes contra a pessoa Homicídio Estupro Consumado Tentado Consumado A residências urbanas A estabelecimento bancário A ônibus / coletivo A casa lotérica A padaria A mercearia / supermercado A depósito em geral A veículo automotor A táxi A transeunte A postos de combustível A residências urbanas A estabelecimento bancário A residências urbanas A estabelecimento bancário A ônibus / coletivo A casa lotérica A padaria A mercearia / supermercado A depósito em geral A veículo automotor A táxi A transeunte A postos de combustível A residências urbanas A estabelecimento bancário Roubos sem o uso de arma Crimes violentos Crimes contra o patrimônio Roubos à mão armada (assalto) Violência doméstica .

88 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Quadro II: Variáveis independentes Nível de limpeza das ruas Porcentagem de área ocupada com comércio Porcentagem de área ocupada com residências Número de grupos culturais Nível de acabamento das residências Número de residências Água tratada Índice de Infra-estrutura Esgoto encanado urbana Energia elétrica Iluminação pública Porcentagem de domicílios Rua calçada assistidos com..... Bancas de revista Telefone público Índice de proteção social Número de pessoas assistidas em programas .. Creche 7 a 15 anos Qualificação profissional Idosos Familiares Características urbanas Características populacionais Renda Idade Anos de escolaridade Porcentagem de idosos Porcentagem de crianças Porcentagem de brancos Porcentagem de homens Porcentagem de empregados Porcentagem de ocupados em profissões formais Porcentagem de desnutridos Taxa de mortalidade infantil Taxa de analfabetismo . Telefone Banco Posto de gasolina Índice de serviços urbanos Pontos de táxi Agência de correio Número de...

D. realizado em Caxambu. BEATO F. . Michael. et al. “La criminalidad em regiones metropolitanas de Rio de Janeiro y São Paulo: factores determinantes de la victimación e política pública”. Marcelo Ottoni. Loayza (eds. Violência e criminalidade. D. New York.C. 1: 159-173.. L. Crisp/UFMG (mimeo. BATITUCCI. Alfaomega/Banco Mundial. R. Atlas da criminalidade em Belo Horizonte. Yolanda. Julita Lemgruber e Leonarda Musumeci (orgs. MALTZ. BEATO F. Mark. Fajnzylber. BUSLIK. Comparação de Dados sobre Homicídios entre Dois Sistemas de Informação. Rio de Janeiro. São Paulo. In: WIDESBURG. 1993. 2001. Violência e Segurança Pública no Brasil. Mônica Silva. Minas Gerais. p. 197-235. Crime Prevention Studies. pp. agosto de 2000. 58-72. P. In: Daniel Cerqueira. CARNEIRO. Buvinic. 2003.. Bogotá/ Washington. Harold G. 2º Encontro do Fórum de Debates sobre Criminalidade.. & Morrison. Crimen y violencia en América Latina.). Michael. Cláudio C. M. Monsey. Ari Francisco. 2000. 118. & FAJNZYLBER. Brazilian Review of Social Sciences. ASSUNÇÃO. Crime Justice Press. Violencia en América Latina y el Caribe : Un Marco de Referencia para la Acción. Crime Mapping and Crime Preventions.. 37. A. n. “Análise descritiva da criminalidade violenta no Brasil: uma análise de quatro regiões metropolitanas”. Lexington Books. Shifter. Pablo. IPEA e CESeC/UCAM. Robert J. 168-176. 35 p. “Pesquisas de vitimização”. BID. San Francisco CA. “Determining factors of criminality in Minas Gerais”. 2001. P. Morrison. Claudio C.). Andrew. São Paulo. BURSIK. Mayra. “Power to the people: mapping and information sharing in the Chacao Police Department”. MONTEIRO-DE-CASTRO.). Cedeplar (mimeo. Buvinic. Living in a more violent world. 2. DURANTE. CATÃO. in P. 2000b. Foreign Policy. 2002. 1998.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 89 Bibliografia ARAÚJO JR. Lederman e N. Tom (org). & GRASMICK. Neighborhoods and crime. Renato Martins. Revista de Saúde Pública. em outubro de 1998.). Anais do GT 21 do XXII Encontro Anual da ANPOC. Belo Horizonte. 2000. Eduardo. Washington. David and MCEWEN. v. & FAJNZYLBER.

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92 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL EXPLORANDO NOVOS DESAFIOS NA POLÍCIA: O PAPEL DO ANALISTA. tanto o planejamento estratégico e operacional de suas atividades quanto a avaliação e o monitoramento de seus resultados. organizar. com base em evidências e análises. O POLICIAMENTO ORIENTADO PARA O PROBLEMA E A METODOLOGIA IARA Elenice de Souza Introdução Um dos maiores desafios lançados às organizações policiais está em potencializar sua capacidade de produzir. mais do que simplesmente reagir a chamadas urgentes e fazer cumprir a lei. raramente os policiais compartilham informações com seus pares sobre os problemas enfrentados no seu dia-a-dia e as formas alternativas de solucioná-los. recorrentes. Nesse ciclo vicioso. A polícia precisa priorizar problemas substantivos. espera-se que os policiais a cada turno respondam rapidamente às chamadas de emergência e estejam liberados para atender às próximas chamadas. fundamentado em um método analítico consistente. bem como de desenvolver uma metodologia de gestão que possa orientar. similares e muitas vezes comuns que ocorrem freqüentemente em locais específicos. Como conseqüência. . Aumentar a capacidade analítica das polícias com o objetivo de alcançar resultados mais eficientes requer mudanças profundas no modo tradicional de conceber o papel e a função da polícia nas sociedades modernas. que causam prejuízos às comunidades. No modelo tradicional. a habilidade do policial em resolver problemas tem resultado mais da sua experiência individual e do seu conhecimento prático do que de um processo criativo. processar informações de forma sistemática. Isso tem dificultado a condução de uma análise mais precisa sobre problemas repetitivos. Isso desafia o modelo tradicional de polícia como uma organização orientada para incidentes com a função primordial de controlar crimes.

identificando respostas alternativas bem como novos mecanismos de avaliação e monitoramento de resultados. que lhes permitam. a imagem que se tem do analista de crime remete ao indivíduo que passa o dia inteiro dentro de uma unidade de estatística do departamento de planejamento ou de inteligência das organizações policiais. através de um sistemático questionamento sobre a natureza dos problemas que afetam comunidades. sentado à frente de um computador. • Criar.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 93 É necessário. Assim os analistas têm como funções básicas: • Controlar e sistematizar informações e dados oficiais. através do uso da metodologia de solução de problemas. mais do que reagir aos problemas de crime. e do forte investimento em análise. aprimorando sua habilidade em utilizar ferramentas analíticas com base na metodologia científica. pois. no caso das Polícias Militares. (2) introduzir o modelo de policiamento orientado para a solução de problemas e. (3) a metodologia de solução de problemas. 1) O papel do analista de crime Tradicionalmente. maior comprometimento das organizações policiais com um modelo de gestão de informação e resultados que amplie o potencial das mesmas de questionar e investigar de maneira sistemática a natureza de problemas substantivos para os quais o público espera uma resposta. Este texto tem como objetivos centrais (1) discutir o papel do analista de crime. bem como de implementar formas mais eficazes e pró-ativas de solucioná-los. como nos registros de crimes. Este modelo dá assim grande valor à dimensão intelectual do trabalho policial. tanto nos boletins de ocorrências. Policiais devem ser capacitados e treinados para se tornarem experts na solução de problemas. no caso das Polícias Judiciárias. organizar e alimentar bancos de dados. com a função de organizar e alimentar complexos bancos de dados a partir de informações coletadas. . pesquisa e avaliação. intervir nas causas que contribuem para sua emergência. Essa nova concepção do papel do policial está intimamente associada ao modelo de policiamento orientado para a solução de problemas – uma forma de gerenciamento das organizações policiais que tem por objetivo analisar e intervir nas causas subjacentes e imediatas que geram problemas substantivos.

3. pautando suas ações em evidências e análises. • Organizar relatórios estatísticos periodicamente. bem como a implementação de novas metodologias de avaliação e monitoramento de resultados. planejar intervenções pontuais em locais ou alvos que foram identificados como prioritários e. • Analisar a evolução e as tendências da criminalidade. 2004). os analistas passam a maior parte do tempo calculando taxas. São eles: . Além disso. é preciso potencializar o papel dos analistas. analisando e mapeando estatísticas. criar tabelas e gráficos para facilitar a interpretação desses dados. Em geral. Esse material é quase sempre pouco utilizado em termos práticos. Neste sentido. avaliar e monitorar os resultados. criando gráficos e tabelas. • Fornecer informações sistematizadas para executivos e gerentes das corporações policiais. 2. que são arquivados em prateleiras. alguns fatores podem explicar a grande dificuldade de transformar a atividade do analista em uma ferramenta prática fundamental de planejamento estratégico e tático-operacional das polícias. servem mais para justificar uma intervenção policial anteriormente planejada do que para orientar o planejamento estratégico e tático operacional de ações futuras. Assim. ou em relatórios no formato digital. para que as organizações policiais aumentem sua capacidade de usar informações. raramente são realizadas avaliações sobre o próprio produto das análises. o resultado desse importante trabalho de transformar informação e análise em inteligência policial acaba se transformando em pilhas de papéis. sendo por isso pouco divulgado dentro das corporações policiais (COPE. Todo esse material é então colocado à disposição dos gerentes e executivos das organizações policiais com a expectativa de que possa ser utilizado para: 1. diariamente. bem como elaborando volumosos relatórios sobre a evolução e tendências da criminalidade. Entretanto. orientar o processo de tomada de decisões. Entretanto.94 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL • Analisar e mapear estatísticas sobre a distribuição temporal e geográfica do crime.

II. 2004). por exemplo. ao fundamentar as análises exclusivamente nesses registros. as vítimas. As pesquisas mostram que por vários motivos há um grande sub-registro de ocorrências de crimes por parte da população. confundindo-se muitas vezes o local do registro das ocorrências com o local do crime. Contudo. aquelas consideradas sigilosas ou as preciosas informações produzidas pelos próprios policiais no dia-a-dia de suas atividades. comprometendo assim as análises a serem desenvolvidas. As informações acabam priorizando o binômio crime / agente infrator pouco dizendo sobre o comportamento criminoso. quase sem nenhuma associação com os fatores que contribuíram para o processo sistemático de produção da própria informação (COPE. As informações nem sempre são precisas em relação ao endereço onde os crimes ocorreram.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 95 I. que são processadas dentro das corporações. . os terceiros envolvidos. b. Por outro lado. já que os dados oficiais representam apenas eventos que foram reportados para a polícia. bem como o contexto social e físico que possam ter contribuído para a ocorrência do crime. 2004). Isso tem uma grande implicação no mapeamento dos crimes. O tipo de dados utilizados Geralmente as análises se restringem ao uso de dados oficiais. como. c. os analistas nem sempre têm acesso a todas as informações. em especial por aqueles envolvidos diretamente na solução de crimes (COPE. As informações se limitam a dizer sobre o que aconteceu no tempo presente “do aqui e do agora”. A qualidade das informações Alguns problemas relativos à qualidade de informações são: a. corre-se risco de se ter uma visão parcial dos eventos criminais. apresentam dados muitas vezes incorretos ou incompletos sobre o endereço. Além disso. as redes criminosas.

e pela fragmentação das ações entre suas unidades especiais. b. onde cada organização é reconhecida como parte de um mesmo processo de produção e garantia de segurança pública. 2005). Além disso. Falta de compreensão e reconhecimento da importância da atividade pelos próprios policiais. A posição pouco privilegiada dos analistas na hierarquia das organizações policiais De acordo com a COPE (2004) isso pode ser explicado por alguns fatores. A cultura das organizações policiais Tradicionalmente. Por um lado. c. é comum o monopólio de informações por grupos específicos dentro das organizações. As informações sobre a criminalidade circulam de forma parcial. IV. Divulgação restrita dos resultados da análise entre as diversas unidades de polícia e pouco feedback do trabalho realizado pelos analistas. o fluxo de informações nas organizações policiais é descontínuo e restrito. seja internamente às próprias corporações. tais como: a. em detrimento de atividades integradas. Aplicação limitada dos resultados da análise na atividade prática de polícia. fortalecendo uma cultura organizacional que prioriza ações e soluções individualistas. as informações que são coletadas e produzidas por cada organização policial são raramente distribuídas e compartilhadas entre organizações irmãs. especializadas e de inteligência (BEATO. Isso dificulta o planejamento integrado e tático operacional de ações entre as diversas corporações policiais. o que implica. No caso especifico dos policiais na América Latina. (1) transformar .96 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL III. é crucial que as corporações policiais desenvolvam sua capacidade analítica e de avaliação de resultados. Neste sentido. d. esse problema é intensificado pela dualidade organizacional que separa as atividades de polícia judiciária das atividades de polícia ostensiva. em outras palavras. bem como na avaliação e monitoramento de resultados. o que dificulta a consolidação de um espírito de equipe sólido para a execução da missão policial de controle e prevenção do crime. seja entre as corporações. Pouca participação dos analistas no planejamento de estratégias e operações.

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 97 o conhecimento prático dos policiais em informações institucionais. (GOLDSTEIN. Nesse sentido. Isto proporcionaria uma mistura de talentos e uma oportunidade única de troca entre as experiências e o conhecimento prático das ruas. de acordo com Godstein (1990). por exemplo. os analistas se tornariam experts na solução de problemas com a habilidade de: • Distinguir o que funciona e o que não funciona em termos de controle e prevenção de crime. surveys de vitimização. identificar novas respostas e submetê-las a rigorosa avaliação e monitoramento e (5) facilitar o acesso ao conhecimento produzido. contribuindo assim de forma mais prática para a eficiência dos resultados policiais e a implementação de políticas que potencializem a defesa social. Mais do que isso. Para isso é preciso também que as corporações invistam na formação de analistas. as unidades de estatística e análise criminal das organizações policiais teriam de ser direcionadas para a solução de problemas. • Tipificar e categorizar modalidades de crime de forma mais específica e explicar seus padrões e variação no tempo. (2) envolver os policiais na atividade de pesquisa. Essas unidades deveriam ser formadas por uma equipe mista de policiais: tanto aqueles que trabalham nas ruas. • Complementar os dados oficiais com fontes de informação alternativas. além de contarem com o suporte de pesquisadores acadêmicos. (3) desenvolver um processo sistemático para produção de conhecimento sobre os problemas comuns e repetitivos que a polícia enfrenta no dia-a-dia (4). . na posição de liderança. • Aplicar conceitos e métodos científicos na solução de problemas substantivos. entrevistas com agentes infratores. e dados de outras instituições. que invistam em analistas capazes também de aplicar conceitos e o método científico para explicar a complexidade de fatores que criam oportunidades para a emergência de problemas substantivos repetitivos. como. com a expertise estratégica das lideranças e os conceitos e teorias científicas dos acadêmicos. quanto os que. 1996). que não apenas dominem o uso de programas computacionais estatísticos e de geoprocessamento. gerenciam as unidades policiais. processando e compartilhando suas experiências e expertise. Deste modo.

• Propor soluções para problemas identificados. optando por respostas alternativas que tenham efeito de longo prazo.98 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL • Identificar as causas imediatas dos problemas de crime. esse modelo procura interromper o ciclo vicioso e incessante de atendimento rápido e urgente a incidentes. E dedicam pouco tempo para pensar em como preveni-los. • Explicar e saber como evitar a imigração do problema e explicar a difusão de benefícios da intervenção. é inválido discutir a importância do papel dos analistas. • Avaliar e monitorar resultados. cujo principal negócio é a solução de problemas substantivos que afetam as comunidades. Desde modo. • Identificar parceiros em potencial. • Avaliar os custos e benefícios das intervenções. Sem dúvida alguma. 2) O policiamento orientado para a solução de problemas O policiamento orientado para a solução de problema é tido como uma das estratégias mais eficientes de gestão das organizações policiais. cujo trabalho é baseado na informação e análise. Esses policiais comprometem grande parte do tempo de trabalho reagindo a incidentes repetitivos envolvendo os mesmos agentes infratores. e garantir maior segurança pública. de efeito paliativo sobre os problemas de crime e segurança pública. se não discutirmos a relevância que o modelo de policiamento orientado para a solução de problemas deve dar ao fomento da conformação de uma polícia inteligente. Focalizado na prevenção e no uso sistemático de informação e análise. Ao contrário. o que contribui para que os incidentes se repitam. e os mesmos locais de ocorrência. próprio do modelo tradicional de polícia. tendo como objetivos aumentar a eficiência de seus resultados na prevenção e controle do crime. Entretanto. o policiamento orientado para a solução de problemas tem um caráter pró-ativo e procura intervir nos fatores situacionais que geram oportunidades . as unidades de análise de crime constituem um pilarchave das corporações policiais modernas. reforça-se a crença de que a polícia apenas “enxuga gelo”. as mesmas vítimas.

o conhecimento científico dos acadêmicos soma-se à expertise dos profissionais de polícia. por Herman Goldstein – professor de Direito e consultor do Departamento de Polícia de Chicago – num período de intenso questionamento em relação à eficiência do modelo profissional de polícia de controlar e prevenir o crime. os policiais têm se limitado a fazer nada mais do que registrar e atender incidentes. próprio daqueles que são integrantes de uma determinada organização. Juntos. que causam prejuízos ao público. as polícias têm diminuído sua capacidade analítica e preventiva direcionada para resultados e investido em estratégias tradicionais de caráter muito geral para lidar com uma ampla gama de problemas distintos. comunidade. ou sociedade em estudo (GOLDSTEIN. e o conhecimento orientado pela experiência prática. No caso específico do policiamento orientado para a solução de problemas. bem como pela implementação de respostas. Ao contrário do modelo tradicional. 1990. complementando-se e propiciando uma interlocução valiosa entre teoria e prática. a metodologia de pesquisa ação pressupõe que pesquisadores acadêmicos e policiais façam parte de uma equipe interdisciplinar de solução de problemas. 1979) a esse modelo é a prioridade dada aos “meios” da atividade policial em detrimento dos seus “fins”. Neste sentido. “problemas” são um conjunto recorrente de incidentes similares e relacionados entre si. avaliação e monitoramento de resultados. Como resultado. próprio de pesquisadores acadêmicos. Origem do conceito O policiamento orientado para a solução de problemas foi introduzido pela primeira vez em 1979. . De acordo com esse modelo. 1979).SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 99 para emergência de problemas substantivos para a polícia. A principal crítica de Goldstein (1990. o policiamento orientado para a solução de problemas baseia-se na metodologia da pesquisa ação. (GOLDSTEIN. Assim. são responsáveis pelo desenvolvimento de um processo analítico cuidadoso de identificação dos fatores que contribuem para emergência de problemas para os quais o público espera que a polícia dê uma resposta. o qual espera que a polícia vá resolvê-los. Essa metodologia própria das Ciências Sociais tem como pressuposto básico o estreitamento entre o conhecimento orientado por evidências científicas. 1990).

dados oficiais das polícias. relacionais. 2004). Cada uma dessas etapas é respectivamente descrita abaixo: I. Um dos resultados dessa etapa é a formulação de hipóteses claras sobre o problema em foco. com o objetivo de se definir de forma mais precisa e detalhada possível o problema em questão. conhecimento e expertise de policiais. bem como para desenvolver intervenções mais adequadas. Identificação Essa é uma etapa vital do processo de solução de problemas. comparação e interpretação de informações utilizadas na fase anterior. seleção. Essa é uma fase crucial de investigação de fatores causais. Contribuem assim para compreender a natureza e a extensão do problema. (3) revisão e seleção. podendo ainda utilizar novas fontes de dados que se fizerem necessárias. por exemplo. informações decorrentes de entrevistas com agentes infratores entre outras. 1987). dados de pesquisas de vitimização. que explicam a emergência de um problema em particular. Esses elementos são sintetizados pelos quatro estágios do método IARA de solução de problemas. o qual inclui (1) Identificação (2) Análise (3) Resposta e (4) Avaliação e monitoramento (ECK e SPELMAN. bem como de identificação de padrões. É recomendável que nessa fase seja utilizada uma ampla gama de informações como. . Hipóteses são cruciais para explicar relações causais entre variáveis associadas a um problema em particular e que devem ser testadas. II. (2) análise. Nesse estágio os problemas são identificados através da análise estatística e geoprocessamento de dados. (5) avaliação de impacto (COPE. (5) intervenção para minimizar riscos e. evolução e tendências do problema.100 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 3) O policiamento orientado para a solução de problemas e o método iara O policiamento orientado para a solução de problemas envolve um processo analítico muito similar ao processo de inteligência caracterizado pela (1) coleta de informação. Análise A etapa de análise baseia-se no pensamento lógico e inclui revisão.

comércio e o público em geral. Avaliação e monitoramento Esta é uma etapa que inclui. causas estas que sejam passíveis de avaliação e monitoramento. .SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 101 III. O resultado da etapa de avaliação e monitoramento é crucial para orientar a formulação de novas estratégias. de modo a intervir nas causas dos problemas. Uma das vantagens do método IARA é auxiliar a equipe de analistas de problemas a formular perguntas mais relevantes que possam contribuir na identificação e definição de “problemas” de forma mais precisa e adequada. instituições. exigindo-se assim um aprimoramento desse estágio. dificuldades na formulação de respostas podem apontar para inadequações e imprecisões na etapa de análise do problema. a etapa de análise pode indicar que o problema não foi bem definido no primeiro estágio de identificação. Por exemplo. como outros órgãos governamentais. a fim de evitar que o problema surja novamente. podendo envolver a participação de parceiros em potencial. cada obstáculo identificado nesta etapa implicará o reinício do processo IARA ou de pelo menos um de seus estágios. sendo que a conclusão de cada uma de suas etapas permite trazer novos elementos para se repensar etapas anteriores. todos que diretamente estão envolvidos com o problema e sofrem suas conseqüências. o IARA é essencialmente interativo. IV. igrejas. Como resultado. a qual envolve o desenvolvimento de estratégias alternativas de prevenção e controle de crime e outros problemas correlatos. e por outro o acompanhamento sistemático das ações implementadas. Essas respostas devem ir além da captura e prisão de agentes infratores. demandando assim uma melhor precisão em relação aos seus elementos constitutivos. Embora o método IARA à primeira vista sugira a idéia de um modelo linear – cada um dos estágios segue seqüencialmente um ao outro –. Esse método requer a coleta e processamento de ampla gama de dados que orientem a formulação e implementação de respostas mais criativas e práticas. por um lado uma avaliação do processo de implementação e de impacto das respostas. Resposta Criatividade é o elemento chave desta etapa. Assim também. bem como de novas políticas de prevenção.

Por um lado. essas unidades teriam que auxiliar as polícias não apenas a produzir e organizar um conhecimento sistemático e consistente sobre o que funciona e o que não funciona em termos de prevenção e controle da criminalidade. é preciso que as lideranças policiais e os pesquisadores acadêmicos se comprometam a desenvolver um conhecimento sistemático sobre problemas substantivos que constantemente demandam a atenção policial. para problemas diferentes. evitando assim o imediatismo muitas vezes presente entre os policiais de dar respostas sem analisar cuidadosamente os problemas ou insistir na implementação de respostas comuns. analisar e usar informações. aumentando sua responsabilidade para com as comunidades. as unidades de análise de crime deveriam ter um importante papel no desenvolvimento da capacidade pró-ativa das polícias. gerais. Conduzir.102 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Neste sentido o sucesso da aplicação do método IARA depende de uma maior atenção dos analistas a cada um desses estágios. Além disso. auxiliando assim as corporações policiais a pensar em como preveni-los. 4) Conclusão Para que as polícias aumentem sua capacidade analítica e o modelo de polícia inteligente orientado para a solução de problemas realmente se torne uma estratégia policial bem sucedida. Estas unidades de análise deveriam desenvolver projetos de prevenção e controle de crime no sentido de solucionar problemas substantivos colocados para as polícias. A metodologia IARA de solução de problemas contribui assim para potencializar um policiamento inteligente baseado num processo sistemático de coleta e processamento de informação e análise. dinamizando suas unidades de estatística e análise criminal. bem como avaliar resultados. característica do policiamento orientado para a solução de problemas. as agendas de pesquisa precisam investir no estudo de tipos específicos de problemas em que haja demanda de intervenção policial pelo público. mas disseminar esse conhecimento dentro de toda a organização policial. com a participação de . aumentando-se assim a eficiência policial na prevenção. também. Além disso. Enfim. Por outro. as organizações policiais precisam colocar em prática a metodologia de pesquisa .ação. sistemática avaliação do processo analítico e seus efeitos na prevenção. sem antes avaliar minuciosamente seus resultados ou monitorar seu processo de implementação. devem fornecer assistência e recursos para aprimorar a capacidade tanto das corporações policiais quanto de seus profissionais de coletar.

A troca de conhecimentos entre profissionais de polícia e pesquisadores representa um esforço conjunto valioso na formulação de estratégias e de políticas públicas de defesa social mais participativas e eficientes. no sentido de tornar sólidos os conhecimentos que vão orientar políticas mais eficientes no futuro. deveriam ser alocados mais recursos federais e estaduais em programas de treinamento de policiais como experts em análise de problemas recorrentes. e avaliando resultados.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 103 outros órgãos governamentais. Enfim. e no desenvolvimento e implementação de projetos de prevenção do crime. . do público e de outros colaboradores em potencial.

1987. 1996. . _________. Washington. 2005. the Concept. IGESP da Secretaria de Defesa Social do Estado de Minas Gerais. Intelligence led Policing or Policing led Intelligence? British Journal of Criminology. and Reflections on Its Implementation.S. UK: Police Research Group. Santiago: Centro de Estudios del Desarollo. 2004. GOLDSTEIN. Acction y Estrategia de las Organizacoes Policiales. London. 25(2):234-58. National Institute of Justice. C. New York: McGraw Hill. Apresentação do Modelo de Gestão Integrada de Segurança Pública. e SPELMAN. ECK. 1990.104 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Bibliografia BEATO. 2001. In: Polícia. J. Problem-Oriented Policing. H. E. Problem-Solving. DC: Police Executive Research Forum and the U. W. 1979. COPE. Home Office. __________. Problem-Oriented Policing in Newport News. N. Improving Policing: A Problem-Oriented Policing Approach. Sociedad y Estado: Modernizacion y Reforma Policial en America del Sul. 44(2): 188-203. Ed. __________. Problem-Oriented Policing: the rationale. Crime & Delinquency.

a atividade de inteligência é o que eles fazem e o conhecimento de inteligência o que eles produzem. mai. ao me referir à inteligência ao longo desse texto. . de áreas do Estado consideradas “sensíveis”. 1 OLIVEIRA. Descaso e incompetência. p. Em ambos os casos. Antônio Cláudio Mariz de. “inteligência” está ligada ao processo de tomada de decisão. ora associado à compreensão de regras. 2006. em especial. o termo é empregado no discurso público em alusão à capacidade cognitiva. procurei me ater ao conjunto de organizações governamentais que compõem a “comunidade de inteligência” ou os “serviços de inteligência”. ora relacionado à solução de problemas novos. Sem ter a pretensão de esgotar o tema.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 105 OS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA E OS DADOS OFICIAIS Paulo Augusto Souza Teixeira Introdução Uma questão que tem assumido grande relevância na atualidade é a transparência dos atos da administração pública. inteligência. A Lógica do Segredo Gostaria de delimitar de forma mais clara o termo “inteligência” para este texto. interesse. o presente trabalho visa discutir os limites e as possibilidades de divulgação dos dados oficiais sobre a criminalidade e a violência nos Conselhos Comunitários de Segurança. Desse modo. Faltam investigação. o desenvolvimento de ações integradas entre as organizações policiais e as comunidades onde elas atuam. Há desvios de função e corrupção”. como a Segurança Pública.54. permitindo.418. São Paulo. Entretanto. Época. para os quais não há uma regra previamente definida. como as normas e procedimentos de uma atividade profissional. n. assim. Muitas vezes. como no texto a seguir publicado na revista Época1: “A causa próxima é a absoluta incompetência.

É possível discernir os dois grupos essenciais: ‘nós’. que somos aqueles que retemos a informação. como: o grau de constitucionalidade desse serviço. cabe ressaltar que essa atividade. Desse modo. Quando a informação é mostrada em um contexto e restringida em outro.106 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Segundo Antunes (2002: 21). mas serve para destacar um dos elementos centrais na nossa discussão: o segredo como ferramenta de poder. Diversos autores tratam dessa questão e o acesso privilegiado às informações delimita toda uma rede de relações sociais. aqueles a quem a informação é bloqueada”. Contudo. em um contexto democrático. a regulamentação pública e o conhecimento sobre os órgãos responsáveis pela condução da atividade no país. Durante muitos anos. Em vários países a atividade de inteligência se estruturou como instrumento de assessoramento do Chefe de Estado para diversas questões. e “eles”. “a atividade de inteligência refere-se a certos tipos de informações. às atividades desempenhadas no sentido de obtê-las ou impedir que outros as obtenham e às organizações responsáveis pela realização e coordenação da atividade na esfera estatal”. inteligência e segurança têm um vínculo muito maior. a segurança pública esteve diretamente atrelada às atividades de segurança nacional. deve ser analisada levando-se em consideração alguns aspectos. devido ao próprio processo histórico de estruturação da atividade no país. pode-se perceber as diferenças nos tipos das relações sociais. como o Reino Unido. Um estudo mais aprofundado sobre essa atividade foge ao escopo do presente trabalho. relacionadas à segurança do Estado. No Brasil. a França e os Estados Unidos. e se constitui num dos instrumentos de suporte para o exercício do monopólio estatal do uso legítimo da força. as organizações ligadas à segurança externa e à manutenção da ordem se tornaram atores privilegiados dessa atividade. Esses aspectos devem permitir que haja um controle legislativo e que os diversos atores envolvidos com essa atividade respondam publicamente pelos seus atos. e os “serviços” de inteligência das polícias foram . A atividade de inteligência existe em grande parte dos países. De acordo com Antunes (2002: 28): “O grau de um segredo pode ser especificado pelo exame do número e da qualidade de diferentes contextos nos quais o fluxo de informações é intencionalmente bloqueado.

No Brasil. diversas violências são toleradas socialmente sem que sejam entendidas como crimes. esses registros podem ter várias origens. em resposta a essas pressões. Nem todas as condutas classificadas por uma determinada sociedade como crimes são necessariamente violentas. O policial militar realiza registros de suas intervenções e. ainda hoje. “ações espetaculosas são mobilizadas e os principais problemas do modelo de organização do sistema de justiça criminal e da pouca participação da sociedade deixam de ser considerados urgentes e politicamente pertinentes”. A fonte básica para as pesquisas sobre criminalidade são os registros policiais. . Encontramos aí o primeiro limitador ao processo de compartilhamento de informações: a lógica do segredo é responsável. no CPDOC. temos a primeira visão parcial das questões de 2 Para uma análise mais aprofundada da questão consultar “Cidadania e controle democrático do acesso aos documentos sigilosos”. pelo distanciamento entre a sociedade e os organismos encarregados da segurança pública. desta forma. recebe milhares de ligações diárias e se constitui numa das principais interfaces entre a polícia e o público. dia 07 de abril de 2004. viola a ordem e a tranqüilidade públicas. Disponível no site da FGV. no entender do cidadão. Palestra proferida por Alberto Nogueira Jr. geralmente consideradas urgentes e de certa gravidade. mas cabe esclarecer que se tratam de dois conceitos distintos. conhecido popularmente através do telefone “190”. A população usualmente aciona a Polícia Militar em situações consideradas de risco individual ou coletivo.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 107 estruturados para capilarizar a rede de informações das Forças Armadas. que variam de elementos suspeitos a ações de grupos armados. em especial a do Exército. mas tudo aquilo que. Os Registros Policiais Usualmente os conceitos de criminalidade e violência são empregados como sinônimos no discurso público sobre o tema. Uma outra questão importante diz respeito ao conflito estabelecido entre essa lógica e a pressão de diversas organizações que exigem uma maior transparência das ações dos agentes públicos2. pois coexistem diversas organizações que atuam na área da segurança pública. Essa diversidade de intervenções da Polícia Militar cobre não somente aquilo que se classifica por crime. O sistema de atendimento de chamadas de urgência. Por outro lado. Segundo Lima. O policial militar se depara com uma grande quantidade de demandas da população.

exige que seja incorporada e legitimada pelas organizações de justiça criminal”. da lógica organizacional das instituições de justiça criminal e. vai ter impacto direto na sintonia dos tempos da demanda e da oferta de dados. na medida em que podem comportar interpretações diversas do sentido e do papel das estatísticas. no caso. um núcleo de pesquisa que objetivava implantar uma metodologia de tratamento de dados da criminalidade. Uma das características relevantes é que os registros de todas . o estabelecimento de análises temporais. aparentemente. Com base no Código de Processo Penal. como algo que não nasceu. como o registro dos óbitos pela área de saúde. é possível pensar as estatísticas. bem como de questões difusas que constituem grande parte das atividades e do tempo empenhado pelos policiais nos seus serviços. como resultados de demandas externas. conforme demonstra Senra (2000). assim. Suas ações visam esclarecer a materialidade e a autoria dos delitos para apresentação à Justiça. A sistematização da coleta e armazenamento dos dados permite organizar os eventos em categorias baseadas na legislação penal. como as organizações policiais federais e os serviços de estatísticas de outras secretarias estaduais. Existem outras fontes que registram crimes e seus resultados. A questão das estatísticas na área de segurança pública também é abordada por Lima: “Trata-se da origem da demanda por informações que. Há algumas características julgadas essenciais a uma metodologia consistente para tratar dos dados de criminalidade. são elas: a constância do modelo de classificação. permitindo. a Polícia Civil é a encarregada de registrar e de investigar os fatos entendidos como crimes. O Estado do Rio de Janeiro criou em 1999. como os Boletins das Áreas Integradas de Segurança Pública e o Monitoramento Mensal. Em outras palavras.108 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL criminalidade e violência. O Instituto desenvolve ainda diversos outros produtos para os gestores da área de segurança. após a apreciação da autoridade policial. a publicidade dos dados e uma regularidade de produção e divulgação dos dados. visando subsidiar políticas públicas nessa área. Esse núcleo (Núcleo de Pesquisa em Justiça Criminal e Segurança Pública – NUPESP) hoje faz parte do Instituto de Segurança Pública (ISP). Um dos primeiros passos para a compreensão dos fenômenos associados à criminalidade é o estabelecimento de uma metodologia consistente de coleta. por conseguinte. Essa competência acaba tornando os registros da Polícia Civil a fonte primária dos pesquisadores e gestores de políticas públicas voltados para o controle da criminalidade. classificação e disseminação de informações.

Além disso. exigindo planejamento e avaliações permanentes e tornando possível o seu monitoramento.gov. no Estado do Rio de Janeiro. Foi adotada a estratégia de reformar o modelo de gestão das instituições policiais. Com esse processo de integração institucional entre as polícias tornou-se necessário estabelecer um canal de participação dos cidadãos na área de segurança. implementar soluções e monitorar a eficácia das medidas adotadas. Com a introdução do conceito de AISP. Como forma de articular as demandas da população foram criados os Conselhos Comunitários de Segurança.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 109 as delegacias policiais do estado são publicados mensalmente através do Diário Oficial do Estado. junto às comunidades.rj. Mas qual a relevância dessas informações para que a sociedade interaja com as organizações policiais na busca de soluções para os problemas locais? Relação Polícia-Comunidade: os Conselhos Comunitários de Segurança O primeiro passo é definir de que forma se dará essa interação entre polícia e sociedade. conhecer melhor o problema de cada localidade através das demandas dos moradores e delimitar. Assim. . com a finalidade de avaliar os problemas. o papel das polícias e de outros órgãos que podem contribuir na redução da violência. Além disso.br). A nossa história recente ampliou na sociedade a imagem da polícia como uma entidade externa à sociedade e poucas foram as iniciativas que tiveram êxito para reverter esse quadro. e uma das primeiras medidas foi a criação das Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP).isp. no ano de 1999. uma nova abordagem seria implantada em relação às responsabilidades das polícias. O conceito de comunidade adotado pela SSP/RJ para a implantação dos Conselhos estava vinculado às referências geográficas de atuação das organizações policiais. com caráter consultivo e com três finalidades básicas: aproximar a comunidade das organizações policiais e a polícia das comunidades. esses dados estão disponíveis através do site do ISP na Internet (www. rompendo a lógica do segredo. foram estabelecidas reuniões periódicas de trabalho entre o comandante do Batalhão e os delegados titulares da AISP. Os conselhos foram criados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP/RJ). o Conselho Comunitário de Segurança surge com forte vinculação às AISP. e essa ação estava inserida na implantação de uma política pública de segurança mais ampla. que buscaram compatibilizar geograficamente as áreas de atuação das polícias ostensiva (militar) e judiciária (civil). Esse conjunto de medidas visava aproximar institucionalmente as organizações policiais. Vou fixar a minha abordagem nos Conselhos Comunitários de Segurança que são um dos elementos centrais deste trabalho.

110 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL A aproximação entre as comunidades e as organizações policiais devia restaurar as imagens de ambas e os conselhos não deveriam ser tomados como uma estratégia de “relações públicas” ou como eventos sociais. pois a existência desse canal institucional de comunicação entre o poder público e a população acabou trazendo inúmeras demandas que não estão ligadas diretamente à área de segurança. mas como espaços de participação comunitária. Organizar a prevenção do crime tendo como base a comunidade. Alguns de seus elementos essenciais visam criar as condições para provocar mudanças graduais nas práticas operacionais das organizações policiais e buscar novas alternativas táticas e estratégicas para o emprego do policiamento. continua sendo um grande desafio. Os participantes foram orientados a procurar os canais institucionais já existentes para encaminhar as suas denúncias. A contribuição de outros órgãos não é constante e temos observado a importância de ações efetivas do poder público municipal com ações concretas que podem reduzir o sentimento de insegurança da população. junto às comunidades. Nas primeiras análises dessa questão nos deparamos com um medo dos participantes de serem confundidos com X-9 (informantes) da polícia. O objetivo de delimitar o papel das polícias. uma das premissas centrais dos conselhos comunitários de segurança implantados no Rio de Janeiro é que o público deve exercer um papel mais ativo e coordenado em relação à segurança. Segundo Skolnick & Bayley. 3. Ao longo do tempo tivemos uma grande oscilação na participação nas reuniões e diversos conselhos encerraram as suas atividades. Em 2003 é instituído o Café Comunitário nos batalhões de Polícia Militar como estratégia de aproximação comunitária. Descentralizar o comando”. e 4. A idéia de conhecer melhor o problema de cada localidade através das demandas dos moradores não pode ser confundida com um estímulo à prática de denúncias. foi editada a Resolução SSP nº 781 que aprova um regulamento para os conselhos em . como a Ouvidoria e a Corregedoria. quatro devem ser as áreas de mudança programática no policiamento de uma forma geral: “1. Como podemos ver. em 2005. Reorientar as atividades de patrulhamento para enfatizar os serviços não-emergenciais. 2. Aumentar a responsabilização das comunidades locais. além do Disque-Denúncia. A partir de 2004 o Instituto de Segurança Pública (ISP) passou a avaliar o funcionamento dos Cafés e Conselhos Comunitários de Segurança e.

as pessoas procuram a polícia para resolver questões individuais. Um exemplo clássico é a adoção de medidas no caso de um incêndio. como. 17. Em muitos casos. Uso dos Dados pelos Conselhos Comunitários De acordo com a Resolução SSP Nº 781. podendo assim atender a muitas conformações de associação da sociedade civil e. a cada reunião. inciso IV). a composição dos Conselhos com membros natos (representantes das organizações policiais) e eleitos (representantes da sociedade civil).SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 111 todo o Rio de Janeiro. A importância diz respeito aos resultados. também. O desafio está em compatibilizar os interesses conflitantes das pessoas que freqüentam as reuniões dos conselhos. Já os problemas importantes estão vinculados à missão da organização ou objetivos do grupo. Considero que o estabelecimento de prioridades e o encaminhamento adequado dos problemas detectados são passos importantes para a instituição de um novo paradigma de atuação policial. por exemplo. não se preocupando com os problemas coletivos. Esse regulamento possui alguns dispositivos muito importantes. junto com os representantes das comunidades das áreas geográficas dos CCS (art. 4º. levando as pessoas a adotar uma solução rápida. além de informar quais foram as medidas adotadas para garantir a segurança . Desse modo. inciso IV e art. ao resolver esses problemas. na área de atuação do CCS. O estabelecimento de prioridades deve ser realizado pelos representantes das polícias. A questão que se apresenta é de que forma serão estabelecidas essas prioridades. Um artigo importante é o que atribui aos representantes das organizações policiais a obrigação de divulgar. São dois os critérios normalmente utilizados para a definição de prioridades: a urgência e a importância. onde a rapidez da ação é sua virtude mais importante. que ataque os efeitos percebidos. As situações urgentes requerem intervenções imediatas. ficando a presidência do Conselho sob a responsabilidade de um membro eleito. Outros pontos essenciais são: o aumento da flexibilidade nos limites geográficos dos Conselhos Comunitários. a obrigatoriedade de divulgar os dados estatísticos da AISP no início de cada reunião. evitando grandes desastres. há uma melhora significativa em relação à situação anterior. uma das finalidades dos Conselhos Comunitários é discutir com os representantes das polícias civil e militar a definição de prioridades na segurança pública. os dados estatísticos relativos à área do CCS.

pode haver necessidade de realocar recursos temporariamente em outro ponto do estado. 5º. como Portugal. em Diário Oficial. XIV – “é assegurado a todos o direito à informação e resguardado o sigilo da fonte. ou de interesse coletivo ou geral. 5o. pois. art.II – o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos de governo. e o parágrafo 5º desse artigo explica que. sendo instituições estaduais elas estão sujeitas ao estado geral de tranqüilidade das outras AISP. inciso III). programados ou não. em conformidade com os preceitos constitucionais.. Mas a preocupação com a transparência não se restringe aos policiais que participam das 3 CF/88. observado o disposto no art. independentemente de censura ou licença”. São dois os grandes problemas a serem resolvidos. inciso XIII).. Outra característica do regulamento que gostaria de destacar é o fortalecimento da transparência nas relações da polícia com a comunidade.112 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL da comunidade (art. IX – “é livre a expressão da atividade intelectual. ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. independentemente do pagamento de taxas: . XXXIV – “são a todos assegurados. que trata da dinâmica da reunião. Desta forma. que serão prestadas no prazo da lei. 17. em virtude de eventos. A outra questão diz respeito ao limite de autonomia das unidades policiais. admitindo-se invocar sigilo sobre as informações reservadas que a legislação assim classificar (art. inciso IV). X e XXXIII” . Neste artigo. quando necessário ao exercício profissional”.. referentes ao mês mais recente”. 37. XXXIII – “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular. Dessa forma. artística. art.. Alguns países. há um certo limite para a execução das ações planejadas. Brasil e Espanha consagram nas suas Cartas Magnas o direito à informação como um direito fundamental3. mesmo após terem sido definidas as prioridades para uma área específica. os representantes das polícias ficam obrigados a oferecer quaisquer explicações solicitadas pelo CCS sobre o serviço policial. regulando especialmente: . 17. tornando ainda mais importante o estabelecimento de prioridades e o acompanhamento das ações. Assim. parágrafo 3o – “A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração pública direta e indireta.b) a obtenção de certidões em repartições públicas. O primeiro está relacionado ao formato dos dados que serão disponibilizados aos conselhos e aos recursos necessários para o envio desses dados. para defesa dos direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal”. científica e de comunicação. há um tempo reservado para a apresentação dos dados estatísticos do mês anterior (art 33. Entendo que a simples divulgação da variação da quantidade de registros das modalidades criminosas publicadas no Diário Oficial pode ser insuficiente para um acompanhamento da efetividade das ações adotadas pelas polícias. “na apresentação dos dados estatísticos serão abordados obrigatoriamente os itens publicados pela SESP. sob pena de responsabilidade. O parágrafo 6º autoriza os membros natos a “produzir informações quantitativas próprias no intuito de esclarecer fatos específicos relacionados à área em questão”.

inciso III). A primeira é no sentido de orientar a realização de pesquisas de opinião junto à comunidade. Aos superiores hierárquicos imediatos dos membros natos cabe exigir que prestem contas à comunidade em relação às medidas que estão sendo adotadas para a melhoria da segurança pública local (art. A questão da transparência proposta através da resolução esbarra na questão tratada inicialmente sobre a lógica do segredo. Há previsão de apoio técnico do ISP para desenvolver duas ações específicas. que serão planejadas e coordenadas pelo Diretor Social e de Assuntos Comunitários (art. as organizações policiais estaduais têm dado passos firmes na direção de tornar públicos os seus dados. inciso VIII) e a segunda é o fornecimento de relatórios analíticos para subsidiar as discussões sobre as incidências mensais da área (art. 33. Em relação aos relatórios analíticos. A primeira delas é a lógica do segredo que ainda distancia a sociedade das organizações . 22. Conclusões Em linhas gerais. nas organizações policiais federais (Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal). podemos afirmar que a divulgação de dados através das reuniões dos Conselhos Comunitários esbarra em diversas questões importantes. dificultando. podemos atingir o morador individualmente. O modelo de pesquisa de opinião pode variar de acordo com os problemas locais e o Nupesp possui pessoal capacitado para formatar a pesquisa e orientar a sua tabulação e análise. 39. ouvindo as suas opiniões e compreendendo os seus problemas. § 5º). Dessa forma. Contudo. reduzindo assim a particularização das demandas trazidas às reuniões pelos representantes da sociedade civil. considero que tais relatórios devem ser confeccionados a cada seis meses e o seu formato deve ser definido através de uma reunião específica envolvendo representantes do ISP. das organizações policiais e dos presidentes dos Conselhos Comunitários de Segurança. um acompanhamento mais efetivo pela população.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 113 reuniões. devido ao esforço necessário para a sua confecção e a necessidade de comparar resultados em prazos mais longos. Cabe destacar que o mesmo comportamento não ocorre. As pesquisas de opinião previstas na resolução podem ajudar a difundir a idéia de participação popular na área de segurança pública. onde há uma certa “opacidade” em relação às suas ações. além de servir de instrumento para identificar as demandas de cada localidade. assim. por exemplo.

Os dados disponíveis para a área de segurança pública devem ter um duplo referencial: a sua disponibilidade e a sua usabilidade pelo público.114 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL policiais. assim. a interação entre elas se dá de forma complexa e com reservas de ambos os lados. para adoção de medidas de prevenção aos crimes e a melhoria da qualidade de vida da população. Assim. Já em relação ao uso. O processo de institucionalização desses conselhos pode ser considerado um aprendizado social . . Esses dados possibilitam uma visualização parcial dos crimes que afligem a sociedade. Finalmente. geralmente através dos registros das delegacias policiais. as idéias de controle e definição de prioridades poderão ser vistas como aliadas na melhoria e no aumento da efetividade da ação policial. julgamos importante o desenvolvimento de modelos distintos para os diversos públicos. como os pesquisadores do tema. Em relação à disponibilidade temos encontrado iniciativas importantes nas polícias estaduais. A outra questão relevante diz respeito à produção dos dados. não havendo o mesmo esforço nas polícias federais. Desse modo. apresentamos os Conselhos Comunitários de Segurança como um instrumento que pode ajudar a transformar a lógica do segredo através da cobrança sistemática de transparência das informações sobre as medidas adotadas pelas organizações policiais. mas um conjunto imenso de dados referentes aos acionamentos da polícia militar não é sistematizado. A análise desse conjunto de informações poderia permitir o desenvolvimento de políticas públicas em diversas áreas. os gestores públicos das diversas áreas e os cidadãos em geral. contribuindo.

2003. De onde vêm os problemas: método para um diagnóstico eficaz. de 26 de julho de 1999. SKOLNICK. David H. In: BRESSER PEREIRA. Reforma do Estado e administração pública gerencial. RESOLUÇÃO SSP nº 781. LORIGGIO. Secretaria de Estado de Segurança Pública. 2002. Governabilidade democrática na América Latina no final do século XX. Policiamento comunitário: questões e práticas através do mundo. de 08 de agosto de 2005. Priscila Carlos Brandão. Luiz Carlos e SPINK. SNI & Abin: uma leitura da atuação dos serviços secretos brasileiros ao longo do século XX. 5ª ed. Antonio. Secretaria de Estado de Segurança Pública. 2002. PRATS I CATALÁ. RESOLUÇÃO SSP nº 263. ANAIS DA ANPOCS. LIMA. . 2004. Rio de Janeiro: Editora FGV.). 2002. Renato Sérgio de. Segredos e relações de poderes na produção e no uso de informações e estatísticas criminais. de 19 de maio de 2003. Jerome H. RESOLUÇÃO SSP nº 629.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 115 Bibliografia ANTUNES. Peter Kevin (Org. & BAYLEY. Rio de Janeiro: Editora FGV. São Paulo: Negócio Editora. Joan. Secretaria de Estado de Segurança Pública. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Doutora em Antropologia Social.br . Doutorando em sociologia pelo IUPERJ.rj.ufmg.116 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL PERFIL DOS ORGANIZADORES E AUTORES Ana Paula Mendes de Miranda .andreiapinto2@yahoo.br Doriam Borges – Professor do Departamento de Estatística da UFF. Pesquisador do Instituto de Segurança Pública – dborges@iuperj. USA e Pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança da Universidade Federal de Minas Gerais.com.Mestre em Sociologia pelo IUPERJ.br Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro – Doutoranda em Sociologia pelo IUPERJ e Coordenadora do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal – ludmila.elenice@crisp.com.com Paulo Augusto Souza Teixeira – Ten Cel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e Coordenador dos Conselhos Comunitários de Segurança Pública no ISP - teixeira@isp. Brasil - claudiobeato@crisp. Coordenadora do Núcleo de Informações sobre Segurança e Violência do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP) - ana_paulamiranda@yahoo.ribeiro@gmail.br Simoni Lahud Guedes – Doutora em antropologia social pela UFRJ e Professora da UFF .simonilahud@uol.br Andréia Soares Pinto .ufmg. Coordenadora do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal e Pesquisadora do Instituto de Segurança Pública .com. Brasil .br Cláudio Beato – Doutor em sociologia pelo IUPERJ e Diretor do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança da Universidade Federal de Minas Gerais. Professora da Universidade Candido Mendes.br Elenice de Souza – Doutoranda em Justiça Criminal e Criminologia pela Rutgers – The State University of New Jersey.gov.

ISBN 978-85-60502-32-5 .

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