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E@

coRAÇÃo, de pensar com originalidade e pro-


fundidade sobre os aspectos mais
CABEÇAE BigMEC correntes do quotidiano, os pormeno-
res mais comezinhos, mais aparente
MEU MAIS ANIIGO pensamento mente anódinos.
ESTOMAGO O
de que também eu queria escrever - Para ele, tudo pode ser interessante
O Miguel escreve sem vir-a-ser escÍitor - data do momento e objecto de observação, cada tema
preocupação de exercício em que li as primeiras crónicas do pode remeter para um outro tema e
literário, sem pensar no que Miguel Esteves Cardoso no Expresso. este para outro e assim sucessiva
disse fulano e sempensar A emoção de descobrir um autor de mente até ao infinito.
no que fulano dini. Não faz que se gosta e com quem nos identi- O Miguel gosta da vida e sabe vivê
gestão da carreira. Vive ficamos invade-nos como uma onda -la, é feliz dentro dela. Contenta se
afastado da lutapara ser expansiva, que passa da cabeça ao em seÍ português - o que e muito
isto ou aquilo, para ganhar peito. É como uma porta de um mun melhor que ser nacionalista e em
este ou aquele prémio do novo que se abre, faz nos sentir descobrir, com persistência e regula-
como um daqueles lepidopterologis- ridade. o bom de viver em Portugal.
tas que, seguindo o voo leve de uma Os assomos de enternecimento pe-
borboleta, topam com um monu- rante a natuÍeza - as plantas, as t1o-
mento de uma civillzação antiga, es- res, os bichos que lhe entram na sala
condido na selva. de colossais di- (aranhas, abelhas, besouros, gatos.
mensões e de tão misteriosa beleza. etc.) -. as ligaçÕes que estabelece en
Lembro-me muito bem de, por esse tre tudo o que se passa à sua volta, a
tempo, estar internado no Hospital de simparia que aproxima uma sensacào
Santa Maria, depois de me ter partido e outÍa sensação, um sentido e outro
quase todo num desastre de mota. sentido, mostÍam-nos que consefl/a
Tenho a imagem gravada na memo um espírito religioso davida.
ria: naquele momento, rendi-me sem Nos seus texLos rrào há anurgura
condiçôes aoptazeí da leitura, fiquei nem desespero (para ele, o desespero
num estado de total imersão, perdi por é arrogante, porque pressupÕe que sa
completo a noção do sítio onde estava. bemos o qlle vai acontecer). As suas
Graças a essa felicidade e a esse crónicas fazem nos rir (e devemos es-
pÍ azer. abandonei temporariamente rar sempre agradecidos a quem nos laz
o medo de entrar na sala de opera- rir), mas proporcionam-nos também
ções. Não faço ideia se a reacção bio um mundo interioÍ de pensamentos.
lógica produzida por esses sentimen- de sentimentos e de improvisações (o
tos me salvou, o que sei e que me deu Miguel é um improvisador nato,
o primeiro sinal de que, caso sobrevl* daqueles que abrem novos rumos e
vesse ao internamento e à convales- trazem uma nova luz à literatura).
cença. também eu tentaria viver da
escrita (além de me ensinar que a es-
peranca abre caminho a uma magia
muito maioÍ que nós).
DaÍ que lhe tenha, a ele que nunca
conheci pessoalmente, uma gratidão
sem limites (por isso, quando ele diz
"sou feliz", isso dá me felicidade a
mimtambém)
O Miguel é um curioso puro. Parece
estar sempre num estado activo de
recepção, sempÍe predisposto para o
acto de criaÇão. Tem no seu interior
um manancial subrerráneo que nào
pára de brotar, gerando uma activida- :,
de prodigiosa.
De tudo faz motivos de escrita e de x'í$
ilE
todos os motivos se aproveita com a iíillí

o
Escritor e sociólogo
máxima liberdade. E capaz de elevar w
ií)
.,é
os assuntos mais evanescentes à cate-
JoãoPedroGeorge goria de grandes acontecimentos, e
'^#'"nf#":13,1X? I §

Até à chegada do Miguel, os


melho_ uso da lÍngua que faz a gramáüca
res escritores escreviam e
à século XIX, nao agramática que faz a língua,
escreviam em português de lei, que
mas escrever bem nào implica
eram iodos demasiado clássicos. i.rp.ito
pera gramatica).
O Miguel importou para as frases
portuguesas todas essas razôes. a sua escrita
a estrutura inglesa, as ^Por
nao e uma escrita maquinizada ou
suas construÇôes simples.
Adaptou o macaqueada. E uma escrita que
rngtesismo sinráctico ao caráctêr nun_
e as ca se deixou contaminar peiá literati-
condiçôes da hngua ponuguesa.
Di_ pela gramariquice nem peta
minuiu a distáncia entre o que
se fala :.: :.,
culturite.
e qle se escreve, brincou com eue nunca dissocia a jÍtera_
9. a tura da vivência directa, não
multipla irradiaçào dos vocábulos, a confina
num mundo de textos que reportam
oas expressôes populares e
das dic_ para outros textos sem nunca
çoes peculiares do nosso idioma. se rela_
cionarem, em primeira mão,
Mostrou, com simplicldade com a
e clare_ experiência humana.
za, que todas as palavras se
bifurcam E uma prosa ágil e imaginativa.
..pgd."rn ser invertidas nas suas , rica
pos_
sibilidades. e procecleu assim imprevisras imagens.
e
a uma 1_e_estupordas
que nos oferece srnteses
revisào dos pressupostos sempre novas
e dos me daquilo que Ihe aconrece
ro0os da escrita (como todos
os gran _
the poderia acontecer, quando
f*
Oã q*
des escritores, o Miguel sabe qrie não
eo acontece nada), sem pretender
encer_
rar a realidade na ordem e
na coerên_
cia de um sistema. Uma prosa,
enfim,
que assenra num equilbrio
relacional
intetigência,
::ll:gjrro :
to que e preciso manter,
enrÍe aqui_
mas também
mudar. entre as origens que
devemos
conservar, mas também renovar.
igu9l. es.creve sem preocupaçâo
,de^Of
exercrcio Iiterário. sem pensar
no
sem pensar no que
lyl_d]t:: fu.t1-no-e
Iutanodirá. Nào fazgestào da
carreira
vrve.alasrado da luta para
ser rstc ou
aqurlo, para ganhar este ou
aquele
prémio (não se é um grande
esiritor
apenas porque se satisfaz
as exigên*
cias dos prémios e das homenagens),
.,.
'. ,
para que o convidem a
exercer este
ou aquele cargo.
':--,':.i:'i.:i'
relê-se
e a leitura dos livros do
. .Lê-se,
Miguel constitui quase sempre
uma
r€sposta à nossa necessidadà
indivi-
l': dual de reflexão e de bagagem
;ti , filosófi-
..,',
,1 ' :', 1.:1.;u , ca para a vida, mas também
à busca
;Fnry*r'
---
.i:i;'.Í+,'\
-'
do^texro apenas pelo prazer
{J Miguel Esreves Cardoso.
do texro.
parafra
seando o Mário de Andrade,
é como
uma árvore cuias folhas poisam nas
nossas raÍzes e nos servem
de adubo
§:leros.o Que mais se pode exigir de
um escritor? {}

Texto escrÍto segunclo


o anteríor acordo ortografico

8t

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