Você está na página 1de 2

EDITORIAL o das. Também não foi um assassino.

para os padrões da época. Foi uma


O debate sobre agueÍra
colonial não deve ser feito
Aguerua máquina de guerra da ditadura,
como tantas outras. Não me interes-
pela manipulação ideológica
da esquerda ou da direita
colonial não sa a instrumentalização do passado
por grupos de interesses, seiam eles
Deveserfeito commais
rigor e menos subjetividade.
acabou políticos ou universitários.
O debate sobre a guerra colonial não
Deve serumdebate de deve ser feito pela manipulação ideo-
reconcilia@o entre « queles somos nÓs, os mais in- lógica da esquerda ou da direita, como
portugueses, não de ódio ll del'esos e os mais puros dos tem acontecido nas últimas semanas.
evingança I ^ l, portugueses, aqui mais uma Deve ser feito com mais rigor e menos
vez trazidos dos campos e da pobreza subjetividade, radicado em fontes cre-
para embarcarem numa aventura em dÍveis e não em testemunhos insindi
que se tÍanscenderam." cáveis nas redes sociais, com o distan
Carlos Matos Gomes. no llvro "Guerra ciamento necessário que nos permita
Colonial - UmRepórter emAngola" compreender aqueles 13 anos da nos-
sa história, vividos em plena ditadura e
Estafrase de Carlos Matos Gomes é o no alvor da Revolução de Abril. Deve
ponto onde me situo no debate sobre a ser um debate de reconciliação entre
guerra colonial. Aliils, toda a obra de ponugueses. nào de ódjo e vingança.
Matos Gomes e a de Rui Azevedo Tei- Todos os que simplificam, a partir de
xeira, autoÍ de uma das mals vastas, um insuportável maniqueísmo moral,
estruturadas e abrangentes reflexões a atuação de Marcelino da Mata - co-
sobre a guerra, a partir da literatura meçando em Vasco Lourenço e aca-
produzida em iÍngua portuguesa e da bando no incendiário Mamadu Ba -,
sua própria experiência militar, são o não estão interessados em fazer um
ponto em que me situo no debate so- debate serio sobre a guerra. Estão inte-
bre aguerra. Desde sempre. ressados em fazer politiquice, cavando
Tinha 12 anos no 25 de Abril del974 trincheiras ideológicas, para semear a
e a guerra iá marcava mais a constru- discórdia, a bipolaridade inflamada,
ção da minha consciência sobre os insultando a memória dos que morre-
tempos que vivíamos que qualquer ram, dos que ainda sofrem com a par-
outra coisa. Vivendo no Alenteio, os io- ticipação na gueÍra e das suas famÍlias.
vens da minha idade cedo começa- Quando Matos Gomes escreve que
vam aver desapiarecer rapazes pouco "aqueles somos nós", referindo-se
mais velhos que nós, cedo começá- aos soldados que travaÍam a guerra, Grande parte
destas atroci-
mos a veÍ os funerais militaÍes, o Íe- como ele próprio, está a situar o de-
dades foram
gresso dos caixÕes de pinho. E cedo bate no seu ponto de partida essen- cometidas no

ry"-'u*i'
comeÇvamos aÍazeras nossas contas
sobre a chegada do dia da ida às sortes,
cia1. O que falta e um debate sobre
eles e nós, o que nos fez a guerra, o
referido qua-
dro hierárqui-
co que tam-
como dizia o povo, para qualificar a que fizemos nela, como tratámos, bém compor-
inspeção. Sou, portanto, de uma gera- enquanto sociedade, os que nelapar- tava os milita-
ção que, feilzmente, não foi à guera ticiparam. Nào comecemos. pois. por Íes de Abril ê
mas que construiu uma memÓria de tratar como cúmplices do colonialis- náo apenas os
"fascistas"
proximidade - familiar e social - so- mo os que não tiveram escolha. E os
bre o que ela representou para Portu- mais de 70 mil africanos que comba-
gal, com avantagem de a poder cons- teram nas Forças Armadas Portugue-
truir com algum distanciamento, sem sas também não tiveram.
cair em barricadas ideológicas. Somos nôs todos. os nossos pais . s
Não me interessa a glorificação de nossos tios. os nossos primos. o j nris
Marcelino da Mata nem a sua diabo- de 800 milportugueses arrancadcrs da
lização. Não foium herói pelos pa- sua terra, da sua vida, dos seus cam-
drÕes atuais, mas salvou muitas vi- pos, de um PaÍs mergulhado na robre-
za e na repressão do pensamenro e da
palavra, para travarem uma gueria em
nome de um império a desmoronar-
Diretor -se. que merecem uma discussào seria
EduardoDâmaso sobre esses 13 anos.

6
.'5 FI\iERElRa 2{,):1
S^BADO. www,sabado.pt l§

é evidente. Vamos julgá-los por isso?


Queremos discutir o que fizeram ou o
que lhes aconteceu? É que os 800 mil
pofiLtgueses enviados de portugal nào
têm uma história assim tão diferente da civis. Não há memória de que se tenha
dos 70 mil afrlcanos incorporados. E. oposto. Otelo Saraiva de Carualho co
muitos deles. também não tizeram coi nheceu passivamente algumas dessas
sas muiro diversas das que sào agora operaçÕes com ordem para cortar ca
imputadas a Marcelino da Mata e aos becas e escreve o no livro Alvoraclo
comandos africanos. implacavelmente ern Abrtl. Carlos Fabião, um dos mais
abandonados por Portugal em 1g74 e destacaclos mentbros do N{FA. era o
logo executados sem direito a defesa ponro márimo arcluia militar na
cla hler
ou julgamento - pelo PAIGC. Cuine. anres rle Spúrola. qtre nào so sa
Se queremos discutir crimes cle bia de tucio como era produtor cle or-
gueffa, e será muito importante se clens operacionais que abrangiant todo
viermos a produzir essa catarse coleti- o contingente militar na Guine, incluin-
va, então é meihor envolver todas as do os cornanclos aliicanos
Forças Armadas Portuguesas, incluin - A realiclade da guerra pocle represen
do alguns dos milirares de Abril, por tar, para alguns, uma desonra nacional,
pafiicipaÇão direta ou omissão de mas dit'icilmerrre eia pode ser imprrra .

ação, depois de conhecidas as atroci da seletivamente. A verc.lacle e que por-


dades. Não podemos, 60 anos clepois tugal quis esqllecer as suas clesonras
do inÍcio da gueÍra, continuar a agir sob Íapidamente. Calou a guerra e os seLts
a capa de um inflamado maniqueÍsmo crimes, apagou a PiDE. não a juigou,
moral, politizando a virtude no espaÇo mergulhou no esquecimento. Tal
público, e uma indeseiável seletividacle conto àtirou pil'a o esquecime|tu e
indiciária sobre o que uns e outros fize para a indiferenca social e polrtica os
ram. O colapso da racionalidade que mais de 800 mil solclaclos recrutaclo§.
essa atitude comporta agudizará ainda O que acorrreceu J essas geracôe: sr-
mais a dor das feridas abertas. crificadas? Como foram tratadas pela
Marcelino da Mata não esteve nos demoqaclr? Ao longo clestes 60 anos
massacres de clvis em Moçambique, esses 800 nril porrugLreses tonnt igno
de que o de Wiriamu é apenas o mais rados pelos poderes políticos e milita-
conhecido. Marcelino da Mata não es res. Até a medalha comemoÍaliva das
teve no Norte c1e Angola a cortar cabe campanhas aliicrnas so loi eltrreglte
''Somos nós
. a velha "caÍne para ca-
ças na luta cor.ttra os autores dos mas presencialmente mais cle 40 anos após
nhào de rodas as gueffas que portugal sacres da UPA, que em poucos clias o regresso. Só em 2020 foi pubiicado
travou. a quem puseram uma melra mataram cerca de 3 mil colonos bran- em Dtario da ReptÍblicao Estatuto clo
lhadora na mào e deram uma ração de cos e 14 mil negros. AÍ estiveram sol- Antigo Combarente. alei 46,2020, qr"re
combate, com a habltual ordem de de daclos e oficiais, brancos e negros. e procura estabilizar um quaclro legislati
senrascanco. que tem de falar e soltar a todos eles obedeceram a ordens. Mar vo clisperso e pobre que. décaclas a tio.
sua dor. Nào deleguemos esse papel celino da Mata terá estado em massa foi uma mão cheia de nada. euerem
nos oráculos de uma alegada verdade. cres na Guiné mas, que se saiba. esteve maiorvergonha coletiva que esta?
Não dei-xemos que sejam os donos de sobretudo em operaçôes militares hie-
uma memória que e de todos. rarquicamente decididas e não pode G
Num Pars sem trabalho. analfabeto, seruma especie de metálbra de toclo o OcompromissodaSÁBADO
sem oportunidades, brutalmente es mal feito naguerra. Pela nossa parte, e por bem sabermos
tratiticaclo em termos sociais e econó Cumpre recordar, de resto, que gran que a Guerra Colonial ainda não aca-
micos. como não seria uma aventura. de parte destas atrocidades foram co bou para rf,nros quc Iá estiveram sem
para jovens de 18 e 19 anos. ir dar uns metidas no referido quadro hierárqui querer. varnos dedicar rodo o ano a slld
tiros para África em norre da defesa co que também compoÍtava os milita discussào. A SÁBADO lançou a iniciati-
da páúal? Como não seria uma aven- res de Abril e não apenas os "fascistas '. va "'Guerra Colonial: 60 anos160 histó
tura. de que nos fala Matos Gomes, le- Costa Gomes soLrbe que os coman- rias" e vai publicar reportagens. entre
vaÍ esse misto de meclo e infantiliza dos tonuravam e matavam populacÕes vistas, investigacão e ensaios, nas ecli-
ção Atlântico fora. depois da impres
çÕes em papel e digital. procuranclo
sionanre liturgia do poder da ditadura,
cumprir o selr papel na defesa do inte
que eÍa o juramento de bandeiral?
resse coletivo e respeitar a memória
Que consciência, polÍtica e social, 1e- do PaÍs, clos homens e clas iamÍ1ias que
vavam na bagagem? Nenhuma, como
a tÍavaram.

Você também pode gostar