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Introdução

Por recomendação de um conhecido bibliógrafo, comecei a ler uma obra intitulada “O


Último Cabalista de Lisboa” de Richard Zimler. É um livro, de indispensável leitura, que
relata as perseguições aos cristãos-novos (judeus), mesmo antes da grande
inquisição, ao mesmo tempo que sucede um crime aterrorizador. Fascinei-me de tal
modo que dei por mim a não conseguir parar a leitura no fim do livro, tendo de recorrer
a diversos relatos histórico-sociais daquela altura, tal como, a História das inquisições:
Portugal, Espanha e Itália, para saciar a minha ânsia de conhecimento de uma
narrativa tão marcante e simbólica. Foi deveras o livro que mais me marcou, tanto a
nível literário como a nível pessoal, logo sinto-me motivado para a realização desta
atividade.

O autor
Richard Zimler nasceu em Nova Iorque, em 1956. Formou-se em Religião
Comparativa na Universidade de Duke e mestre em Jornalismo pela Universidade de
Stanford. Está casado com Alexandre Quintanilha, desde 2010, apesar de residirem
juntos desde 1990. Trabalhou como jornalista durante oito anos na zona administrativa
da Baía de São Francisco. Posteriormente foi residir para o Porto, onde lecionou na
Escola Superior de Jornalismo e na Universidade do Porto. Tem-se dedicado à
publicação de livros, desde 1996, com o lançamento do seu “Magnum opus”. De entre
os seus prestigiados livros, podemos encontrar: “O Último Cabalista de Lisboa”,
“Trevas de Luz” e “A Sentinela”. Nos últimos anos, publicou diversas obras dirigidas ao
público infantil, mas com assuntos que são raramente abordados com as crianças.
Richard possui diversos reconhecimentos em todo o mundo, verbi gratia, o prémio
literário Alberto Benveniste ou o “National Endowment of the Arts Fellowship in
Fiction”. Com todo este reconhecimento, dedicou parte da sua vida à caridade, ao
exibir uma coletânea de livros cujo valor reverte para a “Save the Children”, uma
organização sem fins lucrativos que ajuda crianças carenciadas. Em 2009, redigiu o
guião do filme “O Espelho Lento”, que foi uma aposta completamente diferente ao sair
da sua zona de conforto. No contexto escolar, diversos livros fazem parte do plano
nacional de leitura, tanto para o público infantil como para o público juvenil.

Título
Sendo a obra intitulada “O Último Cabalista de Lisboa”, numa primeira observação
pensei que se tratasse de uma obra religiosa, dada a palavra “cabalista”, que se refere
ao seguidor e aprendiz dos ensinamentos da cabala (ciência oculta ligada ao
judaísmo). Não fiquei de todo desapontado, dado que aprecio livros de teor anímico.
Ao conter a referência à cidade de Lisboa no título, cogitei que se referisse a uma
narrativa sucedida na dita cidade, apesar do autor não ter um nome tipicamente
português. Ressaltou-me de imediato o adjetivo “último”, pelo que se trata de uma
palavra “extrema”, muito ligada a desastres e acontecimentos que não podem ser
revogados. Após posterior leitura e análise, constatei que as minhas presunções
estão integralmente equivocadas, dado que se trata de um romance histórico. Apesar
de possuir um forte apelo à religião judaico-cristã, não é de todo o ex-libris do
exemplar, visto que, alude a uma narrativa emotiva, com pouco aprofundamento na
doutrina cabalístico-judaica assim sendo, apresenta uma trama focada no
desenvolvimento do protagonista ao longo do tempo, bem como na caracterização do
meio envolvente. Independentemente de tudo, creio que o título é deveras elucidativo
da obra em causa, dado que se trata mesmo, do último cabalista de Lisboa. Assim
sendo, o mesmo não possui nenhuma interpretação especulativa, nem subjetiva, dado
que ilustra a trama do início até ao fim (tem até uma menção a meados do enredo).

Imagem da capa
Na capa do livro, é possível observar três indivíduos do sexo masculino, trajados com
as suas vestes rituais. O homem mais à esquerda é possivelmente o cabalista Abraão,
tio de Berequias Zarco, dado que é uma personagem fulcral da trama e é o que
apresenta fisionomia mais decrépita. No meio da imagem é possível observar um
sujeito, presumivelmente Diego, um coadjuvante que com o desenrolar da história se
torna um dos personagens mais notáveis. Apresenta ainda uma barba branca e
vultuosa, nitidamente representada na capa. Além disso, sendo ele um dos membros
do grupo de iniciados do Mestre Abraão, é bem provável que se encontrasse presente
naquela situação. Por fim, mas não menos importante, é possível testemunhar a
presença de um elemento mais jovem com aspeto contemplativo, muito possivelmente
o protagonista da obra, Berequias Zarco. É importante notar, que todos se encontram
com ar sério, talvez por se tratar de uma cerimónia importante da religião judaica,
como o Shevat, ou apenas um singelo encontro dos iniciados. Por outra análise, posso
presumir que as feições sérias, demonstram que o teor da obra é sóbrio, o que ocorre.
Posicionado no centro da imagem, encontra-se um ambão com um livro escrito em
hebraico, possivelmente a Zahar, que é um livro muito referido ao longo de toda a
urdidura, pois é nele que estão contidos alguns ensinamentos da cabala. A capa é
representada como se fosse uma iluminura, dado que Berequias era iluminador de
livros judaicos, é evidente que se trata de uma referência ao tipo de obra efetuada pelo
protagonista. Penso que, esta forma de reproduzir o trabalho de Berequias, só teve um
intuito, demonstrar o dom único do personagem. É muito importante notar, que todos
os elementos da figura encontram-se com o dedo indicador a apontar uns para os
outros, esse gesto permite expor o clima de inquietação, arbítrio, criminalização e
interrogação que há em todo o texto. Creio que a capa transmite uma sensação de
incerteza e conjuga na perfeição as cores, com o meio em que ocorre a narrativa. A
imagem é composta por uma ampla variedade de cores análogas, o que dá uma certa
harmonia à imagem. Penso que, a figura quis retratar os princípios harmoniosos da
religião judaica, ou mesmo cristã, em relação ao massacre e clima de medo que se
viveu em toda a narrativa. De um modo geral, creio que é uma capa esclarecedora e
muito ilustrativa do que é o livro num todo, pois apresenta personagens significativos,
possui referências religiosas (principalmente à religião judaica) e promove um estilo
muito característico de um romance histórico.
Apreciação crítica da obra literária
Nem toda a história fica esquecida. "O Último cabalista de Lisboa", é um relato
impressionante, de como a humanidade pode ser cruel. A obra apresenta-nos dois
enredos (a trama principal e uma trama secundária, de enorme relevância a nível
temporal e social, da qual não posso deixar de falar). A intriga principal, revela-nos a
morte de uma jovem desconhecida e de Abraão Zarco, tio do protagonista, seguindo-
se da procura e caçada do dito assassino. Também, ocorre o roubo de um valioso
manuscrito. Toda a obra gira principalmente em redor deste drama, ao exibir a
evolução do protagonista (Berequias Zarco), após o assassinato do seu mestre.
Enquanto ocorre o drama principal da história, é-nos apresentado de forma muito
frontal, objetiva e explicita a perseguição e a “carnificina” aos judeus e cristãos-novos.
É importante notar, que o autor não quis expor esse massacre de forma subjacente ou
encoberta, mas sim exprimir todo o ódio e repudio àquela cidade que tanto mal lhe fez.
O literato utiliza uma linguagem extremamente descritiva, em certos casos talvez
aterrorizante. No decorrer do texto, assistimos à saga do protagonista em toda a
Grande Lisboa. São apresentados diversos locais familiares na totalidade da narrativa,
tais como, a Igreja de São Miguel e o Bairro Alto. Em todo o entrecho persiste um
clima de desconfiança e suspeita em relação ao homicida que só cerra perto do final
do livro. O teor da obra é muitas vezes fatigante e confuso, dado não só o nível de
detalhes, como também a linguagem extremamente culta e magistral à qual o autor
recorre.
A narrativa, apresenta inúmeros personagens marcantes e muito aprofundados, mas o
meu predileto é Farid. Um muçulmano (mouro), surdo e mudo, amigo de infância de
Berequias. Eles criaram uma linguagem gestual própria, deste modo é possível
constatar a sua ardente cumplicidade e compaixão. Farid é o “escudeiro” de
Berequias, talvez devido a alguma atração romântica ou platónica, que nunca ficou
muito bem explicada. Certo é, que Farid sempre esteve a seu lado em todos os
momentos. Sendo ele um rapaz extremamente inteligente e sensitivo, teve uma
enorme importância no desenvolvimento do enredo do livro. Penso que, Farid não
representou só um amigo extremamente leal e fiel, mas sim um ser que exibe a todos
os leitores o verdadeiro significado de estima (amizade). Em todos os momentos que
Farid esteve acamado (talvez devido à peste), Berequias, independentemente da sua
busca em vingança, nunca se esqueceu do seu companheiro, assim como, Farid
mesmo débil, a todo o momento, esteve prontificado a ajudar Zarco na sua retaliação,
sem ter em conta, quaisquer benefícios pessoais. Resumidamente, escolhi este
personagem, pois o livro ao se tratar de uma história verídica, impressionou-me a
maneira com que Farid lida com a doença enquanto lida com a sua amizade de longa
data. Deduzo que, o autor de forma muito subtil “fugiu” um pouco da intriga principal e
quis expandir o universo de uma personagem que a início parecia trivial, de maneira
que o leitor se apegasse a Farid.
Em toda a obra é utilizado um estilo de escrita muito próprio, com vários recursos
expressivos. Contudo, qualquer leitor observa que a interrogação retórica é recorrente
em todo o texto. Desde o capítulo I, até ao capítulo XXI, é habitual o uso de perguntas
retóricas. A meu ver, o principal pretexto para empregar este recurso é principalmente
sensibilizar o interlocutor para uma causa ou encorajar para uma reflexão, neste caso
o genocídio de grande parte da população de judeus e cristãos-novos em Lisboa. A
pergunta retórica que mais me sensibilizou foi “E porque será que os cristãos não se
limitam a matar-nos e têm de nos cortar aos bocados?”, é de uma crueldade atroz que
fica até difícil de imaginar que num passado tenro tenha existido tamanha maldade
contra “pessoas”. Outra pergunta retórica que gostei bastante foi “Seria uma alusão a
alguém destituído do conhecimento de si próprio? Ou a alguém, talvez, sem memória,
que procure deixar para trás o seu passado, negar a sua existência?” Creio que este
recurso quis passar a constante dúvida que Berequias possuía acerca da sua própria
existência, um sentimento muito mais de reflexão pessoal e não tanto de crítica social,
como é comum em toda a obra. Da mesma forma que o texto apresenta perguntas
retóricas, também possui inúmeras metáforas. Dentre elas, considero a mais
importante “A verdade é que o bisavô Abraão sustentava que o espelho vertia uma
ínfima lágrima de sangue, invisível ao olhar, sempre que um único judeu morria”,
acredito que o autor confundiu um pouco o leitor com esta transcrição, visto que, uma
obra extremamente histórica até ao momento, fez questionar um pouco a veracidade
dos factos. Posteriormente, percebi que o autor não quis retirar os factos históricos
bem como a sua fidedignidade, e sim colocar um pouco de invenção literária para
tornar o enredo mais envolvente. O facto de existir um espelho que chora, e de ser
dada essa referência muito no início da obra, possibilitou uma ampla gama de
interações com o espelho a meados do entrecho. Apesar de ser dito que o espelho
derrama lágrimas, também é citado que o choro é invisível, possibilitando uma
interpretação menos surrealista e mais como uma crença que a família de Berequias
tinha, como é possível inferir neste excerto “A Inquisição há-de alastrar, e muito em
breve o nosso Espelho que Sangra sangrará como nunca antes. Foi essa a razão por
que meu tio me apareceu agora. A matança mal começou.”.

Relações de Intertextualidade
Este exemplar é marcado por um tema que assola a humanidade desde o início dos
tempos, a “Inquisição”. Diversas manifestações artísticas (antigas e atuais), retrataram
a procura e assassinato de elementos que seguem ensinamentos considerados
“desviantes” para a igreja católica. De entre todas as manifestações artísticas penso
que, o cinema é aquele que consegue transfigurar o imaginário para o “pseudo-
realism”. Dessa forma, escolhi um filme para relacionar com o referido livro. “A Noiva
do Diabo”, é um filme de drama-histórico que retrata a história de uma jovem
finlandesa (Anna) que acusa a sua amiga de bruxaria, para ficar com o marido dela. O
filme é baseado em factos reais e ocorre numa época onde eram condenadas pessoas
por heresia e práticas ditas malignas. Penso que, o livro e o filme, são muito idênticos,
não só pela referência clara à inquisição, como também aos sentimentos
demonstrados. Tanto Berequias como Anna, ao longo de toda a obra demonstram a
sua repulsa em relação a tamanha atrocidade cometida contra seres-humanos, que
possuem uma cultura e hábitos adversos aos princípios ideológicos da igreja cristã. As
duas obras possuem conceitos dissemelhantes, enquanto o filme é mais focado num
romance muito dramático (por vezes fastidioso), o livro foca-se numa narrativa policial,
muito profunda e sagaz. Ambos possuem personagens muito característicos, que
colaboram no desenrolar da intriga. O filme retrata ainda outro tema, muito comum na
época, a violação de raparigas virgens e o descumprimento do voto de castidade pelos
membros da igreja (clero). Tal ato, só mostra a hipocrisia, deslealdade e falsidade
presente no meio religioso da altura, dado que, nem os próprios mensageiros da
palavra de Deus, a desempenhavam. Para além de mais, é importante notar que
ambas as obras são baseadas em histórias verídicas (um pouco semelhantes), que
apelam à sensibilidade e civismo do leitor e do cinéfilo. As referidas obras possuem
um propósito, que tanto o autor, como os realizadores salientaram, “chamar a atenção
do público para a inquisição”. Não é de todo ingénuo pensar que tal ato possa voltar a
acontecer. Quanto mais a humanidade souber deste e de outros atos que desprezam
os direitos básicos sociais, melhor será para retardar ou mesmo aniquilar tal
desumanidade. Admito que o filme não é o melhor que já vi, existem outras obras
cinematográficas mais louváveis, com o mesmo tema. O diferencial deste é a sua
qualidade audiovisual, que se destaca pela positiva e não tanto o roteiro.

Conclusão
Em síntese, penso que, este trabalho ajudou-me não só no desenvolvimento da minha
capacidade literária, como também no meu crescimento pessoal. Conhecer e estudar,
através de uma obra tão detalhista, as atrocidades vividas durante a inquisição na
cidade de Lisboa, é “incrível”. Volto a frisar, a importância de refletir acerca destes
temas, que certas pessoas dão como extintos. Certo é, que a história repete-se vezes
e vezes sem conta, mas a humanidade repete sempre os mesmos erros. Além de uma
obra extremamente pavorosa, é também um texto de reflexão social. Diariamente,
deparamo-nos com atrocidades que achamos de mal menor, mas é correto afirmar
que em algum tempo, longínquo ou breve, algo de terrível irá acontecer e cabe a nós
amenizarmos tal acontecimento. Assim sendo, gostei bastante de realizar este
trabalho, bem como a meditação interna trazida pelo mesmo.

Marcos Lito Figueiredo