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Prezado amigo,

Escrevo-lhe por que já não tenho mais alpendre de sonho algum para proteger o rosto
desse pranto meu. Sei bem que teu ombro vive embargado nesse mar que emana dos meus
olhos, mas creio que ainda não segredei-te dor igual a essa que agora carrego nas lembranças.
Como sempre, o mundo gira, o tempo passa e, novamente, aqui estou eu diante do teu olhar
atento que me acolhe com certa pena, mas nunca com desdém.

Amigo e irmão da labuta diária da poesia, essa minha agonia tem um nome, um gosto
e um cheiro. Essa minha agonia fenece a flor que brota do contentamento, e me deixa em
estado eterno de alerta. De hora certa nesses últimos dias, não sobrou-me nenhuma, pois
agora todo tempo é preenchido por minhas constantes e dilacerantes introspecções. A
verdade, escudeiro fiel das aventuras juvenis, é que o vazio que ela deixou ainda é constante,
como quem abriu a fenda da inquietude no véu da paz.

A vida é um tanto injusta, ao menos quando se trata da minha. A toda hora me ponho
com aprendiz do destino, tentando ler nas linhas da vida o itinerário da felicidade, mas ao
contrario do que esperava, recebi a visita inesperada da perda. De qual tamanho será este
rancor que a vida parece guardar de mim? Com certeza é maior que minhas forças de seguir
adiante, mas não poderia ser maior que minha tristeza tão simples e singela, regada a gritos
lançados a esmo no silêncio, como se houvesse alguém que pudesse me mostrar a saída para
todo este martírio, mas bem sei que nada vai acontecer.

Por fim, se o amigo está a receber e a ler esta carta que eu vos escrevi, é sinal de que,
contrariando os incontáveis impulsos que tive, eu me mantenho com vida ou provido de algo
similar. Eu estou à espera de tua palavra norteadora, por que este período de eremita das
memorias me fez muito mal, e é preciso mudar conforme os dias passam. Peço ao amigo que
venha, com ou sem pressa, para mim tanto faz, já que o sabor de tangenciar o mundo fora de
mim se tornou um tanto acre. Estarei no mesmo lugar onde estive todos estes anos, remoendo
memorias frias, com o mesmo copo de bebida, o mesmo verso conturbado e curvado para as
mazelas da vida. Estarei eu mesmo, quando na verdade, minha vontade é de nunca ter sido
nada.