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UNIDADE I - Filosofia, Ética e Moral.

1. Filosofia

Os antigos gregos tinham inicialmente uma consciência mítica, cuja


manifestação maior foram os poemas de Homero e Hesíodo1.
Quando se deu a passagem do mundo mítico para a consciência racional,
apareceram os primeiros sábios, sophos, em grego.
A filosofia não é o puro logos, pura razão: ela é a procura amorosa da verdade.
Para Kant, filósofo alemão do século XVIII, “não há filosofia que se possa aprender; só
se pode aprender a filosofar”.
A filosofia é um conhecimento instituinte, no sentido de questionar o saber
instituído. Para Platão, a primeira virtude do filósofo é ‘admirar-se’. A admiração é a
condição de onde deriva a capacidade de problematizar, o que marca a filosofia não
como posse da verdade, mas como sua busca.
Nos seus primórdios, a ciência se achava ligada à Filosofia, sendo o filósofo
aquele sábio que refletia sobre todos os setores da indagação humana. Por isso, é
possível falar na geometria de Tales e de Pitágoras, como também na física e
astronomia aristotélicas.
A partir do século XVII, a revolução científica iniciada por Galileu determinou
a ruptura dessas duas formas de abordagem do real. Lentamente apareceram as
chamadas ciências particulares – física, astronomia, química, biologia, psicologia,
sociologia, etc., delimitando um campo específico de pesquisa.
A visão da filosofia é uma visão de conjunto, ou seja, o problema tratado nunca
é examinado de modo parcial, mas sempre sob a perspectiva de conjunto, relacionando
cada aspecto com os outros do contexto em que está inserido. Se a ciência tende cada
vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar esta
fragmentação do real, para que o homem seja resgatado na sua integridade e não
sucumbir à alienação do saber parcelado.
Em todos os setores do conhecimento e da ação, a filosofia deve estar presente
como reflexão crítica a respeito dos fundamentos deste conhecimento e deste agir.

1
Dois grandes poetas gregos da idade arcaica. Ambos narraram obras importantes para o
pensamento mítico que influenciaram na formação da sociedade e cultura grega da época .
Vivemos num mundo em que a visão das pessoas está marcada pela busca dos
resultados imediatos do conhecimento. Segundo esta linha de pensamento, caberia uma
pergunta: para que serve a filosofia? Não ter uma utilidade imediata, não significa ser
desnecessária!
A filosofia, por meio da reflexão, permite que o homem tenha mais que uma
dimensão, ou seja, a que é dada pelo agir imediato no qual o ‘homem prático’ se
encontra mergulhado. É ela que reúne o pensamento fragmentado da ciência e o
reconstrói na sua unidade. É ela que retoma a ação pulverizada no tempo e procura
compreendê-la.
Por isso o filosofar sempre se confronta com o poder, não devendo sua
investigação estar alheia à ética e à política.
A filosofia é, portanto, a crítica da ideologia, o desvelar daquilo que está
encoberto pelo costume, pelo convencional e pelo poder. Ela requer coragem para
enfrentar os desafios de mudança – o saber para transformar.

2. Ética

A Ética por ser uma ciência social, admite vários conceitos, o que a diferencia de
uma ciência exata que só abarca uma definição. Entre os principais podemos citar: o
conjunto de valores, de princípios universais, que regem as relações interpessoais; um
ramo da Filosofia que se preocupa com o valor do comportamento humano; a teoria do
comportamento moral dos homens na sociedade; o estudo da atitude do homem perante
o homem e o mundo, segundo o jurista Miguel Reale, no seu livro Filosofia do Direito,
entre outros.

A ética ocupa-se do certo e do errado. Quais ações são corretas, quais são
incorretas? Como sei? Quais são os objetivos corretos na vida e quais são as formas
corretas de persegui-los? Se meus objetivos e intenções são corretos, faz alguma
diferença o que faço para atingi-los? Quais são os meus deveres e minhas obrigações
como cidadão e como policial militar.
.
Etimologicamente origina-se da palavra grega Ethos, que significa modo de ser
ou caráter. O termo ‘ética’ constitui-se, na Antiguidade, como doutrina dos costumes ou
hábitos adquiridos pelo homem. Com Aristóteles – 384 a.C. / 322 a.C. –
(ARISTÓTELES, 2002) transformou-se numa disciplina autônoma da filosofia moral.
Em sua argumentação, considera o homem um ser fundamentalmente político (animal
político), caracterizando a deliberação ética pela posse do bem, da perfeição e da
felicidade atribuídas aos homens, adequando-as à orientação prática da conduta humana.
É sob o confronto com algum bem no ciclo das ações humanas que vai aproximar a
busca de prazer com a consecução da felicidade.
O pensamento do grande filósofo se agiganta ao condenar os prazeres sensíveis e
as riquezas. As virtudes éticas se referem a modelos ideais para a convivência social:
amizade, justiça, etc., estas são as virtudes do hábito. As virtudes dianoéticas 2ou
intelectuais, tais como a prudência e a sabedoria, se desenvolvem pelo estudo,
meditação ou reflexão.
O estudo da Ética é centrado na sociedade e no comportamento humano. As
reflexões sobre este tema, como vimos, se originam da Antiguidade, tendo como
filósofos mais famosos, dentre outros, Sêneca 3(apud DROIT, 2012) e Aristóteles
(2002) que desenvolveram o pensamento sobre a Ética como meio de alcançar a
felicidade.
Com a introdução do cristianismo como religião oficial do ocidente, a ética
passou a ser interpretada a partir dos mandamentos documentados nas leis sagradas.
Neste sentido, o primeiro código de Ética que se tem notícia, sobretudo, para os cristãos,
foi os “Dez Mandamentos”.
O pensamento ético busca julgar o comportamento humano (reflexões sobre a
moral) dizendo o que é certo e errado, justo e injusto, como exemplos.
A Ética, como metamoral4, cuida de estudar e refletir sobre a conduta do homem
em sociedade. Ela nos remete aos valores mais elevados que conhecemos: nobreza de
caráter; justiça nas decisões; respeito ao semelhante, aos seres vivos e à natureza;

2
Capacidades de conhecimento possíveis à alma racional. Seriam as virtudes do pensamento,
da racionalização, ao passo que as virtudes éticas seriam as virtudes referentes ao caráter do
homem, à moral.

3
Célebre advogado, escritor e intelectual do Império Romano.
4
A ética seria uma parte da filosofia, mas a moral estaria fora desta, do mesmo modo que o
direito ou a economia estão, na sua facticidade empírica e mesmo normativa, fora da filosofia,
ainda que possuam raízes no interior do húmus filosófico.Deste modo, a ética, que assenta
na metaética (psicologia, sociologia, astrologia, antropologia, biologia, economia, etc) seria
uma metamoral.
honestidade; moderação; bondade; saber escolher e praticar virtudes. Tais valores são o
próprio objetivo da ética.
O estudo e as reflexões sobre Ética não se limitam ao campo da Filosofia, uma
vez que diversos segmentos de estudiosos ou profissionais também se dedicam a ela. De
sociólogos a antropólogos. De psicólogos a policiais. Cada profissão necessita de um
Código de Ética para delimitar e balizar suas ações.
A função do pensamento ético, assim, é produzir comportamentos ou ações que
busquem manter o equilíbrio social.
Em outras palavras, o termo Éticarefere-se à [...]disciplina que lida com o que é
bom e mau, e com o dever moral e obrigação. Um conjunto de princípios morais ou
valores, os princípios de conduta que governam um indivíduo ou grupo (profissional).
O estudo da natureza geral da moral e das escolhas morais específicas, as regras ou
padrões que governam a conduta de membros de uma profissão, a qualidade moral de
uma ação; propriedade.

3. Moral

Sendo uma disciplina prática, a Ética procura responder a questões do tipo: o


que devo fazer? Como devo ser? Como devo agir?
Quando a Ética desce da sua generalidade, fala-se de uma moral. Esta se prende
mais a determinados períodos e lugares, sendo conceituada como o conjunto de normas
e regras adquiridas por hábitos e costumes. Ex.: a moral do início do século passado era
bem diferente dos dias atuais. Faz parte da moral de alguns países a poligamia e a união
civil de pessoas do mesmo sexo.
A moral pode ser conceituada como um estado de espírito. É muito comum
dizermos que o moral de uma instituição está abaixo, por exemplo, a PMERJ, diante de
fatos que causem descrédito para ela. O que fazer para elevar o moral da tropa?
Moral pode ser entendida, também, como uma consciência adquirida pelo
homem a partir do momento histórico em que ele começa a viver em sociedade, ou seja,
todo o ensinamento das normas sociais que regulam o comportamento humano, e que
são adquiridos pela tradição, pelos hábitos e pela educação do cotidiano. A moral é um
conjunto de regras coletivas que facilitam o convívio social, aceito mutuamente e
intrínseco ao homem social.
Em outras palavras, moral significa conjunto de regras que determinam o
comportamento das pessoas na sociedade. Exterior e anterior ao indivíduo há uma moral
constituída que orienta seu comportamento por meio de normas. Em função da
adequação ou não à norma estabelecida, o ato será considerado moral ou imoral. Na
medida em que se eleva a qualidade do grau de consciência e de liberdade e, portanto,
de responsabilidade pessoal no comportamento moral, surge um elemento contraditório:
a moral, que é o conjunto de regras que determina como deve ser o comportamento dos
indivíduos de um grupo, é também a livre e consciente aceitação das normas. Significa
dizer que um ato só é propriamente moral se passar pela aceitação pessoal da norma.
Então, à exterioridade da moral contrapõe-se a necessidade da interioridade, ou seja, de
uma adesão mais íntima.
Segundo Durkheim (1978), moral é ‘ciência dos costumes’, sendo algo anterior à
própria sociedade.
Tanto a Ética como a Moral, se resumem em um aparato de normas que regulam
o comportamento do homem no meio em que vive. O conhecimento e a prática dessas
normas como vimos, se adquirem no âmbito de sua vivência sociocultural, daí a razão
de se dizer: o homem é um produto do meio onde vive.
Não raro, confunde-se Ética com Moral ou Moral com Ética. Ética e Moral são
conceitos que transcendem ações e palavras ao saírem da condição abstrata e se
consolidarem na ação, a qual, enfim, revela o caráter moral e ético do ser humano.
Ao estabelecermos a diferença entre Ética e Moral com base na etimologia,
percebemos: ethos e mores possuem, na verdade, significados próximos. Se o termo
‘Ética’ é de origem grega e o ‘Moral’ de origem latina, ambos remetem a conteúdos
vizinhos, à idéia de costumes, de hábitos, de modo de agir ou ser determinados pelo uso.
Apesar deste paradoxo que a análise etimológica nos assinala, há que operar uma
distinção entre ética e moral. A primeira é mais teórica, é reflexão, é estudo sobre os
fundamentos da segunda. Assim, a ética se esforça por desconstruir as regras de conduta
que formam a moral, os juízos de bem e do mal que se reúnem no seio desta última. A
ética é uma metamoral.
O que designa a ética? Não um conjunto de regras próprias de uma cultura, mas
uma metamoral, uma doutrina que se situa além da moral, uma teoria raciocinada sobre
o bem e o mal, os valores e os juízos morais.
Ao traçarmos uma análise da relação da ética com outras doutrinas e ciências,
devemos estabelecer que ‘doutrina’ é o conjunto de princípios básicos em que se
fundamenta um sistema religioso, filosófico ou político, enquanto que ‘ciência’ é um
conjunto organizado de conhecimentos comprovados.
Em seguida, veremos um quadro resumido de distinções entre Ética e Moral.

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