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UMA EXPERIÊNCIA DE PLANTÃO PSICOLÓGICO

PARA A POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO:


articulando compreensões

Rodrigo Giannangelo de Oliveira


Membro colaborador do Laboratório de Estudos e Prática em Psicologia Fenomenológica e Existencial (LEFE-USP).

Henriette Tognetti Penha Morato


Coordenadora do Laboratório de Estudos e Prática em Psicologia Fenomenológica e Existencial (LEFE-USP).

Resumo
Este artigo busca articular compreensões para o campo da prática
psicológica em contexto institucional, a partir de uma experiência de
plantão psicológico oferecido ao efetivo de duas Companhias da
Polícia Militar do Estado de São Paulo, por psicólogos e estagiários do
LEFE-USP (Laboratório de Estudos e Prática em Psicologia
Fenomenológica e Existencial), entre 2001 e 2004. Como ponto de
partida, tem-se a dissertação de mestrado, defendida no Instituto de
Psicologia da USP em maio de 2005, Uma experiência de plantão
psicológico na Polícia Militar do Estado de São Paulo: reflexões sobre
sofrimento e demanda. A partir do depoimento de quatro sujeitos, que
responderam à pergunta “que sentido tem para você o plantão
psicológico oferecido nesta Companhia?”, foi possível compreender
que os policiais percebem o serviço de plantão psicológico de forma
positiva. Alguns sujeitos apontaram modificações na forma de lidar
com a própria vida após terem sido atendidos em plantão. Outros
salientaram a importância de continuidade do trabalho. Assim, o
artigos papers

plantão psicológico oferecido à PM demonstrou pertinência, como


forma de acolhimento ao sofrimento dos policiais em questão.
Palavras-chave: plantão psicológico; polícia militar; aconselhamento
psicoterapêutico.

Abstract
This survey examines the meaning and the reach of the psychological
attendance service offered to two Companies of the Military Police of
São Paulo by psychologists and trainees of LEFE/USP, between 2001
e 2004, based on a master's dissertation. The Ss were 04, two of each
Company, and they answered the question: “what do you think about
the psychological attendance service that we offer here?” It was
possible to hold, after data collecting, that policemen see psychological
attendance in a positive way. Some of them told about modifications in
their own lives after their experience with psychological attendance.
Others mentioned the importance of continuity of the service.
Therefore, the service of psychological attendance offered at the
military police seemed to be effective to lessen policemen suffering.
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Keywords: psychological attendance; military police; psychological


counseling.

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Apresentação do tema
Há tempos, os serviços públicos em saúde mental brasileiros mostram-se
escassos e precários. Mesmo os planos de saúde que oferecem cobertura para
atendimentos psicológicos ainda não têm grande abrangência. Em geral, apenas
os mais custosos permitem esse benefício.
Desde sua fundação, em 1999, o LEFE-USP (Laboratório de Estudos e
Prática em Psicologia Fenomenológica e Existencial da USP) tem investigado e
colocado em ação projetos de prática psicológica clínica em contexto institucional
que buscam afirmar-se como alternativas efetivas para o abismo entre o fazer
psicológico e a sociedade. Oferecendo atendimentos gratuitos aos sujeitos que se
relacionam com essas instituições (funcionários e/ou usuários e seus respectivos
familiares), esses projetos têm buscado alargar a abrangência do acesso à
atenção psicológica.
O presente artigo se vale de uma experiência de prática psicológica em
instituição para realizar algumas considerações pertinentes a esse campo.
Durante três anos, uma equipe de psicólogos e estagiários ligados ao LEFE-USP,
da qual fazia parte um dos autores deste artigo, ofereceu, a dois Batalhões da
Polícia Militar do Estado de São Paulo, um serviço de plantão psicológico dirigido
aos policiais e seus familiares.
Para ilustrar as condições em que se deu o projeto, será apresentado um
breve histórico. Posteriormente, será feita uma reflexão acerca de algumas
questões que se apresentaram no cotidiano dessa prática, ou que se expressaram
em depoimentos dos usuários do serviço, no intuito de se investigarem outras
possibilidades de compreensão para esse projeto de prática psicológica em
instituição.

Histórico do plantão psicológico para a polícia militar


Embora a equipe do LEFE tenha implantado serviços de plantão
psicológico em dois Batalhões da Polícia Militar de São Paulo, esta exposição se
restringirá a descrever a primeira dessas implantações. A configuração de um
serviço de psicologia em instituição tem certas características que tornam cada
projeto único, mas é possível dizer que o modo de compreensão envolvido pode
ser expresso a partir de uma experiência particular.
O contato entre o LEFE-USP e a Polícia Militar se iniciou no ano 2000,
com um pedido dirigido pelo CONSEG (Conselho Comunitário de Segurança) da
região em questão. Inicialmente, solicitava-se uma avaliação do nível de estresse
da corporação. Nesse momento, a coordenação do LEFE constituiu uma equipe,
que passou a refletir sobre algumas possibilidades de resposta ao pedido recebido.
Algumas considerações se fazem pertinentes neste ponto do percurso.
Todos os projetos de prática psicológica em instituição já empreendidos pelo LEFE
se iniciaram por um pedido vindo da própria instituição. Os sujeitos que elaboram e
encaminham esse tipo de pedido geralmente exercem função ou cargo de
comando, já que apenas nesse nível hierárquico se tem a autonomia e a autoridade
necessárias para idealizar e efetivar projetos que alterem o cotidiano da instituição.
Assim, é preciso considerar, antes de responder a esse pedido, a impossibilidade
de saber se os demais sujeitos institucionais estão implicados efetivamente nele.
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De fato, como aponta Prilleltensky (1994), raramente os psicólogos


consideram, no trabalho com organizações sociais, os conflitos gerados pela
distribuição desigual do poder e pela hierarquia. Quando solicitados a intervir numa

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organização, eles costumam agir como se todos os participantes fossem apenas
colaboradores em busca de um objetivo comum, não percebendo as contradições
entre seus interesses, metas e expectativas. Nesse sentido, efetivar, em uma
organização social, o pedido de alguém que exerce função de comando, sem dar
atenção aos demais “pedidos” que possam ser expressos, faz com que a prática
psicológica se coloque exclusivamente a serviço dos interesses do poder
instituído.
Em direção semelhante, sugere Lévy (2001, p.23) que o pedido efetivado
pela organização social pode ter o sentido de uma “[...] metáfora do que não pode
ser expresso”, ou seja, pode ocultar algo naquilo que explicita e, portanto, precisa
ser objeto de reflexão.
Assim, o primeiro momento da prática psicológica em instituição se
constitui em um período de conhecimento mútuo entre os atores institucionais e a
equipe de psicólogos/estagiários. A esse momento, os profissionais do LEFE têm
dado o nome de cartografia. A partir da cartografia, é possível compreender a
demanda dos sujeitos institucionais por atenção psicológica, o que pode, muitas
vezes, diferir grandemente daquilo que foi expresso no pedido inicial. Por
demanda, compreende-se o pedido que os próprios sujeitos fazem, quando lhes é
oferecida a oportunidade. Na identificação da demanda percebe-se o que os
sujeitos da instituição esperam da prática psicológica e como querem que ela
aconteça.
Essas reflexões se fazem necessárias para situar o primeiro momento do
trabalho da equipe do LEFE junto à Polícia Militar. Após diversos dias de encontros
na instituição, quando a equipe de psicólogos e o contingente de policiais deram-se
a conhecer, foi possível pensar o pedido de avaliação do estresse de outra
maneira.
Os policiais pareciam já saber muito sobre o estresse de sua situação
profissional. Em várias conversas, diziam das severas obrigações, das situações
de risco de morte, do contato com a miséria humana, e deixavam claro quanto era
difícil conviver com essa realidade opressora.
Para que, então, avaliar algo de cuja avaliação já se conhece o resultado?
Talvez para referendar, pela palavra de especialistas, algo que até então se
mostrara “apenas” na dimensão da experiência.
A seguinte análise de Critelli (1996, p.12-13), refletindo sobre o
pensamento ocidental moderno (a que Heidegger chamou de “metafísica”), aponta
para a mesma direção, expressando uma compreensão histórica para essa
subestimação da experiência, em favor dos conceitos e das explicações racionais:
“[...] depois de Platão ter instituído o conceito (uno, eterno,
incorruptível) como o lugar de manifestação da verdade de
tudo o que é; depois de Aristóteles ter estabelecido que ao
intelecto pertence esta função de conhecimento; e depois de
Descartes ter modulado este intelecto como Cógito [...],
parece-me que o Ocidente moderno aceitou esta via como a
única perspectiva adequada, viável e válida para a
aproximação entre homem e mundo, para seu saber a respeito
de tudo com que se depara, inclusive ele mesmo” (p.12-13,
grifo nosso).

Assim, o sentido que se mostrou à equipe de psicólogos apresentava


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uma requisição de outra ordem. Ao invés de avaliação, talvez fosse mais pertinente
oferecer àqueles policiais a oportunidade de retomarem-se como sujeitos,
validando as afetações engendradas por essa condição.

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Nessa perspectiva, sugeriu-se a implantação de um serviço de plantão
psicológico. Durante determinado período da semana, uma dupla de
psicólogos/estagiários colocar-se-ia à disposição naquela Companhia, de maneira
que os policiais pudessem procurar atendimento, se assim o desejassem.

Reflexões sobre o plantão psicológico para a polícia militar


Em outro trabalho, foi possível expressar a compreensão de que
“[...] a rotina de trabalho do policial militar inclui uma extensa
gama de atividades, desde o atendimento a ocorrências
sociais (realização de partos, contenção de indivíduos
alcoolizados, mediação de brigas), realização de rondas
ostensivas com vistas à prevenção da criminalidade, até o
enfrentamento em casos de roubo, seqüestro, tráfico de
drogas” (Oliveira, 2005, p.63).

Na direção sugerida por Heidegger (2001, p.165, grifos do autor), que


afirma que “O stress tem o caráter fundamental de solicitação de um ser
interpelado”, é possível vislumbrar um outro significado para o estresse aludido
pelo pedido inicialmente dirigido à equipe de trabalho do LEFE. Estresse é o termo
que se refere às solicitações (no caso, excessivas) às quais o sujeito é chamado a
corresponder frente ao mundo. Como solicitação, pode ser compreendido como
fruto da condição “ek-stática” humana, “[...] parte da constituição da essência do
homem ek-sistente” (Heidegger, 2001, p.163).
Assim, o plantão psicológico oferecido à Polícia Militar pode revelar o
sentido de espaço de reflexão, no qual se dá atenção à forma como o sujeito se
conduz pelas solicitações que lhe são feitas como ser que vive no modo da
existência. Em outros termos, “[...] atenção ao modo de ser do homem como
cuidado de si e trânsito pelas interpelações dos entes que lhe fazem frente”
(Oliveira, 2005, p.65).
Entretanto as mesmas condições podem ser pensadas em relação aos
plantonistas. Inseridos na mesma estrutura “ek-sistente”, é preciso que tenham um
espaço de atenção às suas próprias interpelações no cotidiano do trabalho que
realizam.
Essa consideração é peculiarmente importante porque, nas duas
Companhias em que o plantão psicológico foi implantado, houve momentos em
que a procura pelo serviço cessou, levando os plantonistas a passarem por
momentos de tédio. A primeira intenção da equipe, nesse momento, foi tentar
identificar o que, na instituição, estaria provocando aquela situação. O policial teria
vergonha de se expor, por ser visto procurando atendimento? Seria a rigidez
institucional a responsável? Pesaria a dificuldade de se admitir frágil?
Procurava-se apenas no outro o motivo que fazia com que, em alguns
momentos, o serviço parecesse perder sua efetividade. Contudo é possível dizer
que essa maneira de responder ao desconforto tinha um sentido específico. Todas
as questões formuladas eram de fato pertinentes, mas talvez seu foco pudesse ser
dirigido para outro lado. A equipe de plantonistas havia se institucionalizado,
portanto se tornara passível das mesmas críticas que dirigia à instituição.
Apenas a partir das reflexões propiciadas pela supervisão, foi possível
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perceber, nesse e em outros episódios semelhantes posteriores, os efeitos da força


coerciva que a instituição exercia sobre os plantonistas, convidando-os a partilhar
de seus princípios e valores.

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Envoltos pela instituição, e refletindo-a, como um espelho, os
plantonistas atravessaram, em mais de uma oportunidade, uma crise de função e
efetividade, análoga e similar à crise aludida pelos policiais em relação ao seu
próprio cotidiano profissional. Abertos para esse sentido, conseguiram novamente
transitar pela instituição como força instituinte, e não como coisa instituída. Nesse
momento, foi possível compreender que, a despeito da possibilidade de qualquer
alívio momentâneo, a sucessão de crises atravessadas sinalizava a necessidade
de dirigir uma interrogação aos usuários do serviço, a quem a prática se destinava.
Em outros termos, a prática só poderia ter um sentido para a equipe de plantonistas
se desvelasse um sentido para aqueles a quem se dirigia.
Enfim, foi preciso permitir que os próprios policiais explicitassem sua
posição pessoal sobre o serviço, através de depoimentos. Foram entrevistados
quatro policiais, dois de cada uma das Companhias em que o serviço era realizado.
A situação de depoimento,
“[…] foi criada para propiciar a apresentação de uma narrativa,
pela qual o sujeito possa ir tecendo um sentido para o serviço
de plantão psicológico, fazendo uso da compreensão prévia
que ele já tem, para que dela algo possa ser interpretado. Ao
narrar, o sujeito pode retomar a si mesmo numa perspectiva
historial e significativa do vivido. Assim, colocando a
experiência em trânsito pela linguagem, o sujeito resgata, na
sua própria história, a compreensão do vivido como referência
que redimensiona a sua situação, reabrindo possibilidades
futuras e permitindo novas perspectivas para o próprio sofrer“
(Oliveira, 2005, p.71).

De fato, conforme aponta Gendlin (1978/1979), numa aproximação


possível dos existenciais heideggerianos com a clínica psicológica, a condição
humana se apresenta no mundo a partir de três disposições: a forma como o sujeito
está no mundo e situa a si mesmo (befindlichkeit); a compreensão implícita,
anterior à cognitiva, que surge desse encontrar-se; e a fala, possibilidade de
comunicar essa compreensão prévia.
Busca-se, portanto, permitir que o depoente explore, a partir da pergunta
dirigida pelo entrevistador, sua experiência na temática sugerida (no caso, o
serviço de plantão psicológico) e explicite o sentido por ela revelado. O depoimento
visa à comunicação das compreensões do sujeito em relação à situação
considerada, em busca de um sentido.
Por outro lado, a experiência de plantonista, propiciando suas próprias
compreensões prévias, também permite que se investiguem novos sentidos para o
serviço. Portanto, a partir desse ponto, a intenção é articular as compreensões
expressas pelos policiais às compreensões colhidas durante a experiência de
plantonista, realizando algumas considerações pertinentes ao campo da prática
psicológica em instituição, em especial à modalidade plantão psicológico.

Articulando compreensões possíveis


Ao longo da colheita dos depoimentos, foi possível perceber que o serviço
de plantão psicológico se mostrava, na fala dos policiais, ambivalente. Ao mesmo
tempo que aparecia como possibilidade de um necessário resgate do sujeito e da
narrativa de suas correspondências às interpelações do mundo, revelava-se
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também como algo potencialmente perigoso. Propondo-se dar atenção ao sujeito


em sua especificidade, e não tomá-lo apenas como caso específico de uma
situação geral, o plantão psicológico se tornara tão libertador quanto assustador.

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O resgate do sujeito implica a retomada da responsabilidade diante da
própria existência. Pode-se dizer que esse fato se mostra de maneira
especialmente notável numa instituição como a PM, em que todos são
“uniformizados” em torno de um ideal supostamente comum. Na propriedade do
sujeito, retoma-se a possibilidade de fazer escolhas, e salienta-se a necessidade
de responsabilizar-se pelas conseqüências delas.
A primeira escolha pela qual o cliente do plantão psicológico na Polícia
Militar precisa responsabilizar-se, como sujeito, é o próprio ato de ter procurado o
serviço. O depoente 03 comenta:
“Eu acho que esse serviço [...] apesar de muitos policiais
precisarem [...] mas não terem coragem [...] Por isso eu fiz uma
pergunta para você sobre a gente poder ter outro lugar [...]
porque tem gente aqui que a gente sabe [...] já foi o meu caso [...]
de precisarem [...] mas às vezes [...] até por vergonha de falarem
'ah, por que está precisando de um psicólogo [...]?' [...] as
pessoas confundem [...] psicólogo [...] psiquiatra [...] loucura [...]”.

Na mesma direção, o depoente 02 diz:


“[...] tem aqueles que têm vergonha [...] ficam acanhados [...]
se tivesse a iniciativa de alguém [...] de apoiar [...] aí muita
gente seria ajudada”.

O desafio inicial era admitir para si mesmo, e depois coletivamente, a


vontade de ser atendido. Como a equipe de plantonistas se colocava sempre em
algum lugar “público” da instituição, ainda que os atendimentos propriamente ditos
pudessem ser realizados em ambientes mais restritos, era difícil que alguém
procurasse o serviço sem ser visto pelos colegas.
A situação de exposição configurava uma dificuldade, obstáculo a ser
superado. Um trecho do depoimento 04 talvez sugira um encaminhamento sobre
essa questão:
“[...] a gente está sempre na posição de ter que resolver as
coisas [...] Quando você quer alguém que resolva para você
[...] não tem a quem recorrer [...]”.

O policial militar tem a função socialmente atribuída de manutenção da


ordem. Em última análise, ele é sempre aquele que ajuda, presta assistência,
resolve as coisas. É possível dizer que o policial não tem o costume de estar “do
outro lado”, sendo aquele que pede ajuda. Contudo essa compreensão talvez
ainda não contemple a questão.
A ordem resiste às afetações, mantendo-se como verdade por si e em si
mesma. Mantê-la parece algo difícil para um ser ontologicamente afetável, como o
humano. O extremo da ordem é uma utopia. As sociedades humanas convivem
com a simultaneidade das forças de ordenação e de (re)criação, instituídas e
instituintes, apolíneas e dionisíacas.
Assim, para que seja possível contemplar a função militar, de defender a
ordem incondicionalmente, a instituição cumpre um papel preponderante. Se os
sujeitos humanos não podem representar a ordenação impoluta da própria ordem,
a instituição precisa fazer isso por eles. Assim, lançada absolutamente por sobre os
frágeis humanos, incapazes daquilo que ela representa, a instituição cria em si
“meros indivíduos” (Figueiredo, 1995). Insinua-se, assim, o soterramento do
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sujeito.
Ainda, no depoimento 04:

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“A vida pessoal da gente fica muito [...] em segundo plano [...]
você fica muito vinculado à polícia [...] acaba deixando muitas
coisas da sua vida pessoal em segundo plano [...]”.

Compreendida dessa maneira, a situação do policial não implica apenas


estar pouco acostumado a pedir ajuda; ele sequer se sente autorizado a pedi-la.
Para cumprir seu serviço de combate à desordem e ao caos, a forma como a
instituição militar está organizada não permite que ele reclame para si direitos de
sujeito.
Contudo a prática do plantão psicológico inserida no cotidiano do trabalho
do policial sugere a possibilidade de legitimação de sua experiência como sujeito,
viabilizando sua expressão na relação com o plantonista. Talvez por isso essa
prática possa ter um caráter ameaçador. O policial sabe que, embora ela seja
atraente e necessária, a possibilidade de colocar-se como sujeito não é aquilo que
a instituição espera dele.
Por outro lado, ele sabe que é aquela instituição que paga seus salários,
garantindo a manutenção de sua sobrevivência. Sabe também, e essa talvez seja a
questão principal, que ocupa uma determinada posição dentro da estrutura
institucional, e que isso, de alguma maneira, faz dele alguém. Inserindo-o numa
teia de funções, cargos e hierarquias rigidamente articulada, a PM priva o sujeito de
si, mas lhe garante, em contrapartida, um lugar institucional de pertencimento.
Essa talvez seja uma compreensão relevante para a questão da
dificuldade em procurar o plantão psicológico, tantas vezes expressa pelos
policiais, tanto nos depoimentos como no dia-a-dia do serviço. A partir dela,
também é possível buscar um significado para o relato contido no depoimento 01:
“[...] mas eu mesma falar dos meus problemas eu quase não
falo. Então [...] é isso.
É como se [...] eu não quisesse misturar os meus problemas
particulares com os problemas que eu tenho aqui na Cia. [...]
profissionais [...] Eu tento não misturar.
Esse serviço é oferecido num local de trabalho. Me faz pensar
algo que [...] se você vem em [...] um lugar de trabalho então
tem que ser [...] como eu posso falar isso para você [...]? Que
você está aqui e que o trabalho é para melhorar o nosso
ambiente de trabalho [...] a nossa vida social aqui no trabalho
[...] não a vida particular”.

Por ser oferecido em um “lugar de trabalho”, o serviço, na visão da


policial, deveria ater-se a questões profissionais. Em outras palavras, pode-se
dizer que, para ela, o plantão psicológico se configurava como espaço aberto aos
seus “problemas” como policial militar, e não como sujeito.
Além disso, agora também é possível dizer que, como prática psicológica,
a “avaliação de estresse”, inicialmente requisitada, se adapta muito bem às
características e aos objetivos institucionais. Organizando os indivíduos em torno
de um “problema” comum, os resultados da avaliação possivelmente forneceriam
uma classificação dos policiais ao longo de um contínuo de maior ou menor
estresse. Seria efetivada, novamente, a tendência de trocar a singularidade pelo
pertencimento a uma categoria, dessa vez com o aval de uma equipe de
especialistas.
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No entanto, retomando-se a já citada ambivalência dos policiais em


relação ao serviço, a mesma possibilidade de resgate do sujeito em sua narrativa,
que tinha um aspecto assustador, também se apresentava “[...] tentadoramente

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necessária” (Oliveira, 2005, p.118). Da mesma depoente que afirmara
compreender o plantão como apoio que se restringia a questões profissionais,
depois de lhe ser dito que o serviço também estava aberto a questões “pessoais”,
foi possível colher:
“Por exemplo [...] eu tenho dificuldade com um certo
sentimento meu. Por exemplo [...] eu sou uma pessoa assim
muito insegura. Eu tenho um relacionamento onde eu tenho
muito ciúme [...] e eu queria trabalhar isso. Tem como?”.

E, ainda:
“Então eu acho importante o trabalho de vocês e acho que tem
que ser divulgado e esclarecido. Eu acho que vocês deviam
pegar e falar com o pessoal assim [...] 'a gente está aqui para
[...]'. Apesar que vocês fizeram isso [...] não foi? Até fizeram [...]”.

Ela propõe que o serviço seja mais bem divulgado, para que todos saibam
a que se destina. Porém, logo em seguida, admite que isso já havia sido feito.
Dessa forma, é possível dizer que, em seu depoimento, a policial expressa uma
compreensão que não condiz com aquilo que ela já “sabia” sobre o plantão
psicológico.
Essa aparente contradição pode dar-se porque o “saber” envolvido nesse
episódio não era dado pela experiência. Antes de iniciar a implantação do serviço, a
equipe de plantonistas esteve em algumas reuniões e preleções, apresentando-se e
explicando como aconteceria o plantão psicológico. Contudo, conforme revela o
trecho de depoimento acima, tal explicação não bastou para que a policial
compreendesse o uso que poderia fazer do plantão. Assim, sugere-se que, para seus
usuários, o sentido do plantão psicológico não está no entendimento cognitivo da
situação, mas também se refere à dimensão da experiência. Como a policial não
havia, até aquele momento, procurado atendimento, pode-se dizer que, de fato, ela
não “sabia” nada sobre o plantão, mesmo estando devidamente informada sobre ele.
Na dimensão da experiência, já tematizada anteriormente, através dos
existenciais afetabilidade-compreensão-fala, pode acontecer uma aprendizagem
outra, que mescla o saber cognitivo às impressões e afetações pessoais. Pode dar-
se, portanto, a aprendizagem como conhecimento tácito (Figueiredo, 1993). Como
tatuagem, o conhecimento tácito se inscreve no sujeito, e passa a fazer parte dele.
Por esse motivo, é também na dimensão do conhecimento tácito que se
dá a relação plantonista-cliente no plantão psicológico. O espaço aberto pelo
plantão permite, a partir da publicização dos sujeitos (Arendt, 2003), uma
experiência significativa que, mobilizando o tácito, desvela sentidos.
Na prática, os policiais perceberam essa característica de diversas
maneiras diferentes. No depoimento 02:
“Eu acho que conversando a gente vai entendendo como é a
situação. [...] A gente conversando [...] abrindo o jogo [...] abre a
mente da gente [...] a gente pensa mais [...]”.

Expressa de outra forma, no depoimento 03:


“Aí [...] numa outra vez a gente conversou [...] aí eu fui
interrompida [...] eu sou da administração [...] me chamaram [...]
e depois desse dia a gente não conversou mais [...] Mas o pouco
que eu conversei com ela já me deu outra visão para o que eu
estava passando [...] Eu acho que me ajudou bastante [...]”.
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Outra compreensão possibilitada por essa experiência de plantão


psicológico em instituição diz respeito ao cuidado com os plantonistas. Como

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abordado anteriormente, o plantonista se apresenta como ser afetável, assim
como seu cliente. Na relação propiciada pelo plantão, o cliente pode ter
compreensões suscitadas, para as quais encontrará atenção por parte do
plantonista, em busca de sentido. Porém também o plantonista precisa encontrar
um espaço de reflexão para suas próprias compreensões, e a supervisão costuma
ser o espaço privilegiado para esse cuidado.
Vale dizer que, também na supervisão, a atenção precisa contemplar a
experiência do plantonista, e não seus “saberes teóricos” sobre o plantão
psicológico. Em outros termos, ela precisa dar-se com especial atenção ao tácito
envolvido no trabalho do plantonista. Dessa maneira, a supervisão cuida da equipe
de plantonistas durante toda a realização do trabalho, inclusive nos momentos de
tédio, paralisia e desânimo, que surgem na interface com a instituição.
Este artigo teve a intenção de explorar algumas compreensões possíveis
sobre o campo da prática psicológica em instituição, deixando-se acolher por
reflexões propiciadas pela orientação fenomenológica existencial, a partir de uma
experiência de plantão psicológico realizada na Polícia Militar do Estado de São
Paulo. Por deixar algumas questões relevantes ainda por desenvolver, espera-se
que ele possa suscitar outras iniciativas, no intuito de dar maior consistência ao
campo teórico da prática psicológica em instituições.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.


CRITELLI, Dulce M. Analítica do sentido: uma aproximação e interpretação do real de orientação
fenomenológica. São Paulo: Brasiliense, 1996.
FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Sob o signo da multiplicidade. Cadernos de Subjetividade, n.1, 89-95. PUC/SP,
1993.
FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Modos de subjetivação no Brasil e outros escritos. São Paulo: Escuta, 1995.
GENDLIN, Eugène T. Befindlichkeit: Heidegger and the philosophy of psychology. Review of Existential
Psychology and Psychiatry, 16 (1-3), 43-71,1978/1979.
HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Petrópolis: Vozes, 2001.
LÉVY, André. Ciências clínicas e organizações sociais. Belo Horizonte: Autêntica/FUMEC, 2001.
OLIVEIRA, Rodrigo G. Uma experiência de plantão psicológico à Polícia Militar do Estado de São Paulo:
reflexões sobre sofrimento e demanda. Dissertação de Mestrado. Departamento de Psicologia do
Desenvolvimento e da Aprendizagem, IP, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005.
PRILLELTENSKY, Isaac. The morals and politics of psychology: psychological discourse and the status quo.
New York: State University of New York Press, 1994.
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