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MARCO ANTONIO BRANDÃO

O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO


DOS TRABALHADORES: A HISTÓRIA DE
UMA UTOPIA (1979-1994)
MARCO ANTONIO BRANDÃO

O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO


DOS TRABALHADORES: A HISTÓRIA DE UMA
UTOPIA (1979-1994)

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em História da Faculdade de História, Direito e
Serviço Social da Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho”, Câmpus de Franca, para a obtenção do título
de Mestre em História.

Orientador: Prof. Dr. José Evaldo de Mello Doin


MARCO ANTONIO BRANDÃO

O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO DOS


TRABALHADORES: A HISTÓRIA DE UMA UTOPIA
(1979-1994)

COMISSÃO JULGADORA

DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE

Presidente e Orientador: Prof. Dr. José Evaldo de Mello Doin

2o. Examinador: Profa. Dra. Rosângela Patriota (UFU)

3o. Examinador: Profa. Dra. Aparecida da Glória Aissar (UNESP/Franca)

Franca(SP), 27 de novembro de 1998.


Aos meus pais:

obrigado por tudo o que vocês me


proporcionaram e pelo fato de
existirem.
AGRADECIMENTOS

A realização de um trabalho como esse, uma Dissertação de


Mestrado, demanda um certo tempo. Foram alguns anos nos quais contei
com várias formas de ajuda. Infelizmente, pelo espaço que me cabe aqui não
me será possível agradecer a todos que, de alguma forma, me ajudaram.
Entretanto, gostaria de agradecer:
A um grande amigo, Prof. Dr. José Evaldo de Mello Doin, que durante
esse tempo em que mantivemos uma relação acadêmica demonstrou não
ser apenas um orientador, mas, também um grande mestre que fez com que
eu crescesse com meus próprios erros.
A dois outros grandes amigos, Agnaldo de Sousa Barbosa e
Alexandre Marques Mendes, que, em momentos distintos, contribuíram para
esse trabalho e me deram a honra de suas amizades.
À Ana Maria Vieira Mariano da Silva, que também em momento
distinto contribuiu com esse trabalho.
O compartilhamento de momentos muito importantes com os colegas
de orientação em comum e, principalmente, aos colegas contemporâneos de
defesa Marcos Antonio Gigante e Robson Mendonça Pereira.
À Andréia e ao Mauro da Seção de Pós-Graduação dessa Faculdade,
que sempre me atenderam com muita cordialidade.
Aos funcionários do Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro,
em São Paulo, em especial à Selma e à Leonor, que colocaram à minha
disposição todo o arquivo do Partido dos Trabalhadores.
As críticas dos professores Marisa Saenz Leme e Alberto Aggio por
ocasião do Exame Geral de Qualificação, assim como também às críticas da
Assessoria Científica da FAPESP.
E, em especial, à FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo, que criou condições para que esse trabalho se
concretizasse.
SUMÁRIO

Introdução 000

Capítulo 1
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA
EM UMA SOCIEDADE EM FORMAÇÃO
000
1.1 – A formação de uma nova conjuntura social brasileira

Capítulo 2
A HISTÓRIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO
DOS TRABALHADORES — A FUNDAÇÃO (1979-1983) 000
2.1. O valor da democracia e o Socialismo Democrático 000
2.2. As eleições de 1982 000
2.3. Crise de identidade – a “articulação dos 113” 000

Capítulo 3
A HISTÓRIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO
DOS TRABALHADORES — O “ACÚMULO DE FORÇAS”
(1984-1989) 000
3.1. As principais lutas do PT 000
3.2. Os avanços na concepção do Socialismo Democrático 000
Plano de Ação Política e Organizativa do Partido dos Trabalhadores
para o período de 86/87/88 000
o
Resoluções Políticas do 5 . Encontro Nacional do Partido dos
Trabalhadores 000
o
Resoluções Políticas do 6 . Encontro Nacional do Partido dos
Trabalhadores 000
Capítulo 4
A HISTÓRIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO
DOS TRABALHADORES — A BATALHA (1990-1994)
000
4.1. Um olhar sobre os ombros: avanços da estratégia 000
o
Resoluções Políticas do 7 . Encontro Nacional do Partido dos
Trabalhadores 000
A Reforma Urbana e os posicionamentos acerca das
administrações petistas 000

4.2. O Socialismo Democrático no 1 o. Congresso do Partido dos


Trabalhadores em 1991 000
o
O Socialismo nas Teses do 1 . Congresso do Partido dos
Trabalhadores 000
o
As Resoluções Políticas acerca do socialismo no 1 . Congresso
do Partido dos Trabalhadores 000

4.3. Resoluções Políticas do 8o. Encontro Nacional do


Partido dos Trabalhadores 000

4.4. Resoluções Políticas do 9o. Encontro Nacional do


Partido dos Trabalhadores 000

4.5. As Bases do Programa de Governo 000


Principais ações do partido no Governo Democrático
e Popular 000

CONSIDERAÇÕES FINAIS 000

DOCUMENTOS PESQUISADOS 000

BIBLIOGRAFIA 000
INTRODUÇÃO

“Com o sentido geral da nossa política — democrático e anticapitalista


— perfeitamente assegurado, optamos pela construção progressiva da nossa
utopia concreta, isto é, da sociedade socialista pela qual lutamos. Quisemos
evitar tanto o ideologismo abstrato, travo elitista da esquerda tradicional
brasileira, quanto o pragmatismo desfibrado, característico de tantos outros
partidos. De nada nos serviria um aprofundamento ideológico puramente de
cúpula, sem correspondência na cultura política real de nossas bases partidárias
e sociais.”

Resoluções Políticas do 7º. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores

No século XX, muitas pessoas no mundo se orientaram, ou mesmo,


estruturaram suas vidas em nome de um ideal. Ser um revolucionário era
dedicar a vida à causa do proletariado, fazer do partido uma religião e,
principalmente, ser integrante do partido revolucionário representava ser a
vanguarda científica ou o cérebro da classe trabalhadora.
Durante a consolidação dos regimes socialistas essa regra
prevaleceu, ou seja, o partido revolucionário, em nome da própria revolução,
concebeu e materializou todas as configurações políticas, sociais,
econômicas e culturais da sociedade.
Na maior parte deste século, ser um revolucionário representou a
possibilidade de ter o poder de criação, de interferir no processo histórico,
enfim, brincar de ser Deus.
Também no Brasil, ser um revolucionário era chamar para o partido,
para a vanguarda, a responsabilidade pela transformação da sociedade. Em
termos gerais, era receber da classe trabalhadora uma procuração para, em
nome dela, transformar a sociedade, traçar estratégias, conceber ações,
estar num degrau acima da classe trabalhadora para poder enxergar e
pensar por ela.
Tudo isso que acabamos de dizer possui um fundo poético, mas, isso
é natural, pois, são frases carregadas de emoção. É isso que representa um
dos sentidos de revolução: uma utopia, algo que parte do real, do mundo
vivido, mas, que o transcende e o nega, ao mesmo tempo. Dessa forma, uma
utopia não se materializa enquanto tal, não é palpável.
Questionamo -nos, então, sobre a possibilidade de se fazer a história
de uma utopia, de algo que não existe. Isso é possível, sim, a partir do
momento em que essa utopia se transforma no sentido de ser de um partido
e que esse produz documentos e mais documentos a orientá-lo no caminho
da consolidação dessa utopia. O nosso estudo ocupou-se dos documentos
desse Partido, documentos que orientaram sua atuação no sentido de
construir uma sociedade socialista no Brasil.
Ser um revolucionário no final desde século no Brasil não
representava ser necessariamente o cérebro da classe trabalhadora. Ser um
revolucionário no Partido dos Trabalhadores seria entregar para a classe
trabalhadora os destinos de uma sociedade no qual ela era a maioria. Ser um
revolucionário petista seria lutar por um socialismo democrático.
Nas páginas que se seguem procuramos analisar os principais
momentos da história deste socialismo democrático do Partido dos
Trabalhadores, assim como fatos que marcaram a sua história, seus
posicionamentos frente a questões estratégicas e que possíveis ações
concretas o Partido vislumbrou para colocar em prática o seu socialismo.
Um dado importante que perpassa grande parte do trabalho é a
referência constante do PT aos movimentos sociais, que se tornam desde a
fundação do Partido a sua grande pedra angular, o norte de sua estratégia
política, o “agente” responsável pela revolução a ser desfechada contra a
sociedade capitalista, relativizando, em certos casos, a sua importância como
partido para o processo de formação da sociedade socialista.
Por se tratar da história de uma utopia, materializada nos documentos
do Partido, procuramos aproveitar ao máximo a riqueza desses documentos.
Em muitos casos, demos voz a esses documentos, explorando-os tanto no
corpo do texto, através de citações, quanto nas notas de rodapé, buscando
os avanços na elaboração estratégica do Partido acerca de sua concepção
teleológica da sociedade socialista e das possíveis formas de ruptura com a
sociedade capitalista existente no Brasil.
Infelizmente, não pudemos fazer uma análise historiográfica acerca de
nosso objeto, pois, no âmbito da História não encontramos muitos trabalhos
dedicados a temas afins. Há trabalhos sobre o assunto no âmbito da Ciência
Política e também da Sociologia Política, entretanto, procuramos não
adentrar nas discussões de que tratam esses trabalhos — quando
necessário, apontamos referências de obras que aprofundaram certas
análises — pois corríamos o risco de descaracterizar nosso objeto histórico e
também o estudo e a História. Isso não representou a feitura de um trabalho
positivista fundamentado somente em documentos, pois, no decorrer do
trabalho deixamos explícitas as análises conceituais que orientaram o trato
com a massa documental.
Um dado importante: a maioria dos documentos pesquisados dizem
respeito a Resoluções ou Deliberações de instâncias de âmbito nacional do
Partido, ou seja, tais documentos expressam a estratégia de ação do Partido
como um todo. Os documentos que usamos que não tem esse caráter
deliberativo influíram ou foram importantes na história do Partido.
Pelo tempo e espaço limitados de um Mestrado não pudemos auferir
empiricamente os sucessos e os fracassos de alguma experiência prática do
Partido no sentido de promover o seu socialismo, sendo que apenas
acompanhamos os resultados pelos próprios documentos. Um exemplo disso
foi a nossa preocupação em rastriarmos nos documentos a evolução dos
seus Núcleos de Base e a função estratégica desses — pelo fato de estarem
estreitamente vinculados aos movimentos sociais — que poderia servir para
a promoção de uma via ao socialismo que não tivesse necessariamente a
conquista do poder como principal objetivo.
No primeiro capítulo, introduzimos a “história da esquerda brasileira
numa sociedade em transformação”, procurando apontar as singularidades
da atuação da esquerda em dois momentos distintos do processo de
formação da sociedade brasileira. Nesses momentos, divididos pela
transição democrática, vamos ter o Partido Comunista Brasileiro como o
partido hegemônico da esquerda, primeiramente. Depois, num segundo
momento, tal hegemonia será assumida paulatinamente pelo Partido dos
Trabalhadores. Apontamos, também, as peculiaridades das estratégias de
cada partido numa sociedade que apresentou um estágio de formação —
aumento construtivo e produtivo da economia capitalista — diferente das
sociedades que experimentaram processos revolucionários que se
materializaram numa ordem social socialista. Esse capítulo apresenta o
objeto de estudo que será analisado nos capítulos seguintes.
No segundo capítulo, adentramos na história propriamente do PT —
Partido dos Trabalhadores, de 1979 a 1983 —, analisando as
particularidades de sua formação como partido de esquerda, sua estreita
relação com os movimentos sociais, suas primeiras concepções acerca do
socialismo, suas primeiras experiências políticas e o reflexo dessas para a
vida interna do Partido. Esse vai, então, dar início ao que se consolidou como
a grande estratégia de ação orientadora de suas ações durante o período
compreendido por esse trabalho, ou seja, a estratégia de “acúmulo de forças”
e a luta pela conquista da hegemonia dos trabalhadores na sociedade.
No terceiro capítulo, analisamos os avanços na concepção do Partido
acerca do socialismo no período de 1983 à 1989, os efeitos dos principais
fatos da transição democrática, assim como a sua principal luta — se
coadunando com sua estratégia de “acúmulo de forças” — a disputa das
eleições para a Presidência da República em 1989.
No último capítulo, encerramos a análise da história do socialismo
democrático, de 1990 a 1994, apontando os avanços das estratégias do
Partido quanto à promoção de seu socialismo, principalmente nas
Resoluções daquele que representou um dos eventos mais importantes na
história desse Partido: o 1o. Congresso do PT, que foi em grande parte
dedicado à discussão do “socialismo petista”. Também tratamos das
esperanças do Partido em desfechar seu processo de ruptura com a
sociedade capitalista se conseguisse a vitória nas eleições presidenciais de
1994.
1. INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA
NUMA SOCIEDADE EM FORMAÇÃO

Na história do Brasil, durante a maior parte do Século XX, a


intervenção do Estado nas relações sociais foi uma constante. Essa
intervenção acentuou-se depois da década de 30 com o Governo Vargas,
estendendo-se até o regime militar após 1964.
Nesse período, podemos notar mais nitidamente a idealização de
uma “esfera pública” para o Brasil, com o Governo atuando na economia —
promovendo o desenvolvimento do capitalismo — e no controle social, por
meio indireto — como foi a construção ideológica do Estado Novo e as
políticas populistas — ou, diretamente, pelo uso da repressão durante a
ditadura militar.
A atuação do Estado em qualquer período desse desenvolvimento
esteve concebida para uma sociedade capitalista, orientada para a promoção
de determinados valores. Nesse particular, ressaltamos a característica
dessa atuação, onde as configurações que esse Estado assumiu no controle
social, do movimento operário, e, principalmente, de setores considerados de
esquerda — sindicatos e partidos — influíram no desenvolvimento da
sociedade dentro de um cabedal de valores próprios da ótica capitalista.
A principal particularidade deste processo de maior intervenção do
Estado é que esse foi o responsável pela modernização da sociedade. Num
período de aproximadamente meio século, o nosso país que se orientava
pelo campo, em que as cidades eram complemento da economia agrícola,
passou a ser um país com preponderância da economia urbana, com
grandes centros metropolitanos em que se somavam empresas produtivas
dos mais variados ramos.
O público urbano que então se desenvolveu, em meio a essa
atmosfera modernizante, foi reflexo desse desenvolvimento em que as
intervenções do Estado atingem grandes contingentes da população urbana,
o que representou os princípios da “política de massas”, que foi impulsionada
por Getúlio Vargas a partir da década de 30. O Estado Novo atuou
decisivamente na promoção dos valores identificados com as massas,
passando a conceber ideologicamente esses valores com fins políticos. Com
a democracia populista, a política e a construção de símbolos passaram pelo
crivo da grande massa urbana, o que deu sentido aos “50 anos em 5”, à
“vassourinha”, ou mesmo, ao mito do "progresso" do Brasil.
Com o regime militar, desfechado com o golpe de 1964, o aparelho
ideológico voltado para as massas sofreu uma retração em favor da
repressão. Essa orientação para as massas não desapareceu por completo e
um exemplo disso foi a utilização da conquista do campeonato mundial de
futebol em 1970 pelos militares no sentido de promover o regime.
O regime militar pode ser considerado o último estágio de formação
de uma “esfera pública” interposta pelo Estado para a sociedade. Essa
“esfera pública” começou a apresentar deficiências a partir da segunda
metade da década de 70 com os movimentos de contestação à ordem social
mantida pelos militares. E, desde então, a sociedade vem apresentando
novas feições, sendo que podemos identificar o surgimento de um novo
momento do processo de modernização da sociedade, que teve o seu início
supervisionado pelos militares: a transição democrática.
Dessa forma, se olharmos pelo prisma da atuação do Estado nas
relações sociais, podemos observar dois momentos do processo de
modernização da sociedade brasileira: um compreendido entre 1930 até o
final da década de 70 e outro a partir da transição democrática. No primeiro
momento, o Partido Comunista do Brasil foi o que deteve a hegemonia no
cenário político da esquerda. No segundo, o Partido dos Trabalhadores foi se
tornando, paulatinamente, hegemônico nesse campo. O sentido disso é que
a atuação de cada partido obedeceu ao contexto histórico do momento.
A classe trabalhadora, destinatária e razão da existência desses dois
partidos, foi diretamente influenciada pelo processo de modernização da
sociedade. A classe trabalhadora urbana representou a principal “força
social” para qualquer investida socialista durante esse processo. Qualquer
consciência que se buscasse construir em uma classe trabalhadora passava
pelo crivo desse público que se ampliou acompanhando as oportunidades de
emprego nas cidades.
Uma particularidade do primeiro momento desse desenvolvimento, em
que o PCB tornou-se hegemônico, pode ser constatada na combinação
estratégica de dois conceitos: “classe trabalhadora” e “socialismo”. Isto
porque todas as experiências históricas que promoveram uma ruptura ou
uma revolução com os valores capitalistas — e, principalmente, a que o PCB
estreitamente se vinculava, a Revolução Russa de 1917 — obedeceram a
um processo singular do processo de desenvolvimento da economia
capitalista, ou mais exatamente, todas estiveram vinculadas a contextos
rurais, em que a economia industrial estava numa fase embrionária. Em
nenhuma havia grande diversidade de atividades produtivas e construtivas
da economia capitalista. Foram frustradas todas as tentativas revolucionárias
em sociedades industriais que possuíam uma estrutura peculiar com a
formação de uma Sociedade de Massas, nas quais estavam se enraizando
os valores de consumo capitalistas. Todas as experiências revolucionárias se
deram em processos de constituição da sociedade burguesa, em que
existiam muitos valores arraigados à tradição e uma sociedade com
características agrícolas. Nessas sociedades, os valores capitalistas não
estavam consolidados naquele momento, sendo esse anterior à formação de
um público urbano mais amplo que obedeceria à difusão e à complexidade
de uma sociedade que sofreria processos de modernização econômica,
cultural e social.
Essa afirmação se aplica às três grandes revoluções socialistas: a
Revolução Russa, a Revolução Chinesa e a Revolução Cubana, pois, todas
estiveram vinculadas a um contexto rural em que a economia capitalista
ainda estava se gestando.
A economia cubana era baseada na monocultura açucareira e esta
apresentava grandes avanços no que diz respeito à economia capitalista.
Entretanto, a sociedade cubana não havia experimentado o processo de
modernização e dinamização produtiva que outras sociedades capitalistas
sofreram, uma vez que a economia de Cuba ficou vinculada a uma atividade
produtiva (monocultura açucareira) a que ficava circunscrita grande parte da
força de trabalho.
Para elucidar essa nossa argumentação, vamos nos concentrar na
peculiaridade histórica que se consolidou no grande bastião do socialismo no
Século XX — matriz ideológica do PCB — a Revolução Russa de 19171.
A Rússia de 1917 possuía uma “situação revolucionária”, fruto da
decadência da dinastia czarista e, principalmente, uma “força revolucionária”
encontrada na coesão da grande maioria dos trabalhadores. Esses
trabalhadores não sofreram as conseqüências de processos de
modernização da sociedade, pois, a Rússia do início do século XX era uma
sociedade agrícola, onde existia pouca diversidade industrial e um
desenvolvimento urbano de poucas dimensões, se comparado às metrópoles
ocidentais.
Marx, ao se reportar aos proletários, tinha em mente os trabalhadores
vinculados principalmente a uma economia industrial, que faziam o
contraposto à burguesia e, no jogo de forças da luta de classes, eram a
classe revolucionária, responsável pela transformação da sociedade. Mas, na
Rússia de 1917 não existia uma classe de trabalhadores industriais
plenamente desenvolvida. Entretanto, a Revolução contou com o operariado
e, também, num contexto urbano, com o Exército para sua legitimação2. Mas,
foi no campo, com os camponeses pobres, que se formou a principal base de
sustentação para a Revolução. Partia-se do pressuposto de que a Revolução
representava os interesses dos trabalhadores e da maioria dos oprimidos,
pois, a grande maioria dos trabalhadores estavam às voltas com uma série
de instabilidades, advindas de uma Rússia que possuía grandes resquícios
feudais. A população camponesa era miserável e aceitaria qualquer forma de
inverter a sua situação, independente da denominação dada, desde que tal

1
Um dado importante é que essas considerações feitas para a Revolução Russa, respeitando é
claro as respectivas peculiaridades históricas, podem ser atribuídas à Revolução Chinesa e
também à Revolução Cubana.
2
Neste dois segmentos da sociedade um dado é importante, pois parte do contingente de
operários das cidades voltavam para os campos em épocas de colheita, e também grande parte do
efetivo do Exército era formada também pelos camponeses. Conferir : CARR, E. H. A Revolução
Bolchevique. Porto: Afrontamento. 1979. Vol. 2. p. 23 a 27.
denominação viesse acompanhada de divisão de terras. As condições
sociais e econômicas para a Revolução Russa estavam postas.
Como dissemos, na Rússia, além de uma “situação revolucionária”
existia uma “força revolucionária”. No entanto, tal força não possuía uma
organização endógena que emanasse dela própria, o que talvez explique a
rápida incorporação dos “sovietes” à estrutura do Partido. Daí a importância
de Lênin e do Partido Bolchevique — e do que se constituiria na concepção
de “vanguarda do proletariado”. Essa combinação de “situação
revolucionária” e “força revolucionária” não foi encontrada em nenhum outro
lugar além dos contextos históricos da Rússia de 1917, da China e de Cuba
em meados do século XX.
Em sociedades que experimentavam um maior desenvolvimento
capitalista, a concepção teórica de levar tais sociedades a uma revolução de
caráter socialista encontrou maiores obstáculos. Isto porque, em muitos
casos, existia um Estado que desde os fracassos das experiências liberais
passou a intervir mais profundamente na economia e, ideologicamente, na
sociedade. Outro motivo era a deficiência dos partidos revolucionários em
conceber um modelo eficaz para o desfecho da Revolução nessas
sociedades. A dificuldade desses partidos se deu principalmente pelo fato
das novas condições em que o partido teve que atuar, ou seja, da dificuldade
para o surgimento de condições para um “processo revolucionário” — devido
em muitos casos aos sucessos das intervenções dos Estados tidos como
“burgueses” — e da dificuldade para a formação de uma “força
revolucionária” formada por um público coeso de trabalhadores. Grande
parte desses partidos revolucionários, após a Revolução Russa, atuaram em
sociedades em processo de industrialização, que passaram por um aumento
construtivo e produtivo da economia capitalista. Assim, esses partidos se
depararam com um público de trabalhadores mais amplo e complexo do que
o encontrado por Lênin na Rússia de 1917.
Esse é o exemplo do PCB3, um Partido que pregava a revolução
social da ordem capitalista, diretamente ligado à matriz socialista da
Revolução Russa4, mas que, entretanto, se vinculava a uma sociedade
diferente da Rússia de 1917. O PCB deveria atuar em uma sociedade com
características que tornavam-se cada vez mais urbanas e industriais.
Uma característica da história do PCB foi que em nenhum momento
esse Partido chegou a ameaçar a ordem social mantida pelo Estado. Em
contrapartida, o PCB foi o partido ou instituição que, à frente do movimento
operário, mais perto chegou de uma ameaça à ordem social capitalista.
Nesse aspecto o PCB é inovador, entretanto, em vários momentos da
atuação do Partido, sua ação esteve condicionada às determinações do
movimento socialista internacional, materializado num primeiro momento nas
resoluções das Internacionais Comunistas e, num segundo momento, no
reflexo da política comunista internacional adotada pelo Partido Comunista
Soviético (PCUS).

3
Anterior ao surgimento do PCB o Brasil teve outras formas de atuação e concepções estratégicas
contra a ordem social existente no Brasil. Entretanto foi com PCB que a esquerda brasileira
começa a escrever sua páginas mais importantes da história. O início da atuação de organizações
de esquerda no Brasil remontam desde o final do século passado e início do Século XX, mas, as
principais experiência se deram em meio um Brasil moldados aos valores de uma sociedade em
processo de modernização e industrialização. As cidades com um maior desenvolvimento urbano e
com uma maior diversidade industrial no início do século, tais como o Rio de Janeiro e São Paulo,
já experimentavam reflexos de uma economia industrial, tais como as greves. Entorno desta forma
de ação, consagrada mundialmente pelo movimento operário, que se deu a principal forma de
contestação da classe operária à sua situação dentro da sociedade, e foi em relação aos sucessos
e fracassos destas que se orientaram as primeiras atuações da esquerda no Brasil, identificada
num primeiro momento (1900 até a fundação do Partido Comunista em 1922) pelo movimento
anarquista. Os anarquistas semelhante a matriz européia de pensamento não acreditava na
importância da luta política da classe trabalhadora, circunscrevendo a luta localizadas e a
influência do sindicato na condução das transformações da sociedade. Os socialistas durante este
período, semelhante a matriz européia, se destacam na atuação política em meio as classes
operárias, defendendo a importância da luta política na promoção de reformas capazes de
transformar paulatinamente o capitalismo promovendo o socialismo.
4
O PCB desde março de 1922 adotou todas as condições estabelecidas para a filiação à
Internacional Comunista. Dentre as 21 condições para filiação à Internacional, uma diz respeito à
ruptura com qualquer postura ou militante social-democrata e a adaptação do espírito da
Internacional Comunista às próprias realidades dos países a serem filiados: condição 15 – “Os
partidos que conservam até hoje os velhos programas sociais-democratas, devem revê-los sem
demora, e elaborar um novo programa comunista, adaptado às condições específicas dos seus
países, mas concebido dentro do espírito da Internacional Comunista. Os programas dos partidos
filiados na Internacional Comunista devem obrigatoriamente ser confirmados pelo Congresso
Internacional ou pelo Comitê Executivo. No caso de este último não dar o seu acordo ao programa
de um partido, este terá o direito de apelar para o Congresso da Internacional Comunista.”
Condições de Admissão dos Partidos na Internacional Comunista. In: Documentos: Os Quatro
Primeiros Congressos da Internacional Comunista. Edições Maria da Fonte, s/d. vol. 2.
Desde a sua fundação, em 1922, o PCB sofreu várias transformações
em seus quadros e em sua concepção de interação com a sociedade
brasileira para a promoção da revolução socialista. O PCB, na maior parte de
sua história, atuou na clandestinidade, sendo poucos os períodos em que
pôde apresentar-se publicamente. Um desses períodos, compreendido entre
1944 e 1946, pode ser considerado um divisor de águas na história do
Partido.
De 1922 à 1944, os comunistas do PCB encontraram em outras siglas
a possibilidade de atuação política contra a ordem social capitalista
encontrada no Brasil, sendo que isso ocorreu primeiramente com a criação
do BOC — Bloco Operário Camponês — em 1927. Esse refletia a concepção
de Frente Ampla, sendo os comunistas hegemônicos na luta do proletariado
contra a ordem social capitalista, usando a legalidade eleitoral como forma
de atuação política 5. A alternativa do BOC foi abandonada pela direção do
PCB em 1930, sendo esta forma de ação considerada “direitista” pelo
Secretariado Latino-Americano do Kormintern (Internacional Comunista).
Após alguns refluxos da luta operária, em decorrência da Revolução
de 1930, o PCB sofreu algumas transformações em sua composição interna,

5
Antes de se transformar em Bloco Operário e Camponês, a Carta Aberta lançada pelo PCB , fazia
alusão somente a um Bloco Operário, o Camponês foi incorporado posteriormente, mas o sentido
de uma frente eleitoral ampla já é demonstrado desde o início: “(...) o Partido Comunista do Brasil,
constituído pela vanguarda consciente do proletariado deste país, não podia deixar de participar
nas próximas eleições de fevereiro. Os interesses e as aspirações do Partido Comunista não são
diversos dos interesses e das aspirações do proletariado em geral. Pelo contrário, o Partido
Comunista é o único partido operário que verdadeiramente representa os reais interesses e as
aspirações totais da classe operária. É, pois, em nome da massa proletária, que o PCB se dirige,
nesta Carta aberta, às pessoas, aos partidos e aos centros acima mencionados, os quais, de uma
forma ou de outra, apresentam-se aos sufrágios operários como candidatos das classes laboriosas
e espezinhadas, cujos interesses dizem representar [...] É coisa muito fácil de compreender que a
participação no pleito eleitoral de todos esses candidatos e partidos, concorrendo uns contra os
outros, dispersivamente, só pode dar como resultado o enfraquecimento das forças operárias, que
todos eles pretendem representar. Enfraquecimento e dispersão não somente no terreno
estritamente eleitoral, aritmético, do pleito, mas sobretudo enfraquecimento e dispersão no terreno
político [...] É isto precisamente que nós vimos propor. O Partido Comunista, cônscio de que os
interesses supremos do proletariado devem ser postos acima das tendências desta ou daquela
facção política, propõe a formação de uma frente única, de um bloco operário de todos os
candidatos, partidos e grupos que vão disputar as próximas eleições alegando ou pleiteando
representação das classes laboriosas. O Partido Comunista não pretende concorrer com
candidatos próprios e de tal sorte dividir as forças operárias. O Partido comunista, que pleiteia a
vitória da política proletária independente, propõe, portanto, a concentração de todas as forças
operárias. O Partido Comunista está disposto a apoiar a campanha eleitoral dos candidatos e
demais grupos e partidos que aceitem travar a batalha em comum, na base de uma plataforma
comum, segundo um plano comum” Citado por: SEGATTO, José Antonio. Breve História do PCB.
2a. Edição. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989. p. 31 e 32.
principalmente em seus quadros dirigentes6, assumindo em 1935 outra
roupagem e apresentação, materializadas na ANL — Aliança Nacional
Libertadora — e na promoção de Luís Carlos Prestes como a principal
liderança desse Partido e de todo o movimento operário. A ANL foi um
reflexo das Resoluções do VII Congresso da Internacional Comunista, que
via na política de “Frente Popular” a principal forma de luta contra os avanços
do fascismo na Europa. No Brasil, a ANL ganhou proporções de grande
movimento de massas, o que provocou conclusões apressadas dos
comunistas 7 e serviu de subterfúgio para o Golpe de Estado de Getúlio
Vargas em 1937. O desfecho da ANL se deu na ilegalidade, quando do
sufocamento das insurreições em alguns quartéis militares, sendo que,
depois disso, o que se viu foi a construção de uma máquina política
estruturada que neutralizou o PCB e a esquerda durante a existência do
Estado Novo.
O período de 1944 a 1946 é especial na história do PCB, pois, ao
contrário de momentos anteriores em que o Partido obteve legalidade — pois
atuou boa parte do tempo de sua existência encoberto por nomenclaturas de
alianças — nesses curtos dois anos o PCB pôde se expressar para a
sociedade como ele realmente era, defender seus valores, propagar as suas
idéias. E, na verdade, foi exatamente isso que aconteceu. A imprensa do
Partido por todo o país ganhou um novo ímpeto, sendo que o processo de

6
Dentre estas transformações existiu a fase obrerista do partido em que se promoveu a maior
participação de operários entre seus quadros dirigentes e a adoção de certos símbolos
“romantizados” à condição de carência material pela qual atravessava a classe operária. Outra
transformação nos quadros do PCB foi a ingressão nos quadros dirigentes dos antigos “tenentes”,
que produziram uma mudança orgânica na composição dirigente do partido, sendo a principal
figura desta fase, e uma das mais importantes para a história do partido, o antigo líder da Coluna
Prestes, Luís Carlos Prestes.
7
Uma prova disto é o discurso um de Luís Carlos Prestes: “(...) O governo popular vai abrir para a
juventude brasileira as perspectivas de uma nova vida garantindo-lhe trabalho, saúde e instrução.
A força das massas, em que se apoiará tal governo, será a melhor garantia para a defesa do país
contra o imperialismo e a contra-revolução (...) Mas o poder só chegará às mãos do povo através
dos mais duros combates. O principal adversário da Aliança não é somente o governo pobre de
Vargas, são, fundamentalmente, os imperialistas aos quais ele serve e que tratarão de impedir, por
todos os meios, a implantação de um governo popular revolucionário no Brasil. Os mais evidentes
sinais da resistência que se prepara no campo da reação já nos são dados pelos latidos da
imprensa venal vendida ao imperialismo. A situação é de guerra e cada um precisa ocupar o seu
posto. Cabe à iniciativa das próprias massas organizar a defes a de suas reuniões, garantir a vida
de seus chefes e preparar-se, ativamente, para o assalto (...)” In: CARONE, Edgar. A Segunda
República. São Paulo: Editora Difel, 1973 p. 435 e 439. Apud. SEGATTO, José Antonio. Op. Cit. p.
47.
redemocratização prometido por Getúlio Vargas o impulsionava. Mas,
quando foi conquistada a oportunidade do Partido propagar seus valores,
esse caminhou no sentido de apoio e promoção do capitalismo no Brasil
como a melhor maneira de proporcionar melhores condições de vida à classe
operária e preparar as condições estruturais para o desfecho da Revolução.
Um exemplo desse posicionamento pode ser constatado em um
discurso do maior líder comunista brasileiro, Luís Carlos Prestes:

“Depois da terrível e longa noite fascista e de tantos anos de guerra, de


dor e de miséria, os povos querem paz e ao proletariado mais adiantado e
consciente, os comunistas, numa palavra, o que convém é a consolidação
definitiva das conquistas democráticas sob um regime republicano, progressista
e popular [...] Ora, uma tal república para que possa ser instituída sem maiores
choques e lutas, dentro da ordem e da lei, não poderá ser de forma alguma uma
república soviética, isto é, socialista, mas capitalista, resultante da ação comum
de todas as classes sociais, democráticas e progressistas, desde o proletariado
até a grande burguesia nacional, com a só exceção de seus elementos mais
reacionários, numericamente insignificantes [...] Que essa seja, no caso
particular do Brasil, a única perspectiva justa para um marxista parece não haver
nenhuma dúvida, pois é evidente que entre nós faltam para uma revolução
socialista não só as mais elementares condições subjetivas como as
imprescindíveis condições objetivas. Aliás, os comunistas do Brasil sempre
lutaram pela revolução democrático-burguesa, como é fácil verificar pelos seus
documentos mais autorizados [...] Além disso, objetivamente, num país
industrialmente atrasado como o nosso, a classe operária sofre muito menos da
exploração capitalista do que da insuficiência do desenvolvimento capitalista e
do atraso técnico de uma indústria pequena e primitiva [...] O que convém agora
à classe operária é a liquidação dos restos feudais, de maneira que se torne
possível o desenvolvimento o mais amplo, o mais livre e o mais rápido do
capitalismo no país. Na situação atual do Brasil, podemos afirmar com Lênin que
nada pode haver de mais reacionário do que pretender a salvação da classe
operária em qualquer coisa que não seja o desenvolvimento ulterior do
capitalismo. Está nisso a base material, objetiva, de uma ação democrática
unificada, perfeitamente possível nas condições brasileiras do mundo de após-
8
guerra, do proletariado com a burguesia nacional progressista.”

Esse posicionamento pode ser considerado uma contradição histórica


do socialismo, se comparado às “origens” da Revolução Russa. Entretanto,
isso foi reflexo da política de aliança com países capitalistas, adotada pela
URSS contra o inimigo fascista. O perigo fascista também produziu fatos
inusitados na história política brasileira, como o apoio do PCB à política de
guerra de Getúlio Vargas contra o Eixo (Alemanha, Itália, Japão) e a luta
para defender as instituições democráticas burguesas. Uma outra causa
deste posicionamento foi a concepção do Partido em promover primeiro a
revolução burguesa, para somente depois a revolução socialista — estratégia
esta que os bolcheviques não adotaram na Rússia e que era defendida pelos
mencheviques.
A defesa da democracia por parte do PCB se exp lica pelo fato de que
a disputa eleitoral até meados da década de 40 representou a principal forma
de interação do Partido com a sociedade. O PCB já nasceu em meio a uma
política eleitoral de massas, que possuía na conquista de votos uma das
principais formas de ação. Daí, o caráter dúbio da estratégia do Partido —
que perpassou praticamente toda a sua história — ao adotar uma política
mais ampla de conquista de votos que visava não apenas os da classe
operária da qual se dizia representante ou vanguarda, mas, também de
outros segmentos da sociedade9.
Novamente na clandestinidade, no Governo Dutra, o PCB encontrou
outra vez na aliança com outros setores da sociedade a forma de ação
política através da Frente Democrática de Libertação Nacional. A concepção
de Frente Democrática pregava a aliança de vários setores da sociedade
contra o governo brasileiro. Novamente, o Partido se posicionou com relação
às massas como um todo, não em relação ao operariado em particular, ou
aos camponeses como principais aliados contra o governo, mas, a um
público urbano mais amplo que deveria ser “guiado” pela vanguarda do
proletariado.
Um exemplo deste apelo às massas é dado mais uma vez por Luís
Carlos Prestes em seu Informe de Balanço do Comitê Central do PCB no IV
Congresso em 1954:

“(...) São numerosos os caminhos que levam à organização das massas


operárias e populares em correntes de unidade. Mas, estas, orientadas e
dirigidas pela classe operária, liderada pelos comunistas, tendem todas para o
mesmo caudal único que é a frente democrática de libertação nacional. Sua

8
In: PRESTES, Luís Carlos . Os Problemas Atuais da Democracia. Rio de Janeiro: Editora Vitória,
1947. p. 83-86. Apud. SEGATTO, José Antonio., Op. Cit. p. 62 e 63.
9
Neste particular ou para essa ambigüidade do PCB conferir: PANDOLFI, Dulce. Camaradas e
companheiros: memórias e história do PCB. Rio de Janeiro: Relume-Dumará , 1995.
base será constituída pela força indestrutível da aliança operário-camponesa e
que virão juntar-se os intelectuais, cientistas, escritores, artistas, técnicos,
professores, pessoas de todas as profissões liberais; juntar-se-ão os
empregados do comércio, dos escritórios e dos bancos, os funcionários
públicos, as pessoas que trabalham por conta própria, os sacerdotes ligado ao
povo, bem como os soldados, marinheiros, cabos, sargentos e oficiais das
forças armadas. E ainda os artesãos, os pequenos e médios industriais e
comerciantes, bem como parte dos grandes industriais e comerciantes, que
também sentem a concorrência dos imperialistas norte-americanos e sofrem os
efeitos da política econômica e financeira do governo de latifundiário e grandes
capitalistas. Todos os que desejam uma pátria livre e poderosa, sejam quais
forem suas crenças religiosas, suas filiações partidárias, suas tendências
filosóficas, poderão igualmente ser ganhos para o lado da classe operária, para
10
as fileiras da frente democrática de libertação nacional.”

O PCB, durante a década de 50, reafirmou várias vezes a sua política


de alianças democráticas 11 para libertar o Brasil dos seus dois grandes
inimigos: o imperialismo norte-americano e os resquícios de um país agrário
e atrelado às velhas elites rurais. A revolução socialista vislumbrada pelo
PCB deveria ocorrer depois que o país avançasse no desenvolvimento de
suas forças produtivas capitalistas, pois, para esse Partido, a revolução se
daria por etapas e o Brasil possuía mais características feudais do que
capitalistas. Dessa forma, era necessário completar a etapa capitalista12
para, posteriormente, adentrar em uma etapa socialista de hegemonia do
proletariado e liderança “natural” de seu Partido Comunista.
Na Declaração Política do PCB de 1958, estabeleceu-se a
responsabilidade dos comunistas frente ao proletariado na direção da frente
única contra a ordem social capitalista no Brasil:

10
PRESTES, Luís Carlos. “Informe de Balanço do Comitê do PCB ao IV Congresso do PCB”.
o
Problemas, Rio de Janeiro, n . 64, dez/1954 a fev/1955. p. 67. Apud. SEGATTO, José Antonio.
Op. Cit. p. 83.
11
Na Declaração Política do PCB em março de 1958 a democratização da sociedade era colocada
nos seguintes pontos: “(...) Mas o processo de democratização é uma tendência permanente. Por
isto, pode superar quaisquer retrocessos e seguir incoercivelmente para adiante. Vem-se firmando,
assim, em nosso país, a legalidade democrática, que é defendida por amplas e poderosas forças
sociais [...] É na luta contra o imperialismo norte-americano e os seus agentes internos que as
forças progressistas da sociedade brasileira podem acelerar o desenvolvimento econômico
independente e o processo de democratização da vida política do país. Para atingir este objetivo,
as forças progressistas têm interesse em defender, estender e consolidar o regime de legalidade
constitucional e democrático.” Citado por: SEGATTO, José Antonio. Op. Cit. p. 91.
12
Levando em consideração a teoria das etapas do modo de produção, não bastava tomar o
poder, eles tinham que se dar conta de certas exigências que a sociedade possuía em relação à
economia e também ao consumo. Não bastava socializar a economia em uma sociedade atrasada
economicamente e socializar migalhas, mas criar condições de progresso para a existência do
proletariado, representando com isso, na maioria dos casos, o avanço do capitalismo, para
posterior socialização em níveis econômicos mais adiantados.
“(...) Os comunistas de modo algum condicionam a sua participação na
frente única a uma prévia direção do movimento. Tendo por objetivo a ampliação
e a coesão da frente única, os comunistas trabalham para que as forças
antiimperialistas e democráticas, principalmente as grandes massas da cidade e
do campo, aceitem a direção do proletariado, uma vez que esta direção é, do
ponto de vista histórico, a única capaz de dar à frente única firmeza e
conseqüência política. A conquista da hegemonia do proletariado é, porém, um
processo de luta árduo e paulatino, que avançará à medida em que a classe
operária forjar a sua unidade, estabelecer laços de aliança com os camponeses
e defender de modo acertado os interesses comuns de todas as forças que
13
participam da frente única.”

O caráter revolucionário da Frente Única consistia na libertação do


país da opressão dos interesses do imperialismo e das classes ligadas a ele.
Entretanto, isso não consistia na revolução socialista propriamente dita, mas,
na promoção do desenvolvimento do capitalismo desvinculado do latifúndio e
na promoção do bem-estar do proletariado. A Resolução Política do V
Congresso de 1960 analisou estes pontos:

“(...) A contradição antagônica entre o proletariado e a burguesia,


inerente ao capitalismo, é também uma contradição fundamental da sociedade
brasileira. Mas esta contradição não exige solução radical e completa na atual
etapa da revolução, uma vez que, na presente situação do País, não há
condições para transformações socialistas imediatas [...] Em sua atual etapa, a
revolução brasileira é atiimperialista e antifeudal, nacional e democrática. São
suas tarefas essenciais: — A completa libertação econômica e política da
dependência em relação ao imperialismo, o que exige medidas radicais para
eliminar a exploração dos monopólios estrangeiros que operam no País,
principalmente os norte -americanos. — A transformação radical da estrutura
agrária, com a eliminação do monopólio da propriedade da terra, das relações
pré-capitalistas de trabalho e, conseqüentemente, dos latifundiários como
classe. — O desenvolvimento independente e progressista da economia
nacional, mediante a industrialização do País e a superação do atraso de nossa
agricultura. — A elevação efetiva do nível de vida material e cultural dos
operários, dos camponeses e de todo o povo. — A garantia real das liberdades
democráticas e a conquista de novos direitos democráticos para as massas [...]
A realização dessas tarefas implica em transformações revolucionárias na
sociedade brasileira. Exige uma profunda mudança na correlação de forças
políticas e a passagem do Poder estatal às mãos das forças políticas e a
passagem do Poder estatal às mãos das forças antiimperialistas e antifeudais —
a classe operária, os camponeses, a pequena burguesia e a burguesia ligada ao
interesse nacionais — entre as quais o proletariado, como a força revolucionária
14
mais conseqüente, deverá ter o papel dirigente”

13
Citado em: SEGATTO, José Antonio. Op. Cit. p. 94.
14
Ibidem. p. 100.
Ao longo da primeira metade da década de 60, mudanças de cunho
político anunciavam que algumas das reivindicações do PCB começavam a
ganhar respaldo da política do governo, como, por exemplo a reforma
agrária15. O Estado manifestava sinais de abertura, inclusive com a
aproximação do governo brasileiro com governos socialistas. Entretanto, isso
não foi suficiente para o PCB desfechar a revolução da Frente Única
Democrática, pois, o Partido não soube tirar proveito desse grande momento
e não colocou em prática sua política revolucionária16, tornando-se incapaz
de despertar a resistência ao golpe militar de 1964.
A ditadura militar cuidou de anular o projeto político do PCB e passou
a constituir-se, para o Partido, em mais um inimigo a ser vencido, além do
imperialismo e do resquício feudal, pelo princípio da união democrática 17.

15
Outro análise acerca das ambigüidades do PCB, ou seja, a opção de participar dos meios
institucionais burgueses é feita por Segatto, que analisou da seguinte forma tal dilema após o
apoio do partido às reformas anunciadas pelo Governo Goulart: “As ‘reformas de base’, por sua
vez, seriam elemento fundamental de acumulação de forças para o desencadeamento da
revolução. Ou seja, ‘a luta pelas reformas de base constitui um meio para acelerar a acumulação
de forças e aproximar a realização dos objetivos revolucionários’. Reforma e revolução estariam
assim, indissoluvelmente ligadas, uma provocaria – e isso era inevitável – a outra. ‘Contrapor as
reformas à revolução – quer para considerá-las um fim em si, como fazem os reformistas, quer
para negar-lhes qualquer papel no processo revolucionário, como fazem os freseólogos ultra-
esquerdistas – é não perceber a correlação que existe entre elas, é não ter uma exata
compreensão das características da época histórica em que vivemos. Em nosso caso, a luta pelas
reformas de estrutura é, hoje, o principal meio de fazer avançar o processo revolucionário. A
conquista dessas reformas, independentemente dos fins que persigam os diferentes grupos
sociais, volta-se contra a espoliação imperialista e o atraso semifeudal. Entretanto, os efeitos que
dela resultam, naturalmente na medida em que a luta seja dirigida pelas forças de vanguarda,
atingem cada vez mais o capitalismo como sistema de exploração do homem pelo homem.’ (...)”
In: SEGATTO, José Antonio. Reforma e Revolução: as vicissitudes políticas do PCB (1954-1964).
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 112 e 113.
16
Isso não quer dizer que a possibilidade de um golpe de força tenha sido descartada pelo PCB,
mesmo que esse golpe vinculasse a continuação de João Goulart na presidência da República,
pois a possibilidade de participação em uma frente ampla, lançada por Goulart, era acolhida com
simpatia pelo partido: “As relações do PCB com Jango torna-se tão estreitas, de um momento para
o outro, que Prestes, em janeiro de 1964, declara, em entrevista na televisão, as intenções
continuístas do presidente da República, para um segundo mandado, e uma possível reforma
constitucional. Na mesma entrevista, o Secretário-Geral do PCB admite que tanto Brizola como
Jango poderiam vir a desempenhar o papel que Fidel Castro desempenhou em Cuba.” Ibidem. p.
164.
17
“Na situação atual, nossa principal tarefa tática consiste em mobilizar, unir e organizar a classe
operária e demais forças patrióticas e democráticas para a luta contra o regime ditatorial, pela sua
derrota e a conquista das liberdades democráticas. A realização dessa tarefa está estreitamente
ligada aos objetivos revolucionários em sua etapa atual e ao desenvolvimento da luta de classe
operária pelo socialismo [...] O caráter prioritário da defesa das liberdades democráticas decorre da
necessidade de que as amplas massas intervenham na vida política e no processo revolucionário.
A luta pelas liberdades, desde os direitos de reunião, associação e manifestação, até a liberdade
de imprensa e de organização dos partidos políticos liga-se à luta de massas em todos os seus
níveis, das reivindicações mais elementares às batalhas decisivas pelo poder. Cada vitória,
pequena ou grande, ou mesmo derrota na luta pelas liberdades, incorpora-se à experiência de luta
que levará as massas a avançar em seus objetivos, formar e prestigiar suas organizações e seus
Mas, a intensificação da repressão após o AI-5, levou o PCB a lutas
fragmentadas e ao desma ntelamento de seus órgãos de direção e
militância18. Muitos militantes do Partido se transformaram, posteriormente,
em líderes de organizações guerrilheiras, levando essa forma de ação como
a mais nova via de luta pelo socialismo por uma parte da esquerda. Essa
resistência guerrilheira foi a forma de ação de alguns grupos de esquerda
para tentar vencer a ditadura num campo comum às duas forças: as armas.
A forma de ação através da guerrilha foi impulsionada na América,
principalmente, pelo exemplo da Revolução Cubana, sendo que Cuba
representou um centro de treinamento para tal atividade política. O PCB
manteve-se reticente em relação à luta armada19, o que foi motivo para
alguns de seus militantes o abandonarem, ou para que o Partido cuidasse de
suas expulsõ es.
Todos os grupos guerrilheiros e seus principais líderes foram
completamente liquidados. Muitos foram mortos, exilados ou desapareceram.
Isso fez da luta armada uma pequena página, um curto período da história da
esquerda no Brasil.

1.1. A formação de uma nova conjuntura social brasileira

líderes, intervir decisivamente nas ações políticas que conduzirão à derrota do regime ditatorial.” –
Resolução Política do VI Congresso do PCB (1967); citado por: SEGATTO, José Antonio. Breve
a.
História do PCB. 2 Edição. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989. p. 117 e 118.
18
Segatto definiu a derrota do PCB para a ditadura militar da seguinte forma: “O Revés do PCB
em abril de 1964 não foi episódico, como também não foi, simplesmente, mais uma batalha
perdida ao longo de sua extensa trajetória de lutas. Significou, isto sim, a derrota definitiva de seu
projeto nacional-democrátrico ou de revolução democrático-burguesa, que acompanhava e
perseguia desde seu nascimento. A ditadura militar, ao completar e realizar de forma plena e
radical o processo (autoritário e excludente) da revolução burguesa no Brasil, matou o projeto
pecebista – e este deixou de ter sentido de ser e existir.” In: SEGATTO, José Antonio. Reforma e
Revolução: as vicissitudes políticas do PCB (1954-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1995. p. 248.
19
A resistência armada foi vista com negatividade por parte do PCB, um exemplo disto é o
posicionamento de Luís Carlos Prestes frente a esta opção: “Não será somente com atos de
repercussão, sem a participação das massas, que se vencerá a ditadura. Não é fazendo barulho
apenas que conseguiremos derrotá-la. Para tanto não bastam nem o dinheiro dos bancos, nem as
armas arrancadas dos quartéis ou tomadas aos soldados e policiais, nem a libertação de presos e
condenados políticos [...] Ações desse tipo, tornam inútil a organização dos trabalhadores, tiram
aos operários a vontade de unir-se, de agir de maneira autônoma, desde que dispõem de heróis
a
que podem agir por eles.” In: SEGATTO, José Antonio. Breve História do PCB. 2 . Edição. Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1989. p. 121.
Como analisamos anteriormente, o PCB surgiu numa sociedade em
processo de desenvolvimento urbano, sendo esse semelhante ao de outras
grandes metrópoles européias. Foi, principalmente, essa característica da
sociedade brasileira que gerou grandes percalços na aplicação de ações de
cunho revolucionário por parte do PCB.
O partido revolucionário foi o elemento central de toda a concepção
de revolução comunista, pois, era ele que conduziria as transformações da
sociedade — "a vanguarda do proletariado".
A principal forma de controle dos ideais comunistas nas sociedades
capitalistas — ou em processo de desenvolvimento — foi a perseguição ao
principal “meio” de condução ao socialismo, ou mais propriamente, ao partido
revolucionário, materializado, em muitos casos, no Partido Comunista.
Em diferentes países, o Partido Comunista representou um perigo
iminente pelo fato de pregar uma revolução via tomada do Estado e por estar
vinculado ao Partido Comunista Soviético. Os PCs latino-americanos tiveram
resultados inexpressíveis em suas ações de cunho revolucionário devido a
fatores como a forte repressão do Estado e a falta de uma concepção teórica
melhor elaborada para a condução da Revolução no Terceiro Mundo.
No Brasil, um dos grandes referenciais da esquerda durante o século
XX foi o desenvolvimento econômico do país e o processo de urbanização da
sociedade com todos os valores adotados nesse desenvolvimento. A
formação de uma consciência de classe, procurada no proletariado brasileiro,
dependeu estreitamente dos rumos tomados por esse desenvolvimento e dos
valores adotados pelo Estado no processo de modernização da sociedade.
Além disso, o proletariado brasileiro nunca conheceu uma configuração
social, política e econômica em que se pudesse enxergar uma “situação
revolucionária”, uma convulsão social como a encontrada por Lênin na
Rússia de 1917 e que pudesse caracterizar o movimento revolucionário.
A periodização precisa da industrialização brasileira constitui-se em
tema de debate entre os historiadores. Porém, um fato que se sobressai é o
direcionamento e o maior investimento, por parte do Estado, na
modernização das atividades industriais depois da década de 30. Com o
declínio da economia cafeeira e a existência prévia de toda uma infra-
estrutura urbana — na qual funcionavam algumas atividades industriais —
tornou-se viável tanto para o capital nacional, quanto para o internacional, o
investimento em um mercado industrial em expansão.
Em um período de meio século, o Brasil sofreu um “boom” industrial,
as indústrias de bens de consumo e, posteriormente, de bens de produção
se disseminaram. As cidades cresceram vertiginosamente, populações de
áreas atrasadas economicamente foram atraídas para os grandes centros
urbanos, seduzidas pelas oportunidades de emprego nas indústrias ou no
setor de serviços, que acompanhava o crescimento industrial. As atividades
se diversificaram: produção e comércio de peças automobilísticas,
construção de hidrelétricas, limpeza de ruas, carregamento de cargas,
ensino, eletrificação de cidades, construção de estradas e prédios, entre
tantas outras. As oportunidades de trabalho passaram a ser inúmeras, muito
diferente do que foi o número restrito de ocupações proporcionado pela
economia cafeeira do início do século.
Essas transformações contribuíram para a formação de um público
urbano cada vez mais complexo. E, com esse público, a ditadura militar
posterior a 1964 criou as condições para a formação de símbolos e valores
que tornaram possíveis, a partir da segunda metade da década de 1970, a
existência dos movimentos sociais contra a própria ordem social mantida
pelos militares.
O recrudescimento do autoritarismo a partir do golpe militar de 1964
pode ser relacionado a uma marcante atuação do Estado brasileiro, que
desde a década de 30 determinou um sentido para o desenvolvimento da
sociedade e a construção de um cabedal de valores para esse
desenvolvimento. Isso influiu diretamente na constituição de uma “esfera
pública” para o conjunto dos grupos sociais que se desenvolveu durante o
processo de industrialização da sociedade brasileira.
Essa esfera pública ganhou características peculiares sob o regime
militar pela condução autoritária das relações sociais pela via dos Atos
Institucionais, os quais intensificaram a repressão, e pelas medidas
econômicas adotadas que, progressivamente, influenciaram diretamente a
vida de grande parte da população, contribuindo sobremaneira para a
formação de uma resistência ao regime e aos valores adotados pelos
militares.
O surgimento dos movimentos sociais no final da década de 1970,
reivindicando direitos sociais, coadunaram-se com a dificuldade de
manutenção da política adotada pelos militares devido aos insucessos das
políticas econômicas que atingiram diretamente grande parte da população
brasileira. A partir disso, podemos caracterizar o segundo momento do
processo de modernização da sociedade em que tornou-se relevante o papel
da abertura da esfera política para a participação das massas.
Aqui encaixa-se uma constatação que Jürgen Habermas fez para a
Sociedade Européia:

“A esfera pública burguesa surgiu historicamente no contexto de uma


sociedade separada do Estado: o ‘social’ podia constituir-se numa esfera própria
à medida que a reprodução da vida assumia, por um lado, formas privadas, mas,
por outro, como setor privado em seu conjunto, passou a ter relevância pública.
As leis gerais do intercâmbio das pessoas privadas entre si tornaram -se agora
uma questão pública. Na discussão que as pessoas privadas logo passaram a
ter em torno dessa questão com o poder público, a esfera pública burguesa
chegou à sua função política: as pessoas privadas reunidas num público
transformaram publicamente em tema a sanção da sociedade como uma esfera
privada. Ora, porém, pela metade do século XIX, era de se prever que essa
esfera pública, devido à sua própria dialética, passaria a ser ocupada por grupos
que, por não disporem de propriedade e, com isso, de uma base para a
autonomia privada, não poderiam ter nenhum interesse na manutenção da
sociedade como esfera privada. Se eles, como um público ampliado, avançam,
no lugar do burguês, no sentido de se tornarem sujeitos da esfera pública, a
20
estrutura desta terá de se alterar a partir de sua base (...)”

Obedecendo a contextos históricos distintos — a Europa do século


passado e o Brasil do final da década de 1970 — e aos agentes da esfera
pública — no primeiro caso, a burguesia e, no segundo caso, a instituição
militar — o fenômeno de ascensão das massas à esfera pública foi
semelhante, com a existência de contestação aos valores hegemônicos da
sociedade. Entretanto, deve-se guardar as devidas distâncias, afinal não

20
HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública: investigações quanto a uma
categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. p. 152 e 153.
podemos descartar a importância e a influência de um 1848 na França, do
modelo de socialismo do século XX e dos movimentos de contestação de
1968 para a história do movimento operário e dos movimentos de resistência
no Brasil.
A partir do final da década de 70, na esfera pública — que começou a
ser erigida desde a década de 30 através da intervenção do Estado nas
relações sociais — iniciou-se um progressivo processo de fragmentação. Nas
ruas, nas manifestações contrárias ao governo militar, iniciou-se o principal
embate aos valores defendidos e impostos pelos militares.
Um fato histórico era incontestável: a sociedade brasileira sofrera
transformações nunca dantes verificadas. As transformações sociais
colocavam em cheque a legitimidade da esfera política, a repressão violenta
acirrava os ânimos de uma massa de trabalhadores descontentes com a
situação em que viviam, o que podia comprometer a manutenção da ordem.
As massas vieram a público para contestar os valores impostos pelos
militares e, de certa forma, conquistaram um espaço na esfera pública da
sociedade, contribuindo para que a mesma se transformasse para atendê-
las.
Dessa forma, torna-se digna de nota a constatação de Eder Sader:

“Os movimentos sociais que adentraram no cenário público (e o


modificaram) no findar da década passada [70] trouxeram novas modalidades de
elaboração das condições de vida das classes populares e de expressão social.
Suas características comuns nos permite falar de uma nova
configuração de classe. Ou seja: um outro tipo de representação das condições
de classe, que ressalta quando o contrastamos com o tipo predominante antes
de 1964.
(...)
Eles mostravam que havia recantos da realidade não recobertos pelos
discursos instituídos e não iluminados nos cenários estabelecidos da vida
pública. constituíram um espaço público além do sistema da representação
21
política.”

As fraquezas do regime militar estavam expostas, as massas


expressavam sua insatisfação com a sociedade da qual emergiram. Foi

21
SADER, Eder. Quando os Novos Personagens Entraram em Cena: experiência, falas e lutas dos
trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p.311 e 314.
nesse período que se deu um outro fenômeno impossível de se conceber em
outro momento da história brasileira: a formação de um partido dos
trabalhadores. Esse foi concebido a partir da realidade dos trabalhadores,
imanado de suas necessidades e lutas, um partido “dos” trabalhadores e não
“para” trabalhadores.
Entretanto, essas proposições — como a criação de um partido dos
trabalhadores — obedeceram a combinação de alguma s condições como a
concessão dos militares com o processo de democratização da sociedade e
a pressão popular, baseada em necessidades materiais, para reforma da
sociedade.
O surgimento do Partido dos Trabalhadores estabeleceu uma nova
forma de ação por parte da esquerda, passando a encontrar nos movimentos
sociais vinculados aos trabalhadores a principal fonte de sustentação do
Partido:

“A idéia do Partido dos Trabalhadores surgiu com o avanço e o


fortalecimento desse novo e amplo movimento social que, hoje, se estende, das
fábricas aos bairros, dos sindicatos às Comunidades Eclesiais de Base; dos
Movimentos contra a Carestia às Associações de Moradores; do Movimento
Estudantil e de intelectuais às Associações Profissionais; do Movimento dos
Negros ao Movimento das Mulheres, e ainda outros, como os que lutam pelos
direitos das populações indígenas.
Surgiu, portanto, como uma necessidade de:
• Criar um efetivo canal de expressão política e partidária dos
trabalhadores das cidades e dos campos e de todos os setores explorados pelo
capitalismo;
• Construir uma organização política dos militantes dos variados
movimentos sociais que são freqüentemente fragmentados pelas suas próprias
diferenças internas e por uma luta reivindicatória que nem sempre alcança a
expressão política de que são capazes;
• e finalmente, se conquistar a política como uma atividade própria das
massas populares que desejam participar, legal e legitimamente, de toda as
esferas de poder na sociedade, não apenas nos momentos das disputas
eleitorais, mas também e principalmente nos momentos que permitem, a partir
de sua prática no dia a dia, a construção de uma nova concepção de
democracia, com raízes nas bases da sociedade e sustentada pelas decisões
22
das maiorias.”

22
Documento “Sobre o Partido dos Trabalhadores” (Documento Oficial do Partido – 1979)
Foi nas estruturas desses movimentos sociais, em São Paulo e no Rio
de Janeiro, que o Partido encontrou, num primeiro momento, seus pilares de
sustentação: o sindicato e a Igreja Católica.
As greves de 1979 tiveram grande importância no cenário social do
país, pois, fizeram com que novamente uma instituição, o sindicato, voltasse
a exercer suas atividades combativas, uma vez que, anteriormente, por estar
atrelado ao Estado, assumira um papel passivo com relação à situação dos
trabalhadores.
O papel dos sindicatos aos poucos se transformou, passando a atuar
mais de perto nas manifestações e insatisfações dos trabalhadores,
invertendo a antiga relação dos sindicatos com o Estado remanescente do
Governo de Getúlio Vargas. Os sindicatos passaram a ter atribuições que
não exerciam antes e o movimento operário dava sinais de mobilização.
Sinais de descontentamento dos trabalhadores com o regime social se
irradiavam por toda a sociedade. O sindicato foi a instituição, por estar de
certa forma estruturada e próxima aos trabalhadores, que primeiramente se
destacou como representante de seus interesses.
A Igreja Católica rompeu com a resistência aos assuntos políticos,
assumindo um discurso a favor dos pobres, oprimidos e marginalizados da
sociedade. Era a “Teologia da Libertação” e sua luta contra as injustiças
sociais. As CEBs — Comunidades Eclesiais de Base — tiveram importante
atuação frente às comunidades carentes na luta por melhores condições de
vida23, fornecendo posteriormente a estrutura para os Núcleos de Base do
PT, que seriam a grande peculiaridade em relação aos outros partidos.
Grande parte do restante da esquerda24 — PCB, PC do B, MR8 —
encontrou no (P)MDB o abrigo legal para sua atuação política e manteve sua
posição em relação à inversão da ordem social capitalista.

23
As Comunidades Ecles iais de Base foram responsáveis pela organização de outros movimentos
como os movimentos de bairros, movimentos por saúde pública, movimentos de mães, etc. Para
esses movimentos conferir: SADER, Eder. Op. Cit.
24
Parte desta esquerda, dissidentes do PCB, PC do B, antigos integrantes de grupos de
resistência armada, membros sem agremiação política; também ingressaram no PT, formando
juntamente com os sindicalistas, e os militantes católicos a principal base de estruturação do
partido.
Com o PT, essa relação entre partido e massas se inverte, pois, como
veremos no próximo capítulo, esse Partido rompe com o discurso
vanguardista, propondo a democracia partidária e o compromisso com os
interesses dos trabalhadores.
Questionamo -nos, então, a respeito de quais seriam esses interesses.
Desde Lenin, na concepção da esquerda revolucionária, o principal interesse
dos trabalhadores — ou aquele que não poderia ser esquecido por vitórias
circunstanciais — era atingir o reino da felicidade humana na sociedade
comunista. Mas, esse interesse era determinado alheiamente à vontade do
trabalhador, partindo-se do pressuposto de que esse trabalhador concordava
com a existência desse interesse e de que a razão de sua vida era satisfazer
esse interesse.
Com o surgimento do PT, “teoricamente” inverteu-se essa relação: os
interesses do Partido teriam passado a ser os interesses dos trabalhadores,
não fórmulas prontas e acabadas, ou teleologias para a ação do Partido,
mas, poderiam existir se assim os trabalhadores desejassem:

“... Eu acho que o que vai selecionar ainda mais as pessoas é o próprio
programa. E o programa do PT não tem rótulo nenhum. Eu acredito que é um
desejo da grande maioria dos trabalhadores, que ele não venha com rótulos de
PS, de PC, ou de coisa parecida. Mas que venha com propostas socializantes
eu acho fundamental. Agora, o programa final só existirá a partir do momento
que os trabalhadores o fizerem ... As propostas dele [PT] são anti-capitalistas. É
um partido democrático. Ele só tem razão de ser se tiver no seu bojo a
permissão para a discussão, para que as pessoas militantes do partido dêem a
sua opinião. Eu acho que é um partido que propõe uma forma socializante das
coisas. Mas quem vai decidir a forma de socialização é a classe trabalhadora.
Não sou eu.”25

O PT rompeu com o discurso revolucionário da esquerda e o mais


importante — para este trabalho — foi que o PT não deixou de ser um
partido socialista:

“O PT nasce numa conjuntura em que a democracia aparece como uma


das grandes questões da sociedade brasileira. Para o PT a luta democrática
concreta de hoje é a de garantir o direito à livre organização dos trabalhadores

25 o
Entrevista de Luís nácio
I da Silva (Lula) em julho de 1979. In: Jornal O Companheiro. Ano 1, n .
07, de 4 à 15 de julho de 1979. p. 05.
em todos os níveis. Portanto, a democracia que os trabalhadores propõem tem
valor permanente, é aquela que não admite a exploração econômica e a
marginalização política dos muitos milhões de brasileiros que constróem a
riqueza do país com o seu trabalho. A luta do PT contra o regime opressivo deve
construir uma alternativa de poder econômico e político, desmantelando a
máquina repressiva e garantindo as mais amplas liberdades para os
trabalhadores e o povo. Uma alternativa de poder para os trabalhadores e
oprimidos que se apoie na mobilização e organização do movimento popular e
que seja a expressão de seu direito e vontade de decidir os destinos do país.
Um poder que avance nos rumos de uma sociedade sem exploradores e
explorados. Na construção dessa sociedade, os trabalhadores brasileiros têm
claro que essa luta se dá contra os interesses do grande capital nacional e
26
internacional.”

O socialismo do PT seria feito pelos trabalhadores, mas indagamo-


nos sobre quais seriam esses trabalhadores. Certamente não seriam os
mesmos encontrados por Lênin na Rússia:

“A grande imprensa tenta desvirtuar o PT dizendo que ele é estreito.


Que ele é obreirista. No PT estão os que são explorados, todos os que se
sentem trabalhadores, os que não exploram os outros. Não é o PT que diz
fulano entra ou fulano sai. Os intelectuais também são trabalhadores. O
bioquímico é trabalhador, os intelectuais estão ai mendigando emprego;
professor é trabalhador e o médico também. Mas tem médico que não quer se
sentir trabalhador, tem intelectual trabalhador que não se reconhece como
trabalhador. Então não apoiam o PT, não entram nele, eles mesmos se
27
restringem.”

Estavam dados os elementos do problema, ou seja, um socialismo


democrático feito pelos trabalhadores em uma Sociedade de Massas. Essa
proposta de socialismo e a posterior hegemonia do PT no âmbito da
esquerda brasileira representaram uma nova configuração política da
esquerda brasileira. Parte desta história, ou mais precisamente, “a história do
socialismo democrático nos documentos do Partido dos Trabalhadores”, foi o
nosso objeto de pesquisa que será apresentado nos próximos capítulos
desse trabalho.

26
Programa do Partido dos Trabalhadores.
27 o
Entrevista de Luís Inácio da Silva em agosto de 1979. In: Jornal O Companheiro. Ano 1, n. 11,
de 29/08 à 11/09 de 1979. p. 07.
2. A HISTÓRIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO
DOS TRABALHADORES — A FUNDAÇÃO (1979–1983)

Os acontecimentos históricos não possuem data e nem hora para


ocorrerem, mas, necessitam de determinadas condições históricas para
existirem. Assim, ocorreu com o Partido dos Trabalhadores.
Importantes transformações aconteceram na sociedade brasileira no
final da década de 70, provando, com isso, que os militares não possuíam
uma legitimidade inabalável mantida pelo uso abusivo da força. A sociedade
apresentava sinais de insatisfação com a ordem vigente, sendo que
manifestações contrárias à política imposta pelos militares se faziam ouvir.
As massas populares arcaram com o maior ônus do progresso imposto pelo
Estado Militar, sendo que a política econômica corroía os salários da maioria
da população. Aliado a isso, tínhamos as péssimas condições de vida nos
grandes centros, além da repressão sofrida pelos trabalhadores. Foi
exatamente no poder que poderia imanar deste possível “agente coletivo” —
as massas populares — que o Partido, desde a sua fundação28, norteou a
sua ação política.
As manifestações que eclodiram no final da década de 70 tinham um
caráter reivindicativo, visando, em última instância, concessões do governo.
Esse foi o sentido do Movimento contra a Carestia, dos Movimentos de
Bairros — de Mães, de Saúde, etc.)29, do “Novo” Movimento Sindical. Todas
as insatisfações dos movimentos sociais dirigiam-se para um único centro, as

28
“Mudou muito o cenário político do nosso povo nos últimos anos. Outrora se acreditava que só
os partidos e os grupos políticos eram capazes de centralizar a organização do movimento
popular. Hoje, porém, reconhecemos que os melhores frutos são aqueles que , como o nosso
partido, têm suas raízes firmadas nas múltiplas formas de organização existentes no campo, nos
bairros, nas periferias, nos centros de trabalho e de estudos, nos setores que têm interesses
específicos a defender, como as mulheres e os negros. Graças ao movimento popular, o
movimento sindical teve maior expressão nos últimos anos. Enganam-se os que pensam que só
nas fábricas se apoia o sindicalismo brasileiro. No bairro da cidade ou no local de moradia da roça,
os trabalhadores têm mais liberdade para se encontrar, para se reunir, para se organizar e levar
adiante suas lutas sindicais, com a participação de suas esposa, de seus filhos e de seus
vizinhos. Graças a essa extensa rede de movimentos populares é que o PT se afirma como
expressão política que nasce de baixo para cima.” In: Discurso (de Luís Inácio da Silva) na
Primeira Convenção Nacional do PT (1981).
29
O sucesso destas manifestações pode ser aferido através da popularidade de muitos lideres de
bairros , como e exemplo de Irma Passoni, que se elegeu deputada estadual no período destas
manifestações. Conferir: SADER, Eder. Op. Cit.
instituições políticas controladas pelos militares. A ditadura militar
representava um centro de referência comum e a maneira de interagir com
ela necessariamente passava pelo campo da política. As mais variadas
reivindicações de cunho material acabavam tendo um caráter político, um
endereçamento estabelecido 30.
Um dado marcante que perpassa a maioria dos documentos da
fundação do PT é a referência ao inimigo objetivo representado pela ditadura
militar, que sempre se prefigura como representante dos interesses do
capital contra os interesses dos trabalhadores:

“Com a evidente exaustão de amplos setores sociais com o regime


vigente no país, e com a crise econômica que abalou a estabilidade dos grupos
dominantes que controlam o aparelho de Estado, os detentores do poder
procuram agora, e até este momento com relativo êxito, reformar o regime de
cima para baixo. Vale dizer, pretendem reformar alguns aspectos do regime
mantendo o controle do Estado, a fim de evitar alterações no modelo de
desenvolvimento econômico que só a eles interessa e que se baseia sobretudo
na super-exploração das massas trabalhadoras, através do modelo econômico
de onde sobressai o arrocho salarial.
Já está demais evidente que o novo regime militar pretende manter a
continuidade dessa mesma política econômica ditada pelo capital financeiro
internacional, agravada agora pelos planos de austeridade e recessão que já
esboçam. Isso significa que o sofrimento, a miséria material e a opressão
31
política sobre a população trabalhadora tenderão a se manter e aprofundar.”

Foi em relação ao que representava a ditadura militar que o Partido


dos Trabalhadores começou a se estruturar, ao mesmo tempo em que
tentava canalizar as insatisfações dos movimentos sociais, como o
movimento sindicalista, o movimento negro, o movimento feminista, o
movimento grevista, os movimentos de bairro, as ações da Igreja Católica
contra a repressão, o movimento estudantil, a resistência rural no campo, etc.

30
“Foi com o desenvolvimento dessas lutas que surgiu a proposta do PT, pois tendo de enfrentar o
peso brutal da concentração de poder do Estado, que se voltou abertamente contra os seus mais
legítimos interesses, tornou-se claro para os trabalhadores que só a sua luta econômica, ainda que
muito importante, é insuficiente para garantir as aspirações de melhoria de vida para a maioria do
povo brasileiro (...) Provocando uma série de confrontos com os legítimos instrumentos de luta dos
trabalhadores, como no caso das intervenções sindicais, a ação repressiva do Estado provocou o
impasse e levou a que grandes massas de trabalhadores percebessem a necessidade de intervir
organizadamente na sociedade, em condições próprias e com um projeto político próprio.” In:
Documento “Sobre o Partido dos Trabalhadores”.
31
Carta de Princípios do Partido dos Trabalhadores (1979).
O poder instituído representou um “inimigo objetivo” e, a partir daí,
teceu-se as estratégias políticas do Partido. Ou seja, se o Estado não
fornecesse as condições básicas para os filhos dos trabalhadores estudarem,
o Partido lutaria pela educação da classe trabalhadora; se o Estado
promovesse uma política econômica contrária aos interesses dos
trabalhadores, o Partido lutaria contra essa política econômica; se o Estado
reprimisse as greves dos trabalhadores, o Partido criticaria a polícia do
governo.
E, assim, foi-se estruturando o discurso do Partido:

“Após prolongada e dura resistência democrática, a grande novidade


conhecida pela sociedade brasileira é a mobilização dos trabalhadores para lutar
por melhores condições de vida para a população das cidades e dos campos. O
avanço das lutas populares permitiu que os operários industriais, assalariados
do comércio e dos serviços, funcionários públicos, moradores da periferia,
trabalhadores autônomos, camponeses, trabalhadores rurais, mulheres, negros,
estudantes, índios e outros setores explorados pudessem se organizar para
defender os seus direitos, para exigir melhores salários, melhores condições de
trabalho, para reclamar o atendimento dos serviços básicos nos bairros e para
comprovar a união de que são capazes.
Estas lutas levaram ao enfrentamento dos mecanismos de repressão
imposta aos trabalhadores, em particular o arrocho salarial e a proibição do
direito de greve. Mas, tendo de enfrentar um regime organizado para afastar o
trabalhador do centro de decisão política, começou a tornar-se cada vez mais
claro para os movimentos populares que as suas lutas imediatas e específicas
não bastam para garantir a conquista dos direitos e dos interesses do povo
trabalhador.
Para isto, surgiu a proposta do Partido dos Trabalhadores. O PT nasce
da decisão dos explorados de lutar contra um sistema econômico e político que
não pode resolver o seus problemas, pois só existe para beneficiar uma minoria
de privilegiados.” 32

2.1. O valor da Democracia e o Socialismo Democrático

O sentido de democracia, no final da década de 70 e no decorrer dos


anos 80, ganhou um sentido profundo, vinculando-se aos oprimidos do
regime. Era democraticamente que se decidia pelo início ou fim de uma
greve e que os movimentos de bairros decidiam fazer uma passeata, por
exemplo, até a Secretaria de Saúde para reivindicar um Posto de Saúde, ou
para pedir melhorias, tais como: linha de ônibus, água, energia elétrica,
esgoto, policiamento, etc.
A origem do PT foi extremamente marcada por este sentimento de
democracia, por liberdades e direitos que estavam sendo suprimidos, por
valores democráticos que criavam uma identificação natural entre a grande
massa, na sua maioria, trabalhadora. O PT nasceu comprometido com os
trabalhadores e, conseqüentemente, com a democracia:

“O PT afirma seu compromisso com a democracia plena exercida


diretamente pelas massas pois não há socialismo sem democracia, e nem
democracia sem socialismo.
Um partido que almeja uma sociedade socialista e democrática, tem que
ser ele próprio democrático nas relações que se estabelecem em seu interior.
Assim, o PT se constituirá respeitando o direito das minorias de expressarem
seus pontos de vista. Respeitará o direito à fração às tendências, ressalvando
33
apenas que as inscrições serão individuais.”

Isso não poderia ser diferente, pois, um partido que no final da década
de 70 se posicionasse como representante dos interesses dos trabalhadores
teria necessariamente que estar comprometido com a democracia, devido às
próprias experiências dos movimentos populares e ao processo contrário que
existia no poder, em que as decisões eram tomadas por uma minoria militar
em detrimento da grande maioria da população.
No entanto, a democracia defendida pelo Partido, ao mesmo tempo
em que se tornou a principal “arma” contra a ditadura militar, transformou-se
em uma de suas principais peculiaridades, pelo fato de condicionar o
socialismo — defendido desde os primeiros documentos de fundação — à
democracia34. Isto porque todas as experiências que se constituíram em uma

32
Manifesto do Partido dos Trabalhadores (1980).
33
Carta de Princípios do Partido dos Trabalhadores.
34
“O PT entende também que, se o regime autoritário for substituído por uma democracia formal e
parlamentar, fruto de um acordo entre elites dominantes que exclua a participação organizada do
povo (como se deu entre 1945 e 1964), tal regime nascerá débil e descomprometido com a
resolução dos problemas que afligem o nosso povo, e pronto será derrubado e substituído por
novas formas autoritárias de dominação – tão comuns na história brasileira. Por isso, o PT
proclama que a única força capaz de ser fiadora de uma democracia efetivamente estável são as
massas exploradas do campo e das cidades.
O PT entende, por outro lado, que sua existência responde à necessidade que os trabalhadores
sentem de um partido que se construa intimamente ligado com o processo de organização popular,
nos locais de trabalho e de moradia. Nesse sentido, o PT proclama que sua participação em
ordem social planificada e socialista experimentaram formas de governo
autoritário. Mesmo tendo a democracia como principal bandeira do período
revolucionário, essa foi abolida após a Revolução e, na maioria das vezes,
em nome da própria Revolução.
Até certo ponto, a proposta de um socialismo amparado pela
democracia não representava uma concepção inédita de via ao socialismo.
Isto porque a via social democrata representava um caminho ao socialismo
que tinha na democracia emanada das instituições representativas
democráticas da sociedade capitalista um caminho legal para a instituição
das transformações socialistas35. Uma experiência histórica — das poucas
que aconteceram — que tentou colocar em prática essas concepções
socialistas ocorreu no Chile na década de 70, quando a implantação de um
regime socialista foi tentada pela via das instituições políticas capitalistas. No
entanto, tal experiência foi sufocada por um golpe militar.
O PT nasceu de oposição, contrário à ordem estabelecida. Assim,
temos um raciocínio lógico: quando se é contrario a alguma coisa
pressupõe-se a existência de um contraponto. Ou seja, um partido que se diz
representante dos interesses dos trabalhadores necessariamente será um
partido contra os interesses capitalistas36. Mas, para ser contra um “inimigo”,

eleições e suas atividades parlamentares se subordinarão a seu objetivo maior que é o de


estimular e aprofundar a organização das massas exploradas.” bidem.
35
A social democracia concebia a revolução da sociedade via reformas progressivas e legais da
sociedade como meio de atingir o socialismo. Os primeiros sucessos eleitorais da social
democracia colocava a arma eleitoral como uma das principais para a conquista do socialismo.
Esse posicionamento gerou alguns desentendimentos com outras correntes de esquerda que não
acreditavam ser possível revolucionar o capitalismo com armas fornecidas pelo próprio
capitalismo. A decisão dos partidos social-democratas de participar da via eleitoral ocorreu em
sociedades capitalistas num processo de industrialização avançado, em que a classe trabalhadora
era composta por indivíduos de um grande número de atividades produtivas do trabalhado, o
operariado – muitas vezes confundido com a classe trabalhadora –, aquele relacionado
diretamente a linha de produção, ocupava somente um parcela, relativamente, pequena no
conjunto da classe trabalhadora. A grande questão enfrentada pelos partidos social -democratas –
solução esta que condicionava o sucesso do socialismo – era criar uma consciência na classe
trabalhadora e fazer desta a grande “massa” de eleitores do partido. Entretanto, nesta expectativa
de conseguir um todo orgânico da classe trabalhadora, os partidos social democratas não
obtiveram sucessos, e coadunaram-se com a característica da Sociedade de Massas em
fragmentar os indivíduos e valores, criando o mito da participação eleitoral. Diluíram o operariado,
em particular, e a classe trabalhadora, em geral, na grande “massa” dos eleitores, transformando-
se em um partido de massas, a única forma de ser majoritário nas eleições.
36
“O Movimento pelo Partido dos Trabalhadores não deseja, portanto, apenas propor soluções
provisórias e imediatas às massas trabalhadoras, mas, antes, criar as condições para uma luta de
médio e largo prazo pela democratização real da sociedade e não apenas das atuais instituições
políticas. O PT luta para que todo o poder econômico e político venha a ser exercido diretamente
necessita-se de uma arma para enfrentá-lo que seja capaz de provocar
“baixas”, “avarias” nesse inimigo. O principal modelo colocado em prática
contra a ordem social capitalista no século XX tinha como ponto em comum o
processo de ruptura respaldado em algum grau de violência — Revolução
Russa, Revolução Chinesa e Revolução Cubana. Entretanto, como o PT
renunciou à alternativa violenta — entendendo a ruptura com a ordem
capitalista como um sucesso a ser alcançado — ficou a pergunta sobre como
enfrentar o “inimigo” sem a principal “arma histórica” contra ele.

“Nós, do PT, sabemos que o mundo caminha para o socialismo. Os


trabalhadores que tomaram a iniciativa histórica de propor a criação do PT já
sabiam disto antes de terem sequer a idéia da necessidade do partido. E por
isso sabemos também que é falso dizer que os trabalhadores, em sua
espontaneidade, não são capazes de passar ao plano da luta dos partidos,
devendo limitar-se às simples reivindicações econômicas. Do mesmo modo,
sabemos que é falso dizer que os trabalhadores brasileiros, deixados à sua
própria sorte, se desviarão do rumo de uma sociedade justa, livre e igualitária.
Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por isso
sentimos na própria carne, e queremos, com todas as forças, uma sociedade
que, como diz o nosso programa, terá que ser uma sociedade sem explorados e
37
exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista?”

Sobre como construir essa sociedade socialista, continuou o


documento:

“Sabemos que caminhamos para o socialismo, para o tipo de socialismo


que nos convêm. Sabemos que não nos convêm nem está em nosso horizonte
adotar a idéia do socialismo para buscar medidas paliativas aos males sociais
causados pelo capitalismo ou para gerenciar as crises em que este sistema
econômico se encontra. Sabemos também que não nos convêm adotar como
perspectiva um socialismo burocrático que atende às novas castas de
tecnocratas e de privilegiados que os trabalhadores e ao povo (...) O socialismo
que nós queremos se definirá por todo o povo, como exigência concreta das
lutas populares, como resposta política e econômica global a todas as
aspirações concretas que o PT seja capaz de enfrentar (...) O socialismo que
nós queremos irá se definindo nas lutas do dia-a-dia, do mesmo modo como
estamos construindo o PT. O socialismo que nós queremos terá que ser a
emancipação dos trabalhadores. E a libertação dos trabalhadores será obra dos
38
próprios trabalhadores.”

pelos trabalhadores. Única maneira de por fim à exploração e à opressão.” In: Documento sobre o
Partido dos Trabalhadores.
37
Discurso na Primeira Convenção do Partido dos Trabalhadores.
38
Ibidem.
O socialismo defendido pelo Partido tinha um caráter inédito, pois, não
se respaldava em qualquer concepção que não tivesse a própria democracia
emanada dos trabalhadores como sustentação, mantendo uma
independência de outros partidos e de outras concepções socialistas:

“Mas o problema não é apenas este. Não basta a alguém dizer que quer
o socialismo. A grande pergunta é: qual socialismo? Estamos por ocaso
obrigados a rezar pela cartilha do primeiro teórico socialista que nos bate à
porta? Estamos por acaso obrigados a seguir este ou aquele modelo, adotado
neste ou naquele país? Nós do Partido dos Trabalhadores, queremos manter as
melhores relações de amizade com todos os partidos que, no mundo, lutam pela
democracia e pelo socialismo. Este tem sido o critério de independência política,
plenamente compreendido em todos os países por onde andamos, o que
devemos aqui declarar em respeito à verdade e como homenagem a todos os
partidos amigos. Vamos continuar, com inteira independência, resolvendo os
39
nossos problemas à nossa maneira.”

A defesa da democracia e a desvinculação dessa democracia de


qualquer forma de opressão vinha de encontro às próprias lutas do Partido
amparadas no movimento social. Um partido que assumiu a luta dos
trabalhadores como sua bandeira política não poderia usar as mesmas
armas do “inimigo”, a ditadura militar, ou submeter a vontade coletiva dos
trabalhadores aos “desígnios iluminados” de uma vanguarda.
No movimento social, o Partido encontrava sua principal força política,
as ações deste eram determinadas pelas bandeiras de luta daquele. A luta
inconteste pela democracia fornecia o elo comum encontrado pelo Partido
para as várias lutas do movimento social. Isso talvez explique a ressalva com
que o Partido via certos posicionamentos que defendiam o controle das
massas para conquista do socialismo. Os posicionamentos que podemos
denominar como “radicais” — marxista-leninistas, que pregavam uma ruptura
violenta com a ordem social capitalista — foram atenuados desde os
primeiros documentos do Partido:

“(...) Preocupa-nos, entretanto, se um militante veste, por baixo de


nossa camisa, outra camisa. Nunca pedimos nem pediremos atestado ideológico
a ninguém. Interessa-nos que companheiros não queiram fazer de nosso partido
massa de manobra de suas propostas. Não aceitaremos jamais que os

39
Ibidem.
interesses dessas tendências se sobreponham , dentro do PT, aos interesses do
partido. Denunciaremos, quantas vezes for preciso (...) o politicismo que de cima
para baixo quer impor seu dialeto ideológico aos nosso militantes, como se
discurso revolucionário fosse sinônimo de prática revolucionária; o colonialismo
daqueles que se autodenominam vanguarda do proletariado sem que os
trabalhadores se quer os conheçam; o esquerdismo, que exige do partido
declaração e posições que não se coadunam a seu caráter legal e a sua
natureza popular (...) o oportunismo dos que só põem um pé dentro do PT e
mantêm o outro pronto a correr quando sentem que suas intenções não são
40
aceitas pelos trabalhadores.”

Em toda a história do PT, essa esquerda considerada “radical” teve


participação por ser esse um partido de esquerda, democrático e socialista.
Muitos confluíram para o PT desiludidos com seus antigos partidos, ou por
ver no PT um campo maior de ação. Devemos lembrar que grande parte do
PCB — até a sua legalização — do PC do B e do MR 8 continuaram sua
ação política no interior do (P)MDB, Partido este que congregava outras
correntes consideradas “burguesas”41 e que, dentro do PT, esses militantes
formaram grupos ou mesmo partidos dentro do Partido. No período de
legalização do PT, de 79 a 82, esses militantes encontraram obstáculos para
o acesso a postos diretivos dentro desse Partido. Consta do Arquivo do
DEOPS um relatório policial que teve como preocupação analisar a influência
de duas organizações revolucionárias dentro do PT:

“A 27 de Março 81, houve uma reunião do CL (Comitê de Ligação), em


cuja ata se verifica que, para a OSI e a CS, ‘a tarefa de construção do PARTIDO
DOS TRABALHADORES se encontra no centro das atividades de ambas as
organizações, e deve ter seu desdobramento, também, na universidade’.
Observa-se ainda, que a idéia das organizações é de construir, dentro das
universidades, núcleos próprios voltados para o ‘sindicalismo estudantil’,
paralelamente a núcleos do PT, em que uma ‘tendência’ atuaria, sem interferir
com os outros agrupamentos (...) Outros dados disponíveis permitem levantar as
seguintes hipóteses, avaliadas como prováveis: (...) Tanto a OSI quanto a CS
estariam tentando obter o controle em diversos níveis, dos organismos de
direção do PT, no que estariam sendo obstados pelo que denominam de

40
Ibidem.
41
“O MDB, pela sua origem, pela sua ineficácia histórica, pelo caráter de sua direção, por seu
programa pró-capitalista, mas sobretudo pela sua composição social essencialmente contraditória,
onde se congregam industriais e operários, fazendeiros e peões, comerciantes e comerciários,
enfim, classes sociais cujos interesses são incompatíveis, e onde logicamente prevalecem em toda
a linha os interesses dos patrões, jamais poderá ser reformado. A proposta que levantam algumas
lideranças populares de ‘tomar de assalto’ o MDB é muito mais que insensata; é fruto de uma
velha e trágica ilusão quanto ao caráter democrático de setores de nossas classes dominantes.” In:
Carta de Princípios do Partido dos Trabalhadores.
‘burocracia dirigente’ do partido, que não estariam dispostas a permitir o domínio
42
de postos chaves por elementos radicais.”

Nenhum dos documentos de fundação do PT que analisamos


esclareceu como seria a sociedade socialista “vislumbrada pelos
trabalhadores”, em que o socialismo seria a meta e o sentido da existência
do Partido. Sempre foi colocada para as massas trabalhadoras, em sua luta
contra a opressão do capital, a questão de decidirem democraticamente o
tipo de sociedade que desejavam.
Cabe aqui mais uma relação com outras experiências históricas de
ruptura socialista. Como já dissemos no capítulo anterior, as experiências
socialistas da Revolução Russa, da Revolução Chinesa e da Revolução
Cubana possuíram algumas condicionantes particulares. Para alcançarem o
momento de ruptura com a antiga ordem em questão, todas contaram com
uma situação revolucionária e com uma grande coesão de um público de
trabalhadores. No caso do Brasil, por mais que a situação da classe
trabalhadora do final da década 70 em diante fosse considerada difícil, não
existia uma situação revolucionária. Havia insatisfação de grandes
contigentes da população que se materializavam em movimentos de
contestação à ordem social mantida pelos militares, mas, em sua essência,
não tinham no socialismo sua principal bandeira. Tais movimentos sociais
lutavam mais por reformas da sociedade do que por uma ruptura com toda a
sociedade, tanto que o regime militar durante todo o tempo controlou a
transição democrática.
A Revolução Russa contou com a coesão dos camponeses; a
Revolução Chinesa com a coesão das comunas camponesas; a guerrilha
responsável pela Revolução Cubana contou com a coesão dos trabalhadores
urbanos e rurais identificados na monocultura açucareira. O socialismo
defendido pelo PT buscou nos trabalhadores da grandes cidades, sem
descartar a luta no campo, seu ponto de apoio 43. Mas, precisamos indagar se

42
Arquivo do DEOPS: Pasta: 50-z-9 / Documento: 44475 à 44460. Título: Ação conjunta OSI
(Organização Socialista Internacionalista) CS (Movimento de Convergência Socialista).
43
Num primeiro momento (1979-1980), tal proposição foi amparada nas lutas dos operários do
ABC paulista.
— comparando-se às outras experiências socialistas — os trabalhadores
urbanos, com valores difusos, poderiam fornecer a coesão suficiente para o
PT desfechar um processo de “ruptura democrática” com a ordem social
capitalista44. E também questionar se este processo de ruptura poderia
encontrar na democracia — que teoricamente ressaltaria as singularidades
dos trabalhadores e seus vários movimentos sociais — a principal “arma
revolucionária” contra a ordem social capitalista45.
A principal questão a ser colocada quando se propõe um socialismo
democrático nestes moldes do PT seria se o conjunto da classe trabalhadora
— partindo-se do pressuposto de que fosse possível formar esse conjunto —
numa sociedade industrializada e de ma ssas teriam — ou têm — condições
de decidirem qual a sociedade que eles desejam.
Certamente seria uma “sociedade melhor” do que a vida sob as
condições sociais e econômicas do final da década de 70 e anos 80. Mas
podemos questionar se essa “sociedade melhor” seria socialista, se os
trabalhadores teriam condições de visualizar — em meio à sua pluralidade —
a sociedade socialista46 e se qualquer sociedade que fosse “justa” seria
socialista.

44
Por mais que as greves de 78 e 79 tenham se alastrado pelos Estados brasileiros – O estopim
destas greves foi a decisão dos operários da Scania, de parar suas atividades, no dia 12 de maio
de 1978 –, elas iniciaram-se em um setor chave da classe operária, ou seja, os metalúrgicos do
ABC paulista. Por mais generalidades que a categoria de “trabalhadores” – que consta nos
documentos do PT – possa englobar, a oposição ao regime militar feita por “trabalhadores”, não
representou a “totalidade” dos trabalhadores. Para as greves do ABC, conferir: SADER, Emir. Op.
Cit.
45
O próprio conceito de socialismo democrático é contraditório, pois, a concepção de democracia,
estabelece como unânime a vontade da maioria, necessariamente em detrimento a uma minoria
que teve seus interesses derrotados. Ao vislumbre do Partido dos Trabalhadores de “uma
sociedade sem explorados e exploradores”, subtende uma sociedade sem margens à oposição,
uma sociedade de consenso. Portanto contrário ao ideal democrático, ou seja, da existência de
partes vencidas. Mais complicado ainda é atingir esse “consenso orgânico” respeitando valores
distintos numa sociedade plural.
46
Queremos acrescentar um dado complementar, que consiste na composição da Comissão
Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (Extraída da Primeira Convenção Nacional do
PT em 27/09/1981) que contou com setores singulares da classe trabalhadora: Presidente: Luís
Inácio da Silva (líder sindical); 1o. Vice-presidente: Olívio de Oliveira Dutra (líder sindical); 2o. Vice-
o
presidente: Manoel da Conceição (líder camponês); 3 . Vice-presidente: Apolônio de Carvalho
o
(líder comunista, ex -PCBR); Secretario-geral: Jacó Bittar (líder sindical); 1 . Secretario: Antônio
o
Carlos de Oliveira (deputado); 2 . Secretario: Francisco Corrêa Weffort (economista e jornalista);
o o
1 . Tesoureiro: Domingos de Freitas Diniz (deputado); 2 . Tesoureiro: Clóvis I. da Silva (Presidente
do Sindicato dos Arquitetos do RGS); Vogais: Hélio Marcos Prates Doyle (Presidente do Sindicato
dos Jornalistas do DF); Luís Soares Dulce (Presidente da União dos Trabalhadores no Ensino –
MG); José Ibrahin (líder sindical); Wagner Alves Benevides (sindicalista). Suplentes: Helena Grego
Empiricamente é uma questão complicada para se resolver, é difícil se
dar conta de toda uma gama de valores difusos e plurais. O Partido
alimentou essa esperança, pois, a opressão exercida pela ditadura militar,
fornecia, num primeiro momento, o elo de ligação entre os movimentos
sociais. Assim, por mais numerosos que fossem os indivíduos que
compunham essa massa — e por mais díspares que fossem os seus valores
— grande parte deles eram atingidos de alguma forma por reflexos negativos
provocados pelo regime militar.
Para usarmos somente um exemplo clássico na história do
socialismo, a classe trabalhadora na Rússia da Revolução de Outubro
encontrou nos sovietes uma instituição em que foi possível identificar um
conjunto para si, englobando camponeses, trabalhadores urbanos e o
Exército. Mesmo que, posteriormente, os sovietes fossem paulatinamente
incorporados na estrutura do Partido, num primeiro momento eles foram
imprescindíveis para o processo revolucionário.
No Brasil — no final da década de 70 e nos anos 80 — não existia
algo que se parecesse com tal estrutura e que pudesse identificar e compilar
a classe trabalhadora para si. O fato de não existir no Brasil nenhuma
estrutura que pudesse englobar a classe trabalhadora — com um grau de
importância semelhante aos sovietes — talvez se explique pela atuação do
Estado na história brasileira, sempre tutelando as ações dessa classe.
Mesmo assim, o PT procurou identificar o que mais se assemelhava a uma
organicidade para a classe trabalhadora nos movimentos sociais. Mas, neste
caso, havia a questão de como interagir no movimento social para fazer
desse o agente do socialismo democrático. Destaca-se, nesse sentido, uma
proposta do Partido, na qual vislumbrou-se promover a ligação e a atuação
orgânica do Partido nos movimentos sociais, estabelecendo uma “via de mão
dupla” para essa atuação — via legal, através das instituições políticas da
sociedade e atuação direta através de participação nas lutas dos movimentos
sociais.

(advogada); Joaquim Arnaldo de Albuquerque (líder metalúrgico); Hélio Bicudo (advogado); Luís
Eduardo Greenhalg (advogado); e Rubens Otoni Gomide.
A forma encontrada pelo Partido para atuar nos movimentos sociais
foi através dos Núcleos do Partido dos Trabalhadores, em que a militância
participaria dos mais variados movimentos sociais47. Os Núcleos são os
únicos “instrumentos” encontrados nos documentos do PT de 1979 a 1982
que poderiam ser utilizados para a instituição democrática da sociedade
socialista, pois, com o seu posicionamento estratégico, garantiriam a
48
democracia dos trabalhadores .
Uma das primeiras referências aos Núcleos de Base foi feita quando o
Partido ainda era um movimento49 — Movimento Pró -PT. Esses Núcleos
serviram como forma de organizar o Partido:

“Nesta reunião do dia 13/10, ficaram esclarecidas as seguintes


questões:
(A) O partido não existe ainda, nem pode ser criado de cima para baixo,
terá que nascer dos trabalhadores e a partir da organização de seus Núcleos de
Base;
(B) Passaremos ao trabalho de organizar esses Núcleos de Base,
reconhecendo em primeiro lugar, o autentico trabalho de base que já existe, nos
bairros, nas fábricas, nas Comunidades Eclesiais de Base, nas associações,
etc.;
(...)
F) Os Núcleos de Base, discutirão os programas de lutas e
reivindicações, indicarão as propostas para um Programa Político do PT no 1o.
Encontro Nacional a ser realizado daqui a 120 dias e depois para o Congresso
50
Nacional do partido. Farão também propostas de organização.”

47
“O PT declara-se comprometido e empenhado com a tarefa de colocar os interesses populares
na cena política, de superar a atomização e dispersão das correntes classistas e dos movimentos
sociais. Para esse fim, o Partido dos Trabalhadores pretende implentar seus núcleos de militantes
em todos os locais de trabalho, em sindicatos, bairros, municípios e regiões.” In: Carta de
Princípios do Partido dos Trabalhadores.
48
“Os Núcleos são a garantia de que o partido seja construído democraticamente de baixo para
cima, ligando os trabalhadores aos movimentos de massa. São eles que identificam e diferenciam,
na prática o PT dos outros partidos, porque eles são o local de discussão dos problemas dos
trabalhadores nos bairros, nas fábricas, nas fazendas, nas escolas, nas ruas, como caminho para
derrotar a ditadura e construir uma nova sociedade, sem exploradores e explorados.” In: Circular
o
n . 02/82 (1982).
49
“(A) No presente estágio organizativo, o movimento pelo PT se estruturará sob forma de
núcleos básicos que serão reconhecidos como tais para efeito de representabilidade proporcional
quando contarem o número mínimo de 21 membros e forem formados a partir dos locais de
trabalho, locais de moradia e das categorias de trabalhadores. Que se criem Coordenações de
Nucleação a nível Municipal e Regional e uma Direção Provisória Nacional. Será reconhecido o
direito de expressão aos núcleos em formação; (B) Ainda transitoriamente, cada núcleo deverá
eleger um secretario e um suplente de secretario, cuja função será a de estabelecer os contatos
com os organismos superiores do movimento; (C) É recomendável que cada núcleo fixe o
endereço para correspondência e na medida do possível, até mesmo adquira uma caixa postal;”
In: Documento “Sobre o Partido dos Trabalhadores”.
50
Ibidem.
Esses Núcleos de Base do PT eram herança da estrutura construída
pela Igreja Católica na década de 70 para atuar nos movimentos de bairro,
as CEBs. No caso das comunidades eclesiais, os grupos de indivíduos
gravitavam em torno de uma comunidade religiosa; no PT, procurava-se
estruturar da mesma forma os grupos, com algumas modificações, e não
somente com moradores de um bairro, mas tentando englobar vários
movimentos sociais.
A atuação do Partido nos movimentos sociais por meio dos Núcleos
de Base se daria por intermédio dos militantes neles agrupados, sendo que a
função dos Núcleos era, ao mesmo tempo, formar militantes — pois o Partido
estava na fase inicial de formação — e atuar nos movimentos sociais.

“Além das atividades de discussão, de intervenção dos militantes nas


lutas econômicas e políticas, cada Núcleo de Base deve ter como atividade
fundamental também a formação política dos militantes.
Desta forma, a formação política dos trabalhadores deve ser
sistematizada e organizada com publicações, filmes, cargos, debates e demais
atividades. Debates por exemplo: sobre salários, sindicato, problemas de bairro,
partidos, Estado, problemas nacionais, etc., bem como as lutas econômicas,
sociais e políticas. Também a formação política deve ser coordenada
nacionalmente por Comissões especialmente criadas pela Coordenação
51
Provisória.”

Os principais aspectos a serem ressaltados desta concepção de


socialismo democrático entre os anos de 1979 a 1981, foi que muito pouco
da nova sociedade socialista, vislumbrada pelo Partido, avançou em um nível
teórico. O trabalho de construção desta nova sociedade seria fruto das lutas
dos trabalhadores contra o seu principal inimigo, a ditadura militar. Os
trabalhadores saberiam por sua própria experiência, acumulada nas lutas
dos movimentos sociais, o que seria melhor para eles.
Na citação abaixo, a interferência do Partido no movimento social
vinha ao encontro de certas necessidades do próprio movimento, mas essa
interferência em sua espontaneidade seria prejudicial:

“Não admitimos que as creches, os clubes de mães, as associações de


moradores, os movimentos de favelas, os grupos de luta pela terra. As entidades

51
Ibidem.
feministas, os núcleos artísticos e demais formas de o nosso povo se organizar
na base, sejam manipulados como currais eleitorais ou tratados à base do
clientelismo político. Reconhecemos a autonomia do movimento popular frente
ao Estado e aos partidos políticos. É fundamental para a libertação deste país
que os moradores de um bairro ou os posseiros de uma região — independente
de suas preferências partidárias — possam se encontrar na base em torno de
suas lutas específicas. Se temos como militantes políticos um papel junto aos
movimentos populares é o de ajudá-los em sua educação política, sem porém
induzi-los à nossa opção partidária” 52

Mas deveria haver uma forma de atuar nos movimentos sociais, via
Núcleos do Partido, sem que isso representasse a indução dos participantes
desses movimentos aos ideais do Partido. Era preciso revelar nos
movimentos sociais contestadores da ordem social vigente o ideal do
socialismo como um valor universal e descobrir como construir uma nova
forma de democracia para alcançar esse socialismo.
Os Núcleos de Base do PT nunca foram independentes da estrutura
deliberativa do Partido. Um exemplo disso se encontra no Estatuto do Partido
dos Trabalhadores, no Capítulo dedicado aos Núcleos:

“CAPÍTULO VI
Dos Núcleos de Base
Art. 35 — Os filiados de um mesmo domicílio eleitoral, organizar-se-ão
em Núcleos de Base, por local de moradia, por categoria profissional, por local
de trabalho ou movimentos sociais.
Art. 36 — Os Núcleos de Base serão constituídos com um número
mínimo de filiados uniforme em todo o território nacional conforme Regimento
Interno.
Art. 37 — As funções dos Núcleos de Base são as seguintes:
I — organizar a ação política dos filiados, segundo a orientação dos
órgãos de deliberação e direção partidária, estreitando a ligação do Partido com
os movimentos sociais;
II — emitir opinião sobre questões municipais, regionais e nacionais que
sejam submetidas a seu exame pelos respectivos órgãos de direção partidária;
III — aprofundar e garantir a democracia interna do Partido dos
Trabalhadores;
IV — promover a educação política dos militantes e filiados;
V — sugerir aos órgãos de direção partidária consulta aos demais
Núcleos de Base sobre questões locais, regionais de interesse do partido; e
VI — convocar o Diretório Municipal, nos termos do art. 22 deste
53
Estatuto.”

52
Discurso na Primeira Convenção do Partido dos Trabalhadores.
53
Estatuto do Partido dos Trabalhadores (1980).
Mesmo o PT possuindo uma estrutura um tanto quanto diferenciada
em relação aos outros partidos, com a existência de Núcleos de Base e de
um discurso socialista de contestação à ordem social mantida pelos militares,
o Partido paulatinamente dedicou maior ênfase na forma de ação política
aberta pela ditadura militar, através da Legislação Eleitoral. A legalização do
Partido estava condicionada ao cumprimento de certas exigências em âmbito
nacional. Uma das exigências para que o Partido conseguisse seu registro
definitivo era possuir um quadro de filiados 54. O meio encontrado pelo Partido
para intensificar o processo de filiação foi através da atuação dos Núcleos de
Base. Isto fez com que um instrumento do Partido concebido para atuar no
movimento social — e secundariamente arregimentar filiados e militantes —
se revertesse quase exclusivamente para fins de legalização do Partido.
A subordinação dos núcleos à estrutura deliberativa do Partido, outras
contradições dentro da sua estrutura e o caminho eleitoral parlamentar
escolhido, relegando as lutas sociais a um segundo plano, geraram o que
podemos qualificar de uma crise de identidade e uma revisão da estratégia
de atuação do Partido por volta de 1982.
Um fato seria de grande importância para o PT, representando a
primeira grande apreciação pública do Partido pelos seus representados: as
eleições de 1982.

2.2. As eleições de 1982

Passados os primeiros anos, o Partido possuía uma estrutura que lhe


possibilitava a participação no pleito eleitoral de 1982 em condições de
cumprir a Legislação Eleitoral 55, podendo conseguir o seu registro definitivo

54
A Lei estabelecia a seguinte tabela: A – 2% dos eleitores deverão ser filiados nos municípios até
1.000 eleitores; B – Os 20 filiados do item A mais 5 filiados para cada 1.000 eleitores nos
municípios de até 50.000 eleitores; C – Os 270 filiados dos itens A e B mais 2 filiados para cada
1.000 eleitores nos municípios de até 250.000 eleitores; D – Os 670 filiados dos itens A, B e C
mais 1 filiado para cada 1.000 eleitores nos municípios de até 500.000 eleitores; E – Os 1.170
filiados dos itens A, B, C e D mais 1 filiado para cada 2.000 eleitores nos municípios maiores que
500.000 eleitores .
55
Além da composição mínima do quadro de filiados a Legislação Eleitoral determinava que: A)
Realizar Convenções Municipais em no mínimo 1/5 dos municípios de pelo menos 9 Estados para
elegerem seus Diretórios Municipais e delegados às Convenções Regionais; B) Realizar
Convenções Regionais em pelo menos 9 Estados para escolha dos Diretórios Regionais e
de partido político. Além disso, era a primeira vez que o Partido sairia do
plano das reivindicações localizadas, vinculadas aos movimentos sociais,
para se apresentar como partido para a sociedade e ser votado como tal.
Tornava-se imperioso que apresentasse suas propostas para a sociedade.
Para o PT, as eleições vinham num momento importante em que os
trabalhadores haviam acumulado experiências importantes de luta56 e
poderiam usar as eleições como mais um canal de reivindicação para suas
insatisfações no partido 57 que, “naturalmente”, os representava:

“Para os trabalhadores, as eleições representam uma nova possibilidade


de ampliar o espaço de organização e mobilização política. [as eleições] vão ser
realizadas numa conjuntura mais favorável do que a de qualquer outro pleito
pós-64. Em primeiro lugar, porque se darão sob uma crise que agrava dia-a-dia
as condições de vida e predispõe o eleitorado a votar contra a situação. Em
segundo lugar, porque, desta vez, não estaremos mais submetidos à
obrigatoriedade de optar entre dois partidos criados pelo regime militar e
controlados, ambos, por segmentos das elites dominantes. Desta vez,
contaremos com as possibilidades de votar em um partido criado por nossas
próprias mãos: o Partido dos Trabalhadores. Em terceiro lugar, porque a
existência do PT dá garantia para um debate político mais profundo, durante a
58
campanha, sobre as transformações que interessam aos trabalhadores.”

Nas eleições de 1982, o Partido disputou todos os cargos elegíveis,


desde os de vereadores até os de governadores. Um exemplo disso foi a

delegados à Convenção Nacional; C) Realizar Convenção Nacional para escolha do Diretório


Nacional; D) Estatuto e Programa deverão ser aprovados nas Convenções; E) O funcionamento do
partido se caracterizará pelo direito à representação no Parlamento, onde deverá obter: 10% dos
representantes no Congresso Nacional ou ter 5% dos votos em eleições para deputados federias
em pelo menos 9 Estados com o mínimo de 3% em cada um deles.
56
“As eleições de 1982 serão realizadas numa conjuntura caracterizada por aguda crise política,
crescimento dos movimentos populares e pelos efeitos da crise econômica, traduzida em recessão
industrial, desemprego e aumento acelerado dos preços. Trata-se, sobretudo, de uma conjuntura
marcada pela consciência que os trabalhadores vêm adquirindo de suas amplas e novas
responsabilidades, como força política independente nacional, de participar no debate dos
problemas e na definição dos destinos de nosso povo e de nosso país (...) Isso é resultado da
acumulação de experiências políticas por parte dos trabalhadores, em suas lutas em face dos
patrões, do Estado e da Justiça Militar e trabalhista. É resultado também da intensificação das
lutas na área rural e da afirmação de um novo conteúdo na atividade pastoral da Igreja. Uma
a
expressão concreta do avanço popular se encontra na realização da 1 . CONCLAT. Do mesmo
modo, está aí, aos olhos de todos, a afirmação e o fortalecimento contínuo do PT, uma iniciativa
autônoma dos trabalhadores, que vem se consolidando acima das previsões, planos, objetivos e
regras do jogo oficial.” In: Carta Eleitoral do Partido dos Trabalhadores (1982).
57
Meneguello em seu estudo analisa o voto petista em 82 como sendo um voto de classe, pois o
partido recebeu o grosso de seus votos em setores localizados em bairros ou mesmo cidades,
como o caso do ABC paulista, em que o operariado ou os metalúrgicos eram a maioria. Conferir:
MENEGUELLO, Rachel. PT: a formação de um partido, 1979-1982. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1989.
58
Carta Eleitoral do Partido dos Trabalhadores.
candidatura de Luiz Inácio da Silva, o Lula, para Governador de São Paulo.
O poder eleitoral do Partido era depositado nos trabalhadores e na força
emanada de suas lutas, sendo colocados a favor das lutas dos trabalhadores
os postos executivos conquistados nessa eleição:

“A conquista de espaços no Executivo e no Legislativo dos diferentes


níveis só pode concorrer para a mudança da estrutura de poder se os
trabalhadores forem capazes de sustentar uma correta articulação entre as lutas
fundamentais, que se desenrola fora deles. A participação do PT nas eleições
não nos deve levar a confundir a conquista de executivos estaduais e municipais
como sendo a conquista do poder. Mas eles devem servir como alavanca na
organização e mobilização dos trabalhadores na perspectiva da construção do
poder popular. É uma etapa de aprendizado, de acúmulo de forças, de apoio
para o fortalecimento da organização política dos trabalhadores, de mais
59
respaldo para as lutas sociais.”

Os documentos que dizem respeito às eleições de 1982 começaram a


fornecer alguns elementos do socialismo do PT que não eram encontrados
nos documentos de anos anteriores. Como podemos notar na citação acima,
os males da sociedade, na concepção do Partido, eram depositados no
Estado e em seu aparelho e um dos principais caminhos para reverter a
situação da classe trabalhadora era colocar este mesmo aparelho a serviço
dessa classe. Nesse particular, o socialismo defendido pelo Partido não se
diferenciava de outras concepções que viam no controle do Estado o
principal passo para a conquista do socialismo. Entretanto, tal controle se
daria de forma direta pelos trabalhadores:

“Colocar a economia e a administração pública a serviço do povo é um


dos principais objetivos do PT, mas ele não será atingido simplesmente pela
estatização das atividades produtivas. Isoladamente, isso só fortaleceria o poder
dos tecnocratas e burocratas. Só acreditamos na mobilização dos trabalhadores.
Esta mobilização tem de abrir condições para que todos os problemas de
interesse público sejam submetidos ao controle popular.
As escolas terão que ser controladas por pais, mestres, alunos e
funcionários; os postos de saúde terão de ser controlados pela população e as
instâncias superiores do sistem a de saúde terão de ser controladas por
sindicatos e associações; os trabalhadores têm de o direito de fiscalização à
contabilidade das empresas, intervindo nas decisões sobre o emprego, preço e
salário; os sindicatos têm que ter voz forte no planejamento da economia
nacional; as delegacias de polícia têm que ser fiscalizadas e controladas pelas
associações e conselhos de moradores; etc.

59
Ibidem.
Lutamos para que os trabalhadores derrubem a ditadura militar e
coloquem por terra não só suas leis e sua falsa justiça, mas também a base
econômica que a sustenta. Não haverá mudanças decisivas para o povo
brasileiro enquanto os monopólios financeiros (que, em plena crise, apresentam
lucros de 700% ao ano!) continuarem mandando na economia do País, os
monopólios comerciais controlarem a circulação de mercadorias e os
monopólios industriais a produção nacional. Reafirmamos nosso compromisso
com a construção de um novo poder, baseado na classe operária e na
mobilização de todos os que vivem de seu próprio trabalho, para construirmos
uma sociedade sem explorados e sem exploradores. Essa é a sociedade que os
60
trabalhadores sonham e que, desde hoje, nossa luta prepara.”

Novamente, encontramos pontos singulares na proposta do PT para a


conquista do socialismo. O principal objetivo do Partido continuava a ser o
socialismo, um novo tipo de socialismo e até, teoricamente, uma nova forma
de se chegar a esse socialismo. Teoricamente, a democracia feita pelos
trabalhadores, naquela ocasião, utilizaria-se das eleições para intensificar o
que começava-se a delinear como sendo o “acúmulo de forças” 61. Este
passaria a ser a principal estratégia do Partido, após as eleições, para a
conquista do socialismo.
No entanto, o resultado das eleições representou um grande
desapontamento para o Partido, pois, obteve uma votação muito aquém do
que era esperado pelos seus dirigentes:

“(...)Neste quadro, há que reconhecer, com toda clareza, que o PT ficou


a menos que esperávamos e mesmo a menos que nossos aliados e muitos dos
nossos adversários imaginavam. Nossas expectativas mínimas para o pleito
eram as definidas na lei dos partidos. Embora de aplicação suspensa em 1982,
a lei serviu-nos para quantificarmos o nosso objetivo mínimo: 5% de votos em
escala nacional, e pelo menos nove Estados com mais de 3% de votos. A parte
São Paulo, Rio de Janeiro, Rondônia e Acre, não alcançamos os mínimos
esperados. Do mesmo modo, embora tenhamos atingido 10% dos votos em São
62
Paulo, não atingimos os 5% dos votos nacionais.”

60
Plataforma Eleitoral do Partido dos Trabalhadores (1982).
61
“A tática eleitoral do partido tem como eixo básico a questão de abrir aos trabalhadores, nesse
pleito, a possibilidade de correr em raia própria, assegurando sua independência através de
recursos próprios, candidatos próprios e plataformas próprias. É uma particularização da tática
geral do partido e deve, por isso, estar inteiramente em correspondência com os rumos gerais da
tática de acumulação de forças através do fortalecimento das lutas sociais. As eleições
representam portanto, apenas um episódio, um momento definido de nossa atividade política
permanente, em busca do objetivo final que é construir uma sociedade socialista, sem explorados
e exploradores. Nossa participação no processo eleitoral não pode servir, portanto, para desviar o
partido de seus objetivos programáticos.” In: Carta Eleitoral do Partido dos Trabalhadores.
62
Circular n o. 16/82.
Os resultados das eleições de 1982 foi condizente com o estágio de
formação do Partido. A citação acima faz parte de um documento no qual se
analisou a atuação do PT durante as eleições, sendo, em certos aspectos,
extremamente crítico com o próprio Partido. Muitos dos candidatos a cargos
eletivos pelo PT não tinham nenhuma experiência eleitoral anterior, alguns
haviam disputados apenas eleições sindicais, de comunidades de bairro,
etc., revelando-se despreparados. A campanha de muitos candidatos se
pautava na pregação de palavras em abstrato em favor do socialismo, sem
se demonstrar ao certo em que consistia esse socialismo apregoado 63.
Como podemos verificar na citação abaixo, os trabalhadores, além de
não votarem no Partido 64, não interagiram na campanha, representando um
“receptáculo” passivo das propostas dos candidatos, muitas delas
doutrinárias, com mensagens prontas, sem algo de concreto para a classe
trabalhadora:

“Ainda mais: no plano político eleitoral, ficamos no ataque às questões


gerais, deixando em segundo plano as questões concretas. Um exemplo disso
está no doutrinarismo característico de muitas de nossas campanhas estaduais
e de muitos de nossos candidatos, tanto a deputado quanto a governador e a
senador. Com exceção de uns poucos, não tínhamos planos definidos de

63
Contudo, essa pregação de um socialismo não era inteiramente sem nexo, pois a maior parte
dos pontos da Plataforma Eleitoral do partido, não possuíam uma clareza quanto no que consistia
o socialismo do partido. Os 12 pontos, da Plataforma Eleitoral do Partido dos Trabalhadores – que
trás como lema: Trabalho, Terra e Liberdade –, trás em cada ponto uma palavra de ordem: 1. Sem
liberdade a vida não vai mudar, pelo fim da ditadura militar; 2. Num País tão rico é possível acabar
com a fome; 3. Trabalhadores do campo: terra e melhores salários; 4. Não é por falta de tijolo que
o trabalhador não tem onde morar; 5. Neste País há pouca saúde e muito lucro com a doença; 6. A
educação e a cultura são direito e não um privilégio de classe; 7. Somos todos iguais: chega de
discriminação; 8. No dinheiro do povo ninguém pode meter a mão; 9. Com os contratos de risco os
tubarões pouco arriscam e muito petiscam; 10. O poder para os trabalhadores e o povo; 11. A luta
dos trabalhadores é a mesma em todo o mundo; 12. Só o socialismo resolverá de vez o nosso
problema.
64
“Por que não conseguimos o que queríamos? Algumas explicações já foram apresentadas.
Tivemos, contra nós, os casuísmos do governo e o poder econômico, tanto do PDS quanto do
PMDB, bem como os setores da grande imprensa ligados aos partidos dos grupos dominantes.
Sem esquecer, evidentemente, setores da própria esquerda que se uniram a parcelas da
burguesia liberal, usando também o descrédito da nossa proposta de organização dos
trabalhadores. Além disso, é inegável que as eleições transcorram, na maioria dos Estados, como
eleições preblicitárias, ao estilo do que já ocorreu em 1974 e em 1978. Significa dizer que o PMDB
conseguiu, na maioria dos Estados, apresentar-se como a única alternativa real de oposição,
estreitando assim o campo para o surgimento de qualquer proposta nova. Na verdade, as únicas
exceções a esta regra geral são os Estados de São Paulo – onde o PT e o PTB conseguiram furar
o bloqueio plebiscitário –, o Rio de Janeiro – onde o PMDB já era governo, possibilitando assim o
crescimento de PDT – e o Rio Grande do Sul – onde o PDT mantém uma importante reserva da
tradição trabalhista. Todos estes fatos são conhecidos e devem merecer reflexão de todos nós
(...)” In: Circular 16/82.
governo nem propostas concretas para resolver os problemas daí que muitos de
nós preferíssemos partir para posições doutrinárias de pregação em abstrato em
favor do socialismo. Muitos outros transformaram as eleições em um momento
de mera agitação de slogans, contra os patrões, contra a ditadura, etc., sem
nenhuma preocupação real com as questões concretas do dia-a-dia dos
trabalhadores e do povo.” 65

Além desta falta de interação dos candidatos com o eleitorado, pois,


pregavam um socialismo sem esclarecer no que esse consistia, a maneira de
se vincular a propaganda dos candidatos também recebeu críticas:

“Outros exemplos aparecem na nossa propaganda pela televisão e na


nossa propaganda em geral. Na televisão a apresentação de slogans dos
nossos candidatos tomou, por ingenuidade nossa, quase o caráter de um
prontuário de polícia. Não avaliamos devidamente as limitações técnicas e
políticas da lei falcão e, às vezes, até por excesso de respeito às leis em vigor,
introduzimos em nossa propaganda informações que deveríamos simplesmente
ter omitido. Por exemplo, dizer na apresentação de um candidato que ele foi
preso ou condenado pela LSN sem poder explicar ao povo os porquês, levava a
transmitir uma impressão errada: o candidato em questão deixava de aparecer
66
como vitima da repressão para aparecer como bandido.”

Uma das principais conclusões da ineficiência do Partido nas eleições


diz respeito ao não cumprimento de uma de suas principais propostas, pois,
o Partido reconhece o abandono das massas67 e os pobres resultados com
as experiê ncias dos Núcleos de Base:

“(...) Se os resultados eleitorais deixam a desejar foi porque na maioria


dos casos não tomamos a sério aquilo mesmo que propomos: organizar a partir
dos Núcleos e estar presente, lado a lado com os trabalhadores nas suas lutas
concretas. Os poucos êxitos que tivemos durante a campanha se devem a um
trabalho de base feito antes ou durante a campanha. É esse o caminho que
devemos seguir daqui para a frente (...) Trata -se de lutar para organizar os
trabalhadores em núcleos, de baixo para cima, em um partido aberto, de
massas, democrático, como queremos ser. Organizar a partir dos núcleos e
estar presente, lado a lado com os trabalhadores nas suas lutas concretas. Este

65
Ibidem.
66
Ibidem.
67
“(...) Não há como deixar de reconhecer que em muitas partes, a luta eleitoral foi, como tal,
subestimada. Muitos não compreenderam que, embora sendo um aspecto secundário da luta
popular, a campanha eleitoral deveria ter-se tornado para todos um instrumento de ligação do
partido com as massas. Na incompreensão disso, esta a raiz de muitos erros, como um
doutrinarismo que não tem nada a ver com a consciência real das massas, um eleitoralismo que se
revelou frustrante para a maioria dos que o praticaram, um aparelhismo que não leva a lugar
nenhum, etc. etc.” Ibidem.
é desde o início, o caminho do PT. Este é também, hoje mais do que nunca, o
68
caminho que seguiremos daqui para diante.”

A plataforma eleitoral não fez grandes menções à importância dos


Núcleos de Base nos lugares em que o Partido conquistasse o poder
executivo. Somente denotou, sem maiores explicações, a atuação dos
trabalhadores nos governos do Partido, o que consistiria na criação de
formas de participação popular nas gestões administrativas, tais como
plebiscitos, assembléias populares, etc.69
Outros dados comprovaram que essa crítica ao papel dos Núcleos de
Base surgiu mesmo antes do fracasso nas eleições, apontando uma
regressão quantitativa dos Núcleos em relação ao número de filiados70, ou o
fato deles não estarem estruturados ou, mesmo, em certos casos, não
funcionarem:

“Há muitos núcleos e Diretórios ‘fantasmas’: criados com o objetivo


exclusivo de enviar representantes aos Encontros e Convenções do partido (...)
Há muitos núcleos isolados: não se relacionando ou fazendo-o de maneira
precária com os Diretórios Municipais. Isto ocorre, também, na relação destes
últimos com os Diretórios Estaduais, e na destes com a Direção Nacional (...) Há
muitos núcleos que não debatem as Resoluções do PT: isto porque não há
socialização da informação: os documentos são enviados aos Diretórios
Municipais, que não os encaminham para os núcleos, quebrando assim o elo de
sua ligação com o partido (...) Há ainda os núcleos que ficam só na discussão:
isto acontece quando os filiados não tem ligação com os movimentos de massa,
limitando sua participação; por não estabelecerem um concreto vínculo com os
71
problemas do povo.”

68
Ibidem.
69
“O PT veio para mudar o Brasil. Começamos já. Onde o PT ganhar prefeituras ou governos
estaduais, esses postos serão colocados a serviço da mobilização e organização das classes
trabalhadoras. A frente dos cargos executivos, o PT buscará, desde já, criar condições para a
participação popular organizada e autônoma, com poder de decisão na sua atuação política e
administrativa. Para isso recorrerá a plebiscitos, assembléias populares, conselhos de moradores
e trabalhadores e outras formas que o movimento encontrar.” In: Plataforma Eleitoral Nacional do
Partido dos Trabalhadores.
70
“Em maio de 1980 o PT contava com 28.000 filiados e 628 Núcleos de Base, um ano depois em
junho de 1981 o número de filiados já alcançava 250.000 (+86%), mas o número de núcleos não
chegava a 1.200. Hoje o PT tem 450.000 filiados dos quais só 20.000 (5%) estão estruturados em
Núcleos de Base. Temos somente 876 Diretórios e 322 Comissões Provisórias e Plano Nacional,
o
num total de 4.005 municípios no conjunto do país.” Circular n . 02/82.
71
Ibidem.
Após as eleições, os Núcleos de Base do Partido passaram a ser os
elementos principais em torno dos quais se discutia e avaliava a evolução do
Partido desde a sua fundação:

“No início o PT teve a presença determinante dos Núcleos. Em maio de


1980 tínhamos 623 Núcleos para 28 mil filiados. Os Núcleos eram a base de
estruturação dos Diretórios e isto permitia vencer os desafios legais. Os
Diretórios, impulsionados pela ação dos Núcleos permitiam avançar no sentido
da criação da estrutura vertical do partido — direções em todos os níveis —
enquanto eram politicamente representados pela solidificação da estrutura
horizontal — o grande papel dos Núcleos no processo de construção e
propagação (arquitetura da estrutura vertical).
Em 1981 houve um salto nos efetivos — de 28 mil filiados fomos para
300 mil cumprindo exigências legais. Todavia a estrutura horizontal diluiu-se e a
realidade da nucleação não acompanhou a filiação. Dos 623 Núcleos chegamos
somente a perto de um mil. A campanha eleitoral a partir de set-81/jan-82
desempenhou um papel grande na absorção dos quadros dirigentes e dos
filiados mais ativos dos Núcleos. Contribuindo para o esvaziamento da tarefa de
nucleação. Isto, seguramente, teve reflexos no desempenho eleitoral do partido
conforme documentos de avaliação da campanha feitos pela comissão
Executiva Nacional e vários documentos estaduais e municipais.
Hoje, 1983, com a estrutura vertical revigorada e renovada pelas
eleições e pré-convenções regionais e municipais — 17 estados no momento e
23 até dezembro além de 2 territórios — os Diretórios podem cumprir o papel de
revigorar e revitalizar os Núcleos, buscar descobrir suas características e
matizes, sua ligação com os movimentos sociais, o significado nacionalmente
sentido de ‘volta às raízes’, identificado nas discussões e planos de lutas que
fundamentam as eleições dos novos dirigentes em todos os níveis (...).”72

Foi exatamente este ponto, um certo abandono por parte do Partido


em relação aos movimentos sociais73 — além do papel dos Núcleos de Base
— que gerou o que se caracterizou como uma crise de identidade do Partido.
Críticas internas acusaram o Partido de abandonar o movimento social em
favor de conquistas “eleitoreiras”. Essa crise, ao expor as principais
deficiências do Partido, serviu de base para o que seria uma nova postura,
que se delineava já em certos trechos de documentos referentes às eleições
de 1982. Essa se torna a principal base teórica que estruturou, daí por

72 o
Circular n . 01/83 (1983).
73
“É generalizada a insatisfação no partido com a incapacidade que temos tido de fazer da nossa
presença nos movimentos populares um poderoso fator que contribua para o seu
desenvolvimento. É generalizada também a avaliação da enorme potencialidade dos movimentos
populares em nosso estado e da capacidade que tem nosso partido de crescer junto com eles,
enriquecendo-se com suas experiências e ajudando decisivamente na sua unificação e politização”
In: Circular no. 58/83 (1983).
diante, a atuação do Partido, com a concepção de “acúmulo de forças” na
luta pela conquista da “hegemonia” na sociedade capitalista.
Em toda a massa documental analisada não encontramos nenhum
documento que fizesse menção à matriz teórica que norteou essa concepção
estratégica do PT. Entretanto, podemos dar uma interpretação a essa
concepção à luz do conceito de “hegemonia” — ou contra hegemonia —
desenvolvido por Antonio Gramsci, por meio do qual busca-se construir a
autonomia dos segmentos sociais que não possuem a hegemonia da
sociedade através de um processo gradual de lutas localizadas, em que cada
vitória é um acúmulo de forças para a vitória completa e posterior hegemonia
da sociedade 74.
Esquematicamente, o movimento social representava o ator da
antítese do processo de “modernização conservadora”, ou fruto das políticas
implementadas pelo Estado. Como resultado deste processo, ele
representava, ao mesmo tempo, a sua negação e o agente de uma possível
contra hegemonia. Daí, a importância de se ocupar as “casamatas” da
sociedade, abalando a hegemonia existente, em que cada vitória localizada
representava um avanço da contra hegemonia. Neste particular, como
veremos adiante, a vitória mais importante, perseguida pelo PT, era a
conquista do Poder Executivo, a principal “casamata” para a conquista de
uma nova hegemonia.

2.3. Crise de identidade — a “articulação dos 113”

Como pudemos verificar, o Partido depois das eleições de 1982


entrou num processo de redefinição interna acerca de sua identidade. O que
fôra proposto pelo Partido até então — por um lado sua estreita ligação com
o movimento social e, por outro, sua atuação nas instituições políticas — não
foi seguido no decorrer de sua ação prática, pois, o Partido mobilizou suas

74
Não existe uma obra de Antonio Gramsci que traga sinteticamente todos os conceitos acerca da
teoria gramsciana, entretanto, para a influencia dos conceitos de Gramsci para o Brasil conferir:
COUTINHO, Carlos Nelson. As Categorias de Gramsci e a Realidade Brasileira. In: PRESENÇA,
o
n . 8, set/1986. São Paulo: Editora Caete. pg. 141 à 162. E também: VIANA, Luiz Werneck. O Ator
bases para as disputas das eleições, colocando num segundo plano a luta
dos movimentos sociais.
Essa mudança de estratégia — dar primazia às lutas eleitorais —
gerou respostas imediatas de setores dentro do Partido que não
75
concordavam com os rumos tomados . Nesse contexto, a atuação de um
grupo de partidários se fez notar, o qual ficou conhecido pelo número de
seus componentes: a “Articulação dos 113”76.
No dia 02 de junho de 1983, esse grupo lançou um documento
intitulado “Companheiros do PT”77. Esse documento era composto por
propostas que buscavam recuperar o poder dos movimentos sociais,
ressaltando-se a importância da democracia na estrutura do PT, além de
propor um debate democrático acerca dos rumos do Partido:

“(...) não temos propostas para todos os problemas do PT. Nem temos a
receita infalível para superar a crise econômica do país, para vencer a ditadura e
para chegar ao poder (...) O que pretendemos, ao detonar um amplo processo
de debate democrático — que subsidiaremos com alguns documentos de
produção coletiva a serem amplamente distribuídos — é contribuir para que os
próprios militantes, filiados e simpatizantes do PT possam elaborar
coletivamente diretrizes claras, capazes não apenas de orientar a nossa prática

e os Fatos: a Revolução Passiva e o americanismo em Gramsci. In: DADOS. Rio de Janeiro, Vol.
o
38, n . 2, 1995, pg. 181 a 235.
75
“O PT nasceu em meio a uma das maiores mobilizações operárias e populares da história
nacional, num ciclo de lutas grevistas sem precedentes contra patrões e o governo (...) Para isso,
dizia-se, o partido privilegiaria não a esfera de ação parlamentar e a forma de organização
ditada pela lei (embora as encarasse como importantes, imprescindíveis mesmo para seu projeto
de partido de massas). Mas centraria sua ação nas lutas e mobilizações de massas, e sua
organização na base duma estrutura profundamente democrática de núcleo voltada para a ação
no interior dos movimentos sociais. Enfim, buscava-se um partido para a direção política da luta de
classe que se acirrava no país, voltado para a organização e mobilização das massas contra a
ditadura militar e os patrões (...) No entanto estas necessidades e idéias não se consolidaram ao
longo dos anos seguintes em políticas e práticas do partido. As tarefas de legalização e,
posteriormente, as eleições de 82 deixaram de ser apenas metas imprescindíveis para
praticamente afirmarem-se como objetivos exclusivos. O partido não foi capaz de combiná-las
devidamente com as lutas e mobilizações de massas noutros terrenos de ação.” In: Informativo: PT
83 (1983).
76
Pelo espaço e tempo limitado de um Mestrado, não nos cabe aqui fazer um história das
tendências internas do PT, apenas apontaremos a importância que teve a tendência interna
“Articulação” para certas mudanças de rumo na estratégia petista. Para o estudo das tendências
no PT conferir: AZEVEDO, Clovis Bueno., – A Estrela Partida ao meio: ambigüidades do
pensamento petista. São Paulo: Editora Entrelinhas, 1995.
77
“Estamos convencidos que o PT vive, hoje, um momento muito difícil, mas não aquela crise que
os seus inimigos apregoam. Diante disso, resolvemos nos articular para uma intervenção coletiva
na vida do nosso partido. Estamos, nesse momento, diante da importante tarefa da renovação das
direções partidárias (...) Reconhecemos as dificuldades que vivemos, de correntes (1) desacertos
das nossas direções na aplicação da linha de construção partidária; e (2) da ofensiva externa,
daqueles que são contra, e interna daqueles que não acreditam que os trabalhadores são capazes
de se organizarem como força política autônoma em nosso país.” In: Companheiros do PT (1983).
cotidiana e a da Direção renovada, mas sobretudo, de auxiliarem o avanço e a
78
unificação política dos movimentos dos trabalhadores.”

A “Articulação”, como ficou conhecido esse grupo, foi muito criticada


por outros militantes partidários pelo fato de formar um grupo fechado, que
ao mesmo tempo que pregava a democracia, fechava-se em seus próprios
valores e conceitos79.
A formação da "Articulação" era relacionada a um documento que
circulou no Partido intitulado “11 Teses sobre Autonomia”, documento esse
que não continha assinatura e que trazia vários pontos polêmicos em relação
à situação do Partido. Havia vários pontos marcantes neste documento e um
deles foi a forte crítica aos regimes socialistas até então estabelecidos. Essa
crítica foi fundamentada numa constatação empírica muito importante, ou
seja, o desrespeito dos regimes de “socialismo real” à existência das
pluralidades dos indivíduos que compunham as sociedades socialistas, e
também ao desrespeito às suas lutas e valores particularizados.

“Se de um lado, assistimos tendências generalizadas à burocratização


no ‘socialismo real’ e nos partidos tradicionais, de outro também é verdade que
surgiram novas tendências e premissas para a revolução socialista, cujas
potencialidades não são desenvolvidas pelos modelos conhecidos de
organização e prática revolucionária. Lutas operárias que questionam as
relações de trabalho na própria instância da produção e que ultrapassam a
tradicional dicotomia entre prática econômica e prática política se estenderam na
Europa a partir de 1968. Movimentos de contestação do autoritarismo da divisão
capitalista do trabalho, movimentos feminista de contestação do machismo, da
opressão da mulher, movimentos de questionamento das instituições de
reprodução da sociedade burguesa como a escola, a família, etc.; movimentos
ecológicos que questionam o próprio modelo de civilização. Movimentos nos
países do ‘socialismo real’ que questionam sua estrutura autoritária e recolocam
a questão da democracia socialista, como o que marcou agora a história
contemporânea da Polônia. São movimentos cujo desenvolvimento não encontra
referenciais seguros nos modelos propostos no início do século. Nisto consiste a
80
‘crise dos modelos socialistas’.”

78
Ibidem.
79
Críticas como a do Informativo: PT 83: “(...) Consideramos que a direção estadual do partido
deveria, a partir das eleições de 82, ter deflagrado um debate interno amplo e democrático, no qual
o conjunto do partido pudesse discutir e encontrar soluções para os problemas que enfrentamos.
Deveria, antes de mais nada, cuidar dos interesses do partido como um todo (...) ao fazer crítica
aos ‘comandos paralelos’, a Articulação dos 113 incorre numa incoerência profunda: cria uma
articulação particularista, em torno a pessoas selecionadas, cria o maior ‘comando paralelo’ dentro
do partido. Fica claro que a demarcação dentro do partido tem que ser política e não grupista. Do
contrário o sectarismo campeará e o partido perderá.” In: Informativo: PT – 83.
80
11 Teses sobre Autonomia (1982).
Essas críticas hoje, depois da queda do “socialismo real”, não nos
causa grandes surpresas, porém, na época de seu lançamento, em 1982,
gerou certo desconforto em alguns partidários que viam no exemplo do
“socialismo real” uma arma contra o capitalismo. O documento equiparava a
ordem social socialista da União Soviética à dominação burguesa
capitalista81, não se restringindo a críticas aos pontos empíricos do
socialismo, mas também questionando o modelo teórico constituído a partir
dos clássicos:

“De nossa parte, nós consideramos que o desenvolvimento concreto de


processos históricos nos impele a repensar o próprio modelo. Mesmo a
necessária assimilação de toda contribuição dos clássicos só é possível se
adotarmos uma postura que rechace toda reverência mística aos seus textos. O
desenvolvimento histórico — como os avanços revolucionários e com os
impasses criados — produziu situações e problemas cuja solução não se
encontra nos modelos que nos foram legados (...) Ao conceber a consciência de
classe e a doutrina socialista como algo levado para a classe pelos intelectuais
revolucionários, pelo partido, ele corta toda a base real, as premissas sociais, da
ideologia revolucionária. E termina por propor um partido que poderia ser
revolucionário independentemente de seu enraizamento nas massas (...) A
consciência socialista é uma contínua elaboração de respostas do movimento
operário e popular aos desafios, sempre novos, impostos pela dominação de
classe. Marx, Engels, Rosa, Lênin, Trotsky, Gramsci, Mao e muitos outros
aportaram — em níveis diferentes — contribuições valiosas mas que não
82
constituem nenhum sistema completo nem infalível.”

Por mais que essas críticas estivessem embasadas em fatos


empíricos, elas desagradaram certos petistas, afinal um dos principais
modelos empíricos de socialismo que todos conheciam era o socialismo
materializado no Leste Europeu. Mas neste particular encontramos um
particularismo, pois, afinal o socialismo defendido pelo Partido, desde a sua
fundação, não era um socialismo diferente? Que encontrava formas distintas,

81
“A pretensão de proteger-se das ‘infiltrações da ideologia dominante’ através de uma estrutura
que separe radicalmente os militantes profissionais dos movimentos sociais, concebe o processo
revolucionário como uma ação dirigida por uma vanguarda política auto-proclamada termina
sempre por reproduzir mecanismos de dominação ideológicas. E por produzir militantes incapazes
de recriar a política, submissos ante as diretrizes ‘de cima’, elitistas diante das massas. Se
reproduz assim aspectos da própria ideologia burguesa.” Ibidem.
82
Ibidem.
tanto pela sua via como pela constituição de uma ordem social socialista
baseada na democracia?
Por volta de 1982, o socialismo do PT ainda era algo que estava se
constituindo, não apresentando grandes progressos teóricos. A fórmula era
entregar o aparelho de Estado à classe trabalhadora para que
democraticamente esta pudesse gerir, como maioria na sociedade, o futuro
dessa sociedade, sendo este futuro identificado com uma ordem social
socialista. As eleições vinham no sentido de contribuir — pelo fato da classe
trabalhadora na ditadura militar se encontrar deveras tutelada e afastada da
esfera política — para o processo de politização necessário para a conquista
do que poderia vir a ser a hegemonia da classe trabalhadora 83.
A alternativa pela via legal eleitoral, por um lado, e a atuação no
movimento social, por outro, continuavam a ser as duas variantes que o
Partido deveria combinar. E essa combinação marcou os novos pontos de
ação estratégica do Partido a partir da publicação das “11 Teses sobre
Autonomia” e a hegemonia interna da "Articulação", pois ao criticar o que
havia sido feito, necessariamente, obrigavam-se a apresentar propostas
alternativas. O grande ponto de referência era a particularidade do Partido
em ter duas frentes de ataque contra a ordem social capitalista.
No que se referia às propostas para a ação dos trabalhadores na
sociedade capitalista brasileira, o documento apontava o conceito de
“Autonomia do Operariado”:

“E é aqui também que retomamos as teses clássicas de Marx, Engels,


Lênin, sobre o processo de extinção do Estado após a revolução. Um processo
de diluição do Estado que se inicie no momento mesmo da construção desse
novo Estado, sem que isso represente um debilitamento frente a contra-
revolução só pode se dar na medida em que a política revolucionária consista na
disseminação do poder revolucionário no conjunto da sociedade; na medida em
que cada movimento social exerça sua autonomia, num movimento de negação
da antiga ordem. Dizem-nos que a garantia da revolução está na força do
83
Tanto que, um texto não muito diferente das proposições iniciais do partido – “(...) o projeto da
sociedade a construir orienta a luta concreta, mas esta, por sua vez, irá moldando as feições
daquela. O socialismo baseado no poder popular, onde a autonomia dos trabalhadores como
sujeitos sociais encontrará o pleno florescimento, define as lutas autônomas travadas hoje, e
nasce delas (...) A alternativa ao Estado capitalista não pode ser o partido revolucionário, mas sim
as Organizações Democráticas de representação direta das massas, centralizadas nacionalmente.
São os Conselhos de Trabalhadores.” In: 11 Teses Sobre Autonomia –, ou seja, o abandono da
revolução violenta, ainda pôde causar polêmica.
partido único. Mas será então a garantia de uma revolução que agoniza no
conjunto da sociedade e que, assim, se congela num Estado burocratizado. A
verdadeira garantia da revolução só pode estar no processo de hegemonia
84
revolucionária na sociedade, na revolucionalização do todo social.”

Uma das grandes lutas era a defesa da autonomia dos movimentos


sociais em relação às estruturas de poder, inclusive aos partidos políticos:

“Por isso valorizamos a existência e criação dos organismos de unidade


das massas, autônomos em relação aos partidos, que devem disputar o
predomínio de suas políticas no seu interior. As diferenças ideológicas no seio
das massas devem enfrentar democraticamente através do confronto de
diferentes partidos (...) O partido que defendemos deve ser construído
juntamente com a organização e fortalecimento dos organismos de unidade e
autonomia dos trabalhadores. Ele não pode ser um simples desdobramento e
uma tentativa de coordenação desses organismos, mas ele deve responder aos
problemas concretos colocados ao movimento de massas, ele deve estimular a
criação de órgãos de poder na sociedade a partir desses organismos
85
populares.”

Mas, o documento revelava uma contradição, pois, ao mesmo tempo


em que pregava a autonomia dos movimentos sociais, pregava também a
necessidade de vanguardas dentro do PT e a importância dessas para os
movimentos sociais:

“(...) Não pretendemos abdicar das tarefas da esquerda, das tarefas de


uma vanguarda ideológica e política. Não pretendemos esquecer ou enterrar
experiências acumuladas e elaboradas. Não pretendemos abdicar de formular
políticas e defende-las. Mas a própria atividade ideológica de vanguarda só se
atualiza, só se realiza, no processo mesmo de criação política com as massas. A
vanguarda ideológica não é vanguarda ideológica porque elaborou uma
perspectiva para as lutas políticas que se dão (...) Hoje, diante do PT e do que
ele representa, são inúmeros os companheiros que, bolados ou articulados
politicamente, convergem procurando refundar a esquerda. Não para se auto-
preservar num papel de vanguarda ideológica, embrião do ‘verdadeiro partido
revolucionário’, mas para recriar uma vanguarda política e uma perspectiva
revolucionária no encontro com as lideranças emergentes do movimento
86
social.”

Um outro termômetro em que pudemos verificar o quanto não estava


estruturado o socialismo defendido pelo PT foram as críticas recebidas às

84
11 Teses sobre Autonomia.
85
Ibidem.
86
Ibidem.
propostas de luta por autonomia, defendida pelo documento “11 Teses Sobre
Autonomia”, principalmente em relação ao que era denominado “brandura”.

“Estas idéias reformistas apareceram com precisão pela primeira vez


dentro do partido na proposta de plataforma nacional sugerida pelo PT paulista,
onde a luta contra a ditadura militar era substituída por uma visão de que o
poder não se toma, não se conquista, mas se constrói passo a passo, no dia a
dia das lutas específicas, as quais deveriam assim ser o eixo da ação do partido.
Mas a proposta paulista foi derrotada e substituída pela plataforma expressa no
trinômio trabalho, terra e liberdade cujo centro é a luta contra a ditadura militar
(...) O fato de o partido ter formulado (ainda que tão somente em um Estado,
mas com o peso que tem São Paulo) aquela visão ‘passo a passo’, deixaria
87
marcas profundas no PT.”

Deste recorte — 1979 a 1983 — da história do socialismo democrático


do Partido dos Trabalhadores podemos tirar algumas conclusões como a que
apontamos acima, ou seja, a combinação da via eleitoral legal com as lutas
dos movimentos sociais. O que caracterizou essa combinação foi a utilização
da estrutura montada pelo Partido para atuar nos movimentos sociais no
sentido de atender às necessidades colocadas pela via eleitoral na
legalização do Partido, que consistia, principalmente, na conquista de votos
para o atendimento das exigências da Justiça Eleitoral.
A primazia ao caminho legal disposto pelo Regime Militar gerou, como
vimos, críticas à atuação do Partido e novas interpretações e propostas para
a ação, que ressaltaram o quanto era suscetível às críticas o pouco que
existia de concreto no socialismo petista.
Podemos utilizar o surgimento da tendência interna “Articulação” para
avaliarmos quanto era sensível a proposta socialista do Partido. Boa parte
dos pontos defendidos pelo documento “11 Teses sobre Autonomia” não era
estranha aos primeiros documentos do Partido e, mesmo assim, gerou
críticas e incômodos a certos segmentos desse. O que gerou instabilidade no
Partido talvez tenha sido a existência de “segmentos” internos ao próprio
partido e, ainda, a formação de verdadeiros "partidos" dentro do Partido.
O PT desde a sua formação foi um canal de ação política para onde
caminharam vários setores do movimento social e da esquerda. Alguns

87
Informativo: PT – 83.
autores traçam a genealogia do PT sustentada em três pilares mestres: os
Sindicalistas — com toda a estrutura do sindicalismo combativo —, a Igreja
Católica — com suas CEBs —, e os Militantes Esquerdistas ligados aos
movimentos sociais88.
Entretanto, a existência desses pilares mestres é relativa, pois, nada
impedia que um militante de esquerda fosse um sindicalista e vice-versa, ou
mesmo que um participante de uma CEB fosse um militante de esquerda ou
um sindicalista, ou as demais combinações entre as três categorias89.
Um dado importante que não podemos desprezar foi a importância do
movimento sindical para a formação do PT. Entretanto, o que podemos
verificar foi que paulatinamente os documentos do Partido tenderam a
amenizar qualquer preponderância de segmentos particularizados internos
ao Partido. Na maioria dos documentos analisados do período de 1979 a
1983 — com a exceção das “11 Teses sobre Autonomia” e “Companheiros
do PT” — pudemos perceber que procurou-se atenuar a preponderância de
qualquer segmento, criando uma homogeneidade de elementos e valores
que encontraram na combinação de conceitos como socialismo e democracia
os elos comuns a uni-los. O surgimento de um segmento interno ao Partido,
a “Articulação”, representou um momento de instabilidade interna pelo fato
de fugir ao caráter plural, com o destaque de um segmento em particular.
Entretanto, com a posterior hegemonia da “Articulação” o discurso do Partido
continuou a ser homogêneo e democrático, buscando englobar todas as
correntes internas.
A partir da segunda metade da década de 80, a concepção
estratégica de “acúmulo de forças” para a conquista da hegemonia dos
trabalhadores se fortalecerá dentro do Partido, sendo que nesta se
combinavam e se harmonizavam a ação política institucional do Partido com
sua participação nas lutas dos movimentos sociais.

88
Para o estudo dos segmentos que formaram o PT, conferir: AZEVEDO, Clovis Bueno. A Estrela
Partida ao meio: ambigüidades do pensamento petista. São Paulo: Entrelinhas, 1995. E também:
KECK, Margaret E. A Lógica da Diferença: o Partido dos Trabalhadores na construção da
democracia brasileira. São Paulo: Ática, 1991.
89
Conferir: AZEVEDO, Clovis Bueno. Op. Cit.
3. A HISTÓRIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO
DOS TRABALHADORES — O “ACÚMULO DE FORÇAS”
(1984-1989)

Como analisamos no capítulo anterior, uma das principais


características do PT quando de sua fundação era a estreita ligação com os
movimentos sociais de base popular, com lutas localizadas de categorias
trabalhistas, etc.
A existência na história do Brasil de duas conjunturas ditatoriais — o
Estado Novo e o Regime Militar pós 64 — e um período democrático em que
os movimentos sociais eram, de certa forma, envolvidos por políticas
populistas — de 1946 a 1964 — fizeram com que essa característica do PT
— estreito vínculo com os movimentos sociais — se distinguisse da história
de outros partidos de esquerda.
O PT, como fruto de todas as transformações ocorridas a partir da
segunda metade da década de 70 ou como reflexo da resistência à ditadura
militar, manteve-se extremamente vinculado à sua matriz: as lutas populares
identificadas com os movimentos sociais. Dessas lutas, o movimento sindical
ocupou durante toda a história do Partido um importante espaço, mas uma
particularidade encontrada nos documentos do Partido foi que desde a sua
fundação este procurou criar uma homogeneidade que englobasse todas as
lutas contra a ditadura militar.
Esse caráter do Partido, que por um lado procurou criar uma unidade
para a pluralidade de lutas e, por outro, tentou canalizar essas lutas num
fronte distinto de ação política, foi o que marcou profundamente sua história,
constituindo-se ao longo de sua formação na grande fonte de legitimação das
lutas do Partido e, principalmente, no potencial “agente revolucionário”
responsável pelo futuro socialismo petista, um socialismo fundado nas
pluralidades da sociedade, um socialismo democrático.
Essa característica do Partido de se vincular às lutas sociais — como
os movimentos sindicalista, negro, feminista, grevista, de bairro, estudantil,
as ações da Igreja Católica contra a repressão, a resistência rural no campo,
etc. — foi o que proporcionou uma base de sustentação para o socialismo
democrático por ele defendido. Se, por um lado, a constituição histórica dos
regimes socialistas foram marcados pela paulatina suplantação das
pluralidades sociais, pela planificação da vida social e pela ação direta do
aparelho de Estado socialista, a gênese do PT foi na direção contrária a
estas propostas. Afinal, na conjuntura social e política que o PT surgiu, ele
não poderia defender um socialismo que, guardando suas diferenças, se
parecesse ao que existia no Brasil com a ditadura militar.
Desta forma, um dos grandes desafios do Partido para conceber uma
estratégia de ação era vincular numa mesma plataforma de luta a resistência
à ditadura militar instalada no governo e as lutas, sob um prisma histórico,
dos trabalhadores — daí seu caráter socialista.
Entretanto, ao se vincular às lutas históricas dos trabalhadores e ao
socialismo, o Partido se deparou com uma configuração da sociedade
capitalista, encontrada no Brasil, diferente de todas as conjunturas em que o
socialismo historicamente se desenvolveu. E, ao deixar num segundo plano a
concepção marxista-leninista de revolução, o Partido deveria dar conta de
uma nova concepção para o processo revolucionário, com a tarefa de
conceber uma via alternativa ao socialismo, pois, as outras deram sinais de
terem falhado em 1984 .
Ao não adotar o modelo marxista-leninista e criticar a conjuntura
social formada pelos regimes socialistas, o socialismo democrático foi reflexo
de uma configuração particular da sociedade num estágio distinto de
evolução do capitalismo. A sociedade brasileira em que surgiu o PT era uma
sociedade que passou em cinqüenta anos por um rápido processo de
industrialização, formada por uma classe trabalhadora que, por um lado,
sofreu na maior parte deste tempo a influência da política paternalista do
Estado brasileiro. Por outro lado, essa classe estava num processo de auto
formação, obedecendo ao aume nto construtivo e produtivo da economia
capitalista, não encontrando-se em nenhum momento deste processo
madura e coesa o suficiente para servir como uma “força revolucionária”,
caso a sociedade oferecesse condições históricas para isso.
Essa Sociedade de Massas que se formou no Brasil — com
características plurais na esfera de valores culturais, materiais, religiosos,
etc., formada por uma complexidade de relações sociais — e os movimentos
sociais — também plurais — reflexos desta sociedade forneceram o pano de
fundo para a atuação do PT. Ou seja, foi nos movimentos sociais dos
trabalhadores que o Partido tentou formar o seu “agente revolucionário” —
com a estratégia do “acúmulo de forças” que tornou-se o principal norte para
a ação do Partido — para colocar em ação o “processo revolucionário” com a
luta pela conquista da hegemonia na sociedade capitalista.
Outra singularidade do Partido foi que mesmo sendo fruto das
manifestações contrárias à ordem estabelecida pelos militares, o seu
principal campo de atuação política foi o proporcionando pela transição
democrática controlada pelos militares. Desta forma, os grandes
acontecimentos que pontuaram a transição democrática também balizaram a
história do Partido, fornecendo a direção para a sua análise acerca da
sociedade e pontos de apoio para o seu socialismo democrático. No decorrer
da década de 80 e, principalmente, no recorte de que trata este capítulo —
de 1984 a 1989 — o Partido, ao assumir suas grandes lutas, também
avançou no que concerne à concepção de seu socialismo democrático.
Como vimos no capítulo anterior, o socialismo petista nos primeiros
documentos aparecia movido muito mais pela emoção proporcionada pela
força dos movimentos sociais contra a ditadura militar, do que por uma
concepção de via socialista mais elaborada. Paulatinamente, após 1982, foi-
se delineando a concepção do “acúmulo de forças”, assim como a de
conquista da “hegemonia dos trabalhadores” na sociedade capitalista, que
via na vitória de qualquer luta do movimento social dos trabalhadores uma
somatória para a grande vitória contra a burguesia.
Desta forma, foi com essa estratégia de “acúmulo de forças” que o
Partido entrou nas principais lutas que diziam respeito aos interesses dos
trabalhadores, como as lutas pelas “Diretas Já”, contra o Colégio Eleitoral,
pela Constituinte, e, principalmente, na disputa da presidência da República
em 1989.
3.1. As principais lutas do PT

Após todas as agitações em que o Partido se envolveu no final da


década de 70 e nos primeiros anos da década de 80 — quando ainda era um
movimento — e nas eleições de 1982 — quando conseguiu sua legalização
— a luta pelas “Diretas Já” foi a primeira grande luta com caráter de massas.
Isto porque envolvia grande parte da população dos grandes centros urbanos
ou a maioria dos eleitores. Mesmo não sendo o PT o único propulsor do
movimento, este via na luta pelas eleições diretas uma grande arma
política90, pois, por um lado, permitiria aos trabalhadores a escolha do
presidente da República, e por outro, a presença do PT em grandes
manifestações a favor das “Diretas Já”, e outras formas de ação do Partido,
como a defesas das greves 91, serviam como forma de dinamizar outras
bandeiras de luta do Partido, dentre as quais se destacam as seguintes:

90
“Não estamos na luta por eleições diretas para a Presidência da República por razões
meramente táticas. Queremos eleições livres e diretas em todos os níveis por entendermos que só
ao povo cabe escolher aqueles que devem governá-lo. Não cremos que eleições livres e diretas
sejam atributos exclusivos do regime liberal burguês. A luta por eleições livres e diretas significa,
para nós, apenas o começo do futuro democrático e socialista que desejamos para o Brasil.
Nessas condições, a reivindicação de eleições diretas para a Presidência da República não é
bandeira exclusiva do PT. As eleições diretas também não têm, por si só, o condão de resolver
todos os problemas que afetam os trabalhadores e o País. Mas a conquista das eleições diretas
para a Presidência constitui passo importante na derrubada do Regime Militar. É por isso que
exigimos eleições livres e diretas, isto é, sem casuísmos, sem proibição de coligações, sem leis de
inelegibilidades, com ampla liberdade de organização e propaganda, direito de voto extensivo a
analfabetos e soldados, liberdade de organização partidária para todas as tendências políticas e
ideológicas.
Isso também significa que, para nós, a luta por eleições livres e diretas não tem prazo para acabar,
como ocorre com outros partidos de oposição. Significa também que essa campanha traz em seu
bojo a luta contra a política salarial, contra o desemprego, contra a estrutura sindical atrelada ao
Estado, contra o acordo com o FMI. Para nós, a luta por eleições diretas é uma luta pelo direito de
o
o povo exercer o controle do Governo.” In: Circular n . 06/84 (1984).
91
“Para nós, portanto, o grande desafio é romper os limites que parte das oposições tenta impor à
campanha. Daí que a luta por diretas, para transpor as bandeiras do campo puramente
institucional, deve combinar-se e desdobrar-se num plano que preveja grandes jornadas de lutas
de massas contra o Regime, tais como a proposta apresentada pela CUT, para discussão nos
Comitês Pró-Diretas, de uma greve geral. Nessas jornadas, tem importância fundamental o
movimento popular e sindical, suas reivindicações e suas formas de luta, como passeatas,
boicotes, ocupações e, sobretudo, as greves. Nesse plano, a CUT e sua proposta de greve geral
podem ter papel decisivo, desde que saibamos avaliar os acertos e erros das lutas de 21 de julho e
25 de outubro de 83. Neste momento, levar os trabalhadores à greve geral significa prepará-la de
forma sistemática, política e organizativamente, o que exige, além de iniciativa da CUT, o
aprofundamento do trabalho de base, a busca de apoios e alianças na área sindical e articulações
1 — Revogação da Lei de Segurança Nacional (LSN) e demais leis
repressivas, bem como dos dispositivos constitucionais sobre medidas de
emergência e estado de emergência, e desmantelamento do aparelho
repressivo.
2 — Rompimento imediato com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e
imediata suspensão do pagamento da dívida externa, com a subsequente
investigação de caso a caso.
(...)
5 — Reforma Agrária sob direção e controle dos trabalhadores que
garanta terra para quem nela trabalha.
6 — Liberdade e autonomia sindicais, com reconhecimento efetivo do
direito de greve e desatrelamento da estrutura sindical em relação ao Estado.
7 — Reformulação com efetiva participação dos trabalhadores — das
leis sobre trabalho, salários, previdência social e aposentadoria.
92
(...)

No entanto, rejeitada a Emenda Dante de Oliveira no Congresso e


fracassada a luta de massas pelas “Diretas Já”, o Partido empreendeu
praticamente sozinho e como força de oposição a continuação da luta pelas
eleições diretas93. Porém, tal iniciativa não resultou em êxito94, pois a
mobilização popular havia se direcionado para a votação no Colégio Eleitoral
do futuro presidente da República. O Partido fez o seguinte balanço da luta
pelas “Diretas Já”:

com o movimento popular e os partidos políticos empenhados na campanha de massa por


eleições diretas.” Ibidem.
92
Resolução Política do Diretório Nacional – Plataforma de Lutas (1984).
93
“É fundamental, contudo, que todos os companheiros se compenetrem de que a mobilização
popular, pelo menos nos seus primeiros passos, não poderá ter, lamentavelmente, a mesma força
alcançada pelas manifestações do primeiro semestre deste ano. Isso porque muitas das forças
que apoiaram a campanha pela Dante de Oliveira no primeiro semestre – e principalmente os
governos do PMDB – estão agora, equivocadamente, voltadas para o reforço do Colégio Eleitoral e
para a escolha indireta do Presidente da República. Não obstante, ainda existem, além do PT,
numerosas entidades populares e alguns segmentos políticos que não abandonaram a luta pelas
Diretas -já e estarão dispostos a juntar-se a nós, nesta fase da campanha.
Isso que dizer, em última análise, que o PT não deve ter receio de tomar a iniciativa de convocar e
organizar manifestações populares contra o Colégio e pelas Diretas -já, mesmo que elas,
inicialmente, não reunam o mesmo número de pessoas nem tenham a mesma repercussão que os
grandes comícios do primeiro semestre deste ano. É fundamental que o processo de mobilização
popular seja retomado, porque ao contrário do que muitos possam recear, um pequeno número de
manifestações não enfraquecerá a campanha, desde que essas manifestações sejam
descentralizadas, multiplicadas em bairros, e assumam formas diversificadas e criativas. No lugar
de comparar as manifestações do segundo semestre com as do primeiro semestre, é necessário
contrapor o caracter democrático e popular dessas manifestações por Diretas-já com o caracter
anti-democrático e elitista dos conchavos em torno da candidatura indireta do acordo de cúpula
o
PDS-PMDB.” [grifos no original] In: Circular n . 20/84 (1984).
94
“A possibilidade de aprovação de uma Emenda Constitucional pró-diretas-já é cada dia mais
remota. Portanto, é necessário combater a transição, e, para isso, combater a polarização,
procurando consolidar o campo popular e uma base de massas, e acumulando forças – sem a
“O principal saldo da campanha por eleições livres e diretas foi a ampla
mobilização de setores populares e dos trabalhadores. Fator de politização, a
campanha, ao assumir um caráter de massas, contribuiu para desagregar o PDS
e para aprofundar a crise do Regime.
Do ponto de vista político, ela representou o retorno das classes
populares ao palco da luta institucional, questionando a forma de sucessão
presidencial em vigor e colocando nas ruas suas reivindicações por
transformações econômicas e sociais. A campanha das Diretas devolveu à
população a autoconfiança em sua capacidade de organização e de luta. A
população resgatou, também, formas de ação política direta que o Regime
Militar, ao longo de 20 anos de repressão, tentara sufocar, como as passeatas e
os comícios de grandes proporções.”95

No tocante à estratégia do “acúmulo de forças”, a ênfase das lutas do


Partido, fracassada a campanha pelas diretas, recaiu na votação do
presidente da República pelo Colégio Eleitoral. O Partido assumiu uma
postura de ferrenha crítica à “ilegitimidade” de tal Colégio96, em que ambos
os candidatos a serem eleitos não representavam a vontade do povo, pois,
não foi dado ao povo a possibilidade de escolher seus candidatos e ambos
os nomes representavam uma continuação do regime militar sob a forma
civil.
O Partido manteve uma visão crítica de ambas as candidaturas97, não
apoiando a “Aliança Democrática” que se configurava como uma possível
resistência ao regime e que contava com a simpatia popular:

pretensão de testá-las agora – para a atuação mais eficaz a médio prazo.” In: Circular no. 30/84
(1984).
95
Encontro Nacional Extraordinário (1985).
96
“É preciso, portanto, inverter o discurso do PT e modificar a sua ênfase: é por razões políticas, e
não moralistas , que combatemos o Colégio e a polarização, expressão da transição burguesa. É
preciso combater o inimigo principal – a ditadura e seu candidato oficial Maluf – mas também é
preciso combater a aliança PMDB-PDS pelo que ela representa, politicamente, de continuidade da
dominação burguesa. A negativa do voto à candidatura tancredista não decorre do fato de que ela
é indireta, mas do que ela politicamente e dos acordos que ela implica. Embora reconhecendo
eventuais diferenças entre Tancredo e Maluf, as semelhanças entre as duas candidaturas indica
que ambas devem ser combatidas. O PMDB e sua aliança com setores do PDS são responsáveis
pela legitimação do candidato Maluf e do malufismo. O combate a ambas as candidaturas deve
incidir sobre itens fundamentais da nossa plataforma de dez pontos que são indispensáveis para
atender as mínimas reivindicações das classes trabalhadoras e que nenhuma das duas
candidaturas está disposta a assumir, com o rompimento com o FMI, a revogação da Lei de
Segurança Nacional (LSN) e a Reforma Agrária.” In: Circular no. 30/84.
97
“[...] os petistas [...]devem ter consciência de que terão de lutar, sempre e simultaneamente,
contra duas frentes: de um lado, o projeto de continuidade rígida do regime, representado pelo
núcleo militar mais à direita e por ‘candidatos’ do tipo de Maluf, Andreazza, ou outro qualquer; e,
de outro lado, pela continuidade amenizada mas real do regime, representada pelo conchavo de
setores conservadores e reacionários do PMDB com setores oportunistas e igualmente
conservador e reacionário do PDS, e que se expressa na candidatura Tancredo/Sarney. É preciso
levar em conta, ainda, que, provavelmente, a totalidade da imprensa burguesa e dos órgãos de
“A Aliança Democrática reunificou, num único bloco, latifundiários,
banqueiros, industriais, grupos estrangeiros e setores militares. E, na tentativa
de ocultar este caráter de classe, seus objetivos continuístas e sua legitimidade,
a Aliança Democrática explorou o sentimento popular de repúdio a Maluf,
apoiou-se na palavra de ordem de mudanças. Daí entender porque a população,
desejando as eleições diretas, mas não vendo como conquistá-las de imediato,
tenha sido envolvida pelo falso dilema Tancredo ou Maluf. E, posta diante dele,
foi levada a manifestar a preferência pelo menor, como manda a velha tradição
do País. Ao mesmo tempo, a participação do PMDB na campanha transferiu
para os comícios o peso de sua influência sobre amplos setores populares, que
ainda tem dele a imagem do partido de oposição ao Regime de 64.
Vitoriosa graças ao grande bloco de forças que aglutinou, a Aliança
Democrática buscou arrastar para o Colégio Eleitoral o único partido que se
mantém independente: o PT. Não se tratou, para ela, de precisar dos votos do
PT, dada a sua evidente maioria entre os delegados, mas de conquistar nosso
apoio político, social e ideológico para o projeto de transição das classes
dominantes e para o pacto social que pretende legitimá-lo e consolidá-lo.
Embora a diversidade de setores que compõem a Aliança Democrática não
tenha permitido, até agora, a apresenta ção de um projeto político e econômico
mais acabado, os hegemônicos da Aliança já têm definidos alguns
compromissos e objetivos fundamentais. São eles: a eleição de um Congresso
de centro-direita em 1986, a quem se entregaria a reforma da Constituição; a
aceitação da tutela militar; o compromisso de honrar todos os acordos com o
FMI e com o capital financeiro do País e do exterior; garantia de intocabilidade
da propriedade fundiária, mantendo como padrão de política agrária a mera
aplicação do Estatuto da Terra; em resumo, um conjunto de linhas que
representam a disposição, já manifestada pelo próprio candidato a presidente,
98
de manter-se fiel aos ideais de 64.”

Ao se negar a participar da Aliança Democrática 99 e dada a sua


incompatibilidade com a candidatura Maluf/Andreaza, o caminho escolhido
pelo Partido foi o de negação ao Colégio Eleitoral, com a recusa de participar
da votação que escolheria o futuro presidente da República. Entretanto, tal
decisão gerou uma pequena crise interna, pois, três deputados do Partido

comunicação de massa, segmentos das classes médias altas, políticos profissionais e carreiristas,
e toda uma gama de oportunidades, estarão optando ou pelo projeto Maluf/Andreazza ou pelo
projeto Tancredo/Sarney, ambos tendo em comum a característica principal de manter a classe
o
trabalhadora fora do cenário de decisões políticas, econômicas e sociais.” In: Circular n . 20/84.
98
Encontro Nacional Extraordinário.
99
“Num momento em que a Aliança Democrática tenta consolidar sua hegemonia de classes
através da adesão dos trabalhadores a um pacto social e através da participação do PT na
transição conservadora, é fundamental que o Partido preserve sua independência política.
Primeiro, porque o PT nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados
de servir de massa de manobra para os políticos e partidos comprometidos com a atual ordem
econômica, social e política. Segundo, porque a recusa à dominação burguesa se expressa
também pela organização dos movimentos sociais e suas lutas e por sua autonomia em relação ao
Estado. Depois, porque nossa atuação no Parlamento e nas instituições tem como objetivo utilizar
essas tribunas e espaços a serviço da luta pela ampliação da margem de liberdade política e a
conquista de reivindicações econômico-sociais, sempre postas em função do acúmulo de forças
dos trabalhadores, tendo em vista conquistar o poder e o socialismo.” Ibidem.
desobedeceram as deliberações e votaram no que representava a oposição,
ou seja, em Tancredo Neves 100. Isto para o Partido representou um momento
de instabilidade, tanto internamente quanto para a opinião pública, e a forma
de contorná-lo e dar uma resposta aos críticos foi a punição aos deputados:

“[ a CEN] Reafirma que todos os filiados, parlamentares ou não, devem


respeitar e acatar as decisões majoritárias democraticamente adotadas no
partido; e, por conseguinte, critica os três deputados — Airton Soares, Bete
Mendes e José Eudes — por terem desrespeitados a democracia interna do PT,
ao desacatar decisão majoritária, tomada pelos organismos nacionais, de não ir
ao Colégio Eleitoral, e afirma que as manifestações desses três deputados não
101
mais expressam as posições oficiais e majoritárias do PT (...)”

Outra conseqüência desta decisão de não comparecer ao Colégio


Eleitoral e não apoiar Tancredo Neves foi o fato do Partido indiretamente se
contrapor à gigantesca manifestação de massa em comoção ao estado de
saúde e posterior falecimento do presidente eleito. Nesta ocasião, o Partido
lançou um comunicado à imprensa102 se reposicionando frente aos
acontecimentos, carreando as manifestações de massas para a defesa da
ordem legal com a sucessão do vice-presidente José Sarney, tentando, com
isso, conter uma possível volta dos militares à esfera política:

“O PT considera que a confirmação do Vice-presidente José Sarney na


presidência da República, é a solução que nos resta para a situação criada com
o impedimento do Presidente Tancredo Neves, sobretudo por contrapor-se a
103
qualquer manobra golpista.”

Mantida a legalidade com a posse de José Sarney, as grandes


bandeiras de luta do Partido se voltaram contra o governo da Aliança

100
“No Encontro Nacional do PT, realizado em Diadema, nos dias 12 e 13 de janeiro deste ano
[1985], foi legitimamente tomada a decisão de que: se algum deputado federal eleito pelo PT
participasse do Colégio Eleitoral, a Comissão Executiva Nacional deveria pedir que ele se auto-
desligasse do partido; e, em caso de recusa, numa segunda fase, a Comissão Executiva Nacional
e o Diretório Nacional tomariam as providências de desligá-lo;” In: Proposta de Resolução da
Comissão Executiva Nacional ao Diretório Nacional.
101
Ibidem.
102
“O Partido dos Trabalhadores, irmanado com os demais brasileiros, vem acompanhando com
tristeza os sofrimentos do Presidente Tancredo Neves, e junta sua voz à de todos quantos
desejam o mais pronto e completo restabelecimento de sua saúde.
Com o mesmo senso de responsabilidade e de respeito. Neste momento de angustia com a saúde
do Presidente e de aflição com a situação do Brasil – o PT julga de seu dever vir a público para
apresentar as posições e as propostas que se seguem (...)” In: Nota à Imprensa.
Democrática104 e, principalmente, para a defesa de uma Assembléia Nacional
Constituinte que respeitasse os interesses dos trabalhadores 105.
Os principais pontos defendidos pelo Partido acerca da Assembléia
Constituinte foram os seguintes:

“(1) — O PT propõe a convocação, por parte do Congresso Nacional e


com sanção do Presidente da República, de uma Assembléia Nacional
Constituinte, livre, democrática e soberana, de caráter unicameral, funcionando
ao mesmo tempo e independentemente do atual Congresso.
(2) — O PT defende a convocação imediata da Assembléia Nacional
Constituinte, devendo o processo de debate para a eleição dos constituintes
iniciar-se ainda em 1985. O PT propõe a eleição e instalação da Assembléia
Nacional Constituinte para o mês de março de 1986 com prazo de oito meses
para encerramento de seus trabalhos.
(3) — O PT lutará pela conquista de condições as mais democráticas
possíveis para a convocação, a eleição e o funcionamento da Constituinte. As
principais dessas condições são as seguintes:
(3.1) — Revogação da exigência do quorum de dois terços, no
Congresso Nacional, para a aprovação de emendas constitucionais;
(3.2) — Direito de voto para todos os brasileiros maiores de 18 anos,
inclusive analfabetos, soldados e marinheiros, bem como introdução de
mudanças que democrati zem o alistamento eleitoral;
(3.3)— Fim da Lei de Segurança Nacional, das salvaguardas incluídas
na Constituição (medidas e estado de emergência e estado de sítio), das demais
leis repressivas e extinção dos órgãos do aparelho repressivo;
(3.4) — Fim da Lei Falcão; proibição de propaganda eleitoral paga nos
meios de comunicação de massa; garantia de condições de propaganda e
igualdade de acesso de todos os partidos aos meios de comunicação de massa;
106
(...)”

103
Ibidem.
104
“Contra a política econômica da Aliança Democrática, que não pretende romper os
compromissos do Regime Militar com o FMI; contra o pacto social que prevê congelamento de
preços e de salários apenas para manter o arrocho salarial, o PT propõe aumentos reais de
salários; reajustes trimestrais e escala móvel de salários corrigida pelo INPC do mês; salário-
desemprego; jornada semanal de 40 horas, sem redução de salário; estabilidade no emprego e
políticas imediatas de geração de empregos, de alimentação, de saneamento, de moradias
populares, de melhorias dos transportes, de saúde – um programa de emergência voltado para a
população carente. Para combater a recessão, a inflação, o desemprego, a concentração de
renda, e para retomar o crescimento econômico sobre novas bases, o PT propõe o rompimento
dos acordos com o FMI, a suspensão do pagamento da dívida externa e uma reforma agrária sob
controle dos trabalhadores. É preciso que o PT elabore, a partir do Projeto de Programa
Econômico, propostas de políticas alternativas no plano econômico, com base nos interesses e
reivindicações dos trabalhadores, tendo sempre claro que não haverá mudanças institucionais
democráticas no País sem a luta social e a pressão das massas, dado o caráter reacionário e
conciliador do atual Congresso Nacional, dominado pela Frente Liberal e a ala conservadora do
PMDB.” In: Encontro Nacional Extraordinário.
105
“Por isso, devemos dar prioridade à organização e unificação das lutas dos movimentos, para,
sem pacto nem trégua, termos uma Constituinte com a mais ampla liberdade, representatividade e
democracia – requisitos que serão mais ou menos amplos dependendo da maior ou menor
participação dos trabalhadores, de forma direta, na elaboração das leis. Ainda que assegurados
estes requisitos e diante da atual correlação de forças, devemos deixar claro que o PT continuará
lutando para transformar a ordem social, econômica e política vigente, já que nosso objetivo é a
construção do socialismo.” Ibidem.
As lutas contra o governo da Aliança Democrática ficava no plano da
denúncia, assim como acontecera na luta contra os militares, pois o ataque
ou mesmo a defesa da destituição de tal governo poderia fornecer os
subterfúgios para a volta dos militares à esfera política. Na defesa da
Assembléia Constituinte o Partido pecou por suas próprias deficiências,
como vemos na citação abaixo:

“Durante muitos anos o PT teve uma correta posição de cautela diante


da Constituinte. Em 1984, afastada a possibilidade de uma vitória da campanha
da ‘Diretas Já’ e, conseqüentemente, de uma ruptura institucional que abrisse
um espaço democrático para posterior mudanças estruturais, o PT voltou-se
para a Constituinte como uma alternativa para alargar o campo de atuação da
classe trabalhadora. Foi além. Apresentou um projeto de convocação de um
Assembléia Nacional Constituinte, livre, soberana, unicameral, dissociada de
poderes já constituídos, precedida da remoção de leis repressivas e
antecedendo as eleições gerais regulares. E, ainda mais, encomendou a um
notável jurista a elaboração de um ante-projeto de Constituição, como ponto de
partida para debates e discussões.
Apesar de tudo isso, o PT não foi capaz de escapar à armadilha
habilmente montada pela burguesia no poder, que convocou um Congresso com
poderes constituintes, bi-cameral, composto por Colégios Eleitorais Estaduais,
em eleições em que se misturaram a escolha de parlamentares, as sucessões
majoritárias estaduais e a preparação de sucessão presidencial.
O PT não discutiu o projeto de Constituição que encomendara; não
elaborou um projeto próprio de Constituição; não demarcou com nitidez as
diferenças — e, portanto, a relevância — das eleições para o Congresso
Constituinte; não definiu uma linha básica comum a ser definida por todos os
que concorriam a Câmara dos Deputados e ao Senado, e, finalmente, permitiu
que a campanha se transformasse numa disputa individual e convencional para
eleger deputados.”107

Quando da decisão de participação ou não no Colégio Eleitoral, o


Partido consultou as suas bases para homologar o seu posicionamento final.
O meio utilizado para consultar as bases não foi através dos Núcleos108, que
teoricamente se vinculavam aos movimentos sociais podendo proporcionar

106 o
Circular n . 07/85.
107
Uma Contribuição para o Debate.
108
Convém ressaltar que foram coletados para a consulta alguns dados referentes a encontros de
núcleos de categorias, entretanto, estes não representam a principal referência para a consulta
aos filiados.
uma maior abrangência à consulta109, mas, por encontros do Partido, sendo
que os consultados circunscreveram-se aos filiados.
Mesmo sendo uma consulta restrita aos filiados do Partido, a
participação destes foi insignificante, pois a média de participação à consulta
não ultrapassou, em nível nacional, a 7% do número de filiados 110.

Como podemos perceber no quadro que apresentamos a seguir, em


certas regiões como o Rio Grande do Sul, a participação total não
ultrapassou 2% do números de filiados.

QUADRO 1*
ESTADO FILIADOS TOTAL PORCENTAGEM
Acre 1.293 99 7.6
Bahia 11.932 463 3.9
Ceará 8.806 611 6.9
Goiás 8.959 965 10.8
Goiânia - - -
Maranhão 6.778 179 2.6
Mato Grosso 1.623 123 7.6
Minas Gerais 33.275 2.613 8.1
Paraíba 5.775 218 3.8
Paraná 13.392 504 3.8
Pernambuco 9.479 53 5.6

109
Como analisamos anteriormente, aquilo que já vinha se delineando até as eleições de 1982, se
acentuou no decorrer da década de 80, ou seja, a progressiva desestruturação dos Núcleos de
Base. Neste período analisado foram produzidos pelo partido documentos críticos acerca da
existência dos Núcleos de Base, de um destes foi extraída a seguinte citação que constatava a
inexistência de dados sobre os Núcleos: “A partir de janeiro de 83 entramos num processo de
recomposição dos organismos intermediários a até hoje o partido não respondeu satisfatoriamente
à organização dos núcleos. Pelo nosso levantamento atual (...) que é otimista, porque inclui
núcleos parados e inclui os núcleos rurais que se confundem com as delegacias sindicais e as
CEBs, temos 668 núcleos. Em janeiro de 81 a Secretaria de Organização de São Paulo informava
que dos 72 mil filiados, 6 mil e quinhentos estavam organizados em núcleos, o que representava
menos de 10% do partido. Hoje, eles nem sabem se a porcentagem persiste, aumentou ou
diminuiu. Entre as causas apontadas para a diminuição dos núcleos se encontra a ausência de
uma clara sistematização das experiências já acumuladas de nucleação.” In: Plano Nacional de
Organização
110
“O Partido dos Trabalhadores tem 290.000 filiados, em 24 Estados, dos quais 281.432 nos 19
Estados em que, pelas informações disponíveis até o momento, realizou-se a consulta. Dispõem-
se de dados razoavelmente completos para 15 Estados, com 251.120 filiados. Nestes Estados,
pelo menos 18.749 filiados compareceram aos encontros e votaram, o que dá uma média de 7.5%.
Para São Paulo, dispõem-se de dados completos e essa porcentagem é de 9.8%. Dada a
subestimação dos dados disponíveis para alguns Estados, como Rio Grande do Sul e Bahia,
incluídos nos 15, deve-se admitir que o comparecimento real deve ter sido mais próximo da média
de São Paulo (9.8%). Houve comparecimento ainda maior no Piauí (16.5%), Brasília (12.3%) e
Goiás (10.8%). Em suma, a provável é que entre 25 a 30 mil filiados devem ter participado na
consulta do Partido dos Trabalhadores.” In: Fundação Wilson Pinheiro – Consulta às Bases do PT.
*
FONTE: Fundação Wilson Pinheiro – Consulta às Bases.
ESTADO FILIADOS TOTAL PORCENTAGEM
Piauí 3.811 627 16.5
Rio de Janeiro 31.443 2.200 7.0
Rio Grande do Norte 2.561 76 3.0
Rio Grande o Sul 20.710 347 1.7
Santa Catarina 8.420 492 5.8
São Paulo 95.907 9.445 9.8
Sergipe 1.495 143 8.9
Distrito Federal 2.000 245 12.3
Espírito Santo 4.880 398 8.2
Total 281.432 19.792 7.0

Além da não consideração dos Núcleos de Bases em um momento


importante para a democracia do Partido, a quantidade de filiados que
participaram da consulta não refletiu a grande maioria . O Partido explicou
esta desproporção da seguinte maneira:

“Esta porcentagem pode parecer baixa, mas não é, pois o ‘filiado’ é todo
eleitor que em determinado momento dá apoio formal à agremiação política. Ele
não pode ser confundido com o participante ativo, que contribui para os cofres
partidários e comparece regularmente a reunião de diretórios ou núcleos. No PT
cerca de 20% dos filiados são participantes ativos, o que certamente constitui
111
uma porcentagem elevada entre os partidos brasileiros.”

Nessa mesma época, surgiram documentos importantes acerca dos


Núcleos de Base. No Regimento Interno 112 de 1984 foram regulamentados os
direitos113 e os deveres dos Núcleos e suas principais funções:

111
Ibidem.
112
Semelhante ao Estatuto do PT, o Regimento Interno mantêm atrelado os Núcleos de Base à
estrutura deliberativa do partido: “(A) Organizar a ação política dos filiados, segundo a orientação
dos órgãos de deliberação e direção partidária, estreitando a ligação do partido com os
movimentos sociais;(B) Aprender e assimilar, transmitindo ao partido e ao conjunto da sociedade,
a realidade existente, as condições de vida, de trabalho e de estudo, bem como os problemas e
aspirações dos trabalhadores em suas áreas de atividade; (C) Participar, no âmbito do Programa e
das Resoluções das Convenções e demais órgãos de direç ão de nível superior, da elaboração da
orientação e das políticas setoriais do partido, buscando caminhos para transmiti-las aos
trabalhadores e respeitando as condições concretas e específicas de sua área de atividade; (...)”
In: Regimento Interno do Partido dos Trabalhadores.
113
“Art. 11 – Os núcleos, de qualquer tipo, têm igualmente os seguintes direitos:
a) iniciar ações articuladas de núcleos vizinhos ou afins, dentro de uma mesma área municipal,
para desenvolver campanhas de interesse comum, dando conhecimento destas aos diretórios
correspondentes;
b) encaminhar propostas, ações de recurso, consultas ou críticas aos órgãos de nível superior,
inclusive à Convenção Nacional;
c) propor aos órgãos superiores a realização de instâncias consultivas, como encontros,
seminários, etc., para debate e aprofundamento de problemas de interesse político ou social.”
Ibidem.
“Art. 3 o. — As funções dos núcleos de base são as seguintes:
a) organizar a ação política dos filiados, segundo a orientação dos
órgãos de deliberação e direção partidária, estreitando a ligação do Partido com
os movimentos sociais;
b) aprender e assimilar, transmitindo ao Partido e ao conjunto da
sociedade, a realidade existente, as condições de vida, de trabalho e de estudo,
bem como os problemas e aspirações dos trabalhadores em suas áreas de
atividade;
c) participar, no âmbito do programa e das resoluções das convenções e
demais órgãos de direção de nível superior, da elaboração da orientação e das
políticas setoriais do Partido, buscando caminhos próprios para transmiti -las aos
trabalhadores e respeitando as condições concretas e específicas de sua área
de atividade;
d) estimular e fortalecer as entidades representativas dos trabalhadores
e dos movimentos populares, participando regularmente de suas reuniões e
campanhas reivindicatórias, em todos os níveis;
e) participar dos movimentos sociais e orientar e encaminhar a ação
política dos militantes de núcleo nesses movimentos, respeitando sempre suas
decisões:
1- emitir opinião sobre as questões municipais, regionais e nacionais
que sejam submetidas a seu exame pelos respectivos órgãos de direção
partidária;
2- aprofundar e garantir a democracia interna do Partido dos
Trabalhadores;
3- promover a educação política dos militantes e filiados;
4- sugerir aos órgãos de direção partidária consulta aos demais núcleos
de base sobre questões locais, regionais ou nacionais de interesse do Partido;
5- convocar o Diretório Municipal, nos termos do art. 16 do estatuto; e
114
f) fazer filiações.”

Na citação acima, podemos perceber que a principal característica


dos Núcleos de Base do PT permanecia sendo sua estreita relação com o
movimento social. Entretanto, em um outro documento, foi avaliado o quanto
era difícil essa tarefa dos Núcleos:

o
“Em 1 . de maio de 1980, por ocasião do Primeiro Encontro do PT,
tínhamos 28 mil filiados e 623 Núcleos de Base. Um ano e meio depois, em
setembro de 1981, após um processo de filiação intenso visando a legalização
do partido, acreditávamos ter numa previsão otimista, 300 mil filiados e mil
núcleos. A campanha eleitoral de 82, além de diluir os organismos dirigentes do
partido, diluiu também os Núcleos de Base.
A partir de janeiro de 83 entramos num processo de recomposição dos
organismos intermediários a até hoje o partido não respondeu satisfatoriamente
à organização dos núcleos. Pelo nosso levantamento atual (...) que é otimista,
porque inclui núcleos parados e inclui os núcleos rurais que se confundem com
as delegacias sindicais e as CEBs, temos 668 núcleos. Em janeiro de 81 a
Secretaria de Organização de São Paulo informava que dos 72 mil filiados, 6 mil

114
Ibidem.
e quinhentos estavam organizados em núcleos, o que representava menos de
10% do partido. Hoje, eles nem sabem se a porcentagem persiste, aumentou ou
diminuiu. Entre as causas apontadas para a diminuição dos núcleos se encontra
a ausência de uma clara sistematização das experiências já acumuladas de
nucleação.
Observamos que os núcleos se mantém onde estão ligados aos
movimentos sociais e onde os filiados se motivam a participar da vida do partido.
Há PT fraco em lugares onde o movimento social é forte, mas não há PT
forte onde os movimentos sociais são fracos. Isso no mínimo significa que o PT
continua a receber do movimento social sua força mas não tem provocado sua
115
existência onde eles não existem.”

Feito a constatação das dificuldades do Partido em se relacionar com


os movimentos sociais116, uma das principais prioridades era implementar
essa atuação dos Núcleos 117. Entretanto, os movimentos sociais, numa
concepção mais elaborada feita pelo Partido, estruturavam-se sob dois
grandes frontes de ataque contra a sociedade capitalista: os movimentos
populares e o movimento sindical, estabelecendo a seguinte relação do
Partido com os mesmos:

“Portanto, somente quando os trabalhadores estiverem organizados


politicamente, em torno de seu partido e de uma nova proposta de poder e do
exercício democrático do governo, é que será possível mudar a natureza e o
caráter do Estado e, com ele, a própria sociedade. Estado e sociedade só se
transformam pela ação política. Eis aí a tarefa fundamental do PT enquanto

115
Plano Nacional de Organização – Projeto a ser submetido ao Diretório Nacional.
116
“De um lado, enfrentamos dificuldades para nos ligar estreitamente ao movimento popular. É
ponto de honra do PT afirmar que não há organização partidária sem trabalho de base, mas muitos
petistas têm, em sua prática, vícios que condenamos em outros partidos: querer resolver tudo por
cima, buscar, sem representatividade real, posições no Partido, fazer discussões intermináveis e
fechadas, etc. Referimo-nos, também, aos que usam o PT como espaço político para passar suas
próprias posições sem se submeterem às instâncias partidárias, considerando o PT uma frente
o
política.” In: Circular n . 06/84
117
“Mas isso não basta. Temos de criar núcleos que se liguem às lutas do bairro, do local de
trabalho, da categoria profissional. É nas ligações com as lutas concretas que estão as
motivações, o dinamismo, a própria razão de ser dos núcleos de base do PT. O que dá vitalidade
aos núcleos de base de Diretórios é a sua capacidade de mobilizar os trabalhadores nas
reivindicações locais, por creche, saneamento, escola, transporte, saúde, bem como nas demais
campanhas – sejam eleitorais ou de solidariedade aos movimentos grevistas – que contribuem
para a preparação das lutas gerais indicadas em plataformas nacionais. O que sustenta o núcleo
por local de trabalho e o núcleo por categoria profissional é a sua capacidade de mobilizar os
militantes na organização dos trabalhadores em seu local de trabalho, no apoio às lutas sindicais,
na discussão da política salarial, na criação de novas lideranças. Os núcleos de base do PT só
serão organismos vivos, enfim, se, além de se ocuparem do debate dos documentos políticos e da
construção partidária, forem capazes de aprender, elaborar e aplicar linhas políticas realistas e
adequadas para os movimentos sociais. É a realidade cotidiana do trabalhador que deve servir de
matéria-prima para as reuniões dos núcleos. O filiado, como qualquer pessoa, não se sente à
vontade num núcleo onde se quer ‘fazer a sua cabeça’ a qualquer custo, em claro desrespeito às
suas dificuldades, conflitos e aspirações.” Ibidem.
representante dos interesses dos trabalhadores: transformar, por completo, a
sociedade brasileira.
Entretanto, os movimentos popular e sindical não podem, jamais, estar
subordinados ao Partido. O PT deve lutar para assegurar a autonomia e
independência desses movimentos diante do Estado, dos demais partidos e do
próprio PT. Isso, no entanto, não significa que renunciemos ao nosso direito e ao
nosso dever de, como Partido, formular propostas para os movimentos sociais.
Assim, é da maior importância que o PT oriente seus militantes para
definirem suas propostas de atuação nesses movimentos, mas também é
importante saber que, ao apresentarem suas propostas, já o fazem na qualidade
de membros dos movimentos de que participam. É justo que os petistas
busquem a unidade de ação como militantes do Partido, mas mantendo sempre
o respeito à autonomia dos movimentos e às suas próprias instâncias
118
deliberativas.”

Como podemos notar na citação acima, semelhante a uma análise


anterior, a organização dos movimentos em torno do Partido era uma das
principais condições para a organização política dos trabalhadores.
Entretanto, tal relação não poderia se dar com a intervenção direta do Partido
nos movimentos, devendo-se respeitar a autonomia deles, assim como as
decisões de suas instâncias deliberativas. Ou seja, além da constatação de
que a relação do Partido com os movimentos sociais era fraca119 , esta não
poderia ser incisiva ao ponto de intervir na dinâmica e nas decisões de tais
movimentos.
Diante dos obstáculos práticos encontrados pelo Partido na
sociedade, uma concepção mais apurada acerca do socialismo democrático
pouco caminhou no período de 1984 a 1985 e a saída encontrada pelo PT

118
Ibidem.
119
“Até o momento, não temos uma política nacional de crescimento e construção partidária que
vá além das tarefas de legalização, por mais indispensáveis que estas sejam. Pela quase completa
falta de recursos materiais, e pelas dificuldades de mobilização de recursos humanos, não temos
estabelecido prioridades nacionais que permitam pôr em prática a regionalização do Partido. Não
podemos ter a crença ingênua de que é possível falar uma mesma e só linguagem em São Paulo,
ABC e no norte do País. Muito embora nossos objetivos sejam nacionais, não podemos querer que
se tornem homogêneas e inteiramente iguais experiências dos trabalhadores que são diferentes
nos quatro cantos do País. A realidade não é homogênea e igual, e temos de aprender a vê-la e a
entendê-la;
Na maioria dos estados, é débil a nossa presença organizada nos movimentos sociais. Em
algumas regiões, quer pelas características de seu desenvolvimento econômico e social, quer pelo
peso conservador da sociedade, praticamente não existe movimento sindical ou qualquer outro
movimento popular. No entanto, a miséria e o sofrimento são enormes, como o atesta, muitas
vezes, a vida de nossos próprios militantes. Daí que, em algumas regiões ou cidades, a presença
do PT seja apenas mera referência nominal. Em outros casos, onde o movimento popular e
sindical é dinâmico e o PT tem base social, mas não tem políticas claras, ou tem uma prática
equivocada ou não adaptada à realidade, o PT adquire uma imagem que afugenta potenciais
filiados e até mesmo faz perder militantes ativos, dificultando o crescimento partidário.” Ibidem.
para dinamizar sua estruturação e, de certa forma, atenuar esses obstáculos
foi levantar bandeiras de lutas políticas dos trabalhadores contra a situação
econômica em que se encontrava a sociedade brasileira, semelhante às lutas
pelas eleições diretas, contra o Colégio Eleitoral e pela Constituinte “livre”,
entre outras.

“Nas condições de crise em que o Brasil vive, hoje, a luta econômica


dos trabalhadores é cada vez mais uma luta de caráter político. Do ponto de
vista dos trabalhadores, as saídas possíveis para a situação econômica atual
passam, necessariamente, pelo fim do regime atual e pela conquista da
democracia, que garanta aos trabalhadores, em todos os níveis, a direção das
decisões políticas e econômicas do País.
A crise não afeta indistintamente todos os setores da sociedade e vem
sendo gerenciada para favorecer as classes dominantes, ou seja, o grande
capital nacional e multinacional e o sistema financeiro. O capitalismo joga o peso
da crise sobre os trabalhadores e o povo, e só morrerá se for combatido pela
luta política dos trabalhadores no rumo de uma sociedade sem explorados e
sem exploradores.
(...)
Como medida urgente e indispensável para fazer frente a esses
problemas, defendemos o rompimento imediato dos acordos com o Fundo
Monetário Internacional (FMI). É também indispensável e urgente a imediata
suspensão do pagamento da dívida externa, acompanhada por investigação
profunda e análise responsável, caso a caso, com garantia da divulgação dos
resultados aos trabalhadores e ao conjunto da população, para que, então, se
possa decidir, soberanamente, sobre uma dívida que o povo não contraiu, e se
possa chegar, assim, à punição judicial dos responsáveis pelas falcatruas, pela
120
corrupção e pelo descalabro econômico a que o País está reduzido.”

3.2. Os avanços na concepção do Socialismo Democrático

Nos anos que faltam para complementar a análise do período de 1986


a 1989, foram produzidos no PT importantes documentos acerca do
socialismo democrático petista, principalmente, referentes às Resoluções de
Encontros Nacionais.
Nestes documentos, o Partido delineou suas estratégias políticas e
suas expectativas acerca do seu futuro e de sua interação com a sociedade
brasileira. Um dos principais pontos e referência era a conceitualização do
socialismo que o Partido defendia, apontando bases de intervenção na

120
Ibidem.
sociedade, ao contrário dos anos anteriores, em que o Partido colocou para
os trabalhadores um socialismo indefinido.

– Plano de Ação Política e Organizativa do Partido dos Trabalhadores para o


período de 86/87/88

O primeiro documento a ser analisado, consiste no “Plano de Ação


Política e Organizativa do Partido dos Trabalhadores para o período de
86/87/88” aprovado no 4o. Encontro Nacional de 1986.
Esse documento parte de uma análise do desenvolvimento do
capitalismo no Brasil, procurando fazer uma avaliação do estágio da
formação das classes sociais, e, principalmente, da classe trabalhadora.
O desenvolvimento do capitalismo no Brasil foi analisado nesse
documento como sendo desproporcional ao tamanho do país. Os pólos mais
avançados estavam concentrados em regiões distintas, sendo que no
restante do país predominavam várias formas de produção e de
121
tecnologia . Essa desproporção no avanço do capitalismo teria sido
responsável pelo surgimento de uma “classe trabalhadora diversificada”122,
que, segundo o Partido, ao contrário da classe dominante 123, não conseguiu
unificar seus setores 124.

121
“O capitalismo encontra-se num alto nível de desenvolvimento no Brasil, neste final do século
XX. Todavia, o capitalismo expandiu-se aqui de forma regionalmente muito desigual. No centro-sul
e no sul do País há um capitalismo relativamente concentrado, que, principalmente em São Paulo,
alcançou um razoável grau de centralização. Mas no resto do Brasil o capitalismo está disperso
por pequenas empresas, com algumas poucas exceções, e aproveita-se, em medida considerável,
de formas atrasadas de produção. Em muitas regiões chega a predominar a economia mercantil
simples e não a economia mercantil capitalista. Mesmo nas áreas desenvolvidas é bastante
disseminada a existência de cerca de 2,5 milhões de pequenas empresas familiares, industriais e
comerciais, além de uma agricultura de pequenos produtores, que contrasta com as agropecuárias
capitalistas e os latifúndios.” In: Plano de Ação Política e Organizativa do Partido dos
Trabalhadores para o período 86/87/88.
122
“Esse tipo de desenvolvimento capitalista no Brasil expandiu, do ponto de vista social, uma
diversificada camada de assalariados urbanos e rurais na indústria, no comércio, nos serviços em
geral e na agricultura, incluindo aí uma pequena burguesia de extensão razoável. Além disso,
apesar do processo de expropriação a que foram e continuam sendo submetidos os camponeses e
os pequenos e médios proprietários urbanos, essas camadas cresceram em termos absolutos,
acompanhando o aumento da população. A pequena burguesia proprietária, incluindo donos de
pequenas empresas industriais, comerciais e de serviços (familiares e com alguns assalariados),
autônomos e camponeses, abrange uma considerável massa da população brasileira.” Ibidem.
123
“Assim, é possível perceber hoje, na sociedade brasileira, a existência de uma poderosa classe
burguesa, originária dos antigos senhores de terra da época imperial e que foi, gradativamente,
incorporando e integrando setores mercantis e comerciais, o setor industrial (1930), o setor
O Partido dividiu as classes trabalhadoras do Brasil em três grandes
setores. O primeiro setor comportava uma particularidade, pois, compreendia
a classe média, com as mais variadas atividades que na concepção do
Partido estavam a meio caminho entre a burguesia e os trabalhadores:

“A classe média começa a se formar no período colonial e — ao longo


de surtos e saltos recentes (1920/1930, 1950/1960, 1964/1970) — sofre grandes
transformações, tanto em termos étnicos como demográficos, econômicos,
sociais, políticos e culturais. Hoje, ela é constituída de uma gama aparentemente
heterogênea de tipos sociais , que vão desde o produtor agrícola individual ou
familiar, o micro e o pequeno empresário comercial ou industrial, o trabalhador
autônomo, o profissional de nível superior empregado no Estado ou na empresa
privada, o trabalhador intelectual das áreas de serviços e com unicações, o
trabalhador manual com preparo técnico e salário diferenciado em relação à
massa operária, até os estudantes e parte do clero e do pessoal subalterno das
Forças Armadas, etc. Apesar da extrema heterogeneidade, essa classe média
tem em comum a circunstância de que também sofre, por parte da burguesia,
exploração econômica e opressão política e ideológica, embora em graus
diferenciados, e de forma às vezes distinta do nível de exploração e opressão a
que são submetidos os demais trabalhadores assalariados da cidade e do
campo. Essa identidade comum não tem sido suficiente, contudo, para dar à
classe média um projeto histórico e ideológico único, e freqüentemente seus
diversos setores e seus milhões de integrantes são cooptados pela burguesia,
tanto econômica como politicamente, mais do que ela mesma tem optado pelas
posições e propostas dos demais trabalhadores assalariados. Além de tudo isso,
a classe média brasileira sofre, de maneira marcante, as diferenças regionais, e
enquanto é mais presente e atuante no centro-sul, ou nas capitais, é mais
125
rarefeita e desorganizada no interior, ou no norte e nordeste” .

A classe trabalhadora — que vendia seu trabalho — era dividida em


dois setores. De um lado, acompanhando o desenvolvimento da sociedade
capitalista no Brasil, estavam os trabalhadores assalariados urbanos e, de
outro, numa perspectiva pior quanto às condições de vida, estavam os
assalariados do campo.

latifundiário e financeiro (1950), o setor de serviços e de comunicação, bem como o setor de


monopolização e internacionalização do capital (1964), etc. Não obstante alguns dos setores
integrantes da burguesia brasileira apresentarem divergências e conflitos entre si em determinados
períodos conjunturais, eles têm se mostrado capazes de integração e unificação ideológica e
política em momentos de crise, como o mostram a Revolução de 30, a Redemocratização de 45, a
implantação da ditadura militar em 1964 e, mais recentemente, a superação do risco de uma
ruptura democrática e a conquista de uma relativa hegemonia por meio da transição conservadora
(1984).” Ibidem.
124
“No campo oposto, também foram se formando, pouco a pouco e com enormes dificuldades, as
classes trabalhadoras no Brasil. Ao contrário da burguesia, porém, as classes trabalhadoras
brasileiras ainda não conseguiram integrar e unificar de uma forma satisfatória os seus diversos
setores, de origem e história diferenciados, e que têm tido papéis sociais e políticos distintos, em
grande parte como resultado do desigual desenvolvimento do capitalismo.” Ibidem.
“Os trabalhadores assalariados urbanos, constituídos por descendência
de imigrantes estrangeiros, pela proletarização da classe média rural e urbana
ou pela incorporação de parte dos trabalhadores rurais que migram para as
cidades, vêm tendo um acentuado desenvolvimento na estrutura social brasileira
desde o último quartel do século XIX. Seu volume cresce à medida em que se
desenvolve a sociedade capitalista, com a expansão do setor industrial, o
surgimento e a ampliação de atividades de serviços e comunicações, o
crescimento da rede escolar e da rede financeira e bancária, a disseminação
das construções, dos meios de transportes, etc. A classe operária, como fração
estratégica desse setor e de todo o conjunto das classes trabalhadoras — pelo
seu papel na produção e na reprodução para a acumulação de mais-valia,
sustentáculo de todo o sistema capitalista — também vem se expandindo, no
sentido de que, hoje em dia, está presente, embora em graus diferenciados, em
praticamente todo o território nacional.
Os assalariados do campo diferenciam -se dos urbanos não apenas pelo
volume consideravelmente menor que esse contingente ocupa no processo de
produção, mas também pelas condições de trabalho, significativamente
inferiores às que, em geral, vigem nas cidades. Além disso, os assalariados
rurais também se distinguem de certas camadas da classe média rural, que
dispõem de algum tipo de meio de produção, integral ou compartilhadamente.
Muitas vezes, o trabalhador assalariado do campo não se distingue do pequeno
ou mesmo médio produtor agrícola, em termos de condição de trabalho e de
vida e, dependendo da região do País e das características da produção agrária,
o produtor sem terra tem nível de vida mais precário do que o assalariado rural,
mesmo temporário. É comum, em certas regiões do País, a transição sazonal
entre um setor e outro, fazendo com que o pequeno produtor se transforme no
126
assalariado do produtor médio ou grande.”

Os trabalhadores, por formarem uma classe fragmentada,


encontravam mais dificuldades do que a burguesia para formar a sua
consciência de classe. Quando a formavam, essa era também fragmentada
em níveis diferenciados: da classe média127, dos assalariados urbanos128 e
dos assalariados do campo129.

125
Ibidem.
126
Ibidem.
127
“A classe média brasileira, em grande parte por causa de suas características híbridas, tem
graus variados de consciência e organização. Nos centros urbanos, a classe média, por si ou, às
vezes, em conjunto com forças das Igrejas e dos partidos políticos, tem conseguido organizar-se
através de movimentos de idéias e da criação de entidades associativas. Tais movimentos e
entidades revelam sua fragilidade, contudo, nos períodos conjunturais de caráter autoritário
(Estado Novo, 1937/1945; Ditadura militar, 1964/84), em que praticamente desaparecem, para
tentar reaparecer nos períodos de normalidade. Nos últimos anos, tem crescido a organização da
classe média através de entidades associativas e representativas, movimentos de reivindicação ou
resistência, participação na vida político-partidária e acesso ao Poder Legislativo.” Ibidem.
128
“(...) A partir de 1974, crises internas no bloco dominante, o esgotamento do modelo
econômico, a insatisfação crescente da população, foram criando condições para o surgimento de
reivindicações, movimentos e entidades em setores da classe média e dos trabalhadores urbanos
(artistas, intelectuais, estudantes, jornalistas, professores), bem como nos bairros das favelas e da
periferias, com o amparo de setores da Igreja Católica. Em 1978 irrompe a combatividade de
setores de ponta da classe operária, principalmente no ABC e, a partir daí, foram se multiplicando
Diante das características das classes sociais encontradas na
sociedade brasileira, o PT chegou à seguinte conclusão referente ao estágio
da luta de classe nessa sociedade:

“(...) Há momentos em que essa luta de classes, aparentemente, passa


para segundo plano. Isso acontece por força do aumento da repressão ou nos
períodos conjunturais autoritários em que o setor burguês que domina o Estado
atrai contra si uma espécie de ‘aliança’ transitória entre as classes (1937/1945,
1964/1984), o que também constitui, no fundo, uma particular forma de luta de
classes. Mas assim que esses períodos começam a mostrar sinais de
desaparecimento, a luta de classes — que permanecera latente e oculta —
ressurge à tona com nitidez. É o que está ocorrendo no atual período
conjuntural, (...) Como conclusão desta análise, é possível dizer que o
capitalismo no Brasil desenvolve de maneira desigual e subordinada ao
imperialismo, com uma burguesia e um Estado burguês modernos, organizados
e aparelhados em luta contra uma classe trabalhadora em diferentes graus de
organização: a classe média, de contornos ambíguos e híbridos, semi-
organizada, e o proletariado urbano e rural em crescente organização, embora
ainda frágil. Apesar do seu grau de desenvolvimento e modernidade, a
burguesia e o Estado não têm conseguido resolver as contradições
fundamentais do desenvolvimento do conjunto da sociedade e, por isso, apelam
para a força repressiva, em situações de crise que procuram evitar com medidas
superficiais e paliativas destinadas a acalmar ou cooptar setores sociais mais
reivindicativos. Mas a superação definitiva da exploração e da opressão sobre o
povo brasileiro não se dará com simples reformas superficiais e paliativas, mas
sim com a ruptura radical contra a ordem burguesa e a construção de uma
sociedade sem classes, igualitária, que, por meio da socialização dos principais
meios de produção, vise a abundância material para atender à s necessidades
materiais, sociais e culturais de todos e de cada um de seus membros, ou seja,
130
a construção do socialismo.”

Como podemos perceber na citação acima, uma das soluções para o


embate da classe trabalhadora consistia em uma ruptura com a ordem social
existente no Brasil.

as manifestações de conscientização, de organização e de luta do proletariado: greves, passeatas,


manifestações, criação de entidades associativas e representativas, substituição de diretorias
sindicais pelegas por oposições combativas, congressos estaduais e nacionais e criação de
centrais sindicais.” Ibidem.
129
“Os assalariados do campo sempre tiveram maior dificuldade que os da cidade para se
organizarem, em grande parte pelas próprias características da multiplicidade das formas de
relações de propriedade e de trabalho no campo, em parte pelo alto grau de opressão e repressão
exercidas pelos senhores de terra. Não obstante, na década de 50 surgem sinais de
conscientização mais agressiva e tentativas de organização independente, como as Ligas
Camponesas. A Contag, surgida em 1962, vai exercer papel significativo na aglutinação dos
trabalhadores rurais, mas a ditadura de 64 também vai destruir o que havia de embrionário no
movimento camponês, e só nos últimos anos, ao lado do aumento da sindicalização rural (oficial),
os trabalhadores sem terra estão começando a se organizar. Apesar da ausência de uma forte e
extensa organização camponesa, os conflitos no campo vêm se amiudando e, não raro,
assumindo caráter armado e violento.” Ibidem.
130
Ibidem.
Entretanto, as condições para criar uma consciência na classe
trabalhadora para que essa se transformasse em classe hegemônica na
sociedade não estavam dadas 131. Por isso, o caminho que continuou a ser
percorrido pelo Partido era aquele que já vinha se delineando desde o início
da década de 80, o “acúmulo de forças”:

“(...) é possível desde já dizer que provavelmente o processo de


transformação — isto é, o caminho para o socialismo no Brasil — será
multifacetado, assumirá mil formas de manifestação, terá avanços e recuos, e
será marcado por um êxito central básico constituído de grandes e cada vez
mais freqüentes e intensas ações políticas de massa, auxiliadas por todas as
formas de luta de classe trabalhadora — da participação em campanhas
eleitorais às greves e aos enfrentamentos com a burguesia e com o Estado.
Nesse sentido, é importante reconhecer que, no atual estágio (...) a classe
trabalhadora tem ainda, pela frente, um longo e dificultoso processo de
acumulação de forças e fortalecimento de sua organização, mas terá de
combinar, desde já, com conquistas reais no plano político, econômico e social,
132
que lhe permitam avançar no caminho.”

A luta na sociedade capitalista era colocada no plano da luta de


classes. A forma de ação da classe trabalhadora consistia na mobilização do
movimento social, na característica ímpar deste, vislumbrada pelo Partido, de
poder representar os vários setores da classe trabalhadora e, principalmente,
em sua função estratégica.

“(...) O projeto socialista deve incorporar as perspectivas colocadas por


diferentes movimentos sociais que combatem opressões específicas — como
das mulheres, dos negros, das nações indígenas, etc. — indispensáveis para
golpear importantes pilares da dominação exercida pela burguesia; deve engajar
em profundidade a maioria da população brasileira num processo de
transformação do País e construir uma sociedade efetivamente nova; deve,
também, englobar movimentos de caráter cultural, nacional ou ambiental; e
deve, por fim, assumir formas de contestação de mecanismos não estatais de
dominação burguesa, mas que são vitais para a reprodução da ideologia e dos
valores fundamentais da burguesia, entre outros elementos, traduzindo em
atividade política concreta e questionamento, por exemplo, do monopólio
burguês dos meios de comunicação de massa. Esse conjunto de percepções

131
“E, embora ainda não esteja colocada para o conjunto da classe trabalhadora a consciência
dessa necessidade, é possível afirmar que o estágio do desenvolvimento do capitalismo, da
formação das classes e do grau de luta entre as classes, no Brasil, já apresentam as condições
necessárias para as lutas que permitam um acúmulo de forças, ampliem o espaço democrático,
assegurem e intensifiquem os avanços e as conquistas populares e, ainda mais, criem as brechas,
os caminhos e as pontes capazes de conduzir às transformações indispensáveis na direção da
construção de uma sociedade socialista.” Ibidem.
132
Ibidem.
constituem componentes indispensáveis, hoje, à constituição de uma visão de
mundo e de uma prática política efetivamente libertária. O socialismo se tornará
um propósito muito mais poderoso e influente se for mais do que uma
democracia política e econômica, e se passar a ser compreendido como um
novo modo de vida, baseado numa visão de mundo profundamente crítica e
humanista, qualitativamente superior a tudo que o capitalismo pode oferecer.
Algo que possa responder a toda uma série de necessidades sentidas, em graus
variados, por todos. Isso pressupõe a difusão de uma perspectiva realmente
emancipadora, reforçando a credibilidade das massas trabalhadoras no ideal
133
libertário socialista.”

Uma particularidade deste documento diz respeito aos possíveis


aliados dos trabalhadores na sua luta pela construção da sociedade
socialista, aliados esses que não são necessariamente trabalhadores, ou
seja, a necessidade de alianças134 com os pequenos produtores e
empresários:

“A conscientização, a organização e a acumulação de forças da classe


trabalhadora passa, necessariamente, por um processo de integração e
unificação de seus diversos setores e frações num projeto histórico e político
comum, em que sejam levados em conta tanto os objetivos finais — a
construção do socialismo — quanto as peculiaridades e os conflitos que hoje
distinguem, e às vezes separam, aqueles setores e frações. Assim, só é
possível conquistar, para esse projeto comum, o apoio e a participação das
grandes camadas da pequena burguesia rural e urbana, na luta pela radical
transformação da sociedade rumo ao socialismo, no Brasil, se forem
asseguradas a tais camadas condições reais do progresso social — sem
135
ameaças a seus limitados meios de produção.”

Com isso, abriram-se duas grandes questões. A primeira, sobre quem


seriam os indivíduos que acumulariam forças para a vitória socialista contra a

133
Ibidem.
134
“Estas considerações permitem, desde já, também, delimitar as linhas gerais e o caráter das
alianças que serão necessárias e possíveis no processo de transformações no rumo do
socialismo. Alianças e acordos serão necessários, e indispensáveis, entre o conjunto heterogêneo
de forças políticas e sociais que atuam no interior das classes trabalhadoras, e que, cada uma a
seu modo, representam com maior ou menor grau de legitimidade interesses e valores setoriais e
conjunturais dos diversos componentes da classe. Por outro lado, é impossível supor alianças
estratégicas com a burguesia e com as forças políticas que sustentam a dominação e a hegemonia
da classe burguesa e a perpetuação do sistema capitalista. Certamente, em determinadas
conjunturas, pode-se tornar imprescindível fazer acordos restritos e limitados em torno de pontos
definidos, concretos e objetivos, com forças que não lutam pelo socialismo, mas é necessário
abandonar de vez a ilusão de que seja possível manter uma tática antagônica à estratégia, ou de
que, com palavras e discursos hábeis, seja viável enganar momentaneamente as forças sociais e
políticas contrárias ao socialismo. As experiências históricas do Brasil e de outros países mostram
que são os pretensos enganadores que sempre acabam logrados, e que as alianças da classe
trabalhadora com a burguesia só favorecem os interesses desta, e atrasam ou impedem o avanço
da organização daquela, bem como o caminho para o socialismo.” Ibidem.
burguesia se, juntamente com os trabalhadores expropriados e a classe
média, fossem somados os pequenos proprietários. E a segunda, com
relação a se pensar em como seria o modo de produção da sociedade
socialista vislumbrada pelo Partido se esse passou a defender interesses de
pequenos proprietários privados.
O Partido se preocupou com essas questões e tentou solucioná-las,
por um lado relativizando sua vitória socialista:

“(...)Muitos confundem as formas de propriedade com as formas de


organização do trabalho, o que cria embaraços ao pleno desenvolvimento das
potencialidades do trabalho. É plenamente possível que uma empresa
estatizada, portanto de propriedade social, tenha um alto grau de autonomia na
elaboração de seu plano de produção e na organização interna do trabalho.
Assim, controle de propriedade pelo Estado, planejamento estatal, autogestão
democrática, distribuição conforme a produção, produção conforme as
necessidades estabelecidas pelo Estado e também detectadas no mercado,
tudo isso demanda uma combinação global e flexível no sentido de desenvolver
as formas produtivas, aprofundar o processo de socialização dos meios de
produção, acelerar a produtividade do trabalho e a economicidade da produção
e atender as crescentes necessidades materiais e culturais do povo.
Nesse sentido, é preciso combater a imagem de que o mercado
desaparecerá no dia seguinte em que os trabalhadores estiverem no poder.
Enquanto a produção social for limitada, enquanto essa limitação obrigar que
continue vigorando o ganho segundo o trabalho e não conforme as
necessidades, isso significará que os trabalhadores continuarão tendo que
trabalhar como uma obrigação de sobrevivência e significará que a sociedade
ainda não pode se ver livre do mercado. Evidentemente, no socialismo poderão
desaparecer os excessos do consumismo burguês, mas isso não significa que
as massas deixarão de consumir ou deixarão de desejar possuir todos os bens
que melhorem as suas condições de vida. O socialismo não pretende nivelar o
padrão de vida da população por baixo, mas sim por cima, favorecendo o bem-
136
estar e o confo rto de todos, e não apenas de minorias privilegiadas.”

A defesa dos interesses dos pequenos produtores ao longo do


desenvolvimento da sociedade socialista colocaria esses como principais
aliados dos trabalhadores, além de fortalecer formas alternativas de
produção que não tivessem o grande capital como principal elemento
propulsor.
Entretanto, outra concepção acerca da futura sociedade socialista
vislumbrada pelo PT aproximava-se estreitamente de concepções clássicas

135
Ibidem.
136
Ibidem.
de socialismo 137 , pois, tinha por princípio básico o preponderante e paulatino
controle dos meios de produção pelo Estado, com formas de propriedade
que não a privada.

“Assim, levando em conta as experiências e as condições do


desenvolvimento capitalista brasileiro, provavelmente será necessário e
possível, nos primeiros momentos de uma sociedade socialista no Brasil, utilizar
diversas e múltiplas formas de propriedade social dos meios de produção —
através da estatização e da coletivização por formas cooperativas ou outras —
de acordo com o tam anho da empresa, a sua natureza e o setor de produção
em que se encaixa e o papel estratégico que desempenha no processo global
de produção. Mas continuarão existindo o pequeno produtor individual ou a
pequena propriedade familiar, que deverão receber estímulo e amparo, no
138
sentido de evoluir para formas cooperativas de produção.”

Para dinamizar o projeto socialista, o Partido apontou dois caminhos


principais para o período, quais sejam: a melhor compreensão da realidade
brasileira e das condições existentes no Brasil para a constituição da
sociedade socialista139 e o aumento da luta pelo “acúmulo de forças” dos
trabalhadores pela hegemonia na sociedade.
No que se referia à luta pelo “acúmulo de forças”, o Partido teve que
traçar um plano de ação e de luta dos trabalhadores e, para tanto, necessitou

137
Este trecho que se segue demostra a preocupação do partido com os perigos de uma
estatização completa, de uma só vez da economia, o que também torna relativa a sua defesa do
pequeno produtor ou empresário, ambos paulatinamente seriam assimilados por formas
alternativas de propriedade que não a privada: “A estatização e a coletivização administrativa da
pequena produção e da propriedade dos meios de produção, tanto urbana quanto rural, podem ser
prejudiciais, tanto do ponto de vista econômico quanto político. Economicamente porque exigem,
para seu controle, a formação de uma pesada máquina burocrática, cuja eficiência é muito
discutível, entorpecendo a iniciativa dos pequenos produtores estatizados ou coletivizados e
impedindo o aproveitamento de todas as potencialidades para desenvolver mais rapidamente as
forças produtivas materiais. A médio prazo, levam a economia à estagnação, criando desequilíbrio
entre a produção e o consumo e entre os diversos ramos produtivos.” Ibidem.
138
Ibidem.
139
“A projeção dos delineamentos gerais de uma futura sociedade socialista no Brasil, tanto
quanto do processo de transformações para se chegar a ela, exige o concurso de três vertentes de
conhecimentos, que precisam ser adequadamente combinadas e articuladas: o estudo sistemático,
objetivo e aprofundado da realidade concreta do Brasil, nas suas dimensões histórica, social,
econômica, cultural, política e institucional; a teorização da prática social dos movimentos sociais
brasileiros, notadamente o popular, o sindical e o político-partidário, fonte indispensável para a
apreensão concreta do que e do como fazer histórico cotidiano nas condições brasileiras; e a
avaliação crítica das contribuições teóricas dos que pens aram a construção do socialismo, pelo
seu cotejamento com as experiências concretas já tentadas em vários países de todo o mundo
nestes últimos cem anos. O resultado desse esforço há de ser a imagem de um socialismo não
‘livresco’, nem de ‘gabinete’, nem de ‘cúpula’, nem ‘importado’, nem ‘retórico’, nem ‘imposto’, etc.,
mas sim de um socialismo nascido da realidade brasileira, pensado e construído a partir da
vontade e das ações das classes trabalhadoras, nas condições de necessidade e de possibilidade
que essas mesmas classes irão modificando com sua ação concreta.” Ibidem.
de uma análise crítica da situação política em que se encontrava a sociedade
brasileira naquele momento 140. Como em situações anteriores, o “inimigo
objetivo” do Partido era identificado nos detentores do poder de Estado, os
representantes da Aliança Democrática , responsáveis pela manobra para
conquistar o apoio popular para a causa da burguesia, ou seja, pela
mobilização popular em torno dos pacotes econômicos — Planos Cruzados
— do governo na defesa do congelamento de preços.

“O congelamento gerou, porém, mobilização popular, maior participação


nas discussões econômicas e maior base de apoio político para o Governo,
absolutamente inegáveis. Por que? Em primeiro lugar, porque o congelamento
dos preços é uma bandeira secular das classes trabalhadoras e significa, ainda
que por pouco tempo, a desarticulação de uma forma complementar do
processo de exploração do trabalho e de acumulação do capital. Em segundo
lugar, quando a população se mobiliza com a tabela e denuncia a remarcação
de preços está, no nível da consciência espontânea, lutando contra o setor do
capital, contra uma das formas de exploração. Isso significa que o congelamento
tenta jogar o conflito de classes para outro nível, em que o capital tem maiores
possibilidades de administrá-lo. O congelamento e a campanha oficial pela
fiscalização procuram retirar o conflito de classes da fábrica, onde se dá a forma
originária e fundamental da exploração no capitalismo, e deslocá-lo para a
relação preço/consumidor. Portanto, tenta retirar a luta de classes do nível da
produção e jogá-la para o nível da circulação de mercadorias. É esse nível que
aparece para a consciência espontânea da massa, como conflito de classes,
como uma luta contra a exploração e o capital. O congelamento, nessa
conjuntura, representa uma manobra política extremamente eficiente da classe
dominante porque tira, momentaneamente, o conflito de classe da fábrica, da
produção, e o lança no nível da circulação. Nesse caso, o conflito de classes
aparece como uma relação entre os preços e o consumidor e não entre salários

140
“A Aliança Democrática assumiu essa tarefa de tirar a burguesia da crise conjuntural em que
estava mergulhada e, ao mesmo tempo, realizar as manobras e as concessões indispensáveis
para manter as massas sob sua hegemonia e evitar aguçamento perigoso das contradições
sociais. Aproveitando-se das esperanças que procurou inocular nas massas, com a vitória de
Tancredo no Colégio Eleitoral e da comoção que sua morte causou, o Governo Sarney avançou,
primeiramente, na realização de reformas políticas parciais, com o claro intuito de cercear a
participação popular no Parlamento, na Constituinte e no controle democrático do poder, e adiar ao
máximo as mudanças que se faziam necessárias na economia. Mesmo a reforma agrária, cuja
necessidade (embora com objetivos diferentes) só não é reconhecida por setores reacionários do
latifúndio, não tem passado da promessa formal de realizá-la e de medidas paliativas nas áreas de
maior tensão, onde continuam a atuar as milícias dos latifúndios e onde o assassinato de
trabalhadores rurais permanece impune.
As eleições de 1985 mostraram um profundo descontentamento popular com os rumos do
Governo e sua inoperância e imobilismo no atendimento da maior parte das reivindicações
econômicas, sociais e políticas. E deflagraram uma crise relativamente séria na AD, cada vez mais
sob a hegemonia dos conservadores. Com o perigo da perda de suas bases populares e de
sustentação, os setores liberais do PMDB passaram à disputa aberta da direção do Partido e da
AD, a pretexto de que o Governo não estaria cumprindo o programa de mudanças acertado com
Tancredo. O episódio da renovação do Ministério, na qual ganhou predomínio o PFL e no qual
pontificam figuras do antigo Regime, foi o ponto de virada da posição da chamada ala progressista
do PMDB.” Ibidem.
e lucro, que é a base fundamental do processo de exploração da sociedade
141
capitalista.”

Frente à essa conjuntura, o Partido estabeleceu linhas de atuação. No


prisma econômico, o PT trouxe à tona novamente a luta contra a carestia,
tentando apontar às massas as limitações do plano econômico do
142
governo . Neste particular, o movimento sindical e, principalmente, aquela
que mais espelhava as políticas do Partido no movimento sindical, a CUT,
passou a ter, na concepção do Partido143, um papel primordial de mobilização
dos trabalhadores contra a política econômica do governo.

“A CUT tem definido a Campanha Nacional de Lutas/86, Salário e


Emprego para Todos, numa perspectiva correta, assentando as bases para
recriar uma dinâmica nacional de lutas. O PT deve apoiar essa proposta,
agregando-lhe novos elementos. Assim, as tarefas do Partido no movimento
operário e popular são:

141
Ibidem.
142
“Na luta contra a carestia, que voltou a ganhar uma ênfase considerável, será preciso levar em
conta a atual mobilização das massas pelo controle do congelamento, adotando, ao mesmo
tempo, uma postura mais crítica e ofensiva para fazer avançar o movimento de massas. Do ponto
de vista crítico, será necessário realizar um paciente trabalho de esclarecimento, mostrando as
limitações das medidas de congelamento e os resultados que tais limitações poderão trazer sobre
a inflação real e sobre os salários. Ao mesmo tempo, é preciso indicar as medidas que deveriam
ser adotadas para tornar efetivo o congelamento, medidas que incluem o monopólio sobre o
comércio atacadista, a compra obrigatória, pelo Estado, dos gêneros e produtos essenciais, com a
manutenção de estoques reguladores; o controle direto das unidades produtivas, para evitar que
os preços de produção pressionem os preços de venda; o controle dos juros, para permitir o
rebaixamento dos custos de produção.
Para fazer frente a esse novo estágio da luta contra a carestia, torna-se necessário, ao PT,
participar da mobilização das massas, com propostas claras de oposição global ao pacote
econômico, apontando para políticas efetivas de participação na luta pelo congelamento, com
eixos centrais em defesa do congelamento, com eixos centrais e prioritários:
a) participar dos movimentos que já existiam em defesa do congelamento dos preços de gêneros
essenciais de consumo popular, serviços e tarifas de serviços públicos (luz, água, transporte);
b) participar dos comitês de congelamento, movimentos de massa e associações que lutem pelo
congelamento, sempre na perspectiva de defesa dos interesses populares.” Ibidem.
143
“Os militantes do PT devem levar as propostas socialistas para os trabalhadores, devem fazer
propaganda do socialismo e discutir com os trabalhadores a necessidade de um novo poder e de
uma nova sociedade. Nesse tipo de atividade, eles procuram elevar a consciência, a mobilização e
a organização da massa dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, incorporar ao PT aqueles que
mais se destacam no processo de luta e aqueles que despertaram para a política. Nessa atividade,
os militantes petistas, empenhados na luta pelo socialismo, procuram imprimir na prática e na ação
do sindicalismo a busca desse objetivo do Partido, sem, contudo, pretender impor-lhes um
programa alternativo de poder, socialista. O movimento sindical não deve ficar restrito às bandeiras
econômicas. Ao lutar para que a CUT e os sindicatos assumam bandeiras políticas, os petistas
devem ter o cuidado de que essas bandeiras expressem as aspirações, reivindicações e
necessidades das grandes massas e não só de uma parcela dos trabalhadores. Nesse sentido, a
luta contra a dívida externa, pela ampla participação popular na Constituinte, pela incorporação
dos direitos adquiridos dos trabalhadores na nova Constituição, pela liberdade e autonomia
sindical e outras bandeiras podem mobilizar os trabalhadores em geral.” Ibidem.
1º- Combinar a campanha da Constituinte com o processo das lutas
operárias (Campanha Nacional de Lutas, greves, mobilizações, etc.), assumindo
as principais bandeiras do movimento (reforma agrária, 40 horas, não
pagamento da dívida externa, Convenção 87 da Organização Internacional do
Trabalho — OIT, etc.);
2º- Orientar todas as suas candidaturas (tanto majoritárias quanto
proporcionais) no sentido de que elas estejam a serviço das lutas que virão,
devendo, portanto, aparecer identificadas com as propostas dos trabalhadores
nos processos de mobilização (greves, etc.);
3º- Realizar grandes campanhas políticas nacionais em torno de
bandeiras populares, sobre a dívida externa, liberdade de organização dos
trabalhadores, contra as demissões, etc.;
4º- Articular sua militância sindical e popular no sentido de unificar as
lutas, visando concentrá-las no segundo semestre de 86, no período anterior às
eleições (15 de novembro). Nesse processo, o Partido tem que se preocupar em
144
dar uma perspectiva política maior e mais global para as diversas lutas.”

Entretanto, essa luta de cunho sindical — como as demais lutas do


Partido — vinculava-se à principal luta do período, a vitória dos
trabalhadores no Congresso Constituinte, que era, naquele momento, o
grande depositário da estratégia de acumular forças para a hegemonia dos
trabalhadores:

“Todos sabem que os direitos dos trabalhadores não serão assegurados


apenas com garantias constitucionais e legais. No entanto, a experiência das
últimas décadas de luta nos mostra, também, que inscrever direitos e garantias
na Constituição é uma forma de assegurar que a luta pela implementação e pela
sua realização possam crescer e se ampliar ainda mais. Talvez o melhor
exemplo seja o do direito de greve. Nos últimos anos, os trabalhadores não
precisaram esperar que o efetivo direito de greve estivesse reconhecido na
Constituição para se organizarem e lutarem. O ciclo de greves dos últimos dez
anos mostra que a prática combativa rompe muitos obstáculos. No entanto,
todos sabemos que, reconhecidos os direitos de greve e a autonomia sindical,
torna-se mais difícil que ocorram intervenções do Estado nos sindicatos e, como
tantas vezes aconteceu durante a Ditadura, que o avanço do próprio movimento
sindical seja dificultado com intervenções, cassações e medidas punitivas.
Essas contradições da luta política apontam para a necessidade de os
trabalhadores intervirem de forma decisiva e vigorosa no processo constituinte,
seja para ampliá-lo, com a revogação do chamado entulho autoritário, como
LSN, Lei de Greve, Lei de Imprensa, etc., abertura da legislação eleitoral, em
particular no que diz respeito à representação municipal, para incluírem na futura
Constituição muitas das suas conquistas e direitos, aprofundando, assim, as
brechas no Estado e no capitalismo. Torna-se imprescindível, portanto, que o
crescimento popular dos trabalhadores do campo e da cidade esteja
politicamente preparado para intervir e marcar transição com os seus interesses,
145
as suas perspectivas e as soluções práticas que permitem alcançá-las.”

144
Ibidem.
– Resoluções Políticas do 5 o. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores

As análises constantes das Resoluções Políticas do 5o. Encontro


Nacional do PT foram de encontro ao que vinha se delineando nos
documentos analisados anteriormente, principalmente, no que se refere ao
socialismo democrático e à estratégia de “acúmulo de forças”.
Neste documento, foi dada considerável importância para aqueles que
se constituiriam nos potenciais aliados dos trabalhadores no Plano de Ação
Política e Organizativa para a construção do socialismo, os setores médios
da sociedade. Ou seja, era importante a implementação de alianças com os
setores médios da sociedade, pois, esses demorariam mais tempo para
serem extinguidos 146 na futura sociedade socialista:

“A pequena produção serve para que a sociedade desenvolva suas


forças produtivas, contribua para que não haja escassez de bens e serviços e
permita incorporar ao trabalho o conjunto da população economicamente ativa,
sem prejudicar a eficiência das empresas socialistas nem a constante redução
da jornada de trabalho. Essa política de desenvolvimento da capacidade
produtiva da sociedade, utilizando todas as forças econômicas, é a base da
aliança dos trabalhadores assalariados com a pequena burguesia urbana e rural.

145
Ibidem.
146
“O desenvolvimento desigual e desequilibrado do capitalismo no Brasil coloca diante dos
trabalhadores uma série de questões relacionadas com a construção socialista após a conquista
do poder. Questões que aparecem, desde já, em função das propostas programáticas do PT e das
alianças estratégicas que devem ser realizadas para obter a hegemonia contra a burguesia.
Evidentemente, o desenvolvimento intenso do capitalismo nos últimos 30 anos colocou bases
firmes para o estabelecimento de um sólido setor socialista na economia. Nas grandes
cooperativas agro-industriais capitalistas, grandes empresas comerciais e de serviços e bancos, a
socialização com a apropriação privada dos resultados da produção permite sua transformação
imediata em emp resas socialistas, estatais ou coletivas.
Por outro lado, subsiste no Brasil um vasto setor que, embora seja em ampla medida subordinado
ao grande capital, procura desenvolver-se com absorção de mão-de-obra e com atendimento a
uma série enorme de bens de serviços considerados secundários e de baixa rentabilidade.
Constituído por milhões de pequenas empresas, pequenos negócios, serviços e autônomos,
desempenha um papel econômico de grande importância no atual sistema capitalista brasileiro, o
que obriga a um processo permanente de destruição e recriação desse setor – papel que deve
continuar desempenhando mesmo depois de iniciarmos a construção socialista no Brasil. Desse
modo, um dos aspectos -chave do processo de construção socialista, mesmo tendo como a parte
essencial da economia o seu setor socialista, estatal ou coletivo, consiste em conhecer a
capacidade do Estado em atender às reais necessidades sociais e adaptar uma política econômica
que complemente, de forma integral, aquela capacidade para isso. O único caminho, até hoje,
consiste em permitir que a pequena economia mercantil ainda se desenvolva em uma certa escala,
e que seu próprio desenvolvimento natural e contraditório conduza à concentração e centralização
econômica e sua transformação socialista por meios administrativos.” In: Resoluções Políticas do
5o. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
Essa aliança é, pois, uma questão estratégica, referente tanto à destruição do
capitalismo quanto à construção do socialismo.
Evidentemente, essa é uma contradição própria do desenvolvimento das
classes no Brasil, do mesmo modo que é impossível, dadas as atuais condições,
que o socialismo possa extinguir todas as classes de imediato. O processo de
construção socialista para alcançar a almejada sociedade igualitária, sem
classes, sem opressão e dominação, vai enfrentar, durante certo tempo, a
exigência de diferentes desigualdades, como herança do capitalismo. E vai
obrigar a agir, não no sentido de extinguir administrativamente as
desigualdades, mas de evitar que elas se polarizem e se tornem antagônicas em
relação ao socialismo. Tais contradições no terreno econômico e social da
construção socialista geram diferentes contradições no terreno da política. Isso
147
nos remete, basicamente, para a relação do socialismo com a democracia.”

Desta forma, a democracia defendida pelo Partido além de legitimar-


se pelas lutas dos trabalhadores, com as potenciais alianças com os setores
médios, serviria como abertura, na futura sociedade, à defesa dos interesses
de setores não diretamente identificados com os trabalhadores, cujo vínculo
com esses está nos antagonismos com a burguesia148. Na concepção do
Partido, tal democracia e tais interesses permaneceriam harmonizados num
mesmo “campo socialista”.

“A permanência de diferentes classes e camadas sociais no processo de


construção socialista, por um tempo difícil de prever de antemão, coloca para
nós a necessidade de reconhecer a existência de diferentes expressões políticas
na sociedade socialista. É fundamental compreender que, mesmo que não se
concretizem ingerências externas à coexistência de diferentes partidos e
associações políticas, assim como de diferentes propostas para a construção
socialista, torna extremamente aguçada a disputa política, disputa que pode
polarizar-se e ter conseqüências graves, se não forem tratadas como merecem,
ou seja, disputas que, na sua maior parte, estão dentro de um mesmo campo
149
socialista, e não disputas entre inimigos.”

A existência de segmentos sociais que tenderiam a se distinguir no


processo de ruptura com a sociedade capitalista e o respeito a essas

147
Ibidem.
148
“Parece claro que uma saída para a crise econômica, identificada com os interesses da grande
burguesia monopolista, continuará encontrando resistências em nível social e político, da parte da
classe trabalhadora e dos setores médios (micro, pequenos e médios empresários, produtores
rurais e urbanos), aflorando contradições entre estas classes e setores contra a grande burguesia.
Inegavelmente – embora ainda não haja uma política detalhada do PT a esse respeito – tem
crescido a influência do Partido junto aos setores médios, mais, talvez, pelo profundo insucesso do
Governo e menos por nossa ação direta. É preciso, então, definida uma correta política de
alianças, atrair esses setores, numa tática centrada na mobilização popular, para engrossar a luta
dos trabalhadores contra a transição conservadora e pela instalação de um governo democrático e
popular.” Ibidem.
particularidades e a encampação de suas lutas formou o discurso do Partido
desde a sua fundação.
Desta forma, verificamos nos documentos do Partido ser difícil
conceber qualquer futura sociedade socialista que não incorporasse as mais
variadas bandeiras de luta. Partindo desde pressuposto, a existência de
democracia seria necessariamente uma regra na futura sociedade socialista
e os caminhos que levariam à ruptura com a sociedade capitalista
necessariamente passariam pelo crivo da democracia.
No entanto, a nova democracia defendida pelo Partido, a democracia
dos trabalhadores, poderia surgir da luta deles próprios contra a dominação
capitalista, criando os embriões da futura sociedade.

“Evidentemente, a construção da sociedade socialista não é algo


totalmente novo e diferente em relação às formas de luta e de organização dos
trabalhadores no seu dia a dia atual. Quando falamos que o socialismo e o
poder se constróem na luta cotidiana, estamos nos referindo ao fato de que
muitas das formas econômicas, sociais e políticas da construção socialista
surgirão, sem dúvida, da experiência da luta de classe contra o capitalismo.
Muitas dessas formas que hoje não conseguem desenvolver-se em virtude da
opressão capitalista, como as pequenas cooperativas, as compras comunitárias,
as comunidades locais, os conselhos populares etc., provavelmente encontrarão
um campo fértil para crescer nas novas condições socialistas. Mas as formas de
organização fundamentais que surgem na luta cotidiana no interior da sociedade
burguesa e que têm maior importância para a luta socialista são as que nascem
da auto-organização dos trabalhadores, as formas de luta pelo controle operário
nas fábricas (a partir da generalização das comissões de fábrica e empresa) e
de controle popular nos bairros.
Essas formas embrionárias de poder proletário são escolas de auto-
organização e participação política dos trabalhadores, que apontam no sentido
da construção de um socialismo efetivamente democrático, em que o poder seja
exercido pelos próprios trabalhadores e não em seu nome.
Entretanto, essas experiências, em si, não resolvem a contradição do
socialismo com o capitalismo. Mesmo porque, quanto mais amplas elas se
tornam, maior é a resistência da burguesia dominante à sua existência.
Repressão e concessões, em geral, se combinam para a burguesia continuar
mantendo sob sua influência ideológica e política as grandes massas de
trabalhadores e evitar o desenvolvimento das experiências populares e as
mudanças. Para resolver as contradições sociais e políticas do sistema
capitalista é fundamental que todas essas experiências de luta e de organização
operárias, populares e democráticas sirvam como eixo de preparação e
organização das classes trabalhadoras para a conquista do poder e a
150
construção da nova sociedade.”

149
Ibidem.
150
Ibidem.
A luta pela conquista da hegemonia dos trabalhadores, mais do que
nunca, passaria pelas vitórias localizadas, o que fez com que o Partido
pudesse combinar “reformas” com “revolução”:

“Por outro lado, companheiros que consideram inevitável a adoção de


uma via revolucionária para a conquista do poder contrapõem essa escolha à
tática dos movimentos sociais que lutam por reformas. Reforma e revolução são
consideradas por eles como termos e práticas antagônicas. Entretanto, nenhum
país que tenha feito revolução deixou de combinar essas lutas, dando maior
ênfase a uma ou outra de acordo com a situação política concreta. A luta por
reformas só se torna um erro quando ela acaba em si mesma. No entanto,
quando ela serve para a educação das massas, através da própria experiência
de luta, quando ela serve para demonstrar às grandes massas do povo que a
consolidação, mesmo das reformas conquistadas, só é possível quando os
trabalhadores estabelecem seu próprio poder, então ela serve à luta pelas
151
transformações sociais e deve ser combinada com esta.”

Com relação à estratégia acerca do “acúmulo de forças” — que até os


ensinamentos adquiridos pelos trabalhadores na luta por reformas na
sociedade capitalista, somariam-se ao “acúmulo de forças” para a conquista
do poder — o Partido traçou as seguintes estratégias para o processo de
ruptura:

“A luta por uma alternativa democrática e popular exige uma política de


acúmulo de forças, que parte do reconhecimento de que não estão colocadas na
ordem do dia, para as mais amplas massas de trabalhadores, nem a luta pela
tomada do poder, nem a luta direta pelo socialismo. Essa política de acúmulo de
forças pressupõe que o PT realize três atividades centrais:
a) sua organização como força política socialista, independente e de
massas;
b) a construção da CUT, por meio de um movimento sindical classista,
de massas e combativo, e a organização do movimento popular independente;
c) a ocupação dos espaços institucionais nas eleições, como a eleição
de deputados, vereadores e representantes nossos para os cargos executivos.
Embora a questão da tomada do poder não esteja colocada na ordem
do dia, é fundamental que o PT não apenas se construa como um partido que
tem por objetivo a construção do socialismo, mas que se apresenta para toda a
sociedade como um partido socialista. Isso significa que uma das nossas tarefas
fundamentais é a luta pela constituição do movimento dos trabalhadores como
um movimento claramente socialista, de generalização de uma consciência
socialista entre os trabalhadores. Isso implica não apenas as tarefas de
educação e formação política de massa, mas, principalmente, em abordar as
tarefas de conjuntura do ponto de vista da luta pelo socialismo, introduzindo,

151
Ibidem.
sempre, um componente de denúncia e crítica anticapitalista na atividade de
152
massa do PT.”

Diante de todas as teleologias acerca do processo de ruptura com a


sociedade capitalista e das concepções acerca da futura sociedade
socialista, o único elemento empírico que o Partido poderia dispor para, no
plano prático, impulsionar sua concepção teórica de um socialismo
democrático continuava a ser a possível força que poderia emanar da
mobilização social. Essa, desde a fundação do Partido, representou a pedra
angular de sua existência, e isso continua a ressaltar a característica do
Partido, um partido dos trabalhadores que encontra no movimento social o
seu principal agente de luta153.
O Partido, com seu discurso amplo, procurando abarcar o conjunto
dos movimentos sociais de resistência à ordem social capitalista, buscou não
privilegiar nenhum segmento particular da força de trabalho. Ao assumir essa
postura, encontrou na tentativa de unificação dos movimentos sociais a sua
principal dificuldade.

“O processo de unificação dos movimentos populares está ligado,


também, à defesa de propostas globais comuns. Entre elas se destaca o que se
resume com o nome de reforma urbana, que teve sua primeira formulação
expressa em emendas populares à Constituinte. Também para sua unificação,
os movimentos devem avançar no sentido da superação de suas crônicas
deficiências de recursos e infra-estrutura.

152
Ibidem.
153
“O movimento popular é uma das frentes da luta de classes. Sua composição social é
heterogênea, seus objetivos imediatos bastante diversificados, mas é evidente que nos
movimentos populares de maior peso predominam os trabalhadores assalariados e autônomos de
baixa renda, em conflito contra o Estado, que representa a classe dominante, ou contra setores
capitalistas, como os grandes proprietários de terra urbana, os empresários da saúde, educação,
transporte.
É um movimento de grande potencial na luta pelo socialismo, pois há nele, já formulados e em
processo de massificação, objetivos e propostas que, se em tese são possíveis dentro do
capitalismo, a atual sociedade capitalista não parece capaz ou disposta a ceder. Destacam-se,
nesse sentido, entre suas bandeiras: a estatização dos serviços de transporte público, saúde e
educação; a participação popular nas decisões e na gestão dos órgãos do Estado e das empresas
públicas; o fim da grande propriedade territorial urbana. Além disso, há bandeiras que só o avanço
dentro do socialismo permitirá ver vitoriosas. Caso da preservação do meio ambiente, o fim da
discriminação racial e da discriminação da mulher e o respeito aos direitos humanos.
O desenvolvimento da luta popular tem grande importância no processo de formação de
consciência das classes trabalhadoras. Ajuda a desmistificar a idéia do Estado acima das classes
e estimula a idéia de um governo controlado pelos trabalhadores, na medida em que, nos choques
e na luta, revela o atual Estado voltado para ampliar o predomínio político das classes
proprietárias.” In: Ibidem.
O PT tem um papel decisivo para que, em seu conjunto, a política de
unificação avance. É preciso mobilizar a militância petista, para que, na direção
e na massa das entidades autônomas do movimento em que militam, cresça a
compreensão da necessidade de um passo adiante e decisivo na força e na
154
independência política do movimento popular do País.” .

No que diz respeito à relação do Partido com os movimentos sociais,


as Resoluções Políticas do 5o. Encontro Nacional representaram um avanço,
se comparadas aos documentos anteriores.
Como vimos, o PT defendia a autonomia das instâncias deliberativas
dos movimentos sociais, sendo que os militantes petistas não deveriam se
contrapor à elas ou nelas intervir para impor os pontos de vista ou os valores
do Partido. Neste documento, essa relação se inverteu155, pois, passou-se a
pregar a defesa dos pontos de vista do PT156 dentro das instâncias
deliberativas dos movimentos sociais:

“Contudo, na cultura política petista, passamos muitas vezes a idéia de


que o PT deveria ser o reflexo dos movimentos sociais, representante desses
movimentos no plano político — o que termina significando representante no
plano institucional e parlamentar. No extremo, o PT seria uma espécie de braço
parlamentar do movimento sindical ou dos movimentos populares. O PT não
poderia querer dirigir as lutas dos movimentos sociais, pois assim estaria
desrespeitando a sua autonomia.

154
Ibidem.
155
“Já há, na elaboração teórica do PT, o princípio da autonomia dos movimentos populares em
relação ao Partido. Devido aos diferentes graus de consciência da população, os partidos têm uma
amplitude menor do que os movimentos, que são mais amplos e suprapartidários. Todavia, não se
deve confundir essa independência dos movimentos com a ausência de disputa pela linha
dirigente, a ser adotada em suas instâncias próprias de deliberação. Por isso, os militantes do PT
devem – ao mesmo tempo que defendem a democracia interna dos movimentos – lutar pela vitória
das propostas do Partido.” Ibidem.
156
“Outra idéia profundamente equivocada que costuma aparecer em nossos debates é a que
opõe partido de quadros a partido de massas. Para essa confusão contribui, também, a cultura
tradicional da esquerda, que em geral teve uma visão estreita da idéia leninista de partido de
vanguarda.
Se exagerarmos a dicotomia, temos de um lado um partido de quadros pequeno, estreito, sectário,
formado de militantes, baluartes que tudo decidem e dirigem, e de outro um partido de massas
frouxo, inorgânico, sem cotizações regulares, cada um fazendo o que bem entende e chamando
filiados para fazer número em convenções, como qualquer partido burguês.
Se queremos um partido capaz de dirigir a luta pelo socialismo, não precisamos nem de uma
coisa, nem de outra. Precisamos de um partido organizado e militante, o que implica a
necessidade de quadros organizadores. Um partido que seja de massas porque organizará
milhares, centenas de milhares ou até milhões de trabalhadores ativos nos movimentos sociais, e
porque será uma referência para os trabalhadores e a maioria do povo.
Nossa concepção, portanto, é a de construir o PT como um partido de classe dos trabalhadores,
democrático, de massas e socialista, que tenha militância organizada e seja capaz de dirigir a luta
social (...)”Ibidem.
Esta concepção é incorreta e confusa. Na verdade, se lutamos por um
partido capaz de ser um instrumento real de luta pelo socialismo, esse partido
tem de ser capaz de dirigir essa luta, de apontar seus rumos. Terá de se tornar o
dirigente político dos trabalhadores. Para nós, trata -se de, respeitando a
democracia dos movimentos, suas instâncias e características, disputar sua
direção com propostas previamente debatidas nas instâncias do PT, articulando
nossa atuação de luta sindical e popular com a construção partidária e nossa
estratégia de luta pelo poder.
Fora disso, cairemos no espontaneísmo, nas lutas setoriais dispersas,
de um lado, e no ativismo parlamentar, do outro. Corremos o risco de assistir a
explosões sociais desorganizadas, com dificuldades de serem canalizadas para
157
a transformação social revolucionária.”

Podemos notar que, em relação à concepção estratégica acerca do


socialismo petista, o Partido avançou. No entanto, alguns dados apontavam
as deficiências organizativas do PT e comprovavam que no plano prático não
haviam ocorrido grandes avanços158 .
Como já apontamos, dentro da estrutura organizativa do Partido, os
Núcleos de Base representavam o que mais se aproximava de um meio para
uma possível ação prática capaz de sustentar a concepção teórica do

157
Ibidem.
158
“Contudo, rodeados pela política burguesa, pela legislação partidária e eleitoral e por nossas
próprias condições (nível de luta e consciência do movimento sindical e popular, dos dirigentes e
lideranças; escassos recursos materiais; diferentes visões sobre o Partido, construção e a luta
política do País), cometemos muitos erros e não fomos capazes de dar a devida atenção às
tarefas que a construção do PT exige.
Hoje, estão evidentes as limitações de nossa organização, de nossas instâncias e quadros
dirigentes. A cada dia que passa, aumentam as tarefas e cresce nossa base social, mas a nossa
estrutura não corresponde às necessidades da luta política.
Por vezes, caímos no espontaneísmo e subestimamos a formação política e a teoria. No anseio de
criar um partido aberto, democrático e de massas, deixamos num segundo plano a organização de
suas instâncias.
A estrutura organizativa do PT, em comparação com os partidos tradicionais da política brasileira,
apresenta-se muito mais dinâmica e democrática, sem dúvida alguma. Os mecanismos de
participação abertos ao conjunto dos filiados (Encontros Nacional, Regionais, Municipais e
Distritais; núcleos, plenárias, seminários, etc.) permitem um partido muito mais afeito às
discussões de base do que os partidos tradicionais.
No entanto, a atual estrutura do PT ainda representa uma organização fundamentalmente
internista. As lideranças petistas dos movimentos sociais organizam-se no interior dos próprios
movimentos de que participam, mas têm pouca ou nenhuma participação orgânica no interior do
PT. É verdade que isso se dá, bastante, pelo fato desses militantes ficarem presos, a maior parte
do tempo, na dinâmica dos próprios movimentos, mas essa não é a única explicação. A outra
razão é que a atual estrutura do PT não é ágil para discutir a política que esses mesmos militantes
devem levar para a sua atuação dentro dos movimentos sociais de que participam. E confundimos,
muitas vezes, autonomia e independência dos movimentos sociais com ausência de propostas
políticas e direção.
Dessa forma, apesar da enorme influência do PT nos movimentos sociais – popular, sindical,
camponês, de mulheres e estudantil – milhares de militantes ainda permanecem alheios às suas
instâncias organizativas. Com isso, privam-se da discussão e da vida partidária, e obstaculizam a
sua evolução para uma militância política conseqüente e uma consciência política socialista.”
Ibidem.
socialismo democrático que não tinha o caminho eleitoral como principal
meio de ação. No entanto, os Núcleos de Base foram paulatinamente
absorvidos pela estrutura do Partido:

“Atualmente, nossos núcleos de base são poucos e, na maioria das


vezes, precários, havendo uma enorme distância entre os nossos desejos e a
realidade. As razões disso são inúmeras: a pouca experiência política da maioria
dos militantes petistas (o que é próprio de um partido em construção e que
cresce rapidamente); de quadros organizadores; a falta de infra-estrutura para o
funcionamento dos núcleos (o que nos remete à questão das finanças); a falta
de maior formação política; os entraves que vêm da legislação partidária
herdada da Ditadura, e que se expressam no nosso Regimento (que, na
verdade, termina priorizando os Diretórios com relação aos núcleos). O
funcionamento regular dos núcleos deve ser estimulado e assistido pelos órgãos
de direção, que devem tanto propor orientações políticas e propostas de
atividades, quanto acompanhar essas atividades. Além disso, esse
funcionamento regular exige uma alimentação constante pela imprensa do
Partido, única forma de propiciar uma discussão política mais rica. Um jornal de
massas é indispensável.
Os núcleos estão abandonados. Devemos reconstruí-los como a
principal base e característica do Partido. Continuamos vivendo uma crise
organizativa no PT. Os núcleos, mais do que nunca, estão desprestigiados.
Entendidos desde o início como a principal base e característica do Partido, têm
enfrentado sérias dificuldades para se generalizarem e se constituírem em
organismos de massa. Não raro, a maioria deles fica voltada para questões de
ordem interna — sem refletir os interesses das comunidades ou das categorias a
que se vinculam — e, portanto, sem atrair novos participantes. Além disso,
constata-se que vários petistas com posição de destaque no movimento sindical
e popular não mantêm uma militância propriamente partidária, estando
afastados de nossa estrutura orgânica. Os Diretórios, em geral, vivem da
combinação de discussão sobre as questões internas do PT com o
encaminhamento das campanhas gerais do Partido. Poucos são aqueles que
conseguem articular essas tarefas com o impulsionamento e a direção do
movimento social e a formulação de políticas alternativas no âmbito de sua
159
atuação.”

No plano da ação, a existência dos Núcleos de Base não criou


distinções no que concerne à política do PT, pois, a sua principal via, assim
como para os outros partidos, continuou sendo a eleitoral.

Constatados os principais problemas que fizeram dos Núcleos de


Base apenas um complemento distinto do PT em relação aos outros partidos,

159
Ibidem.
foram apontadas as principais ações a serem implementadas em relação aos
Núcleos 160 nesta nova etapa de formação do Partido:

“Os núcleos por local de moradia devem ter como objetivo a hegemonia
política e ideológica na sua área de atuação, desenvolvendo as seguintes
tarefas:
a) cadastrar os militantes e filiados por categorias profissionais, orientar
politicamente e organizar seus companheiros nos locais de trabalho, visando
ganhar para o campo da CUT o seu sindicato, se este ainda não for nosso;
b) mapear os movimentos sociais existentes em sua área, definir, com
base nas orientações gerais do Partido, políticas específicas para cada um
desses movimentos. Levantar as demandas sociais existentes que não tenham
movimento tratando delas, fazer a crítica política a respeito , organizar debates e
palestras com vistas a despertar interesse nos moradores para então organizar
as lutas visando a solução dessas demandas;
c) tratar da formação política dos militantes, filiados e simpatizantes;
d) promover e divulgar a cultura popular, através da exibição de filmes,
slides, festas, shows e eventos esportivos, etc.;
e) cotizar os militantes e filiados, promover eventos para levantar
recursos para o Partido, tendo em vista que a sustentação financeira do Partido
é tarefa de todos os petistas;
f) tratar, de modo especial, os problemas da juventude, fazendo a
ligação desses com a questão cultural, estudantil, familiar, de lazer, etc.;
g) cuidar dos filiados novos, destacando no núcleo um ou mais
militantes responsáveis pela formação política do conjunto do núcleo, para tratar
de modo especial do engajamento dos novos filiados, transmitindo a estes as
políticas gerais do Partido, os conceitos básicos dessas políticas, a estrutura
orgânica, suas relações internas e com os movimentos sociais ou com a
sociedade em geral — evitando, assim, a fuga dos novos filiados pelo desnível
com os militantes mais antigos;
h) organizar mutirões de visita aos moradores de sua área, levando a
estes a mensagem do PT e chamando-os para as atividades gerais do Partido e

160
“a) Em primeiro lugar, de formação política, de transmissão da experiência militante. Ligada a
isso, uma campanha de esclarecimento sobre o caráter do Partido, sobre as necessidades de
funcionamento de um partido que se propõe, como o PT, a lutar pelo socialismo (o que inclui a
discussão sobre a necessidade de um partido dirigente), sobre o fato de que o partido de massas
deve ser também de militância e de quadros, sobre a relação entre partido e movimentos sociais. É
preciso que façamos uma verdadeira campanha no sentido de ganhar os petistas para a idéia da
importância de organizar os núcleos.
b) Uma política de nucleação deve ser acompanhada de uma política de finanças que lhe
possibilite ter sua própria infra-estrutura. O êxito da nucleação exigirá uma mudança de conjunto
no funcionamento do Partido, uma direção capaz de dirigir politicamente e de assistir as bases, de
alimentar a militância com uma imprensa ágil e diversificada. Há necessidade de mudanças no
Regimento Interno, que valorizem os núcleos, dando a eles maior poder na estrutura do Partido.
Duas medidas são positivas: formar conselhos de núcleos, junto aos Diretórios Municipais e Zonais
e dar aos núcleos uma representação direta nos Diretórios (formando Diretórios Ampliados, que
incluiriam um certo número de representantes eleitos diretamente pelos núcleos; 1/3 do número de
membros efetivos e suplentes eleitos nos Encontros dos Diretórios).
O núcleo deve ter características de massa e de vanguarda. É fundamental essa convivência
dentro dos núcleos. Há momentos em que os núcleos atraem o maior número possível de
simpatizantes e filiados para suas decisões e atividades de massa. Essas reuniões só serão
possíveis e só terão conseqüência se estiverem vinculadas a outras reuniões, voltadas ao
aprofundamento político e de como os militantes devem intervir no ambiente em que o núcleo está
inserido.” Ibidem.
para o núcleo; planejar panfletagens e vendas da imprensa partidária em feiras,
fábricas e unidades de serviço público.
Os núcleos por categorias, por extrapolarem, em geral, as esferas
municipais e zonais, devem ser implementados pelos Diretórios Regionais.
Esses núcleos e os por local de trabalho e por movimentos sociais devem tratar,
além de suas especificidades, das questões descritas acima, naquilo que
couber.” 161

As conclusões que podemos tirar das Resoluções Políticas do 5o.


Encontro Nacional do PT são que, no plano teórico, semelhante ao contido
nos documentos que as antecederam, a concepção acerca do socialismo
democrático avançou no que se refere a alguns pontos da estratégia pelo
“acúmulo de forças” e do processo de ruptura.
Como também apontamos com relação à estrutura organizativa do
Partido, sobre os Núcleos de Base, o Partido pouco caminhou sem ter a
estrutura legal como palco para sua atuação política no sentido de dinamizar
na prática sua proposta de um socialismo democrático.
Para encerrarmos a análise desse documento, destacamos que o
Partido forneceu o que seria a sua principal bandeira de luta. Ou seja,
coadunando-se com a sua estratégia de “acúmulo de forças”, a grande luta a
ser empreendida durante os próximos períodos seria pela conquista da
presidência da República:

“Do ponto de vista do PT, a redução do mandato de Sarney, com a


realização de eleições diretas em 1988, significa a possibilidade de aglutinar, em
torno de um Programa de Governo, com candidato próprio (o Lula), os
trabalhadores, os setores populares e parcelas do pequeno empresariado
urbano e rural, em contradição com a política econômica do Governo e os
interesses do grande capital, para acabar com a transição conservadora. Trata-
se, para nós, de retomar a mobilização, acumular forças e, ao nos
apresentarmos como uma alternativa socialista e revolucionária, apontar para os
trabalhadores o horizonte de um novo sistema econômico, político e social: o
162
socialismo.”

– Resoluções Políticas do 6o. Encontro Nacional e as Bases do Plano


Alternativo de Governo.

161
Ibidem.
162
Ibidem.
O que pudemos perceber foi que o PT — durante este recorte
histórico, de 1983 a 1987 — sofreu um avanço na definição do que consistia
o seu socialismo num plano teórico. Paulatinamente, tornou-se hegemônica
no Partido a concepção de “acúmulo de forças”, com a luta por espaços
estratégicos para os trabalhadores contra a sociedade capitalista. Com essa
estratégia, o Partido empreendeu suas principais lutas neste período, ou
seja, foi com o sentido de acumular forças que entrou na luta pelas eleições
diretas, contra o Colégio Eleitoral, pela Constituinte “livre”, entre outras. E foi
norteado por essa mesma estratégia que o PT empreendeu aquela que seria
a sua principal luta política no final da década de 80 e que mais marcaria a
história do Partido: a disputa pela presidência da República em 1989.
Para analisarmos o papel da disputa das eleições para presidente da
República na história do socialismo democrático do PT, dois documentos são
essenciais: as Resoluções Políticas do 6o. Encontro Nacional e as Bases do
PAG — Plano Alternativo de Governo. Ambos os documentos estão
estreitamente relacionados um ao outro, trazendo avanços no que concerne
a proposta socialista do PT.
Desde o início da campanha, o Partido ressaltou o caráter socialista
da mesma 163, sendo que a conquista do Poder Executivo representava um
importante passo nesta luta 164. Como observamos na citação abaixo,

163
“Os trabalhadores e demais setores desfavorecidos da sociedade, da cidade e do campo,
devem, saber que serão os setores privilegiados durante o governo Lula. Os pequenos
empresários e demais setores médios, em particular os pequenos produtores rurais, devem
entender que serão beneficiados, enquanto a burguesia terá que curvar-se à evidência de que o
PT não concorda em retomar o crescimento econômico às custas dos trabalhadores e do
abandono da luta pelas transformações socialistas.
Ao mesmo tempo que ancora num PAG de mudanças, mesmo nos limites do capitalismo, a
candidatura Lula reafirma seu perfil socialista, seu caráter moderno, crítico, de uma nova classe
trabalhadora carregada de esperanças nas transformações socialistas.
O PT deve enfrentar o debate em torno do socialismo de forma ofensiva, evitando fugir da questão.
O Partido visa construir o socialismo, mas o caminho dessa construção passa pela luta de
consolidação da democracia, de realizações de reformas que acumulem forças no rumo do
socialismo e de combate permanente ao capitalismo. Em outras palavras, nosso PAG não contém
qualquer medida de reforço do capitalismo ou que seja incompatível com o socialismo, enquanto
busca afirmar e ampliar os caminhos democráticos, através da luta social, como questão essencial
para o socialismo.” In: Campanha Presidencial do PT – Lula Presidente.
164
“Mesmo tendo consciência de que governo e poder não se confundem e que, por isso, a vitória
de Lula não pode ser vista como conquista plena do próprio poder político, o PT compreende,
também, que, no Brasil, o Executivo Federal concentra tantos recursos e tanta força institucional
que o seu controle permite desencadear mudanças de uma envergadura capaz de alterar todo o
quadro conjuntural, iniciando um processo que garanta a realização de nosso Programa
Democrático-Popular, em direção às transformações socialistas.
extraída das Resoluções Políticas do 6o. Encontro Nacional do PT, o governo
petista enfrentaria grandes obstáculos para efetivar suas propostas
socialistas. No documento, apontou-se a mobilização popular como a força
que sustentaria e legitimaria o futuro governo do Partido.

“Teremos dificuldades desse porte, mas teremos também


extraordinárias condições de acelerar o avanço das lutas sociais e da pressão
de massas. O Governo Lula nasce consciente de que todas as suas chances de
êxito residem na perspectiva de ampliar, em escala gigantesca, a mobilização
dos trabalhadores pela conquista de objetivos inscritos no Programa
Democrático-Popular.
Existe, por outro lado, um número praticamente ilimitado de medidas
que podem ser desencadeadas imediatamente, pelo Governo, como passos
iniciais de uma estratégia de acumulação de forças. É importante, por isso, que
fique claro que um programa de governo é um conjunto de diretrizes, é um rumo
geral, cuja implementação dependerá de um conjunto de fatores. Estes fatores
incluem, além das possibilidades de realizar mudanças legais (neste sentido, as
eleições de 1990 serão um importante campo de disputa política com as classes
dominantes), o grau de mobilização popular e de organização dos trabalhadores
(que é um ponto central da correlação de forças). Justamente porque o
programa de governo significará um rumo geral, será de extrema importância
discriminar e enfatizar as medidas que o governo do PT adotará de imediato
165
(nos primeiros 90 dias, por exemplo).”

A futura sociedade socialista e o processo de ruptura com a capitalista


continuaram fundamentados nas lutas dos trabalhadores166, na força de uma

Evitando formular, agora, respostas que só poderão nascer do contexto concreto que se abrirá
com o novo governo, precisamos ter, pelo menos, clareza quanto às principais dificuldades a
serem enfrentadas, assim como das principais potencialidades de mudança que podem ser
o
garantidas com Lula na Presidência da República.” In: Resoluções do 6 . Encontro Nacional do
Partido dos Trabalhadores.
165
Ibidem.
166
“Um governo do PT e da Frente Brasil Popular deverá realizar as tarefas democráticas e
populares no País, de conteúdo antiimperialista, antilatifundiário e antimonopolista. A efetivação de
medidas deste gênero, mesmo que de cunho não explicitamente socialista, choca-se diretamente
com a estrutura do capitalismo aqui existente e somente poderão ser adotadas por um governo de
forças sociais e políticas em choque com a ordem burguesa, um governo hegemonizado pelos
trabalhadores.
O PT não acredita na possibilidade de uma etapa de Capitalismo Popular no País. Ao contrário,
por meio de um processo simultâneo de acúmulo de forças, enfrentamentos e conquistas dos
trabalhadores criaremos as condições para dar início às transformações socialistas no Brasil.
Por estas condições, o governo democrático e popular e o início de transição ao socialismo são
elos do mesmo processo. A passagem de um ao outro, no entanto, não é automática e nem
resultado da ‘retirada de cena’ das minorias privilegiadas que, com base na força e negação da
democracia, subjugaram historicamente os trabalhadores e o povo deste país. A implementação
da globalidade de um Programa Democrático-Popular só pode ocorrer com a revolução socialista.
Do nosso ponto de vista, nossa intenção, nossa vontade política, nossos propósitos programáticos
vão no sentido de conquistar o poder através da vontade, da mobilização e da luta da maioria, e
não da tomada de poder por meio de um golpe de mão, de um putsch da vanguarda. Queremos o
poder e a construção do socialismo através da vitória sobre a burguesia e seus aparelhos
ideológicos de dominação. Com este objetivo estamos preparando o Partido, estamos construindo
possível mobilização social, além da aliança com os setores médios da
sociedade. No entanto, o PT não avançou no que poderia se vislumbrar de
uma futura sociedade socialista, que se construiria num progressivo processo
que teria como principal norte a hegemonia dos trabalhadores, sendo que o
Partido apontaria somente as principais medidas a serem implementadas no
processo.

“Diversas propostas apresentadas aqui e outras que serão


implementadas pela ação político-administrativa do nosso governo exigem
reformas da atual Constituição. Todo esse programa e cada um dos seus pontos
depende, absolutamente, do apoio organizado do povo mobilizado.
1. Estímulo à mais ampla participação popular nas decisões do
Governo, criação de mecanismos de controle social sobre os órgãos da
administração pública e empresa estatais
• estimular a organização do poder popular, abrindo campo para a auto-
organização dos trabalhadores;
• participação dos trabalhadores na gestão das empresas estatais;
• introdução de mecanismos de participação popular na gestão dos
serviços públicos, escolas, universidades ;
• participação dos trabalhadores e usuários nas decisões e controle da
Previdência Social, por meio de diversas formas, entre elas da representação
das entidades sindicais;
• incentivo aos mecanismos de participação popular, como o plebiscito,
o referendo e a iniciativa popular de leis;
• adoção de uma política de defesa dos direitos humanos; restaurar
perante a sociedade e a história a memória das vitimas dos órgãos de repressão
167
política; apurar crimes contra os direitos humanos e punir os responsáveis.”

Como encontrado em outro documento analisado, afirmava-se que a


economia deveria ser paulatinamente estatizada ou, nos dizeres do Partido,
"desprivatizada" 168. Semelhante à matriz clássica do socialismo, o Estado

uma hegemonia política, social e ideológica, estamos acumulando forças para respaldar nosso
projeto.
O PT não acredita num partido socialista sem trabalhadores. Nem acha possível construir o
socialismo sem a ação decisiva dos trabalhadores no próprio processo dessa construção. A
experiência histórica nos legou a convicção de que o socialismo ou é obra dos trabalhadores ou
jamais será socialismo. Por isso, estamos dispostos a disputar em todos os campos da hegemonia
na sociedade e chegar ao socialismo pela ação e pela vontade das maiorias. Pelo desejo do povo
e dos trabalhadores.” Ibidem.
167
Ibidem.
168
“O Estado, controlado pelos trabalhadores, deve planejar e orientar a vida econômica. Para sair
da atual crise, o governo democrático-popular tem que desprivatizar, fazer exatamente o contrário
do que os setores de direita estão propondo: enquanto eles falam de privatizar empresas estatais
(para poderem lucrar e comprar a preço de banana empresas rentáveis que foram montadas com
o dinheiro do povo, nosso governo vai fazer coisa bem diferente: VAMOS É DES -PRIVATIZAR O
ESTADO. O que significa isso: hoje o Estado, o governo e todo seu aparelho só servem de apoio
ao grande capital e às grandes empresas: financiamentos a juros subsidiados, isenções de
impostos, concessões de direitos, terras, além de toda corrupção em cada obra contratada e na
passaria a ter uma substancial importância para se implementar as
transformações socialistas. Desta forma, a ocupação do Estado seria o
trampolim para as principais reformas do governo petista. E dentre os pontos
polêmicos dessas reformas se encontravam lutas antigas do PT, como o não
pagamento da dívida externa, um posicionamento antigo dentro do discurso
petista desde os primeiros documentos do Partido; um programa de reforma
agrária169; o controle dos meios de comunicação de massa170; o controle das
Forças Armadas.

sonegação consentida de impostos. Propomos inverter o quadro e tomar o aparelho de Estado


como um serviço para a MAIORIA dos trabalhadores e estimulando a atividade produtiva dos
pequenos e médios proprietários rurais e urbanos. Só permitiremos a privatização de empresas
que hoje estejam na mão do Estado por razões conjunturais, sem maior influência na economia de
base (hotéis, por exemplo) e em processos públicos, transparentes, dando preferência a que
sejam assumidas pelos seus próprios trabalhadores cooperativos e não por grupos de capitalistas.
Só controlando e orientando a economia é possível garantir a distribuição de renda e o progresso.”
In: As Bases do Plano Alternativo de Governo.
169
“(...)Independentemente de qualquer revisão da atual Constituição ou da legislação ordinária, o
governo do PT deverá promover a reforma agrária com base nos seguintes parâmetros:
A – desapropriação de imóveis rurais improdutivos, como tais considerados os que não cumpram a
sua função social, ou seja (com base na legislação em vigor); os que não tenham grau de
utilização de terra igual ou superior a 80%, grau de ef iciência de exploração igual ou superior a
100% e aqueles cujos proprietários não cumprem a legislação que rege as relações de trabalho e
os contratos de uso temporário da terra; B – pagamento das indenizações em Títulos da Dívida
Agrária, com prazo de 20 anos e início do pagamento no 5º ano, ficando o pagamento subordinado
à apuração e dedução de débitos do ITR e à pesquisa sobre a legitimidade dos títulos da
propriedade; C – arrecadação, sem indenização, das terras pertencentes às empresas
multinacionais, adquiridas em fraude à legislação que proíbe a sua aquisição; D – regularização e
solução dos atuais conflitos de terra, com a desapropriação das áreas neles envolvidas; E –
desapropriações orientadas para propriedades acima de 50 módulos regionais rurais; F – reversão
ao patrimônio da União, e sua destinação para a reforma agrária, de todas as áreas públicas
federais indevidamente regularizadas e/ou licitadas em nome de terceiros, bem como de todas as
áreas públicas objeto de doações, vendas e concessões declaradas como irregulares pelo
Congresso Nacional; G – arrecadação, sem indenização, após julgamento, das terras pertencentes
a assassinos de trabalhadores rurais e de mandantes em caso de conflitos pela posse da terra,
bem como das terras daqueles proprietários de imóveis que mantêm trabalho escravo no seu
interior; H – efetuar o levantamento de todas as áreas desapropriadas, objetivando constatar a real
situação das mesmas, para definição de novas políticas voltadas para a emancipação política e
econômica dos assentados; I – comissão para levantar todos os assassinatos cometidos contra os
lavradores, levantando os nomes dos mandantes, executores, situação das famílias das vítimas,
agilizando os processos de apuração da violência, buscando ainda formas de reparação às
famílias vitimadas.” In: Resoluções do 6o. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
170
“unificação de todo o controle da política de comunicação social num Conselho de
Comunicação Social, independente e autônomo, inclusive quanto ao sistema de concessões de
rádio e TV. O Conselho deve ser integrado por trabalhadores da área (jornais, agências de
publicidade, rádios, TV) e centrais sindicais, democraticamente eleitos;
• as rádios e TV só poderão ser exploradas por fundações ou associações civis sem fins lucrativos;
• o governo da União adotará as medidas administrativas, legislativas e judiciais para eliminar o
monopólio e o oligopólio da área de comunicação social;
• apoiar a criação de canais de comunicação próprios das organizações populares.” Ibidem.
No tocante ao controle das Forças Armadas, foi dedicado um grande
trecho do documento para conceber a nova configuração desta instituição,
sendo que dentre as principais mudanças destacavam-se as seguintes:

“A — Redefinição do papel das Forças Armadas:


As Forças Armadas estarão rigorosamente subordinadas ao Poder Civil,
representado pela Presidência da República, pelo Congresso Nacional e pelo
Supremo Tribunal Federal. Às Forças Armadas competirá a tarefa de cuidar da
defesa externa. Para tanto, o PT encaminhará projeto de emenda à
Constituição. Será proibido o emprego das Forças Armadas na repressão às
greves e mobilizações do povo;
(...)
C — Criação de um Ministério de Defesa:
Esta medida se justifica por dois motivos principais. Em primeiro lugar,
porque a existência de seis ministérios militares só encontra amparo no quadro
de autonomia e tutela das Forças Armadas e de extensão das suas funções
para a vida civil. Em segundo lugar, porque a existência de um ministério militar
para cada arma e mais um para o Estado-Maior se fundamenta numa
concepção estratégica militar obsoleta. No mundo moderno, qualquer ação de
vulto deve processar-se, necessariamente, como uma ação integrada, quer
dizer, envolver operações por terra, mar e ar — de Exército, Marinha e
Aeronáutica. Portanto, a criação do Ministério da Defesa é mais eficaz para a
defesa externa;
(...)
F — Extinção do Serviço Nacional de Informações:
O SNI é, essencialmente, um órgão de espionagem política e
policialismo, que integra no seu sistema inclusive órgãos de informação do
Exército (CIEX), Marinha (Cenimar) e Aeronáutica (CISA). O governo do PT
assume, claramente, o compromisso de desmantelar todos os organismos de
repressão político-civil e/ou militar ainda existentes desde o Regime Militar. No
governo do PT, as Forças Armadas terão, junto ao Ministério da Defesa, um e
somente um órgão de informação, que vise exclusivamente a defesa do território
nacional, em termos estritamente militares. Assim, será extinto o Serviço
Nacional de Informações e serão apurados os recentes atentados terroristas e
171
punidos seus responsáveis (...)”

O que acabamos de analisar foram as concepções que podemos


chamar de teleológicas tanto do processo de ruptura com a sociedade
capitalista, quanto dos principais pontos que alicerçariam a futura sociedade
socialista.
Cabe agora analisar, para encerrarmos este capítulo, o que o Partido
determinou como ações de cunho prático, relacionadas a todas essas
concepções, para a conquista da presidência da República.

171
Ibidem.
O Partido partiu de uma análise fundada principalmente nos bons
resultados eleitorais de 1988 172, que o colocava como o principal partido de
oposição capaz de representar uma possível polarização entre esquerda e
direita naquelas próximas eleições para presidente173.
Nas Resoluções Políticas do 6o. Encontro Nacional, o Partido analisou
a conjuntura social, política e econômica daquele final da década de 80,
mostrando o Brasil como um país mergulhado numa crise de amplitudes
mundiais174, devido às fraquezas do governo em resolver os problemas
econômicos em que estava mergulhado o regime.
A possível vitória eleitoral do PT para a presidência da República
poderia ser a cartada decisiva contra a situação instalada na sociedade

172
“A correlação de forças criada a partir dos resultados eleitorais de 15 de novembro de 1988, em
que o PT aparece como o principal partido de oposição no Brasil, deve-se à nossa capacidade de
captar a insatisfação popular e dirigi-la para um programa de transformações econômicas, sociais
e políticas.
O combate ao Governo Sarney e à Nova República, a campanha eleitoral municipal – quando
fizemos os temas nacionais predominarem sobre os locais, o caráter plebiscitário que imprimimos
à disputa em sua fase final, carrearam votos para o Partido e nos asseguraram vitórias e
resultados importantes.
Isto foi possível devido às resoluções do V Encontro, cuja política de alianças, definições
estratégicas, opção pelo socialismo e tática eleitoral armaram o PT para as vitórias de 15 de
novembro.” Ibidem.
173
“As forças acumuladas pelo PT e pelo povo nessas eleições criam a possibilidade de que
ocorra, pela primeira vez na história do Brasil, uma polarização entre esquerda e direita. O povo
brasileiro se encontra diante de uma oportunidade histórica: a de liqüidar com pelo menos um
quarto de século de tutela militar, a serviço do capital internacional, dos latifundiários e do grande
capital em geral. O fim do desastroso e ilegítimo Governo Sarney o mais cedo possível, com a
eleição de um candidato à Presidência da República com profunda inserção no movimento
operário, popular e democrático, encerrará a farsa da transição conservadora.” Ibidem.
174
“Em primeiro lugar, é uma crise global, isto é, combina o início de uma crise de regime com um
impasse no padrão de acumulação capitalista. Essa dinâmica gera, por sua vez, uma crise de
valores das classes dominantes, que é um componente importante do desenvolvimento de uma
crise de hegemonia política.
Em segundo lugar, é uma crise estrutural. Ela não é motivada por razões momentâneas ou
conjunturais, mas por uma acumulação de processos econômicos e políticos, que vêm se
desenvolvendo há longos anos. A evidência de que há um impasse no padrão de acumulação
capitalista no Brasil está expressa na queda brutal de crescimento da economia brasileira na
década de 80. A incapacidade das classes dominantes de estabilizarem um regime político
perpassa os anos da crise da Ditadura Militar e toda a experiência da Nova República.
Em terceiro lugar, ela exige, para ser superada, um forte e generalizado deslocamento da
correlação de forças em favor da burguesia ou do proletariado. O grau de organização sindical dos
trabalhadores já é suficiente para barrar iniciativas burguesas decisivas, como o pacto social. O
grau de organização política dos trabalhadores é bastante para começar uma disputa pela
hegemonia política, mas ainda não temos condições de impor a nossa saída para a crise, e
podemos não vir a tê-la por todo o período. Isso aprofunda o quadro de instabilidade.
Enfim, a crise tem uma dimensão internacional clara, relacionada com as dificuldades da economia
capitalista mundial a partir dos anos 70. Ela golpeia o conjunto das economias latino-americanas e
cria um quadro de instabilidade política na maioria dos países do continente, aprofundada pelo
avanço da revolução na América Central. Esta dimensão internacional está no centro da crise que
brasileira. O Partido via, junto com a crise do regime, uma fragmentação da
classe dominante produzida pela dificuldade de se solucionar a situação
econômica. Esta fragmentação seria responsável por produzir centros que,
mesmo não fazendo parte de um bloco estruturado, detinha partes
importantes do poder na sociedade, como as Instituições Militares e os meios
de comunicação de massa175.
Concernente a esta leitura da sociedade — crise capitalista global,
crise do regime de “transição conservadora” e fragmentação do “bloco de
poder” das classes dominantes — o Partido via na formação de uma Frente
Democrático-Popular a grande arma contra a configuração social.

“Contra o projeto das classes dominantes, o PT reafirma o seu caminho


para resolver a crise do ponto de vista dos trabalhadores, que é a instauração de
um governo democrático-popular, antiimperialista, antimonopolista, contra o
pagamento da dívida externa, que realize a reforma agrária e que promova o
desenvolvimento sobre novas bases, e no qual os trabalhadores detenham a
hegemonia e possam avançar em direção ao socialismo. O PT, que em
dezembro passado apresentou à sociedade o PEAE, para vencer a inflação pela
via da retomada do desenvolvimento e com distribuição de renda, contrapôs-se
desde o início ao Plano Verão. O PT apoiou efetivamente a greve geral, que
demonstrou repúdio popular ao arrocho. Contra esse plano e os projetos
alternativos das classes dominantes, o PT reafirma que a única saída para a
crise brasileira é aquela que enfrenta os problemas econômicos, sociais e
políticos a partir de um ponto de vista dos trabalhadores, na perspectiva de um
governo democrático e popular.
(...)
A tarefa fundamental hoje colocada para o campo popular e, portanto, o
centro da nossa tática é a luta por um novo governo, democrático e popular.
Esta é a tarefa que, na atual conjuntura, articula e dá sentido às demais
atividades que desenvolvemos. Só um governo do PT, com Lula presidente,
junto com as forças democráticas e populares, pode terminar com a atual
política, dirigida para o pagamento da dívida externa e a manutenção da

vive nosso país: é inegável a centralidade do problema da dívida externa, que se relaciona com o
caráter dependente do capitalismo brasileiro, apesar de seus enormes avanços técnicos.” Ibidem.
175
“Na falta deste bloco, aumenta o grau de autonomia das forças sociais que detêm o controle
direto sobre os centros decisivos do poder de Estado em relação a sua base social de classe e ao
campo da classe dominante como um todo. É assim que, por exemplo, os militares atuam como
força social na conjuntura, o mesmo ocorrendo com os dirigentes dos grandes complexos de
comunicação de massa, com um grau de independência em relação às diversas frações
burguesas jamais verificado em sociedades capitalistas que tenham atingido níveis de
desenvolvimento das forças produtivas comparáveis aos da sociedade brasileira.
De sorte que não há como encaminhar a questão estratégica no Brasil, isto é, não há como
articular tática com estratégia numa perspectiva revolucionária, sem enfrentar estas duas
questões: a questão das Forças Armadas e a questão dos meios de comunicação de massa (o
que implica, evidentemente, mexer no arcabouço jurídico-político do Regime, alterando, inclusive,
a atual Constituição).” Ibidem.
dominação imperialista sobre o País, abrindo caminho para a resolução, pelos
176
trabalhadores, da crise que atravessa a Nação.”

O governo democrático-popular vislumbrado pelo PT necessariamente


passaria pela mobilização dos trabalhadores. O Partido seria importante
como elemento compilador dos movimentos sociais, servindo para aglutinar
politicamente as bandeiras dos mais variados movimentos 177. Ao se apostar
na existência de uma possível coesão dos trabalhadores, tinha-se também
muito de teleológico, uma vez que partia-se do pressuposto que tal
mobilização poderia existir e que desta mobilização popular o Partido
conseguiria os votos necessários para a conquista da presidência da
República.
Nos documentos acerca das eleições de 1989 havia dois grandes
pontos que deveriam servir de base para o processo de ruptura com a
sociedade capitalista, sendo que ambos tinham em comum a conquista das
eleições. Eram eles: a campanha eleitoral e a atuação do Partido para a
mobilização dos trabalhadores contra a conjuntura social, política e
econômica da sociedade.

176
Ibidem.
177
“São alvos principais da tática dos trabalhadores, na conjuntura, o Governo Sarney e sua
política econômica, os monopólios, a subordinação ao capital internacional, ao FMI e à dívida
externa e ao latifúndio. Considerando, porém, o novo período da luta de classes que se abre com o
possível desenvolvimento da crise de regime, outros alvos, como a tutela militar, o controle dos
grandes meios de comunicação de massa, a burocracia estatal e o arcabouço jurídico-político
autoritário e conservador, adquirirão principalidade. O eixo central da tática, neste momento, é a
campanha presidencial de 89, com a candidatura Lula. Constituem, entretanto, eixos
complementares imprescindíveis da tática, o incremento dos movimentos reivindicatórios dos
trabalhadores (contestando, na prática, as recentes e ilegítimas restrições legais autoritárias), a
manutenção da recusa a qualquer tipo de pacto com o campo dominante e a construção de
embriões de novos organismos de controle e de poder popular. A realização dessas tarefas, na
conjuntura, pressupõe, por um lado, o fortalecimento do PT, do seu papel dirigente, da sua
democracia interna e da intervenção partidária unitária nas frentes de luta e, por outro lado, o
sucesso das administrações municipais sob direção petista e sua constituição como ponto de
apoio para a luta política geral.
O PT e a Frente Brasil Popular são os principais instrumentos de desenvolvimento do eixo tático
central dos trabalhadores na conjuntura. O Programa de Governo Democrático-Popular e o próprio
Governo Democrático-Popular, que constituem instrumentos capazes de viabilizar a alternativa dos
trabalhadores à crise política atual, na ordem do governo, podem, entretanto, vir a abrir condições
para a disputa de uma alternativa de poder.
A disputa presidencial está no centro da disputa política, o que torna a campanha presidencial do
PT, com Lula à frente, o eixo principal em torno do qual se desenvolverão as atividades do partido.
É na campanha presidencial, articulada às propostas do Programa de Ação de Governo (PAG), às
mobilizações populares pelas questões econômicas, sociais e políticas e ao desempenho das
prefeituras governadas pelo PT, que devemos concentrar nossos esforços principais para
acumular forças e enfrentar alternativas que a conjuntura ponha diante de nós.” Ibidem.
O que orientou a campanha eleitoral do Partido foi seu PAG — Plano
Alternativo de Governo 178. Além do apelo à conscientização dos
trabalhadores, que poderia ser aferido pelo número de votos, a outra
iniciativa do Partido na direção da mobilização dos trabalhadores se deu
quanto à defesa das greves:

“Contrariamente ao que propala a histérica propaganda das classes


dominantes, as greves não correspondem a nenhum plano deliberado de
desestabilização, refletindo, fundamentalmente, uma situação de desespero em
que se encontram milhões de brasileiros, que vêm seu nível de vida degradar-se
vertiginosamente. Este desespero explica, em grande medida, as formas mais
descontroladas que o movimento tem assumido em certas circunstâncias. Não
pode ser omitido que, em alguns casos, as greves têm criado transtornos para
vários segmentos da população, na sua imensa maioria trabalhadores. Estes
problemas foram habilmente explorados pela imprensa, por setores
conservadores e pelo Governo, que desencadeou uma operação publicitária e
medidas repressivas, numa tentativa de opor a sociedade aos grevistas.
Procurou-se, inclusive, atribuir o recuo da candidatura Lula nas pesquisas aos
efeitos negativos das greves.
O PT e Lula defenderam e defenderão de forma intransigente o direito
de greve, especialmente em um momento como este, em que se promove um
violentíssimo arrocho de salários. O que julgamos apropriado é que o movimento
sindical, mais precisamente a CUT, que representa seu pólo combativo,
classista e conseqüente, discuta a questão das formas de luta em setores cujos
serviços ou produtos atingem diretamente a vida da população .
(...)
O fundamental, no entanto, é que a campanha presidencial esteja
intimamente ligada às mobilizações sociais, em geral, e às greves, em particular.
Isto é válido tanto para movimentos setoriais como para a eventualidade de uma
179
greve que a CUT venha a convocar, e que terá o apoio do PT.”

Para encerrarmos este capítulo, poderíamos questionar o que mudou


ao longo deste período — de 1984 a 1989 — no que se refere à história do
socialismo democrático do Partido dos Trabalhadores em relação ao período
anterior — de 1979 a 1983.
A principal resposta seria que a luta pelo “acúmulo de forças” e a
conquista paulatina da hegemonia na sociedade capitalista se consolidou
como principal estratégia de ação do Partido. Foi referenciado por esta

178
Os 14 Pontos do PAG foram : I – Democratização do Estado e da Sociedade; II – O Novo
Modelo de Desenvolvimento Econômico; III – O Programa Agrário; IV – Mulheres; V – Negros; VI –
Política de Transportes; VII – Saúde: Direito de Todos; Dever do Estado; VIII – Política de
Educação; IX – Salvar a Amazônia, Defender a Vida; X – A Política Energética; XI – Por uma
Política Externa Soberana; XII – Reforma Urbana e Política Habitacional; XIII – Defesa das
Conquistas dos Trabalhadores; XIV – Ecologia e Meio-Ambiente.
179
Resoluções Políticas do 6 o. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
estratégia que o PT se lançou nas grandes lutas e disputas eleitorais do
período. Com relação ao socialismo democrático, a concepção do mesmo
caminhou em seu sentido teórico, sendo apontadas algumas estruturas da
futura sociedade socialista. Principalmente, as referentes à economia, com a
importância do Estado na vida da sociedade e com a ênfase, novamente, no
caráter democrático da sociedade que se construiria.
No tocante ao processo de ruptura, o PT via na vitória para
presidência da República um importante golpe na luta contra a sociedade
capitalista e apostava todas as suas cartas na mobilização dos trabalhadores
para que tal processo se desse. Inclusive, era na mobilização dos
trabalhadores que se depositava a grande resistência contra qualquer golpe
contra a legalidade 180 de uma possível vitória do Partido 181, que representaria
um grande salto na luta pela conquista da hegemonia na sociedade.
Entretanto, o Partido não conseguiu formar o que poderia ser
considerada uma “força revolucionária” respaldada pelo movimento popular
na disputa das eleições para presidente da República. Esta “força
revolucionária” poderia ser aferida pelo número de votos que o Partido
conseguisse, para poder colocar em ação o processo de ruptura com a
sociedade capitalista.

180
Uma preocupação do partido, e talvez uma indagação comum, era se o partido ganhasse as
eleições para presidente da República, não se instauraria um processo de distúrbios, a legalidade
do pleito, ou um golpe de estado contra a posse do governo petista, pelos perigos que este
governo representava à classe dos proprietários dos meios de produção? A posição tomada pelo
partido foi esta: “Sabemos que o programa democrático popular choca com interesses que tudo
farão para inviabilizar nosso governo, ou mesmo para desmoralizar o PT e as forças democráticas
e populares durante o mandato do Lula. A resposta às tentativas de desestabilizar nosso e de
romper as regras do jogo, recurso que setores das classes dominantes historicamente têm
utilizado, só pode ser a mais ampla mobilização popular e a luta social. O PT acredita que a
capacidade de luta e mobilização dos trabalhadores é o principal instrumento para o avanço
político e programático de um governo popular.” In: Diretrizes para a Elaboração do Programa de
Governo.
181
“Todas estas possibilidades refor çam a necessidade de inserir a candidatura do PT em um
amplo movimento de massas, no qual os trabalhadores tenham capacidade de articular um vasto
movimento democrático e transformador da sociedade, captando e traduzindo em alternativas
concretas e palpáveis para as maiorias todos os anseios de mudança que se manifestam
crescentemente nestes dez últimos anos no Brasil. O binômio mudanças econômico-sociais
radicais e democracia é a chave para constituir um bloco majoritário capaz de levar Lula à
Presidência e de dar sustentação ao governo do PT, sobretudo nos primeiros meses, quando a
o
burguesia tentará, por todos os meios, inviabilizá-lo.” In: Resoluções do 6 . Encontro Nacional do
Partido dos Trabalhadores.
Como o Partido corretamente analisou, no Brasil não existia uma
"situação revolucioná ria182" e para que a mesma pudesse existir seria
necessário que se constituísse uma "força revolucionária" dos trabalhadores
para que se conquistasse, paulatina e democraticamente, espaços na
sociedade, para a construção da hegemonia dos trabalhadores e a
constituição da sociedade socialista.
O PT perdeu as eleições para presidente da República em 1989 e,
com ela, a oportunidade de colocar em prática a sua concepção teórica de
um socialismo democrático. Ou, ainda, a chance de obter o respaldo de que
necessitaria de uma possível “força revolucionária” para colocar em
andamento o processo de ruptura com a sociedade capitalista.

182
“Embora não exista uma crise do tipo revolucionário, nem mesmo uma situação revolucionária,
podemos e devemos conquistar o Executivo, a Presidência da República, inaugurando um novo
período no qual, com a posse do Governo – portanto, de parte importante do poder do Estado – a
disputa pela hegemonia se dará em outro patamar. Estará colocado para o PT e para as forças
democráticas e populares a possibilidade de iniciar um acelerado e radical processo de reformas
econômicas, de lutas políticas e sociais. Tudo isso criará condições para a conquista da
hegemonia política e de transformações socialistas.
Para isso, faz -se necessário dar resposta a inúmeros problemas que a nova conjuntura nos
apresenta. Em primeiro lugar, não basta concorrer às eleições com uma plataforma de lutas
econômicas e políticas dos trabalhadores e dos setores médios da sociedade. Nem, tampouco, é
possível propor um programa socialista, inexeqüível e que nos isolaria. Trata-se, então, de
apresentar um Programa de Ação de Governo que expresse as principais reivindicações dos
trabalhadores, as reformas econômicas e sociais para retirar o País da crise e combiná-lo com a
luta política e ideológica, com a disputa pela hegemonia na sociedade. Estimulando o crescimento
e fortalecimento dos movimentos sociais, promovendo a auto-organização dos trabalhadores,
abrindo canais para a participação popular, criando instrumentos de poder local, fazendo surgir um
real movimento socialista, estaremos não só viabilizando um governo democrático-popular, mas
estaremos forjando as condições políticas e sociais para transformações socialistas no País.”
Ibidem.
4. A HISTÓRIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DO PARTIDO
DOS TRABALHADORES — A BATALHA (1990 -1994)

Como vimos nos capítulos anteriores, desde a fundação do Partido


dos Trabalhadores o seu discurso se identificou com a promoção de um
socialismo para a sociedade brasileira.
O socialismo do PT, por suas peculiaridades, seria diferente de todas
as experiências socialistas que se consolidaram numa burocratização da vida
social e num regime de partido único ocorridas até então. Isto porque o
socialismo petista consistiria na formação de uma ordem socialista que
respeitaria os pontos de vista, os valores e as formas de manifestação
particulares, com vários partidos, enfim, um Socialismo Democrático.
Nos capítulos anteriores analisamos a história dessa proposta
socialista nos documentos do PT, os avanços e os recuos da estratégia
petista, e a importância das instâncias de base do Partido (principalme nte os
Núcleos de Base) para uma possível promoção deste socialismo. Como
percebemos, o PT, em sua prática política, caminhou pouco no sentido de
qualquer experiência mais aprofundada na promoção de seu socialismo. Nas
concepções desse seu Socialismo Democrático obteve alguns avanços na
teoria, mas, não conseguiu implementar alguma forma possível de colocá-lo
em prática. As instâncias de base foram paulatinamente incorporadas
burocraticamente à vida do Partido, não se distinguindo sua ação política —
prática — dos demais campos de atuação abertos para os outros partidos.

4.1. Um olhar sobre os ombros: avanços da estratégia

O PT, ao longo da década de 80, foi moldando a teoria de seu


socialismo sob o conceito da luta por hegemonia, a partir do acúmulo de
vitórias localizadas, principalmente do movimento social, sendo que o Partido
(representando os trabalhadores) assumiria a hegemonia da sociedade e
promoveria o seu socialismo.
Nesta luta por hegemonia na sociedade brasileira, a vitória nas
eleições de 1989 para a presidência da República era considerada
fundamental para impulsionar o socialismo do PT. Na disputa do segundo
turno das eleições, o Partido chegou a acreditar — como muita gente — na
vitória, porém, foi derrotado por uma pequena margem de votos.
Perdida a eleição para presidente da República, toda a estratégia de
mobilização popular — abordada anteriormente por nós — para promover as
transformações socialistas a partir do Poder Executivo se inviabilizaram. O
Partido não alcançou o posto que impulsionaria a disputa pela hegemonia
dos trabalhadores na sociedade, indispensável para a conquista do
socialismo.
Entretanto, mesmo se tratando de uma derrota, as eleições
presidenciais de 1989 representaram um importante marco na história do PT.
Por um lado, a derrota frustou as expectativas de colocar em ação todas as
concepções acerca da luta pela conquista da hegemonia na sociedade
capitalista. Mas, por outro lado, a disputa eleitoral do segundo turno
representou uma grande conquista, significando que o Partido, em menos de
10 anos, ganhou expressão nacional.
Derrotado eleitoralmente, surgiram avaliações internas, semelhante às
outras vezes, acerca da importância das eleições para a vida partidária.
Novamente, questões relacionadas ao caminho eleitoral e à organização do
Partido foram colocadas 183. Mas, a despeito destes debates de longa data, o
PT conquistou o Executivo de grandes cidades e isso levou-o a questionar
seu relacionamento com a sociedade.
Surgem, novamente, avaliações das condições desfavoráveis de
existência dos Núcleos de Base dentro do Partido 184, juntamente com a

183
“Pode parecer estranho, mas acho que essa quantidade de eleições prejudica a organização do
partido, não ajuda. O partido deve crescer eleitoralmente, e não crescer na sua organização
interna. Na sua estrutura interna, pode até decrescer. Me preocupa, porque eu acho que
precisamos ter um tempo para reorganizar o partido, ou seja, para voltar a fortalecer os Núcleos de
Base, nossa participação nas fábricas, fazer um processo de filiação muito grande, para que a
gente possa trazer para o PT outros quadros.” Entrevista de Lula – In: Boletim Nacional
o
(fevereiro/90 n . 48 p. 3 e 4).
184
“A maioria dos núcleos deixou de existir e, quando existem, se restringem a exercer
precariamente apenas alguns dos aspectos de base de democracia interna. O mais das vezes, têm
ação apenas episódica, às vésperas dos encontros e convenções, transformando-se em comitês
eleitorais de apoio a candidatos proporcionais, ou se engalfinhando em intermináveis disputas
necessidade, que perdura desde a fundação, de uma maior relação do
Partido com a sociedade via Núcleos 185, além da delegação de maior poder
aos mesmos.

“Reafirmar os núcleos enquanto organismos fundamentais de base


significa resgatar a independência do Partido em relação à legislação oficial, que
atrela a organização partidária às eleições, ou seja, à perspectiva de existirem
apenas partidos do ponto de vista eleitoreiro. Nesse processo, a prioridade para
a nucleação deve passar, definitivamente, a ser assumida pelo conjunto do
Partido. Para isso, livre das exigências cartoriais, o núcleo deve passar a ocupar
um lugar dirigente no PT, servindo como instrumento de mobilização para
campanhas gerais e de elaboração política relativa à sua área de intervenção,
constituindo-se em instrumento privilegiado para incorporação de novos
militantes. Passos na direção de fortalecer e dar maior poder aos núcleos devem
ser dados, com a implementação de proposta, já aprovada, no sentido de
incorporar ao diretório de base uma representação eleita diretamente pelos
186
núcleos.”

A relação do Partido com a sociedade foi uma das principais


preocupações expressas no documento “Construção Partidária” aprovado no
7o. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores em junho de 1990.
Neste documento, o Partido fez avaliações de sua relação com a sociedade
brasileira e algumas delas foram importantes para nossa análise. Uma das
avaliações dizia respeito à forma do Partido se comunicar com a sociedade:

“O Partido dos Trabalhadores é fruto da atual sociedade brasileira, de


suas contradições e desafios e se relaciona com essa sociedade de diversas
formas e maneiras. Pela ação individual dos petistas. Pela ação dos núcleos de
base e dos Diretórios. Por intermédio de algumas secretarias específicas. Pela
ação das bancadas parlamentares, das administrações petistas e suas equipes
de governo. Pelas notas, comunicados, manifestos, moções e resoluções

internistas por postos de direção e pelo chamado poder partidário. Raríssimos são os núcleos que
funcionam como expressão, representação e direção da sociedade fora do partido. Com os
diretórios dá-se praticamente o mesmo (...) É preciso, portanto, repensar a natureza e a forma de
funcionamento dos Núcleos de Base, de maneira que efetivamente venham a exercer o importante
papel que devem ter na construção do PT. Nesse sentido, resgatamos aqui o essencial das
o
preocupações já expressas nas Resoluções do 5 . Encontro Nacional. Mas, ao mesmo tempo,
devemos pensar, com ousadia e criatividade, em novas formas de organização de base no Partido
bem como novos canais para atuação no movimento social concreto, a fim de enfrentar também os
novos desafios que se colocam para o PT neste momento em que nos dispomos a lutar por
o
hegemonia no rumo da construção do socialismo.” In: Resoluções Políticas do 7 . Encontro
Nacional do Partido dos Trabalhadores.
185
“Para realizar a contento seu relacionamento com a sociedade, o PT precisará, cada vez mai s,
agilizar seus núcleos e Diretórios, tanto como instâncias de democracia interna, quanto de janelas
abertas para a sociedade. Este papel está sendo exercido de forma precária e insatisfatória, tanto
pelos núcleos de base quanto pelos Diretórios.” Ibidem.
186
Ibidem.
emanados das instâncias de direção. Pelas entrevistas, declarações,
informações e frases dos dirigentes, líderes e parlamentares petistas. Por artigos
em jornais e revistas, escritos por petistas conhecidos. Pelas campanhas
políticas específicas e pelas campanhas eleitorais. Pelos programas de rádio e
televisão nos horários concedidos pela Justiça Eleitoral. Por jornais, revistas,
boletins, panfletos, cartazes, vídeos, bottons, faixas e outras formas de
divulgação. Pelo Governo Paralelo. Pela ação concreta de ativistas do
movimento popular e sindical, que se identificam ou são identificados como
petistas, nas greves e outras manifestações. Por debates, palestras, seminários
de que participam petistas, representando ou não oficialmente o Partido. Pela
presença do PT em acontecimentos internacionais e pela cobertura da imprensa
à s idéias e às atividades do PT. Pelas discussões no Parlamento e pelos
ataques políticos, eleitorais ou não, dos adversários do PT. Pela coincidência de
idéias, posturas e ações de entidades da sociedade civil com as posições do
187
Partido.”

Para avançar em seus intentos socialistas, o Partido deveria


conquistar “espaços hegemônicos” na sociedade. Perdida a eleição para
presidente da República, uma das principais armas do Partido para a
conquista da hegemonia na sociedade brasileira continuava a ser — como foi
desde a fundação do Partido — a possível mobilização social. Mas,
permanecia a questão de como se relacionar com a complexidade e a
variedade de lutas e aspirações das grandes massas populares.
A questão do relacionamento com o movimento social, o Partido
dividiu conforme o grau de organização dos mais variados atores sociais,
tentando estabelecer políticas para isso.

“Desse modo, salta à vista que há inúmeras formas de relacionamento


do PT com a atual sociedade brasileira, decorrentes de sua própria existência e
derivadas dos embates entre as idéias e ações do PT e outras forças políticas e
sociais ou de ações espontâneas da base da sociedade. O grande problema do
PT, nesse caso, consiste em conhecer o mais aproximadamente possível os
diferentes atores (sociais e políticos) com os quais se relaciona, na maioria das
vezes espontaneamente e sem controle, e imprimir a tal relacionamento um
caráter consciente, planejado e organizado.
Nas condições presentes, isso é particularmente importante em relação
aos grandes contingentes despolitizados da população brasileira, aos
trabalhadores organizados, aos movimentos sindical e popular, à sociedade civil
188
e aos partidos.”

187
Ibidem.
188
Ibidem.
Dentre esses atores sociais, um representava grande problema para o
Partido: o contingente despolitizado da população representado pela maioria
da sociedade.

“Um dos mais sérios desafios enfrentados pelo PT na atualidade, como


demonstrou a experiência eleitoral de 1989, consiste em encontrar caminhos e
formas de relacionar-se de modo consistente com os grandes contingentes
despolitizados e inorganizados da sociedade. É uma imensa massa da
população, constituída das camadas de menor ou praticamente nenhum
rendimento permanente; inteiramente analfabeta ou extremamente pouco
alfabetizada; de parcos e mínimos recursos de sobrevivência; massa de
indivíduos sobrecarregados pela luta cotidiana pela vida, avessos a quaisquer
formas mais sistemáticas de organização, propensos a acreditarem nos milagres
dos salvadores providenciais, sensíveis aos carismas pessoais, submissos e
subservientes a qualquer forma ostensiva de autoritarismo, do PM armado à
Rede Globo, passando pelas elites demagógicas e populistas.
Para relacionar-se com esses contingentes, o PT terá que utilizar formas
e métodos diferentes dos que tem usado tradicionalmente para relacionar-se
com os setores mais avançados dos trabalhadores urbanos e rurais e com as
classes médias intelectualizadas e politizadas. Será necessário combinar as
formas massivas de comunicação com as visitas domiciliares e com maneiras
especiais de abordagem individual e apresentação de propostas políticas. Os
núcleos e Diretórios, assim como os meios de comunicação externa do Partido,
terão que desenvolver toda a sua criatividade e espírito de iniciativa para
encontrar esses caminhos e superar esse desafio, que, hoje, é estratégico para
a construção do PT e para a luta política.”189

Se, por um lado, existiam maneiras de relacionamento com os setores


organizados da sociedade, esses representavam uma pequena parcela da
totalidade da população. A relação com a grande maioria dos brasileiros era
bem mais complicada e a ineficiência em viabilizá-la se constituiu num dos
principais empecilhos para a conquista da hegemonia na sociedade
brasileira. A partir desta constatação, percebeu-se a necessidade de
implementação dos meios de comunicação do Partido com a sociedade,
como forma de se atingir um público mais amplo.

“Fica cada vez mais evidente que, para reforçar sua ação na sociedade,
o PT precisa também superar suas lacunas na construção de uma eficiente rede
de comunicações externa. O grande poder que os meios modernos de
comunicação de massa exercem na difusão das idéias, valores, propostas e
políticas de classes dominantes precisa ser enfrentado pelo PT de modo eficaz,
mesmo levando em conta a enorme disparidade de recursos. Nenhuma força

189
Ibidem.
política pode dispensar a propaganda e a agitação de suas teses e propostas no
embate ideológico e político.
Para que isso aconteça, em sua comunicação externa o PT precisa
trabalhar com várias linguagens, traduzindo teses e propostas ao entendimento
tanto dos setores mais intelectualizados, quanto das camadas sem instrução e
despolitização, utilizando os diferentes meios de comunicação de forma criativa.
Em certa medida, embora em escala reduzida, os petistas demonstraram
originalidade na criação de programas de TV e rádio, em particular durante as
campanhas eleitorais. Também é da tradição petista uma vasta produção de
boletins, jornais tablóides e impressos em geral. Entretanto, é evidente que
ainda não existe uma política mais consistente de comunicação externa que
combine televisão, rádio, impressos e meios cênicos de comunicação numa
escala que atinja grandes massas.
A edição de um jornal para a sociedade, o melhor aproveitamento da
televisão e do rádio e a utilização do teatro e mesmo do cinema são desafios
que devem ser vencidos com decisão para ampliar consideravelmente o
relacionamento do PT com a sociedade, permitindo-lhe disputar efetivamente a
190
hegemonia ideológica e política.”

A constatação da dificuldade de se relacionar com a sociedade de


uma forma geral pode ser feita por qualquer outra instituição ou partido
dentro de uma Sociedade de Massas, devido à própria complexidade dessa
sociedade e à existência de várias formas de interação com a mesma. No
entanto, o Partido observou a existência de um entrave no seu
relacionamento com os próprios simpatizantes das idéias petistas. Ou seja,
constatou-se que o Partido tinha dificuldade de interagir com indivíduos que
se identificavam com seus valores.

“Fora desse universo de filiados e militantes, há os que não guardam


quaisquer vínculos orgânicos com o Partido mas que acompanham sua vida,
com ele se sentem solidários e o defendem, e brigam pelo PT. Há os que se
aproximam do Partido, ainda que apenas na época das campanhas eleitorais, e
então contribuem com dinheiro e com esforço de militância. Há os que apenas
votam, sistemática ou episodicamente, nos candidatos do PT. Existem os que
não suportam freqüentar uma reunião de Partido, mas que, quando mobilizados
são capazes de contribuir para as teses e programas partidários em áreas
profissionais, científicas, acadêmicas e culturais. Também existem os que
acompanham o PT de longe, às vezes são muito críticos e agem contra o PT,
mas não podem renunciar ao Partido como o contraponto de sua própria
consciência política. Há os que nem sabem direito o que é PT, influenciadas
pelos exemplos e pelo discurso de petistas. Há os que simplesmente gostam de
estrela. Há os que usam botton do PT e por isso se acham tão petistas quanto o
Lula.
(...)
O PT precisa estudar e caracterizar essas diversas bases, captar o que
possa haver de identidade na heterogeneidade, de unitário na diversidade,

190
Ibidem.
compreender a importância e o papel que podem jogar na busca de uma
hegemonia petista na sociedade. É necessário que o PT use diversas formas de
intercomunicação com essas diferentes bases, não apenas para fazer chegar a
elas suas palavras de ordem, mas principalmente para ouvir suas vontades,
seus anseios e temores. É preciso traçar políticas específicas para cada uma
dessas bases, além de querer conquistar o resto da sociedade.” 191

Foi um tanto complicado para o Partido chegar a essas conclusões,


pois desde as suas origens, o PT possuía um discurso socialista que
defendia a democracia e, ao falar de conquista de hegemonia, partia do
pressuposto da existência de uma consistência orgânica entre as partes que
a disputassem. Como vimos, desde a fundação do Partido esta consistência
orgânica dos oprimidos foi procurada, porém, ela foi concebida como exterior
à sociedade, dentro do próprio Partido, e transferida como um pressuposto
para a sociedade, bastando apenas combinar os elementos que fariam com
que as massas reconhecessem seu papel como força social.

“A nossa bagagem ideológica original, enriquecida no próprio curso da


luta política e consolidada nos vários encontros nacionais do Partido, orientou a
conduta do PT ao longo de toda a década de 80 e garantiu a conquista de
importantes objetivos históricos. Com o sentido geral da nossa política —
democrático e anticapitalista — perfeitamente assegurado, optamos pela
construção progressiva da nossa utopia concreta, isto é, da sociedade socialista
pela qual lutamos. Quisemos evitar anto
t o ideologismo abstrato, travo elitista da
esquerda tradicional brasileira, quanto o pragmatismo desfibrado, característico
de tantos outros partidos. De nada nos serviria um aprofundamento ideológico
puramente de cúpula, sem correspondência na cultura política real de nossas
bases partidárias e sociais.
De resto, também as direções careciam de muita experiência, que só a
luta democrática de massas, paciente e continuada, pode proporcionar. O que
legitima os contornos estratégicos definidos de qualquer projeto socialista é a
convicção radicalmente democrática e transformadora de amplos segmentos
populares. Pode-se dizer, sem indevido triunfalismo, que tal pedagogia política,
baseada na auto-educação das massas por meio de sua participação civil,
revelou-se, no geral, acertada.” 192

Daí, a existência de certas desarmonias entre o discurso socialista do


Partido e as constatações empíricas da dificuldade de relacionamento com
partes consideráveis da sociedade brasileira, pois, a criação de um poder
transforma dor nas massas não seria nada simples.

191
Ibidem.
192
Ibidem.
– Resoluções Políticas do 7o. Encontro Nacional do Partido dos
Trabalhadores.

Outros exemplos de desarmonias entre o discurso petista e a própria


realidade brasileira foram os posicionamentos acerca do socialismo petista
encontrados nas Resoluções Políticas do 7o. Encontro Nacional, em que o
Partido lançou questões antigas acerca de seu socialismo 193 e tentou
fornecer algumas respostas 194. E dentre essas respostas cabe-nos citar
algumas, ou as mais importantes para nossa análise.
Primeiramente, o socialismo não seria um efeito natural do próprio
desenvolvimento capitalista, mas, uma obra interposta pelos seres humanos
no seu desenvolvimento social 195. A defesa das particularidades dos grupos
sociais oprimidos continuaria a ser a principal bandeira de luta do Partido
para a promoção do socialismo.

“A nova sociedade que lutamos para construir inspira-se concretamente


na rica tradição de lutas populares da história brasileira. Deverá fundar-se no
princípio da solidariedade humana e da soma das aptidões particulares para a
solução dos problemas comuns. Buscará constituir-se como um sujeito
democrático coletivo sem com isso negar a fecunda e desejável singularidade

193
“Mas qual socialismo? Qual sociedade, qual Estado lutamos com tamanho empenho para
construir? Como deverá ser organizada a sua estrutura produtiva e com quais instituições políticas
contará? Como serão conjurados, no plano da política prática, os fantasmas ardilosos do
autoritarismo? Inútil sublimar a magnitude da tarefa histórica que é responder teórica e
praticamente a tais indagações. Tarefa que não depende somente do PT e deve engajar todas as
energias libertárias disponíveis em nossa sociedade, assim como valer-se de esforços análogos
realizados em outros quadrantes.” Ibidem.
194
“Para algumas destas perguntas podemos avançar respostas que decorrem da nossa
experiência ativa e reflex iva. Brotam, por negação dialética, das formas de dominação que
combatemos ou resultam de convicções estratégicas que adquirimos em nossa trajetória de lutas.
o
O 5 . Encontro Nacional já apontou o caminho: para extinguir o capitalismo e iniciar a construção
da sociedade socialista, será necessária uma mudança política radical; os trabalhadores precisam
transformar-se em classe hegemônica na sociedade civil e no poder de Estado. Outros aspectos
do nosso projeto socialista são desafios em aberto, para os quais seria presunçoso e equivocado
supor que podemos dar respostas imediatas. Sua superação demandará provavelmente
insuspeitada fantasia política e criatividade prática, legitimadas não apenas pelas nossas opções
ideológicas mas pela aspiração concreta das massas oprimidas de uma existência digna.” Ibidem.
195
“O PT não concebe o socialismo como um futuro inevitável a ser produzido necessariamente
pela leis econômicas do capitalismo. Para nós o socialismo é um projeto humano cuja realização é
impensável sem a luta consciente dos explorados e oprimidos. Um projeto que, por essa razão, só
será de fato emancipador na medida em que o concebemos como tal: ou seja, como necessidade
e ideal das massas oprimidas, capaz de desenvolver uma consciência e um movimento
efetivamente libertário. Daí porque recuperar a dimensão ética da política é condição essencial
para o restabelecimento da unidade entre socialismo e humanismo.” Ibidem.
individual. Assegurando a igualdade fundamental entre os cidadãos, não será
menos ciosa do direito a diferença, seja esta política, cultural, comportamental
etc. Lutará pela liberação das mulheres, contra o racismo e toda as formas de
opressão, favorecendo uma democracia integradora e universalista. O
pluralismo e a auto-organização, mais que permitidos, deverão ser incentivados
em todos os níveis da vida social, como antídoto à burocratização do poder, das
inteligências e das vontades. Afirmando a identidade e a independência
nacionais, recusará qualquer pretensão imperial, contribuindo para instaurar
relações cooperativas entre todos os povos do mundo. Assim como hoje
defendemos Cuba, Granada e tantos outros países da agressão imperialista
norte-americana, a nova sociedade apoiará ativamente a autodeterminação dos
povos, valorizando a ação internacionalista no combate a todas as formas de
exploração e opressão. O internacionalismo democrático e socialista será sua
196
inspiração permanente.”

Um dos grandes entraves encontrados nas sociedades capitalistas


pelos socialistas que tiveram como norte o cabedal de valores marxistas-
leninistas foi a não existência de condições estruturais como as encontradas
por Lenin na Rússia de 1917 e em outros lugares no mundo, como uma
situação revolucionária e o que poderíamos chamar de “coesão”
revolucionária de um “conjunto de trabalhadores” — a maioria — imbuídos de
um objetivo comum.
O aumento construtivo e produtivo das atividades econômicas da
sociedade capitalista, gerando toda a complexidade dos vários segmentos da
força de trabalho na Sociedade de Massas com sua inerente pluralidade,
fragmenta símbolos e valores dos grupos sociais que não detenham a posse
dos meios de produção E, diga-se de passagem, fragmenta símbolos e
valores, inclusive de uma burguesia que também se fragmenta
acompanhando o aumento das atividades lucrativas de uma economia de
consumo de massa.
A existência dessa complexidade, natural ao desenvolvimento de
sociedades capitalistas, constituiu-se no grande entrave para os partidos
comunistas e tornou-se a grande bandeira de defesa para o socialismo do
PT.

“O PT já nasceu com propósito radicalmente democráticos. Surgimos


combatendo a ditadura militar e a opressão burguesa, exigindo nas ruas e nos
locais de trabalho o respeito às liberdades políticas e aos direitos sociais.

196
Ibidem.
Crescemos denunciando a transição conservadora e construindo as bases da
soberania popular. Em 10 anos de existência, o PT sempre esteve na vanguarda
das lutas pela democratização da sociedade brasileira. Contra a censura, pelo
direito de greve, pela liberdade de opinião e manifestação, pela anistia, pelo
pluripartidarismo, pela Constituinte autônoma, pelas eleições livres e diretas.
Tornamo-nos um grande partido de massas denunciando a expropriação dos
direitos de cidadania pelo poder de Estado, o atrelamento dos sindicatos ao
aparato estatal, o imposto sindical. Diversos companheiros deram a sua vida na
luta dos trabalhadores pela democracia. Santo Dias, Wilson Pinheiro, Margarida
Alves. Pe. Josimo, Chico Mendes e tantos outros. Na raiz de nosso projeto
partidário está justamente a ambição de fazer do Brasil uma democracia digna
desse nome. Porque a democracia tem para o PT um valor estratégico. Para nós
ela é a um só tempo meio e fim, instrumento de transformação e meta a ser
alcançada. Aprendemos na própria carne que a burguesia não tem verdadeiro
compromisso histórico com a democracia. A relação das elites dominantes com
a democracia é puramente tática, elas se socorrem da via democrática quando
pragmaticamente lhes convém. Na verdade, a democracia interessa sobretudo
aos trabalhadores e às massas populares. Ela é imprescindível, hoje, para
aprofundar suas conquistas materiais e políticas. Será fundamental para a
superação da sociedade injusta e opressiva em que vivemos. Assim como será
decisiva no futuro a instituição de uma democracia qualitativamente superior,
para assegurar que as maiorias sociais de fato governem a sociedade socialista
197
pela qual lutamos.”

Para o Partido, a democracia abrangeria todos os aspectos da vida


em sociedade, como a economia:

“O socialismo que almejamos, por isso mesmo, só existirá com efetiva


democracia econômica. Deverá organizar-se, portanto, a partir da propriedade
social dos meios de produção. Propriedade social que não se confunda com
propriedade estatal, gerida pelas formas (individual, cooperativa, estatal, etc.)
que a própria sociedade democraticamente decidir. Democracia econômica que
supere tanto a lógica perversa do mercado capitalista quanto o intolerável
planejamento autocrático estatal de tantas economias ditas ‘socialista’. Cujas
prioridades e metas produtivas correspondam à vontade social e não a supostos
‘interesses estratégicos’ do Estado. Que busque conjugar — desafio dos
desafios — o incremento da produtividade e a satisfação das necessidades
materiais com uma nova organização de trabalho, capaz de superar a sua
alienação atual. Democracia que vigore tanto para a gestão de cada unidade
produtiva — os conselhos de fábrica são referência obrigatória — quanto para o
sistema no seu conjunto, através de um planejamento — estratégico sob
198
controle social.”

Ou a política:

“No plano político lutamos por um socialismo que deverá não só


conservar as liberdades democrática duramente conquistadas na sociedade
197
Ibidem.
198
Ibidem.
capitalista — mas ampliá-las, liberdades válidas para todos os cidadãos e cujo
único limite seja a própria institucionalidade democrática. Liberdade de opinião,
de manifestação, de organização civil e político-partidária. Instrumentos de
democracia direta, garantida a participação das massas nos vários níveis de
direção do processo político e da gestão econômica, deverão conjugar-se com
os instrumentos da democracia representativa e com mecanismos ágeis de
consulta popular, libertos da coação do capital e dotados de verdadeira
capacidade de expressão dos interesses coletivos.”199

Entretanto, o Partido reconheceu as dificuldades:

“O PT, lutando por tal socialismo, não menospreza os desafios teóricos


e práticos a superar para a sua obtenção. Sabe que tem pela frente um
gigantesco esforço de construção doutrinária e de luta social, e declara-se mais
do que nunca disposto a realizá-lo, em conjunto com todas as forças
200
democráticas e transformadoras presentes na vida brasileira.”

Isso que apresentamos acima representou o que podemos chamar de


análises de cunho teleológico. Seguiremos, agora, com as análises do
próprio Partido quanto à conjuntura política da sociedade brasileira.
Passadas as eleições, o principal inimigo do Partido mais uma vez se
metamorfoseou, as classes dominantes assumiram uma nova configuração
com a vitória de Fernando Collor de Mello. Nesse particular, as Resoluções
Políticas do 7o. Encontro Nacional fizeram importantes análises daquilo que
representava a nova configuração de classe no poder de Estado, semelhante
ao que representava a ditadura militar e a Aliança Democrática, analisando
os efeitos nocivos para a classe trabalhadora das medidas do Governo
Collor:

“Passados os primeiros meses, estão se confirmando as previsões e a


avaliação política feitas pela Comissão Executiva Nacional e pelo Diretório
Nacional do PT nos momentos iniciais do Plano Collor. A recessão se aprofunda
e o Governo, além de perder o controle da liqüidez da economia, insiste numa
política salarial que levará a um arrocho nunca visto. O congelamento de preços
não passa de uma declaração política e faz parte do jogo publicitário do
Governo. A própria reforma administrativa, anunciada com grande estardalhaço,
não resolverá o problema de caixa do Governo, que a reforma fiscal pretendia
eliminar.
O Plano Collor vive, portanto, entre a recessão e a retomada da inflação,
com riscos de uma hiperinflação. Desorganizou a economia, destruiu a

199
Ibidem.
200
Ibidem.
credibilidade do sistema financeiro, impôs, especialmente aos trabalhadores e
pequenos produtores, perdas salariais e de renda, além de imobilizar novamente
o Governo, já que inviabilizou sua política fiscal e monetária. A tendência
recessiva manifesta -se pela queda do nível de emprego, diminuição do consumo
e arrocho salarial, criando um círculo vicioso que, somado ao seqüestro da
liqüidez, desorganizou e paralisou parte do sistema produtivo. Com isso, os
agentes econômicos não investem, dada a incerteza do quadro econômico, o
que, somado aos cortes dos investimentos públicos e aos problemas no setor
exportador, forma o quadro recessivo.
A gravidade política e social da situação, confirmada pela ausência de
uma política de salvaguarda do emprego e de salários da classe trabalhadora, é
acentuada pela proposta da livre negociação, que o Governo quer impor num
quadro recessivo. O risco de hiperinflação é real, o sistema financeiro não
funciona como rede de contenção e, por isso, não consegue evitar a fuga de
liqüidez, que a economia retomou para o dólar, o ouro e a especulação
201
imobiliária.”

Feita as principais análises acerca dos efeitos do Governo Collor para


a sociedade brasileira, o Partido estabeleceu as principais frentes de ataque
contra o mesmo 202.
Novamente, semelhante a toda a história do Partido, seu principal
agente de luta contra o quadro da sociedade, o movimento social, em que
incidiam os efeitos negativos das políticas econômicas, materializados nas
manifestações populares contra o governo 203, poderiam gerar o estopim
necessário para desencadear a mobilização dos trabalhadores e as alianças
com outros setores da sociedade.

201
Ibidem.
202
“O confronto com o Governo vai ocorrer em vários níveis e momentos:
a) disputa no plano institucional, no Congresso Nacional e nas eleições de 1990;
b) disputa na sociedade, contrapondo à CUT e aos movimentos organizados o sindicalismo de
resultados e os descamisados;
c) disputa nos me ios de comunicação e na mobilização social, procurando impedir nosso acesso à
informação e a retomada da luta social e econômica organizada;
d) disputa de alternativas políticas e ideológicas em torno dos objetivos do Governo Collor e da
questão da ideologia neoliberal, contra o socialismo e a esquerda.” Ibidem.
203
“Frente a esse quadro, vai se criando no País uma nova situação política. Diferentes setores da
sociedade foram se conscientizando da natureza do Plano Collor, dos seus efeitos antipopulares e
de seus objetivos a longo prazo, contrários aos interesses do povo e do Brasil. As medidas ilegais,
o autoritarismo e a vergonhosa propaganda que acompanharam o Plano Collor produziram, em
setores democráticos da sociedade, articulações dirigidas pela Comissão de Justiça e Paz,
incluindo OAB, ABI, setores das Igrejas, movimento sindical, entidades de profissionais e técnicos,
pequenas e microempresas. No campo popular e sindical, as manifestações promovidas pelo
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no ABC, pelos bancários em São Paulo, o
Congresso do Movimento Sem-Terra em Brasília e a ocupação de centros de trabalho,
particularmente a da Companhia Siderúrgica Nacional, foram um exemplo do caminho a seguir
para enfrentar o Plano Collor. De maneira geral, as mobilizações populares e as greves estão
sendo retomadas, como ocorre com os judiciários de São Paulo, os motoristas e ferroviários de
várias capitais, portuários, canavieiros de São Paulo, professores da rede pública do Rio Grande
do Sul, do Paraná, de Minas Gerais e de Santa Catarina.” Ibidem.
“De outro lado, é preciso, nos movimentos organizados, divulgar o
caráter do Plano Collor e os objetivos do ajuste econômico, denunciando a
privatização das estatais, via pagamento da dívida externa e a abertura, ao
capital estrangeiro, do mercado nacional, desnacionalizando o que resta de
médias empresas nacionais. Devemos mostrar que os grandes favorecidos pelo
Plano Collor serão os monopólios e cartéis presentes no País, e que se
reproduzirá o perverso modelo excludente, concentrador e dependente do
milagre econômico dos governos militares.
No caso de uma profunda recessão, o movimento sindical e popular
deve apoiar-se numa política de alianças com as classes médias e o pequeno
empresariado, diretamente atingidos pelo desemprego e pelo confisco. É preciso
combinar a política de defesa do funcionalismo público — ameaçado pela
política autoritária que pretende transformá-lo no bode expiatório do déficit
público e da ineficiência do Estado cartorialista, clientelista e corrupto criado
pelas classes dominantes brasileiras — com uma proposta de reforma
administrativa e patrimonial do Estado. O PT não pode ficar na defensiva nem
aceitar a chantagem do Governo, que, a pretexto de racionalizar o Estado, quer
vender o patrimônio público, quer calar e perseguir o funcionalismo público,
desmantelando suas organizações sindicais e liqüidando seus direitos
204
sociais.”

– A Reforma Urbana e o posicionamentos acerca das administrações


petistas

Antes de adentrarmos na próxima análise acerca do 1o. Congresso do


PT — que foi um dos grandes momentos na história do Partido, dedicado à
discussão do socialismo petista — cabe-nos apontar posicionamentos do
Partido acerca de uma nova bandeira de luta no período, a “reforma urbana”,
e de suas administrações conquistadas nas eleições de 1988.
O PT identificou avanços nas mobilizações de caráter reivindicativo
urbano, como participação em leis orgânicas, protestos contra as condições
de vida nas cidades, etc. 205 Isso fez com que o Partido, semelhante à

204
Ibidem.
205
“Dois fatores têm contribuído sobremaneira para este salto de qualidade:
A) As experiências de participação popular nas Constituintes Federais, Estaduais, Municipais (Leis
Orgânicas), na elaboração dos Planos Diretores e de outras leis, bem como nos diversos canais
institucionais abertos nas administrações e mandatos parlamentares (populares ou não) – apesar
do risco de institucionalização e absorção – têm estimulado a superação da fragmentação, do
isolamento, do corporativismo e do estágio meramente reivindicativo das lutas populares.
Apesar de não alcançada conforme os anseios populares, a participação popular nas Constituintes
obrigou os movimentos a reunirem e sistematizarem suas experiências e conhecimentos
acumulados, nos diversos campos da luta direta e traduzi- los em Emendas Populares. Em torno
das Emendas pela Reforma Urbana (a Emenda para a Constituinte Federal teve 165 mil
concepção de reforma agrária, concebesse o que seria uma “reforma
urbana” 206. Na concepção do PT, a sociedade brasileira, em um período curto
de tempo, havia se tornado urbana207 e o seu crescimento representou a
expansão da expropriação dos trabalhadores fora do ambiente de trabalho,
ou seja, aquilo que o PT chamou de apropriação privada da cidade.

“Nesse contexto, a espoliação urbana torna-se uma forma de


acumulação capitalista cada vez mais significativa. O setor imobiliário tornou-se
um dos mais capitalizados da burguesia brasileira, bem como a máfia das
empreiteiras de obras urbanas, da indústria da construção civil, do transporte
coletivo, da saúde e da educação privadas.
A espoliação urbana é a apropriação privada da cidade, cuja produção é
social e coletiva. O valor da terra urbana é produzido pelo trabalho individual e
coletivo e com os recursos públicos obtidos pela pressão da comunidade. Dessa
forma, se constrói, em volta de um terreno, a infra-estrutura necessária à vida na
cidade, ruas, rede de água, saneamento, transporte, escola, saúde,
abastecimento. Este valor, produzido coletivamente, e incorporado ao preço da
terra e apropriado privadamente pelo seu ‘proprietário’.
Proprietários e especuladores imobiliários se opõe ao uso social da
cidade. Da mesma forma, os empresários da construção civil, dos transportes,
da saúde, das escolas, têm um interesse de lucro e acumulação sobre os bens e
serviços, que deveriam ser oferecidos pelo poder público na quantidade e na
qualidade necessária ao uso da população.
Para o trabalhador, a cidade tem um valor de uso. Para o capitalista,
tem um valor de troca: é mercadoria da qual ele extrai lucro. A acumulação
capitalista se dá, no capitalismo, atual, tanto pela exploração da mais-valia na

assinaturas) aglutinaram-se e articularam-se movimentos que tinham pouca ou nenhuma


experiência de lutas conjuntas e as mais diversas formas de organização – desde as tradicionais
sociedades de amigos, associações e federação de bairros e favelas até os novos movimentos
específicos por moradia, transporte, saúde, creches, educação ...
(...)
B) Apesar da queda no nível de mobilização, é inegável o vigor com que ressurge o movimento de
luta pela moradia, desenvolvendo uma luta – as ocupações – que atinge o cerne do capitalismo: a
o o
propriedade privada (da terra urbana, no caso).” In: Cadernos do 1 . Congresso, n . 1.
206
“Inicialmente (nos anos 60) levantada por técnicos urbanos, a bandeira da Reforma Urbana
vem progressivamente sendo assimilada e assumida pelos movimentos populares, contribuindo
em muito na capacitação é t cnica desses movimentos para o difícil enfrentamento com a burguesia
urbana.
A bandeira da Reforma Urbana tem ainda o importante papel de suporte a um dos maiores
desafios atuais do movimento popular: a superação da fragmentação e do corporativismo e a
construção de uma articulação nacional de movimentos e lutas populares.” Ibidem.
207
“À medida que o capitalismo se desenvolve, já não é só na exploração do trabalho assalariado
que ele acumula capital. Com o aprofundamento da industrialização, igualmente crescem as
cidades. Os bens de consumo urbano também são transformados em mercadorias, gerando a
acumulação de capital. É a chamada ‘espoliação urbana’.
A ditadura militar teve importante papel na incorporação do Brasil ao mercado capitalista
internacional. Grandes projetos como a Transamazônica, a EMBRATEL, Itaipu, Carajás, a Zona
Franca de Manaus, expandiram o capitalismo a toda a extensão do território nacional. Nesse
período, a relação entre a população urbana e rural inverteu-se de 30/70 para 70/30, constituindo-
se uma complexa rede de cidades e pólos metropolitanos que fazem do Brasil de hoje um país
urbano.” Ibidem.
produção de mercadorias como pelo espoliação dos bens e equipamentos
necessários à reprodução da força de trabalho.
À medida que a espoliação urbana ganha importância como forma de
acumulação capitalista, o movimento popular passa a enfrentar-se cada vez
208
mais com a burguesia urbana e com a ordem capitalista na cidade.”

A “reforma urbana” tinha como pontos básicos uma nova apropriação


do espaço urbano ou a apropriação social pela grande maioria dos
moradores dos recursos da cidade209. Entretanto — e isso servirá de ponto
para a análise das administrações petistas — para que essa reforma urbana
ganhasse ímpeto, era necessária a criação de uma nova cultura por parte da
grande maioria dos moradores das cidades.
Aí, vemos uma mudança no discurso do Partido pouco verificada em
documentos anteriores, ou seja, a hegemonia perseguida sob um prisma
político passa a ser ressaltada também sob o prisma dos valores, ou da
ideologia.

“As leis orgânicas e os Planos Diretores Municipais igualmente tem sido


palco desta luta com uma participação precária mas significativa dos
movimentos populares urbanos. São inegáveis as conquistas e as mudanças
que esta luta tem demarcado na cultura vigente sobre a função social da cidade
e sobre as limitações ao ‘sagrado’ direito de propriedade.
O desmascaramento da especulação imobiliária, os avanços nas
concessões do direito real de uso do solo, a desvinculação entre o direito de
propriedade do solo e o direito de construir e especular sobre o solo (através de
mecanismos como o solo criado) são exemplos importantes de como a limitação
do direito de propriedade tem se incorporado à cultura de uma parcela mais
ampla da sociedade.
É muito importante a participação dos movimentos populares urbanos
na construção dessa cultura, apropriando-se e recriando conhecimentos e
instrumentos anteriormente de posse exclusiva da burguesia e de técnicos
210
supostamente neutros.”

208
Ibidem.
209
“Superando as reivindicações imediatas de obtenção e atendimento de bens ou serviços
específicos, a bandeira da Reforma Urbana tem como eixos:
A) A definição clara da função da sociedade e da propriedade, em detrimento do poder absoluto da
propriedade;
B) A gestão democrática da cidade.
A implementação desses princípios da Reforma Urbana exige que:
• A construção e a manutenção do es paço e equipamentos públicos sejam definidos como
responsabilidade coletiva;
• O investimento público seja propriedade coletiva, não podendo ser apropriado privadamente
através da valorização imobiliária;
• Os centros de poder e normatização sejam descentralizados propiciando maior autonomia e
controles locais.” Ibidem.
210
Ibidem.
A busca da construção dessa nova cultura passou a ser o ponto
norteador, no discurso, das prefeituras administradas pelo PT. Entretanto,
como veremos adiante, o Partido enfrentou sérios obstáculos para
implementar essa nova cultura ou, como foi denominado, esse “modo petista
de governar”.
O Partido salientou as principais dificuldades encontradas nas
administrações petistas, como, por exemplo, a inexistência de um projeto
elaborado com a estratégia socialista do Partido aliada com as práticas das
administrações 211 e, principalmente, o não avanço da proposta do Partido
acerca dos Conselhos Populares.

“A proposta de Conselhos Populares expressou a marca de nossa ação


democratizante nas prefeituras. Havia, já no processo eleitoral de 1988, uma
preocupação com a expectativa que a proposta gerava. A expressão Conselho
Popular era utilizada para denominar formas de organização distintas.
Confundiam -se dois campos de atuação que requeriam políticas próprias. Há
aquelas tarefas que cabem aos movimentos sociais, como criar espaços
autônomos de organização e forma próprias de institucionalização de suas
representações. Ao executivo, cabem aquelas ações de governo para
democratizar a gestão, incorporar a participação popular no processo de decisão
e de planejamento, promover e ampliar as formas de consulta à sociedade civil.
Após estes três anos, esses dilemas ainda não estão equacionados
politicamente no interior do partido. O debate sobre a participação popular em
nossas prefeituras está vinculado à idéia da existência de algum conselho ou
comissão reconhecidos formalmente: orçamento, saúde, educação,
desenvolvimento urbano.”212

211
“A inexistência deste projeto nos impôs uma prática eleitoral que criou expectativa, do partido e
da sociedade, sobre uma ação com resultados imediatos em nossas prefeituras. Não corresponde
nem poderíamos corresponder a esta expectativa. Nos primeiros momentos, logo após as
eleições, compreendemos que o programa do partido não pode se confundir com o programa de
governo. Hoje, fica mais claro que construímos uma ação institucional sem um projeto de
construção de novas condições de governabilidade que orientasse e integrasse nossa prática.
(...)
Os primeiros semestres das prefeituras petistas foram marcados por este quadro em que as
necessidades de reorganização de uma máquina viciada se chocava com nossa inexperiência
administrativa. Um caminho administrativo de arrumar a casa acabou por predominar inicialmente,
reduzindo o papel político central que as prefeituras poderiam ter tido na campanha presidencial de
1989.” In: O Modo Petista de Governar – Secretaria Nacional de Assuntos Institucionais.
212
Ibidem.
Uma das principais dificuldades constatadas pelo Partido quanto às
administrações foi a não participação engajada da população213. Desta
forma, como dissemos acima, para impulsionar esse “modo petista de
governar” seria necessário que houvessem reflexos na sociedade. Daí a
necessidade da formação de uma nova cultura214, em que a política fosse
repensada:

“Opera-se uma alteração radical na relação com a população que deve


ser analisada pela experiência de organização da própria comunidade. Nesse
sentido, a formalização de um conselho é importante desde que seja um meio
para fixar uma prática concreta e não uma idéia instigada apenas pela vontade
de quem a concebe. Ao lado dela, devemos estar atentos para a riqueza e
potencialidade de situações informais, episódicas, sustentadas pela população
em seu cotidiano.
(...)
A participação popular tenderá a crescer na medida em que a população
passar a compreender o sentido político deste ato e avaliar o seu retorno em
termos de conquistas na melhora de sua qualidade de vida e de seus direitos
individuais e coletivos. É um processo lento de construção de uma nova cultura
política.
O caminho que estamos construindo pode ser, em síntese, a co-gestão.
O governo, investido de uma legitimidade calcada nos compromissos políticos,

213
“Somente a vontade política dos governantes, isoladamente, é insuficiente para romper com os
processos de elaboração e execução de políticas que só beneficiam a minoria. Essa lógica estatal
se sustenta na burocracia, na tecnocracia e numa postura absolutamente antiparticipativa.
Somente o combate a esses mecanismos elitistas de decisão é que pode reverter, de conjunto, a
situação. Governar, hoje, significa, entre outras coisas, selecionar áreas de prioridade e
demandas. O salto de qualidade de nossos governos será dado quando houver ampliação das
mobilizações populares em luta por seus interesses. Aqui, o papel do Partido é insubstituível, e
nesse terreno reside a nossa maior fraqueza: ao não termos sido capazes, governos e Partido, de
comprometer o conjunto das massas populares com a gestão democrática da coisa pública.” In:
o
Resoluções Políticas do 7 . Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
214
“A implantação de tais propostas exige pensar o projeto alternativo em algumas linhas de ação
que construam uma nova cultura municipal:
• recuperar a história (tradição local), resgatando os conflitos e opondo-se à história oficial que
confunde a identidade municipal com a vida do cacique político local;
• captar os fatos decisivos na construção de uma identidade local, de modo a resgatá-los no
sentido da produção de um imaginário que realce os valores dos direitos e da cidadania. São
histórias de lutas, como a dos trabalhadores da Siderurgia de Volta Redonda ou dos metalúrgicos
de Ipatinga ou, ainda, no caso do Porto de Santos, que permitem reconstruir a nova imagem
política do município;
• reelaborar a tradição local, sobretudo abrindo espaços para interpretações alternativas às
produzidas pelas elites. A maneira de interpretar o passado, a partir da visão da transformação do
presente, condiciona as representações e o papel político do município. Os municípios decadentes
dos ciclos do café e do açúcar são sempre identificados pela história dos ‘Barões’ e pouco se fala
dos negros ou da violência cultural sobre os migrantes;
• incorporar um projeto de desenvolvimento econômico local, refletindo a agindo sobre as
vocações impostas aos municípios;
produzir uma nova identidade municipal como síntese de um processo de reconstrução da
história, da potencialização de suas vocações naturais, da incorporação da população na
construção de uma nova cultura democrática, pluralista e baseada no reconhecimento dos direitos
do cidadão.” In: O Modo Petista de Governar – Secretaria Nacional de Assuntos Institucionais.
cria condições para concretizar essa visão de co-gestão ao transferir para a
comunidade uma parcela de seu poder político; assume seu papel de governar,
combinando-o com a democracia participativa.
O problema de participação popular nas prefeituras é de mudança da
qualidade da participação; é passar a participar como sujeito coletivo de uma
alternativa popular para toda a sociedade. Cabe ao movimento popular se
constituir nesse sujeito.
A institucionalização da participação significa mudanças político-
culturais que envolvem a própria prática do movimento popular. Por outro lado,
as inclinações autoritárias na cultura brasileira remetem, entre outros fatores, à
subordinação da sociedade ao Estado. A democratização do Estado e da
sociedade exige a inversão desta relação, colocando a relação das prefeituras
com a comunidade sobre o prisma do respeito dos direitos e da participação
215
popular.”

Esse “modo petista de governar” se afirmava como uma nova


concepção de gestão democrática a partir dos seguintes pontos:

“1. pela necessidade de alterar o próprio modo de legitimação do poder


político local, baseando-o numa cultura política dos direitos coletivos e
individuais;
2. pelo fortalecimento político real do Legislativo e desmonte dos
procedimentos que transformam os vereadores em despachantes do executivo;
3. pelo reconhecimento do caráter estratégico da ética para afirmação
de uma política transformadora, resgatando o mais absoluto respeito à
moralidade no trato da coisa pública;
4. pela instituição do direito à participação, combinando elementos da
democracia representativa aos da democracia participativa, aprofundando as
formas de controle da sociedade sobre a prefeitura, como aquelas
desenvolvidas, em todas as prefeituras petistas, por ocasião do orçamento
municipal através de conselhos, audiências públicas e plenárias no bairros.
Estes princípios têm norteado a ação das prefeituras. Trata-se do
processo de socialização da política que só terá êxito com a intensa luta cultural
no interior da vida cotidiana da população e nas estruturas que ali se
216
reproduzem.”

Ações práticas para propiciar às administrações petistas um


direcionamento mais profundo no sentido de transformações socialistas não
obtiveram grandes resultados, pois, o Partido não obteve êxitos no sentido
de despertar na população uma nova cultura política217.

215
Ibidem.
216
Ibidem.
217
“É forçoso constatar que não cumprimos um roteiro semelhante ao acima esboçado. Tratamos,
na maioria dos casos, de uma resposta contábil à crise estrutural da relação Estado-economia.
Adotamos, muitas vezes, o que se batizou de administrativismo. Estamos tímidos diante dos
confrontos e muitas vezes conciliamos. Tentamos governar para toda a população e perdemos de
vista nossa base social e política. Não podemos perder a visão da centralidade do Estado na
nossa formação social, as funções históricas que por isso ele cumpre, de que modo as cumpre.
Um exemplo da nossa afirmação pode ser encontrado nesta citação
acerca das Resoluções Políticas do 7o. Encontro Nacional:

“Tarefa fundamental, hoje, para a disputa pela hegemonia sobre a


maioria da população, desde o ponto de vista dos trabalhadores, é a de
responder positivamente às questões das prefeituras. Para isso, é forçoso
reconhecer que, passados mais de um ano da posse de cerca de três dezenas
de petistas, à frente de algumas das mais importantes prefeituras do País, esta é
ainda uma questão não equacionada adequadamente. É correto e necessário
que tenhamos em conta, ao fazermos qualquer juízo sobre nosso desempenho
dessa tarefa, o quadro de sucateamento em que as classes dominantes jogaram
o Estado no Brasil, a correlação de forças, os vícios das máquinas
administrativas voltadas para os interesses dos grandes capitalistas, o fogo
cerrado da imprensa burguesa, a nossa inexperiência, etc. Nesse sentido, já
constitui fato positivo as prefeituras do PT funcionarem, sendo que os serviços
melhoraram em vários casos. Conquistas importante s têm sido a inversão de
prioridades e o melhor tratamento, na maioria dos casos, ao funcionalismo
público. Porém, ainda que isto conte, não pode obscurecer o fato de que elas,
em sua maioria, não têm logrado dar visibilidade à marca democrática e popular
que prometemos imprimir, e com a qual, via de regra, a população e, em
especial, a nossa base social não têm se identificado. Os impasses vividos por
cada administração petista não podem ser encarados como meros fatos
particulares de responsabilidade dos prefeitos e seus auxiliares. Sem
desconhecer as singularidades, e mesmo manifestações graves de imaturidade
política, as evidências são de que falta ao Partido uma linha política para nortear
a ação das prefeituras. É necessário uma linha de balanço deste período, que
contemple questões como: a falta de incorporação, em algumas cidades, das
forças progressistas que contribuíram para a nossa vitória; o não
prosseguimento e aprofundamento da oposição, a partir das prefeituras, ao
Governo Estadual e Federal; a afirmação do caráter democrático e popular da
questão da comunicação social, e a materialização deste caráter no nível da
participação popular. Esta linha político-administrativa visa responder em
primeiro lugar, no concreto, para quem e de que modo o PT governa. Por um
lado, trata-se de responder que o Partido governa para toda a cidade, mas o faz
do ponto de vista da parcela majoritária da sociedade: daquela explorada e
oprimida da população. Neste sentido, esta ótica se materializa na priorização
não de todos mas, efetivamente, da maioria dos eternos alvos dos discursos
218
oficiais, mas sempre esquecidos das práticas governamentais.”

4.2. O Socialismo no 1o . Congresso do Partido


dos Trabalhadores (1991)

Estamos atrofiando as nossas possibilidades de gestão do poder e despolitizando nossa oposição


radical ao atual sistema. Trata-se de negar, mesmo nos limites do Estado de classe, que a
burguesia tenha a prioridade desse Estado e a exclusividade da dominação. Devíamos assumir
que só radicalizando os mecanismos democráticos de expressão, participação e representação é
que evitaremos a prevalência da lógica estrita do mercado e do capital.” Resoluções Políticas do
o
7 . Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
218
Ibidem.
Como pudemos perceber, após a derrota nas eleições de 1989, o
Partido dos Trabalhadores continuou com sua política de oposição ao
governo, respaldado por sua estratégia de luta pela hegemonia e “acúmulo
de forças”.
Pontos importantes acerca do socialismo petista foram abordados nos
documentos que prepararam o 1o. Congresso realizado em 1991 e nas
Resoluções do mesmo. O principal ponto de discussão que norteou a
realização deste Congresso foi o caráter do socialismo do PT, sendo que o
Partido dedicou grande parte deste Congresso para discutir e apresentar
para a sociedade brasileira o seu socialismo219.
O socialismo petista, que remonta às origens do PT em 1979,
sustentava-se sobre três valores: democracia, mobilização dos trabalhadores
— daí a importância das instâncias de base do Partido nos movimentos
sociais — e, a partir da segunda metade da década de 80, luta por
hegemonia política. Ao longo da formação do Partido, acentuaram-se os
seus esforços em torno da questão da democracia e da luta pela conquista
da hegemonia política e a atuação nas eleições de 1989 para presidente da
República foi um exemplo disso. A questão das instâncias de base e da sua
importância dentro do Partido foi paulatinamente secundarizada.
No documento que convocava os petistas para a participação no
Congresso, foi levantado um ponto considerado um dos grandes problemas
do Partido, a situação dos Núcleos de Base:

“Hoje, a debilidade da estrutura do partido é a debilidade da organização


de base. Nós precisamos retomar a idéia do núcleo como uma forma de garantir
ao companheiro a possibilidade de fazer política a partir do seu local de moradia,
do seu local de trabalho. Existem poucos núcleos e o núcleo não tem poder

219
“O Partido dos Trabalhadores propõe-se a compartilhar com os trabalhadores e com o conjunto
das forças democráticas e socialistas a atualização do seu projeto histórico, fruto de 11 anos de
luta pela democracia e pela igualdade social. Desde já, consideramos como nossos interlocutores
naturais – sejam indivíduos, grupos sociais, instituições religiosas, organizações civis ou político-
partidárias – todos aqueles que almejam o fim da miséria e a eliminação das brutais injustiças
presentes na vida brasileira.
Este é um momento privilegiado para que, diante da grave crise que o País atravessa, o PT
formule e apresente à soc iedade brasileira alternativas à política do Governo Federal e aponte, em
conjunto com as demais forças democráticas e socialistas, um novo rumo, um projeto para
reconstruir o Brasil.” Resoluções Políticas do 1o. Congresso do Partido dos Trabalhadores.
efetivo dentro do partido. É preciso criar mecanismos que garantam ao núcleo
funções deliberativas.
No PT tem que poder existir tudo quanto é forma de organização. O que
nós precisamos é abrir a perspectiva das pessoas se organizarem em núcleos e
isso não ocorre de forma expontânea. Cabe ao partido e às suas direções o
trabalho de semear, incentivar e alimentar os núcleos.
O núcleo não pode ser aquele espaço chato de reunião, onde meia
dúzia aparecem para ficar disputando o poder dentro do partido. O núcleo tem
que promover atividades culturais, filmes, teatro, cursos e iniciativas de
formação política que possam motivar as pessoas. E, ao lado disso, discutir os
220
encaminhamentos do partido levando as deliberações para a sociedade.”

Essa crítica acerca da precária existência dos Núcleos de Base e da


falta de qualquer poder deliberativo dos mesmos dentro da estrutura do
Partido, perpassou vários momentos de sua avaliação. O 1o. Congresso do
PT começou com um Manifesto que chamava os petistas a discutirem a
situação dos Núcleos e de outras instâncias de base do Partido e a sua
importância dentro da sociedade.
Uma outra questão importante acerca do 1o. Congresso do PT foi o
momento em que ele ocorreu, em 1991, quando se desmoronava no Leste
Europeu o regime de “socialismo real”, o que de mais concreto existiu do que
podemos chamar de socialismo até hoje. Isso colocava também em questão
qualquer alternativa que tivesse o socialismo como ponto de chegada,
representando mais um motivo para o Partido apresentar as particularidades
de sua proposta socialista em relação às experiências que historicamente
apresentavam fortes sinais de fracasso.
O que aconteceu com o socialismo em 1991 chocou alguns
comunistas no Brasil, afinal, para muitos o que existia no regime do Leste
Europeu expressava uma arma contra a ordem social capitalista, um sentido
para a vida. No entanto, a crítica do PT ao "socialismo real" era antiga dentro
do Partido e as notícias da sua queda representavam a certeza de que o
caminho escolhido pelo Partido era o mais acertado.
Desde os primeiros documentos, o PT estabeleceu uma visão crítica
do regime soviético221, sendo que sua queda representou uma vitória das

220 o
Manifesto aos Petistas. In: Resenha ao 1 . Congresso.
221
Com a mesma veemência foi feita a crítica a outra via histórica ao socialismo, ou seja, a social
democracia, que na visão do partido abandonou seu ideal socialista e compactuou com os valores
da sociedade capitalista: “Semelhante convicção anticapitalista, fruto da amarga experiência social
massas trabalhadoras daquelas sociedades. O “socialismo real” foi criticado
nos documentos petistas por sua falta de liberdade e democracia,
caracterizando-se como um regime tão opressivo como seu congênere
capitalista, que teria abandonado a própria condição de pluralidade dos seres
humanos em prol de uma uniformização forçada da sociedade. E foi
saudando a democracia, que não existiu no “socialismo real”222, conquistada
pelos povos do leste europeu, que o Partido apontou as principais falhas do
mesmo, e viu na democracia o grande valor de um futuro socialismo223.

O Socialismo nas Teses do 1o. Congresso do Partido dos Trabalhadores

Semelhante a outros encontros, o Congresso do PT constituiu-se na


apresentação e votação de "teses" que formariam as Resoluções do Partido
para a orientação da sua ação política.

brasileira, nos fez também críticos das propostas social-democratas. As correntes social-
democratas não apresentam, hoje, nenhuma perspectiva real de superação histórica do
capitalismo. Elas já acreditaram, equivocadamente, que a partir dos governos e instituições do
Estado, sobretudo o Parlamento, sem a mobilização das massas pela base, seria possível chegar
ao socialismo. Confiavam na neutralidade da máquina do Estado e na compatibilidade da
eficiência capitalista com uma transição tranqüila para outra lógica econômica e social. Com o
tempo, deixaram de acreditar, inclusive, na possibilidade de uma transição parlamentar ao
socialismo e abandonaram não a via parlamentar mas o próprio socialismo. O diálogo crítico com
tais correntes de massa é, com certeza, útil à luta dos trabalhadores em escala mundial. Todavia o
seu projeto ideológico não corresponde à convicção anticapitalista nem aos objetivos
emancipatórios do PT.” In: Resoluções Políticas do 7 o. Encontro do Partido dos Trabalhadores.
222
“O PT apoia a luta dos trabalhadores e dos povos pela sua libertação, assumindo a defesa dos
autênticos processos revolucionários, mas o faz com total independência política, exercendo
plenamente o seu direito de crítica. Foi assim que, desde a sua fundação, o PT identificou na
maioria das experiências do chamado ‘socialismo real’ uma teoria e uma prática incompatíveis com
o nosso projeto de socialismo. A sua profunda carência de democracia, tanto política quanto
econômica e social; o monopólio do poder por um único partido, mesmo onde formalmente vigora
o pluralismo partidário; a simbiose Partido/Estado; o domínio da burocracia de base e de
autênticas instituições representativas; a repressão aberta ou velada ao pluralismo ideológico e
cultural; a gestão da vida produtiva através de um planejamento verticalista, autoritário e ineficiente
– tudo isso nega a essência mesma do socialismo petista.” In: Ibidem.
223
“Os movimentos que conduz iram às reformas no Leste Europeu voltaram-se justamente contra
o totalitarismo e a estagnação econômica, visando institucionalizar regimes democráticos e
subverter a gestão burocrática e ultra-centralizada da economia. O desfecho desse processo está
em aberto e será a própria disputa política e social a definir os seus contornos. Mas o PT está
convencido de que as mudanças ocorridas e ainda em curso nos países do chamado ‘socialismo
real’ têm um sentido histórico positivo, ainda que o processo esteja sendo hegemonizado por
correntes reacionárias favoráveis à regressão capitalista. Tais movimentos devem ser valorizados
não porque representem em si um projeto renovador de socialismo, mas porque rompem com a
paralisia política, recolocam em cena aberta os diversos agentes políticos e sociais, impulsionaram
conquistas democráticas e, em perspectiva, podem abrir novas possibilidades para o socialismo. A
energia política liberada por tamanha mobilização social não será facilmente domesticada pelo
receituário do FMI ou pelos paraísos abstratos da propaganda capitalista.” Ibidem.
Torna-se importante neste ponto analisarmos as teses apresentadas
o
ao 1 . Congresso sob os seguintes aspectos: a concepção de socialismo e o
caminho para esse socialismo, com a discussão acerca da peculiaridade do
socialismo do Partido, sem que essa seja a sua posição final, cristalizada nas
Resoluções Políticas do Congresso.
Nas treze teses apresentadas no Congresso, não foi feita menção
mais aprofundada ao papel das n
i stâncias de base do Partido na construção
do socialismo petista, tendo aparecido na parte dedicada, em cada tese, para
a discussão acerca da construção partidária e da democracia interna do
Partido.
A grande diferença aludida nas teses para o socialismo petista em
relação às outras concepções socialistas era que o mesmo seria orientado
pela democracia vinculada às grandes massas exploradas da sociedade. E a
forma de alcançar este socialismo encontrava uma variação, em cada tese,
que dependia do grau, que podemos chamar de “radicalidade” para as
rupturas a serem interpostas na sociedade.
As propostas de ruptura com a ordem social capitalista passavam,
como dissemos, por graus de radicalidade e violência, o que demonstrava o
caráter plural diversas vezes demonstrado pelo próprio Partido. Algumas
propostas de caminho para o socialismo ganhavam contornos nitidamente
marxistas-leninistas como a encontrada, por exemplo, na Tese 02 que
colocava a ruptura com a ordem capitalista como uma guerra em que o outro
lado, o perdedor ou a burguesia, não concederia a vitória facilmente:

“Reforma ou revolução. As revoluções, quando ocorrem, representam


rupturas radicais e traumáticas no curso da história. A revolução socialista, deste
ponto de vista, seria a mais radical de todas as rupturas, uma vez que romperia
não apenas com a sociedade burguesa-capitalista mas com todo um
multissecular passado de sociedades divididas em classes, de sociedades
fundadas na opressão e exploração.
A burguesia dificilmente cederá seus privilégios. A burguesia, herdeira
de todas as classes dominantes que houve ao longo da história, profundamente
ancorada em seu poder e seus instrumentos de dominação, dificilmente cederá
seu espaço a uma revolução socialista.
(...).
Um governo do PT deve, pois, ser um governo preparado para enfrentar
a guerra aberta que será declarada pela burguesia. Deve ser um governo
comprometido com a transformação socialista revolucionária. Deve ser um
governo em condições de fornecer às massas populares instrumentos que as
capacitem a impor à burguesia a vontade da maioria — coercivamente e pela
224
força se necessário for.”

Das teses com caráter que podemos considerar marxista-leninista ou


que pregavam a revolução da ordem social de uma maneira violenta, a Tese
04 era a mais incisiva, pois, pregava a luta armada como forma de ruptura
com a sociedade capitalista:

“Defender o marxismo significa viabilizar a ruptura revolucionária. O


socialismo só será possível através dessa via. Não adianta tapar o sol com a
peneira, nem dizer que isso não está na ordem do dia. Devemos dizer aos
trabalhadores que não existe outra saída. Entendemos a luta armada contra o
jugo do capital no desdobramento do processo revolucionário, por sabermos que
historicamente nenhuma classe cometeu suicídio. Sendo assim, a burguesia,
que cobre com seu véu democrático seu caráter opressor, rasgará esse mesmo
véu e mostrará ao proletariado, sob a bandeira do capital, que tem seus direitos
225
garantidos e quem é realmente cidadão?”

A Tese 09 propunha a luta por hegemonia dentro da sociedade


brasileira e, caso houvesse resistência por parte das “classes dominantes”,
defendia o uso da força para assegurar as vitórias dos trabalhadores:

“A possível vitória eleitoral em 1994 não é, portanto, o ponto final de


nossa estratégia de luta pelo poder na sociedade brasileira. As classes
dominantes tentarão manter um eventual governo democrático e popular nos
limites da ordem capitalista e, caso não alcancem este objetivo, tentarão
desestabilizá-lo e derrotá-lo pelo uso da força se necessário. Ela desencadeia
um período de acirramento dos conflitos que tanto pode conduzir a uma ruptura
revolucionária vitoriosa por parte dos trabalhadores quanto a uma derrota
histórica do nosso movimento, se não nos prepararmos adequadamente para
226
estes enfrentamentos.”

A Tese 10 pregava a necessidade de ruptura, entretanto, tal ruptura


teria que ter na democracia seu principal valor:

“Romper com a ordem burguesa é, portanto, uma necessidade sentida


desde hoje pelo PT, mesmo que todas as condições para isto ainda não estejam

224
Tese 02 – Teses Sobre o Socialismo, a Revolução Brasileira e o Partido dos Trabalhadores. In:
o
Jornal do Congresso n . 05 – setembro de 1991.
225 o
Tese 4 – Pela Independência de Classe e pelo Socialismo. In: Jornal do Congresso n . 05.
226
Tese 9 – Um Rumo Revolucionário para o PT. In: Jornal do Congresso no. 05.
realizadas. O caráter revolucionário desta ruptura é colocado pela própria classe
dominante que sempre deixou claro não aceitar a vontade de uma maioria que
deseje uma profunda e radical transformação da sociedade e o fim de seus
privilégios de classe. Esta tem sido sua história: golpes, repressão e desrespeito
sistemático à legalidade, quando esta atrapalha seus interesses de classe ou
mesmo mesquinhos interesses imediatistas e grupistas.
O PT é radicalmente democrático. Defende o direito do povo à
autodefesa e à sublevação contra sistemas injustos e tirânicos. Considera que a
luta pela democracia possui uma dimensão estratégica. Mas não acreditamos na
sinceridade do discurso democrático universal da burguesia e lutamos para que
227
os trabalhadores não se iludam com isto.”

A Tese 11 tinha uma peculiaridade, pois, ao mesmo tempo em que


pregava um ato de força para impulsionar a ruptura com a sociedade
capitalista, buscando no exemplo da revolução social do Leste Europeu o
caminho para essa ruptura, era crítica daquela antiga estrutura social.
Ressaltamos que o trecho que citaremos abaixo foi incorporado às
Resoluções Políticas do 1º Congresso do PT e que analisaremos a sua
importância quando da análise dessas Resoluções.

“Para o PT, a conquista do poder político não começa nem termina, e


tampouco se reduz simplesmente à clássica representação simbólica da
‘ocupação do palácio governamental’. Se não visualizamos a conquista do poder
como um ‘assalto ao Estado’, tampouco acreditamos que o socialismo virá
através de um ininterrupto e linear crescimento das forças e da hegemonia
socialistas dentro da sociedade, sem que ocorram choques e confrontos
intensos. Reafirmamos, portanto, que as transformações políticas, econômicas e
culturais que o Brasil necessita supõem uma revolução social, como a
experiência histórica comprovou, inclusive recentemente, até no Leste Europeu.
Só um poderoso movimento por reformas políticas e sociais, baseadas
num programa democrático e popular centrado no combate ao latifúndio, ao
monopólio e ao imperialismo, pode levar a cabo a profunda revolução que este
país necessita, se quiser superar o modelo excludente que o caracteriza desde a
228
origem.”

A Tese 12 pregava uma ruptura, respeitando o conceito clássico de


ditadura do proletariado:

“Nada adianta a propriedade social dos meios de produção e a


planificação da produção social se os trabalhadores não tiverem, efetivamente, o
controle do Estado e produção. A ditadura do proletariado é o tipo de Estado que
se constrói após a derrubada do Estado capitalista. Significa que os

227 o
Tese 10 – Por um PT Socialista e Revolucionário. In: Jornal do Congresso n . 05.
228
Tese 11 – Por um Brasil Democrático e Popular. In: Jornal do Congresso n o. 05.
trabalhadores e seus aliados usarão o poder de Estado para socializar a
produção e impedir, por meio de uma nova ordem legal, as tentativas de se
restaurar o capitalismo. A ditadura do proletariado garante a democracia no
socialismo: o poder dos trabalhadores sobre todos os aspectos da sociedade,
desde a gestão de uma indústria ou de uma pequena comunidade, até a
elaboração de políticas para o Estado.”229

As outras teses possuem algumas diferenças entre si230, porém, têm


em comum o fato de não verem na ruptura violenta com a ordem social
capitalista uma alternativa viável para o socialismo.
A Tese 01 estabeleceu algumas políticas para a construção do
socialismo:

“a) — respeitando as diferenças próprias da condição humana e


buscando a igualdade dos direitos e deveres para todos, deverá passar pelo
poder político e econômico exercido pelos produtores da riqueza do país;
b) — deverá superar as estruturas econômicas e centros de poder social
e decisões do capital burguês;
c) — será fruto do debate constante e do vivenciar e experimentar
político de toda a sociedade. Que respeita e acerte divergências em canais
democráticos de participação e manifestação do pensamento. Um socialismo
que dignifique e integre homens e mulheres num projeto coletivo de busca da
231
felicidade. Um socialismo que aponte sempre no pleno exercício da vida.”

A Tese 08 identificava em novos elementos da sociedade232 e em sua


característica de pluralidade os novos agentes para as transformações
socialistas:

229
Tese 12 – O Papel do PT Frente à Crise do Capitalismo e sua Estratégia rumo ao Socialismo.
In: Jornal do Congresso.
230
As teses não citadas guardam pouca diferenças em relações as concepções das teses citadas
no texto.
231
Tese 1 – “Agora PT: ação Política Econômica rumo a Sociedade Socialista”. In: Jornal do
o
Congresso n . 05.
232
“O PT se coloca o esforços de repensar o papel dos movimentos sociais e de sua relação com
o Estado e com as demais instituições da própria sociedade civil. Por conta, em grande medida, da
multiplicação desses movimentos nos últimos quinze anos é que hoje podemos registrar algumas
conquistas democráticas e um certo desenvolvimento da cidadania na sociedade brasileira. Está
aí, nos movimentos, um ponto de partida decisivo para a criação de uma nova institucionalidade,
capaz de abarcar o conjunto da sociedade, a ser desenvolvida paralelamente à velha
institucionalidade excludente e autoritária. O PT não encara com possível – nem desejável – a
edificação de uma sociedade socialista sem a constituição de uma democracia social a qual, por
sua vez, jamais se concretizará sem a existência de instituições sociais democráticas e de novos
sujeitos, plurais, democráticos e capazes de transformar velhas instituições e construir novas de
um ponto de vista anti-autoritário.” In: Tese 8 – Um “Projeto para o Brasil” – Jornal do Congresso
no. 05.
“Coerente com esta visão humanista, democrática e plural, o socialismo
que o PT assume diverge da concepção que identifica socialismo com
igualitarismo coletivista. Não há lugar para a democracia onde não se reconhece
o
a diversidade. A resolução do 7. Encontro é inequívoca quando diz: ‘A nova
sociedade que lutamos para construir, assegurando a igualdade fundamental
entre os cidadãos, não será menos ciosa do direito à diferença, seja esta
política, cultural, comportamental, etc.’ É pela adesão ao direito à diferença
como um valor que, entre outras expressões da pluralidade, se pode assumir
com radicalidade a libertação da mulher, a liberdade religiosa, a superação do
racismo, o fim da opressão e dos preconceitos contra os homossexuais, a livre
manifestação das singularidades individuais, a concebê-los como conquistas
essenciais à fundação da nova sociedade, na qual se torne real uma convivência
humanizante entre os indivíduos.
O PT rechaça a noção segundo o qual o pluralismo não passa de uma
circunstância que se tolera, até o dia em que, suprimidas as classes sociais,
supostamente, se estabeleçam as bases da homogeneidade de pensamento. O
PT entende que a diversidade de desejos e de idéias é inerente à condição
humana, razão pela qual a pretensão de suprimi-la não passa de um projeto de
violentação da humanidade. Lutamos por uma sociedade efetivamente plural,
mais um motivo para sermos anticapitalistas, pois, o capitalismo, ao oprimir e
alienar os indivíduos, só admite de fato uma pluralidade restringida pela
desigualdade de condições e oportunidades de condições e oportunidades. Mas
motivo também para rechaçarmos a chamada ‘pluralidade’ para os partidos
operários — ou, seja, para quem pensa como nós — que, historicamente, só
pode se concretizar como expressão transitória da chamada ditadura do
proletariado, isto é, domínio da burocracia e, de fato, ditadura do partido
233
único.”

A Tese 10 apostava na via eleitoral como uma grande arma para a


mobilização dos trabalhadores e para a conquista do socialismo no Brasil:

“Neste quadro, vemos a luta por um Governo Democrático e Popular e a


possibilidade de chegarmos a ele por uma maioria eleitoral como um objetivo
estratégico, porque o entendemos como a expressão atual de um governo de
hegemonia dos trabalhadores, voltados para atender as reivindicações e anseios
históricos e contemporâneos de nosso povo e na perspectiva da revolução
socialista.
(...)
Mas a luta por um governo deste tipo não se restringe às eleições.
Passa pela politização dos trabalhadores e constituição de um amplo movimento
de massas em defesa de um plano alternativo de caráter democrático e popular,
articulado em torno de reformas na sociedade e no Estado e da promoção de
valores anti-capitalistas. Uma alternativa política imediata e global à situação,
que oriente nossa atuação nos movimentos sociais, na revisão constitucional e
na disputa política na sociedade, englobando os mais diversos aspectos da vida
nacional como, entre outros, uma política salarial; de redistribuição de rendas e
investimentos; a suspensão da dívida externa; uma ampla reforma agrária e uma

233
Ibidem.
política agrícola que apoie o pequeno produtor; a democratização dos meios de
234
comunicação e nas Forças Armadas.”

A luta por hegemonia representava a principal arma para a conquista


do socialismo, na Tese 11:

“Até 1987, a disputa pela hegemonia era colocada basicamente como


uma política de acúmulo de forças, a partir da avaliação de que não estava na
ordem do dia a tomada do poder ou uma crise revolucionária. Depois de 1989, a
disputa pela hegemonia passa necessariamente a incluir a disputa pelo governo
federal em 1994, a gestão das administrações municipais, a luta pela
democratização do Estado e por reformas sociais, assim como a organização e
o crescimento dos movimentos sociais.
É esta nova compreensão das tarefas de disputa de hegemonia no
Brasil que o PT precisa assumir e assimilar, sob pena de ficar prisioneiro ou de
políticas equivocadas que privilegiam apenas a luta econômica e a pressão
popular; ou que privilegiam somente a atuação no campo institucional, sem
articular as lutas reivindicatórias e setoriais com a luta por reformas políticas e
econômicas, mantendo assim a luta institucional prisioneira do caráter
antidemocrático e elitista das instituições, e dispersando as lutas sociais nas
235
reivindicações específicas e no corporativismo.”

A Tese 13 possuía semelhanças com a concepção de luta por


hegemonia na sociedade capitalista, pois, pregava o acúmulo de forças para
a ruptura socialista:

“O PT reafirma que a estratégia de luta para construção do socialismo


dos trabalhadores enquanto classe, acumulando forças para a ruptura
revolucionária com a burguesia, única forma possível de superação do modo de
produção capitalista. Assim, todos os espaços, todas as formas de luta, todas as
pequenas rupturas são válidas, necessárias e imprescindíveis, desde que
atendam concretamente aos elementos básicos da estratégia que é a
236
organização dos trabalhadores.”

Como podemos notar nas teses apresentadas acima, depois de onze


anos da fundação do PT, muito do que podemos considerar como uma via
clássica ao socialismo persistiu dentro do Partido. Houve uma remodelação
do discurso, até com críticas ao regime do “socialismo real”, mas, muito da

234 o
Tese 10 – Por um PT Socialista e Revolucionário. In: Jornal do Congresso n . 05.
235 o
Tese 11 – Por um Brasil Democrático e Popular. In: Jornal do Congresso n . 05.
236
Tese 13 – Revolucionar é Preciso. In: Jornal do Congresso no. 05.
concepção marxista-leninista de ruptura violenta com a ordem social
capitalista persistiu, como vimos num número considerável de Teses.
Entretanto, como podemos notar a seguir, as Resoluções do Partido
caminharam no sentido de corroborar posicionamentos anteriores, que
alijavam a alternativa de uma ruptura violenta com a ordem social capitalista
em prol da luta pela conquista de hegemonia na sociedade.

– As Resoluções Políticas acerca do Socialismo no 1o. Congresso do Partido


dos Trabalhadores

Um dos principais pontos de destaque das Resoluções Políticas do 1o.


Congresso do PT era a sua crítica quanto ao que existiu de socialismo no
Leste Europeu, sendo que o Partido apontou que o modelo estruturado a
partir da Revolução Russa estava ultrapassado 237. Do modelo que
deteriorou-se internamente, devido às suas próprias contradições 238, o
Partido apontou as principais falhas a partir de um projeto de socialismo
isolado do restante do mercado mundial.

237
“Se os ideais que moveram os movimentos sociais revolucionários ao longo deste século
persistem como fonte de inspiração para o nosso Partido, temos que reconhecer que estamos
assistindo ao esgotamento do ciclo de revoluções socialistas iniciado a partir da Revolução Russa
de 1917 e do modelo de sociedade por elas gerado. Se aquelas revoluções – bem como as
mobilizações anticapitalistas e de libertação nacional que nelas se referenciaram – tiveram
sucesso em expropriar o capital em vários países do globo, proporcionando, direta ou
indiretamente, avanços políticos e sociais, por outro lado não conseguiram dar respostas a
questões como a liberdade individual, a democratização nas relações Estado-Indivíduo,
desenvolvimento com preservação da natureza, hoje não se constituindo mais em ponto de partida
ou caminho para o desenvolvimento do socialismo.” In: Resoluções Políticas do 1o. Congresso do
Partido dos Trabalhadores.
238
“Mesmo com o progresso material da sociedade – e, na maioria destes países, esse progresso
ocorreu relativamente a sua história – a resolução burocrática e administrativa da organização da
produção, da circulação de bens e da vida social acabou por pressupor uma nova forma de gerir
instituições que pouco se diferenciavam das velhas instituições capitalistas. A nova ordem, a
cidadania plena, a liberdade não só não chegaram a essas sociedades, nem penetraram em suas
instituições, como foram negadas em nome da ‘defesa das conquistas sociais ameaçadas
constantemente pelo inimigo externo’.
O isolamento internacional; a estatização generalizada da economia, que tampouco foi seguida por
sua efetiva socialização; o planejamento burocrático altamente centralizado, que se fechou à
participação real dos trabalhadores; a hipertrofia da indústria pesada e militar às expensas do
consumo de massa; o bloqueio à livre manifestação das preferências de consumo, a castração da
liberdade cultural e intelectual, a falta de democracia política e as dificuldades econômicas de toda
ordem, inclusive aquelas patrocinadas pela ação imperialista, provocaram o esgotamento do
impulso libertário das revoluções socialistas.” Ibidem.
“Um dos dogmas que desabou no Leste Europeu foi a verdadeira ficção
histórica de que seria possível a um bloco de países construir uma sociedade
socialista, isolando-se, para isto, do mercado mundial. A expropriação da
burguesia e do grande capital internacional abriu uma fissura no mercado
mundial. A URSS e os países do Leste Europeu tenderam a ser excluídos da
divisão internacional do trabalho que prevaleceu no sistema capitalista
internacional. Essa situação só pode ser suportável durante um certo período.
Mas o seu desenvolvimento acabou exigindo e pressionando a favor da
reintegração desses países no mercado mundial, sem o que essas economias
socializadas não conseguiriam — como acabaram não conseguindo — superar
as contradições entre o livre desenvolvimento da produção, a necessidade de
intercâmbio tecnológico, científico e as bases atrasadas desses países.
A produtividade do trabalho impõe, para seu crescimento, um
permanente progresso tecnológico, que os países ricos só podem financiar
graças ao domínio econômico que exercem sobre a maioria dos países do
mundo. A busca de resolução desses problemas com recursos exclusivos de um
só pais, ou mesmo de um bloco de países até então atrasados, só pode gerar
impasse. Ou, como acontece efetivamente, por pragmatismo, a uma relação
hipócrita de coexistência com o grande capital, em prol do qual muitas vez es se
239
chegou a sacrificar a solidariedade internacional a processos revolucionários.”

A análise do PT acerca do fracasso do “socialismo real” deixou clara a


diferença de sua proposta socialista, cujo principal fio condutor — as lutas
sociais contra a ordem capitalista — continuava, mais do que nunca, atual
em todo o mundo.

“Os ideais que se encontram na raiz dos movimentos sociais


revolucionários ao longo deste século persistem como fonte de inspiração para o
nosso partido, que se compromete com a luta pela superação do capitalismo e a
construção de uma nova sociedade onde a força de trabalho não seja uma
mercadoria; onde a opressão política ceda lugar a instituições sob controle de
toda a sociedade, dentre as quais um governo dos indivíduos livremente
associados; onde não haja qualquer forma de opressão por motivo de raça,
idade e convicções religiosas; onde as terras não sejam destrutivamente
ocupadas e os ecossistemas devastados; onde homens e mulheres, libertos
progressivamente de toda opressão material, possam construir novas relações
sociais; onde a busca da felicidade seja um direito efetivo de todos os indivíduos
e comunidades; onde, enfim, a igualdade social possibilite o pleno florescimento
das potencialidades individuais.
Mas o novo não nasce do nada. Embora saibamos que não existem
respostas prontas para os desafios que estamos vivendo, a nossa própria
trajetória de lutas pode fornecer-nos subsídios importantes, assim como pode
ser de grande valia o exame crítico das experiências do socialismo real e a
240
análise das contradições particulares do capitalismo contemporâneo.”

239
Ibidem.
240
Ibidem.
O principal aspecto positivo encontrado pelo PT na queda do
“socialismo real" foi a resistência das classes trabalhadores dos países do
Leste Europeu, que insurgiram contra seus governos, pois, faltou no
“socialismo real”, a democracia241.

“No Leste Europeu, na URSS e nos demais países que compunham o


chamado ‘campo socialista’, sucedem -se transformações econômicas, sociais e
políticas que estão pondo abaixo tudo o que se costumou designar como
socialismo. O que está em alguns daqueles países ocorrendo são verdadeiras
revoluções democráticas, que estão demolindo — de dentro para fora — um
mundo organizado fundamentalmente em torno da URSS. Diante destas
enormes mudanças no panorama internacional, com profundas incidências
sobre os paradigmas da luta pelo socialismo, o PT está chamado a compreender
em profundidade tais acontecimentos, evitando tanto a postura daqueles que se
lamentam diante da redobrada ofensiva do capital — por não perceberem como
positivo o renascimento histórico de povos que durante décadas tiveram sua
iniciativa política sufocada — quanto dos que não querem ver o muro da miséria
que está se erguendo sobre os escombros do socialismo real”. Num momento
como esse, de mudanças tão profundas e rápidas, é preciso evitar a pressa dos
que propõem vaticínios sobre um processo ainda em curso.
Durante décadas, os regimes do ‘socialismo real’ privaram povos inteiros
da participação política e da democracia. Por isso mesmo, o PT saudou as
transformações ocorridas naqueles países, por significarem o renascimento do
movimento operário, da sociedade civil e do debate cultural. Entretanto, a
confusão político-ideológica promovida por aqueles governos que se intitulavam
‘socialistas’ e ‘populares’, tem seu preço: hoje nos países do ex-‘socialismo real’,
são enormes as ilusões no capitalismo, estão em risco importantes conquistas
242
sociais e o desemprego se alastra.”

O tópico existente nas Resoluções Políticas do 1o. Congresso que fez


uma crítica acerca do “socialismo real” e também acerca da social
democracia, de certa forma introduziu a peculiaridade do socialismo petista
com um título sugestivo, ou seja, “Nem ‘Socialismo Real’ nem Social-

241
Semelhante ao “socialismo real” o partido manteve sua postura em relação a via da Social
Democracia ao socialismo: “A proposta social-democrática obteve relativo sucesso nas décadas
que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, quando a burguesia européia – acossada
internamente pelos movimentos operários e preocupada com a expansão do bloco socialista – foi
obrigada a aceitar importantes reivindicações políticas e sociais. À medida, contudo, que se
consolidava o ‘Estado de bem-estar social’, a social democracia ampliava seus compromissos com
a ordem internacional patrocinada pelos Estado Unidos – a exemplo do que ocorreu na recente
guerra do Golfo. Finalmente sucumbiu à ofensiva neoliberal, suprimindo – na França e na Espanha
– conquistas históricas das classes trabalhadoras. Hoje podemos dizer que a social-democracia
não apenas perdeu a referência socialista como também se mostra incapaz de sustentar sua
proposta de Estado de bem-estar social, imerso na crise fiscal e na regressão política. Cabe
ressaltar, também, a apatia e a omissão da social-democracia com o crescente movimento racista
em toda a Europa.” Ibidem.
242
Ibidem.
Democracia” 243. E foi, de certa forma, referenciado por essa crítica, que o
Partido defendeu o futuro socialismo estruturado nas pluralidades dos seres
humanos244 , que o “socialismo real” não respeitou.

“O PT recusa-se a pensar o futuro da sociedade de acordo com padrões


absolutistas e a-históricos. Em nossa concepção de socialismo , não há lugar
para a noção de uma sociedade perfeita, pronta e acabada, sem problemas e
sem diversidade de interesses e opiniões. O socialismo, para ser humanista e
democrático, terá que ser uma sociedade na qual governem e se realizem os
seres humanos reais — com suas paixões, seus desejos, suas grandezas e
seus defeitos — e não um ilusório ser humano perfeito, que não é outra coisa
senão a negação do ser humano. Lutamos por uma ordem social
qualitativamente superior, baseada na cooperação e na solidariedade, na qual
os conflitos sejam vividos democraticamente. Coerentemente com isso, o PT
rechaça a noção segundo a qual o pluralismo não passa de uma circunstância
que se tolera, até o dia em que, suprimidas as classes sociais, supostamente se
estabelecem as bases da homogeneidade de pensamento. O PT entende que a
diversidade de desejos e idéias é inerente à condição humana, razão pela qual a
pretensão de suprimi-las não passa de um projeto de violentação da
humanidade. Lutamos por uma sociedade efetivamente plural, mais um motivo
para sermos anticapitalistas, pois o capitalismo, ao oprimir e alienar os
indivíduos, só admite de fato uma pluralidade restringida pela desigualdade de
245
condições e oportunidades. (...)”

E, como vimos, não poderia existir nada mais articulado com esse
discurso de respeito à condição plural dos seres humanos do que a defesa

243
“Na construção dessa alternativa, – cujos marcos são os últimos Encontros Nacionais,
especialmente o 7o. Encontro, que delineou os contornos do ‘socialismo petista’ – nosso partido
vem reafirmando sua concepção de que o socialismo não nascerá de um decreto, nem do PT nem
de ninguém. Como afirmou Lula, em 1981, ‘o socialismo que nós queremos se definirá por todo o
povo, como exigência concreta das lutas populares’. Para o PT, socialismo é sinônimo de
radicalização da democracia. Isso quer dizer que a concepção de socialismo do PT é
substancialmente distinta de tudo que, enquanto concepção, vimos concretizado em todos os
países do chamado socialismo real. Mais do que mera afirmação retórica de uma idéia, esse
compromisso democrático pretende concretizar-se em todas as dimensões do Partido: no seu
modo de ser e de organizar-se, nos valores que assumem perante a sociedade, no seu
relacionamento com os movimentos sociais e com a sociedade civil, nas propostas
consubstanciadas em seu programa político, na sua atuação parlamentar em cargos executivos,
enfim, em toda ação cotidiana de cada petista. Afinal, ‘democracia para nós é, simultaneamente,
meio e fim’. Dizer isso implica em recusar todo e qualquer tipo de ditadura, inclusive a ditadura do
proletariado, que não pode ser outra coisa senão ditadura do partido único sobre a sociedade,
inclusive sobre os próprios trabalhadores.” Ibidem.
244
“O PT entende que a diversidade de desejos e idéias é inerente à condição humana, razão pela
qual a pretensão de suprimi-la não passa de um projeto de violentação da humanidade. Lutamos
por uma sociedade efetivamente plural, mais um motivo para sermos anticapitalistas, pois o
capitalismo, ao oprimir e alienar os indivíduos, só admite, de fato, uma pluralidade restringida pela
desigualdade de condições e oportunidades. Mas motivo também para rechaçarmos a chamada
‘pluralidade para os partidos operários’, ou seja, ‘para quem pensa como nós’, que, historicamente,
só pode levar a formas de ditadura.” Ibidem.
245
Ibidem.
árdua da democracia246, mas, não uma democracia baseada somente nas
instituições democráticas da sociedade capitalista — ou democracia
burguesa — e, sim, a extensão de formas socialistas de democracia.

“Nossa perspectiva, entretanto, não se limita à democratização e à


socialização da política apenas a partir do Estado. Visamos construir no
socialismo uma esfera pública na qual a política não se restrinja a iniciativas
estatais e institucionais, mas que, ao contrário, tenha seu pólo dominante nas
iniciativas surgidas da sociedade, na perspectiva de que a população organizada
se aproprie de funções que hoje são reservadas às esferas estatais e
institucionais, exercendo em plenitude uma nova cidadania. Para o PT, o
socialismo deve ser também a socialização dos meios de governar, a
descentralização do poder e, principalmente, o reconhecimento do direito à
diversidade política, cultural, étnica, sexual e religiosa. O problema da relação
entre as formas diretas e representativas de democracia deve levar em conta
esses objetivos de desestatização da política. A democracia socialista se baseia
na crescente superação da alienação e da apatia políti ca da maioria da
população, num nível muito maior de atividade, participação, consciência e
organização do povo. Exige também condições sócio-econômicas distintas das
atuais, entre elas uma importante redução da jornada de trabalho. Neste quadro,
a superação das instituições que são responsáveis por um importante nível de
autonomia dos governantes perante o povo (como é o caso dos mecanismos
clássicos da democracia representativa liberal) é um objetivo a ser perseguido
pela transição socialista. Ela busca abolir a distinção entre governantes e
governados e encaminhar a extinção das desigualdades de classe e do Estado
enquanto aparelho de dominação.”247

Mais uma vez, foi ressaltada a peculiaridade histórica do Partido na


sua principal arma ou no seu principal valor a ser defendido na futura
sociedade socialista. Foi respeitando pontos de vista particulares248 , que o

246
“É por isso que encaramos a democracia política, econômica e social como base constitutiva da
nova sociedade. O socialismo pelo qual o PT luta prevê, portanto, a existência de um Estado de
direito no qual prevaleçam as mais amplas liberdades civis e políticas (de opinião, de
manifestação, de imprensa, partidária, sindical, etc.); onde os mecanismos de democracia
representativa, libertos da coação do capital, devem ser conjugados com formas de participação
direta do cidadão nas decisões econômicas, políticas e sociais. A democracia socialista que
ambicionamos construir estabelece a legitimação majoritária do poder político o respeito às
minorias e, a possibilidade de alternância no poder.” Ibidem.
247
Ibidem.
248
“O PT sabe, também, que esta tarefa não é unicamente nossa e se declara disposto a somar-se
com todos os movimentos políticos que, no Brasil e no mundo, estejam empenhados em superar
os impasses do socialismo. Ao fazê-lo, apresenta dois pressupostos para que o debate seja, a um
só tempo, amplamente democrático e orientado pelo que ocorre no mundo real. O primeiro, ao
nível do método, é que não se pode violentar as características de um partido democrático e de
massas como o PT. Isso significa que o debate, longe de ficar restrito a um pequeno círculo de
intelectuais e dirigentes, deve envolver o conjunto dos filiados e simpatizantes e, a partir destes, se
estender a toda a sociedade. Do mesmo modo, o debate deve contemplar a pluralidade de um
partido laico, sem doutrina oficial.” Ibidem.
Partido apontou na sociedade os principais agentes a conduzirem as
transformações no caminho do socialismo, os movimentos sociais.

“Ao longo dos últimos anos, avançou bastante no PT a compreensão


sobre nosso caminho para o socialismo, vale dizer, sobre a estratégia global do
Partido. vêm sendo incorporados, nesse período, à prática e à teoria do Partido,
elementos básicos dessa estratégia, como o lugar central da luta de massas no
combate à exploração capitalista e ao autoritarismo das elites; a necessidade de
construir uma ampla rede de organizações populares; o papel estratégico dos
movimentos sociais e populares e de um partido de massas, como o PT; a
combinação das mais variadas formas de luta; a articulação entre o campo e a
cidade; a constituição de um bloco político e social, soldado na luta comum e
nas alianças necessárias à construção de uma alternativa democrática e
popular; a perspectiva internacionalista e a compreensão da democracia como
249
valor permanente para os trabalhadores.”

A conquista das transformações que conduziriam a sociedade rumo


ao socialismo, na visão do Partido, passaria necessariamente pela força
conjunta do movimento social. Com base no poder da mobilização social,
gestar-se-iam outras formas de participação democrática, que não as da
sociedade capitalista250, e se sustentariam todas as transformações da futura
sociedade, principalmente, as econômicas, sendo que na nova sociedade
haveria formas mistas de propriedade.

“A concepção do socialismo que defendemos pretende superar a


experiência econômica do ‘socialismo real’ baseada em uma estatização
generalizada das atividades econômicas, que promoveu o domínio da burocracia
e bloqueou o desenvolvimento da criatividade e do avanço tecnológico. De outro
lado, recusamos o mercado capitalista, organizado sob a lógica do lucro e
exploração do trabalho assalariado, concentrador de renda, riqueza e poder
como forma de organização da produção social. O PT entende que é preciso
estimular o planejamento estratégico e democrático do desenvolvimento,
diversificar as formas de propriedade, gestão e controle social, combinando
diferentes formas de propriedade (estatal, coletiva, social, pública, particular,
mistas), privilegiando as formas de propriedade de caráter social e
estabelecendo limites à propriedade individual de acordo com critérios vários,
como setor de atividade, volume de lucro gerado, número de empregados, entre
outros, diferentes formas de gestão econômica (autogestão, direção pessoal ou
coletiva, mistas) e várias formas de controle social (sindical, popular, estatal)
compreendendo que a eliminação das desigualdades herdadas do capitalismo
demandará um longo, demorado e conflituoso processo, do qual no momento só

249
Ibidem.
250
“O PT, compreendendo esta realidade nacional, defende, assim, a construção de novos
espaços e canais diferenciados de exercício da democracia, de modo que esta seja a mais ampla
possível, garanta os interesses em jogo entre as camadas populares e crie condições para a
eliminação da dominação política da burguesia monopolista e a construção do socialismo.” Ibidem.
podemos vislumbrar as formas mais gerais. Até porque os contornos precisos de
uma sociedade socialista não podem ser definidos hoje (a não ser como projetos
de laboratório, desprovidos de vida), exatamente porque eles serão produtos da
251
própria luta social, política, econômica e cultural (...)”

A função do Estado na economia socialista continuava sendo vista


como fundamental:

“A concepção de socialismo do PT nega tanto a ideologia do livre


mercado (que conduz à concentração de riqueza e de poder e produz
marginalidade social) como a ideologia do estatismo, típica do socialismo real
(que prejudica o avanço tecnológico, bloqueia a criatividade, nega aos
consumidores o poder de escolher entre produtos e serviços e estabelece,
necessariamente, o domínio da burocracia). O PT entende que só a combinação
entre o planejamento estatal e um mercado orientado socialmente será capaz de
propiciar o desenvolvimento econômico com igualdade na distribuição das
riquezas, negando, dessa forma, a preponderância e a centralidade do capital na
dinâmica das relações sociais. Para que isso aconteça, será necessário que o
Estado exerça uma ação reguladora sobre a economia, através de suas próprias
empresas e de mecanismos de controle do sistema financeiro, de políticas
tributárias, de preços, de crédito, de uma legislação antimonopolista e de
proteção aos consumidores, aos assalariados e aos pequenos proprietários.
Mas será necessário, antes de tudo, que a sociedade esteja organizada, de
252
modo a poder interferir, decisivamente, na definição da política econômica.”

Quanto aos movimento sociais, o PT apresentou avanços em sua


análise, apontando as principais formas de luta existentes na sociedade e
sua política de atuação em cada uma delas. Segue abaixo cada uma dessas
lutas e os principais posicionamentos do Partido quanto à relação das
mesmas com sua estratégia de luta por hegemonia na sociedade capitalista.

(A) Política sindical.


Desde a fundação do PT, destacou-se a importância do movimento
sindical como uma das principais frentes de luta para o Partido, o que foi
acentuado na estratégia de "acúmulo de forças”. No entanto, o PT apontou
as fraquezas da CUT, que era o principal reflexo do PT no movimento
sindical.

251
Ibidem.
252
Ibidem.
“No âmbito da CUT, o primeiro problema é a dificuldade dos
trabalhadores de redefinir uma orientação que permita dar uma resposta à altura
das agressões que sofrem com a política neoliberal. As dificuldades tendem a
aumentar, assim como a necessidade de respostas mais incisivas. O segundo
problema diz respeito ao enfrentamento com o ‘sindicalismo de negócios’, que
tem colocado seu apoio à aplicação do projeto neoliberal do Governo Collor de
Melo. Em terceiro lugar, um preocupante processo de luta vem se
desenvolvendo na CUT e nos sindicatos, tendo, em geral, como foco o controle
de aparelhos, sem que regras democráticas de convivência sejam estabelecidas
e respeitadas. Chega-se ao cúmulo de divisões de cutistas em diferentes chapas
em eleições sindicais propiciarem a vitória de correntes de direita, ou de
congressos da CUT não discutirem política e se dedicarem apenas à eleição da
direção.
Os problemas de orientação política, as dificuldades de superação da
estrutura burocratizadora estabelecida (e a não superação contamina a própria
CUT) e as dificuldades de convivência democrática entre as correntes petistas
exigem uma intervenção ativa do PT, como o partido da esquerda brasileira de
253
maior influência no movimento sindical.”

O caminho para aprimorar a relação do Partido com o movimento


sindical era deixado para discussões futuras 254. Entretanto, apontava-se a
necessidade antiga de unificar as lutas de vários setores da classe
trabalhadora.

“A segunda lição que devemos aprender dos últimos anos é a


necessidade de, na disputa pela hegemonia, apresentar propostas políticas que
levem o movimento sindical e popular a travar a luta e a mobilização sem ficar
restrito à luta corporativa, estrangulada pela recessão e pelo desemprego.
Para isso, é preciso combinar a necessária luta pelas reivindicações
setoriais com uma atuação mais ampla, que envolva a negociação e a ação na
frente institucional, e uma política de alianças que inclua os setores
marginalizados e desorganizados da sociedade. A CUT, além do
encaminhamento das lutas das diferentes categorias e da luta por uma política
salarial e pelo Contrato Coletivo Nacional, tem que ampliar a base dos sindicatos
e apresentar-se como interlocutora da classe trabalhadora no debate e na
disputa de alternativas para o País, desde a política de saúde e educação até a
255
política tecnológica e as saídas para a crise brasileira.”

253
Ibidem.
254
“A necessidade de integrarmos o movimento sindical em nossa estratégia democrática e
popular coloca ao PT o enorme desafio de atualizar e desenvolver a linha sindical do Partido,
aprovada em 1986, e de priorizar o acompanhamento do que se passa no cenário sindical,
ajudando o movimento a superar seus impasses atuais. Essa tarefa, que deve ser objeto dos
processos de encontros do próximo ano, deve encontrar, desde já, orientações que permitam
iniciarmos a discussão.” Ibidem.
(B) Mulheres.
Nos documentos do PT de anos anteriores, várias lutas de setores
particulares da sociedade foram incorporadas ao que podemos denominar de
“bandeiras de luta” do Partido. Mas, foram as Resoluções Políticas do 1o.
Congresso do PT que representaram o momento em que o Partido
apresentou políticas mais elaboradas para certos setores da sociedade 256.
A incorporação da defesa dos direitos das mulheres foi um exemplo
disto que acabamos de dizer, sendo que o Partido apontou os seguintes
caminhos:

“O movimento de mulheres busca uma nova forma de fazer política que


não seja arbitrária, nem vitimizadora da mulher, nem manipuladora, mas que
aceite a unidade na diversidade, não só como necessidade, mas também como
condição da nossa ação para construir o sujeito político mulher. E nessa busca,
o movimento de mulheres propõe formas de poder que transformem as relações
sociais, que criem uma sociedade democrática na qual as reivindicações de
cada um dos setores sociais encontrem espaço para serem resolvidas. Isso
requer regras do jogo que garantam às mulheres, aos negros, à juventude, aos
homossexuais e outros as condições de se construírem como sujeitos,
empenhados na construção de uma sociedade socialista que harmonize a
heterogeneidade e a diferença.
O PT se empenhará no fortalecimento de um movimento de mulheres
que seja capaz de articular o íntimo, o subjetivo, com uma concepção de
sociedade sem explorados e sem oprimidos, cuja viabilidade está em estreita
relação com as profundas mudanças no nível da estrutura econômica, política e
social. Um movimento de mulheres que aponte a necessidade de transformação
do indivíduo, de seus direitos e necessidades, de sua participação nos
processos sociais, de sua vida cotidiana. Isso significa expressar a necessidade
de pensar e viver a política valorizando o cotidiano, as relações pessoais, a
construção da identidade de cada indivíduo (homem ou mulher), ampliar o
horizonte das transformações sociais, resgatar o sentido de humanidade e
libertação plena, coletiva e individual, e de uma visão revolucionária e
257
libertária.”

(D) Política Anti-racista.

255
Ibidem.
256
“O Partido precisa repensar sua atuação na sociedade, entendendo as diferentes formas de
opressão nela existentes, que não se resumem à contradição capital-trabalho, mas se estendem a
processos discriminatórios e de exclusão econômica, social, cultural e política, que expressam a
natureza de classe, de raça e de gênero, característicos do processo de dominação instituídos nos
poderes e na sociedade e responsável pela transformação de maiorias sociais em minorias
políticas.” Ibidem.
257
Ibidem.
Semelhante à bandeira de luta em defesa dos direitos das mulheres, o
PT defendeu também uma política anti-racista258 e apontou a direção a ser
seguida neste sentido:

“Concretamente, propomos três linhas iniciais de ação estratégica para


a luta anti-racista no País:
1) A luta sindical e política sistemática contra a discriminação do negro
no mercado de trabalho;
2) A conquista de espaço legal e real no cotidiano das escolas, nas
disciplinas de História e mesmo de modo transdisciplinar para ensino sobre a
luta dos negros pela cidadania no Brasil, da escravidão até o presente;
3) O combate contra a violência ao negro como um dos eixos centrais
da luta pelos direitos humanos no Brasil, no discurso e na prática política diária.
E apresentamos as seguintes propostas de encaminhamento prático:
a) O Partido incorpora, em nível nacional, campanhas de saúde pública
de repúdio à esterilização em massa das mulheres negras, por serem pobres;
b) O Partido deve ter alternativas sobre as questões dos meninos de
rua, que estão sendo exterminados diariamente pela polícia ou por grupos
259
organizados, sendo que a maioria dessas crianças são de raça negra.”

(D) Índios.
Assumiu a mesma ênfase na defesas dos povos indígenas:

“Considerando a existência de mais de 180 povos indígenas no Brasil,


que se caracterizam como grupos humanos social e culturalmente diferenciados,
o PT:
• defende e lutará pelo pleno reconhecimento e respeito às diversidades
étnico-culturais;
• defende o direito dos povos indígenas às suas formas próprias e
autônomas de organização social e política, bem como à sua autodeterminação
e luta pelo respeito a elas;
• defende o direito desses povos à integridade de seus territórios, cuja
regularização deve pautar-se na história, nas tradições, nos usos e costumes
dessas sociedades. O reconhecimento desse direito implica, necessariamente, a
defesa da desintrusão das terras indígenas, com o reassentamento dos
posseiros pobres;

258
“Propomos um ponto de reversão nesse sentido. Toda nossa estratégia deve passar a
construir-se também a partir da perspectiva racial. Quando discutimos a disputa pela hegemonia,
temos que saber que não a alcançaremos se não soubermos disputar com uma linguagem
também negra. Quando discutimos as mobilizações sindicais, não estaremos despertando seu
potencial revolucionário se a discriminação não for combatida com a mesma radicalidade que a
exploração. Quando lutamos para desencadear greves políticas de massas, nossos símbolos,
nossas bandeiras e métodos precisam confrontar, simultaneamente, o capital e a cultura
hipocritamente ‘universal’, que serve de biombo para esconder o preconceito. Quando disputamos
ou até vencemos eleições, nossos programas não deitarão raízes verdadeiras caso não
expressem, também, a canção secularmente contida (mas também sempre cantada) da resistência
negra. O socialismo só será realidade no Brasil quando fizer saltar pelos ares o apartheid, quase
sempre subliminar e tantas vezes sangrento, da opressão racial.” Ibidem.
259
Ibidem.
• propõe-se posicionar-se nos conflitos envolvendo comunidades
indígenas e camponeses, indígenas e garimpeiros, e outros, bem como
comunidades indígenas e o Estado;
• posiciona-se contra a implantação de grandes projetos econômicos e
desenvolvimentistas, governamentais ou privados, em terras indígenas e
260
defende projetos étnicos que garantam a sobrevivência destes povos.”

(E) Deficientes físicos.


As lutas dos deficientes físicos também ganharam respaldo do
Partido:

“A luta específica das pessoas portadoras de deficiência integra-se,


necessariamente, nas lutas gerais dos trabalhadores na defesa atual dos seus
direitos e pela construção de uma sociedade socialista. A principal importância
dessa luta específica está na possibilidade de trazer ao processo de
transformação econômica da sociedade a necessidade conjunta e simultânea do
processo de transformação cultural, na qual, necessariamente, preconceitos
milenares deverão ser abolidos, trazendo como conseqüência o resgate da
imagem social dessas pessoas.
O PT tem a compreensão de que uma sociedade que tem por objetivo o
lucro e a exploração, e tem seus fundamentos na visão utilitarista e competitiva
do homem, não pode responder aos anseios de plena emancipação das
pessoas portadoras de deficiência. Porém, sabemos que, do ponto de vista
social, essas pessoas podem contribuir para a geração de bens e serviços para
a sociedade. Sabemos também que a competitividade dos portadores de
deficiência evolui com os conceitos sociais de utilidade, com o desenvolvimento
científico e tecnológico e com as transformações das formas de produção. Por
tudo isso, apenas com a construção de uma sociedade socialista, igualitária (no
sentido dos direitos sociais) e fraterna, as pessoas portadoras de deficiência
poderão ter condições de plena oportunidade e de ver assegurados os seus
261
direitos de plena igualdade.”

(F) Juventude.
Para terminar, o PT estabeleceu uma relação e um valor para a
juventude brasileira:

“A juventude tem um papel importante na construção do socialismo e do


PT, que foi considerado uma alternativa de futuro. Reconhecer a necessidade do
trabalho petista entre os jovens significa perceber suas características de
heterogeneidade, pluralidade, abertura para a construção de novos valores,
criatividade, irreverência e, principalmente, a contribuição que a juventude pode
trazer para resgatar o caráter de um partido jovem, novo e de futuro.

260
Ibidem.
261
Ibidem.
A juventude não se limita simplesmente pela faixa etária, mas
principalmente como momento de reflexão, de opção, de escolha de um projeto
de vida e por seu potencial de combatividade e disposição de luta. Mas, na atual
situação, premida por uma superexploração no trabalho, discriminação e
obrigações impostas pelas elites, vê seus ideais de liberdade contrariados. Hoje,
a sociedade brasileira marginaliza o jovem política, econômica e socialmente.
Nesse sentido, temos que afirmar uma moderna condição juvenil que rejeite o
estigma e o preconceito ao jovem como incapaz, inconseqüente ou,
simplesmente, ‘o futuro do País’. A juventude é o presente. E o grande desafio
do PT é ousar na luta pela conquista e o exercício pleno da cidadania.
O Partido dos Trabalhadores realizará uma ampla campanha de resgate
da cidadania infanto-juvenil, no sentido de esclarecimento sobre o Estatuto da
Criança e do Adolescente, bem como para fiscalizar o seu cumprimento,
implantar lutas para a concretização dos Conselhos de Defesa da Criança e do
Adolescente, desenvolver campanhas contra a discriminação e extermínio de
crianças e adolescentes, que significa, principalmente, o extermínio de crianças
262
negras.”

Enfim, o que pudemos perceber durante a exposição destes


posicionamentos foi que o discurso do Partido evoluiu no sentido de
aprimorar e cada vez mais englobar o leque de lutas em torno do qual o
Partido se expressava. Desde a fundação do PT, já existia esse leque aberto
às lutas localizadas de segmentos particulares da sociedade, entretanto, foi
no começo da década de 90 que aconteceu o aprimoramento deste discurso.
Como vimos em análise anterior, o Partido dividia as “frentes de
ataque” contra a sociedade capitalista em dois grandes movimentos. O
primeiro e mais importante era o movimento sindical e depois,
genericamente, vinham os demais movimentos englobados na denominação
de movimentos populares. O grande denominador no qual o Partido
procurava chegar era numa grande simbiose comum entre todas as
particularidades existentes nas variadas formas de manifestações e
reivindicações. Foi com esse pressuposto que o Partido apostou numa
possível força do movimento social para a manutenção de uma provável
vitória nas eleições para presidente da República em 1989.
Todavia, essa vitória não se concretizou e, dois anos depois, como
vimos nas citações acima, a análise acerca dos movimentos populares
sofreu um avanço em relação à divisão e às particularidades do movimento
social. O grande agente coletivo perseguido pelo PT no movimento social

262
Ibidem.
continha em si uma complexidade tal, que um dos grandes objetivos do
Partido era tentar fazer nascer dele uma força capaz de transformar a
relação de poder na sociedade capitalista. Daí, a importância que o PT
sempre deu para a unificação das lutas263, para a qual sempre encontrou
obstáculos, tendo sido este objetivo perseguido desde a sua origem como
partido. Alguns destes obstáculos foram internos, de cunho organizativo264, e
as principais ações de cunho prático para atingi-lo aconteceram por meio do
caminho aberto para todos os partidos, as eleições. Um exemplo disto, foi
toda a expectativa criada em torno das eleições de 1989, nas quais tal
unificação das lutas poderia ser auferida pelo número de votos no Partido.
Sobre o movimento social, em si, foi constatada a necessidade de se
“aprimorar” a ação do Partido e a sua atuação junto aos mais variados
movimentos e segmentos da sociedade. A única decisão de cunho prático
apresentada pelo PT foi a luta pela vitória do Partido nas eleições para
presidência da República em 1994.
Com relação a essas eleições, o Partido apresentou um avanço no
que diz respeito à sua estratégia, pois, a conquista do Executivo seria um
trampolim para colocar em ação um “golpe de força” contra a sociedade
capitalista. Tinha-se, também, pela primeira vez nos documentos do Partido,
uma valorização maior da importância do caráter das reformas para
dinamizar o processo de construção do socialismo.

263
“É esta nova compreensão das tarefas de disputa de hegemonia no Brasil que o PT precisa
assumir e assimilar, sob pena de ficar prisioneiro, ou de políticas equivocadas, que privilegiam
apenas a luta econômica e a pressão popular; ou que privilegiam somente a atuação no campo
institucional, sem articular as lutas reivindicatórias e setoriais com a luta por reformas políticas e
econômicas, mantendo, assim, a luta institucional prisioneira do caráter antidemocrático e elitista
das instituições, e dispersando as lutas sociais nas reivindicações específicas e no
corporativismo.” Ibidem.
264
“Nossa estrutura orgânica não apresenta mais correspondência com a nossa força real e
representatividade social. Embora nosso partido continue sendo, entre os partidos brasileiros,
aquele que possui a maior militância, a vida interna mais efetiva e a maior dose de democracia
interna, a verdade é que é preciso superar a nossa atual política de organização. A atual forma de
organização do Partido está inadequada e até mesmo caduca. Temos uma estrutura verticalizada,
que engloba as instâncias atuais (DN, DR, DM, Núcleos e Zonais), mas que não dá conta de um
partido como o nosso. Possuímos, de fato, uma estrutura de elite, que não oferece canais de
participação para uma cama da mais ampla de petistas, quanto mais para uma participação
maciça. Esta situação se agrava quando as instâncias se esvaziam, seja pelo cansaço, seja
porque são viciadas, tendo se tornado palco de discussões inúteis.” Ibidem.
“Para o PT, a conquista do poder político não começa nem termina e tão
pouco se reduz, simplesmente, à clássica representação simbólica da ‘ocupação
do palácio governamental’. Se não visualizamos a conquista do poder como um
‘assalto ao Estado’, tampouco acreditamos que o socialismo virá através de um
ininterrupto e linear crescimento das forças e da hegemonia socialistas dentro da
sociedade, sem que ocorram choques e confrontos intensos. Reafirmamos,
portanto, que as transformações políticas, econômicas e culturais que o Brasil
necessita supõem uma revolução social, como a experiência histórica
comprovou, inclusive recentemente, até no Leste Europeu.
Só um poderoso movimento por reformas políticas e sociais, baseadas
num programa democrático e popular centrado no combate ao latifúndio, ao
monopólio e ao imperialismo, pode levar a cabo a profunda revolução que este
país necessita, se quiser superar o modelo excludente que o caracteriza desde a
origem. Na visão do PT, a revolução social necessária para superar o
capitalismo tem que ser obra de milhões e milhões de brasileiros, que, na luta
por reformas profundas e estruturais em nossa sociedade, enfrentam-se com o
status quo vigente, acumulando forças para as necessárias transformações
265
revolucionárias, radicalmente democráticas e socialistas.”

O “acúmulo de forças” deveria ganhar um impulso, não


necessariamente com a tomada violenta e abrupta do poder, mas com uma
ação que causasse uma “fratura” maior e não fosse tão paulatina.
Entretanto, o caminho para tal “fratura” se daria pela conquista de um
posto estratégico na estrutura de poder capitalista. A vitória nas eleições para
presidente da República foi colocada como a principal luta de curto prazo por
hegemonia na sociedade. Mais uma vez, destacou-se que a “constituição” de
uma mobilização social seria responsável por garantir o governo democrático
e popular e sustentaria as transformações a serem interpostas na sociedade.

“A auto-organização dos trabalhadores, a consolidação da sociedade


civil, a democratização das instituições e dos meios de comunicação constituem
a maior garantia de que será possível sustentar um governo democrático-
popular, derrotando as eventuais tenta tivas golpistas que, como sabemos, fazem
parte da tradição da classe dominante no Brasil. É exatamente por isso que
consideramos como uma de nossas tarefas estratégicas a luta contra a violência
e contra a repressão exercida cotidianamente sobre os trabalhadores e o povo.
A redefinição do papel das Forças Armadas, o desmantelamento das milícias
paramilitares, o controle social sobre o trabalho policial e a luta contra a
ideologia da segurança nacional são caminhos que tornam possível defender a
cidadania, os direitos democráticos e os governos populares em um país como o
nosso, em que o golpe militar é o recurso mais recorrente, toda vez que as elites
266
vêem seus privilégios ameaçados.”

265
Ibidem.
266
Ibidem.
Nesta altura do texto, acreditamos ser conveniente analisarmos que
tipo de alusão foi feita aos Núcleos de Base nas Resoluções Políticas do 1o.
Congresso do PT. Afinal, esta instância do Partido em contato com os
movimentos sociais foi o que o distinguiu desde o seu surgimento, tendo sido
destacada no Manifesto de convocação aos petistas para o 1o. Congresso.
A única referência aos Núcleos e às outras instâncias de base do
Partido dizia respeito à importância deles como espaços que os petistas
“deveriam organizar” para intervirem na sociedade.

“São considerados núcleos quaisquer agrupamentos de, pelo menos,


nove petistas (sejam organizados por local de moradia, trabalho, movimento
social, categoria, local de estudo, temas, áreas de interesse, atividades afins,
tais como grupos temáticos, clubes de discussão, círculos de estudo, etc.). Os
núcleos são abertos à participação de pessoas não filiadas ao PT, mas só
podem se fazer representar nas instâncias dirigentes e de deliberação do
Partido através de filiados do PT. As instâncias de base do PT são abertas a
todos os filiados, não sendo permitido vetar a participação de nenhum filiado que
deseje atuar junto a determinada instância de base.
(...)
Nesse sentido, é preciso incorporar ao regimento partidário as prévias,
as plenárias de filiados, os fóruns de consulta, os fóruns decisórios setoriais e os
mais diferentes tipos de articulações e espaços que os petistas devem buscar
organizar para intervir na sociedade. Atividades como reuniões de prestação de
contas dos parlamentares do Partido devem ser incentivadas, cabendo à direção
não apenas emprestar seu apoio, mas também delas participar ativamente. A
mesma coisa deve ser feita durante as campanhas eleitorais, com os grupos de
267
apoio às candidaturas do Partido.”

As instâncias de base do Partido continuavam tendo uma


particularidade que as caracterizaram desde a fundação do PT. Entretanto,
continuavam sendo algo a ser “melhor organizado”. E de tudo o que foi
decidido, o que ocupou um espaço relativamente grande nas Resoluções
vinha ao encontro da necessidade de formação política para os próprios
quadros do Partido. A formação política buscaria criar uma harmonia entre
todos os integrantes do Partido para as futuras transformações da sociedade.

“A construção coletiva e democrática de nosso projeto só pode se


viabilizar se a dinâmica da vida partidária contemplar um processo pedagógico
permanente: se os militantes, lideranças intermediárias, dirigentes, puderem
ampliar sua compreensão da realidade e se capacitarem para as tarefas

267
Ibidem.
políticas no processo de luta. Compreendemos que este processo implica um
método de construção partidária que seja capaz de transformar cada ação
política num momento pedagógico, politizador, estabelecendo a ligação entre as
diversas atividades e o projeto estratégico do Partido.
As chamadas atividades formativas devem ser encaradas, dentro desta
lógica, como momentos de estímulo e reforço à implementação deste método de
construção partidária. Coerente com o projeto petista, nossa formação política
deve ser exercício da pluralidade e criadora de novas alternativas. A formação
política deve contemplar as dimensões globais da vida, incorporando as
questões relativas à opressão de raça e gênero, buscando a construção de
sujeitos autônomos, éticos, solidários, sensíveis aos valores mais nobres do ser
humano. Deve, ainda, contemplar as especificidades culturais, regionais e
268
históricas, trabalhando um processo unitário dentro da diversidade.”

Mais uma vez — de maneira semelhante a outros documentos


analisados — o socialismo do PT foi transferido para o conjunto dos
trabalhadores e para o futuro, sendo que neste, as únicas certezas seriam:
ganhar as eleições para presidente da República em 1994 e capacitar o
Partido para as futuras transformações.

4.3. As Resoluções Políticas do 8o . Encontro Nacional do


Partido dos Trabalhadores

Podemos caracterizar as Resoluções Políticas do 1o. Congresso do


PT como um divisor de águas na estratégia de ação política do Partido.
Como vimos, a concepção de “acúmulo de forças” vinha sendo
apresentada desde a primeira metade da década de 80. Mas, foi a partir do
1o. Congresso que o Partido adotou, dentro desta mesma concepção de luta
pela hegemonia na sociedade, posturas no sentido de tentar adiantar o
processo de ruptura com a sociedade capitalista. E, neste sentido, tornaram-
se recorrentes nos documentos do Partido a relação entre a conquista do
Poder Executivo e as “reformas” a serem implementadas pelo Governo
Democrático e Popular.
As Resoluções Políticas do 8o. Encontro Nacional do PT, caminharam
pouco no sentido de abordagens abruptas a toda a estratégia que vinha se
desenvolvendo no Partido. A sociedade brasileira era vista imersa numa crise

268
Ibidem.
responsável por efeitos drásticos para a grande maioria da população
pobre 269. O Brasil passava por um novo reordenamento do poder, em que a
burguesia se reestruturava depois do impeachment de Fernando Collor de
Mello270, e o Governo Itamar Franco era visto com severas reservas.

“Apesar das críticas à modernidade collorida, dos discursos em defesa


dos interesses nacionais e das declarações simpáticas aos sofrimentos dos
‘homens e mulheres simples’, Itamar vem praticando, no essencial, a mesma
política econômica adotada por Collor: altas taxas de juros, privatizações e uma
negociação da dívida externa lesivas aos interesses nacionais; políticas internas
de incentivo ao grande capital, manifestas, inclusive, no chamado Plano Eliseu.
Hegemonizado pelos conservadores, o Governo Itamar é incapaz de iniciar as
mudanças necessárias ao País, como também de impedir o agravamento da
situação nacional. Daí a inexistência de identidade com um governo vacilante e
ambíguo como o de Itamar Franco, por mais que ele tenha nascido da luta do
impeachment e por mais que seja integrado por partidos que consideramos
aliados. Sob o guarda-chuva do ministério multipartidário, Itamar substitui os
gestos concretos por discursos impulsivos e mantém em sua equipe elementos
comprometidos com a ditadura e com os desmandos de Collor. A área
econômica tem sido marcada por sucessivas trocas de ministros e pelo
imobilismo no combate à inflação, que já supera 30% ao mês, promovendo uma
violenta concentração de renda, penalizando os 12 milhões de aposentados e
pensionistas, o funcionalismo público, as categorias com menor poder de
barganha e os milhões que recebem um salário mínimo. Para sair dessa
situação de miséria é necessária a aprovação do reajuste mensal de salários,
como defende o PT. Com o Governo Itamar, continuam ganhando os
especuladores, os sonegadores de impostos, o grande capital oligopolista e os
bancos, que apresentam escandalosas taxas de rentabilidade, alimentadas por

269
“Cem milhões de brasileiros vivem na pobreza: 60 milhões em condições de miséria e nada
menos do que 32 milhões em total indigência. De cada mil brasileiros que nascem, 90 morrem
antes dos cinco anos; dos 9l0 sobreviventes, apenas 90 chegam a completar o segundo grau. O
drama do País deriva das políticas implementadas por uma elite indiferente à miséria e à fome das
maiorias nacionais. Presentemente, essas políticas materializam-se no atual modelo econômico,
que, além de estar esgotado, é concentrador de renda. Após uma década de instabilidade,
decorrente do agravamento dessa crise, o fracasso do projeto neoliberal deixou, mais uma vez,
evidente a incapacidade das elites de gerarem um modelo alternativo. Nesse mesmo período, os
setores populares ampliaram sua força política e eleitoral, disputando a hegemonia com as classes
dominantes em condições até então inéditas na história do Brasil: na fundação do PT, na criação
da CUT, na campanha das Diretas, nas eleições de 1989, no impeachment de Collor. Trata-se,
agora, na disputa eleitoral, de impor uma derrota às elites, abrindo para o País uma alternativa de
o
governo democrática e popular.” Resoluções do 8 . Encontro Nacional do Partido dos
Trabalhadores.
270
“Na esteira do fracasso de Collor, a burguesia tenta manter seu programa modernizante. O
empresariado, em particular o dos oligopólios, continua recusando-se a reduzir seus lucros. Suas
concessões estão sempre respaldadas por trocas vantajosas nos tributos ou em outros itens de
suas relações com o Estado e/ou a sociedade. A presente disposição do empresariado para o
diálogo amadurecido, não passa, portanto, de uma parada momentânea na tendência de
aguçamento das polarizações: ou a burguesia sofre uma derrota e se submete a um programa de
redistribuição de renda, ampliação do mercado interno e de eliminação da miséria, ou impõe uma
derrota aos setores populares e realiza seu programa de apartheid social. Por isso, não há espaço
real para uma terceira via; ou trilhamos o caminho das mudanças, ou será a continuidade da
miséria, da fome e da marginalização.” Ibidem.
uma taxa de juros que inviabiliza o investimento produtivo e que corrói as
271
finanças públicas.”

A concepção do Partido quanto ao caráter estratégico do Estado na


sociedade não mudara em relações a outros documentos analisados, ou
seja, o poder do Estado era essencial para o Partido implementar as
reformas rumo ao socialismo 272. Reformas essas que, desde as Resoluções
Políticas do 1o. Congresso do PT, tornaram-se, paulatinamente, o principal
objetivo do Partido.
A médio prazo, somente a consolidação do Governo Democrático e
Popular poderia fornecer as respostas de que os trabalhadores necessitavam
e que estavam estreitamente vinculadas às “reformas” a serem interpostas
pelo futuro governo. A importância destas reformas era vital para o impulso
do socialismo, entretanto, nos documentos não se aprofundava no
273
detalhamento do que consistiria tais reformas , tratando-se apenas das
áreas a serem “aprimoradas” no futuro.

“A distribuição de renda terá que ser acompanhada pela expansão da


produção de bens de consumo de massa. A superação do apartheid social
exigirá a democratização da sociedade, a reforma agrária e uma política de
estímulo e apoio aos pequenos empreendimentos e à economia informal, que
não pode mais ser tratada como um problema marginal da sociedade. O
programa de segurança alimentar e o combate à fome, associado à

271
Ibidem.
272
“O Estado será, além disso, instrumento para a realização de uma profunda e indispensável
redistribuição de renda, que não poderá ser feita unicamente através do crescimento, mas exigirá
uma política de elevação dos salários, de combate ao desemprego, inclusive através da redução
da jornada de trabalho, o fim da ciranda financeira e dos lucros obtidos com a formação de capitais
fictícios, e de medidas tributárias fortemente progressivas. Essas funções do Estado – entre as
quais se inclui a planificação e a capacidade de proteger os interesses nacionais estratégicos –
não foram, nem serão, supridas pelo capital privado, particularmente nas condições atuais de
aguda concorrência internacional. É nos marcos de uma ação estatal comprometida com as
reformas, com a defesa dos interesses nacionais e o combate à monopolização, que a contribuição
de milhões de pequenos produtores, comerciantes e prestadores de serviços poderá encontrar
ambiente para prosperar. ” Ibidem.
273
Um dos poucos pontos que desde a fundação do PT ganha destaque e que se encontra
desenvolvido neste documento é o que diz respeito à reforma agrária: “Neste sentido, a política
agrária do PT objetiva romper o domínio do latifúndio no campo brasileiro, combinando a ação
governamental com a mobilização das forças populares, para transformar as relações de produção
na área rural e integrar econômica, social e politicamente os milhões de marginalizados por uma
estrutura agrária arcaica e elitista. A nossa proposta de reforma agrária articula o apoio à luta dos
camponeses pela terra, através das ocupações, com a ação do nosso governo para viabilizar os
assentamentos e possibilitar a formação de novas empresas rurais, geridas pelos próprios
trabalhadores. Portanto, ela libera forças produtivas, estimula o desenvolvimento econômico do
País e avança a relação de forças na luta pelo socialismo.” Ibidem.
universalização do ensino básico, inclusive aos que a ele não tiveram acesso em
idade própria, são essenciais para promover a cidadania dos excluídos.
Especial atenção deve ser dada a uma reforma tributária, de caráter
progressivo, que penalize os que concentram renda e riqueza, impeça a
sonegação e a impunidade e recomponha as finanças públicas, para impulsionar
os investimentos produtivos e as políticas sociais.
Paralelamente, a especulação financeira terá que ser enfrentada com o
alongamento do perfil da dívida interna e profundas reformas do sistema
financeiro, que orientem os recursos para o sistema produtivo e eliminem o
caráter parasitário para o mercado de capitais no País. Um novo padrão de
financiamento, que fortaleça a capacidade de o Estado estimular os
investimentos dos pequenos produtores industriais e rurais, é uma condição
fundamental para o desenvolvimento com distribuição de renda, riqueza e poder.
O modelo proposto engloba a utilização simultânea de mecanismos de
mercado e a intervenção do Estado, para impedir que os monopólios e
oligopólios sigam exercendo sua completa supremacia na vida econômica do
País, desfigurando todas as fantasias dos liberais. Especial atenção deverá ser
dada ao sistema financeiro e sua lógica atual de acúmulo, que esteriliza o
dinamismo produtivo do País.
Haverá necessidade de compatibilizar, num mesmo movimento, o
atendimento ao mercado interno, expandido, com a inserção competitiva do
Brasil na economia mundial. Trata-se de alimentar, vestir e calçar, garantir
moradia, saneamento e transporte para dezenas de milhões de brasileiros, que
se encontram, hoje, à margem do consumo, da produção e, por conseqüência,
da própria cidadania.
Os imperativos dessa nova concepção de desenvolvimento obrigarão a
articular uma pluralidade de formas de propriedade: privada, estatal, mista,
cooperativa e outras.
O projeto alternativo exige um desenvolvimento ecologicamente
harmônico, rompendo com as concepções produtivistas, que marcaram tanto o
capitalismo quanto o socialismo estatista.”274

Na citação acima, encontramos um dos poucos trechos do texto


destas Resoluções em que se dedicou à análise acerca das formas de
propriedade, que ganharam principal destaque num outro documento
analisado anteriormente.
Outro aspecto já abordado, os potenciais aliados dos trabalhadores,
os setores médios da sociedade, apareceu também neste documento, como
setores da sociedade a serem conquistados pelas reformas.

“A execução do programa de reformas abre possibilidade para


interessar setores do pequeno e médio empresariado em respaldarem as
medidas iniciais de nosso governo. Ao mesmo tempo, pode isolar as elites e
reduzir seu poder de manobra. Essa reorientação do desenvolvimento nacional
afetará privilégios: a crise brasileira só se resolverá sacrificando os interesses
dos setores dominantes, que, embora minoritários, controlam o poder econômico
e político, influenciam a opinião pública, mantêm relações internacionais e, com
274
Ibidem.
seus setores militares, resistem secularmente às mudanças e não relutam, nem
mesmo, em romper com a legalidade, para poder impedir a execução das
reformas. Só será possível nos contrapormos a situações de instabilidade
provocada se assentarmos a nossa governabilidade na capacidade de executar
nosso programa. Ou seja: com apoio popular ao nosso governo, com coerência,
com transparência, com radicalidade, com apoio organizado dos movimentos
sociais e dos partidos de esquerda, com apoio parlamentar, de governos
municipais e estaduais, com uma ofensiva política de relações internacionais,
com a criação de uma estrutura de comunicação nacional, com a
democratização das Forças Armadas, com o desenvolvimento de um plano
estratégico que incorpore a noção de que não seremos um governo de união
275
nacional.”

O documento tratou de um ponto até então inédito, pois, nas análises


anteriores, o Partido sempre mantivera reservas quanto à economia num
prisma internacional. No futuro governo democrático e popular, a economia
brasileira, como no modelo de socialismo do Partido, poderia se abrir aos
investimentos estrangeiros.

“O governo democrático e popular manterá amplas relações políticas e


econômicas com outros países, permitindo, inclusive, a presença do capital
estrangeiro no Brasil, mas é evidente que um governo hegemonizado por um
partido socialista, e empenhado em realizar reformas antimonopolistas,
antilatifundiárias e antiimperialistas, abalará os pilares da nova ordem,
especialmente as pretensões norte-americanas sobre o continente, explorando o
nosso potencial humano, tecnológico e natural. Desenvolvendo um mercado
interno de massas, que integre milhões à produção e ao consumo; explorando o
peso regional (com destaque para a reorientação do Mercosul) e global de
nossa economia, e as contradições interimperialistas, o Governo Democrático e
Popular enfrentará as resistências internacionais e viabilizará uma inserção
276
soberana no mercado mundial.”

A seguir, algumas medidas de cunho prático apontadas pelo


277
Partido , como o Programa de Renda Mínima, em que podemos

275
Ibidem.
276
Ibidem.
277
“Caberá ao governo democrático e popular tomar medidas que viabilizem a retomada do
crescimento com distribuição de renda, a construção do mercado interno de massas, a
radicalização da democracia, a recuperação da capacidade de investimento do Estado, o incentivo
à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico, a reforma urbana, a reforma agrária, a reforma
tributária que grave os ricos, elimine os impostos indiretos e institua repartição de competências
tributárias compatíveis com as reformas democráticas e populares, o combate à sonegação,
permitindo assim o ataque frontal aos problemas da fome, do desemprego, das condições de
saúde, educação, especulação imobiliária, habitação e transporte da maioria da população.
Medidas que supõem uma política externa soberana, o rompimento dos privilégios dos oligopólios,
dos latifúndios e dos conglomerados financeiros.” Ibidem.
caracterizar uma ação prática mais delineada, todavia, necessitando também
de “aprimoramentos”:

“O Programa de Governo do PT incluirá o Programa de Garantia de


Renda Mínima (PGRM), com o objetivo de assegurar aos brasileiros um nível
mínimo de renda capaz de prover suas necessidades básicas como um direito à
cidadania. Este PGRM deve levar em conta os diversos projetos em debate
sobre o assunto no PT e no Congresso Nacional, como um dos instrumentos-
chaves para combater a fome e a miséria.
Deverá ser dada atenção especial à questão do financiamento do
programa democrático-popular. Várias medidas propostas contribuem para isso:
suspensão do pagamento da dívida externa; adoção de reforma tributária que
atinja as maiores fortunas; ampliação do controle do Estado sobre o capital
financeiro e o comércio exterior, necessária para o combate à fuga de capitais e
à sonegação; renegociação e alongamento da dívida interna. São medidas que
poderão gerar os recursos para constituição de um fundo de investimentos
econômicos e sociais, para que o Estado possa, sob nossa direção,
desempenhar o papel imprescindível que nossa política econômica lhe
278
destinará.”

Conforme a citação acima, estava esboçada a importância do futuro


Programa Alternativo de Governo, uma nova roupagem do PAG de 1989,
que estabelecia algumas ações do Partido, assim como os passos para
implementar reformas na sociedade brasileira.

“O Programa deve, necessariamente, destacar: uma reforma agrária


radical; a suspensão do pagamento da dívida externa e o alongamento do perfil
da dívida interna; uma reforma fiscal que incida sobre as grandes fortunas; a
criação de um forte mercado interno de consumo de massas, com a
conseqüente ampliação de empregos; uma elevação significativa e de curto
prazo do valor real dos salários; a criação de mecanismos de controle social da
economia, incidindo, particularmente, na redução da taxa de juros bancários; a
quebra do monopólio dos meios de comunicação de massa; e uma profunda
reforma do Estado que, a um só tempo, o desprivatize — desconstituindo os
mecanismos protecionistas e de subsídios que hoje o mantêm cativo e
afiançador dos lucros e oligopólios — e, por outro lado, desenvolva formas de
participação e controle social, direcionando os recursos públicos para o
279
enfrentamento da crise social.”

Como podemos ver no final da citação acima, como aconteceu desde


o início da história do Partido, o poder da mobilização popular era um dos
grandes valores de toda a estratégia do PT.

278
Ibidem.
279
Ibidem.
“(...) Mas depende, sobretudo, de estarmos vinculados à reanimação
dos movimentos sociais, especialmente o movimento sindical, expressando no
plano político os interesses desses movimentos. Se é verdade que a situação de
crise desestimula a mobilização, também faz falta uma orientação política mais
clara sobre como atuar na conjuntura e sobre a vinculação dos movimentos
sociais com a luta pelas reformas estruturais. Só haverá retomada da
mobilização quando o movimento sindical refizer os vínculos da luta específica
com as propostas nacionais. É nesse sentido que o PT deve orientar sua
atuação nos movimentos populares, sindical, estudantil, de mulheres, negros,
sua relação com as entidades da sociedade civil, com as Igrejas, com os
partidos aliados e com os marginalizados. Trata-se de interessar milhões de
trabalhadores e trabalhadoras para uma luta por mudanças, para a defesa de
metas nacionais — como o combate à fome, a reforma agrária, a extensão da
saúde e da educação a todos os brasileiros — que sinalizem o Brasil que
280
queremos.”

Sobre “reformas”, um trecho das Resoluções Políticas do 8o. Encontro


trouxe a possibilidade de se implementar, com os Conselhos de Base 281 o
poder de decisão de instâncias de base da sociedade.

“Porém, o nosso projeto de transformação social só será conseqüente


se, além de amplo apoio político-institucional, for sustentado em forte auto -
organização dos setores explorados e oprimidos. Só conquistaremos uma
verdadeira democracia substantiva se, ademais das formas representativas,
construirmos conselhos populares e instituirmos freqüentes consultas diretas à
população. Porque lutamos por reformas e por democratização no Estado e na
sociedade, acreditamos que o sucesso dessa luta depende da ação popular e do
282
Governo no sentido de tensionar e esgarçar os limites da ordem existente.”

Um dado importante que verificamos: a partir deste documento e nos


que faltam para terminamos nossa análise, não foi feita mais nenhuma
menção aos Núcleos de Base ou a qualquer forma do Partido interagir com
os movimentos sociais. O que pudemos perceber foi que o PT abriu mão de
caminhos alternativos para o socialismo e concentrou todo o seu ímpeto e
ação política num viés estratégico, que pregava a conquista do Poder
Executivo para se poder transformar a sociedade.

280
Ibidem.
281
A referência a “Conselhos de Base” nos documentos do PT não foi constante, não se delimitou
claramente o que seria um “Conselho de Base”, entretanto, o que podemos constatar, mesmo que
os documentos pesquisados não os mencione, que as experiências em certas administrações com
o “Orçamento Participativo” foi o que mais se aproximou da idealização de um “Conselho de Base”.
282
Resoluções Políticas do 8 o. Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
Juntamente com a importância da unificação das lutas, a necessidade
das reformas era colocada pelo Partido como tão importante que seria
necessário “ganhar o imaginário” das massas.

“É preciso ganhar o imaginário da população para a idéia das reformas


estruturais:
O povo brasileiro está cansado da falta de alternativas, das ilusões
desfeitas, das promessas descumpridas. Esses sentimentos são ainda mais
fortes entre os mais pobres, os marginalizados, os trabalhadores de baixa renda,
os pequenos proprietários, que sempre foram os principais prejudicados pelas
mudanças. É desse clima de desesperança que o conservadorismo se alimenta.
Os que lutam por mudanças precisam ganhar o coração de cada brasileiro para
as idéias da democratização da propriedade, da renda, da terra, da
comunicação e do poder. Um projeto alternativo, estratégico, de longa duração,
que rompa o círculo de ferro das alternativas de curto prazo, dos planos de
estabilização que provocam mais instabilidade e miséria, das políticas
econômicas que não enfrentam o apartheid social, da lógica cínica que afirma
ser necessário primeiro fazer o País crescer, para depois distribuir as riquezas
produzidas. Uma plataforma programática que unifique as grandes maiorias
nacionais, um instrumento de afirmação da superioridade social e moral dos
valores da democracia radical, do humanismo, da solidariedade, da ética, do
socialismo. Idéias que, em 1989, sensibilizaram milhões através do slogan Sem
283
Medo de ser Feliz.”

Colocados estes posicionamentos do Partido, a única certeza para a


sua ação era o embate com as classes dominantes. De imediato, o Partido
estabeleceu lutas contra o Governo Itamar 284 e, num futuro que seria
próximo, a principal luta do Partido, as eleições presidenciais de 1994.

“Em l994, o povo brasileiro terá a oportunidade histórica de infligir,


através do voto, uma derrota às elites. Mais, talvez, que em l989, temos
condições de superar esse desafio. Há quem não compreenda isso, tomando
como defeitos nossas principais virtudes: a radicalidade, a combatividade, a
diferença, o compromisso com o socialismo. Investem no eleitoralismo, no
administrativismo. Pensando que contribuem para eleger Lula em l994, trilham o
que pode ser o caminho de nossa derrota. Não é este o caminho para um
governo comprometido com a democratização radical da propriedade, da renda,
da informação e do poder. Mais do que nunca, é preciso manter a coerência do
283
Ibidem.
284
“No atual momento, qual tática concretiza a oposição a Itamar? Sem dúvida, a primeira ação é
tomar a iniciativa de articular um movimento de massas, partidos, entidades e sindicatos numa
campanha nacional por medidas urgentes, capazes de atenuar as condições de vida das maiorias.
Nela, se incluem reformas democráticas – da legislação político-eleitoral e dos meios de
comunicação – e exigências reivindicativas populares: revogação das privatizações, anulação do
acordo com o FMI e suspensão do pagamento da dívida externa, não ao IPMF, imediato
assentamento dos acampados e reforma agrária, Fundo Nacional de Transportes, salário mínimo e
reajuste salarial mensal, punição dos culpados na CPI, extensão dos direitos de cidadania aos
milhões de marginalizados, entre outros pontos.” Ibidem.
PT: um partido firmemente comprometido com os de baixo, com as maiorias
exploradas e oprimidas, com a construção de uma nova ordem, socialista e
285
democrática.”

4.4 Resoluções Políticas do 9o . Encontro Nacional do


Partido dos Trabalhadores

As Resoluções Políticas do 9o. Encontro Nacional do PT corroboraram


a linha de ação política adotada pelo Partido desde o seu 1o. Congresso. A
principal particularidade das Resoluções foi a aprovação do Programa de
Governo da candidatura do Partido à presidência da República. Era o início
de uma batalha, na concepção do Partido, a fundamental para a conquista do
socialismo 286.
Boa parte do texto foi dedicada a uma análise da conjuntura política,
social e econômica da sociedade brasileira. Conforme essa análise, as
classes dominantes ainda estariam mergulhadas numa crise e não
conseguiriam se adaptar às disputas eleitorais e tentariam a todo o custo
barrar os avanços da democracia287. O confronto com tais classes
288
dominantes era tido como certo , sendo que o Partido estaria próximo de

285
Ibidem.
286 o
“O 9 . Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores discutiu e aprovou o Programa de
Governo. A partir de agora, todas as energias de nosso partido, de cada um dos militantes, filiados
e simpatizantes devem concentrar-se na eleição de Lula Presidente, de nossos candidatos ao
Governo e ao Senado, à Câmara e às Assembléias Legislativas. Não se trata de mais uma disputa
eleitoral. Trata-se de uma batalha onde estão em jogo, simultaneamente, as chances de uma vida
digna para a maioria do povo brasileiro e a possibilidade de colocar num novo patamar a luta pelo
o
socialismo.” In: Resoluções Políticas do 9 . Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores.
287
“Desabituadas com a disputa demo crática, incapazes de reformar um sistema que lhes permite
ganhos fabulosos, as elites tentam, de todo modo, impedir a vitória eleitoral da esquerda. Esse foi
o sentido da traição ao movimento pelas Diretas e da ida ao Colégio Eleitoral, do estelionato
eleitoral do PIano Cruzado, da extensão do mandato de José Sarney, do apoio ao aventureiro
Collor de Mello.
(...)
Diante da previsível derrota nas urnas de 1994, as elites apelaram para o Congresso surgido das
urnas de 1990: façam a revisão, antes que o povo faça as reformas. O PT resistiu a mais esse
golpe contra a democracia e contra um futuro governo popular. A despeito das dificuldades e das
incompreensões, na sociedade e no próprio Partido, soubemos resistir porque nunca
consideramos a revisão um fato consumado, uma derrota inevitável à qual devíamos nos curvar.”
Ibidem.
288
“Por isso, a polarização tende a ser uma das marcas principais da disputa. Adversários
poderosos lançarão mão de todos os recursos ao seu alcance – legais e ilegais, verdadeiros e
alcançar uma coesão do movimento social motivada pelos efeitos negativos
do Plano de governo.

“Um componente importante, não apenas do Plano, mas das condições


para a viabilização de uma vitória do campo popular e da viabilização do
programa de governo, é o comportamento do movimento popular e sindical. Do
ponto de vista do movimento sindical, embora tenham eclodido greves na região
do ABCD, ainda é cedo para medir a extensão da reação frente à urvização dos
salários. O mais provável, porém, é que as lutas sociais mantenham-se no nível
atual, podendo crescer de intensidade, mais em função da campanha eleitoral,
cabendo-nos estimular o surgimento de um movimento nacional em defesa das
reformas estruturais no País.
(...)
Isso porque parece estar consolidada, em amplos setores da população,
a idéia de que uma melhoria efetiva nas condições de vida depende do resultado
das eleições de 3 de outubro. Ainda que reflita uma expectativa favorável à
candidatura Lula, o marasmo é negativo. Por isso, a orientação do Partido, de
nossas lideranças sindicais e populares, deve ser no sentido de mobilização
contra o arrocho provocado pelo Plano FHC. É fundamental que o PT, nossos
economistas, nossos parlamentares, passem à ofensiva no combate público ao
Plano, fundamentando de forma consistente nossa oposição a ele, que não se
289
esgota em seus aspectos eleitoreiros.”

O Partido orientou as suas estratégias de ação quanto aos


movimentos sociais pela perspectiva de confronto com as classes
dominantes, sob o prisma da luta ideológica e programática motivada pelos
estigmas atribuídos pelos adversários ao caráter socialista do Partido.

“Além do mais, a polarização será imposta pelos próprios adversários,


que, desde cedo, já martelam preconceitos contra nosso candidato, no mais
puro estilo da histeria anticomunista que deu vida ao Regime Militar de 1964-85,
e serviu como manto protetor da corrupção, que cresceu e, hoje, explode em
vergonha nacional.
Nossa campanha se apoiará, portanto, na afirmação da diferença. Será
o confronto da honestidade com a corrupção; proporá a consistência do combate
à pobreza, como alternativa ao superficialismo dos ajustes que ignoram as
condições sociais de um povo inteiro; vai encarnar a idéia da ruptura, em

falsos, éticos e imorais – para tentar impedir nossa vitória. E como tais forças controlam
instrumentos importantes, como os meios de comunicação, o sistema financeiro, todos os
ministérios, o Congresso Nacional e até o Judiciário, todo o favoritismo de Lula não chega a ser
suficiente para autorizar qualquer otimismo irresponsável e desmobilizador.
Devemos estar preparados para um verdadeiro clima de guerra. E não se vence uma guerra sem
contar com uma estratégia claramente definida, unificando todas as iniciativas e mobilizações que
nossa militância, candidatos, partidos coligados, organizações populares, entidades civis e
movimentos sociais lançarão em cada canto do Brasil, para garantir a concretização desse sonho
perfeitamente realizável.” Ibidem.
289
Ibidem.
oposição à conciliação; a coerência combatendo o oportunismo de alianças
eleitoreiras.
Claro está que assumir a polarização não pode significar, em hipótese
alguma, cair na armadilha de quem propõe temas ideológicos, abstratos e
distantes, no lugar de questões concretas, como o desemprego brasileiro. Nem,
muito menos, opor campanha ideológica e campanha programática.
A luta será ideológica, sim, porque aos adversários restam poucas
armas além do recurso a velhas manipulações ideológicas. Será ideológica
também no sentido de que apontaremos claramente quem ganha e quem perde
com as políticas do governo Lula. Mas será, sob retudo, programática porque,
ocupando a dianteira e sendo prováveis vencedores, temos todo o interesse em
priorizar o debate em torno de medidas concretas, capazes de materializar
290
nossas idéias.”

Certas conclusões a que chegamos anteriormente concordam com o


que se desenvolveu na concepção de socialismo do PT neste documento,
como, por exemplo, que a única maneira de se colocar em prática qualquer
transformação socialista passava pelo crivo da legalidade instituída na
sociedade. E neste particular, o movimento social em que o Partido
depositava suas esperanças como agente responsável pela legitimação do
futuro governo democrático e popular, apesar de apresentar sinais de
mobilização, não representava sozinho a grande proporção de votos de que
o Partido necessitava.
Diferente das análises feitas para a disputa das eleições em 1989, nas
quais o movimento social, genérico e amplo291, garantiria a vitória e as
transformações de cunho socialista a serem implantadas pelo Partido, as
análises do PT quanto à sociedade em 1994 e, em particular, ao movimento
social sofreram um avanço, pois, destacava-se que havia um número
reduzido de eleitores organizados em movimentos sociais. O sindicato era
uma das poucas instituições em que se poderia perceber uma organização
mais arraigada às lutas históricas292. Se o Partido quisesse conseguir algum
resultado nas eleições presidenciais de 1994 deveria, assim como qualquer
outro partido na disputa do pleito, lutar pelo voto da população em geral.

290
Ibidem.
291
Um exemplo desta não delimitação dos atores que formam o movimento social é dado pelo
conceito de “forças democráticas e populares”, que foi empregado nas eleições presidenciais de
o
1989. Conferir a citação n . 176.
4.5. As Bases do Programa de Governo

Como vimos anteriormente, as poucas certezas que o PT possuía


quanto ao seu socialismo eram a conquista das eleições para presidente da
República e a implementação de reformas na direção do socialismo.
Chegada a hora das eleições, o Partido deveria tornar públicas as
suas propostas, apresentar suas concepções, suas análises e seu socialismo
para a sociedade.
No entanto, isso não significou que o Partido abandonara as suas
concepções teleológicas da futura sociedade, muito pelo contrário, pois o
grande norte do futuro governo democrático e popular do Partido seria uma
“radicalização da democracia”, que seria responsável por legitimar as
reformas a serem feitas na sociedade, além de serem o grande bastião para
a construção de uma nova cultura293, fundada numa democracia diferente da
burguesa, que respeitaria a autonomia e a auto-organização dos
294
indivíduos . E o Partido, novamente, ressaltou suas particularidades
socialistas que vinham de sua fundação, sendo que o Partido respeitaria na
futura sociedade socialista a autonomia dos indivíduos e suas organizações.

Principais ações do partido no Governo Democrático e Popular

292
Isso não significa que o PT abandonou o bandeiras de lutas de segmentos particulares da
sociedade, como veremos na análise do próximo documento.
293
Semelhante a uma análise anterior em que o partido apontava a necessidade de construção de
uma nova cultura, para que os trabalhadores possam conquistar a hegemonia ideológica na
sociedade, neste particular podemos perceber, novamente, toda a concepção do partido acerca da
legitimação procurada nos movimentos sociais. Um exemplo disto é o valor, mais do que nunca
imprescindível, da mobilização popular para legitimar o governo democrático e popular.
294
“A participação popular é um princípio que perpassa nossa concepção de organização da
sociedade e do Estado. Para o processo de radicalização da democracia, a participação popular é
tão importante quanto os mecanismos da democracia representativa. Com essa participação,
queremos propiciar o surgimento de novas formas de exercício da política que permitam a
expressão dos interesses daqueles setores da sociedade historicamente alijados do poder político
pelas elites.
A participação popular será instrumento privilegiado pelo Governo Democrático e Popular para
socializar o poder e a política, pois uma nova sociedade só poderá ser construída se a política for
assumida como preocupação por dezenas de milhões de brasileiros e se o poder não ficar
confinado nas estruturas burocráticas de uma Estado tradicionalmente organizado para garantir a
dominação de uma minoria.
A participação popular será o resultado da auto-organização da sociedade. Tem, portanto, amarca
da autonomia. Radicalizar a democracia significa reduzir a separação entre governantes e
governados. Os cidadãos devem participar de todos os mecanismos ou instituições que afetam
sua vida.” In: Bases do Programa de Governo – Lula Presidente.
O programa de governo da candidatura Lula pode ser considerado,
juntamente com as Resoluções Políticas do 1o. Congresso do PT, um dos
mais importantes documentos da década de 90, pois, trouxe certos aspectos
novos no que dizia respeito às ações do Partido, apontando os principais
caminhos a serem seguidos.
Seguem abaixo as principais medidas e ações a serem implantadas
pelo governo do PT, todas se coadunando com a estratégia socialista do
Partido e com a criação de uma nova cultura para o país.

(A) relações de trabalho.


As principais medidas do Partido com respeito às relações de trabalho
foram as seguintes:

“Em suma, o Governo Democrático e Popular buscará a construção de


um consenso na sociedade em torno das seguintes iniciativas:
• a ratificação e/ou aplicação de todas as Convenções da OIT (...);
•a garantia em lei de que quem irá operar a mudança para o novo
regime de liberdade plena de organização sindical, tal como garantido pela
Convenção 87, da OIT, serão os próprios trabalhadores por meio de formas
democráticas de deliberação (e não por mais uma intervenção compulsória do
Estado ou do arbítrio da ação das empresas);
• a adoção de ‘Legislação de Suporte’ para garantir o exercício pleno da
atividade sindical, com normas que apontem para o direito de organização no
local de trabalho, o direito ao acesso às informações da empresa e livre acesso
do sindicato ao interior da empresa;
• o fim da intervenção compulsória da Justiça do Trabalho, com a
extinção do seu poder normativo, de maneira que assuma um novo papel no
sistema redefinido;
• o estimulo, em todos os planos, a transição para um sistema
democrático de relações de trabalho que se consubstancia com os elementos
acima citados e a generalização da negociação livre, direta e a celebração do
contrato coletivo nacional de trabalho, que busque articular os diversos níveis de
295
contratação.”

(B) Reforma Administrativa.


Assim como uma ampla reforma política, em que os principais alvos
do Partido seriam a “corrupção” e a “privatização” do Estado296 — indicando,

295
Ibidem.
296
“O combate à corrupção e à privatização do Estado é o solo comum para essa concatenação
de perspectivas, pois além de contar com evidente apoio popular, essa luta já criou dinâmica
inclusive, iniciativas para mudar o sistema de representação297 — o Partido
apontou os principais pontos de uma ampla “reforma administrativa”:

“Hoje, os problemas mais visíveis da administração pública que deverão


ser enfrentados e superados decorrem dos seguintes fatores:
• privatização do Estado: a apropriação privada do que deveria ser
público, cuja expressão mais chocante é a recorrência dos casos de corrupção,
vincula-se à cultura patrimonialista dominante, e manifesta-se no cotidiano da
administração por meio de práticas como o loteamento fisiológico dos cargos em
comissão, a formação de cartórios ou o peso dos privilégios corporativos;
• debilidade da Presidência da República: conseqüência da ausência de
informações gerenciais necessárias à tomada de decisões, da descoordenação
das ações político-administrativas, da inexistência de um sistema de
planejamento e da desarticulação entre o Executivo e o Legislativo;
• caos na política administrativa: desde os problemas de ineficiência em
áreas como as de compras e estoques até as cruciais deficiências na área de
recursos humanos, como atestam os baixos salários, as questões ligadas às
carreiras, a quase inexistência de processos de formação;
• indefinição de competências: entre os vários órgãos do governo
federal ou entre União, estados e municípios. Há exagerada centralização. Os

próprias no âmbito dos três poderes. Nesses termos, os possíveis bloqueios à implementação das
propostas da administração democrática e popular podem ser vencidos com:
• o fortalecimento e a radicalização da democracia, com a extensão da cidadania e maior controle
do Estado pela sociedade;
• a criação de condições político-institucionais para que o governo consolide o apoio da sociedade
a seu programa e construa uma ampla coalizão de forças sociais e políticas que lhe permita
governar e avançar em direção de objetivos mais amplos;
• o combate à corrupção e à privatização do Estado pelos interesses das elites ou de grupos
corporativos, conflitantes com o interesse nacional;
• pela adesão ativa dos servidores federais às reformas estruturais, em especial do Estado e da
Administração Pública com os quais o Governo Democrático e Popular está comprometido, o que
vai requerer intensa interlocução entre governo e entidades do funcionalismo, tanto para a efetiva
implementação do programa, quanto para superar eventuais obstáculos colocados por nosso
adversários.” Ibidem.
297
“Compreende as seguintes iniciativas:
• a Câmara Federal, sendo a instituição que representa a Nação, deve ser escolhida segundo o
princípio ‘cada cidadão um voto’, o que significa compatibilizar a representação proporcional dos
estados com sua população, resguardando um piso de representação aos estados menores para
evitar a ausência de representação ou sub-representação;
• a manutenção do Senado, como instituição que representa a federação, e por isso tem o mesmo
número de representantes por estado, passa pela revogação de sua função de câmara revisora.
Ele deve ocupar-se de temas relacionados com a federação ou daqueles para os quais recebe
delegação específica, como podem ser as questões de segurança ou de política externa;
• serão definidos mecanismos de revogação de mandatos parlamentares adaptados ao sistema de
representação —voto proporcional, distrital ou distrital misto;
• revisão do fundo estatal de financiamento dos partidos de modo que assegure condições de
equilíbrio entre as distintas organizações e atenue o peso do poder econômico;
• fidelidade partidária com perda de mandato do eleito que trocar de agremiação;
• a imunidade parlamentar restringe-se aos delitos de opinião e a renúncia ao mandato, em meio à
investigação de delitos cometidos, não tira do Legislativo a possibilidade de cassar o mandato,
impedindo que o parlamentar se representasse como candidato em pleito seguido;
• propor a eliminação das carteiras de aposentadoria de parlamentares e de outros privilégios
como empréstimos a juros subsidiados, antecipação de vencimento etc. O sigilo bancário dos
parlamentares e de todos os eleitos será suspenso sempre que comissões de investigação
competentes assim o desejem.” Ibidem.
órgãos federais são estanques, o que dificulta ações horizontais cada vez mais
necessárias;
• base jurídica esclerosada: que limita a agilidade das decisões
governamentais, do que são exemplos a legislação sobre licitações, a
burocratização dos organismos de controle, dispositivos escassos,
298
demasiadamente genéricos e niveladores de isonomia ou carreira.”

(C) Fortalecimento do Estado.


Dentro da reforma administrativa, o fortalecimento do Estado299 e a
concepção de gestão democrática foram apontados como fundamentais:

•“Criação de canais para a participação da sociedade na gestão pública


viabilizando o controle social do Estado, através da participação de usuários,
funcionários e da cidadania em geral na gestão das políticas e serviços públicos.
Negociação transparente, pública, das prioridades e ações centrais de governos,
de que são exemplos as formas de orçamento participativo e as câmaras
setoriais, dentre outros;
• Com base na informatização generalizada do serviço público,
implantar um sistema de informações que, além de agilizar a gestão pública,
sirva para eliminar os cartórios existentes e permita a democratização das
informações relevantes para a sociedade.
• Redefinição da estrutura dos cargos em comissão (de livre nomeação)
e funções gratificadas, estimulando a profissionalização da burocracia federal e
assumindo o compromisso de que os cargos em comissão, sejam preenchidos
em função do programa e das alianças, a fim de eliminar o loteamento fisiológico
300
dos cargos públicos.”

(D) Fortalecimento da Presidência da República.

298
Ibidem.
299
“(...) O Estado é fraco por sua ineficiência, por sua ausência na prestação de serviços públicos
ou por sua privatização pelo poder do grande capital. Necessita-se de um Estado forte, capaz de
assumir seu papel em um projeto nacional de desenvolvimento e, por esta razão, de um Estado
que seja democrático e socialmente controlado.
Isto articula com:
• resgate da capacidade de governo, especialmente da Presidência;
• modelo de gestão democrática, retomando o caráter republicano do Estado (fim do caráter
privado e patrimonial), redefinindo as relações entre público e privado com destaque para a
abertura de espaços de controle da sociedade civil;
• recuperação da capacidade gerencial do Estado, dotando-o de capacidade para prestar serviços
públicos com qualidade e sem desperdício. Para isso é necessário sua profissionalização a partir
do resgate da dignidade dos servidores públicos. O Estado deve e pode fazer mais com os
recursos de que dispõe;
• descentralização, tanto no que se refere à relação entre os três níveis da federação (União,
estados e municípios) quanto no que diz respeito à forma de gestão do setor público internamente
a cada nível, de modo que a tomada de decisões seja descentralizada.” Ibidem.
300
Ibidem.
De nada adiantaria um programa de reformas sem que se tivesse
poder para implementá-las. Daí a importância do poder do presidente da
República:

• “Para acompanhar com detalhe o processo legislativo e coordenar de


modo eficaz as relações entre os ministérios e o Congresso, será criada uma
estrutura que combine quadros com estabilidade profissional e condução política
de peso.
• Para perseguir condições propícias de governabilidade será
estabelecido um conselho político da Presidência da República, composto pelas
forças políticas de sustentação do governo, enquanto espaço de negociação e
consulta referente às decisões políticas relevantes. O presidente promoverá
regularmente reuniões com entidades da sociedade civil (centrais sindicais,
OAB, ABI, igrejas, entidades patronais) como fóruns de informação e
negociação de temas relevantes em matéria econômica, social e política.
Procedimentos de consulta serão agilizados por meio de teleconferências,
utilização de métodos informatizados de comunicação e outros mecanismos.
• Para além das reuniões ministeriais, será implantado um sistema de
planejamento estratégico governamental, de modo a assegurar a articulação de
ações envolvendo ministérios e órgãos da administração indireta. Este sistema
será coordenado por uma estrutura fixa e enxuta, planejando ações concretas
de maneira a compatibilizar os programas às reais condições de governo.
O presidente, seus ministros ou delegados diretos, se deslocarão pelo
país, examinando de perto os problemas, realizando consultas à sociedade civil
e agilizando os mecanismos de decisão sobre questões regionais de
301
competência da União.”

(E) Medidas de cunho econômico.


Assim como a formação de uma nova cultura política, o PT pregou a
formação de uma nova cultura econômica302, com a incorporação das
maiorias quebrando a hegemonia nas decisões econômicas 303. O Partido

301
Ibidem.
302
“Com o Governo Democrático e Popular as maiorias nacionais serão chamadas a um
engajamento ativo na definição das questões econômicas. Assumindo a direção da Nação,
promoverão um processo de democratização da vida econômica, e procurarão reorientar a
economia, buscando um novo ciclo de desenvolvimento, baseado na constituição de um mercado
interno de massas, isto é, na criação de um círculo virtuoso de crescimento entre salários,
produtividade, consumo e investimentos. Haverá um processo de distribuição de riqueza, da renda
e do poder, condição do novo processo de desenvolvimento.” Ibidem.
303
“A economia capitalista é governada por métodos autoritários sob um verniz de liberdade.
No mercado, há liberdade de iniciativa, ou seja, todos têm liberdade de produzir e vender, mas
dentro das empresas impera a vontade apenas de quem detém a sua propriedade ou a representa.
Pior, o monopólio do poder de decisão dos proprietários é exercido com o objetivo de maximizar o
lucro, sem necessidade de considerar os interesses dos consumidores dos produtos nem dos
trabalhadores que os produzem. As intenções de quem dirige as empresas são mantidas em
segredo dos que executam o trabalho e dos que lhe vendem matérias-primas, energia e serviços,
impedindo por definição qualquer coordenação dos planos das empresas.
(...)
apontou as seguintes medidas para implementar a democratização da
economia:

“Serão convocados fóruns por cadeia produtiva em que estarão


representados empresas, trabalhadores, consumidores e governo. As atuais
câmaras setoriais são um dos modelos possíveis para estes fóruns. Serão
confeccionadas planilhas de custos confiáveis para os principais produtos de
cada cadeia produtiva. Como as informações contidas nestas planilhas são
fundamentais para negociar os conflito s de interesses entre empresas, entre
patrões e empregados e entre fornecedores e consumidores, será necessário
estabelecer como norma o direito de representantes credenciados de
trabalhadores e consumidores examinarem a contabilidade de empresas.
As negociações para alinhar preços, salários e tributos deverão se
pautar pelo pleno reconhecimento dos direitos de:
• os consumidores serem protegidos contra produtos nocivos, inócuos e
de qualidade inferior à prometida pelos fornecedores, e de pagarem preços que
correspondam aos custos reais mais uma margem de lucro que possibilite os
investimentos necessários na expansão da produção e na melhoria dos
produtos;
• os trabalhadores receberem salários que lhes possibilitem manter seu
padrão de vida habitual, obterem a reposição de perdas salariais comprovadas e
aumento dos salários, à medida que o crescimento da produção e da
produtividade o permitirem sem necessidade de repasse aos preços dos
produtos;
• as empresas auferirem margens de lucro compatíveis com montante
de capital investido e que sirvam para realizar as inversões que também as
outras duas partes consideram necessárias; elas deverão ter o direito de
repassar aos preços aumentos de custos ‘externos’ aos fóruns por cadeia
304
produtiva, como o encarecimento de produtos importados.”

Um dado importante: o Partido continuou defendendo a existência do


mercado, no entanto, estruturado numa outra concepção que não a
predatória do capitalismo.

“Este novo tipo de condução do desenvolvimento não pressupõe a


eliminação dos mecanismos de mercado, através dos quais continuarão se
realizando todas as transações: compra e venda de mercadorias, admissão e
demissão de trabalhadores, aplicações financeiras e concessão de crédito.

O autoritarismo nas empresas e o autoritarismo na política econômica condicionam-se


mutuamente e estão na raiz do fracasso em estabilizar os valores nominais no Brasil e fazer a
economia retomar o desenvolvimento.
Trataremos de criar instituições que permitam a participação da sociedade civil na política
econômica, através das entidades de classe e dos consumidores, e que permitam que
trabalhadores e consumidores possam tomar parte em decisões empresariais estratégicas, em
nível geral e setorial, além de tomarem conhecimento do desempenho das empresas e de suas
margens de lucro. A democratização da vida econômica, além de ser um valor em si, criará
condições para superar a crise.” Ibidem.
304
Ibidem.
Mas a evolução futura do mercado será melhor conhecida, as políticas
públicas serão formuladas transparentemente e implementadas com a
participação de todos os interessados; assim, as decisões básicas da economia
serão mais congruentes e melhorará o seu desempenho.
Os proprietários ou seus representantes passarão a dividir
progressivamente o poder de decisão com consumidores e trabalhadores.”305

Desde a sua fundação, o PT sempre foi crítico da situação brasileira,


fruto de políticas das classes dominantes. Para solucionar a crise que
afetava a maioria da população, o Partido estabeleceu frentes para o “ataque
à pobreza”, que consistiam basicamente, por um lado, na criação de um
salário mínimo real e de toda uma estrutura para manter o poder deste
salário306 e, por outro, na criação de um “Fundo Nacional de Solidariedade”
mantido pela tributação das grandes fortunas307 . Além das duas “frentes de
ataque”, o Partido avançou naquilo que seria outra medida para uma melhor
distribuição de renda, o Programa de Renda Mínima.
Para terminarmos a análise deste documento, destacamos outra
questão de grande importância dentro das ações do Partido, assim como da
constituição do governo democrático e popular, a suspensão do programa de
privatizações e a revisão das privatizações já efetuadas.

305
Ibidem.
306
“Como vimos, o ataque à pobreza terá que ser feito em várias frentes, sendo uma delas a
distribuição de propriedade propriamente dita, especialmente no caso da terra. Outra é uma
política de rendas. Ela deverá ser gradual (para permitir a melhor articulação possível com as
outras políticas econômicas e com a esfera jurídico-institucional), ofensiva (para que os
trabalhadores e os até hoje excluídos tenham suas condições de vida efetivamente melhoradas) e
transparente (para que possam ocorrer alterações democraticamente definidas e todos os agentes
econômicos possam se preparar para seus efeitos). Entre seus mecanismos, encontra-se em
primeiro lugar a elevação gradual e permanente do salário mínimo real, tendo como meta dobrar
seu valor atual no menor prazo possível e, no período subseqüente, atingir o nível apontado pelo
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). Deve-se atentar
que a concretização desta política de aumento do poder aquisitivo do salário mínimo, exige a
implementação de um conjunto coordenado de medidas de política industrial, agrícola e de
desenvolvimento da infra-estrutura de serviços, de modo que a economia possa responder a esta
pretendida e desejada elevação do nível da demanda efetiva interna.” Ibidem.
307
“Para o financiamento destes programas, além da destinação de uma parcela de recursos
orçamentários, será constituído um Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), cuja principal fonte de
recursos seria formada por tributação especifica sobre grandes fortunas, a ser regulamentada pelo
Congresso Nacional, ou de tributação emergencial sobre o patrimônio das grandes empresas e
das pessoas físicas de elevado nível de riqueza, tal como foi feito na maioria dos países da Europa
no segundo após -guerra. Neste caso, ressalte-se que o patrimônio é, entre nós, ainda mais
concentrado que a renda, estando 53% da riqueza do Brasil (terras, imóveis rurais e urbanos,
ativos financeiros) em mãos de apenas 1% de sua população. O conjunto potencial de
contribuintes para esse fundo seria relativamente pequeno, não atingindo 150 mil famílias, ou
menos de 1% da PEA, detentores de patrimônio superior a US$ 1 milhão.” Ibidem.
“No âmbito do ‘ajuste’ neoliberal, o Programa Nacional de
Desestatização (PND) ocupa uma posição central, implicando a desorganização
das empresas estatais e a liquidação de patrimônio público a preço vil e em
condições suspeitas, com o favorecimento dos grandes grupos privados e de
forma dissociada de uma estratégia de política industrial.
(...)
O PND será interrompido e revisto. O governo promoverá uma ampla
avaliação das privatizações já realizadas, procurando: identificar irregularidades,
favorecimentos e dilapidação de recursos públicos; avaliar seus efeitos
econômicos e sociais, em especial a monopolização privada de setores
fundamentais da economia brasileira, suas conseqüências sobre o investimento,
308
o emprego, as relações entre trabalhadores e empresas e o nível tecnológico.”

308
Ibidem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como já sabemos, o PT não teve a chance de colocar em ação as


“reformas” que levariam a sociedade brasileira rumo ao socialismo. O
movimento operário — ou mesmo a maioria da população não organizada a
quem se dirigia grande parte das propostas do Partido — não forneceu o
número de votos necessários para a conquista da Presidência da República.
Estava aí, mais uma vez, semelhante à frustração de 1989, estabelecido um
choque nas estratégias do Partido e, a partir de então, iniciou-se mais um
processo de elaboração da estratégia socialista. Mas, isso é uma outra
história.
Como pudemos perceber, a proposta de um Socialismo Democrático
numa Sociedade de Massas, como a brasileira a partir da década de 70, não
colheu sucesso algum em qualquer ação prática que não estivesse vinculada
à via legal de atuação política. Tal via só poderia fornecer um impulso à
estratégia petista se fosse conquistado o Poder Executivo da sociedade e o
PT não obteve sucesso em nenhum dos pleitos para presidente da Repú blica
que disputou. Isso se deu porque não conseguiu “coesão” dos trabalhadores,
ou dos segmentos sociais que dizia representar e nem mesmo dos
movimentos sociais.
O Socialismo Democrático do Partido dos Trabalhadores durante
estes anos, de 1979 a 1994, sofreu avanços no que diz respeito às
estratégias do Partido. Ao mesmo tempo, desde a barreira representada pela
tênue diferenças dos votos de 1989 que o Partido não conseguiu transpor,
consolidou-se cada vez mais como uma utopia. Ou, como já dissemos, como
algo que parte do mundo vivido, ao mesmo tempo que o transcende e o nega
e — complemento — que precisa do mundo vivido para transformar-se de
utopia em realidade. E, nesse jogo de braço, a Sociedade de Massas
capitalista — não necessariamente a burguesia — saiu a grande vencedora
contra “seus” revolucionários.
DOCUMENTOS PESQUISADOS (EM ORDEM ALFABÉTICA)

1. 11 Teses sobre a Autonomia (1982)

2. A Consulta às Bases do PT (1985)

3. A Política de Formação – Informativo (1988)

4. Algumas Idéias para o Debate (1984)

5. As Bases do Plano Alternativo de Governo (1989)

6. As Eleições de 90 – Tática Eleitoral (1990)

7. Avaliação Inicial da Comissão Executiva Nacional e do Diretório Nacional


(1989)

8. Bases do Programa de Governo – Lula Presidente(1994)

9. Boletim Nacional (1984)

10. Cadernos do 1o. Congresso (1991)

11. Campanha Presidencial do PT – Lula Presidente (1988)

12. Carta de Princípios (1979)

13. Carta Eleitoral do Partido dos Trabalhadores (1982)

14. Circular CNEM/SORG no. 01/88 (1988)

15. Circular n o. 01/83 (1983)

16. Circular n o. 047/89 (1989)

17. Circular n o. 06/84 (1984)

18. Circular n o. 16/82 (1982)

19. Circular n o. 58/83 (1983)

20. Circular n o. 02/82 (1982)

21. Circular n o. 06/85 (1985)

22. Circular n o. 07/85 (1985)

23. Circular n o. 09/86 (1986)


24. Circular n o. 15/85 (1985)

25. Circular n o. 20/84 (1984)

26. Circular n o. 30/84 (1984)

27. Circular SGN n o. 11/88 (1988)

28. Companheiros do PT (1983)

29. Diretrizes para a Elaboração do Programa de Governo (1988)

30. Discurso na Primeira Convenção Nacional (1981)

31. Documento Eleitoral Básico (1986)

32. Documento Eleitoral Básico de 88 (1988)

33. Documento Sobre o Partido dos Trabalhadores (1979)

34. Encontro Nacional Extraordinário (1985)

35. Entrevista de Lula ao Boletim Nacional do PT (1990)

36. Estatuto do Partido dos Trabalhadores (1980)

37. Jornal do Congresso n o. 5 (1991)

38. Manifesto aos Petistas (1991)

39. Manifesto do Partido dos Trabalhadores (1980)

40. Movimento PT no. 1 (1987)

41. Normas para a Obtenção do Registro Eleitoral Definitivo (1980)

42. Nota à Imprensa (1985)

43. Nota da Executiva Nacional do PT (1984)

44. Nota do Diretório Regional (1985)

45. O Modo Petista de Governar – Secretaria Nacional de Assuntos


Institucionais (1991)

46. Os Treze Pontos da Frente Brasil Popular (1989)

47. Partido dos Trabalhadores (1983)


48. Pelo Brasil que a Gente Quer – Informativo (1989)

49. Plano de Ação (1983)

50. Plano de Ação do Diretório Nacional (1988)

51. Plano de Ação do Diretório Nacional para 1989 (1989)

52. Plano de Ação Política e Organizativa para o período 86/87/88 (1986)

53. Plano Nacional de Organização (1985)

54. Plataforma Eleitoral Nacional (1982)

55. Plataforma Estadual (1982)

56. Plataforma Política (1979)

57. Poder Popular: A Proposta do PT (1982)

58. Projeto de Formação Política (1990)

59. Proposta de Emenda ao Regimento Interno sobre Núcleos e Convenções


(1988)

60. Proposta de Modificação do Regimento Interno(1988)

61. Proposta de Resolução da Executiva Nacional ao Diretório


Nacional(1985)

62. Propostas de Assessoria (1988)

63. PT – 83 (1983)

64. Regimento Interno (1984)

65. Regimento Interno dos Núcleos de Militantes (1980)

66. Relatório e Proposta de Trabalho (1985)

67. Relatório e Propostas sobre a Conjuntura (1987)

68. Resolução da Executiva Nacional Sobre as Prefeituras Petistas (1988)

69. Resolução Diretório Nacional sobre Programa, Coligação e Vice (1989)

70. Resolução Política (1984)


71. Resoluções Políticas do 1o. Congresso (1991)

72. Resoluções Políticas do 1o. Encontro Nacional (1981)

73. Resoluções Políticas do 2o. Encontro Nacional (1982)

74. Resoluções Políticas do 3o. Encontro Nacional (1984)

75. Resoluções Políticas do 4o. Encontro Nacional (1986)

76. Resoluções Políticas do 5o. Encontro Nacional (1987)

77. Resoluções Políticas do 6o. Encontro Nacional (1989)

78. Resoluções Políticas do 7o. Encontro Nacional (1990)

79. Resoluções Políticas do 8o. Encontro Nacional (1993)

80. Resoluções Políticas do 9o. Encontro (1994)

81. Resoluções Políticas do 10o. Encontro Nacional (1995)

82. Resoluções sobre Núcleos de Base (1981)

83. Segundo Plano de Organização e Trabalho – Comissão Executiva


Nacional (1988)

84. Síntese das Resoluções Apresentadas ou Votadas (1982)

85. Subsídios para Discussão (1988)

86. Texto e Roteiro para Discussão, Síntese do Projeto de Programa


Econômico (1983)

87. Uma Contribuição para o Debate (1986)


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1998, 192 páginas. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade
de História, Direito e Serviço Social, Câmpus de Franca, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.

RESUMO

A Presente dissertação representa o estudo da proposta do Partido


dos Trabalhadores, que tinha como grande objetivo concretizar sua utopia de
construir uma sociedade socialista no Brasil.
Num primeiro momento analisa-se a peculiaridade da inserção da
esquerda nacional em uma sociedade diferente das que experimentaram
processos revolucionários de cunho socialista.
Posteriormente, aponta-se a singularidade da proposta socialista do
PT que via na formação de uma nova democracia, sustentada por uma
possível ação dos movimentos sociais, com a formação de uma coesão dos
trabalhadores, a sua principal via para o socialismo no Brasil.
No decorrer do trabalho, foi feita a análise da história deste socialismo
democrático, dos avanços da estratégia petista, das possíveis ações práticas
para se colocar em ação o processo de ruptura revolucionária com a
sociedade capitalista existente no Brasil, e os fracassos em se implantar
essa ruptura.

Palavras-chave: História; Partido dos Trabalhadores; Socialismo


Democrático; Movimentos sociais; Núcleos de Base.
Autorizo a reprodução deste trabalho.

Franca, novembro de 1998.

MARCO ANTONIO BRANDÃO

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