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“BRINCANDO ÀS ESCOLINHAS”

Trabalho realizado por:

António Carlos Fernandes Carneiro

Lordelo – Dezembro de 2006


Psicodrama_____________________________________________________________

ÍNDICE

Índice……………………………………………………………………………. 2
Introdução…………………………………………………………………………. 3
Os Princípios básicos do Psicodrama Centrado na Pessoa……………………... 4
Aplicação prática dos pressupostos teóricos do Psicodrama……………………. 7
Análise compreensiva…. ……………...………………………………...…….... 13
Conclusão………………………………………………………………………... 15
Bibliografia……………………………………………………………………… 17

2
Psicodrama_____________________________________________________________

INTRODUÇÃO

“BRINCANDO ÀS ESCOLINHAS”
Abstract
With this experience, I intend to put into practice theoretical constructs of a Psychodrama, on the
perspective of Personal-Centred Approach, used for a group of children about 8 and 12 years.
Thus I intend to register significant changes occured in children behaviour and the way they practice.

Resumo
Com esta experiência, pretendo colocar em prática os constructos teóricos, de um Psicodrama, na
perspectiva da Abordagem Centrada na Pessoa, aplicados a um grupo de crianças com idades
compreendidas entre 8 e 12 anos.
Pretendo assim, registar as alterações significativas ocorridas no comportamento das crianças e o modo
como as vivenciam.

“Se a brincadeira para a criança é o seu modo natural de expressão, porque tentamos

nós modelá-las com esquemas rígidos de respostas estereotipadas?”


Virgínia M. Axline
Fará sentido, investirmos na utilização e na prática de métodos rígidos,
inadequados, repescados de modelos aplicados em adultos?
Sabemos hoje, como afirma Axline, que a brincadeira é o modo natural da criança
vivenciar e reflectir o seu mundo interno. Portanto devemos direccionar o nosso
trabalho e a nossa pesquisa para modelos que primem pelo recurso a este tipo de
metodologias, ou seja, que dêem ênfase à brincadeira, ao jogo e à representação.
Deste modo parece-me pertinente e de certa forma audaz, utilizar a representação, como
modo de provocar um eclodir de um sem número de sentimentos e emoções que até
então se encontravam recluídos no mundo interno da criança e a que só ela tinha acesso.
Possibilita-se desta forma à criança a tomada de consciência deste seu mundo interior,
através da visualização e discussão das representações desenvolvidas durante a fase de
dramatização do psicodrama.
A escolha da técnica psicodramática, é por mim justificada pelo facto de ter um grupo
de crianças disponíveis e com vontade de enfrentarem novas aventuras. A opção de
trabalhar com crianças, surge pelo facto de no meu entender, não se encontrar
facilmente disponível material documentado que estude a criança sob a perspectiva da
abordagem centrada na pessoa.
Pretendo assim com este trabalho, observar como as crianças de uma forma
descomprometida e livre, lidam umas com as outras representando o seu mundo interno.

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OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO PSICODRAMA CENTRADO NA PESSOA

Logo após a criação por Moreno (1932) do Psicodrama, muitas diferentes formas da sua
aplicação se foram desenvolvendo. Este trabalho utiliza uma dessas formas, o
Psicodrama na perspectiva da abordagem centrada na pessoa. A Terapia Centrada no
Cliente pressupõe uma abordagem de ajuda às pessoas e a grupos em conflito, através
de um processo auto-dirigido de desenvolvimento pessoal, que é possível na sequência
da criação de uma relação particular, caracterizada por autenticidade 1, cuidado, e
empatia 2. Em consequência, quer as pessoas quer os grupos são capazes, quando postos
em condições de facilitação, de desenvolver os processos ajustados a eles próprios e de
resolverem os conflitos dentro do próprio grupo (Raskins, 1989).
O Psicodrama é antes de mais uma forma particular da Psicoterapia de Grupo,
partilhando nesta medida das características genéricas da Terapia de grupo. A dinâmica
da psicoterapia assenta principalmente no encontro. O método de base, em todos os
métodos derivados é o método da interacção terapêutica. A sua característica é a ajuda
recíproca que os participantes vivenciam. A sua finalidade é a facilitação das
potencialidades individuais e das potencialidades do grupo.
Historicamente o Psicodrama desenvolveu-se a partir do «jogo» e em torno de uma
dramatização em que, à semelhança do teatro, se representam cenas, que são o elemento
criador do espaço e da liberdade para espontaneidade, para a acção e para a interacção.
Assenta em três particularidades que o distinguem de outras formas de estar em grupo:
1. O envolvimento numa situação psicodramática;
2. O facto de se tratar de um «jogo»;
3. O facto do corpo ser posto em movimento e constituir uma forma especifica de
linguagem não dialógica.
A situação psicodramática é o elemento primordial do Psicodrama. De facto o
Psicodrama «actua» através da sua parte representada. Esta, por breve e imperfeita que

1
A autenticidade reside para Rogers na capacidade de os homens se aproximarem uns dos outros através
de uma comunicação que privilegia aquilo que é próprio de cada um, que faz parte da sua experiência
pessoal (Nogueira Dias, 2004).
2
A empatia surge quando o terapeuta é sensível aos sentimentos e às reacções pessoais que o paciente
experimenta a cada momento, quando pode apreendê-los «de dentro» tal como o paciente os vê, e quando
consegue comunicar com êxito alguma coisa dessa compreensão ao paciente (Rogers, 1960).

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seja, é sempre eficaz. Todos a sentem. Acontece uma forma de ver e uma maneira de
escutar diferentes. A pessoa não só é escutada como também se escuta a si mesma, no
seu próprio discurso, que o grupo lhe reflecte como discurso de um outro.
Quanto ao jogo psicodramático, é uma situação que se aproxima muito do «jogo» da
criança, e que se desenvolve à volta de um tema que é proposto ao grupo e assumido por
este. É um jogo sério, mas também como o das crianças, é uma fantasia. Isto é, é um
momento e um lugar de ressurgimento possível ou de aproximação nova da realidade ou
das potencialidades da pessoa que à partida é possibilitada pela segurança de tudo ser
«como se fosse», mas não ser na realidade.
A terceira e última particularidade do Psicodrama é pôr em movimento o corpo, que tem
a sua própria linguagem. Experimenta-se a vivência do espaço onde se tecem as
relações entre os corpos, permitindo a expressão corporal, as atitudes, as mímicas, que
são uma forma de expressão dos sentimentos e dos afectos e que poderá estar em
harmonia ou em desacordo com a expressão verbal. O psicodrama conduz-nos ao limite
entre a palavra e o corpo, onde nasce a emoção.

O DESENVOLVIMENTO DA SESSÃO
A forma de desenvolvimento de cada sessão, realizada neste trabalho, obedece a um
esquema elaborado por João Hipólito (Hipólito, 1988) que se divide em quatro tempos:
1º Tempo – tempo de elaboração e concretização da cena a representar;
2º Tempo – tempo de representação;
3º Tempo – tempo de explicação do vivido;
4º Tempo – tempo de visionamento da gravação vídeo da representação.
O 1º Tempo (elaboração e concretização da cena) surge inicialmente, e está
relacionado com a capacidade que cada um tem de pensar em cenas para dramatizar. De
facto a abertura de uma sessão é sempre com uma interrogativa proposta pelo
facilitador 3: «Se alguém tiver uma proposta para representação? 4». Esta interrogação,

3
É o elemento que orienta e dirige o Psicodrama. Neste processo, o Facilitador, partindo de uma atitude
de aceitação confirmativa incondicional de cada pessoa e do movimento do grupo e de uma atitude de
compreensão empática, está em cada momento disponível para uma escuta compreensiva de cada um dos
participantes bem como para uma escuta do discurso do próprio grupo, movendo-se em permanência
numa dialética individual /grupal.
Como elemento charneira da fronteira realidade – representação, o facilitador está em permanência numa
dialética real/imaginário, repondo no aqui e agora do grupo, o vivido da representação. (Marques-
Teixeira, 1989)
4
Depois de ter lido o artigo do Professor Marques-Teixeira, achei que deveria adaptar ao modelo
estrutural das sessões de Hipólito, a interrogação que dá inicio à sessão psicodramática. De “Alguém tem

5
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que fica no ar, é o fermento inicial dessa capacidade de «pensar em cenas». Assim cada
participante é livre de propor uma cena para ser representada, cuja escolha é rectificada
por consenso após elaboração.
O momento da concretização da proposta é mais heterogéneo havendo uma maior
participação do grupo na ajuda à concretização da cena proposta. Assim é necessário
criarem-se personagens, definir um enquadramento e uma interacção.
O 2º Tempo (representação) é o tempo central e identifica o Psicodrama e as técnicas
dramáticas em geral. Caracteriza-se pela acção dramática, em que os actores
(participantes que incarnam personagens) interactuam entre si no enquadramento
definido e aceite pelo grupo. Ao grupo, é possível observar o desenrolar da
dramatização e posteriormente pronunciar-se sobre a forma como a viveram.
O 3º Tempo (explicitação do vivido), em que há a participação de todo o grupo,
constitui a ponte, facilitada pelo imaginário, para as vivências mais profundas da
pessoa. Cada actor e os participantes podem agora exprimir a sua vivência ou a sua
elaboração, privilegiando-se num primeiro momento os actores e num segundo, todo o
grupo.
O 4º e último Tempo (visionamento do vídeo), constitui um aspecto importante desta
metodologia, em que a introdução da técnica de vídeo possibilita aos participantes que
representaram, um distanciamento em relação à própria experiência vivida no momento
da dramatização, vendo-se a eles próprios através dos seus olhos. É mais uma
possibilidade de tomada de consciência das discrepâncias entre o que foi proposto e o
que foi dramatizado, e constitui uma possibilidade de repor ao grupo o sentido da acção,
no contexto global da acção.

alguma cena a propor para se dramatizar?”, para “Se alguém tiver uma proposta para representação?”.
Por achar ser uma interrogação de compreensão mais simples, apelativa e eficaz.

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APLICAÇÃO PRÁTICA DOS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DO PSICODRAMA

RESUMO DAS SESSÕES 5

PRIMEIRA SESSÃO – “APRESENTAÇÃO/INTRODUÇÃO”


Na primeira sessão foram abordados os princípios básicos que regem o funcionamento
de um psicodrama, fundamentado na abordagem centrada na pessoa. Foi também,
formado o grupo e agendados os dias das sessões. O grupo de trabalho é formado por
crianças (6 a 9 participantes), de ambos os sexos e com idades compreendidas entre 8 e
12 anos. Todas as crianças participantes no Psicodrama, frequentam a valência de
A.T.L. 6 num Centro de intervenção comunitária em Lordelo – Paredes.

SEGUNDA SESSÃO – “O CENTRO” (Protagonista – Paulo)


Foi escolhida uma situação de conflito entre duas crianças do Centro. O protagonista
escolhe o papel de presidente da instituição, outra criança será o psicólogo, três serão as
animadoras do centro e as outras duas alunas. Desde logo, é realçado o papel assumido
pelo protagonista que é o de presidente – (de líder).
Os papéis desempenhados por cada uma das crianças podem revelar o desejo de ter um
papel ou função semelhante no seu grupo de pares. Desta forma, através da
representação pode haver um fenómeno de compensação das frustrações dentro do seu
grupo ou perante as figuras de autoridade. Por outro lado, pode também simbolizar a
valorização de alguém, por parte da criança, que assim a representa, idealiza e a sente
como uma figura de identificação.
Através da dramatização, torna-se mais explicito a forma como as crianças, com quem
trabalhamos nos vêm a nós adultos. Funciona como um retrato fiel de quem somos, aos
seus próprios olhos.
Convém registar que nesta segunda sessão, alguns elementos do grupo apresentaram
dificuldades em representar correctamente o papel das personagens, e isso foi mais

5
Na maioria das sessões foram efectuadas gravações vídeo, exceptuando na primeira e na última.
6
Actividades de ocupação dos Tempos Livres.

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visível nos elementos que representaram papeis menos dominantes. Estes adoptaram
posturas mais passivas e obedientes.
Após o visionamento das imagens da dramatização, alguns elementos apresentaram
níveis elevados de excitação, pelo que se tornou difícil na terceira sessão conter a sua
euforia, e tomar o controlo da mesma.

TERCEIRA SESSÃO – “A ESCOLINHA DE TEATRO” (Protagonista – Ana Isabel)


A protagonista assumiu um papel de professora Cláudia, 7 auxiliada por três animadoras,
que a irão ajudar na realização de uma peça de teatro com as crianças. Facilmente
apercebe-se da dificuldade em liderar e controlar os elementos do grupo na realização
desta tarefa. Os papéis a desempenhar pelos elementos do grupo parecem mais difusos,
principalmente aqueles representados pelos elementos com menos afirmação dentro do
mesmo. Este fenómeno poderá estar relacionado, primeiro com a entrada de elementos
novos no grupo; segundo, pela maior dificuldade por parte da protagonista em assumir a
sua liderança, e apresentar-se aos olhos dos elementos do grupo como uma figura de
autoridade suficientemente forte.

QUARTA SESSÃO – “A ESCOLINHA DO CENTRO” (Protagonista – Tânia)


Nesta sessão verificou-se uma maior capacidade de afirmação da protagonista. Talvez
devido à maior familiaridade dos elementos com este tipo de técnica (Psicodrama), e na
assumpção e consequente representação dos respectivos papeis. Novamente surge uma
situação de pedagogia/aprendizagem, onde a protagonista assume o papel de professora
que tem de ensinar aos alunos uma música para apresentarem na festa de Natal.
A protagonista conseguiu assimilar correctamente as características da sua personagem,
como tal tornou-se mais fácil para os elementos que tinham o papel de alunos de
assimilar estas representações, devido a existir uma liderança forte e incontestável.
Isto talvez explique o porquê de nas duas sessões anteriores, este mesmo elemento do
grupo, representar a figura responsável pelos alunos, sendo esse papel escolhido por um
colega seu, na altura protagonista da sessão.

7
A directora do Centro chama-se Cláudia.

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QUINTA SESSÃO – “A FLORIBELA” (Protagonista – Daniela)


A protagonista manifestou inicialmente uma excitação excessiva, tendo dificuldade em
representar a sua personagem. Lentamente foi estabilizando e representou correctamente
o seu papel, embora auxiliada por um outro elemento do grupo que a orientava no
desenrolar das cenas.
O facto da cena representada ser de uma série bastante conhecida por todos os
elementos do grupo, facilitou à protagonista a sua realização, já que todos estavam
conscientes do papel a assumir.
De outro modo, a realização desta dramatização serviu como um escape para alguns
elementos exercerem uma “vingança” contra algumas personagens da série televisiva.
Aquando da sua dramatização, demonstraram comportamentos hostis e posturas
violentas para com as personagens inimigas da verdadeira Floribela.

SEXTA SESSÃO – “OS MORANGOS COM AÇÚCAR” (Protagonista – Tatiana)


Durante esta sessão tornou-se evidente que quando o tema é novelas, as meninas
encarnam mais facilmente o papel que têm que representar. Talvez porque estão mais
familiarizadas com a situação.
Por outro lado, os rapazes mostraram-se mais ausentes, acabando por integrarem-se na
dramatização, mais por iniciativa das raparigas do que por sua própria vontade. A
dramatização mostrou um misto de representação de personagens televisivas e de
situações experienciadas no quotidiano.
É importante referir, que nesta sessão e cada vez mais se nota o à vontade com que as
crianças lidam com a presença da câmara de filmar. Tem-se vindo a verificar também,
que o tempo de dramatização vem aumentando, o que nos leva a pensar se este tipo de
trabalho terapêutico estará a funcionar como um escape de tensões acumuladas do dia-a-
dia. Fazendo deste modo, com que as crianças invistam mais, porque também assim se
sentem melhor.

SÉTIMA SESSÃO – “OS ESCRITÓRIOS” (Protagonista – Sandro)


Esta sessão revelou-se uma anarquia total. Logo durante a fase de levantamento de
propostas, um dos elementos do grupo acabou por ser expulso pelo grupo. Esta situação
deveu-se ao facto deste elemento não aceitar e confrontar constantemente todo o tipo de

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propostas levantadas. Não passou em claro o facto de ter sido este elemento o
protagonista da sessão anterior. Este comportamento e postura incorrecta da sua parte
levaram a que todo o grupo exercesse sobre si uma posição de contestação, acabando
por não aguentar a situação e saindo do grupo. Assim o grupo aprendeu, que uma vez
aceite uma proposta, todos os elementos devem fazer um esforço em acatá-la, e apoiar o
protagonista na realização da mesma da melhor maneira.
Foi também possível observar, a partir das representações efectuadas, uma boa
capacidade de apreensão do mundo dos adultos por parte das crianças, através dos
conteúdos das conversas mantidas entre as personagens e pelas próprias representações
em si.
Relativamente ao protagonista, regista-se que ao contrário dos anteriores, revelou
sempre um distanciamento e pouca capacidade de controlo ou liderança, acabando todos
por ter uma actuação mais individual, dispersa e até mesmo ausente. Foi possível
portanto, observar fenómenos de grupo, de liderança mais propriamente, e a influência
do comportamento do protagonista sobre o desempenho dos restantes elementos do
grupo.

OITAVA SESSÃO – “A ESCOLINHA DO CENTRO” (Protagonista – Amaro)


O que mais ressalta nesta sessão é a proposta que de novo recai sobre o Centro. A
mesma foi aceite unanimemente pelo grupo.
A dramatização propriamente dita, decorreu dentro dos parâmetros habituais, não
havendo tanta expressividade por parte dos elementos presentes, que acabaram por
incarnar nas personagens por si representadas. É engraçado, pois com este tema volta a
surgir uma atmosfera formal e uma maneira de actuação pormenorizada dos
comportamentos praticados pelas personagens. Esta situação poderá dever-se ao facto
de terem-se aproximado mais à realidade das figuras representadas, porque as conhecem
melhor, não havendo tanta liberdade de representação de emoções e sentimentos, como
verificado nas sessões em que os temas foram a “Floribela e os Morangos com
açúcar”, onde aqui deram mais asas à sua imaginação.

NONA SESSÃO – “AS CABELEIREIRAS” (Protagonista – Mariana)


Os elementos do grupo revelam cada vez mais à vontade com a situação de psicodrama,
aceitando bem as orientações e enredo criado. Percebe-se que as crianças tentam fazer
uma colagem ao comportamento dos adultos quando estes se encontram no cabeleireiro.

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O mesmo se nota com as “profissionais”, que apresentam atitudes e comportamentos


próprios da área profissional retratada, que agiram com naturalidade, ao contrário do
que se verificou na sessão anterior, em que se retratou um ambiente mais formal. As
crianças souberam adaptar-se e moldar a sua conduta aos diferentes ambientes e
contextos trabalhados.

DÉCIMA SESSÃO – “ÓCULOS PARTIDOS” (Protagonista – Ana Isabel)


Antes do início da sessão, uma das participantes segurava nos óculos de um amigo e
entretanto os óculos apareceram partidos. Esta situação provocou alguma tensão no
grupo, daí estar justificado de alguma forma a escolha da situação representada.
Um facto a salientar é que as protagonistas da situação não representaram ninguém, mas
elas próprias. Tal pode dever-se ao facto de pretenderem resolver a situação conflituosa
em que estavam referenciadas, “expulsando” assim, algum sentimento de culpa que
poderiam sentir, após a situação real relacionada com os óculos partidos.
No final, foi possível ver um grupo desanuviado, mais alegre, livre das tensões
acumuladas. O grupo aceitou representar a situação real talvez por considerar
importante poder libertar-se e resolver as tensões através do psicodrama.

DÉCIMA PRIMEIRA SESSÃO – “O SHREK” (Protagonista – Daniela)


Antes de mais, convém realçar o facto das crianças trazerem para o espaço
psicodramático 8 um tema infantil. Este conto fantástico permitiu-lhes extravasar todas
as suas emoções dando asas à sua imaginação. Não houveram grandes diálogos, sendo
mais relevante a expressividade dos comportamentos e a postura que as crianças
adoptaram. Talvez porque se sentissem mais confortáveis neste registo, e conseguissem
assim, “comunicar” com mais eficácia.
No entanto não pode passar em claro, o facto de esta sessão preceder a uma outra em
que foi trabalhado uma situação real, que envolvia directamente elementos do grupo e
onde foram vividos sentimentos de angústia, culpa e revolta. Esta sessão veio assim,
permitir a libertação dos mesmos e fortalecer ainda mais os laços de amizade entre os
elementos do grupo.

8
Este recinto poderá proporcionar a cada criança uma zona segura, onde ela poderá extravasar os seus
sentimentos sem receios e, assim, aceitando-os e entendendo-os, desabrochar a original unicidade do seu
ser (Axline, 1964).

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Devo por fim realçar, que nestas últimas sessões persistiu sempre uma atmosfera de
confiança e de alegria entre todos os elementos do grupo, e entre estes e o
Psicólogo/Facilitador. Foi extremamente gratificante ver nesta parte final do trabalho, a
união e a coesão que todos manifestaram entre si.

DÉCIMA SEGUNDA SESSÃO – CONCLUSÃO DO PSICODRAMA


Tal como na primeira sessão, a última apresentou um formato diferente do habitual.
Nesta sessão não houve dramatização. Houve sim, um breve encontro onde todos os
participantes tiveram a oportunidade de tecer a sua opinião sobre a experiência passada.
Com recurso a uma linguagem o mais acessível possível, foi também explicado às
crianças os objectivos que orientaram esta experiência, e feito um breve apanhado dos
acontecimentos significativos ocorridos durante a realização da mesma.
De um modo geral as crianças afirmaram que acharam a experiência muito positiva e
agradável. Disponibilizando-se desde logo, a participarem em futuras sessões, caso estas
se venham a realizar.
Este encontro, também foi aproveitado para dar por encerrada a experiência efectuada, e
agradecendo a disponibilidade e o empenho demonstrado por todos os elementos do
grupo que nela participaram.

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ANÁLISE COMPREENSIVA

Sendo certo que o homem nasce, cresce e morre, fazendo a sua caminhada a par e passo
com os outros, os grupos constituem para ele lugares de aprendizagens e referências de
inspiração, tanto para os papeis que têm de desempenhar, como para as formas de
pensar, sentir e agir.
Mas as relações grupais são alternadas entre o equilíbrio e o desequilíbrio, quer no que
se refere aos processos cognitivos, quer aos afectivos e emocionais.
É próprio dos grupos a competição, a imposição do poder, os conflitos, a ordem e a
desordem. Tratando-se de grupos familiares, de companheiros ou organizacionais, estes
processos estão sempre neles presentes.
Baseando-nos na Abordagem Centrada na Pessoa, proposta por Carl Rogers, bem como
nos instrumentos conceptuais das ciências sociais e humanas, podemos equacionar um
quadro de condições que, postas em acção, podem facilitar as relações grupais e o
desenvolvimento humano (Nogueira Dias, 2004).
É com este pensamento, que partilho na integra, que início esta análise. De facto não
posso esquecer que por detrás da técnica psicodramática, existe um grupo de crianças
que partilha diariamente os mesmos espaços.
Com a criação do grupo do Psicodrama, surgiu a oportunidade de trabalhar estas
crianças, de uma forma bastante diferente da habitual. Este factor funcionou, por si só,
como alavanca fornecendo-lhes interesse e motivação suficiente para ultrapassar as
exigências iniciais do método.
Por várias razões optei por formar um grupo aberto. Desde logo, porque se assim não
fosse, teria que mexer na orgânica de funcionamento da instituição, e isso, era de todo
desaconselhado. Por outro lado, previa que alguns elementos, fruto da imaturidade de
pensamento, da pressão e da excitação inicial, não conseguissem acompanhar a
experiência do princípio ao fim. Por último, imperialmente achava que necessitava de
mais tempo, espaço e crianças disponíveis, para que a experiência realizada fosse
constituída por um agrupo fechado.
Embora reconheça que alguns acontecimentos se propiciaram pelo facto do grupo ser
aberto, de outro modo, o facto das crianças se conhecerem e frequentarem os mesmos

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espaços, convenceram-me a achar que os benefícios recolhidos seriam superiores aos


prejuízos alcançados.
Em todas as sessões, todas as propostas foram indicadas única e exclusivamente pelos
participantes do Psicodrama. Sendo que, a aprovação das mesmas, realizou-se pela via
da votação, vencendo a maioria.
À medida que as sessões se tornavam mais habituais, o seu tempo de dramatização
também aumentava. Ao ponto de nas sessões iniciais a mesmas durarem em média 5
minutos, para depois passarem a durar uma média de 8 minutos. Com o desenrolar das
primeiras sessões, fui-me apercebendo da ocorrência, sempre habitual, de fenómenos de
liderança e controlo da sessão, e consequentemente do grupo. Inicialmente esta
liderança era imposta pelos protagonistas das sessões. O que de certa forma era bem
aceite, pois cabia-lhes a responsabilidade de dirigir o rumo da dramatização.
Lentamente, os verdadeiros líderes do grupo foram-se manifestando, primeiro através de
movimentos de contestação ao protagonista (ex. boicotar o seu papel na dramatização,
ou ainda, dificultar o papel do protagonista no decorrer da mesma). Depois fazendo
impor a sua influência na escolha das propostas a representar.
Esta informação recolhida através do Psicodrama, foi-me bastante útil. Pois só assim,
fiquei a conhecer algumas formas particulares do comportamento, adoptado no seio dos
pares, que alguns elementos do grupo apresentaram e que eram mais difíceis de serem
observados em contexto de consulta individual.
Com o avançar da experiência, esta e os elementos que a compunham, tornaram-se mais
autênticos quer na escolha, quer na própria dramatização das situações representadas.
Parece até, que as dramatizações vinham mais ao encontro daquilo que preenchia o
imaginário e o mundo inconsciente das crianças, no momento. Com o tempo, o espaço
psicodramático revelou-se para as crianças, num lugar seguro, confortável e até mesmo
mágico. Propicio a exporem as suas angústias, medos e tensões sem qualquer tipo de
contestação, e receberem em troca um ambiente de confiança e alegria mútua.
As crianças aprenderam assim, uma nova forma de brincar, a sério, que os poderá
ajudar a ultrapassar os seus problemas, os fazer crescer e principalmente porque esta
nova forma de brincar é uma prática acessível, basta para tal que as suas vontades assim
a permitam realizar.

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CONCLUSÃO

Gostaria de dar início à conclusão deste trabalho referindo-me, antes de mais, às


dificuldades sentidas durante a realização do mesmo. Devo dizer, que logo no princípio
deste trabalho senti grandes dificuldades. Dificuldade sobretudo em conseguir controlar
a excitação inicial das crianças, e em exercer a função de Psicólogo/Facilitador do
grupo.
Durante as primeiras sessões foram expulsas duas crianças, por terem-se comportado
incorrectamente e desrespeitado as regras estabelecidas e aceites aquando da formação
do grupo. Para mim todos estes acontecimentos eram compreensíveis, pois era a
primeira vez que estas crianças se viam perante uma experiência assim, e eram também,
a minha iniciação como “Pseudo-Facilitador” de um grupo de Psicodrama.
Admito que inicialmente me senti perdido, algo confuso e até ansioso. Claro está, que
esta minha imagem ajudou a aumentar a excitação e a desordem por parte das crianças.
Também elas não estavam habituadas a ver-me assim tão confuso e indeciso. Confesso
que aí, por mais do que uma vez, passou-me pela cabeça cancelar a experiência. Mas
com o decorrer das sessões, todos fomo-nos conhecendo e adaptando melhor, a esta
nova forma de trabalho terapêutico.
As crianças mostravam-se cada vez mais confiantes e à vontade com a câmara,
representando as situações como se esta não existisse. Passaram também, a aceitar o
espaço psicodramático como um local seguro, destinado a receber sentimentos e
emoções que se encontravam reprimidas pelo peso da educação. Elas tiveram assim, a
oportunidade de criar e representar os seus desejos, as suas fantasias, as suas
personagens, enfim, de brincar um pouco com o seu mundo imaginário.
No fundo, admito que não tenha sido um bom exemplo de Facilitador. No entanto, achei
que deveria respeitar os ritmos das crianças e do grupo, não as pressionando.
Aceito que me critiquem pelo facto de ter dado mais atenção ao grupo do que ao
individual. Mas, penso que mesmo assim consegui alcançar bons resultados, e acima de
tudo colocar à disposição das crianças uma nova forma de “brincar a sério”.

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Esta experiência permitiu-me observar o modo como as crianças vêem e sentem o


mundo dos adultos. E a elas, mostrar-lhes através dos seus próprios olhos, a forma como
elas vivem, lidam e sentem os adultos e as demais crianças.
Aprendi muito com esta experiência e ainda penso, que ensinei alguma coisa! Passei por
algumas dificuldades iniciais, mas jamais irei esquecer os momentos de alegria que vivi
na companhia deste grupo de crianças.
Termino agora esta minha reflexão, com as palavras daquela que para mim serviu de
inspiração e apoio.

Talvez haja mais compreensão e beleza na vida quando os raios ofuscantes do sol
forem suavizados pelos contornos da sombra. Talvez haja raízes mais profundas numa
amizade que sofreu tempestades e as venceu. A experiência que nunca desaponta ou
entristece, que nunca toca nos sentimentos, é uma vivência neutra com pequenos
desafios e variações de cor. Quando sentimos confiança, fé e esperança de que
podemos concretizar os nossos objectivos, isto constrói dentro de nós um manancial de
força, coragem e segurança.
Somos personalidades que crescemos e nos desenvolvemos como o resultado de todas
as nossas experiências, relacionamentos, pensamentos e emoções. Somos uma
totalidade que, fazendo-se, faz a própria vida.
Virgínia M. Axline

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BIBLIOGRAFIA

- Axline, V. (2005). Dibs: em busca de si mesmo. Rio de Janeiro: Agir Editora,


23ª edição.

- Dias, F. N. (2004). Relações Grupais e Desenvolvimento Humano. Lisboa,


Instituto Piaget.

- Rogers, C. (1985). Tornar-se pessoa. Lisboa, Moraes Editores, 7ª edição.

Artigos:

• Marques-Teixeira, J. (1989). O psicodrama na perspectiva da


abordagem centrada na pessoa. O Médico – semanário de assuntos
médicos e paramédicos, Porto;
• Marques-Teixeira, J. (2000). Se alguém tiver uma proposta para
representação…. Artigos, volume nº3, Porto.

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