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EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) DOUTOR (A) JUIZ (A) FEDERAL DA XXX

VARA FEDERAL xxx.

JOSÉ DA SILVA, desempregado, 45 anos, portador do Registro Geral sob o n°


x.xxx.xxx-x SSP-PR e titular do CPF sob o nº. xxxxxxxx, endereço eletrônico não
informado, residente e domiciliado na rua xxx, nº. xxx, Cep: xxx, no Município de
Francisco Beltrão, vem, perante Vossa Excelência, por intermédio da DEFENSORIA
PÚBLICA DO ESTADO DO PARANÁ, dispensada de apresentar procuração nos
termos do artigo 287, parágrafo único, II do Código de Processo Civil, observada a
fluência dos prazos em dobro e intimação pessoal, a teor do artigo 186 do Código de
Processo Civil, propor:

AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER PARA RESERVA DE APARELHO DE


HEMODIÁLISE C/C TUTELA DE URGÊNCIA
Em face de:
1. União Federal – Ministério da Saúde;
2. Estado do Paraná – Secretaria de Estado de Saúde;
3. Município de Francisco Beltrão – Secretaria Municipal de Saúde.

I. DA SÍNTESE FÁTICA

A presente ação busca a proteção jurisdicional para fins de impor obrigação de


fazer em face dos demandados a fim de assegurar o necessário atendimento à saúde
do requerente José da Silva, o qual necessita COM URGÊNCIA, da reserva de um
aparelho de hemodiálise no hospital público do município de Francisco Beltrão/PR, a
ser usado três vezes por semana. O município afirma ter somente dez aparelhos, os
quais estão sobrecarregados e devem ser limitados aos pacientes “com chances de
cura” ou que estejam na fila de espera ou na fila de transplantes A Secretaria de
Saúde do Município que organiza a fila de espera para hemodiálise, informa que já
há quinze pessoas aguardando tratamento.
Ocorre que o requerente não pode ser transplantado e nem ficar em fila de
espera, sob o risco de morrer. O requerente tem 45 anos, já sofreu um AVC,
comprovou-se ser portador de doença renal degenerativa e progressiva, já em estágio
final e incurável. Sem hemodiálise três vezes por semana sua expectativa de vida é
de apenas um ano, com a hemodiálise e tratamento médico, essa expectativa
aumenta para cinco anos.

Saliente-se, que por conta do seu grave estado de saúde, o requerente não pode
trabalhar, estando, portanto, desempregado, sem condições financeiras para arcar
com as custas advocatícias, tampouco um tratamento médico hospitalar particular.
Ainda que pudesse, não seria de caráter constitucional para o poder público, visto que
este tem o dever de proporcionar o direito à saúde a todos os indivíduos de direito, se
eximir da tutela jurisdicional à saúde do requerente, o qual vislumbra a todos os
direitos e garantias constitucionais, incluindo o da saúde, da vida e da dignidade da
pessoa humana.

Diante da impossibilidade de resolver essa questão junto ao Sistema Único de


Saúde (SUS) do município de Francisco Beltrão, bem como, diante da inoperância do
SUS, em oferecer soluções de tratamento em outras cidades ou regiões, o requerente
procura está defensoria pública para representá-lo.

Tendo em vista que uso do aparelho de hemodiálise três vezes semanais é


tratamento urgentíssimo, que é o direito constitucional à dignidade da pessoa humana
do requerente, bem como à sua saúde e à sua vida, compete ao poder público agir
imediatamente no sentido de disponibilizar-reservar o referido aparelho pelo SUS ao
requerente, eis que a demora poderá antecipar-lhe a morte.

Nesse contexto, seria injusto e desproporcional ver um contribuinte que, durante


toda a vida, honrou com as obrigações tributárias aos cofres públicos e, no momento
em que necessita da devida contraprestação estatal, por correr risco de morte, o
Estado negar-lhe ou ignorar-lhe, o que feriria o princípio da dignidade da pessoa
humana, da universalidade ao acesso à saúde, da vida e da Igualdade. O constituinte
originário postulou esses direitos universais de forma plena e o Supremo Tribunal
Federal tem priorizado os indivíduos nos eventuais conflitos com a administração
pública, no sentido de que suas jurisprudências tem se mantido independentes de
qualquer vinculação com tal administração e agindo como Guardião destes
jurisdicionados, em especial aos pacientes terminais, muitas vezes negligenciados,
como no caso do requerente.

Conclui-se diante desse quadro, por razão de Direito e de Justiça, que se justifica
perquirir os direitos constitucionais fundamentais da vida, saúde, igualdade e
dignidade do requerente, por conta do seu quadro clínico apresentado, com a
observância da Tutela de Urgência.

II. PRELIMINARMENTE

a. Gratuidade da justiça
Inicialmente, requer os benefícios da gratuidade da justiça na sua
integralidade, com esteio nos incisos I a IX, do §1º o art. 98 do Código de Processo
Civil, face sua insuficiência de recursos, conforme termo de declaração de
responsabilidade e de hipossuficiência acostado aos autos, não tendo a mínima
condição de arcar com o pagamento das custas, despesas processuais e os
honorários advocatícios, conforme rezam os artigos 98 e 99 do já citado diploma legal,
indicando a Defensoria Pública do Estado do Paraná para o patrocínio da causa.

b. Tutela de Urgência

É necessária a concessão de tutela de urgência, prevista no Art. 300 do Novo


CPC, em casos que demonstram provável direito e perigo de dano ou risco: “a tutela
de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a
probabilidade do direito e o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo.”
No caso do requerente, todos os requisitos exigidos por lei, se fazem presentes
sem controvérsias, conforme mencionados nos exames e laudos médicos, que
comprovam o seu grave quadro de saúde e sua necessidade veemente da reserva
do aparelho de hemodiálise a ser usado três vezes semanalmente.
Não obstante, o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo
(periculum in mora) é notório, podendo causar maiores sequelas e a morte do
requerente, caso não seja reservado imediatamente o imprescindível aparelho de
hemodiálise.

c. Prioridade na tramitação do processo (CPC, art. 1.048, inc. I) e da


Razoável Duração do Processo CF Art. 5º LXXVIII; CPC Art. 4º.

Pede-se urgência no trâmite do processo, tendo em vista o grave quadro clínico


de saúde do requerente, haja vista que sofreu um AVC e perdeu completamente a
capacidade de trabalhar por ter o lado direito de seu corpo paralisado, além ser
portador de uma doença renal degenerativa e progressiva, já em estágio final e
incurável, não podendo inclusive ser submetido a transplante e necessitando,
portanto, de tratamento médico e hemodiálise três vezes por semana, sem a qual terá
a expectativa de vida gravemente reduzida, correndo o risco de falecer. Sendo assim,
observa-se a capacidade de invocar o citado direito garantido pelo Código de
Processo Civil, Art. 1.048. “terão prioridade de tramitação, em qualquer juízo ou
tribunal, os procedimentos judiciais: (...) I - Em que figure como parte ou interessado
pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos ou portadora de doença
grave, assim compreendida qualquer das enumeradas no art. 6º, inciso XIV, da Lei nº
7.713, de 22 de dezembro de 1988”;
Ademais, tanto a CF no art. 5º, LXXVIII, como o CPC no art. 4 º, garantem ao
requerente a solução integral do mérito dentro de um prazo razoável e com celeridade
no andamento do processo, mas, cabe frisar que, além dessas garantias, o
requerente tem Prioridade de Tramitação.

d. Legitimidade passiva - (CPC, art. 114)


No que diz respeito ao tratamento médico, incluindo a utilização dos
equipamentos imprescindíveis à manutenção da saúde às pessoas necessitadas, é
direito legal, sendo cabível pedir a qualquer dos Entes Públicos, conforme prevê e
garante a Constituição Federal, Art 23: “É competência comum da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: (...) II - cuidar da saúde e assistência
pública, da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência; (...)”.
Em concordância, apresenta-se o Art. 114 do Código de Processo Civil: “O
litisconsórcio será necessário por disposição de lei ou quando, pela natureza da
relação jurídica controvertida, a eficácia da sentença depender da citação de todos
que devam ser litisconsortes”. Observa-se, portanto, que os entes públicos são
solidariamente responsáveis por promover o direito fundamental à saúde (CF, art.
196), bem como, Inexiste obrigação isolada de um deles. (CF, art. 23, inc. II), sob
pena de violação ao princípio da Universalidade da Saúde.

III. DO DIREITO

Vida, Saúde e Dignidade da Pessoa Humana


O conceito de dignidade da pessoa humana reconhece o valor intrínseco de
todo ser humano e o verdadeiro direito a ter direitos inerente a todos nós. É um
princípio erigido ao status de fundamento da república pela constituição cidadã, em
seu artigo artigo 1º, entendido, portanto, como valor basilar e norteador de todas as
ações do Estado.

Se, por um lado, pode-se vislumbrar inúmeras e trágicas possibilidades de se


levar uma vida sem o mínimo de dignidade, não é possível conceber o princípio sem
a própria vida humana a lhe dar sentido. O direito à vida, que se encontra
genericamente contemplado na Constituição Federal, é representado não somente
pela vida em si, mas a vida digna. A partir dos entendimentos argumentados pelo
renomado doutrinador constitucionalista Pedro Lenza (2006 p. 530), observa-se que
além da busca pela preservação da vida do paciente em questão, o Estado tem o
dever de garantir-lhe a manutenção da dignidade desta.1

Permitir, portanto, que, em evidente desrespeito ao princípio fundamental da


vida, cláusula pétrea de nossa constituição, seja abreviado o tempo que resta a um
cidadão que recorre ao Estado para ter acesso ao tratamento que lhe é de direito, é
também, por si só, um atentado contra a dignidade da pessoa humana, em qualquer
acepção do termo. Conforme pontua Ingo Wolfgang Sarlet, grande professor e Juiz
de Direito, “somente há que falar em dignidade (assim como em direitos e deveres
humanos e fundamentais) num contexto marcado pela intersubjetividade”, sendo que
“a dignidade da pessoa humana implica uma obrigação geral de respeito pela pessoa,
traduzida num feixe de direitos e deveres correlativos, de natureza não meramente
instrumental, mas, sim, relativos a um conjunto de bens indispensáveis ao
‘florescimento humano’”2.

Ao requerente, para se realizar enquanto ser humano em toda sua


potencialidade, independentemente das limitações físicas que lhe foram impostas por
sua doença, ou por qualquer suposição que se possa fazer a respeito do tempo de
vida que lhe resta, é indispensável o tratamento médico adequado. Conforme
inclusive é ditado pela resolução nº 1.805/06 do Conselho Federal de Medicina, deve-
se garantir ao indivíduo em fase terminal de doença o direito de receber assistência
integral, sendo respeitada a sua vontade quanto ao curso do tratamento, cabendo
somente a ele, ou seu representante legal, em conjunto com o médico responsável,
a decisão de interromper ou limitar procedimentos médicos a que se submeteria.

Não cabe ao Estado, a quem o constituinte impôs a obrigação de promover o


bem de todos, sem qualquer forma de discriminação, desmerecer o direito que tem o
requerente a ter acesso à saúde, conforme suas necessidades e motivações
pessoais.

1
LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 10. ed. São Paulo: Método, 2006.
2
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana na jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal. Unisul de Fato e de Direito: revista jurídica da Universidade do Sul de Santa Catarina, [S.l.],
v. 8, n. 14, p. 19-51, abr. 2017. ISSN 2358-601X. Disponível em:
<http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/U_Fato_Direito/article/view/4662>. Acesso em: 23
out. 2020. doi:http://dx.doi.org/10.19177/ufd.v8e14201619-51
Sobre o Direito à Saúde e o Dever do Estado

A Constituição Federal assegurou a todos o direito à saúde, determinando o


dever jurídico do Estado de prestá-la (configurando, portanto, a imposição de um
dever de prestação positiva), conforme o artigo 196:

CF. Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido


mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de
doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e
serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Observa-se, portanto, a existência de um dever jurídico do Estado, a ser


cumprido pelos três entes competentes, que é a saúde pública.
Além disso, vale ressaltar que o legislador constituinte não se refere apenas a
mera existência formal deste serviço, senão à efetiva prestação de tal serviço.
Conforme versa a lei 8.080/90 (que trata do Sistema Único de Saúde) - Art. 2º. “A
saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as
condições indispensáveis ao seu pleno exercício.” Nesse mesmo sentido, já se
posicionou a jurisprudência:
O direito à saúde é prerrogativa constitucional indisponível, garantido
mediante a implementação de políticas públicas, impondo ao Estado a
obrigação de criar condições objetivas que possibilitem o efetivo
acesso a tal serviço. [AI 734.487 AgR, rel. min. Ellen Gracie, j. 3-8-
2010, 2ª T, DJE de 20-8-2010.] Vide RE 436.996 AgR, rel. min. Celso
de Mello, j. 22-11-2005, 2ª T, DJ de 3-2-2006 Vide RE 271.286 AgR,
rel. min. Celso de Mello, j. 12-9-2000, 2ª T, DJ de 24-11-2000.

Conclui-se ser inequívoca a responsabilidade do Estado, o qual não pode privar


ou limitar o requerente ao seu direito fundamental à saúde, garantido
constitucionalmente. Destaca-se, ainda, a necessidade de se garantir que os direitos
humanos de segunda geração previstos na Constituição Federal não percam sentido
e efetividade, posição já reforçada em diversos julgados:

O direito à saúde — além de qualificar-se como direito fundamental que


assiste a todas as pessoas — representa consequência constitucional
indissociável do direito à vida. O Poder Público, qualquer que seja a
esfera institucional de sua atuação no plano da organização federativa
brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da
população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em
grave comportamento inconstitucional. A interpretação da norma
programática não pode transformá-la em promessa constitucional
inconsequente. [RE 271.286 AgR, rel. min. Celso de Mello, j. 12-9-
2000, 2ª T, DJ de 24-11-2000.] = STA 175 AgR, rel. min. Gilmar
Mendes, j. 17-3-2010, P, DJE de 30-4-2010 Vide RE 668.722 AgR, rel.
min. Dias Toffoli, j. 27-8-2013, 1ª T, DJE de 25-10-2013 vide AI 734.487
AgR, rel. min. Ellen Gracie, j. 3-8-2010, 2ª T, DJE de 20-8-2010

Com relação ao caso do requerente, cabe salientar que os exames e pareceres


médicos comprovam que seus rins estão severamente comprometidos por doença
degenerativa, progressiva, em estágio final e incurável, que seu quadro clínico não
comporta cirurgia e, a reserva de um aparelho de hemodiálise para tratamento três
vezes por semana se mostra imprescindível a manutenção de sua saúde e vida.
Desse modo, o Estado do Paraná e a União, por meio do hospital do Município
de Francisco Beltrão, ou qualquer outro hospital e equipe médica disponíveis devem
providenciar a reserva e disponibilidade do referido aparelho, bem como o devido
acompanhamento médico, isso, independentemente de qualquer empecilho
burocrático, como no caso concreto “aguardar na fila de espera” ou “aparelho
somente para pacientes com chances de cura”.
Tais burocracias podem ocasionar a morte precoce do paciente e, conforme
entendimento consolidado, a vida é a prioridade. As formalidades e burocracias do
sistema público não podem prevalecer em prejuízo de um direito constitucionalmente
garantido.

Competência em promover o Direito à Saúde


A Constituição Federal estabelece que a competência é conjunta de todos os
entes federados - art. 23 “é competência comum da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios: [...] II - Cuidar da saúde e assistência pública, da proteção
e garantia das pessoas portadoras de deficiência”.
Neste sentido, concorda o Ministro Luiz Fux:
"O tratamento médico adequado aos necessitados se insere no
rol dos deveres do Estado, porquanto responsabilidade
solidária dos entes federados. O polo passivo pode ser
composto por qualquer um deles, isoladamente, ou
conjuntamente. [RE 855.178 RG, rel. min. Luiz Fux, j. 5-3-2015,
P, DJE de 16-3-2015, Tema 793.]"

Cabe ressaltar que a Jurisprudência é ampla nesse sentido, conforme o exemplo


de julgado similar do STJ:

É obrigação do Estado (União, Estados membros, Distrito Federal e


Municípios) assegurar às pessoas desprovidas de recursos
financeiros o acesso à medicação ou congênere necessário à cura,
controle ou abrandamento de suas enfermidades, sobretudo, as mais
graves. (Resp. 656979, RS, Segunda Turma, relator o Senhor Ministro
Castro Meira, em 16 de novembro de 2004).

O Município de Francisco Beltrão, não pode se furtar de fornecer os meios, no


caso concreto “o aparelho de hemodiálise” ao requerente nos três dias em que é
necessário para o mesmo visando oferecer-lhe vida digna e prolongar a expectativa
da mesma. A jurisprudência reforça esse dever do município, conforme entendimento
consolidado pelo então Excelentíssimo Min. Joaquim Barbosa:

Consolidou-se a jurisprudência desta Corte no sentido de que, embora


o art. 196 da Constituição de 1988 traga norma de caráter
programático, o Município não pode furtar-se do dever de propiciar os
meios necessários ao gozo do direito à saúde por todos os cidadãos.
Se uma pessoa necessita, para garantir o seu direito à saúde, de
tratamento médico adequado, é dever solidário da União, do Estado
e do Município providenciá-lo. [AI 550.530 AgR, rel. min. Joaquim
Barbosa, j. 26-6-2012, 2ª T, DJE de 16-8-2012.]

Cabe ainda ressaltar a opinião doutrinária do ilustre Ministro do STF Gilmar


Mendes:
O fato de o Sistema de Saúde ter descentralizado os serviços e ter
conjugado os recursos financeiros dos entes da federação, com
objetivo de aumentar a qualidade e o acesso aos serviços de saúde,
apenas reforça a obrigação solidária e subsidiária entre eles.
(MENDES, 2010, p. 833. Sublinho acrescentado).
Verifica-se, assim, em unanimidade que a competência é de responsabilidade
conjunta dos entes federados, estabelecida tanto na norma constitucional como na
infraconstitucional.

Princípio da Razoabilidade, da Proporcionalidade e da Reserva do Possível


Amparado nos princípios da razoabilidade, da proporcionalidade e da reserva do
possível, sem os quais de fato não se faz possível a gestão da coisa pública, o Estado
justifica o emprego dos recursos que estão à sua disposição, os quais são limitados,
frente às necessidades ilimitadas da população.

Esta é uma ponderação importantíssima para se coibir dispêndios desmesurados,


arbitrariedades e todo outro tipo de abuso. Não se pode, entretanto, permitir que tal
lógica seja utilizada como verdadeira escusa do Estado frente às suas obrigações
constitucionais, que por certo incluem prestações de caráter positivo, daqueles
serviços mais básicos e essenciais à população.

Importante decisão judicial nesse sentido foi tomada pelo Tribunal Regional
Federal da 5ª Região:
[...] A alegação genérica de limitações orçamentárias vinculadas à
reserva do possível, além de não provada concretamente quanto à
eventual indisponibilidade de fundos para o atendimento da pretensão
inicial, não é suficiente para obstar a concretização do direito
constitucional em exame, sobretudo quando notório o fato de que o
Poder Público possui verbas de grande vulto destinadas a gastos
vinculados a interesses bem menos importantes do que a saúde da
população (por exemplo, publicidade, eventos festivos etc), os quais
podem e devem ser, se for necessário, redirecionados para a
satisfação de direitos essenciais da população. [Trecho do voto.TRF
5ª região. Apelação Cível. Reexame Necessário. APELREEX 5753
CE 0017205-06.2006.4.05.8100. Relator(a): Desembargador Federal
Emiliano Zapata Leitão. Data do do Julgamento:14/01/2010. Órgão
Julgador: 1ª Turma.].

Tendo em vista, no caso concreto, a magnitude da consequência de omissão


estatal na prestação do serviço médico a que tem direito o requerente, qual seja, sua
própria morte, vale lembrar as palavras do Ministro Celso de Mello, contemplando o
“dilema” entre questões financeiras do Estado e o direito fundamental à vida:

Entre proteger a inviolabilidade do direito à vida, que se qualifica


como direito subjetivo inalienável assegurado pela própria
Constituição da República (art. 5º, caput), ou fazer prevalecer,
contra essa prerrogativa fundamental, um interesse financeiro e
secundário do Estado, entendendo — uma vez configurado
esse dilema — que razões de ordem ético-jurídica impõem ao
julgador uma só e possível opção: o respeito indeclinável à vida.
(STF – Petição n.º 1246-1-SC - Min. Celso de Mello).

Juízo de Ponderação

A respeito da presente demanda, verifica-se o seguinte exame de ponderação:


Quanto à adequação - reservar o aparelho de hemodiálise três vezes por semana
é o meio adequado para se atingir o direito fundamental do requerente à sua saúde e
à sua vida.
Quanto à necessidade - reservar um aparelho três vezes por semana, estaria
estabelecendo ao hospital de Francisco Beltrão/Pr a menor restrição possível, visto
que será apenas um dos dez aparelhos disponíveis e somente ao tempo suficiente à
filtragem sanguínea do paciente e manutenção da direito à saúde e vida do
requerente.
Quanto à proporcionalidade -reservar um aparelho de hemodiálise três vezes por
semana e somente ao tempo necessário a filtragem sanguínea do paciente, é um
custo mínimo ao Estado e ao Município de Francisco Beltrão, se comparado ao valor
de uma vida a saúde do requerente, cuja responsabilidade é constitucionalmente do
Estado.
Conclui-se, portanto, ser plenamente constitucional a expectativa que tem o
requerente de ver seu direito de acesso ao tratamento médico de que necessita ser
garantido pelo Estado.

IV. DO PEDIDO
Ante o exposto requer:

A. Gratuidade de Justiça
Seja concedida ao requerente a gratuidade de justiça, nos termos do art. 98 do
Novo Código de Processo Civil, visto que se encontra desempregado, em razão de
seu estado de saúde, ainda em estado de insuficiência de recursos para pagar as
custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios.

B. Tutela de Urgência

Seja concedida a tutela de urgência nos termos do Art. 300 do Novo CPC, para
determinar ao Município de Francisco Beltrão, ao Estado do Paraná, e a União
Federal, que forneça imediatamente a reserva e disponibilidade do aparelho de
hemodiálise, bem como o devido acompanhamento médico, tratamentos e exames,
no hospital do município de Francisco Beltrão, ou outro de referência cadastrado junto
ao SUS, ou se necessário (em caso de inexistência de vaga junto na rede pública)
em hospital da rede privada - neste caso com todas as despesas custeadas pela
fazenda pública;

C. Prioridade de Tramitação, conforme previsão do CPC - Art. 1.048.

D. Sanções processuais, de forma cumulativa, previstas no Art. 77,§ 2º e 537 do


Novo CPC, para o caso de descumprimento da obrigação de fazer. Que se faça o
mandado de advertência ao secretário de saúde do município de Francisco Beltrão,
o qual deverá providenciar todos os meios adequados ao tratamento do requerente,
incluindo a reserva três vezes por semana do aparelho de hemodiálise, sob pena de
multa, bem como do secretário de estado de saúde;

E. Seja fixada multa diária para cada dia de descumprimento da obrigação de


fazer;

F. Sejam citados todos os réus para, querendo, contestarem a ação, sob pena de
revelia;
G. Por fim, que os pedidos sejam julgados procedentes e confirmados em tutela
de urgência, condenando o Município de Francisco Beltrão, o Estado do Paraná e a
União na obrigação de fazer descrita no presente pedido, qual seja, a reserva do
aparelho de hemodiálise a ser usado três vezes semanalmente pelo paciente, bem
como os exames, tratamentos e acompanhamentos médicos e ambulatoriais
necessários, seja por meio do Sistema Único de Saúde, ou custeando-se todas as
custas, sob pena das sanções processuais cabíveis e multa diária por
descumprimento.

Nestes termos, pede deferimento.

Francisco Beltrão, 20 de outubro de 2020

Defensor (a)

PETIÇÃO INICIAL FEITA POR:

Danielle Makuch de Albuquerque;

Dhully Heloisy Rocha Ferreira;

Fernanda Feitosa Batista;

Isadora Eduarda Tertuliano Parede;

Juliana Passos Posse;

Lia Kugesen da Rocha;

Márcio Cleber Vieira Janoleis

Maria do Socorro dos Santos Giffhorn.

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