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MÉTODOS PARA

INVENTÁRIOS DE
VERTEBRADOS PARA
LICENCIAMENTO
AMBIENTAL
Elaboração

Luann Brendo da Silva Costa

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO....................................................................................................................................................................................... 4

ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA.................................................................................................. 5

INTRODUÇÃO.............................................................................................................................................................................................. 7

UNIDADE I
O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?................................................................................... 9

CAPÍTULO 1
OS SABERES PRÉVIOS........................................................................................................................................................................................ 9

CAPÍTULO 2
INVENTÁRIOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL..................................................................................................................................... 21

UNIDADE II
DIRETRIZES PARA OBTENÇÃO DE DADOS IN SITU DA FAUNA....................................................................................................................... 33

CAPÍTULO 1
COLETA, CAPTURA E TRANSPORTE DA FAUNA SILVESTRE............................................................................................................ 33

CAPÍTULO 2
COLETA, TRANSPORTE E MANUTENÇÃO DE ESPÉCIMES EM CATIVEIRO................................................................................ 46

UNIDADE III
METODOLOGIAS DE AMOSTRAGEM........................................................................................................................................................................... 54

CAPÍTULO 1
DIFERENTES MÉTODOS DE AMOSTRAGEM DE VERTEBRADOS................................................................................................... 54

UNIDADE IV
PLANOS DE MANEJO......................................................................................................................................................................................................... 73

CAPÍTULO 1
PLANOS DE MANEJO.......................................................................................................................................................................................... 73

REFERÊNCIAS......................................................................................................................................................................................... 88
APRESENTAÇÃO

Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se


entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade.
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como
pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia
da Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos


conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos
da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional
que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-
tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo


a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

4
ORGANIZAÇÃO DO CADERNO
DE ESTUDOS E PESQUISA

Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em


capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de
textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam
tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta
para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos
Cadernos de Estudos e Pesquisa.

Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto
antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para
o autor conteudista.

Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma
pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em
seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas
experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para
a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar


Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do
estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Atenção
Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam
para a síntese/conclusão do assunto abordado.

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Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa

Saiba mais
Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/
conclusões sobre o assunto abordado.

Sintetizando
Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando
o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Para (não) finalizar


Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a
aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo
estudado.

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INTRODUÇÃO

O passo inicial para a realização de um inventário de vertebrados para licenciamento


ambiental é o conhecimento. O saber é a porta de entrada para a obtenção de dados
robustos, confiáveis e úteis no processo de licenciamento e nos projetos de conservação
da biodiversidade de um determinado local.

Antes de conhecermos os métodos para inventários de vertebrados, é importante que


saibamos quais ferramentas existem e estão à nossa disposição para facilitar e melhorar
a realização do nosso trabalho nesse tipo de levantamento da fauna. Por essa razão, a
primeira unidade da presente apostila trata dos saberes prévios necessários para um
profissional que atua em inventários.

Ainda na primeira unidade, estão descritas informações importantíssimas sobre as


coleções biológicas e como essas coleções e os bancos de dados podem auxiliar de
forma significativa nos levantamentos de vertebrados. Explicamos ainda o que é o
licenciamento ambiental, para que servem os inventários de fauna e os aspectos gerais
do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio).

Ao final dessa unidade, esperamos que você conheça os principais bancos de dados da
fauna e saiba aplicá-los no levantamento prévio das informações sobre os animais que
podem ocorrer naquele ambiente inventariado, saiba conceituar o que é o licenciamento
ambiental e o que são inventários de fauna e reconheça o Sisbio como sistema regulador
e normativo de captura, coleta e transporte de espécimes e amostras biológicas oriundas
da fauna.

Em seguida, explicamos as principais diretrizes para obtenção de dados da fauna in situ


e ex situ e trazemos aspectos da importância de saber diferenciar o que é coleta e o que
é captura, das especificidades de cada uma dessas atividades, bem como informações
legais da manutenção de espécimes em cativeiro, associando esses dados com a ética
animal. Nesse contexto, objetivamos que você diferencie as atividades de coleta e
transporte in situ e ex situ, bem como reconheça a ética animal como uma temática
importante de ser discutida em inventários de vertebrados.

Com base nas informações discutidas no decorrer das duas primeiras unidades da
apostila, na Unidade III você terá acesso aos principais métodos de amostragem para
os diferentes grupos de vertebrados que podem estar presentes nos inventários, a
partir de estudos de caso. Nessa unidade, você identificará os principais métodos de
obtenção de dados para mamíferos terrestres, herpetofauna, peixes e aves.

7
Introdução

Por fim, você irá estudar sobre Planos de Manejo – o que são, sua importância para a
conservação da biodiversidade, como são elaborados –, e veremos na prática os principais
pontos que esse documento técnico deve apresentar, de acordo com estudos de caso.
Nessa unidade, você será capaz de citar as principais informações que um Plano de
Manejo deve conter e reconhecerá a importância dos inventários de vertebrados para
elaboração de Planos de Manejo e para a conservação.

Objetivos
» Conhecer os principais bancos de dados da fauna.

» Conceituar o que é o licenciamento ambiental e o que são inventários de


fauna.

» Reconhecer o Sisbio como sistema regulador e normativo de captura, coleta


e transporte de espécimes e amostras biológicas da fauna.

» Diferenciar o que é coleta e o que é captura.

» Diferenciar as atividades de coleta e transporte in situ e ex situ.

» Reconhecer a ética animal como temática importante em inventários de


vertebrados.

» Identificar os principais métodos de obtenção de dados para mamíferos,


anfíbios e répteis, peixes e aves.

» Citar as principais informações que devem constar em um Plano de Manejo.

» Reconhecer a importância dos inventários de vertebrados para elaboração


de Planos de Manejo e para a conservação.

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O QUE SÃO
INVENTÁRIOS
DE VERTEBRADOS UNIDADE I
E LICENCIAMENTO
AMBIENTAL?

CAPÍTULO 1
Os saberes prévios

Os saberes prévios

Visão geral

Antes de começar minha carreira profissional trabalhando com levantamentos


e inventários visando à conservação dos organismos, eu me perguntava qual o
primeiro passo que eu deveria dar em um trabalho de conservação. Com o decorrer
das experiências e oportunidades ao trabalhar na área, eu aprendi que o primeiro
passo é conhecer.

Parece uma resposta óbvia e escorregadia para uma pergunta difícil, mas não é. De fato,
o primeiro passo que devemos dar em trabalhos de manejo e conservação é conhecer
o nosso objeto de estudo. Se vamos trabalhar com a vegetação de um ecossistema,
primeiro precisamos estudar a composição daquele ambiente, se a predominância é
de árvores ou se a maioria das plantas são ervas, se as plantas possuem sazonalidade
marcada na sua reprodução etc.

Dessa mesma forma, devemos prosseguir quando lidamos com os animais.


Precisamos conhecer o comportamento, interações biológicas, vulnerabilidades,
comportamentos e, antes de qualquer outra informação, precisamos saber os nomes
dos organismos com os quais iremos trabalhar.

Esse processo de levantamento de dados sobre a fauna não é tão simples assim.
Requer empenho, dedicação, muito estudo e uma capacidade de interpretação de
dados apurada, tudo isso você encontrará durante sua formação no curso Manejo e
Conservação da Fauna Silvestre e Exótica.

9
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

É importante destacar que esse conhecimento sobre a fauna, com a detecção, descrição
e levantamento, vai além da aplicação de metodologias padronizadas e utilizadas na
maioria dos projetos. A missão de formulação dos conhecimentos, associação de áreas
e execução de tarefas requer, primariamente, conhecimento prévio sobre sistemática,
taxonomia, ecologia e áreas correlatas.

A busca pela associação de ideias e multidisciplinaridade na formação deve ser constante,


e os cursos de graduação não dispõem de tempo e mecanismos necessários de oferta
na construção dessas qualidades. Por isso, a importância dos cursos de pós-graduação
e das especializações como a que você está fazendo agora.

Quando eu digo que o passo inicial é o conhecimento, isso quer dizer também que
precisamos ter uma visão difusa e crítica sobre cada grupo. O que devemos sempre
ter em mente é que, mesmo com muito estudo e dedicação, ainda não será possível a
total compreensão sobre a megadiversidade brasileira.

Os grupos biológicos são diversos em sua morfologia e comportamento, novas espécies


são descobertas e descritas com certa frequência e, numa frequência maior ainda, muitas
espécies estão sendo extintas da natureza. O que precisamos, de fato, para início, é ter
uma visão geral sobre os grupos estudados para que possamos ter um direcionamento
inicial na obtenção do perfil da população e da comunidade estudada.

Outra necessidade profissional é a de se manter atualizado e de conhecer os principais


bancos de dados acerca da diversidade da fauna. Como iremos discutir no próximo
tópico, as coleções biológicas possuem um papel fundamental e insubstituível no
levantamento e manutenção dos conhecimentos acerca da diversidade da fauna,
servindo, inclusive, para a consulta às informações de coleta e correta identificação
dos nomes científicos.

No nosso contexto, informações taxonômicas baseadas em morfologia e anatomia,


bem como em caracteres genéticos e ecológicos, podem ser obtidas de algumas formas
que discutiremos a seguir. No entanto, antes de falarmos sobre as coleções biológicas,
precisamos relembrar o que é o nosso objeto de estudo nesta apostila.

Faça o seguinte exercício de pensamento comigo: quero que você liste na sua
mente cinco exemplos de animais. Quaisquer animais que sejam. Pensou?

Agora reflita sobre essa lista e diga quantos desses animais listados são vertebrados
e quantos são, especificamente, mamíferos. Por que você pensou rapidamente
nesses animais? Por que a maioria é de vertebrados e mamíferos?

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O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Quando mencionamos os animais, a maioria de nós tendemos a imaginar exemplos


de vertebrados. Como o nome sugere, animais vertebrados são, na maioria, aqueles
que possuem ossos e esses ossos formam uma coluna vertebral. Vale destacar que nem
todos os vertebrados possuem coluna vertebral, como os ágnatos ou ciclostomados,
que são peixes desprovidos de mandíbulas e maxilas.

Os vertebrados fazem parte de um enorme grupo com altíssima diversidade morfológica,


fisiológica, anatômica, comportamental e genética. Por seus representantes ímpares
de características marcantes, geralmente estão associados às discussões de descrição
dos ambientes naturais.

A diversidade dos vertebrados pode ultrapassar 56 mil espécies, contanto só as que


ainda vivem na Terra. Se acrescentarmos as espécies extintas, esse número cresce
significativamente. Esse conjunto de fauna pode ser representado por peixes minúsculos
de menos de 1g, até baleias que podem pesar 150.000kg.

Por sua alta diversidade de espécies e de características importantes, os vertebrados podem


ser encontrados em todos os ecossistemas da Terra, dos mais quentes e secos, como os
camelos nos desertos, até os mais frios e inóspitos, como o urso-polar no Polo Norte;
dos ambientes mais profundos da Terra, como o tubarão-duende (figura 1) na Fossa
das Marianas, até o pico mais alto do planeta, como algumas aves no Monte Everest.

Figura 1. Tubarão-duende (Mitsukurina owstoni).

Fonte: https://hypescience.com/wp-content/uploads/2012/12/goblin-shark.jpg.

As principais características dos vertebrados são a presença de um sistema nervoso


central comandado por um cérebro e pela medula espinhal (figura 2); de um sistema

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Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

muscular bem desenvolvido com músculos diferenciados, incluindo o coração; e de


um esqueleto interno que sustenta todo o corpo, podendo ser constituído de tecido
ósseo ou cartilaginoso. Além disso, os vertebrados possuem órgãos formados por
conjuntos de tecidos epiteliais, conjuntivos, muscular, vascular e nervoso e podem
ter sua respiração comandada pelo pulmão ou por brânquias.

Figura 2. Os grandes grupos de vertebrados.

Vertebrados

Anfíbios Aves Mamíferos Peixes Répteis

Fonte: Unyleya, 2020.

Por fim, uma característica importante de ser mencionada também é a formação do


corpo, que é constituído por camadas de pele denominadas derme, na porção mais
interna, e epiderme, na porção mais externa do corpo. Especificamente as aves e os
mamíferos possuem uma camada chamada de hipoderme que fica mais internamente,
sendo constituída de lipídeos (gordura).

Podemos perceber então que os vertebrados são muito numerosos e diversos e a


total compreensão de todas as características desse grande grupo, bem como o nome
científico de todas as espécies, torna-se uma missão quase que impossível. Nesse ponto,
podemos destacar uma importante função das coleções biológicas que é a de catalogar
as espécies de uma região e organizar de forma sistemática as amostras e informações
para ficarem disponíveis para consultas.

Enquanto profissionais, precisamos saber usar as principais ferramentas que estão


disponíveis para nós e isso nos auxiliará no melhor desenvolvimento da nossa
função nos trabalhos de manejo e conservação da fauna, principalmente com os
inventários de vertebrados, visando ao licenciamento ambiental, que é o foco de
discussões desta apostila.

Por isso, no próximo tópico, conversaremos sobre coleções biológicas e trarei alguns
exemplos de banco de dados, para que você possa ter um arsenal ainda maior de
ferramentas e conjuntos de informações, que serão de suma importância na obtenção
de perfis prévios e de panoramas antes, durante e após os levantamentos dos dados
oriundos dos inventários de vertebrados.

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O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Coleções biológicas

O costume de colecionar coisas é muito antigo e faz parte da cultura humana há


muitos anos. Existem coleções de anéis, lápis, canecas, moedas, carros, lenços e tudo
mais que você consiga imaginar. Se é possível ter mais de um exemplar, então existe
uma coleção para isso. As coleções geralmente são organizadas de forma sistemática,
de maneira que a pessoa interessada tenha acesso à informação direcionadamente, e
existem aquelas em que o colecionar possui seu mecanismo próprio de organização,
existindo significado para cada peça.

Podemos encontrar também acervos ou coleções que possuem relevância diferenciada,


podendo ser importante mecanismo de obtenção de conhecimentos em muitas áreas,
como coleções de artefatos arqueológicos, fósseis, escrituras, rochas, conchas etc.
Todos esses exemplos citados constituem uma coleção científica. Podemos usar como
exemplos os Museus de História Natural em Londres e em Nova Iorque (figura 3).

Figura 3. Museu de história natural de Nova Iorque.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/new-york-city-ny-usa-may-376567660.

No entanto, é importante nos atentarmos ao fato de que nem toda coleção científica é
uma coleção biológica. Segundo Aranda (2014, p. 1), “as coleções biológicas são aqueles
acervos que possuem uma maior complexidade de matéria orgânica, portanto, sua
preservação para longo termo é um enorme desafio”.

Essa preservação diz respeito às ações que vão contra a decomposição ou deterioração
natural das amostras orgânicas ou biológicas. Dependendo do tipo de material, os
cuidados precisam ser específicos e faz-se o uso de formol, álcool e outros métodos
usuais para preservação do acervo. Essa coleção pode ser de organismos inteiros, como
de peixes e aves, mas pode ser de partes também, como os acervos de tecidos.
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Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

Então, podemos definir coleções biológicas como um conjunto de organismos, inteiros


ou em partes, que são preservados em local diferente do seu ambiente natural, ou
seja, do local e coleta. Alguns pontos são importantes de serem seguidos na coleta dos
espécimes. Primeiro, é necessário que haja uma organização na metodologia de obtenção
da amostra ou do indivíduo. Após a coleta, o animal é preparado com conservantes,
a depender da espécie.

Em seguida, ele é identificado. Geralmente, o pesquisador descreve todas as características


encontradas do animal no local de coleta, pois algumas informações sobre cor, textura
e tamanho podem mudar após a morte do animal e assim comprometer a identificação.
Após a descrição das características, faz-se uso de chave dicotômica que auxilia e
direciona as identificações.

Cada espécime ou cada parte desse animal possui uma etiqueta com as principais
informações sobre o espécime coletado, como o nome científico, local de coleta e
observações do coletor. Além disso, nas coleções biológicas organizadas e regulamentadas,
cada amostra do acervo possui um número de tombamento que é único de cada coleção.
Esse número servirá para auxiliar na localização dentro do acervo e na disponibilização
das informações on-line (falaremos sobre isso em seguida).

As coleções têm o papel fundamental de garantir a conservação ex situ de espécies da


biodiversidade local, regional e nacional, sendo esse o principal objetivo das coleções
biológicas. Além disso, podemos destacar também a importância no ensino e na pesquisa
científica, auxiliando os pesquisadores na obtenção de dados e servindo também como
registro histórico das espécies que ocorriam em um determinado ambiente.

Imagina que houve um grande evento que destruiu completamente uma área
específica de um ecossistema. Como saberemos quais espécies viviam naquele lugar
se não existirem registros coletados e identificados? Não teria como, não é mesmo?
Dessa forma, as coleções biológicas se tornam ainda mais relevantes diante das altas
taxas de extinção e de degradação dos ambientes com a fragmentação de áreas, perda
de habitats, introdução de espécies exóticas com potencial invasor etc.

A partir dos dados de coleções biológicas, é possível realizar uma gama de pesquisas
pertinentes e de relevância para a ciência. Com os dados de coleta e coordenadas
geográficas, é possível fazer trabalhos de distribuição real e potencial para espécies
ameaçadas, realizando a modelagem a partir de variáveis ambientais e algoritmos
matemáticos e podendo correlacionar pressões abióticas nos ecossistemas e na
distribuição das espécies, por exemplo.

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O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Podem ser realizadas pesquisas voltadas para a determinação dos padrões de reprodução
das espécies a partir dos dados das etiquetas e das observações dos coletores. É possível
também a formulação de listas de espécies com informações ecológicas e elaboração
de diagnoses (descrições das características da espécie) para confecção de chaves de
identificação dos táxons.

Enfim, as coleções biológicas são de extrema importância para o conhecimento acerca


dos mais diversos seres vivos, inclusive dos vertebrados. No entanto, para que as
coleções permaneçam ativas, é necessário que haja uma organização institucional, e a
principal estrutura organizacional de uma coleção é a curadoria.

A curadoria é responsável pelo mapeamento, planejamento e execução das atividades


necessárias em uma coleção. As atividades vão desde a logística física para o correto
armazenamento dos registros, até atividades técnicas de limpeza, tombamento e
inserção das informações em um banco de dados virtual.

Percebemos com isso que a curadoria envolve também o gerenciamento e administração.


As coleções tendem a crescer em número de registros e em número de espécies ao
longo do tempo e é de extrema importância o financiamento de agências para a
consolidação e a permanência das coleções de forma séria, organizada e disponível
remotamente.

Um ponto importante a ser destacado é a disponibilização dos dados de forma remota.


Imagina que você mora em Roraima e precisa das informações de uma espécie que
só é possível ser encontrada em um acervo no Rio Grande do Sul. Você precisaria
atravessar o país inteiro para visitar a coleção e observar as informações necessárias.

Imagina ainda que você precisa ver uma imagem de uma espécie que só existe nesse
acervo no Rio Grande do Sul e, quando chega lá, percebe que, na verdade, não é a
espécie que você estava procurando? Seria um gasto de energia, dinheiro e tempo muito
grandes e isso atrapalharia o desenvolvimento da sua pesquisa ou do seu trabalho.

Diante disso, com a disponibilização das informações dos acervos on-line, é possível o
acesso a esses dados de coleções brasileiras e de coleções do mundo todo. A informatização
e a disponibilização on-line é um avanço muito grande na ciência e no auxílio aos
levantamentos de espécies e inventários de modo geral.

Segundo a rede SpeciesLink (http://www.splink.org.br/), tendo por base as coleções


associadas à rede Cria (http://www.cria.org.br/), é possível encontrar no Brasil 261
coleções e subcoleções só de animais. Dessas, cerca de 3.813.779 estão disponíveis

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Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

on-line e 2.872.928 estão georreferenciadas, ou seja, é possível obter as coordenadas


geográficas caso você queira visitar o local de coleta.

Além disso, a disponibilização dos dados de forma on-line e a associação desses dados a
imagens em alta qualidade se mostram ferramentas indispensáveis nos inventários de
vertebrados. Ainda, segundo o SpeciesLink, é possível ter acesso a 6.237 registros de
animais com imagens associadas, inclusive disponíveis gratuitamente para download.

Existem ainda os registros on-line para 186.206 tipos nomenclaturais, que são os
primeiros registros usados para a identificação e descrição das estruturas das espécies,
nesse caso, especificamente, dos animais. Além disso, é possível encontrar 29.357
registros de espécies presentes em listas vermelhas da fauna ameaçadas de extinção,
como lobo-guará (figura 4).

Figura 4. Canídeo vertebrado lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/maned-wolf-55099549.

Na tabela 1, você poderá observar as informações padrões que constam nas fichas
das exsicatas disponibilizadas no banco de dados citados. É possível ver o nome da
coleção, o nome científico da espécie, o pesquisador que realizou a identificação, a
informação detalhada do local de coleta, coordenadas geográficas do local de coleta,
número de tombo e algumas informações extras do espécime coletado, como sexo e
notas realizadas pelos coletores.

Tabela 1. Informações padronizadas sobre os registros da coleção disponível on-line.

Coleção:
Voucher:
Nome científico:

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O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Coletor:
Local de coleta:
Coordenadas:
Notas:

Fonte: http://www.splink.org.br/.

No site do SpeciesLink, você poderá encontrar todas essas informações e, além disso,
poderá obter um perfil detalhado de todas as coleções vinculadas à plataforma com
dados locais, como municípios e povoados, e dados mais gerais, como regiões brasileiras.
Por exemplo, você poderá observar que a maioria dos registros de animais está localizado
na região Sudeste e que o Norte é a terceira região com maior registro, mesmo tendo
em seus domínios o Bioma Amazônico.

Além desse banco de dados, tratei ainda de mais alguns exemplos que poderão lhe
auxiliar na obtenção de informações necessárias para a realização dos inventários que
você desenvolverá no futuro, bem como para utilização em projetos de manejo e de
conservação da fauna. Não pretendo esgotar as possibilidades de banco de dados, até
porque isso seria impossível nesta apostila, mas os exemplos a seguir e o exemplo já
mencionado anteriormente possuem ferramentas interessantes e úteis.

O Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB) é outro banco de dados acerca


da fauna brasileira que disponibiliza on-line e gratuitamente informações taxonômicas e
ecológicas das espécies, tendo por base coleções biológicas. O CTFB está sendo elaborado
por mais de 500 especialistas em diversos grupos taxonômicos dentro da Zoologia.

O projeto teve início em 2015 e o objetivo é catalogar as espécies da fauna brasileira,


fornecendo informações taxonômicas e ecológicas com a listagem das espécies válidas
encontradas no Brasil.

No CTFB (http://fauna.jbrj.gov.br/fauna/listaBrasil/PrincipalUC/PrincipalUC.
do?lingua=pt), é possível encontrar informações de cerca de 119.300 espécies conhecidas
no país. A maioria dos registros é de artrópodes, pela grande diversidade de espécies.
Em segundo, estão os cordados, que fazem parte do filo Chordata e inclui os vertebrados
na sua classificação.

Dentre os vertebrados presentes no CTFB, podemos destacar as aves (cerca de 3.000


espécies), os peixes ósseos (cerca de 4.400 espécies) e os anfíbios (cerca de 1.000 espécies).
Obviamente que muito ainda precisa ser estudado e muitos levantamentos e inventários
precisam ser realizados para a catalogação da diversidade de fauna presente no Brasil.

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Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

No entanto, essas iniciativas já mencionadas são importantíssimas ferramentas que


podem auxiliar nos projetos de manejo, conservação e inventários da fauna, sendo
facilitadoras na construção do conhecimento, que é o primeiro passo a ser dado nos
trabalhos conservacionistas, como dito inicialmente.

Tomando como exemplo outra espécie que frequentemente configura as listas de


espécies ameaçadas, a onça-pintada (Panthera onca) (figura 5), é possível encontrar no
CTFB informações quanto à forma de vida e substrato em que vive o animal, à origem
(se nativo ou exótico), ao endemismo (se é uma espécie exclusiva do Brasil ou não),
aos ambientes em que habita, à distribuição geográfica nas regiões brasileiras e aos
domínios biogeográficos em que é possível encontrar a espécie.

Por exemplo, segundo o CTFB, a onça-pintada é um animal de vida livre e individual


que vive em ambiente terrestre, é nativa do Brasil, mas não é endêmica do país, sendo
encontrada também em países que fazem fronteira com o Brasil e nos demais países
do continente americano. É possível ser encontrada em ambientes epicontinentais e
está distribuída em 21 estados de todas as regiões do Brasil, podendo ser encontrada
nos Biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.

Figura 5. Onça-pintada (Panthera onca).

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/adult-jaguar-staling-grass-1541443796.

Os outros dois bancos de dados que vamos citar possuem viés diferente dos citados
até aqui. Eles disponibilizam informações das espécies ameaçadas de extinção em
diferentes níveis no Brasil e no mundo.

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O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria


com o Ministério do Meio Ambiente, publicou, em 2019, o Livro Vermelho da
Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Ao todo, trabalharam no projeto cerca
de 1.270 cientistas e foram avaliadas cerca de 12.254 espécies.

Isso configurou um aumento de cerca de 11.438 espécies em comparação à versão


anterior do livro lançado em 2003, do qual constavam apenas 816 espécies avaliadas.
As espécies foram distribuídas em três categorias, a saber: CR – Criticamente em
perigo, EN – Em perigo e VU – Vulnerável.

Diante da discussão acerca de banco de dados e de listas de espécies, é importante


que você estude um pouco mais sobre a temática, tendo como base o Livro Vermelho
da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

No contexto da disciplina, sugiro que você estude os seis primeiros volumes, que
tratam da visão geral, dos mamíferos, das aves, dos répteis, dos anfíbios e dos
peixes, respectivamente. Ter o conhecimento prévio acerca desses grupos de
vertebrados e possuir no seu acervo bibliográfico essas referências poderá lhe
auxiliar no desenvolvimento dos projetos e trabalhos de inventários de vertebrados.

Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/portal/component/content/article/10187.

Por fim, o último banco de dados acerca de espécies da fauna que vale à pena ser
consultado é a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza
(IUCN). A lista da IUCN é proveniente da União de mais de 1.400 membros e 15.000
especialistas, estando presente de forma organizacional em mais de 160 países.
Um dos objetivos da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN é o de
proporcionar dados que sirvam para orientação e tomada de decisões pautadas em
ações conservacionistas, fornecendo dados técnicos para questões ambientais e projetos
de conservação, incluindo os inventários de animais vertebrados.
Segundo a União, já foram avaliadas cerca de 116.177 espécies. Houve a catalogação de
30.030 espécies ameaçadas de extinção e, dentre essas, mais da metade é representada
por animais vertebrados. A IUCN espera avaliar 160.000 espécies até 2020.
A página de busca pelo nome científico ou nome popular do animal está disponível
no link https://www.iucnredlist.org/, podendo a busca ser realizada de forma simples
e ampla ou de forma avançada e específica, com a aplicação de filtros de busca como
habitat, países, ameaças, ano de publicação, biomas etc.

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Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

Discutiremos no próximo capítulo o que são inventários e para que são úteis.
Além disso, explicaremos o que é o licenciamento ambiental, comentando também
sobre o Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio).

A partir das informações dos próximos capítulos que constituem as unidades, você
conseguirá fazer a associação da importância de conhecer as coleções biológicas e saberá
como poderá usar os bancos de dados da fauna na aplicação dos trabalhos. Diante disso,
a própria consulta e obtenção de dados disponibilizados on-line configura um método
de suporte para inventários de vertebrados para licenciamento ambiental.

20
CAPÍTULO 2
Inventários e licenciamento ambiental

Inventários e licenciamento ambiental

O que é licenciamento ambiental?

Antes de falarmos sobre o licenciamento ambiental propriamente dito, é necessário


que entendamos alguns aspectos legais da legislação brasileira no que se refere ao
comércio e à proteção do meio ambiente.

No art. 1º, inciso IV, está escrito que A República Federativa do Brasil, formada pela
união indissolúvel dos estados e municípios e do Distrito Federal, constitui-se em
Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: os valores sociais do trabalho
e da livre iniciativa.

O art. 225 diz que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes
e futuras gerações.

Isso quer dizer que todo cidadão brasileiro que cumpre seus deveres tem o direito de
buscar iniciativas próprias de atividades econômicas. Ou seja, pode ser autônomo e pode
empreender em algum ramo que vá lhe trazer retornos financeiros. Essas atividades
se tornam importantes fatores de sobrevivência, proporcionando uma moradia digna,
alimentação e saúde de qualidade.

O Estado brasileiro diz ainda que o meio ambiente é “de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida”, então é reconhecida a importância do meio
ambiente equilibrado para a vida humana. Nesse ponto de discussão, entra um
debate interessante de ser observado. Primeiro, empreender pode levar a impactos
que causarão danos ambientais, dependendo do empreendimento, e esses impactos,
se não forem controlados e mitigados, poderão levar a consequências irreparáveis,
como a extinção de espécies.

Segundo, a relação homem-natureza existe e é de suma importância para a vida humana


na Terra. Então, impedir o desenvolvimento tecnológico e de empreendimentos de
iniciativa privada, tendo o meio ambiente como barreira, torna-se algo insustentável
e compromete a economia do país inteiro.

21
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

Diante disso, surgiu a necessidade de uma regulamentação e gestão das atividades que
podem provocar impactos no meio ambiente. Essa regulamentação é o licenciamento
ambiental. Dessa forma, podemos definir o licenciamento ambiental como uma
exigência legal e uma ferramenta da administração pública para controle ambiental.

O licenciamento, em muitos casos, é visto como um desafio e um fator complicador


no setor empresarial. Isso se dá pelo fato de que, dependendo do empreendimento,
uma área de vegetação precisará ser suprimida (desmatada) e, junto com as espécies
vegetais, as espécies animais também terão seu habitat totalmente transformado.

Em alguns casos, é necessária a realização de inventários que podem ser inventários


florestais ou inventários da fauna, mas isso é assunto para o próximo tópico.

Então, o licenciamento ambiental é um procedimento descentralizado em que o poder


público é representado por instâncias ambientais e essas instâncias têm o poder de não
autorizar ou de autorizar e acompanhar a implantação das atividades que utilizam os
recursos naturais ou que possuem um potencial poluidor e de degradação ambiental.

Nesse caso, o empreendedor tem por obrigação, prevista em lei, buscar os meios legais
de licenciamento ambiental junto ao órgão responsável. Deve ter, ainda, o cuidado de
solicitar todas as liberações, desde o planejamento até a instalação do empreendimento
propriamente dita.

Diante disso, podemos perceber que a função original do licenciamento ambiental é


a de servir como conciliador entre o desenvolvimento econômico e o uso sustentável
dos recursos naturais. No entanto, embora tenha essa função, em alguns casos, algumas
etapas são burladas e conflitos de interesses vêm à tona e acabam manchando o objetivo
inicial do licenciamento.

Ainda mais atualmente com a grande quantidade de empreendedores que fazem uso
de recursos naturais nas suas empresas e na sua produção. Porém, é função do poder
público a fiscalização de todas as estapas do licenciamento ambiental que iremos
discutir ainda.

Para regulamentar quais atividades ou empreendimentos são sujeitos ao licenciamento


ambiental, foi publicada a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente
(CONAMA) n. 237, de 1997. Resumidamente, as atividades ou empreendimentos
descritos no próximo parágrafo possuem a obrigatoriedade do licenciamento.

Extração e tratamento de minerais; indústria de produtos minerais não metálicos;


indústria metalúrgica; indústria mecânica; indústria de material elétrico, eletrônico e

22
O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

comunicações; indústria de material de transporte; indústria de madeira; indústria de


papel e celulose; indústria de borracha; indústria de couros e peles; indústria química;
indústria de produtos de matéria plástica.

Indústria têxtil, de vestuário, calçados e artefatos de tecidos; indústria de produtos


alimentares e bebidas; indústria de fumo; indústrias diversas; obras civis; serviços de
utilidade; transporte, terminais e depósitos; turismo; atividades diversas; atividades
agropecuárias; e uso de recursos naturais.

Todas essas atividades e empreendimentos devem ser licenciadas pelas razões a seguir
expostas. Primeiro, o licenciamento é ponto de partida do contato da empresa com
as questões ambientais, para que ela conheça todas as suas obrigações no controle
ambiental, bem como todas as suas restrições. O não cumprimento das leis estabelecidas
é passível de multa ou interdição dos estabelecimentos.

Segundo, desde 1981, o licenciamento ambiental é obrigatório e as empresas que não


possuírem a licença ambiental estão sujeitas à punições relacionadas na Lei de Crimes
Ambientais.

Terceiro, o mercado atualmente tem exigido cada vez mais o licenciamento das
empresas para que possa haver o financiamento e incentivos do governo. Então, uma
empresa não licenciada tende a ter menos oportunidades e está sujeita a investigações
pelo não cumprimento das leis.

Para que a empresa possa gozar de todos os seus direitos, é necessário que ela possua
a licença ambiental. Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro
(Firjan) (2004, p. 7):
A licença ambiental é o documento, com prazo de validade definido, em
que o órgão ambiental estabelece regras, condições, restrições e medidas de
controle ambiental a serem seguidas por sua empresa. Entre as principais
características avaliadas no processo podemos ressaltar: o potencial de geração
de líquidos poluentes (despejos e efluentes), resíduos sólidos, emissões
atmosféricas, ruídos e o potencial de riscos de explosões e de incêndios.

Para que a empresa possa funcionar legalmente, ela deverá passar por três etapas:
Licença Prévia (LP), Licença de Instalação (LI) e Licença de Operação (LO).

A Licença Prévia (LP) é a primeira etapa para o licenciamento. O órgão responsável


irá fazer a avaliação do local a ser utilizado, verificar se há a viabilidade ambiental e já
definir os critérios a serem cumpridos na próxima fase. A LP é a licença responsável

23
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

unicamente pela viabilidade ambiental e define as condicionantes (exigências técnicas)


para o desenvolvimento do projeto.

O órgão licenciador determina a viabilidade e as condicionantes, tendo por base o


zoneamento municipal. É nessa fase que entram os inventários de vertebrados, pois
podem ser solicitados estudos ambientais complementares para avaliar a viabilidade
do projeto, dependendo da área. Iremos falar sobre os inventários de vertebrados no
próximo tópico.

Se for uma área muito grande a ser utilizada, o órgão licenciador pode requerer o
Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) ou
o Relatório de Controle Ambiental (RCA). Essas exigências técnicas são fundamentais
para a avaliação dos impactos que podem incidir sobre o meio ambiente e tem o
objetivo de tornar público e transparente as ações dos projetos a serem implantados.

Uma vez que o projeto foi avaliado e as condicionantes definidas, o empreendedor


deve solicitar a Licença de Instalação (LI). Essa licença aprova e autoriza a construção
do empreendimento e a implantação dos equipamentos que irão ser utilizados.

Após o empreendedor ter conseguido a LP e a LI, ele precisará fazer a socilitação da


Licença de Operação (LO) que irá autorizar que o estabelecimento funcione formalmente.
A LO só será liberada quando a empresa estiver com suas instalações construídas e a
fiscalização quanto às medidas de proteção ambiental já tenham sido realizadas.

É principalmente na fase de Licença Prévia que iremos focar nossos esforços de


trabalho, pois é nessa fase inicial do licenciamento ambiental que são solicitados os
estudos ambientais, tais como inventários florestais, inventários da fauna e análise de
solos, por exemplo.

Então, agora iremos estudar sobre o que são inventários de fauna e para que esses
inventários servem. Até o final da apostila, nós iremos entender alguns métodos
utilizados em inventários de vertebrados e mostraremos alguns caminhos pelos quais
você poderá seguir para realizar os trabalhos da melhor forma possível.

Para que servem os inventários de fauna?

Tentarei ser direto em responder a pergunta que norteia o presente tópico, no entanto,
não posso deixar de comentar alguns aspectos éticos, de formação, habilidades,
metodologias e interesses que circundam ou fazem parte dos estudos que visam avaliar
os impactos ambientais nos mais diversos organismos que vivem naquele ambiente.

24
O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Os levantamentos ou inventários de vertebrados são, de forma direta, estudos técnicos


que visam listar e identificar a diversidade de espécies da fauna de um lugar em uma
determinada faixa de tempo. Além disso, o inventário de vertebrados avalia o status
de conservação e as relações ecológicas em que as espécies estão inseridas.

Mas, veja bem, detectar, observar, descrever e identificar espécies da fauna de um


determinado ambiente e interpretar todos os dados obtidos em campo ou em pesquisas
bibliográficas não é uma tarefa tão simples assim. Como já discutimos, os vertebrados
possuem uma diversidade morfológica e comportamental muito grande (figura 6) e
conseguir realizar um bom inventário requer tempo, dedicação e estudo.

Figura 6. Exemplares de vertebrados que compõem a biodiversidade faunística.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/collection-wild-animals-photography-222267340.

Mesmo que existam grupos taxonômicos com variação morfológica pequena, ainda
assim não é uma tarefa simples de ser executada e deve ser levada muito a sério.
Além disso, é importante que se leve em consideração também as técnicas a serem
utilizadas. Para isso, é importante ter conhecimento básico de taxonomia, ecologia,
sistemática e bancos de dados que possam auxiliar no processo de detecção e identificação
(sugiro que reveja o tópico 1.1).

Volto a frisar que, no decorrer deste tópico, alguns aspectos éticos, metodológicos e
de discussões atuais sobre os inventários serão levantados e expostos para que você
faça uma leitura crítica e tire suas conclusões acerca do assunto.

Vocês já sabem que sou defensor de que o primeiro passo para o manejo e conservação
é o conhecimento acerca do objeto de estudo. No entanto, nesse ponto, podemos
citar uma problemática séria e importante de ser observada: “quem irá realizar esse
25
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

inventário?”. A seleção dos profissionais para inventários de vertebrados geralmente


é pautada nos interesses dos empreendedores em ter seus projetos aprovados.

Nesse ponto, surge uma discussão interessante para nossa formação: um profissional ético
não pode pautar suas atitudes e sua forma de trabalho em interesses exclusivamente do
contratante. Respondendo à nossa pergunta norteadora, o profissional que realizará o
inventário de vertebrados para o licenciamento ambiental precisa ter em mente que os
inventários possuem uma importância essencial para a avaliação dos impactos ambientais.

As listas da fauna são fundamentais na análide das solicitações de empreendimentos e


fornecem um panorama da fauna que existe naquele ambiente, além de informações
ecológicas, de conservação, relações ecológicas, e funciona como base para que os
analistas ambientais dos órgãos responsáveis possam fazer suas avaliações quanto à
viabilidade do estabelecimento naquela área.

Então, podemos dizer que os inventários de vertebrados são constituídos de uma listagem
com as espécies que ocorrem naquela área, com informações ecológicas, estatísticas,
de diversidade, abundância e importância, que servem como ponto norteador para a
avaliação dos analistas ambientais dos órgãos responsáveis pela emissão da LP, LI e LO.

Algumas problemáticas envolvidas são a escolha do(a) profissional que irá realizar o
inventário, pois exige que seja profissional habilitado, com conhecimentos básicos
de sistemática e de áreas correlatas, e que não se deixe influenciar totalmente pelos
interesses próprios do contratante, a fim de que o inventário seja imparcial, siga
metodologias eficientemente reconhecidas e levante dados corretos que funcionem
como guia para avaliação dos órgãos ambientais.

Diante disso, devemos nos atentar sobre a importância de quem faz e como faz o
inventário de vertebrados, pois isso fará total diferença na avaliação dos impactos que
serão causados nos ambientes. Ter a presente disciplina na sua formação fará total
diferença na sua carreira profissional e nas oportunidades que surgirão, bem como na
sua qualificação para a realização de inventários.

Outro ponto que devemos trazer à tona é a legislação brasileira. Segundo Silveira
et al. (2010, p. 3):
A legislação ambiental brasileira é considerada uma das mais avançadas do
planeta, embora a efetiva implementação de alguns dos seus pontos seja
motivo de controvérsias. Ainda assim, alguns dos setores que mais degradam
o meio ambiente tentam há anos propor alterações importantes segundo
os interesses do momento, sob o manto de “modernizá-la” ou “atualizá-la”.

26
O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Embora a legislação brasileira possua suas características importantes e relevantes


trazendo diretrizes gerais, alguns pontos ainda são tratados como certa superficialidade
e sem critérios muito bem estabelecidos, como é o caso dos inventários da fauna.
Isso pode levar a alguns problemas que podem ter proporções irreversíveis, já que
existe uma certa amplitude e indefinição dos critérios e metodologias a serem utilizadas.

Por essa razão, muitos trabalhos são conduzidos sem a criteriosidade dos estudos
científicos, com metodologias pouco efetivas e com pouco tempo direcionado ao
inventário. Geralmente, os órgãos ambientais é que definem os métodos, mas algumas
dessas metodologias não possuem tanta eficiência e as peculiaridades de cada grupo
taxonômico e do tamanho da área devem ser levados sempre em consideração.

As metodologias devem ser adaptadas e flexíveis, mas não podem excluir os conceitos
básicos e métodos gerais, pois, falhas na coleta, na escolha da metodologia e na análise
dos dados, podem gerar consequências ao meio ambiente que podem ser irreversíveis,
com a extinção de espécies localmente e mudanças nas relações ecológicas dos ambientes.

Convém destacar também que os órgãos ambientais possuem a função de fiscalizar a


realização dos inventários e todos os aspectos que estão envolvidos na realização dos
estudos que geram dados para avaliação dos impactos ambientais. A forma como é
realizado o desenho experimental e a metodologia a ser utilizada é vista como agente
passível a discussões e falaremos sobre isso na última unidade da nossa apostila.

Além desses, muitos outros aspectos podem ser discutidos e melhor desenvolvidos para
que os inventários possam responder às perguntas daquele ambiente e possam, de fato, ser
a base para a avaliação dos impactos que podem levar a consequências no meio ambiente.

Um inventário de vertebrados bem desenvolvido pode proporcionar discussões e


dados relevantes para os mais diversos grupos de vertebrados e suas relações com o
ambiente em que estão inseridos. O conhecimento sobre a temática pode ser a porta
de entrada para profissionais como você, e esperamos que, ao final da disciplina, você
conheça as bases do inventário de vertebrados, reconheça a importância das coleções
biológicas e conheça alguns bancos de dados sobre a fauna, mecanismos legais, o Sisbio
(próximo tópico) e algumas metodologias utilizadas em alguns estudos.

Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade


(Sisbio)

Para que os inventários da fauna sejam realizados, é necessário que, eventualmente,


sejam realizadas capturas e coletas de espécies da fauna, a fim de que sejam melhor
27
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

observadas as características morfológicas e métricas dos indivíduos, além de outras


características que auxiliam na identificação e observação das informações ecológicas.

No entanto, é importante seguir diretrizes éticas de contato com os animais nos


inventários, pois a captura, coleta in situ e ex situ, que iremos discutir na próxima
unidade necessitam de autorização do órgão ambiental responsável, para que a lei seja
cumprida e o empreendedor não tenha grandes problemas com a parte burocrática
envolvida no licenciamento ambiental.

Diante disso, dependendo do grupo a ser estudado e da metodologia aplicada, é


necessária a coleta de material biológico. Material biológico são organismos vivos ou
parte desses organismos, podendo ser material botânico, fúngico, microbiológico e
zoológico, segundo a Instrução Normativa n. 03/2014.

Então, dependendo das especificações do inventário da fauna, é necessário que haja


a solicitação de autorização para coleta/transporte de espécimes da fauna silvestre in
situ, coleta/transporte de amostras biológicas in situ, coleta/transporte de amostras
biológicas ex situ, captura de animais silvestres in situ, manutenção temporária (até 24
meses) de vertebrados silvestres em cativeiro e marcação de animais silvestres in situ.

A Unidade II é destinada apenas a explicar cada uma dessas atividades e traremos alguns
exemplos com imagens para melhor compreensão do que cada uma delas significa e
implica nos trabalhos de inventários de vertebrados.

Todas essas autorizações são emitidas pelo Sisbio, que é o Sistema de Autorização e
Informação em Biodiversidade. O Sisbio autoriza atividades com finalidade científica,
atividades com finalidade didática, licença permanente e registro voluntário para coleta
e transporte de material zoóligico, botânico, fúngico e microbiológico.

No entanto, vale ressaltar que as licenças permanentes não podem ser utilizadas para
fins comerciais diversos e para licenciamento ambiental. Dessa forma, as autorizações
possuem data de validade e o desenvolvimento das atividades devem cumprir os prazos
e as exigências do Sisbio e ICMBio.

Anteriormente, todos os protocolos referentes às solicitações eram organizados em


papel nas unidades regionais do Ibama. Você já deve imaginar as problemáticas que
isso causava, com a perda de documentações, duplicidade nos processos, altos custos
para compra de papel e tinta e a constante organização fisica necessária para as análises.

Além disso, as solicitações protocoladas em papel influenciavam no tempo em que


os processos tramitavam, sendo necessário um planejamento a médio e longo prazos

28
O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

para a realização dos estudos e obtenção da Licença de Instalação, já que cada unidade
possuía seus meios próprios de tramitação dos processos e documentações.

Com o avanço de tecnologias de armazenamento em nuvem e integração de banco de


dados, em 2008, o Ministério do Meio Ambiente conferiu ao ICMBio a responsabilidade
de gerir o Sisbio. Atualmente o Sisbio é um sistema de atendimento à distância que
permite que os pesquisadores de diversas áreas solicitem as autorizações para coleta
e captura de material biológico.

Uma das principais funções do Sisbio é permitir que o ICMBio consiga gerir as
informações resultantes das pesquisas realizadas para que esses dados sejam aplicados
na conservação da biodiversidade brasileira. Segundo texto disponível na página inicial
do Sisbio (https://www.icmbio.gov.br/sisbio/), “a integração dos dados gerados será
relacionada a uma base cartográfica digital, provendo, assim, mecanismos de difusão
de informação sobre a biodiversidade para a comunidade científica, tomadores de
decisão, formuladores de políticas ambientais e educadores”.

Por ser um sistema automatizado, simplificado e on-line, o Sisbio conseguiu melhorar


o atendimento e a prestação dos serviços. Além disso, o sistema trabalha de forma
descentralizada, o que configura avanço nas solicitações e diminuição do tempo de
espera desde a solicitação até a autorização propriamente dita.

Vale ressaltar que o sistema está interligado à Plataforma Lattes do Conselho Nacional
do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em se tratando das pesquisas,
isso fornece ao ICMBio um perfil dos pesquisadores solicitantes e informações sobre
as pesquisas em execução, o que será importante para a avaliação do conhecimento
produzido em biodiversidade.

Dessa forma, esses dados poderão ser utilizados para implementação de políticas
públicas e funcionará como base para os tomadores de decisão a nível local e nacional.
Segundo o Manual do Usuário do Sisbio, disponível em https://www.icmbio.gov.
br/portal/images/stories/servicos/sistemas/manual.pdf, o sistema proporciona a
unificação das normas que tratam do uso de recursos naturais e do acesso a unidades de
conservação federal para fins científicos e didáticos; a uniformização de procedimentos
administrativos e a otimização de recursos humanos; e a celeridade e transparência
do processo de concessão de autorizações.

Além disso, o Sisbio fornece a regulamentação da licença permanente para coleta de


material zoológico ou de recursos pesqueiros; a implementação do registro voluntário
para coleta de material botânico, fúngico e microbiológico; a anotação da coleta
29
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

imprevista de material biológico ou de substrato não contemplado na autorização


ou na licença; o recolhimento de animais mortos para aproveitamento científico ou
didático; a sistematização de informações sobre a diversidade biológica brasileira a
partir dos registros de coleta e de pesquisas executadas em unidades de conservação; e o
estabelecimento de parcerias entre o ICMBio e os órgãos estaduais do meio ambiente.

Quanto ao inventário de vertebrados para o licenciamento ambiental, em dezembro de


2014, foi publicada a IN Conjunta n. 1. Ela estabelece procedimentos entre o ICMBio
e o Ibama para o manejo e conservação de espécies da fauna silvestre brasileira.

A Instrução Normativa ICMBio/Ibama n. 1, de dezembro de 2014, traz informações


pertinentes sobre o licenciamento ambiental que podem ser relacionadas aos
estudos de impactos ambientais e de conhecimento da biodiversidade como os
inventários de fauna, especificamente de animais vertebrados.

Dessa forma, sugiro a você o estudo complementar sobre a IN, já que conhecer os
meios legais e normas administrativas que abrangem de forma direta ou indireta
os inventários, poderá lhe proporcionar uma base teórica fundamental ao seu
crescimento profissional.

A IN está disponível na íntegra no link:

https://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/legislacao/Instrucao_
normativa/2014/in_icmbio_ibama_01_2014_procedimentos_entre_icmbio_ibama_
manejo_conserva%C3%A7%C3%A3o_fauna_br.pdf.

Quanto à IN n. 1, de 2014, podemos destacar o Capítulo I: Das disposições gerais, que


diz:
Art.1º Estabelecer, no âmbito do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA e do Instituto Chico Mendes
de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, os procedimentos para o uso
compartilhado de informações e para a complementaridade das ações no
que se refere ao manejo e à conservação da fauna silvestre.

Parágrafo único. O uso compartilhado de informações abrangerá o seu


aproveitamento para o licenciamento ambiental e para o controle sobre
os recursos faunísticos exercidos pelo IBAMA e para as ações de autorização,
monitoramento e conservação da biodiversidade promovidas pelo ICMBio.

Podemos destacar, ainda, o Capítulo IV: Dos procedimentos relativos ao compartilhamento


de informações, no qual está escrito:
Art. 13. Os dados relativos à fauna silvestre oriundos dos estudos, programas
de monitoramento e procedimentos de resgate de fauna vinculados ao
licenciamento ambiental federal serão depositados no Sisbio.

30
O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL? | Unidade I

Conhecer as bases legais sobre o licenciamento ambiental e aspectos pertinentes


ao inventário de vertebrados garantirá a você condições necessárias para uma boa
formação e uma base fundamental para que os trabalhos de inventários que você irá
realizar sejam pautados em diretrizes legais e em normas padronizadas.

O Sisbio fornece informações pertinentes, bem como métodos e diretrizes que deverão
ser seguidos nos inventários de vertebrados e nas solicitações para coleta, captura e
manutenção em cativeiro de forma temporária da fauna.

Como você irá perceber ainda, existe a necessidade de um contato direto com o objeto
de estudo e, em muitos casos, esse contato é de extrema importância para a correta
detecção e identificação do vertebrado em questão. Diferentemente disso, existem
algumas metodologias não padronizadas e que ignoram conceitos científicos, as quais
devem ser evitadas.

Se você reparar bem, já estamos falando sobre os métodos para inventários de


vertebrados para licenciamento ambiental desde o início da apostila. Um método é
um procedimento, uma técnica ou meio de fazer algo. Diante disso, podemos dividir
então em algumas etapas:

1. identificar quais os saberes que devo utilizar previamente sobre o assunto;

2. conhecer as coleções biológicas e os bancos de dados sobre a fauna que serão


úteis no desenvolvimento dos inventários para licenciamento ambiental;

3. saber o que é licenciamento ambiental;

4. saber o que são inventários e para que eles servem;

5. conhecer os princípios do Sisbio e a relação dele com o licenciamento


ambiental (que comentamos no presente tópico);

6. estudar as diretrizes do Sisbio para coleta, captura e transporte da fauna


silvestre in situ e ex situ (Unidades II e III);

7. conhecer os métodos de amostragem e planos de manejo.

Com esses sete principais passos, você conseguirá construir os conhecimentos acerca
do licenciamento ambiental e irá obter direcionamentos sobre algumas metodologias
e planos de manejo. É muito importante ter em mente que o objetivo não é que você
finalize a disciplina com uma “receita de bolo”, mas que tenha as bases teóricas sobre
o assunto.
31
Unidade I | O QUE SÃO INVENTÁRIOS DE VERTEBRADOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

A grande diversidade da fauna de vertebrados não permite que tudo seja padronizado
para todas as espécies. Existem as especificações e o Sisbio reconhece essa problemática
– por isso, todas as informações são bases que devem ser seguidas, apesar de existir o
espaço para as especificidades de cada inventário –, bem como reconhece a necessidade
de um bom delineamento ambiental e de metodologias a serem empregas.

Nesse contexto, o Sisbio é um importante mecanismo de “padronização” e autorização


de atividades que envolvem material biológico, auxiliando o ICMBio na fiscalização
e monitoramento das atividades que podem promover grandes impactos ao meio
ambiente, comprometendo seu equilíbrio e a manutenção da biodiversidade, como é
o caso dos empreendimentos que necessitam dos inventários de fauna para a obtenção
das licenças.

Nas próximas unidades, estudaremos sobre as diferentes diretrizes relacionadas aos


inventários de vertebrados, tendo como base as informações fornecidas pelo Sisbio
e pelo ICMBio com relação à coleta, captura, transporte e manutenção de espécimes
em cativeiro.

32
DIRETRIZES PARA
OBTENÇÃO DE DADOS UNIDADE II
IN SITU DA FAUNA

CAPÍTULO 1
Coleta, captura e transporte da fauna
silvestre

Coleta, captura e transporte da fauna silvestre

Visão geral

Na unidade anterior, conversamos principalmente sobre as coleções biológicas,


licenciamento ambiental, inventários da fauna com foco em animais vertebrados e
explicamos o que é o Sisbio e sua importância.
Comentamos que o Sisbio, junto com o ICMBio, são os órgãos que definem as diretrizes,
autorizações e procedimentos a serem seguidos quando se trata de material biológico.
Conhecer essas diretrizes é de extrema importância no inventário de vertebrados,
pois elas servem como guia no direcionamento dos métodos empregados durante o
desenvolvimento do trabalho.
Para que não seja necessária a repetição da fonte original de todas as informações que
constam no Sisbio, tomaremos por base as instruções normativas publicadas em 2014
e as leis complementares publicadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama).
Sempre que possível serão disponibilizados os links de acesso às INs e às leis
complementares para que você tenha acesso aos documentos na íntegra e possa montar
seu banco de referências que podem ser úteis durante a sua formação e no futuro.
Primeiramente, precisamos conceituar alguns termos, segundo a IN n. 03, de 2014,
disponível em
https://www.icmbio.gov.br/sisbio/images/stories/instrucoes_normativas/ICMBio-
Instru%C3%A7%C3%A3o_normativa_n%C2%BA_3_de_01-09-2014.pdf.

33
Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

Autorização: ato administrativo discricionário pelo qual o ICMBio autoriza o


interessado a realizar as atividades previstas no art. 3º, mediante apresentação de
projeto específico.

Captura: deter, conter ou impedir, temporariamente, por meio químico ou mecânico,


a movimentação de um animal, seguido de soltura.

Coleção biológica científica: coleção brasileira de material biológico devidamente


tratado, conservado e documentado de acordo com normas e padrões que garantam
segurança, acessibilidade, qualidade, longevidade, integridade e interoperabilidade
dos dados da coleção, pertencente à instituição científica, com objetivo de subsidiar
pesquisa científica ou tecnológica e a conservação ex situ.

Coleta: obtenção de organismo silvestre animal, vegetal, fúngico ou microbiano,


seja pela remoção do indivíduo do seu habitat natural, seja pela colheita de amostras
biológicas.

Instituição científica: instituição brasileira de ensino e pesquisa ou de pesquisa que


desenvolva atividades de pesquisa de caráter científico ou tecnológico.

Licença permanente: ato administrativo vinculado, pelo qual o ICMBio faculta ao


pesquisador o direito de realizar a captura, a coleta e o transporte de material biológico
de espécies da fauna silvestre por período indeterminado, desde que atendidos os
requisitos previstos na referida instrução normativa.

Material biológico: organismos ou partes destes.

Material biológico consignado: organismos ou partes destes registrados em uma


coleção biológica científica.

Pesquisador: profissional graduado ou de notório saber, que desenvolva atividades


de ensino ou pesquisa, vinculado à instituição científica.

Transporte: deslocamento de material biológico no território nacional, na plataforma


continental, no mar territorial ou na zona econômica exclusiva.

Outra informação relevante que precisamos saber antes de continuarmos é quanto


aos procedimentos em campo descritos na IN n. 03, no art. 18, que diz que o titular da
licença ou autorização e os demais membros do grupo devem direcionar suas atividades
ao grupo taxônomico de interesse e, sempre que possível, evitar a morte ou danos
significativos aos animais estudados e outros grupos.

34
Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

Coleta e transporte de espécimes da fauna silvestre


in situ

Consiste na obtenção do organismo silvestre animal, pela remoção do indivíduo do


seu habitat natural. O espécime silvestre é aquele indivíduo, independente do seu
táxon, que pertence às espécies nativas, migratórias, exóticas, aquáticas ou terrestres,
de ocorrência em território brasileiro, que tenham todo ou parte de seu clico de vida
ocorrendo no país, inclusive em suas águas.

A coleta de espécimes independe da finalidade e diz respeito à remoção total do indivíduo


do seu habitat, independentemente de onde tenha sido coletado e de sua destinção – se
para fazer parte do acervo de uma coleção científica (figura 7), criadouros, biotérios etc.

Figura 7. Coleção de aves da Smithsonian Institution.

Fonte: https://miro.medium.com/max/1000/0*YBLelXjkx0-UJ7ZN.jpeg.

Já o transporte está associado à coleta e diz respeito ao translado do indivíduo desde


o lugar onde foi coletado até o local de destino definido e informado. É importante
destacar que esse transporte só é permitido dentro dos limites brasileiros e o transporte
de espécimes entre países precisa ser autorizado pelo Ibama.

A coleta e transporte de espécimes pode ser combinada também com atividades de


captura e manutenção temporária em cativeiros que iremos discutir nos próximos
tópicos. A coleta com fins para coleções biológicas é realizada para confirmação de
que os organismos daquele táxon foram observados durante o inventário.

O registro de um espécime da área inventariada funciona como comprovação e não


há a necessidade de todos os indivíduos daquele táxon estudado serem coletados.
35
Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

O material de referência coletado serve como base de identificação e é suficiente para


obtenção de número de tombamento de uma coleção biológica.

A coleta e o eventual abate do espécime devem estar legalizados e autorizados pelo


Sisbio e devem levar em consideração os aspectos éticos para abate do animal em
questão, utilizando, para isso, métodos rápidos e eficazes (figura 8), a fim de evitar ao
máximo a dor e o sofrimento do espécime.

Dependendo do trabalho a ser executado e da metodologia a ser empregada, é necessário


que a pesquisa passe por um comitê de ética também para que essas peculiaridades sejam
discutidas. Na figura abaixo, temos um método que faz parte da coleta de espécimes e
gera algumas discussões e debates quanto à sua eficiência e ética.

Figura 8. Método de coleta por rede.

Fonte: https://docs.uft.edu.br/share/s/HZmqa_04SnirO84TqAy8lA.

A forma como o espécime será coletado dependerá da metodologia empregada no


inventário. Para cada tipo de organismo, existem métodos de coleta diferenciados e as
peculiaridades de cada grupo de vertebrados devem sempre ser levadas em consideração,
bem como o transporte também precisa seguir critérios e métodos.

Esses critérios são fundamentais para evitar que mais espécimes sejam coletados
para os diversos fins. Por exemplo, se você coletar um roedor e não armazenar esse
espécime corretamente, se não realizar a taxidermia ou outro método de conservação
da amostra, ele poderá servir de nutrientes para fungos e de alimento para insetos, o
que poderá levar à perda das características do animal e, dessa forma, o espécime não
servirá como material de referência para a espécie.

36
Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

Diante disso, a conservação é um processo que vai desde a coleta, passando pelo
transporte do espécime, até ele fazer parte, de fato, de uma coleção biológica.
Nesse contexto, o transporte incorreto pode acarretar em perda do espécime coletado
e isso implica perda de dinheiro e de tempo, que são fundamentais nos inventários
de vertebrados.

A coleta dos espécimes in situ é uma atividade muito comum nos inventários que levam
em consideração principalmente aspectos morfológicos. Essas análises da morfologia
do espécime geram dados importantes na identificação dos táxons e proporcionam
informações quanto ao tamanho e métricas de cada uma das partes que compõe o animal.

Essas morfometrias podem ser utilizadas para identificar se o espécime estava se


alimentando bem, se o desenvolvimento e crescimento estão em níveis normais, qual
a idade e demais dados que formam o perfil do espécime.

É muito importante destacar que os inventários são amostragens. Por serem


amostragens, não é conveniente e possível, dependendo do tempo, o levantamento
de todos os indivíduos que ocorrem no ambiente. São coletadas informações de
apenas um número limitado naquela faixa de tempo e espaço. A partir dos dados
gerados na amostragem, será feita a extrapolação dos dados para toda a população
e para a comunidade inventariada.

Esse número mínimo de espécimes a serem inventariados depende do órgão ambiental


e depende, principalmente, da área a ser utilizada. Dependendo do ecossistema em
que a área está inserida, esse número pode se modificar para atender à realidade local
e não comprometer mais ainda as relações ecológicas que existem no ambiente.

Em alguns estudos, além da obtenção de informações sobre a morfologia do animal


e da necessidade de se coletar os espécimes para comporem uma coleção biológica e
científica, são necessárias também amostras biológicas para serem realizadas análises
de anatomia e análises genéticas e filogenéticas, a fim de que sejam avaliadas outras
informações pertinentes sobre a espécie ou até mesmo para garantir a autenticidade
da identificação do táxon.

Coleta e transporte de amostras biológicas in situ

Como dito no tópico anterior, em algumas situações, é necessária a coleta de amostras do


espécime, além da coleta do espécime completo. Em alguns casos, a coleta do espécime
é acompanhada da coleta de uma amostra biológica e, em outros casos, é feita apenas
a coleta da amostra biológica.
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Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

Diferente da coleta de espécimes da fauna, na coleta e transporte de amostras biológicas,


é feita a retirada de partes dos espécimes silvestres, nativos ou exóticos, como fragmentos
de tecido, amostras de secreções ou substâncias, por exemplo, amostras de mucosa,
urina, fezes (figura 9) etc.

Figura 9. Fezes de morcegos.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/bat-guanopoop-on-ground-house-thats-1213455484.

Por ser in situ, isso implica dizer que essa coleta acontecerá na natureza, ou seja, no
local da coleta. É importante destacar que a coleta das amostras não quer dizer que,
necessariamente, haverá a captura ou coleta do espécime. Podemos citar ainda alguns
outros exemplos como coleta de amostras de tecido de baleiras com balestra (figura
10), coleta de penas, amostras de sangue (figura 11) e regurgitações, entre outras.

Figura 10. Arma chamada balestra utilizada para coleta de tecidos a curta e média distâncias.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/crossbow-that-takes-skin-fat-samples-1670168722.

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Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

Quanto à coleta e transporte de amostras biológicas, a metodologia a ser empregada e


o método de transporte é que determinarão se a amostra coletada será útil e suficiente
ou se haverá a necessidade de realização de uma nova coleta, o que é desaconselhável
dependendo do grupo estudado.

Pode parecer óbvio, mas não é tão simples assim. Cada grupo de vertebrados possui
suas peculiaridades de tamanho, comportamento e composição genética. Portanto, a
técnica a ser empregada deve levar todos os aspectos em consideração para que seja
feita de maneira rápida e eficiente. Vamos usar os três exemplos das últimas figuras
da apostila, as figuras 9, 10 e 11.

Na figura 9, é possível observar as fezes de morcego. Parece algo nojento e asquerozo,


mas as fezes dos animais dizem muito sobre a espécime. Em trabalhos de Ecologia que
visam à conservação, alguns grupos de animais têm seu conteúdo estomacal e fezes
observadas e analisadas criteriosamente.

A maioria das espécies de morcegos são frugívoras. Esses animais são dispersores de
várias espécies de plantas, pois se alimentam dos frutos e acabam levando as sementes
para longe da árvore mãe. Nesse caso, ambas as espécies são beneficiadas e isso é bom
para o equilíbrio do ambiente e manutenção da biodiversidade nos ecossistemas.

Por meio das fezes dos morcegos, será possível detectar de quais espécies o indivíduo
se alimenta, se ele possui uma alimentação específica – e, nesse caso, deve-ser ter um
cuidado ainda maior em observar todas as características possíveis e tentar reconhecer
qual a espécie de planta que o morcego interage – ou se ele possui uma alimentação
mais generalista.

Além disso, dependendo do esforço amostral da pesquisa, esses dados podem


ser extrapolados para a comunidade e isso pode levar a dados importantes que
serão utilizados no manejo e na conservação daquele ambiente em específico.
Convém destacar ainda que a coleta das fezes pode proporcionar dados sobre a saúde
daquela população de morcegos e essa coleta da amostra não implica necessariamente
coleta do espécime.

No caso que estamos comentando, a coleta das fezes pode ser realizada com a amostra
já no solo, como é o caso da figura 9, ou podem ser coletadas a partir da captura do
espécime e indução do defecamento, para que se tenha o controle de qual espécie é
aquela amostra e, dessa forma, fazer a observação das características morfológicas do
animal e coletar a amostra biológica dele.
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Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

Perceba que existe uma diferença entre o que é coletar e o que é capturar um animal,
diferença que será explicada no próximo tópico quando falarmos sobre captura de
animais silvestres na natureza.

O outro exemplo que ilustrei na figura 10 é quanto à coleta de tecidos de baleias, fazendo-
se uso de uma balestra ou crossbow. Podemos destacar a diferença de metodologia na
coleta das amostras para os diferentes grupos. Eu trouxe esses três exemplos de grupos
diferentes para que você consiga observar que as peculiaridades precisam ser levadas
em consideração.

No caso das baleias, as regras, leis e acordos são diferenciados e são coordenados pela
Comissão Internacional da Baleia (IWC, sigla em inglês). É proibida a coleta de baleias
e a caça para fins comerciais, mas alguns poucos países possuem permissão de caça
para fins científicos.

Alguns desses países usam esse pretexto científico para caçar e comercializar os animais.
Essa é uma discussão antiga que envolve muitos aspectos políticos, comerciais e culturais
e sugiro que você leia o “saiba mais” sobre o assunto, disponível na apostila, para que
você tenha uma ideia geral das problemáticas desse grupo de vertebrados, embora seja
incomum a relação desses animais com inventários para licenciamento ambiental.

A Comissão Internacional da Baleia (CBI) é o organismo global encarregado da


conservação e do manejo das baleias. A Comissão conta com 88 governos membros
de países de todo o mundo.

Ela foi criada em 1946 e é reponsável pela regulamentação da caça às baleias,


além de questões que envolvem a conservação, perturbações e distúrbios nos
ambientes aquáticos, bem como questões científicas.

Para saber mais, acesse a página oficial da Comissão Internacional da Baleia,


Disponível em: https://iwc.int/home.

Como dito, embora seja quase inexistente um inventário que vá avaliar baleias, trouxe
esse exemplo para que você perceba as diferenças de coleta das amostras, dependendo
do grupo de animais. Como existem proibições e muitas discussões sobre a caça e coleta
de baleias para os diversos fins, alguns grupos de pesquisas desenvolveram técnicas e
adaptaram o uso de equipamentos para resolver as problemáticas da coleta de amostras
em vertebrados de grande porte.

No exemplo das baleias, algumas coletas eram realizadas após o abate do animal para
retirada de órgãos, tecidos e flúidos, mas, como você pode perceber, esse tipo de coleta

40
Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

é nada sustentável e pode por em risco o equilíbrio do ambiente e diminuir a população


da espécie estudada. Para isso, os pesquisadores fazem uso da balestra para coleta de
tecidos das baleias a curta e a média distância.

Esse tipo de arma é importante, pois não é necessária grande habilidade em disparos
e nem é preciso que haja uma mira calibrada, já que os animais são muito grandes e
a coleta pode ser feita em toda a parte dorsal do animal. Se formos coletar tecidos de
um mamífero terrestre como uma onça, essa técnica de coleta de amostras não seria
eficiente e colocaria em risco a vida do pesquisador, sendo necessária, portanto, uma
técnica diferenciada.

Figura 11. Coleta de amostra de sangue de tartaruga cabeçuda.

Fonte: https://www.tamar.org.br/fotos/cabecuda-coelta-de-dados.jpg.

A figura 11 ilustra a coleta de sangue de uma tartaruga cabeçuda para análises diversas,
dentre elas a análise de hibridismo e de possíveis doenças. É outro exemplo de animal
que provavelmente você não precisará lidar nos inventários de vertebrados, mas ele
pode ser usado como exemplo de quando só a coleta do material biológico já fornece
dados importantes para a identificação dos táxons e de características do espécime e
da espécie estudada.

Na próxima unidade, traremos exemplos de metodologias direcionadas aos vertebrados


em ambientes terrestres que são os mais comuns de serem encontrados nos inventários
para licenciamento ambiental.

Antes de passarmos para o próximo tópico, faz-se necessário destacar que, em todas as
coletas de material biológico e especificamente nesses exemplos citados, o transporte é

41
Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

um ponto crucial para a qualidade e viabilidade das análises das amostras. Dependendo
do material biológico, o cuidado deve ser redobrado no armazenamento e na preparação
para o transporte até o seu destino.

No caso das fezes do morcego, o cuidado maior é em ensacar ou reservar as amostras


com etiquetas de identificação e com o número de coleta, para que haja o controle das
amostras e para que esse conteúdo não se misture com outros ou se perca durante o
transporte. Ainda usando os morcegos como exemplo, geralmente os levantamentos
para esse grupo são realizados à noite e as amostras precisam ficar armazenadas por
muitas horas, até a chegada ao lugar onde serão triadas.

Já as amostras de tecidos de animais aquáticos, como as baleias, amostras de tecidos


ou de sangue, dependendo da necessidade de observação, devem ser condicionadas
em temperaturas específicas para evitar que as células morram e isso impossibilite as
análises e observações. Além disso, dependendo do tipo de tecido coletado, as amostras
são armazenadas em recipientes de vidro e o transporte tem que ser feito com cautela
e em reservatórios protegidos de grandes impactos.

Nas amostras de sangue das tartarugas, por exemplo, esse cuidado deve ser ainda
mais criterioso. Geralmente, as tartarugas só vão à praia para desova e a perda de
uma amostra biológica implica recoleta, mas, às vezes, essa nova coleta pode ser
impossibilitada a curto e médio prazos pelos hábitos do animal. Ademais, a perda
da amostra significa a perda dos dados daquele espécime de forma permanente em
alguns casos.

Vale ressaltar que tanto a coleta de espécimes quanto a coleta de amostras biológicas
devem seguir metodologias específicas e deve haver repetição de coletas em épocas
do ano diferentes. Isso porque algumas espécies são mais comuns de aparecerem em
períodos chuvosos, por exemplo, e, se o inventário tiver sido realizado no período
de seca, pode ser que o levantamento seja subamostrado e não represente de forma
fidedigna aquela comunidade. A exemplo disso podemos citar anfíbios, répteis e alguns
animais fossoriais.

Captura de animais silvestres in situ

Diferentemente da coleta dos espécimes, a captura do vertebrado no seu habitat diz


respeito à detenção, contenção ou impedimento, de forma temporária, por meio de
químicos ou de forma mecânica, para barrar a movimentação do espécime, seguida
de sua soltura no ambiente.

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Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

É muito comum que, nos inventários de vertebrados, no desenvolvimento do mesmo


trabalho, aconteçam a coleta do espécime, a coleta de material biológico e a captura.
Uma atividade não impede a realização da outra no levantamento das espécies.
Se compararmos as três atividades descritas até aqui, a mais comum de acontecer é a
captura dos animais.

Isso porque a coleta do espécime só ocorre para servir como comprovação da observação
da espécie, para composição de acervos ou para realocamento em viveiros durante o
manejo da fauna, por exemplo. Da mesma forma, a coleta do material biológico ocorre
também em um número definido de indivíduos, por conta das restrições orçamentárias
recorrentes em trabalhos de inventários e pela eficiência na avaliação do material.

Lembrando mais uma vez que os inventários são baseados em amostragem, isso implica
dizer que será observada apenas uma parcela da comunidade e os dados gerados serão
extrapolados a partir de análises ecológicas estatísticas, para que a comunidade como
um todo seja contemplada e o perfil seja elaborado.

Depois que são obtidos exemplares da fauna e são coletadas as amostras biológicas, a
identificação e observação dos animais são feitas pela captura. O espécime é capturado
e imobilizado, dependendo da espécie. A partir disso, são observadas as características
necessárias para a detecção e identificação de cada táxon. Após serem realizadas essas
análises visuais, os animais são soltos novamente no seu habitat.

Em alguns casos específicos, é necessário haver o monitoramento dos espécimes. Então,


além da captura dos espécimes no seu ambiente natural, é preciso que haja a marcação
dos animais também. Os inventários de vertebrados geralmente são feitos de forma
pontual em um determinado período do ano. O ideal seria que tivesse a repetição,
como eu expliquei anteriormente, e, em alguns casos, que houvesse o monitoramento
desses animais também.

No caso dos inventários para fins de licenciamento ambiental, o monitoramento é


pouco frequente pela necessidade de agilidade nos processos e de obtenção das licenças
que possuem prazo de validade. Além disso, esse inventário mais completo e elaborado
demanda mais recursos financeiros que, na maioria dos casos, é o contrário do que os
empreendedores desejam.

No entanto, é importante citar a marcação de animais silvestres in situ, para caso algum
dia seja necessária a realização dessa atividade no desenvolvimento do seu trabalho
e você tenha o conhecimento básico do que se trata. A marcação dos vertebrados na
natureza consiste na identificação dos indivíduos no seu habitat natural.
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Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

Essa marcação é diferente, dependendo do táxon analisado, e pode ser feita de diversas
formas, devendo, obrigatoriamente, ser descrita na metodologia do projeto e nos
relatórios oriundos dos inventários. A marcação dos espécimes geralmente está
associada à captura dos indivíduos e pode ser utilizada para o monitoramento das suas
relações, crescimento e desenvolvimento. Além disso, a marcação pode ser utilizada
também para localização geográfica dos organismos que percorrem longas distâncias.

Um exemplo que podemos usar para elucidar organismos que frequentemente são
marcados para monitoramento são as aves (figura 12) em trabalhos conservacionistas.
No caso específico das aves, é usado com frequência o anilhamento, que consiste no
uso de anilhas (semelhantes a anéis). Essas anilhas são marcadas com uma letra, que
representa o diâmetro da anilha, e com números que não se repetem, que representam
a identidade única para cada ave anilhada. Esse padrão é o adotado pelo ICMBio por
meio do Sistema Nacional de Anilhamento de Aves Silvestres.

Figura 12. Marcação em ave por meio de anilhamento.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/bird-ringing-scientist-hands-587956547.

Em qualquer trabalho realizado em campo, existem algumas orientações que


podem facilitar o desenvolvimento do trabalho e a organização dos dados obtidos.
A lista continuada abaixo pode ser um direcionamento básico do que é necessário
em todo inventário de vertebrados.

É muito importante que o profissional disponha de uma caderneta de campo para


anotação das informações sobre os espécimes, além de equipamentos eletrônicos
que têm a função de anotação. Isso é importante pelas condições adversas dos
ambientes que podem ser trabalhadas, como a falta de energia para carregar os
eletrônicos e, em muitas ocasiões, a falta de abrigo em caso de chuvas.

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Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

O uso de caderneta de campo com anotações preferencialmente em papel à


prova de água ou em papel comum escrito à lápis pode ser um facilitador na
manutenção das informações. Outros equipamentos básicos muito importantes
são: lupa, binóculos, luvas (dependendo do animal é importante utilizar), câmera
fotográfica, paquímetro, balança de mão e equipamentos de proteção individual.

Além das capturas, coletas de espécimes e de amostras biológicas no habitat natural


dos vertebrados, é possível a realização de coleta e transporte de amostras biológicas
ex situ, além de manutenção temporária de vertebrados silvestres em cativeiro para
diversos fins. Citaremos alguns desses fins nos próximos tópicos.

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CAPÍTULO 2
Coleta, transporte e manutenção
de espécimes em cativeiro

Coleta, transporte e manutenção de espécimes


em cativeiro

Coleta e transporte de amostras biológicas ex situ

No capítulo anterior, nós falamos sobre características da captura, coleta de espécimes


e de materiais biológicos in situ, ou seja, na natureza. Em determinadas situações, o
levantamento de forma completa sobre as informações da espécie não é possível em
campo, sendo necessária a coleta de amostras biológicas ex situ, ou seja, fora do habitat
natural daquele animal.

A coleta e transporte de amostras biológicas ex situ se refere à retirada de partes do


animal, fragmentos de tecido, amostras de secreções ou substâncias de animais silvestres
mantidos em condições fora do seu habitat natural, ou seja, em cativeiro. Essas amostras
podem ser, por exemplo, tecido, sangue (figura 13), fezes, pelos e fluidos corporais
obtidos de animais em criadouros, zoológicos e centros de reabilitação.

Figura 13. Coleta anual de sangue de tigre para monitoramento.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/annual-blood-sample-collection-tigers-health-1625216347.

Nos casos de transporte de amostras biológicas coletadas ex situ, o transporte é mais


controlado e sequenciado, e os riscos de perda da amostra diminuem. Isso porque
geralmente são ambientes laboratoriais também e, nesse tipo de espaço, existem regras
de segurança muito bem delimitadas, a fim de evitar a perda do material biológico pela
contaminação ou pela ineficiência na coleta.
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Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

Dependendo do ecossistema em que a área a ser inventariada está inserida, a coleta


dos animais, manutenção em cativeiro e coleta do material biológico só é realizada
depois da listagem prévia das espécies que ocorrem no ambiente.

É importante destacar que todos esses processos e atividades podem ser integralizados
e fazer parte do mesmo inventário de vertebrados. Essas delimitações e especificidades
são feitas para garantir o controle e para englobar cada uma das peculiaridades de
coleta, transporte, captura e manutenção da fauna em cativeiro. Precisamos ter em
mente que essa burocracia tem a principal função de cuidar e prover a manutenção da
biodiversidade da fauna brasileira, a fim de promover um desenvolvimento sustentável.

Portanto, conhecer o que são essas atividades e saber quais os órgãos ambientais
responsáveis pela avaliação e autorização de cada uma delas é de suma importância para
a construção das bases do profissional que trabalha com manejo e conservação da fauna
silvestre e exótica, com foco em inventários de vertebrados para licenciamento ambiental.

Diante disso, em alguns casos em que é necessário o manejo dos animais depois do
inventário de vertebrados para o licenciamento ambiental, a realocação da fauna
para condições ex situ se faz necessária e novas autorizações precisam ser emitidas.
Os órgãos ambientais responsáveis pelas autorizações são o Sisbio, ICMBio e Ibama,
que possuem regras e normas específicas para cada caso.

Manutenção temporária de vertebrados silvestres


em cativeiro

Quando se faz necessário, existe a possibilidade de manter os espécimes vertebrados


em cativeiro por tempo determinado. Esse tipo de atividade pode ser feita para meios
científicos de pesquisa, licenciamento ambiental, controle sanitário, análises genéticas
moleculares para avaliação de doenças etc. Pode também ter um viés conservacionista,
como os centros de reabilitação, e um viés econômico para venda e visitação.

A manutenção temporária de vertebrados implica manter o espécime em cativeiro


por até dois anos. Para que seja liberada a autorização de manutenção em cativeiro
dos espécimes vertebrados silvestres é necessário que todas as condições em que os
espécimes serão mantidos sejam explicitadas e explicadas junto à solicitação.

O solicitante deve informar as condições das instalações, do manejo e especificação sobre


a destinação dos espécimes. O Sisbio não tem legalidade para autorizar a manutenção
de espécimes vertebrados em cativeiro por tempo superior a dois anos, sendo papel
oficial do Ibama a autorização para limite superior a 24 meses.
47
Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

Essa autorização superior a dois anos é dada pelos órgãos estaduais ou distritais ou
ainda pelo Ibama. Dependendo da finalidade e do tipo de análises que serão realizadas,
quando para fins científicos, o ICMBio pode solicitar ao pesquisador o parecer do
Comitê de Ética no Uso de Animais.

Essas medidas se tornam fundamentais no controle das atividades que envolvem os


animais vertebrados, a fim de evitar o tráfico de animais silvestres e a introdução dos
espécimes em ambientes diferentes do seu de origem, visando sempre à manutenção
da biodiversidade nativa e equilíbrio dos ecossistemas.

Diante disso, é a Instrução Normativa-ICMBio n. 03, de 2014, que estabelece a


obrigatoriedade de obtenção de autorização para manutenção dos espécimes da
fauna silvestre em condições ex situ. Já quando o tempo solicitado é superior a 24
meses, a autorização é obtida mediante a Instrução Normativa-Ibama n. 07, de abril
de 2015.

A IN n. 07, disponível em https://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/legislacao/


Instrucao_normativa/2015/in_ibama_07_2015_institui_categorias_uso_manejo_fauna_
silvestre_cativeiro.pdf, institui e normatiza as categorias de uso e manejo da fauna
silvestre em cativeiro, e define, no âmbito do Ibama, os procedimentos autorizativos
para as categorias estabelecidas.

Nessa mesma instrução normativa, são adotadas conceituações destinadas a ambientes


ex situ que são importantes de serem conhecidas e de estarem registradas na apostila
para o rápido acesso aos termos e a suas definições e para melhor associação das
informações referentes à coleta e transporte de material biológico ex situ.

Centro de triagem de fauna silvestre: empreendimento de pessoa jurídica de


direito público ou privado, com finalidade de receber, identificar, marcar, triar, avaliar,
recuperar, reabilitar e destinar fauna silvestres provenientes da ação da fiscalização,
resgates ou entrega voluntária de particulares, sendo vedada a comercialização.

Centro de reabilitação da fauna silvestre nativa: empreendimento de pessoa


jurídica de direito público ou privado, com finalidade de receber, identificar, marcar,
triar, avaliar, recuperar, reabilitar e destinar espécimes da fauna silvestre nativa para
fins de reintrodução no ambiente natural, sendo vedada a comercialização (figura 14).

Comerciante de animais vivos da fauna silvestre: estabelecimento comercial


de pessoa jurídica, com finalidade de alienar animais da fauna silvestre vivos, sendo
vedada a reprodução.

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Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

Figura 14. Centro de reabilitação de primatas.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/sandakan-malaysia-circa-february-2020-morning-1726996942.

Comerciante de partes produtos e subprodutos da fauna silvestre: estabelecimento


comercial varejista de pessoa jurídica, com finalidade de alienar partes, produtos e
subprodutos da fauna silvestre.

Criadouro comercial: empreendimento de pessoa jurídica ou produtor rural, com


finalidade de criar, recriar, terminar, reproduzir e manter espécimes da fauna silvestre em
cativeiro para fins de alienação de espécimes, partes, produtos e subprodutos (figura 15).

Figura 15. Criadouro de serpentes para obtenção de pele.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/snake-skin-drying-sun-581701354.

Mantenedouro de fauna silvestre: empreendimento de pessoa física ou jurídica,


sem fins lucrativos, com a finalidade de criar e manter espécimes da fauna silvestre
em cativeiro, sendo proibida a reprodução, exposição e alienação.

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Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

Matadouro, abatedouro e frigorífico: empreendimento de pessoa jurídica, com a


finalidade de abater, beneficiar e alienar partes, produtos e subprodutos de espécimes
de espécies da fauna silvestre.

Jardim zoológico: empreendimento de pessoa jurídica constituído de coleção de


animais silvestres mantidos vivos em cativeiro ou em semiliberdade e expostos à
visitação pública, para atender a finalidades científicas, conservacionistas, educativas
e socioculturais (figura 16).

Figura 16. Tigre em zoológico no Rio de Janeiro.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/tiger-zoo-rio-de-janeiro-1425005603.

Criadouro científico para fins de conservação: empreendimento de pessoa jurídica


ou pessoa física, sem fins lucrativos, vinculado a plano de ação ou de manejo reconhecido,
coordenado ou autorizado pelo órgão ambiental competente, com finalidade de criar,
recriar, reproduzir e manter espécimes da fauna silvestre nativa em cativeiro para fins
de realizar e subsidiar programas de conservação e educação ambiental, sendo vedada
a comercialização e exposição.

Criadouro científico para fins de pesquisa: empreendimento de pessoa jurídica


vinculada ou pertencente a instituição de ensino ou pesquisa, com finalidade de criar,
recriar, reproduzir e manter espécimes da fauna silvestre em cativeiro para fins de
realizar ou subsidiar pesquisas científicas, ensino e extensão, sendo vedada a exposição
e comercialização a qualquer título.

Por fim, convém evidenciar que todas essas informações encontradas na Unidade II
podem ser importantes para inventários de vertebrados com finalidade de licenciamento
ambiental, mas podem ser aplicadas também para inventários e levantamentos da fauna

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Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

para fins conservacionistas ou de subsídio para ações governamentais e tomadores


de decisão.

Ética animal

Quando falamos de coleta e transporte de espécimes e de material biológico,


principalmente no âmbito dos inventários de vertebrados com finalidades direcionadas
ao licenciamento ambiental, é sempre importante e necessário levarmos em conta
aspectos éticos profissionais, mas também precisamos ter em mente a ética animal.

A visão de que os animais são coisas não vem de agora. Há muitos séculos, os filósofos e
pensadores já discutiam sobre questões envolvendo respeito e cuidados com os animais.
Se formos estudar a temática da ética animal na sociedade e no desenvolvimento da
ciência, existem contáveis trabalhos, já que não é um assunto muito bem discutido
e muitas das vezes evitado pelas polêmicas e grandes debates que cercam a temática.

Existem vertentes diferentes de discussões e pensamentos sobre essa temática, mas


considero muito importante que esse tema faça parte da nossa apostila para que
possamos ter em mente que existem especificações quanto ao trato com os animais e
quanto à ética na escolha de metodologias.

Para início, na Constituição Brasileira de 1988, existe uma norma de proteção aos
animais que proíbe toda e qualquer forma de crueldade. Trata-se de uma norma
geral onde não existem especificações quanto aos tipos de animais, espécies, grupos
taxonômicos etc. Então, em tese, todos os animais devem ser tratados sem crueldade.

Com base nisso, muitos órgãos ambientais fazem questão de delimitar regras, normas
e metodologias para que haja o controle no manejo e no trato desses animais nas
pesquisas de diversas áreas, como já discutimos previamente no tópico passado.
O órgão ambiental avaliará a solicitação do pesquisador quando precisar lidar diretamente
com os animais no desenvolvimento de algum trabalho.

Convém destacar a ética animal pelo contexto das nossas discussões em inventários
de vertebrados, pois a metodologia a ser empregada deve ser bem pensada e não pode
deixar de levar em consideração esses aspectos éticos tanto dos animais quanto do
profissional que está realizando o inventário.

Antigamente, muitos trabalhos não levavam em conta esse cuidado no trato com
os animais e muitos espécimes morriam para que fossem desenvolvidas pesquisas e
trabalhos pontuais. Como não havia o cuidado com a escolha das metodologias a serem

51
Unidade II | Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna

empregadas, muitos indivíduos eram sacrificados sem que houvesse necessariamente


essa precisão para obtenção dos dados e desenvolvimento da pesquisa em questão.

Além do cuidado no trato com os animais nos trabalhos a serem desenvolvidos, como
os inventários de vertebrados, outra questão que merece nossa atenção é que, nesse
tipo de levantamento, a otimização do tempo e a praticidade das atividades a serem
desenvolvidas são prioridade. É importante que saibamos definir a metodologia
adequada e também que essa metodologia seja prática, usual, eficiente e ética em todos
os quesitos possíveis.

As discussões sobre ética envolvendo a natureza e os animais possuem origem na


observação de como as ações humanas podem interferir no equilíbrio dos ambientes.
Como já discutimos, os inventários fazem parte dos processos de obtenção de licenças
no âmbito do licenciamento ambiental e visam traçar um perfil e organizar dados
relevantes para avaliação se aquele empreendimento é viável ou não.

Nesse contexto, detectar e avaliar como as ações humanas naquele local irão influenciar
na fauna de vertebrados que vivem ali já é por si só uma atitude ética. O fato de existir
órgãos ambientais que monitoram e avaliam os casos e o fato de o licenciamento
ambiental ser obrigatório, dependendo do empreendimento, já é um passo importante
no cuidado com o meio ambiente e com a diversidade de espécies da fauna e flora que
vivem naquele local.

O nosso papel enquanto profissionais da área é agir de forma a diminuir os danos aos
animais e desenvolver nossas atividades de forma ética, desde a observação inicial
do trabalho a ser desenvolvido, passando pela metodologia a ser empregada, até a
realização de relatórios e pareceres técnicos.

Obviamente, as discussões sobre ética animal não se resumem ao que foi comentado
nesse tópico. Existem muitas vertentes e pautas que geram discussões e debates que são
interessantes de serem feitos, principalmente no âmbito científico e áreas próximas.
A nossa intenção neste curto tópico é lembrar você de que o fato de estar trabalhando com
animais é um ponto importante de reflexão sobre nossas ações enquanto profissionais
e sobre a forma como enxergamos o meio ambiente.

Dependendo do modo como lidamos com essas questões éticas, isso pode influenciar
positivamente no desenvolvimento do nosso trabalho e pode nos direcionar a uma
análise mais detalhada, cuidadosa, metodológica e racional dos dados obtidos nos
inventários de vertebrados.
52
Diretrizes para obtenção de dados in situ da fauna | Unidade II

É sempre importante lembrar que o papel geral principal do inventário de vertebrados


é oferecer dados sobre as espécies que ocorrem naquele ambiente, para que os analistas
ambientais possam realizar uma avaliação da viabilidade ou não do estabelecimento.
Nesse contexto, a forma como avaliamos e levantamos os dados pode ser crucial na
resposta positiva ou negativa dos órgãos ambientais.

O nosso papel nos inventários é muito importante e os aspectos citados no decorrer


do tópico devem ser levados em consideração para o melhor desenvolvimento do
levantamento das informações das espécies. Não podemos nos esquecer também de
que a disciplina faz parte do curso de manejo e conservação da fauna silvestre e exótica.

Então, pode acontecer de, na sua área, o inventário ter a presença também de espécies
exóticas e, mesmo quando essas espécies estiverem presentes, é importante a catalogação
e o levantamento dos dados de forma metodológica e ética. Por isso, é importante que
você não se esqueça dos assuntos das outras disciplinas que tratam exclusivamente
de espécies exóticas e invasoras, pois a associação das informações lhe proporcionará
melhor formação e melhor preparação para a atuação profissional na área.

Como evidenciado durante todo o tópico, conhecer os aspectos da ética animal


e da ética profissional no desenvolvimento dos inventários de vertebrados para
licenciamento ambiental é de suma importância para o melhor aproveitamento
dos dados e levantamento das informações sobre os vertebrados.

Estudar um pouco mais sobre essa temática se faz necessário diante da diversidade
morfológica, anatômica, comportamental e genética, entre outras, dos animais
vertebrados e das metodologias a serem empregadas para cada grupo de animais.

Diante disso, sugiro o estudo complementar a partir do artigo intitulado Ética


ambiental e proteção do direito dos animais, de autoria da Mestra em Direito
Constitucional, Daiane Baratela, publicado na Revista Brasileira de Direito Animal
em 2014.

Disponível em: https://portalseer.ufba.br/index.php/RBDA/article/


download/12119/8661.

53
METODOLOGIAS DE
AMOSTRAGEM UNIDADE III

CAPÍTULO 1
Diferentes métodos de amostragem
de vertebrados

Diferentes métodos de amostragem


de vertebrados

Visão geral

Discutimos nas duas unidades anteriores sobre coleções biológicas e banco de dados
da fauna, explicamos o que é o licenciamento ambiental, o que são inventários de
vertebrados e para que eles servem e comentamos sobre o Sistema de Autorização e
Informação em Biodiversidade (Sisbio).

Em seguida, nós conversamos sobre algumas diretrizes para obtenção de dados da


fauna in situ e ex situ. Falamos da captura, coleta e transposte de espécimes e de material
biológico in situ, discutimos sobre os aspectos relacionados à coleta e transporte de
material biológico ex situ, bem como sobre as bases legais da manutenção temporária
(até 24 meses) de vertebrados silvestres em cativeiro e da manutenção em cativeiro
por mais de 24 meses. Finalizamos a segunda unidade fomentando algumas reflexões
e ideias sobre a ética animal no contexto dos inventários de vertebrados.

Enquanto falávamos sobre a ética animal, mencionamos a relação da ética com


as metodologias a serem utilizadas para cada grupo de vertebrados, a fim de que
contemplassem as especificidades das espécies de vertebrados que possuem uma
grande plasticidade fenotípica e genética, além da diversidade comportamental e
de interações.

Essas questões sobre a escolha da metodologia para cada grupo de animais, a depender
dos dados que se quer levantar, é muito importante para a correta realização do
inventário de vertebrados para licenciamento ambiental.
54
Metodologias de amostragem | Unidade III

A presente unidade está destinada a tratar apenas sobre os diferentes métodos


de amostragem de vertebrados a partir de estudos de casos. Daremos prioridade
aos estudos publicados em revistas científicas, pois possuem critérios específicos,
revisões dos manuscritos por especialistas e regras delimitadas, para que
sejam publicados apenas resultados oriundos de metodologias usuais, sérias
e replicáveis.

Desse modo, sempre que possível, iremos disponibilizar o link de acesso ao artigo
para que você obtenha maiores informações sobre o trabalho desenvolvido. Como o
nosso foco é na metodologia utilizada, não iremos nos atentar muito às outras questões
relacionadas ao trabalho.

A forma de exposição dos dados se dará da seguinte forma:

1. problemática do trabalho e seu contexto;

2. grupo de vertebrados estudados;

3. metodologia utilizada; e

4. resultados possíveis de serem obtidos a partir da metodologia empregada.

A proposta é que você consiga ter acesso a pelo menos um estudo de caso para cada
grande grupo delimitado. Os grandes grupos que serão abordados são: mamíferos,
anfíbios e répteis, aves e peixes, não necessariamente nessa ordem de apresentação.
É importante destacar que, como os vertebrados possuem enorme diversidade,
não é possível esgotar todas as metodologias e grupos de animais na apostila.
Dessa forma, propiciaremos uma base teórica que lhe dará condições de buscar por
outras metodologias para suprir as necessidades específicas de cada grupo de vertebrados
na realização de inventários.

Estudo de caso 1: mamíferos terrestres

A problemática

Os mamíferos terrestres possuem uma variedade morfológica e comportamental


muito grande. Eles podem possuir nichos de poucos hectares a nichos de centenas de
hectares. Segundo Silveira et al. (2010, p. 7), “os mamíferos terrestres podem possuir
padrões temporais de uso muito variáveis, irregulares ou cuja regularidade só pode ser
identificada após longos períodos de estudo, como queixadas (Tayassu pecari); quatis
(Nasua naricae e Nasua nasua) e onças pintadas (Panthera onca).

55
Unidade III | Metodologias de amostragem

A maioria dos dados disponíveis sobre mamíferos diz respeito a pequenos mamíferos
europeus e pouco se sabe sobre os ciclos de variação populacional para médios e
grandes mamíferos brasileiros. Diante disso, é necessário que existam observações a
longo prazo para a detecção de mamíferos terrestres e, para isso, é direcionado grande
esforço amostral.

O grupo estudado

Diante disso, a metodologia que iremos descrever poderá ser utilizada para mamíferos
terrestres de médio e grande portes, a fim de que haja a observação da ocorrência das
espécies de vertebrados, tanto daquelas com hábitos diurnos quanto daquelas com
hábitos noturnos.

Para isso, a pesquisadora Beatriz de Mello Beisiegel publicou seu estudo junto com
outros autores no manuscrito Para que servem os inventários de fauna?, no qual os
autores realizaram um compilado de informações e estudos de casos que tomaremos
como base para algumas metodologias.

Você poderá ter acesso ao trabalho completo por meio do link https://doi.org/10.1590/
S0103-40142010000100015.

A metodologia utilizada

Para o estudo foi utilizada a amostragem contínua por armadilhas fotográficas. Para
isso, foram utilizadas sete a doze armadilhas fotográficas entre os períodos de 2006 a
2009 em uma grande área de Mata Atlântica no Parque Estadual Carlos Botelho em
São Paulo. Ao todo, o trabalho durou 1.165 dias, correspondendo a 39 meses, e fez
uso de 5.715 dias-armadilha em 78 pontos.

Esse tipo de metodologia possui a grande vantagem do monitoramento e levantamento


dos dados à distância. O pesquisador pode estipular períodos de tempo em que
irá ao campo obter as imagens capturadas e liberar espaço para novas capturas
de imagens.

Outra vantagem dessa metodologia é a possibilidade de inventariar espécies de diferentes


hábitos, tanto diurno quanto noturno. Além disso, essa metodologia permite a obtenção
de informações de animais que poderiam trazer algum risco à saúde do pesquisador,
como onças e jaguatiricas, se ele estivesse em campo.

Nesse caso, é muito importante se atentar à qualidade da câmera fotográfica que irá
ser utilizada, dando preferência àquelas à prova d’água, com função noturna e com

56
Metodologias de amostragem | Unidade III

excelente capacidade de armazenamento. No caso da pesquisadora Beatriz Beisiegel,


a câmera utilizada foi a Tigrinus modelo convencional (figura 17).

Figura 17. Armadilha fotográfica com sensor de movimentos.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/camera-traps-infrared-light-motion-detector-1091671829.

Uma possível desvantagem pode ser o tempo necessário para obtenção de dados
robustos, já que é um levantamento a longo prazo, por se tratar de mamíferos de
médio e grande portes e pelo investimento em aquisição das armadilhas fotográficas
fundamentais para a metodologia.

Os resultados obtidos

A partir dessa metodologia, a autora obteve 1.215 fotos e fez o uso dessas imagens
para a identificação dos táxons dos espécimes fotografados. A autora considerou como
uma única foto aquelas imagens de um mesmo espécime em um mesmo local em uma
faixa de tempo de até 10 minutos.

A partir das imagens, a autora analisou a sazonalidade e variação anual das taxas de
captura, ou seja, o número de capturas em cada estação ou ano e a frequência total
e mensal das capturas. No último ano da pesquisa, a autora inseriu uma armadilha
fotográfica próxima a uma estrada que não havia sido amostrada nos outros anos.

Após a inserção dessa nova armadilha, houve um aumento na captura de imagens de


jaguatiricas (Leopardus pardalis) (figura 18). Como houve essa variação significativa, as
análises foram realizadas de forma separada em ambientes abertos e em ambientes fechados.

Nesse ponto, é importante comentarmos sobre a flexibilidade da metodologia utilizada


e sobre a sensibilidade da pesquisadora em propor um novo tipo de ambiente para uma
57
Unidade III | Metodologias de amostragem

amostragem das espécies. É interessante destacar esse ponto, pois você pode, enquanto
profissional que está realizando um inventário de vertebrados, propor mudanças na
metodologia para que a área seja amostrada da melhor forma possível.

Figura 18. Imagem noturna de uma jaguatirica (Leopardus pardalis).

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/very-rare-ocelot-leopardus-pardalis-night-1291824046.

A metodologia utilizada continuou sendo a mesma, o que mudou foram alguns


critérios de inclusão de novas áreas amostradas e o número de armadilhas colocadas
no ambiente. Essa dinamicidade e flexibilidade para melhor aproveitamento do trabalho
nasce da experiência do pesquisador ou pesquisadora durante o desenvolvimento do
levantamento.

Por isso, são importantes os conhecimentos básicos sobre as metodologias, para que
se possa fazer a avaliação de quais pontos são mais flexíveis e quais pontos precisam
obrigatoriamente serem seguidos do início ao fim.

A partir das armadilhas fotográficas, foi possível inventariar 28 espécies de mamíferos


nativos da Mata Atlântica e 2 espécies exóticas, a lebre (Lepus europaeus) (figura 19) e
o cão doméstico (Canis familiaris).

Figura 19. Espécie de lebre exótica identificada como Lepus europaeus.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/head-european-hare-lepus-europeaus-hiding-1069298657.

58
Metodologias de amostragem | Unidade III

A autora considerou que espécies com menos de dez capturas ao longo dos anos em
que o levantamento foi realizado foram raramente registradas e, por isso, não entraram
na listagem de espécies, sendo analisadas apenas aquelas com dez capturas ou mais.
Essa delimitação a partir dos dados obtidos é importante para que exista certa
padronização dos dados e para evitar pontos discrepantes nas análises.

A partir dos dados obtidos, a autora discutiu sobre as razões que levaram ao pouco
registro de algumas espécies (treze espécies ao todo foram contabilizadas como raramente
registradas). Comentou ainda sobre a ocorrência de espécies que naturalmente são
raras, como o cachorro-vinagre (figura 20), além da ocorrência de outras espécies que
não são consideradas raras, mas que podem ter sua população diminuída pela caça,
desmatamento ou grande quantidade de predadores.

Figura 20. Cachorro-vinagre (Speothos venaticus) espécie raramente registrada.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/bush-dog-speothos-venaticus-smaller-rugged-723907558.

Dessa forma, podemos considerar que a metodologia de amostragem por armadilhas


fotográficas distribuídas pela área a ser inventariada é eficiente, aprovada e pode fornecer
dados importantes sobre os mais diversos grupos de animais de diferentes hábitos.

Quando o foco são mamíferos terretres de médio e grande porte, essa metodologia pode
se mostrar uma excelente alternativa para inventários. No entanto, esse tipo de método
não permite a captura e nem a coleta dos espécimes ou do material biológico oriundo
dessas espécies, sendo indicado apenas para levantamentos de espécies puramente
para fins de identificação dos táxons.

Convém destacar que essa metodologia é muito empregada para esses grupos de
mamíferos terrestres pela não tão complexa identificação dessas espécies por imagens.
59
Unidade III | Metodologias de amostragem

Já para animais menores, essa metodologia pode não ser a mais eficiente e, nesse caso,
a coleta ou a captura do espécime e/ou do seu material biológico deve ser realizada
para que seja possível a correta identificação e obtenção dos dados.

Estudo de caso 2: herpetofauna

A problemática

O trabalho que usaremos como base é intitulado Considerações sobre métodos e critérios
empregados em estudos ambientais sobre a herpetofauna de autoria do Felipe Franco
Curcio e colaboradores. O trabalho está disponível a partir da página 15 do manuscrito
disponibilizado pelo link https://doi.org/10.1590/S0103-40142010000100015.

Quando falamos de herpetofauna, estamos nos referindo a todas as espécies de


anfíbios e de répteis. Geralmente, esses grupos são tratados juntos nos trabalhos de
levantamento pelas semelhanças nas metodologias empregadas para coleta de dados
desses animais.

Como os animais que compõem a herpetofauna são muito diversos e possuem


comportamentos e habitats característicos e peculiares, por vezes é necessário que haja
uma combinação de métodos de amostragem para a melhor obtenção das informações
das mais diferentes espécies de um ambiente.

Os autores evidenciaram que “o primeiro objetivo de um estudo de impacto ambiental


consiste em identificar a maior parte possível das espécies que ocorrem na área do
empreendimento em questão. A riqueza da herpetofauna pode variar muito em razão
da localização geográfica, extensão e diversidade paisagística da área”.

Se considerarmos o Brasil e suas mais diversas formações vegetacionais e de ecossistemas,


essa variação na riqueza da herpetofauna se mostra ainda maior. As espécies que
ocorrem nos domínios brasileiros são heterogêneas e suas distribuições também são
heterogêneas. Além disso, devemos nos atentar ao fato de que a taxonomia desses
grupos ainda está em desenvolvimento e, dessa forma, é necessário maiores esforços
no estudos desses animais.

Como já discutimos nas unidades anteriores, a identificação dos táxons é o ponto


principal nos inventários, pois a partir do nome científico das espécies é possível
levantar dados ecológicos, de status de conservação e de distribuição geográfica. Com
essas informações, é possível o manejo e a avaliação da viabilidade de instalação do
empreendimento no processo de licenciamento ambiental.

60
Metodologias de amostragem | Unidade III

O grupo estudado

O grupo objeto do estudo em questão foi a herpetofauna (répteis e anfíbios).

A metodologia utilizada

A metodologia empregada para o levantamento das espécies de répteis e anfíbios é


o conjunto de vários métodos que podem ser aplicados simultaneamente durante o
inventário.

Segundo os autores, o primeiro passo que o pesquisador deve dar em inventários


da herpetofauna é o levantamento de dados secundários, referentes a uma listagem
prévia, a partir de bibliografia específica da área e de estudos publicados em ambientes
semelhantes ao de onde o inventário será feito. Outro lugar de obtenção de dados das
espécies de ocorrência regional é em coleções biológicas.

Em trabalhos com esse grupo de vertebrados, devemos levar em consideração os diversos


hábitos que as espécies possuem, o tempo disponível para realização do inventário,
o quanto de recursos serão destinados a esse levantamento e as características do
ecossistema em que o empreendedor deseja construir seu empreendimento.

Diante disso, os métodos mais utilizados para inventário de anfíbios e répteis são:
procura ativa e amostragem passiva. Segundo Silveira et al. (2010, p. 16):
Os métodos baseados em procura ativa são mais generalistas, registrando
grande variedade de espécies, mas exigem sempre a presença do herpetólogo.
Entre os métodos de procura ativa existentes, o mais empregado é o de
encontro por procura visual. Os herpetólogos procuram sob troncos, pedras,
rastelam o folhiço, e vasculham os mais variados hábitats potenciais, como
bromélias, ocos de árvores e cupinzeiros. Esse método permite registrar
espécies com hábitos diversos (isto é, arborícolas, aquáticas, terrestres e
fossoriais) (figura 21).

Esse método se mostra muito eficaz no levantamento de espécies mais raras, pois essas
tendem a ocupar nichos específicos e buscar por proteção com maior frequência que
as demais. Essa busca de forma ativa pode ser realizada por caminhadas exploratórias
para cobrir o máximo de área possível no ambiente ou pode ser realizada por parcelas
e delimitação de pequenas áreas.
Podemos evidenciar também que nesse método o pesquisador precisa estar sempre
atento e em alerta para os sons e possíveis locais onde os anfíbios e répteis podem estar
abrigados. O som pode dar um excelente direcionamento da localização do espécime
e o ambiente em si pode ser um direcionador muito útil também.
61
Unidade III | Metodologias de amostragem

O conhecimento acerca dos grupos se faz muito necessário. No caso dos anfíbios,
é conhecido que eles se estabelecem em lugares úmidos ou alagados. Então, se o
pesquisador detectar ambientes específicos com essas características, ele poderá
direcionar suas atenções para esses nichos e assim a probabilidade de amostrar um
espécime se torna maior.

Figura 21. Serpente preta (Hierophis viridiflavus carbonarius) em tronco de uma oliveira.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/beautiful-western-whip-snake-hierophis-viridiflavus-1749065429.

Os autores destacaram também o método em estradas, principalmente para levantamento


de serpentes (figura 22). Nesse método, o pesquisador percorre estradas em baixa
velocidade observando na via a presença de espécies. Frequentemente são encontrados
espécimes mortos atropelados em rodovias.

Figura 22. Serpente encontrada em uma rodovia.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/snake-roadkill-dead-run-over-while-1756954172.

62
Metodologias de amostragem | Unidade III

Os répteis são animais de sangue frio e, dessa forma, eles precisam do calor do ambiente
para se aquecerem e normalizarem suas funções vitais e atividades metabólicas.
As estradas geralmente são lugares quentes, por essa razão muitas serpentes podem ser
encontradas nesses locais. Além disso, com o processo de fragmentação de habitats, a
movimentação de um animal de uma área para a outra passando pelas estradas pode
ser um fator que contribui para a elevada ocorrência de atropelamentos dessas espécies.

No método de busca ativa, o pesquisador precisa ter grande habilidade de atenção,


observação e paciência para o levantamento das espécies e precisa ainda possuir técnicas
de manejo e captura dos espécimes para que as observações sejam realizadas de forma
mais atenciosa e sistemática.

Esse tipo de inventário possui baixo custo, pois não são necessários equipamentos
sofisticados para obtenção dos dados. No entanto, é necessário que o pesquisador seja
habilidoso em todos os processos de busca e captura para que os dados sejam obtidos
da melhor maneira possível e o inventário proporcione dados realmente importantes
e robustos sobre as espécies que ocorrem no ambiente em questão.

Outra vantagem que os autores destacam é a possibilidade de que pequenas áreas sejam
amostradas simultaneamente por diferentes pesquisadores. Isso proporciona agilidade
na obtenção dos dados e maior esforço amostral no inventário da herpetofauna.

Na amostragem passiva, um método muito utilizado, sendo considerado o principal


método nesse tipo de amostragem, é o de armadilhas de interceptação e queda.
Essas armadilhas consistem em recipientes enterrados no solo e interligados por cercas
que funcionam como guias direcionadoras dos animais (figura 23).

Figura 23. Armadilha de interceptação e queda.

Fonte: http://eco.ib.usp.br/labvert/linha%20armadilhas%20CE.jpg.

63
Unidade III | Metodologias de amostragem

Nesse método, as cercas interceptam os animais que têm seu percurso barrado.
Como as cercas direcionam os animais para os baldes enterrados, os indivíduos vão
sendo guiados até caírem nos baldes onde não conseguem mais sair. Esse método é
mais limitado que o de procura ativa pela menor área amostrada. No entanto, ele
consegue amostrar outros animais que não são amostrados na procura ativa como os
de hábitos fossoriais.

Devemos levar em consideração também que esse método captura animais de outros
grupos taxonômicos como artrópodes e pequenos mamíferos, como roedores, que
podem acabar servindo de alimento para as espécies que estejam no balde. Embora
cubra uma área menor, os autores destacaram que esse método é responsável pela
catalogação de muitas novas espécies para a ciência.

Os resultados obtidos

A amostragem ativa e a passiva permitem que muitas áreas sejam amostras


simultaneamente, inclusive com mais de um profissional atuando ao mesmo tempo.
Além disso, o inventário pode proporcionar dados mais robustos pela utilização de
técnicas diferentes e pelo baixo custo que esses inventários demandam para serem
realizados.

Além disso, toda a metodologia pode ser padronizada e os dados gerados podem
ser fundamentais na avaliação do ambiente e no conhecimento da diversidade da
herpetofauna presente no ecossistema em questão.

Tanto a busca ativa quanto a metodologia de amostragem passiva são excelentes


métodos de amostragem de espécies, podendo ser utilizadas em praticamente qualquer
área de ambientes terrestres nos inventários de vertebrados.

Estudo de caso: peixes

O trabalho no qual discutiremos as questões ecológicas e metodológicas desse grupo de


vertebrados está disponível no link https://doi.org/10.1590/S0103-40142010000100015
e tem como título Peixes e avaliações de impacto ambiental: uma perspectiva do meio
aquático, de autoria do George Mattox e da Patrícia Cunningham.

A problemática

Os peixes constituem o grupo de animais vertebrados que possui a maior diversidade


existente no mundo, cerca de 28 mil espécies. Para termos uma noção desse tamanho, se
juntarmos a quantidade de espécies da herpetofauna, de aves e de mamíferos, só assim
64
Metodologias de amostragem | Unidade III

poderíamos fazer comparação nas quantidades absolutas, já que os peixes representam


praticamente metade dos animais vertebrados do planeta.

O processo evolutivo continuou acontecendo nesses animais também. Muitas vezes,


nos esquecemos que o ambiente aquático também continua evoluindo, mudando e se
refazendo ao longo dos milhares de anos. Dessa forma, os peixes são muito diversos,
possuem uma gama muito grande de nichos e uma variedade morfológica imensurável.

Por sua capacidade adaptativa e diversidade, esse grupo de animais acompanha até hoje
o desenvolvimento das sociedades humanas, sendo utilizados como alimento, esporte,
lazer, controle biológico, produção de fármacos e cosméticos, dentre outras muitas
finalidades. Desse modo, os peixes são muito importantes pelos serviços ecossistêmicos
envolvidos, mas também pela suas funções ecológicas.

Um ponto interessante de ser observado é que os peixes podem refletir diretamente


nas características da água, podendo ser possível uma avaliação da qualidade da água
por meio dos peixes. Isso se faz importante também em inventários para fins de
licenciamento ambiental, já que a água pode ser um recurso que irá ser utilizado nos
empreendimentos.

Outro ponto importante de ser destacado é que o Brasil possui uma das maiores
diversidades de peixes do mundo. São aproximadamente 1.300 espécies marinhas e
2.600 espécies de água doce. Como existem muitas espécies, consequentemente, as
variações morfológicas de habitats também são muitas e isso tem uma influência direta
nas metodologias de inventários desse grupo.

Segundo os autores, “os peixes devem sempre ser incluídos em avaliações de impactos
nos casos de empreendimentos que possam interferir nos corpos d’água, dulcícolas ou
marinhos, e algumas questões importantes devem ser discutidas no que diz respeito
aos estudos ambientais envolvendo o levantamento ou monitoramento da ictiofauna”.

Isso se dá pelo fato de que o conhecimento dos táxons ainda está em construção e
necessita de maiores levantamentos e estudos direcionados. Como você irá perceber
em breve, as metodologias utilizadas são diversas e precisam levar em consideração
além das características dos animais, também aspectos das formações dos corpos
d’água.

O grupo estudado

Ictiofauna, tanto animais marinhos, quando animais de água doce.

65
Unidade III | Metodologias de amostragem

A metodologia utilizada

Os autores destacam no trabalho a falta de procedimentos metodológicos padronizados,


o que dificulta a comparação dos dados obtidos e melhor aproveitamento da informações
por um analista ambiental, por exemplo.

Além disso, a falta de metodologias comparáveis interfere no inventário de peixes


vertebrados e, dessa forma, impede uma avaliação e levantamento de dados mais
robusto acerca dos animais aquáticos presentes na área do estabelecimento em questão.
A busca por metodologias aplicáveis e comparáveis deve ser constante nesse tipo de
inventário.
Os autores destacam que:
A coleta das amostras e posterior triagem e identificação em laboratório
são práticas essenciais para um levantamento ictiofaunístico adequado.
Como consequência, o estudo dos peixes constitui uma tarefa que demanda
tempo para ser realizado, além do esforço empregado em campo para
amostragem propriamente dito. Infelizmente, esse tempo nem sempre está
disponível para o consultor de ictiofauna, cujo trabalho acaba sendo limitado
em seu esforço amostral ou restrito a um levantamento teórico sobre os
peixes de determinada região com base em dados secundários, nem sempre
suficientemente precisos.

O destaque ao pouco tempo disponível para a realização do inventário é constante nos


trabalhos de levantamento para fins de licenciamento ambiental e deve ser visto como
um incentivador do uso de banco de dados e de coleções biológicas, dando prioridade
àquelas coleções locais ou regionais, para aumentar a propabilidade de registros da
fauna daquele ambiente.

No caso dos peixes não é diferente. Existem coleções de peixes com as informações nas
etiquetas, como já explicado no começo da apostila e, além disso, as coleções de peixes
são realizadas com os indivíduos inteiros conservados em formol ou álcool. Assim,
é possível realizar a identificação dos táxons por comparação morfológica e pode ser
útil também como estudo prévio, antes mesmo da realização do inventário, para que
o consultor vá para campo conhecendo previamente, mesmo que de forma superficial,
os animais que podem ser encontrados no ambiente inventariado.

Em se tratando da metodologia de coleta, é importante que sejam selecionadas


metodologias que garantam melhor aproveitamento do tempo disponível e que abranja
o máximo de microhabitats possíveis. Dessa forma, a coleta fazendo-se uso de artes
de pesca diferentes é encorajada, como o uso de redes (figura 24).

66
Metodologias de amostragem | Unidade III

Figura 24. O uso de redes para pesca pode ser um método de captura em inventários.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/background-colorful-fishing-nets-floats-694411066.

Como é um método em que não há um controle tão grande do número amostral e


das repetições, é importante também que sejam confeccionadas curvas do coletor.
Essas curvas são de suma importância na determinação se os esforços de coleta dos
peixes no ambiente em questão foram suficientemente satisfatórios. Nesse caso, será
a curva do coletor que definirá o momento de parada da realização das coletas.

Os resultados obtidos

Os resultados vão muito além de uma listagem das espécies que podem ocorrer naquele
ambiente analisado em questão. Como sabemos, as listagens são a base para os trabalhos
em inventários visando ao licenciamento ambiental.

A partir dos nomes das espécies, é possível analisar riqueza, diversidade, características
de famílias taxonômicas específicas, gêneros e relações entre as espécies. Em se
tratando de peixes, é possível ser realizada uma análise populacional e correlacionar
os dados com a qualidade da água e quantidade de matéria orgânica no fundo do
corpo d’água.

No entanto, o que se observa é ainda uma falta de dados pontuais disponíveis. Existem
grandes listas para regiões como um todo, mas as localidades em regiões destinadas
a empreendimentos ou em um local onde houve algum acidente ambiental ainda são
insuficientes. Isso leva a uma dificuldade nas análises e diagnósticos das espécies de
peixes vertebrados que vivem no ambiente inventariado.

Os inventários para fins de licenciamento ambiental podem, inclusive, indicar espécies


com potencial econômico, bioindicadoras e, a partir das listagens, é possível também a

67
Unidade III | Metodologias de amostragem

categorização do status de conservação para as espécies, podendo, dessa forma, serem


pensadas medidas de manejo visando à conservação da diversidade faunística.

É válido destacar que a metodologia a ser empregada em inventários de peixes vertebrados


deve levar em consideração muitos aspectos ambientais e comportamentais das espécies
e, por isso, é importante um levantamento prévio na literatura. A observação das
características da água e do solo também fazem total diferença.

Por exemplo, se considerarmos peixes em que o aparelho bucal fica localizado na face
ventral do animal, como é o caso das espécies de peixe cascudo (figura 25). As técnicas
de captura em que o método não chega ao fundo dos rios não será eficiente na captura
desse animais e, consequentemente, eles acabarão não compondo a lista das espécies
daquele ambiente.

Figura 25. Peixe cascuco-abacaxi (Pterygoplichthys pardalis).

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/macro-photo-pterygoplichthys-pardalis-1736008715.

Dessa forma, é aconselhável que sejam utilizadas técnicas diferentes para o inventário
das espécies e que essas técnicas sejam utilizadas concomitantemente, como rede e
armadilhas ou anzol e armadilhas, por exemplo.

Convém destacar mais uma vez que os inventários de vertebrados têm como base
amostragens. Isso implica dizer que é uma parcela da comunidade que será inventariada,
não sendo possível o levantamento de todas as espécies e de todos os indivíduos que
vivem no ambiente trabalhado. Os dados amostrados servem como base e direcionamento
para as avaliações e são informações que podem ser extrapoladas para a comunidade.

Isso se torna ainda mais evidente em inventários de vertebrados para licenciamento


ambiental em que os recursos são limitados e o tempo disponível para a realização do
68
Metodologias de amostragem | Unidade III

trabalho é mais limitado ainda. O importante é sempre levar em consideração a curva


do coletor e escolher metodologias que abranjam o máximo de microhabitats possível,
para que sejam inventariadas o máximo de espécies.

Estudo de caso: aves

Para as aves, nós tomaremos por base a listagem preliminar das aves de bordas de mata
e áreas degradadas da Floresta Nacional do Jamari, Itapoã do Oeste em Rondônia,
Brasil, de autoria da Daniella França, Erunáia Lima e Marco Freitas. Disponível em:
http://www.ao.com.br/download/AO164_51.pdf.

A problemática

O estudo foi realizado no bioma amazônico, no qual ainda existe uma grande necessidade
de ampliação dos estudos e conhecimentos sobre a diversidade de aves. Isso se dá pela
pontualidade com que os levantamentos e inventários biológicos são realizados, sendo
precários e escassos, como os autores enfatizam.

As aves são vertebrados muito estudados no geral e, por meio delas, é possível observar
processos de mudança dentro dos ambientes, já que existe uma certa facilidade na
identificação dos táxons. Os inventários de aves para licenciamento ambiental é de
suma importância.

Geralmente, em áreas investigadas cientificamente para a implantação de algum


empreendimento que demanda construções civis, o levantamento das aves se faz muito
necessário para a avaliação do impacto que aquele empreendimento poderá causar no
ambiente inventariado.

Nesse sentido, quando o empreendedor visa construir naquela área, além do inventário
de vertebrados, é realizado também o inventário florestal para supressão. Após o
inventário, o empreendedor poderá receber ou não a autorização para suprimir a
vegetação. Como sabemos, as aves possuem uma interação direta com as árvores,
tanto para nidificação quanto para alimentação e reprodução em geral.

A supressão das árvores no ambiente consequentemente gerará impactos nas populações


de aves daquela área, e a detecção das espécies que possuem nichos ali é de suma
importância para a avaliação do empreendimento e das condições ambientais que
devem ser mantidas.

Portanto, inventários de aves são de extrema importância e são fundamentais para o


levantamento dos vertebrados que possuem nichos naquela área do empreendimento, e
69
Unidade III | Metodologias de amostragem

o levantamento desses dados proporcionará uma base teórica essencial para a avaliação
pelo analista ambiental dos órgãos competentes ao licenciamento.

O grupo estudado

Aves amazônicas de diferentes espécies encontradas em bordas e em ambientes


degradados de uma floresta.

A metodologia utilizada

Nesse caso estudado, o inventário foi realizado em duas campanhas com diferentes
metodologias de amostragem. A primeira campanha aconteceu em uma semana e a
captura das aves se deu por 28 redes de neblina de 7 x 3 metros, abertas por cerca de
40 horas (figura 26) e por pontos fixos de observação e escuta das aves que contou
com três pesquisadores observadores por oito horas diárias.

Figura 26. Ave capturada em rede de nablina.

Fonte: https://guiabirdingbrasil.com.br/wp-content/uploads/2018/06/REDE-DE-NEBLINA-AVES-500x393.jpg.

No final dos dias de amostragem, houve um total de 192 horas de observação. Isso
refletiu no número de espécies inventariadas. Quanto mais horas de observação, maior
a probabilidade de identificação das aves e contabilização na listagem final.

Já a segunda campanha foi realizada em uma semana (sete dias) depois de alguns anos
da primeira. Nessa campanha, foi feito o uso da metodologia de observação direta das
aves por meio de binóculos em dois pontos fixos. Além disso, foi utilizada também
a audição para detecção dos sons emitidos pelas aves e os pesquisadores usaram os
sinais sonoros para identificação dos táxons. Nessa segunda campanha, os observadores
contabilizaram 120 horas de observação dos pássaros (figura 27).
70
Metodologias de amostragem | Unidade III

Figura 27. A observação direta é uma metodologia para inventários de aves.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/girl-binoculars-against-background-nature-observation-1087836131.

Os resultados obtidos

Os autores inventariaram cerca de 163 espécies em todas as campanhas. A família que


representou maior destaque foi a Psittacidae com 14 espécies identificadas e registradas.
Os autores conseguiram levantar dados quanto à origem, habitats e endemismo a partir
da listagem oriunda do inventário.
Diante disso, as seguintes espécies se destacaram pela grande importância quanto à
ameaça de extinção e endemismo no oeste da Amazônia: Tinamus tao, Tinamus guttatus,
Crypturellus obsoletus, Pauxi tuberosa, Aburria cujubi, Penelope jacguacu, Harpia harpyja,
Pseudastur albicollis, Leucopternis kuhli, Psophia leucoptera, Ara ararauna, Ara macao, Ara
chloropterus, Aratinga weddellii, Pyrrhura perlata e Deroptyus accipitrinus.
É muito interessante notar que por meio de uma listagem das espécies é possível
a observação de várias outras informações importantes e que trazem respostas à
comunidade trabalhada. Dependendo das características do ambiente inventariado, a
listagem pode ser a base para planos de manejo, conservação e análise da viabilidade
de instalação de um empreendimento, que é o foco das nossas discussões.
É importante perceber também que, dependendo da área do empreendimento,
vários grupos de vertebrados devem ser observados, estudados e catalogados para
que se possa traçar um perfil daquele ambiente. A nossa função enquanto consultores
e/ou profissionais que trabalharão com inventários de vertebrados é dar base para
os analistas ambientais e órgãos ambientais para a avaliação dos empreendimentos.
Quanto mais informações estiverem presentes nos relatórios, melhor será a avaliação.
Um inventário de vertebrados demandará uma equipe de profissionais especialistas
nas diferentes áreas dentro da Zoologia, como você já deve ter percebido.

71
Unidade III | Metodologias de amostragem

O órgão ambiental definirá quais grupos devem estar incluídos nos inventários e quais
metodologias podem ser utilizadas, mas o pesquisador precisa estar sempre ciente do
seu papel também na escolha e aplicação das metodologias, bem como em aspectos
éticos que estão envolvidos nesse processo.

Por último, podemos frisar também que é necessário que se tenha conhecimentos sobre
planos de manejo, já que o manejo das espécies será algo bem decorrente, dependendo
da área inventariada. Por essa razão, no último bloco de informações da apostila,
discutiremos aspectos dos planos de manejo, trazendo informações relevantes para
sua formação e para a construção dos conhecimentos sobre métodos de inventários
de vertebrados para licenciamento ambiental.

72
PLANOS DE MANEJO UNIDADE IV

CAPÍTULO 1
Planos de manejo

Planos de manejo

Visão geral

Chegamos ao último capítulo da nossa apostila sobre métodos para inventários de


vertebrados para licenciamento ambiental. Até aqui, nós conversamos sobre temáticas
muito interessantes e pertinentes para sua formação e aprimoramento profissional.
No entanto, sugiro que você tenha outros recursos de estudo para aprofundar os
conhecimentos acerca de inventários e acerca de licenciamento ambiental.

Como vocês puderam ver, é importante que se tenha conhecimentos prévios acerca
do tema, para o melhor aproveitamento dos recursos e do tempo disponíveis para a
realização do inventário. Primeiro, é necessário que você consulte as coleções biológicas
e bancos de dados sobre a fauna, para que se conheça previamente as espécies que pode
ocorrer naquele ambiente ou naquele ecossistema como um todo.

Esses dados serão fundamentais para a criação de uma lista prévia e um perfil das
características das espécies que possivelmente podem viver no ambiente. É importante
também que você obtenha as informações sobre o levantamento florístico e inventário
florestal da área, se tiver sido realizado.

Essas informações sobre a flora podem auxiliar nesse direcionamento inicial também,
principalmente para anfíbios, répteis e aves, pois muitas espécies são arborícolas ou
possuem hábitos e comportamentos associados aos vegetais. Vale ressaltar que não é
obrigatório esse levantamento prévio, mas ele, com certeza, irá lhe auxiliar e facilitará
suas observações sobre a fauna da área do empreendimento.

Dito isso, nós passamos para algumas peculiaridades de coletas de espécimes, captura e
coleta de material biológico, tendo como base o Sisbio, e, finalmente, falaremos sobre

73
Unidade IV | Planos de manejo

os métodos de coletas de dados de vertebrados a partir de estudos de caso. Falaremos


de técnicas para mamíferos terrestres, espécies da herpetofauna, peixes e aves.
É muito importante ter em mente que esses são apenas alguns métodos que podem ser
utilizados, e, como dito, é fundamental, em alguns casos, que se faça uso de métodos
diferentes concomitantemente, para que haja o melhor aproveitamento do tempo
disponível, visando ao levantamento de dados robustos que possam trazer respostas
e proporcionar uma melhor avaliação da área.
Agora, para finalizarmos a nossa apostila, iremos comentar sobre os planos de manejo,
o que são e como são elaborados. Todas as informações possuem base documental
oficial do Ministério do Meio Ambiente e ICMBio. Dessa forma, este capítulo está
mais voltado a inventários como um todo e abrange temáticas petinentes que vão
além da disciplina, elas dizem respeito ao curso de Manejo e Conservação da Fauna
Silvestre e Exótica.

O que são planos de manejo?

Quando estudamos sobre biologia, ciências naturais, ecologia, engenharia ambiental,


oceanografia e diversas outras áreas que possuem relação direta ou indireta com o meio
ambiente, nos deparamos vez ou outra com informações jurídicas, artigos e incisos
da Constituição Brasileira.
Assim como em outras disciplinas que possuem seus “jargões”, leis e normas, acredito
que o artigo mais importante e memorizado de todos os estudantes e profissionais
que atuam com o meio ambiente é o art. 225 da Constituição Federal. Esse artigo
é quase um mantra nos trabalhos de manejo e conservação, pela sua importância e
grande relevância num contexto nacional e até mundial, se todos os países tivessem
a mesma filosofia.
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade
o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Esse artigo é
a base para os planos de manejo e você irá entender em breve o porquê.
Uma das formas de garantir que o meio ambiente ecologicamente equilibrado permaneça
para as futuras gerações é por meio da proteção da natureza. Nesse ponto, é muito
importante que saibamos diferenciar o que é conservação e o que é preservação.
O ser humano está presente em praticamente todos os ambientes. Até nos lugares
mais inóspitos da Terra, o ser humano pode estar, não para se instalar e morar, mas

74
Planos de manejo | Unidade IV

como prática de esporte e para estudos científicos, por exemplo. Picos de montanhas
altíssimas, vulcões e até mesmo no fundo do mar.

Ter isso em mente é importante para entendermos a diferenciação entre conservação e


preservação, pois, desde o início dos primeiros agrupamentos de Homo sapiens, a relação
humano-natureza é muito presente e um interfere de forma direta na estabilidade do
outro. Nesse contexto, o homem interfere mais de forma negativa e a natureza mais
de forma positiva.

Então, é praticamente impossível o impedimento da interferência direta dos humanos


no meio ambiente e é isso que diz a preservação. Esse termo de refere a uma proteção
mais forte da natureza, sem levar em conta os aspectos econômicos e/ou de uso dos
recursos naturais. A preservação visa proteger o meio ambiente das ações diretas
do homem.

Uma área de preservação ambiental visa impedir a entrada humana, a retirada dos
recursos naturais e construção de moradias e demais construções. Preservação diz
respeito a ações mais rígidas e radicais para impedir a degradação do meio ambiente
e garantir que ele exista para as próximas gerações.

No entanto, se pensarmos racionalmente sobre o artigo “todos têm direito ao meio


ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à
sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo...”.

Levando em consideração a definição de preservação, não é muito lógico dizer que todos
têm direito ao meio ambiente, de uso comum do povo, e que é dever da coletividade
e do poder público preservá-lo. Não tem como um ambiente ser preservado e ser de
uso comum do povo, como podemos analisar por meio da definição de preservação.

Nesse contexto, o termo mais adequado a ser utilizado é o conservação. Esse termo
se refere à utilização racional dos recursos naturais, de maneira sustentável, sem que
isso desequilibre ecologicamente o meio ambiente.

É no contexto da conservação que os planos de manejo estão inseridos. Uma das


formas de garantir que haja o uso sustentável dos recursos naturais e a manutenção
desse ambiente para as próximas gerações é por meio de Unidades de Conservação.

A Lei Federal n. 9.985/2000, art. 27, inciso I, determina, por meio do Sistema Nacional
de Unidades de Conservação (SNUC), que “as unidades de conservação devem dispor

75
Unidade IV | Planos de manejo

de um Plano de Manejo e devem abranger a área da UC, sua zona de amortecimento


e os corredores ecológicos, incluindo medidas com o fim de promover sua integração
à vida econômica e social das comunidades vizinhas”.

Dessa forma, o SNUC define Plano de Manejo como um documento elaborado


tecnicamente que tem fundamentações nos objetivos gerais de uma unidade de
conservação. O Plano de Manejo estabelece o seu zoneamento e as normas que devem
presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das
estruturas físicas necessárias à gestão da unidade.

Podemos perceber então que o Plano de Manejo é um documento técnico que visa
elaborar e compreender o conjunto de ações necessárias para a gestão e uso sustentável
dos recursos naturais. Esse documento estabelece o zoneamento e as normas que
devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais. O objetivo principal é
a conservação do meio ambiente e sustentabilidade no uso dos recursos.

Outro ponto importante de ser mencionado é o zoneamento que é utilizado para


demarcação do território físico, análises de sensoriamento remoto e topografia da
unidade de conservação. Essa delimitação e demarcação dos limites da UC é muito
importante para a fiscalização, monitoramento e controle das ações dentro dos limites
da UC, bem como para o estudo e criação de corredores ecológicos para que haja o
fluxo gênico das espécies e para que seja possível a dispersão, emigração e imigração
dos indivíduos.

Diante disso, podemos perceber que o Plano de Manejo vai além de apenas um
documento técnico. Requer um planejamento constante de obtenção de dados para
tomadas de decisão, envolvendo as questões ambientais, econômicas, históricas,
ecológicas e culturais associadas a uma Unidade de Conservação.

Segundo texto do ICMBio (https://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/


planos-de-manejo)
O Plano de Manejo é elaborado sob um enfoque multidisciplinar, com
características particulares diante de cada objeto específico de estudo.
Ele deve refletir um processo lógico de diagnóstico e planejamento. Ao longo
do processo devem ser analisadas informações de diferentes naturezas, tais
como dados bióticos e abióticos, socioeconômicos, históricos e culturais
de interesse sobre a Unidade de Conservação e como estes se relacionam.

Então, a elaboração de um Plano de Manejo deve levar em consideração muitos aspectos


e fatores bióticos e abióticos, além de interesses culturais e econômicos. Dessa forma,

76
Planos de manejo | Unidade IV

um Plano de Manejo deve ser amplo e deve englobar todas as características ambientais
e antropogênicas relacionadas àquela área de conservação.
Como você irá perceber ao longo do próximo tópico, o levantamento ou inventário
da fauna é de suma importância para a obtenção de dados sobre os vertebrados que
vivem nessa região, e esses dados também fazem parte do Plano de Manejo, já que o
passo inicial é o conhecimento.
Só conservamos, protegemos e manejamos aquilo que conhecemos. Nos Planos de
Manejo, o passo inicial para delimitar o que pode e o que não pode ser feito nas UCs
é composto por levantamentos ou inventários dos organismos existentes na área.
Dessa forma, para que um Plano de Manejo seja eficiente e atenda aos requisitos
básicos preestabelecidos, é necessário o inventário dos diversos grupos de organismos
daquele ambiente.
A conservação e o inventário de vertebrados estão intimamente associados.
O conhecimento acerca dos grupos é a base para todo e qualquer projeto de conservação
e uso sustentável. Os inventários possuem uma enorme importância também para a
criação das unidades de conservação, além das finalidades de licenciamento ambiental,
que é o foco da disciplina.
Toda Unidade de Conservação e Área de Preservação Permanente possui um Plano de
Manejo. É importante que o Plano de Manejo leve em consideração as peculiaridades
daquela área em específico. Por exemplo, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
possui relevância nacional. Dessa forma, todos os aspectos envolvidos com o Parque
tiveram que ser levados em consideração num âmbito mais geral.
É uma área de dunas fixas e móveis, com grande apelo turístico, grande diversidade de
organismos aquáticos e vertebrados de áreas arenosas, além de uma vegetação típica de
Restinga e formações marinhas costeiras. Então, para criação do Parque, tiveram que
ser realizados inventários da fauna, da flora e das comunidades que vivem próximas
ao Parque, nos municípios e vilarejos vizinhos.
No Parque, é possível encontrar grande diversidade de anfíbios, répteis e pequenos
mamíferos, e essas informações da fauna foram importantes para delimitar o que pode e
o que não pode ser feito no parque. Atualmente, após anos de pesquisa, os responsáveis
pelo Parque perceberam que o fluxo de veículos pode mudar a formação do relevo e
interferir no equilíbrio do ambiente, assim, o fluxo de veículos foi proibido.
Esse é só um exemplo pontual de como esse Plano de Manejo pode sofrer alterações
com o decorrer dos levantamentos, pesquisas e observações dos Órgãos Ambientais.

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Unidade IV | Planos de manejo

Assim, quando Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (figura 28) foi criado em
junho de 1981, algumas das regras e restrições que existem hoje não existiam na época.

Figura 28. Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/maranhao-state-brazil-august-21-2010-194119502.

Essas mudanças que visam à conservação e à sustentabilidade são necessárias e devem


ser presentes nas análises e avaliações dos recursos ambientais na UC. Percebemos então
que os Planos de Manejo não são uma tarefa simples e rápida de ser realizada. Demandam
tempo, esforços diversos, financiamento e muitas pesquisas para conhecimento dos
organismos que vivem na área delimitada.

As Unidades de Conservação são categorizadas em Área de Proteção Ambiental;


Área de Relevante Interesse Ecológico; Estação Ecológica; Floresta Nacional; Parque
Nacional; Refúgio de Vida Silvestre; Reserva Biológica; Reserva de Desenvolvimento
Sustentável; Reserva Extrativista e Reserva Particular do Patrimônio Natural.

Todos os Planos de Manejo das Unidades de Conservação de todas as categorias


existentes estão disponíveis no site do Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade (ICMBio). Lá é possível ter acesso aos Planos de Manejo desde
1978 até o presente momento, com o documento na íntegra, além de informações
gerais, documentos oficiais, mapas interativos e limites geográficos.

Sugiro que você visite a página do site para saber mais sobre as peculiaridades
dos Planos de Manejo, de acordo com a Unidade de Conservação e com as
características específicas de cada ambiente, que vão desde ambientes quase
desérticos, como o Parna dos Lençóis Maranhenses, até ambientes de chapadas
como o Parna da Chapada da Diamantina.

Você terá acesso a todas essas informações por meio do link: https://www.icmbio.
gov.br/portal/planosmanejo.

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Planos de manejo | Unidade IV

Iremos conhecer agora os requisitos básicos de um Plano de Manejo, a partir de


exemplos de Unidades de Conservação, para associarmos as informações teóricas à
prática da elaboração de planos e informações sobre a importância dos inventários
para elaboração desses documentos técnicos.

Como elaborar um plano de manejo?

Como vimos no tópico anterior, um Plano de Manejo não é uma “receita” que pode ser
seguida em todas as áreas, independentemente de suas características e peculiaridades.
O plano deve ser direcionado às necessidades locais e suas relações entre natureza-
natureza e entre homem-natureza.

No entanto, existem informações básicas a todos os Planos de Manejo, e iremos


conversar primeiro sobre essas informações primordiais e, em seguida, iremos ver
alguns exemplos de planos de algumas Unidades de Conservação bem conhecidas.

Primeiro, é necessário que se levante informações gerais. Qual a categoria da Unidade


de Conservação? Em que Bioma está inserida essa área? Quais as principais características
visivelmente distinguíveis dessa área? A quem pertence a área, é privada ou pública?
É uma área primária ou já ocorreu uma sucessão secundária?

Todas essas informações iniciais e gerais são importantes no direcionamento das


pesquisas que irão ser desenvolvidas em seguida. As características de como a área
poderá ser utilizada oferece um direcionamento para definir em qual categoria essa
UC será inserida. O Bioma em que essa área se encontra também oferece informações
sobre a fauna e sobre a flora da região, o que auxiliará no levantamento prévio das
informações dos táxons que podem ser encontrados na área, além de características
climáticas e de relevo.

Saber as características visivelmente distinguíveis é importante na diferenciação


dessa área para as outras áreas vizinhas. Além disso, essas características oferecem
um panorama para a avaliação das argumentações sobre o porquê do direcionamento
dessa área para a conservação.

O conhecimento sobre os proprietários da área também é importante para o


financiamento, planejamento, fiscalização e monitoramento da UC. Dependendo
do proprietário, o levantamento financeiro pode ser facilitado e maior ou pode ser
mais limitado e menor. Isso ditará a velocidade de instalação legal da UC. Por último,
as informações de sucessão ecológica da área geram dados de origem das espécies,

79
Unidade IV | Planos de manejo

endemismo, vulnerabilidades ambientais e principais perturbações e impactos que o


ambiente sofre.

Outro passo importante para a formulação de um Plano de Manejo são os objetivos.


Os objetivos deverão ser criados para responder questões sobre a área. A partir dessas
perguntas é que serão direcionados os objetivos e metodologias empregadas para
alcançar esse objetivo previsto.

Por exemplo: Qual o intuito da criação dessa UC? Quais produtos serão geridos de
forma sustentável? Serão necessários inventários e levantamentos? Será necessário
a consolidação de parcerias institucionais? Os objetivos guiarão todas as ações e
metodologias empregadas e, por isso, é muito importante que sejam diretos,
autoexplicativos e concisos.

Em seguida, é importante que haja uma justificativa sobre as técnicas empregadas


na elaboração do plano, a partir das informações ambientais, culturais e históricas da
área em questão. Essa justificativa do plano é importante e obrigatória, já que a lei
exige que haja um Plano de Manejo para as Unidades de Conservação.

No Plano de Manejo é imprescindível a descrição do ambiente. Todas as variáveis


bióticas e abióticas possíveis devem ser levantadas e descritas no Plano de Manejo.
Como você irá perceber em breve, essas informações fazem do Plano um documento
de extrema importância e dão base para as delimitações do que pode e do que não pode
ser realizado nos limites da UC.

Na descrição do ambiente, devem constar dados sobre o clima, relevo, corpos d’água,
umidade, características fisicoquímicas do solo, tipos de solo e demais dados físicos, além
de informações sobre a vegetação presente, tipos de florestas, domínios fitogeográficos,
modelos de ocorrência de espécies e descrições da fauna presente, tanto de vertebrados
quanto de invertebrados.

Na descrição do ambiente, devem constar informações das relações ecológicas


observadas e interações fauna-flora fundamentais ao equilíbrio dos ecossistemas.
Todas essas informações são essenciais para delimitação das proibições e das permissões
na UC.

Por exemplo, uma área que possui falésias próximas ao mar ou formações de tabuleiros
no continente (figura 29) devem ser tratadas com cuidado e atenção se a região onde
estão esses tabuleiros forem livres para visitação ou extrativismo sustentável. Se a
pessoa não tiver o conhecimento que existe esse tipo de formação, então pode ser

80
Planos de manejo | Unidade IV

arriscada a presença dela na área sem a supervisão de um guia ou biólogo, por exemplo,
dependendo do tipo de UC.

Figura 29. Tabuleiro de cerca de 270 metros em Minas Gerais, Brasil.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/third-big-highest-waterfall-brazil-272-1548028064.

É na descrição do ambiente que estão inseridos os inventários de vertebrados. Como


discutimos, os inventários geram dados muito importantes e fundamentais para a
conservação de qualquer área. No âmbito das Unidades de Conservação, essa importância
é ainda maior.

O conhecimento sobre as espécies que podem ocorrer e que ocorrem na área da UC


é fundamental para delimitação de áreas, conhecimento das relações e interações
biológicas e para os cuidados com a conservação da biodiversidade do ambiente.
Dependendo do tipo de UC, esses dados se tornam cruciais para o bom funcionamento
das relações homem-natureza e para a delimitação de áreas prioritárias para uma
possível recuperação.

Como os Planos de Manejo estão inseridos em um contexto conservacionista, então


pode haver a interação da população humana que vive próxima ou na área em questão.
Dessa forma, as informações socioeconômicas e de uso e ocupação do solo são
fundamentais em um plano de manejo.

O conhecimento sobre a média de idade dos moradores, nível de escolaridade, condições


sanitárias e de saúde se fazem necessárias nos planos de manejo. Além disso, a realização
de um zoneamento e elaboração de mapas com aspectos climáticos, topográficos e
hidrográficos são essenciais nesse contexto.

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Unidade IV | Planos de manejo

Outro ponto importante em um Plano é o levantamento das informações sobre o


manejo. A partir do conhecimento das espécies que vivem nesse ambiente, é possível
a realização de análises sobre a saúde dos animais, equilíbrio nas relações, status de
conservação e grau de endemismo.

Com esses dados, é possível a delimitação de espécies a serem protegidas, com


um cuidado maior nas regiões onde os habitats dessas espécies estão inseridos.
Quais áreas precisam de uma recuperação ou um planejamento a médio e longo
prazo para proporcionar condições de regeneração natural, visando à conservação e
à manutenção da diversidade e equilíbrio ambiental.

Como dito, os inventários são realizados tanto para a fauna quanto para a flora, e a
associação entre os dados dos vegetais e dos animais podem fornecer informações
fundamentais para a elaboração dos planos. A partir dessas informações, é possível
ainda realizar a estatística de produção da comunidade e a capacidade de carga do meio.
Com isso, as metodologias de colheita e obtenção dos demais recursos naturais são
formuladas, a partir dos dados de manejo e características ambientais.

Os últimos pontos fundamentais para a elaboração de um plano de manejo são as


informações orçamentárias, o estudo dos impactos ambientais e a formulação
de medidas de fiscalização, monitoramento e controle. Todos esses dados básicos
de todo plano de manejo são fundamentais para a realização de um documento
técnico de qualidade e que funcione como direcionamento para o alcance do uso
sustentável do ambiente e manutenção das relações ecológicas, socioeconômicas
e culturais.

Provavelmente, você percebeu que a realização de um Plano de Manejo é uma tarefa


multidisciplinar, integrativa e complexa. Requer esforços de vários profissionais e de
instituições ambientais. Nesse contexto, é importante que você conheça os requisitos
básicos para elaboração de um plano, pois isso será importante para a sua formação e
experiência profissional.

Para que essas informações sejam melhor visualizadas, usaremos dois Planos de Manejo
de Unidades de Conservação conhecidas nacionalmente e comentaremos sobre as
informações principais desses documentos. Ressalto ainda a importância de você
consultar o ícone Saiba mais, pois nele está o link de acesso aos planos de manejo de
todas as UC que estão vinculadas direta ou indiretamente ao ICMBio.

82
Planos de manejo | Unidade IV

Estudos de caso

Parque Nacional da Chapada da Diamantina

A Parna da Chapada da Diamantina (figura 30) está inserida no Bioma Caatinga;


possui área com cerca de 152.141,87 hectares e foi fundada oficialmente pelo Decreto
n. 91.655, de 17 de setembro de 1985.

Figura 30. Parna da Chapada da Diamantina.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/hiking-place-brazil-beautiful-landscape-called-1745080562.

O Plano de Manejo do Parque possui cerca de 510 páginas e está dividido em Encartes.
O primeiro diz respeito à Contextualização do Parque e traz enfoques internacionais
com aspectos da reserva da biosfera; enfoque federal, trazendo informações sobre o
Parque e o Sistema Nacional de Unidades de Conservação; e enfoque estadual com
implicações estaduais, institucionais e potencialidades de cooperação.

O segundo encarte analisa a região da Chapada da Diamantina. Possui uma


descrição da área; zona de amortecimento; e aspectos de caracterização ambiental.
Essa caracterização levou em conta diversos aspectos bióticos e abióticos, como
tipo de vegetação, áreas alagadas, fauna geral, invertebrados, vertebrados, peixes,
anuros, répteis, aves e mamíferos, todos realizados por meio de levantamentos e
inventários da fauna.

Nesse encarte, é possível encontrar ainda aspectos do solo, clima, hidrografia, geologia,
arqueologia e sítios pré-históricos. Além disso, no Plano existe uma contextualização
pre-histórica das tradições rupestres, tradição nordeste, agreste, São Francisco e
Planalto, além de Sítios Arqueológicos Pré-Históricos identificados.
83
Unidade IV | Planos de manejo

O Plano informa ainda sobre alternativas econômicas, uso e ocupação da terra e


problemas ambientais decorrentes, pressão sobre a fauna e finaliza o encarte com os
aspectos relacionados à visão da comunidade sobre o Parque.

Vale destacar as análises sobre as pressões sobre a fauna, pois foram considerados
diversos aspectos importantes que tiveram como base a lista de espécies que ocorrem
no ambiente. Foi informado sobre as pressões oriundas da zona urbana, saneamento,
construções civis etc.

O terceiro encarte trata de análises mais burocráticas e de criação do Parna, e o quarto


encarte fala sobre o planejamento do Parque com as ações internas, apoios institucionais,
objetivos de manejo e cronograma de atividades a serem realizadas.

Por sim, o Plano de Manejo do Parna da Chapada da Diamantina conta com o


quinto encarte que trata dos projetos específicos que visam alcançar os objetivos
propostos de forma descentralizada. Alguns projetos são o Fogo e o projeto Escalada
em Rocha. Percebemos então que existe uma alta complexidade para elaboração
de um Plano de Manejo, mas a base para a sua formulação é o levantamento das
informações sobre a biodiversidade e sobre as comunidades que vivem na área ou no
seu entorno.

No caso do Parna da Chapada da Diamantina, a construçao do Plano de Manejo


durou cerca de 22 anos desde a fundação do Parna. Isso só corrobora com o que
estamos comentando no decorrer da apostila. Existem pesquisas e levantamentos
que trazem respostas rápidas e robustas, mas existem alguns que demandam tempo
e paciência.

No caso de unidades de conservação, o tempo disponível é bem maior e possui


mais recursos que um inventário para fins de licenciamento ambiental. No entanto,
é interessante notar essas diferenças e ler mais sobre esses planos para o conhecimento
das metodologias empregadas nos inventários específicos, para que você possua
um leque maior de possibilidades e aproveite melhor o tempo e o recurso
disponível na realização dos inventários de vertebrados, que é a situação norteadora
da nossa apostila.

Floresta Nacional de Carajás

A Flona de Carajás (figura 31) está localizada no Bioma Amazônia, no estado do Pará,
possui área de 391.263,04 hectares e foi criada oficialmente pelo Decreto n. 2.486, de
2 de fevereiro de 1998.

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Planos de manejo | Unidade IV

Figura 31. Floresta Nacional de Carajás.

Fonte: http://www.tourpara.tur.br/sites/default/files/flonaca.jpg.

Diferente do Plano de Manejo explicitado anteriormente, o Plano da Flona de Carajás


é dividido em dois volumes. O primeiro diz respeito ao diagnóstico, e o segundo
volume é o de planejamento. No Volume I, o Plano está estruturado em sete tópicos
principais correspondendo a cerca de 200 páginas.

Nesse volume, estão descritos aspectos gerais da Flona, caracterizando a região de


Carajás, acessos terrestres e a origem do nome adotado. Em seguida, o Plano traz
informações sobre a representatividade da Flona de Carajás, dando enfoque à mineração
que é muito significativa na região.

Os aspectos históricos, culturais e socioeconômicos vêm em seguida, com descrição


do extrativismo vegetal e mineral, aspectos culturais e históricos, caracterização da
população residente na área e alternativas de desenvolvimento econômico sustentável.
Outro tópico importante é o de caracterização dos fatores abióticos e bióticos que
ocorrem na Flona.

É nesse tópico que constam os resultados dos inventários realizados da fauna e da flora
e as informações ecológicas sobre os grupos inventariados. Como já discutido, esse é
um dos tópicos mais importantes e relevantes, pois ele pode dar base a praticamente
todos os outros pontos de discussão no Plano de Manejo.

Os dois últimos tópicos fundamentais presentes nesse volume são o de caracterização


e análise das atividades que ocorrem na Flona de Carajás e os aspectos institucionais.
Esses volumes trazem informações sobre atividades conflitantes na área, atividades

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Unidade IV | Planos de manejo

ilegais frequentemente observadas, e aspectos burocráticos como infraestrutura,


equipamento e serviços, conselhos consultivos, sede e demais aspectos de infraestrutura.

O segundo volume trata de limites geográficos e de atividades dentro da Unidade de


Conservação com as zonas de preservação, de uso público, de uso especial, de manejo
florestal, de mineração, de uso conflitante e de amortecimento. Além disso, nesse
volume, estão descritas as normas gerais da Flona e os Programas de Manejo.

No caso da Flona de Carajás, os Programas de Manejo são o de administração, proteção,


pesquisa e monitoramento, educação ambiental, manejo florestal sustentável, uso
público e incentivo de desenvolvimento sustentável do entorno. É importante destacar
a presença de programas voltados à pesquisa e monitoramento, pois, em UCs, as
pesquisas sobre a flora e a fauna existentes na área são de extrema importância na
avaliação do equilíbrio ambiental.

Percebemos então que as pesquisas de inventários e levantamentos de flora e fauna,


sobretudo de animais vertebrados, fazem-se muito necessárias em diferentes contextos.
Elas podem ser usadas em processos de licenciamento ambiental para instalação
de empreendimentos, mas podem ser utilizadas também para criação, avaliação e
monitoramento de Unidades de Conservação.

Por fim, ressaltamos que os inventários são bases principais no conhecimento da


biodiversidade para os diversos fins, desde econômicos a conservacionistas. Nesses
contextos, podem servir como fonte de dados confiáveis para analistas ambientais
na avaliação de processos para empreendimentos no licenciamento ambiental, com
informações sobre a fauna que existe naquela área em questão, e podem servir também
para meios de conservação sem fins lucrativos.

Para cada situação, existem peculiaridades na disponibilidade de tempo, recursos e


equipamentos que devem ser levadas em consideração. Além do mais, dependendo do
objetivo do inventário realizado, você poderá ter um direcionamento na metodologia
a ser empregada e no tipo de coleta que você irá realizar.

Independente da finalidade com que o inventário de vertebrados será realizado, o


conhecimento acerca dos bancos de dados, coleções biológicas, características de captura,
transporte e coleta in situ e ex situ de espécimes e de material biológico é fundamental
para a realização de um bom inventário.

Não podemos nos esquecer dos aspectos éticos envolvidos e na escolha de uma boa
metodologia a ser empregada em cada situação, de acordo com o grupo de vertebrados

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Planos de manejo | Unidade IV

que serão estudados. Ressalto ainda a importância da busca constante por metodologias
diferenciadas e eficazes visando ao levantamento de espécies, pois um bom profissional
deve se manter sempre atualizado quanto às questões da sua área de atuação.

Os métodos de inventários de vertebrados vão além da coleta de dados. Inventários


eficientes e com dados úteis nascem desde o levantamento bibliográfico, passando
pela escolha de uma metodologia adequada, finalizando na avaliação e tratamento
dos dados obtidos, a fim de que esses dados sejam úteis no processo de licenciamento
ambiental e também em projetos puramente conservacionistas.

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REFERÊNCIAS

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Unidade IV | Planos de manejo

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