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Osvaldo Coggiola

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GOVERNOS MILITARES
NA AMéRICA LATINA

CONTEXTO
Copyright © 2001 Oswaldo Coggiola
Coordenação de textos
Carla Bassanezi Pinslcy
Preparaçã o
Camila Kintzel
Diagramaçã o
José Luis Guijarro
Revisão
Sandra Regina de Souza
Projeto de capa
Antônio Kehl
Montagem de capa
Fá bio Amando

Dados Internacionais de Cataloga çã o na Publicação (CIP)


.
(Câ mara Brasileira do Livro, si» Brasil )

Coggiola , Oswaldo
Governos militares na Am é rica Latina / Oswaldo

Coggiola. Sã o Paulo : Contexto, 2001 . - ( Repensando a
História do Brasil )

Bibliografia .
ISIIN 85-7244-183-2

-
1. Ditadura Am é rica do Sul . 2. Governo militar -
-
Am érica do Sul. 3. Militarismo América do Sul. 4.
Perseguições políticas - Am é rica do Sul. 1. Título. II.
Série.

-
01 3776 -321.9098
CDD

í ndices para catá logo sistem á tico:


1. América do Sul: Governos ditatoriais:
Ciência política 321.9098
Dedico a todos os mortos
Proibida a reproduçã o total ou parcial.
Os infratores serã o processados na forma da lei. e desaparecidos na luta contra as
ditaduras militares na América Latina.
2001

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA CONTEXTO ( Editora Pinsky Uda.).
Diretor editorial Jaime Pinsky
-
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www .edi tora contexto.com . br
Sumário

Introdu çã o

Os regimes militares sul-americanos na d écada de 1960 1

O novo espaço histórico do poder militar nas


décadas de 1970 e 1980 3

O mercado comum do terror 5

O epílogo sem fim 7

Conclusão 10

Cronologia 11

Sugestões de leitura 11

'
Introdu çã o

TTntre meados da d écada de 1960 e meados da d écada de 1980,


JUa América Latina , em especial a América do Sul, viveu um pe ¬
rodo histórico dominado por regimes militares. As conseqiiências
í
desse per íodo são sentidas até hoje, não se tratando de algo supe¬
rado . A principal delas foi a eliminação, pela repressão, de boa par¬
te ou , em alguns países , da maioria das lideranças políticas de es ¬

querda - ou simplesmente progressistas , sindicais , estudantis e


intelectuais . Muitos dos que sobreviveram à repressão, por outro
lado, tiveram suas vidas alteradas para sempre: carreiras interrom ¬

pidas , vocações abandonadas, exílios temporá rios que se transfor¬


maram em definitivos. Muitos morreram, anos depois, em conse-
qiiê ncia dos padecimentos sofridos no período ditatorial .
Diferentemente do genocídio nazista , a repressão teve um cará ter
mais seletivo , mas não menos horroroso: dos cem mil mortos e
cinqü enta mil desaparecidos na Guatemala na década de 1980 ,
aos trinta mil (ou mais) desaparecidos na Argentina na segunda
metade da década de 1970 , o catálogo dos horrores parecia não
ter fim . Algumas perdas foram definitivas: a Am é rica Latina nun ¬
ca voltará a ser a mesma depois da “ era das ditaduras ” , dos seus
quase cem mil desaparecidos e das dezenas de milhares de assas ¬

sinatos polí ticos.


A história desse período, em geral e em cada país, ainda está
para ser feita , embora j á existam sobre ele numerosos livros de
den ú ncia , an álises e reportagens jornalísticas de f ôlego , filmes ,
romances e peças teatrais . Parece que os historiadores paralisa-

9
'

ram diante do que , às vezes , toma-se indescritível. Algo seme ¬ Os Regimes Militares Sul-Americanos
lhante aconteceu com o holocausto judeu durante a Segunda
Guerra Mundial: as an á lises hist ó ricas de conjunto, as que real
¬
na Década de 1960
mente revelaram a trama de interesses , contradições e até cum ¬

plicidades existentes tiveram de esperar mais de três décadas de ¬

pois do fim dos acontecimentos , quando a maioria dos


responsáveis diretos ou indiretos já estava morta ou praticamen-
te esquecida .

Á primeira dificuldade , quando analisamos os governos milita-


xixes latino-americanos das d écadas de 1960 a 1980 , consiste
em determinar os tra ços comuns a regimes e situa çõ es polí ticas
diversas. Os golpes militares de Velasco Alvarado e Ovando Can ¬

día - respectivamente no Peru e na Bolívia , em 1968 naciona ¬

listas e “ populistas ” , diferem em muito dos regimes repressivos e


entreguistas de Pinochet , Costa e Silva ou Videla , no Chile , no
Brasil e na Argentina.
No que pesem as enormes diferenças , alguns pontos em co ¬

mum a todos os regimes militares são evidentes: dissolução das


instituições representativas, falência ou crise aguda dos regimes e
partidos políticos tradicionais , militarização da vida política e so¬

cial em geral. Os regimes militares “ progressistas ” , por outro la ¬

do , foram a exceção nesses “ anos de chumbo” . Um outro aspecto


em comum é o crescente poderio , econ ó mico , social e político , a
partir das décadas de 1950-60, da instituição militar.
Em meados da década de 1960, três golpes militares de sig ¬

nificativa importâ ncia mudaram a história da América do Sul. Nos


três foi visível a influência determinante da diplomacia norte-ame ¬

ricana . A tensã o internacional - Estados Unidos versus URSS , OU


“ comunismo versus mundo livre ” - forneceria justamente o álibi
ideológico para os golpes militares, que afirmaram com unanimi ¬

dade ser a democracia “ incapaz de conter o comunismo ” .


BOLÍVIA 1964 Em 1964, o regime do MNR recebeu seu prémio final pela bem
sucedida tarefa de reconstituir o “ pilar da ordem ” : um ponto fi
Na Bolívia , as Forças Ar
¬ nal ao seu regime , que navegava penosamente em meio a crise
madas , encabeçadas por Re ¬ económica e política intermináveis.
né Barrientos Ortuño, derru ¬

baram em 1964 o governo


« civil do MNR (Movimento Na
cionalista Revolucion á rio) .
¬ BRASIL 1964

Este , por sua vez, era herdei¬ Pela importância económica e demográfica do país na Améri
ro da crónica instabilidade ca do Sul, o golpe militar decisivo , na década , foi aquele que der
polí tica nascida com a revo ¬ rubou em 1964 o regime civil brasileiro, dando-se por tarefa
lução de 9 de abril de 1952,
que tinha findado outro regi ¬ cumprir a missã o de restaurar no Brasil a ordem econó mica e financeira
me autorit á rio de seis anos
de dura ção (o “ sexenio ” ) , o
governo da “ rosca ” , como ,
era conhecida a oligarquia
_ tomar urgentes medidas destinadas a drenar o bolsão comunista , cuja puru
lencia já se havia infiltrado não só na cú pula do governo , como nas suas de
pendências administrativas.

O “ colapso do populismo brasileiro ” foi muito mais do que


agrária e do estanho na Bolí ¬
na expressão do sociólogo Francisco de Oliveira , “ a dissolu ção da
Entre 1962 e 1964 os mineiros boli
via (os famosos “ barões” : Pa-
¬

vianos foram protagonistas de uma ambigtiidade do Estado ” (isto é, o desvendamento de sua função a
das mais profundas revolu ções da tiño, Rotschild e Aramayo,
serviço da classe dominante) : havia a pressão dos sindicatos pelas
Amé rica do Sul . que se destacaram entre as “ reformas de base ” , a das Ligas Agrárias comandadas por Francis
maiores fortunas do planeta).
co Julião pela reforma agrária e a de uma CPI (Comissão Parlamen
Em 1952 , a insurreição mineira e camponesa derrubou o re-
tar de Inqué rito) para investigar os ganhos das empresas multina
íA gime da “ rosca ” , literalmente destruiu o Exército e colocou a na-
“ cionais instaladas no país , em especial a Volkswagen . O quadro
pÀ cionalização do complexo mineiro e a reforma agrária na ordem
sindical-camponês ameaçava escapar ao controle do governo de
do dia . As milícias operárias e camponesas passaram a ter o pa ¬
pel destacado na vida política do país. As nacionalizações e a eli ¬
João Goulart , o Jango, resultante da crise política que levara à re
nú ncia , em 1961, do presidente J ânio Quadros.
minaçã o do latif ú ndio acabaram acontecendo , mas com indeni-
Diante de tal quadro , desfavorável ao progresso dos interesses
za ções compensatórias e de modo burocrá tico, devido à influência
económicos dos Estados Unidos , não fica difícil associar a queda
do partido (o MNR), que havia herdado o poder depois da convul ¬

são de abril .
do governo Goulart à intervenção política dos norte-americanos
Durante os períodos de preparação e imediatamente posterior a efe
Vale destacar que o MNR deu-se como principal tarefa a recons¬ ¬

tivação do golpe foi intensa a atuação da embaixada norte-america¬


tituição da coluna vertebral do velho Estado , as Forças Armadas,
tarefa para a qual contou com a generosa ajuda das missões milita- na no combate político ao governo constitucional. O embaixador
Lincoln Gordon èra assíduo freqúentador do palácio presidencial.
ii res e créditos dos Estados Unidos , que pagou avista a capacidade
de manobra diante da revolução que só o velho inimigo naciona ¬
Sugeria nomes para compor os ministé rios , censurava as escolhas
lista, chefiado por Victor Paz Estenssoro, possuía. de “ esquerdistas ” para as assessorias do presidente, criticava aber¬
tamente projetos e iniciativas governamentais. Militares, govemado-
res de Estado, deputados, empresários e dirigentes sindicais eram progn ósticos da CIA
convidados permanentes do ativo embaixador. Entidades políticas e (Central de Inteligê n ¬

sindicais de direita que faziam oposição a Goulart foram generosa ¬


cia dos Estados Uni ¬

mente contempladas com recursos financeiros do governo norte ¬


dos , criada depois da
americano . Tudo o que visava a minar o Poder Executivo federal era
incentivado pelos Estados Unidos.
Segunda Guerra Mun ¬
fH
dial) , que previa uma
Thomas Mann, Secretá rio de Estado para Assuntos Interna ¬

gueixa civil prolonga ¬

cionais dos Estados Unidos , declarou a respeito: da, os “ revolucionários i f .A


Quando assumi o cargo , até mesmo antes , estávamos conscientes de que o
comunismo estava corroendo o governo do presidente Goulart , de uma for¬
ma rápida, e antes de chegar ao cargo já tínhamos uma polí tica destinada a
ajudar governadores de certos estados.
de abril ” n ã o precisa
ram disparar pratica-
mente um só tiro para
derrubar o governo de
¬

* m
Goulart . Dessa manei ¬ Ã
Tal política ficou conhecida com o significativo nome de “ aju ¬
ra, a sigilosa Operação
da às ilhas de sanidade administrativa ” . Consistiu na liberação de Brother Sam pôde ser
verbas da Aliança para o Progresso, sistema de “ ajuda ” económica cancelada , antes mes ¬ - -
continental montado pelos Estados Unidos , apenas para aqueles mo de se efetivar. Esse
estados cujos governadores eram hostis ao governo federal. Dessa lato permitiu ao soler ¬

forma foram beneficiados, entre outros , os estados da Guanabara , te embaixador norte- Castelo Branco , acompanhado por um digna-
São Paulo e Minas Gerais. Não havia , pois, nenhuma coincidência americano proclamar t á rio da Igreja Católica , passando em revista
no fato de seus governadores serem notórios e importantes “ cons ¬
com muita alegria , as troPas -
piradores civis ” - respectivamente , Carlos Lacerda , Ademar def mas com idêntica so ¬

Barros e Magalhães Pinto . lenidade , que “ a revolução de 1964 tinha sido um produto 100%
Documentos do Departamento de Estado norte-americano, brasileiro ” . Três dias após o golpe, Carlos Lacerda ouviria de Lin ¬

recentemente revelados à opinião p ú blica , evidenciam o grau de coln Gordon a seguinte declaração:
envolvimento dos Estados Unidos na preparação e execu ção do
Vocês fizeram uma coisa formidável! Essa revolu çã o sem sangue e tã o rá pi
golpe de abril de 1964. Examinaremos aqui apenas o caso da cha ¬

da! E com isso pouparam uma situa çã o que seria profundamente triste, de
mada Operaçã o Brother Sam. No dia 31 de março aprovou -se , sagrad ável e de conseqii ê ncias imprevisíveis no futuro de nossas rela ções
numa reunião no Departamento de Estado, um plano militar nor ¬
vocês evitaram que tivéssemos que intervir no conflito .
te-americano que consistia no envio às costas brasileiras de um
porta-aviões de ataque pesado (o Forrestal) , destróieres de apoio, O Estado militar se credenciaria como principal guardião do ca¬
petroleiros bélicos , navios de munições e navios de mantimen ¬
pital internacional e defensor da “ restauração da economia” - cam-
tos ; aviões transportando armas e muniçõ es (110 toneladas) , baleante e anarquizada pelas constantes greves - por meio de um
aviões de caça, aviões tanques e um posto de comando- transpor- “ programa de desenvolvimento ” baseado na “ livre iniciativa ” e, co ¬

tado deveriam se deslocar para o Rio de Janeiro. mo o principal inimigo era externo (mas encontrava-se infiltrado
O objetivo de toda essa aparatosa operação era fornecer apoio dentro do país) , no duro combate contra a “ ofensiva do comunis ¬

logístico, material e militar aos golpistas. Contrariando os próprios mo internacional” . As Forças Armadas não estavam sozinhas: apre-
/

sentando-se como defensoras da “ paz social ” , da “ moral ” e da “ or- Apenas 18 anos tinham passado desde que o Artigo Primeiro da Constitui
dem ” , os setores mais reacionários dos partidos e instituições brasi- çã o de 18 de setembro de 1946 proclamara : “ Todo poder emana do povo e
em seu nome será exercido ” .
leiras (incluída a Igreja Católica , que já tinha cumprido um papel
decisivo no golpe militar argentino de 1955, assim como no boli ¬

Ainda em 1964, por meio do decreto-lei n ú mero 4341 de 13


viano de 1964) foram acionados em 1964 a fim de deter o processo de junho, foi criado o SNI (Serviço Nacional de Informação) , com
de mobilização política. objetivo de levar adiante os “ princípios” da Doutrina de Seguran
Os dispositivos autoritá rios que passaram a reger a vida polí ¬
ça Nacional , que apontava como primordial identificar e comba
tica no Brasil foram sistematizados no Ato Institucional nú mero 1,
ter o “ inimigo interno ” . Qualquer informa çã o incriminando um
de 9 de abril de 1964: cidadão era suficiente para a apuração abusiva de sua privacida
- eleição indireta do presidente da Rep ú blica;
de, fato que tomava os membros da “ comunidade de informações ”
- quorum de maioria absoluta para aprova çã o de emendas
figuras que detinham poderes absolutos sobre os indivíduos. Es
constitucionais enviadas pelo Executivo e prazo de trinta ses oficiais irão se identificar como grupo de pressã o dentro do
dias , no máximo , para sua votação; sistema militar-autoritá rio , formando o contingente dos “ linhas-
- decurso de prazo para projetos de lei enviados pelo Execu ¬

duras ” , defensores de medidas extremas contra oposicionistas.


tivo : trinta dias para votação , caso contrário eram conside ¬

A 27 de outubro de 1965 foi imposto o Ato Institucional n ú


rados aprovados; mero 2 , que previa a ampliação dos poderes presidenciais e a atri
- exclusividade do Executivo para projetos de lei que crias ¬
buiçã o de competência à Justiça Militar para julgar civis acusa
sem ou aumentassem a despesa pública ; dos de cometerem crimes contra a seguran ça nacional, assim
- Poder concedido ao Executivo para decretar estado de sí tio
como a extinção dos partidos políticos e a autorização para a or
sem audiência prévia do Congresso , que seria ouvido ape ¬

ganização de apenas dois partidos , a Arena (Aliança Renovadora


nas 48 horas após a decretação da medida; Nacional, que seria o partido oficialista) e o MDB (Movimento De
- suspensã o por seis meses das garantias constitucionais ou
mocrá tico Brasileiro) . Em 5 de fevereiro de 1966 , o governo mili
legais da vitaliciedade e estabilidade (atingindo , portanto, tar fez baixar o Ato Institucional nú mero 3. Visando a ampliar o
o funcionalismo e a magistratura) ; cará ter ditatorial do regime, foram adotadas as seguintes premis
- os três ministros militares - e posteriormente o presidente
sas: (a) eleições indiretas para governadores e vice-govemadores
da Repú blica , eleito indiretamente pelo Congresso - pode ¬

de Estado nas assembléias legislativas , com maioria absoluta, em


riam cassar mandatos legislativos federais e suspender di ¬

vota ção pú blica e nominal ; (b) nomeação dos prefeitos das capi
reitos políticos por dez anos, sem apelação judicial. tais pelos governadores .
Se a conspiração civil-militar de 31 de março de 1964 signifi ¬

cou o fim do governo constitucional de João Goulart, o Ato Insti ¬

tucional decretou a morte do regime baseado na Constituição de ARGENTINA 1966


1946 , na harmonia e independência dos Poderes , na inviolabili ¬

dade do mandato parlamentar. O preâ mbulo do ato já antecipava Em 28 de junho de 1966 , foi com iguais ares de “ refundação
a morte do regime democrá tico quando afirmava:
institucional ” que o Exército Argentino , sob o comando de Juan
Fica assim bem claro que a revolu ção n ã o procura legitimar-se através do
Carlos Onganía , tomou o poder no país, demibando o governo ci
Congresso. Este é que recebe deste Ato Institucional , resultante do exercício vil do partido radical (União Cívica Radical, ou UCR) . O regime ci
do Poder Constituinte, inerentes a todas as revoluções, a sua legitimação. vil tinha sua origem na Assembléia Constituinte convocada pelo
governo militar de Aramburu , em 1957 , depois de derrubar o go- básica , maquina ¬
i

-
vemo de Peró n em setembro de 1955. Os governos civis que se
sucederam , desde aquele ano, padeceram de uma crónica instabi- |
rias e qu ímica
(crescimento de
* m
' lidade política devido à proscrição do partido majorit á rio (o Pero- v: 8,6% anual) . Para
^
levar adiante o
,
mista , cujo líder se encontrava exilado na Espanha de Francisco
Franco) ; à sistem á tica hostilidade do movimento operá rio ; e aos j\°áf
¡ projeto político
sucessivos planteos (ultimatos) militares - os governos civis eram ) dos militares , co -
reféns das Forças Armadas. Sob outra legenda partidária, o pero- 7 gitavam-se formas
pismo tinha vencido , com o dirigente sindical Andrés Framini , as corporativas , isto <*

eleiçõ es para governador de Buenos Aires em 1962 : a posse do é , antidemocrá ti ¬


eleito foi, entretanto , impedida por um golpe militar que quase cas, discutidas em
descambou numa guerra civil entre fra çõ es do Exé rcito ( “ azuis ” cursos organiza ¬
versus “ colorados ” ). dos pela hierar ¬
O peronismo n ã o deixou de se interessar pelas possibilida ¬
quia da Igreja Ca ¬
des abertas pelo golpe militar de 1966 : a direção sindical pero ¬
tólica , nos quais
nista assistiu à posse do general Onganía , enquanto o “ líder ” , Pe
¬
se selecionava o
ró n , aconselhava , da Espanha , a “ desensillar hasta que aclare” pessoal polí tico
(expressão argentina equivalente a “ deixa como está para ver o do regime .
que acontece ” ). A ditadura encarregou-se de dissipar toda ilusão: ; A naciona- General Per ón no exílio espanhol em companhia
Começou por tirar a autonomia das universidades, reprimindo vio- j lista , classe m é- de um partid á rio
,

lentamente toda e qualquer oposição (em 7 de setembro de 1966 í dia amargamente


foi morto numa manifestaçã o de rua em Córdoba o estudante San- j desiludida com
tiago Pampillón) . A “ depuração ” da educaçã o p ú blica fez a IgrejaJ os rumos da “ Revolu ção Argentina ” (nome do golpe de Onganía) ,
penetrar em todos os setores do aparelho educacional. não só não compreendia o grau de associação da burguesia com
O condutor da economia , Adalbert Krieger Vasena , era mem ¬
o capital financeiro internacional , tampouco entendia a dimen-
bro de uma poderosa família de industriais (os Vasena, de cuja fá- são internacional do golpe de 1966. O projeto de penetraçã o nor ¬

, brica metalú rgica tinha partido a greve geral de 1919) , mas era tam
¬
te-americana na América Latina tinha exigido a deposiçã o de vá- /
c/! bé m diretor de umas 15 filiais de empresas norte-americanas. O rios governos civis para garantir a “ calma ” necess á ria ao
' homem era uma síntese
da trajetória da burguesia argentina , de
¬
andamento dos negócios e o combate à Revolução Cubana . Bolí ¬

senvolvida em relação cada vez mais estreita e subordinada ao ca- via 1964 ( Barrientos) , Brasil 1964 ( Castelo Branco) e Argentina . ;

r;r , phal ianque. Por meio da racionalização e da queda do salário real 1966 (Onganía) eram elos de um processo comum, que por toda
(menos 10% em 3 anos) , Krieger Vasena acentuou o desemprego e parte se auto-intitulava “ revolu ção ” .
\c,a superexploração da mão-de-obra que já caracterizavam os gover- Na Argentina , os resultados foram extraordinariamente de ¬

í
; nos anteriores: no per íodo 1955-1969, a produtividade cresceu cepcionantes do ponto de vista económico. O montante dos in -
100% e os salários reais caíram 30% . É com base nessa política que vestimentos estrangeiros (1967-69) n ã o ultrapassou 26 milhões
~ !
a indústria argentina cresceu nesse per íodo 5,5% ao ano (contra de dólares. Apesar disso , 59 das 100 maiores empresas eram es ¬

A , 1 , 4% da agricultura ) , concentrando -se nos setores de metalurgia trangeiras (eram 50 em 1966, 14 em 1957) . O país, dados os li-
mites para o desenvolvimento industrial em um mercado capita ¬
leum Company (IPC) . No mesmo ano , no Peru , o General Velasco
lista (já experimentados pelo peronismo) , tinha deixado de ser Alvarado tomava o poder e anunciava a nacionalização das explo ¬
um terreno privilegiado aos investimentos diretos estrangeiros. O rações petroleiras de Talara (em mãos de companhias norte-ameri ¬

capital financeiro preferia apropriar-se dos capitais já existentes , canas) e a reforma agrária , para a qual organizou um sistema de
lucrando com o atraso estrutural da ind ústria . No período de mobilização “ por cima ” da população, o Sinamos (Sistema Nacio ¬

1966-71, as remessas de lucros ao exterior atingiram 2 ,13 bilhões nal de Mobiliza ção Social) , cuja direção confiou a um ex-esquer-
de d ólares (compare-se com a cifra citada para os investimentos) dista (ex-trotsldsta) , Ismael Frias.
enquanto a dívida externa chegou a 5 ,3 bilh õ es de d ólares em O processo se radicalizaria em 1969 na Bolívia , até provocar,
1971. em 1970, uma tentativa de contra-golpe militar, chefiada pelo ge ¬

Até a oligarquia latifundiá ria teve atritos com a equipe de tes- neral Miranda , que foi respondida por uma bem-sucedida greve
tas-de-ferro norte-americanos de Krieger Vasena , que queria au- geral, convocada pela COB (Central Operária Boliviana) e estrutu ¬
^
; mentar-lhe os impostos . Em 1968, o governo gabava-se da “ paz rada em tomo dos poderosos sindicatos do complexo mineiro na ¬

social ” conseguida , enquanto os conclaves de arcebispos e tec- cionalizado . A greve geral barrou o golpe direitista e culminou
nocratas do regime discutiam as mais delirantes f órmulas políti ¬
com a organização do “ Comando Político ” da COB , que convocou
cas para organizar a “Argentina do futuro ” .. . a uma Assembléia Popular. Esta realizaria as suas sessõ es em
1971: seu estatuto a definia como uma alternativa de poder ope ¬

rá rio e popular, nos moldes dos sovietes da Revolu ção Russa de


1968 outubro de 1917, e caracterizou o início de uma situa ção revolu ¬

cionária de “ duplo poder ” .


Nos anos 1968-1969 , no entanto , os governos militares en¬ Antes disso, porém, o governo de Ovando Candia - preso en ¬

traram em profunda crise , devido à onda de mobilizações popu ¬


tre a oposição direitista e a rad icalização opejária, studantil _e ça_mr
lares que percorreu toda a América Latina , desde o México (onde
em 1968, ano dos jogos olímpicos, aconteceu o massacre de es
^
ponesa - perdeu toda base política de sustentação, sendo derruba ¬
¬
do pelo general Juan José Torres, que tentou co-govemar com a
tudantes da Praça de Tlatelolco) até a Argentina e o Uruguai. Na Assembléia Popular (chegou a lhe oferecer metade do gabinete de
verdade tratou -se do início de uma crise mundial , em que cabe ¬
governo, o que a Assembléia , sob inspiração do POR - Partido Ope ¬

ria mencionar o “ maio francês ” , a Primavera de Praga e, mais im


portante, o início da Ofensiva Te[ por parte do Vietcong e do Viet-
¬


rário Revolucionário, trotskista , recusou, exigindo maioria absolu
ta no governo, com ministros sob seu controle, e execução do pro
¬

nã do Norte contra a ocupa çã o da Indochina pelo exército dos grama da Assembléia) .


Estados Unidos, todos acontecimentos do ano de 1968.
Em junho de 1968 houve importantes manifestações estu ¬
Na Bolívia , o mesmo general (Alfredo Ovando Candia) que em dantis contra a ditadura militar no Brasil, violentamente reprimi¬
1967 tinha comandado a caçada e o assassinato do revolucioná rio das. Isto levou a protestos populares contra a ação da polícia con ¬

de esquerda Ernesto “ Che” Guevara, comandou em 1968 um “ gol¬ tra os manifestantes : o governo acabou por decidir-se em retirar
pe dentro do golpe ” , que destituiu o governo “ gorila ” (termo usa¬
os militares das ruas, e a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro
do para designar os partid á rios dos Estados Unidos) de René Bar ¬
protagonizada principalmente por estudantes, pôde realizar-se
rientos e pôs em prá tica uma política nacionalista , nacionalizando \ “ pacificamente ” . Os acontecimentos do Primeiro de Maio de
as instalações petroleiras norte-americanas da International Petro- í 1968, em que alguns setores organizados do movimento operá-
I

rio e estudantes ligados a grupos de esquerda expulsaram o go


m LUFO P
¬

vernador de São Paulo e incendiaram o palanque instalado na Pra ¬

ça da Sé , as greves operá rias em Osasco e Contagem e seus des ¬

dobramentos políticos refletiram um agravamento da crise .


Vários agrupamentos de oposiçã o ao regime , atuando na clan¬

destinidade, empreenderam ações aunadas em diferentes cidades


do país. Entre esses grupos , se notabilizaram a Ação Libertadora
Nacional (ALN ) , comandada pelo ex-deputaclo e ex-membro da exe ¬

cutiva do Partido Comunista Brasileiro (PCB) , Carlos Marighella ; e


a Vanguarda Popular Revolucioná ria (VPR) , liderada pelo ex-capi-
t ã o do Exé rcito Carlos Lamarca . Um outro agrupamento organi
zou no in ício da década de 1970 um movimento guerrilheiro no ;
¬

.
c
I Jtm á
sul do Pará. Na região do Araguaia , contando com um incipiente
apoio da população local, algumas dezenas de guerrilheiros , vin ¬

culados ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), organizaram o



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^
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que o general Hugo Abreu , comandante das tropas enviadas para
sufocar o movimento , classificou como “ o mais importante movi
mento armado já ocorrido no Brasil rural ” .
Durante o governo do General Garrastazu Médici (1969-1974)
¬

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Protesto estudantil em Sã o Paulo contra a morte de Edson Lu ís ocorrid
e, em menor intensidade, no governo Geisel (1974-1979) , os agru ¬
durante confronto de estudantes com a pol ícia , 1968.
pamentos identificados com a “ luta armada ” - no campo e na cida ¬

de - foram sendo perseguidos e eliminados, com enorme mobiliza ¬


A 13 de dezembro de 1968, ao decretar esse Ato , o governo mil
ção de tropas e do aparelho repressivo do Estado. No sul do Pará as tar possibilitava ao presidente da República, entre outras coisas:
forças repressivas mobilizaram um contingente militar envolvendo,
aproximadamente, vinte mil soldados para debelarem a guerrilha - decretar recesso do Congresso Nacional, das Assembléias e da
dos militantes do PC do B. O resultado desta ofensiva foi o assassi
¬ Câmaras de vereadores;
nato de pelo menos 61 militantes das forças guerrilheiras que atua¬ - cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais e su
vam no Araguaia. A repressão desencadeada contra os grupos arma ¬ pender os direitos políticos por dez anos;
dos acabou , entretanto , atingindo também um sem-n ú mero de - decretar intervenção nos estados, municípios e territórios;
pessoas que não estavam envolvidas, muitas das quais, além de pre¬ - decretar o estado de sítio e prorrogá-lo ;
sas de forma violenta e arbitrária, foram torturadas e assassinadas. - decretar o confisco de bens.
Na luta contra as forças repressivas do Estado militarizado foram Simultaneamente , o presidente Costa e Silva impôs o Ato Com
mortas mais de uma centena de pessoas e outras tantas são dadas plementar nú mero 38, determinando ao Congresso um recesso po
como desaparecidas. tempo indeterminado (o poder legislativo só seria novamente co
Ainda em 1968 , depois de atacar e reprimir os movimentos vocado para referendar a indicação do general Médici para o exe
grevistas de Contagem e Osasco , foi decretado o Ato Institucio ¬
cício da presidência da República, em outubro de 1969.) O prete
nal n ú mero 5, que restringia ainda mais as liberdades políticas . to utilizado para justificar a decreta çã o do Ato Institucion
Os documentos revelam que, em dezembro de 1968, o gove
no norte-americano viu o fechamento do Congresso e a suspensã
dos direitos políticos no Brasil como uma “ reação lógica ” a “ prov
;- r - cações ” esquerdistas e um mal necessá rio para impedir que o Bras

v'
V - se transformasse num “ país socialista ” . A relação entre Nixon e M
.
A $ dici começou de forma desconfiada , e avançou para uma colabor
:-vo
ção estreita e freqü ente, baseada no sentimento anticomunista d
ambos: para ganhar a confiança e a intimidade de Médici, os Est
dos Unidos deram ao Brasil tratamento de potência emergente e
Médici, de líder influente no mundo .
A j\ r\ i n Como contrapartida, Médici freqüentemente alertava Nixo
YA sobre os movimentos “ subversivos ” na América Latina . Em 27 d
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HAU M
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-

u abril de 1972 , escreveu a Nixon para avisar-lhe que o govemo s

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cialista chileno de Salvador Allende estava tremando guerrilhe
ros com o objetivo de implantar na Bolívia um regime marxista:

O caos polí tico ou a instala çã o de um regime marxista-leninista na Bolív


acarretariam conseqüéncias para toda a América do Sul , imensamente ma
graves , perigosas e explosivas do que o problema cubano , dada a posiç
Passeata dos Cem Mil, nas ruas do Rio de Janeiro (26 de junho de 1968) geoestratégica do país.
contra a violê ncia do regime militar.

n ú mero 5 e o fechamento do Congresso Nacional foi a negativa Alende seria derrubado , no ano seguinte , por um golpe m
deste de autorizar o Executivo a processar o deputado oposicionis¬ litar organizado pelos Estados Unidos .
ta M árcio Moreira Alves , acusado do “ grave delito ” de ter feito um
Num memorando sobre a situaçã o brasileira , escrito a ped
discurso ofensivo às Forças Armadas. do de Henry Kissinger, então conselheiro de Nixon para assunto
de segurança nacional, o general Vernon Walters, o mesmo agen
te da CIA que fora adido militar dos Estados Unidos no Brasil du
rante o golpe militar de 1964 , afirmava:
ji
O BRASIL e os Estados Unidos
Em 1964, um govemo hostil foi substituído por um governo amigável e co
Documentos secretos da Presidência de Richard Nixon (1969- perativo, apoiado pelos militares, mas no qual os ministros militares era
1974) , liberados em abril de 2001 pelo govemo dos Estados Uni¬ uma minoria [ .. . ] A oposição logo descobriu que o governo não era repres
dos , revelaram detalhes do apoio da Casa Branca ao govemo bra¬ vo e , depois das eleições de 1966 , procurou provocar o govemo a tom
sileiro durante o período mais brutal da ditadura militar. Eles a ções inconstitucionais . Neste mês ela [a oposiçã o] teve sucesso e o gove
incluem a correspondência pessoal entre Nixon e o ditador Emí¬ no fechou o Congresso e instituiu a censura . Os grupos que se op õ em
lio Garrastazu Médici (1969- 74) , memorandos e transcrições de presente govemo são fortemente hostis aos EUA . OS militares no Brasil s
conversas telefónicas entre autoridades dos dois países. Os regis¬ na verdade o ú nico grupo no país com a força e a organização para comb
ter a subversão que está sendo praticada em escala global [...] Não podem
tros liberados fazem parte dos arquivos do Conselho de Seguran ¬
nos permitir erros nessa região. Se o Brasil se perder, n ã o será uma out
ça Nacional de Nixon . Cuba. Será uma outra China .
repressão no Brasil. Os norte-americanos desenvolveram uma res
posta-padrão para um eventual questionamento da imprensa so
bre o tema: “ Irata-se de um assunto interno brasileiro” .

ARGENTINA: O fracasso da ditadura de Onganía

Na Argentina , a decomposição da ditadura militar adquiri


formas fulminantes. A capitulação sindical perante o golpe de On
ganía tinha provocado um sé rio retrocesso do movimento operá
V I rio: em 1966 , 1.912 .836 jornadas de trabalho foram perdidas em
conflitos sindicais ; em 1967, 244.844; em 1968, 23.500. E , em
1967 , Krieger Vasena suspendeu por dois anos as convenções co
letivas de trabalho (as “ datas-base” ) : o Estado fixaria autoritaria
mente a renda dos assalariados.
Em março de 1967, a CGT (Confederação Geral dos Trabalha
dores) rendeu-se ante a força militar e suspendeu uma greve ge
A Casa Branca apoiou o governo militar brasileiro no período mais bru ¬
ral de 48 horas . Frustradas suas expectativas , a burocracia do
tal da ditadura: Médici visitando Nixon em 1971. sindicatos dividiu -se . Apropria CGT cindiu-se, devido à conqui
ta de posições por parte da facção do “ peronismo combativo
que fundou , com o gráfico Raimundo Ongaro, a CGT dos Argen
tinos ” , em 1968.
Alguns diplomatas e militares brasileiros viam os Estados Uni ¬
Os conflitos sindicais eram isolados , mas muito duros: po
dos como um obstáculo à ascensão do Brasil como uma potência tu á rios em greve em 1966, petroleiros de La Plata e de Buenos A
emergente: dois conflitos poluíam a rela ção bilateral. Os Estados res em setembro 1968 (com greves de 67 e 40 dias respectivamen
Unidos contestavam o limite marí timo de duzentas milhas im ¬
te) , metalú rgicos da Citroen em fevereiro 1969 (mais de 40 dia
posto pelo governo brasileiro para delimitar a soberania do país de greve) . Uma nova geração oper á ria combatia a antiga direçã
(conflito que sobrevive até hoje para toda a América Latina) . Bra ¬
burocrá tica dos sindicatos, especialmente em Córdoba, cidade qu
sília também criticava Washington por restringir as importações seria o teatro da explosão social no ano seguinte.
de caf é , na é poca o produto mais importante da pauta de expor ¬
A polí tica econó mica prejudicava sem compensaçã o quas
tações do Brasil. todas as classes sociais situadas abaixo da grande burguesià . So
Numa carta a Nixon , Kissinger explicou que, por causa do ta ¬
a calmaria aparente, o país virava um caldeirão. Ño interior, ond
manho do Brasil, de seu ó timo desempenho econó mico na épo ¬
a crise social era mais grave , começaram as explosões em 196
ca e da orienta ção anticomunista de seu governo , seria aconse ¬
com as mobilizações estudantis de Comentes , Rosario e Tucum
lhável dar-lhe tratamento preferencial. resultando em vá rios estudantes mortos pela repress ão policia
Nixon também recebeu de Kissinger listas com os assuntos po ¬
Córdoba vivia uma situação especial, devido à crise da sua indú
lêmicos: numa dessas listas consta a única referência à tortura e à
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tria de automóveis (60% da produ çã o do país em I 960 , apenas Algum tempo depois do “ cordobaço” , o alto comando militar
20 % em 1969) . O governo jogava lenha na fogueira abolindo o reuniu-se com o presidente , general Onganía. A resposta de On-
chamado “ sábado inglés” (44 horas trabalhadas , 48 pagas) e re- ganía à pergunta sobre o prazo que previa permanecer no governo
duzindo os salá rios dos metalú rgicos . A concentra çã o geográfica (dez anos!) confirmaram que a cegueira política da equipe gover ¬

nante já beirava a insanidade mental . Em meados de 1970, o ge


¬

do operariado cordobés e sua união com o movimento estudantil


neral Roberto Marcelo Levingston, em nome do Estado Maior das

' foram amadurecendo a idéia de “ sair todos juntos ” em protesto .
Para permitir a participação na luta de toda a população, o diri¬ Forças Armadas, substituiu Juan Carlos Onganía.
gente eletricitário Agustín Tosco propôs na CGT de Córdoba a “ greve Refletindo a influ ê ncia militar nacionalista boliviano-perua
¬

ativa” , a partir de 10 horas da manhã, com prévia concentração nos na, o regime militar de Levingston tentou adotar uma orientação í
económica nacionalista . J á desde 1968, o empresariado discutia
"

locais de trabalho. Em 29 de maio de 1969, os mecânicos (metalú r¬


gicos das fábricas de automóveis) e eletricistas, armados com projé¬ uma mudan ça de orientação económica . A CGE (Confedera ção
teis fabricados por eles mesmos, “ desceram ” à cidade , onde os aguar
¬ Geral Económica) , central empresarial, afirmava que “ os resulta ¬

davam os metalúrgicos e os estudantes. A polícia atirou nas colunas, dos obtidos com a inversão estrangeira foram decepcionantes” (a
provocando várias mortes. Os operários jogaram tudo o que tinham média era de apenas cinqú entá milhões de dólares anuais de in ¬

nas mãos, fazendo a polícia bater em retirada. Toda a popúlação (in¬ vestimentos externos , apesar das facilidades concedidas). E recla ¬

cluindo comerciantes e funcionários) se solidarizou com os operᬠmava uma nacionaliza çã o da economia com base na intervençã o
rios e estudantes. No início da tarde, a polícia abandonou a cidade. d ó Estado. A política do novo ministro da economia (o econo ¬

Limitou-se a garantir o palácio de governo, o comando de polícia e mista “ desenvolvimentista ” Aldo Ferrer) foi ao encontro dessas
as prisões. No resto da cidade, o povo controlava cerca de 150 quar¬ preocupações , com o favorecimento dos fornecedores nacionais
teirões. O operariado organizava a cidade: não houve saques, só ocu ¬ nas compras para o Estado e da limitação aos estrangeiros no ne ¬

pação das grandes empresas e destruição de certa documentação (re ¬ gócio petroleiro.
lativa a dívidas imobiliárias da populaçã o de baixos recursos, por Mas a sua polí tica foi pouco alé m disso e de certas medidas N
exemplo). fiscais, sem dar nenhuma resposta ao fato de que as mobilizações ¿v .

Ajomada de 29 de maio de 1969 ficou conhecida como “ cor- populares punham em perigo a estabilidade do pró prio Estado.
dobaço ” . Só no final da tarde o Exército conseguiu entrar nova ¬ Esse foi o pano de fundo do novo golpedeestado (março de 1971), \
mente na cidade e retomar o seu controle , matando dezenas de que levou ao poder o general Alejandro Agustín Lanusse, um tipi-
manifestantes. No dia seguinte, o país inteiro parou na greve ge¬ co representanteda oligarquia la ti fundiá ria. Já em novembro de /
1970 , o exilado Juan Perón tentava articular politicamente o em- "
'

ral convocada pela CGT. Em um ano , a polícia de Córdoba havia


reprimido elementos de todas as classes sociais da cidade: em 29 presariado e os partidos tradicionais por meio da coalizão “ Hora
de maio , toda a cidade reprimiu a polícia . As greves bem-sucedi¬ dos Povos ” , baseada numa declaração também assinada pela UCR
das dos metalúrgicos, do transporte e a vitória dos mecânicos con ¬ (União Cívica Radical), pelo PDP (Partido Democrata Progressista) ,
tra a polícia em 14 de maio tinham amadurecido o episódio da pelo Partido Socialista , pelo MID (Movimento de Integração e De ¬

jornada de 29 de maio. A esmagadora greve nacional de 30 de senvolvimento, “ desenvolvimentista ” ) do ex-presidente Arturo


maio confirmou que toda a popula çã o tinha sido chamada para
' Frondizi, e outros representantes civis, além, é claro, dos “ justiça-
o combate político contra a ditadura. Abria-se uma situação re ¬ listas” (peronistas) .
volucioná ria , que permaneceria latente durante os “ anos de fo
' ¬

go” , de 1969 a 1976.


ronistas combativos ” (como Ongaro e o líder dos trabalhadores
telefónicos , Julio Guillá n) e assinou um acordo “ trégua com a¬
ARGENTINA: peronismo, burguesia e guerrilha ”
CGE dos empresários, em agosto de 1972 . Tudo
isto custou posi
A proposta polí tica de Lanusse , o “ Grande Acordo Nacional” , , çõ es à burocracia sindical peronista . Mas a juventude estudantil
ia ao encontro da iniciativa dos partidos políticos , delimitando de classe média tomava-se peronista , e aderia à jp.
um terreno comum a todas as frações empresariais. Paralelamente , outros grupos guerrilheiros surgiam: as FAL
A peça política chave da opera çã o era o retomo ao poder do ( Forças Armadas de Liberta çã o, cisã o do PCR maoísta ) , FAP For
( ¬

ú nico partido polí tico com influ ência no operariado (o Peronis ¬


ças Armadas Peronistas , “ peronistas de base ” ) e sobretudo o ERP¬
ta) . O processo nada teve de mudan ça brusca . Consistiu numa J (Exé rcito Revolucionário do Povo , de origem trotskista , que rom
discussã o no interior da classe dominante sobre o rumo a seguir peu com a iv Internacional em 1973) . Este último declarou uni
¬

diante da perda de posições perante o capital estrangeiro, e sobre lateralmente uma “ guerra civil ” ao Ex é rcito : suas espetaculares
os meios que o Estado devia usar para conter a classe operária, a çõ es armadas ganharam certo apoio popular e , especialmente
discussão que não excluiu a troca de insultos Perón-Lanusse, as- em Córdoba e Tucumã , ativistas operários se retiraram da luta nos
f sim como lances dram á tico -m ó rbidos como a devolu çã o a Perón sindicatos para engajar-se na “ luta armada ” . Em agosto 1972 , os
” , sua lend á ria ex-esposa , falecida em 1952 ,
'
|do cadáver de “ Evitamado militares “ vingaram-se ” das suas baixas massacrando 16 quadros
s c u j o corpo embalsa tinha sido seqiiestrado e ocultado pe ¬
guerrilheiros dirigentes do ERP na prisão militar de Trelew, no sul
dos müitares durante o golpe de 1955. argentino.
Para levar adiante o seu projeto de retorno ao poder, Peró n _
Depois do seu esforço para conter o operariado, é imaginável
distribuiu sorrisos à esquerda e à direita , arquitetando uma coali ¬
a desilusã o da dire çã o sindical peronista quando foi preterida nas
zão (o Frejuli, ou FrenteJusticialista de Liberación Nacional) , que candidaturas para as eleições nacionais, outorgadas pelos milita
¬

abarcava desde setores estreitamente ligados ao capital estrangei ¬

res para março de 1973. Héctor Cámpora, um partidário incon


“ ¬

ro (o MI D de Arturo Frondizi ) at é a guerrilha dos Montoneros, ori- dicional ” de Perón sem personalidade pró pria , foi o candida to à
. gin á ria do nacionalismo católico , que já em 1970
tinha matado o presidê ncia pelo Frejuli (Perón continuava impedido de se candi
¬

general Pedro Eugênio Aramburu presidente da “ Revolução Li


( ¬

datar) : a direçã o sindical pretendia pelo menos a vice-presidên-


bertadora ” , que havia deposto Peró n em 1955) . A estrat égia de cia , que foi outorgada ao “ conservador popular Vicente Solano

Perón incluiu uma primeira dram á tica volta à Argentina , em no ¬

Lima (que exibia uma pistola na cintura nos comícios multitudi-


vembro de 1972, ocasião em que a Juventude Peronista (JP) vin ¬
n á rios do Frejuli , nos quais a juventude “ montonera era ampla

culada aos Montoneros mobilizou dezenas de milhares de jovens maioria) . Nas chapas peronistas , os dirigentes sindicais encon
¬

tentando furar o cerco militar-policial do aeroporto. O sentido da travam se lado a lado com homens da JP que reivindicavam para
-
tá tica de Perón era o de canalizar a radicalizaçã o política surgida si as mortes de Augusto Vandor, de José Alonso e de outros sin
¬

com o “ cordobaço” com as organizações peronistas. Os trabalha ¬

dicalistas peronistas “ vendidos ” .


dores impunham direções classistas nos sindicatos , mas Rodolfo A 11 de março de 1973, o Frejuli vencia as eleições com qua
¬

Galimberti , líder da JP , declarava que eles nada valiam, porque se 50% dos votos , mais de 6 milh ões . Antes de Cá mpora ser em
¬

era necessário construir o “ Exército Peronista ” , ou seja , uma for ¬


possado (em 25 de maio desse ano) , Perón começava a “ normali ¬

ça a favor de Perón, a guerrilha “ montonera ” . zaçã o ” das suas fileiras , destituindo Galimberti da condução da
Ao mesmo tempo , Perón pressionava a direção sindical, che ¬

jp - por ter esse ousado falar em milícias populares


“ ” . Assim co ¬
gando a exigir-lhe publicamente que suspendesse o plano de luta meçava o fechamento do processo de insurreições populares ini-
salarial, em março de 1972 . A burocracia sindical excluiu os “ pe ¬
4
ciado pelo “ cordobaço ” e o caminho que levaria a um novo gol
pe militar, em 1976 , que surpreenderia o mundo pela sua violên
¬

¬ Oblk
cia . Sob o regime de Pi ¬

nochet , o Chile co ¬

nheceria a .supres ¬

URUGUAI , Chile e Bolívia s ã o de todas as


liberdades demo ¬

crá ticas, campos de


Antes do novo golpe na Argentina , porém, Bolívia , Uruguai e , concentra çã o de
sobretudo, o Chile conheceriam um novo tipo de regime militar. prisioneiros, tortu ¬

Em 1969 , o general direitista chileno Viaux Marambio tinha ras em grande es ¬

tentado , sem sucesso , interromper o processo democrá tico que cala e assassinatos
levaria, no ano seguinte , à vitória da coalizão de esquerda Unida
¬ políticos em massa.
Na ilustração: parti
de Popular (UP) , organizada em tomo dos partidos socialista e co
¬
¬

d á rios da rip apri ¬

munista e encabeçada pelo veterano dirigente socialista Salvador sionados pelas tro ¬

Allende. Em 1970 , a posição “ legalista ” para com a vitória eleito


¬
pas militares ,
ral da esquerda, ou seja , democrá tica , do chefe do exército chile
¬
muitos seriam fuzi
-
¬

no , general René Schneider, seria “ premiada ” com seu assassina b» lados.


to perpetrado por um comando organizado e financiado pela CIA ,
o que , além de um recado claro à UP, foi talvez a primeira ação da
“ internacional da morte ” , que faria a lei nos anos seguintes na Em agosto de 1971, o impasse político provocado na Bolívia
América do Sul. por uma situação de “ duplo poder ” , com um governo militar en¬
Sob o governo da UP , a partir de 1970 , menos por iniciativa cabeçado pelo general Juan José Torres e um poder real concreti ¬

"
governamental do que por iniciativa popular, o Chile conheceria zado na Assembléia Popular, n ã o tinha desfecho em meio a um
ium processo de mobilização sem precedentes na América Latina , agravamento da crise econ ómica e polí tica . O beco sem saída da
com ocupações de terras e reforma agrá ria, nacionalização dos política boliviana foi aproveitado pelo exército que , no comando
; principais recursos naturais e econó micos (principalmente do do general Hugo Banzer Su á rez, deflagrou um golpe militar sin ¬

complexo mineiro do cobre) e democratização de todas as esfe ¬ gularmente brutal , inclusive para as condições habituais da Bolí
¬

ras da vida pública, sobretudo do sistema escolar e universitário. via , país que deté m o recorde mundial indiscutido de golpes mi¬

O compromisso de Allende e da UP , já selado desde a vitória litares.


eleitoral de 1970 por meio de um “ pacto de garantias ” , de não O governo de Banzer inaugurou uma era em que as Forç as
tocar os alicerces do Estado , principalmente as Forças Armadas , Armadas bolivianas ocuparam todo o espaço político e económi ¬

e de manter seu programa de reformas dentro dos limites do re ¬ co. Com o declínio internacional dos preços do estanho e do res ¬

gime capitalista , n ão foi suficiente para conter uma direita que, tante das exporta ções tradicionais bolivianas, a economia desse
também desde 1970 , começou a se organizar para dar uma saída país , assim como aconteceria com a de outros países latino-ame- x
radicalmente reacionária à situação de crise e mobilização popu ¬ ricanos , reciclar-se-ia na d écada de 1970 em tomo do narcotráfi- "
lar. O eixo dessa saída seria novamente a coluna vertebral do Es ¬ co , que passou a ser crescentemente administrado pelos próprios
tado: as Forças Armadas. militares donos do poder. Tamb é m o narcotráfico motivou uma
1
'

viagem secreta (e malsucedida) , em 1976 , do Secretá rio de Esta ¬


Q novo espa ç o hist ó rico do poder
do dos Estados Unidos , Henry Kissinger, a La Paz para conter os
ímpetos narcoexportadores de Alberto Natusch Bush e Luís Gar ¬ militar nas d écadas de Í97Õ e 1980
cia Meza , os sucessores de Hugo Banzer e militares aos quais os ê
Estados Unidos agradeciam, no entanto , o empenho no combate
contra o “ comunismo ” : Kissinger ofereceu-lhes 46 milhões de d ó ¬

lares em créditos comerciais com privilégios para a Bolívia .


Com Hugo Banzer e seus sucessores abria-se urna nova etapa
no militarismo latino-americano, uma trilha que seria em breve tam¬
bém percorrida pelos dois países mais “ civilistas ” do subcontinen ¬ i
te : o Uruguai, cujas d écadas de democracia constitucional seriam
interrompidas, em julho cu 1973, por um golpe militar (que con ¬

servaria no entanto, num primeiro momento , a titularidade civil do


governo Bordaberry embora suprimindo o Parlamento, para depois,
com Aparicio Mendez, se apossar da totalidade do poder político . E A s “ novas ” ditaduras militares surgidas na década de 1970, in-
sobretudo o Chile, que poucos meses depois, em setembro de 1973, / lelusive quando eram só a reformulaçã o de ditaduras já exis ¬

conheceria , sob o regime de Augusto Pinochet , o chefe militar que tentes (como nos casos de Pera e Brasil) , não se distinguiram ape-
jurara fidelidade a Allende poucas semanas antes, não só a supres¬ nas por um grau muito maior de brutalidade contra seus

-
v ":
são de todas as liberdades democrá ticas e instituições representati¬
vas, mas também os campos de concentração, as “ caravanas da mor¬
te ” , as torturas em grande escala e de crueldade inédita , os
assassinatos políticos em massa...
opositores do que as precedentes. Elas também correspondiam a
uma situação histórica nova , tanto no plano interno como no pia-
no internacional . No plano interno , eram a resposta a situaçõ es
de cará ter revolucioná rio , que tinham abalado os próprios alicer
¬

ces do Estado, o que foi particularmente visível na emergência de


situações ou organismos de “ duplo poder ” na Bolívia , Chile , Ar¬
gentina e Uruguai . Diferentemente das ditaduras da d écada de
1960 , que possuíam um cará ter mais “ preventivo ” de um even -
j tual contágio da Revolu çã o Cubana , as ditaduras da d écada de ;
1970 possuíam um cará ter evidentemente contra-revolucioná rio:
-

AMÉ RICA LATINA e o armamentismo mundial

No plano internacional , elas coincidiram com um período


mundial de incremento dos gastos armamentistas e de aumento
da tensão internacional que marcou o período final da Guerra
Fria quando , ao mesmo tempo em que se aprofundavam os acor ¬

dos estratégicos internacionais e regionais EUA-URSS , comoções so


¬

ciais e políticas sacudiam o mundo todo: derrota e fuga precipi-


í-
tada noneram erix;anado Vietn ã ; emergê ncia de “ rep ú blicas so- latino-americanos fora explicado pelo fato de nosso continente fi
\P• [
¬
, ,

roV
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car longe dos chamados “ pontos quentes ” do planeta : numa re ¬
'

¡ cialistas
j UlalioLdb ” lia África ,; agiavanu
na miiLa .
agravamento
uLu das tensões no Oriente Médio;>
gião afastada dos conflitos maiores ou crónicos (Oriente Médio ,
y ( importantes greves e mobilizaçõ es na Europa , que culminariam
na revolu ção portuguesa de abril de 1974 . i África , Sudeste asiá tico , Europa Central) n ão tinham por que ser
O ciclo golpista latino-americano da década de 1970 marcou particularmente significativos , num mundo em que , segundo da ¬

a passagem definitiva do “ caudilhismo ” militar (característico das dos de 1978 da Agência Americana pelo Desarmamento , as despe ¬

ditaduras típicas da primeira metade do século xx, que assumiam sas militares se equivaliam , já em 1976, a 5,8% do PIB mundial , ou
, o poder por meio de um líder e não como instituição) para o do-
'

seja , ao total dos gastos mundiais em educação e ao dobro dos fun-
minio institucional das Forças Armadas (por toda parte govema- dos consagrados à saúde pública .
;
!
vainas “ juntas ” militares) . Os novos governos militares evitaram , Em inícios da década de 1980 , a Am érica Latina foi perden ¬

a todo custo a palavra “ revolução ” , que seus precedentes da dé- do o “ privilégio ” mencionado , entrando em cheio , com o confli ¬

.. . . cada de 1960 haviam adotado . to Inglaterra-Argentina no Atlâ ntico Sul (a guerra das Malvinas) e
g Relatórios do Sipri (Instituto de Pesquisas para a Paz, de Esto- os conflitos da Am érica Central , no cen á rio bélico mundial. Po ¬

Uri colmo) informam que em 1980 os gastos militares no Terceiro


"
ré m , em conjunto , os países latino -americanos totalizaram 1, 2 %
Mundo , que superavam os 80 bilhões de dólares , já eram maiores do total aplicado em armamentos em todo o mundo , no ano de
que os das superpotências: em 1969 , quando os Estados Unidos í 1971, e 1, 6 % em 1980. Em 1957, os gastos militares totais da re-
e a URSS consumiam aproximadamente 8 ,5% do seu PIB (conjun ¬ gi ão nã o ultrapassavam 1, 5 bilh ão de d ólares ; em 1977 , já atin,-
giam quase 5 bilhões. J
to) em gastos de defesa , o Egito consumia 13 ,3% , o Iraque , 10% ,
e Israel... 25,1%. A queda percentual dos gastos militares dos Es¬ Os gastos militares na Am érica do Sul se concentravam em
tados Unidos e da Otan durante a década de 1970 não correspon¬ poucos países . Em 1977, apenas três países - Argentina , Brasil e
dia a uma tendência “ pacifista ” : tratou-se de uma racionalização Chile - absorveram 76 , 2 % dos gastos totais . Se tomarmos o pe-
do gasto , depois da derrota norte-americana no Vietnã , paralela a j ríodo 1970-1977, observamos que os mesmos três países con ¬

um intervencionismo político crescente dos Estados Unidos nas centravam 73,1% dos gastos , se juntarmos a eles a Venezuela e o
áreas chamadas de “ interesse vital” . Foi nessa década que os Esta- Pera , chegamos a 92 , 2% dos gastos militares regionais. Uma pro-
dos Unidos superaram a URSS como os maiores exportadores de I
J porção crescente desses gastos estava representada pela importa ¬

armas para o Terceiro Mundo, ao mesmo tempo que alimentavam 1 ção de armamentos (em detrimento da produ ção armamentista
as sangrentas ditaduras militares de América Latina. " nacional) - entre meados da década de 1960 e meados da déca-
yO> ”
Entretanto, em 1969 , Argentina e Brasil consumiam só 2 , 6%
“ da de 1970 , essas importações cresceram na Argentina , Pera e Ve-
0 rc, , do
- seu PIB em gastos de defesa , enquanto esse percentual situava- nezuela em 96 ,3% , 199%, e 673,5%, respectivamente .
N ão era só a economia dos países centrais que revelava uma
Fr se, para os Estados Unidos, em 8,6%; em 5,1% para a Grã-Breta-
;Ci
'
tend ência à militariza ção , mas també m a dos países do Terceiro
Ç jc^ nha ; em 4, 4% para a França . No ramo mais rendoso do comércio
1
internacional (a compra e venda de armas) , inclusive dentro do Mundo. Outros dados indicavam que entre 1960 e 1978 o PIB dos
1 - chamado Terceiro Mundo, os países latino-americanos não ocupa ¬ países do Terceiro Mundo crescera a um ritmo m édio de 2 , 7%
vam um lugar destacado. Em 1980 , a Argentina , o Chile , o Brasil e anual , enquanto que os gastos militares nesses mesmos países
o Peru ocupavam um lugar relativamente modesto entre os 25 maio ¬ cresciam com um ritmo anual de 4 , 2 %. O Sipri assinalou que a
res importadores de armas do Terceiro Mundo , numa lista encabe¬ América Latina - especialmente o Brasil e a Argentina - tradicio ¬

çada pelo Irã e a Arábia Saudita . O baixo nível de gastos militares nalmente marginal na corrida armamentista mundial , encontra-
1
va-se na cabeça dessa tendência no Terceiro Mundo: em 1981, os
gastos militares latino -americanos superavam os 60 bilh ões de
H jf
_ il
-. s
A?
A

dólares. *- s
a. n r
MILITARIZAÇAO da economia
m Ai -

s: V, . :
No Peru , que em 1983 sofrera uma redução de 11 pontos no - .

m
PIB e uma infla çã o de 125%, o governo adotou um programa ar ¬

mamentista de 4 bilhões de d ólares. O governo peruano também VA


originou um fortalecimento da depend ência militar: as compras
de armas (importações) aumentaram , na América Latina, 11% en ¬

tre 1981 e 1983, enquanto seu crescimento económico foi de ape¬


nas 0,2%. Para o Sipri, “ as causas fundamentais do fortalecimen ¬

to das Forças Armadas em todo o continente eram o acirramento


dos conflitos de fronteira e a proliferação dos enfrentamentos in ¬
i Na d écada de 1970 houve um aumento sem precedentes dos gastos mi ¬

ternos ” . Ou seja , conflitos como Peru-Equador, Chile- Peru ou , litares na Amé rica Latina . Policiamento ostensivo, carros blindados e ou ¬

ainda , o conflito Argentina-Chile pelo canal de Beagle. tras armas pesadas ganhavam as ruas de grandes cidades brasileiras pa ¬

O incremento dos gastos militares chegou a se transformar ra intimidar opositores do regime e reprimir manifestantes.
em fator de crises econó micas: o economista argentino Aldo Fer¬
rer observou , em 1981, que os gastos militares do orçamento na ¬

cional coincidiam exatamente com o déficit do balan ço de paga ¬


mentos (7, 5 bilhões de dólares) . Os objetivos desses gastos eram
(19%) e a Alemanha Federal (12 %) . Al é m disso , dos seis países
a chamada “ contra-insurgê ncia ” e o combate aos eventuais con ¬ que mais receberam armas durante esse mesmo período, os Esta ¬

flitos regionais , isto é , situações que tendiam a pôr as Forças Ar- dos Unidos foram o principal fornecedor de apenas dois: Brasil
_
(33%) e Peru (25 L.O Reino Unido foi o maior fornecedor da
. , ' Anadas no primeiro plano da cena pol í tica. A expansão dos gastos
militares latino -americanos foi tamb é m parte da corrida arma- ^
Argentina (28%) e do Chile (47%) , enquanto a França foi da Ve
nezuela (35%) e a Alemanha do Equador (29%) .
¬

mentista mundial : os pesquisadores Varas e Portales observaram


/
j
y ( que , no novo espa ço pol í tico que se abriu desde o final dos anos Ahegemqnia política dos Estados Unidos,..porém, continuou
'
1960, desenvolveu -se uma competição crescente entre os países sendo incontest ável. A submissão política do exército argentino,
a sua produ çã o de arma ¬ por exemplo, à política hemisférica norte-americana era hist ó rica
d industriais por ganhar mercados para
/
mentos sofisticados. e condicionou as opçõ es militares , inclusive no que diz respeito
v : 0,A Na América do Sul isso determinou o fim do predom ínio nor- à produ ção de armas (um aspecto do qual o Exé rcito Argentino
te-americano na transferência de armas para a região, com a con - sempre se vangloriou , qualificando-o de “ fator de soberania na ¬

C seqiiente diversificação dos fornecedores . Assim , entre 1970 e cional ” ). Segundo Edward S. Milenky, expert do Departamento
1976 , os quatro maiores fornecedores para a Am é rica do Sul fo¬ de Energia dos Estados Unidos, por volta de 1960, a Dinfia (Di ¬

rram os Estados Unidos (29%) , o Reino Unido ( 24%) , a Fran ç a reção Nacional da Fabricação Aeronáutica Argentina) cancelou o
desenvolvimento de quase todos os seus aviõ es de combate a é ¬

reo e concentrou-se na fabricação dos aviões de transporte leve e


de contra-insurgência .
O governo do general Lanusse forneceu ajuda ao presidente
uruguaio Bordaberry contra os guerrilheiros Tupamaros, em 1972 ;
Per ó n embarcou gás lacrimogéneo e armas pequenas para o go ¬

verno de Pinochet do Chile , em 1974 . Historicamente , o esforço í


b élico argentino esteve destinado à preparaçã o da luta contra o
“ inimigo interno ” , sendo in ú til para sustentar uma guerra em de ¬

hesa das fronteiras nacionais. O desenvolvimento do “ militarismo j


\# dependente” anulou os exércitos latino-americanos como fatores ;.
_
,p

de defesa nacional , como conseqúência de sua progressiva estru- j
tura çã o como instrumento de opressã o nacional.

CHILE : de Allende a Pinochet t


No Chile, durante a primavera de 1972 , as mobiliza çõ es po ¬

pulares tornaram-se obstáculos aos avan ç os da direita . No final Salvador Allende; presidente so ¬ General Augusto Pinochet: respon ¬
de outubro , no entanto , o governo da UP constituiu um gabinete cialista deposto pelo golpe mili¬
sá vel por uma das ditaduras nrais
tar de Pinochet . Morreu acuado repressoras e brutais da Amé rica
com participação militar nas pastas de Interior, Minas e Transpor¬ no Palá cio de la Moneda em se ¬
Latina .
te . Pretendia-se esvaziar as organiza ções populares independen ¬
tembro de 1973-
tes , devolver aos proprietá rios as empresas ocupadas e desnacio ¬

nalizar 43 outras empresas já sob controle do Estado. Em suma ,


a UP pretendia caminhar sobre uma espécie de linha intermediᬠrevolucioná rias , as ações populares mantiveram um relativo grau
ria entre a conspira çã o das classes propriet árias e a radicalizaçã o de combatividade. Em junho, quando ocorreu a tentativa do gol ¬

popular. pe que ficou conhecida como “ Tancaço ” , cerca de 200 mil traba-
Ainda assim, as mobilizações operá rias continuaram tentan ¬

( lhadores saíram às ruas apoiando Allende e pedindo o fechamen ¬

do impulsionar as transformações revolucioná rias , como se veri ¬


to do Congresso , contra os golpistas e a direita . Alé m disso ,
ficou nas resolu çõ es aprovadas na reunião dos Cord õ es Indus ¬
centenas de f ábricas foram ocupadas e os organismos de poder
triais , dos Comandos Comunais e da Coordena çã o Nacional da popular reativados.
Constru ção - embriões de organismos independentes de poder A partir de então o empresariado empenhou-se com todas as
operário e popular - realizada em fevereiro de 1973 e também na forças para reinstalar o caos económico e social, deflagrando a
votação de 44% recebida pela UP , em março daquele ano (maior greve patronal , perpetrando todo tipo de sabotagens e também
'

do que a recebida por Allende nas eleições presidenciais de 1970) . ações militares como invasões de fábricas e de bairros operários ,
Durante o período compreendido entre abril e setembro de sob pretexto de “ controlar armas ” . Enquanto setores expressivos
1973, quando a burguesia chilena retomou as iniciativas contra- do movimento popular reagiam ao clima de possível golpe, denun-
ciando as articulações da cú pula militar e sustentando a mobiliza¬ insuficientes e infrut í-|t ,., "Sr-*djP®'
'

ção, os chefes polí ticos da UP nada faziam de concreto para pre feras para barrar o gol ? #*-
¬
¬

parar um enfrentamento com a direita . Pelo contrário, eles insis


tiam, obstinadamente, em promover um acordo com a direita e
¬ pe militar, que aconte
ceu a 11 de setembro
¬
Ü
implantar um novo plano económico de caráter extremamente va ¬ de 19 73, quando a ú l ¬ >
go, que não respondia às exigências do momento. tima resistê ncia de Al ¬

Mais grave ainda é que Allende não propunha nenhuma lende no Palácio de la
orientação de confronto com o Congresso conservador, sujeitan ¬ Moneda o viu morrer
do -se a fazer cada vez mais concessões à Democracia Cristã, ar ¬ combatendo contra
gumentando que a guerra civil deveria ser evitada, guerra que há aqueles com os quais
tempos já fora deflagrada contra os trabalhadores sob os olhares tinha tentado conciliar
passivos do governo . Nesse contexto final de deterioração do qua ¬ e demonstrando
, , ,
que , , , , ,
Violencia militar no Chile : pessoas detidas en-
dro político e institucional e de agu çamento das lutas de classes, SO era possível defen-
tram no Est á dio Nacjonal . Serã o futuramente
as diferenciações políticas já latentes no interior de UP surgiram der a democracia com torturadas , mortas e “ desaparecidas ” ,

com certa nitidez . as annas na mão .


No âmbito do Partido Socialista se configurou uma ala esquer ¬ O golpe de Pino¬
da, liderada por Carlos Altamirano, que tentou estabelecer uma chet se distinguiu por uma selvageria que , de saída, não perdoou
ligação efetiva com as bases operá rias , defendendo uma postura sequer representantes intemacionalmente reconhecidos da cul¬
mais combativa do governo. Este grupo avançou na formulação tura chilena , como o cantautor Victor Jara , morto sob tortura, e
de uma tá tica que levasse o movimento operário para a ofensiva, por uma repressão de extrema violência, da qual as arquibanca ¬

cogitando as idéias do Tribunal do Povo e de uma institucionali- das do Estádio Nacional de Santiago de Chile cheias de detidos
dade popular, esta a ser buscada pela promoção de um referendo. polí ticos , muitos dos quais seriam fuzilados , ficaram como um
Tal atitude não se desdobrou numa prá tica que desse ao operaria ¬ símbolo mundial.
do o instrumental de luta para o enfrentamento com a reação. Era
também tributá ria da crença de que qualquer solução para o im ¬

passe residia no reforço do executivo , e não numa ruptura com o ;/ BRASIL: a crise da ditadura
Estado que tivesse como referencial os mecanismos de poder ope ¬

rário e popular autónomo. No Brasil, no mesmo período, começou a crise do regime mi ¬

Dessa forma , os lances finais promovidos pela burguesia em litar. Foi um dos principais personagens do regime militar brasi ¬

agosto-setembro removeram os ú ltimos obst áculos para a efetiva ¬ leiro , o general Golbery Couto e Silva , quem questionou a idéia
ção do golpe militar. O empenho voluntarioso , a garra e a dedi ¬ de “ segurança absoluta ” que levaria em última análise, segundo
cação de parcelas expressivas de lideran ças e militantes do movi ¬ ele, à debilitação da segurança nacional pretendida . As políticas
mento operário, assim como a disposição das massas em avançar derivadas dessa análise constituíam uma derradeira busca de le ¬

na luta pelo socialismo n ão encontravam referenciais nos parti ¬ gitimação do Estado militar. Tentava-se negociar e incorporar al
dos da UP, que seguiam um curso estratégico legalista. As últimas gumas das principais exigências da oposição tolerada, num esfor ¬

tentativas esboçadas pelos trabalhadores para resistir à ofensiva ço de amplia ção da base de sustentação do Estado
burguesa, em fins de agosto e início de setembro de 1973, foram Simultaneamente, garantia-se o controle da sociedade pela apli ¬

cação seletiva da repressão.


Na disputa eleitoral de 1974, a ditadura foi derrotada, muito multidão de voluntá rios. Nesse cli ¬

embora antes das eleições a expectativa geral fosse de uma vitória ma de liberalização , a oposição rea ¬

do partido do governo . Os arenistas esperavam que a oposiçã o lizou reuniões e comícios. “ Durante
vencesse as eleições para o Senado em apenas três estados , mais a legislatura , n ão tenho instrumen ¬

precisamente em São Paulo , no Rio Grande do Sul e na Guanaba ¬ tos para chegar ao povo ” , disse o en ¬

ra. Perpetuando o controle absoluto dos governos estaduais , o go ¬ t ã o senador Marcos Freire (MDB) :
verno federal não deixaria de ter maioria parlamentar no Congres ¬ “Agora , na época eleitoral, eu posso
so Nacional , o que possibilitava aprovar legalmente a legisla ção falar aos grandes auditórios ” . O MDB
necessária ao processo de institucionalização do regime autoritá ¬ aprendia a lutar contra a sua própria
rio instalado de forma golpista em 1964. Dois fatores animavam descrença...
os golpistas - um político, outro económico: a fulminante derrota O MDB concentrou -se nas ques-
da oposiçã o , agrupada no MDB, nas eleições de 1970 , e o cresci¬ , tões da repressão, da injustiça social

X 3KM
mento da economia. e da iniquidade do modelo econ ô-
O principal ministro do governo militar naquele momento , (
mico . Candidatos da oposiçã o ma-
Delfim Netto , usava como ingrediente do crescimento do “ bolo Jr nifestaram -se pelo rádio e pela tele-
económico ” - uma monumental concentração de renda - a falsi¬ I :
cA visã o sobre assuntos até entã o
í <-
ficação dos índices de reajuste dos salá rios da classe operá ria . P proibidos - como a Lei de Seguran ¬

O ano de 1974 assistiu à retomada do processo de crescimen- ça Nacional, a repressã o , a necessi-


to da inflação, parcialmente controlada at é então. Mesmo assim , A dade de revogar o AI-5 (Ato Institu ¬ Em 1974 , a infla çã o deu um
o partido governamental , a Arena , apostava numa emblemá tica cional n° 5) e a legisla ção de grande salto e desestabilizou
vitória sobre a oposição nas eleiçõ es legislativas marcadas para controle salarial . Denunciaram a ocoregime . Na charge de Chi
Caruso o ministro da Fa
¬

aquele ano. O otimismo dos estrategistas arenistas era justificado compra de terras por empresas mul¬ zenda Má rio Henrique Si-
pelos altos índices de crescimento económico , graças aos quais o tinacionais e questionaram a cres¬ monsen e o pa ís “ passando
governo julgava poder vencer as eleições legislativas. O MDB , opo¬ cente desnacionaliza çã o da econo ¬ mal” .
sicionista , teve , no entanto , acesso à televisã o e ao rá dio e pôde mia brasileira . Duas id éias
promover debates durante todo o período de campanha . dominaram a campanha de 1974: a
Muitos polí ticos do MDB acreditavam que a oposiçã o nã o te¬ primeira expressava-se no slogan de campanha do partido: “ En ¬

ria condições de êxito nas umas . Esse sentimento começou a mu ¬ quanto houver um homem vivo, haverá esperança ” ; a segunda era
dar no Rio Grande do Sul , onde o candidato do MDB, Paulo Bros- o desejo de ir adiante e progressivamente pressionar por reformas ,
sard , sustentou acalorados debates com o candidato da Arena , numa estratégia que a oposição definia como “ ocupação de todo o
Nestor Jost. No início de agosto , ambos haviam concordado com espaço político disponível ” . O silêncio e o isolamento haviam co ¬

um debate pela televisão. Seria a primeira experiência do gê nero meçado a se romper.


desde o Ato Institucional número 5, em 1968. O intenso interes¬ Os resultados das eleições de 1974 constitu íram clara vitória
se despertado por esse debate e as repercussões polí ticas que te ¬ do partido de oposição . A maior conquista do MDB deu-se no Se ¬

ve estimularam outros candidatos do MDB a assumir uma posição nado , que recebeu 4 milh õ es de votos a mais que a Arena . Pela
mais agressiva e a valer-se dos meios de comunica ção . A popula ¬ primeira vez desde a cria ção dos dois partidos, o MDB ficava com a
ção reagiu com entusiasmo e a campanha do MDB ganhou uma
)
maior percentagem em eleiçõ es para o Senado . A oposição teve no da esquerda peronista de Có rdoba (encabeçado por Ricardo
sua representação no Congresso Nacional significativamente au ¬
Obregón Cano e pelo sindicalista Atilio López , assassinado tem
mentada . Em 1970 , o partido obtivera 87 cadeiras na Câmara dos pos depois pela AAA) .
Deputados , contra 233 da Arena . Em 1974, conquistou 161 ca ¬
Depois da morte de Perón , sua mulher “ Isabel ” (Maria Esteia
deiras , e a maioria da Arena desceu para 203 cadeiras (o n ú mero Martinez) assumiu a presidência , com ela a ultradireita peronista
total de deputados havia crescido) . passou a dominar o governo. Em novembro de 1974 foi declarado
No ano seguinte , 1975, o sindicato metalú rgico de Sã o Ber ¬
o estado de sítio: a jp-Montoneros passou para a clandestinidade
nardo do Campo convocou o I Congresso Metalú rgico : estava o ERP já havia decidido continuar sua guerra contra o Exército des ¬

aberta a via do caminho que levaria às greves no ABC paulista em de 1973, quando ocupou um quartel em Buenos Aires , provocan ¬

1978-79 e à criaçã o , logo depois , do Partido dos Trabalhadores do a militarização da região. Os sindicatos classistas ou combati ¬

(PT) , principal fator complicador para “ abertura gradual ” preten ¬


vos foram postos sob intervenção estatal. Entretanto, em novembro
dida pelos militares desde Ernesto Geisel. Nas eleições da segun ¬
de 1974, o governo concedeu aumentos salariais ao mesmo tempo
da metade da década de 1970 , a crescente posição em favor do em que Isabel tentava revigorar a demagogia nacionalista , “ argenti-
“ voto nulo ” , contra o “ voto ú til ” no MDB , expressou a procura de nizando ” , pagamento mediante, a ITT, a Siemens e os postos de ga ¬

uma saída fora dos marcos do regime e do sistema bipartidá rio solina (só 20% eram privados e só cem estrangeiros) . O humor po ¬

originado no seu ventre . No mesmo ano de 1975, porém , era as ¬


pular batizou isto de “ nacionalização das mangueiras ” . A dívida
sassinado nas dependências do DOi-CODi o jornalista Vladimir externa subiu até dez bilhões de dólares (um terço do PIB) .
Herzog, detido sem nenhum tipo de acusação - a ditadura e seus Em março de 1975, foi lançado um golpe contra os metalú rgi ¬

aparelhos estavam em pé. Mais de vinte mil pessoas protestaram cos de Villa Constitución : seu sindicato foi posto sob intervenção ,
contra o fato na Praça da Sé. Mas esse não seria o ú ltimo assassi ¬
seus dirigentes presos e a região tomada por militares. A resposta
nato da ditadura: no ano seguinte foram assassinados o metalú r ¬
foi uma formidável greve de dois meses , com ocupação de fábricas,
gico Manoel Fiel Filho , e na “ chacina da Lapa ” (cilada contra o bairros e sindicato . Mediante a repressão e o isolamento a greve foi
Comité Central do PC do B) seriam assassinados os dirigentes co¬ deiTotada, mas o governo saiu muito fragilizado .
munistas Pomar, Arroyo e Drumond . Finda a atividade polí tica de Perón , já morto , e diante da pres
¬

são operária, fez-se necessário reinstaurar uma das modalidades em


que se alimentava e expressava o poder daquele : a negociação sala ¬

PERONISMO, revolu çã o e golpismo rial. Mil e quatrocentas “ comissões paritá rias ” (compostas por sin ¬

dicatos e empresas) reuniram-se. O ministro da economia , Gómez


Na Argentina , o terceiro governo peronista (1973-1976) foi Morales , tentou fixar um teto de 15% para os aumentos . A cú pula
de crise permanente . Num minigolpe de Estado, Perón substituiu da CGT ameaçou então com a ren ú ncia . Em 9 de junho o novo mi ¬

Cá mpora na presidência em julho de 1973. O velho “ líder ” já es ¬


nistro da economia , Celestino Rodrigo, proibiu aumentos maiores
tava muito doente , falecendo em junho do ano seguinte. Em ou ¬
que 30%, ameaçando suspender as “ paritárias ” .
tubro de 1973, tinha começado a agir o esquadrão da morte Alian ¬
Iniciou -se ent ã o uma onda de greves e , em 19 de junho , as
ça Anticomunista Argentina (AAA) criado pelo ministro do paritá rias fecharam acordos para aumentos de 90% a 130 % , que
bem-estar social , o astrólogo amador e fascista profissional José afundavam o plano econó mico. No dia 26 de junho , Isabel anu ¬
Lopez Rega , o “ Bruxo ” , secretário pessoal de Perón. No início de lou as paritá rias, decretando aumento uniforme de 45% . No dia
1974, Perón deu seu aval ao golpe policial que derrubou o gover- seguinte , explodiu uma greve geral nacional , encampada dias de¬
pois pela CGT. No dia 9 de julho as decisõ es das “ parit á rias ” fo-
in ício de 1976) . A burguesia tinha abandonado o governo , esva
ram confirmadas e Rodrigo caiu - Lopez Rega o seguiria pouco
depois . O governo peronista estava mortalmente ferido. O novo ziando a CGE (Confederaçã o Geral Econ ó mica ) e criando , com
ministro da economia , Antonio Ca ñero , e a CGT assinaram uma
uma nova central sob hegemonia dos bancos (Apege) , um novo
“ trégua social ” de 180 dias , sepultada em quest ã o de horas pelas agrupamento polí tico das classes dominantes, que constituiria
greves . í talo Luder, presidente do Senado , assumiu provisoria ¬
base social do futuro golpe militar. Ricardo Balb í n , dirigente d
UCR, lhe forneceu a ideologia, afirmando que “ era preciso acaba
mente a presidência . Quando Isabel voltou a exercer o cargo , em
dezembro de 1975, a Aviaçã o (chefiada por Orlando Cappellini) com a guerrilha fabril ” . O alto comando militar vinculado a Lo
tentou um golpe de Estado , quase deflagrando outra greve geral
pez Rega j á tinha sido varrido - no seu lugar assumiram Videla
e provocando seu recuo apressado . Agosti-Massera , chefes do Exé rcito , da Avia ção e da Marinha , o
“ trio da morte ” .
Isabel deu então a ordem de “ aniquilar a subversão ” , na qual
se apoiariam os militares para justificar o massacre popular co ¬
A burocracia sindical apelou ent ão ao ú ltimo recurso: o secre
t á rio -geral da CGT , Casildo Herreras , saiu do país . Os sindicato
metido posteriormente . O ERP (com apoio dos Montoneros) ten ¬

tou uma a çã o suicida contra os quartéis de Monte Chingólo , com


foram esvaziados. Em março de 1976, a luta contra o novo plan
econó mico (do novo ministro Mondelli) foi organizada pelas “ coor
o saldo de centenas de guerrilheiros e populares mortos e o Exér ¬

cito ganhando terreno polí tico . A AM fora desativada , mas o Exé r ¬


denadoras regionais ” , organismos criados a partir das organiza
cito j á testava seus pr ó prios esquadr õ es ( o “ Comando Liberta ¬
ções de fábrica. Mas essas organizações careciam de estrutura na
dores da Am érica ” , que realizou suas primeiras operações no cional, n ã o conseguindo , assim , evitar o golpe militar de 24 d
març o de 1976, que levou o general Videla , chefe da “ Junta d
Reorganização Nacional” , à presidência. Ninguém saiu às ruas em
HS defesa do governo peronista.
Ü Com o golpe militar na Argentina , todo o Cone Sul e part
do resto do subcontinente estava controlado por ditaduras mili
tares : Argentina , Uruguai, Chile , Bolívia , Peru , Brasil, Paragua
1 Equador. A segunda metade da década de 1970 seria a etapa mai
sombria da história da América do Sul.

Ü
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HE
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vi
Hay
-

Com o golpe de 1. 976 , uma junta militar assumiu o governo argentino.


Era o chamado “ trio da morte” : o almirante Massera , o general Videla e
o brigadeiro Agosti (chefes da Marinha , do Exé rcito e da Aeron á utica ,
respectivamente).

j 49
O mercado comum do terror

pxurante os longos anos em que perduraram as ditaduras mili


JL/ tares, a forma principal do mecanismo de dominação políti
ca foi a união pessoal dos representantes do grande empresaria
do com a camada superior da burocracia estatal , com a c ú pula
das Forças Armadas e com as sucessivas “ equipes técnicas gover
namentais ” . É preciso considerar, com Norberto Lechner, estu
dioso dos regimes militares no Cone Sul, que o “ discurso técnico
neutro do autoritarismo não é tanto um encobrimento do poder
como sua expressão ” . Nessa modalidade de exercício de poder,

a política se expressa em categorias económicas e , por conseguinte, nos cus


ta descobri-la enquanto política . Este peculiar processo pode ser considera
do como um retorno à economia polí tica liberal, eixo fundamental da res
posta neoconservadora .

A ofensiva neoconservadora n ão apontava para a substitui


ção de

uma autoridade polí tica por outra autoridade pol í tica , mas tendia a subst
tuir o poder polí tico por um poder social. Pretendia , concretamente, trans
ladar a determinação para a ordem do mercado. Esta transferencia passav
por um redimensionamento do espaço público.

No capí tulo anterior, vimos como as ditaduras militares fo


ram produto de processos políticos , específicos para cada país
em que as direções democrá ticas e dos trabalhadores foram pos
tas à prova na sua capacidade de defender a democracia (exame
no qual foram reprovadas) . Por outro lado , o componente decisi
JVPWãi
¬

vo da instauraçã o das ditaduras foi o terror. A expressão “ terro ¬

rismo de Estado ” , cunhada posteriormente , define com alguma m ' ~ •


‘“ -WweMfc - «C * I
¿

precis ã o , mas com uma ambigüidade fundamental , a natureza


das “ ditaduras institucionais das Forças Armadas ” - elas foram ,
antes de mais nada , regimes terroristas.
O regime de Pinochet per
seguiu , torturou e assassi
nou covardemente in ú
meros opositores , alé m de
¬

¬
II %É
levar o pa ís ao retrocesso
O CHILE de Pinochet social e cultural em todas
as esferas . Na foto: milita
¬

No Chile , nas primeiras semanas depois do golpe de Pino ¬ res queimam livros
chet , a tristemente célebre “ caravana da morte ” - detenção siste ¬
“ perigosos".
m á tica de ativistas polí ticos destinados aos campos de concen ¬

tra ção e ao assassinato - imp ôs torturas indescritíveis e covardes


Vá rios jornalistas e advogados pediram que o ex-secretá rio
a in ú meros opositores. Sob o regime de Pinochet surgiria a figura de Estado , Henry Kissinger, fosse julgado por crimes internacio ¬
do “ desaparecido político ” , o preso não-reconhecido submetido nais , como o assassinato do comandante em chefe do Estado
a torturas piores que as da Inquisição , e posteriormente assassi ¬

Maior chileno Ren é Schneider, em 1970 . Christopher Hitchens ,


nado na clandestinidade . autor de uma investigação a respeito , ofereceu as bases de um ca ¬
O regime golpista perseguiu seus opositores até no exterior, so legal contra o ex-assessor de Richard Nixon: “ Henry Kissinger
como no caso do assassinato em Buenos Aires do “ legalista ” ge ¬

aprovou a internacionalizaçã o do princípio dos esquadrões da


neral Prats e sua esposa ou , no caso extremo , o assassinato do ex- morte ” . A própria CIA reconheceu em um informe ao Congresso
ministro de Allende , Orlando Letelier e de sua secretá ria norte ¬

que, sob diretivas de Kissinger e Nixon , a agência trabalhava com


americana , Ronnie Moffit , em setembro de 1976 , em plena capital
três grupos golpistas cujo objetivo era evitar a chegada ao poder
dos Estados Unidos , pelo agente da DINA (polícia política do regi ¬
de Salvador Allende. A CIA entregou gás lacrimogéneo , submetra-
me pinochetista) Manuel Contreras . Esse fato chegou a escanda ¬
lhadoras e munição ao grupo que matou Schneider e reconheceu
lizar o próprio regime norte-americano , que começava a ver seus também ter-lhe entregue 35 mil dólares. Alfred Rubin , professor
filhos adotivos cometendo desmandos em sua própria casa . da Universidade Tufts , afirmou que “ se qualquer país da Europa
O governo dos Estados Unidos, como ele próprio teve de re ¬

quisesse extraditar Kissinger poderia apresentar a demanda ” . Kis ¬


conhecer posteriormente, foi o grande articulador do golpe chile ¬
singer afirmou que suas ações na década de 1970 devem ser en ¬
no , ao qual forneceu apoio logístico , político , financeiro e militar. tendidas em seu contexto histórico e que
A conspiração pinochetista foi orquestrada na própria embaixada
norte-americana , que pouco se importou com a seguran ça dos a viola ção dos direitos humanos n ã o era um tema internacional como ago ¬

próprios cidadãos norte-americanos apanhados pela f ú ria homi ¬ ra ; mas tamb é m estávamos convencidos de que Allende estava levando o
cida dos militares chilenos (o que inspirou um celebrado filme país para o comunismo.
norte-americano, Missing, interpretado por Jack Lemmon , que da ¬
O apoio norte-americano não se limitou ao golpe . A política
ria repercussão mundial à questão dos desaparecidos políticos) .
econó mica posta em prá tica por Pinochet foi inspirada e supervi-
sionada pela equipe do economista “ liberal ” Milton Friedman, da 35% abaixo de seu nível de 1970 . Somente em 1981 aumenta ¬
Universidade de Chicago, e generosamente apoiada e encorajada riam até 97 ,3% do nível de 1970 , para cair até 86 , 7% em 1983.
pelos organismos financeiros internacionais comandados pelos O desemprego , excluindo os trabalhadores que participavam nas
Estados Unidos . Em uma antecipação do “ neoliberalismo ” da dé ¬ frentes de trabalho estatal , era de 14 ,8% em 1976 , caindo para
cada de 1980 , a “ economia de livre repress ão ” , na express ão de 11,8% em 1980 , o dobro da média dos anos 1960, para chegar a
André Guilder Frank, não somente atrasou todas as nacionaliza ¬
20 ,3% em 1982 . Incluindo os inscritos nos programas de traba ¬

ções e conquistas sociais atingidas sob o governo de Allende, mas lho do governo , o desemprego atingia um terço da força de tra ¬
também privatizou setores que pertenciam à esfera pú blica desde balho em meados de 1983. Em 1986 , o consumo per capita era
a pró pria constituição do moderno Estado chileno, principalmen ¬
11% menor que em 1970 .
te a educação, fundamental e universitária , e a sa ú de . O declínio da indústria doméstica eliminou milhares de pos-
Milton Friedman declarou que Pinochet “ apoiou uma econo ¬
tos de trabalho . A repressão quase eliminou as greves. À capital,
mia de mercado livre por convicção . Chile é um milagre econó ¬
Santiago do Chile , se transformou em uma das cidades mais po ¬

mico ” ( Newsweek , janeiro 1982 ) . Pinochet e os Chicago boys lu ídas do mundo... Outra conseqúência da política “ monetarista ”
(economistas de Chicago ) afirmaram que o que tinha limitado o de Pinochet foi a concentração da demanda: a redu çã o do mer ¬
crescimento no Chile at é ent ã o era a intervenção do governo na cado interno levou a produzir-se mais bens de exportação e me¬
economia - que reduziria a concorrê ncia , aumentaria os salá rios .
nos para o consumo interno Isso criou outro obstáculo para o
de maneira artificial e produziria a inflaçã o. A meta , declarou Pi
¬ crescimento econ ó mico e aumentou a concentração de riqueza
nochet , era fazer do Chile “ uma nação de capitalistas ” . nas mãos de uma minoria . O n ú mero de pobres durante o regi-
Os resultados concretos foram muito menores que o supos ¬
me de Allende era de um milhão; em 1992, era de 7 milhões. En-
to milagre alardeado por Friedman e outros “ libertá rios ” . O PIB tre 1974 e 1979 o PIB per capita caiu 6, 4%, o consumo diminuiu
r,
r/
i anual aumentou 1,5% entre 1974 e 1980 , uma percentagem me- 13% entre 1972 e 1987. A porcentagem da população abaixo do
A? nor que os 2 ,3% ao ano dos anos 1960. O crescimento médio do nível de pobreza elevou-se de 20% até 44, 4%, entre 1970 e 1987.
PIB foi mais baixo do que a m édia da Am é rica Latina , de 4 ,3% . O gasto em saú de per capita foi reduzido pela metade entre 1973
Entre 1970 e 1980 o PIB per capita aumentou 8% no Chile ; na e 1985, produzindo grande aumento de enfermidades vinculadas
América Latina essa percentagem foi de 40%. No final de 1986 o à pobreza ( tifo, diabetes, hepatite virai) .
PIB per capita era o equivalente ao de 1970 . Os que , depois disso, ainda falam em “ modernização ” e “ mi¬
O regime de Pinochet reduziu a inflação de 500% ao ano , em lagre econ ómico ” chileno, referem-se a uma noção puramente es ¬

1973, para 10% em 1982 . De 1983 a 1987, a taxa oscilou entre tatística , que não leva em conta o empobrecimento da maioria da
20% e 31%. O governo reduziu os entraves para a importa ção , população chilena , o exílio forçado , quando não a morte, de seus
alegando que “ as cotas e as tarifas protegiam ind ústrias inefica ¬
melhores representantes científicos e culturais (que tinham feito
zes e garantiam que os preços se mantivessem artificialmente al ¬
do Chile um orgulho continental e, na década de 1960 e 1970, um
tos ” . O resultado foi que muitas companhias da região perderam local privilegiado de exílio dos perseguidos de outras ditaduras mi
¬

a batalha contra as corpora çõ es multinacionais . A comunidade


, litares do continente, incluído o futuro presidente do Brasil, Fer¬
comercial chilena , que entusiasticamente apoiara o golpe de nando Henrique Cardoso) , nem o retrocesso social e cultural do
~
1973, foi negativamente afetada . país em todas as esferas, que perdura até hoje.
Mas quem mais sofreu foi a classe operá ria , sobretudo urba¬

na . Em 1 976 , terceiro ano do regime , os salá rios reais estavam


1
natureza do seu
A ARGENTINA dos cemitérios clandestinos comportamento. O -
termo “ terrorismo Sr
Na Argentina , o “ Processo de Reorganiza çã o Nacional ” (ou , de Estado” , adota ¬

simplesmente, “ Processo ” ) , posto em marcha pelos militares em do oficialmente de ¬

1976 , consistiu , em primeiro lugar, na elimina çã o de uma parte pois , é ambíguo ,


da popula ção. As estimativas mais modestas situaram em dez mil
:

pois oculta o essen-


o nú mero de pessoas assassinadas . Mais de um milhão de argén- 1 ciai: o massacre | v
tinos optaram pelo exílio , fugindo das diversas repress õ es e da metodicamente 1
miséria . O Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) calculou , no
início da d écada de 1980 , em 2 , 5 milhões os argentinos vivendo
planejado e execu
tado pelas Forças|
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8L m
no exterior (10% da população de 1976) . O “ Processo de Reor¬ Armadas. O cú m- |jjjjj
ganiza çã o Nacional ” autojustificou -se na eliminaçã o da “ corrup- plice na tarefa foi a
. c ã o ” ( peronista) e . da subvers ã o.
“ ” ( resist ê ncia armada ) . O con -
personagem clássi
-
¬

s- vj .Nj ceito da ú ltima foi ampliado at é atingir toda atividade social ou ca da rea çã o polí ti
^ pessoal: expor opiniões , reivindicar, escrever, falar, ler, pensar. Se¬ ca argentina: a Igre
¬

melhante noção n ã o pôde se apoiar em nenhum “ direito ” - in ¬ ja Católica.


ventou -se ent ã o uma “ guerra (nacional ) anti -subversiva ” . A con- Na, dire çã o do
seq úê ncia dessa falta de argumentos ( n ão havia guerra civil no . V J -
Ministerio da TEdu -
Membros do alto clero da Igreja Catoica deram
um apojo significativo à sangrenta ditadura de
pa ís , a guerrilha era localizada e j á estava , fundamentalmente , caçã o, a Igreja pro- Videla . Na foto: Monsenhor Medina cuniprimen-
derrotada em 1976) foi a forma ilegal que tomou a repressão : o moveu o pior pro- ta Jorge Videla .
“ desaparecimento ” . Em uma guerra real , os direitos dos prisio ¬

cesso obscurantista
neiros, inclu ído o de um processo legal , teriam sido respeitados. já conhecido no país . Monsenhor Plaza (arcebispo de La Plata
)
Os “ desaparecimentos ” atingiram guerrilheiros , pol íticos , es ¬

distribu ía crucifixos nos campos de concentra çã o (onde os deti


¬

tudantes, escritores , dirigentes sindicais e at é membros do gover- dos por motivos políticos sofriam as piores torturas antes de se
jno militar, como o embaixador na Venezuela (o pol ítico radical Hi
rem mortos) , enquanto Monsenhor Bonamin (capelão do Exérci
¬

dalgo Solá) ou o empresário Fernando Branca , assassinado pelo seu to) benzia os “ grupos de tarefas ” encarregados de seq ú estrar
sócio, o almirante Emílio Eduardo Massera (membro da Junta Mi¬ torturar e matar os militantes populares ; n ã o faltando os que , co
litar). O “ método ” engolira seus executantes, que passaram a usá- mo o capelã o Von Wemich , montaram um lucrativo comércio de
lo entre eles para resolver desavenças pessoais. Entretanto , a morte venda de informações aos desesperados parentes dos desapareci
tinha destino certo: já os levantamentos iniciais da Amnesty Inter- dos . É claro que houve exceções ( també m as houve no Exército)
I , national (Anistia Internacional) comprovavam que a maior parte i
'
'
mas a instituição foi parte ativa do genocídio , como foi denun
-
js , ,, v das vítimas localizava-se no movimento operá rio , em especial nos - ciado pelas Mã es da Praça de Maio . N ão raro as exceçõ es , como
.
t

'
-
1 , \ r. .; 'seus setores mais ativos.
O terrorismo antioperá rio peronista (AAA) foi integrado, corri
Monsenhor Angelelli , bispo de Catamarca, que denunciou a re
pressão militar, foram vítimas dos assassinos benzidos por seu
¬

gido e aumentado no terrorismo militar, estabelecendo -se uma superiores.


continuidade essencial entre os dois regimes . Os militares cha ¬
maram de “ guerra suja ” os seus procedimentos , reconhecendo a
1
A “ corrupção ” foi elevada a n íveis estratosf é ricos , com nego
¬
TORTURA e morte
ciatas , mas també m roubo e vencia dos bens das pessoas “ desa ¬

parecidas ” , sem falar nas mordomias do astron ó mico orçamento Entre 1976 e 1983 funcionaram na Argentina 362 campo
militar, respons ável por mais de um quarto da d ívida externa do de concentra ção e extermínio . Por aí passaram mais de 30 mi
país , que atingiu 45 bilh ões de dólares . O Estado , por meio do pessoas dentre os quais militantes políticos, ativistas sociais, opo
poder militar, virou literalmente uma máfia . sitores ou simples testemunhas incómodas dos tantos seqiiestro
Toda a classe empresarial e os partidos tradicionais apoiaram que diariamente se produziam . A maioria delas nunca mais apa
o “ Processo ” , só criticando - tardiamente - os seus “ excessos ” receu . Seus filhos , no melhor dos casos , foram criados por tio
(que foram, na realidade , a norma) . A recompensa : as atividades ou avôs . Outros foram “ apropriados ” pelos mesmos assassino
desses partidos só foram suspensas (os partidos oper á rios e de dos seus pais e ainda permanecem seq ü estrados , como uma es
esquerda foram , ao contrá rio , dissolvidos) ; muitos dirigentes dos p écie de butim de guerra . A maioria dos que se encontram nessa
velhos partidos receberam cargos oficiais (prefeituras , embaixa ¬
situação ainda hoje ignora o passado, nem sabe quem foram seu
das) . O golpe mais repressivo da histó ria argentina criava tam ¬
pais verdadeiros.
bé m , antecipadamente , as bases para um futuro “ grande acordo Além dos assassinatos , o capítulo marcante do regime milita
nacional ” - democracia formal (burguesa) e ditadura militar re ¬
argentino foi o uso geral , indiscriminado e sem limitações da tor
velaram não ser antagonistas absolutas . tura, com requintes de crueldade tão indescritíveis que produz
r Fato essencial , o “ Processo ” também se integrou à burocra ¬
tenta ção de pensar que o (numeroso) grupo de pessoas responsá
cia sindical. A ditadura se propôs a reduzir qualitativamente o pe- vel pela condução do país e o programa de extermínio, mais do qu
v so dos sindicatos : o Estado pôs sob intervenção os principais sin- a cadeia , mereceria simplesmente ser intemado à perpetuidad
dicatos e lhes tirou as “ obras sociais ” ; os setores conflituosos ! ! num monumental hospício , como portador de distú rbios mentai
(eletricidade , ferrovias) foram militarizados ; vários dirigentes sin- de uma gravidade inédita e insuspeita .
dicais peronistas foram assassinados ou presos . Mesmo assim , A tortura chegou a níveis tão elevados , que o temor a ela er
diversos dirigentes sindicais tomaram parte nas “ comissões as ¬
mais forte nos militantes resistentes do que o medo de morrer :
sessoras ” dos interventores militares e praticaram outras formas patológica reaçã o dos “ montoneros ” remanescentes , por exem
de colaboracionismo . plo , foi viver permanentemente com uma c á psula de cianuret
Os militares porém foram muito alé m disso , tentando re-es- na boca , para engoli-la e morrer rapidamente caso estivessem n
truturar a vida política do país por meio de diversos planos polí ¬
iminência de ser detidos (os “ grupos de tarefa ” , quando captura
ticos (desde um “ movimento ú nico ” , de apoio ao “ Processo ” , até vam um militante , de imediato abriam-lhe a boca para inspecio
uma “ democracia gradual ” , passando pela manipulação dos car ¬
ná-la) . Dessa maneira suicidou-se o jornalista e poeta “ montone
gos dirigentes internos dos partidos . O Partido Comunista (que ro ” Francisco Paco Urondo .
havia sido só suspenso) foi conseqü ente nessa linha , e tomou -se No século ui, o jurista Ulpiano definira a tortura como “ o tor
célebre entre seus pares , por ter chegado a defender apaixonada ¬
mento e o sofrimento do corpo com a finalidade de obter a ver
mente o ditador Videla contra um suposto plano para derrub á- dade ” . Os regimes militares latino-americanos e seus anteceden
lo . O adido militar da URSS comparou , num discurso oficial de tes em outras partes do mundo ultrapassaram essa definição , poi
1976 , a “ guerra suja ” com a resistência do exército soviético con ¬
a tortura foi praticada com tanta sistematicidade e assiduidad
tra o nazismo na Segunda Guerra Mundial - enquanto isso , de ¬
(incluindo mutilaçõ es atrozes) que , evidentemente , j á não pos
zenas de militantes do PC eram mortos pelo terrorismo militar. suía outra finalidade que não a pró pria tortura e a morte subse
I qüente. Nem vingança , nem obtenção de informações: a tortur
é a morte viraram uma atividade-fim, praticada não de modo iso ¬ ViileLt

lado, mas sistemá tico , por milhares de torturadores, em dezenas


de milhares de casos. S

A tá tica militar para manter-se no poder adotava a tortura ge ¬


-
neralizada e o conceito de “ guerra moderna ” , que implica a eli
mina çã o de qualquer forma de oposiçã o . Havia , portanto , lógica
¬
F
nessa loucura . Documentos vindos à luz mostram que a França L
ensinou a doutrina da “ guerra suja ” aos militares argentinos , des ¬ -iriWT
!
de 1957. Nos manuais militares franceses já se recomendavam i

seqüestros, torturas e ocultação de cadáveres. O confessadamen- u


te nazista general argentino Ram ón Camps homenageou seus
mestres , em 1981: “ Os franceses foram os primeiros , os mais com ¬

pletos ” . O torturador francês convicto e confesso, general Paul AWí rf » Sí Vriuic.

Aussaresses , declarou que o governo de Onganía foi o que mais ~ CASA 2

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vesuBio
“ missões ” francesas recebeu .
Em janeiro de 1981, o general Ramón Camps recordava em V

La Prensa que essas missões e cursos começaram “ sob a direção


- h - Ml
!

dos tenentes-coronéis Patrice de Naurois e François-Pierre Badie ”


— eles transmitiram a experiência dos oficiais franceses nas guer
ras da Indochina e da Argélia . Os cursos se baseavam nos escri
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tos de outro militar que confessou a prá tica da tortura na Argé ¬


. 03 CchLdLi.XL
lia, o general Massu , e eram ministrados pelo general Salan e pelo
tenente-coronel Roger Trinquier. Plantas de centros de deten çã o clandestinos de presos pol íticos , cam
Uma nota do general Massu argumentava: pos de concentra çã o em que os prisioneiros - militantes políticos , ati
vistas sociais ou simples testemunhas incó modas das atrocidades do re
gime - sofriam as piores torturas antes de ser eliminados.
N ão se pode lutar contra a guerra revolucioná ria subversiva, protagonizada
pelo comunismo internacional e seus intermediá rios, com os procedimen ¬

tos clássicos de combate. É preciso usar m é todos e ações clandestinas e con


¬

tra-revolucionárias, e que esses m é todos sejam admitidos pela alma e por


nossas consciências como necessários e moralmente válidos. Destacamentos Operacionais de Proteção. Esse mesmo sistema fo
usado na Argentina pelos “ grupos de tarefa ” .
O tenente-coronel Trinquier teria sido o “ organizador do con ¬
Trinquier elaborou a “ doutrina da clandestinidade ” : repressão
ceito de guerra moderna ” , que se articularia em tomo de três ei ¬
baseada no ocultamento dos centros de detenção, desaparecimento
xos : a clandestinidade , a pressão psicológica e a “ moralidade es- de pessoas e eliminação dos corpos; uso de pessoal militar vestido
treita ” (sic). Os métodos franceses desenvolvidos na Argélia foram de civil, organizado em comandos e percorrendo à noite os centros
usados, e seguramente aperfeiçoados, na Argentina : Trinquier in ¬
urbanos na busca de vítimas ou suspeitos para torturar - técnicas
ventou um sistema de busca de informação conhecido como DOP , implementadas na Argélia por Aussaresses e Massu e importadas
para a Argentina. Ramón Camps, que se orgulhou publicamente de
;

tertorturado de modo selvagem o jornalista Jacobo Timmerman , Razones Políticas, Madres de Plaza de Mayo - Linea Fundadora e
dono do jomal La Opinión, escreveu: ,
Madres de Plaza de Mayo; no Brasil, a Comissão de Familiares de
Mortos e Desaparecidos Polí ticos , Familiares de Guerrilheiros do
Na Argentina, primeiro recebemos a influ ê ncia francesa, depois a norte-ame
¬ Araguaia e os grupos Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro e de
ricana . As usamos de modo separado , e depois em conjunto , tomando os Pernambuco .
conceitos das duas até a norte-americana predominar. Mas há que se dizer Os Familiares de Detenidos y Desaparecidos por Razones Po¬
que a concep ção francesa era mais exata que a norte-americana . Esta se li
mitava quase exclusivamente ao aspecto militar, enquanto a francesa consis
¬

líticas da Argentina estão organizados desde 1976 . Apresentam o


processo de sua formação do seguinte modo :
¬

tia em uma visão global.

Na busca desesperada por nossos seres queridos , e para denunciar seu de ¬

CONTRA a morte saparecimento , percorremos dependências do Estado , policiais, das Forças


Armadas , Igrejas e organismos de direitos humanos. Aí nos conhecemos e
soubemos que n ão estávamos sós na desgraça e na dor. Que éramos muitos
O Estado argentino dos anos 1970 e 1980 exemplifica ple¬ os que não sabíamos onde estavam os filhos, esposos, irmãos, pais , netos ,
namente a faceta assassina do Estado Militar na Am érica Latina. onde tinham sido levados , o que tinha sido feito deles . Trocamos experi ê n
¬

Em oposição, na sociedade se percebe o esforço em denunciar a cias e informação , imaginamos novos lugares onde pedir auxílio . Aprende ¬

violê ncia político-militar desse Estado . A den ú ncia , a partir de mos que s ó juntos poder íamos ter a força necessária para lutar contra essa
ent ão , não busca simplesmente “ dizer que existiu ” , mas reparar
politicamente as atrocidades cometidas. Os sujeitos desta ação ,
as Comissões de Familiares e demais entidades , exigem dos Esta ¬

dos a localiza çã o dos restos mortais das ví timas , a apuração das


condições das mortes , dos respons áveis , e as punições cabíveis :
aos crimes cometidos.
Perseguem , em última instâ ncia , a construção de uma políti¬
ca que não permita mais a repetição daquelas prá ticas . Trata-se Wm
i
de uma luta travada também nas esferas da memória e do esque
cimento . Esquecer significa, desse ponto de vista , deixar aconte¬
¬

•Pi m
UM

cer, permitir que os sujeitos “ daqueles tempos ” , assassinos e víti ¬


r c
mas , igualem-se. Lutar pela memó ria , como arma de recusa ao &
m a
atual estado de impunidade que perpassa aqueles anos , é trans ¬
formar a capacidade de lembrar em instrumento político de mu¬
dança e justiça.
Anos depois da sua constituição , as organizações de familia¬
res da Argentina , do Brasil, do Chile , do Uruguai criaram uma ar¬
i i
«I ¡S ‘Ú

iP
ticulação com a Federación Latinoamericana de Asociaciones de
Familiares de Detenidos - Desaparecidos (Fedefam) , fonnada em Marcha das mã es de “ desaparecidos” , na Pra ç a de Maio . As “ Mães da
1981 em Sã o José , na Costa Rica . As entidades que a comp õem Praça de Maio” viraram um símbolo mundial da resistência contra a vio ¬

são: na Argentina, Familiares de Detenidos y Desaparecidos por l ência praticada pelos regimes militares.
;
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,

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nova forma de repressão e tortura que enfrentávamos. Começamos a nos or ¬
Como vocês sabem , os desaparecimentos começaram em 1974 e 1975 com
ganizar. Em janeiro de 1976 , surgiu , como resposta ao desaparecimento si ¬
as AAA; n ós temos algo em tomo de 600 casos dessa época. Em 1976 , quan ¬

mult â neo de 24 pessoas em Có rdoba , o primeiro grupo de familiares. Des ¬


do a ditadura se instaura, [os desaparecimentos] começam a se tomar tremen ¬

de março de 1976 , em Buenos Aires , [ n ós ] os familiares , que nos damente mais frequentes, e já as mães desses desaparecidos - dos primeiros
conhecíamos por nossas ações ante os organismos oficiais , começamos a - começavam a se mover: [dirigindo-se ao] Ministério do Interior, à polícia, à
nos reunir na sede da Liga Argentina pelos Direitos Humanos (LADH ) em Es- Igreja e obviamente aos partidos políticos ou alguns políticos a quem se ia pe ¬

meralada 77 . xAí recebemos a primeira delega ção da Anistia Internacional,


diante da qual denunciamos a situa ção de milhares de detidos-desapareci-

dir [auxílio] . Havia alguns organismos a Liga , que é um organismo de mui
tos anos ; a Assembleia , que havia se formado em 1976 ou 1975; Familiares -
¬

dos em nosso país . Nossas reivindica çõ es , nesse momento , já tinham como que també m auxiliavam Las Madres. Quando a ditadura se instaura em 1976 ,
primeiro e fundamental ponto o Aparecimento com Vida dos desapareci ¬
havia mais m ães , porque aumentava també m o n ú mero de desaparecidos , e
dos . Em setembro de 1976 , Familiares se constituiu na capital federal , e nós batíamos, todas, às mesmas portas. Todos vocês sabem que ali nos conhe ¬

passou a contar com um local de reuniã o permanente oferecido pela LADH . cíamos ; algumas no Ministério do Interior, algumas na polícia, algumas na
Pouco depois , viajamos para o interior do pa ís - Mendoza , Santiago del Es ¬
ata , algumas no desespero de irem à prisão para ver se [ nossos familiares] ali
tero , Tucum ã , Mar del Plata , Corrientes , Chaco , Rosario - para entrar em se encontravam. E à Igreja .
contato com outros familiares e cham á-los a se organizar. Com toque de re ¬
E um dia, estando na igreja, na igreja dos assassinos , na igreja Stella Ma
¬

colher, com perigo para nossa seguran ça , recebidos em muitos casos com ris , que é a igreja da Marinha , onde íamos ver Gracelli, Azucena Villaflor de
desconfian ç a ou receio - sempre com medo conseguimos que a luta se Vincenti disse que já bastava , que não poderíamos ficar ali , que já n ão con ¬

iniciasse em outras cidades , abrindo novas frentes. seguir íamos nada ; e por que não íamos à praça e fazíamos uma carta para
pedir uma audiê ncia para que nos dissessem o que havia acontecido com
> Entre suas ações cabe mencionar várias matérias pagas publi ¬ nossos filhos . E assim fomos, pela primeira vez, em um sábado. Nos demos
cadas em jornais e revistas indagando sobre o estado e o paradei ¬ conta de que ningu é m nos via , que n ão fazia sentido algum . Era um dia 30
ro de seus familiares presos e/ou seq ü estrados-desaparecidos e, de abril. Decidimos voltar na outra semana , em uma sexta-feira. Na outra
semana decidimos ir numa quinta-feira .
ao mesmo tempo , denunciando as atrocidades da polí tica terro ¬

rista das Forças Armadas argentinas ; reuniões com os diferentes


organismos de Direitos Humanos nacionais e internacionais e com Azucena Villaflor, primeira presidente das Mães da Praça de
as diferentes organizações polí ticas que , mesmo clandestinas ou Maio , seria seqü estrada e morta , depois da infiltração do n ú cleo
sob intervenção , continuavam existindo (como os sindicatos , as original das Mã es pelo oficial da Marinha Rubén Astiz (“ E7 Ni¬
ñ o" ) , um assassino psicópata hoje reclamado por vá rios países
agremiações estudantis , os partidos, as associações profissionais) ;
(entre outros crimes horrorosos, Astiz é responsável pela tortura
a publicação de poemas , desenhos e relatos dos presos polí ticos ,
- enterro em cal viva - e assassinato de quatro freirás francesas) ,
todas estas iniciativas invadiram o espaço pú blico em tempos de
forte repressão, medo e censura. que conservou seus postos de comando durante os regimes de ¬

A entidade mais conhecida e comentada dentro e fora da Ar ¬


mocrá ticos pós-1983.
gentina , Madres de Plaza de Mayo, surgiu em 1977. Sua outra fa ¬
O sociólogo argentino N éstor Garcia Canclini lembra a ritua-
ce , as Madres de Plaza de Mayo - Linea Fundadora é uma dissi ¬
lização cíclica das Madres de Plaza de Mayo (que foram inicial¬
mente chamadas de “ loucas de Praça de Maio” ) “ dando voltas to¬
dê ncia resultante dos conflitos advindos da constituição da
Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (Conadep) , das as quintas-feiras [ . ..] com fotos de seus filhos desaparecidos
em 1983, pelo presidente civil pós- “ Processo ” , Raúl Alfonsín . As como ícones , at é conseguirem , depois de anos, que alguns dos
Madres contam sua história: culpados fossem condenados à prisão ” . Sobre a imagem das mar ¬

chas, ou rondas , as Mães advertem:


Esses primeros encontros também geraram as primeiras ações, que foram ab ¬ com que o mundo imediatamente se apercebesse do que passava. Mas nós na
solutamente impensadas, espontâ neas. A primeira ação foi entregar a carta. delegacia tampouco ficávamos quietas. À medida que nos identificavam e per
Trocarmos informações entre n ós mesmas . Quando a polícia viu que éramos guntavam quem éramos e nos mandavam a um determinado lugar decidimos
muitas , entre 60 e 70 , nos bancos que existem na Plaza , disse : “ bem , aqui rezar também nesse lugar. Mas rezávamos pedindo para que os daquela dele
não podem licar, estamos em estado de sítio, não podem ficar aqui sentadas, gacia nã o fossem tã o assassinos, para que o delegado não torturasse; ou seja
isto já é uma reunião , marchem , caminhem ” , e começou a bater com as mãos enquanto isso aproveitávamos a reza para chamar de assassinos e torturado
e com os cacetetes. . . e a polícia nos fez caminhar. N ós n ã o pensávamos em res aqueles que tínhamos a nossa frente . E era uma a çã o muito dura , muito
marchar... Quero dizer-lhes que n ós não gostamos que chamem de ronda/vi ¬ dura, mas como era dentro da reza, da Ave-Maria e do Pai- Nosso , e como exis
gília ao que fazemos [ . ..] Por que não queremos chamar de “ ronda ” o que te tanto respeito , e os militares passam fazendo o sinal-da-cruz quando en
chamamos de marcha . Porque a ronda é rondar sobre o mesmo, mas mar ¬ tram e saem das delegacias, não podiam nos dizer nada, porque entre o Pai-
char é marchar fazendo algo. E n ós , as m ães , cremos que, mesmo que em cír ¬
Nosso e a Ave-Maria, os acusávamos de assassinos.
culo, estamos marchando por algo.

Outra marca visível na atuação das Madres, além das mar¬ A OPERAÇÃO Condor
chas às quintas-feiras , é a utilização de um lenço de cabeça bran¬
co - os pañ uelos - que, segundo Hebe Bonafini, presidente da A Opera çã o Condor mostra os labirintos dessa história trági ¬

en údade, teve a seguinte origem : ca : s ó recentemente foram desvendados os n ós dessa “ interna ¬

cional da morte ” . Em seu livro , Operación Condor: Pacto Crimi ¬

Quando chegou o m ês de outubro [1977] , preparamos uma marcha entre os nal , a escritora Stella Calloni resumiu um amplo trabalho de
organismos que estavam funcionando . Nos primeiros dias de outubro , tarn¬ investigação com base em numerosos testemunhos e pesquisas
's ( bém a Igreja preparava sua marcha a Lujá n , com um milhão de jovens. E as

Madres decidimos ir às duas marchas: a dos organismos , que era no Dia das
anteriores, que serviram como referê ncia em vários processos con ¬

1!
Mães, e a organizada pela Igreja , nos primeiros dias de outubro. Mas não sa ¬
tra responsáveis pelas atrocidades cometidas durante as ditadu ¬

bíamos como nos identificar, nem todas poderiam caminhar tantos quilóme ¬ ras latino-americanas .
tros; umas iriam desde Luján , outras iriam entrar em Castelar, outras em Mo¬ Na segunda metade da d écada de 1970 , nos círculos de exi ¬

reno, outras em Rodríguez. Então começamos a pensar em como nos lados políticos das ditaduras, falava-se da Operação Condor e fa ¬
identificaríamos e uma disse: “ vamos colocar um lenço ” . “ Um lenço... e de zia-se um paralelo entre essa coordenação entre regimes militares
que cor? Porque tem de ser da mesma cor ” . “ Certo, branco ” . “ E se colocar ¬
e uma operação que recebeu o nome de Phoenix que teve lugar
mos uma fralda de nossos filhos? ” (que todas tínhamos uma como lembran ¬

na Ásia , organizada pelos Estados Unidos , por funcioná rios co ¬


ça) . E assim, no primeiro dia , nessa marcha a Luján , usamos o lenço branco,
que não era outra coisa, nada mais nada menos, que uma fralda de nossos fi¬
mo William Colby, depois diretor da CIA . Chamou a aten ção de
lhos. Esse lenço branco nos identificava . [ ...] nos demos conta de que muita Calloni o caso de Gladys Mellinger de Sannemann , m édica e po ¬

gente lembrava, depois de alguns dias , que essas mulheres de lenço branco lítica paraguaia , mas com nacionalidade alemã , seq ü estrada em
haviam sido capazes , ao redor da praça de Lujá n , de gritar e pedir - sempre 1976 em Misiones , Argentina , e entregue à ditadura do general
rezando - pelos desaparecidos. Ou seja , todo mundo que esteve essa vez em Alfredo Stroessner. Depois de permanecer no campo de concen ¬
Luján soube que havia desaparecidos no país e que as Madres, rezando, pe ¬
tra ção de Emboscada , no Paraguai , foi trasferida para a sinistra
diam por eles. Fomos depois para a marcha que os organismos realizaram, na Escola de Mecânica da Armada (Esma) , na Argentina , de onde foi
qual 300 de nós (gente dos organismos) fomos presos, nos emboscaram em
uma rua e nos colocaram em ônibus e nos levaram para a prisão, para a dele ¬
resgatada graças à pressão do governo alemão. Mellinger foi uma
gacia. Havia prisioneiros de todos os organismos mas, dentre os presos havia, das primeiras vítimas que denunciou a Operação Condor e for ¬

por equ ívoco , tamb é m alguns jornalistas estrangeiros e as freirás, e isto fez neceu testemunhos de companheiros de cativeiro que provinham
'
de outros países , também vítimas do esquema de repressão con-
junta entre as ditaduras do Cone Sul. Em 1992, foram descober¬
tos os Archivos del Terror do Paraguai , nos quais consta como
prisioneiros políticos das ditaduras eram entregues de um país
para outro. Há evidências , por exemplo , de dois encontros , em i & m
1974, entre Augusto Pinochet e Alfredo Stroessner. Também do¬
cumentos sobre várias reuniões entre chefes militares e de inteli¬
gência, de 1975 a 1978, para estabelecer uma coordenação entre
todas as ditaduras da região. Um dos convocantes desses encon¬ PI 5
tros dos estrategistas da morte foi o general chileno Manuel Con
treras, chefe da Dirección de Inteligência, a DINA, polícia política
¬

-
pinochetista, considerado “ condor nú mero um” .
O Paraguai, cenário de uma ditadura que durou 35 anos, resul ¬

tou em terreno ideal para levar a cabo operações encobertas da CIA


para favorecer as ditaduras sul-americanas. Os exércitos de Bolívia,
|Argentina, Chile, Uruguai, Brasil e Paraguai estabeleceram um pac-
^
O ' i to para coordenar forças e operações repressivas e unificar a infor-
a'

SP' j mação policial, com o fim de extenninar qualquer oposição ou re¬


¡E
Kissinger, Videla e o embaixador norte-americano Ra ú l Castro, na casa
de campo presidencial . O chanceler norte-americano foi o grande arti-
sistência. Esta associação incluiu o seqüestro, o roubo, o assassinato, culador dos golpes militares da década de 1970.
a tortura , o desaparecimento de pessoas , a destruição de dezenas
de milhares de seres humanos e de suas famílias, aos que ademais
se roubaram centenas de recém-nascidos para entregá-los a repres-
sores sem filhos ou aos seus amigos. oceano, de grandes alturas e ainda vivos) e os roubos de proprie ¬

Esta operação inumana teve o beneplácito, a cobertura e a as- dades dos seqüestrados, assim como alguns crimes notáveis, como
sessoria da Central Intelligence Agency (CIA) e de outros serviços o atentado quase mortal contra o ex-ministro chileno Bernardo
de inteligência dos Estados Unidos. Durante um tempo contou Leighton, em outubro de 1975 em Roma, o já mencionado assas ¬

com o patrocínio de George Bush (ex-presidente e pai do presi¬ sinato em Washington do ex-chanceler de Allende, Orlando Lete-
dente dos Estados Unidos eleito em 2000) , diretor da CIA entre lier, em setembro de 1976, e a explosão sobre a ilha Barbados de
30 de janeiro de 1976 e 20 de janeiro de 1977 - o ano de máxi ¬ um avião da Cubana de Aviação , com 73 passageiros a bordo. Es ¬

mo terror da ditadura do general Jorge Rafael Videla na Argentina ses crimes se vinculam a uma série de operações de extermínio con ¬

- de Henry Kissinger e de William Colby, entre outros altos fun¬ tra oficiais de prestígio em seus exércitos que não apoiaram as di ¬

cionários. taduras terroristas: o assassinato do general René Schneider no


No Paraguai, a mais antiga e menos visível das ditaduras mili¬ Chile, em 1970, na véspera do empossamento do presidente Sal¬
tares do Cone Sul, se planejaram e coordenaram operações e se tro¬
vador Allende; o assassinato do general chileno Julio Prats e sua
caram prisioneiros políticos por cima das fronteiras. A ação crimi ¬ esposa em Buenos Aires, em setembro de 1974; o assassinato do
nosa dos exércitos e das polícias do Cone Sul incluíram, à rotina general uruguaio Ramón Trabal, em Paris, em dezembro de 1974;
atroz das desaparições, as torturas, os “ vôos da morte” (em que os
o assassinato do general Juan José Torres, ex-presidente da Bolívia,
prisioneiros políticos eram jogados sobre o Rio da Prata ou sobre o
em Buenos Aires, em maio de 1976.
A justificativa ideológica e polí tica dessa aliança repressiva guerra, no sirven pá una mierda ” , gritaram nas ruas de Buenos
I internacional foi a luta “ contra a subversão, o terrorismo e o co- Aires os estudantes que participaram, em 2001, na manifestação
'
. munismo ” . Sua magnitude e mé todos transbordaram totalmente contra o 25a aniversário do golpe militar de 24 de março de 1976,
. 5'
. as supostas necessidades de um enfrentamento contra as organi- quando as mães e as avós de Praça de Maio convocaram um des¬
j zações de guerrilha urbana existentes que , na segunda metade da file de mais de três horas , com centenas de milhares de manifes¬
década de 1970, quando atingiu-se o clímax da repressão, já es ¬ tantes diante da Casa Rosada.
tavam marginalizadas e semidestruídas . O investigador britâ nico Christopher Hitchens (autor de The
Seus objetivos reais eram mais vastos: (1) o desmantelamen- Trial of Henry Kissinger) denunciou a culpabilidade de Henry Kis ¬

,
, to, a desorganização e a destruição das organizações sociais, sindi¬
singer em crimes contra a humanidade. Hitchens descreve sua
cais e políticas dos trabalhadores da América do Sul. Na Argenti ¬ personagem como
na, como já está documentado, 48% dos mortos e “ desaparecidos” um oportunista, um criminoso de luvas brancas e um traficante de comis
foram trabalhadores de fábrica , centenas de dirigentes e delegados
¬

sões ocultas que fez pactos com os piores ditadores. É o pior exemplo da
sindicais. Na Bolívia a repressão se concentrou sobre os trabalha ¬
cultura da celebridade nos Estados Unidos, que consiste em levar em conta
dores mineiros e seus sindicatos. No Chile, um terror organizado e a reputação da pessoa, não seus atos.
sistemá tico destinou-se a paralisar e destruir sindicatos, partidos,
organizações sociais e culturais dos trabalhadores. O objetivo claro j A acusação se sustenta em documentos que provêm diretamen ¬

e definido foi destruir o tecido de resistência social, o que seria te dos gabinetes de Nixon e Kissinger e que provam a colaboração
aproveitado pelas ditaduras, e também pelas “ democracias” pos ¬
entre Washington e as ditaduras no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile
teriores , para pôr em prá tica o chamado “ neoliberalismo” ; (2) a e Paraguai - os países que formaram parte do Plano Condor.
destruição da autonomia e da liberdade de cá tedra, de investiga¬ Kissinger e sua equipe, por exemplo, conceberam o projeto
ção e discussão nas universidades e centros de estudo, na impren ¬
destinado a assassinar o general Schneider. O dinheiro para a “ ope ¬

sa e meios de comunicação, nas organizações estudantis: mais de ração Schneider ” , 50 mil dólares, foi enviado de Washington e dis ¬

- 980 estudantes, só da Universidade de Buenos Aires, foram “ de ¬


tribuído no Chile pela embaixada norte-americana. Uma parte das
saparecidos” entre 1976 e 1982; (3) deixar a população trabalha ¬
armas foi também enviada ao Chile por meio da mala diplomá ti ¬

dora, suas organizações e associações em estado de paralisia, de ca. Legalmente, se trata de um assassinato, organizado pelo... Pré ¬

terror e sem defesa diante da privatiza ção dos bens públicos , do mio Nobel da Paz de 1973 (o mesmo prémio que foi negado às
empobrecimento geral e do enriquecimento obsceno do grande Mães da Praça de Maio). Para Hitchens,
empresariado, da redução drástica dos salários e do desmantela ¬

mento dos contratos coletivos de trabalho, normas laborais e ou ¬ a influ ência dos Estados Unidos na Amé rica Latina durante a década de
tras conquistas sociais , do desemprego. 1970 foi criminosa. Do norte ao sul, Washington apostou nos piores perso¬
nagens da história... As administrações precedentes atuaram mais ou me ¬

nos da mesma maneira , sob o regime de Roosevelt por exemplo, política que
O PAPEL DOS Estados Unidos atingiu seu paroxismo durante o governo de John Kennedy.

Um resultado adicional, atingido com plenitude na Argenti ¬ As “ façanhas ” de Kissinger foram do Vietnã até Camboja, pas ¬

na, foi a desintegração moral e a destruição da capacidade de com ¬ sando por Chile, Bangladesh, Grécia e Timor Oriental, mas sem¬
bate do exército, como se veria na guerra das Malvinas e, depois, pre com o apoio do conjunto da administração da “ democracia
no repúdio generalizado ao exército nesse país: “ No sirven pá la .. americana ” , para a qual ele fez o “ trabalho sujo ” . Para Hitchens,
contrariando uma lenda persistente , “ Kissinger n ã o é um bom tar um novo ciclo de reativação ; (e) a reestruturação da classe em ¬

historiador nem um bom acadêmico . É um pobre intelectual e presarial nacional , promovendo a formação de trastes diversifica ¬

um pobre ser humano ” . dos na explora ção do petróleo, da celulose, na exportação de ma ¬

As investiga ções demonstram que os Estados Unidos estive¬ nufaturas agrá rias e maté rias primas , na petroqu ímica , no aço e
ram na origem da operação terrorista continental , como o revela nos bancos.
uma nota do diretor da CIA, Richard Helms, dando conta de uma O plano visava a dar uma resposta estrutural à estagnação cróni¬

reunião no gabinete de Richard Nixon , onde decidiu -se a sorte ca da economia argentina. Em 1976, o PIB caiu 6% - a renda dos não-
de Salvador Allende das democracias da Am érica do Sul. Para assalariados subiu , no entanto, 20%, a dos assalariados caiu 30% .
^
,

os “ homens ” reunidos em tomo de Nixon , entre eles Kissinger, Em junho de 1977 , uma reforma financeira libertou o mercado de
Allende não devia em nenhuma hipó tese aceder à presidência: capitais do controle do Banco Central, uma mudança histórica. Ou ¬

tras medidas (restrição monetária , tabela fixa de câmbio, eliminação


N ã o levem em conta os riscos. A embaixada n ã o deve estar envolvida . Há de tarifas aduaneiras) levaram a pequena indústria à falência. O Es ¬

10 milhões de dólares disponíveis , mais se for necessá rio . Trabalho a tumo tado interveio no processo de concentração, por meio das políticas
completo . Os melhores homens de que disponhamos. 48 horas para um pla¬ de “ promoção industrial” : um terço das cem maiores empresas su ¬

no de açã o.
miu do mercado (via fusã o, venda ou quebra) . Os beneficiados fo ¬

ram setores do grande capital nacional (Pérez Companc, Sasetru, Ca-


Kissinger foi , ao que parece, o “ cérebro ” que propôs a “ cria ¬

pozzolo) , não raro de origem agrolatifundiária , setor que também se


tiva ” solução ideal: o assassinato dos que criassem problemas. beneficiou de uma grande transferência de renda. Tudo baseado nu ¬

ma brutal queda das condições de vida dos assalariados (o salário


real caiu 40% em um ano). Mas a concentração foi paralela a uma
A “ DEGRINGOLADA” da ditadura Argentina queda da produ ção industrial (de 17% entre 1975 e 1981) . Vá ¬

rias fábricas do estancado ramo dos autom óveis fecharam ( Ci ¬

A crise do “ processo ” militar argentino teve raízes econó mi ¬

troen , General Motors , Peugeot , Chrysler) , redimensionando o


cas e , conseqúentemente, polí ticas (o que inclui a resistência so- mercado das que restaram .
cial e democrá tica à ditadura militar) . O empresariado se dividi¬ Em toda a indústria , 400 mil operários ficaram desemprega -
ria em torno do plano econ ó mico . O programa do ministro da dos . Todo o processo operou-se, por outro lado, por via especu ¬

economia Martínez de Hoz propunha: (a) a imposição de um re ¬ lativa . O negócio bancário cresceu espetacularmente, a atividade
trocesso hist órico das condiçõ es de vida da população ; (b) a li
¬

financeira explodiu : cada empresa importante criou sua compa ¬

quidação de uma parte do ativo industrial obsoleto e dos capitais nhia financeira. Muitos dólares chegaram (as taxas de juros exor
que não podiam sustentar a concorrência internacional, reativan-
¬

bitantes transformaram Buenos Aires na melhor praça financeira


do por meio dos re-equipamentos os setores capazes de inserir ¬

mundial) , mas tratava-se de capital fictício, especulativo , à pro ¬


se mais profundamente nas correntes do comércio mundial; (c) a cura de lucros de curto prazo. As multinacionais não investiram
criação de um fundo de acumulação mediante um endividamen¬ na ind ústria , devido à recessão e aos juros incompatíveis com
to geral , com concess ões enormes ao capital financeiro interna¬ qualquer reativação industrial. As grandes empresas tomavam em ¬

cional ; (d) a liquida ção da participação do Estado na indústria préstimos no estrangeiro com taxas menores (a dívida externa foi
privada, determinada no passado para salvar as empresas em cri- para as nuvens) sem expandir a inversão, mas especulando com
se - a desnacionalização da indústria estatizada (700 empresas) os fundos assim obtidos na “ ciranda financeira ” e remetendo os
para promover um maciço ingresso de capitais capaz de susten-
t lucros para fora do país.
Os custos financeiros das empresas que tomavam dinheiro no.
mercado argentino atingiam 80% das vendas totais (sim, 80%) , pois
pagavam 60% de juros reais. A tendência para a baixa das taxas de
juros havia refletido a crise e a falência da indústria a partir de 1975.
Não existia demanda de investimentos e a contrapartida era o au
mento de capitais ociosos . Daí originou-se a tend ê ncia para a fuga
de capitais ao estrangeiro , expressão da queda dos lucros produti
vos e da queda da indú stria . A polí tica financeira de Martínez de
Hoz estruturou-se como alternativa à fuga de capitais, criando uma
elevada remuneração para o capital ocioso, inclusive o capital in
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ternacional. Diante de um sistema de relações de produção em que


da livre, os governos capitalistas ditatoriais organizaram o resgate e
a salvação do capital em crise à custa dos trabalhadores e das fi
nan ças pú blicas . O plano confiava que o livre jogo do mercado le¬
varia a racionalidade do capital a “ normalizar ” a economia , desen
volvendo os setores competitivos no mercado mundial.
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8fcTrip!
A crise cio “ Processo ” militar argentino teve razões econ ómicas e pol í ti¬

Porém , a lógica do capital nã o é a racionalidade económica , cas , que incluem a resistê ncia social e democrá tica à ditadura militar. Os
militares , no entanto, esforçam-se para manter-se no poder: General Ro
mas a procura de lucro (de qualquer origem) . O grande capital
¬

berto Viola ( esq . ) 1980-1981: General Leopoldo Galtieri (clir. ) 1981-1982.


tinha acelerado a crise económica, em 1975, para derrubar o pe¬
ronismo (os EUA suspenderam os créditos ao governo peronista)
e agora não sabia como sair dela.
J á em 1977 , os latifundiários , prejudicados pela queda dos financeiros internacionais ” . A nova Junta Militar, encabeçada pelo
preços agr á rios internacionais , protestavam contra os impostos. general Viola , (instaurada em setembro de 1980) tentou reunificar
Os militares tiveram atritos com Martínez de Hoz , devido às ten¬ o grande capital, tirando Martínez de Hoz do governo e incorporan ¬

tativas de desnacionalizar o setor estatal sob controle das Forças do os representantes do empresariado. Mas estes careciam de uni ¬

Annadas (as fábricas de ferro e de fundição Somisa e Acindar, que dade (sem falar num plano) .
eram ambicionadas pela United Steel) . Enquanto as ren ú ncias se sucediam , o PIB e a ind ústria (que -
Em março de 1981, a crise explodiu a céu aberto , com queda caiu 10% em 1982) continuavam em queda livre . O único “ avan ¬

, de um dos maiores bancos (o BIR) , propriedade de uma das empre- ço ” foi a liquidação das dívidas dos grupos em falência por meio
y\ sas favorecidas pelo Estado. A intervenção no banco , para salvá-lo da inflação e do endividamento público, grupos cujos investimen¬
da falência, relançou o processo inflacionário: a especulação tomou- tos tinham sido em 90% financiados ou avalizados pelo Estado: o
se então desenfreada. O grupo Sasetru , um dos maiores e mais be¬ “ liberalismo ” consistiu na passagem para o Estado das d ívidas pri ¬

neficiados pela política económica , foi à falência . Ao fracasso em vadas, destruindo o crédito e a moeda , por meio da inflação galo ¬

atrair investimentos produtivos estrangeiros, Martínez de Hoz so ¬ pante . Em 1981, depois de cinco anos de ditadura sangrenta , os
mava agora a quebra das empresas privilegiadas pela sua política. partidos políticos conformaram uma frente opositora, a “ Multi-
Os setores empresários em crise agruparam-se na Conae, para der- partidá ria ” , com vistas a capitalizar a divisão do empresariado .
rubá-lo , pois “ o ministro já não passava de um agente dos grupos Com o país em falência e os planos políticos do governo militar
. i
1

em bancarrota , não surpreendeu que Viola fosse derrubado pelo


general Leopoldo Fortunato Galtieri quando mal tinha completa ¬ l
do um ano de mandato .

RESISTÊ NCIA operá ria


Bi fcSBBP
Um fator já presente se transformou em decisivo então: a re¬
Em 30 de mar
iiap
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sistência operária. O golpe militar de 1976 impôs um sério retro¬
¬

ço de I 9 H 2 . a
cesso e a perda de conquistas histó ricas do movimento operário
- os convénios coletivos , as obras sociais , a central sindical ú ni
pressã o popu ¬

m :
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lar. que crescia
.7
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ca (a CGT foi ilegalizada) . Mas o operariado já tinha perdido toda com a fome e o .
confiança no governo peronista e ofereceu uma rápida resposta à desemprego ,
era um caldei
polí tica antioper á ria . J á em 24 de mar ço de 1976 os mecâ nicos
¬

rão: a viol ê ncia


de Córdoba pararam , repudiando o golpe. Nos meses seguintes , foi empregada
apesar da repressão selvagem , as greves de eletricitá rios e meta ¬
para controlai-
lú rgicos tentaram pôr um limite à ofensiva militar. As empresas
de energia foram militarizadas , mas aumentos salariais “ por bai¬
os protestos.
Hl
xo do pano ” violaram o congelamento salarial . Em junho de
1977, toda a região oper á ria de San Lorenzo (na província de tnalização sindical ” da ditadura . As obras sociais (mutuais e asse ¬

Santa Fé) parou . Em novembro do mesmo ano , as greves dos fer ¬ melhadas) dos sindicatos passaram para o Estado e para o setor
roviá rios e do metrô tiveram repercussão nacional . O setor, des ¬ privado (medida depois mantida pelo governo constitucional de
sa vez , n ão foi militarizado: a polí tica de divisão sindical come¬ Alfonsin) ; em 1979, a nova lei sindical decretada pela ditadura
çava a ser derrotada. proibiu a CGT, OS sindicatos nacionais e os delegados de base pa ¬

A tendência para mobilizações nacionais (não por empresas) ra estabelecimentos com menos de cem operá rios (situação de
n ão parou . Os ferroviários protagonizariam greves nacionais em 40% do operariado) . A reestruturação industrial deixou milhares
1978, 1979 e 1980. Nesses anos, portu á rios e metalú rgicos tam¬ de trabalhadores na rua ( 47 mil só nas ferrovias) . Foi uma tenta ¬

bém obtiveram vitórias significativas. Sem essa resistência operᬠtiva de reduzir o movimento operário a quase nada. Reconstituin ¬

ria ininterrupta , a crise da ditadura e da burguesia provavelmen ¬ do ilegalmente Comissões Internas e Corpos de Delegados , a lu ¬

te teria se resolvido internamente , tal como aconteceu no Chile . ta operá ria impediu um retrocesso hist ó rico . Em 1981, greves
Só em abril de 1979 a direção sindical decretaria uma greve longas e duras (operá rios da came , ferroviários) acompanharam
nacional (fracassada por falta de preparação) . A burocracia sindi ¬
a crise econó mica .
cal adaptou-se profundamente à ditadura , aceitando ilegalizações A virada veio em junho de 1981, com a greve geral dos me ¬

e intervenções, chegando a elogiar a “ repressão da subversão ” e cânicos : cinco mil se manifestaram na Capital Federal. Só um mês
a defendê-la das crí ticas que lhe foram feitas na OIT (Organização depois , já terminada a greve , a direção sindical convocou uma
Internacional do Trabalho) . Com os organismos de base na ilega¬ greve nacional. A iniciativa política tinha mudado de campo. As
lidade, a burocracia tentou ser a participante privilegiada da “ nor- lutas operárias e dos familiares de desaparecidos se apoiavam mu -
í
tuamente . As classes médias deixavam para trás a confusão e o O epí logo sem fim
medo (vastos setores haviam apoiado a ditadura) e passavam pa ¬

ra a oposição ativa . A burocracia sindical só se fez opositora jun ¬

to com a pró pria burguesia : ofereceu seu apoio à nova central pa ¬


tronal (Conae) , que a rejeitou .
A pressão operária crescia com a fome e o desemprego. Em 7
de novembro de 1981 convocou-se uma “ Marcha do Trabalho ” , de ¬

finida pela CGT como “ jomada de oração ” . Os dez mil trabalhado ¬

res que foram às ruas não oraram , mas gritaram pela queda da di ¬

tadura. A crise política aprofundava-se: o governo militar dependia


cada vez mais da capacidade de controle dos partidos polí ticos e
da direção sindical. Esta suspendeu uma greve geral , em março de
1982 , devido a um chamado do governo militar à “ união nacio- /'Afim das ditaduras militares do Cone Sul foi um complexo
j
nal ” , por causa do atrito com a Inglaterra nas Ilhas Georgias , no -
V / processo político de dimensões e alcance internacionais. Em
i Atlântico Sul . Mas em 30 de março do mesmo ano a pressão po- 1979, a queda da ditadura de Somoza e as greves no ABCD paulis
I pular era um caldeirão: a convocação de uma jomada nacional de ta abriram uma nova fase na história do continente.
luta não pôde ser evitada.

A VIRADA democratizante

A política de “ direitos humanos” do governo Carter (eleito no


Estados Unidos em 1976) já pressionava em favor de uma “ insti
tucionalização ” dos regimes ditatoriais latino-americanos. Nos fi
nais da década de 1970, a recomposição do movimento popula
era clara. A crise econó mica mundial , de um lado, e a resistência
social, de outro , levaram à crise não só dos regimes reacioná rios
( tendo como expressão avançada a degringolada das ditaduras bra
sileira e nicaragüense, pilares da ordem na América do Sul e na
América Central , respectivamente), mas de todo o sistema de do
minação continental. A Guerra das Malvinas foi, como veremos, a
expressão mais espetacular do anacronismo do aparelho político-
militar dos Estados Unidos na América Latina, e reduziu a pó em
poucas semanas um sistema montado ao longo de mais de três dé ¬

cadas (Tratado do Rio de Janeiro, OEA, TIAR, Força Interamericana


de Intervenção) .
A ditadura mais pró-imperialista do Cone Sul (a da Argenti ¬

na) , ou seja , os treinadores da “ contra ” nicaragüense que comba-


tia a revolu ção sandinista , dos esquadrões da morte salvadore¬ Malvinas era uma das mais velhas e sentidas reivindicações nacio ¬

nhos e dos militares narcoterroristas bolivianos foi a ponta de lan ¬ nais . O movimento era heterogéneo: os últimos setores que apoia ¬

ça da desmontagem de um sistema que ruiu em sua própria en ¬ vam a ditadura levantaram a cabeça, mas também os que lutavam
tranha . O conflito das Malvinas , ao colocar as na ções contra ela organizaram campanhas de apoio aos soldados do Atlân ¬

latino-americanas em rota de colisão objetiva com a OTAN , tradu ¬ tico Sul. Para as Mães da Praça de Maio, por exemplo , “ as Malvi ¬

ziu a inadequa ção de todo o sistema polí tico continental diante nas são argentinas , os desaparecidos também ” .
das novas relações políticas internas e internacionais. Delegações político-sindicais argentinas percorreram o mun ¬

A política democratizante, impulsionada diretamente pelos Es¬ do, expondo a “ unidade nacional” em tomo das Malvinas. No mo ¬

tados Unidos, surgiu no bojo dos problemas criados pelo conjun¬ vimento operário havia grande confusão política: o interventor mi ¬

to da crise política latino-americana . Ela foi impulsionada pelo go¬ litar dos ferroviários chegou a falar em armar os operá rios para
verno de Ronald Reagan (1980-1988) , surgindo com o objetivo defender a pá tria . Mas era demagogia , pois o esquema da ocupa ¬

explícito de inverter as tendências políticas internacionais, caracte¬ ção se baseava na suposta ,neutralidade benevolente dos Estados
rizadas pelo retrocesso polí tico mundial dos Estados Unidos de¬ Unidos . Galtieri adiou a crise da ditadura, mas ao preço de que ¬

pois das derrotas nas guerras do Vietnã e do Sudeste Asiá tico (1972- brar suas bases de apoio internacionais . Reagan já tinha levantado
1975) , além da queda da monarquia iraniana em 1978, e isto nas as sanções económicas contra a Argentina, impostas sob o governo
condições de uma aguda crise econó mica mundial (deflagrada Carter pela questão dos direitos humanos.
com a crise do petróleo de 1973) . As mudanças económicas e so¬ Os Estados Unidos, porém , optaram por apoiar seu aliado da
ciais , por outro lado, tinham quebrado a base das velhas forma ¬ OTAN (a Inglaterra) , contra seu agente do Cone Sul (a ditadura ar ¬

ções políticas latino-americanas, especialmente as nacionalistas gentina). Quando seu enviado Alexander Haig comunicou isto à di ¬

ou “ populistas ” . tadura, um setor dos partidos políticos (Alsogaray, Frondizi, Ra úl


Com a greve de 30 de março de 1982 , a luta contra a dita ¬ Alfonsin) começou a criticar a ocupação . Para Galtieri era tarde de¬

dura argentina entrou em fase decisiva . As manifestações operᬠmais. Retirar-se sem combate era expor-se à morte em praça públi ¬

rias convergiram na Pra ça de Maio , exigindo a queda do gover ¬ ca . Ainda assim , o comando militar manteve sua postura negocia ¬

no . Nas violentas lutas contra a polícia , os manifestantes dora , não-combativa , ao longo do conflito . Os bens do “ inimigo ” ,
receberam a solidariedade até dos funcioná rios dos ministérios . bancos , empresas , propriedades agrá rias, não foram tocados (en ¬

A classe operária liderava a luta antiditatorial: um novo “ cordo- quanto as contas argentinas em todos os países da OTAN eram con ¬

baço ” se desenhava no horizonte , dessa vez no cora ção indus ¬ geladas); não se hostilizaram as tropas inglesas que se aproximavam
trial e político do país . do alvo (enquanto elas afundaram o cruzador Belgrano, simado fo¬
ra da zona de hostilidades, provocando centenas de mortes); não se
mobilizaram os recursos nacionais.
A GUERRA das Malvinas Só isso não explica a rápida vitória da frota inglesa . Outro fa
¬

tor foi o apoio logístico (espionagem via satélite inclu ída) que a
Um recurso longamente preparado foi posto então em açã o: Inglaterra recebeu dos Estados Unidos e da OTAN , o que lhe con ¬

a 2 de abril de 1982 , o Exército ocupou as ilhas Malvinas , Geor ¬ feriu boa vantagem militar. Sem esquecer a excepcional covardia
gias e Sandwich do Sul, territórios argentinos do Atlântico Sul, co ¬ dos oficiais argentinos: o capitão Astiz, que tinha se ilustrado tor¬

lonizados pela Inglaterra desde meados do século xix. Começou turando e matando adolescentes e freirás, entregou as ilhas Geor ¬

um vasto movimento popular de defesa da nação. A questão das gias sem disparar um tiro ; o general Menéndez, no comando geral
da operação , depois das fanfarronices iniciais , entregou as Malvi¬ A desmoralização nacional dei
¬

nas ao primeiro indício de ameaça ao seu bunker. Os oficiais ti ¬ xou o verdadeiro vencedor da guer ¬

nham gastado mais tempo protegendo-se a si mesmos (e vendendo ra das Malvinas , os Estados Uni ¬

aos soldados as doações da população) do que na preparação da dos , como á rbitro da polí tica
defesa militar. Milhares de soldados argentinos foram mortos , en ¬ argentina . Sua ingerência determi ¬

quanto seus chefes procuravam uma saída em acordos com os Es ¬ nou mais ou menos diretamente os
tados Unidos e a Inglaterra. ritmos da sucess ã o pol í tica . As fj
A onda de indignação popular que se seguiu à capitulação de candidaturas dos partidos majori- 'j?
16 de junho de 1982 quase provocou a queda revolucioná ria da t á rios ( LCR e Peronista ) se notabi-
ditadura . lizaram pela aus ê ncia de posturas i > p |j]
A substituição imediata de Galtieri e do alto comando e um antiimperialistas , em especial na t
novo acordo entre seu sucessor, general Reynaldo Bignone , e os quest ã o da d ívida externa . O de - k. , W
partidos políticos, baseado na convocatória a eleições para outu
bro de 1983, firmaram uma linha de contenção geral da crise in
¬

¬
semprego conspirou contra o uso
da arma da greve, limitando os as- [ ?. V .
- 4
^-
terna . A Igreja fez-se presente , agora na figura do pr ó prio Papa salariados a manifestações e pas - aaafes
João Paulo II, que viajou às pressas à Argentina para “ acalmar os seatas setoriais . A pressã o grevista
â nimos ” . Apesar desse esforço máximo de manipulação da opi
niã o pú blica , a indigna ção continuou . Surgiram grupos de ex-
¬ só aumentou nas vésperas das elei
ções - movimentos que abarcaram
¬
a
combatentes (um plano de empregos para eles, não efetivado , foi dois milhões de tiabalhadores aba- Soldados argentinos derrotados
anunciado) . A crise econó mica levou os prejudicados , a classe laram o “ pacto social ” da ditadu - na Guerra cías Malvinas ,

média dona de poupanças depositadas no open market ou em tí ¬ ra , a direção sindical e os bispos .


tulos pú blicos , a manifestarem-se abertamente contra a ditadura . A Guerra das Malvinas de ¬

A ditadura tinha de acabar. O movimento operário carecia de monstrou que , se por um lado , os exércitos latino -americanos
uma organização política capaz de unificá-lo para orientar o pro ¬ não podiam ser indefinidamente simples marionetes do Pentágo ¬

testo popular. O ponto máximo deste protesto foi canalizado pe ¬ no , por outro lado , o “ sistema pan-americano ” não era indestru ¬

la “ Multipartidá ria ” numa enorme manifestação (300 mil pes ¬ tível, nem lhe faltavam contradições internas. Bem entendido , as
soas) em 16 de dezembro de 1982 . Os líderes limitaram-se a causas da rá pida derrota militar argentina foram antes de tudo
depositar flores , em homenagem aos soldados mortos , na Praça políticas (faz parte da mistificação do Exército Argentino susten ¬

de Maio , em frente à Casa Rosada , retirando-se apressadamente . tar que essas causas foram puramente militares) . A Inglaterra , pa¬

Violentos combates explodiram entre a polícia e milhares de pes ¬ ra retomar umas ilhas remotas , estruturou um dispositivo de guer ¬

soas que se manifestavam pela derrubada da ditadura (um operá ¬ ra total, na consciê ncia de que o ú nico que podia lhe garantir a
rio foi morto) , mas essa vontade de luta diluiu-se, sem perspecti ¬ vitória era a capacidade para desenvolver um esforço ininterrup ¬

vas polí ticas . O proletariado carecia de presença pró pria (os to para enfrentar batalhas em frentes territoriais amplas , como o
sindicatos evitaram organizar colunas pr ó prias) . Superado esse sul do continente americano. Com essa finalidade, organizou uma
ponto crí tico , os partidos puderam consagrar o ano de 1983 à frente económica , política e militar com todas as potências , o que
campanha eleitoral. lhe permitiu empregar todos seus recursos militares .

)
Enviou ent ã o para a batalha dois terços da terceira frota do pelo Chile à frota britâ nica durante a guerra, que também reali
mundo, garantindo a reposiçã o ininterrupta de todo seu material zou pousos em Porto Alegre , Brasil. Mas o antigo projeto polí tico
¬

militar. Bloqueou o comércio internacional da Argentina e fechou pan-americano de integração regional sob hegemonia norte-ame
todas as vias para seu financiamento . Organizou uma política de ricana preconizado pelos Estados Unidos parecia ter entrado em
¬

guerra dirigida a esmagar o inimigo, na segurança de que quanto colapso no momento em que eclodiu a Guerra das Malvinas.
mais amplos fossem os objetivos da luta , menor seria o seu gasto
efetivo . A ditadura militar argentina , ao contr á rio, propagou a
idéia de que a localiza çã o das Malvinas e o domínio a é reo eram '

“ABERTURA” e crise no Brasil


inexpugn áveis. O resultado desse enfoque foi o imobilismo e o
recuo diplomá tico. A sorte dos regimes militares do Cone Sul parecia selada , pois
A Argentina contribuiu com o esforço militar inglês, com o careciam de apoio interno (em 1981 tinha fracassado também o
pagamento da dívida externa , pois os credores financeiros ratea ¬
plebiscito promovido pela ditadura uruguaia para reformar a
vam entre seus associados o pagamento pontual dos juros devi ¬
Constituição , num sentido continuísta) e seu sistema de relações
dos aos credores ingleses . A Argentina apelou ao TIAR (Tratado In- internacionais entrara em colapso com a guerra do Atlântico Sul .
teramericano de Assist ência Recíproca) , não para armar uma També m fracassou o plebiscito de reforma institucional promovi ¬
frente opositora à intervenção inglesa , mas para obter pronuncia¬
do por Pinochet ; em 1983 , depois das eleiçõ es de outubro , os
mentos ret ó ricos que desmoralizaram seus potenciais aliados; militares argentinos cederam o poder ao vencedor (Raul Alfon-
ameaçou pedir ajuda à URSS, mas só como pressã o ; nã o concreti ¬
sin , da UCR) ; e em 1984 explodiria , no Brasil , a campanha pelas
zou a oferta de ajuda militar de Cuba e da Nicarágua , do Peru e “ Diretas J á ” , que fora precedida de uma intensa luta social
da Venezuela; prognosticou a possibilidade de uma agressão ao e po
¬

lítica .
territ ório continental e suportou um bloqueio até a entrada do Em 1977, foram organizadas as campanhas pela Anistia Am ¬
Rio da Prata , sem insinuar sequer a disposiçã o de armar a popu ¬
pla , Geral e Irrestrita e por uma Constituinte Livre e Soberana. Tais
lação. campanhas acabam aglutinando diferentes setores da oposição
A ditadura militar nunca teria podido ganhar a guerra , por ¬
brasileira e ampliando as conquistas democrá ticas . O ano de 1977
que não buscou os meios e as alianças internacionais que garan ¬
assistiria ainda a manifestações operárias contra a ditadura mili ¬
tissem a continuidade do esforço militar. A Inglaterra não media tar. Foi um momento de intensa atividade polí tica e sindical, que
armamentos porque podia repô-los , a Argentina devia poupar se estendeu até , praticamente , maio de 1978. Na arena sindical,
aviões e munições . Os ingleses podiam suportar duras perdas sem tudo come:çou com a farta divulgação que a imprensa fez do “ erro
serem derrotados; a Argentina, embora obtendo algumas vitórias, de cálculo ” da taxa inflacionária de 1973. A partir de dados fome-
não poderia ganhar a guerra . A integraçã o da Argentina aos siste¬
eidos pelo BIRD , se comprovava que a taxa de inflação no Brasil em
mas militares e de comunicação interamericanos facilitava a loca ¬
1973 foi de 22 ,5% e não de 14,9%, como o governo brasileiro ha ¬
lização das suas forças militares pelos norte-americanos (aliados via divulgado. O pró prio ministro da Fazenda, Roberto Simonsem ,
militares da Inglaterra). acabou reconhecendo publicamente o erro. A partir daí, em todos
O jogo das rivalidades inter-regionais também foi usado pe ¬
os estados , os sindicatos detonaram uma ampla campanha para
las potências durante a Guerra das Malvinas, para evitar a solida ¬
tentar repor as perdas salariais. As palavras de ordem eram: repo ¬
riedade latino-americana com a Argentina . Os debates parlamen ¬ sição salarial, no plano económico , e o fim da ditadura militar, no
tares na Inglaterra revelaram detalhes do apoio logístico fornecido campo político.
í
r

Os metalú rgicos de todo o país realizaram grandes assem-


bléias. No ABCD as concentrações operá rias reuniram milhares de Depois de sete meses, cheguei lamentavelmente à conclusão de que a classe
trabalhadores . Mobiliza çõ es ocorreram em Osasco (SP) , Niter ói empresarial n ã o quer negociar com seus trabalhadores, mas tirar a sua força
(RJ), Rio de Janeiro, Minas Gerais etc. Os tempos eram de luta. A física , até a ú ltima gota de suor. Por isso está na hora de deixar o diálogo de
lado e partir para a exigência . Sem medo de nada.
diretória do Sindicato dos Metalú rgicos da Baixada Santis ta as ¬

sim expressava a expectativa de mudança : O período será marcado pelo reviver das ondas grevistas. Em
todo o país , as palavras de ordem eram “ bra ços cruzados , máqui ¬
O sindicalismo brasileiro parece querer despertar de sua in ércia , voltando a
exercer sua função fundamental que é a de unir os trabalhadores na luta pe ¬
nas paradas ” .
los seus direitos. A liberdade sindical ainda nã o existe , ainda nã o se exerce Nas análises tradicionais, que desconsideram a importância do
a negociaçã o livre entre patrão e empregado, mas já se percebem sinais po ¬ movimento operário e popular na democratização brasileira, a CNBB
sitivos neste sentido. Anunciam-se mudan ças , prevêem-se modificações im ¬ (Confederação de Bispos) , a OAB (Ordem dos Advogados) , a ABI (As ¬

portantes no sistema pol í tico do país , e n ós trabalhadores precisaremos es ¬


socia çã o da Imprensa) e os grupos organizados no MDB desempe¬
tar incluídos, nossa voz precisará ser ouvida . nharam o papel decisivo. Eles ampliaram o espaço político, enfren ¬

tando o Estado a partir de suas posições de autoridade na sociedade


No 1° de abril de 1977 , o presidente Geisel decretou o fecha¬ e questionando a legitimi- mg
mento temporá rio do Congresso (Ato Complementar nú mero dade do “ Estado de Segu-
102) , assinou a Emenda Constitucional n ú mero 8, e seis decre- rança Nacional ” . Esses se- ^vj | %||
tos-lei de outorga de reformas polí ticas. Em junho seriam cassa
dos os mandatos dos deputados Marcos Tito , do MDB de Minas
¬
tores també m colaboraram
para bloquear as tentativas
m
Gerais e Alencar Furtado , do MDB do Paran á . Mas , por outro la ¬ de reinstaurar medidas
do , o presidente Geisel iria exonerar o ministro do Exército Sylvio coercitivas . Suas exigências
Frota, partidário da continuidade da linha mais dura (a 12 de ou¬ eram o desmantelamento c
tubro) . J á em novembro , o Supremo Tribunal Militar aprovou por do aparato repressivo, a ela ¬

unanimidade documento pedindo às autoridades que tomassem boração de uma nova Cons ¬

a iniciativa de apurar, pela justiça militar, as den ú ncias feitas con ¬


tituição e a modificação do
tra acusados de crimes . E no início de dezembro o presidente pro ¬
modelo económico.
meteu “ o fim das leis de exceção” , na realidade do Ato Institucio ¬
Mas em 1978 multipli-
nal n ú mero 5, e sua substituição por “ salvaguardas cam-se as greves e as mani m
m
¬

constitucionais ” . festa ções p ú blicas , em to ¬


^ . BBS
É dentro desse quadro de instabilidade que avançaram as lu ¬
do o pa ís , com destaque
tas operárias ; em um momento em que a luta pela Anistia se in ¬
para o ABCD paulista , con ¬
£2
tensifica, ganhando ampla adesão popular. A ditadura ainda não tra o regime e sua pol í tica
estava derrotada , mas sua supera çã o se mostrava possível por económica. O govei no ten- Q pres¡c|cnte Geisel adotou medidas ar
meio da ampliação do movimento operário e popular. O ano de tou levar a política de bitrá rias como o fechamento temporário
-
1978 marcou o fim das ilusões na boa vontade do governo e dos “Abertura ” tamb é m para do Congresso , mas demitiu Sylvio Fro-
; patrões em reporem o confisco salarial de 1973. O líder sindical dentro do movimento ope- ta > ° ministro do Exé rcito partid á rio da
! Lula declarou : rário e popular, e , não con- linha-dura .
»

seguindo êxitos , passou à outra peça de sua política : a repressão tar, por mais de uma semana , um amplo movimento grevista, com ¬

aberta. Interveio nos sindicatos, cassou líderes e dirigentes , ten¬ binando-o , além disso, com manifestações políticas sem prece ¬

tou destroçar a organiza çã o entã o existente , que fora construída dentes na era da ditadura.
paciente e silenciosamente durante os longos anos de arbítrio. Os A ú ltima grande manifestação contra o regime em 1979 foi o
resultados foram sérios prejuízos para o movimento sindical: bus ¬ movimento grevista desenvolvido pelos trabalhadores metalú rgi ¬

cava-se a sua completa desarticulação. cos de São Paulo , Osasco e Guarulhos. Em Sã o Paulo e Guaru-
lhos a greve se baseou na organização de comandos preparados e
dirigidos pelas oposições sindicais e a estrutura ção de grandes
O NOVO sindicalismo piquetes. Os grevistas sofreram violenta e permanente repressã o
policial , diretamente comandada pelo governador paulista Paulo
Nessa fase, o fortalecimento das oposições sindicais é um dos Maluf, com agressões físicas, prisões em massa e o assassinato do
elementos essenciais para se compreender a emergência do chama¬ líder metalú rgico Santo Dias .
do sindicalismo combativo como personagem coletivo , na luta con ¬ Em 1980, desde o dia 1 -’ de abril até o dia 11 de maio - perfa
¬

tra a ditadura no Brasil. Estruturadas a partir de um trabalho de ba- zendo um total de 41 dias - ocorreu a greve mais significativa, a
se , por intermédio da criação de comissões de fábrica, as oposições dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, marcan ¬

passaram a ter um reconhecimento efetivo e a propor alternativas do historicamente todo um período das lutas populares e sindicais.
consistentes para o desenvolvimento das lutas operárias. O traba- Foram dias de permanente tensão em que se produziram não ape ¬

lho silencioso realizado a partir dos locais de produ ção teve um pe¬ nas centenas de cartazes, livretos , boletins, panfletos contra a polí
¬

so significativo na detonação da onda grevista de 1978, que ques ¬ tica económica e social da ditadura militar, mas, principalmente,
tionava não apenas a política econ ómica , mas o próprio cará ter reuniões , passeatas e manifestaçõ es polí ticas dos trabalhadores ;
ditatorial do governo. ações repressivas das forças do regime militar que, utilizando-se de
A greve dos metalú rgicos de Sã o Paulo , em novembro de helicópteros do Exército , conduzindo soldados armados com me ¬

1979, se deu em um quadro bem diferente das greves anteriores. tralhadoras, sobrevoavam as maciças assembléias realizadas no Es ¬

O governo do general Figueiredo tinha baixado a nova lei salarial tádio de Vila Euclides, com o intuito de intimidar seus participan ¬

com o objetivo de tomar mais difíceis os movimentos grevistas . tes . A pressã o patronal, nos órgã os de comunica çã o de massa ,
O governo tinha reelaborado tamb ém todo seu esquema de re ¬ publicava an ú ncios intimidadores e divulgava mensagens em ca ¬

pressão às greves , procurando combinar certas manobras políti ¬


deia nacional de televisão.
cas para isolar os operários grevistas com uma nova dureza poli ¬ Houve também a intervenção estatal no Sindicato dos Meta ¬

cial, voltada principalmente contra os operá rios mais ativos e lú rgicos , repressão violenta aos trabalhadores, proibição de utili ¬

organizados. za çã o de espaços pú blicos para realiza çã o de assembléias , o que


A t á tica da “Abertura ” , adotada pelo general Figueiredo, com fez com que estas passarem a ser realizadas na Praça da Igreja Ma ¬

a anistia e uma liberdade maior de atuação política, já tinha pro¬ triz de Sã o Bernardo do Campo. Com o aumento da repress ã o
duzido também certos efeitos no movimento operário e sindical , cercando os trabalhadores e , simultaneamente, expulsando-os de
levando ao realinhamento de forças , com a aproximação das cor¬ tal pra ça , as assembléias passaram a ser realizadas no interior da
rentes conciliadoras , procurando isolar as oposições sindicais e igreja . Mesmo com seus principais dirigentes sindicais presos e
interromper os movimentos grevistas . Foi neste quadro , poré m , envolvidos num clima de intensa e permanente pressão, os meta ¬

que os operários de São Paulo conseguiram desencadear e susten¬ lúrgicos continuavam paralisados - recebendo manifestações de
*?

solidariedade produzidas em todo o país. Por sua vez, como o sin ¬


presidente da Comissão deJus- p , , „
dicato estava sob intervenção, passaram a centralizar todas as suas tiç a e Paz da Arquidiocese de â -
th íh T a J* j * f ¿
atividades no Fundo de Greve que , assim , transformava-se no
grande sustentáculo e ponto de referência do movimento .
Sã o Paulo , José Carlos Dias, e o
h
X < fba
í.
*
jurista Dalmo Dallari - també m ^
*

Como em 1979 , os metalú rgicos de São Bernardo e cidades vizi¬ foram detidos sem mandato. Na m
nhas reuniram-se no estádio de futebol para discutir a greve e votar so- blitz contra os metalú rgicos em
bre questões de planejamento e execução. Quando o estádio ie a sede greve , os militares utilizaram ar ¬

do sindicato foram cercados e ocupados por tropas militares , a igreja


novamente ofereceu instalações para as assembléias. Como acontecera
em 1979, a sede do sindicato de São Bernardo transferiu-se para o pá ¬
mas pesadas , veículos blinda
dos e helicó pteros do Exé rcito
em apoio a tropas de infantaria
¬

I
tio da catedral da cidade. Dessa vez, a reação do Estado foi rápida e de- e da Polícia Militar. Presos , os lí ¬

cisiva. J á fora tomada decisão de acionar toda a força do aparato re ¬


deres da greve foram mantidos
pressivo. A greve não seria considerada como movimento por melhores incomunicáveis .
salários e condições de trabalho e liberdade de organização sindical,
pois o governo já classificara os metalúrgicos como sendo um grupo
Para a ditadura tratava-se de
transformar o movimento gre ¬
; 9
de “ pressão” - um segmento do “ inimigo intemo ” que devia ser des ¬
vista em um problema de segu ¬

truído. O governo proibiu as empresas de negociar com os grevistas , rança nacional . Fez de uma ci ¬

ameaçando com a retirada de créditos e benefícios fiscais àquelas que dade de operá rios um campo de
desafiassem suas ordens.
A greve dos metalú rgicos de 1980 deixava visível a natureza
guerra ; fez trabalhadores senti-
° . °
movimento operá rio e popular
rez germinar a possibilidade de de-
rem-se vivendo em terra ocupa- mocracia por
j

todo 0 pa ís . A foto
da Abertura política ” do regime militar. A pressão popular orga
“ ¬
da . Alem da mobilização do mostra metal ú rgicos reunidos em
nizada não seria tolerada. O estado de São Paulo foi colocado sob imenso aparato policial-militar assemblé ia , março de 1979.
o comando do Segundo Exército , cujo general comandante tor- e jurídico -político , o governo es ¬

nou-se virtual governador durante este período, com um virtual tabeleceu que os metalú rgicos estavam “ contaminados ” pela po ¬

“ estado de emergê ncia ” . Tropas militares ocuparam as cidades lítica , por idéias exó ticas, estrangeiras. Voltava a tese de que a so ¬

afetadas pela greve , inclusive grande parte da Grande São Paulo , ciedade civil, nesse caso representada pelos metalú rgicos e os que
e manobras militares foram realizadas pela Polícia Estadual, a Po¬ colaboravam com eles , estava “ infiltrada ” .
lícia Militar e o Exército, sob o comando conjunto do Segundo Segundo membros da tecnocracia governamental “ uma infini ¬

Exército. dade de correntes polí ticas marxistas através de seus elementos


As açõ es obedeceram a diretrizes tra çadas nos manuais de d ã o apoio de toda a natureza ” ao movimento dos metalú rgicos ,
treinamento da ESG (Escola Superior de Guerra) : total mobiliza ¬
“ incentivando a continuidade da greve e conseqú entemente ao
ção do Exército , ocupa ção de locais estratégicos, ataques conjun ¬
desrespeito às leis e à decisão da Corte de trabalho ” . Falando so ¬

tos a concentração de manifestantes e deten çã o das principais li ¬


bre a mobilização dos metalú rgicos, um membro do governo afir ¬
deranças - em verdadeiras operações de seqü estro - onde quer mava que
que estas se encontrassem . Líderes grevistas foram arrancados à
força das assembléias em igrejas e dos carros de deputados e se ¬
nada acontece de importância no Brasil onde não haja a mã o do movimen ¬

nadores de oposição. Advogados ligados à Igreja - como o então to comunista internacional, que aspira o domínio do mundo. .. uma greve
da importâ ncia da dos metal ú rgicos , mobilizando milhares de trabalhado-
res , a classe trabalhadora mais bem organizada do País , n ã o poderia ficar
imune à ação do movimento comunista internacional .

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Para os governantes , tratava-se de vencer tanto as lideranças


como a capacidade de luta do conjunto da categoria dos metalú r
gicos , vencê-los de modo exemplar. A estratégia do governo era
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eliminar os “ subversivos e radicais ” , caracterizando- os como o
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“ inimigo interno ” . Entretanto , tinha de enfrentar tamb ém a Igre
ja Católica , que tinha sustentado o golpe militar em 1964 , mas
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desta vez defendia publicamente a legitimidade da greve , ques ¬
tionando as leis de exceção do Estado . f«IK
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Diante da ação política da classe operária , da ampliação da so ¬

lidariedade social que esta era capaz de atrair para a sustentação de


' .
sua movimentação, desnudava-se , cada vez mais , para amplos seto ¬

res da população, o cará ter ditatorial do regime vigente .


Organizou -se um fundo de greve , apresentando -se voluntá ¬ • •
rios para a coleta de apoio material às famílias dos grevistas. Sua
sede foi instalada na Catedral de São Bernardo do Campo . Di
nheiro e gêneros coletados em todo o país nã o deixaram de ser
¬ aS
Manifesta çã o a favor da democracia e das eleições diretas - Diretas J á
25 mil pessoas reunidas no Anhangaba ú , em Sã o Paulo.
j ; enviados a São Bernardo do Campo. Os metalú rgicos formavam
j longas filas em torno da igreja para receber semanalmente seus
! pacotes. O fundo de greve distribuiu , segundo se estimou , seis mento operá rio e , ainda , pela maneira como o governo militar e
i , toneladas de alimentos por semana , durante as seis semanas de os empresá rios atuaram no episódio. Depois dessa experiência , a
: duraçã o da greve . Bloqueios em todos os bairros impediam que criação da CUT (Central Ú nica dos Trabalhadores) , em 1983, acres¬
¡ os “ fura-greves ” saíssem de casa para as f á bricas . Com isso , foi centou um novo fator de crise do regime e de organização popu ¬
i possível levar adiante sem paquetes uma greve de 200 mil traba¬ lar e operá ria independente : embora a campanha popular pelas
lhadores, que marcou o início de uma nova época no desenvolvi¬ eleições diretas para presidente , no ano seguinte , n ã o atingisse
mento do processo político brasileiro em que a questã o da demo ¬
seu objetivo , foi suficiente para quebrar a base política do regime
cracia foi recolocada pelos trabalhadores de uma forma militar (a Arena , já tomada PDS , Partido da Democracia Social) o
surpreendente. que levou um setor do partido govemista, chefiado por José Sar-
ney, a aliar-se com a oposição “ emedebista ” , resultando na eleição
para presidente , no Colégio Eleitoral , composto pela Câmara e o
AS “ TRANSI ÇÕ ES democrá ticas ” Senado (ou seja , em eleições indiretas) de Tancredo Neves (PMDB) .
O falecimento de Tancredo Neves antes da posse cedeu a pre ¬

A “Abertura ” , o “ Novo pacto social ” , a “ Democratização ” de sidência a Sarney, político surgido do próprio regime militar. As ¬

cima para baixo , tudo isso foi desmascarado pela greve e pelos sim , no meio da crise , o regime militar-arenista garantiu a sua
mecanismos de organiza çã o pol í tica implementados pelo movi - continuidade essencial na titularidade do poder polí tico , o que
T

se viu reforçado com a eleição , em 1989 e por via direta , pela pri¬ mocracia política , mas a fachada constitucional para um conjun-
meira vez em quase trinta anos , de outro político oriundo do re¬ I to de instituições que tinham sua origem na ditadura militar Os
gime armado: o aventureiro Fernando Collor de Mello . Este, por 1 compromissos internacionais estabelecidos no período ditatorial
sua vez, já em plena “ democracia ” , protagonizaria um dos episó ¬ foram respeitados pelos governos emergentes dos processos de ¬

dios mais ridículos da história polí tica contemporâ nea da Améri ¬ mocrá ticos , em especial a dívida externa . A continuidade institu ¬
ca Latina , quando seu governo - teatro de uma corrupção inédi ¬ cional dos regimes democratizantes com os regimes militares foi
ta e delirante - foi derrubado por impeachment parlamentar, dois clara: no Brasil, os militares garantiram sua participação orgânica
anos depois da posse . direta no governo , nos ministé rios militares (só extintos em
1999) ; no Chile , a oposiçã o (incluídos o Partido Comunista e o
As “ transições democrá ticas ” - passagens de regimes milita¬ Partido Socialista) aceitou governar com base na Constituição pi ¬

res para regimes democratizantes - resultaram , portanto , da vira ¬ nochetista de 1980 e garantir 8 anos de mando de tropa para os
da política dos Estados Unidos combinada com a crise de domi¬ comandantes designados por Pinochet ; no Peru , a Constituinte
naçã o polí tica das pró prias ditaduras . No caso extremo e tardio legislou sob o governo militar de Morales Berm ú dez (e condicio-
do Chile , até o empresariado pinochetista considerou mais van { nada por este) ; no Uruguai , o governo civil se baseou no “ Pacto
_
¬

tajoso votar “ n ão ” no plebiscito ditatorial convocado por Pino ¬ í do Clube Naval ” , que garantiu a impunidade militar, reforçada
chet . Os Estados Unidos e o empresariado local favoreceram os I em plebiscito ; na Argentina , as crises militares foram aproveita-
regimes democratizantes como um recurso de emergência peran¬ das pelos governos civis para inocentar os genocidas militares por
te a falência dos regimes militares.
Ij meio das leis de “ ponto final ” e de “ obediência devida ” ; no Para-
A crise econ ó mica mundial afundou as ditaduras militares ! guai, a mudança de regime nem sequer transcendeu os limites fa-
que procuraram inaugurar uma fase de desenvolvimento econ ó ¬ i miliares , pois o general “ democrata ” Andrés Rodríguez , que subs-
mico e impôs a necessidade da substituição desses regimes . Em f tituiu a ditadura , era parente direto do ditador Stroessner.
todas as crises militares da Argentina democrá tica p ós-1983, A ruptura mais aparente aconteceu na Argentina , onde as Jun-
quando militares direitistas da antiga ditadura (os carapintadas) j tas Militares foram submetidas a julgamento p ú blico em 1985 e
entraram em atrito profundo com o governo civil de Alfonsin , o ! condenadas à prisão. As testemunhas que conseguiram depor de-
governo Reagan e os governos europeus apoiaram o governo ci ¬ ! ram conta de uma verdadeira galeria de horrores , inimagin áveis
vil . Na situação de crise económica mundial , só os que procura ¬ até para as mentes mais doentias: os testemunhos foram interrom ¬

vam governar com as oposições na ordem constitucional pode ¬ pidos por ordem do presidente Alfonsin (o depoimento de todas
riam sustentar o Estado e continuar a pagar a d ívida externa . as testemunhas iria comprometer praticamente toda a oficialidade
Portanto , pode-se dizer que nenhum dos novos regimes foi resul¬ | em crimes contra a humanidade) . Sentados no banco dos réus es ¬

tado de um desenvolvimento democrá tico genuíno das classes tavam os comandantes que ocuparam o poder entre 1976 e 1983 :
dominantes . Na Constituinte brasileira , por exemplo , os cinco Jorge Rafael Videla , Emilio Eduardo Massera , Orlando Ram ón
anos de mandato para Samey (constitucionalmente só se previam Agosti , Roberto Eduardo Viola , Armando Lambruschini , Ornar
quatro) foram obtidos graças a uma fortíssima press ão organiza ¬ Graffigna, Leopoldo Fortunato Galtieri, Jorge Isaac Anaya e Basilio
da pelos empresá rios ligados à ditadura militar e pelos próprios Lami Dozo. Depois de cinco meses de audiências , cinco dos nove
militares. ex-comandantes foram condenados - dois deles à prisão perpé tua
Em caso algum , a mudança de um regime militar para um re- (Videla e Massera) .
v gime civil significou verdadeiramente a implantação de uma de-
As leis posteriores - “ ponto final ” e “ obediência devida ” - que está na origem do que se convencionou chamar “ novo modelo de acu ¬
praticamente inocentaram , por decreto presidencial encampado mulação ” , e que precede os “ novos regimes militares” .
pelo Parlamento, todos os criminosos cú mplices, usando a cú pu ¬

la militar condenada como álibi e bode expiatório, enquanto os Para o sociólogo paulista, estes surgiam, em condições de cri ¬

comandantes cumpriam sua “ pena ” em cômodas “ prisões ” mili ¬


se revolucion ária real ou potencial, “ como defensores do regime
tares à beira-mar. O sucessor de Raúl Alfonsin , Carlos Menem , capitalista em sua totalidade, apoiados pelo conjunto da classe
completou o trabalho ditando o indulto dos chefes militares con ¬
dominante ” .
denados, por decreto presidencial: os ditadores só permanece¬ N ão se deve esquecer também que as ditaduras militares da
ram na “ prisão” até 1990. d écada de 1970 do apoio (ou neutralidade benevolente) dado por
Apolítica “ democratizante ” , além disso , não foi o contrário uma parcela significativa das classes médias, e da cumplicidade
do intervencionismo militar: foram os “ democratas ” bolivianos de boa parte dos “ formadores de opinião ” (em especial nos meios
que admitiram a intervenção de forças policiais dos Estados Uni¬ de comunicação. N ão poucos dos “ democratas” de hoje se recru ¬

dos no país, sob pretexto de combate ao' tráfico de drogas. O mes¬ tam entre os “ anti-subversivos ” defensores da “ segurança nacio ¬

mo pretexto foi usado para o bloqueio naval da Colômbia, em nal” de décadas passadas). É também preciso lembrar da facilida¬
1989; para reforçar o cerco militar a Cuba e invadir a ilha de Gra ¬
de com que nazistas de carteirinha se integraram aos regimes
nada ; para militarizar como nunca a América Central, através do militares, inclusive no primeiro escalão.
envio de tropas a Honduras e El Salvador e, em caso extremo e O balanço econ ó mico dos regimes militares , em especial a
exemplar, invadir o Panamá com os marines, em 1990 , com cen ¬ partir da década de 1970 , é de retrocesso quando não de desas ¬

tenas de mortes... para impor um governo “ democrá tico ” , resul ¬


tre. Em nome da “ liberdade de empresa ” foi promovido o suca-
tante de eleições. teamento do parque industrial estatal - e uma política económi ¬

ca que foi destruindo toda a indústria nacional - sem que surgisse


um novo setor industrial “ de ponta ” , competitivo no mercado
O BALAN ÇO ausente mundial. O resultado geral foi um empobrecimento inédito das
populações, submetidas a taxas de desemprego que oscilam en ¬

Na América Latina , o militarismo desenvolveu-se a ponto de tre 25% e 50% em países como Chile, Argentina e Bolívia, e a des ¬

entrar sistematicamente em contradição com a ordem constitu¬ truição progressiva dos serviços públicos. Em nome da “ seguran ¬
cional originada no per íodo de formação das nações; ordem que ça nacional ” promoveu-se a insegurança geral das nações e suas
não previa (nem conhecia) o fenômenojnili taris ta. A base do de¬ populações.
senvolvimento deste não foi jurídica, mas económica, social e po- No Chile, depois de quase duas décadas de “ modernização”
lítica. Analisando a crise em que entraram os processos militares pinochetista , a pauta das exportações continuava composta em
na América Latina , não se deve perder de vista que, se o exército mais de 90% de produtos primá rios (matérias-primas) . A Argen ¬
conseguiu emancipar-se em grande medida do controle das clas¬ tina foi praticamente desindustrializada pelo regime militar, cuja
ses dominantes, ele nunca conseguiu emancipar-se totalmente política económica foi confiada a agentes dos organismos finan¬
delas. Os processos de crise militar tiveram a sua especificidade, ceiros internacionais. A destruição de setores inteiros das econo¬
mas não foram autónomos. mias nacionais - em especial na Bolívia , Peru , Colômbia - levou
Para Eder Sader a que aquelas encontrassem um eixo de reciclagem na produção
a internacionalização do processo de produção industrial constitui um com
e exportação de drogas (em finais da década de 1980 , por exem-
plexo de transformações das condições de acumulação na América Latina,
¬

{
pio , as exportações tradicionais de estanho rendiam à Bolívia 70 insere-se no espa ç o pú blico . Nos arquivos , nas ruas , nos Con ¬

milhões de dólares anuais , enquanto o narcotráfico produzia 600 gressos Nacionais , nas escolas , onde são chamadas a estar, con ¬

milh ões , ou seja , quase dez vezes mais) . O “ combate ao narco ¬


duzem suas den ú ncias e reiteram o direito aos seus mortos/desa ¬

tráfico ” começou a ser utilizado , desde meados da d é cada de parecidos e , em especial, à responsabilização política dos Estados
1980 , no final da “ era das ditaduras ” , como leitmotiv da recons¬
em relação a esses crimes .
tituição de um “ sistema de segurança continental ” , comandado No Brasil, o grupo Tortura Nunca Mais publicou o resultado de
pelos Estados Unidos - que n ã o só promoveram já diversas in ¬
suas discussões e busca caracterizar-se como um organismo de Di ¬

terven çõ es militares e policiais diretas na regiã o sob aquele pre


¬
reitos Humanos desde 1987. Entre seus membros estão, basicamen ¬

texto , como també m vê m constituindo uma inédita jurisprudên ¬


te, ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos que se
cia interna avassaladora da soberania nacional da América Latina . mantêm associados em diferentes regiões do país.
As mulheres que participam desses movimentos comp õ em
uma rede , no campo dos movimentos sociais , pelo não-esqueci ¬

A LUTA contra a impunidade mento . Em toda a Amé rica Latina , constituem o maior movimen ¬

to feminino da história do continente :


A luta contra a brutalidade das ditaduras fez surgir movimen ¬

tos de um dinamismo e heroísmo in éditos. Na Argentina , já nos m ãe argentina : 30 mil desaparecidos (entre eles 400 crianças) ; m ã e guate ¬

referimos às Mães de Praça de Maio , resta-nos ainda um comen ¬ malteca: 50 mil filhos desaparecidos ; m ãe salvadorenha: 5 mil filhos desa ¬

tá rio sobre as Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio) parecidos ; m ãe chilena : 2.500 filhos desaparecidos ; m ãe brasileira : 144 fi ¬

lhos desaparecidos ; m ãe latino-americana: 90 mil desaparecidos.


e os HIJOS - Hijos poria Identidad , poria Justicia contra el Olvi ¬

do y el Silencio da Argentina (Filhos pela identidade, pela justiça A impunidade tem conseqúências até hoje. Em maio de 2001,
contra o esquecimento e o silêncio da Argentina) . A primeira tem
o chefe do Exército Argentino , general Ricardo Brinzoni , foi de ¬

sua origem ainda no final dos anos 1970 e desenvolve um con ¬


nunciado na Justiça Federal por sua participação - em 1976 - no
junto de ações com o objetivo de encontrar e identificar as crian ¬ chamado Massacre de Margarita Belén , em que 22 presos polí ti¬
ças seqü estradas durante a última ditadura militar argentina . As
cos foram executados sumariamente . J á os ex-presidentes do CELS,
crianças que não foram assassinadas , foram entregues para ado ¬

Augusto Conte e Emilio Mignone , pais de desaparecidos , tinham


ção em processos permeados por ilegalidades e violências . A se¬ denunciado , em 1984 , os militares que estavam para ascender,
gunda, formada a partir de 1994, é hoje, indubitavelmente, uma entre eles Brinzoni:
das mais ativas . Constituindo , efetivamente desde 1998 , como
ação os escraches (den ú ncias pú blicas e barulhentas de tortura¬ Se n ão insistimos foi porque a j ustiça imp ôs uma ordem hierá rquica para os
dores e assassinos conhecidos que se encontram em liberdade) , processos. Primeiro foi processado Vicíela como comandante-em-chefe , de ¬

os HIJOS têm promovido mudanças significativas. pois seguiu com os chefes do Corpo u do Exé rcito , generais Ramó n Díaz Bes-
Compostos basicamente por mulheres, esses movimentos fa ¬
sone e Leopoldo Galtieri. Antes que pud éssemos chegar na hierarquia de
zem emergir a den ú ncia às arbitrariedades dos governos militares Brinzoni e os demais executores , sancionou-se a lei de obediência devida.
golpistas. Querem a reconstituição das trajetórias políticas e pes¬
soais de seus familiares , querem a História passada a limpo , lu ¬ disse Mirta Clara , cujo esposo , N éstor Carlos Salas , foi assassina ¬

tam pela repara ção, tendo como suportes o nã o-esquecimento e do. Em 1984 , quando o procurador Julio César Strassera pediu
o fim da impunidade. Em todos os casos, a luta dessas mulheres em julgamento pú blico a condenação dos comandantes da dita ¬

dura militar, disse:


:
A partir deste julgamento e da condena çã o que proponho cabe-nos a res
ãÉlÈcSSiãlÈ
¬

ponsabilidade de fundar urna paz baseada n ã o no esquecimento, mas na


memoria, não na violência, mas na justiça. jgp
SigiSaB
r

O defensor de Brinzoni era um notorio neonazista , o qual ele


5 Í ,

j á tinha tentado nomear para um cargo oficial . ..


No Uruguai, o n ú mero “ menor ” de casos criminosos não al¬
tera o cinismo oficial que garante a impunidade . Um desses casos
é o de Sim ón Riquelo , que foi seqíiestrado e “ desaparecido ” por -* •
£5
membros do exército uruguaio, quando só tinha vinte dias de vi¬ -

da, durante a detenção de sua mãe, a cidadã uruguaia Sara Mén ¬

dez, em um centro secreto na Argentina . Depois de 25 anos e de


numerosos processos judiciais sem resultados, Sara Méndez con¬
tinua sem conhecer o paradeiro do seu filho . A Anistia Internacio ¬
nal denunciou que a “ Lei de Caducidade da Preven ção Punitiva
do Estado ” impede que o direito à verdade seja satisfeito e permi ¬ A luta contra a brutalidade das ditaduras fez surgirem movimentos din â ¬

te que a impunidade persista , em franco desafio à obrigação inter ¬


micos que denunciam as arbitrariedades dos militares golpistas. Nesta fo¬

to , protesto recordando as v ítimas de Pinochet , com milhares de cruzes


nacional do Estado de investigar os fatos e julgar os responsáveis. 1

brancas, em frente ao Parlamento em Londres.


O conceito de “ pacificação nacional ” - disfarce da impunidade -
também foi esgrimido pelo governo de Julio César Sanguinetti, em
1986, ao tentar justificar tal lei.
A exposição de motivos do projeto de lei referia-se ao “ pro ¬ cou no atual deputado argentino Alfredo Bravo, e disse que “ teria
pósito e esperança de atingir a completa pacificação do país ” . Um sido um privilégio ” violentar uma mulher, antes de ser detido, acu ¬

claro exemplo dessa posiçã o é a do ex-vice-presidente uruguaio sado pela apropriação de filhos de desaparecidos uruguaios . O ex-
Enrique Tarigo: general Guillermo Pajarito Su á rez Mason está também detido no
processo que julga o plano sistemá tico de roubo de bebés duran ¬

Um país n ão pode parar para reclamar o que talvez n ã o se pode esclarecer. te a ditadura argentina: “ Nos solidarizamos com todos aqueles
Porque os que sabem n ã o vã o dizê-lo. Que se pode fazer? Vamos submetê- que lutaram claramente para que nossa bandeira nacional não fos ¬

los à tortura para que digam onde estão os desaparecidos? se substituída por um pano vermelho ” , dizia o panfleto que dis ¬

tribu íam os defensores de Etchecolatz, a Agrupação Custódia, que


Esta lógica inacreditável (já que não podem ser torturados , é age livre e publicamente.
melhor não julgá-los , nem investigar nada , ainda que isso signifi ¬
A Equipe Argentina de Antropologia Forense cumpriu um pa ¬
que deixar uma m ãe para sempre separada do seu filho e deixar pel fundamental ao localizar alguns corpos de uruguaios desapa ¬

livres torturadores e assassinos em série) foi exposta por um titu ¬


recidos na Argentina . O juiz federal Gabriel Cavallo ditou o pro ¬
lar civil do Estado uruguaio, no jornal El País, de 25 de novem ¬
cesso e pris ão preventiva do suboficial aposentado da Polícia
bro de 2000 . Federal Julio Héctor Simón , El Turco Julián, por “ crimes contra a
Nesse quadro geral, o ex- torturador (ex?) e assassino Aníbal humanidade” , não sujeitos a prescrição nem anistia. O advogado
Etchecolatz qualificou como “ um tratamento ” as torturas que apli- defensor de Simón é Pedro Bianchi, um expert em criminosos acu-
r
sados em processos contra a humanidade, que também assistiu o os efeitos do crime continuam vigentes) : a Convenção Interame-
nazista Erich Priebke, descoberto e preso na década de 1960 na ricana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas estabelece
Argentina e condenado na Itália. Cavallo declarou nulas, inválidas que “ o delito de desapariçã o forçada de pessoas deve ser consi-
e inconstitucionais as leis de “ ponto final ” e de “ obediência devi ¬
A derado permanente enquanto n ão for estabelecido o destino da
da ” , por solicitação do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) . vítima ” .
Em virtude dessa decisão processou Simón também pelo desapa ¬
Já em 2001 , os advogados do primeiro processo “ global ” con ¬

recimento dos pais de uma jovem , que hoje tem 23 anos e recu ¬
tra a Operação Condor advertiram sobre a tentativa de obstru ção
perou sua identidade. É a primeira vez que a justiça argentina pro¬ dos seus trabalhos , diante da falta de respostas por parte da Di ¬

cessa um executor da “ guerra suja ” por crimes contra a rección Nacional del Banco de Datos Genéticos da Argentina .
humanidade. Uma dessas obstru ções refere-se à petição relativa ao cruzamento
Sim ón , por exemplo, atuava no Olimpo, uma depend ê ncia de dados relacionados a menores roubados, inclu ído o caso de Sa ¬

da Polícia Federal, subordinada ao Exército : ra Méndez.


O advogado Martin Almada , descobridor dos chamados Ar ¬

Contava com uma infra-estrutura para manter na clandestinidade muitas ví ¬


chivos del Terror da ditadura paraguaia , em dezembro de 1992 ,
timas da repressão ilegal: celas, chuveiros , latrinas, cozinha, enfermaria etc. que revelaram as provas sinistras da “ Condor ” , deu novos nomes
Também salas especiais para a aplicação da tortura , conhecida como quiró
de implicados nessa coordenadoria repressiva, além dos mais co
¬

¬
fano (literalmente : sala de cirurgias) , c outras para efetuar os interrogatórios
(sala de situação ou de inteligência) , nhecidos responsáveis , como Augusto Pinochet ou Manuel Con ¬

treras , do Chile ; Alfredo Stroessner e Benito Gunaes Serrano , do


disse Cavallo. Durante as sessões de tortura , Simón usava um cha ¬
Paraguai; Jorge Rafael Videla e Guillermo Su á rez Mason, da Ar ¬

veiro com a suástica e fazia os detidos ouvirem marchas nazistas, gentina ; Julio Vapora e José Gavazzo , do Uruguai ; ou o ex-dita-
cujas letras , Gertrudis Hlaczik, seqü estrada de origem alemã , era dor boliviano Hugo Bánzer, em 2001 presidente de seu país pe ¬

obrigada a traduzir em voz alta . Simón “ especializou-se ” também las urnas! Almada assinalou que a chamada “ Reuniã o de
em bater nos detidos com correntes e depois aplicar-lhes água Inteligência ” realizada na capital do Chile em dezembro de 1975 ,
salgada nas feridas . citada como a primeira da “ Condor ” , foi na verdade a formaliza ¬

A impunidade foi o elemento -chave da continuidade institu ¬


ção de um convénio de cooperação quando o plano “ já estava em
cional das ditaduras no período “ democr á tico ” posterior. Este pleno funcionamento ” .
acrescentou uma nova vergonha à histó ria nacional dos pa íses
sul-americanos: os processos visando a restaurar a justiça mais
elementar em relação aos genocídios perpetrados pelas ditaduras IMPUNIDADE à brasileira
tiveram de ser encaminhados por tribunais de pa íses europeus,
como os da Inglaterra (no caso de Pinochet) ou da Espanha (no No Brasil, a questão foi tratada na Lei n - 9140 , de dezembro
caso dos torturadores e genocidas argentinos, devido às dezenas de 1995, que reconheceu como mortas pessoas desaparecidas em
de espanhóis que foram assassinados e “ desaparecidos ” pelos mi¬ razão de participação - ou acusação de participação — em ativi ¬

litares platinos) . Só um quarto de século depois dos fatos , os tri ¬


dades polí ticas , no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de
bunais sul-americanos se renderam à jurisprud ência elementar agosto de 1979, e também deu conta das outras providências (in-
de que os crimes não prescreveram no caso do desaparecimento denizações aos familiares) . A atuação da Comissão de Familiares
de pessoas ( pois n ão existe o corpo) ou do roubo de bebés (pois foi importante e ainda h á muito a se dizer sobre sua atividade: a
T

descoberta de cadáveres enterrados clandestinamente no Cemi ¬


por parte dos ministros da Justiça , da Fazenda e do Planejamen ¬

té rio de Perus (São Paulo) em 1990 , a ida ao Araguaia para con ¬


to e Orçamento do governo Femando Henrique Cardoso: em to ¬

seguir pistas dos mortos da guerrilha e muitas outras ações. da ela os termos consenso, reconciliação e pacificação nacional
Em 29 de maio de 1994, como resultado do Encontro Nacio ¬
constituem o elo argumentativo. Nessa explicação , a Lei de Anistia
nal de Familiares de Mortos e Desaparecidos Polí ticos e dos gru ¬
de 28 de agosto de 1979 , sancionada pelo general João Figueiredo,
pos Tortura Nunca Mais, deliberou-se pela redação de urna carta é marco cronológico e , o que é mais sério, político. Afirma-se:
aberta , que tinha como objetivo estabelecer um compromisso às
reivindicações dos signatários . Tais reivindicações, a partir de um 2 . Trata-se de proposta destinada a preencher uma antiga lacuna na recente
breve histórico da luta das entidades constituídas , expressavam: hist ó ria do País que visa a traduzir a consolida çã o de sua plena demo ¬

cracia , alicerce maior do Estado de Direito , e norteia-se pela id éia da re ¬

1. O reconhecimento p ú blico e formal do Estado Brasileiro de sua respon ¬ conciliaçã o e pacifica ção nacional desenvolvida a partir da “ Lei de Anis ¬

sabilidade plena e total pela prisão , tortura, morte e desaparecimento de tia ” (n° 6.683, de 28 de agosto de 1979) . [...]
opositores polí ticos entre 1964 e 1985; 6.4. A declaração de morte [ ... ] materializar-se-á pelo assentamento de ó bito
2 . A imediata formação de uma Comissã o Especial de Investiga ção e Repa ¬
se essa for a vontade dos familiares, pois nesse Projeto de Lei , salvo a de ¬

ra çã o , no â mbito do Executivo Federal , constitu ída por representantes claraçã o do art . 1°, nada é compuls ó rio ou ex- oficio , (sic) pois todas as
do Ministério Pú blico, do Legislativo, da OAB, dos familiares dos desapa ¬ possibilidades , nele contidas, dependem que os familiares , por vontade
recidos e dos grupos Tortura Nunca Mais , com poderes plenos para in ¬ própria, decidam obtê-las. [ ... ]
vestigar, convocar testemunhas, requisitar arquivos e documentos e exu ¬ 6.12. Frisa-se que o Projeto de lei n ão tem sentido revanchista . Trilha objetiva
mar cad áveres , com os objetivos de esclarecer cada um dos casos de mente a estreita bitola da reparaçã o legal sem conflitar com a Lei de Anis
mortos e desaparecidos polí ticos ocorridos no Brasil de 1964 a 1985 e tia que determinou o esquecimento de responsabilidades pessoais . Aliás
determinar reparações ; o Projeto reafirma expressamente o intuito de reconcilia ção e pacificação
3. O compromisso de n ã o indicar para cargos de confian ça pessoas impli ¬ daquela Lei que foi marco fundamental para retomarmos nossa marcha
cadas nos crimes da ditadura e de afastá-las do serviço pú blico ; democrá tica . [ ... ]
4. O compromisso de abrir irrestritamente os arquivos da repressã o políti ¬
8. Estamos convictos , Senhor Presidente, de que, com a presente proposta
ca existentes sob sua jurisdição ; de lei, estará Vossa Excelência, o Congresso Nacional e toda a sociedade
5. O compromisso de anistiar plenamente cidadãos vítimas da ditadura, e brasileira , encerrando um dif ícil capí tulo de nossa história superando - o
reparar os danos causados a eles e a seus familiares ; com serena firmeza , dignidade e equilíbrio.
6. A ediçã o da Lei incriminadora assegurando o cumprimento do artigo 5o,
parágrafo ui, da Constituição Federal que proíbe a tortura e o tratamento Que razão polí tica é a que, ao mesmo tempo , se pretende fun ¬

desumano e degradante; dadora e tem como base/marco uma lei da ditadura? No Senado
7. A desmilitariza çã o das Polícias Militares estaduais e sua desvincula çã o
do Exé rcito ; apresentou -se o parecer da Comissã o de Constituição , Justiça e
8. A extin çã o da Justiça Militar para crimes civis e a incorporação do proje¬
Cidadania . O seu voto foi favorável. Na argumentação dissensual
to Hélio Bicudo submetendo nesse ínterim os crimes de policiais milita ¬ do senador Eduardo Suplicy, leu-se o depoimento de André Her ¬

res à Justiça Comum ; zog, filho de Vladimir:


9. O desmantelamento de todos os ó rgãos de repressão política ;
10. A extirpação da Doutrina de Seguran ça Nacional. N ão há nada que justifique a tentativa de pô r um ponto final na questão sem
esclarecer o que ocorreu , negando-se a apurar as circunstâncias das mortes e
Sancionada no ano seguinte à divulgação dessas reivindica ¬ torturas . O conhecimento destes fatos n ão abala a democracia brasileira. Ao
contrário , é quando n ão prevalece a justiça que os princípios democrá tico
ções , a Lei 9.140 foi acompanhada de uma exposição de motivos
são enfraquecidos . Meu pai e tantos outros lutaram pelo ideal de uma socie
, )
mH dadc democrá tica, justa e mais iguali
taria . Lutaram para que possamos es-
gFSj colher nossos governantes e emitir li-
¬
concilia ção de 1991, sepultaram-se no início de 1990 os restos
de 85 vítimas , 60 das quais foram desenterradas da vala comum
do Cemitério Geral de Santiago, conhecida como Patio 29\ na
*. .. vremente nossas opiniões. Pois que maioria dos casos ainda não se identificaram os mortos. Funcio¬
!§|seja apurado como , quando e onde
nossos cidadãos foram mortos. Temos ná rios argentinos já estabeleceram que o crime que vitimou o ca ¬

que demonstrar um m í nimo de com ¬


sal Prats em Buenos Aires foi elaborado e ordenado pela mais al ¬

promisso e respeito pelas vidas perdi ¬ ta hierarquia da DINA e seu Departamento Exterior - Manuel
das . Contreras , Jorge Iturriaga Neumann , Pedro Espinoza ejosé Zara
Holger - com conhecimento e aval de Augusto Pinochet e come ¬

O projeto , entretanto , tido pelos agentes dessa organização Michael Townley, Mariana
saiu do Senado , sem nenhu ¬ Callejas , Raúl Iturriaga Neumann e Enrique Arancibia Clavel.
ma modificação, como acon ¬ No México , o juiz Jesús Guadalupe Luna determinou a extra ¬

tecera anteriormente na C â ¬ dição do repressor ( torturador) argentino Ricardo Miguel Cavallo


mara . Em 4 de dezembro de à Espanha . A justiça alemã se dispõe a processar mais de cem de¬
1995 , a “ Lei dos desapareci n ú ncias de delitos contra cidad ãos alemães na Argentina . A justi
¬

_
¬

dos ” foi sancionada pelo pre- ça italiana pediu a captura de Rubén Astiz na Argentina , sendo
Na luta contra as forças repressivas
sidente FHC 0„esquecimento
clo estado militarizado foram mortas « . . . 1
. atendida pela justiça desse país. No Brasil, questões como essas
mais de uma centena de pessoas: a institucional atingiu , no estão em aberto.
jovem guerrilheira Aurora Furtado , Brasil , as raias da perfeiçã o ,

presa em 1972 , torturada por milita- Mas a luta pelo nã o -es-


res, teve o crâ nio afundado por um quecimento tamb é m d á fru-
tormquete. tos . No Chile , o juiz Guzmán
processou Pinochet pelos cri ¬

mes da Caravana de la Muerte. També m ali se argumentou o ca ¬

rá ter continuado dos desaparecimentos e se rejeitou a prescrição


do delito. Os desaparecidos da ditadura de Pinochet (1973-1990)
são quase 1.200 pessoas . Os informes das instituiçõ es militares
compreenderam só 200 casos , com 151 desaparecidos assassina ¬

dos por agentes da repressão , cujos cadáveres foram lançados ao


mar. Nesses casos , deu-se nome e sobrenome das ví timas , assim
como a data em que seus corpos foram jogados no Oceano Pací ¬

fico. Uma segunda lista foi formulada , também com nomes e da ¬

tas , de 29 desaparecidos sepultados em diversos lugares , como


terrenos baldios de Cuesta Barriga e no Forte Arteaga , um recinto
militar perto de Santiago do Chile .
Do total original de 1.197 desaparecidos (cifra inferior à rea ¬

lidade) consignados no Informe da Comiss ão de Verdade e Re-


t
'

Conclusã o

A Taio de 2001: Hebe de Bonafini, presidente das Mães da Pra-


/
iVJL ça de Maio, visitou o Brasil a convite, entre outros, do autor
desta obra , para um evento universitário e popular acerca dos 130
anos da Comuna de Paris . De volta a Buenos Aires denunciou
que , na sua ausência , desconhecidos invadiram sua casa em La
Plata , e surraram , amarraram e queimaram com cigarros sua fi ¬

lha , María Alejandra Bonafini , de 35 anos , para depois revirar o


lugar e escapar sem levar nada:
Quando cheguei do Brasil, encontrei-a lastimada ; perguntei-lhe o que tinha
acontecido, e ela me contou como havia sido golpeada ... a queimaram com
cigarros , lhe fizeram de tudo .

Maria Alejandra contou que


j( em uma fraçã o de segundo arrebentam a porta , me batem e colocam sobre
¡ j minha cabeça algo como um capuz. Me levaram para dentro - e eu tentando
me defender - e começaram a bater na garganta , na boca e na testa . Come ¬

çaram a me bater com algo parecido com uma borracha , que é doloroso e
não deixa roxos , depois me derrubaram no chão e me arrastaram pelo tape ¬

te. N ã o diziam nada . Depois um deles me jogou na cama e se atirou sobre


mim , mas o outro o deteve e disse: “ O que você está fazendo... de qualquer
jeito ela não vai mais esquecer. ”

Queimaram o seu braço com cigarros, amarraram-lhe as


mãos , enfiaram sua cabeça em uma sacola de nylon , e continua-
j
ram batendo “ muy duro" em vá rias partes do corpo até que ela
desmaiou . N ão houve roubo. Maria Alejandra denunciou que os
Cronologia
ú nicos que trabalham assim são “ a polícia , o Exército , os que tor¬

turaram e ficaram livres . . . N ã o tenho dúvidas de que foi para me


amedrontar. . . para que eu me separe da minha velha ” . [ . .. ] “ es
¬

cutei um walkie- talkie , um dos desconhecidos disse : ‘J á vamos’ .


Passaram ao meu lado , me chutaram e me disseram ‘Conta até
cem ou morre’ ” , então se foram .
Ainda est á f értil - e prenhe - o ventre que pariu a besta
imunda .

1895-1896 : os marines dos Estados Unidos desembarcam na Ni


carágua (Puerto Corinto) .
1898 : Guerra Hispano -americana , motivada pela questão da in¬

dependê ncia de Cuba , que se conclui com uma espé cie de


protetorado dos Estados Unidos na ilha .
1902 : secessão do Panam á da Colômbia , motivada pela negativa
colombiana ao controle por parte dos Estados Unidos da zo ¬

na do futuro Canal de Panamá.


1906: Cuba ocupada por tropas dos Estados Unidos.
1907-1911: os Estados Unidos invadem a Nicarágua e Honduras.
1908: os Estados Unidos invadem o Panamá.
1912: novas invasões dos Estados Unidos, em Cuba e no Panamá.
1914 : intervenção dos Estados Unidos no México , com ocupa ¬

j ção de Veracruz.
-
1915 1934: ocupação militar norte-americana do Haiti.
1916-1925: o general Pershing (Estados Unidos) intervé m no
México .
Ocupação da Repú blica Dominicana pelos Estados Unidos.
1917-1925: os Estados Unidos ocupam militarmente Cuba , Pa ¬

namá , Honduras e Costa Rica .


1916-1933: ocupação militar da Nicarágua pelos Estados Unidos
^ ; que instalam no poder Anastácio Somoza , dando origem a uma
dinastia familiar de presidentes. Em 1934, é assassinado Au¬

gusto César Sandino, que encabeçava a resistência.


1930 : golpe militar na Argentina derruba o governo civil “ radi ¬ mais antiga da América do Sul , encabeçada por Douglas Bra ¬

cal ” . Durante toda a década , sucedem-se golpes militares na vo.


América do Sul, em meio à crise económica mundial. Crise entre o Itamaraty e os Estados Unidos , que inscrevem
1937: Get ú lio Vargas instaura o Estado Novo no Brasil , suprimin¬
oficiais brasileiros nos seus cursos militares sem consultar o
do o Parlamento. Em 1942 , o Brasil entra na Segunda Guer ¬
governo civil institucional.
ra Mundial do lado dos Aliados. 1959 : vitória da Revolu ção Cubana , encabeçada pelo Movimento
-
1942 1944: nas conferências inter-americanas de países, os Esta ¬ 26 de Julho de Fidel Castro e Ernesto “ Che” Guevara.
dos Unidos ameaçam declarar a gueixa à Argentina e ao Chile 1961: fracassa a tentativa de derrubar Castro em Cuba por meio
por se manterem neutros na Segunda Guerra Mundial. da invasão da Baía dos Porcos, invasão financiada e apoiada
1943: em junho , um golpe militar derruba o muito impopular pelos Estados Unidos.
(pois baseado na fraude e na proscriçã o polí tica) regime civil 1962 : ameaça de invasão de Cuba pelos Estados Unidos justifi ¬

argentino. No novo regime , o coronel Perón ocupa a Secreta ¬ cada pela instalação de mísseis sovié ticos na ilha , os quais
ria de Trabalho. são finalmente retirados pela URSS .
1945: fim do Estado Novo e “ redemocratização ” do Brasil. O PCB Na Argentina , a crise polí tica leva à renú ncia do governo civil
(Partido Comunista do Brasil) é legalizado. de Arturo Frondizi e deriva num enfrentamento entre facções
-
1945 46: vitória do peronismo na Argentina contra a coalizão po ¬ do Exército: a vitória dos “ azuis ” sobre os “ colorados” garante
lítica encabeçada pelo embaixador norte-americano Spruille as eleições de 1963 (o chefe dos “ azuis ” , general Juan Carlos
Braden . Onganía, surge como novo “ homem forte” ).
1947: cassação do registro do Partido Comunista , no Brasil. 1964: golpe militar de Barrientos derruba o governo do MNR na
Começa, no Paraguai, a guerra civil que culminará com a vi ¬ Bolívia.
t ó ria do Partido Colorado e a longa ditadura do general Em abril , as Forças Armadas brasileiras derrubam o governo
Stroessner. de João Goulart , em operação que contou com o apoio logís¬
1952: em abril , na Bolívia , uma insurreição popular derrota a ten
¬ tico da marinha norte-americana .
tativa militar de anular as eleições vencidas pelo MNR (Movi ¬ 1965: uma invasão de marines dos Estados Unidos derruba , na
mento Nacionalista Revolucionário) - no início da Revolução República Dominicana , o presidente eleito, Juan Bosch.
Boliviana, o exército é literalmente dissolvido . 1966 : em junho , golpe militar encabeçado por Onganía derruba ,
1954 : derrubada do governo nacionalista de Jacobo Arbenz na na Argentina, o governo civil de Arturo U . Illia.
Guatemala pelas tropas de Castillo Armas , financiadas e ar ¬
1967: o governo militar boliviano caça , prende e fuzila Ernesto
madas pelos Estados Unidos. “ Che ” Guevara. Agentes norte-americanos da CIA participam
Suicídio do presidente Getúlio Vargas no Brasil . da operação.
Alfredo Stroessner se apossa do poder no Paraguai , instau ¬ 1968 : mobilizações estudantis na maior parte dos países latino-
rando progressivamente uma ditadura de bases quase fami ¬ americanos.
liares . O coronel Velasco Alvarado encabeça um golpe militar no Pe ¬

1955: um golpe militar, com apoio da Igreja e dos Estados Uni ¬ ru , que dá início a um processo político nacionalista, com re¬
dos , derruba o governo de Perón na Argentina. forma agrária e nacionalização dos recursos naturais .
1958: a queda de Rojas Pinilla, na Venezuela , dá início a um lon ¬
1969 : em maio, ocorre uma insurreição popular na Argentina con ¬

go “ processo democrá tico ” , no qual é derrotada a guerrilha tra a ditadura militar, conhecida como “ cordobaço ” .
Em outubro , o general Alfredo Ovando Candia derraba , na Razones Políticas , e as Mães da Praça de Maio. A primeira
Bolívia, seu colega René Barrientos , dando início a um gover¬ presidente das “ Mães ” , Azucena Villaflor, é seqüestrada e as¬
no nacionalista . sassinada por agentes da ditadura militar
1970: vitória eleitoral da Unidade Popular, com Salvador Allen ¬ 1978: Argentina vence , em casa , o Mundial de Futebol , com di ¬

de , no Chile. Manobras financiadas e organizadas pela CIA pa¬ reta inteivenção do regime militar.
ra impedir a sua posse : assassinato do general “ legalista ” Re¬ Greves no ABCD paulista .
né Schneider. Vitória do “ populista ” Vicente Roldós no Equador.
1971; em agosto, o golpe militar de Hugo Bánzer Suárez, na Bo ¬ 1979: explosão de greves no cinturão industrial de São Paulo, vio ¬

lívia , derruba o governo nacionalista de Juan José Tones , dis¬ lenta repressão militar.
solve a Assembléia Popular, persegue e massacra opositores Em julho , a dinastia Somoza é derrubada na Nicarágua pela
de todo tipo . Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN ) .
1972: primeiro retomo de Perón à Argentina , em novembro . Ra ¬ Em agosto , o governo militar de João Figueiredo dita, no Bra ¬

dicalização do processo político no Chile , sob o governo “ so¬ sil, a Lei de Anistia Geral.
cialista ” de Allende. 1980: hostilidade militar dos Estados Unidos contra Nicarágua , sur ¬

1973: em maio, o peronismo volta ao governo na Argentina. ge a guerrilha “ contra ” o regime sandinista , financiada pela CIA.
Em julho, golpe militar dissolve Parlamento no Uruguai. Guerra civil em El Salvador.
Em setembro, golpe encabeçado por Augusto Pinochet , com Primeiras ações do futuro MST (Movimento dos Sem-Terra) no
apoio e financiamento dos Estados Unidos (através da CIA e Brasil.
da ITT) derruba o governo de Salvador Allende e inicia um 1981: um acidente suspeito mata o presidente nacionalista pana ¬

massacre nos sindicatos , partidos de esquerda e movimentos menho , general Ornar Torrijos .
sociais em geral . Enfrentamento entre facções militares na Bolívia.
1974: vitória do MDB nos comícios parlamentares brasileiros inau ¬ Derrota do regime militar uruguaio em plebiscito .
gura a contagem regressiva para o fim do regime militar ini ¬ 1982: em abril, o regime militar argentino ocupa as Ilhas Malvi ¬

ciado em 1964. nas , em poder da Inglaterra . Esta as recupera após sangrenta


Em julho, morre Perón, ainda no exercício da presidência na guerra, terminada a 16 de junho, na qual recebe o apoio lo ¬

Argentina. gístico dos Estados Unidos .


1975: o general Morales Berm ú dez toma o poder no Peru , perse¬ Invasão da ilha de Granada , no Caribe, por tropas dos Esta ¬

guindo opositores e destruindo conquistas sociais do perío¬ dos Unidos .


do prévio. 1983: em outubro, vitória do partido radical nas eleições argenti ¬

Greve geral na Argentina abala e quase derruba o governo de nas (fim do regime militar) .
Isabel Perón . Surge, no Brasil, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) .
1976: em mar ço , golpe militar (Videla) na Argentina inicia um 1984: grande campanha “ Diretas J á ” no Brasil , visando a demo ¬

processo repressivo de dimensões inéditas , com “ desapareci ¬ cratizar as eleições presidenciais. Vit ória de Tancredo Neves
mentos ” em massa de sindicalistas , militantes de esquerda e no Colégio Eleitoral: sua morte passa o governo a seu vice
estudantes. José Samey, ex-político da Arena (partido do regime militar) .
1977: surgem , na Argentina , os movimentos de familares de de ¬ Greve geral revolucionária na Bolívia : os mineiros armados
saparecidos: Familiares de Desaparecidos y Detenidos por invadem La Paz.
1985: na Argentina , o julgamento das Juntas de Comandantes
que governaram o país entre 1976 e 1983 determina a prisão Sugest ões de Leitura
de cinco de seus membros, incluídas duas condenações à pri¬
são perpétua .
Os Estados Unidos bloqueiam Nicarágua .
Cria ção , financiada pelos Estados Unidos , da Rádio Marti,
para hostilizar o regime de Fidel Castro.
1986: Levante dos militares carapintadas na Argentina contra o
governo de Raúl Alfonsin , sem sucesso .
1987: bloqueio naval da Colô mbia pelos Estados Unidos , sob
pretexto de combate ao narcotráfico.
1989: Fernando Collor de Mello derrota Luís Inácio “ Lula ” da Sil
¬

va nas primeiras eleições presidenciais diretas no Brasil, de¬ ABÓs, Álvaro.Las Organizaciones Sindicales y el Poder Militar 19 / 6-19S3.
pois de trinta anos. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1984.
1990: novo levante carapintada na Argentina , fracassado. O pre¬
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sidente norte-americano George Bush , em visita à Argentina,
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onde enfrenta manifestações hostis , garante o apoio dos Es ¬
Imprensa do Governo dos EUA, 1976.
tados Unidos ao regime civil.
O presidente argentino Carlos Menem dita o indulto para os ALVES,Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil 1964-1984.
comandantes-em -chefe das Juntas Militares que ainda esta ¬ Petrópolis: Vozes , 1984.
vam cumprindo pris ã o : seis anos após o fim do regime mili ¬
ANDERSEN , Mart
ín. Dossier Secreto. Buenos Aires: Planeta, 1993.
tar, ninguém está preso pelas dezenas de milhares de assassi ¬

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