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A abordagem qualitativa: a leitura no campo de

pesquisa
Denize Terezinha Teis e Mirtes Aparecida Teis

Índice 1 Introdução
1 Introdução 1 A abordagem qualitativa tem se afirmado
2 Raízes históricas e fundamentos da como promissora possibilidade de investi-
abordagem qualitativa 2 gação em pesquisas realizadas na área da
3 Pesquisa do tipo etnográfico: um educação. Uma pesquisa com essa aborda-
exemplo de pesquisa qualitativa 4 gem caracteriza-se pelo enfoque interpreta-
4 Considerações finais 7 tivo. Desse modo, as técnicas de investiga-
5 Referências bibliográficas 8 ção não constituem o método de investigação
(ERICKSON, 1989).
A pesquisa qualitativa observa o fato no
Resumo meio natural, por isso é também denominada
Embora a etnografia não seja, enquanto me- pesquisa “naturalística” (ANDRÉ, 1995, p.
todologia de pesquisa, algo significativa- 17). Entre os tipos de pesquisa qualitativa
mente novo, ainda não se coloca com cla- está a do tipo etnográfico. Para que uma pes-
reza para muitos professores/pesquisadores. quisa seja reconhecida como do tipo etno-
Com o intuito de preencher essa lacuna, esse gráfico, deve preencher, antes de tudo, os re-
artigo objetiva apresentar considerações teó- quisitos da etnografia que tem como premis-
rico/práticas relevantes sobre a pesquisa do sas a observação das ações humanas e sua
tipo etnográfico, classificada como qualita- interpretação, a partir do ponto de vista das
tiva, e que ganha um espaço cada vez maior pessoas que praticam as ações. Trata-se de
nas pesquisas educacionais. Busca-se, para gerar dados aproximando-se da perspectiva
isso, apresentar os princípios básicos da pes- que os participantes têm dos fatos, mesmo
quisa de cunho etnográfico, exemplificando- que não possam articulá-la. Para conseguir
a através de pesquisas realizadas em sala de captar esse sentido, as ações do próprio pes-
aula e traçar, resumidamente, a história do quisador precisam ser analisadas da mesma
surgimento da abordagem qualitativa de pes- forma como as ações das pessoas observa-
quisa da qual emergem as idéias da etnogra- das. Assim sendo, todo processo é interpre-
fia. tativo.
2 Denize Teis e Mirtes Teis

Discutir a realização desse processo em fatos ou causas dos fenômenos sociais de-
uma pesquisa do tipo etnográfico é o ob- votando pouca consideração pelos estados
jetivo desse texto. Para isso, busca-se, subjetivos individuais. A perspectiva posi-
nesse artigo, num primeiro momento, his- tivista busca informações através de dados
toricizar a abordagem de pesquisa qualita- quantitativos que lhe permite estabelecer e
tiva, apresentando-a como opção metodoló- provar relações entre variáveis operacional-
gica em pesquisas educacionais. Na seqüên- mente definidas
cia, explicitam-se os princípios norteadores Não aceitando que a realidade seja algo
da pesquisa do tipo etnográfico que possi- externo ao sujeito, a corrente idealista-
bilitam ao pesquisador realizar a “leitura” subjetivista valoriza a maneira própria de en-
dos dados adquiridos no processo da coleta tendimento da realidade pelo indivíduo. As-
e apresentam-se exemplos de pesquisas et- sim, em oposição a uma visão empiricista de
nográficas realizadas em sala de aula. ciência, busca a interpretação em lugar da
mensuração, busca examinar o mundo como
é experienciado, compreendendo o compor-
2 Raízes históricas e
tamento humano a partir do que cada pes-
fundamentos da abordagem soa ou pequeno grupo de pessoas pensam
qualitativa ser a realidade, valoriza a indução e assume
que fatos e valores estão intimamente relaci-
A abordagem qualitativa de pesquisa tem
onados, tornando-se inaceitável uma postura
suas raízes no final do século XIX. Foi na
neutra do pesquisador (ANDRÉ, 1995).
área das ciências sociais que primeiro se
É com base nesses princípios que se confi-
questionou a adequação do modelo vigente
gura a abordagem de pesquisa qualitativa ou
de ciência aos propósitos de estudar o ser hu-
“naturalística” de pesquisa. André (1995, p.
mano, sua cultura, sua vida social.
17), assim conceitua essa abordagem:
Segundo André (1995, p. 17), Max Weber
contribuiu de forma importante para a con- Naturalística ou naturalista porque não
figuração da perspectiva qualitativa de pes- envolve manipulação de variáveis, nem
quisa ao destacar a compreensão como o ob- tratamento experimental; é o estudo
jetivo que diferencia a ciência social das ci- do fenômeno em seu acontecer natural.
ências físicas e naturais. Para Weber, o foco Qualitativa porque se contrapõe ao es-
da investigação deve se centrar na compreen- quema quantitativista de pesquisa (que
são dos significados atribuídos pelos sujeitos divide a realidade em unidades passí-
às suas ações. Para compreender esses signi- veis de mensuração, estudando-as isola-
ficados é necessário colocá-los dentro de um damente), defendendo uma visão holís-
contexto. Essa idéia, defendida por outros tica dos fenômenos, isto é, que leve em
estudiosos das questões humanas e sociais conta todos os componentes de uma situ-
deu origem à perspectiva de conhecimento ação em suas interações e influências re-
conhecida como idealista-subjetivista. cíprocas.
Essa perspectiva opõe-se à concepção po-
Essa abordagem de pesquisa tem suas raí-
sitivista de ciência que busca, por sua vez,
zes teóricas na fenomenologia. Essa cor-

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A abordagem qualitativa 3

rente de pensamento contemporâneo vê-se ações e os gestos que lhe são dirigidos pe-
envolvida com a utilização e com o desen- los outros. Assim, a forma como cada um
volvimento de metodologias que permitem percebe a si mesmo é, em parte, função de
ao pesquisador descrever a visão de mundo como os outros o percebem.
dos sujeitos estudados. Enquanto que para A etnometodologia não se refere ao mé-
o positivismo a pressuposição da localiza- todo que o pesquisador utiliza, mas ao
ção da verdade referente à sociedade reside campo de investigação. É o estudo de como
no estudo de grandes contextos e de um nú- os indivíduos compreendem e estruturam o
mero estatisticamente significativo de pes- seu dia-a-dia, isto é, o pesquisador procura
soas, numa perspectiva mais objetiva, a fe- descobrir “os métodos” que as pessoas usam
nomenologia admite que é possível conhe- no seu dia-a-dia para entender e construir a
cer a sociedade a partir de contextos meno- realidade que as cerca.
res, a partir do estudo dos significados indi- A etnografia tem como principal preocu-
viduais possuindo um inegável componente pação o significado que têm as ações e os
subjetivo. eventos para as pessoas ou os grupos estuda-
Conforme André (1995, p.18), a fenome- dos. É a tentativa de descrição da cultura. A
nologia enfatiza os aspectos subjetivos do tarefa do etnógrafo consiste na aproximação
comportamento humano e preconiza que é gradativa ao significado ou à compreensão
preciso penetrar no universo conceitual dos dos participantes, isto é, de uma posição de
sujeitos para poder entender como e que tipo estranho o etnógrafo vai chegando cada vez
de sentido eles dão aos acontecimentos e às mais perto das formas de compreensão da re-
interações que ocorrem em sua vida diária. alidade do grupo estudado, vai partilhando
Na abordagem qualitativa de pesquisa com eles os significados.
também estão presentes as idéias do intera- Essas concepções de pesquisa permitem
cionismo simbólico, da etnometodologia e perceber que o componente subjetivo é um
da etnografia. André (1995) conceitua cada aspecto relevante na pesquisa qualitativa.
uma dessas concepções. Porém, embora a pesquisa quantitativa seja
O interacionismo simbólico assume como considerada objetiva, nela também existe o
pressuposto que a experiência humana é me- componente subjetivo, pois apesar de to-
diada pela interpretação, a qual não se dá de dos os controles metodológicos, a pesquisa
forma autônoma, mas à medida que o indí- quantitativa e suas descobertas são inevita-
víduo interage com o outro. Como se desen- velmente influenciadas pelos interesses e pe-
volvem os significados é que constitui o ob- las formações social e cultural dos envol-
jeto de investigação do interacionismo sim- vidos. Tais fatores influenciam a formula-
bólico. Outro ponto importante nessa linha ção de questões e hipóteses da pesquisa, as-
de pensamento é a concepção do self. O self sim como a interpretação de dados e relações
é a visão de si mesma que cada pessoa vai (ANDRÉ, 1995).
criando a partir da interação com os outros. Desse modo, a pesquisa quantitativa tam-
É, nesse sentido, uma construção social, pois bém possui uma dimensão qualitativa, pois
o conceito que cada um vai criando sobre si um pesquisador, ao fazer uma pesquisa
mesmo depende de como ele interpreta as que utiliza basicamente dados quantitativos,

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deixa transparecer, em sua análise, seu qua- está sendo estudado, a fim de o pesquisa-
dro de referência, seus valores e, portanto, dor familiarizar-se com os padrões rotinei-
sua dimensão qualitativa. As perguntas que ros da ação e interpretação que correspon-
realiza em seu instrumento estão marcadas dem ao universo cotidiano local dos parti-
por sua postura teórica, seus valores, sua vi- cipantes. Conseqüentemente, o pesquisa-
são de mundo. Logo, tanto na abordagem dor aproxima-se do sistema de representa-
qualitativa quanto na abordagem quantita- ção, classificação e organização do universo
tiva, a neutralidade inexiste. estudado. Nesse método de pesquisa a preo-
cupação do pesquisador é com o significado,
com a maneira própria com que as pessoas
3 Pesquisa do tipo etnográfico:
vêem a si mesmas, as suas experiências e o
um exemplo de pesquisa mundo que as cerca.
qualitativa O etnógrafo tem como meios principais de
coleta de dados a observação e os questiona-
Segundo André (2005, p. 25), a etnografia
mentos. Esses, realizados por meio de entre-
é uma perspectiva de pesquisa tradicional-
vistas ou questionários são necessários para
mente usada pelos antropólogos para estudar
confirmar as ações aparentes das pessoas a
a cultura de um grupo social. Enquanto que
partir da observação que, por sua vez, é cha-
o foco de interesse dos etnógrafos é a des-
mada de participante porque se admite que
crição da cultura de um grupo social, a preo-
o pesquisador tem sempre um grau de inte-
cupação dos estudiosos da educação é com o
ração com a situação estudada, afetando-a e
processo educativo.
sendo por ela afetado.
Existe, pois, uma diferença de enfoque
Para Erickson (1989), a realização de uma
nessas duas áreas, o que faz com que certos
pesquisa etnográfica dá-se a partir da per-
requisitos da etnografia não sejam cumpridos
gunta: “o que está acontecendo aqui?” Res-
pelos investigadores das questões educacio-
ponder a essa pergunta permite fazer com
nais. Requisitos sugeridos como, por exem-
que o familiar se torne estranho e o comum
plo, uma longa permanência do pesquisador
se torne problemático e, com isso, muitos da-
em campo, o contato com outras culturas e
dos se tornem visíveis e possíveis de serem
o uso de amplas categorias sociais na análise
sistematicamente documentados. Erickson
de dados são adequados para estudos antro-
(1989), além disso, argumenta que a ênfase
pológicos, mas não necessariamente para a
ao significado local é essencial para a defi-
área de educação. Desse modo, o que se tem
nição de etnografia que procura caracterizar
feito, de fato, é uma adaptação da etnografia
o sentido do ponto de vista dos atores, dos
à educação, o que é denominado, segundo
participantes, daqueles que estão sendo pes-
André (2005, p. 27) como estudos do tipo
quisados.
etnográfico e não etnografia no seu sentido
Segundo Erickson (1984) a etnografia
estrito.
pode ser considerada como um processo
Segundo Erickson (2001), o trabalho et-
deliberado de investigação guiado por um
nográfico envolve a observação e partici-
ponto de vista. O trabalho de campo é pesa-
pação de longo prazo em um cenário que
damente indutivo, mas não existem induções

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puras, isto é, o etnógrafo traz para o campo tal importância para apresentar os fatos, se-
um ponto de vista teórico e um conjunto de gundo o ponto de vista dos participantes.
questões explícitas ou implícitas. A perspec- Nesse momento, vale seguir a orientação
tiva e as questões podem mudar durante o de Erickson (1984, p. 62) em “adotar a ins-
trabalho de campo, mas o etnógrafo tem uma tância crítica de um filósofo, questionando
idéia básica por onde começar sua pesquisa. continuamente os fundamentos do convenci-
No contexto escolar esse tipo de pesquisa onal, examinando o óbvio, aquilo que é tido
permite que se chegue bem perto da es- por certo pelos participantes internos da cul-
cola para tentar entender como operam os tura, que se tornou invisível para eles”.
mecanismos de dominação e resistência no Ao iniciar uma pesquisa, o pesquisador
seu dia-a-dia, os mecanismos de opressão traz para a experiência certos esquemas de
e de contestação, ao mesmo tempo em que interpretação. Dessa forma, sua tarefa con-
são vinculados e reelaborados conhecimen- siste em tomar cada vez mais consciência
tos, atitudes, valores, crenças, modos de ver acerca dos esquemas de interpretação das
e de sentir a realidade e o mundo. Por isso, pessoas observadas e acerca de seus pró-
mergulhar na realidade cotidiana é uma con- prios marcos de interpretação culturalmente
dição para que se possa compreender o que aprendidos, que ele levou ao campo. O in-
se passa na escola. É no cotidiano que a es- vestigador deve ultrapassar seus métodos e
cola se revela como um espaço de confron- valores, admitindo outras lógicas de enten-
tos e interesses entre um sistema oficial que der, conceber e recriar o mundo, pois como
distribui funções, determina modelos, define lembra Erickson (1989), o estudo etnográ-
hierarquias, e outro, o dos sujeitos – alu- fico deve se orientar para a apreensão e des-
nos, professores, funcionários – que não são crição dos significados culturais dos sujeitos.
apenas agentes passivos diante da estrutura. Para frear, em alguma medida, a intuição ir-
Em seu fazer cotidiano, esses sujeitos, por refletida, é necessário estabelecer uma rela-
meio de uma complexa trama de relações ção constante e dinâmica entre as perguntas
que inclui alianças e conflitos, transgressões de pesquisa e o trabalho de campo.
e acordos, fazem da escola um processo per- O grande desafio nesses casos é saber tra-
manente de construção social. balhar o envolvimento e subjetividade, man-
Entre os princípios da pesquisa de cu- tendo necessário distanciamento que requer
nho etnográfico que contribuem para o pro- um trabalho científico. Uma das formas de
cesso interpretativo característico desse tipo lidar com esta questão tem sido o estranha-
de metodologia estão a reflexividade e o es- mento, um esforço sistemático de análise de
tranhamento. uma situação familiar como se fosse estra-
De acordo com o princípio da reflexivi- nho. Trata-se de saber lidar com percepções
dade, o pesquisador precisa estar em cons- e opiniões já formadas, reconstruindo-as em
tante processo de reflexão a respeito do seu novas bases, levando em conta, sim, as expe-
lugar e do lugar social dos seus participan- riências pessoais, mas filtrando-as com apoio
tes. Identificar a sua posição ontológica di- do referencial teórico e de procedimentos
ante das questões em análise na comunidade metodológicos específicos, como, por exem-
e salas de aula investigadas é de fundamen- plo, a triangulação. Ou seja, além de utilizar

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a observação em campo, realizada através da e os alunos como “nativos” engajados em


elaboração de notas que vão levar à possível rituais, interpretações, ocupando papéis,
construção de diários, pode-se fazer uso de envolvidos em pequenas percepções se-
entrevistas, questionários, gravações em áu- letivas, em conflitos culturais, em redes
dio e vídeo, etc., sempre na tentativa de trian- sociométricas [...]. Eu comecei uma tran-
gular os dados para a análise. Além disso, o sição cultural do familiar para o estranho
pesquisador pode buscar, ainda, uma diversi- e de volta para o familiar.
dade de sujeitos e diferentes perspectivas de
interpretação de dados. Esses cuidados me- Na ocasião, George Spindler precisou es-
todológicos e um forte apoio do referencial tranhar a sala de aula, que era seu locus de
teórico podem ajudar a manter o distancia- trabalho, para poder entender, e verdadei-
mento, diminuindo os problemas apontados ramente “ver” o que estava acontecendo na
(ANDRÉ, 1995). mesma. O princípio do estranhamento se
O estranhamento possibilita ao pesquisa- faz necessário para o professor/pesquisador
dor identificar e descrever fatos que estavam que volta seu olhar à sala de aula, principal-
invisíveis, inclusive para ele. Esse desvela- mente, porque tudo o que ocorre nesse am-
mento, como afirma Cavalcanti (1999), pode biente lhe parece “natural”. Alguns aspec-
inclusive levar o pesquisador a se deparar tos se tornam invisíveis aos olhos do profes-
com questões de sua própria identidade so- sor/pesquisador que poderá naturalizar jul-
cial que pode resultar em conflitos que pre- gamentos e posturas tanto suas quanto de
cisam ser enfrentados para conseguir avançar seus alunos. Por exemplo, o “barulho” em
no trabalho e mostrar a visão êmica dos par- sala de aula poderá, em muitas das vezes, ser
ticipantes. considerado como falta de atenção, desinte-
Pesquisas como a de Spindler (1982) em resse ou mesmo desrespeito (se forem toma-
contexto de sala de aula americana e de Pe- dos como base os padrões culturais confli-
reira (1999) e Jung (1997) em contexto de tantes entre professor e alunos). Julgamen-
sala de aula brasileira podem ilustrar o prin- tos como esses impossibilitam uma análise
cípio do estranhamento. mais profunda a respeito da cultura da sala
Spindler (1982, p. 23), relata seu estranha- de aula.
mento em sala de aula ao afirmar que: Algumas pesquisas de sala de aula têm
mostrado que, apesar do barulho, as crian-
Tornar o estranho familiar não era o pro- ças aprendem e participam positivamente das
blema em fazer etnografia em escolas nos aulas. Outras pesquisas (JUNG, 1997; PE-
U. S. A. Quando eu [George Spindler] REIRA, 1999) mostraram que a forma de to-
comecei o trabalho de campo em 1950 mada de turno na sala de aula tem relação,
em West Coast, em uma escola elemen- em seus contextos de estudo, com os padrões
tar, o que eu observava era de fato muito culturais experimentados primariamente nas
estranho uma vez que era um espelho de famílias. Esses estudos desmistificam algu-
minha própria cultura estranhada, eu não mas crenças e julgamentos como os já men-
podia vê-la a princípio [...] mas, eventu- cionados em relação ao comportamento dos
almente, eu comecei a ver os professores alunos em sala de aula. Assim, para enten-

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der os significados de ambientes complexos aberto e flexível, em que os focos de investi-


como a sala de aula, o estranhamento passa gação vão sendo constantemente revistos, as
a ser um princípio de grande significação ao técnicas de coleta, reavaliadas, os instrumen-
professor/pesquisador. tos, reformulados e os fundamentos teóricos,
Jung e Pereira (1998) relataram so- repensados.
bre o princípio do estranhamento a par-
tir de uma comunidade rural bilíngüe (ale-
4 Considerações finais
mão/português (brasileiro)), na região do
oeste do Paraná. Esse artigo, a partir de uma breve revisão his-
Jung era oriunda do contexto por ela pes- tórica sobre a origem da abordagem de pes-
quisado, por isso, não percebia muitas ques- quisa qualitativa e da discussão sobre pro-
tões relacionadas ao uso da(s) língua(s). Para cesso de pesquisa do tipo etnográfico, de-
ela, as questões relativas ao uso de língua(s) monstrou que a etnografia é uma metodo-
estavam naturalizadas. Desse modo, para logia propícia para a pesquisa educacional,
que pudesse melhor “enxergá-las” foi neces- pois busca desvelar os significados que en-
sário estranhar seu ambiente familiar. volvem a cultura escolar como um todo, uma
Pereira, por sua vez, não tinha background sala de aula em particular ou as interações in-
rural e era negra e, por isso, uma pessoa terpessoais desenvolvidas no âmbito escolar.
estranha ao grupo da comunidade de es- Tendo em vista os princípios da reflexi-
tudo, majoritariamente constituída por pes- vidade e estranhamento que caracterizam a
soas brancas e descendentes de imigrantes pesquisa etnográfica, a ênfase incide sobre o
alemães. Dado o grande distanciamento processo, ao o que está acontecendo e não
tanto cultural quanto étnico e lingüístico e, no produto. Sendo assim, o pesquisador
principalmente, pelo fato de a comunidade deve perguntar-se freqüentemente o que está
ter uma vivência comunitária manifesta em acontecendo aqui? Como tem evoluído?
redes fechadas de relações sociais, fez-se ne- Em etnografia há preocupação com o sig-
cessário, primeiramente tornar o estranho fa- nificado, com a maneira com que as pessoas
miliar para, então, entender os significados vêem a si mesmas (visão êmica, de dentro).
e os usos das línguas bem como os padrões O pesquisador tenta apreender e retratar a vi-
culturais peculiares da comunidade. são pessoal dos participantes. Para que possa
Conforme André (1995), em uma pes- melhor apreender os significados, o pesqui-
quisa de metodologia etnográfica, o pesqui- sador deve aproximar-se ao máximo possível
sador é o instrumento principal na coleta e do grupo, mantendo com as pessoas envolvi-
na análise de dados, o que permite que ele das, um contato mais direto e prolongado.
responda ativamente às circunstâncias que o Na pesquisa etnográfica a especificidade
cercam, modificando técnicas de coleta, se das ações, as perspectivas e significados dos
necessário, revendo as questões que orien- atores sociais são considerados, assim como
tam a pesquisa, localizando novos sujeitos, o contexto no qual estes estão inseridos. Ao
revendo toda a metodologia ainda durante descobrir a maneira de viver e as experiên-
o desenrolar do trabalho. A pesquisa etno- cias das pessoas - a sua visão do mundo,
gráfica permite, assim, um plano de trabalho os sentimentos, ritos, padrões, significados,

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8 Denize Teis e Mirtes Teis

atitudes, comportamentos e ações –, o pes- JUNG, Neiva Maria. Eventos de letra-


quisador também avalia suas próprias ações metno em uma escola multisseriada de
enquanto pesquisador e participante do pro- uma comunidade rural bilíngüe (por-
cesso de pesquisa. tuguês/alemão). Dissertação de Mes-
trado. IEL/UNICAMP, 1997.
5 Referências bibliográficas PEREIRA, Maria Ceres; JUNG, Neiva Ma-
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