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Material de História do Paraná.

Professor: Thiago Veronezzi.

Conteúdo: O ciclo da erva-mate.


[Parte 01]

O ciclo da erva-mate.
Durante mais de cem anos – de 1820 a 1930 – a erva-mate foi absoluta na
economia e em toda a vida paranaense. Era a principal riqueza produzida. Toda a
vida econômica, social, política e cultural girava em torno da erva-mate. Os ervais
se estendiam pelo planalto paranaense até o Rio Paraná, principalmente de Guaíra
para baixo, penetrando no Mato Grosso, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A erva-mate1 (Ilex paraguaryensis2) é uma árvore nativa das florestas
paranaenses, chamada em outros tempos de Congonha3, e, desde tempos muito
antigos, era consumida pelos indígenas paranaenses e do Sul em forma de
“chimarrão4”. Os índios a chamavam de “caá”5, e os espanhóis já a conheciam
quando fundaram as vilas de Ciudad Real Del Guairá e Vila Rica do Espírito
Santo6.
Após assimilarem o seu uso, os colonizadores passaram a explorar Área de ocorrência natural da erva-mate.
economicamente os ervais nativos e, com o tempo, os cultivados. Criou-se um
considerável aparato empresarial envolvendo a produção da erva-mate, seu beneficiamento, transporte e
comercialização7.
Na verdade, a princípio, os jesuítas até julgaram que a erva teria
poderes sobrenaturais malignos e chegaram, por um curto período de tempo,
a proibirem entre os índios o seu uso. Chamavam-na, inclusive, de “erva do
diabo”, devido ao fato de que os índios lhe atribuíam influências
consideráveis sobre as suas emoções, inclusive sobre aspectos sexuais
(erotismo e virilidade). Mas, posteriormente, reconhecendo o incrível valor
de negociação da erva, os espanhóis se sujeitaram ao seu cultivo; além do
mais, a interdição religiosa não foi suficiente para diminuir o consumo e
arrefecer os hábitos já seculares da população. Ademais, muitas vezes a
erva-mate foi utilizada como moeda de troca nas posses coloniais
Área de ocorrência silvestre da erva-
1 mate no
A erva-mate pertence Paraná.
à família das aquifoliáceas. Sua árvore pode atingir de sete a quinze metros de altura. O caule é cinza e curto e as folhas são ovais. A
planta floresce nos meses de outubro e dezembro. O fruto é pequeno de cor verde ou vermelho arroxeado e amadurecem de janeiro a março. As chuvas bem
distribuídas durante o ano, temperaturas entre quinze e vinte graus, e as geadas favorecem o crescimento da planta.
2 A classificação e a descrição científica da planta devem-se a Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), botânico e naturalista francês que percorreu o Brasil de

1816 a 1822 e que depois de estudar a erva-mate a nomeou de Ilex paraguaryensis.


3 Os portugueses conheceram o mate quando de suas incursões a Guairá (1628-1632) para a expulsão dos espanhóis. Levado a São Paulo, o costume de

bebê-lo logo se firmou entre o povo mais simples e com o aumento da procura pelo produto verificou-se que os índios Kaingangs que habitavam o planalto
curitibano conheciam a erva-mate, a qual denominavam congoin.
4 A origem do chimarrão está nos primeiros achados da erva-mate e datam de mil anos antes de Cristo. Ademais, a erva era moída com outros objetos em

oferendas para os mortos, no Peru. Os índios Guaranis que habitavam a região das bacias dos rios Paraguai, Uruguai e Paraná faziam o uso da erva para
preparar uma bebida estimulante que se chamava “caá-i” que significa em guarani “água de erva/folha”. As folhas da erva eram colocadas em uma cuia com
água e o líquido era chupado por uma taquara ou osso, que se chamava tacuapi.
5 Com a chegada dos espanhóis ao Paraguai e o contato mais direto com os Guaranis e outros povos indígenas habitantes da região de Guairá, o hábito de

tomar a infusão, que os índios chamavam caá-i (água de folha/erva) feita com as folhas da árvore que chamavam de caá, se generalizou entre os
conquistadores que se encarregaram inclusive de divulgar os seus benefícios, o que em pouco tempo fez a fama da bebida se espalhar por toda a região sul
do continente.
6 BONDARIK, R.; KOVALESKI, J. L.; PILATTI, L. A. A produção de erva-mate e a iniciação industrial do Paraná. 2006.
7 BONDARIK, R.; KOVALESKI, J. L.; PILATTI, L. A. A produção de erva-mate e a iniciação industrial do Paraná. 2006.
espanholas.
A difusão do consumo da erva-mate, em forma de chimarrão pela região platina deve-se a uma série de
fatores, dentre os quais: necessidade de melhorar o sabor da água salobra (salgada) misturando-a com folhas da erva;
ausência de outras culturas alimentares para atender o vaqueiro ou boiadeiro em longas caminhadas; e por último,
como havia pouca disponibilidade de alimentos, o consumo da erva-mate eliminava a sensação de fome, devido aos
seus nutrientes.
Neste contexto, em 1772, quando estruturada os primórdios da dominação portuguesa na região, houve uma
Carta Régia na qual determinava que fosse permitido aos habitantes do sul do Brasil que estabelecessem relações
comerciais com a Colônia do Sacramento (Uruguai) e Buenos Aires. Outros produtos também poderiam ser
exportados pelo Porto de Paranaguá. Na prática, isso representava o fim do monopólio comercial português na região
e do exclusivo colonial. A autorização de livre comércio foi uma tentativa da Coroa portuguesa em terminar com o
marasmo econômico da região sul8.
Todavia, mesmo tendo recebido uma oportunidade excelente de ampliar os horizontes econômicos, a
população de Paranaguá e Curitiba não aproveitaram a oportunidade. Tal fato deve-se às técnicas inadequadas
empregadas na transformação da erva em produto apto à comercialização. Os problemas causados se davam devido à
maneira pouco adequada em se transportar à mercadoria (a região não dispunha de estradas) e devido à concorrência
do Paraguai, na época o maior produtor de mate, responsável pelo abastecimento dos países vizinhos como Uruguai e
Argentina.
Somente anos depois, a erva-mate ressurgiu como produto de exportação paranaense: em 1813, quando o
ditador paraguaio Gaspar Francia, iniciando uma política de isolamento do país na comunidade sul-americana,
proibiu a exportação de erva-mate para os mercados consumidores de Buenos Aires e Montevidéu. Tal medida
política paraguaia levou com que os países consumidores buscassem o mate em outras regiões produtoras. Sendo
assim, o Paraná adquire notável importância.
Neste período, destaca-se a figura de Francisco Alzagaray, responsável pela introdução de novas técnicas de
produção e beneficiamento da erva-mate no Paraná, iniciando um segundo ciclo no aproveitamento do mate
paranaense. Assim, a partir de 1820, o Paraná conquistou os mercados argentinos e uruguaios. Neste contexto, por
volta de 1826, a 5ª Comarca transforma o mate em seu principal produto de comércio.
A região do alto Paraná foi a primeira a produzir e negociar com a erva-mate, em especial devido à facilidade
do transporte pelos rios Paraná, Paraguai e Prata. Devido à instabilidade política nessa região produtora, os
consumidores começaram a se voltar para o atual Estado do Paraná e Santa Catarina. Os ervais nativos dessas regiões
passaram a suprir as necessidades de consumo que existiam na Argentina, Uruguai e Chile, sendo que a extração
ocorria já no Paraná desde o século XVIII, quando o governo português demonstrou seu interesse por essa atividade
econômica9.

8
Esse pode ser considerado o primeiro ciclo econômico da erva-mate, e vai até o ano de 1820, aproximadamente. Neste período, ainda não
podemos falar de beneficiamento industrial do produto. A produção tinha características primitivas e rudimentares e atendia mais ao
consumo interno, não tendo ainda se transformado em produto de exportação.
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BONDARIK, R.; KOVALESKI, J. L.; PILATTI, L. A. A produção de erva-mate e a iniciação industrial do Paraná. 2006.

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