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RELECTIO DE INDIS RECENTER INVENTIS

Vitória divide a controvérsia sobre os índios em três partes: na primeira parte,


Vitória trata da realidade e veracidade do domínio dos índios sobre seus bens,
negada por alguns partidários da conquista; na segunda parte, Vitória discute títulos
que eram alegados como legítimos para justificar a dominação e conquista
espanhola, sendo todos refutados um a um por ele; na terceira parte, Vitória trata
dos títulos que ele próprio julga legítimos para justificar o domínio espanhol (tratando
também de um título que ele não chega a considerar legítimo, mas que pesa razões
a favor e contra). Analisaremos o texto de Vitória adotando também a mesma
divisão.

3.1 Primeira parte: sobre os índios recém-descobertos

Antes de iniciar a matéria da primeira controvérsia propriamente dita, isto é,


de tratar da legitimidade do domínio espanhol sobre os índios e suas terras, Vitória
se volta a considerar o argumento de que a própria discussão em si seria ociosa. De
fato, alguns defensores da conquista e dominação espanhola afirmavam que a
discussão nem sequer se punha e enumeravam diversas razões para defender a
inutilidade de engajar em tais debates. Os argumentos dos defensores da conquista
e dominação se baseavam, sobretudo, na tese de que as obrigações de consciência
dos conquistadores não teriam sido violadas. Não tendo sido violadas as obrigações
de consciência, os atos de conquista e submissão promovidos pelos espanhóis
seriam, em princípio, lícitos.

Em suma, aquilo que está pressuposto pelo argumento é que, para que
tivesse havido pecado ou imoralidade que viciasse as ações dos espanhóis, teria
sido preciso haver violação de algum dever de consciência (reconhecer que um ato
é imoral e mesmo assim levá-lo a cabo) ou negligência em prestar o tempo devido
às reflexões que poderiam ter feito perceber a imoralidade (ter a obrigação de refletir
sobre as razões, mas se furtar a fazê-lo). No entanto, segue o argumento, tal
violação ou negligência estaria ausente e, portanto, os atos cometidos pelos
espanhóis não poderiam ser objeto de condenação ou reprovação.
2

Um dos argumentos seria que os príncipes não estariam sequer obrigados a


examinar e tratar sobre direitos e títulos sobre os quais já se deliberou, sobretudo
tratando-se de territórios ocupados de boa fé e em posse pacífica. Em favor, poder-
se-ia alegar que se todos tivessem que consultar suas consciências sempre sobre
tudo, este processo se estenderia infinitamente e ninguém decidiria nada. O
imperador teria de examinar a legitimidade do próprio império, e do direito que o pai
dele tinha sobre o império e o passou para si, do avô, etc. 1

Forte argumento também em favor da objeção pela inutilidade da controvérsia


é a justificada presunção de que os príncipes que primeiro ocuparam a América
(Fernando e Isabela), sendo muitíssimo piedosos 2, teriam examinado suas
consciências adequadamente antes de proceder à ocupação. Questionar este
presumido exame trataria consigo, portanto, a indignidade de duvidar da piedade e
prudência de reis que eram universalmente tidos por justos e religiosos.

Estas razões, no entanto, não convencem Vitória, que possui respostas para
elas e defende a relevância de seu debate. Vitória inicia distinguindo dois casos em
que a deliberação não é necessária: o impossível e o evidente. O impossível, porque
sua própria natureza repudia; o evidente, porque o notoriamente moral ou imoral de
si dispensa a reflexão. Ninguém tem que consultar a consciência para saber que tem
o dever de ser justo, nem para saber que não pode pretender ser justo cometendo
injustiças. De fato, tal consulta não seria digna de um cristão. 3

Todos os outros casos em que haja motivos racionais para duvidar se


determinada ação seria justa ou injusta, boa ou má, será preciso consultar a
consciência. Levar a cabo uma ação de caráter moral duvidoso antes de deliberar e
assegurar-se de sua licitude seria imoral, não importando a mera opinião particular
do indivíduo sobre ela. Também não seria o caso de alegar uma ignorância
invencível que, por sua natureza invencível, o eximisse de responsabilidade moral,
uma vez que teria faltado mesmo com a mais básica responsabilidade de se dispor a
averiguar a licitude ou a ilicitude do ato. Vitória, seguindo Aristóteles, afirma que nos
casos duvidosos há de se consultar o parecer dos sábios, pelo que se conclui,

1
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 33.
2
Com efeito, estes são comumente referidos por meio da expressão os reis católicos.
3
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 33-4.
3

analogamente, que nos casos que dizem respeito à religião, à salvação da alma, é
preciso crer no que a Igreja ensina.4

No que diz respeito ao tratamento que há de se dispensar aos índios em


específico, está claro que a questão não é nem tão evidentemente injusta que não
se possa discutir, nem tão justa que não se possa duvidar. De fato, por um lado,
houve descrições de barbárie por partes dos índios, sacrifícios humanos,
canibalismo, etc.; por outro lado, também há notícia de abusos cometidos por
espanhóis, que teriam matado e tomado bens de indígenas inofensivos. Para Vitória,
isto parece ser motivo claro no sentido de que a questão está aberta para discussão,
mais do que isso, que o assunto deve ser amplamente discutido, antes que se
continue cometendo atos possivelmente imorais.5

Vitória nega, ademais, que a questão já tenha sido devidamente tratada por
teólogos reputados. Embora a opinião de jurisconsultos possa ser levada em conta
(como frequentemente é por parte dos defensores da conquista, já que ambos
tendem a convergir em suas conclusões), Vitória 6 afirma que a presente questão não
está sujeita à resolução por reflexão sobre as leis humanas e sim sobre as leis
divinas, motivo pelo qual a consulta à Igreja é absolutamente indispensável.

Em segundo lugar, corresponderia dizer que não pertence aos


jurisconsultos falar sobre este assunto, ou ao menos, apenas a eles.
Porque como aqueles bárbaros... não estão sujeitos ao direito
humano, seus assuntos não podem, portanto, ser resolvidos pelas
leis humanas, mas sim pelas divinas, nas quais os juristas não estão
suficientemente versados para poder emitir pareceres. E eu
desconheço que para o estudo e solução desta questão tenham sido
convocados teólogos dignos que pudessem ser ouvidos com respeito
em assunto de tamanha importância. (tradução nossa).

Neste ponto, convém notar que a distinção de Vitória talvez trabalhe contra
ele. Embora o sentido da afirmação de Vitória pareça indicar que está se referindo a
leis humanas em particular (isto é, os índios não poderiam ser submetidos às leis
humanas promulgadas pelos espanhóis e aos quais estes últimos se sujeitam),

4
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 35.
5
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 37.
6
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 38.
4

quando diz que os índios “não estão sujeitos ao direito humano” 7, há uma conotação
um tanto desumanizadora na sua formulação. Vitória tampouco especifica quais leis
divinas estariam em questão aqui.

Vitória também não desabona de todo parte da objeção levantada, deixando


parte dela não respondida, ao menos não explicitamente. Que dizer, afinal, dos
príncipes que teriam ao menos tacitamente consentido o tratamento que até então
era dispensado aos índios? Talvez fosse possível escusá-los em parte indicando a
dificuldade material em obter relatos fidedignos e em exercer algum controle direto
sobre o que acontecia do outro lado do Atlântico, pelo que não teriam sido
totalmente imprudentes em deixar de proibir expressamente algo sobre o que nem
sequer podiam avaliar com clareza (ainda mais com o testemunho dos jurisconsultos
favorecendo a ocupação); afinal, tratava-se de fato de uma circunstância histórica
com vários componentes de novidade.

Vitória, no entanto, não oferece nenhuma destas razões. Parece dar-se por
satisfeito ao considerar que basta o argumento de que a matéria é séria e
controvérsia e que, portanto, há de ser debatida. Ainda que argumentos e razões de
importância secundária (como a autoridade da ação dos príncipes que eram tidos
por religiosos e prudentes) possam ser levados em conta, a necessidade de levar o
debate adiante permanece.

Resolvida a questão de fundo acerca da conveniência de sequer pôr a


controvérsia, Vitória passa a tratar dela em si mesma, discutindo as questões
principais sobre o tratamento dos índios por partes dos espanhóis.

A primeira questão que Vitória analisa é saber se os índios, antes da chegada


dos espanhóis, eram verdadeiros donos pública e privadamente.

Em favor da negativa, Vitória apresenta um argumento baseado na suposta


servidão natural dos índios. Servos naturais seriam aqueles que carecem da razão
necessária para governarem-se a si mesmos, tendo capacidade racional suficiente
apenas para fazer aquilo que lhes mandam, e assim carecendo de domínio
verdadeiro sobre qualquer coisa. Ora, continua a objeção, se a definição de servo se
aplica a alguém, há de se aplicar aos índios bárbaros, que parecem estar muito
7
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 38.
5

próximos dos animais irracionais e carecem de toda habilidade de governo, convindo


mais que sejam regidos por outros, do que rejam a si próprios. 8

Em favor da afirmativa, Vitória defende (e esta é de fato sua opinião), que os


índios estavam pública e privadamente em posse pacífica de suas coisas e assim
devem ser tidos por verdadeiros senhores, não se podendo despojá-los de seus
bens sem justa causa.

Vitória então continua, notando que se os índios não tivessem domínio,


poderia ser apenas por serem pecadores ou infiéis ou dementes e idiotas. Com
efeito, estas eram aparentemente as razões comumente levantadas para negar que
alguém tivesse domínio sobre algo. Vitória passar a analisar cada uma dessas
justificativas pelas quais os índios não teriam domínio verdadeiro algum.

Em primeiro lugar, Vitória lida com a objeção de que a graça é título de


domínio e que, portanto, o pecador, destituído da graça, não pode ter título de
domínio.

A graça, em sentido teológico, é a participação na vida divina; enquanto


estado é aquele que se alcança pela liberalidade de Deus (donde vem o termo), mas
que exige nosso desejo de participar nesta vida divina, desejo este que não pode
coexistir com o pecado.9

Assim, o pecador não possui graça e, se a graça é exigência para o título de


domínio, parece que o pecador não possui direito a títulos de domínio. Há uma série
de razões nesse sentido. Por exemplo, todo domínio provém da autoridade divina,
uma vez que Deus quem criou todas as coisas, parece que quem desobedece a
Deus, pecando, não pode mais fazer jus aos domínios que antes detinha. 10

Vitória rechaça veemente esta tese. Em se tratando de uma tese teológica,


Vitória se vale, sobretudo, do fato de que inúmeras vezes a Bíblia (e homens justos
e religiosos cujas histórias estão nela contidas) tratam príncipes injustos e

8
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 39.
9
Para um tratamento exaustivo da noção de graça segundo a teologia católica. Veja-se: Suma
teológica, Ia-IIae, q. 109-114, em especial q. 109 e 110. Cf. AQUINO, Tomás de. Suma Teológica.
IV. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2010. pp. 841-938.
10
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 40.
6

gravemente pecadores como verdadeiros príncipes (não lhes negando, portanto,


títulos de domínio).11

Assim, Vitória considera ser claramente herético, isto é, contra a ortodoxia


católica, afirmar que o pecado implique em perda de domínio. No entanto, como
outras razões em particular se levantam para questionar o domínio, Vitória trata em
específico da objeção de que um pecado de heresia seja razão de perda de
domínio. A heresia, sendo um caso especial e particular de pecado, parece merecer
um tratamento em separado.

Vitória afasta a possibilidade de que a heresia possa constituir ocasião de


perda de domínio também por via de diversos motivos. Vitória menciona, por
exemplo, o argumento que Tomás de Aquino traria na Suma Teológica IIa-IIae, q.
10, a. 12. Consultando a Suma Teológica, no entanto, não é possível encontrar
nenhum trecho que guarde relevância com o que Vitória está debatendo (o artigo 12
se nomeia “devem os filhos dos judeus e demais infiéis ser batizados [ainda que]
contra a vontade dos pais?” 12). Há indícios de que Vitória esteja se referindo ao
artigo 10 (“podem os infiéis ter autoridade ou domínio sobre os fiéis?”), onde se pode
encontrar o seguinte excerto:

O direito divino, fundado na graça, não destrói o direito humano que


vem da razão natural. Por isso, a distinção de fiéis e infiéis,
considerada em si, não elimina o domínio e o governo dos infiéis
sobre os fiéis.13 (tradução nossa).

Em todo caso, também há de se lembrar novamente que há diversas


passagens bíblicas que ordenam prestar obediência a todos príncipes, mesmo os
infiéis.14 De modo que, a infidelidade, de si, não priva de direitos naturais nem de
direitos instituídos pela lei humana, assim os domínios pertencentes ao direito
natural e ao humano não se perdem por falta de fé. (Vitória admite, por outro lado,
que uma lei humana possa determinar que a perda de domínio, em certos casos,

11
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 41-3.
12
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. p. 174.
13
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. p. 171.
14
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 43-4.
7

possa ser uma consequência da infidelidade. No entanto, nada exige que a lei
humana necessariamente vá nesse sentido.)15

Resta ainda, no entanto, a questão de se os idiotas e dementes, entendidos


como aqueles que não possuem o uso pleno da razão e nem têm esperança de um
dia alcançá-la, podem ter títulos de domínio. Vitória argumenta haver indícios de que
mesmo estes possam. Parece que os dementes podem sofrer injúria (é imoral, por
exemplo, agredir um demente), logo, podem ter direitos (por exemplo, o direito à
integridade física).16

Vitória não se demora mais nesta questão, faltando, por exemplo, estabelecer
que haveria neste caso o direito natural à propriedade e domínio. Ademais, parece
ser possível levantar a seguinte objeção ao argumento de Vitória: há também uma
intuição moral forte no sentido de que animais irracionais podem, em algum grau,
sofrer injúria; afinal, infligir sofrimento gratuito a um animal parece ser algo imoral, no
entanto, nem por isso dizemos que os animais podem ter títulos de domínio. Vitória
não pode dizer que caso do demente é diferente porque ele tem um direito que foi
injuriado enquanto os animais não têm, porque é justamente a existência deste
direito que ele está tentando provar.

Parece que a pouca importância que Vitória dá a esta questão advém do fato
de ser bem claro a ele que os índios não são dementes. Se não fossem ao menos
em alguma medida racionais, não poderiam organizar-se socialmente, como é
patente e inegável que se organizam: com leis, magistrados, religião, artesãos,
mercados, etc. Ainda que em todas estas atividades os índios estivessem longe em
refinamento dos espanhóis, em alguma medida imperfeita elas inegavelmente
existiam.

Ademais, a obtusidade e insensatez que se afirma existir no modo de agir e


viver dos índios se deve, para Vitória, à má e bárbara educação que receberam, não
de uma limitação intrínseca à sua natureza, pela qual seriam menos que humanos.
E, de fato, como o próprio Vitória reconhece, entre os próprios espanhóis não faltam

15
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 44.
16
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 50.
8

homens tão rústicos e brutos que poucas diferenças guardam com os animais
irracionais.17

Por todos motivos anteriores, está claro para Vitória que os índios, inclusive
antes da chegada dos espanhóis, eram verdadeiros donos de seus bens, tanto
pública como privadamente.

3.2 Segunda parte: sobre os títulos não legítimos

Uma vez tendo julgado ter dado razões suficientes para afirmar que os índios
eram verdadeiros donos dos bens que tinham por seus, Vitória passa a analisar os
títulos em virtude dos quais os espanhóis alegavam que o domínio sobre bens dos
índios poderiam passar a ser deles. Segundo Vitória, aduziram-se sete títulos
injustos e sete títulos justos (e um oitavo título justo provável). Vitória trata em um
primeiro momento dos títulos que julga ser injustos antes de passar aos que acredita
ser justos.

Vitória inicia pelo primeiro título injusto, que alegava que o imperador é
senhor do mundo. Os defensores deste título afirmam que ainda que os índios sejam
verdadeiros senhores de suas terras e bens, pode-se pensar em senhores
superiores a eles, como seria o caso do imperador, que teria em virtude de ser seu
senhor, poder de ocupar suas províncias e tomar seus bens.

A própria noção de imperador, que hoje soa caduca, ainda detinha uma
relevância considerável à época de Vitória. O vasto Império Romano que havia
subjugado quase todo mundo conhecido e se cristianizara, há muito já não existia no
Ocidente e há pouco havia caído em mãos dos turcos no Oriente. O chamado Sacro
Império foi o herdeiro político do Império Romano no Ocidente (com efeito, Carlos
Magno foi coroado como imperador romano pelo papa Leão III), estendendo-se pela
Europa Ocidental com contornos algo semelhantes aos do antigo Império Romano.
Durante os debates empreendidos por Vitória, o imperador do Sacro Império
acontecia de ser Carlos V (1500-1558), também rei da Espanha, e ainda havia quem
esperasse, lembrando as pretensões expansionistas romanas, que o mundo seria
unificado sob uma única coroa.18
17
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 51.
18
FRAILE, Guillermo. Historia de la Filosofía II (3.º). Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1966.
9

Em favor do primado do imperador sobre todo o mundo, Vitória aduz os


argumentos comumente utilizados pelos defensores de tal título, como a opinião de
notórios juristas e algumas interpretações de excertos bíblicos. Chama à atenção,
um argumento composto de razões teológicas e filosóficas que é apresentado: por
um lado, Deus faz tudo de modo excelente, por outro, autoridades como Aristóteles
e Tomás de Aquino19 concordam que a melhor forma de governo é a monarquia; de
maneira que convém haver um imperador, por instituição divina, de todo o mundo.

Estas razões, no entanto, de modo algum convencem Vitória, para o qual o


imperador não é senhor de todo o mundo. Vitória inicia sua argumentação
distinguindo que o domínio pode existir apenas ou em virtude de direito natural ou
direito divino ou direito humano, mas por nenhum destes direitos há um senhor do
mundo.

Para argumentar que não há senhor do mundo por direito natural, Vitória
endossa a tese tomista de que por direito natural os homens são livres (excetuando-
se os domínios paterno e marital, que advêm da estrita dependência de
sobrevivência que os filhos guardam para com os pais e a mulher, em sociedades
antigas, para com o marido), não havendo razão alguma para crer que haja algo
como um direito natural de dominar todo o mundo. 20

Também não há, para Vitória, razões que demonstrem existir alguma espécie
de “direito divino” ao senhorio do mundo. Não há evidências que se possam tirar da
Bíblia ou da história. No Antigo Testamento, Deus fez Israel independente de todos
domínios estrangeiros, mas sem também dar-lhes domínio sobre todos os outros
povos. Desde a vinda de Cristo, tampouco a ninguém foi outorgado este poder, ao
contrário, Cristo insiste nos Evangelhos que seu reino “não é deste mundo”. 21

No que diz respeito ao direito humano (isto é, aquele instituído por leis
humanas positivas), há uma impossibilidade lógica de que haja uma lei unicamente
baseada em direito humano que outorgasse o senhorio do mundo a alguém em

19
Vitória afirma que estas teses estão contidas no escrito de Tomás chamado De regimine principium
e na Política (livro III) de Aristóteles. Cf. VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el
derecho de guerra. 3.ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1975. p. 55.
20
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 56.
21
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 56-60.
10

particular, porque a promulgação desta lei dependeria de uma jurisdição sobre todo
o mundo que não se pode ter antes de já ser senhor do mundo. 22

Ademais, Vitória atenta para o fato de que mesmo os que concediam que o
imperador fosse senhor do mundo, afirmavam que seu domínio não era de
propriedade, mas apenas de jurisdição. Isto é, o imperador não podia à sua livre
disposição dar e tomar propriedades que pertencem legitimamente a outros
indivíduos. Pelo que se conclui com ainda maior clareza que o imperador não tinha
poder de ocupar as províncias dos índios e instituir seus dignitários como líderes
locais.23

O segundo título que se alega para justificar a posse das províncias indígenas
pelos espanhóis é a autoridade do Sumo Pontífice. Os defensores deste título
afirmam que o Papa é rei de todo o mundo também no aspecto temporal e, por
conseguinte, poderia, tal como inclusive fez 24, instituir os reis dos espanhóis como
príncipes dos índios e das regiões que estes ocupam. Vitória a seguir enumera
alguns argumentos que corroborariam a tese dos defensores do título, todas elas no
sentido de dizer que o Papa, como vigário de Cristo na Terra, possui poder inclusive
temporal sobre todo o mundo, que pode instituir os príncipes espanhóis como
senhores das terras descobertas e que a recusa por parte dos indígenas de assentir
à autoridade da coroa espanhola seria uma injúria ao direito papal sobre o mundo,
caracterizando assim motivo lícito para empreender guerra contra os índios.

Vitória oferece uma longa lista de razões para refutar a tese dos defensores.
Em primeiro lugar, Vitória afirma que o Papa não possui poder temporal sobre todo o
mundo. Em seu favor, Vitória lembra que o próprio Cristo não teve poder temporal
(ao menos é a opinião de Tomás de Aquino) 25 e que os Papas jamais reclamaram tal
domínio, ao contrário, teriam o negado diversas vezes. Ademais, assim como na
discussão sobre o poder do imperador, tal domínio corresponderia ao Papa apenas
22
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 60-1.
23
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 61.
24
Conforme demonstrado ao tratarmos, no subtítulo 2.1, sobre a edição da bula papal Inter Coetera
(1493), quando o Papa Alexandre VI, invocando sua autoridade de vigário de Cristo que exerce na
terra, realiza a doação dos territórios descobertos aos reis da Espanha, constituindo-os príncipes
daqueles povos.
25
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 63
11

em virtude de direito natural, divino ou humano. Não há nenhuma evidência que seja
qualquer desses casos. Também, as palavras que Cristo dirige a Pedro são
“apascenta minhas ovelhas”, o que para Vitória torna manifesto que o poder
pontifício se trata de um poder espiritual e não temporal. 26

A conclusão final de Vitória é que o Papa não possui nenhum poder temporal
sobre os índios, portanto, a recusa destes em prestar anuência ao determinado pelo
Papa não constitui injúria, nem motivo válido para que se mova guerra contra eles e
sejam tomados seus bens.

O terceiro título alegado é o chamado direito de descobrimento. Parece que,


segundo o direito natural e o direito das gentes, o domínio dos lugares desertos é
daquele que os ocupa. Tendo sido os espanhóis os primeiros a descobrir e ocupar
aquelas províncias, então eles as possuíam licitamente. Vitória rechaça este título
atentando para o simples fato de que, como ficou estabelecido na parte anterior da
relectio, os índios são verdadeiros donos de seus bens, ora, não carecendo os bens
de dono, não podem os espanhóis se apoderarem deles. 27

O quarto título que se alega é que a rejeição da fé em Cristo, não obstante


esta ter sido proposta e os índios terem sido exortados a abraçá-la. Ao longo da
análise deste título, Vitória se debruça sobre diversas matérias, aquela decisiva, no
entanto, é que ainda que a fé tenha sido proposta aos índios e estes a recusem, a
recusa de si não constitui uma injúria contra os espanhóis e, portanto, não há motivo
justo para empreender guerra. Vitória se baseia aqui em dos requisitos que Tomás
de Aquino aponta como necessários para que uma guerra seja considerada justa (e,
portanto, lícita): “uma causa justa: requer-se que o inimigo seja atacado em razão de
alguma culpa” 28.

A questão da guerra justa será desenvolvida em maior extensão na próxima


relectio, mas, por ora, basta pontuar que não havendo afronta clara e distinta dos
índios a algum direito espanhol, não pode haver justo motivo para guerrear contra
eles, e que a recusa de receber a fé cristã de si não fere nenhum direito espanhol. 29
26
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 64.
27
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 68-9.
28
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. pp. 517-8.
29
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 76.
12

Vitória acrescenta, ademais, que a guerra em si não constitui argumento em favor da


verdade da fé cristã. Pela guerra, os índios não podem ser inclinados a crer, mas
apenas a fingir que creem e abraçam a fé cristã, o que de si é cruel e sacrílego. 30

O quinto título afirma, em caráter subsidiário, que, se por um lado não se


pode fazer guerra aos índios por razão de sua infidelidade ou por recusa de receber
a fé cristã, pode-se combatê-los por seus outros graves pecados mortais. Segundo
Vitória, o objetor aqui tem em mente o fato de que muitos dos índios cometeriam
habitualmente pecados como sacrifícios humanos, canibalismo, bestialidade,
incesto, sodomia, etc. A resposta de Vitória compreende várias razões, a mais
importante, no entanto, parece ser a já tratada ausência de qualquer autoridade por
parte do Papa ou dos príncipes cristãos sob os indígenas para infligir-lhes castigo,
pelo simples fato de que se pecados mortais pudessem dar ensejo a este tipo de
resposta (guerra), o Papa e os príncipes cristãos haveriam de declarar guerra uns
contra os outros todo o tempo, visto que pecados graves também ocorrem entre
cristãos.31

O sexto título pelo qual se alega que a eleição voluntária do rei da Espanha,
por parte dos índios, como seu senhor, baseado na manifestação externa de
anuência, bastaria para assegurar ao príncipe espanhol o domínio sobre os bens
dos índios. Como ficará claro na análise da parte seguinte da relectio32, Vitória não
crê que a eleição de si possa conferir título justo ou injusto, aquilo que importa é o
modo como tal eleição há de ser realizada. No presente caso, Vitória claramente tem
em mente o caso de falsas eleições, sobretudo motivadas pelo medo e ignorância
dos índios, que, tendo por tais motivos sua vontade viciada, não elegem
verdadeiramente ninguém.33 Adiante, por outro lado, Vitória admite que a eleição
verdadeira e voluntária é título justo.

O sétimo título possivelmente invocado é a doação especial de Deus. Vitória –


não é possível precisar se ironicamente – diz que alguns, “não sei bem quem”,
afirmam que Deus, em seus juízos particulares, teria condenado todos os bárbaros

30
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 79.
31
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 79-81.
32
Consulte-se a terceira parte desta relectio, na sub-secção 3.3.
33
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 83.
13

índios à perdição por conta de suas abominações e teria os entregado ao poder e


domínio dos espanhóis. Pela descrição que Vitória faz a seguir, aqueles que
defendem este título defendem-no como uma espécie de revelação particular de
Deus, isto é, como se Deus houvesse por meio de alguma manifestação particular
revelado a um indivíduo sua vontade quanto a uma questão específica. Vitória revela
certo ceticismo com relação a este título e argumenta que não é prudente acreditar
em quem sustenta “profecias” que são contra a lei comum (que, como foi visto ao
longo da relectio, não retira dos índios seus domínios) e contra as regras da
Escritura (que tampouco). Ademais, não há nenhuma comprovação externa da
origem divina desta doutrina, como um milagre, que poderia pesar em seu favor,
pelo que deve ser rechaçada.34

E com a refutação deste sétimo título como inidôneo, Vitória encerra o


tratamento dos títulos injustos.

3.3 Terceira parte: sobre os títulos legítimos

O primeiro título é o de sociedade natural e de comunicação. Vitória afirma


que os espanhóis têm direito a viajar e permanecer pacificamente nas províncias
dominadas pelos índios, sem que os bárbaros lhes possam proibir. Segundo o
mesmo Vitória, isto se deriva, por exemplo, do direito das gentes, isto é, aquele
direito “que a razão natural constituiu em todas as nações” 35. Pois, com efeito, em
todas as nações se tem por inumano maltratar hóspedes e peregrinos – a menos
que estes apresentem perigo ou causem danos às nações. Vitória enumera uma
série de outras razões36, todas elas no sentido de que nada indica haver proibição,
seja de direito divino, natural ou humano, e tudo indica permissão de que os
espanhóis detenham esse direito.

Por motivos muito semelhantes (direito das gentes, ausência de proibições e


aparentes permissões por parte dos direitos divino, natural e humano), há de se
permitir o comércio entre espanhóis e índios e há de se requerer que os índios

34
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 84.
35
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 88.
36
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 88-90.
14

dispensem aos espanhóis os mesmos direitos que dispensam aos estrangeiros


(inclusive os equivalentes à “cidadania” em seus termos). 37

Se os índios quiserem privar os espanhóis, continua Vitória, de algum destes


direitos ou impedir-lhes de viver pacificamente entre os próprios, os espanhóis terão
de insistir, por meio de razões e conselhos, mostrando o caráter amigável de suas
intenções e deixando clara a vontade de permanecer sem causar qualquer dano. Se,
apesar disso, os índios não quiserem consentir e responderem com a violência,
então os espanhóis terão justo motivo para se defender, inclusive também valendo-
se da força. Se os índios lhes infligirem injúrias, também será lícito aos espanhóis,
com a autoridade do príncipe, vingar-se com a guerra e usar os demais direitos de
guerra (evitando, o quanto possível, danos desnecessários). 38 39

Outro título justo que pode existir é a propagação da religião cristã. Com
efeito, Vitória concorda que os cristãos têm o direito de predicar o Evangelho nas
províncias dos bárbaros. Trata-se até de mais do que um direito por parte dos
cristãos, trata-se de um dever de caridade para com os índios. Não podendo haver
injúria ou imoralidade em pregar a verdade revelada por Cristo nos Evangelhos a
quem quer que seja. Se os índios permitem pacificamente a pregação do Evangelho,
nada podem os espanhóis lhes infligir, ainda que aqueles não se convertam, porque
uma guerra justa só poderia ser motivada como resposta a uma injúria, coisa que
não está presente na simples recusa a assentir ao credo católico. 40

No entanto, se os índios impedem ativamente o anúncio livre do Evangelho,


os espanhóis podem – depois de detida reflexão sobre as consequências em cada
caso particular – continuar com a pregação e inclusive empreender uma guerra que
permita segurança para pregar o Evangelho. A razão que Vitória aponta para a
permissão da guerra justa neste caso é a injúria que os índios cometeriam ao negar
aos cristãos o direito legítimo de predicar livremente a fé católica. 41

37
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 90-3.
38
Veja-se o próximo capítulo desta monografia, onde se discute o direito de guerra.
39
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 94-6.
40
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 98.
41
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 98-9.
15

Vitória menciona a seguir outros títulos que estão baseados na mesma ideia
de fundo: o catolicismo é a religião verdadeira. Os predicadores católicos possuem o
direito de se manifestar livremente ensinando a religião verdadeira a quem nela tiver
interesse – não podendo, por outro lado, forçá-los a se converter (conforme foi
discutido anteriormente). Ninguém pode com justiça proibir alguém de dizer a
verdade. Se os índios de algum modo constrangerem os missionários espanhóis,
estarão injuriando-os, e pode ser lícito resistir a esse constrangimento, inclusive
empreendendo um esforço militar que assegure a paz propícia à propagação da fé
católica.42

Por mais que as razões de Vitória soem antiquadas em um mundo que


abraçou a pluralidade e se nega a tratar a religião da maneira como acontecia à
época de Vitória, a coerência das ideias de Vitória está clara. Pela própria natureza
do ato de fé, enquanto ato da vontade livre, ninguém pode ser obrigado a se
converter, por outro lado, enquanto a fé católica, para Vitória, é a manifestação da
verdade (e não de uma verdade qualquer, mas das mais importantes e sublimes
verdades) os missionários têm o direito de pregá-la e não podem ser constrangidos
a deixar de fazê-lo. Assim, é injusto guerrear para impor a fé, mas não é
necessariamente injusto (embora há de se analisar cada caso) guerrear para
assegurar a possibilidade de que a fé possa ser predicada aos que nela tiverem
interesse.

O próximo título que Vitória analisa é o de impedir sacrifícios de homens


inocentes e a morte de homens para fins canibais. É notório que alguns grupos de
indígenas americanos realizavam sacrifícios humanos que eram verdadeiras
hecatombes.43 Este foi, com efeito, um dos motivos que fez os espanhóis duvidarem
da humanidade dos índios e os motivou a empreender guerra contra eles. Para
Vitória, é evidente que os espanhóis podem intervir para evitar que os índios
bárbaros cometam tais atrozes injustiças e defendam a vida dos inocentes, tão
evidente que o único motivo que ele enuncia é o mandamento de Deus de zelar pelo
próximo.44

42
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p 100.
43
FRAILE, Guillermo. Historia de la Filosofía II (3.º). Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1966.
44
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 101-2.
16

Os dois últimos títulos certamente justos serão: a verdadeira e voluntária


eleição pela qual os índios, reconhecendo a humanidade dos espanhóis e a sábia
administração que eles empreendem, decidam livremente receber como príncipe o
rei da Espanha; e os frutos de amizade e aliança, por exemplo, oriundos do fato dos
espanhóis ajudarem determinado grupo de índios lutar uma guerra justa contra outro
grupo e assim participarem da partilha do espólio. 45

Vitória encerra a relectio com uma discussão sobre um último título, que ele
hesita em tomar por certo, mas se propõe a debatê-lo, considerando o que pode ter
nele de legítimo. Trata-se do título que adviria do proveito que os próprios índios
teriam em ser governados pelos espanhóis. Embora não sejam dementes, os índios
– julgavam os espanhóis – não apresentavam comportamento muito distante dos
animais brutos e, sujeitando-se ao domínio espanhol, passariam a ter uma república
verdadeiramente administrada, com verdadeiras leis e magistrados, de maneira que
todos viveriam melhor.

De fato, pode constituir até um dever de caridade procurar o bem do próximo.


Apesar de Vitória concordar com a razoabilidade destas razões, ele dá mostra de
preocupação com as implicações de afirmar que este seja um título plena e
certamente legítimo, e reafirma que esta razão só poderia ser utilizada como título
justo se levasse em conta tão somente o bem e utilidade dos índios, não o proveito
dos espanhóis.46

Sem dúvida, ao longo de toda relectio, Vitória deixa claro sua dupla
preocupação: justiça e caridade. Por respeito à justiça, ele não tergiversa sobre os
títulos que crê ser justos e injustos, apresentando-os sem delongas. Por outro lado,
por amor à caridade, ele reconhece os riscos que certos títulos aparentemente de si
lícitos – como o melhor proveito que os índios tirariam em ser governados pelos
espanhóis – podem dar ensejo a abusos que viciariam a empreitada e apresenta
todas ressalvas devidas.

45
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 102-3.
46
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 104-5.
17
18

4 RELECTIO DE INDIS, SIVE DE IURI BELLI HISPANORUM IN BARBAROS

Depois de ter tratado, na relectio anterior, sobre os títulos que os espanhóis


poderiam alegar sobre as províncias recém-descobertas na América, Vitória
acrescenta, com esta relectio, um complemento ao debate, analisando em separado
o direito de guerra a partir do qual se reivindicavam os referidos títulos de ocupação.
Por tal motivo, é apropriado o duplo título: De indis relectione posterior, sive de iure
belli.

No prólogo, Vitória deixa claro que se concentrará nas proposições principais,


oferecendo demonstrações breves e deixando de lado algumas dúvidas menos
importantes que de todo modo são suscitadas por tão complexo tema como o direito
de guerra.

A relectio é dividida em quatro questões. A primeira questão diz respeito à


licitude da guerra empreendida por parte de cristãos; a segunda, à autoridade
legítima para declarar a guerra; a terceira, às causas legítimas para uma guerra
justa; a quarta, aos atos que podem ou não ser licitamente cometidos durante uma
guerra justa. Depois de vencidas as questões principais, Vitória passa a esclarecer
uma série de “dúvidas” concernentes, mormente, à exigência de reflexão quanto às
causas da guerra por parte dos príncipes e súditos, e ao tratamento dos vencidos.

O texto de Vitória é bastante claro e descritivo, não colocando de si grandes


problemas de interpretação ou de coerência textual. Nosso intuito a seguir será
expor as teses que Vitória apresenta, unindo a elas elementos que aumentem sua
inteligibilidade.

4.1 A licitude da guerra

O desdobramento desta questão nos indica que o objetivo inicial de Vitória é


refutar a tese de que a guerra não seria de modo nenhum lícita aos cristãos. O
principal argumento em favor da tese que Vitória julga errônea advém de uma
interpretação da moral evangélica. Várias passagens do Novo Testamento parecem
esposar posições que não apenas seriam difíceis de conciliar com a permissão de
empreender guerra, mas que proibiriam quaisquer atos bélicos terminantemente. No
Sermão da Montanha, por exemplo, Cristo aconselha que aquele que for ferido em
19

um lado da face não hesite em apresentar a outra. 47 Se não devemos responder à


violência com a violência, então parece absurdo pretender que empreender uma
guerra (talvez a resposta mais violenta possível a outro ato violento) possa ser
permitido pela moral cristã. Tampouco, continua a objeção, basta responder que “dar
a outra face” é uma questão de “conselho” e não de “preceito”.

A distinção entre ambos os termos é utilizada para separar aqueles


mandamentos morais que são estritamente necessários e imprescindíveis para uma
vida cristã plena (por exemplo, o respeito aos mandamentos), que seriam os de
“preceito”; e o modo de viver que Cristo “aconselha” como aquele que, não sendo
imprescindível para uma vida cristã completa e para a salvação, no entanto, é o
mais perfeito. Ainda assim, não basta responder que evitar a guerra ou a violência
seja mera questão de conselho (portanto, de certo modo desnecessária à salvação),
porque isto implicaria admitir que todas as guerras empreendidas, todas as batalhas
travadas por cristãos foram contra o que Cristo aconselhou.48

Vitória também menciona o pacifismo de Lutero, segundo o qual não seria


lícito aos cristãos fazer guerra aos muçulmanos turcos de modo algum. Baseado nos
mesmos textos que Vitória apresenta, Lutero teria alegado que os cristãos deveriam
deixar-se invadir ou matar, submetendo-se aos desígnios da providência divina e
jamais empunhando armas contra aqueles. 49 A resposta de Vitória a esta questão se
ampara nas mais diversas razões. Vale-se da Bíblia, de Santo Agostinho, de Tomás
de Aquino, do direito romano, do consenso dos teólogos, de exemplos históricos
incontestáveis, todos afirmam em uníssono: é lícito aos cristãos militar e fazer
guerra.

A primeira razão de Vitória se baseia em uma interpretação agostiniana de


uma passagem bíblica (Evangelho segundo São Lucas, c. 3, 14) em que São João
Batista não condena soldados pela profissão que têm, nem lhes ordena que a
deixem, mas apenas que não cometam excessos e injustiças. Vitória também faz
referências a lugares na obra de Santo Agostinho (sem transcrever os excertos),

47
Evangelho segundo São Mateus, capítulos 5, versículo 39. In: BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada.
Rio de Janeiro: Vozes, 1982. p. 1183.
48
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 110.
49
URDÁNOZ, Teófilo. Obras de Francisco de Vitória. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos,
1960. p. 744.
20

mas não se preocupa em desenvolvê-las.50 Parece que a possibilidade de uma


guerra justa era algo tão evidente que Vitória não se ocupou em tratá-lo de modo
mais demorado e quis se concentrar no que era o maior problema de sua época: a
justeza das causas que motivariam a guerra.
Em segundo lugar, Vitória faz referência às razões de Tomás de Aquino 51 na
Suma Teológica (IIa-IIae, q. 40, a. 1), reproduzindo-as parcialmente, mas,
novamente, sem se demorar em distinções e elucidações, provavelmente por
assumir que sua audiência sabia perfeitamente do que falava.

Assim como [os príncipes] o defendem [o bem público] licitamente


pela espada contra os perturbadores internos quando punem os
malfeitores, segundo esta palavra do Apóstolo: “Não é em vão que
carrega a espada; é ministro de Deus para fazer justiça e castigar
aquele que faz o mal”; assim também compete-lhes defender o bem
público pela espada da guerra contra os inimigos do exterior. É por
isso que se diz aos príncipes no Salmo: “Sustentai o pobre e livrai os
infelizes da mão dos pecadores”.

Para além dos argumentos anteriores, Vitória aduz que a guerra justa é lícita
segundo a lei natural (como consta que Abraão, antes da instituição da lei mosaica,
guerreou com justiça)52 e também segundo a lei mosaica (patente nas guerras
empreendidas por Davi e pelos Macabeus). Não sendo ilícito segundo a lei natural,
não pode ser ilícito segundo a lei evangélica, porquanto, conforme Vitória
argumenta, a lei evangélica não proíbe nada que seja lícito por lei natural.

Para embasar esta afirmação, Vitória invoca o tratamento que Tomás de


Aquino teria dado à questão na Suma Teológica (Ia, q. 107, a. 4). 53 No entanto,
consultando a Suma, nota-se que o referido artigo diz respeito à relação entre a lei
evangélica e a lei mosaica, a saber, se a lei evangélica seria mais rigorosa que a
mosaica, não havendo referência explícita à razão que Vitória aduz para seu
argumento.54 Em todo caso, não é difícil supor as razões que subjazem à tese de

50
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 111.
51
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. p. 517.
52
Antes da lei mosaica, os únicos preceitos que Abrãao poderia ter violado teriam sido os preceitos
da lei natural.
53
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 122.
54
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. IV. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2010. pp. 816-9.
21

Vitória. Tendo a natureza humana sido constituída por Deus, Ele não a teria feito de
maneira que naturalmente permitisse algo que Ele próprio depois viria a proibir.

Em seguida, Vitória segue argumentando que não apenas a guerra defensiva


é lícita, mas também a guerra ofensiva. Isto é, a guerra empreendida para resgatar o
que foi tomado, para punir os inimigos culpáveis pela injúria e para evitar a audácia
de novas invasões. Com efeito, o fim da guerra é a paz e a segurança da república,
o que Vitória não crê ser possível alcançar apenas por meio da resistência às
invasões e ataques inimigos. Também é preciso persegui-los para puni-los e para
certificar que haja a compensação adequada pela guerra, bem como evitar novas
ocasiões de conflito.55

Se pensarmos no mundo como um todo, não poderia haver paz no mundo se


os tiranos pudessem impunemente infligir todo tipo de injúrias aos bons e inocentes,
enquanto que estes últimos pudessem tão somente repelir as agressões. Ao
contrário, seria como incentivar as mais cruéis guerras promovidas pelos piores
déspotas.

A última razão de Vitória advém do exemplo autoritativo de numerosos líderes


santos e justos que não apenas defenderam sua pátria, mas vingaram-se das
injúrias realizadas pelos inimigos. Não apenas no Antigo Testamento, mas mesmo
na história da Igreja cristã, Vitória encontra nos imperadores romanos Constantino e
Teodósio, homens que lutaram guerras justas sob o conselho de santos e doutos
bispos.56

Uma vez dados todos os argumentos, convém notar que Vitória não refutou
explicitamente as razões da objeção. Se muito, parece que estamos diante de
alguma contradição. Por mais que o consenso teológico e a prática de homens
santos seja em favor da possibilidade da guerra justa, que fazer diante da clara
contrariedade entre tal consenso e o conselho evangélico de dar a outra face?

Arriscando uma resposta própria, parece que estas dificuldades podem ser
resolvidas tendo em vista a diferença entre a esfera privada e a pública, entre os

55
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 112.
56
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 113.
22

deveres que temos uns para com os outros enquanto indivíduos e enquanto
membros de uma comunidade (como uma família ou uma república). Um indivíduo
pode oferecer a outra face, mas pode um pai oferecer a outra face dos próprios
filhos, ou um príncipe dos próprios súditos? Não possuem aqueles o dever de
defendê-los, inclusive a expensas da própria vida? O conselho evangélico de dar a
outra face é um conselho de abnegação individual, de desprezo caridoso de si
próprio (que, aliás, está presente nos sacríficos que os pais fazem pelos filhos). No
entanto, quando o indivíduo está obrigado (inclusive pela lei natural e pela lei divina)
a defender e zelar por outros, estão está claro que se tratam de obrigações que se
dão em níveis diferentes e que podem perfeitamente ser harmonizadas.

Em todo caso, ainda que lícito, o direito de guerrear não é um direito que se
põe como absoluto, como se seu exercício dependesse apenas da vontade livre e
eventual de algum indivíduo. Ao contrário, embora a guerra não seja em si mesma
ilícita, há uma série de condições complexas que são imprescindíveis para sua
licitude. É a elucidar e distinguir todas estas condições e suas respectivas
implicações que, veremos, Vitória dedica o resto de sua relectio57.

4.2 Autoridade competente para declarar a guerra

A primeira condição para que haja uma guerra justa e lícita é que seja
declarada por uma autoridade legítima. Ao contrário do que pode parecer, no
entanto, este é apenas o início do problema. Como identificar as verdadeiras
autoridades legítimas em uma época como a de Vitória, em que os estados
nacionais estão começando a surgir, em que não há tampouco constituições que
definam a localização deste tipo de autoridade e poder?

Vitória inicia o tratamento da questão distinguindo que a mera defesa (ou,


melhor, guerra defensiva) não depende que uma autoridade pública a permita.
Qualquer um, ainda que um simples particular, pode fazer guerra defensiva. O
direito de se defender, de manter-se incólume, de resistir a uma injúria, é um direito
que advém do próprio direito natural à vida. E isto vale tanto para as pessoas
privadas quanto para as repúblicas, não necessitando aquelas de nenhum tipo de
autorização para levá-la a cabo.
57
URDÁNOZ, Teófilo. Obras de Francisco de Vitória. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos,
1960. p. 746.
23

Por outro lado, ficou estabelecido que os fins da guerra justa não são apenas
a defesa contra a injúria, mas vão além, com a reparação dos danos, a punição dos
inimigos culpáveis e a garantia da paz futura. Segundo Vitória, todos estes fins
“ofensivos” estão para além da esfera de legitimidade dos indivíduos privados e das
repúblicas imperfeitas. Apenas à república perfeita 58 é lícito empreender a guerra. A
função da república perfeita é promover e conservar o bem público, não poderia ela
existir ou atingir seus fins próprios se não tiver, por direito natural, os meios para
tanto, entre eles, os direitos relativos à guerra justa que contribuem diretamente para
promoção e conservação do bem-estar público.59

Dentro da república, o indivíduo ou grupo de indivíduos que representam a


autoridade legítima suprema será aquele que terá também o poder de declarar e
infligir a guerra. Mas que dizer, então, do caso nada incomum na época de Vitória,
em que várias repúblicas de si perfeitas possuíam um mesmo príncipe comum ou
supremo? Podem guerrear sem autorização deste? Vitória argumenta que sim,
justamente na medida em que são perfeitas, esta faculdade está presente a elas. 60

Por outro lado, as repúblicas imperfeitas, por sua própria natureza (enquanto
fazem parte de outra e são regidas por leis e magistrados de outros lugares), não
podem declarar nem fazer a guerra. Vitória tem em mente, convém lembrar, a guerra
justa que se desdobra também em guerra ofensiva, que envolve não apenas auto-
defesa (algo lícito a todas repúblicas e pessoas), mas também a recuperação dos
bens perdidos e a punição dos inimigos culpáveis. No entanto, há exceções. Vitória
enumera dois casos em que repúblicas imperfeitas podem licitamente empreender a
guerra.

A primeira advém do costume, isto é, cidades ou príncipes que obtiveram por


antigo costume o direito de fazer por si a guerra, tendo-o o exercido ao longo do
tempo. Vitória não se demora em justificar esta exceção, mas ela parece advir da
58
Uma república é dita perfeita, no sentido de que não lhe falta nada do necessário para promoção e
administração do bem-estar público, isto é, não é parte de outra república, têm leis próprias,
assembleias e magistrados próprios. Por sua vez, uma república é dita imperfeita enquanto parte de
outra ou sua subordinada, tendo alguns dos elementos anteriores, mas lhe faltando a autonomia que
caracterizaria a perfeição. Cf. URDÁNOZ, Teófilo. Obras de Francisco de Vitória. Madrid: Biblioteca
de Autores Cristianos, 1960.
59
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 113-5.
60
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 115.
24

dificuldade em precisar em alguns casos limítrofes se determinada república em


particular poderia ser considerada ou não, ao menos sob certo aspecto, uma
república perfeita.

A segunda exceção advém de uma necessidade incontornável. Vitória dá o


exemplo de um caso em que uma cidade declarasse guerra a outra e o rei que
tivesse poder supremo sobre as duas não castigasse a cidade que injuriou a outra.
Segundo Vitória, sem esta exceção, as cidades injustamente atacadas não poderiam
se defender adequadamente, já que os inimigos não se absteriam de praticar
injustiças se os atacados pudessem tão somente resistir às injúrias. 61

4.3 Justa causa da guerra

O título ou causa justa é outra condição de licitude de toda ação bélica e


constitui o ponto central da doutrina da guerra justa. 62 Com efeito, talvez a maior
controvérsia à época de Vitória dissesse respeito à distinção entre quais seriam as
causas que poderiam motivar uma guerra justa. Parte desta questão foi tratada na
relectio anterior, mas Vitória a retoma nesta.

Antes de tudo, Vitória quer recordar a insuficiência de causas puramente


religiosas para motivar uma guerra, algo que demonstra na relectio anterior, quando
impugna o quarto título que poderia ser alegado para justificar a posse sobre os
bárbaros, a saber, o fato de se recusarem a receber a fé cristã. Esta é a opinião de
São Tomás e a sentença comum dos teólogos. Novamente, no entanto, parece
haver um equívoco na referência que Vitória faz a Tomás de Aquino. 63 Lê-se a
referência à Suma Teológica IIa-IIae, q. 66, art. 8, quando, no entanto, esta questão
trata do furto como vício oposto à virtude da justiça.

Parece que Vitória queria fazer referência à Suma Teológica IIa-IIae, q. 10,
art. 8, quando, ao falar sobre a infidelidade, São Tomás rejeita que os infiéis devam
ser compelidos a aceitar a fé.

61
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 116-7.
62
URDÁNOZ, Teófilo. Obras de Francisco de Vitória. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos,
1960. p. 768.
63
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 118.
25

Entre os infiéis, há os que nunca receberam a fé, como os gentios e


os judeus. E eles, de modo algum, são compelidos à fé para crer,
pois crer é ato da vontade. São, porém, compelidos pelos fiéis, se
eles tiverem poder para tanto e não lhes impedirem a fé, com
blasfêmias, sugestões maldosas ou, ainda, por abertas
perseguições. E, por isso, os fiéis cristãos movem frequentemente
guerra aos infiéis, não para obrigá-los a crer – porque ainda que os
mantivessem vencidos e cativos, lhes deixariam a liberdade de
querer crer ou não – mas para compeli-los a não impedir a fé em
Cristo. 64

De fato, a conversão é um ato da vontade livre, por meio do qual alguém


íntima e verdadeiramente assente às verdades de fé. Ninguém pode ser “obrigado a
livremente abraçar a religião cristã”, algo de si contraditório. Pelo que não há sentido
em promover uma guerra tendo por fim impor a fé cristã aos bárbaros.

Vitória também nega que seja causa justa da guerra o mero desejo de
aumentar o tamanho do império. Talvez a ambição de expandir os próprios domínios
seja uma das motivações mais comuns para empreender a guerra, mas Vitória
rechaça absolutamente a licitude desse motivo. 65 Se o desejo de expandir o império
fosse causa para guerra justa, então ambos beligerantes disputando as terras um do
outro estariam ao mesmo tempo justificados em sua ação, mas é contraditório
admitir uma guerra justa em que ambas partes estejam justificadas e em que ao
mesmo tempo possam justamente ser mortas por seus inimigos. A possibilidade
desta contradição não é, no entanto, o único motivo. A ela se reúnem outras razões.

Ao explicar, subsequentemente, que não pode ser causa justa da guerra o


mero desejo de glória ou de obtenção de alguma vantagem particular para o
príncipe, Vitória ressalta os deveres do príncipe. O dever principal do príncipe é
ordenar a república, seja na guerra ou na paz, em direção ao bem comum. Assim
como não pode reverter em proveito próprio as finanças públicas, tampouco pode o
príncipe causar perigo desnecessário aos súditos. Recebendo sua autoridade da
república, deve empregar para o proveito dela, não para o próprio. Obrigar os
súditos a irem à guerra é diminuí-los à condição de escravos, que já não existem
mais para si (nem sequer para o proveito do bem público), mas para a utilidade do
príncipe, algo absolutamente abominável, sobretudo em um reino cristão. 66

64
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. pp. 165-7.
65
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 118.
26

A única causa justa de fazer a guerra é receber injúria. Vitória inicia sua
defesa desta tese fazendo referência a Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Santo
Agostinho67 escreve em Quaestiones in Heptateuch:

Costumamos definir como guerras justas aquelas que punem as


injustiças, por exemplo, castigar um povo ou uma cidade que foi
negligente na punição de um mal cometido pelos seus, ou restituir o
que foi tirado por violência.

E semelhantemente, Tomás de Aquino 68, na Suma de Teologia (IIa-IIae, q. 40,


a. 1), afirma que “requer-se que o inimigo seja atacado em razão de alguma culpa”.

É importante ressaltar, por sua vez, que Vitória tem o cuidado de evitar um
termo e um tratamento vago como acabou sendo dado por Tomás de Aquino ao
falar em “culpa” de maneira não qualificada. Vitória deixa claro que deve se tratar
uma culpabilidade também de ordem jurídica, isto é, o inimigo deve cometer uma
injustiça direta contra o beligerante ofendido. Esta ênfase evita interpretações da
doutrina tomista que poderiam facilmente justificar a guerra contra os índios
americanos. Tendo estes cometidos muitos pecados e vícios tanto contra a religião
quanto contra a natureza, seria fácil encontrar neles iniquidade e “culpa” que
justificasse uma ação militar para despojá-los de suas terras. Com o acréscimo
elucidativo Vitória, no entanto, o recurso a tal artifício já se não se faz mais possível.
Qualquer guerra justa contra os índios exigirá que estes tenham cometido
deliberadamente uma injúria direta, por exemplo, contra a Coroa espanhola, ao
tomar seus bens ou matar seus homens.

A razão de Vitória está baseada na ideia de guerra também como justiça


vindicativa, isto é, uma justiça que puna violações e ofensas a direitos, restaurando
a ordem jurídica e o bem-estar público. Não pode haver punição onde não tenha
havido culpa e injúria. Assim como o príncipe não pode dar a justiça da espada a um
de seus súditos se este não tiver cometido um crime, muito menos poderá fazê-lo
com estranhos. O próprio direito natural proíbe que inocentes sejam mortos.

66
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 118-9.
67
Citado em AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. p. 518 (grifo
nosso).
68
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. V. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2011. p. 517.
27

Ademais, guerras naturalmente envolvem morte e destruição, não se pode


empreender uma ação que tenha tais consequências sem que tenha uma
justificativa fundada em crimes atrozes cometidos pelos inimigos. Isto é, não é
qualquer injúria que pode motivar uma guerra. Assim como, não se pode aplicar
castigos graves a pequenos delitos. Do mesmo modo, a guerra é o maior e mais
atroz dos castigos, deve haver proporção entre os delitos e as punições. 69

4.4 Limites do direito de guerra

O tratamento da quarta questão envolve uma série de considerações pontuais


sobre circunstâncias típicas da guerra (sobretudo como aconteciam à época de
Vitória) nas quais Vitória avalia quais atos são lícitos e quais não são no evento de
uma guerra justa.

A primeira afirmação de Vitória é que é lícito fazer em uma guerra justa tudo
que é necessário para a defesa do bem público. Considerando que o primeiro fim da
guerra justa é defender-se de uma injúria, pode o príncipe e podem os indivíduos se
valerem de quaisquer meios para se defender dos males que injustamente lhes são
infligidos. E, com efeito, se o mesmo é claramente lícito em defesa própria, muito
mais o será à república e ao príncipe.70

Também é lícito recuperar todas as coisas perdidas ou o preço das mesmas.


Eis um dos fins em virtude dos quais se declara a guerra. Tudo aquilo quanto
pertencia de direito ao que empreende a guerra justa e foi ilicitamente tomado, deve
ser, por justiça, restituído ao legítimo dono. Não havendo meios de recuperar as
próprias coisas, deve haver compensação por meio de equivalentes. 71

Ademais, também é lícito ressarcir com os bens do inimigo quanto às


despesas com a guerra e todos os danos injustamente causados. O inimigo que
provoca os danos possui a responsabilidade de justiça de repará-los, bem como o
dever de restituir o beligerante justo em todos gastos que houve de incorrer para

69
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 119.
70
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 120.
71
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 120.
28

promover a guerra e vingar seus direitos. Vitória argumenta, ademais, que se


houvesse um juiz legítimo a julgar as partes beligerantes, condenaria os agressores
injustos não apenas a restituir o roubado, mas a ressarcir as despesas e danos. 72

Lembrando os demais fins da guerra justa, Vitória afirma que é lícito ao


príncipe inclusive ir além da restituição e do ressarcimento, fazendo o necessário
para assegurar a paz e a segurança contra os inimigos, por exemplo, demolindo as
fortalezas inimigas e levantando fortificações próprias no território inimigo. Vitória,
ciente de possíveis abusos, procura deixar claro que estas medidas devem ser
tomadas apenas na medida em que sejam absolutamente indispensáveis e lembra
que estas medidas são perfeitamente permissíveis contra os inimigos interiores, isto
é, contra os maus cidadãos. Também não pode haver fraude ou dolo por parte do
príncipe. Sua motivação deve estar sempre guiada pela reta intenção de promover a
paz e restaurar a ordem.73

Por fim, depois de obtida à vitória, de recuperados os bens e de assegurada a


paz, pode-se proceder licitamente à vingança das injúrias recebidas pelos inimigos,
castigando-os pelas ofensas infligidas. Embora esta consequência aparentemente
se siga com tranquilidade do que vem sido tratado, há um problema subjacente. Em
se tratando de uma guerra travada entre repúblicas perfeitas e, portanto, autônomas,
como poderia o príncipe de uma delas se constituir juiz e julgar a outra república,
condenando cidadãos que a princípio não estariam subordinados a ele?

Vitória menciona duas razões pelas quais os príncipes teriam autoridade não
apenas sobre seus súditos, mas também sobre os súditos alheios. A primeira é
apenas mencionada e deixada sem maior explicação por Vitória. Ele diz se tratar de
algo que advém do “direito das gentes e em virtude da autoridade [regente] de todo
o mundo”. A segunda razão é mais clara e também é mais detidamente elaborada
por Vitória – ainda que também brevemente. Os príncipes teriam autoridade sobre
estrangeiros por direito natural. Do contrário, o mundo não poderia subsistir se não
existisse quem tivesse autoridade e força para intimidar os maus e reprimi-los por
suas injúrias a fim de que não prejudicassem os inocentes. Ora, continua Vitória,

72
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 120.
73
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 120-1.
29

tudo que é necessário para o governo e a conservação do mundo, pertencem ao


direito natural, é impossível conseguir a paz e a tranquilidade sem que se castiguem
os maus e injuriosos.74

4.5 Dúvidas acerca do direito de guerra

Uma vez colocadas e tratadas as quatro questões principais sobre o direito de


guerra, Vitória, seguindo o plano que esboça na introdução, dedica a parte final de
sua relectio, a tratar de algumas dúvidas complementares cuja resolução traz ainda
mais luz às teses que até então desenvolveu. Vitória divide estas dúvidas em grupos
sem estabelecer um critério preciso que os diferencie. Conservamos, em nossa
exposição, a ordem escolhida por Vitória.

4.5.1 Primeiro grupo

A primeira dúvida do primeiro grupo diz respeito à suficiência de que o


príncipe creia que uma guerra seja justa para que ela o seja (ainda que realmente
não se trate de uma verdadeira causa de guerra justa). Vitória responde que não
basta que o príncipe acredite que a causa seja justa para fazer guerra. Exige-se do
príncipe uma certeza moral da causa justa da guerra que advenha do exame
detido.75

Vitória sabe que e fácil que príncipes se equivoquem ou que ajam de má fé ao


evitarem deliberadamente fazer as consultas e reflexões devidas. O correto e
necessário é dar ouvidos ao parecer dos homens sábios e inclusive às razões do
inimigo. De fato, a obediência a estes princípios de prudência é exigida do príncipe
mesmo em questões de menor importância de administração da justiça dentro da
sua república, quanto mais se exigirá para declarar a guerra. Ademais, se bastasse
a crença subjetiva e irrefletida na justeza da guerra, então seriam comuns guerras
justas para ambos lados, em que ambos os lados seriam inocentes e ambos teriam
razão em matar a parte contrária, algo absurdo. As guerras empreendidas pelos

74
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 121-2.
75
A expressão “certeza moral” não está em Vitória, mas parece ser legítima pelo contexto. Cf.
URDÁNOZ, Teófilo. Obras de Francisco de Vitória. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1960.
p. 775.
30

muçulmanos contra os cristãos, por exemplo, seriam legítimas, uma vez que aqueles
acreditam estar promovendo uma guerra justa. 76

Se aos príncipes é, portanto, obrigatório analisar detidamente a justiça das


razões pelas quais pretendem empreender guerra, a segunda dúvida visa a
estabelecer se também estão os súditos obrigados a fazer tal análise. 77 No que diz
respeito aos súditos que atendam à guerra, Vitória afirma que devem examinar suas
consciências sobre a finalidade dela e sobre seus atos, não podendo matar
inocentes ou, enfim, atender a uma guerra injusta. O mesmo vale para toda
hierarquia civil e militar. No entanto, pessoas de menor importância na sociedade,
que não são admitidas no debate público, não estão obrigadas a examinar as
causas de guerra, podendo licitamente militar confiando em seus superiores – a
menos que haja clara evidência em contrário, neste caso, estão obrigados a não
participar da guerra.

A terceira dúvida advém da possibilidade de haver incerteza sobre a justiça


da guerra. Ao que Vitória responde que, havendo razões aparentes e prováveis para
ambas as partes, deve evitar-se fazer a guerra. E cada caso específico dirá de modo
particular a atitude mais prudente a se tomar, por exemplo, havendo possuidor
legítimo, deve prevalecer o direito do possuidor (é assim também no direito que rege
as relações privadas). Quantos aos súditos, Vitória argumenta que, no caso de
guerra defensiva, estão obrigados a seguir o príncipe mesmo havendo dúvida. O
oficial de justiça está obrigado a executar a sentença do juiz, ainda que tenha
dúvidas sobre sua justiça. No caso da guerra defensiva em particular, ademais, o
tempo que levaria para fazer entender e persuadir os soldados da justiça da guerra
colocaria a república sob grande risco e talvez mesmo tornasse inútil quaisquer
esforços de resistência às injúrias inimigas. 78

76
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 123.
77
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 124-5.
78
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 126-130.
31

A quarta dúvida questiona se uma guerra pode ser justa entre ambas as
partes. O parecer de Vitória é que, excluída a possibilidade da ignorância inculpável,
nenhuma guerra pode ser justa de ambos os lados. 79

A partir da dúvida anterior, advém uma quinta dúvida, a saber, se aquele que
tomou parte em uma guerra injusta por ignorância está obrigado à restituição, uma
vez que tenha constatado a injustiça da guerra. Segundo Vitória, assim que
constatar a injustiça, deve de imediato restituir as coisas de que se apoderou e não
consumiu. Por outro lado, afirma não ser preciso restituir as que já consumiu. Agindo
por ignorância que fugia seu controle, não pode haver culpa. Sem culpa não pode
haver pena. Tampouco o súdito que, mesmo tendo dúvidas interiores, de todo modo
seguiu seu príncipe, está obrigado a restituir o que foi consumido, porque lutou
licitamente de boa fé.80

Algo abruptamente, Vitória81 faz um parêntese para tratar de casos específicos


em que uma guerra justa e lícita em si mesma pode não sê-lo em virtude de uma
circunstância. É o caso de que uma guerra implique em males maiores que os bens
a que visa a proteger:

Se, por exemplo, o rei dos franceses tivesse direito de retomar Milão,
mas da guerra entre França e o ducado de Milão se originassem
grandes calamidades, não lhe seria lícito tentar retomá-lo, porque
essa guerra haveria de ser feita pelo bem da França e dos
milaneses. E como, pelo contrário, dela surgiriam grandes males
para ambos, dita guerra, por conseguinte, não poderia ser justa.
(tradução nossa).

4.5.2 Segundo grupo

Vencido o primeiro grupo de dúvidas, Vitória passa a um segundo, que diz


respeito, sobretudo, ao que é e não é lícito em uma guerra justa.

A primeira dúvida deste segundo grupo é sobre a licitude de matar inocentes


durante a guerra. Com efeito, parece que seria lícito matar inocentes em uma

79
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 130.
80
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 130.
81
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 131.
32

guerra, tendo em vista, por exemplo, os relatos bíblicos do Antigo Testamento em


que crianças teriam sido mortas durante as guerras promovidas por Israel. No
entanto, Vitória afasta essa possibilidade atentando para a própria natureza da
guerra de resposta a uma injúria, e para o fato de que a injúria, por definição, não
procede dos inocentes.

O próprio decálogo condena a morte de inocentes. Não é lícito à república


castigar os inocentes pelos crimes dos maus, tampouco poderá castigar os que
vivem entre os inimigos pela injúria cometida por outros. Vitória explica, ademais,
que em Deuteronômio, Deus explicitamente proíbe os israelitas de matarem as
mulheres e crianças e conclui que assim nem tampouco na guerra contra os
muçulmanos é lícito matar crianças ou mulheres (a menos que se conste culpa em
alguma).82

Uma exceção à regra geral de não matar inocentes está presente no caso em
que se ataca com justiça uma fortaleza ou uma cidade dentro da qual há inocentes e
não é possível empregar meios para destruí-la ou tomá-la sem que padeçam
também alguns inocentes. Isto se dá em virtude do direito de justiça que a parte que
empreende a guerra justa tem de reaver seus bens e de repelir o inimigo. Por outro
lado, atentando para o que foi dito antes, é preciso evitar que os malefícios que a
guerra traz consigo superem os direitos que por justiça se requerem de volta. Se
combater a poucos culpados implicar em exterminar muitos inocentes, a guerra pode
se converter em injusta.83

Mas e quanto aos inocentes que eventualmente podem se tornar inimigos,


seja por chegarem à vida adulta, seja por decidirem entrar para a vida militar: não
seria lícito matar-lhes? Vitória afirma que não, pois seria o caso de empreender
meios maus para evitar males futuros incertos. Não se pode punir alguém por um
pecado futuro, muito menos se não há certeza sobre o que poderá vir a fazer. 84

82
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 132-3.
83
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 133-4.
84
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 134.
33

Não sendo lícito matar inocentes, a segunda dúvida que se põe é se seria
lícito despojá-los de seus bens. Vitória crê ser lícito despojá-los das coisas que os
inimigos poderiam usar contra os justos beligerantes.85

Então Vitória passa àquela que talvez seja a mais controversa passagem de
seu texto. Na terceira dúvida, ao questionar se seria lícito manter os inocentes em
cativeiros ou reduzi-los à condição de escravos, Vitória responde afirmativamente. O
argumento de Vitória se baseia na ideia de que a “liberdade e a catividade se
encontram entre os bens da fortuna”, mas não dá explicações para além desta
afirmação. Por outro lado, Vitória afirma que se admite como princípio de direito de
gentes recebido entre os cristãos que na guerra entre cristãos não deve haver
escravos (embora se possa mantê-los como prisioneiros mesmo inocentes para
exigir resgate por eles). Mas mesmo neste caso não se pode ultrapassar as
exigências de necessidade da guerra e o admitido pelo legítimo costume entre os
beligerantes.86

Respondendo a quarta dúvida, que pergunta sobre o tratamento dos reféns,


Vitória afirma que os que são feitos reféns, se inocentes, não podem ser mortos nem
no caso em que, acabada a guerra, o inimigo falte-se com sua palavra e deixe de
respeitar a paz celebrada. Se culpáveis, podem ser condenados à morte. 87

A quinta dúvida pergunta se se pode licitamente matar a todos culpáveis em


uma guerra. Antes de responder, Vitória recapitula os motivos pelos quais se
promove a guerra, a saber: para defesa dos próprios indivíduos e de seus bens,
para recuperar o que foi tomado, para vingar a injúria recebida, para garantir a paz e
a segurança. Vitória afirma então que durante uma batalha ou um sítio ou a defesa
de uma cidade, é lícito matar indiferentemente todos os que lutam contra e, enfim,
sempre que o triunfo esteja em perigo. 88

85
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 135.
86
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 137.
87
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 137.
88
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 137-8.
34

Durante a circunstância da batalha parece claro que há esta prerrogativa, um


problema diferente surge, no entanto, quando já não há mais perigo inimigo. Neste
caso, seria lícito matar os que antes culpavelmente lutavam? Vitória igualmente
presta anuência, tendo em vista que também é fim da guerra vingar as injúrias e
assegurar a paz e, com efeito, essa medida poderia ser eficaz em conter que
futuramente houvesse novas revoltas.89

Vitória faz a ressalva que nem sempre é o caso de dar morte mesmo aos
culpáveis, ao contrário, há de se infligir uma pena proporcional aos seus delitos e à
sua culpa. Às vezes, no entanto, é necessário para alcançar a paz e a segurança
que se dê morte a todos os culpáveis. (Embora Vitória discorde que convenha fazer
isso em guerras entre cristãos, por conta do prejuízo tanto para a humanidade em
geral quanto para a religião cristã em particular.) 90

Vitória ressalta, lembrando o que disse anteriormente, que os súditos não


estão obrigados a examinar as causas da guerra, podendo confiar na autoridade do
príncipe e, portanto, pode ser o caso de que mesmo em uma guerra injusta a
maioria dos soldados sejam inocentes. Ora, neste caso, não parece lícito lhes dar a
morte.91

Ainda tratando dos inimigos culpáveis, respondendo à sexta dúvida, Vitória


afirma que embora nada se oponha a matar os prisioneiros (desde que suas ações
mereçam tal castigo), o direito das gentes parece estabelecer que uma vez
terminada a guerra e encerrado o perigo, não se matem os prisioneiros. 92

A sétima dúvida que Vitória trata diz respeito ao domínio das coisas
capturadas durante a guerra justa. Converter-se-iam elas em propriedade dos
captores?

Parece óbvio, dados os fins da guerra, que é absolutamente lícito que as


coisas capturadas se convertam em propriedade dos que delas se apoderaram
89
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 138.
90
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 139.
91
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 140.
92
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 140-1.
35

durante a guerra justa na medida em que compensem as roubadas injustamente e


os gastos da guerra.93

Vitória acrescenta que, segundo o direito das gentes, os bens móveis se


fazem próprios dos que se apoderam deles, ainda que seu valor exceda o da
compensação dos danos recebidos. Para tanto, Vitória menciona canonistas e
teólogos em favor.

As questões anteriores levam Vitória a tratar da licitude do saque de cidades


em particular. Vitória ressalta que da permissão do saque resultam inúmeras
atrocidades ou crueldades, e que não se pode permiti-lo senão em função de
circunstâncias graves, como a necessidade de cometê-lo para manter a guerra. Esta
necessidade, no entanto, não cabe os soldados individuais avaliarem. Apenas o
príncipe ou os generais podem avaliar o caso e conceder a permissão para o saque.
Se os soldados partirem ao saque por conta própria, ficam obrigados a restituir. As
mesmas razões que se aplicaram nas elucidações anteriores aos bens móveis,
aplicam-se aos bens imóveis. 94

A oitava dúvida é facilmente respondida. Trata-se de saber da licitude de


impor impostos aos inimigos vencidos. De acordo com as razões já exaradas por
Vitória, é lícito instituir impostos tanto para compensar os danos, quanto por
punição.95

A nona e última dúvida parece ter sido formulada tendo em vista a conquista
da América. Vitória pergunta-se sobre a licitude da deposição de príncipes inimigos
e de sua substituição por outros ou mesmo da tomada do governo para si. Para
resolver esta questão, é preciso pesar prudentemente as razões que motivaram a
guerra justa e decidir se a gravidade e magnitude da injúria justificariam este tipo de
medida, porquanto nem sempre a ofensa feita pelo inimigo é tal que permita a
derrocada do governo e a deposição de príncipes naturais e legítimos. 96

93
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 141.
94
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 142.
95
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 145.
96
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. pp. 145-6.
36

Findas as dúvidas, Vitória encerra a relectio formulando três regras para que
ocorra uma guerra justa que condensam seu tratamento do tema 97:

A primeira regra diz respeito ao titular do direito de declarar guerra e às


circunstâncias em que há de ser declarada. O príncipe é aquele que possui
autoridade para fazer a guerra, não podendo buscar ocasiões ou pretextos para
fazê-la, devendo, ao contrário, procurar guardar a paz com todos os homens. Vitória
traz à tona novamente a máxima evangélica do amor ao próximo para justificar que
a gravidade das consequências da guerra exige que um príncipe chegue a ela
apenas forçado, contra a própria vontade.

A segunda regra diz respeito ao modo de se proceder durante a guerra justa,


que não pode ser tendo por objetivo a perdição da nação contra a qual se guerreira,
mas para defesa dos direitos infringidos e para, em última instância, conseguir e a
assegurar a paz.

A terceira regra diz respeito aos atos subsequentes ao término vitorioso da


guerra. Vitória prescreve que o triunfo deve ser utilizado com moderação e modéstia
cristã, que enquanto seja justo e possível, não cause maior dano ou prejuízo para a
nação ofensora. Castiguem-se os culpáveis, levando-se em conta, sobretudo, que
no mais das vezes, entre os cristãos, a culpa é dos príncipes e os súditos tão
somente guerreiam de boa fé, seguindo a seus príncipes.

A título de encerramento e recapitulação, reproduzimos o esquema que


Teófilo Urdánoz98 fornece sobre os fins e o princípio geral da guerra justa e que
sintetiza toda argumentação vitoriana:

O fim geral da guerra é o reestabelecimento da justiça do direito, cuja violação


pelo adversário é causa da guerra. O fim superior, efeito extrínseco e último que
deve se perseguir é a paz.

Os fins e objetivos imediatos da guerra justa são: a defesa da nação, das


vidas e bens de seus membros; a reparação dos danos infligidos injustamente pelo
inimigo, ressarcindo-se a partir dos bens do mesmo; a garantia da paz estável por

97
VITORIA, Francisco de. Relecciones sobre los indios y el derecho de guerra. 3.ed. Madrid:
Espasa-Calpe, 1975. p. 146-7.
98
URDÁNOZ, Teófilo. Obras de Francisco de Vitória. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos,
1960. p. 802.
37

meio da dificuldade em que o inimigo possa voltar a guerrear, por exemplo,


destruindo suas fortificações ou tomando suas armas; a punição posterior da injúria
desferida pelo adversário, correspondente aos delitos cometidos.

O princípio geral que guia a guerra justa é a permissão de todas as ações que
inflijam dano ao inimigo desde que sejam necessárias para conseguir os fins lícitos
da mesma e que não impliquem em intrínseca ilicitude. Levando o menor dano
possível à nação culpável.
38

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