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Axills Rio de Janeiro/Rio de Janeiro: Edição Independente, 2011. 54 p. Rio de Janeiro 2011. Todos os direitos reservados Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Capa: Axills Produção Editorial: Samuel Achilles 2011

Capa: Axills Produção Editorial:

Samuel Achilles

2011

Trovart Publications

sob uma Licença Creative Commons Capa: Axills Produção Editorial: Samuel Achilles 2011 Trovart Publications 2

À minha doce amada, que é para onde deságua minha poesia

Axills

SUMÁRIO

Dedicatória

3

Prefácio

6

Floresta viva

8

Dois

9

Conquistador conquistado

10

Abelha rainha

11

Intenso I

12

Intenso II

12

Preciso dizer que te amo

13

Vem meu amor

14

Futura amada

15

Mordomo

16

Medusa

17

Açude

18

Nublado

19

Fosse o amor

20

Bandeira branca

21

Mantas e

mantras

22

Óbvio

23

Bucólico

24

Plural

25

Tua presa

26

Dandara

27

Fisgadas

28

Indriso

29

Pintura íntima

30

Orquídea

31

O jogo do amor

32

Vago

33

Entrega

34

Cupido

35

Ferrugem

36

Maré cheia

37

O que sinto por você

38

Musa poetisa

39

Vai minha voz

40

Vida

41

Florido

42

Lindeza

43

Chore pequena

44

Único

45

Carícias

46

Você em mente

47

Fantasmas

48

Atípico

49

Posfácio

51

Minibiografia

53

Contatos com o autor

54

De repente você partiu Interrupção abrupta do meu querer Meu amor cego perdido, sem tato Morte cerebral do meu prazer

Axills

PREFÁCIO

Amor – o tema universal

Do latim amor, o vocábulo “amor” em língua portuguesa carrega em si vários significados. Objeto de estudo desde a Antiguidade, de filósofos e poetas, o sentimento primordial e essencial para o ser humano foi e continua sendo cantado sabiamente em diferentes estilos nos versos destes analistas da alma humana. Assim, tanto o amor romântico como o amor sensual, representado por Eros permearam as obras dos mais diversos poetas da literatura mundial, não sendo diferente com o poeta Axills, que aqui nos brinda com versos carregados de um lirismo forte e intenso nas duas vertentes. Dono de um estilo ímpar e bastante vigoroso no trato com as palavras, aliado a uma musicalidade marcante, o poeta retrata o Amor em sua poesia como uma extensão de si mesmo, expressando de forma incondicional e sem amarras aquilo que lhe vai pela alma, o que culmina num trabalho de sólido apelo aos sentimentos mais profundos e emoções de quem se atreve a lê-lo, tornando-se impossível não se deixar contaminar pela sua mensagem. Fartamente influenciado por Vinicius de Moraes e Pablo Neruda, Axills parece seguir fielmente os ensinamentos dos mestres, brasileiro e chileno, respectivamente, quando o primeiro afirma que “a maior solidão é a do ser

que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se

que não ama [

recusa a participar da vida humana” e que “o maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo”. E quando o segundo diz que “morre lentamente quem evita uma paixão

e os pontos sobre os ‘is’ em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos”. Por tudo isso é que vale a pena a leitura dos versos deste jovem poeta de uma nova safra que procura seu espaço e aí desponta com um estilo todo próprio de fazer poesia, com versos perturbadoramente sensíveis e encantadores.

]

[

]

E a poesia nasceu Na montanha dos meus desejos Percorreu os vales do teu corpo Encontrando um doce mar, seu beijo

Axills

FLORESTA VIVA

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:

Tudo renascerá cantando ao teu olhar, Tudo, mares e céus, árvores e montanhas, Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!

Olavo Bilac

Quero beber do teu néctar E ser dono do teu jardim Usufruir do suco dos teus sulcos

Replantar minha vida em teu corpo Despetalar tua flor em bem-me-quer Frutescer alegrias, prazeres

Quero te ver menina nos campos Atrás das borboletas sob as asas do meu peito Quero o eu menino degustando do teu rio Escalando montanhas, teus seios

Quero admirar a panorâmica paisagem dos gemidos Emitidos nos ouvidos Derretidos nos beijos Desprovidos de decência em nosso pecado consentido

Encostas, Arranho as costas Estás exposta Floresta viva

DOIS

Oh! diz'me, diz'me, que ainda posso um dia De teus lábios beber o mel dos céus; Que eu te direi, mulher dos meus amores:

— Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!

Castro Alves

Que maldade seria eu não te amar! Seria ter saudade do que não veio Seria viver alérgico ao ar Seria jamais provar, tocar teus seios

Que vantagem teria o meu olhar Se eu não pudesse mirar de escanteio? Seria qual voz que se impede o cantar Seria pregar a fé no que não creio

Que são as asas para ao céu voar? Se não enxergo azul que tanto anseio Se não mais sinto o vento vir soprar

O teu amor que vence o meu receio

Se não persisto e tento conquistar

A vida a dois que surgirá de enleio

CONQUISTADOR CONQUISTADO

Meu coração dolorido As suas mágoas exala, E volta ao gozo perdido Quando ela fala.

Machado de Assis

Conquistador ou ser viscoso, tênue linha existe Melado o papo ou tanto quanto harmonioso, rúbeo Perturbadora Vênus, orbital insônia triste Tristeza amada, quista e estimada em corpo fúfio

Um falador ou ser viçoso mesmo tão em riste? Será que enxergas todo o invisível som, murmúrio? Quiçá consigas ouvir a cor de o meu chorar em chiste Das tolas alegrias em chamas frias do meu Vesúvio

Vontade: tê-la em braço envolta e presa ao laço-abraço Abraso e gelifaço em neve olhar vazio e aceso

A moça aquieta e nada fala, veta e nega acesso

A fera chora e berra ímpar pelo par avesso

Alheio a dor, tortura a flor no fim do meio início

A voz que canta doce sofre amarga tal suplício

ABELHA RAINHA

Pois se é noite de completa escuridão Provo do favo de teu mel Cavo a direta claridade do céu E agarro o sol com a mão

Caetano Veloso

Me apaixonei mas ela não me quer Nem pensa em ser amiga, nada sou Jamais mostrou pra mim o olhar mulher Desenganado fui por esse amor

Perguntarei: Que amor de mim requer? Não, mudarei em dor tal como estou Olhando longe a forma qual voyeur Dos olhos espelhando o mel da cor

Garantirei que a morte queira a mim Na fuga desse “eu", um ser distante Que cisma maltratar-me até o fim,

Me suga o peito e ri do rei galante Verdade seja dita à alma minha Zangão se doa à abelha vil rainha

INTENSO I

Amo-te afim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na saudade

Vinicius de Moraes

Quero você hoje Quero você agora Quero você ontem

Nasça comigo

INTENSO II

Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante.

Vinicius de Moraes

Quero me entrelaçar em você A ponto de respirar por suas narinas Alimentar-me por sua boca Suar através dos seus poros Sorrir e chorar com o seu coração Sentir o balançar de seus cabelos acariciados pelo vento

Não mais sentir inveja dele, Nem mesmo do sol sobre sua pele Não mais

Estarei inteirado de você

PRECISO DIZER QUE TE AMO

Para meu coração basta teu peito para tua liberdade bastam minhas asas. Desde minha boca chegará até o céu o que estava dormindo sobre tua alma.

Pablo Neruda

Preciso parar o tempo Pra dizer que te amo Pra olhar nos teus olhos E dizer que tu és linda

Desliguem as máquinas Cessem os motores Dêem folga aos empregados Preciso dizer que te amo

Interrompam todas as negociações

Ninguém mate Ninguém nasça Ninguém morra Ninguém adoeça ou se cure Não nesse momento

Preciso olhar nos teus olhos Em absoluto silencio

Preciso dizer que te amo

VEM MEU AMOR

Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça:

Deus te mandou um presente divino: o amor.

Carlos Drummond de Andrade

Vem, meu amor Abraça minha alma

E a raiva da calma

Disfarça de beijo

E arranha minha carne

Aperta a saudade No afã do desejo

Vem

Se joga por cima

E me contamina

Com tanto querer Por cima e por baixo Nos altos e baixos Com todo o prazer

Vem

Desmascara o pudor

A pele à flor

Em pétala ardente

O corpo ao avesso

Por estar submerso

No suor fervente

Vem meu amor

FUTURA AMADA

É nunca contentar-se de contente;

É um cuidar que se ganha em se perder.

Camões

Eu sinto tanto a tua marcante falta Que precisei fugir de mim funesto Deselegantemente, um indigesto Escureceu o proscênio sem ribalta

Machuca a vida tua ausência malta Acautelou–me a morte em vento lesto Que vem do leste e quebra todo o resto

A

minha espera finda tão incauta

O

sofrimento, a solidão, a dor

O

cumprimento em porte por respeito

A

volta ainda traz na mão a flor

O

sentimento entregue, amor no peito

Revolta armada, a luta pelo beijo

Futura amada, amor do meu desejo

MORDOMO

Abrindo um salão Passas em exposição Passas sem ver teu vigia Catando a poesia Que entornas no chão

Chico Buarque

Eu sou bandido, mocinha Me prenda sendo capaz Te quero prenda tão minha Sou liso, leso e tenaz

Sou só um bobo, rainha Um corte o riso me faz Na corte moras sozinha Eu nessa rua, um frio mordaz

Estou zangado, abelhinha Zangão em serviço voraz Te sirvo suco da vinha

E como o lixo do cais

Teu servo sou, sinhazinha Em frente, sigo pra trás Sou torto que anda na linha Na paz, Senhor, quem me apraz?

A cara assim de fuinha

Um cara estanho demais Na briga sempre galinha No amor, um touro loquaz

Mordomo teu, senhorinha

Por ti serei sempre audaz

O amor me gela a espinha

Meu corpo te ama e jaz

MEDUSA

A musa que inspira meus tímidos cantos,

É doce e risonha, se amor lhe sorri;

É grave e saudosa, se brotam-lhes os prantos,

Saudades carpindo, que sinto por ti.

Machado de Assis

Disseram para eu impedir meu olhar dos fartos olhos

A moça quieta sonsa sonda a espreita e busca a chama

Não pude obedecer ao conselho óbvio vem-me abrolhos Espinho em carne, meço o comprimento da alma em drama

Eu mais que desobedeci fui além toquei sobrolhos Enfatizei o descompromisso em mim dancei co’a dama Perplexos todos assistiram nunca medo acolho Complexo mar revolto dentro em mim que bruma brama

Falece o mal de amar renasce o bem da louca paixão Qual amanhece o sol de dia e dissipa o nevoeiro Aquece e tira nuvens condensadas faz-me verão

O efeito cura o peito em mau jeito dado matreiro

Aceito sendo eleito pelo aval do teu destino Medusa vira musa nesse amor em desatino

AÇUDE

Corpo de mulher, alvas colinas, coxas brancas, ao mundo te assemelhas em teu ato de entrega. O meu corpo selvagem de camponês te escava e faz saltar o filho das entranhas da terra!

Pablo Neruda

Eu amo o corpo e a força lila venta o canto

A Suavidade traz-me o fim para asperezas

Teu cheiro doce chama vida e mais seu tanto Perdido sobre o manto vário com tristezas

O front é a retaguarda prisma tão insano

Da guarda minha, olhos teus me são fraquezas Poder da pele vis-à-vis para o espanto Não é dentro do peito o canto em sol, belezas

Amada minha longe, sempre a penso perto

O meu desejo errado desse amor incerto

Boa brisa suave e mansa com voraz reflexo

Na lisa pele branca a mão encontra nexo Num farto escuro quarto à luz da plenitude Deserta vida minha, teu amor açude

NUBLADO

Vi

uma estrela tão alta,

Vi

uma estrela tão fria!

Vi

uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

Manuel Bandeira

Cato o vento que a cerca, traz-me teu aroma Frente a todos és santa e para mim, paloma Ao chegar foste embora, dia e noite em hora Clarear de minha noite, escurecer da aurora

Vê o olhar sempre alerta, aguardando um sintoma Que avise tua chegada, já sei teu idioma O amor em mim aflora; em meu ser, mundo afora Pra mim tu és amante e pra outros, senhora

Sentir o teu perfume em tua pele inconstante Pesam-me tais levezas do aroma distante Torta é minha destreza, gaga é minha fala

Acanha o sol teu lume, meu viver embala Escondem-se as belezas, nem céu há estrelado Volta com um bom tempo e brilha um ser nublado

FOSSE O AMOR

Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe porque ama, nem o que é amar Amar é a eterna inocência, E a única inocência, não pensar

Fernando Pessoa

Se o amor fosse o mar Eu seria ondas Se o amor fosse o céu Eu seria o azul Se ele fosse o cansaço Eu, fadiga Se ele fosse um afago, Um abraço.

Se o amor fosse mel Eu seria própolis Se amor fosse cura Eu, enfermaria Se ele fosse dádiva Me doaria Se fosse sol Eu, a fotossíntese

Se o amor fosse ao léu Eu seria vento Se o amor fosse nuvem Eu seria chuva Se ele fosse fogo Eu, ardente chama Se ele fosse enfrentamento Eu seria adrenalina Se fosse destino Eu seria sina

Se o amor fosse fôlego Eu respiraria Se fosse um dia Eu seria mês Se ele fosse frio Eu seria ártico Se ele fosse pássaro Eu seria, apenas

BANDEIRA BRANCA

Bandeira branca amor Não posso mais Pela saudade que me invade Eu peço paz

laércio Alves/Max nunes

Bandeira branca, amor Preciso da sua presença Pois sem você minha respiração é ausente

Caminha até meus braços

E assopra para longe as minhas nuvens condensadas

Que tal fazermos de conta que existe um tempo que não existiu? Que não nos separamos, Que não ficamos chateados um com o outro por bobagens infantis

Que tal passarmos um dia no escuro e uma noite em claro Para que possamos recuperar o tempo em que não nos vimos?

Porque todo doce da vida torna-se amargo sem você

E o céu azul se esconde

Também as estrelas Também o sol e a lua

Mas nada que não possa ser resolvido com seu toque em meu rosto, Em meu corpo e em minha alma

MANTAS E MANTRAS

Quero em teus lábio beber Os teus amores do céu, Quero em teu seio morrer No enlevo do seio teu! Quero viver d’esperança, Quero tremer e sentir! Na tua cheirosa trança Quero sonhar e dormir!

Álvares de Azevedo

A minha preta é branca como a lua

De pele lisa seduz meu pensar tão áspero Eriça pelos, apelo em moça nua Caminha ereta e me prende no quente útero

Sozinha e quieta de longe a hipnose tua

De tão precisa essa luz que tem brilho próspero

A fé eterniza cozinha-me verve crua

De linha aberta o estúpido verso Cícero

Aponto a seta e sigo aroma, flutua. Incisa o corte e sangra expostas vísceras Alcanço a meta, encontro amor em tuas ruas.

Na frisa vejo uma cena: No frio tu suas Refaço a morte num mantra de reza mísera

A minha preta é manta, em meu corpo atua.

ÓBVIO

É, só tinha de ser com você Havia de ser pra você Senão era mais uma dor Senão não seria o amor

Tom Jobim

Tenho que ter calma para não me infundir pavor Tenho que ter pulmão para respirar Tenho que beber para matar minha sede Tenho que comer para me alimentar Tenho que ter dente para ser sorridente Tenho que ler para alimentar a mente Tenho que andar para sair do lugar Tenho que abrir os olhos para poder ver Tenho que dormir para acordar Tenho que ter você para viver

BUCÓLICO

Eu quero uma casa no campo Onde eu possa ficar no tamanho da paz E tenha somente a certeza Dos limites do corpo e nada mais

Zé Rodrix

Eu quero ter a certeza do seu amor Ando meio cansado de aventuras Preciso de uma casa com varanda Onde você esteja me esperando

Quero lhe entregar mil flores

E que não seja um simples ritual

Que as nossas datas sejam particularmente festivas

Preciso desse bucolismo em meio ao centro da cidade

Árvore no quintal, Canto dos pássaros

E seu beijo de bom dia no café da manhã

PLURAL

E eu sem você sou só desamor um barco sem mar um campo sem flor

Vinicius de Moraes

Se eu te arrancar do meu peito o que sobra?

O que restará de mim

Se a minha primeira pessoa há muito é plural? Nós estamos sem ti Tu estás longe de nós

O eu fica sem verbo pra existir

TUA PRESA

Meu Deus! Eras bela Donzela, Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem!

Casimiro de Abreu

Valsavas em meus versos Vestida de veemente amor Vertida em fantasia Verdade em meu viver

Voltaste o teu olhar Para um futuro de surpresas Eu noite e dia a te caçar Mas, descobri-me tua presa

DANDARA

Mesmo que você feche os ouvidos E as janelas do vestido Minha musa vai cair em tentação

Edu Lobo/Chico Buarque

Hoje cheguei numa tara, Dandara Pega o calor, minha vara e me ampara Cai de boca palavrada, não para Morde quieta, suja a cara tão clara

Parte a tarde, canta e lira, cigarra Durma pronta deita e vira, se amarra Supra-sumo, rola e gira, dispara Corpo e alma, santa pira, esparra

Caça minha, prenda presa, arara Cores várias, vela acessa, luz rara Luta, arma, vira a mesa, Guevara Unha a carne à milanesa, prepara

Vara a noite, madrugada, mascara Clara aurora acorda vaga, caiçara Ara prata, consagrada, na piara Tiara adorna enamorada me azara

Lima pérsia, doce goma, açucara lucra amnésia, cama em coma, compara Controvérsia, some a soma, separa Ser bromélia, só embroma, taquara

FISGADAS

Sempre há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura.

Friedrich Nietzsche

Quando tu foste amputada de mim Sangrei lágrimas infindáveis Não esperava que o nosso pra sempre Fosse terminar tão rápido

E me vi perdido no mundo de mim mesmo

Chato, sofrido, carente Estacionado e a esmo Num plano vazio em tela branca e tinta transparente

O ruim é sentir as fisgadas no membro amputado

Coça e irrita

E incomoda ininterruptamente

INDRISO

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

Vai martelando, meu juízo! Vai martelando, minha dor! Vai modelando meu jazigo Vai malmequer e me dá amor

Já que ninguém me deu abrigo Se o frio foi o meu cobertor No raso-fundo eu sou conciso Sou carne viva sob sódio, sol e suor

Vem pra voltar se for preciso Morde a mão que te afagou Faz de minhas lágrimas o teu alívio

Vem pra beijar-me com o teu siso Crava em mim o cutelo do amor Faz meu soneto virar teu indriso

PINTURA ÍNTIMA

Como um brilhante que partindo a luz Explode em sete cores Revelando então os sete mil amores

Tom Jobim

Pinta-me, faz de mim um quadro Clássico em teu quarto Raro e de alto valor Inunda minha tela com teu óleo Aquarela-me, ou faze-me gravura Desenha a arquitetura Obra-me como o autor Inunda minha tela com teu óleo Tuas cores, teus beijos Em nanquim e em sangüínea, desejos Faze-me assim ímpar e sem cotejo Tipifica-me, prenda-me em um espaço Emoldura-me em teus braços Assina-me com teu calor

ORQUÍDEA

Lembra-te o Jardim, querida! Lembra-te ainda da vida Aquela quadra florida, Que ali passamos então!

— Duas salas, um terraço,

Poucas flores, muito espaço,

Muita luz; mas a melhor,

— A flor do teu coração,

Gonçalves Dias

Preciso tê-la linda e bela dama Do doce seio carícias plenas tantas

A

fantasia, sordícia anela a santa

O

inciso ao corpo finda a cena em drama

Almejo vê-la nua em minha cama Olhar, soslaio, malícia: A perna encanta Tua companhia me cola, prende, imanta Refúgio cônscio sendo minha alfama

Amada, nunca fiques tão inquieta Qual murcha flor fragrância nula insípida Buquê de rosa incolor e lívida

Que sejas sempre assim, mulher discreta Comigo apenas solte louca as rédeas Uma inodora aurora nasce orquídea

O JOGO DO AMOR

O amor é sede depois de se ter bem bebido

Guimarães Rosa

Sonhei que estava jogando com você. Eu puxava levemente seus cabelos e beijava seu rosto. Mordiscava sua orelha (a ponta da orelha), descendo pro pescoço. Foi quando você deu seu primeiro “ai”.

_ Não vale – falei – vou começar tudo de novo. Então puxei levemente seus cabelos e beijei outra vez seu rosto. Mordisquei a sua orelha (a ponta da orelha), fui descendo pro pescoço,

percorrendo a sua nuca. Desci por suas costas sentindo todo o doce do seu aroma, enquanto minha língua abria seu caminho e seus poros. Apertei com suavidade e firmeza suas costelas. Foi quando você deu seu segundo “ai”.

_ Não vale – falei – vou começar tudo de novo.

Mais uma vez puxei levemente seus cabelos (não tão leve) e beijei outra vez seu rosto. Mordisquei a sua orelha (pontinha), fui descendo pro pescoço, percorrendo a sua nuca. Desci por suas costas sentindo todo o doce do seu aroma, enquanto minha língua abria seu caminho e seus poros. Com suavidade e firmeza apertei suas costelas. E posicionei seu corpo de frente para o meu. A ponta da língua no bico dos seios. O calor do meu beijo gelando a superposição de suas vértebras. Inundei seu umbigo de carinho e beijei pequenos e grandes lábios. Foi quando surpreendentemente conseguiu se controlar. Porque não queria que eu voltasse mais nenhum passo. Segui em frente penetrando você. Foi quando eu dei meu primeiro ai.

_ Não vale – você falou – vou começar tudo do meu jeito.

VAGO

Ai quem pudera Numa eterna primavera Viver, qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida Na rama verde e florida, Na verde rama do amor!

Castro Alves

Vazio que sou me quero o peito falho Arranca dentro em mim, Senhor, amores Descarto toda carta e me embaralho Romance, para mim, totais terrores

Vadio na rua escravo escangalho A vida empedra não se vê mais flores Desejo a flor, mas triste em frangalhos Orvalho minha cara, dissabores

Desgosto em gosto fel de mel azedo Desfolho todo ser do arvoredo Espalha toda dor deixa ser costume

Destila o sabor meu azedume Esforço, torço contra mim, estrago Destorço troço torto, tonto vago

ENTREGA

O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega

Arnaldo Jabor

Entrega todo amor em versos contundentes Suponho, essa dor cairá por terra abaixo Reforço meu pedido, sendo imprudente Tuberculoso amor, um sábio sem adágio

Na mente, morde forte, faca entre dentes Componho e cantarolo e canto assim não acho Remorso, eu ferido e o rosto teu me prende Fracassa o remador descendo o teu riacho

Agora só por hora mostra e arquiteta Um plano frente a frente e face semi-oculta Eu, guardião plangente tento nessa meta

Atingir minha muda musa que exulta Cortejos meus insanos deixam voz inquieta E a moça muda e gela, venço minha luta

CUPIDO

Amar é mudar a alma de casa

Mário Quintana

Sentir no peito forte amor e então assumir bem cedo Regar o pobre coração de mimos fartos beijos Nutrir romance em si consigo abrir-se e amar sem medo Deixar o corpo apaixonar-se em frente e ver sobejo

Sorrir sorriso de estufar teu mundo ao passaredo Voar no nobre céu azul carinhos relampejos Florir meu mundo sigo abrigo aberto engano ledo Cantar se atinge o si escala em mi quebrando queixos

Valente, forte e corajoso o peito serve em alvo Cupido cego em mira acerta errado, assim fui salvo Qual era de Eros rompe aurora em brilho sol vigora

Estrela suvenir de o teu sorrir cadente manto Dilacerado em dó uma flor nasceu pra meu espanto Amor, sublime amor a flecha fecha a dor que chora

FERRUGEM

O amor é invisível: Entra e sai por onde quer, sem que ninguém lhe peça conta do que faz

Miguel de Cervantes

Cantando eu flerto na vida tão fértil No coração cabem várias sou dúctil Um dia conserto querida meu séssil E versar-te-ei de cor o Confúcio

Te quero fácil menina sou débil Faz-se difícil me irrita o repúdio Ganhei um vício do choro infértil Pranteio ilício num côro em estúdio

Galega itálica música em letra Meu corpo em chama, vem ser minha preta Na cor enfática branca qual nuvem

Castanho a casta tão pálida impetra Peso do lastro inclina discreta Tu viras ferro, eu te sigo ferrugem

MARÉ CHEIA

Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz

Pixinguinha

Deixa-me apresentar por partes O sujeito que eu sou cheio de predicados

Tenho uma língua ágil Extremamente ágil Gosto de lábios de uma forma mordaz Gosto do gosto do clímax do clitóris De esse molhar sem água

Gosto de arranhar sem marcas De machucar com a suavidade de maus tratos De caminhar suas avenidas e vielas Tatuar-me em teu corpo Pichar teus muros

Ah Só não gosto marcar hora Prefiro o todo instante

Cada canto dissonante Do teu corpo afinado em melodia de gemidos Incentivando minhas taras Teus queixumes esbaforidos Sopram meu corpo ondulando

Maré cheia, amor

O QUE SINTO POR VOCÊ

Tu que sofres, porque amas, ama ainda mais. Morrer de amor é viver dele.

Victor Hugo

O

que sinto por você é algo inexplicável

É

uma doença sadia

É

o se afogar sem água para nadar

É

o desejar ter medo de morrer de amar

O

que sinto por você é algo traiçoeiro

Em manhãs que adormeço num sonho acordado

E

liberto me prendo em lua e saudade

E

me sangro por dentro

Seu Instante me invade

MUSA POETISA

Nada recrudesce mais facilmente do que o amor

Sêneca

Imprimo um sorriso em meu imo Fez ela para mim uma linda poesia Inflamo o âmago do discernido sentimento Apaixono-me de vez e outra vez pela mesma mulher Que se eterniza em meus dias, Que cedo se faz em minhas tardes E que atravessa as minhas noites em claro Repousando serena em minhas madrugadas.

VAI MINHA VOZ

O amor é uma espécie de guerra.

Ovídio

Vai, sai de mim Chega até ela com altivez Proclama minha dor e faz-se escutar Mostra o quanto se tornou concreto o meu vazio

Vai minha voz Viaja nas ondas e oscilações do vento Agarrando ecos e efeitos para se ampliar em decibéis

Chega até ela, convence-a Mostra-lhe minha solidão crescente, Minha triste lágrima uivada de retrocessos Meu medo de amar plenamente E meu receio de mostrar confiança

Grita rouca e amansa sua alma Acalma seu ímpeto, convence-a Que ela se aproxime Por mais que eu peça o contrário

Vai minha voz, Cala minha dor

VIDA

Amor é um egoísmo a dois

Madame de Stael

Esse teu cheiro doce que me sufoca em desejos Na desventura da aventura que não tive No morrer de amor que no coração me vive Na escuridão de sentidos, claros lampejos

Fibrilação atrial atrita meu futuro Na falta de ar causada pelo amor pleno Acaricia o corpo, arranhar ameno Faz-se claro o amor nesse quarto escuro

Quando explosões e paz se encontram catarse Impasse do beijo; o bem e o mal, enlace Primavera invade o outono, florida

Línguas molhadas sedentas buscam saciar-se Na sofisticação dessa nossa pieguice Dois corpos mortos que encontraram a vida

FLORIDO

Amar é comprazer-se na perfeição

José de Alencar

Eu que andava tão sem vida Perdido na selva de minhas amarguras Pedras, não mais que pó e pedras Resgatou-me de penitências e agruras

Pedindo-me apenas pequeno espaço (meu peito) Doou-se em pólen, pétalas e doçura Transparentes seus laços, trejeitos Em seu olhar e em sua voz há ternura

Renasci pra vida que nunca tive Pois em meu coração vive uma rosa

Que me vive

LINDEZA

Amor é o grande exagero da diferença Entre uma pessoa e todas as outras

George Bernard Shaw

Musa e poetisa Teu cabelo alisa meu desejo Num ensejo em sonho que te vejo

Em meu sonho sobejo Saboreio do beijo e da alvura da pétala mais linda Agasalhada em versos que me despertam a libido

Desse sonho que sonhei em sonho Tive o prazer de tocá-la De forma tão real

Tão real

Que nele morri sem forças para acordar

CHORE PEQUENA

A amabilidade produz a riqueza

Provérbio chinês

Chore minha pequena Não segure o chorar Hoje você pode ser a mais frágil das mulheres Não se vista de guerreira Tampouco banque a mãe ursa

Desarme-se,

Deite-se em meu ombro

E chore

Chore minha pequena Flor orvalhada

Carregando matematicamente problemas não divididos Pois literalmente em seus ombros

E só em seus ombros

Carrega todo um mundo Quiçá alheio à dor que sentes

Chore morena chore

Chore pequena Sem embaraço Quem sabe isso não desate os nós contidos na dor? Desabafe comigo sem receio

Desabe

Ficará só entre nós e algum papel qualquer a esperar poesia

Hoje, minha guerreira Seja pequena Frágil morena

E chore

Chore,

Serena

Chore pequena

ÚNICO

O amor é a vida do amante

Plauto

Agora é sério Eu vou sossegar Vou ser homem de uma só mulher E hei de amar do fundo de minh’alma Minha preocupação será a felicidade dela Não a minha Meu prazer será o sentir seu orgasmo Não o meu

Porém, Exigirei que ela seja minha Só minha Tatuando em sua nuca meu nome Sentindo minha falta Mesmo que durma abraçada a mim

Que ela deposite em mim Toda a esperança de felicidade Porque estarei disposto a honrar esse amor Que sentirei, Que receberei

Que o passado seja sem importância Apenas presente nosso plano pro futuro Juntos, unidos, Cúmplices permissivos Amados, amáveis e amantes

CARÍCIAS

Nunca estamos tão longe dos nossos desejos como quando imaginamos possuir o desejado.

Johann W. Goethe

Meus dedos deslizaram por teus cabelos

E um rio em mim nasceu

Refrescando pensamentos Esquentando sentimentos Purificando sedes Inundou a minha cidade de receios Sem pressa de encontrar o mar

Em meus dedos a maciez da tua pele Que me invade com a leveza do algodão Saboreio o teu toque Que eterniza minha carência Sempre saciada do teu amor e dos teus cuidados

Em meus dedos, a flor Os desejos se iluminam no breu

E te acaricio com as carícias de minhas carícias

De todo o carinho meu

VOCÊ EM MENTE

Todas paixões exageram: É justamente porque elas exageram que são paixões

Nicolas Chamfort

Então me transformei em morcego Invadi sua madrugada e seu quarto Voltei a ser gente, mas invisível aos seus olhos Eu pude tocá-la Você não sentiu Eu pude invadir seu interior Você, inerte

Saciei minha fome

Troquei roupa de cama E banhei-me pela manhã,

Polução

FANTASMAS

Ter medo de amar não faz ninguém feliz

Vinicius de Moraes

À porta do seu coração estão seus fantasmas

Que impedem minha entrada Que me mantêm afastado, isolado,

Do lado de fora

Onde sinto frio Onde apanho chuva Onde sofro o vento cortante em meu rosto

Enquanto você se cobre de medo

E fortalece os fantasmas

Que impedem minha entrada

Na almejada morada:

Seu coração

ATÍPICO

A arte faz versos, mas só o coração é que é poeta

André Chénier

Confesso ser para mim estranho Essa forma de te possuir e te pertencer Distante e à vista Longe e de oitiva

De uma rápida conexão de o meu amor tamanho Ao te ver dormir e me acordar o querer Para surfar a paixão no ápice da crista Morro a cada dia ao te ter mais viva

POR DENTRO

A arte faz versos, mas só o coração é que é poeta

André Chénier

Dentro do meu coração Existe algo que não me cabe O amor, infinito amor

Tão puro que chega a ser infantil Tão infantil que chega a ser inocente Tão inocente que chega a ser pueril

Amor tão forte que me enfraquece Que lembra tanto de você Que até me esquece

POSFÁCIO

Para alguns de nós, a poesia é mais forte do que a fé, mais envolvente do que a vida, capaz de criar e desatar laços. Desde o início dos tempos essa arte acompanha o passo a passo do homem, suaviza suas dores, emociona seu coração, preenche seus vazios emocionais. Uma coisa é certa, nada consegue separar o ser humano de sua essência poética, de seu lirismo latente “Folheando” as páginas virtuais da obra que tenho na tela, encontrei nos poemas de Axills a própria expressão dessa essência, de seus sentidos, de sua sensibilidade à flor da pele, de eu erotismo lírico, exposta de forma simultaneamente sutil e impactante. São os versos de alguém que vive a poesia no seu cotidiano e aqui a expressa embalando os mais caros sonhos do leitor, levando-o inconscientemente a viajar nos braços de Eros. Há uma espécie de conflito entre os afagos da alma e a iniqüidade do dia a dia, rompendo muros, derrubando cercas, numa conjunção se sentimentos, metáforas e figuras de linguagem, belamente sinalizados. A temática explorada é quente, empolgante, o que de certa forma descreve o jeito de ser do autor, um homem que ama e se apaixona todos ao dias e sempre. Aqui são ressaltadas carências, esperanças, saudades, desejos, como são em seus amores, de forma embriagante, intensa e excitante. Pode-se dizer que brinca com a palavra, namora-a num clima de sensualidade e enlevo, dorme com ela, conquista-a Define-se, ele próprio, em verso como o “Zangão que se doa à abelha vil rainha”.

Quero fazer tudo o que você me permitir, Evitar fazer tudo o que me proibir, Indo além disso

Axills

MINIBIOGRAFIA

Axills (Samuel Achilles), músico e escritor, nasceu no Rio de Janeiro no bucólico bairro de Santa Tereza. Tem como ídolos literários Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Machado de Assis, Manuel Bandeira, etc Apesar do gosto musical eclético, tem preferência pela bossa-nova e música popular brasileira dos anos 60/70. Eis uma frase de como o autor se define: "Sou alguém que se esconde em si mesmo por entrelinhas e notas musicais".

Fartamente influenciado por Vinicius de Moraes e Pablo Neruda, Axills parece seguir fielmente os ensinamentos dos mestres,

brasileiro e chileno, respectivamente, quando o primeiro afirma que

“a maior solidão é a do ser que não ama [

]

que se ausenta, que se

defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana” e que “o maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de

ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo” Por tudo isso é que vale a pena a leitura dos versos deste jovem poeta de uma nova safra que procura seu espaço e aí desponta com um estilo todo próprio de fazer poesia, com versos perturbadoramente sensíveis e encantadores.

todo próprio de fazer poesia, com versos perturbadoramente sensíveis e encantadores. Alessa B. Professora e poetisa