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A INELUTÁVEL CISÃO DO VER NA FILOSOFIA DE DIDI HUBERMAN E A

CRENÇA COMO EVITAMENTO DO VAZIO NA MORAL CRISTÃ SEGUNDO


A VISÃO NIETZSCHEANA

Francisco de Assis Silva Neto1

Glaucer Ferreira Silva2

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo problematizar e descrever a


inelutável cisão do ver presente na filosofia de Didi Huberman e das
incansáveis tentativas do indivíduo de fechar os olhos para o esvaziamento da
vida, a finitude do homem, que resulta em uma negligência em relação a sua
própria humanidade. Para exemplificar e circunscrever essa problemática o
autor as divide em dois pontos principais que são: crença e tautologia, a
pesquisa em questão, será aprofundada de forma mais intensa nas questões
da crença como evitamento do vazio, em particular na crença baseada no
cristianismo e como a filosofia de Nietzsche atacou, tratou e descreveu as
problemáticas contidas nas concepções de moral e crença dentro da religião
cristã e como essas concepções distanciam o homem da posse da sua própria
vida.

PALAVRAS-CHAVE: CRENÇA, VAZIO, CRISTIANISMO, MORAL.

ABSTRACT: This article aims to problematize and describe the ineluctable split
of seeing present in the philosophy of Didi Huberman and the tireless attempts
of the individual to close his eyes to the emptying of life, the fineness of the
man, which results in negligence in relation His own humanity. To exemplify and
circumscribe this problem, the author divides them into two main points: belief
and tautology, the research in question, will be deepened in a more intense way
in the questions of belief as avoidance of emptiness, in particular in the belief
based on Christianity and as Nietzsche's philosophy attacked, dealt with and
described the problems contained in the conceptions of morality and belief
within the Christian religion, and how these conceptions distanced man from his
own life.

KEYWORDS: BELIEF, EMPTY, CHRISTIANITY, MORAL.

I- INTRODUÇÃO

1
Acadêmico do Bloco V de Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual do
Piauí-UESPI
2
Acadêmico do Bloco V de Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual do
Piauí-UESPI
Desde os primórdios da sociedade o homem é instigado a pensar
acerca do que o aguarda após o seu ultimo suspiro, o que existiria após esse
esvaziamento e esgotamento da sua existência. Como a racionalidade humana
tem um imenso poder de criar e de tentar moldar a realidade á partir de sua
cognição, o indivíduo utiliza esse poder imaginativo para pressupor e
principalmente para ser escravizado por suas próprias criações. Ao longo das
diversas sociedades que já existiram é quase unânime uma tentativa de
explicação sobre sua origem, como exemplo claro a Teogonia de Hesildo. E
principalmente para tentar justificar sua própria finitude que é uma das
características que o definem como humano. A filosofia também permeou
essas questões sobre o que viria após essa existência passageira, com Platão
foi criado um além mundo que foi denominado de mundo das idéias de onde
provinha todo o conhecimento e que serviria de lar para os espíritos
preparados para um pós vida como surge o exemplo de Sócrates no Fédon,
diálogo de Platão:

Explicações que foram surgindo suscitam a reflexão sobre a motivação


dessa negligência do mundo real em prol desse ou daquele mundo hipotético
que possa ou não vir a existir, quais conseqüência de enfrentar essa seriedade
do mundo ao qual os indivíduo estão inseridos, o que motiva uma conduta
enquanto membros de um corpo social e regidos pela religião cristã, sobre
essas perspectivas e essas problemáticas que se debruçam as filosofias de
Didi- Huberman e Nietzsche.

II- A CRENÇA COMO EVITAMENTO DO VAZIO NA FILOSOFIA DE


DIDI-HUBERMAN

A religião cristã desenvolveu ou instigou seus adeptos a pensar que


este mundo concreto que vivemos seria apenas uma estadia passageira e que
se fôssemos merecedores em um pós-vida colheríamos os frutos dessa vida
em um mundo transcendente a este e estaríamos livres dos impasses de uma
vida corpórea. Didi Huberman fundamenta suas concepções acerca do
esvaziamento da vida pondo em questão o olhar, de como este sentido nos é
de extrema importância para apreendermos o mundo e como por muitas vezes
esse olhar nos expõe e nos provoca medo do desconhecido, explicitando
nossa finitude ao nos depararmos com a de outros indivíduos e do
esgotamento da existência dos mesmos. Segundo Didi Huberman, o que
vemos também nos olha e isso provoca um certo desespero e incômodo ao
nos depararmos com um fim definitivo, abaixo segue uma passagem do autor
que justifica esse argumento, na obra, A Inelutável Cisão do Ver:

O que vemos só vale -só vive- em nossos olhos pelo que nos olha.
Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos
daquilo que nos olha. Seria preciso assim partir de novo desse
paradoxo em que o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois.
Inelutável paradoxo. (Didi Huberman,2010,p.29)

Reside então no olhar esse paradoxo daquilo que vemos e que


automaticamente nos lança um olhar de volta, nesse caso um olhar frio de fim,
um olhar de morte e é com isso que o indivíduo não é capaz de conviver e
quando o autor trata a questão do vazio ele descreve que os seres humanos
tem por característica um medo do esvaziamento, um medo do nada, pelo fato
de não podermos conceber esse nada elabora-se maneiras de isolá-lo e
justificá-lo.

O ser humano tem esse evitamento do vazio decorrido de uma má


compreensão do mesmo. O indivíduo então ao raciocinar sobre essa espécie
de não-ser acaba por conceber de maneira equivocada que esse vazio se
apresente pura e simplesmente como um nada, algo incognoscível e é o que
produz o desespero. O homem, assim, acaba por ignorá-lo ou evita ao máximo
transformá-lo em tarefa do pensamento. Didi Huberman se propõe para
exemplificar esse vazio no exemplo da morte, até então evitada e
principalmente incompreendida pelo homem. O autor tenta apresentar modos
elaborados pelos indivíduos para li-dar com esse vazio sempre tentando
esquivar-se das reflexões e seguir pelo caminho mais simples. Apresenta a
imagem do túmulo como uma simbologia, uma espécie de ícone representativo
desse vazio, o ápice desse paradoxo contido no olhar, que traz a tona os
nossos maiores temores, desnuda nossa finitude expondo nossa fragilidade
que acima de tudo faz com que a morte nos lance um penetrante e
desagradável olhar de volta. O autor conceitua a tautologia como um dos
métodos de evitamento do vazio, não se ocupa propriamente do vazio, elabora
uma maneira material de justificá-lo como a exemplo de adornos ou medidas
da própria sepultura. Deixando de lado a questão da tautologia, raciocinemos
sobre o que foi dito por Didi Huberman sobre a necessidade da crença como
tentativa de esquiva ou resistir a questão da morte:

Ela consiste em querer ultrapassar a questão, em querer dirigir-se


para além da cisão pelo que nos olha no que vemos. Consiste em
querer superar imaginariamente tanto o que vemos quanto o que nos
olha. O volume perde então sua evidência de granito, e o vazio perde
igualmente seu poder inquietante de morte presente. O segundo caso
da figura a produzir um modelo fictício no qual tudo- volume e vazio,
corpo e morte- poderia se reorganizar, subsistir, continuar a viver no
interior de um grande sonho acordado. (Didi Huberman, 2010, p.40)

Nesse aspecto que reside um dos pontos fundamentais da crítica a


crença como evitamento, a perda do poder do olhar, como se o túmulo deixa-
se de existir em prol de um algo imaginário, de algo além do que nosso olhar é
capaz de ver. Mora aí uma negligência do olhar, uma tentativa ingênua e falha
de burlar o que vemos, a incapacidade cognitiva e a fragilidade racional que
gerou o que se chama de crença.

Didi Huberman também observou o cristianismo como um dos


principais responsáveis por essa perda ou evitamento do vazio. Para o autor,
as doutrinas cristãs pregam nada além do conformismo, seus discursos
estimulam nada além de criação de realidades ficcionais, baseadas na vivência
em mundos surreais construídos em prol de ideais e idéias fracas e
supersticiosas. O cristianismo ao longo das eras suplantou de maneira covarde
nossa percepção de realidade, que já está tão transvalorada que para a
maioria dos indivíduos é difícil tentar ver de fora, tentar colocar-se fora do
problema para tentar compreeendê-lo de maneira mais clara e ampla.
Percepção essa que nos foi castrada também por outro ideal que tenta ludibriar
ainda mais a percepção fragilizada pelos conceitos cristãos, inspirada na figura
de Cristo, uma suposta esperança de ressurreição em uma realidade
idealizada e um mundo não físico, vida após a morte. Segue um trecho que
descreve essa crítica ao cristianismo:

O modelo continua sendo, é claro, o do próprio Cristo que, pelo


simples fato(se se pode dizer) de abandonar seu túmulo, suscita e
conduz em sua totalidade o processo mesmo da crença. O Evangelho
de São João nos fornece uma formulação inteiramente cristalina
disso.(...) A partir daí, sabemos, a iconografia cristã terá inventado
todos procedimentos imagináveis para fazer imaginar, justamente, a
maneira como o corpo poderia se fazer capaz de esvaziar os lugares.

O trecho mostra como as perspectivas cristãs nos conduzem a uma


negligência da realidade e em parte inspirada na figura de Cristo que ressuscita
ao terceiro dia, superando a própria morte e pondo de lado essa finitude da
figurada do homem e a crença em uma vida após a essa com o simples intuído
de tornar suportável a existência para as mentes mais fracas e influenciáveis.

III- A CRENÇA COMO EVITAMENTO DO VAZIO NA MORAL CRISTÃ


SEGUNDO A VISÃO NIETZSCHEANA

Nietzsche foi um pensador que construiu sua filosofia a marteladas


conceituais, a quebra de padrões, transvaloração de valores e rompimento com
conceitos, ficou marcado por sua escrita poética, e por sua crítica incansável á
moral em especial a cristã. Derivado disso, o autor conseguiu gerar uma
espécie de falsa sensação de compreensão nos seus escritos, o que abriu
margem para sua utilização em quase todas as variedades de temáticas,
muitas vezes de forma equivocada e errônea. Nietzsche busca resgatar a
filosofia desse ambiente niilista e decadente em que ela adentrou. O episódio
platonista que fragmentou a realidade em duas instâncias,e o episódio
socrático que o autor irá denominar de racionalismo exacerbado, que iniciou
uma busca desesperada pelos conceitos absolutos de verdade acerca do que
compunha a realidade. O autor irá denominá-los como desprezadores do
corpo, como cita em uma passagem da sua obra, O anticristo, ”O Sócrates,
que, no domínio dos problemas elevou o egoísmo á altura de um princípio de
moral” (Nietzsche,2010,p.32). Seu viés estético buscou resgatar a filosofia
desse horizonte obscuro derivado de uma série de tentativas de justificar o
mundo somente através da racionalidade e da linguagem, acabando por cair
em um paradoxo metafísico que vinha se arrastando desde os antigos.

Nietzsche fixa sua crítica ao ceticismo moral cristão que acaba por abrir
mão da própria existência, baseando-se em uma esperança sem nenhum tipo
de embasamento lógico, em um além mundo que exista uma vida totalmente
transcendente a humana. Um modelo de vida baseada no filho do Deus cristão
que no pós vida ascendeu aos céus, deixando para o homem essa mesma
necessidade, evitando cada vez mais o vazio, desprezando-o, como Nietzsche
diria, “Cristão é o ódio contra o ‘‘espírito’’, o orgulho, o valor, a liberdade, a
“libertinagem” do espírito; cristão é o ódio contra os “sentidos”, contra a alegria
dos sentidos, contra a alegria em geral...”(Nietzsche,2010,p.33). Nietzsche
denotou durante toda sua obra filosófica um apreço ao humano, uma
aplicabilidade em uma espécie de teleologia antropológica.

Atacando como sempre essa vontade idealizadora, esse destino


pregado pela religião cristã, o indivíduo cristão esquece-se da vida, esqueceu-
se do real e se fixou em um mundo de fantasias entrando cada vez mais no
que Nietzsche chamaria de decadência, argumentando que:

Repitamo-lo uma vez mais: este instinto depressivo e


contagioso viola aqueles instintos que tendem para conservação e
valor da vida; é, multiplicador como conservador de todas as misérias,
um dos instrumentos principais para o aumento da decadência- a
piedade persuade o nada... Não se diz o nada, põe-se em seu lugar o
além, ou antes Deus ou a vida verdadeira, ou ainda o nirvana, bem-
aventurança, a salvação. (Nietzsche,2010,p.18)

Visto que a preocupação nietzscheana era essencialmente


antropológica, tentou a todo custo suscitar no homem a coragem de reflexão, a
quebra com toda e qualquer doutrina que instigasse o homem a imobilidade,
toda e qualquer vontade niilista que aspirava o poder e que pregava doutrinas
para o controle e manutenção desse poder, instaurava-se uma moral de
rebanho como bem citava o autor. Nietzsche ao longo de suas obras, em
especial Assim Falava Zaratustra aonde expõe todo seu entusiasmo seu amor
e seu apego aos homens na figura de Zaratustra uma espécie de “messias
indeciso” sua vontade de livrar os homens de seus grilhões conceituais que o
prendem a uma moral mal formulada, a uma perspectiva de vida da decadência
que a arrastava o homem cada vez mais para o abismo e para imobilidade.
Uma tentativa de resgate do homem desse horizonte obscuro é quando
Zaratustra anuncia o além do homem:

O homem é uma corda estendida entre o animal e o super


homem. Uma corda sobre um abismo. Perigosa para percorrê-la, é
perigoso ir por esse caminho, perigoso olhar para trás, perigoso
tremer e parar. O que é grande no homem é ele ser uma ponte e não
uma meta.(..) Vede que sou um arauto do raio e uma pesada gota
que cai da nuvem. Mas esse raio chama-se além do homem.
(Nietzsche,2006,p.14,16)

A tentativa do autor em conceituar esse além do homem consiste


justamente nessa quebra de moral, em especial a cristã, uma transvaloração
de todos os valores como sugere na sua Genealogia da Moral, resgatar o
homem e mais uma vez dar a posse de sua própria vida a ele próprio, tendo o
homem como uma ponte, o homem é um caminho dentro de si próprio,
somente o homem possui o que é necessário para chegar ao além do homem,
afinal é o caminhante e o caminho.

IV- CONCLUSÃO

Toda essa negação e evitamento desenvolvidos pela falsa moral cristã


levaram o homem cristão a viver um conto de fadas, apenas existindo e não
mais vivendo. Não tomando posse do que é seu, boa parte dessas
características negativas herdadas e passadas adiante derivam de algo que se
tornou necessário para o cristão, evitar a falta de compreensão de algo ou
sanar essa incompreensão com uma narrativa de conformidade. Didi
Huberman e Nietzsche basearam-se nessas problemáticas para fundamentar
suas teorias filosóficas. Um viés interessante para evitar esse cerco
desenvolvido pelo cristianismo seria a arte, afinal segundo Nietzsche sem ela á
vida não faria sentido e por meio dela, seria possível valorar e transvalorar o
que já é conhecido pelo homem.
REFERÊNCIAS

NIETZSCHE, F.W. O anticristo. São Paulo. Centauro Editora, 2005

HUBERMAN, G.D. O que vemos, o que nos olha. Dafne Editora, 2010

NIETZSCHE, F.W. Assim falava Zaratustra. Escala Educacional, 2006