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Os gêneros textuais e o ensino:

as fábulas na perspectiva histórico-crítica


MARILENE KASPCHAK*
RAFAEL ADELINO FORTES**

Resumo
Este artigo visa apresentar uma prática de planejamento docente-discente na 48
perspectiva histórico-crítica, desenvolvido na disciplina de metodologia do
Ensino de Língua Portuguesa e Alfabetização, numa turma de vinte e oito
alunos do Curso de Formação de Docentes de uma Instituição pública da rede
Estadual do Paraná. A realização da proposta metodológica sobre fábulas
consistiu na execução das cinco fases do processo didático-pedagógico
proposto por Gasparin (2009), cujo método de investigação e de elaboração
do conhecimento científico tem suas bases no materialismo histórico-dialético
advindo de Marx. O processo dialético do ensino e aprendizagem exercitado
durante as aulas revelou as múltiplas possibilidades de leitura, sendo esta um
instrumento de transformação da realidade, paralelamente com essas teorias,
foram trabalhados os pressupostos teóricos bakhtinianos (1992; 2003) acerca
de gêneros textuais e leitura.
Palavras-chave: Pedagogia Histórico-Crítica; Fábulas; Bakhtin; Ensino-
aprendizagem.

*
MARILENE KASPCHAK é Mestre em Educação pela UEM – Universidade Estadual de
Maringá. Pedagoga da Rede Estadual de Educação.

**
RAFAEL ADELINO FORTES é Mestrando em Letras UEL – Universidade Estadual de
Londrina. Bolsista da CAPES.
1. A Pedagogia Histórico-Crítica como Os conteúdos científico-culturais, na
método de ensino e pesquisa. acepção de Saviani, (2012), são
A escola como instituição social denominados de conteúdos clássicos,
responsável pelo saber sistematizado entendidos como saberes sistematizados,
tem sido amplamente defendida pela elementos culturais que precisam ser
Pedagogia Histórico-crítica. Para esta assimilados pelos alunos no decorrer do
perspectiva teórico-metodológica o processo educativo. Trata-se da seleção
conhecimento ocupa um lugar primordial no dos conhecimentos historicamente
processo de desenvolvimento humano, produzidos pela humanidade, no sentido
como produto do processo histórico em de distinguir os conteúdos essenciais
constante transformação. Decorre da daqueles secundários, conforme a função
formação de sujeitos concretos que se social que a escola se propõe a cumprir.
produzem continuamente, permeados de É nessa perspectiva que o entendimento
possibilidades em criar mecanismos para de clássico foi tomado como referência,
intervir de forma transformadora nas sobre o qual Saviani, (2012, p.87),
demandas sociais, à medida que se afirma: “clássico é aquilo que resistiu ao
tornam conscientes de si e de suas tempo, logo sua validade extrapola o
capacidades de atuação. momento em que ele foi proposto”.
No processo de formação humana inclui- Para Gasparin, (2009, p.122),
se a escola como responsável pelo professores e alunos precisam, portanto,
trabalho educativo. Sua função social descobrir para que servem os conteúdos
consiste em possibilitar às novas científico-culturais propostos pela
gerações o acesso ao saber científico, por escola. “O trabalho de todo o processo
meio dos conteúdos escolares, de modo ensino-aprendizagem apresenta-se como 49
que ao serem apropriados, possam um grande instrumento na transformação
constituir-se em instrumentos de de um aluno-cidadão em um cidadão
transformação social. mais autônomo”.
Diante da perspectiva de transformação Nessa perspectiva, a educação, segundo
social, o método dialético de elaboração Saviani, (2012), tem por objeto a
do conhecimento, o qual fundamenta a identificação dos elementos culturais a
Pedagogia Histórico-Crítica, “[...] é a serem assimilados pelos indivíduos da
base filosófica do marxismo e como tal espécie, necessários à formação humana.
realiza a tentativa de buscar explicações Atribui-se como função social da escola,
coerentes, lógicas e racionais para os defendida nessa perspectiva, que a
fenômenos da natureza, da sociedade e educação escolar deverá possibilitar:
do pensamento” (TRIVIÑOS 2010,
a) Identificação das formas mais
p.51).
desenvolvidas em que se expressa o
Apoiados nos pressupostos categoriais saber objetivo produzido
de análise e interpretação da realidade, historicamente, reconhecendo as
difundidos pelo método materialista condições de sua produção e
histórico dialético que fundamenta compreendendo as suas principais
teórica e metodologicamente a manifestações, bem como as
tendências atuais de transformação;
Pedagogia Histórico-Crítica, a tomada
b) Conversão do saber objetivo em
de consciência para organização e saber escolar, de modo que se torne
transformação social implica na assimilável pelos alunos no espaço e
formação humana pela apropriação dos tempo escolares; c) Provimento dos
conteúdos científico-culturais. meios necessários para que os
alunos não apenas assimilem o saber materialista, pautado na concepção da
objetivo enquanto resultado, mas Pedagogia Histórico-Crítica.
apreendam o processo de sua
produção, bem como as tendências Ao realizar uma pesquisa de base
de sua transformação (SAVIANI, materialista, Triviños, (2010), apresenta
2012, p.8). três etapas ou três momentos que
possibilitam a compreensão do método
A compreensão das ações objetivas dos de pesquisa:
processos educativos analisados nessa
a) A contemplação viva do
perspectiva teórica, sob a luz da
fenômeno: é o primeiro passo a
metodologia marxista, postula uma
ser adotado pelo pesquisador,
concepção de formação vinculada à
nesta etapa é compreendida a
transformação social. Essa concepção
coleta dos dados, os meios que
suscita compreender o contexto social no
possibilitam a aproximação e
qual a escola se encontra, bem como sua
conhecimento do objeto a ser
relação direta com os ditames do sistema
estudado. A partir dessa
no modo de produção capitalista, tendo
compreensão, surgem algumas
em vista a superação da sociedade
hipóteses de investigação.
vigente quando discute a viabilidade de
uma proposta de ensino comprometida b) Análise do fenômeno, isto é, a
com a instrumentalização da classe incursão na dimensão abstrata
trabalhadora. desse. É o período que possibilita
a investigação dos elementos ou
Para que a escola cumpra sua função partes integrantes do objeto de
social e de fato sirva aos interesses da estudo. Nessa fase, há uma 50
classe trabalhadora, deve estar atenta possibilidade de criar e aplicar
para levar a todos um ensino de diferentes tipos de meios e/ou
qualidade, para que, realmente, a instrumentos com a finalidade de
educação se torne uma prática mediadora reunir informações necessárias
do sujeito em seu meio social. Isso para melhor compreensão do
porque, segundo Saviani, (2012, p.121), estudo.
“[...] se a educação é mediação no seio
c) A realidade concreta do
da prática social global, e se a
fenômeno, nessa etapa, é
humanidade se desenvolve
compreendida a realização de
historicamente, isso significa que uma
estabelecer os aspectos de suma
determinada geração herda da anterior
necessidade do objeto, o que
um modo de produção com os
fundamentam-no, a realidade e
respectivos meios de produção e relações
possibilidades, o conteúdo e sua
de produção”, e que, portanto, é função
forma. É realizado experimentos
da nova geração transformar as relações
que buscam esquadrinhar as
herdadas, produzidas histórica e
informações e observações
coletivamente pelo conjunto dos
coletadas durante o percurso da
homens.
pesquisa. A concretude real do
fenômeno por meio da análise e
Com a finalidade de nortear o objeto
síntese no decorrer do processo.
deste estudo, pretende-se expor o
percurso teórico-metodológico utilizado A partir dessas três premissas elucidadas
no escopo deste trabalho, o qual se deu à por Triviños (2010), foi traçado, como
luz do método dialético de base procedimento dessa investigação, o
estudo de fábulas na perspectiva necessidade individual e social que ao
histórico-crítica, mediante as cinco fases serem apropriados possam constituírem-
do processo didático proposto por se em instrumentos de transformação
Gasparin, (2009): Prática Social Inicial social. A perspectiva de uma abordagem
do conteúdo; Problematização; dialética da educação inicia com a busca
Instrumentalização; Catarse e Prática de uma teoria crítica em educação,
Social Final do conteúdo. comprometida com transformação da
sociedade por meio do domínio dos
Para a Educação brasileira, a Pedagogia conteúdos científicos (SAVIANI, 2012).
Histórico-Crítica constitui-se num
referencial teórico de grande relevância De acordo com Saviani, (2010), as bases
à formação docente, cuja obra elaborada, econômicas provocam mudança na
na década de 1980, pelo professor concepção de ensino, o qual passa a ser
Demerval Saviani propõe uma nova organizado assumindo nova roupagem,
abordagem teórica e metodológica frente mas com características do mesmo
as necessidades advindas dos educadores contexto:
por uma Pedagogia crítica acerca da [...] As tentativas de implantar
superação dos limites tanto das políticas de esquerda por parte de
pedagogias não-críticas, representadas governos estaduais e municipais
pelas concepções: tradicionais, assumidos por partidos que faziam
escolanovistas e tecnicistas, quanto das oposição ao regime militar foram, de
teorias crítico-reprodutivistas. modo geral, frustrantes. Na década
de 1990, com a ascensão de
De acordo com Saviani (2010), a governos ditos neoliberais em
Pedagogia Histórico-Crítica resgata a consequência do denominado 51
importância do conteúdo escolar. Ela se Consenso de Washington,
constitui como uma proposta contra- promovem-se nos diversos países
hegemônica, “[...] tributária da reformas educativas caracterizadas,
concepção dialética, especificamente na segundo alguns analistas, pelo
versão do materialismo histórico [...]” neoconservadorismo (SAVIANI,
2010, p. 424).
(SAVIANI, 2010, p. 421).
Para a Pedagogia Histórico-Crítica, a
Fundamentada em obras marxistas, essa apropriação do conhecimento científico-
proposta pedagógica tem como cultural via educação escolar
dimensão teórica o método dialético de corresponde a uma necessidade histórica
elaboração do conhecimento científico, o do desenvolvimento humano. A
materialismo histórico que busca apropriação do saber historicamente
compreender os fenômenos humanos e acumulado torna-se condição necessária
sociais na totalidade histórica das para o desenvolvimento social dos
relações estabelecidas, mediante o indivíduos. Para a apropriação do
contexto histórico no qual se conhecimento científico-cultural exige-
desenvolvem. se da formação docente práticas de
A Pedagogia Histórico-Crítica consiste ensino correspondente à organização do
num importante referencial teórico à ensino, no desenvolvimento do método
formação de professores, cujos da prática-teoria-prática. Gasparin
processos de formação para a atuação (2009) afirma:
transformadora da realidade conduzem à O processo pedagógico deve
apropriação dos conteúdos escolares. possibilitar aos educandos, através
Esses devem ser tratados como uma do processo de abstração, a
compreensão da essência dos […] essa nova forma pedagógica de
conteúdos a serem estudados, a fim agir exige-se que se privilegiem a
de que sejam estabelecidas ligações contradição, a dúvida, o
internas específicas desses questionamento; que se valorizem a
conteúdos com a realidade global, diversidade e a divergência; que se
com a totalidade da prática social e interroguem as certezas e as
histórica. Este é o caminho por meio incertezas, despojando os conteúdos
do qual os educandos passam do de sua forma naturalizada, pronta,
conhecimento empírico ao imutável (GASPARIN, 2009, p.03).
conhecimento teórico-científico
(GASPARIN, 2009, p. 6). Para o autor, o momento da prática social
inicial permite conhecer tanto a prática
Nesse sentido, a didática da Pedagogia social imediata (o que o aluno já sabe
Histórico-Crítica busca sobretudo sobre o assunto) quanto a medita (que
organizar o ensino como instrumento depende das relações sociais), as quais
maior para uma prática docente poderão conduzir a uma aprendizagem
condizente aos objetivos da atuação significativa do aluno e uma prática
transformadora da realidade por meio da pedagógica significativa ao professor.
apropriação dos conteúdos escolares. A São condições para ultrapassar o
abordagem das dimensões do imediato.
conhecimento permite o processo de
formação tanto do professor quanto do O segundo passo – Problematização –
aluno. resulta da identificação dos principais
problemas postos pela prática e pelo
Ainda que brevemente, pretende-se conteúdo curricular, promovendo-se as
apresentar a Didática desenvolvida por discussões do conteúdo a partir do que os 52
Gasparin (2009), a qual coloca em alunos já conhecem. É necessário
prática a pedagogia de Dermeval explicar de que forma o conteúdo será
Saviani, a Pedagogia Histórico-crítica. O trabalhado, ou seja, a partir das questões
autor apresenta cinco fases do processo problematizadoras nas diversas
didático que consiste numa prática de dimensões: conceitual, científica, social,
plano do trabalho docente-discente em histórica, econômica, política, estética,
sala de aula. religiosa, ideológica, entre outras.

O primeiro passo – Prática Social Inicial Essa etapa implica um novo fazer
– consiste em conhecer a prática social pedagógico, consiste numa nova maneira
imediata, ou seja, iniciar as atividades de estudar, planejar e executar as aulas.
propostas apresentando aos alunos os Nesse sentido, “o conteúdo é submetido
objetivos, os tópicos e subtópicos da a dimensões e questionamentos que
unidade que se pretende estudar, exigem do mestre uma reestruturação do
posteriormente promover em sala de aula conhecimento que já domina. O
o diálogo acerca dos mesmos. Os alunos conteúdo é entendido como uma
são oportunizados a mostrar sua vivência construção histórica e social frente às
do conteúdo, seus conhecimentos necessidades humanas” (GASPARIN,
prévios sobre o tema a ser trabalhado, 2009, p.49).
possibilitando-os a inferir
O terceiro passo – Instrumentalização –
questionamentos acerca do conteúdo em
conduz à apresentação sistemático-
pauta. O professor adotará forma de
dialógica do conteúdo científico,
registro para as indagações apontadas
contrastando-o com o cotidiano e
pelos alunos:
respondendo às questões
problematizadas nas diversas dimensões. aprendeu; requer uma aplicação”
É o exercício didático da relação sujeito- (GASPARIN, 2009, p.140). Nesse
objeto pela ação do aluno e mediação do sentido, a prática social final é a prática
professor, na qual se efetiva a construção social inicial já modificada pela
do novo conhecimento. Para Gasparin mediação pedagógica. Compreendendo-
(2009): se o movimento dialético a prática social
A fase da instrumentalização é o final será também a prática social inicial.
centro do processo pedagógico. É De acordo com o autor, “essa nova
nela que se realiza, efetivamente, a metodologia dialética do conhecimento
aprendizagem. Por isso o trabalho perpassa todo o trabalho docente-
do professor como mediador
discente (p.05)”, tanto professor quanto
consiste em dinamizar, através das
ações previstas e dos recursos
os alunos terão ações modificadas. A
selecionados, os processos mentais metodologia proposta na Pedagogia
dos alunos para que se apropriem Histórico-Crítica promove a
dos conteúdos científicos em suas compreensão acerca das relações sociais,
diversas dimensões, buscando conduz ao processo de ensino e
alcançar os objetivos propostos aprendizagem significativa na
(GASPARIN, 2009, p. 122). apropriação dos conteúdos científico-
O quarto passo – Catarse – representa a culturais, os quais são condições
síntese do aluno, sua nova postura necessárias à transformação social.
mental; a demonstração do novo grau de
conhecimento a que chegou, expresso
2. A fábula enquanto gênero
pela avaliação espontânea ou formal.
discursivo na perspectiva Histórico- 53
“Expressa a conclusão do processo
Crítica
pedagógico conduzido de forma coletiva
para a apropriação individual e subjetiva Além das características de animais
do conhecimento” (GASPARIN, 2009, agindo como seres humanos, o gênero
p. 127). fábula também possui uma moralidade.
Partindo desse pressuposto, pode-se
Para o autor, a catarse refere-se a
destacar que no decorrer dos tempos, a
avaliação da aprendizagem do conteúdo,
fábula foi a porta-voz de ideologias. Se
mas contraria a ideia de demonstrar a
Esopo a usou para alertar os que estavam
aprendizagem para apenas um registro
na mesma condição que a dele, também
formal por meio dos instrumentos
o Estado se apropriou desse gênero para
avaliativos, por isso, deve estar presente
difundir suas crenças por meio de
durante o transcorrer de todas as
aparelhos ideológicos.
atividades, na expressão prática do
conhecimento apropriado como um novo Para Althusser (1985), todas as esferas
instrumento de compreensão e de sociais são uma representação dos
transformação da realidade. aparelhos ideológicos do Estado. Isso
pode ser constatado mediante ao
O quinto passo – Prática Social Final –
contexto histórico dos grandes
é a fase das intenções e propostas de
fabulistas. Há interesses
ações dos alunos, a qual consiste na
socioeconômicos em difundir falácias
manifestação da nova atitude prática do
como forma de alienação pela classe
educando em relação ao conteúdo
opressora.
aprendido, bem como o compromisso de
executar o novo conhecimento. “Exige- Pensando nas artes de uma forma geral,
se uma ação real do sujeito que Bakhtin, (1992), afirma que todo produto
de consumo carrega ou pode ser encontra-se em 2 Tessalonicenses, o qual
transformado em signo ideológico. diz:
Consequentemente, a linguagem torna- Porque, quando ainda estávamos
se uma representação de ideologia: convosco, vos mandamos isto, que,
se alguém não quiser trabalhar, não
Todos os diversos campos da
coma também.
atividade humana estão ligados ao
uso da linguagem. Compreende-se Porquanto ouvimos que alguns entre
perfeitamente que o caráter e as vós andam desordenadamente, não
formas desse uso sejam tão trabalhando, antes fazendo coisas
multiformes quanto os campos da vãs.
atividade humana, o que, é claro,
A esses tais, porém, mandamos, e
não contradiz a unidade nacional de
exortamos por nosso Senhor Jesus
uma língua. O emprego da língua
Cristo, que, trabalhando com
efetua-se em forma de enunciados
sossego, comam o seu próprio pão.
(orais e escritos) concretos e únicos,
(2 Tessalonicenses 3:10-12)
proferidos pelos integrantes desse
ou daquele campo da atividade La Fontaine, provavelmente, usou a
humana (BAKHTIN, 2003, p. 261). Cigarra e a formiga como forma de
gerar trabalho e mantimento por meio
De acordo com o teórico, os gêneros
dos camponeses franceses com a
discursivos são ricos e moldam-se à
necessidade de suprir os excessos de
medida que surgem novas necessidades
Luis XIV. Como a religião sempre foi
de um grupo de pessoas. Muitas vezes, a
algo bem presente na vida das pessoas,
mudança ou a reescrita de um texto
especialmente naquela época, nota-se a
consiste na materialidade de uma 54
presença da Igreja atuando como um
ideologia opressora:
aparelho ideológico do Estado e La
Os gêneros são atividades Fontaine usando a bíblia como suporte à
discursivas socialmente veracidade de suas fábulas.
estabilizadas que se prestam aos
Em um outro momento, Monteiro
mais variados tipos de controle
social e até mesmo o exercício de Lobato (2008) reconta a mesma história,
poder. Pode-se, pois, dizer que os mas de duas formas: A formiga boa e A
gêneros são nossas formas de formiga má. Em A formiga boa, Lobato
inserção, ação e controle social no inocenta a cigarra, enquanto as pessoas
dia-a-dia [...] os gêneros são também trabalham e enquanto há a exploração da
necessários para interlocução mais-valia. O ser humano tem a
humana (MARCUSCHI, 2008 necessidade de consumir arte, pois o
p.161). divertimento, em seu sentido lato é
aquilo que desvia a atenção de um
De uma forma geral, ao analisar o gênero
determinado assunto. Longe de pensar
fábulas, percebe-se essa característica
que a cigarra estava fazendo o bem em
enquanto reprodutora de um poder. Em
alegrar a vida das formigas, mas o papel
A cigarra e a formiga de La Fontaine, há
da artista era desviar a atenção dos
marcas de preservação de “valores” e
operários, que sem perceber, estavam
“moralidades”, tornam-se visíveis as
sendo explorados.
marcas religiosas dentro do texto.
Provavelmente, apropriando-se da ideia Em contrapartida, percebe-se que em A
de Esopo, La Fontaine justificou seu formiga má, o Brasil era um excelente
texto amparado pela Bíblia. Um breve país para se morar, porque a nação
resumo de A cigarra e a formiga, brasileira era alegre e recompensava os
artistas, diferente das formigas europeias 1. Prática social inicial do conteúdo
que eram individualistas. Em A formiga
1.1 Título da unidade do conteúdo:
má, vê-se uma noção muito forte de um Gênero textual – Fábulas
patriotismo utópico e, também, uma
crítica à sociedade europeia do início do
século XX, uma vez que o livro foi Objetivo geral: Abranger a fábula enquanto
publicado em 1922, percebe-se também um gênero discursivo. Sua característica
uma crítica à Primeira Guerra Mundial. consiste na presença de animais com traços
Ao fazer a leitura desses textos com os humanos protagonizando a história.
Geralmente, A finalidade da fábula é
alunos integrantes da pesquisa,
representar contextos de determinadas
percebeu-se que ainda hoje a escola épocas. A partir do trabalho com esse gênero
opera como um aparelho ideológico do textual, visa-se estabelecer uma reflexão
Estado. A leitura que as crianças faziam crítica de diferentes contextos para que
eram semelhantes às do século XVII. A sirvam aos alunos de embasamento às suas
quebra desses paradigmas, em grande práticas didáticas.
parte dos casos, pode ser feita pelo
professor, a este cabe dar direcionamento
aos seus alunos à uma postura crítica Tópicos do conteúdo e objetivos
como forma de extrair da alienação. específicos

Entretanto, se a escola não opera de Tópico 1: Gêneros textuais


acordo com o Estado, então existe um Objetivo específico: Proporcionar aos
outro aparelho responsável em difundir discentes maior capacidade de linguagem
as ideias advindas do senso comum. O por meio da apresentação de diversos
papel da religião e da família muitas gêneros textuais utilizados como formas de 55
vezes é responsável por isso, logo, cabe organizar a linguagem, explanar sobre as
modalidades de texto, suas estruturas e
a escola, mais precisamente, ao professor
funções sociais, com a finalidade de que
que desenvolva uma postura crítica em identifiquem diferentes gêneros textuais e
seus alunos por meio da interpretação compreendam as características e suas
textual, interpretação que busca intencionalidades.
esquadrinhar os sentidos imanentes no
Tópico 2: O que são fábulas?
texto.
Objetivo específico: Esquadrinhar algumas
fábulas a fim de identifica-las como gênero
3. Plano desenvolvido a partir dos tipo narrativo. Analisar as intencionalidades
pressupostos teóricos apresentados que permeiam as fábulas por meio dos
elementos estruturais e a compreensão dos
PROJETO DOCENTE-DISCENTE NA diferentes contextos históricos retratados no
PERSPECTIVA DA DIDÁTICA referido gênero textual.
HISTÓRICO-CRÍTICA
Tópico 3: O trabalho com gênero textual
“fábula” nos anos iniciais
Disciplina: Metodologia para o ensino de Objetivo específico: Ressaltar a
Língua Portuguesa e alfabetização importância do trabalho com fábulas em sala
Unidade de conteúdo: Gênero textual – de aula para que os alunos compreendam que
Fábulas por meio desse gênero é possível elevar a
compreensão crítica dos alunos, situá-los em
Ano letivo: 2012 – 2º Bimestre: 5º período diferentes contextos por meio do
– Turma: Formação de docentes conhecimento da história, características e
Horas-aula: 6. autores desse gênero textual.
1.2 Vivência do conteúdo Social: Quais os principais gêneros textuais
que circulam na sociedade? Todas as
O que os alunos têm de conhecimento prévio
pessoas possuem as mesmas condições
acerca do conteúdo a ser ministrado?
sociais de acesso aos gêneros textuais?
Elencar tudo o que eles poderiam dizer
(colocar-se no lugar deles). As formas do Política: As fábulas podem retratar
gênero textual podem ser orais ou escritas, contextos políticos? Discursos políticos são
por exemplo: bilhetes, ata, leis, convites, gêneros textuais?
discursos políticos, histórias, e-mail, Cultural: Por meio das fábulas é possível
notícias, letras de música, conto, apólogo, compreender a cultura de um determinado
contos de fadas, entre outros. povo? Quais os gêneros textuais veiculados
O que você gostaria de acrescentar sobre o pela mídia? Como esses gêneros interferem
conhecimento do conteúdo? Listar no na formação cultural das pessoas?
planejamento todas as possíveis
curiosidades: O que são gêneros textuais? O Religiosa: A moral da história presente nas
que são fábulas? Quando surgiram as fábulas expressa relações com as doutrinas
fábulas? Quais os principais autores de religiosas? Os textos bíblicos são gêneros
fábulas? Qual a intencionalidade das textuais? Como classificá-los? Qual a
fábulas? Qual a importância das fábulas? intencionalidade deles?
Como utilizar as fábulas na elaboração e Legal: Quais documentos oficiais orientam
execução das aulas? a prática de ensino de gêneros textuais? As
leis são gêneros textuais?

2. PROBLEMATIZAÇÃO Ideológica: As fábulas podem retratar a


ideologia da dominação social?
2.1 Discussão (Elaborar algumas perguntas
sobre o tema da aula para debate) Tecnológica: Quais recursos tecnológicos
possibilitam o trabalho didático com 56
O que são gêneros textuais? As receitas, fábulas? Como utilizá-los? Como a
bulas de remédio, convites, entre outros, são tecnologia influencia na circulação dos
gêneros textuais? Quais são suas gêneros textuais? Quais os tipos de gêneros
intencionalidades? O que são narrativas? O textuais que passaram a circular a partir do
que são fábulas? Quando surgiram as avanço tecnológico?
fábulas? Quais os principais autores de
fábulas? Qual a intencionalidade das Educacional: Qual a importância dos
fábulas? Qual a importância das fábulas? gêneros textuais no contexto escolar?
Prática: Como pode ser utilizado o
conhecimento sobre gênero textual fábula na
2.2 Dimensões e trabalho do conteúdo na vida cotidiana das pessoas?
instrumentalização
(Selecionar as dimensões mais adequadas
conforme o tema e fazer perguntas). 3. INSTRUMENTALIZAÇÃO

Conceitual/científica: O que são gêneros 3.1 Listar todas as técnicas, dinâmicas,


textuais? O que são fábulas? processos, métodos que serão utilizados
para apresentar o conteúdo científico nas
Histórica: Qual a importância das fábulas dimensões indicadas posteriormente:
ao longo da história? Quando surgiram os
primeiros fabulistas? Aula dialogada/ questionamentos/ leituras e
explicações/ estudo de algumas fábulas/
Econômicas: Quais os gêneros textuais que análise do contexto social das fábulas/
são hoje comercializados? A circulação dos apresentação de vídeos etc.
gêneros textuais está mais atrelada à
formação cultural ou a comercialização
deles? 3.2 Listar os recursos necessários:
Professor, alunos, livros, apostilas, material povo? Quais os gêneros textuais veiculados
impresso, vídeos, jornais, bulas de remédio, pela mídia? Como esses gêneros interferem
texto literário e outros gêneros textuais. na formação cultural das pessoas?
Religiosa: De que forma a moral da história
presente nas fábulas expressam relações às
4. CATARSE doutrinas religiosas?
4.1 Síntese mental do aluno Tecnológica: Como a tecnologia influencia
(No planejamento, colocar-se no lugar do na circulação dos gêneros textuais?
aluno e fazer a síntese): Prática: Como pode ser utilizado o
As fábulas são gêneros textuais, uma conhecimento sobre gênero textual fábula na
narrativa carregada de intencionalidade, que vida quotidiana das pessoas?
se utiliza geralmente de animais, forças da
natureza ou objetos, com características
humanas representando contextos de 5. PRÁTICA SOCIAL FINAL DO
determinadas épocas. O estudo de gêneros CONTEÚDO
textuais possibilita uma maior capacidade de
linguagem, de interpretação e de reflexão
crítica. É por meio do gênero textual fábulas Intenções do aluno: Quero aprofundar-me
que podemos nos situar em diferentes nos estudos dos gêneros textuais. Desejo
contextos mediante o conhecimento compreender melhor como as relações
histórico. No passado, as fábulas constituíam sociais são tratadas a partir do estudo de
a literatura oral de muitos povos que foram alguns gêneros textuais. Pretendo abranger
transmitidas de geração em geração e só sobre as relações sociais a partir do estudo
mais tarde foram registradas por escrito. das fábulas, contexto e seus autores;
Hodiernamente, podemos perceber diversas 57
releituras das fábulas clássicas. Embora
fábulas sejam consideradas textos bem Ações do aluno: Identificarei e relacionarei
antigos, sobrevivem ao tempo porque seus diferentes contextos históricos, sociais,
temas tratam indiretamente de problemas políticos e econômicos. Manifestarei meu
comuns ao quotidiano das pessoas. ponto de vista nas discussões, ao
compreender a intencionalidade do discurso
contido nas fábulas. Realizarei leituras e
4.2 Avaliação (Tanto por perguntas quanto buscarei novas fontes literárias sobre o tema.
dissertação, considerar as dimensões vistas): Produzirei textos sobre o assunto. Planejarei
aulas sobre gêneros textuais, na perspectiva
Conceitual/ científica: O que são gêneros da Pedagogia Histórico-Crítica.
textuais? O que são fábulas?
Histórica: Qual a importância das fábulas
ao longo da história? Quando surgiram as 4. Considerações acerca do trabalho
fábulas? realizado
Econômica: Quais os gêneros textuais que Diante da proposta metodológica
são hoje comercializados? A circulação dos desenvolvida, nessa perspectiva,
gêneros textuais está mais atrelada à percebeu-se que ainda há muito trabalho
formação cultural ou a comercialização a ser propagado. Pode-se observar no
deles?
trabalho de alguns alunos, durante a
Social: Todas as pessoas possuem as Prática Social Inicial do Conteúdo, as
mesmas condições sociais de acesso aos marcas de uma cultura engajada com a
gêneros textuais? Por que? alienação e reprodução de
Cultural: Por meio das fábulas, é possível conhecimentos ideológicos, funcionando
compreender a cultura de um determinado como aparelhos do Estado. A função
docente, nesse sentido, se fez pertinente Referências
para que houvesse essa quebra de ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos
paradigma, e consequentemente, uma ideológicos do Estado: nota sobre os aparelhos
nova compreensão da realidade. ideológicos de Estados. 6.ed. Rio de Janeiro:
Graal, 1985;
A prática de uma leitura crítica,
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da
possibilita ao aluno o acesso ao criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
conhecimento científico-cultural acerca 2003.
de seus saberes de mundo e o ______. Marxismo e filosofia da linguagem. 6.
reconhecimento de ideologias imanentes ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
ao texto. A partir do momento que os
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução:
alunos identificaram-se no processo de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: CPAD,
leitura, há uma série de fatores que [199-].
possibilitam o questionamento e a GASPARIN, João Luiz. Uma Didática para a
percepção de sua condição na sociedade. Pedagogia Histórico-Crítica. 5. ed. Campinas:
A aula é o veículo que causa abalos na Autores Associados, 2009.
formação ideológica do ser. LOBATO, Monteiro. Fábulas. São Paulo:
O desenvolvimento desse estudo, Editora Globo, 2008.
mediante a prática de planejamento MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção
docente-discente durante o trabalho com textual, análise de gêneros e compreensão. São
fábulas, permitiu-nos constatar a Paulo: Cortez, 2008;
viabilidade da proposta didática sugerida SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso
por Gasparin, (2009), como forma de comum à consciência filosófica. 10. ed. São
potencialização dos conhecimentos Paulo: Cortez, 1991.
científicos na prática quotidiana. ______. Escola e Democracia. 39. ed. 58
Campinas: Autores Associados, 2008.
______. Pedagogia Histórico-Crítica:
Primeiras aproximações. 11 ed. Campinas, SP:
Autores Associados, 2012.
______. História das ideias pedagógicas no
Brasil. 3 ed. Campinas, SP: autores associados,
2010. - (Coleção memória da educação).
TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução
à pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo:
Editora Atlas, 2010.

Recebido em 2014-10-25
Publicado em 2014-11-07

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