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Fundamentos da

Administração
Módulo 10

Relações étnico-raciais, cultura


afro-brasileira e indígena
UNIVERSIDADE POSITIVO
Superintendente – Paulo Arns da Cunha

Reitor – José Pio Martins

Pró-Reitora Acadêmica – Márcia Teixeira Sebastiani

EQUIPE TÉCNICA

Gerente de EAD – Manoela Pierina Tagliaferro


Coordenadora Pedagógica – Camile Gonçalves Hesketh Cardoso
Supervisora de Desenvolvimento de Conteúdo – Josiane Cristina Rabac Stahl
Analista Administrativo – Fabieli Fernandes Campos Higashiyama
Assistente Administrativo – Vanessa Flavia Ferreira
Autor – Gustavo Gava
Analista de Conteúdo – Lincoln André de Sousa
Designers Instrucionais – Danieli Valle, Elen Priscila Ribeiro Barbosa e Roberta Galon Silva
Ilustrador – Valdir de Oliveira
Diagramador – Valdir de Oliveira
Revisores Ortográficos – Gilmar Tsalikis e Gislaine Stadler de Oliveira Coelho

Copyright Universidade Positivo 2013


Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 – Campo Comprido, Curitiba-PR.
CEP 81280-330
Sumário
Apresentação | 4
Contatos culturais e relações étnicas | 5
Espaço de autonomia e organização: cultura afro-brasileira e indígena | 9
Tecnologia, organização e interação afro-brasileira e indígena | 12
Desenvolvimento e visão de mundo | 14
Administrando o conhecimento | 16
Glossário | 18
Respostas dos exercícios | 19
Referências | 20
Minicurrículo | 21
Fundamentos da Administração 4

Apresentação

Caro Aluno,
O Centro de Educação à Distância (CED), visando qualificar o processo de aprendizagem das dis-
ciplinas do Núcleo de Formação Humana (NFH), elaborou este material para que você possa ter o
conteúdo on-line, bem como uma versão que possibilite a impressão.
Embora o conteúdo on-line seja similar a este, indicamos que inicialmente estude o on-line, pois
conta com recursos audiovisuais que podem facilitar o processo de aprendizagem.
Bons estudos!
Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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Contatos culturais1
e relações étnicas
Sabe-se que desde os primórdios da história da humanidade a raça humana passou por diversas
transformações evolutivas e culturais, as quais proporcionaram as chamadas relações étnico-raciais,
principalmente, quando estudamos a própria história do Brasil. Pois, cotidianamente, podemos per-
ceber como a cultura brasileira é composta por várias etnias. Hoje em dia está se tornando cada
vez mais comum lidarmos com essas relações e, inclusive, aceitarmos as diferenças culturais em um
mesmo espaço geográfico.
Atualmente podemos encontrar várias transformações em nossa sociedade a partir dos contatos
culturais. Como, por exemplo, um grupo de rapper composto por indígenas.

Intolerância étnica
Assim como um empresário afrodescendente comandando uma
multinacional líder de mercado. Realidade que nos últimos anos
vem se transformando positivamente. Porém, vale destacar que

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nem sempre foi assim. E, que ainda hoje encontramos algumas difi-
culdades que devem ser superadas. É sabido que passamos por um
período de intolerância étnica e de dificuldade relacional com o ator
social considerado “diferente”.
Mas, a partir do momento que começamos a lidar com as diferenças étnicas, percebemos, igual-
mente, uma evolução organizacional em nosso próprio modelo social. Como o próprio ambiente
empresarial/institucional. Espaço que comporta, muitas vezes, diferentes culturas. Por exemplo, o
caso da empresa Jornal Gazeta do Povo que possui dentro do seu quadro de funcionários uma das
primeiras jornalistas indígenas formadas no Brasil, Sandra Terena.2

1  Vale destacar dois momentos que transformaram o comportamento humano e suas relações organizacional
e civilizatória. A primeira ocorreu aproximadamente há 60 mil anos. Tendo como foco as primeiras manifestações
artísticas, religiosas e tecnológicas. A segunda emergiu a partir do início das atividades agrícolas, domesticação de
animais e cultivo de plantas. A partir desses dois momentos houve a “explosão cultural” e a expansão cerebral teve
seu grande surto na mente do Homo sapiens. Sua evolução iniciou-se na África.
2  Sandra nasceu em Curitiba, é descendente da etnia Terena. É formada em jornalismo, com pós-graduação – uma
das únicas indígenas a concluir uma pós-graduação – em comunicação audiovisual. Trabalha no Jornal Gazeta do
Povo. Vice-presidente da ONG Aldeia Brasil.
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Hierarquias
Mas, como dito anteriormente, as relações culturais nem sempre foram assim. Até porque era
comum encontrar em muitos manuais, livros, artigos e pesquisas que, geralmente, estipulavam a
própria evolução humana a partir de uma hierarquia entre as “raças”3 (LANKIN NASCIMENTO, 2006,
p. 33), em que os povos africanos – bem como os indígenas como veremos adiante – costumei-
ramente, eram dogmatizados como seres inferiores. Entretanto, esse modelo, por muito tempo,
escamoteou‡ o desenvolvimento científico e tecnológico que esses povos desenvolveram ao
longo de sua construção histórica, cultural e social. Bem como processos sócio-organizacionais de
desenvolvimento humano.
Inclusive, verificou-se que esse processo de desenvolvimento humano – aproximadamente 30
mil anos atrás – possui vestígios em território brasileiro. E, que na década de 1970, no Estado de
Minas Gerais, foram encontrados indícios arqueológicos negroides (características afro) datados de
12 mil anos.

ATENÇÃO!

Essa evidência indica que houve, há muito tempo, contatos culturais por meio de migrações
humanas originárias da África com os povos da América. Contrariando, inclusive, as teorias vigen-
tes da comunidade científica de que os povos das Américas constituíam uma única etnia. Sabe-se,
atualmente, inclusive, que os povos africanos, antes mesmo que os portugueses e os espanhóis, já
navegavam os mares à procura das Índias (LANKIN NASCIMENTO, 2006, p. 34-35).

Vale destacar, a partir desses e tantos outros dados, que as


comunidades africanas – assim como as indígenas – também
fazem parte do centro do desenvolvimento das civilizações no
mundo. Bem como os próprios egípcios e outros povos antigos
igualmente o fazem.
Evidencia-se, que, esses mesmos povos afros e indígenas, já
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possuíam, a priori, vários recursos organizacionais para o desenvol-


vimento de suas tecnologias e para a sofisticação da experiência
humana (LANKIN NASCIMENTO, 2006, p. 35).

3  Atualmente muitos estudiosos questionam o termo raças usado no plural. Visto que a ideia de hierarquia pode
manter-se presente por meio dessa subdivisão. Pois levam em consideração de que raça humana é uma só. Contudo,
as peculiaridades socioculturais são melhores apresentadas pelo termo etnia.
Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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Segundo a renomada pesquisadora e antropóloga brasileira


Eliane O’Dwyer (2000, p. 14) “essas comunidades não são resí-
duos ou resquícios arqueológicos, nem grupos isolados de uma
população extremamente homogênea”. E, no atual ambiente

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empresarial/institucional da sociedade do século XXI, podemos,
a partir dos contatos culturais, aprender com a visão de mundo
do outro. Pois esses atores sociais também possuem cultural-
mente um conhecimento intrínseco. Estão começando a ser inseridos nos mesmos ambientes e nem
por isso perdem suas características culturais. Você já se imaginou trabalhando em uma empresa
em que o quadro de funcionários pode ser composto por caucasianos, indígenas e afros? Quantas
coisas poderiam ser aprendidas e trocadas? Esse é um cenário que pode se tornar cada vez mais
comum nas empresas brasileiras.
Entretanto, para que isso aconteça naturalmente, percebe-
-se que a colocação da antropóloga O’Dwyer vai ao encontro à
ideia defendida pelo eminente filósofo latino-americano Enrique
Dussel.
Ou seja, o abandono da ideia de hierarquia entre raças e/ou
de uma cultura superior. O filósofo (2002, p. 22) tece uma crítica à
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ideia de que a evolução humana se deu a partir e unicamente por


meio de uma via heleno-eurocêntrica.

O conceito é de que a base europeia era o centro da histó-


ria universal, bem como todo desenvolvimento organizacional
humano e suas tecnologias. Cria-se, principalmente, para o enten-

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dimento da história do Brasil e a organização de seus povos um
grande problema: “O mito da modernidade oficializou somente
a Europa como sujeito histórico nestes 500 anos, a Ásia, a África
e a América Latina não participam da história, não existem, são o
não ser” (DIAS, p. 28).
Por isso, ainda, constata-se esse reflexo de intolerância em
alguns ambientes de trabalho, de convivência, entre outros,
com relação ao indígena e ao afrodescendente. Gerando, muitas
vezes, o próprio preconceito que pode estar enraizado desaten-
tamente por meio dessa ideia heleno-eurocêntrica, criticada por
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Dussel.
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Em uma empresa do século XXI a hierarquia deve existir a


partir de um processo nato de liderança entre os indivíduos.
Afastando-se de padrões que levam em consideração a etnia, a

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cor da pele, a classe social, entre outros.

Exercício 1
Podemos perceber como a cultura em todo o mundo é composta por várias etnias. O enten-
dimento das relações étnico-culturais favorece o próprio entendimento da humanidade e sua
construção. Com base no conteúdo dado até aqui, marque V (verdadeiro) e F (falsas) para as afirma-
ções abaixo.

( )
A explosão cultural teve início apenas na Europa.
( )
O desenvolvimento humano se dá a partir da hierarquia de raças. Em que as mais desenvolvi-
das dominam as consideradas inferiores.
( )
É constatado contemporaneamente que a África também faz parte do eixo evolutivo da
humanidade.
( )
As relações étnico-raciais só foram possíveis a partir do momento que os contatos culturais
seguiam uma cultura base. Ou seja, a mais forte predominava.
( )
As pesquisas atuais demonstram que o desenvolvimento africano era limitado devido ao seu
isolamento cultural.
Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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Espaço de autonomia e
organização: cultura afro-
-brasileira e indígena4
Como se observou no decorrer da disciplina e nos conteúdos
que caracterizavam cada módulo, um dos principais pontos a ser
considerado pelo administrador ou aquele que administra, eram

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os recursos e processos organizacionais.
Com base no resgate histórico de nossa própria raiz cultural,
poderemos observar que tanto a cultura afro-brasileira como
a indígena possuem valiosos exemplos de organização que
servem como modelo de entendimento intelectual (filosófico,
antropológico e administrativo) e metodológico (aplicação) a ser
considerado.
Como vimos anteriormente e bem citou a antropóloga brasileira Eliane O’Dwyer (2002), muitas
vezes temos a ideia de que essas comunidades são isoladas do mundo – urbano e civilizado –, não
possuem tecnologia, conhecimento avançado e nem organização. Essa visão caracteriza o senso
comum que muitas vezes prevalece sob as questões étnico-raciais.
Como no caso dos indígenas, em que repetidas vezes sofrem
certas estigmatizações como, por exemplo; “o ‘índio’ perdeu
toda a sua cultura”, ou seja, o senso comum acha que esse ator
social deve viver como há 500 anos; “o ‘índio’ não quer traba-
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lhar, é preguiçoso”, “o ‘índio’ só sabe fazer artesanato”, isto é, não


conseguem compreender as características e costumes culturais
desses atores sociais. Essa visão muitas vezes baseada em uma
análise rasa, de juízo de valor e de senso comum, impossibilita a percepção da existência dos pro-
cessos organizacionais que essas culturas carregam. E, muitas vezes fazem com que muitas pessoas
defendam a lesiva ideia de um processo de aculturação5.

4  “Se quisermos ficar ricos, acumular poder e dominar a Terra, é inútil pedirmos conselhos aos indígenas. Mas se
quisermos ser felizes, combinar o ser humano com ser divino, integrar a vida com a morte, inserir a pessoa na natu-
reza, articular o trabalho com o lazer, harmonizar as relações entre as gerações, então escutemos os indígenas. Eles
têm sábias lições para nos dar.” (Irmãos Villas Boas).
5  Termo abolido do vocabulário antropológico-filosófico, pois remete à ideia de dominação. Em que a adaptação
social do grupo mais fraco deve-se moldar às características culturais do grupo mais forte.
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Exercício 2
As características que formam a correta noção de relações étnico-raciais são:

a. Contatos culturais entre diversas etnias que dão forma à sociedade humana livre e o entendi-
mento de suas diferenças étnicas.
b. A classificação das etnias e suas hierarquias entre os povos.
c. A emancipação dos povos mais avançados e o domínio destes sobre os povos nativos e arcaicos.
d. O desenvolvimento dos povos por meio do processo da aculturação e sua organização social.
e. O avanço alcançado pelos povos mais sofisticados e sua implantação/ajuda cultural sobre os
menos desenvolvidos.

A partir dessas considerações demonstra-se que essas culturas


também estão em evolução: “As culturas indígenas não são para-
das no tempo. Como todas as culturas, vão se transformando em
função de novos acontecimentos e novas situações” (GRUPIONI,

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1992). Estão em plena relação com o outro e podem contribuir
por meio de seus conhecimentos. Ou seja, elas também possuem
um saber tecnológico e científico (LIMA FILHO; QUELUZ, 2005),
pois essas culturas – afro-brasileiras e indígenas – possuem meios tecnológico e organizacional. E
os espaços de convivência de suas comunidades não estão isolados e/ou fechados. Mas resistem
perante à pressão urbana, como um espaço de autonomia.
Nesse espaço cultural é possível encontrarmos processos organizacionais compartilhados pelo
grupo. Muitos desses processos podem ser de ordem tanto sócio-política como também tecnoló-
gica. Ou seja, desde a formação familiar ou do grupo como um todo, até os meios de conhecimento
da natureza, sua aplicação cotidiana e o manuseio ecológico tão em voga no III Milênio.
Atualmente, muitas empresas voltadas às questões ambientais buscam na cultura indígena meios
ecológicos de preservação e manejos sustentáveis que podem ser adaptados ao modelo urbano.
Como, por exemplo, a influência arquitetônica na construção de aldeias urbanas. Exatamente por
sua “fácil” administração urbana.
Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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TEXTO COMPLEMENTAR

Para saber mais sobre o assunto, leia o artigo on-line do site Fundação Verde Herbert Daniel inti-
tulado “As Cidades do Futuro: Orçamento, o Financiamento de Políticas Públicas e a Administração
Verde”.

ATENÇÃO!

O que caracteriza – e é o que muitos pesquisadores hoje


evidenciam – a autonomia desses espaços é justamente sua
preservação e organização cultural. Contudo, além de não encon-
trarem-se parados no tempo e nem isolados (totalmente) do

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mundo urbano, pois, ao contrário, caímos em uma visão extrema
e colonialista dominadora. Esses grupos se mantêm e distinguem
exatamente do modelo de produção dominante (consumismo),
pela sua organização social e visão de mundo (DIAS, 2009, p. 123). Como, por exemplo, no caso de
comunidades rurais quilombolas e comunidades tradicionais indígenas.

Exercício 3
Os espaços de autonomia bem como sua organização existentes entre as culturas afro-brasileira
e indígena podem ser assimilados pela seguinte perspectiva:

a. São espaços isolados no tempo e no espaço. Encontram-se defasados e de nada contribuem


para a sociedade urbana.
b. Encontram-se tecnologicamente em nível inferior, visto que muitas dessas culturas pararam
no tempo.
Fundamentos da Administração 12

c. Resistem à imposição/pressão cultural urbana moderna. Conseguindo ao mesmo tempo


manter suas características dentro de uma lógica de acumulação/contato cultural valorativa e
evolutiva.
d. Possuem seus valores culturais preservados. Porém, se fecham cada vez mais em sua própria
cultura.
e. São espaços que contribuem para entender o isolamento cultural de alguns grupos e seu
atraso tecnológico.

Tecnologia, organização e
interação afro-brasileira e
indígena
Segundo o filósofo Dussel (1977) muitas dessas comunidades
possuem sua acumulação histórica através da transformação de
instrumentos, pois projetam neles algo a mais que uma mera
produção. Ou seja, há uma construção valorativa de geração a
geração que vai se acumulando historicamente, em um processo
de comunicação e educação para com o próximo.
Os instrumentos são feitos dentro de uma lógica de valores
essencialmente positivos e qualitativos. Isso exige rigoroso e

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complexo sistema de organização e interação. Diferentemente
do nosso modelo moderno de civilização. Onde a produção de
instrumentos muitas vezes é quantitativa. E, que esse acúmulo
quantitativo acaba por esmagar o homem moderno (p. 71). A
ideia de tecnologia muitas vezes é resumida à produção mate-
rial e a sua lógica quantitativa. Segundo Maria Elisa Marcondes
Helene (1996, p. 11), “tecnologia é o conhecimento que permite
alterar nossas relações com o ambiente e com os outros seres
humanos”. Assim como os instrumentos produzidos por comu-
nidades “tradicionais” ou pelo homem antigo, antes mesmo da
ideia de organização científica6, também o são.

6  Robin Dunbar, em seu livro de 1995 intitulado O Problema Com a Ciência defende uma posição crítica sobre essa
noção atual que temos sobre tecnologia e ciência: “Em seu livro, Dunbar discute que não apenas as invenções tec-
nológicas dos chineses durante o primeiro milênio a.C. (por exemplo, a impressão, a seda, e a pólvora) podem ser
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TEXTO COMPLEMENTAR

Esse tipo de organização tecnológica pode ser encontrado tanto na cultura afro-brasileira como
também na indígena. Como, por exemplo, as pesquisas feitas pelo antropólogo William Balée na
Amazônia – Florestas Antropogênicas7 – e, que é realçada pela análise do filósofo brasileiro Leonardo
Boff (1995, p. 192)8: “Segundo o antropólogo William Balée, não foram os indígenas que fundamen-
talmente se adaptaram à floresta primária, foram eles que modificaram intencionalmente o hábitat
para estimular o crescimento de comunidades vegetais e a integração destas com comunidades
animais e com o ser humano”.

Outro exemplo pode ser encontrado em comunidades quilombolas, como no caso de Adrianópolis
no estado do Paraná. Essa comunidade visa, em suas atividades produtivas, a organização da comu-
nidade e a preservação do território. Como, por exemplo, regras mínimas de preservação ambiental,
entre outras. O objetivo principal não é apenas o lucro ou a expansão territorial de suas atividades. O
foco é a organização, a interação e a sobrevivência dos membros que formam a comunidade (DIAS,
2009, p. 142).
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descritas como emergindo da ciência, mas também o conhecimento que Aristóteles adquiriu sobre o mundo natural
no século 4 a.C. [...] (DUNBAR, p. 75 apud MITHEN, 2002, p. 349).
7  Florestas que são manipuladas intencionalmente pelo homem. Envolvendo um processo organizacional muito
apurado. Como, nesse caso, os indígenas da floresta amazônica.
8  A pesquisa revelou que as sociedades indígenas modificaram o meio ambiente, promovendo a diversidade bió-
tica simultaneamente com a promoção de ilhas de recursos, criando condições favoráveis ao desenvolvimento de
dominância de algumas espécies vegetais altamente úteis (por ex.: o babaçu)... Pelo menos 11,8% das florestas de
terra firme na Amazônia brasileira podem considerar-se florestas antropogênicas [...]. (BOFF, 1995, p. 192).
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Exercício 4
As comunidades afro-brasileira e indígena caracterizam-se por sua organização cultural. Sobre
esses processos organizacionais existentes nas comunidades, analise as informações e marque (V)
para verdadeiro ou (F) para falso.

( )
As organizações comunitárias de culturas afro-brasileira e indígena não evoluem devido ao
seu atraso tecnológico.
( )
As culturas afro-brasileira e indígena possuem uma organização primária. Por isso não encon-
tramos evidências de desenvolvimento tecnológico.
( )
As comunidades afro-brasileira e indígena além de possuírem regras organizacionais de valo-
rização cultural, peculiarmente, demonstram saberes tecnológicos implícitos de preservação
(técnicas de cultivo) ambiental, entre outros.
( )
A falta de organização entre as comunidades afro-brasileira e indígena quase as levaram à dizi-
mação cultural.

Desenvolvimento
e visão de mundo
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Muitas vezes ouvimos algumas afirmações de que essas comunidades – afro-brasileira e indígena
– são atrasadas. E, ainda, afirmam que o que elas produzem é um tipo de riqueza cultural. Segundo
Dias (2009, p. 149), essas afirmações – recuperar as riquezas – acabam por não esclarecer o contexto
do que realmente é essa riqueza cultural. Reforçando a afirmação de maneira indireta do suposto
“atraso”. Pois deslocam os instrumentos, por exemplo, “das relações sociais e das visões de mundo
dessas comunidades” que estão além do objeto material, da técnica de manejo, entre outros.
E, é justamente nessa visão de mundo que se encontra a organização, o desenvolvimento, a
interação dessas comunidades. Será que não é exatamente esse um dos pontos que falta às organi-
zações empresariais?
1. A noção de desenvolvimento entendida a partir da visão de mundo desses atores sociais auxi-
lia na compreensão de como a produção tecnológica e organizacional dessas culturas pode
ser considerada um saber científico e humanizado. Essa abordagem assemelha-se à teoria do
método analético‡ do filósofo Enrique Dussel. Em que é possível assimilar a organização de
cada grupo, bem como seu desenvolvimento e suas valiosas contribuições.
2. Há muitos exemplos de organização e desenvolvimento que podemos encontrar nessas cul-
turas. Como no caso dos atores sociais (“índios”) da etnia Kaingang. Segundo o renomado
cientista social brasileiro Lúcio Tadeu Mota (2009, p. 117-118), já em 1867, no estado do Paraná,
o viajante e pesquisador Franz Keller9 relatou em um dos seus textos, que os Kaingang procu-
ravam sempre organizar táticas de peleja‡ a fim de exercitarem tanto a astúcia como a caça. E
que na colônia de Teresa foi encontrado “uma verdadeira fábrica de pontas de flecha” (MOTA,
2009, p. 118).
3. E, como especificado anteriormente, no exemplo da comunidade quilombola de João Surá,
em Adrianólopis, Paraná, os atores sociais “enquanto seres racionais, sociais e produtores de
cultura” (DIAS, 2009, p. 150), encontraram um meio de organização de suas técnicas (instru-
mentos) e divisão de trabalho como processo fundamental para o existir da comunidade.
4. Os atores sociais da comunidade quilombola de João Surá possuem um processo organiza-
cional de sociabilidade coletiva, como, por exemplo, o sistema de “troca de dias” (DIAS, 2009,
p. 150) (ver texto complementar 3). Esse sistema caracteriza-se pela troca de dias de trabalho
entre os membros dessa comunidade. As pessoas organizam uma espécie de permuta precisa
entre os dias trabalhados e, que posteriormente poderão ser retribuídos entre os membros.
5. “Este sistema permite que, nas atividades em que é necessário realizar rápido o trabalho,
seja possível contar com o auxílio dos demais sem necessitar, para tanto, despender recursos
financeiros” (p. 150). Pois os membros da comunidade possuem e compartilham um saber sis-
tematizado entre o grupo em geral.

9  Noções sobre os Indígenas da Província do Paraná. In: LOVATO, L. A. Contribuições de Franz Keller à Etnografia
do Paraná. p. 16.
Fundamentos da Administração 16

6. Ou seja, um saber geral sobre as técnicas de produção de suas atividades econômicas.


Lembrando, contemporaneamente, os atuais modelos de trainee usados pelas grandes empre-
sas. Ou seja, uma noção administrativa geral da instituição e suas funcionalidades específicas.
A comunidade quilombola de João Surá possui como uma de suas principais atividades econômi-
cas a produção de rapadura. Por meio da organização existente em todo meio de produção dessa
atividade – como a troca de dias e a sistematização dos saberes – os membros dessa comunidade
alcançaram um meio de equilíbrio tanto para o consumo próprio quanto para a comercialização
local e regional com potencial elevado.
Essa organização do espaço-ambiente, que corresponde a
um padrão tradicional camponês de reprodução social e de
percepção do ambiente, tende a uma forma de economia autos-
sustentada. Nesses espaços, são constituídos microespaços de

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comercialização de produtos locais, que fazem com que se tenha
acesso a recursos financeiros [...]. (DIAS, 2009, p. 152).

Administrando o conhecimento
É possível constatar por meio das relações étnico-raciais, bem como as comunidades citadas
anteriormente, que podemos tanto aprender organizacional e culturalmente através do contato e
entendimento étnicos. E, que cada grupo, cada comunidade possui sua base de conhecimento cul-
tural característica. Todavia, não pelo taxado senso comum de preservação cultural que se remete,
muitas vezes, a atraso e/ou inferioridade. Mas, como Gabriel Zaid bem explanou: “a riqueza é acima
de tudo um acúmulo de possibilidades”. Ou seja, os valores que muitas culturas possuem podem
se transformar em uma riqueza de conhecimento. A partir do
momento que a intolerância, o preconceito, a indiferença são
superados. Dando espaço para troca de valores e, assim, gerando
um caminho de possibilidades, pela troca de conhecimentos e
entendimento da visão de mundo do outro. Seja nas empresas,
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nas organizações, nas relações sociais em geral.

Um dos maiores futuristas da atualidade Alvin Toffler (2007), em uma de suas últimas obras intitu-
lada Riqueza Revolucionária, corrobora que a riqueza do futuro é o conhecimento que cada sujeito
carrega. E não a lógica de acúmulo de bens materiais e de capital. Esse é o principal ponto que
Toffler (2007, p. 67) destaca – e que se assemelha ao que as culturas citadas possuem em partes.
Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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Ou seja, uma riqueza de conhecimento que possibilita os


sujeitos se relacionarem melhor no mundo, por meio de um pro-
cesso organizacional que busque o bem comum do grupo. Que
gere possibilidades de harmonia e o reconhecimento de cada
indivíduo naquilo que ele faz e/ou produz. O sujeito está além
de uma simples mão de obra a ser executada. Mas, pelo contrá-
rio, ele é uma fonte de conhecimento, sua maior riqueza. E, essa

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riqueza pode ser bem administrada, gerar muitas possibilidades
de comunhão comunitária, de sucesso, de ascensão pessoal e
profissional, entre outras10.
Percebe-se, então, a partir do estudo deste módulo, que as
relações étnico-raciais evidenciam além das relações e dos con-
tatos culturais um conhecimento, uma riqueza característica
desses grupos (nosso grupo étnico brasileiro) e que as caracte-
rísticas correspondem a uma visão de mundo. E é a partir dessa
troca que podemos sobrepor não só as barreiras do preconceito.
Mas, inclusive, aprender com o olhar do outro, agregando valo-

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res e administrando o próprio conhecimento. Possibilitando,
assim, a criação de um “mapa” do próprio conhecimento cultu-
ral. Contribuindo para as relações empresariais, institucionais e
cotidianas.

10  “Uma das máximas da filosofia burguesa do século XIX, diz que CONHECIMENTO É PODER. Essa frase permite
diversas avaliações, e sob o ponto de vista da administração, poderíamos dizer que CONHECIMENTO É SUCESSO.
Conhecimento na sua essência mais pura de aplicação: conhecimento para gerar mais conhecimento, para alimentar
um sistema dinâmico e mutável, livre das amarras do controle cartesiano da época Taylorista, simbolizando o perfil
da empresa e do administrador do Séc XXI”. (L. Orlandini – Administrador).
Fundamentos da Administração 18

Glossário
Analético: ir além do dado bruto, ouvir o outro.
Escamotear: evitar, esconder.
Peleja: combate, luta.
Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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Respostas dos exercícios

Exercício 1
(F) A explosão cultural teve início apenas na Europa.
(F) O desenvolvimento humano se dá a partir da hierarquia de raças. Em que as mais desenvolvidas
dominam as consideradas inferiores.
(V) É constatado contemporaneamente que a África também faz parte do eixo evolutivo da
humanidade.
(F) As relações étnico-raciais só foram possíveis a partir do momento que os contatos culturais
seguiam uma cultura base. Ou seja, a mais forte predominava.
(F) As pesquisas atuais demonstram que o desenvolvimento africano era limitado devido ao seu
isolamento cultural.

Exercício 2
a) Contatos culturais entre diversas etnias que dão forma à sociedade humana livre e o entendi-
mento de suas diferenças étnicas.

Exercício 3
c) Resistem à imposição/pressão cultural urbana moderna. Conseguindo ao mesmo tempo manter
suas características dentro de uma lógica de acumulação/contato cultural valorativa e evolutiva.

Exercício 4
(F) As organizações comunitárias de culturas afro-brasileira e indígena não evoluem devido ao seu
atraso tecnológico.
(F) As culturas afro-brasileira e indígena possuem uma organização primária. Por isso não encon-
tramos evidências de desenvolvimento tecnológico.
(V) As comunidades afro-brasileira e indígena além de possuírem regras organizacionais de valo-
rização cultural, peculiarmente, demonstram saberes tecnológicos implícitos de preservação
(técnicas de cultivo) ambiental, entre outros.
(F) A falta de organização entre as comunidades afro-brasileira e indígena quase as levaram à dizi-
mação cultural.
Fundamentos da Administração 20

Referências

ARRUDA, J. Educando pela Diversidade Afro-brasileira e Africana: as ações afirmativas –


ressignificando os temas transversais Lei 10.639/2003 – comentada. João Pessoa: Dinâmica, 2006.
BOFF, L. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. São Paulo: Ática, 1995.
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DIAS, P. Instrumentos, Técnicas e Visões de Mundo na Comunidade Quilombola de João Surá:
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Módulo 10 – Relações étnico-raciais, cultura afro-brasileira e indígena
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Minicurrículo
Gustavo Gava
Mestrando em Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva pela Pontifícia Universidade Católica
do Paraná (PUCPR). Especialista em Noergologia pela Faculdade Integrada Espírita (UNIBEM).
Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional pela Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR). Graduado em Filosofia. Atualmente é professor assistente e tutor de Filosofia e Ética
da Universidade Positivo (Positivo Online). Escritor, Consultor e Filósofo. Tendo, no momento, como
uma de suas principais obras, O Último Desejo de Freud: requiem à teoria do inconsciente, pela Juruá
Editora. Obra classificada entre os 10 melhores livros do ano no 53.º Prêmio Jabuti de 2011 pela
Câmara Brasileira do Livro (CBL). Sétimo lugar na categoria Psicologia e Psicanálise. Autor da Coleção
O Pequeno Filósofo – Filosofia para Crianças. Tendo como primeiro lançamento da coleção a obra E Se
não Existisse?, pela Editora Inverso, 2013. Organizador com Fábio Antonio Gabriel e coautor da obra
Ensaios Filosóficos: Antropologia, Neurociência, Linguagem e Educação, pela Editora Multifoco, 2012.