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MARXISMO E RELIGIÃO

Nossa biblioteca tem amplo predomínio de livros de segunda mão, sejam os garimpados em
sebos de São Paulo e Porto Alegre, sejam os que herdei ou ganhei de amigos. Eclética quanto
aos temas, só está livre de subliteratura, abrigando algumas grandes obras que dificilmente
serão reeditadas. No caso de autores russos tive o pragmatismo como guia, porquanto muitas
obras foram traduzidas do francês. Ter em mãos os clássicos russos traduzidos por um Boris
Schnaiderman, por exemplo, é um luxo, mas o preço de tais edições acompanha sua qualidade.

Os livros que arribam nos livreiros traduzem a falta de herdeiros, o descaso dos mesmos ou até
a falta de espaço para abrigar uma biblioteca. Deploro a segunda explicação e naturalmente
entendo as demais. Muitos volumes têm o nome de seu antigo dono, poucos têm dedicatória e,
alguns, anotações, normalmente moderadas. Tenho livros autografados pelo autor, mensagens
de afeto e mesmo de amor e um deles tem a assinatura do único presidente brasileiro que
espontaneamente renunciou, surpreendendo a nação, que já vinha entortando e entortou de vez.

Nada, porém, chega perto do último livro que recebi pelo correio. O antigo dono declina seu
nome, telefone e se apresenta como “Juiz Aposentado do Tribunal de Alçada Criminal de São
Paulo”. Por razões óbvias não o identificarei. “Marxismo e Religião”, de Heraldo Barbuy, foi o
livro mais rabiscado que já adquiri. Sorte que as centenas de observações foram feitas a lápis e
não roubam a cena na leitura, ainda que permitam intuir o posicionamento político do
comentarista e seu preparo intelectual. A edição é de 1963 e uma rápida pesquisa revelou que o
Juiz aposentou-se por volta da década de 90, quando já haviam transcorrido trinta anos da
revolução que derrubara João Goulart. Sua comentada leitura sugere grande interesse em
compreender as manobras do comunismo ou talvez tivesse a tarefa de palestrar em algum foro.

Tenho me interessado mais pelo tema porque o caldo pode entornar logo mais à frente. Sobejam
claras demonstrações de falta de entendimento a respeito do que se passa no mundo e sobram
conflitos de narrativa. Depois que inventaram a bobagem de pós-verdade ficou ainda mais forte a
mentira e mais frequente a estratégia de relativizar tudo. Decidi escrever algo depois de assistir
um documentário sobre Pelé, o próprio Zeus no Olimpo do futebol. Em meio a declarações do
inigualável craque, jogadas e gols, alguns jornalistas deram o ar da graça. Um deles, de forma
extemporânea, fora do contexto, evocou o silêncio de Pelé a respeito dos porões da ditadura.
Como se não houvesse subversão e a clara intenção de transformar o Brasil numa grande Cuba.
Basta lembrar para onde foram quase todos os terroristas trocados pelo embaixador americano.
Ignorar isto, a esta altura, é inadmissível. Por que nunca mencionam o “Manual do guerrilheiro
urbano”, de Carlos Marighella? Omitir coisas deste calibre é pura desonestidade intelectual.

Para os que acham que o comunismo morreu, convém não esquecer que a poderosa China tem
economia próxima do capitalismo, mas regime político comunista. Sugiro que procurem entender
por que algumas correntes políticas trabalham para a ruína do Brasil. Marx previu que o advento
fatal do proletariado significa, nas palavras de Barbuy, “a destruição de tudo quanto existiu
anteriormente, de todos os modelos de vida, de todas as formas de apropriação da riqueza, de
todas as garantias de existência individual”. Se a fome cria escravos, a dependência do Estado
faz os pobres descerem cada vez mais na escala social, sob a expectativa de que num dado
momento a revolução dar-se-á por si mesma. Por isto a aposta no quanto pior, melhor.

Dias atrás tropecei no livro “Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade”, editado em 2015 sob os
auspícios da “Fundação Rosa Luxemburgo”. Criada em 1990 na Alemanha, tem dezoito
escritórios internacionais, um dos quais em São Paulo. Mais do que incensar a economista e
filósofa marxista, a obra menciona vinte e quatro vezes a palavra “resistência”, que longe de
coincidência faz parte do mantra da esquerda brasileira. Segue portanto o baile sob
orquestração internacional, a vários violinos, à espera de lideranças carismáticas.

A leitura do que se passa é dificultada pela malícia de velhas raposas e pela atuação traiçoeira
de alguns governadores de estados da federação, sabidamente incompatíveis com a ideologia
comunista. Isto confunde as pessoas. Há de tudo entre eles, talvez alguns ladrões e certamente
ambiciosos desenfreados. Não estão alinhados ideologicamente com a esquerda, mas são
personagens úteis a leninistas, trotskistas, stalinistas, castristas, maoístas, fabianos e similares.

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