Você está na página 1de 249

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/322460345

Deserdados sociais: condições de vida e saúde dos presos do estado do Rio de


Janeiro

Book · January 2015


DOI: 10.7476/9788575415313

CITATIONS READS

5 918

2 authors:

Maria Cecília de Souza Minayo Patrícia Constantino


Fundação Oswaldo Cruz Fundação Oswaldo Cruz
384 PUBLICATIONS   14,437 CITATIONS    26 PUBLICATIONS   208 CITATIONS   

SEE PROFILE SEE PROFILE

Some of the authors of this publication are also working on these related projects:

They belong to a permantent investigation about qualitative approach in health, I have since 1993. View project

World Conference on Qualitative Research (www.wcqr.info) View project

All content following this page was uploaded by Maria Cecília de Souza Minayo on 26 January 2018.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


Deserdados Sociais
CONDIÇÕES DE VIDA E SAÚDE DOS PRESOS
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Fundação Oswaldo Cruz

Presidente
Paulo Gadelha

Vice-Presidente de Ensino, Informação e Comunicação


Nísia Trindade Lima

Editora Fiocruz

Diretora
Nísia Trindade Lima

Editor Executivo
João Carlos Canossa Mendes

Editores Científicos
Carlos Machado de Freitas
Gilberto Hochman

Conselho Editorial
Claudia Nunes Duarte dos Santos
Jane Russo
Ligia Maria Vieira da Silva
Maria Cecília de Souza Minayo
Marilia Santini de Oliveira
Moisés Goldbaum
Pedro Paulo Chieffi
Ricardo Lourenço de Oliveira
Ricardo Ventura Santos
Soraya Vargas Côrtes
Deserdados Sociais
CONDIÇÕES DE VIDA E SAÚDE DOS PRESOS
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Organizadoras
Maria Cecília de Souza Minayo
Patricia Constantino
Copyright © 2015 dos autores
Todos os direitos desta edição reservados à
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ / EDITORA

Revisão
Augusta Avalle
M. Cecilia G. B. Moreira
Myllena Paiva

Normalização de referências
Clarissa Bravo

Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica


Daniel Pose

Catalogação na fonte
Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica
Biblioteca de Saúde Pública

M663d Minayo, Maria Cecília de Souza (Org.)


Deserdados Sociais: condições de vida e saúde dos presos do estado do
Rio de Janeiro. / organizado por Maria Cecília de Souza Minayo e Patricia
Constantino. — Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2015.
248 p. : tab. ; graf.
ISBN: 978-85-7541-465-1
1. Prisioneiros. 2. Condições Sociais. 3. Iniquidade Social. 4. Violência. 5.
Qualidade de Vida. 6. Nível de Saúde. I. Constantino, Patricia (Org.). II.Título.

CDD – 22.ed. – 365.6098153

2015
EditorA FiocrUZ Editora filiada
Av. Brasil, 4036 – Térreo – sala 112 – Manguinhos
21040-361 – Rio de Janeiro – RJ
Tels: (21) 3882-9039 e 3882-9041 | Telefax: (21) 3882-9006
e-mail: editora@fiocruz.br | www.fiocruz.br/editora
Nos últimos anos, houve revoltas em prisões em muitos lugares do mundo.
Os objetivos que os presos tinham, suas palavras de ordem apresentavam
certamente qualquer coisa de paradoxal. Eram revoltas contra toda uma miséria
física que dura há mais de um século: contra o frio, contra a sufocação e o excesso
de população, contra as paredes velhas, contra a fome, contra os golpes. Mas
eram também revoltas contra as prisões-modelos, contra os tranquilizantes, contra
o isolamento, contra o serviço médico ou educativo. Revoltas cujos objetivos
eram só materiais? Não. São revoltas contraditórias contra a decadência e ao
mesmo tempo contra o conforto; contra os guardas e, ao mesmo tempo, contra os
psiquiatras? De fato, trata-se realmente dos corpos e das coisas materiais em todos
esses movimentos: como se trata disso nos inúmeros discursos que a prisão tem
produzido desde o começo do século XIX. O que provoca esses discursos e essas
revoltas, essas lembranças e invectivas são realmente as pequenas, as ínfimas
coisas materiais.
Foucault, 2009
Autores

Adalgisa Peixoto Ribeiro


Fisioterapeuta, doutora em ciências; pesquisadora colaboradora do
Departamento de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli da Escola
Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.

Ana Paula Menezes Bragança dos Santos


Assistente social, mestranda em saúde pública; pesquisadora colaboradora
do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo
Cruz.

Cláudia de Magalhães Bezerra


Psicóloga, doutoranda em saúde pública (violência e saúde); psicóloga no
Sistema Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro.

Dulciléia de Sousa Rocha


Engenheira de produção e de segurança do trabalho, mestre em engenharia
ambiental; pesquisadora colaboradora do  Departamento de Direitos
Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.

Fabiana Castelo Valadares


Psicóloga, doutora em saúde pública; psicóloga da Coordenação Pedagógica
do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia e pesquisadora
colaboradora do Departamento de Estudos de Violência e Saúde Jorge
Careli da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação
Oswaldo Cruz.

Fernanda Mendes Lages Ribeiro


Psicóloga, doutora em saúde pública; pesquisadora colaboradora do
Departamento de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli da Escola
Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz e
professora do Instituto Brasileiro de Medicina da Reabilitação.
Juliana Guimarães e Silva
Enfermeira, doutora em saúde pública; docente e pesquisadora do Programa
de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza.

Liana Wernersbach Pinto


Nutricionista, doutora em engenharia biomédica; pesquisadora do
Departamento de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli da Escola
Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.

Luiz Carlos Fadel de Vasconcellos


Médico, doutor em saúde pública; médico do Ministério da Saúde, atuando
como professor e pesquisador no Departamento de Direitos Humanos,
Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio
Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.

Maria Cecília de Souza Minayo (organizadora)


Socióloga e antropóloga, doutora em saúde pública; pesquisadora titular
da Fundação Oswaldo Cruz.

Patricia Constantino (organizadora)


Psicóloga, doutora em saúde pública; pesquisadora do Departamento de
Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli da Escola Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.

Renato José Bonfatti


Médico, doutor em ciências da engenharia de produção; professor e
pesquisador no Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia
Humana da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação
Oswaldo Cruz.

Sandra Maria Besso
Advogada, doutoranda em saúde coletiva; pesquisadora colaboradora
do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo
Cruz.

Simone Gonçalves de Assis


Médica, doutora em ciências; pesquisadora do Departamento de Estudos
de Violência e Saúde Jorge Careli da Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.
Sumário

Prefácio 11

Apresentação 13

1 Passado e Presente da Instituição Prisional 19

2 A Vida Antes da Institucionalização 61

3 A Vida na Prisão: o cotidiano 89

4 A Vida na Prisão: saúde física, mental e ambiental 151

5 A Vida Após a Prisão 211

Conclusões 227

Referências 235
Prefácio

11
Apresentação

O título deste livro – Deserdados Sociais – evoca uma discussão sobre


as desigualdades, as iniquidades e a violência social entranhadas na realidade
brasileira e expressas radicalmente na situação de encarceramento.
Esta obra parte de uma pesquisa realizada pelo Departamento de Estudos
de Violência e Saúde Jorge Careli da Fundação Oswaldo Cruz (Claves/Fiocruz),
em parceria com pesquisadores do Departamento de Direito em Saúde (DIS),
também da Fiocruz, em comum acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro,
com o objetivo de dar subsídios à sua ação institucional. Para o cumprimento de
sua missão com os presos e as presas, o Ministério Público criou uma Promotoria
de Tutela Coletiva do Sistema Prisional e o 8º Centro de Apoio às Promotorias de
Execução Penal (CAO8). Nesse centro, instituiu-se o Núcleo de Apoio ao Sistema
Prisional (Nasp), com diversas funções operacionais. Os autores se envolveram
de diversos modos na produção desta obra – ou diretamente na redação dos
capítulos, ou, anteriormente, na pesquisa de campo e tratamento dos dados
estatísticos do estudo, que ocorreu entre os anos 2013 e 2015.
A parceria entre o Claves e o Ministério Público tem por finalidade aprimorar
as ações da Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Sistema Prisional, do
CAO8 e do Nasp, visando a melhorar as condições dos apenados no que concerne
à sua saúde e ao ambiente em que cumprem pena. Entendendo-o como uma
proposta relevante e estratégica para o estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) financiou o projeto cujos resultados dão
origem a esta obra. Seu caráter estratégico se orienta para a construção de
conhecimentos que serão transferidos para todos os atores do sistema prisional
do Rio de Janeiro. Em primeiro lugar, para os promotores, mas igualmente para
a Defensoria Pública e para os funcionários e gestores do sistema estadual,

13
como agentes, médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas
ocupacionais e outros.
Os objetivos específicos do referido estudo foram: identificar as condições
sociais e de saúde dos presos; investigar a qualidade de vida dessa população no
sistema prisional; verificar a forma como as condições ambientais das unidades
prisionais impactam a saúde e a qualidade de vida dos detentos.
A investigação foi composta por um inquérito sobre saúde com uma amostra
representativa da população carcerária; uma avaliação das condições ambientais
de 11 unidades, distribuídas pela Capital, Baixada Fluminense e Interior do
estado, que estavam cumprindo termos de ajustamento de conduta ajuizados pelo
Ministério Público; entrevistas com uma amostra qualitativa de presos, presas
e gestores do sistema; e observações das condições ambientais das unidades,
guiadas por instrumentos padronizados e reconhecidos internacionalmente.
Os dados empíricos e os autores referenciados no estudo focalizam muito
bem a ambiguidade do estatuto da prisão que substituiu, desde a metade do
século XVIII, o cruel justiciamento realizado pelas próprias mãos dos poderosos
ou por ordem dos reis absolutistas. Apesar de todos os questionamentos pró
e contra a proposta de ressocialização da população carcerária, este trabalho
mostra as dificuldades e as contradições no lidar com um grupo social que, em
geral, a maioria da sociedade quer ver longe e afastado de sua vida e até de suas
preocupações humanitárias.
O livro se divide em cinco capítulos que dão ênfase a três tempos da vida
dos presos: antes de serem encarcerados, a vivência do cumprimento da pena e
as expectativas que cercam a vida pós-prisão. Nesse percurso se observa uma
dinâmica recursiva em que os momentos de ruptura reforçam e magnificam a
continuidade das situações adversas de uma população marcada por diferentes
níveis de exclusão social, cultural e subjetiva.
O primeiro capítulo é dedicado à contextualização do estatuto da prisão no
passado e no presente. Inicia com uma sistematização dos referenciais teóricos
tanto do conceito de prisão como do tema saúde dos detentos, em uma perspectiva
nacional e internacional. Nele, apresentam-se informações atualizadas sobre o
sistema carcerário de vários países, comparando-os com a situação do Brasil e
do estado do Rio de Janeiro. Faz-se também uma análise das leis, das políticas e
das normas que regem o sistema carcerário do país e das diretrizes que tratam da
inserção dos presidiários no Sistema Único de Saúde (SUS), considerando-se que,

14
como qualquer brasileiro, o detento tem direito a um atendimento público, universal
e gratuito. São descritos os caminhos metodológicos e operacionais utilizados
para realização da pesquisa, que está baseada em um processo de triangulação de
perspectivas e abordagens quantitativas, qualitativas e observacionais.
No capítulo 2, trata-se da vida antes da institucionalização. Nele são
apresentados e analisados o contexto familiar, comunitário, de trabalho, a
experiência de criminalidade e as vivências e práticas de violência. O percurso
de vida e de experiências dos reclusos mostra uma população pobre, com poucos
recursos sociais e culturais, mas que não se distingue da maioria das pessoas
das classes populares brasileiras, que, cotidianamente, enfrentam os desafios da
subsistência e da própria realização como cidadãos. É importante refletir sobre
essa particularidade, pois, de um lado, é impressionante a mínima proporção
de presos que foge ao estereótipo de jovem, negro e pardo, pobre e morador da
periferia; contudo, de outro, é fundamental ressaltar que a maioria dos moradores
desses espaços, com as mesmas características socioeconômicas e culturais,
são trabalhadores que vivem na legalidade. Ou seja, não há um determinismo
social do crime e, apesar de todas as condições adversas, existe uma opção pela
criminalidade conforme as histórias contadas por boa parte dos entrevistados na
pesquisa.
Nos capítulos 3 e 4, abordam-se os mais diferentes aspectos da vida dos
presos. Nestes capítulos, em que se analisa o cotidiano prisional, desenvolve-se
o foco do estudo: a saúde, seja no seu sentido ampliado, seja na sua acepção
restrita de assistência. Aqui, a saúde, como reza a Constituição de 1988, é uma
resultante das condições de vida e das condições ambientais. O que se vê nas
prisões estudadas é um cotidiano marcado pelo ócio, insatisfação e ausência ou
restrição de atividades laborais e criativas, em que a palavra ressocialização –
salvo raras exceções – permanece como um termo vão e vazio, fugindo, portanto,
ao objetivo precípuo do encarceramento.
Há dois problemas que mortificam e revoltam profundamente os detentos:
a alimentação, cujo preparo é terceirizado, tem uma péssima qualidade, o que
só faz aumentar o sofrimento de quem não tem outra opção a não ser nutrir-se
com o que lhe é oferecido. A segunda questão é o transporte para acesso aos
serviços de saúde e de Justiça, considerado por todos um verdadeiro suplício.
Esses temas são particularmente aprofundados nestes capítulos, assim como a
questão religiosa.

15
Os relacionamentos são tratados sob os mais diferentes aspectos, mas
chamam atenção: a falta que os detentos e as detentas sentem de suas famílias
quando elas se afastam; os laços que eles e elas criam para suprir a carência dos
afetos primários e, ao mesmo tempo, o confiar desconfiando do companheiro
próximo que pode se constituir em amigo ou risco e ameaça.
No capítulo 5, analisam-se as expectativas e os propósitos dos presos para os
momentos pós-reclusão, bem como suas idealizações e a realidade que os espera.
Este é um capítulo curto porque os detentos foram lacônicos, mostrando certo
ceticismo quanto ao futuro. Chama atenção que a família, ainda que criticada
pelos reclusos e muitas vezes acusada como parte da situação que os levou ao
crime, é invocada pela maioria deles como seu porto de salvação. É a ela que
juram nunca mais delinquir, é a ela que devotam seus afetos e é dela que esperam
o gesto da mão que os erguerá e os ajudará a enfrentar as discriminações sociais.
Todos são cientes das dificuldades que enfrentarão. Alguns não se arrependem
do caminho escolhido e o reafirmam como uma opção de risco. A maioria, no
entanto, promete a si mesma e a suas famílias que se tornará cidadão, vivendo
dentro da legalidade e à espera de uma nova chance na comunidade próxima e
da sociedade. Em relação às instituições, muito poucas apostam na recuperação
e na integração social dos presos.
Nas conclusões, sintetizam-se os principais problemas encontrados na
pesquisa: a prisão dramatiza a questão social brasileira e clama por mudanças.
Sugerem-se também alternativas que podem ser caminhos para a ressocialização.
A obra finaliza com um aceno de esperança, mesmo sabendo que é um desafio
transformar um sistema que, sob todos os sentidos, atua na contramão da
construção da cidadania.
Pensando na enorme quantidade de pessoas que contribuíram para que este
livro se tornasse possível, cabe agradecer a importante colaboração dos diretores
das penitenciárias, dos presos e das presas que responderam ao inquérito ou
aceitaram ser entrevistados; assim como ao Ministério Público estadual, que deu
um suporte imprescindível à realização de todo o trabalho de campo, sem esse
apoio teria sido impossível o acesso a esse grupo social segregado cujo cotidiano
é marcado pela interdição.
O grande desejo de todos que participaram da pesquisa e da elaboração do
livro é que ele possa ser replicado. Que a partir do estudo de uma situação local,
promova-se uma reflexão nacional sobre o processo de ressocialização. Nesse
sentido, com base na bibliografia analisada, os autores não hesitam em afirmar

16
que o caso do estado do Rio de Janeiro pode ser entendido como um estudo
situacional que se reproduz em condições muito mais dramáticas em outras
partes do Brasil.
O trabalho aqui apresentado segue uma filosofia desenvolvida pelo Claves,
de onde procedem os principais autores deste livro. Em todos os seus 25 anos de
existência, esse departamento se propôs a produzir conhecimentos estratégicos
que possam ajudar os políticos, os gestores e os profissionais da prática a
melhorar a realidade que enfrentam. Como diz Hooks (1995: 466) sobre os
trabalhos acadêmicos: “A teoria não é intrinsecamente curativa, libertadora e
revolucionária. Só cumpre essa função quando lhe pedimos que o faça e dirigimos
nossa teorização para esse fim”. Ou como ressalta Brecht, sob a pele de Galileu
Galilei numa peça teatral em que discute o papel dos intelectuais: “Para que serve
a ciência se não for para diminuir o sofrimento da humanidade?”.
As organizadoras

17
1
Passado e Presente
da Instituição Prisional

Entre a Lei que Determina a Socialização


e a Realidade que Consolida o Criminoso
O sistema carcerário junta, numa mesma figura, discursos e arquitetos,
regulamentos coercitivos e proposições científicas, efeitos sociais reais e utopias
invencíveis, programas para corrigir a delinquência e mecanismos que solidificam
a delinquência.
Foucault, 2009

A prisão se apoia em dois princípios fundamentais: primeiro, na privação da


liberdade para os que transgridem as normas socialmente acordadas; segundo, na
transformação que presumidamente proporciona aos indivíduos. Quem pensou a
prisão como instituição socializadora supôs que seria possível o encontro destas
duas atribuições: privar da liberdade e transformar.
Para se estabelecer a restrição de liberdade – a primeira função da prisão –
como penalidade, antes foi preciso difundir a ideia e a apreciação da liberdade
individual e de sua essencialidade a qualquer ser humano. Como se verá a seguir,
o instituto prisão é uma das criações do Iluminismo, entre o século XVIII e o
século XIX, que nasceu pari passu com a valorização dos direitos humanos, da
cidadania e, portanto também, da responsabilização do indivíduo por seus atos.
A Lei de Execução Penal brasileira (lei n. 7.210/84) segue o mesmo rumo
traçado pelo mundo ocidental em relação à punição do crime, tendo como
justificativa para sua aplicação a socialização do preso. Segundo essa lei, o
objetivo do aprisionamento é oferecer condições para a harmônica integração
social da pessoa sentenciada e internada, apontando como base do cumprimento
das penas privativas de liberdade e restritivas de direitos um programa

19
individualizado. A assistência material, jurídica, educacional, social, religiosa,
assim como a assistência em saúde estão previstas com a finalidade de colaborar
para o retorno do preso à convivência em sociedade. O artigo 14 da seção III
dessa lei versa especificamente sobre a assistência à saúde e afirma que ela deve
ter caráter preventivo, curativo e incluir atendimento médico, farmacêutico e
odontológico. Mesmo quando a instituição prisional não estiver preparada para
prover a assistência médica necessária, a lei prescreve que tal assistência deverá
ser prestada em outro local, mediante autorização da direção do estabelecimento.
Em outras palavras, nos termos da Lei de Execução Penal, deve-se priorizar o
código humanitário que se instaurou no mundo ocidental desde o fim do século
XVIII e início do século XIX.
No entanto, apesar de haver um marco legal que prevê o acesso do preso
à assistência à saúde, as condições precárias de confinamento se tornam
obstáculos para a garantia dos direitos dos indivíduos. As situações mais
comumente encontradas no espaço das prisões, como se poderá constatar neste
livro, são: falta de higiene e insalubridade; insuficiência de acesso às unidades
de saúde; carência de material de higiene pessoal; colchões e vestuário sujos
e higienicamente inadequados; aeração insuficiente dos ambientes; refeições
nutricionalmente desbalanceadas; instalações malconservadas; déficit de vagas
para estudo e trabalho; falta de projetos voltados para a qualificação profissional
dos presos; atraso no recolhimento de resíduos, inclusive dos hospitalares; e
precária assistência social e psicológica ao recluso e a seus familiares.
No que concerne às enfermarias e consultórios dentários das unidades
prisionais, assim como as unidades de saúde em geral, constatam-se carência de
profissionais, ausência de medicamentos e armazenamento irregular de material.
Tais condições repercutem tanto nas dificuldades de reintegração social do preso
como no agravamento de seu estado de saúde física e mental. Com as condições
de vida e ambientais apresentadas e com o tratamento de seus problemas de
saúde postergados ou negados, os presos podem adquirir patologias ou, se já
estiverem doentes, ter piora no seu estado de saúde, o que demandará tratamentos
complexos, como nos muitos casos constatados aqui.
Mesmo com tamanhas carência e inadequação, os presos são mantidos nas
penitenciárias a um custo mensal médio de 3,5 salários mínimos – valor muito
mais elevado do que, em geral, suas famílias recebem no mercado de trabalho, ou
mesmo, que eles próprios ganhavam antes de serem detidos.

20
As raízes teóricas do estatuto da prisão
Apesar de terem sido desenvolvidas desde o fim do século XVIII, a história
das prisões e seus significados continuam atuais, na medida em que as falas
espontâneas dos presos os reatualizam de forma candente. Assim, ao buscar
entender os problemas que surgem no cotidiano contemporâneo é importante
não perder os fundamentos de sua permanente reincidência e cronicidade. Por
isso, mesmo recorrendo a uma bibliografia paulatinamente crescente de autores
nacionais e internacionais, faz-se uma inflexão especial sobre o pensamento de três
autores seminais: Durkheim (2007), que no fim do século XIX estudou o crime e a
punição como fatos sociais; Goffman (1990), que nos anos 1950 analisou a fundo
as instituições totais; e Foucault (2009), que na década de 1970, com sua teoria
da arqueologia do saber, acompanhou a história das formas de punir e retomou o
estudo do nascimento das prisões, os ideais que acompanharam sua implantação
no mundo e os problemas que, desde o início, os encarceramentos suscitaram.

Durkheim: crime e castigo como fato sociais


Para Durkheim (2007), todo crime e toda punição constituem “fatos sociais”.
Fato social, por sua vez, é toda maneira de agir extensamente generalizada
em determinada sociedade que, e ao mesmo tempo, tem existência própria e
independe de suas manifestações individuais. Essas maneiras coletivas de viver
se expressam em normas, regras e leis. Todo fato social tem três características:
generalidade, exterioridade e coercitividade. O caráter de generalidade diz
respeito à aceitação coletiva (ainda que inconsciente) dos modos de agir. Na
noção de exterioridade está o cerne da filosofia do autor, segundo o qual os
seres humanos já nascem numa sociedade ordenada, portanto, o que é permitido
ou proibido é uma doação de seus predecessores que se naturaliza socialmente
nas consciências individuais. O conceito de coerção tem como par coesão e
juntos formam as molas da socialização. De acordo com o autor, as sociedades
primitivas tinham uma coesão mecânica, e as modernas são investidas de uma
coesão orgânica que lhes é conferida particularmente pela divisão do trabalho.
A coesão e a coerção, ao mesmo tempo, fazem dos indivíduos membros da
coletividade e inculcam neles o respeito às obrigações e proibições, coagindo-os
a aceitar as normas e regras, sem as quais a vida social se tornaria impossível.
Para Durkheim (2007: 82), crime e punição são fatos sociais porque não há
sociedade sem crime e sem punição aos transgressores.

21
O crime não se produz só na maior parte das sociedades, mas em todas. Ele muda
de forma, pois os atos assim classificados não são os mesmos em todos os lugares,
mas em todos os lugares e em todos os tempos existem pessoas que se conduzem
de tal forma que a repressão penal se abate sobre eles.

Durkheim (2007) chega a afirmar que o crime faz parte de uma coletividade
sadia e que se deveria desconfiar tanto de uma sociedade em que não houvesse
crime como daquela em que a criminalidade fugisse do controle. Isso porque, no
primeiro caso, nem a comunidade de santos nem a emergência de sábios existem
sem transgressão; e no segundo, os mecanismos de coesão e de coerção entram
em estado de “anomia” – outro conceito criado pelo autor –, isto é, demonstram a
situação de falência dos mecanismos internos de controle das sociedades. “Para
que a originalidade do idealista que ambiciona ultrapassar seu século se possa
manifestar, é preciso que a do criminoso que está aquém de seu tempo o possa
igualmente. Não pode existir uma sem a outra” (Durkheim, 2007: 86).
Portanto, de acordo com o autor, o crime atua como um agente regulador
da sociedade, na medida em que o ato criminoso pode ser entendido como ofensa
ao que é definido como resultado da coesão e da convivência na consciência
coletiva. Dessa forma, as sanções não teriam a finalidade de prevenir a repetição
do ato culpado: sua função seria satisfazer a consciência comum ferida por algum
membro transgressor. A pena, portanto, dentro dessa filosofia, não serve, ou
serve apenas secundariamente, para corrigir o transgressor ou intimidar seus
possíveis imitadores; seu verdadeiro propósito é manter intacta a coesão social,
sustentando toda a vitalidade da consciência comum.
Durkheim não tratou do sentido da punição para o criminoso, mas do
sentido do crime para a sociedade, mostrando a normalidade tanto das sanções
como das transgressões como um fato social que existe e existirá sempre.

Crime e castigo na perspectiva de Goffman e Foucault


Em maio de 1978, num debate sobre “O historiador e a filosofia”, de
Jacques Leonard, Michel Foucault foi insistentemente interrogado a respeito
do seu propósito de estudar o fenômeno da prisão. Foucault esclareceu que seu
interesse pelo castigo em geral e pela prisão em particular radicava em duas
razões. A primeira era a evidência de que o cárcere fora até então descuidado nas
análises históricas e filosóficas, a tal ponto que os estudos sobre as penalidades
escolhiam sempre duas direções: a sociologia da população delinquente e os
fundamentos jurídicos do sistema penal. A segunda era a continuidade de

22
seus estudos de genealogia das “técnicas morais”, seguindo o fio condutor das
transformações sociais.
Para entender o que se castiga e por que se castiga, o autor propôs uma
terceira pergunta: como se castiga? Esta pergunta só poderia ser respondida por
meio da análise das práticas, já que elas constituem o lugar de encadeamento
do que se diz e do que se faz, das regras que se impõem e das razões por que
ocorrem, dos projetos que se elaboram e das evidências a que se chegam.
Foucault (2009) considera que conseguiu atingir a compreensão do efeito
procurado, demonstrando que o encarceramento é parte das tecnologias
do disciplinamento do ser humano, da vigilância, do comportamento e da
individualização dos elementos do corpo social. Para atingir tal compreensão, ele
acompanhou historicamente a transformação do suplício em encarceramento,
movimento que se fortaleceu na segunda metade do século XVIII e se
institucionalizou no século XIX.
Em Vigiar e Punir, Foucault (2009) descreve as formas impactantes
de punição empregadas até o século XVIII. Na época, conduzia-se a uma
representação, encenação pública, do suplício, cuja finalidade era imprimir no
corpo do condenado todo o sofrimento desencadeado por ele à sociedade.
O filósofo analisa o suplício como um processo punitivo do corpo. O corpo
supliciado era o corpo torturado, violentado, humilhado, esquartejado, exposto
ao público em uma cerimônia teatral, em que o criminoso, totalmente dominado,
tinha sua sentença cumprida em um ritual de crueldade. O espetáculo consistia
na exposição do suposto criminoso à comunidade; ele era conduzido pelas vias
públicas e anúncios afixados nas partes de seu corpo, de modo a trazer à tona
sua sentença. Em geral, o pronunciamento do texto de condenação era realizado
na entrada de uma igreja, numa cerimônia na qual o condenado afirmava
solenemente seu delito.
O autor elenca uma série de suplícios, destacando os que culminavam em
pena de morte: açoites ou enforcamento; arrebentamento do corpo vivo, depois
do condenado ter sua mão ou língua furadas; tortura na roda de expiação;
estrangulamento e queima na fogueira em local público; esquartejamento para
exposição das partes do condenado em vários espaços por onde a população
circulava.
Foucault destaca que, ao contrário do que se possa imaginar, o suplício
obedecia a alguns princípios. Um dos principais era o de produzir certa quantidade

23
de sofrimento mensurável e proporcional à importância do crime. A morte, uma
das formas esperadas de suplício, representava o ápice de determinado tipo de
sofrimento. Por exemplo, na forma de decapitação que reduz todos os sofrimentos
a um só gesto ou por meio do esquartejamento que os leva quase ao infinito. No
cerimonial punitivo, o ciclo se fechava. Da tortura à execução, o corpo produzia
e reproduzia a verdade do crime. O condenado, através do jogo de rituais e de
provas, acabava confessando que o crime havia acontecido, que ele mesmo o
cometera, por isso o levava declarado por meio de inscrições penduradas em seu
corpo, suportando a operação do castigo e manifestando seus efeitos da maneira
mais ostensiva possível. O corpo supliciado sintetizava a realidade dos fatos e a
verdade da informação e era organizado em torno dos direitos do soberano, do
inquérito e do segredo: o sentido do suplício não era restabelecer a justiça e, sim,
reativar o poder.
Um segundo princípio era de que a execução do condenado deveria ser
realizada segundo um ritual organizado de forma a dar conhecimento ao público e
para manifestação do poder punitivo. Nesse sentido, o suplício não era concebido
como a exasperação de uma justiça sem controle, mas como um ato pensado e
calculado.
O processo incriminatório acontecia de modo secreto, com a ocultação
dos fatos tanto à sociedade quanto ao indivíduo acusado; o saber era privilégio
absoluto da acusação. Ao suposto criminoso eram vedados o direito a defesa e,
portanto, a um advogado, o conhecimento dos seus denunciadores e o acesso
às peças do processo. O julgador que representava o soberano detinha o poder
em suas mãos para acatar todos os tipos de acusações, mesmo as anônimas,
e de interrogar o acusado de forma meticulosa. Ele constituía sozinho, e com
pleno poder, uma verdade com a qual investia contra o acusado. Essa forma
secreta do processo conferia com o princípio de que, em matéria criminal, o
estabelecimento da verdade era um direito absoluto e um poder exclusivo do
soberano e seus juízes.
O supliciamento vigorou até o século XVIII, sendo substituído pela instituição
da prisão como castigo, que se consolidou no século XIX, estabelecendo uma
nova visão sobre o ato e o direito de punir por parte do Estado. Sobre a prisão,
aqui se discutem dois tipos complementares da realidade: a visão de “instituição
total” de Goffman (1990) e a perspectiva histórica de Foucault (2009). Foucault
reforça a ideia de que o corpo é o objeto de castigo, como o foi no estatuto do
suplício, ao passo que Goffman ressalta que a prisão visa à mortificação do eu.

24
Goffman (1990) afirma que, apesar do discurso de ressocialização, as prisões,
destinadas ao controle social, são instituições totais que têm como objetivo a
proteção da sociedade contra os perigos de ruptura do tecido social pelo crime.
Lembra o autor que uma instituição total se define pelo grande número de
indivíduos em situação semelhante, que leva uma vida fechada e formalmente
administrada, na qual todos os aspectos do cotidiano são racionalizados e
efetuados no mesmo local e sob uma única autoridade, o que permite um controle
estrito de seus relacionamentos e de suas possibilidades de ação.
O principal problema das instituições totais, das quais as prisões são
exemplos clássicos, é a mortificação do eu, de acordo com Goffman (1990).
O autor descreve a forma como ocorre esse sacrifício do sujeito. O condenado
chega ao cárcere com determinada concepção de si mesmo, forjada nas relações
primárias e sociais; ao entrar, ele é imediatamente despido dessas disposições
por uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações da
subjetividade. Os processos pelos quais seu eu é mortificado são relativamente
padronizados: a barreira entre o que é interno e o mundo exterior, o que
dura o tempo todo e por muitos anos; a sequência de horários estabelecidos
e rotinas diárias obrigatórias, diferentes de sua vida pregressa; e, sobretudo, o
despojamento de seu papel social.
Em relação a seu papel social, em primeiro lugar, a prisão perturba e profana
exatamente as ações que na sociedade civil a pessoa tem o direito de cumprir com
autonomia e liberdade. A impossibilidade de manter esse nível de competência
adulta pode provocar no preso o horror de se sentir radicalmente infantilizado.
Em segundo lugar, corroborando o foco no processo de infantilização que ocorre
nas prisões, Goffman (1990) lembra que algumas mortificações parecem ser
organizadas apenas ou principalmente pelo seu poder de humilhar e que as
várias justificativas para fazer sofrer o eu são muito frequentemente simples
racionalizações, criadas para controlar a vida diária de grande número de pessoas
em espaço restrito e com pouco gasto de recursos.
Embora alguns dos papéis possam ser restabelecidos pelo preso se e quando
ele voltar para a vida social fora da prisão, muitas perdas são irrecuperáveis e
podem ser dolorosamente sentidas, como o tempo não empregado no progresso
educacional ou profissional, no namoro e na criação dos filhos. Um aspecto legal
dessa perda permanente pode ser encontrado no conceito de “morte civil”: os
presos enfrentam não apenas um dano temporário, mas permanente enquanto
estiverem internados, por não poderem dispor de dinheiro, assinar cheques, ter

25
cartões de crédito, se opor a processos de divórcio ou adoção, votar. Assim, o
rebaixamento moral do recluso e o processo de despojamento criam um meio
de reatualizar de forma permanente o sentido de fracasso e de desgraça pessoal.
Goffman (1990) ressalta que as mutilações do eu ocorrem mesmo se
o detento coopera com a direção do presídio e esta mostra interesse por seu
bem-estar. Nesses casos, a instituição costuma tratá-lo como um colaborador
e ele se torna um participante que dá e recebe com espírito adequado o que foi
sistematicamente planejado, independentemente do fato de isso exigir muito ou
pouco dele. É o que foi observado nesta pesquisa em relação aos “faxinas”.
O termo “ajustamento primário” é usado por Goffman (1990) para se referir
à adaptação do sujeito à organização e, em muitos casos, ao ajustamento por
parte da organização em relação ao preso, como se observa no Brasil, em que
prisões inteiras ou alguns de seus setores recebem apenas determinadas facções
criminosas. O autor cunha ainda o termo “ajustamento secundário”, e o define
como qualquer disposição que o participante de uma organização tenha para
empregar meios ilícitos ou não autorizados com o objetivo de escapar daquilo
que se supõe que ele deva cumprir. Nas prisões, as práticas que não desafiam
diretamente a equipe dirigente, mas permitem que os presos consigam satisfações
proibidas, ou obtenham, por meios proibidos, as satisfações permitidas, poderiam
ser consideradas “ajustamentos secundários”. O mesmo preso pode empregar
diversos mecanismos de adaptação em diferentes fases de sua carreira moral e
pode alternar variadas táticas, para fugir do controle.
Goffman (1990) classifica os mecanismos de ajustamento secundário da
seguinte maneira: “afastamento da situação”, em que o preso deixa de dar atenção
a tudo, com exceção dos acontecimentos que cercam o seu corpo, e vê sua conduta
em perspectiva diferente da que tem a maioria dos detentos; “intransigência”, em
que intencionalmente o recluso desafia a instituição ao se negar a cooperar com a
equipe dirigente; “colonização”, em que o preso transforma o espaço interno num
domínio com elementos externos capazes de tornar sua existência relativamente
satisfatória; “conversão”, em que o preso parece aceitar a interpretação oficial e
tenta representar o papel do detento perfeito.
Para Goffman (1990), é impossível que as prisões, como instituição,
cumpram a função de libertar o ser humano e de fazer com que ele, ao sair, seja
melhor do que era quando entrou – no que também acredita o filósofo Foucault,
estudioso das transformações das formas de punir, como se sabe.

26
Segundo Foucault (2009), do estatuto da prisão – que, como já foi dito,
substituiu o suplício – não consta a tortura física como ato legítimo exercido pela
autoridade – embora ela continue a existir de forma ilegítima em várias partes
de mundo, sendo utilizada como castigo e vingança, tanto por criminosos contra
seus inimigos como por agentes de segurança com ou sem o aval do Estado.
A morte, como espetáculo e como ato político, também tem insistentemente
reaparecido nos meios de comunicação e mídias sociais, enaltecida por grupos
terroristas que ameaçam as sociedades.
Um dos fatores que contribuiu para que a punição diretamente ligada à
tortura física e moral fosse substituída pelo encarceramento foi o aspecto de
ambivalência das ações de suplício: por um lado, fazia aumentar a autoridade
do soberano e, por outro, fomentava na comunidade a piedade e a compaixão
pelo sentenciado. Tais sentimentos, ao longo do século XVIII, passaram a ser
estopim para desencadear, com frequência, o descontrole social, causando
tumultos, principalmente nos casos em que o povo duvidava da culpa do acusado.
Revoltas em prol da libertação e eliminação da pena do condenado impediam,
não raras vezes, a conclusão da sentença e ainda alimentavam insatisfações e
insubordinações.
As inquietudes decorrentes das formas atrozes de suplício fizeram emergir
diversos movimentos que reivindicavam o respeito aos aspectos humanitários do
indivíduo sentenciado. Os protestos populares em prol da suavização do modo
punitivo ganharam força com o apoio de grandes articuladores intelectuais em
pleno florescimento do pensamento iluminista. É o caso do jurista italiano Cesare
Beccaria (1738-1795); do advogado e jornalista francês Jean Michel Servant
(1737-1807); do jurista francês Charles Dupaty (1771-1825), entre outros
citados por Foucault (2009), para os quais era inconcebível manter espetáculos
tão arcaicos numa sociedade desenvolvida. Para esses pensadores, os castigos
pelas transgressões deveriam continuar existindo, mas seria preciso punir de
outro modo: eliminar a confrontação física entre o soberano e o condenado e
exercer a justiça criminal respeitando a humanidade do criminoso.
Investigando o que aconteceu a partir da institucionalização das prisões,
Foucault ressalta que o parâmetro proposto de humanização do sujeito, na
realidade, constituiu apenas um deslocamento do poder do rei para as mãos dos
magistrados. E o castigo aos criminosos deixou de ser uma arte de sensações
insuportáveis para se transformar numa “economia dos direitos suspensos”
(Foucault, 2009). Foucault trata a discussão tanto do suplício como da prisão

27
como dispositivos de poder; o poder não como algo centralizador ou totalitário que
pertence ao soberano ou à determinada classe social, mas como transversalidade,
como dispersão, constelação, multiplicidade, microfísica, uma vez que passa a
estar em todo lugar e em todas as coisas.
Desde o fim do século XVIII e início do século XIX, a sociedade ocidental
passou a desenvolver a era da “sobriedade punitiva”. “Punições menos diretamente
físicas, certa discrição na arte de fazer sofrer, arranjos de sofrimentos mais sutis,
mais velados e despojados de ostentação” (Foucault, 2009: 13). Nesse novo
momento, ao suspeito passou-se a garantir o direito de se defender da acusação
e de negar a culpa que lhe foi imputada. Assim, a verdade do crime era admitida
apenas depois de inteiramente comprovada. A pena deixou de ser decidida a
portas fechadas para se tornar pública, e a própria motivação ou natureza do
crime transformou-se em objeto de investigação e de discussão. A partir de
então, não bastaria dizer que tal delito fora comprovado, era necessário explicá-
lo, especificando em que nível da realidade penal ele deveria ser enquadrado, e
qual dosagem das penas o indivíduo cumpriria, de forma estabelecida em códigos
objetivamente escritos e legais. “A certeza de ser punido é o que deve desviar o
homem do crime e não mais o abominável teatro” (Foucault, 2009: 14).
Foucault localizou a prisão no contexto de um novo momento histórico
do capitalismo e de ascensão da burguesia, a que ele denominou “sociedade
disciplinar”, na qual, não apenas o preso, mas toda a população passa a se guiar
por regras estabelecidas de coesão e coerção. Nesse sentido coesão é também
coerção, como lembra Goffman (1990) analisando a introjeção das formas de
controle na vida cotidiana: “na prisão da vida social, cada pessoa é seu próprio
algoz, mesmo que alguns possam gostar de suas celas” (Goffman, 1990: 10).
O encarceramento como castigo tem como base um novo discurso: o da defesa
da sociedade se alia ao da recuperação do infrator numa proposta de devolvê-lo
recuperado ao convívio social.
Separando-o do corpo social, o prisioneiro seria controlado para adquirir
novas formas de se conduzir socialmente, por meio de intervenções disciplinares
e acompanhamento diário. Na visão dos reformadores, a prisão deveria se
organizar como uma espécie de fábrica, visando a modelar o novo comportamento
dos criminosos. Dessa forma, o ideal seria que todo condenado trabalhasse.
O trabalho prisional representaria um dos meios utilizados para reeducá-lo e
lhe dar um ofício, pelo qual ele aprenderia regras básicas e fundamentais de
convivência e pagaria sua dívida com a sociedade. O trabalho eliminaria a

28
ociosidade, ocupando os detentos com obrigações sociais e custeando suas
despesas na prisão, além de lhes garantir uma renda financeira que deveria ser
usada para assegurar sua reinserção moral e material após a prisão.
Entretanto, a proposta de transformação do culpado por meio de técnicas
corretivas, lembra Foucault (2009), na prática, não tinha e continua a não ter a
finalidade de reconstruir o sujeito de direito e, sim, o de forjar um sujeito obediente
e ordeiro. É por isso que o autor assevera, com certa ironia, que a figura do carrasco
foi substituída pela dos médicos, psicólogos, psiquiatras e educadores.
A punição moderna tem um significado diferente daquela do Antigo Regime,
no entanto. Na verdade, ela exclui o suplício. Porém, apesar das boas intenções
dos reformadores, na prática a reclusão não consegue humanizar a punição.
Foucault fala do fracasso da proposta humanitária e dos males que o regime
disciplinar da prisão produz. Ele vê a cadeia como um reduto de formação e
aperfeiçoamento da criminalidade ao invés de corrigir o criminoso, já que ao
passar pelo encarceramento, frequentemente, o condenado sai pior do que entrou.
E essa reversão de expectativa vem ocorrendo desde as primeiras experiências
institucionais:
A ideia de uma reclusão penal é explicitamente criticada por muitos reformadores.
Porque é incapaz de responder à especificidade dos crimes. Porque é desprovida
de efeito sobre o público. Porque é inútil à sociedade, até nociva: é cara, mantém
os condenados na ociosidade, multiplica-lhes o vício. A detenção provoca a
reincidência. Depois de sair da prisão, existe mais chance do que antes de se voltar
para ela. Os condenados são, em proporção considerável, antigos detentos [...]. A
prisão, consequentemente, em vez de devolver à liberdade indivíduos corrigidos,
espalha delinquentes perigosos na população. (Foucault, 2009: 110)

Segundo Foucault (2009), e concordando com Goffman (1990), o modo


de vida imposto ao criminoso na prisão, caracterizado pelo isolamento e pela
realização de atividades nas quais ele não visualiza utilidade, contribui para
reforçar a criminalidade ao desencadear sentimentos de revolta e humilhação:
“ainda que não recorram a castigos violentos ou sangrentos, mesmo quando
utilizem métodos ‘suaves’ de trancar ou corrigir é sempre do corpo que se trata
– do corpo e de suas forças, da utilidade e da docilidade dele, de sua repartição
e de sua submissão” (Foucault, 2009: 28). Dessa forma, o autor conclui que na
prisão também se fabricam delinquentes, impondo limitações às necessidades
humanas de forma violenta. Ora, se seu papel seria de aplicar as leis e de ensinar
o respeito a elas, “seu funcionamento se desenrola no sentido do abuso de poder”
(Foucault, 2009: 29).

29
Assim, as conclusões de Foucault – e como se constata em muitas situações
reais do país atualmente – são de que a prisão costuma funcionar como um local
de organização de delinquentes, solidários entre si, hierarquizados, prontos para
todas as cumplicidades futuras. Nessa atmosfera, os mais hábeis na marginalidade
exercem a função educativa dos principiantes, incitando ao ódio contra a
sociedade, a lei e as autoridades. O cárcere acaba por funcionar como um curso
sobre delinquência, ministrado por mestres na arte do crime, habilitando os mais
jovens e os novatos com informações e ferramentas para a prática delituosa.
O encarceramento atua de acordo com um princípio de relativa continuidade.
A continuidade das rotinas e dos critérios e mecanismos punitivos que reproduzem
a instituição prisional, de forma que ela apresente extrema solidez. Portanto se há
algum desafio, não é o de saber se o encarceramento será ou não corretivo, mas
sim o de desvendar sua inquestionável solidez, apesar de sua evidente ineficácia.
Nas palavras de Foucault (2009: 290), “o problema atualmente está mais no
grande avanço desses dispositivos de normalização e em toda a extensão dos
efeitos de poder que eles trazem, através da colocação de novas objetividades”.
Foucault também se pergunta: a punição ou os castigos na prisão podem
estar associados à reincidência criminal, e os detentos podem reproduzir no
contexto social todo o sofrimento passado no encarceramento? Eis sua resposta:
O sentimento de injustiça que um prisioneiro experimenta é uma das causas
que mais podem tornar indomável seu caráter. Quando se vê assim exposto a
sofrimentos que a lei não ordenou nem mesmo previu, ele entra num estado que
representa o deslocamento de uma prisão corretiva ou restauradora, para um
ambiente de especialização da criminalidade. Hoje, por exemplo, algumas pessoas
costumam afirmar (criticando essa instituição), tal criminoso entrou formado e
saiu mestre ou doutor em criminalidade. Ao assumir um caráter de imposição à
força, o trabalho deixa de funcionar como um mecanismo educativo e restaurador
do caráter moral do prisioneiro, contribuindo para revolta e hostilidade do mesmo,
perdendo assim seu aspecto educativo e integrador ao contexto comunitário [para
entrar numa atmosfera] habitual de cólera contra tudo o que o cerca. [O preso]
só vê carrascos em todos os agentes da autoridade: não pensa mais em ter sido
culpado; acusa a própria justiça. (Foucault, 2009: 235)

No tocante à reincidência criminal, alguns fatores são elencados por Foucault


para explicar seus elevados índices: as condições impostas ao criminoso, quando
ele deixa o sistema prisional, levam-no a carregar consigo a fama de ex-detento;
os estereótipos e preconceitos sociais dificultam sua reinserção no mercado
de trabalho; e a falta de oportunidade no âmbito social, que ocorria antes do
aprisionamento, o acompanha durante o cumprimento da pena, pois raramente

30
lhe é oferecida oportunidade de melhorar sua educação formal e sua formação
profissional. Todas essas dificuldades o colocam em situação de vulnerabilidade
e de risco para reincidência.
Na mesma linha do já exposto, Foucault (2009) conclui que a prisão não
reconcilia a pessoa com a humanidade, como pensavam os intelectuais que
conceberam o modelo do sistema, na medida em que permanecem as espoliações,
continuam os espaços de violência e se reproduz o jogo de forças. Assim, as
estratégias de poder, disseminadas em múltiplas formas institucionais, reafirmam-
se por meio de dispositivos disciplinares, produzindo sujeitos sujeitados.
Suas afirmações coincidem com a visão de Goffman (1990) quando discute o
assujeitamento e a mortificação do eu das pessoas encarceradas como foco de
sua punição.
Em seus escritos, nem Foucault nem Goffman deram muito destaque aos
gestores e técnicos do sistema penitenciário. No entanto, mesmo sem enfatizar
o seu papel, Goffman tece algumas considerações relevantes. Justifica que não
lhe interessa muito saber se são bons ou se são maus porque considera que
eles também obedecem a normas e têm sua subjetividade comprometida pela
cultura em que vivem e trabalham: “penso que elogiaremos e condenaremos
menos determinados superintendentes, comandantes, guardas (...) e buscaremos
compreender melhor os problemas sociais das instituições totais, analisando a
estrutura subjacente a todas elas” (Goffman, 1990: 108).
O autor comenta que esses gestores convivem com uma contradição
latente: o que a instituição faz e aquilo que deve dizer que faz. Nesse mundo
da reclusão, gestores e técnicos precisam impor obediência, dar a impressão de
que os padrões humanitários são mantidos e de que os objetivos da instituição
estão sendo atingidos. Porém, presos, gestores e técnicos mantêm distância
social e interagem apenas de acordo com os “padrões de deferência” impostos
formalmente como exigências especificadas das normas ou quando o corpo
dirigente aplica sanções para as infrações apresentadas por alguém da equipe,
obedecendo ao escalonamento de seus papéis.
Como não existe objetividade perfeita e nem distanciamento absoluto, em
algumas ocasiões rotineiras e, principalmente, nos momentos denominados pelo
autor de “cerimônias institucionais” há uma maior interação entre os agentes
penitenciários e os presos, e relações de proximidade se materializam. Essas
cerimônias, como alguma festa anual, confecção de jornal ou revista, torneios

31
esportivos, ritos religiosos e exibição de teatro e música, são vistas como
possibilidades de o interno reaprender a viver em sociedade. Nessas cerimônias,
a equipe dirigente representa mais que um papel de supervisão, por isso podem
ocorrer influências mútuas entre os padrões sociais de um e de outro lado,
principalmente quando as pessoas são provenientes da mesma classe social.
Essa permeabilidade tem como consequência a redução das diferenças e a
geração de uma comunicação mais intensa. A quebra de barreiras intergrupos
funciona como uma espécie de colonização do preso para que a manutenção da
moral, da estabilidade e dos objetivos institucionais seja garantida. Os gestores
costumam adjetivar as mútuas influências desses encontros como “estratégias de
democratização do tratamento do preso”.

Dados Estatísticos e Organização do


Sistema Prisional Brasileiro e Fluminense
Seguindo a linha reflexiva apresentada na seção anterior, cabe perguntar
se no Brasil as taxas de criminalidade e de punição estariam dentro do que para
Durkheim seria a “normalidade” ou se há indícios de “anomia” social. Essa é uma
indagação de difícil resposta, pois também se sabe por autores, como Chesnais
(1981), que algumas transgressões provocam maior comoção e julgamento social
mais severo que outras. Por exemplo, neste período histórico de guerra contra
as drogas, os estabelecimentos prisionais estão superlotados por pessoas que
cometeram crimes relacionados ao abuso e ao tráfico de substâncias ilegais, neles
há poucos criminosos condenados pelos chamados crimes de colarinho branco.
E, embora determinadas ações sejam reconhecidas como violentas ou criminosas,
acompanhando o avanço de consciência social, a cada ano a população carcerária
aumenta no país sem que muitos problemas sociais associados a esse fenômeno
sejam devidamente questionados ou superados e sem que as acomodações para
os presos se ampliem ou melhorem sua qualidade.
De acordo com o Departamento de Estudos Penitenciários (Depen, 2015),
em 2014 – o último ano para o qual há dados consolidados – a população carcerária
brasileira é de 607.731, dos quais 579.423 compõem o sistema penitenciário,
27.950 estão em carceragem de delegacias e 358 no sistema penitenciário federal,
havendo um déficit de 231.062 vagas, como mostra a Tabela 1, a seguir.

32
Tabela 1 – Informações prisionais de dez países
Taxa de presos sem
País População prisional Taxa de presos Taxa de ocupação
condenação
EUA 2.228.424 698/100.000hab 102, 70% 20,40%
China 1.657.812 118/100.000hab - -
Rússia 673.818 468/100.000hab 94,20% 17,90%
Brasil 607.731 300/100.000hab 161% 41%
Índia 411.992 33/100.000hab 118,40% 67,90%
Tailândia 308.093 457/100.000hab 133,90% 20,60%
México 255.638 214/100.000hab 125,80% 42 %
Colômbia 116.760 237/100.000hab 149,90% 35,20%
Filipinas 110.925 113/100.000hab 316,00% 63,10%
Peru 71.913 232/100.000hab 223,00% 49,80%

Fonte: Depen, 2015.

O Brasil, em 2014, exibiu, entre os países comparados, a quarta maior


taxa de presos por 100.000 habitantes, dos quais 41% sem julgamento; 41%
sentenciados em regime fechado; 15% em regime semiaberto e 3% em regime
aberto. De 1995 a 2010 houve um crescimento exponencial de encarceramento:
olhando-se a magnitude dos números, passou-se de 90.000 em 1990 para
607.700 em 2014, um crescimento de 675%. De 2008 a 2014, enquanto os
Estados Unidos, a China e a Rússia apresentaram uma tendência de queda nesses
índices, no Brasil houve um incremento de 33%.
A prisão provisória aparece nas informações reunidas pelo Depen (2015)
como uma tendência mundial que concorre para a superlotação e para o aumento
dos custos do sistema. No Brasil, o percentual de presos nesse regime é alto
(41%) que, em números absolutos, correspondem a 222.190 pessoas. Porém,
os países em pior situação são a Índia, o Paquistão e as Filipinas com mais 60%
dos detentos esperando julgamento. Numericamente, vêm em primeiro lugar,
os Estados Unidos (480.000), seguidos pela Índia e pela China. No Brasil, os
estados com maior percentual de presos provisórios são todos do Nordeste:
Sergipe (73%), Maranhão (66%) e Bahia, (64%). O Rio de Janeiro mantém
nessa situação 46% dos presos.
São Paulo é o estado brasileiro que mais prende (219.053), vindo em
segundo lugar Minas Gerais (61.286) e em terceiro o Rio de Janeiro (39.321).
Considerando as taxas por 100.000 habitantes, em primeiro lugar vem Mato
Grosso (568,9) e em segundo, São Paulo (497,4). O Rio de Janeiro ocupa a 17ª
posição, com 238,9.
Do total de presos no Brasil, 20,1% cumprem pena de até quatro anos;
31,7% de quatro até oito e 23,4% de oito a 15 anos; 11,1% de 15 a 20 anos;

33
8,7% de 20 a 30 anos; e 4,9% de mais de 30 anos. É relevante notar que 75,2%
dos encarcerados têm penas que vão até oito anos e que 49,1% da totalidade dos
delitos são crimes contra o patrimônio. Apenas 11,9% do total dos presos
cometeram crimes contra a pessoa.
O mapa das infrações e delinquências pode também ser observado segundo
faixa etária: 29,4% dos detentos têm entre 18 e 24 anos; 25,9% entre 25 e 29;
18,7% entre 30 e 35 anos; 16,9% entre 35 a 45; e 7,4% estão mais de 45 anos.
Como em grande parte dos países, o maior número de encarcerados é formado
por jovens e adultos jovens entre 18 e 35 anos (75%). Analisando-se segundo
a cor da pele, 31% dos apenados são brancos e 67% pardos e negros. No Rio
de Janeiro, segundo o Depen (2015), 27,8% são brancos e 71,6% são pardos e
negros.
Por região, os negros e pardos nas prisões brasileiras assim se distribuem:
no Norte a proporção dos negros e pardos na população geral é de 76% e na
carcerária, 83%; no Nordeste, respectivamente, 71% e 80%; no Centro-Oeste,
57% e 73%; no Sudeste, 42% contra 72%; e no Sul, 21% e 33%. É relevante a
desproporção de negros e pardos na população geral e na carcerária, mostrando
um viés racista e social do encarceramento. A situação mais gritante se observa
no Sudeste.
Em relação ao sexo, 93,8% dos que cumprem pena em regime fechado são
homens e 6,2% são mulheres. Segundo o Depen (2015), havia no sistema em
2014, 1.595 pessoas com alguma deficiência, porém 87% das unidades não
tinham nenhuma adaptação às condições desses presos.
Apenas 1% dos presos brasileiros têm curso superior, ao passo que 80%
são apenas alfabetizados ou cursaram o fundamental. Esse dado é mais um
indicador do preconceito social que se reflete no aprisionamento da maioria dos
encarcerados. Outro ponto interessante demonstrado pelo Depen é a distribuição
dos crimes: 29% tráfico de drogas e grupos organizados; 35% contra o
patrimônio; 3% latrocínio; 14% homicídios e 19%, outros. Ou seja, a maioria
das pessoas está no sistema pelo tráfico de drogas, participação em quadrilhas e
por crimes contra o patrimônio. Essa classificação segue uma tendência que se
observa em várias partes do mundo.
É possível que haja dados desatualizados entre as informações aqui apresentadas
se comparados aos que se encontram no estudo empírico. Isso se deve ao fato de
todo o trabalho de campo ter sido realizado entre 2013 e início de 2014.

34
Apesar da Lei de Execução Penal seguir a filosofia de “humanização” proposta
desde o século XIX, a expressão mais comum utilizada pelas autoridades para se
referirem aos presídios brasileiros é “barril de pólvora”. Levantamento realizado
pelo Conselho Nacional do Ministério Público mostra que, entre 2012 e 2013,
ocorreram 121 motins em 1.598 unidades prisionais, com a trágica marca de
mais de 700 mortes. Um indicador previsível para um total de 549.786 presos e
um déficit de 211.741 vagas.
Uns mais e outros menos degradantes, os presídios são espaços onde os
detentos vivem espremidos tanto nas épocas de frio como nas de calor e estão
suscetíveis a contraírem enfermidades, principalmente pelas precárias condições
de higiene. Segundo o Depen do Ministério da Justiça, no entanto, mesmo com
a superlotação, as casas de detenção não cobrem as necessidades da justiça
criminal: existem entre 200 e 400 mil mandados de prisão não cumpridos.
Como se verá aqui, se na fala das autoridades os presídios são “um barril de
pólvora”, na expressão de muitos detentos, eles são “a antessala do inferno”, seja
pela superlotação, seja pela forma de tratamento que lhes é oferecido. As prisões
brasileiras acumulam sérios problemas estruturais, relacionais, ambientais e
sanitários, problemas esses, reatualizados cotidianamente pela máquina de
execução penal.
No Rio de Janeiro, em 2014, havia 36.126 pessoas presas para 25.558 vagas,
sendo a razão presos/vagas de 1,4 (correspondendo a um déficit de 10.568).
Embora elevada, essa relação é uma das mais baixas do país. Por exemplo,
em Alagoas a razão era de 2,9; em Pernambuco de 2,7; no Amapá de 2,6 e em
São Paulo, de 1,9, onde o déficit é de 97.363 vagas. Havia, no Rio de Janeiro,
em 2013, um total de 3.182 detidos (25,6/100.000) sob custódia da polícia.
A taxa de encarceramento era de 290,4/100.000, bem abaixo da média nacional
(393,3/100.000). Porém, depois de São Paulo (207.447 presos) e Minas Gerais
(54.314), o Rio de Janeiro tem o maior número de detentos, sendo seguido por
Pernambuco (30.894) e pelo Rio Grande do Sul (28.743) (Depen, 2015).
A população jovem de 18 a 29 anos predomina (54,2%) entre os
encarcerados do estado do Rio de Janeiro, conforme o censo nacional e também
como constatado nesta pesquisa. Do total dos detentos, 10.705 cumprem pena
em regime fechado; 7.835 em regime semiaberto; 403, em regime aberto;
13.910, em regime provisório e 91, em medida de segurança e internação. Do
total, 31.204 (94,7%) são homens e 1.740 (5,3%), mulheres. O encarceramento

35
de mulheres no estado do Rio de Janeiro, percentualmente, fica abaixo da média
nacional (6,1%) (Depen, 2015).
O sistema prisional fluminense conta, atualmente, com 50 estabelecimentos
penais em funcionamento, assim distribuídos: 5 hospitais penais, de custódia
e tratamento psiquiátrico; 11 penitenciárias; 10 presídios; 4 cadeias públicas;
7 casas de custódia; 7 institutos penais; 1 patronato; 2 casas de albergados; 1
colônia agrícola e 2 instituições penais militares. As unidades desse sistema estão
localizadas nos bairros de Bangu, Centro, Água Santa e São Cristóvão (na cidade
do Rio de Janeiro) e nos municípios de Japeri, Niterói, Magé, Campos e Itaperuna.
Ressalte-se que o foco desta pesquisa foram apenas os estabelecimentos do
sistema prisional de regime fechado.

Produção Científica e Documentos


Oficiais sobre a Saúde dos Presos
Apesar de estudos seminais como os de Goffman (1990) e Foucault (2009),
que retomam declarações políticas e jurídicas dos reformadores do século XVIII
e XIX, e de menções importantes de sociólogos como Durkheim (2007), são
poucos os estudos acadêmicos atuais sobre o aprisionamento como fenômeno
social. As pesquisas que tratam da saúde dos detentos são relativamente
recentes, influenciadas pelo Projeto de Saúde no Sistema Prisional, iniciado pela
Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1995, do qual faz parte o importante
guia “Saúde nas prisões” (WHO, 2007). Desde então, das normas internacionais
passaram a constar princípios norteadores dos cuidados a serem dispensados aos
reclusos. Dentre eles, destaca-se: os presos não devem sair da prisão com uma
situação de saúde pior da que tinham quando nela entraram. Esse princípio foi
adotado e reforçado por Recomendação do Comitê de Ministros do Conselho
da Europa em 1998 e pelo Comitê Europeu que segue a Convenção das Nações
Unidas sobre a “Prevenção da tortura e penas ou tratamentos cruéis, desumanos
ou degradantes” (WHO, 2007).
No Brasil, existe pouca reflexão acadêmica sobre o tema da saúde dos
presos, o que se contrapõe à extensa bibliografia publicada em outros países.
Numa revisão sistemática, Gois e colaboradores (2012) conseguiram recuperar
371 artigos de autores europeus; 659 de americanos-do-norte; 23 de asiáticos; 15
de africanos; e 19 de sul-americanos, dos quais 17 são de brasileiros.

36
De qualquer forma, a produção intelectual sobre o assunto é recente no
mundo inteiro e se intensificou a partir da década de 1990. Antes dessa década,
Gois e colaboradores (2012) encontraram apenas 18 textos de autores ingleses e
33 de americanos, datados entre os anos 1975 a 1993. O maior incremento das
pesquisas e análises ocorreu a partir da década de 2000. A literatura brasileira
também apresenta poucos estudos antes dessa data, a saber: Oliveira (1978);
Palma, Rogerio e Neves, 1997; Magnabosco (1998); Almeida (1998); Lemgruber
(1999); Varella (1999). Todos os outros trabalhos são já do século XXI:
Miranda, Mercon-de-Vargas e Viana (2004); Carvalho e colaboradores (2006);
Negrelli (2006); Macedo (2006); Strazza e colaboradores (2007); Sanchez e
colaboradores (2007); Gabe e Lara (2008); Taborda e Bins (2008); Diuana
e colaboradores (2008); Coelho e colaboradores (2009); Coelho (2009); Nogueira e
Abrahão (2009); Tavares e Almeida (2010); Mello e Gauer (2011); Depen (2015);
Pastoral Carcerária, Conectas Direitos Humanos e Instituto Sou da Paz (2014).
Alguns desses últimos não entraram na revisão de Gois e colaboradores (2012).
Os artigos e livros publicados no Brasil, inclusive os que se referem,
especificamente, a diagnósticos de HIV/Aids, tuberculose e problemas mentais
ressaltam a distância entre as leis e normas e a dura realidade da precária prestação
dos serviços de saúde nos presídios. Muitas pesquisas atuais se referem à população
feminina e a problemas de saúde mental (Almeida, 1998; Lemgruber, 1999;
Brasil, 2008; Damas, 2011; Oliveira e Guimarães, 2011), chamando atenção para
especificidades de gênero e do sofrimento mental que acomete as pessoas reclusas,
problemas que devem ser considerados na atenção por parte dos diferentes agentes
que atuam nas prisões. Todos ressaltam também que, de forma semelhante a
muitos outros sistemas no mundo, as prisões brasileiras são marcadas por um
conjunto de carências de natureza estrutural e processual que afetam diretamente
os resultados produzidos em relação à pretendida ressocialização dos reclusos.
Os estudos mostram que o ócio, a superlotação, a pouca quantidade de profissionais
dedicados à saúde, ao serviço social, à educação – além da arquitetura precária e
do ambiente insalubre – não só alimentam um poderoso estigma, como também
servem de potencializadores das mais diferentes iniquidades e enfermidades nesse
ambiente fechado. A prestação de serviços de saúde é de flagrante descumprimento
do que é prescrito na Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas
Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (Pnaisp). Esses pontos assinalados na
literatura são integralmente confirmados aqui.

37
Os dados apresentados serão detalhados mais adiante na seção sobre
questões ambientais e de saúde dos presos em regime fechado do Rio de Janeiro,
baseada num inquérito por amostragem sobre a saúde, as condições sociais e
ambientais que, por meio de técnicas estatísticas, pode ser generalizado para
a população carcerária em regime fechado como um todo. Esse inquérito foi
complementado com entrevistas concedidas por presos e alguns agentes e uma
inspeção sobre a situação ambiental dos presídios.
Será o caso do Rio de Janeiro pior do que o de outros estados brasileiros?
A julgar pela “superlotação”, um dos indicadores mais significativos, é possível
que o que ocorre aqui tenha repercussão nas situações degradantes que se
repetem no país, até com menor intensidade. Uma pergunta que acompanhará
o leitor desta obra é como pode haver uma distância tão grande entre o que está
prescrito na lei e o que acontece na prática? Parece que tudo isso se justifica
e se naturaliza – de forma explícita ou implícita – pela visão preconceituosa da
sociedade e dos agentes responsáveis pelo sistema, segundo a qual os criminosos
não merecem receber cuidados, mas devem sofrer e ser castigados pelo que
fizeram, como um círculo que sempre se fecha na mentalidade pré-século XIX.
O conceito de saúde com o qual se trabalha aqui é o proposto pela
Constituição de 1988 e pela Lei Orgânica da Saúde de 1990, que a considera
como resultante de condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio
ambiente, trabalho, transporte, lazer, emprego, liberdade, acesso e posse de terra
e acesso aos serviços do setor. Na carta magna e na lei n. 8.080, o direito à saúde
significa a garantia, por parte do Estado, de dignas condições de vida e de acesso
igualitário e universal às ações e serviços de promoção, proteção e recuperação
no caso de adoecimento, em todos os seus níveis e em todo o território nacional.
A Pnaisp, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), instituída pela
portaria interministerial n. 1, na sua letra segue a carta magna. Ela entrou
em vigor no dia 2 de janeiro de 2014, com o objetivo de garantir o acesso ao
cuidado integral por parte das pessoas privadas de liberdade, inseridas no
sistema prisional. Entretanto, antes de essa política ser promulgada, a Lei de
Execução Penal n. 7.210, de 11 de julho de 1984, já considerava a necessidade
de reintegração social das pessoas privadas de liberdade por meio da educação, do
trabalho e da saúde. Também a precedeu a portaria interministerial n. 1.777/MS/MJ,
de 9 de setembro de 2003, que aprovou o Plano Nacional de Saúde no Sistema
Penitenciário (PNSSP), que, certamente, foi seu inspirador.

38
No Quadro 1, a seguir, resumem-se os princípios, diretrizes e objetivos da
Pnaisp, que têm como destinatárias todas as pessoas sob custódia do Estado
nos diferentes regimes de cumprimento de pena. Nela se preveem também ações
relativas aos trabalhadores do sistema e aos familiares dos detentos.

Quadro 1 – Princípios, diretrizes e objetivos da Pnaisp


Princípios Diretrizes Objetivos

1. Respeito aos direitos humanos e à justiça 1. Promoção da cidadania e inclusão das 1. Promover o acesso dos presos à
social; pessoas privadas de liberdade por meio Rede de Atenção à Saúde;
2. Integralidade da atenção à saúde da educação, trabalho e segurança; 2. Assegurar autonomia dos
da população privada de liberdade no 2. Atenção integral resolutiva, contínua profissionais da saúde para a
conjunto de ações de promoção, proteção, e de qualidade às necessidades de realização do cuidado integral dos
prevenção, assistência, recuperação saúde dessa população, tanto em detentos;
e vigilância em saúde, executadas nos atividades preventivas como de serviços 3. Qualificar e humanizar a atenção à
diferentes níveis de atenção; assistenciais; saúde por meio de ações conjuntas
3. Equidade, levando-se em conta 3. Controle e redução dos agravos mais com o setor de justiça;
diferenças e singularidades dos presos; frequentes que acometem os presos; 4. Promover as relações intersetoriais
4. Promoção de iniciativas de ambiência 4. Respeito à diversidade étnico-racial, com as políticas de direitos humanos,
humanizada e saudável com vistas à às limitações e às necessidades físicas afirmativas e sociais básicas e com a
garantia da proteção dos direitos dessas e mentais especiais, às condições justiça criminal.
pessoas; socioeconômicas, às práticas e
5. Corresponsabilidade interfederativa concepções culturais e religiosas, ao
na organização dos serviços, segundo a gênero, à orientação sexual e à identidade
complexidade das ações desenvolvidas; e de gênero; e

6. Valorização de mecanismos de 5. Intersetorialidade para se realizar uma


participação popular e controle social gestão integrada, racional e humanizada,
nos processos de formulação e gestão de como garantia do direito à saúde.
políticas para atenção à saúde das pessoas
privadas de liberdade.

A adesão à Pnaisp, prevista no art. 13 da portaria interministerial n. 1,


deve ocorrer por meio de pactuação da União tanto com os estados e o Distrito
Federal quanto com os municípios. As responsabilidades pelo sucesso da política
são distribuídas para os três níveis de governo conforme se lê no Quadro 2. A
mesma portaria prevê que aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios que
aderirem à Pnaisp seja garantida uma complementação monetária para realização
das ações nela previstas, complementação a ser repassada pelo Ministério da
Saúde, como forma de incentivo.

39
Quadro 2 – Responsabilidades dos ministérios da Saúde e da Justiça segundo a
Pnaisp

Órgão Responsabilidades

1. Elaborar um plano estratégico para implementação da Pnaisp, em cooperação técnica com estados,
Distrito Federal e municípios;
2. Garantir a continuidade da Pnaisp por meio da inclusão de seus componentes nos Planos
Plurianuais e nos Planos Nacionais de Saúde;
3. Assegurar fontes federais para compor o financiamento de programas e ações na rede de atenção
à saúde nas prisões;
4. Definir estratégias para inclusão das informações epidemiológicas das populações prisionais nos
Ministério da Saúde
sistemas de informação do Ministério da Saúde;
5. Avaliar e monitorar as metas nacionais de cumprimento das diretrizes da política; prestar assessoria
técnica e apoio institucional para os outros níveis de gestão do sistema;
6. Apoiar a capacitação e a educação permanente dos profissionais da saúde que atuam na atenção à
saúde dos presos;
7. Apoiar e fomentar a realização de pesquisas consideradas estratégicas no contexto desta política
em colaboração com o Ministério da Justiça.

1. Executar as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, no âmbito da atenção básica,


em todas as unidades prisionais sob sua gestão;
2. Elaborar um plano de acompanhamento da situação de saúde dos detentos;
3. Repassar informações atualizadas ao Ministério da Saúde acerca da estrutura, classificação dos
estabelecimentos prisionais, número de trabalhadores do sistema prisional e de pessoas privadas de
liberdade, dentre outras informações pertinentes à gestão;
4. Disponibilizar o acesso às informações do Sistema de Informação Penitenciária com o objetivo de
subsidiar o planejamento das ações de saúde;
5. Apoiar a organização e a implantação dos sistemas de informação em saúde;
Ministério da Justiça
6. Assistir técnica e financeiramente, no âmbito da sua atribuição, a construção, a reforma e o
aparelhamento do espaço físico necessário à unidade de saúde dentro dos estabelecimentos penais;
7. Acompanhar a aplicação das normas sanitárias nacionais e internacionais;
8. Elaborar e divulgar normas técnicas sobre segurança para os profissionais da saúde dentro dos
estabelecimentos penais;
9. Incentivar a inclusão dos agentes penitenciários nos programas de capacitação e sensibilização em
saúde; e
10. Colaborar para a inserção do tema “Saúde da Pessoa Privada de Liberdade” nos espaços de
participação e controle social da justiça, nas escolas penitenciárias e entre os presos.

40
Caminhos da Construção e
do Desenvolvimento da Pesquisa
Aqui, apresenta-se um estudo exploratório de autoavaliação das condições
de saúde pelo testemunho da própria população carcerária do estado do Rio de
Janeiro, por meio de uma investigação empírica e observacional. A pesquisa que
dá origem a este livro privilegiou, em primeiro lugar, a questão do território,
embora também tenhamos observado informações distribuídas por sexo, idade e
raça/cor. Trabalhou-se separadamente com os presos da Capital, do Interior do
estado e da Baixada Fluminense. Partiu-se da hipótese de que haveria distinções
e semelhanças (confirmadas ao longo da pesquisa e evidenciadas nos dados aqui
analisados) entre esses três universos, o que tornou o estudo bastante relevante
na medida em que pouco se conhecia sobre a realidade fora da cidade do Rio de
Janeiro.
A presente proposta metodológica se baseia nas teorias e técnicas da
triangulação entre abordagens quantitativas e qualitativas que vêm sendo
aprimoradas pelos pesquisadores do Claves (Minayo, 2005) e tem-se mostrado
pertinente para pesquisas sobre o impacto da violência sobre a saúde.
A triangulação busca articular perspectiva epidemiológica, das ciências sociais
e humanas e o conhecimento do senso comum, por meio da interação entre
pesquisadores e a população investigada, visando a subsidiar ações tanto dos
poderes públicos como dos movimentos da sociedade civil.
A operacionalização do estudo foi realizada por três tipos de atividades
metodológicas: a primeira, de caráter observacional, ocorreu por meio de uma
inspeção sobre as condições ambientais de saúde em 11 penitenciárias do estado
do Rio de Janeiro; a segunda se desenvolveu por meio de um inquérito sobre
saúde e qualidade de vida dos presos; e a terceira atividade, um estudo qualitativo,
foram entrevistas com presos.

Pesquisa observacional ou inspeção


das condições ambientais e de saúde
As condições ambientais que impactam a saúde dos presos do estado
do Rio de Janeiro foram estudadas por uma equipe de pesquisadores do
Departamento de Direito à Saúde da Fiocruz (DIS), associado ao Claves. Esse
grupo de pesquisadores foi acompanhado por agentes do Núcleo de Apoio

41
ao Sistema Prisional (Nasp) em suas 11 visitas técnicas, conduzidas com apoio
de um instrumento que será apresentado a seguir. Todas as unidades visitadas
estavam, à época, sob Termo de Ajustamento de Conduta ajuizado pelo Ministério
Público. Cada atividade observacional ocorreu sempre por meio de uma dupla de
observadores e de agentes do Nasp, iniciada pela manhã e prolongadas até a tarde.
Algumas vezes houve dificuldade de acesso à unidade prisional, em razão
de problemas decorridos da demora de chegada de documentos de autorização
para entrar, bem como fotografar – ato que, no caso, era imprescindível para
garantia da qualidade do processo observacional. Para a superação das poucas
intercorrências, a equipe contou com a participação decisiva dos agentes do Nasp.
De modo geral, a direção das unidades e suas assessorias foram muito
cooperativas, o que contribuiu para que as visitas técnicas pudessem ser
realizadas de maneira tranquila e produtiva. Algumas informações solicitadas
nem sempre estavam disponíveis, mesmo para a diretoria. Nesses casos, os
pesquisadores tiveram que contar com o empenho dos agentes da administração
para atendimento à demanda da equipe. Em alguns casos, não se conseguiu
acesso a informações, especialmente, quanto a aspectos estruturais das unidades.
O trabalho observacional demandou bastante investimento anterior às visitas
e baseou-se num instrumento intitulado “Instrutivo sobre condições ambientais
que impactam a saúde e a qualidade de vida dos presos”. Cada inspeção gerou um
relatório baseado num questionário, utilizando-se um critério de sistematização
dos componentes estruturais das unidades, classificados em dez espaços de
convívio, como será explicado mais adiante.
Entre os elementos do roteiro estavam as informações gerais: nome do
estabelecimento; data, horário e duração da inspeção; dados do estabelecimento,
tais como o nome do diretor e características da unidade: número de detentos,
tamanho, organograma, setores, número de funcionários, dinâmica de
funcionamento (visitas, fluxogramas, turnos, características gerais).
Em seguida, se descrevia a inspeção: equipe e pessoas acompanhantes;
interlocutores da unidade (nome e cargo); diálogo com esses encarregados para
conhecer seus pontos de vista sobre os problemas gerais; tempo despendido na
observação de cada unidade; dinâmica da inspeção; obstáculos, intercorrências
e outros.
A avaliação ambiental das unidades indicadas no projeto foi realizada com
base em um critério estabelecido pela equipe, de modo a organizar a observação e

42
facilitar a leitura dos resultados da análise. Assim, a sistematização foi planejada
para dar ênfase ao que na pesquisa se denominou de espaços de convívio. Para
isso, considerou-se que espaço de convívio poderia estar direta ou indiretamente
vinculado ao detento. Foram considerados espaços de vinculação direta as
áreas ocupadas por ele; e se classificou como caso de vinculação indireta os
espaços de convívio em que sua presença era esporádica. Com tais categorias,
buscou-se simplificar a inspeção, preservar a autonomia de observação do local
de per si, facilitar o registro observacional e a quantificação dos diferentes
ambientes, permitindo sua comparabilidade, a reprodutibilidade da pesquisa, sua
inteligibilidade e clareza explicativa na exposição dos resultados.
Foram sistematizadas e classificadas dez áreas específicas, também chamadas
de unidades espaciais ou unidades setoriais, onde ao preso é facultado, ou não,
conviver com o outro, na perspectiva de um processo social de construção de
alteridades. A seguir os espaços de convívio: (1) celular (cela); (2) de convívio
interno (pátios, salas); (3) de convívio externo (sala íntima, parlatório, sala
de visita); (4) laboral (oficinas, biblioteca, salas de aula); (5) de alimentação
(restaurante, cantina, cozinha); (6) de assistência (consultórios, enfermarias);
(7) de higiene (banheiros coletivos, barbearia); (8) privativo dos servidores
e trabalhadores (gabinetes, salas, almoxarifado, repouso, vestiário); (9) de
circulação interna (corredores, galerias); (10) externo (circulação, recepção,
estacionamentos, guaritas, acessos em geral).
O instrumento de observação foi construído visando a maximizar a
objetividade na coleta e na análise dos resultados, com o menor grau de
envolvimento subjetivo possível por parte dos pesquisadores. Eventualmente, em
alguns ambientes, houve necessidade de se abordar os detentos, os servidores e
outros trabalhadores para melhor compreensão da situação. Em todos os casos,
garantiu-se o anonimato do interlocutor.
Cada espaço de convívio foi observado por características (aspectos
observáveis) presentes em cada um dos quatro elementos: (1) estrutura e
infraestrutura, (2) equipamentos, (3) mobiliário e (4) componente humano.
Considerando que cada item engloba diversas características, foram estabelecidos
critérios para a classificação do componente segundo sua adequação ou
inadequação.
A adequação foi considerada automática quando a característica observada
do item estava em acordo com a legislação vigente, nos casos em que esta existia.

43
Se não houvesse legislação para alguma característica do elemento em questão,
esta era considerada adequada quando todos os critérios estabelecidos para a
avaliação eram atendidos. No caso de inadequação, esta era classificada como
“pouca” ou “muita”. Tendo-se em vista que determinado item engloba diversas
características observáveis, foram estabelecidos critérios para a classificação da
adequação e da inadequação de cada uma delas do ponto de vista qualitativo e
quantitativo. Sempre que o número de critérios inadequados ultrapassou 50% do
total, o item analisado foi considerado pouco inadequado ou muito inadequado.
Visando a evitar dúvidas na classificação, os parâmetros estabelecidos para cada
item totalizaram obrigatoriamente um número ímpar.
Além da avaliação que teve como base critérios previamente estabelecidos,
sempre que necessário, foram registradas observações sobre aspectos variados
que pudessem auxiliar na análise final. No item estrutura foram considerados
elementos físicos (dimensão/lotação, paredes, piso, teto, grades, circulação,
deposição de lixo e resíduos etc.), e no infraestrutura foram levados em conta
os elementos necessários para o funcionamento da unidade (fornecimento de
energia, caldeiras, compressores, tratamento de resíduos, lavanderias, centrais
de água, esgoto, iluminação, ventilação, temperatura e umidade e outros). No
tópico equipamentos, incluíram-se, entre outros, circuito de TV/vídeo, materiais
de ginástica, de limpeza, utensílios, ferramentas, telefones, material médico etc.
No quesito mobiliário, foram avaliados elementos como camas, mesas, cadeiras,
estantes, armários, entre outros. A categoria componente humano englobou
observação sobre higiene pessoal, utensílios pessoais, uniforme e vestes em geral,
inclusive roupas de cama, travesseiros, toalhas etc.
Vários documentos legais apoiaram tanto o desenho dos instrumentos como
o conteúdo das inspeções. Dentre eles destacam-se: Diretrizes Básicas para
Arquitetura Prisional do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
(2011); Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário, elaborado pela
Secretaria de Atenção à Saúde do Departamento de Ações Programáticas
Estratégicas (2005); Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania
(2007); Plano Diretor do Sistema Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro,
elaborado pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (sem data)
e determinado pela portaria n. 3.214/78 – NR9 do Ministério do Trabalho, que
instituiu o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais.
Para cada visita de inspeção foi produzido um relatório assinado pelos
consultores e pela coordenadora da pesquisa, sendo imediatamente repassado

44
aos promotores do Centro de Apoio (CAO8) do Ministério Público, para
que pudessem fundamentar suas ações quanto aos termos de ajustamento de
conduta (TAC). Esses documentos assinalaram os problemas mais sérios e
emergenciais que merecem intervenção institucional inequívoca e têm um caráter
eminentemente operacional.

Inquérito sobre saúde e


qualidade de vida dos presos
Inquérito de saúde é definido como um tipo de estudo transversal, descritivo
ou analítico sobre aspectos relacionados às condições de saúde, demanda e
utilização de serviços de uma amostra representativa de determinada população
(Campos, 1993).
Neste estudo, com o inquérito objetivou-se construir um banco de dados
com informações que permitissem descrever as condições de saúde, hábitos de
vida e uso de serviços de saúde e qualidade de vida dos presos do estado do Rio de
Janeiro. A elaboração desse tipo de estudo exigiu um esforço dos pesquisadores
para triangular as opiniões, crenças, valores, queixas e sugestões dos presos a
respeito do tema em pauta.
Segundo dados inicialmente repassados à equipe da pesquisa pelo Ministério
Público, a população em estudo era constituída por cerca de 25.570 detentos
distribuídos em 33 unidades do sistema penitenciário do Rio de Janeiro, abarcando
a totalidade da população carcerária de todas as penitenciárias, presídios, cadeias
públicas e casas de custódia do estado. Foram excluídos do universo da pesquisa:
hospitais, institutos penais, patronatos, casas de albergado, colônias agrícolas e
unidades militares.
Em razão do tamanho populacional, custo, tempo e equipe disponíveis
para a realização da pesquisa, optou-se pela utilização de procedimento de
amostragem estratificada proporcional ao tamanho (PPT). Foram considerados
três fatores para estratificação da população, a saber: localização da unidade
prisional (Capital, Baixada e Interior), regime de detenção (regime fechado,
regime provisório) e sexo (masculino e feminino). Para o sorteio da amostra,
todos os critérios de estratificação foram empregados e a partir deles, definiram-
se nove domínios amostrais.

45
No dimensionamento amostral para obtenção de estimativas de proporção,
empregou-se um erro absoluto de 7%, nível de confiança de 95% e prevalência
de cada um dos eventos de interesse de 50%. Tal valor foi empregado em
virtude da ausência de referências sobre essa proporção na literatura. Trata-
se de uma escolha mais rígida e que leva a uma maximização do tamanho
amostral necessário. Dentro de cada unidade, os detentos foram selecionados
por amostragem aleatória simples. Para seleção dos indivíduos que iriam compor
a amostra, utilizaram-se como base as listagens fornecidas pela Secretaria de
Estado de Administração Penitenciária, as quais indicavam a existência de 24.232
detentos no estado do Rio de Janeiro.
A amostra inicialmente calculada era composta por 1.607 indivíduos,
dos quais 801 deles da Capital, 530 no Interior e 276 na Baixada Fluminense,
que se dividiam em 1.148 homens e 459 mulheres (Amostra 1). Contudo,
quando da realização do trabalho de campo não foi possível, por questões de
logística, verificar o regime ao qual o preso estava submetido (preso provisório
ou sentenciado). Assim, foi preciso recalcular o tamanho amostral para cada
unidade prisional, desconsiderando-se o regime do preso (Amostra 2). Dessa
forma, a amostra final era composta de 637 homens e 297 mulheres, perfazendo
934 indivíduos. A amostra planejada não foi atingida apenas em uma unidade
prisional, a Cadeia Pública Paulo Roberto Rocha, em virtude da recusa dos
presos em participar da pesquisa (Quadro 3). Na realização das análises foram
incorporados o peso e o plano amostral.

46
Quadro 3 – Plano amostral para realização da pesquisa
Amostra
Unidade Local N Amostra 1 Amostra 2
obtida
Homens

Penitenciária Alfredo Tranjan Capital 1.603 43 22 45

Penitenciária Dr. Serrano Neves Capital 671 21 9 24

Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira Capital 1.062 25 15 26

Penitenciária Lemos de Brito Capital 687 19 10 19

Penitenciária Muniz Sodré Capital 2.134 53 29 51

Penitenciária Vieira Ferreira Neto Capital 218 6 3 6

Cadeia Pública Bandeira Stampa Capital 514 15 7 15

Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho Capital 968 25 13 25

Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho Capital 1.643 45 22 47

Penitenciária Laércio da Costa Pelegrino Capital 35 10 1 11

Cadeia Pública Paulo Roberto Rocha Capital 1.087 37 15 8

Cadeia Pública Pedrolino Werling de Oliveira Capital 123 5 2 5

Cadeia Pública Jorge Santana Capital 722 28 10 27

Cadeia Pública Pedro Melo da Silva Capital 902 29 13 26

Cadeia Pública José Frederico Marques Capital 763 26 11 26

Presídio Ary Franco Capital 1.592 49 22 54

Presídio Evaristo de Moraes Capital 1.233 41 17 42

Presídio Diomedes Vinhosa Muniz Interior 499 37 21 37

Presídio Carlos Tinoco da Fonseca Interior 883 76 37 72

Cadeia Pública Dalton Crespo de Castro Interior 802 47 33 47

Presídio Elizabeth Sá Rego Interior 978 96 41 95

Cadeia Pública Romeiro Neto Interior 920 66 38 66

Cadeia Pública Hélio Gomes Interior 688 49 29 51

Cadeia Pública Franz de Castro Holzwarth Interior 295 24 13 24

Penitenciária Milton Dias Moreira Baixada 1.040 81 66 80

Presídio João Carlos da Silva Baixada 1.286 112 82 113

Cadeia Pública Cotrin Neto Baixada 884 83 56 71

Total 24.232 1.148 637 1.113

Mulheres

Penitenciária Talavera Bruce Capital 392 121 64 121

Unidade Materno-Infantil Capital 18 11 3 12

Presídio Nelson Hungria Capital 420 111 69 136

Penitenciária Joaquim Ferreira de Souza Capital 303 81 50 80

Presídio Nilsa da Silva Santos Interior 205 135 111 115

Total 1.338 459 297 464

47
O instrumento de coleta de dados utilizado no inquérito foi um questionário
aplicado aos presos por um pesquisador devidamente preparado. Esse questionário,
cujo informante não era identificado, foi construído com base em inquéritos
nacionais realizados que usam dispositivos validados, como a Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (Pnad) (Barros et al., 2006); o Inquérito do Instituto
Nacional do Câncer (Inca) (Inca, 2004); o Inquérito de Saúde do Município de
São Paulo (São Paulo, 2010); o Programa Pró-Saúde da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (Pro-Saúde/Uerj) (Faerstein et al., 2005); e pesquisas anteriores
desenvolvidas pelo Claves (Minayo & Souza, 2003; Minayo, Souza & Constantino,
2008); bem como o Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário (Brasil,
2003). O questionário foi organizado em blocos de questões majoritariamente
fechadas, assim constituídos:
Bloco I – Dados socioeconômicos e demográficos – idade, sexo, etnia/
cor, estado conjugal, religião, naturalidade, tempo de permanência em regime
fechado, escolaridade, profissão/ocupação, renda.
Bloco II – Condições e qualidade de vida dentro da instituição – questões
que avaliavam qualidade de vida por meio de parâmetros objetivos (indicadores
de infraestrutura física e de direitos) e subjetivos (o que os sujeitos percebem,
sentem e valorizam em relação a vários aspectos de sua vida). O bloco inclui
também alguns itens da escala World Health Organization Instrument to Evaluate
Quality of Life/WHOQOL-Bref, elaborada pela Organização Mundial da Saúde
e validada no Brasil (Fleck et al., 2000), que abrange quatro domínios: físico
(dor e desconforto; energia e fadiga; sono e repouso; atividades da vida cotidiana;
dependência de medicação ou de tratamentos e capacidade de trabalho);
psicológico (sentimentos positivos; pensar, aprender, memória e concentração;
autoestima; imagem corporal e aparência; sentimentos negativos; espiritualidade,
religiosidade e crenças pessoais); relações sociais (interações pessoais; suporte/
apoio social; atividade sexual); e meio ambiente (segurança física e proteção;
recursos financeiros; cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade;
oportunidade de adquirir novas informações e habilidades; oportunidades de
recreação/lazer e ambiente físico: poluição, ruído, trânsito, clima; e transporte).
Bloco III – Condições de saúde – avalia deficiência física; doenças
crônicas (hipertensão e diabetes); doenças infectocontagiosas como DST/Aids,
tuberculose, pneumonia, dermatoses, hepatites, diarreias; traumas; transtorno
mental comum; autoavaliação de saúde (antes e após a institucionalização). Para
identificar as prevalências de transtorno mental comum e de estresse, foram

48
usadas: a escala Self-Reported Questionnaire – SRQ20, desenvolvida por Harding
e colaboradores (1980) e validada no Brasil por Mari e Williams (1986), e o
Inventário de Sintomas de Estresse para Adultos/ISSL, padronizado e validado
para o Brasil por Lipp (2000). Além das escalas usadas foram estudados hábitos
alimentares, atividades físicas, tabagismo, consumo e dependência de álcool e
outras drogas, uso de preservativos e de contraceptivos; ocorrência de acidentes
ou violências nos últimos doze meses; e informações sobre o tipo de acidente ou
violência, da lesão provocada, o local do evento e as limitações causadas.
Bloco IV – Usos de serviços de saúde – Acesso; ações de promoção; prevenção
de doenças crônicas, como câncer de mama, útero e próstata; hanseníase,
tuberculose, imunizações (hepatite B, rubéola, gripe, pneumonia, tétano); saúde
bucal; saúde mental; assistência pré-natal; distribuição de preservativos; ações
de redução de danos associados ao uso de drogas; hospitalizações e consumo de
medicamentos.
O preenchimento do questionário aconteceu durante as várias visitas da
equipe de pesquisa às instituições selecionadas de acordo com o plano amostral.
Com o apoio do Nasp, as atividades de campo ocorreram com relativa
tranquilidade, fora intercorrências esperadas tanto por causa do ambiente em que
o estudo foi realizado quanto pela complexidade de movimentos institucionais
que requerem licenças e permissões para qualquer atividade fora da rotina
prisional.
O trabalho de campo para aplicação do instrumento quantitativo aconteceu
entre os meses de maio e dezembro de 2013. Algumas etapas antecederam esse
processo em cada unidade: (1) recebimento da lista nominal de todos os presos
enviada pelo Ministério Público; (2) sorteio dos detentos que deveriam fazer parte
da pesquisa dentro dos critérios citados, com base em uma lista dos possíveis
participantes e uma lista nominal complementar para providenciar substitutos,
caso fosse necessário; (3) envio de ofício ao diretor de cada unidade prisional
com agendamento da pesquisa e nomes dos pesquisadores responsáveis.
Todo o trabalho realizado nas unidades foi acompanhado por uma
dupla de inspetores que trabalha no Ministério Público, o que contribuiu de
maneira significativa para o acesso às dependências das unidades prisionais
e para o entendimento da dinâmica institucional. Em cada unidade, a equipe
de pesquisadores apresentava a pesquisa ao diretor e este o direcionava a um
espaço para aplicação coletiva dos questionários. E, como os diretores haviam

49
recebido previamente um ofício do Ministério Público intitulado “Fiscalização
do Ministério Público e pesquisadores da Fiocruz”, em nenhuma unidade houve
recusa da pesquisa. Os termos do ofício (bastante incisivos e determinativos)
foram inicialmente questionados pelos pesquisadores, mas se constatou que essa
forma de entrada nas prisões foi a que viabilizou o trabalho. Quando o grupo de
pesquisadores chegava à penitenciária, havia uma conversa inicial com a direção
do presídio, deixando claro que se tratava de um estudo e não de uma fiscalização.
Em quase todas as penitenciárias, a aplicação do instrumento aconteceu
no espaço escolar. Nas que esse local não existia, foi utilizado o refeitório. Em
uma delas a aplicação aconteceu na igreja. A circulação dos pesquisadores,
nessa etapa do estudo, era limitada ao trajeto até onde se daria a aplicação do
instrumento. Em algumas prisões o local determinado pela direção era bastante
propício; em outras, os espaços oferecidos eram desconfortáveis e muito quentes.
No desenvolvimento das atividades, a lista nominal dos presos que deveriam
compor a amostra era entregue ao chefe de segurança que, num primeiro momento,
localizava em que galeria, cela ou pavilhão cada uma das pessoas selecionadas
estava. Essa etapa consumia bastante tempo. Muitas vezes, a listagem recebida do
Ministério Público já estava desatualizada quando da aplicação do questionário,
o que exigia a substituição de nomes. Essa situação foi mais comum nas casas
de custódia onde a rotatividade é maior. Depois de localizados, os presos eram
trazidos para o espaço destinado à aplicação do questionário. A equipe então
destinava bastante tempo para explicação do estudo, uma vez que os detentos
não tinham sido informados anteriormente, sobre o porquê de serem chamados.
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido era lido cuidadosamente em voz
alta e todas as dúvidas, expressas pelos respondentes, eram sanadas. Também
se explicava aos presos que aqueles que tivessem interesse em participar, mas
apresentassem alguma dificuldade para ler e escrever, poderiam contar com
o apoio de um dos pesquisadores. Em muitos casos essa ajuda foi solicitada e
fornecida.
Após a explicação de todo o conteúdo, o questionário era distribuído com
uma caneta. Os pesquisadores ficavam atentos a qualquer dúvida ou dificuldade
de entendimento dos termos utilizados nas perguntas. Os presos levavam
aproximadamente uma hora para o preenchimento do questionário. Chamou
atenção dos pesquisadores a seriedade com que os detentos responderam. Foram
poucos os casos em que a pesquisa foi considerada de pouca importância ou que
tenha havido algum conflito na aplicação. Apenas em uma unidade, identificada

50
por custodiar membros do Comando Vermelho, a aplicação só pôde acontecer após
a autorização da liderança da facção, o que não deixa de ser um dado importante
para análise, na medida em que evidencia o poder dos grupos criminosos dentro
da prisão e sobre os detentos. Em outra situação, em uma das chamadas dos
presos para participar da pesquisa, houve certa confusão porque lhes foi dito que
haveria uma reunião com a Defensoria Pública e quando souberam o motivo da
convocação eles se exaltaram, sendo necessária uma intervenção mais enfática
da escolta do Ministério Público e uma boa argumentação dos pesquisadores.
Relativamente, o estudo ocorreu com tranquilidade.
O processamento das informações envolveu as etapas de digitação e crítica.
Máscaras para a entrada de dados foram elaboradas no programa Epidata 3.1,
sendo visualmente semelhantes aos questionários e restringindo a entrada das
informações aos valores definidos como válidos em cada questão. Trabalharam
na etapa de processamento dois digitadores e houve dupla digitação dos
questionários.
A fase de crítica consistiu em duas etapas: (1) seleção de uma amostra
aleatória simples de 10% do número total dos questionários aplicados, buscando-
se encontrar erros de digitação; (2) crítica da consistência de dados, por meio de
programação no software SPSS 20.0, com cruzamento de questões, a fim de se
encontrarem inconsistências entre as respostas.
Após a fase de crítica e correção de erros, os dados foram transferidos
para o software SPSS 20.0 e se deu início à fase de análise. Essa etapa consistiu
inicialmente na construção da variável peso amostral e realização da expansão
dos dados por meio da função weight. Assim, todas as análises apresentadas no
presente relatório utilizaram os dados expandidos, permitindo inferências para o
conjunto da população prisional estudada.
As análises compreenderam a construção da distribuição de frequências
absolutas e relativas para todas as variáveis, o cálculo de medidas de resumo
para as variáveis quantitativas (média, mediana, desvio padrão e outras
separatrizes), a construção de tabelas de contingência (análises bivariadas) e a
aplicação dos testes qui-quadrado e exato de Fisher (para verificar a associação
entre variáveis qualitativas), do teste de Kolmogorov-Smirnov (para verificação
da normalidade das variáveis quantitativas), dos testes de Kruskal-Wallis e de
Mann-Whitney (para comparação das medianas) e do teste de McNemar (para
comparar proporções de duas amostras relacionadas). Na realização desses testes
empregou-se um p-valor ≤ 0,05 para atribuir significância estatística.

51
Estudo qualitativo sobre os detentos
Além da análise ambiental e do inquérito de saúde, foram realizadas
entrevistas semiestruturadas com uma amostra da população carcerária
considerando-se as diferenciações de sexo, de localização da unidade prisional
(Capital, Interior e Baixada Fluminense) e natureza da instituição. Foram ouvidos
25 presos, distribuídos da seguinte forma (Quadro 4):

Quadro 4 – Número de entrevistas realizadas distribuídas por sexo e território


Área Masculino Feminino Total
Capital 7 6 13
Interior 3 4 7
Baixada 5 Não tem unidade feminina 5
Total 15 10 25

Os presos e presas foram convidados a participar das entrevistas no


momento em que respondiam aos questionários. Nessa ocasião, algumas pessoas
se dispuseram a aprofundar as perguntas feitas no questionário. As entrevistas
foram realizadas no mesmo dia do estudo quantitativo ou efetuadas em momentos
específicos. Houve unidades em que a direção elegeu aqueles presos que iriam
conceder a entrevista; nesses casos, o escolhido geralmente foi um “faxina”. Era
uma investigação de muito difícil gestão, e, algumas vezes, a equipe precisou
ceder a essas interferências.
Thompson (2000) define essa categoria empírica do “faxina” como o preso
que realiza qualquer ocupação laboral dentro do sistema. Assim, há os presos
“faxinas” da enfermaria, “faxinas” da lavanderia, “faxinas” do gabinete do
diretor e assim por diante. Eles compõem uma espécie de hierarquia: diferem dos
guardas e dos outros colegas de cárcere por terem uma ocupação de confiança das
autoridades, que lhes dão liberdade de movimento no interior de uma vida tão
vigiada. Portanto, a indicação dessa categoria de presos, vinda de uma autoridade
do sistema, tem um viés particular, uma vez que a fala desses detentos se diferencia
da dos demais, da mesma forma que sua inserção na unidade prisional, graças a
sua vivência prisional particular. Tais situações foram consideradas criticamente
na análise. As interlocuções tiveram a duração de aproximadamente quarenta
minutos e foram realizadas em espaços onde o sigilo fosse garantido.
Os roteiros de entrevista tinham como foco a percepção do recluso sobre as
condições ambientais, a qualidade de vida e a influência da institucionalização
em sua saúde física e mental. A análise das entrevistas cumpriu as seguintes

52
etapas: transcrição e digitação das gravações das conversas; atribuição de códigos
aos entrevistados e às pessoas por eles mencionadas; leitura compreensiva dos
textos transcritos; construção de estruturas de análise, agrupando trechos de
depoimentos mais ilustrativos nos eixos temáticos; identificação das ideias centrais
presentes em cada um dos eixos; aprofundamento dos sentidos atribuídos às
ideias; elaboração de sínteses compreensivas, interpretativas e contextualizadas
dos problemas assinalados; e comparação entre as falas, considerando as
diferenças de gênero e de locais que abrigam os presos.
Ao fim do questionário se abriu uma possibilidade para os presos se
expressarem livremente sobre suas crenças, valores, opiniões sobre o sistema
prisional e sobre suas expectativas. No conjunto, 518 homens e 325 mulheres
se manifestaram. Esse material de grande riqueza de conteúdo foi classificado
e integrado à análise, ora confirmando o que haviam expressado nos outros
instrumentos, ora trazendo novas informações para estudo.

Considerações sobre a ética


na realização da pesquisa
O projeto em questão foi submetido à aprovação do Comitê de Ética em
Pesquisa da Fiocruz. A direção das unidades prisionais, os agentes penitenciários
e cada um dos detentos participantes do estudo assinaram um Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, conforme preconizado pela Resolução do
Conselho Nacional de Saúde/CNS n. 466/2012, que normaliza as pesquisas com
seres humanos.

Perfil da População Carcerária


Dados populacionais
Trabalhou-se com uma amostra do total da população carcerária do estado
(1.110 homens e 463 mulheres) que representa o universo de 22.851 homens
e 1.380 mulheres, reclusos no sistema segundo dados de outubro de 2013,
informados pelo Ministério Público. Informações do último Relatório Anual da
Secretaria Nacional de Segurança Pública mostram que o total de presos do estado
em 2014 era de 32.944, dos quais 31.204 homens e 1.740 mulheres (Depen,
2015). Como informado, aqui se trabalhou apenas com o grupo de presos.

53
Entre os homens, 64% dos detentos encontram-se na Capital, 13,8%, na
Baixada Fluminense (Magé, Japeri e Niterói) e 22,2%, em cidades do Interior
do estado (Volta Redonda, Campos dos Goytacazes e Itaperuna). Das mulheres,
85,1% estão reclusas na Capital e 14,9%, no Interior. No Gráfico 1, constata-se
que a maior parte dos presos têm até 39 anos de idade; um percentual pequeno
(2,5%) tem 60 ou mais.

Gráfico 1 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e faixa etária

Idade
Vê-se na Tabela 2 que a idade média dos homens é 30,7 anos, sendo um
pouco mais alta na Capital (32 anos) que nas cidades do Interior e da Baixada
(29 anos). Essa mesma distribuição ocorre entre as mulheres que apresentam
média de idade de 32,2 anos, sendo na Capital de 33 anos e no Interior de 30. Os
homens presos são, em média, mais novos que as mulheres (p<0,001). Apesar
das pequenas diferenças entre os sexos, a população carcerária do Rio de Janeiro
é jovem: 82,3% dos homens têm entre 20 a 39 anos e 78,5% das mulheres estão
dentro dessa mesma faixa etária. O grupo de maior expressão para ambos os
sexos é o de 20 a 29 anos. Os homens presos na Capital são, em média, mais
velhos que os da Baixada e do Interior; assim como as detentas da Capital são em
média mais velhas que as do Interior (p<0,001).

54
Esses dados coincidem com o que se constata no Brasil, em que o percentual
de presos de 19 a 35 anos é de 74%. Também na maioria dos países do mundo,
os reclusos são homens e jovens. Ou seja, os detentos são homens e mulheres em
idade produtiva que desperdiçam seu tempo na ociosidade ou em atividades sem
nenhuma importância para sua vida futura. Há alguns estudiosos que mencionam
o fato de que se não estivessem encarcerados, muitos jovens, sobretudo os que
se envolvem no tráfico ilegal de armas e drogas, já estariam mortos; o que é
verdade, tendo em vista os constantes confrontos entre eles próprios e entre eles
e polícia. Portanto, a prisão cumpriria, nesses casos, um papel protetivo.

Tabela 2 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área, faixa etária e média de idade

Homens Mulheres
Idade (anos)
% Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=20772) (N=13209) (N=2952) (N=4610) (N=1310) (N=1111) (N=197)

Até 19 7,1 6,4 12,1 5,8 4,3 3,0 11,8

20-29 47,9 44,8 50,1 55,4 42,6 42,3 44,6

30-39 27,3 28,1 23,8 27,2 31,6 32,4 27,3

40-49 11,7 13,6 9,1 8,0 15,0 15,3 13,6

50-59 4,4 4,6 4,2 3,6 5,6 6,1 2,7

60-69 0,9 1,4 0,0 0,0 0,8 0,9 0,0

70 e + 0,8 1,1 0,7 0,0 0 0,0 0,0

Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0


Média (DP) 30,7 (10,4) 32,0 (11,0) 29,0 (10,0) 29,0 (8,0) 32,2 (9,8) 33,0 (10,0) 30,0 (9,0)

Cor da pele
Com as cores preta ou parda se identificaram 67% dos homens e 70,5% das
mulheres, com predomínio de pessoas pardas entre as mulheres (p<0,001). Há
menos pessoas brancas e mais pardas entre os presos da Baixada, conforme se
constata na Tabela 3 e Gráfico 2.

55
Gráfico 2 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e cor da pele

Os percentuais da população parda na prisão (44,3%) são um pouco mais


elevados que na população em geral do estado (39,3%), segundo o censo de
2010. Porém, a proporção dos presos que tem a cor da pele preta (22,7%) é
quase duas vezes maior do que a da população preta do estado do Rio de Janeiro
(12,4%).

Tabela 3 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e cor da pele
Homens Mulheres

Cor da pele % Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


(N=22.085) (N=14.198) (N=3.053) (N=4.834) (N=1.357) (N=1.161) (N=196)

Branca 27,4 28,4 17,5 30,6 26,0 27,0 20,2


Preta 22,7 22,9 21,8 22,7 17,6 16,7 22,9
Parda 44,3 42,7 56,3 41,3 52,9 52,7 54,1

Amarela/ Indígena 5,6 5,9 4,4 5,4 3,5 3,6 2,8

Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Diante dos dados citados, é possível afirmar que os presos do estado do Rio
de Janeiro são, em sua maioria, adultos jovens cuja cor da pele é preta ou parda
e que, principalmente fora da Capital, esse último grupo é ainda mais expressivo.

56
Tal achado é corroborado pelos dados do Depen (2015) e por Walmsley (2008)
que apontam o caráter excludente e racista do sistema penitenciário brasileiro,
pois a maioria da população que o conforma é parda e negra.

Escolaridade
Chama a atenção nas respostas ao questionário o percentual de homens
(7,5%) e de mulheres (8,2%) analfabetos, assim como a baixa escolaridade:
mais da metade das pessoas não tem ensino fundamental completo, conforme se
constata no Gráfico 3.

Gráfico 3 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e escolaridade

Há mais mulheres presas analfabetas que homens. Entretanto, o número das


que têm ensino médio completo é superior ao dos detentos do sexo masculino
(p < 0,01). Homens do Interior têm menor escolaridade. Entre eles, é elevada a
proporção de analfabetos e de pessoas com ensino fundamental apenas até a 4ª
série (p < 0,01) como se constata na Tabela 4.
Dados do censo 2010 (IBGE) mostram que a população carcerária do
país apresenta menor grau de instrução (soma de sem instrução e fundamental
incompleto é de 58,3% para os detentos e 58,6% para as presas) que a população
total do país, em que o percentual é de 50,2%.

57
Tabela 4 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e escolaridade
Homens Mulheres
Escolaridade Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N=21.835 N=14.000 N=3.083 N=4.751 N=1.324 N=1.127 N=199
Analfabeto 7,5 7,2 7,8 8,3 8,2 8,4 7,3

Ensino fundamental
25,0 23,7 24,5 29,1 24,9 25,0 24,5
incompleto (até a 4ª série)

Ensino fundamental
25,8 26,0 27,5 23,8 25,6 25,6 24,5
incompleto (até a 7ª série)

Ensino fundamental
14,5 14,6 15,7 13,7 11,8 11,9 10,9
completo

Ensino médio incompleto 12,2 13,5 12,1 8,4 15,4 15,1 17,4

Ensino médio completo 10,1 10,0 10,2 10,5 11,0 10,6 13,6

Superior incompleto 3,4 3,3 2,2 4,7 1,6 1,9 0,0

Superior completo 1,4 1,7 0,0 1,5 1,5 1,5 1,8


Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Tais dados corroboram as informações levantadas na etapa qualitativa


do estudo, pois a grande maioria dos entrevistados afirmou ter poucos anos de
estudo. Grande parte disse que sequer terminou o ensino fundamental. Mesmo
aqueles que concluíram os estudos fundamentais e médio ou aprenderam carreiras
técnicas, em grande maioria, não exerceram sua profissão ou as abandonaram no
meio do caminho, como se poderá constatar na próxima seção, em que se associa
a escolaridade com a inserção profissional.

Inclusão no mundo do trabalho


O efeito dos poucos anos de estudo se reflete no exercício de profissões e
carreiras menos estáveis e pouco protegidas, ou no envolvimento de atividades
ilegais. Muitos homens relataram nunca ter trabalhado de carteira assinada, por
exemplo. No entanto, há várias histórias de pessoas que estavam inseridas no
mundo do trabalho formal antes da prisão, como é o caso deste homem, preso
na Capital: “Estudei pouco, mas sempre li muito. Sempre trabalhei, nunca fui
de ficar parado, nunca fiquei à toa. Trabalhei em algumas empresas e depois eu
tenho um táxi.” Nos depoimentos a seguir, é possível observar uma rotatividade
entre atividades formais e informais:

58
Estudei o primeiro grau completo, quando ia terminar o 2º grau, parei. Gostava
de estudar, mas depois parei porque fui pai aos 21 anos. Fui pai e comecei a
trabalhar. Eu assinei minha carteira com 16 anos. Trabalhei numa fábrica de
biscoito, depois como office boy, entregando folha de Diário Oficial. Quando a
minha primeira esposa engravidou cheguei a trabalhar em obra. Trabalhei em
posto de gasolina, depois de autônomo, eu ia a São Paulo, buscava roupa e trazia
e revendia. (Homem, Capital)
Fiz curso técnico na Escola Técnica Federal, de mecânico. Minha família tem
oficina. Trabalhei com meu pai. Também trabalhei embarcado um pouco.
Todo mundo saía formado e ia para a Petrobras ou para as empreiteiras. Mas
eu estou no tráfico, trafico de drogas. Eu já tenho essa vida faz um tempo. A
minha primeira prisão ocorreu em 1998. Desse tempo para cá atribuíram a minha
família fama muito grande. Muitas coisas que aconteceram atribuíram a mim.
(Homem, Interior)
Estudei até a sétima série. Já trabalhei também. Meu primeiro emprego foi com 16
anos de idade, mas eu não fiquei muito tempo. Só cumpri o período de experiência
e fui preso. Após isso, meu segundo emprego foi com 20 anos, na concessionária
de carros Gatão Veículos. Aí lá eu fiquei como emplacador e depois dali eu tive
que certificar, entrar em concordância com o certificado militar, porque eu não
fui me alistar na época. Trabalhei na C&A Modas, na Tijuca. E aí fui indo, fui
trabalhando, pegando mais bicos do que um emprego fixo de carteira assinada.
Trabalhei de estoquista, trabalhei de camelô, trabalhei como marceneiro. Mas
devido à dificuldade financeira eu me lancei no crime. E isso automaticamente foi
me levando cada vez mais, tipo bola de neve. (Homem, Capital)
Estudei até os 22. Quando eu terminei os estudos, pensei em fazer faculdade.
Cheguei a fazer o primeiro ano de direito. Aí parei. E comecei a fazer radiologia.
Fiz o curso, terminei e tenho diploma de radiologista, mas já com o tempo, eu estou
seis anos preso, já perdeu a validade. Mas pretendo se eu tiver uma oportunidade,
atualizar o meu curso. Eu trabalhava de motorista. Comecei com 18 anos. Eu
servi o quartel, quando eu saí, eu trabalhei dos 16 aos 18. Ajudava o meu pai
em pintura. E mexia muito com turismo devido ao carro dele, eu levava turista
para passear, para conhecer o Rio, para o aeroporto. Eu tive muita facilidade de
emprego. (Homem, Capital)
Já cheguei a trabalhar. Uma vez eu trabalhei no McDonald’s em São Paulo, na
Paulista. Fui para lá sozinho também, que eu queria parar, eu consegui serviço,
mas aí depois eu voltei de novo para o crime. Cheguei a trabalhar uma vez.
(Homem, Baixada)

Já as mulheres antes de serem presas, mais que os homens, exerciam


atividades laborais de pequeno valor profissional ou informais, realizando
trabalhos associados ao mundo doméstico ou como auxiliares administrativas ou
de serviços gerais.

59
Eu era lavadeira. Porque minha mãe tinha uma lavanderia. Aí depois o meu
namorado queria tomar muito do meu tempo, de estar sempre comigo. Aí lavava
só as roupas da minha prima e pegava alguma coisa para fazer. E ele me dava
o restante mais a pensão das minhas filhas. E o Bolsa Família que eu tenho.
(Mulher, Interior)
Eu trabalhava de costureira. Trabalhei por sete anos numa confecção de carteira
assinada. Meu marido por necessidade, até então eu não sabia, se envolveu com
o tráfico. Só porque eu fui levar os documentos dele na delegacia, porque eu era
mulher dele, fiquei presa. (Mulher, Interior)
Eu tinha uma vida normal, eu trabalhava, fazia curso. Trabalhava no salão com
uma tia minha, o salão é dela. Trabalhava para ela como manicure. (Mulher,
Capital)
Nem terminei o segundo grau. Mas eu ensinava assim para as crianças, eu já devia
estar na oitava série, penso eu. Trabalhei no ramo de vendas até os meus 40 anos
de idade. (Mulher, Capital)

No caso dos homens, qualquer jovem que não tivesse o desejo de entrar em
atividades criminosas, teria aproveitado as oportunidades citadas pelos presos
em seus depoimentos, em prol de sua carreira profissional. Embora em nenhuma
das falas se mencione alguma inserção no mundo do trabalho considerada
qualificada, as histórias de cada um tomaram rumos que os indivíduos mesmos
lhes deram, eles foram seus responsáveis. Essa responsabilidade pessoal persiste,
ainda quando o leque do “possível social” (Sartre, 1961) não lhes tenha sido tão
amplo e variado. No caso das mulheres presas, também há um envolvimento
consentido com o crime, seja se envolvendo diretamente, por um desejo pessoal,
seja seguindo seus companheiros.
Por isso, não é verdade que existe um determinismo que leve os pobres,
negros, pardos e favelados às prisões. É claro que o ambiente social e comunitário
e os colegas (sobretudo na etapa da juventude) têm um papel fundamental.
Contudo, acreditar que eles não teriam outras opções seria primeiro negar o
papel dos sujeitos em sua própria vida, segundo, menosprezar os tantos outros
moradores das áreas mais pobres do estado que, nas mesmas condições sociais,
levam a vida dentro da legalidade, trabalhando e se adequando às regras da
cidadania.

60
2
A Vida Antes da Institucionalização

Neste capítulo apresenta-se um conjunto de dados quantitativos e qualitativos


que constitui a síntese da visão dos detentos sobre suas vidas antes de ingressarem
na prisão. Sobre esse momento de suas histórias existenciais, abordam-se os
seguintes temas: vida familiar, tráfico de drogas, trabalho e violências.

Vida Familiar
Tanto entre as mulheres quanto entre os homens presos, prevalece o
percentual de solteiros: 46,5% e 58,8%, respectivamente. Se esse dado é
comparado à média nacional, 55,3%, segundo dados do IBGE referentes
ao censo de 2010, observa-se que os homens têm mais apoio familiar que as
mulheres. Todavia, no perfil dos homens são mais frequentes “ter sido casado” e
“separado”; no das mulheres, “solteiras” e “viúvas” (p<0,01) (Gráfico 4).

Gráfico 4 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e situação conjugal atual

61
Há mais homens casados no Interior que nas demais áreas (p<0,01) e mais
mulheres viúvas e separadas na Capital (p<0,05). Enquanto dados do Depen
(2015) revelam que 24% dos homens presos no país cumprem pena por tráfico de
drogas, entre as mulheres esse percentual chega a 39%, observando-se acelerado
crescimento do número de detentas por essa causa nos últimos dez anos (Tabela 5).
Segundo Oliveira (2014), o envolvimento de mulheres no comércio das drogas
ocorre na maioria das vezes pela via dos filhos e parceiros. Há inúmeros casos
em que a polícia entra na casa atrás dos homens e encontra apenas a mulher e
a droga. Nessas situações, é comum que mães e esposas sejam presas, embora o
delito não tenha sido cometido por elas.
A exploração das mulheres pelo tráfico de drogas não é um fato
descontextualizado e não diz respeito apenas às experiências vinculadas à vida
familiar e amorosa. Reflete, sim, a cultura de opressão e dominação patriarcal
que se acirra com as exigências dos homens de que elas se envolvam. A teoria
feminista há alguns anos problematiza esses tipos de situação de subordinação.
Nesse sentido, algumas estudiosas cunharam o termo interseccionalidade, com
o objetivo de explicitar as maneiras de capturar as consequências da interação
entre duas ou mais formas de subordinação, como o sexismo, o racismo e o
patriarcalismo. Piscitelli (2008) desenvolve a seguinte reflexão:
O que possibilitaria superar a noção de superposição de opressões. Por exemplo,
a ideia de que uma mulher negra é duplamente oprimida, à opressão por ser
mulher deve ser adicionada a opressão por ser negra. Interseccionalidade trataria
da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo
de tais eixos, confluindo e, nessas confluências, constituiriam aspectos ativos do
desempoderamento. (Piscitelli, 2008: 264)

A imagem que Piscitellli oferece é a de diversas avenidas, e em cada uma


circula um desses eixos de opressão. Em certos lugares, as avenidas se cruzam, e
a mulher que se encontra no cruzamento tem que enfrentar simultaneamente os
fluxos que confluem, oprimindo-a. 
A maior presença de mulheres negras no sistema penitenciário, como
mostrado neste e em outros estudos, coloca novamente em debate a cultura
racista ainda presente no cenário brasileiro. Para Libence (2013), o racismo
mantém suas bases de dominação históricas uma vez que a proibição legal para
comercializar diretamente negros não significa que sua opressão tenha acabado.
Nessa lógica, a expressão que era usada pelos escravagistas “carne mais barata
do mercado” expõe concretamente o sentido do uso das mulheres negras, o grupo
mais explorado também no tráfico ilegal das drogas.

62
Tabela 5 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo, área e situação conjugal atual
Homens Mulheres
Situação conjugal (%) Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=21.684) (N=13.971) (N=2.987) (N=4.726) (N=1.332) (N=1.140) (N=193)
Solteiro(a) 46,5 47,2 48,7 42,8 58,8 58,4 61,7
Casado/companheiro(a) 44,5 44,2 39,1 48,9 30,7 30,2 33,6
Viúvo(a) 0,7 0,4 1,2 1,3 4,8 5,1 2,8
Separado(a) 7,9 8,2 11 7,0 5,7 6,3 1,9
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

A grande maioria dos detentos tem filhos: 72,9% dos homens e 82,8% das
mulheres, com média de 2,4 para eles e 2,7 para elas (p<0,01). Os detentos com
percentuais menores de filhos se encontram na Baixada e no Interior (p<0,01).
As presas da Capital têm, em média, mais filhos que as do Interior (p<0,05)
(Tabela 6).

Tabela 6 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área, existência e média de filhos
Homens Mulheres
Filhos Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=22.307) (N=14.256) (N=3.152) (N=4.899) (N=1.349) (N=1.152) N=198)
Sim (%) 72,9 74,6 69,6 70,0 82,8 82,5 84,5
Média (DP) 2,4 (1,8) 2,4 (1,7) 2,5 (2,0) 2,4 (2,0) 2,7 (1,9) 2,8 (2,0) 2,4 (1,6)

Relativo elevado número de filhos, tanto por parte dos homens como das
mulheres, numa população que majoritariamente é solteira, suscita a pergunta
sobre o tipo de suporte familiar que é oferecido às crianças na ausência dos
genitores. A importância da família no desenvolvimento saudável de seus
membros, ao exercer a função básica de apoio e proteção, é abordada por diversos
autores (Minayo, Assis & Njaine, 2011), enfatizando-se o debate sobre as formas
de relacionamento familiar e seus efeitos nos processos de socialização.
Patterson, Reid e Dishion (1992) sugerem que o maior interesse pelas
rotinas de vida dos filhos atua como uma estratégia importante de proteção e
diminuição dos riscos entre adolescentes. Esses autores também indicam que
fatores estressores no ambiente familiar, como desemprego ou divórcio, e
outras variáveis, como número de irmãos e monoparentalidade, drogadição
ou psicopatologias nos membros da família, parecem influenciar as estratégias
adotadas pelos pais e estão mais associadas a negligências e ao emprego de

63
punição física severa.  Ou seja, diante da situação adversa causada pela prisão
de um membro da família, é fundamental a atuação de uma rede de apoio social
sensível às necessidades das crianças e dos outros parentes, como pais e avós.
Ao longo da última década, o Brasil desenvolveu algumas políticas de
seguridade social como o Renda Mínima e o Programa Bolsa Família, que visam
ao enfrentamento do problema da fome; a ampliação da atenção básica de saúde,
com a criação da Estratégia Saúde da Família e a ampliação da rede de escolas
com vistas ao cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
No entanto, essas políticas ainda não foram capazes de suprir o conjunto de
necessidades das famílias dos presos, analisadas indiretamente nesta pesquisa.
Há um benefício concedido pela previdência social aos dependentes do
segurado, denominado auxílio-reclusão, destinado aos presos de baixa renda,
caso esses não recebam remuneração da empresa em que trabalham, nem auxílio-
doença ou aposentadoria. Esse benefício somente é concedido a segurados,
isto é, a pessoas que contribuíram para o INSS antes da prisão, o que abrange
atualmente menos de 10% da população carcerária brasileira (Longo, 2015).
Como já apresentado, o perfil dos presos do país é formado majoritariamente
por pessoas que viviam na economia informal e, principalmente, tinham o tráfico
de drogas como principal fonte de renda. Consequentemente, não têm direito
ao apoio formal da previdência. Mais de 90% dos detentos e suas famílias não
recebem qualquer auxílio governamental.
A regulamentação do mercado das drogas ilegais e a consequente legalização
de todo o processo de produção, comercialização e consumo das drogas constituem
uma das pautas prioritárias do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial e
compõem a agenda de parlamentares mais progressistas que veem na legalização
uma forma de enfrentar a exploração do trabalho escravo (Moreira, 2007) a que
são submetidos todos os envolvidos na cadeia produtiva das drogas. Além de
ampliar a possibilidade de arrecadação de impostos, inclusive os relacionados
aos direitos trabalhistas que poderiam vir de fato atender as necessidades das
famílias dos presos, a legalização do processo produtivo das drogas em sua
integralidade teria a função principal de interromper o ciclo de violência que
acompanha, sobretudo, o uso de armas de fogo e a corrupção de agentes da
segurança pública, gestores do Executivo, Legislativo e Judiciário.

64
Experiências exitosas nesse sentido têm sido desenvolvidas em diversos
países, como Uruguai, Espanha, Portugal e Holanda. O objetivo do auxílio-
reclusão é justamente ajudar os dependentes do detento (esposa, esposo e filhos)
a manter uma renda básica para se sustentarem. Essa ajuda, que não ultrapassa
um salário mínimo, não visa a apoiar o preso, uma vez que por mais dura que
seja sua vida recluso, ele está ao abrigo das necessidades fundamentais e vive
às expensas do Estado. Ao contrário, porém, seus dependentes se veem, de um
momento para o outro, sem o arrimo que os mantinha e, não raro, sem perspectiva
de subsistência. Além do fato de os filhos serem abalados emocionalmente pela
ausência de um dos genitores.
Na realidade a grande maioria das famílias dos presos permanece totalmente
desamparada e sem qualquer apoio financeiro por parte do governo, mesmo
no caso das mulheres que têm maior média de filhos. Como demonstrado na
Tabela 6, muitas mesmo já em liberdade são aliciadas novamente pelo tráfico
de drogas para participar em outros mercados ilegais, uma vez que precisam
sobreviver e não têm a quem recorrer. A situação do crescente encarceramento de
mulheres revela esse complexo modo de exploração. Suas famílias permanecem à
deriva e são alvo fácil de cooptação pelo tráfico.
Pesquisas abordando os efeitos do Programa Bolsa Família sobre a qualidade
de vida e saúde dos beneficiados ampliam o olhar sobre a necessidade de se
promover mais políticas de seguridade social (Laboissière, 2015). Foi observado
que esse programa contribuiu principalmente para a garantia do direito das
mulheres sobre o próprio corpo, como a escolha de quantos filhos desejam ter
e a possibilidade de serem acompanhadas pelos serviços da atenção básica de
saúde. Nesse sentido, a ampliação do auxílio-reclusão a todas as famílias dos
presos poderia ser apresentada como uma pauta de interesse social, visando,
sobretudo, a superar o ciclo de violência que tende a se perpetuar por sucessivas
gerações parentais.
Nos depoimentos dos detentos e das detentas, a família continua uma
referência primordial e um estímulo inquestionável. Quando pensam no futuro,
os presos falam desse núcleo primário como uma espécie de talismã que os ajuda
a aguentar as dificuldades do presente. As falas sobre esse ponto são indiscutíveis:
“eu só penso em voltar para casa e cuidar de meus filhos” (Mulher); “eu só quero
ser um homem melhor, reconstruir a vida com a família e ter oportunidade na
sociedade”; “só desejo ir embora e ser feliz com minha família” (Homem).

65
A família surge como o único ponto de estabilidade na vida dos presos e
parece constituir o principal norte das expectativas em relação ao futuro. Essa
constatação novamente reafirma a necessidade de se promoverem políticas
públicas capazes de apoiar os familiares dos reclusos mais pobres, garantindo-lhes
segurança alimentar e financeira, acesso à saúde e à educação para as crianças.
De modo geral, também nas respostas aos questionários, os reclusos
mostraram uma relação positiva com as famílias, o que vem expresso nos graus de
satisfação assinalados na Tabela 7, em que esse núcleo de relações primárias está
em primeiro lugar. A nota média para avaliá-lo foi 9, mas há respostas individuais
entre 0 a 10. A visão positiva também se manteve em relação à educação que
receberam. Os homens pontuaram 8,3 e as mulheres, 8,7. Os primeiros avaliaram
melhor o empenho dos pais na sua “realização profissional”, embora esse tenha
sido o quesito pior alcançado, tanto pelos homens (6,5) como pelas mulheres
(6,0). Elas (0<0,01) e os homens da Baixada (p<0,05) ponderaram melhor a
educação que receberam (0<0,01) do que os detentos da Capital e do Interior.
Observa-se também que as notas médias atribuídas pelos homens sobre
a influência das famílias em suas vidas são mais elevadas em todos os itens,
com exceção para a “educação que receberam”. Aí a média conferida pelas
mulheres foi discretamente maior, e atingiu o valor máximo dado pelas que estão
cumprindo pena no Interior (9,1). É possível relacionar essa melhor avaliação ao
papel libertador da educação, principalmente por parte das mulheres que estão
presas no Interior ao pouco acesso que têm à informação e à cultura.

 Tabela 7 – Notas médias atribuídas pelos presos do estado do Rio de Janeiro para
o grau de satisfação com alguns aspectos da vida, segundo sexo e área

Homens Mulheres
Grau de
satisfação Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP

Família 9,0 2,4 8,9 2,4 9,2 2,1 8,9 2,5 9,0 4,5 8,8 2,5 8,5 2,8

Educação que
8,3 2,8 8,2 2,9 8,7 2,4 8,4 2,7 8,7 2,5 8,6 2,6 9,1 1,9
recebeu

 É importante ressaltar que, apesar de ser a instituição social que mais prezam,
muitos relatos sobre as famílias estão repletos de contradições. Os depoimentos
evidenciam histórias de perdas, rupturas, mortes, abandono e violência. Como se
pode constatar na literatura, a fragilidade dos vínculos familiares, assim como o

66
histórico de maus-tratos no âmbito doméstico surgem como um prenúncio dos
percalços futuros na vida (Cavalcante & Schenker, 2013; Deslandes, Assis &
Silva, 2004).
Minayo, Assis e Njaine (2011) desenvolvem a temática sobre o papel do
ambiente familiar na socialização de jovens, ressaltando o fato de que os que
vivenciam ambiente familiar agressivo e abusivo apresentam maior probabilidade
de desenvolverem comportamentos violentos no futuro ou de serem vítimas de
violência. As autoras assinalam o papel cultural da socialização pela violência,
realçando que a proximidade com o fenômeno pode naturalizá-lo no conjunto
das práticas cotidianas.
Nos relatos a seguir, entre muitos casos recorrentes, é mencionada a falta de
apoio social das famílias, destacando-se os impactos sobre a vida afetiva, escolar
e a saúde das pessoas.
Eu fui criado por outra família devido à carência do meu pai e da minha mãe, pela
pouca idade, eles me tiveram quando eles tinham 17 para 18 anos. Sem condição
nenhuma, nem de trabalho nem de estudo. Uma família se ofereceu para me criar.
Essa família é católica, é de índole excelente, que infelizmente veio a falecer pela
idade, mas eu tive uma boa criação. (Homem, Capital)
Eu fui criada pelos meus avós e pelos meus tios. Na época, em 1967, não se sabia se
a hanseníase era ou não contagiosa. Eu era bebê, engatinhava. Então, na ocasião,
o médico pediu que, se tivesse criança nessa faixa etária de engatinhar, que fosse
afastada dessa minha tia, irmã do meu pai que faleceu. Acho que na época, como
meus avós eram do interior, eu fui para a companhia deles. Quando eu estava
maior um pouco, meus avós decidiram e fui de volta morar com meus pais. E aí
eu caí doente, o médico falou que era paixão, então eu vim para a companhia dos
meus avós. Meu avô morreu de câncer de pele, e minha avó morreu atropelada na
avenida Brasil. (Mulher, Capital)
Minha infância sempre foi turbulenta devido à separação do meu pai e da minha
mãe. Eu tinha 10 anos, quando minha mãe brigava comigo, pegava as minhas
coisas e jogava para fora e me mandava ir para a casa do meu pai. Aí eu ficava
um tempo na casa do meu pai. E aí meu pai brigava com a mulher e me jogava
para a casa da minha mãe. Então, eu ficava naquele pingue-pongue. Até que um
dia minha avó viu essa covardia que estavam fazendo comigo, então ela me pegou
e passou a me criar. (Homem, Capital)

Silva, Valadares e Souza (2013) destacam que entre jovens, tanto no caso
dos autores como das vítimas de homicídios, é possível identificar um perfil
familiar marcado por rupturas, abusos, negligências. Essa reflexão confirma os
relatos apresentados pelos detentos, em que revelam uma fraca rede de suporte

67
social a eles e a suas famílias durante a infância, o que parece novamente se
atualizar na experiência de seus filhos.
As autoras também destacam o papel das políticas públicas e do controle
social na prevenção do abandono, uma vez que, em estudo comparativo,
observaram que localidades em que a segurança social é mais desenvolvida e
exercida – em que as condições de trabalho são melhores, as escolas, creches
e equipamentos de saúde funcionam – as taxas de homicídios são menores e
tendem a cair. Essa questão foi tratada também por Minayo e Constantino (2012),
ampliando o debate para a situação do envolvimento da comunidade local e das
autoridades públicas, dentro de uma visão ecossistêmica da criminalidade.
As situações retratadas nas falas, em que as crianças sofreram penúrias para
sua sobrevivência ou foram objeto de disputa ou de abandono por parte dos
pais, mostram como era tratada a infância antes da criação do ECA. Segundo o
estatuto, a falta de recursos financeiros da família não deve ser considerada uma
justificativa para a destituição do pátrio poder, assim como uma criança não deve
ser objeto de disputa e omissão por parte dos pais. Quando há impossibilidade
de a família se responsabilizar pela criança, os cuidados com esse grupo primário
devem ser priorizados pelos serviços de assistência social. Infelizmente no estado
do Rio de Janeiro ainda existe uma precária cobertura da atenção básica em
saúde em todos os municípios, que não ultrapassa 45%; é insuficiente a presença
de creches que poderiam apoiar as famílias durante a primeira infância; e muitas
escolas são omissas quanto a uma ação mais efetiva na vida cotidiana das famílias.
Outro ponto importante é a efetivação de um programa de garantia da
renda mínima, segundo estratégias já previstas em lei. Sobre a atenção em saúde,
o depoimento que assinala a precariedade da atenção médica no tratamento da
hanseníase deveria ser considerado página virada. Atualmente, o desenvolvimento
e a efetividade nas formas de atenção dentro de uma rede estruturada asseguram
o cuidado com a doença e evitam a separação e o abandono da criança.
Foram muito frequentes os relatos de problemas mentais, depressão,
drogadição e suicídios de familiares, considerados pontos-chave para a ruptura
de vínculos de parentesco e sociais. A maioria dos depoimentos que critica a
família também ressalta a ausência de uma rede de serviços públicos – estruturada
e efetiva – para acolher, atender e acompanhar as pessoas que precisam dos
diferentes tipos de atenção, sobretudo nos bairros mais pobres. Situações
adversas são citadas pelos entrevistados:

68
Eu saí de casa muito cedo, com 14 anos. Nunca tive muita proximidade com a
minha família. Meu pai bebia, passei sete anos sem vê-lo e ele morreu tem cinco
meses. Eu fui morar com a minha avó, mas não deu muito certo, eu fui morar
sozinho. Aí foi que eu comecei, com 14 anos. (Homem, Baixada)
Eu fui preso em 1988 e desde então eu fiquei 20 anos na prisão. Aí saí em 2008.
Aí eu era um pouco feliz. Mas eu perdi a minha mãe e fiquei desesperado. Minha
mãe era tudo para mim. Do nada ela passou mal, arrebentou uma veia na cabeça
dela, minha mãe morreu. Aí a única coisa que me ofereceram foi crack, e eu me
apaixonei por aquele troço. (Homem, Interior)
Minha mãe tem problema de cabeça e meu pai se matou quando eu tinha 8 anos.
Aí eu saí de casa com 13 anos de idade. Fui morar na rua porque não tinha nada
para nós comermos. Aí eu comecei a roubar para sustentar a casa, para comprar
as coisas para nós comermos. Nós passávamos muita fome. Eu não achava bonito
ficar pedindo os outros. Não cheguei a estudar. (Homem, Capital)
Eu comecei a beber com 13 anos. Logo assim que meu pai morreu. E minha mãe
era muito ausente. Eu comecei a sentir falta de carinho e de apoio e comecei a me
entregar à bebida. (Mulher, Interior)

Vasconcelos (2010) afirma que tradicionalmente é a área da atenção à


saúde mental que acolhe as vítimas das mazelas sociais. Nas últimas décadas o
Brasil reestruturou sua política de atenção a saúde mental, alterando o modelo
asilar, antes hegemônico e representado pelos grandes hospitais psiquiátricos,
e desenvolvendo o modelo de cuidado de base territorial, que tem como
principal instrumento os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Tal transição
vai se efetivando de forma ainda processual. Isto é, os hospitais psiquiátricos
continuam compondo a rede de atenção, mas gradativamente vão-se tornando
menos necessários. No entanto, para que essa política se capilarize e se torne
efetiva para a população, é fundamental que mais investimentos sejam feitos na
rede substitutiva, na formação e contratação de trabalhadores e na ampliação da
atenção básica. Sobretudo, no estado do Rio de Janeiro, é fundamental investir
na Estratégia Saúde da Família que, como relatado, contempla menos da metade
dos usuários do SUS.
Na maioria das falas, percebe-se uma situação instável vivida pelos filhos
dos presos, são crianças e jovens que ora ficam com as mães, ora com os pais,
ora com os avós ou outros parentes. Sobre essa questão, cabe lembrar Giddens
(1993), para quem a exposição da subjetividade à fluidez das escolhas abre
espaço para o comportamento compulsivo, que representa a perda da capacidade
de refletir e de se orientar, pela falência de controle sobre o eu.

69
No caso da entrega das crianças aos avós, a terapeuta familiar Schencker
(2008) faz uma reflexão importante em consonância com a fala de Giddens:
a presença dos avós na educação dos netos expressa um rearranjo familiar
necessário para que os filhos possam trabalhar. Porém, ao abrir mão de suas
responsabilidades, os genitores estabelecem uma confusão de papéis acerca de
quem é o responsável pela educação das crianças. Os conflitos estabelecidos
entre avós e pais se reeditam nas relações com os netos, desqualificando o papel
dos genitores e, frequentemente, deslocando o desempenho de funções sociais
cruciais na instituição familiar.
As entrevistas também apontaram traços culturais associados ao machismo
e à homofobia como disparadores de momentos de ruptura familiar, questões
culturais que têm um peso muito grande no exercício cotidiano do poder e da
dominação. Os dados quantitativos e qualitativos, aqui apresentados, reforçam
a importância dos vínculos primários que, quando faltam ou são autoritários,
podem contribuir para confusão de referências e problemas de identidade,
sobretudo, na adolescência. 
Eu saí de casa muito cedo. Não por problemas familiares, mas por gostar dele
mesmo [do namorado]. Ele era um pouco mais velho e minha mãe não aceitava.
Eu fugi de casa. Fugi e não voltei. Pai eu não conheci. (Mulher, Capital)
Eu era filho de militar e tinha uma pensão. Meu pai morreu eu tinha 6 anos.
Aí fiquei com a minha mãe. Foi complicado, que minha mãe casou, mas minha
mãe resolveu seguir outro tipo de vida, ela optou por outra orientação sexual. Foi
complicado, aos 20 anos de idade eu já saí de casa. Já aconteceu da gente ficar
dois anos sem se falar. (Homem, Capital)

Em resumo, com base nas informações até aqui levantadas quanto à situação
familiar dos presos no estado do Rio de Janeiro, é possível afirmar que, em sua
maioria, são pessoas que vivenciaram momentos de ruptura dentro de seus
lares e encontraram pouco apoio das redes de proteção social. Apresentam,
no momento, fragilidade de vínculos familiares e conjugais. O uso e o tráfico
de substâncias psicoativas foram para eles um fator desencadeador da prisão.
Grande parte dos detentos tem filhos que podem estar repetindo sua história,
pois crescem e se desenvolvem sem o apoio e a orientação paterna ou materna,
reeditando os problemas vivenciados por muitos na prisão.

70
Uso Abusivo de Drogas
e Participação no Tráfico
Os presos foram perguntados sobre o uso de substâncias tóxicas em três
momentos de sua existência: ao longo da vida, nos últimos trinta dias antes de
serem presos e no tempo de reclusão.

Uso ao longo da vida


As falas dos entrevistados sugerem que a sua iniciação nas drogas, em geral,
teve como motivo aliviar a dor da falta de um ente querido ou suprir alguma
carência, como numa espécie de automedicação para problemas emocionais.
A proximidade com o comércio e consumo de substâncias facilitou o acesso a uma
forma de prazer vivenciada culturalmente na localidade e não, necessariamente,
constituiu um processo de dependência química. No entanto, vários homens
e mulheres afirmaram que, depois de um tempo, as substâncias passaram a
provocar-lhes efeitos menos positivos e se tornaram adictos.
Sobre a experiência do entorpecimento, Loureiro, Matos e Diniz (2008)
ressaltam que a busca pelo prazer como experiência humana revela uma
dimensão que engloba não apenas a realização das atividades instintivas básicas
da sobrevivência, mas também de práticas culturais que podem variar em
diferentes períodos históricos. Em relação ao processo de intensificação do uso de
drogas, os autores esclarecem que nas dependências o prazer é negativo, ou seja,
a experiência de entorpecimento visa principalmente ao alívio do desconforto
e não somente à busca do prazer e da experiência com a consciência. Chama a
atenção o elevado número de usuários de drogas ao longo da vida, na população
carcerária, conforme se observa no Gráfico 5.
As substâncias tóxicas mais utilizadas pelos entrevistados são o álcool,
usado por 79,6% dos homens e 77% das mulheres; o tabaco, por 65,5% dos
homens e 68,1% das mulheres; a maconha, por 60,3% dos homens e 50,6%
das mulheres; e tranquilizantes, por 30,8% dos homens e 50,8% das mulheres.
Outras substâncias foram citadas com menor frequência. É digno de nota o fato
de mais de 50% das mulheres já terem feito uso de medicamentos psicotrópicos
ao longo da vida.
Homens relataram mais consumo de álcool, maconha, produtos para “sentir
barato” e LSD que as mulheres. Elas usam mais cocaína, crack, remédio para

71
emagrecer ou ficar acordadas, tranquilizantes e drogas injetáveis (p<0,05). Para
as demais substâncias não há diferenças significativas.
Em uma pesquisa de base populacional sobre uso de drogas na vida,
realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas
(Cebrid), Galduróz e colaboradores (2002) mostraram a prevalência de 68,7%
para álcool, 41,1% para tabaco e 6,9% para maconha. É possível compreender
que as três substâncias mais usadas sejam as mesmas, independentemente da
situação de encarceramento. Mas, a prevalência é de uso de substâncias lícitas
como tabaco, álcool e alguns tipos de medicamentos. Conclui-se, portanto, que a
situação de encarceramento e a maior proximidade com a cultura que naturaliza
a venda e o uso de drogas ilícitas – uma vez que a maior parte dos presos cumpre
pena por comércio ilegal de substâncias psicoativas – influenciam tanto sua vida
fora como dentro das penitenciárias.

Gráfico 5 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e uso de substâncias psicoativas na vida

72
Observa-se que no Interior, para ambos os sexos (p<0,05), os percentuais
são mais elevados em relação ao uso de várias substâncias ao longo da vida, o que
sugere a presença de fatores contextuais que podem fomentar o consumo. Entre
os homens, os do Interior sobressaem por fazerem mais uso de álcool, maconha,
cocaína, mesclado, crack, oxi, heroína e remédios para emagrecer. Entre as
mulheres é maior o consumo de álcool, tabaco e tranquilizante (Tabela 8).

Uso de substâncias tóxicas


Quanto ao padrão de uso de substâncias nos últimos 30 dias antes de serem
apreendidos, os resultados estão na Tabela 9. As mulheres relataram mais que os
homens o uso de tabaco, cocaína, crack, produtos para “sentir barato”, heroína,
remédios para emagrecer e droga injetável (p<0,05). Os detentos do Interior
apontaram maior consumo de quase todas as substâncias (p<0,01), exceto
mesclado e remédio para emagrecer. Foram seguidos pelos reclusos da Baixada
e, em último lugar, pelos da Capital. As presas na Capital mencionaram mais o
uso de produtos para “sentir barato” e LSD (p<0,01).
Segundo muitos entrevistados, no tempo anterior à prisão, as drogas fizeram
parte do seu contexto de vida. Vários detidos como traficantes disseram que a
entrada no mercado ilegal de drogas lhes pareceu a única alternativa viável de
sobrevivência. Outros acrescentaram que a participação nos negócios do tráfico
funcionou para eles como um espaço de inclusão, porque haviam perdido os
laços com suas famílias.
A complexidade das questões relacionadas ao uso de substâncias que afetam
o estado de consciência vem sendo discutida por vários estudiosos, que buscam
analisar, de um lado, os problemas de fundo que levam as pessoas à drogadição;
de outro, a influência das famílias, dos grupos de jovens e da comunidade nesse
contexto. Em geral, autores que trabalham com o tema, entre eles, Acselrad
(2003) e Schenker e Minayo (2003, 2005), ressaltam que os adolescentes e
jovens que se tornam usuários de drogas buscam prazer e não dor e sofrimento;
estão à procura de extroversão, de novas sensações, de compartilhamento grupal,
de se mostrar diferentes e de encontrar autonomia e independência em relação à
família. É nessa procura que eles fazem um cálculo entre perigo/prazer a que se
expõem, ao mesmo tempo que optam por determinado tipo de comportamento.

73
74
Tabela 8 – Número e proporção de presos do estado do Rio de Janeiro, segundo sexo, área e uso de substâncias
tóxicas ao longo da vida

Homens Mulheres
  Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Álcool 16.643 79,6 10.625 79,3 2.364 77,6 3.655 81,6 962 77,0 800 74,9 162 89,1
Tabaco (cigarro) 13.563 65,5 8.719 65,2 1.941 65,1 2.903 66,8 863 68,1 719 66,5 144 77,7
Maconha 12.462 60,3 7.792 59,0 1764 59,2 2.906 65,1 636 50,6 529 49,8 106 54,6
Cocaína 8.730 42,8 5.277 40,4 1.236 41,1 2.217 51,3 606 47,7 514 47,4 92 50,0
Mesclado, merla, bazuca ou
3.262 16,2 2.113 16,3 417 14,5 733 17,0 204 16,3 173 16,2 31 17,0
pasta de coca
Crack 3.628 17,7 2.248 17,0 587 20,2 794 18,3 253 20,2 222 20,8 31 16,7

Oxi 685 3,4 393 3,1 127 4,3 164 3,9 41 3,4 38 3,6 4 2,0

Produtos para “sentir barato” 6.475 31,4 4.117 31,1 957 32,4 1.401 31,6 362 28,7 306 28,5 56 29,5

LSD (ácido), chá de cogumelo,


3.435 16,8 2.384 18,2 417 14,1 633 14,4 148 11,9 127 11,9 22 12,1
mescalina, ecstasy, ketamina

Heroína, morfina ou ópio 492 2,5 262 2,1 98 3,4 132 3,2 32 2,7 28 2,8 4 2,1

Remédio para emagrecer ou


ficar acordado (“ligado”) sem 1.261 6,2 879 6,7 153 5,2 228 5,2 195 15,6 159 14,9 36 19,2
receita médica

Tranquilizante, ansiolítico,
calmante ou antidistônico sem 6.368 30,8 4.509 34,0 696 23,1 1.164 26,3 652 50,8 544 49,6 108 57,7
receita médica

Droga injetável 605 3,0 314 2,4 134 4,5 157 3,6 53 4,2 51 4,8 2 1,0
Tabela 9 – Número médio de dias de uso de substâncias psicoativas na vida (desvio padrão) pelos presos do estado
do Rio de Janeiro, segundo sexo e área, antes da prisão

Homens Mulheres
Número de dias de uso antes
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
de ser preso
Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP

Álcool 10,2 9,35 10,2 9,17 9,30 8,70 11,0 10,2 11,8 11,2 12,0 11,2 10,6 11,0

Tabaco (cigarro) 21,0 12,8 20,1 13,1 21,8 11,8 22,8 12,1 23,2 11,8 22,8 12,0 24,8 10,7

Maconha 18,2 13,2 17,5 13,7 18,0 12,4 20,0 12,4 18,4 13,1 18,9 13,0 15,5 13,4

Cocaína 11,1 10,9 12,1 11,5 9,7 9,9 10,2 10,0 14,0 12,3 14,5 12,4 10,8 11,3

Mesclado, merla, bazuca ou pasta


9,8 10,9 10,4 11,7 10,4 10,5 8,1 8,9 12,1 12,4 13,1 12,5 5,2 9,4
de coca

Crack 11,3 11,2 10,9 10,6 11,1 11,4 12,4 12,3 14,6 13,9 14,6 13,9 14,8 14,4

Oxi 4,7 7,8 2,7 1,2 3,5 6,4 8,6 12,0 5,1 10,5 5,4 10,8 1,0 0,0

Produtos para “sentir barato” 6,1 7,8 6,1 7,3 7,6 8,9 5,2 8,2 9,3 10,9 10,1 11,3 3,4 4,1

LSD (ácido), chá de cogumelo,


6,7 8,9 7,4 9,6 3,2 3,5 6,2 8,3 8,1 10,4 8,8 10,7 1,6 2,0
mescalina, ecstasy, ketamina

Heroína, morfina ou ópio 2,7 3,3 3,0 3,2 3,6 4,0 0,5 0,9 20,0 11,3 20,0 11,3 - -

Remédio para emagrecer ou ficar


acordado (“ligado”) sem receita 9,3 10,9 9,9 11,1 13,7 12,3 4,3 6,7 13,7 13,6 12,7 13,6 19,14 13,4
médica

Tranquilizante, ansiolítico, calmante


8,1 11,4 7,9 11,2 9,3 12,3 8,4 11,9 10,0 13,1 9,9 13,1 10,96 13,5
ou antidistônico sem receita médica

Droga injetável 1,7 3,9 0,3 0,5 1,6 2,1 5,5 7,0 8,0 12,0 8,0 12,0 - -

75
O lado negativo dessa prática que se inicia como experimentação é o risco
que os adolescentes e jovens correm de se tornar dependentes e comprometer a
realização de tarefas importantes para seu desenvolvimento:
o cumprimento dos papéis sociais esperados; a aquisição de habilidades essenciais;
a realização de um sentido de adequação e competência; e a preparação apropriada
para a transição ao próximo estágio na trajetória da vida: a de adulto jovem.
O “termo comportamento de risco” aqui utilizado, portanto, se refere às ameaças
ao desenvolvimento bem-sucedido dos adolescentes e jovens. (Schenker & Minayo,
2005: 709)

No entanto, é importante ter ciência de que o uso de drogas é uma experiência


que acompanha toda a história da humanidade, e as dependências podem ser
consideradas uma manifestação comportamental e constituem um sintoma
de desarranjo psíquico, frequentemente relacionado a outras patologias, tais
como depressão, ansiedade, transtornos neuropsicológicos e transtornos
de personalidade (Moreira, Silveira & Andreoli, 2006). Nesse sentido, a
dependência química não é uma patologia associada a outro transtorno psíquico
(comorbidade), mas um possível sintoma inespecífico dessa outra patologia. 
No que concerne à função social da família, segundo Schenker e Minayo
(2005), os problemas vivenciados pelas crianças e jovens em situação de lares
conflituosos ou desfeitos influenciam seu envolvimento com a drogadição, embora
nunca de forma determinística, pois na mesma casa uns seguem esse caminho e
outros se superam e vão por outras vias socialmente consideradas muito mais
saudáveis. Os fatores parentais de risco para o uso de drogas pelos jovens incluem,
de modo combinado: ausência de investimento nos vínculos que unem pais e
filhos; envolvimento materno insuficiente; práticas disciplinares inconsistentes
ou coercitivas; excessiva permissividade; dificuldades de estabelecer limites
aos comportamentos infantis e juvenis; tendência à superproteção; educação
autoritária associada ao pouco zelo e à pouca afetividade nas relações; aprovação
do uso de drogas pelos pais; expectativas exageradas com relação à idade
apropriada do comportamento infantil; e conflitos familiares sem desfecho de
negociação (Patton, 1995; Kodjo & Klein, 2002; Zweig, Phillips & Lindberg,
2002; Tarter, Sambrano & Dunn, 2002; Brook et al., 1990; Hoffmann &
Cerbone, 2002; De Micheli & Formigoni, 2002; Arthur et al., 2002).
Os amigos e colegas da escola e do bairro costumam preencher o vácuo
do progressivo desprendimento da tutela dos pais. Nessa etapa da vida, os
adolescentes e jovens se entregam cada vez mais ao mundo dos colegas mais
próximos que passam a ser seu grupo de intimidade mais relevante. Vários

76
autores, como Oetting e colaboradores (1998) e Schenker e Minayo (2005),
encontraram forte influência dos colegas na iniciação às drogas e na adesão
a grupos de delinquência. Porém, esses investigadores ressalvam que os
adolescentes e jovens não são simplesmente cooptados por amigos antissociais,
como se isso fosse uma fatalidade. Na verdade, tornam-se atraídos pelo fato de o
meio familiar apresentar abundância de conflitos e desengajamento interpessoal.
A compreensão do comportamento adicto e delinquente, portanto,
baseia-se em três pressupostos: 1) o sintoma do uso abusivo de substâncias
e do comportamento delinquencial irrompe quando os contextos familiar e
sociocultural oferecem condições para o seu surgimento e desenvolvimento; 2) o
comportamento de um indivíduo afeta e é afetado pelo comportamento do outro,
numa relação de circularidade e não de linearidade, pois esse comportamento é
construído em coparticipação entre os indivíduos implicados na relação; 3) as
interações entre o indivíduo, a família e o ambiente sociocultural dão suporte aos
padrões tanto para abuso de drogas como para a adesão à delinquência (Schenker
& Minayo, 2005).

Comércio de drogas e armas,


como mercado de trabalho e meio de vida
O álcool, o cigarro, a maconha e a cocaína foram usados (ou ainda o são) por
mais de 50% da população carcerária, evidenciando uma espécie de socialização
e aculturação que inclui essas substâncias desde a adolescência (Gráfico 5 e
Tabelas 8 e 9). É sempre importante lembrar que, em geral, a opção pelo tráfico
ou pelo envolvimento com drogas se inicia na adolescência, um momento de
ruptura, de construção de identidade e de busca de liberdade e autonomia. Os
atributos de astúcia e coragem em geral são elementos fundamentais mencionados
na pesquisa pelos entrevistados, para justificar essa opção que quase sempre se
associa ao envolvimento com outros tipos de crime, próprios do contexto de
ilegalidade, entre os quais, o uso e tráfico de armas.
Neste momento, discute-se um passo a mais nesse envolvimento, que é a
participação dos detentos no mercado varejista de drogas, um tipo de atividade
que lhes ofereceu soluções para inclusão no mundo do trabalho num contexto
de total desfiliação. A ausência de adequada formação escolar e técnica para
conseguir um bom emprego, o retorno financeiro imediato e tentador e a situação
de risco parecem ser elementos cruciais nessa carreira.

77
Grande parte dos entrevistados afirmou ter sido presa por tráfico de drogas
e, dessa forma, cumpre pena por esse delito. Nos relatos, os detentos contaram
como se envolveram com o crime e enumeraram caminhos percorridos. Para a
maioria, a aproximação se deu por intermédio de amigos, conhecidos ou líderes
nesse tipo de atividade. Destacam-se em suas falas expressões criadas num
ambiente cultural em que o envolvimento com o comércio de substâncias ilícitas
e com o uso de armas passa a ser considerado algo comum e rotineiro: “quando
fui ver, já estava envolvido na vida errada”; “então eu entrei para essa vida,
vivo a vida errada fazendo o certo”. Essa última expressão, “fazendo o certo”,
sugere, por parte de quem a utilizou, que a entrada no tráfico teve a função de
lhe permitir a sobrevivência num contexto de insegurança alimentar e que, tendo
consciência do poder que exercia ao portar armas de fogo, “buscava não abusar”.
Até então eu fui lá fazer uma barganha de um oitão. Apanhei uma televisão velha.
Aí eu gostei da safadeza e fiquei indo lá toda a vida.Porque tinha pó para cheirar,
tinha mulher, baseado na boca, cerveja. Aí eu gostei da sem-vergonhice e fiquei lá
um tempão. (Homem, Interior)
Foi ali com as amizades. Era na comunidade. Eu servi o quartel, fui cabo armeiro.
Aí saí do quartel e os amigos que me conheciam sabiam que eu mexia com arma
de fogo. E tinha uma movimentação de tráfico que era na porta da minha casa.
Então, uma vez que eu estava subindo, eles estavam com uma arma de fogo com
defeito e me pediram: “Você pode consertar?”. Eu fui e consertei. Dali para frente
aquela amizade começou a mexer muito comigo. Eu fui muito pela mente, pela
cabeça dos outros. E quando fui ver, já estava envolvido na vida errada. (Homem,
Capital)
Eu tinha amigos, muitos amigos que eram muito envolvidos! Porque eu sou assim,
desde que não me afete em nada, estou nem aí. Eu vim me envolver porque eu
não gostava de ver atitude de pessoas sofrendo por causa de pessoas outras que
não têm nada a ver. Então eu entrei para essa vida, vivo a vida errada fazendo o
certo. (Homem, Capital)

A situação das mulheres presas por envolvimento com o tráfico de drogas


é bastante diferente do caso dos homens, embora haja exceções. A maioria está
detida por se associar aos maridos e namorados em atividades ilegais ou por lhes
entregar substâncias tóxicas na prisão.
Estava com meu esposo que está preso no sistema, eu visitava ele havia dois
anos. Numa dessas minhas visitas, eu tentei ingressar com drogas na unidade e fui
presa. Foi uma amiga que falou: “se conseguir atravessar, você vai ganhar tanto.
O negócio é bom, o dinheiro é rápido e fácil”. No dia em que eu fui presa ele ficou
surpreso. Minha família desabou, porque ninguém sabia. Eu já tinha tentado e

78
não consegui. Aí minha amiga me ensinou um jeito e eu fiz. Mas fiquei muito
nervosa, muito apavorada. Aí, fui chamada para o scanner e descobriam! Meu
nervosismo era visível. (Mulher, Capital)
Eu era cobradora de ônibus, aí quando fiquei desempregada, passei a vender
roupa, sex shop, fazer unha, fazer cabelo, só que eu me envolvi com um cara e ele
infelizmente fazia essa porcaria de tráfico e quando ele veio preso eu vim presa
juntinha com ele, e já é a terceira cadeia dele. (Mulher, Capital)

O relato de uma presa se destaca por mostrar a trama de situações envolvidas


na relação conjugal com um traficante. Ela contou que foi detida porque o marido
guardava drogas e armas em casa, sem seu conhecimento. Melhor que questionar
a veracidade ou não do seu relato, é elucidativo avaliar as condições em que
muitas mulheres são integradas a esse mercado. A frase “nem sabia que o nome
do desgraçado era Isaac” parece ilustrar o grau de submissão e dependência a que
o machismo existente nesses bandos de traficantes submete a mulher.
Eu tinha alugado a casa há uns 12 dias para a gente morar junto. Nem sabia
que o nome do desgraçado era Isaac, eu sabia que o nome dele era Jorge. Por
causa das besteiras que ele falou, a juíza foi lá e me deu uma marretada de
nove anos e seis meses por tráfico e porte ilegal de arma. (...) Porque ele tinha
um quarto proibido, onde eu não podia ir, ninguém podia ir, só ele entrava
naquele quarto. (Mulher, Capital)

O poder dos traficantes de drogas e armas nas favelas e nas áreas periféricas
do estado do Rio de Janeiro, segundo os entrevistados, inspira um ideal de vida
que relativiza a consciência do que é permitido ou não. As expressões “mexeu
comigo”, “virou minha cabeça” sugerem esse entendimento de que a satisfação
rápida, por mais que seja incerta e perigosa, vale o risco. Alguns dos entrevistados
chegaram a expressar orgulho pela escolha feita, apresentando identificação com
a figura do traficante como aquele que personifica o poder e a ordem. Apesar
de mais frequente entre os homens, uma mulher também expressou, em seu
discurso, essa irmanação:
Quando eu vivia na vida do crime eu gostava. Ostentação, poder, respeito e
dinheiro. Naquela época eu adorava, gostava muito! Cheguei a ir para São Paulo,
numa facção. Eu nunca levei a criminalidade para dentro da minha casa, ficava
no portão, tanto é que meu filho hoje em dia é bombeiro, minha filha estuda,
trabalha, minha família toda é cristã. Fui presa na operação no morro. Mas lá fora
as regras são piores que as daqui, se você não as seguir, o preço que você paga é
muito mais alto do que você paga aqui. (Mulher, Capital)

79
Perguntados por que entraram para a vida na ilegalidade, alguns entrevistados
relataram que, para eles, a opção pelo trabalho no tráfico foi a única possível
diante de problemas financeiros ou de subsistência imediata. No entanto, essa
é uma saída mais buscada pelos homens do que pelas mulheres. Os primeiros
fogem de ocupações menos valorizadas ou precarizadas. O tráfico de drogas e
armas, em locais em que essa atividade faz parte do cotidiano, aparece, portanto,
como uma dupla tentação: a do poder, para quem não o tem, e a do dinheiro
rápido, para quem é despossuído:
Tenho três filhos para criar e não estava conseguindo trabalho. Aí comecei a
traficar. Comecei a roubar também. (Homem, Capital)
Sempre tive problemas, nunca me dei bem na escola. Com 14 anos eu fui morar
sozinho. Aí foi que comecei a me envolver com o crime. Tráfico, homicídio, tudo,
tudo, tudo. Quando eu comecei, foi pelos amigos. Entrei na boca, aí foi que
começou meu envolvimento com as pessoas. (Homem, Baixada)

A pressão de amigos também surgiu nos depoimentos como motivação


inicial para o envolvimento com a criminalidade, tanto para o tráfico de drogas e
armas quanto para a participação em quadrilhas de roubo, da mesma forma que,
como foi mostrado anteriormente, justificou a iniciação ao uso de substâncias
tóxicas.
Sobre o tráfico de armas e drogas, Castells (1998) e Wieviorka (1997)
analisam o mercado globalizado dessas duas mercadorias, apenas menos
lucrativas do que o petróleo, que atuam segundo uma lógica de rede e de múltiplas
implicações da legalidade com a ilegalidade. Minayo (2005) destaca que o efeito
mais perverso da delinquência organizada é a forma de inclusão dos pobres em
seus negócios. Eles se engajam no front como ponta de lança a fim de obter status
e ter acesso a bens econômicos e de consumo.
É óbvio que, como foi dito, existe um ato de subjetividade nessa escolha,
que nunca é determinista. Mas isso se dá num contexto de conflitos, pouco
apoio social e falta de coesão familiar diante do incentivo cultural ao consumo.
Esses jovens envolvidos no tráfico são, portanto, o elo mais frágil, embora muito
útil aos negócios trilhonários de armas e drogas. Do ponto de vista do poder,
entretanto, reproduzem ou sofrem o que há de mais autoritário na sociedade
brasileira (Misse, 1999; Minayo & Souza, 1999).

80
Vivências de Agressões e Maus-Tratos
Na investigação sobre os vários tipos de agressões, abusos e maus-tratos
sofridos pelos presos em sua vida pregressa considerou-se o tema dentro de
um conceito amplo definido pela Organização Mundial da Saúde (2002) e pelo
Ministério da Saúde (Brasil, 2001). Esse conceito pode ser assim resumido:
prática de ações ou omissões cometidas uma vez ou muitas vezes, prejudicando
a integridade física e emocional da pessoa, impedindo seu desempenho social
e frustrando sua expectativa em relação aos que a cercam, sobretudo filhos,
cônjuges, parentes e comunidade.
Violência não é sinônimo de crime, embora a maioria dos crimes sejam
expressões de violências. Para caracterizar as diferentes formas de manifestação
da violência, o Ministério da Saúde (Brasil, 2001) e a Organização Mundial da
Saúde (2002) estabeleceram uma classificação hoje considerada universal que
inclui os seguintes tipos: 1)  abuso físico: uso da força que pode resultar em
dano, dor, lesão ou morte; 2) abuso sexual: ato ou o jogo em relações hétero ou
homossexuais que estimulem ou utilizem a vítima para obter excitação sexual
e práticas eróticas e pornográficas, por meio de aliciamento, violência física e
ameaças; 3) abuso psicológico: atitudes de menosprezo, desprezo, preconceito,
discriminação e humilhação; 4) exploração financeira ou material: uso da pessoa
para ganhos financeiros ou uso ilegal de seus bens; 5) abandono: deixar a pessoa
à sua própria sorte quando ela não é capaz de se cuidar; 6) negligência: recusa
a cumprir obrigações de cuidar e de proteger a pessoa que necessita de amparo;
7) violência autoinfligida: negligência em se cuidar ou tentar tirar a própria vida.
Como se observa, nas informações sobre a vida antes da prisão, em todos
os aspectos analisados anteriormente, algum tipo de violência esteve sempre
presente na vida dos detentos. No entanto, quando instados a falar sobre o
tema, em geral, os homens se referiram à dinâmica de sua vida criminosa. Essa
concepção que reduz o conceito de violência ao de crime é também a mais comum
na sociedade. As mulheres presas mostraram uma visão um pouco mais ampliada
sobre o assunto, pois se referiram à violência doméstica, conjugal e sexual que
sofreram durante a vida. Porém, todos os entrevistados e entrevistadas foram
bastante econômicos ao falar sobre o assunto.
A Tabela 10 se refere às lesões e traumas sofridos pelos detentos antes de
irem para a prisão. Destaca-se que mais mulheres (28,9%) que homens (21,7%)
apresentam algum tipo de lesão permanente (p<0,01). Lesões nos rins e pulmão,

81
deformidades permanentes em dedo, mão ou braço são mais comuns entre eles
(p<0,05). Entre elas, predominam deformidades de seio, pé, perna ou coluna,
incapacidade de reter fezes ou urina e outras (p<0,05). Os homens reclusos no
Interior relataram mais lesões permanentes em dedo ou membro amputado,
paralisia permanente e outras incapacidades. Presos da Baixada informaram
mais incapacidade para reter fezes ou urina (p<0,01). Entre as mulheres,
particularmente as do Interior, predomina a incapacidade para reter fezes ou
urina (p=0,04).

Tabela 10 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo


sexo, área e lesões permanentes
Homens Mulheres
Lesões
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
permanentes
N % N % N % N % N % N % N %

Algum dedo
ou membro 620 3,1 360 2,7 95 3,4 165 4,0 26 2,2 24 2,4 2 1,1
amputado

Algum seio, rim ou


401 2,0 272 2,1 58 2,1 71 1,8 10 0,9 10 1,0 0 0,0
pulmão retirado

Alguma paralisia
permanente de 673 3,4 462 3,6 61 2,2 150 3,7 29 2,5 27 2,7 2 1,1
qualquer tipo

Alguma
deformidade
permanente ou
1.774 9,0 1.195 9,3 252 9,2 328 8,1 154 13,0 127 12,4 27 16,1
rigidez constante
de pé, perna ou
coluna

Alguma
deformidade
permanente ou
1.685 8,6 1.130 8,8 236 8,6 318 7,9 70 6,1 58 5,8 13 8,1
rigidez constante
de dedo, mão ou
braço

Incapacidade para
reter fezes ou 1.191 6,0 709 5,5 223 8,0 260 6,4 190 16,4 156 15,5 34 22,1
urina

Qualquer outra
821 4,2 545 4,3 85 3,1 191 4,6 65 5,6 55 5,4 11 7,0
incapacidade

Total com pelo


menos uma lesão 4.522 21,7 2.965 22,1 668 22,6 888 20,0 367 28,9 315 28,7 52 29,6
permanente

82
Embora a pergunta se referisse ao tempo anterior à prisão, constatou-se
que 26,5% dos detentos com lesões permanentes as adquiriram no presídio,
contrariando um dos princípios fundamentais do guia “Saúde nas prisões” (WHO,
2007), segundo o qual os presos não devem sair da prisão em pior situação de
saúde do que quando entraram.
As experiências de violência, anteriores à reclusão foram, predominantemente,
narradas pelos homens, dentro da visão restrita de agressões entre gangues
armadas ou de confronto com policiais. Houve relatos sobre maus-tratos sofridos
por presos por causa de sua orientação homoafetiva, mas foram mais escassos.
As mulheres falaram mais de abuso sexual e estupro na adolescência.
Com 14 anos fui estuprada. Aí fui à delegacia, fórum, essas coisas assim. [Foi] o
meu namorado. Ele colocou remédio na minha bebida e isso eu tinha 14 anos.
A minha mãe foi, fiz corpo delito e foi comprovado tudo. Ele perdeu o emprego dele.
Ele trabalhava naquela época no Bradesco. Aí depois na época tinha esse negócio de
casar. Eu não quis casar com ele de jeito nenhum. E depois eu já conhecia um rapaz
que era médico e eu fui namorar logo em seguida. (Mulher, Interior)

Entre os diversos episódios de violência citados pelos entrevistados, em dois


casos os presos apontaram vivências de difamação e acusações por crimes que
não cometeram e preconceitos da comunidade em que vivem em relação ao fato
de já terem sido presos. 
Eu fui detido uma vez, passei 15 dias e fui absolvido. Então eu recebi um apelido.
Me deram um apelido na rua. E esse apelido me causou [muito aborrecimento].
O mundo que era pequeno para mim se tornou enorme. As pessoas não me viam
mais na mesma forma que viam antes. Porque achavam que eu era [determinada]
pessoa sem ser. Passei a ser acusado de uma porção de coisa que até hoje também
não teve prova de nada. Tipo assim, morreu uma pessoa [do crime], diziam que
era eu. Então é perseguição mesmo por causa desse apelido. Eu já vi que nesse
lugar onde eu morava, eu não posso voltar a morar mais. Não conseguiria arrumar
trabalho. (Homem, Capital)
A minha primeira prisão ocorreu em 1998. E desse tempo para cá atribuíram à
minha família fama muito grande. Muitas coisas que aconteceram atribuíram
a mim. Eu estou condenado por uma fama. (Homem, Interior)

Casos de práticas de homicídio foram narrados por três entrevistados como se


fossem vivências corriqueiras. Chamou atenção a naturalização dessa experiência
de violência extrema também nos relatos de outros detentos. Em seu depoimento,
um deles afirmou que “não tem nada de mais matar”. Apenas um preso contou ter
sofrido tentativa de homicídio ao ser baleado durante uma ação policial.

83
Em 1988, foi por um assalto seguido de morte, latrocínio. Eu apanhava [roubava]
coisas no Centro. Arrumava arma por causa de roubo de carro e arrumava dinheiro.
Então, um ladrão falou comigo: “quando você tiver armas – estou sabendo que
você tem armas – traz para a gente que a gente compra e te paga bem”. Até então
eu fui lá fazer uma barganha de um oitão. Apanhei uma televisão velha. Ninguém
sabe que eu assaltei, ninguém sabe que eu dei facada em alguém, só sabe que eu
ia para o Centro apanhar bicicleta e rádio. Eu roubava CD de carro, todo mundo
conhecia isso. (Homem, Interior)
Eu fui baleado três vezes já. Graças a Deus, nada de grave. Consegui sair, curar
e continuei na tranquilidade da comunidade, no convívio com meus amigos.
Amigos entre aspas. Porque o crime é severo. Enquanto você não falha, está
bem com você, tudo tranquilo. Mas a partir do momento que você comete uma
falha dentro da lógica do crime, tudo que você fez de bom, todos os amigos que
você conquistou, ou até de repente a vida que você salvou, tudo e todos vão se
voltar contra você. Então, eu acho que é um tipo de vida um pouco solitária.
Mentalmente essa é a única coisa que me abala um pouco. É falta de amparo,
mais nada. (Homem, Capital)
Porque eu entrei para o crime não é só para combater dentro da criminalidade.
Eu não tinha outra opção. Mas foi o que aconteceu. Eu fiquei sempre metendo
a mão mesmo e fazendo várias coisas que o ser humano não gosta. Eles tinham
me batido, aí eu fiquei com sequela no olho. Aí com esse olho aqui, eu não
enxergo. (Homem, Capital)

Soares e Ilgenfritz (2002) estudaram a situação das presas em todas as


unidades do estado do Rio de Janeiro e elaboraram seu perfil com base em
questionários e entrevistas com 524 detentas. Afirmam as autoras que a trajetória
delas praticamente se confunde com as histórias de violência que enfrentaram:
mais de 95% sofreram maus-tratos na família pelo menos na infância, na
adolescência, no casamento ou nas mãos da polícia; 75% foram vitimadas pelo
menos em duas dessas ocasiões; e muitas passaram por ameaças de morte por
parte de policiais ou de pais alcoólatras. Várias tiveram experiências de abuso
sexual na infância, ou, mais tarde, por parte de maridos violentos e de outros
agressores. Muitas têm pais, maridos e irmãos assassinados ou estão na cadeia
por acompanhar os companheiros em suas atividades ilegais.
Como se verá no decorrer deste estudo, 82,3% dos encarcerados no Rio de
Janeiro (homens e mulheres) têm idade entre 19 e 39 anos, ou seja, são, em maioria,
jovens e adultos em idade produtiva. Entende-se, portanto, que as violências
que cometeram ou de que foram vítimas são assunto de elevado interesse social.
O fato de que esse tenha sido o tema menos comentado pelos detentos sugere

84
certa aculturação em que se considera a violência parte e ambiente de sua vida.
Talvez aqui, valesse lembrar Sartre (1961), segundo o qual a violência constitui
para muitos uma cultura social que é a imunda e cruel caricatura da sociedade
do amor e da razão.
Por isso, ao revés, é importante que, em um estudo como este, a violência
seja tratada segundo uma lógica preventiva e social e analisada no âmbito das
relações primárias (da família) e da socialização (na escola e na comunidade).
Como se observou a respeito dos vários aspectos da vida pregressa dos presos,
muitos foram vítimas de abandonos, de maus-tratos dos pais e irmãos e de muita
negligência por parte também dos programas sociais e educativos, num momento
crucial para sua formação psicossocial. Embora não se possa simplificar,
afirmando que há uma relação direta ou de determinação entre a violência sofrida
na infância e na adolescência e a entrada na criminalidade, é certo que essa
associação não pode ser negada nos casos concretos que os detentos contaram.
A literatura internacional discute esse assunto, colocando ênfase na situação
de adolescentes e jovens que, em todo o mundo, continuam o grupo social mais
vulnerável tanto para sofrer como para cometer violência. Chesnais (1981), na
obra considerada clássica em que analisa 200 anos de violência no Ocidente,
tem uma frase lapidar a respeito das relações desse fenômeno com a educação
e com as condições de vida. Afirma o autor que mais fizeram, pelo decréscimo
da violência social e dos homicídios no continente europeu, a educação formal
e a melhoria da situação social da classe trabalhadora que todos os aparatos
repressivos.
É importante ressaltar que, no início do século XIX, as taxas de criminalidade
e de mortes violentas eram muito mais elevadas na Europa do que as do Brasil
de hoje, chegando a 60 homicídios por 100.000 habitantes em alguns países.
Atualmente, essas taxas estão entre 1/100.000 a 0,5/100.000 no continente
europeu, o que mostra a possibilidade histórica de se superarem as elevadíssimas
taxas de violência no Brasil, que respondem pelo terceiro lugar na mortalidade
geral. Chesnais justifica sua afirmação sobre as possibilidades de superação,
argumentando que, quando as pessoas se sentem incluídas na cidadania e recebem
uma boa educação formal, em geral, elas têm preferência por usar a palavra em
lugar da força para se comunicar e atingir seus fins. A educação formal ensina a
dialogar, a enfrentar o contraditório, além de ser um instrumento fundamental de
inclusão social e de aumento de oportunidades no mundo do trabalho.

85
Também outros estudiosos, como Lochner e Moretti (2004), Fajnzylber
e Araujo Júnior (2001), Santos e Kassouf (2007), Becker (2013) e Minayo e
Constantino (2012), mostram uma relação negativa entre nível de educação,
violência e criminalidade. Esses autores, ainda que com objetivos de pesquisa
diferentes, ressaltam que os custos sociais são maiores quando as violências e
os crimes são cometidos por jovens porque, se capturados, eles acabam punidos
e detidos num momento da vida em que deveriam estar se preparando para
contribuir para o desenvolvimento do país. Convém voltar atrás e chamar
a atenção para o elevado percentual de detentos sem o ensino fundamental
completo (32,5% de homens e 33,1% de mulheres). 
Dados do Ministério da Saúde mostram que mais de 70% dos homicídios
atualmente ocorrem na faixa de 15 a 39 anos, exatamente o grupo populacional
em plena idade produtiva. Igualmente, a maior parte dos agressores está nas
mesmas faixas etárias (Souza et al., 2012b). Carvalho e colaboradores (2007)
estimam que a perda de produtividade no Brasil por causa dos homicídios foi de
R$ 9,1 bilhões de reais no ano 2001, cálculo que provavelmente não se modificou
no cenário atual das cifras de violência no país. Pensando numa sociedade em que
a atribuição do papel de provedor ainda cabe ao sexo masculino, é importante
ressaltar que a perda do país é brutal, pois 82% das mortes violentas são de
homens (Souza et al, 2012a).
Na verdade, a violência tem uma série de motivos associados, assim,
considerar apenas a influência da educação formal ou sua ausência é bastante
temeroso. No entanto, parece apropriado tecer considerações sobre essa relação,
confirmada por alguns estudos. Grogger (2002) analisou o tema na realidade
americana, mostrando que a participação do jovem em grupos de violência ou
de delinquência reduz a probabilidade de conclusão do ensino médio em 5,1% e
diminui em 6,9% a de entrada na faculdade. Ao contrário, pesquisas indicam no
mesmo país que o aumento de 1% nas taxas de conclusão do ensino médio para
homens entre 20 e 60 anos reduz em torno de 1,4 bilhões de dólares os gastos
com a criminalidade.
É bem verdade que esses dados da sociedade americana não podem ser
transferidos ingenuamente para o Brasil, até mesmo porque a hipótese mais
plausível é que a situação aqui seja muito mais catastrófica. O Censo de Educação
Básica de 2013 mostra que o ensino médio no país continua estagnado, ou pior,
vem perdendo alunos. No ano de 2013, foram registradas 64.000 matrículas
a menos do que ano anterior, numa oscilação negativa de 0,7%. Especialistas,

86
assim como o próprio Ministério da Educação, identificam o ensino médio como o
maior gargalo do sistema educacional brasileiro (Brasil, 2014a). Considerando os
jovens de 15 a 17 anos, – grupo de risco importante para a criminalidade –, 15,8%
estavam sem estudar em 2012, segundo o IBGE (2011). Os jovens apelidados
“nem, nem, nem”, ou seja, os que não trabalham, não estudam e não procuram
trabalho são o alvo privilegiado para o aliciamento de grupos de delinquentes.
Wieviorka (1997) ressalta, em suas análises sobre a violência no mundo
contemporâneo, o quanto os jovens das periferias urbanas são empregados como
“buchas de canhão”, com ganhos que para eles são atrativos, mas, na verdade,
são irrisórios diante dos mercados de drogas e armas que ocupam o segundo e
terceiro lugares mais lucrativos dos negócios internacionais. 
Quando se fala em violência do ponto de vista da saúde, o foco mais
importante é a prevenção. É possível pensar a educação como uma forma de
diminuir a violência social e a criminalidade a médio e longo prazos, pois o
indivíduo mais bem preparado e com mais qualificações consegue se inserir
melhor no mercado do trabalho, tem mais oportunidades e maiores salários, tem
mais noção de cidadania e de direitos e deveres, o que o torna menos propenso a
se inserir em grupos criminosos.
Em geral, as escolas relutam em abordar as questões de violência com a
desculpa de que seu papel é ensinar conteúdos que preparem os jovens para o
futuro. Porém, a violência social não poupa sequer as instituições de ensino e ainda
traz para dentro desses espaços todos os problemas gerados fora deles. A própria
escola pode ser um foco gerador de violência, por meio de comportamentos
antissociais de educadores, funcionários e dos próprios estudantes em relação
aos seus colegas. Essas práticas podem ser classificadas como maus-tratos físicos,
negligências, abusos sexuais e  bullying, termo que sintetiza várias formas de
violência psicológica.
Em resumo, da mesma forma que a família, a escola e o ambiente comunitário
podem influenciar o comportamento agressivo dos jovens. No caso das crianças
e adolescentes vítimas de violência, uma das consequências negativas é que
eles tendem a apresentar comportamentos depressivos e baixa autoestima, ou
uma agressividade exacerbada (Santos & Kassouf, 2007). A história de vida de
pessoas criminosas ou violentas, como se constatou nesta pesquisa, mostra que
seu comportamento foi forjado nas instituições primárias e de socialização como
também foi observado por Becker (2013).

87
3
A Vida na Prisão: o cotidiano

Neste capítulo focalizam-se os dados empíricos quantitativos e qualitativos


a respeito do cotidiano de homens e mulheres dentro do sistema prisional do
estado do Rio de Janeiro: a rotina institucional, a avaliação deles próprios sobre
a vida nas unidades e suas condições de saúde. Esta etapa do trabalho tem um
duplo caráter: de um lado, são organizadas de forma descritiva as informações
oferecidas pelos presos; de outro, algumas questões ressaltadas por eles foram
aprofundadas, porque consideradas cruciais para sua vida social e para sua saúde,
além de temas cuja significância vai além do nível local.

O Duro e Ocioso Cotidiano Prisional


Como identificou Messuti (2003), os muros da prisão não marcam apenas
a ruptura do ambiente social, mas também a ruptura do tempo e dos afetos
que precisam ser ressignificados em outro ritmo, cadência e uso. Por isso, mais
que o espaço, esses são os verdadeiros significantes da pena, materializada na
concatenação de atos rotineiros determinados por um sistema de normas e regras
externas à vontade dos detentos. Embora os dados a seguir, estatisticamente,
se refiram ao tempo cronológico vivenciado nas prisões, para os apenados seu
significado subjetivo é o de uma espécie de tempo emocional: mais lento e denso,
carregado de perdas, tendo como único sentido o cumprimento da pena.
O tempo de prisão dos detentos do Rio de Janeiro em média é menor que
quatro anos, conforme se pode constatar no Gráfico 6. Entre os homens, 89,2%
estão no sistema prisional há, no máximo, quatro anos e entre as mulheres esse
percentual é de 92,1%. O período médio de reclusão deles é de 2,2 anos (desvio
padrão 2,9) e delas, de 1,8 anos (desvio padrão 2,6). Ou seja, no conjunto da
população carcerária, os homens estão presos há mais tempo que as mulheres,

89
com diferença estatisticamente significativa (p<0,01). Há um número pequeno
de pessoas cumprindo mais de dez anos de pena e menor ainda é o percentual dos
que têm 20 anos ou mais de reclusão.

Gráfico 6 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e tempo na prisão

Tabela 11 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área, tempo no presídio, média de anos na prisão e
desvio padrão
Homens Mulheres

Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


Tempo na prisão
(N=21.902) (N=13.984) (N=3.101) (N=4.817) (N=1.320) (N=1.133) (N=192)

% % % % % % %
Menos de 1 ano 42,6 36,7 70,5 42,0 47,0 48,1 41,1
1-4 anos 46,6 50,5 26,4 48,2 45,1 42,8 58,0
5-9 anos 7,5 8,8 2,0 7,5 5,5 6,3 0,9
10-19 anos 3,0 3,7 1,1 1,9 1,8 2,1 0,0
20 e mais anos 0,3 0,4 0,0 0,4 0,6 0,7 0,0
Média (DP) 2,2 (2,9) 2,4 (3,1) 1,1 (1,7) 2,1 (2,6) 1,8 (2,6) 1,8 (2,8) 1,5 (1,2)

Na Tabela 11, apresenta-se o tempo de prisão de homens e mulheres


segundo os territórios estudados. Principalmente na Baixada e no Interior estão

90
os presos com período menor de privação da liberdade (até quatro anos).
Entre os homens, os presos na Baixada são os com menos tempo de detenção
(p<0,01). Entre as mulheres, as da Capital estão detidas há menos tempo que
as do Interior (p<0,01).
O estabelecimento de sentenças é uma questão que importa muito na vida
dos presos, posto que eles não deveriam ficar nos presídios indefinidamente
sem saber que pena lhes é devida pelos crimes que cometeram. Dos detentos
que responderam ao questionário, mais da metade tinha sua sentença definida
(Gráfico 7). No entanto, mais da metade é muito pouco diante dos dispositivos
da Lei de Execução Penal. Encontrou-se um percentual maior de homens
sentenciados que de mulheres (p<0,01). Entre os que receberam penas mais
elevadas – de mais de dez anos –, predominam os presos do sexo masculino, com
diferença estatisticamente significativa entre os sexos (p<0,01), evidenciada nas
médias encontradas: 15,5 anos para os homens e 10,5 para as mulheres.

Gráfico 7 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, sentença e tempo de sentença

Na Baixada, encontra-se o menor percentual de homens presos sentenciados


(34%) e, na Capital, um pouco mais da metade das mulheres (54,5%), com

91
diferença estatística significativa entre as áreas estudadas (p<0,01). Na Tabela 12
indica-se que em todos os locais pesquisados, para ambos os sexos, prevalecem
os sentenciados com cinco a nove anos de detenção, principalmente mulheres.
Na Baixada, os homens têm sentenças menores do que os da Capital, tanto em
números absolutos como na média (p<0,01). As mulheres com penas acima de
dez anos estão, geralmente, na capital (p<0,01).

Tabela 12 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e sentença, tempo de sentença em proporção,
média de anos e desvio padrão

Homens Mulheres

Sentença Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


(N=22.280) (N=14.315) (N=3.067) (N=4.898) (N=1.349) (N=1.155) (1=194)

Sim 62,5 69,4 34,0 60,1 55,3 54,5 60,2

Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


Tempo de sentença
(N=13.555) (N=9.616) (N=1.019) (N=2.921) (N=743) (N=625) (N=116)

Menos de 1 ano 1,6 1,0 8,3 1,2 0,2 0,0 1,5


1-4 anos 11,1 10,4 27,4 7,6 10,0 10,7 6,2
5-9 anos 40,5 37,7 46,8 48,1 53,6 51,3 66,2
10-19 anos 26,4 27,2 12,8 28,3 25,0 25,6 21,5
Mais de 20 anos 20,4 23,7 4,7 14,8 11,2 12,4 4,6
Média (DP) 15,5 (29,9) 17,2 (34,5) 7,3 (8,0) 12,4 (12,7) 10,5 (7,7) 10,8 (7,9) 9,1 (6,4)

A rotina prisional e os espaços de liberdade


“Os dias são todos iguais!” Essa expressão de um recluso é uma espécie
de medida do tempo, traçada na repetição das atividades, tarefas e obrigações.
Sua vivência ajusta-se à reflexão de Goffman (1990), quando mostrou a prisão
como uma instituição total em que a vida é fechada e formalmente administrada.
Nela, todos os atos cotidianos são racionalizados e efetuados no mesmo local e
sob uma única autoridade, permitindo controle estrito dos indivíduos, de seus
relacionamentos e de suas possibilidades de ação. No entanto, se observam
algumas peculiaridades: enquanto a maioria dos reclusos se contenta com
a rotina exigida, uma pequena parte, como se verá nos depoimentos, tenta
aproveitar ao máximo as oportunidades, tornando o tempo de cumprimento da
pena menos doloroso e mais proveitoso. O encontro desses dois lados remete
aos pensamentos de Jean-Paul Sartre sobre Jean Genet – cuja biografia fascinou
esse filósofo – que, recluso nos cárceres da França, foi capaz de aproveitar seu

92
tempo, e com a escrita de suas memórias se transformou num grande poeta e
num dos maiores dramaturgos do século XX. Sartre analisou, por meio desse
caso, a oposição entre prisão e liberdade e fez um depoimento contundente numa
das últimas entrevistas de sua vida, para Le Nouvel Observateur:
Há uma diferença essencial entre minha relação com Marx e minha relação com
Freud. A descoberta da luta de classes foi para mim uma verdadeira descoberta:
ainda creio totalmente nela, da forma como foi descrita por Marx. Os tempos
mudaram, é sempre a mesma luta, entre as mesmas classes, como o mesmo caminho
para a vitória. Por outro lado, não creio no inconsciente tal como apresentado pela
psicanálise. A ideia que nunca deixei de desenvolver é que, finalmente, cada um é
sempre responsável pelo que fizeram dele – mesmo que ele não possa fazer nada mais
do que assumir essa responsabilidade. É a definição que eu daria hoje de liberdade:
este pequeno movimento que faz de um ser social totalmente condicionado, uma
pessoa que não constitui a totalidade do que recebeu de seu condicionamento, que
fez de Jean Genet um poeta, enquanto ele foi rigorosamente condicionado para ser
um ladrão. (Jean-Paul Sartre, entrevista em 28 jan. 1970)

O estudo empírico apresentado aqui evidencia os dois lados: a conformidade


com o cotidiano monótono e penoso e o que alguns dos reclusos fazem para
vivenciar da melhor forma possível o momento existencial como apenado.
Os presos foram perguntados tanto no questionário quanto nas entrevistas
sobre sua rotina na prisão.
Rotina é todo dia a mesma coisa! Nós dormimos vendo que já vai ter que acordar
a mesma coisa todo dia. Espera o café, espera a água cair, é uma luta para cair
uma água! Para conseguir tomar um banho é uma luta! Todo o dia é a mesma
coisa, o almoço sempre a mesma coisa. É a mesma coisa, antes mesmo de sair,
nós já sabemos o que é o almoço. Todo dia da semana é a mesma coisa. (Homem,
Capital)

A reiteração das mesmas expressões que se observam nos depoimentos


revela esse tempo que se repete na maioria das vezes sem nenhuma demonstração
de prazer e de sentido ressocializador, como proposto pela Lei de Execução
Penal. Nas entrevistas, grande parte dos presos qualificou o cotidiano prisional
como “árido e sem perspectivas”. Eles disseram que sua vida diária se resume
ao “confere”, que é a contagem dos internos realizada duas vezes ao dia – uma
pela manhã ao abrirem a cela e outra à noite ao fechá-la; à alimentação – café
da manhã, almoço e jantar na própria cela; às atividades de higiene pessoal, das
celas e ao banho de sol.

93
Dentro desse cotidiano repetitivo e insípido, alguns falaram de outras
atividades nas quais podem participar: celebrações religiosas; entrevistas com
os defensores públicos; frequência à escola; consulta de atenção psicológica,
entre outras. Em geral, as mulheres, mais que os homens, são frequentadoras
dos eventos a que têm acesso, como se observa no Gráfico 8, com exceção da
inserção laboral e da frequência às visitas íntimas. A diferença é significativa
entre os sexos (p<0,01) para todos os itens pesquisados.

Gráfico 8 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo atividades ou setores que costumam frequentar

Na gramática prisional, trabalho classificado é aquele que contribui para a


remissão da pena. Para cada três dias trabalhados, um é descontado do tempo
prescrito de reclusão. Trabalho não classificado é aquele que o preso realiza, mas
não é reconhecido pelo sistema – de modo geral é em troca de algum benefício
monetário pago por outros presos.
Na Tabela 13, observa-se que entre as atividades das quais os detentos mais
participam estão as celebrações religiosas e os cursos escolares. Os homens, na
Baixada e do Interior, recorrem aos advogados e à Defensoria Pública em mais
elevadas proporções que os da Capital. As facilidades menos utilizadas pelo
grupo masculino em todos os locais pesquisados são as consultas psicológicas.
E, pelas mulheres, as laborais e as visitas íntimas. Encontrou-se diferença estatística

94
significativa com p<0,01 para todos os itens. As presas no Interior relataram
menos atividades ocupacionais, atendimento psicológico e visitas íntimas que as
da Capital (p<0,05).

Tabela 13 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo


sexo, área e atividades ou setores que frequentam

Homens Mulheres

Atividades Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Escola 4.930 21,6 3.320 22,8 526 16,7 1.084 21,4 462 33,9 378 32,5 85 42,0
Trabalho
3.155 13,9 2.226 15,3 221 7,0 707 14,0 276 20,4 236 20,5 40 19,8
classificado
Trabalho não
2.263 9,9 1.427 9,8 310 9,9 526 10,4 44 3,2 28 2,4 16 8,0
classificado
Celebrações
6.952 30,5 4.313 29,6 1.048 33,3 1.592 31,5 679 49,9 585 50,7 94 46,4
religiosas
Ambulatório
3.529 15,5 2.163 14,8 376 12,0 990 19,5 35,7 36,1 424 36,5 68 33,9
médico
Psicologia 833 3,7 506 3,5 96 3,1 230 4,5 170 12,6 134 11,6 36 17,9

Serviço social 2.560 11,2 1.846 12,6 110 3,5 604 11,9 259 18,9 216 18,5 43 21,4
Defensoria
5.027 22,1 3.145 21,5 486 15,5 1.396 27,6 514 37,7 449 38,7 65 32,1
Pública
Advogado 3.807 16,7 2.435 16,7 636 20,2 735 14,6 266 19,6 221 19,1 45 22,3

Visita íntima 2.163 9,5 1.541 10,6 136 4,3 486 9,6 48 3,5 36 3,1 13 6,2

Outras 1.739 7,6 1.294 8,9 156 5,0 289 5,7 108 7,9 100 8,7 7 3,6

As unidades que contavam com escolas em funcionamento tiveram uma boa


avaliação por parte dos reclusos. Um deles comentou: “aqui eu estudo, como
agora eu estou no horário de escola, e eu acho muito bom”. Esse rapaz, preso na
Capital, vincula, em seguida, sua fala a duas questões cruciais que serão tratadas
aqui: de um lado, explicita sua vontade de aprender e também de trabalhar;
de outro, cita as dificuldades burocráticas e as exigências do Regulamento do
Sistema Penal do Estado do Rio de Janeiro que emperram várias possibilidades
de o recluso progredir. É o caso, por exemplo, da falta de licença médica para
que o preso obtenha o registro de classificação, indispensável para que possa ter
uma ocupação:
Eu procurei me classificar, ainda não consegui ser classificado, devido à
deficiência da falta de médicos, de atendimento aqui dentro. Quero me classificar
para começar a trabalhar, coisa que eu já faço há anos, mais ainda não consegui
o registro de classificação. (Homem, Capital)

95
Entre 2013 e 2015, momento em que esta pesquisa foi realizada, havia
5.161 presos matriculados em algum tipo de curso, o que corresponde a 21,29%
do total. A instrução escolar e a formação profissional dos detentos estão
previstas na atual legislação penal brasileira, mas muitos deles se queixaram de
que nem todos os que solicitam o ingresso nas atividades educativas conseguem
se inserir. Disseram também que existe descontinuidade nas propostas e rotinas
de acordo com cada gestão, o que torna muitas ações apenas pontuais e não
institucionalizadas. Essas queixas dos presos se tornam reivindicações pertinentes
de acordo com a Lei de Execução Penal, segundo a qual todos os estabelecimentos
prisionais devem ter, em suas dependências, serviços de assistência, educação,
trabalho, recreação e prática esportiva.
Ao contrário do que ocorre com o trabalho, a remissão da pena pelo ensino
não está prevista na Lei de Execução Penal, mas tem sido implementada em
alguns estados brasileiros, como é o caso do Rio Grande do Sul, do Rio de
Janeiro, do Mato Grosso do Sul, entre outros. Nessas unidades federativas foi
estabelecida a remissão de um dia de pena por 18 horas de estudo (Julião, 2006).
As atividades intelectuais poderiam ajudar em muito na ressocialização, abrindo
novos horizontes para esses indivíduos e aumentando suas expectativas de futuro.
Um número pequeno de presos fez menção a uma série de atividades não
obrigatórias, mas que não são oferecidas por muitas unidades. Em um ambiente
hostil e rotineiro, vale a reflexão sobre as iniciativas individuais e a liberdade
dos detentos de aproveitarem essas oportunidades capazes de tornar a vida
menos infeliz.
Os homens mencionaram várias iniciativas no espaço de livre expressão
nos questionários. Entre elas, há as de ordem física, manual e artística, como
fazer artesanato, confeitar salgados e doces, cortar cabelo, preparar lanches,
lavar roupa, distribuir alimentos nas celas, limpá-las, desenhar e pintar. As de
caráter intelectual, como ler, estudar, frequentar cursos em geral e em particular
de protético, oferecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(Senac), e de preparação para vestibular na Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (Uerj), ministrar cursos, compor música, participar de palestras e do
Projeto Vida – um curso oferecido pela Coordenação de Psicologia sobre Saúde e
Cidadania com palestras sobre diversos temas. Esse curso, atualmente, existe em
14 unidades do sistema, promovido pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento
Econômico e Social, uma ONG que atua nos presídios. As recreativas: jogar
baralho, cantar, correr, contar piada, fazer exercício físico, jogar futebol, tomar

96
banho de sol, ouvir rádio, usar drogas. As religiosas e espirituais: ir à igreja,
meditar, buscar a Deus, cantar louvores, orar, participar de cultos, ler a bíblia,
fazer trabalhos para a igreja. As meditativas e de expressão emocional: pensar na
vida, na liberdade, no futuro, nos filhos, sonhar e chorar.
Alguns detentos aproveitaram o espaço que lhes foi oferecido para
expressar seus sentimentos, desejos e reivindicações, para demonstrar revolta
e sentimentos depressivos, afirmando que usam seu tempo para serem inúteis,
sem recursos para fazerem o que gostariam, e para sentirem fome. Outros se
referiram também, como atividade, a prática do “ratão”, uma forma que criaram
de fazer sexo com a pessoa que veio visitá-los, quando não têm a visita íntima
autorizada. O ratão é consumado por meio da montagem de uma pequena cabana
improvisada com lençóis; ou ainda numa fila de banheiro, sob a vigilância e
cobertura de outros presos. Há agentes que fazem vista grossa, mas os detentos
apanhados nessa transgressão podem sofrer processo disciplinar e receber uma
pena que é aplicada pela comissão técnica.
As mulheres também citaram várias iniciativas, classificadas a seguir. Físicas
e manuais: fazer artesanato, costurar, lavar roupas, trabalhar. Recreativas:
dançar, cantar, escutar música, escutar rádio, brincar, fazer educação física,
tomar banho de sol. Religiosas: frequentar a igreja, ler a bíblia, orar e falar com
Deus, louvar a Deus, pregar a palavra divina. Intelectuais: estudar, ler, escrever
e realizar cursos. Interativas: namorar e conversar. Muitas delas colocaram como
atividades expressões emocionais e meditativas: chorar, pensar na família e nos
filhos, refletir sobre a vida, sonhar e sorrir.
Algumas detentas mencionaram ações que são obrigadas a realizar ou os
abusos de poder de que são vítimas: “ficar de castigo com a cara para a parede”
e “ser maltratada pela direção”. Falando, por exemplo, sobre como passam seu
dia, elevada proporção relatou que “prefere ficar sozinha”, o que foi bem menos
frequente entre os homens, que mostraram preferência pela prática de esportes,
conforme se observa no Gráfico 9. Houve diferença significativa entre homens e
mulheres para todos os itens (p<0,05), nesse particular, exceto para as atividades
de interação como ler e conversar.

97
Gráfico 9 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e atividades que costumam fazer

Na Tabela 14, encontram-se as preferências dos presos das distintas áreas


estudadas, em relação às poucas oportunidades de lazer: as únicas garantidas
e registradas por todos são os banhos de sol e assistir televisão. Nota-se que
os homens sobressaem como os que mais costumam “conversar e ver TV” e as
mulheres “conversar e dormir”. Houve diferença estatística significativa entre as
áreas do estudo para ambos os sexos em todos os itens pesquisados (p<0,01).

Tabela 14 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo


sexo, área e atividades que costumam fazer nos momentos de lazer
Homens Mulheres
Atividades Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Ler 14.796 75,7 9.335 73,4 2.281 81,9 3.180 79,0 820 73,5 698 72,7 122 78,2
Ver TV 17.607 86,3 11.331 85,2 2.470 85,7 3.806 90,8 762 68,7 638 66,9 124 79,3
Praticar
8.575 47,2 5.734 48,5 964 38,1 1.877 48,9 162 16,9 122 14,8 40 30,1
esportes
Conversar 16.835 87,3 10.931 86,7 2.451 88,3 3.453 89,1 979 86,6 835 85,1 144 96,4
Ficar sozinho 8.568 47,4 5.399 45,7 1.228 48,4 1.941 52,3 607 57,6 501 55,3 106 72,0
Dormir 14.880 82,0 10.279 80,7 2.245 81,7 3.356 87,2 972 84,9 812 83,2 160 94,7
Escrever 12.003 64,3 7.828 64,1 1.792 67,7 2.383 62,6 831 73,9 698 72,1 133 85,1
Outras 5.183 46,9 3.301 46,4 724 43,4 1.157 51,0 319 56,4 281 55,9 38 60,0

98
Dentre os entrevistados, poucos trabalhavam (4,4%) no período em que a
pesquisa foi realizada. A ociosidade foi pontuada por eles como um dos grandes
problemas do sistema prisional. Nos depoimentos, os presos manifestaram muita
vontade de trabalhar, tanto para ajudar na remissão da pena como para aprender
algum tipo de atividade que pudesse ajudar na sua reinserção social. Existe entre
eles um forte sentimento de que o tempo passado na instituição é tempo perdido,
destruído ou suprimido de sua vida; é tempo que precisa de algum modo ser
apagado; tempo que precisa ser vivido de forma mais ou menos preenchida
ou arrastada. Esse tempo é algo que pesa e que foi posto entre parênteses na
consciência dos reclusos, de uma forma que dificilmente se encontra no mundo
externo, por isso o preso tende a sentir que a permanência em reclusão o torna
totalmente exilado da vida.
Em síntese, a constante tensão entre o mundo interno e o mundo externo
ao universo da reclusão, como enfatizado por Goffman (1990), reforça o
distanciamento físico entre o espaço penitenciário e o espaço de convívio social
pleno, tornando as experiências vivenciadas no cárcere determinantes na vida
dos presos. Na maioria dos casos elas constituem empecilhos ou obstáculos nas
relações que se estabelecerão no seu retorno à liberdade.

Trabalho Classificado e
Não Classificado dos Presos
“O trabalho do condenado, como dever social e condição de dignidade
humana, terá finalidade educativa e produtiva”, preconiza a Lei de Execução
Penal brasileira (artigo 28). No entanto, autores como Lemgruber (1999) e Julião
(2010) afirmam que, no sistema penitenciário de países ocidentais, o trabalho
objetiva preferencialmente “diminuir os custos operacionais” e “manter o preso
ocupado”, afastando-o de atividades ilícitas e reduzindo o ócio.
Como se pode observar nos depoimentos a seguir, mesmo quando os
detentos realizam alguma atividade laboral, em geral podem ser consideradas
atividades precárias e quase sempre de baixo valor de troca. Por exemplo, numa
unidade da Baixada e noutra da Capital foi mencionado pelos presos que eles
fazem “reciclagem de materiais”. Porém, ao explicarem essa atividade, disseram
que lavam as quentinhas para venderem o alumínio utilizado ou guardam restos
de alimentos, transformando-os em lavagem, comprada por criadores de porcos.
Essas ações, segundo os entrevistados, visam à garantia de recursos mínimos

99
para compra de pequenos bens de consumo como papel higiênico, por exemplo.
No entanto, a maioria declarou levar uma vida de ociosidade e de desvalorização
de qualquer atividade criativa. Alguns depoimentos corroboram as informações
dos questionários:
Eu acordo de manhã cedo. Faz o confere, aí a gente abre a galeria, fica do lado de
fora conversando com os colegas, às vezes eu fico deitado assistindo televisão até
a hora de fechar, aqui minha rotina é essa. A única atividade que a gente tem aqui
é só o banho de sol. É uma vez por semana que a gente, ali na quadra, joga bola
até a hora de retornar. (Homem, Baixada)
Vêm as quentinhas, nós nos alimentamos e os amigos lavam elas e colocam
para vender. Aí aquela venda daquele alumínio reverte em papel higiênico para
o coletivo. E tem a limpeza. Tem o pessoal que limpa o pátio de visita. (Homem,
Capital)
Tem nada, lazer aqui é ver televisão, quando passa um jogo, um filme. Trabalho
aqui, aí que não tem nada mesmo, tem uns amigos que trabalham em negócio de
lixo [para reciclar]. Mas mesmo assim é um trabalho desumano, que os caras não
pagam. (Homem, Capital)
Atividade física aqui é praticamente impossível. O espaço é muito pequeno. Nós
temos um espaço aqui que é chamado banho de sol, que é uma hora e meia, duas
horas. Nós temos um espaço mínimo que dá para jogar um futebol. Sendo que a
quantidade de presos aqui é muito grande. (Homem, Capital)

Como foi dito anteriormente, o trabalho dos “faxinas” é remunerado e


classificado dentro de todas as unidades. Contudo, desse grupo participam apenas
alguns considerados privilegiados, pois apresentam uma rotina diferenciada,
tanto em relação à permanência na cela e à sua alimentação como ao acesso a
tratamento de saúde. Esse grupo circula mais livremente pelas unidades e ganha
poder sobre os demais internos. Muitos passam a intermediar conflitos e são
responsáveis pela tranquilidade das celas.
A categoria “faxina” é importante para se pensar o quanto qualquer sistema
é permeável a situações de privilégio, mesmo nas condições mais inóspitas.
Goffman (1990), estudando a instituição prisão, lembra que um mesmo preso
pode empregar diferentes mecanismos de adaptação em diferentes fases de sua
carreira moral e pode alternar entre várias táticas ao mesmo tempo. Quando ele
se mostra dócil e confiável a instituição passa a tratá-lo como um colaborador,
um participante “normal”, “programado” e “interiorizado”, independentemente
do fato de isso exigir muito ou pouco dele. A essa adaptação, como foi citado
no início deste livro, Goffman (1990) denominou “ajustamento primário”.

100
O autor desenvolveu ainda a ideia de “ajustamento secundário” para falar dos
participantes da organização prisional que empregam meios ilícitos ou não
autorizados para escaparem da rotina a que estão obrigados ou para obterem
certas satisfações proibidas.
Em resumo, o privilégio dos “faxinas” é apenas uma possibilidade que se abre
para alguns, o que os ajuda a atravessar com menos sofrimento a vida reclusa e
a ter algum poder perante os colegas. Entretanto, as mutilações do eu também
ocorrem entre eles, pois mesmo se estão cooperando com a direção do presídio,
têm de ser submissos e se adequar ao que lhe ordenam as chefias. Os depoimentos
de alguns se referem às atividades que realizam na rotina institucional:
Então aqui o convívio é normal, a gente trabalha, volta para nossa cela, pega
nosso almoço, de manhã acorda para trabalhar e assim o tempo passa mais
rápido. (Homem, Capital)
Acordo e tomo café. Aqui eu trabalho na zeladoria. Tem banho de sol uma vez por
semana e futebol. (Homem, Capital)
Trabalho. Comecei trabalhando aqui servindo alimentação. Agora eu trabalho no
acesso ao portão. A gente pega de 8h da manhã a 1h da tarde, no outro, pega de
1h da tarde às 6h e está tranquilo. A gente não tem contato com preso. A gente só
faz o acesso da chave, o funcionário é que é responsável pelo preso, a gente não
tem acesso nenhum ao preso. (Homem, Capital)
Eu sou faxina. Eu tenho certa liberdade. Eu fico solto o dia todo. Eu trabalho
com o segurança, com o chefe de segurança. No sábado eu fico na cela. Eu tenho
banho de sol duas vezes por semana. Duas horas de sol. (Homem, Interior)
Eu faço qualquer coisa, mas eu gosto mais do serviço mais difícil, esgoto, mexer
nesses troços aí. Eu abro esses tampões todos, eu não fico doente não. Os [guardas
dizem]: Rapaz, você vai meter a mão? O bicho cheio assim daqueles troços
boiando! Tiro o tampão lá e puxo às vezes uma garrafa que está lá. (Homem,
Interior)

O último depoimento apresentado acima dá pistas sobre a insalubridade de


algumas atividades realizadas (por exemplo, mexer no esgoto com as próprias
mãos) pelos presos dentro da penitenciária. Essa condição degradante de
trabalho choca-se com a determinação da Lei de Execução Penal em seu art. 28,
parágrafo 1º: “Aplicam-se à organização e aos métodos de trabalho as precauções
relativas à segurança e à higiene”.
No caso das mulheres, a rotina também é de ociosidade e, mais que os
homens, de autorreclusão. Uma grande maioria prefere nem sair das celas, numa
espécie de estado depressivo permanente.

101
De manhã, às 6h30 o café da manhã. Pão, leite e café. Ah, tem banho de sol às
9h que eu não desço. Eu não gosto de tumulto. O tumulto me deixa zonza. Eu não
posso tomar de sol. Eu tenho medo disso. Aí às 10h o pessoal sobe e 11h tem o
almoço. Um dia primeiro o lado A, depois o lado B. Aí passa a tarde toda a gente
vendo televisão, descansando e quando são umas 5h é o jantar. Aí depois confere
e a gente fica dentro da sala vendo televisão. (Mulher, Interior)
Eu acordo, tomo um banho e espero o café que passa às 7h. Pão sem manteiga. É
pão puro. Às vezes é pão de sal, às vezes é pão doce. Depois passa e dá o confere,
depois às 9h é banho de sol. Eu não gosto de tomar banho de sol. Muita gente
gosta de ficar na cela. (Mulher, Interior)
Os dias são todos iguais. Não tem nenhuma diferença. A gente fica na tranca o
tempo inteiro. Aí às vezes a gente tem um banho de sol que a gente fica duas horas
na quadra que não tem um banheiro, não tem um banco. Às vezes falta sol, outras
vezes [nosso nome] não está na planilha, outras vezes é outra galeria. A gente
nunca sabe. (Mulher, Capital)

Em um estudo realizado no sistema prisional do Rio Grande do Sul, Lemos,


Mazzilli e Klering (1998) confirmaram que o trabalho visava a garantir a ordem
e a disciplina dentro dos presídios, mantendo os apenados ocupados, de modo
a não terem tempo para pensar, e submissos aos preceitos institucionais. Os
presos se ressentiam da inexistência de critérios de seleção dos que deveriam ser
incluídos nas atividades laborais e da inércia da instituição quanto a oferecer-lhes
atividades em que pudessem encontrar algum significado.
Neste estudo, os entrevistados apontaram que não há trabalho para todos
e, mesmo quando há interesse por parte deles – o que é muito frequente –, as
rotinas internas, como a falta de médico para liberá-los para qualquer atividade
são muito demoradas e desanimadoras. A título de exemplo, coloca-se a seguir
o Quadro 5 sobre o número de presos que realizam atividades consideradas
formais, o que corresponde, como já dito, a apenas 4,4% do total.

102
Quadro 5 – Distribuição dos presos do estado do Rio de Janeiro que têm trabalho
classificado
Unidade Número de presos Número de presos que trabalham
Presídio Ary Franco 1.477 50
Colônia Agrícola Marco Aurélio Vergas Tavares de Mattos 86 54
Penitenciária Alfredo Trajan 1.831 53
Instituto Penal Benjamin de Moraes Filho 710 65
Cadeia Pública Bandeira Stampa 388 21
Presídio Carlos Tinoco da Fonseca 1.490 88
Instituto Penal Cândido Mendes 237 02
Cadeia Pública Cotrin Neto 1.380 11
Cadeia Pública Dalton Crespo de Castro 715 12
Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira 1.115 98
Instituto Penal Edgard Costa 584 22
Presídio Evaristo de Moraes 1.724 80
Cadeia Pública Franz de Castro Holzwarth 453 11
Cadeia Pública José Frederico Marques 380 05
Penitenciária Vieira Ferreira Neto 249 31
Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho 672 42
Hospital Dr. Hamilton Agostinho Vieira de Castro 54 03
Instituto Penal Ismael Pereira Sirieiro 530 28
Presídio João Carlos da Silva 1.433 08
Penitenciária Joaquim Ferreira de Souza 353 27
Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho 1.783 97
Cadeia Pública Juíza de Direito Patrícia Acioli 1.150 19
Cadeia Pública Jorge Santana 867 04
Penitenciária Lemos de Brito 627 77
Penitenciária Milton Dias Moreira 1.313 07
Penitenciária Muniz Sodré 2.711 126
Presídio Nelson Hungria 435 58
Instituto Penal Oscar Stevenson 309 20
Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho 2.906 198
Presídio Nilsa da Silva Santos 308 22
Cadeia Pública Pedro Melo da Silva 1.015 04
Cadeia Pública Pedrolino Werling de Oliveira 56 27
Hospital Penal Psiquiátrico Roberto Medeiros 109 03
Cadeia Pública Romeiro Neto 554 15
Penitenciária Serrano Neves 800 44
Sanatório Penal 59 05
Presídio Elizabeth Sá Rego 1.066 20
Penitenciária Talavera Bruce 359 46
Cadeia Pública ISAP Tiago Teles de Castro Domingues 989 27
Presídio Diomedes Vinhosa Muniz 712 23
Instituto Penal Vicente Piragibe 2.768 101
Total 37.255 1.648

Fonte: Coordenação de Inserção Social, 2014.

103
Segundo Foucault (2009) e concordando com Goffman (1990), o modo
de vida imposto ao criminoso na prisão, caracterizado pelo isolamento e
pela realização de atividades nas quais o presidiário não visualiza utilidade,
corrobora para reforçar a criminalidade, ao desencadear sentimentos de revolta e
humilhação: “ainda que não recorram a castigos violentos ou sangrentos, mesmo
quando utiliza métodos suaves de trancar ou corrigir é sempre do corpo que
se trata – do corpo e de suas forças, da utilidade e da docilidade delas, de sua
repartição e de sua submissão” (Foucault, 2009: 28).
Como ressalta Quintino (2006), a sociedade brasileira, de maneira geral,
considera que todo detento deveria trabalhar, pelos mais variados motivos. Alguns
defendem a máxima de que o trabalho dignifica o homem; outros consideram que
a mente desocupada é oficina do diabo; há os que, a partir de uma visão católica
do trabalho como suplício, defendem-no por vingança (se a vítima e sua família
trabalhavam, por que o criminoso tem o direito de ficar à toa?); muitos também
são favoráveis ao trabalho nas prisões por uma questão de ordem econômica,
para desonerar os cofres públicos dos custos com a manutenção dos detentos.
Existem, inclusive, os mais exaltados que defendem trabalhos forçados para os
prisioneiros.
O trabalho no mundo contemporâneo é compreendido como direito do ser
humano, intrinsecamente relacionado com a dignidade da pessoa, uma vez que
proporciona ao indivíduo sentir-se útil e adquirir bens para a sua subsistência. A
atividade laboral tem sido ressaltada, também, pelos estudiosos da pena privativa
de liberdade como meio eficaz para reafirmar ao preso o sentido reeducador da
pena, provendo o hábito da disciplina e preparando-o para que possa encontrar
emprego quando posto em liberdade.
O art. 6 da Constituição da República Federativa do Brasil classifica o
trabalho como um dos direitos sociais. Tendo em vista que, em razão de sua
condenação, o preso está limitado na sua possibilidade de exercê-lo livremente,
cabe ao Estado promovê-lo nos estabelecimentos prisionais. Foi muito grande o
número de presos entrevistados que se queixou de não ter uma ocupação – “assim
o tempo custa a passar” – concordando com o que escreveu Drauzio Varella em
Estação Carandiru (1999), a “mente ociosa é moradia do demônio, a própria
malandragem o reconhece”. De modo que, por seu próprio desejo, a maioria dos
detentos entrevistados gostaria de cumprir a pena trabalhando, inclusive porque
a seu ver, “o tempo passa mais depressa, e a noite, com o corpo cansado, a gente
nem tem tempo de sentir saudade”, conforme assinalou um dos reclusos.

104
Já desde os clássicos da sociologia (Weber, 1999; Marx, 1994) reconhece-se
que o ser humano transforma e se transforma pelo trabalho, tão necessário para
seu equilíbrio físico e psíquico. Na visão dos reformadores que propuseram a
substituição do suplício pela prisão no século XIX (Foucault, 2009), o sistema
prisional deveria organizar-se como uma espécie de fábrica, visando a modelar
o novo comportamento dos criminosos. Dessa forma, o ideal seria que todo
condenado trabalhasse, como forma de reeducá-lo e dar-lhe um ofício, por
meio do qual ele aprenderia regras básicas e fundamentais de convivência e de
disciplina, e, ademais, pagaria sua dívida com a sociedade. O trabalho eliminaria
a ociosidade, ocupando os detentos com obrigações sociais e custeando
suas despesas na prisão, além de garantir-lhes uma renda financeira que lhes
asseguraria sua reinserção moral e material no mundo social e da economia.
Durante a instituição da prisão, houve controvérsia sobre a questão do
trabalho. Alguns reformadores do século XIX supunham que o confinamento
solitário do preso deveria levá-lo à meditação e à reflexão sobre seu crime e sua
futura reintegração na sociedade. Mas essa foi uma idealização que não encontrou
grande ressonância entre os pensadores da época e não caberia absolutamente na
realidade brasileira, na medida em que a superlotação – quase como regra – inibe
os processos de individualização, de conscientização e de reflexão. Por isso, hoje,
em quase todo o mundo, o trabalho é visto como parte da reabilitação, embora a
Constituição de 1988, em seu art. 5, inciso XLVII, vede a imposição de trabalhos
forçados, de modo que nenhum recluso pode ser obrigado a trabalhar.
As “Regras mínimas para o tratamento de reclusos” (ONU, 1955) adotadas
pelo 1º Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção do Crime e Tratamento de
Delinquentes, realizado em Genebra, em 1955, estabeleceram que o trabalho na
prisão deve estar em consonância com as aptidões físicas e mentais do apenado.
Ademais, ressalta o documento, o trabalho deve ser útil, possibilitando ao preso
exercer uma atividade que possa aumentar sua capacidade de ganhar a vida
honestamente. Segundo tais regras, o Estado deve proporcionar treinamento
profissional aos presos para que possam exercer uma atividade digna quando
postos em liberdade, permitindo-lhes, sempre que possível, escolher o tipo de
treinamento profissional que preferem realizar.
Preceitua o texto que o trabalho dentro do estabelecimento prisional deve se
assemelhar ao exercido fora, preparando o apenado para as condições normais
do mercado de trabalho. Nas “Regras mínimas”, orienta-se também que nos
estabelecimentos penitenciários sejam tomadas as mesmas precauções prescritas

105
para a proteção, segurança e saúde dos trabalhadores, entre elas, um dia de descanso
semanal e um tempo destinado à educação e a outras atividades necessárias a seu
tratamento e reabilitação. Esse documento determina ainda que os presos que
trabalham recebam uma remuneração que lhes permita utilizar uma parte para
adquirir objetos de uso pessoal, outra para enviar à família, e uma terceira para
depósito num fundo prisional criado pelo sistema. A quantia depositada nesse
fundo deveria ser entregue ao preso quando posto em liberdade (ONU, 1955).
Autores como Rosa (1995) consideram que os reclusos que exercerem atividade
laboral deveriam ser premiados, recebendo certas vantagens. E, ao contrário, os
que preferissem ficar ociosos deveriam estar sujeitos a restrições e punições.
A afirmação repetida por centenas de entrevistados na pesquisa sintetiza
a questão: “ficar trancafiado dentro das celas, contando os dias para a almejada
liberdade, não ajuda ninguém a se ressocializar”. Tanto a doutrina jurídica como
os próprios presidiários ressaltam a importância do trabalho e dos treinamentos
profissionalizantes que possam aumentar suas chances de encontrar emprego
quando forem colocados em liberdade.

Religião e Espiritualidade na Prisão


Às prisões cabe punir e criar condições para recuperar cidadãos. Às religiões cabe
acolher, perdoar, redimir, converter para recuperar espíritos. Em sua constante
busca de fiéis, as religiões nas prisões são apenas “funcionais” ao sistema? Ou,
para além das “acomodações alienantes”, as religiões podem ser vias tanto para a
huma­nização das relações quanto para a reinserção societária?
Novaes, 2005

Desde o século XIX, a pena sempre esteve associada à educação moral, ao


trabalho e à religião, no caso, à católica, oficial e hegemônica nesse momento
histórico. À medida que as constituições dos países democráticos ocidentais
instituíram a separação entre Estado e Igreja, outras denominações religiosas
passaram a se interessar pela situação dos apenados, como ressalta Novaes (2005),
em relação à situação do Brasil. No caso nacional, essa relação se torna cada vez
mais evidente, sobretudo, por parte dos credos protestantes-pentecostais que
competem com a pastoral penal católica. As religiões espíritas e afro-brasileiras
sempre tiveram menor visibilidade no espaço prisional. A mesma autora destaca
que elas não são confissões proselitistas e ocupam uma “posição subordinada
no campo re­ligioso, tanto na sociedade como dentro dos presídios” (Novaes,
2005: 8). Isso foi igualmente observado por Silva (2007), Nascimento (2005) e

106
Pinto (2005). É importante lembrar também que as atividades de assistência
religiosa estão regulamentadas pela Lei de Execuções Penais desde 1984.
Nos dados estatísticos, a presença e o papel da religião são muito
relevantes nos presídios do estado do Rio de Janeiro. Por isso, além de mostrar
as importantes informações colhidas com os próprios detentos, este capítulo se
desdobra em várias considerações e argumentações – hoje quase consensuais – de
que a função da religião na vida prisional é positiva. Contudo, vozes discordantes
e críticas existem e é importante ouvi-las, sobretudo porque de ambos os lados
há evidências empíricas. Em todos os casos, é bom também distinguir religião e
espiritualidade e pontuar o papel específico do grupo confessional.
Neste estudo, indagaram-se os participantes acerca de sua vivência religiosa
na situação de reclusão. Na parte quantitativa, a seguinte pergunta foi feita:
“você pratica alguma religião atualmente?” A entrevista qualitativa aprofundou
o tema. Buscou-se, assim, levantar algumas experiências relacionadas às
práticas religiosas no espaço do cárcere e compreender sua função na vida e na
ressocialização dos detentos.
Encontraram-se 79,8% dos homens e 90,2% das mulheres que praticam
algum tipo de religião (Tabela 15), evidenciando que, na situação prisional, a
busca do transcendente se aguça, sobretudo no caso das mulheres (p<0,01).
No grupo masculino, os homens da Baixada Fluminense foram os que mais
informaram práticas religiosas, exatamente o grupo mais maltratado dos três
estudados. Entre as mulheres não há diferença de crenças e práticas entre as
encarceradas da Capital e do Interior do estado.

Tabela 15 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e prática religiosa
Homens Mulheres

Religião Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


(N=21.855) (N=14.047) (N=3.024) (N=4.784) (N=1.318) (N=1.123) (N=195)

Frequentemente 30,2 29,9 33,8 28,5 36,8 38,0 29,6


Às vezes 48,8 48,9 50,5 47,4 53,4 52,1 61,1
Não pratica 20,2 21,2 15,7 24,0 9,8 9,9 9,3
Total 100 100 100 99,9 100,0 100 100

Os indivíduos costumam procurar apoio na religião ou na espiritualidade


nessa situação tão particular de encarceramento, e muitos estudiosos confirmam
isso. Para se compreender o papel positivo das mudanças ocorridas com a pessoa
em busca do transcendente, vários termos são utilizados. Na ótica da saúde, a

107
reabilitação de um detento pode ser lida como um processo global e dinâmico
orientado para sua recuperação física e psicológica, o que envolve a ideia de
saúde como um conceito amplo que inclui “bem-estar físico, psíquico, espiritual
e social a que todos os indivíduos têm direito” (Brasil, 2014b). Na esfera jurídica,
a recuperação é entendida como um benefício com o objetivo de restituir ao
condenado o direito a ter sua ficha de antecedentes criminais apagada após o
cumprimento de sua pena. Já o termo reabilitação relaciona-se à ressocialização,
garantindo, em tese, o sigilo de antecedentes (Lima, 2015). Segundo Silva e
Moreira (2006), reabilitação, reeducação, ressocialização e reinserção social são
expressões que se equivalem e designam a chamada terapia penal: devolver a
pessoa presa à sociedade para que ela possa ser integrada, útil e produtiva.
Com relação ao processo de recuperação e de reabilitação, considerável
número de trabalhos vem sendo desenvolvidos dando ênfase ao papel da religião,
que acrescenta a todas as expressões citadas anteriormente a de conversão. Aqui
cabe uma distinção que permite mostrar várias diferenciações nos depoimentos
dos presos e presas sobre as opções de práticas religiosas. Em muitos estudos
citados, os termos espiritualidade e religiosidade são tratados, ora tomados
como iguais ou semelhantes, ora focalizando um ou outro aspecto. Na sua
definição mais usual, religião se relaciona a um sistema institucionalizado de
crenças, símbolos e tradições que se definem a partir de certa cosmologia. Nesse
sistema há procedimentos organizados, hierarquias, grupos de adesão ou filiação,
congregações de leigos, encontros, normas éticas e morais, entre outros aspectos.
Já espiritualidade é uma “dimensão da força interior de uma pessoa, que traduz
um modo de viver característico das relações entre o indivíduo e o transcendente
e entre o indivíduo e seus semelhantes” (Ribeiro & Minayo, 2014: 1.774).
A espiritualidade não exige a pertença a um grupo religioso ou a uma instituição
(Ribeiro & Minayo, 2014). Na observação das situações apresentadas pelas
detentas e pelos detentos, muitos privilegiam a prática religiosa em grupo. Outros
valorizam o silêncio religioso da espiritualidade, sem que os dois movimentos se
apresentem como incompatíveis.
Estudando práticas criminosas, a maioria dos autores afirma que a religião
tem papel protetor contra a violência. Esse é o caso de Pearce e colaboradores
(2003), Regnerus (2003), Johnson (2001), entre outros. Grande parte dos
estudiosos considera a religião como uma forma de apoio diante das durezas
da vida prisional e da vulnerabilidade perante estressores, para contribuir com
a elaboração de expectativas promissoras (Fernander et al., 2005; Moraes &

108
Dalgalarrondo, 2006; Guedes, 2006; Schneider & Feltey, 2009; O’Connor &
Perreyclear, 2002; Allen et al., 2008; Wahl, Cotton & Harrison-Monroe, 2008;
Huculak & McLennan, 2010; Skotnicki, 1996).
Em geral, na literatura, os aspectos positivos mais ressaltados dizem respeito
à importância da religião na mudança de hábitos de vida; no suporte social; no
enfrentamento das dificuldades; em curas de enfermidades psicossomáticas; na
recuperação de doenças e da dependência de drogas; na melhoria da saúde mental,
na qualidade de vida, no bem-estar psicológico; e na superação da depressão e
dos comportamentos suicidas (Alves & Minayo, 1994; Minayo, 1994; Rabelo,
1994; Panzini et al., 2007; Dalgalarrondo, 2007; Lessa, 2008; Rocha, 2010).
Pesquisas sobre o papel dos grupos religiosos também destacam sua
contribuição para tirar as pessoas do isolamento, promover conforto espiritual e
criar laços que, frequentemente, se estendem depois que os detentos voltam para
o convívio da sociedade (Timor, 1998; O’Connor & Perreyclear, 2002; Allen
et al., 2008; Huculak & McLennan, 2010). Dentro dos cárceres, particularmente
as conversões realizadas pelas religiões pentecostais e neopentecostais
funcionam como estratégia de pacificação das relações. A conversão pode
significar efetivamente uma salvação da vida do indivíduo, como uma base de
apoio legitimada socialmente e pelo grupo. No mesmo sentido, Scheliga (2005a)
observa, em seu estudo sobre prisões, e ouvindo diversos membros do corpo
de funcionários, três principais vantagens de ser crente: poder ocupar celas e
alas consideradas mais calmas; receber bens materiais provindos de trabalhos de
igrejas; se reaproximar das famílias por meio da intervenção delas; e, ter facilitada
a mediação nos encaminhamentos dos processos penais.
Nas entrevistas e escritos espontâneos dos detentos, a prática religiosa
foi muito citada por homens e mulheres, até mesmo como parte de sua rotina
institucional. Mencionaram adesões tanto a cultos evangélicos quanto à
pastoral católica, assim como a existência de espaços específicos para oração.
No entanto, muitos presos e presas confidenciam que preferem exercitar sua fé
dentro da própria cela, numa linha muito mais espiritualista do que de práticas
ritualísticas:“Eu prefiro orar no silêncio, em minha cela” (Mulher, Capital).

As mulheres e a religião
Várias mulheres mencionaram a importância de “frequentar a igreja, ler a
Bíblia, orar, falar com Deus e louvá-lo, pregar a palavra divina e praticar a fé”

109
como um meio de dar sentido ao seu tempo dentro da prisão, como é ressaltado
no depoimento a seguir: “Muitas gostam de ir para a igreja. Na minha cela tem
muita gente cristã. Cada mês o culto é numa galeria” (Mulher, Capital).
Acerca da religiosidade desenvolvida por mulheres detentas, Moraes e
Dalgalarrondo (2006), em suas pesquisas, encontraram um significado muito
positivo, particularmente quanto ao impacto sobre a saúde, à contribuição para
melhor ajustamento à realidade prisional e à superação de situações difíceis,
incluindo-se a do próprio aprisionamento, por meio de práticas ou de reflexão
espiritual. No mesmo sentido, por meio de pesquisa numa penitenciária feminina,
Guedes (2006) ressaltou a função da religião não apenas para as detentas, mas
também para o próprio equilíbrio institucional.
Nos depoimentos das internas, a participação em atividades religiosas as
leva a “ouvir a Deus”. Todavia, como mostra Guedes (2006), seu papel vai além:
juntar-se para rezar permite às detentas saírem de suas celas, ampliarem sua
comunicação, ouvir o outro e, muitas vezes, diminuir o uso de medicamentos
destinados a aliviar seus sintomas depressivos ou psicossomáticos.
Ao investigarem mulheres encarceradas especificamente por terem
matado seus parceiros, pais ou padrastos abusivos, Schneider e Feltey (2009)
ressaltaram o papel positivo de suas experiências espirituais durante o tempo
de encarceramento, independentemente das crenças religiosas que praticavam.
A participação em programas confessionais, associada à adesão a grupos
terapêuticos, permitiu-lhes um “ponto de virada” que os autores sintetizaram
como sendo um tipo de conforto espiritual e de abertura para se livrarem da
culpa pelo assassinato do agressor.

Os homens e a religião
Também os homens encarcerados afirmaram a prática religiosa, mesmo
que em menores proporções que as mulheres. Os dados sobre eles são muito
significativos, como podem ser constatados na Tabela 15. Seus depoimentos
deixam entrever como essa experiência desempenha papel importante no
enfrentamento das duras condições da prisão:
Religião, nós praticamos dentro da cela mesmo, juntamos uns irmãos aí e fazemos
um culto. Os irmãos da cela mesmo fazem um culto, porque se for depender deles
aí [dos funcionários] vem irmão de fora, pastores. (Homem, Capital)

110
É quase todo dia que faz na galeria. Vem também uma pessoa de fora.
(Homem, Capital)
Eu ia à igreja católica, mas devido eu vir preso, dessa vez eu fiquei com vergonha
de ir lá encarar meus amigos lá. (Homem, Interior)
Também saio em cultos. Os cultos aqui são todas as sextas-feiras. Às vezes de
manhã, às vezes à tarde, mediante aqui ser um presídio de segurança máxima.
(Homem, Capital)

Allen e colaboradores (2008) encontraram menores índices de depressão e de


ideação suicida em homens encarcerados que praticavam algum tipo de religião
ou cultivavam a espiritualidade. O’Connor e Perreyclear (2002) descobriram
a mesma influência em relação aos índices de infração interna. Esses autores
comentam que a religião traz esperança, incentivo para a mudança e diminui o
sentimento de isolamento para os homens, da mesma forma que acontece em
relação às mulheres. Eles chegam a concluir que os programas religiosos são mais
eficazes do que outros tipos de iniciativas e mais baratos, por serem realizados
por voluntários. No caso brasileiro, Scheliga (2005b) ressalta que o trabalho
realizado pelas instituições religiosas serve de auxiliar do trabalho dos técnicos
e até mesmo como substituto da atuação dos psicólogos e assistentes sociais.
Neste estudo se encontrou um número ínfimo e absolutamente insuficiente de
psicólogos em relação à quantidade e às necessidades dos detentos. Scheliga
considera que, a respeito das práticas religiosas funciona uma espécie de cálculo-
benefício entre a população prisional:
E, por essa razão (por compartilharem um habitus que os posicionava num
determinado campo de relações frente aos demais detentos), redefiniram (os
convertidos) sua inserção ‘no mundo’; não porque fossem, necessariamente,
‘inteligentes’ ou ‘manipuladores’ ou ‘utilitaristas’, mas porque obedeciam ao jogo
inscrito na instituição à qual estavam vinculados, que é pautado pela noção de
‘ressocialização’ e, portanto, pela ideia de mudança. (Scheliga, 2005a: 70)

Essa “economia da religião” utilizada pelos presos não significa que suas
práticas sejam mentirosas ou um engodo. Sobre programas de reabilitação,
em sua pesquisa com homens encarcerados que vivenciavam sua fé na prisão,
Timor (1998) descobriu que eles se sentiam como cidadãos seguidores da lei,
qualitativamente diferentes do que haviam sido no passado. Por meio desse
estudo, o autor pondera que meios coercitivos e punitivos não favorecem
mudanças comportamentais. Em sua avaliação, práticas religiosas são mais
eficazes. Confirmando a mesma constatação, Skotnicki (1996), ao discutir as
políticas de reabilitação desenvolvidas nos Estados Unidos, lastima que a religião

111
tenha sido substituída nas prisões pela atuação de especialistas como psicólogos,
médicos e assistentes sociais. Segundo o autor, os próprios cientistas sociais,
atualmente, vêm redescobrindo que a abertura ao transcendente pode ser uma
chave para a reabilitação, inibindo a relação entre crime e delinquência. Por sua
vez, essa é uma questão delicada, pois Rodrigues (2005: 12) encontrou em uma
penitenciária feminina brasileira “evidência de uma estratégia do poder público
repassar às instituições religiosas (...) a solução dos conflitos decorrentes de
um processo de mortificação e de deterioração de identidades que os sujeitos
enfrentam dentro de uma instituição total”.
Na situação citada, a interpretação é que os religiosos estariam atuando em
substituição das competências e responsabilidades do poder público e de seus
agentes. Com o fracasso de uma suposta proposta de ressocialização por parte
do sistema, os religiosos ocupariam a função de trabalhar com os indivíduos
uma mudança de orientação – passagem do delito e do crime para uma vida
correta e legal –, isto é, operando uma conversão e preparando-os para o
retorno à sociedade. Mais que os agentes do Estado, os religiosos encarnariam
a própria proposta de ressocialização. Quiroga (2005), a esse respeito, lembra
que em muitas outras situações as religiões e seus agentes são convocados a
atuar no espaço do cárcere, como na intermediação de rebeliões e motins. Para
a autora, é como se as igrejas estivessem garantindo ou infundindo na população
carcerária maior confiabi­lidade para ocupar espaços e exercer funções civis de
responsabilidade do que os órgãos técnicos ou o próprio Estado.
Assim, apesar de a maioria dos autores ser a favor das práticas religiosas na
prisão, alguns criticam uma concepção relativamente corrente no senso comum
de que pessoas que praticam atividades religiosas estariam menos propensas
a cometer crimes. É o caso de Pettersson (1991) e Fernander e colaboradores
(2005) que encontraram uma relação positiva entre religião e ocorrência de
crimes sem vítimas, ou seja, em delitos contra o patrimônio.
Fernander e colaboradores (2005) analisaram a relação entre espiritualidade
e religiosidade e diferentes condenações criminais, encontrando os seguintes
resultados: os envolvidos com tráfico de drogas apresentam menor propensão
a aceitar valores religiosos; já alguns condenados por cometerem violências e
agressões afirmaram que suas ações tiveram motivação religiosa. O mesmo se
observa atualmente em relação aos crimes e mortes por intolerância religiosa em
todo o mundo. Alguns pesquisadores como Applegate e colaboradores (2000),
Unnever, Cullen e Applegate (2005) e Leiber (2000) destacam, por meio dos

112
resultados de seus estudos, que os indivíduos que vivem em sociedades onde
impera o fundamentalismo religioso tendem a apoiar a atribuição de penas mais
duras aos que cometem crimes e que seu extremismo pode prejudicar sua própria
saúde mental. Nos casos de conversão de criminosos brasileiros, vários autores
questionam se, em muitas situações em que as pessoas se dizem reabilitadas,
ocorre uma real transformação, ou apenas as atividades religiosas constituem
uma estratégia a mais de sobrevivência em espaços violentos, como os presídios.
Novaes (2005), entre outros, destaca o empenho de muitos autores na
busca por descobrir a veracidade das conversões, ressaltando que, mesmo em
outros espaços sociais, não há como aferir essa mudança. Dias (2005) afirma
que as altas taxas de reincidência na criminalidade de presos ditos convertidos
alimentam a desconfiança da efetiva “aceitação da palavra de Jesus” para além
dos muros do cárcere. Diante do cotidiano institucional, a bíblia pode tornar-
se um amuleto de proteção, motivando o que alguns denominam de “esconder-
se atrás da bíblia” (Dias, 2005; Scheliga, 2005a, 2005b), o que garante, por
exemplo, a moradia em galerias específicas para religiosos e outros privilégios. E,
ainda, alguns pesquisadores chamam atenção para o fato de que a religião pode
também produzir sofrimento psíquico e violência, na medida em que tabus e
preconceitos religiosos a respeito de certos grupos civis produzem discriminação
e exclusão, até mesmo dentro do sistema penitenciário (Dalgalarrondo, 2006;
Stroppa & Moreira-Almeida, 2008).

Análise da (In)Satisfação dos Presos


Além de produzir a delinquência (a prisão) também consegue produzir um
homem medroso, aflito e angustiado, avesso à ideia de liberdade, incapaz de gerir
sua própria vida, desesperado pelo medo da hostilidade social e do despreparo
profissional, abatido psicologicamente e sem perspectiva.
Araujo Jr., 1995.

Nesta seção são tratadas as questões de alimentação, de infraestrutura, de


transporte e do ambiente em que estão confinados os presos e presas do estado
do Rio de Janeiro, assim como suas relações interpessoais com os familiares,
entre si e com os gestores.
No intuito de aferir o grau de satisfação dos internos com os
relacionamentos, as condições das celas e o atendimento recebido por
profissionais da saúde e assistência social, solicitou-se aos presos que atribuíssem

113
uma nota de 0 a 10 para diversos itens, como mostra o Gráfico 10. As notas
médias foram relativamente baixas e nenhuma ultrapassou 6,5. Os homens se
mostram mais insatisfeitos que as mulheres na maioria dos itens, exceto quanto
ao relacionamento com os colegas presos, o atendimento médico, dentário e a
alimentação. As maiores notas auferidas por eles foram para o relacionamento
dos presos entre si (6,2 pelos homens e 6,0 pelas mulheres). A alimentação, o
atendimento dentário e o transporte foram os itens com pior avaliação, e, por
isso, serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. Houve diferença
estatística significativa entre as notas atribuídas por homens e mulheres em todos
os itens, exceto para alimentação, em que ambos os grupos auferiram valores
semelhantes e muito baixos (p<0,05).

Gráfico 10 – Nota média atribuída pelos presos do estado do Rio de Janeiro para
o grau de satisfação com aspectos da vida e relacionamentos no
presídio, segundo sexo

Como se observa na Tabela 16, os homens presos na Baixada e no Interior


do estado atribuíram notas médias piores que os detentos na Capital para todos
os itens pesquisados, com diferença significativa (p<0,05). Entre as mulheres,
também houve diferença estatística para todos os itens (p<0,05), porém as da
Capital avaliaram mais negativamente os itens relativos ao tamanho e condições
das celas, à alimentação e aos relacionamentos com outras presas, com os agentes
e com a direção do presídio.

114
Há diferenças substanciais que distinguem os gêneros na vida prisional. As
mulheres são frequentemente caracterizadas como esquecidas no sistema por suas
famílias. São reconhecidas por receberem menos programas e serviços do que
os presos do sexo masculino, por considerarem mais insuportável o isolamento
social da vida prisional e por terem mais dificuldades em aderir a subculturas
e códigos prisionais. As dores do aprisionamento feminino incluem estigma do
encarceramento, claustrofobia, ansiedade por não estarem cuidando dos filhos, por
apresentarem mais problemas físicos e emocionais que acompanham a abstinência
de drogas em relação aos homens. Elas se ressentem muito da insensibilidade e
abuso de poder por parte dos agentes e de outras presas, além de terem dificuldades
cognitivas e não saberem como ou quando expressar seus sentimentos (Chesney-
Lind, 2015; Greer, 2000). Tais vivências conformam a crítica visão feminina sobre
a vida prisional, expressa em notas baixas e, especialmente, no pior relacionamento
com as outras detentas e na insatisfação com a assistência à saúde, quando se
fazem comparações com os homens.

Tabela 16 – Notas médias atribuídas pelos presos do estado do Rio de Janeiro


para o grau de satisfação com aspectos da vida e relacionamentos
estabelecidos no presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres

Grau de satisfação Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP

Tamanho e
3,0 3,3 3,0 3,4 2,2 2,8 3,5 3,6 4,8 3,6 4,7 3,6 4,8 3,7
condições da cela
Atividades que
desenvolve no 2,6 3,3 2,7 3,3 1,6 2,7 2,9 3,4 3,4 3,9 3,6 3,9 2,4 3,5
presídio

Alimentação 2,2 2,9 2,3 3,0 1,4 2,1 2,3 2,8 2,1 2,9 1,9 2,8 2,9 3,4

Atendimento de
2,2 3,2 2,3 3,4 1,5 2,5 2,3 3,1 2,8 3,6 2,9 3,6 2,7 3,3
psicologia
Atendimento do
2,9 3,4 3,1 3,5 2,0 2,9 3,1 3,4 3,2 3,7 3,5 3,8 1,8 2,9
serviço social
Atendimento
2,6 3,3 2,6 3,3 2,1 2,8 2,9 3,3 2,2 3,3 2,3 3,4 1,7 2,9
médico
Atendimento
1,9 3,1 2,0 3,2 1,6 2,7 1,9 3,1 1,7 3,2 1,8 3,2 1,0 2,6
dentário
Relacionamento
com outros 6,2 3,8 6,2 3,8 6,1 3,9 6,4 3,7 6,0 3,8 5,9 3,8 6,7 3,6
presos

Relacionamento
3,3 3,9 3,4 3,9 2,2 3,2 3,8 4,1 5,2 4.0 5,1 3,9 5,9 4,1
com os agentes

Relacionamento
3,1 3,8 3,3 3,9 1,9 3,2 3,5 3,9 4,5 4,2 4,3 4,2 5,5 4,2
com a direção

Transporte 1,2 2,5 1,2 2,5 0,9 2,2 1,5 2,7 1,9 3,1 1,9 3,1 1,5 2,8

115
Há também distinções significativas entre as avaliações dos cenários
prisionais da Capital, do Interior e da Baixada. Autores internacionais avaliam
que os comportamentos dos presos estão relacionados a fatores advindos: do
indivíduo, como por exemplo, violência prévia e convicções pessoais; da prisão,
como superlotação, razão entre agentes e presos, integração racial; do sistema de
custódia existente na prisão, que classifica os detentos quanto ao grau de perigo
que podem provocar, orientando assim a sua possibilidade de movimentação e
de atuação na prisão (Worrall & Morris, 2011). Devem-se acrescentar à visão
muito negativa do contexto prisional apresentada na Tabela 16 as avaliações
ainda piores quanto às situações de isolamento, de celas superlotadas ou dos
controles institucionais em que as violências são cumulativas.
Em outro polo, talvez pelas vivências menos cruéis e dolorosas, estão os
presos “faxinas” ou os que estão em unidades menores e mais distantes de
ambientes dominados pela violência interna ou a exercida por agentes da lei.
A parte aberta dos questionários, em que se deixou a cada preso a liberdade
de se expressar sobre a vida na prisão, é bastante esclarecedora sobre a
pontuação tão negativa a respeito dos vários aspectos da vida cotidiana: 518
homens e 325 mulheres se manifestaram. Houve muitas reclamações sobre
sua situação jurídico-legal, o que confere com dados de que a 40% deles ainda
não foi atribuída pena. Também sobressai o fato de que muitos, segundo seus
depoimentos, já tenham cumprido suas sentenças e continuam detidos. Em suas
falas, os homens e mulheres se manifestaram com elevado grau de insatisfação e
expuseram de forma contundente dos problemas que vivenciam, coadunando-se
com as baixas notas citadas no Gráfico 10 e na Tabela 16.
Autores têm demonstrado que a capacidade de se ajustar ao ambiente
prisional está associada a alguns aspectos individuais, como sentimento de bem-
estar psicológico, de segurança e grau de tolerância e controle pessoal; e outros
mais gerais, como a natureza das interações sociais com outros presos e com o
corpo diretivo e gerencial da instituição e a prevalência de episódios violentos
dentro da unidade (Morris, 2008). Como se poderá visualizar nas próximas
seções, nenhum dos fatores de adaptação positiva, indicados anteriormente, é
fomentado pelo ambiente prisional do estado do Rio de Janeiro, o que justifica
a insatisfação generalizada e a constatação de que esse ambiente não preza a
reintegração social dos indivíduos às suas famílias e às comunidades, ao fim do
cumprimento da pena.

116
Relacionamentos Interpessoais
Os relacionamentos dos reclusos com os familiares, entre si e com os agentes
e gestores representam um tema crucial na prisão, pois de um lado há a ruptura
do detento com o mundo externo (famílias e amigos) que continua muito menos
presente fisicamente e muito mais idealizado, de outro o preso é introduzido
numa nova comunidade de pessoas quase sempre desconhecidas, com as quais
passará as 24 horas diárias, em geral por anos. Vê-se ainda confrontado por
autoridades hierárquicas que exigem disciplina e sua involuntária colaboração
e obediência. Para cada um desses três conjuntos, ele precisa desenvolver novas
estratégias de convivência e comunicação.

Relacionamentos com as famílias e amigos


Existe uma verdadeira turbulência das relações de parentesco, quando alguém
é encarcerado. Embora muitas famílias façam filas nos dias permitidos para visitar
seus entes queridos, uma boa parte deles se ressente, sobretudo, da ausência
do pai, da mãe e da companheira com quem conviviam. A situação de prisão
surge com grande frequência nos relatos como mais um momento de ruptura dos
vínculos familiares. Muitos homens afirmaram se sentirem abandonados após
a reclusão. Já as mulheres sequer esperam que seus companheiros as visitem.
“Eu tinha uma família que dava o maior apoio!” disse um preso na Baixada
Fluminense, conjugando o verbo no passado, a partir de um presente cheio de
mágoas. A separação de laços se expressa nas falas dos presos:
Meu pai nunca faltou com as responsabilidades dele. Mas devido à criação e
ele morar muito distante, eu nunca tive muito contato. Com minha mãe eu já
mantenho contato direto. Eu escrevo cartas, ela me responde, sempre que pode.
Sendo que eu mesmo pela idade, eu não permito que ela venha aqui. Eu tinha uma
companheira, mas por dependência de estar aqui fui abandonado. É coisa normal.
Eu não sou o primeiro, não vou ser o último nessa situação. (Homem, Capital)
Que minha mãe tem uma idade e também tenho irmãos pequenos e a minha mãe
sempre deixou bem claro: sua vida é sua vida. Ela nunca me visitou, me escreve
carta, me manda carta. (Mulher, Capital)
E até hoje eu não tive mais notícia, fui excluído da vida deles mediante a situação em
que eu me encontrava. E estou aí tentando sobreviver, me arrastando como posso.
Aguardando o momento oportuno de novo de poder respirar. (Homem, Capital)

117
Nos questionários, o relacionamento com a família foi considerado bom por
grande parte dos apenados de ambos os sexos (Gráfico 11). Há, porém, muitas
contradições e queixas sobre os parentes que só foram ouvidas e compreendidas
na pesquisa qualitativa. De qualquer forma, os dados a seguir ajudam a entender
diferenciações de territórios e de gêneros. Entre os homens é maior o percentual
dos que dizem ser positiva a sua interação com os familiares, quando se compara
com a opinião das mulheres, que consideram sua relação com a família ruim,
regular, ou inexistente. As diferenças entre os sexos foram significativas, com
p<0,01.

Gráfico 11 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e contato familiar

Na Tabela 17, mostra-se a distribuição percentual dos presos, segundo sexo,


local da unidade onde estão internados e vínculo com a família. É interessante
que os mais elevados percentuais de bom relacionamento estão entre os detentos
da Capital, para ambos os sexos. Os relacionamentos ruins ou regulares foram
citados, em maiores proporções, por presos do Interior do estado. Apenas entre
os homens houve diferença estatisticamente significativa, com p<0,01.

118
Tabela 17 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo, área e vínculo/relacionamento com a família
Homens Mulheres

Contato familiar Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


(N=21.475) (N=13.731) (N=3.068) (N=4.677) (N=1.310) (N=1.119) (N=191)

Com vínculo, bom


77,9 79,8 72,7 75,8 68,8 69,0 67,0
relacionamento
Com vínculo,
relacionamento 10,4 9,7 10,6 12,4 15,1 14,5 18,8
regular/ruim
Sem vínculo 9,9 8,9 14,7 9,6 14,2 14,6 12,3
Não tem família 1,8 1,6 2,0 2,2 1,9 1,9 1,9

Particularmente, os homens entrevistados em unidades prisionais da Baixada


reconheceram que a qualidade dos vínculos com suas famílias ficou muito ruim
após sua prisão. Mencionaram que falam pouco com seus filhos e companheiras
e, muitas vezes, a única forma de contato é por intermédio de pessoas que os
visitam e trazem alguma notícia. Muitas mulheres presas no Interior preferem
nem saber o que está acontecendo com suas famílias porque, dizem, “a saudade
é muito grande”. São fortes e marcados por mágoas os depoimentos que revelam
esses rompimentos:
Depois que eu vim preso a minha mãe nunca mais teve vontade de me ver. Tem
uma carta minha, tem três anos, nunca veio buscar. A única pessoa que me
acompanha desde que eu fui preso é a minha tia. Aquela ali é minha mãe e meu
pai e jamais ela vai me abandonar, não esqueceu de mim. (Homem, Capital)
Minha família não quer saber de mim mais não. Já assinei a carteirinha já vai
fazer dez meses, ela não veio visitar. Não falo com minha família. Nós não temos
nada, é só pensando na família mesmo. Às vezes eu fico magoado, só pensando
na minha família. (Homem, Capital)
Eu não recebo visita. Eu não tenho um passarinho para dar comida, já que minhas
filhas agora não ligam para mim, eu também não posso ligar. A gente tem que
gostar de quem gosta da gente. (Homem, Interior)
Nem escrever para mim elas estão escrevendo. A carta está demorando muito para
chegar. (Mulher, Interior)

Alguns homens, tanto da Capital quanto da Baixada e do Interior, em


maiores proporções que as mulheres, acreditam que seus vínculos familiares
permanecem vivos e fortes. Mesmo sem receber visitas, eles afirmam que seus
familiares sentem muito sua falta e justificam suas ausências nas visitas pelas
dificuldades financeiras ou por não poderem ausentar-se do trabalho. No entanto,
no decorrer das entrevistas, descrevem as dificuldades nos relacionamentos, entre

119
elas, as separações conjugais ocorridas por causa de sua condição de interno
no sistema prisional.
Diversas vezes, os presos mencionaram que a ausência de relação com
os familiares lhes faz muita falta, porque seria bom que tivessem uma ideia
mais clara de como os vizinhos passaram a vê-los e que expectativas poderiam
alimentar de uma vida integrada comunitariamente após o cumprimento da
pena. A comunicação com os parentes poderia mostrar-lhes alguma saída ou
esperança: “a gente não sabe como é que está lá fora. Nove meses eu não sei mais
como é que está a rua, o que está acontecendo, o que vão achar de mim quando
eu chegar lá fora” (Homem, Capital). Vários observaram que o apoio afetivo da
família é fundamental para que superem os erros do passado e enfrentem a pena
com menos sofrimento.
Alguns se alimentam de palavras positivas ditas por familiares que os
visitam. O fato de saberem que não estão abandonados e acreditarem que foram
perdoados pelas pessoas que amam é fundamental para sua perspectiva de
futuro. O preso que sabe que receberá a visita da mulher, da mãe e dos filhos
tem esperança de sobreviver ao encarceramento. Ao contrário, para muitos a
prisão pode chegar a períodos relativamente longos de 12, 14 anos ou mais, e os
contatos, como mencionado por eles, vão se escasseando, sobretudo nos casos
em que os frágeis vínculos e os afastamentos remontam ao período anterior à
reclusão. Ou seja, o aprisionamento rompe, por vezes de forma irremediável, as
relações primárias e afetivas tão importantes para qualquer ser humano, afetadas
sobremodo pelo longo tempo de detenção.
O trecho a seguir ilustra a importância de tais vínculos:
Eu estou aqui pagando, mas por eles [família] eu já fui perdoado. E isso me ajuda
muito a superar aquele erro, porque a nossa família é o apoio, o alicerce total
de tudo. Quando se está desestruturado lá fora, aqui dentro a gente também fica
muito descontrolado, muito desestruturado. As nossas famílias são intocáveis.
(Homem, Capital)

Quando perguntadas, as mulheres presas na Capital inicialmente falaram


que os vínculos são mantidos pelas poucas visitas que recebem e pelas cartas
trocadas com familiares e amigos. Mesmo acreditando que a distância é um
fator que dificulta a manutenção dos relacionamentos, algumas afirmaram que
nada mudou após sua prisão. No entanto, no desenrolar das conversas, muitas
foram se abrindo e revelando que ocorreram distanciamentos e que elas estão
emocionalmente marcadas pelas ausências.

120
Existe uma preocupação, tanto dos homens quanto das mulheres em proteger
seus filhos e suas mães. Muitos preferem que eles não os visitem na prisão.
No caso dos filhos, os detentos alegam que ter uma carteirinha de visitante de
unidade prisional pode prejudicar o futuro deles, por exemplo, se quiserem fazer
um concurso público. Muitos encontros acontecem somente quando há alguma
festa como Dia das Mães e Dia das Crianças, em que as pessoas não necessitam
desse registro de visitante para entrar nas unidades.
Sobre a interação com os companheiros, as mulheres disseram que suas
relações afetivas ficaram fragilizadas, mas que não cobram nada por causa de
sua condição de presas:
De um ano pra cá ele está vindo de três em três meses, mas também são seis anos
já me visitando: ninguém aguenta. Já sei que ele está curtindo praia, pagode,
eu não esquento. Eu tenho que esquentar quando eu sair daqui. O que ele está
fazendo enquanto eu estiver aqui eu não posso cobrar. (Mulher, Capital)

Com os homens ocorre o contrário. Eles recebem muito mais visitas que as
mulheres, conforme se observa no Gráfico 12. Essa diferença foi estatisticamente
significativa (p<0,01).

Gráfico 12 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e visitas

121
Os detentos da Capital e as mulheres do Interior são os que mais são visitados
na unidade prisional. Os homens da Baixada e as mulheres presas na Capital
recebem menos visitas (p<0,01), conforme se constata na Tabela 18.

Tabela 18 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e visitas que recebem
Homens Mulheres

Visitas Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


(N=22.062) (N=14.099) (N=3.102) (N=4.862) (N=1.380) (N=1.142) (N=198)

Sim 73,9 76,3 63,6 73,8 58,6 55,7 75,5


Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Como se observa no Gráfico 13, quem mais se preocupa em encontrar os


familiares detidos são as mães e companheiras. Com diferenças significativas
estatisticamente, observa-se que, para os homens, o maior percentual das visitas
é de suas companheiras. Para as mulheres, a maioria de visitantes é composta por
irmãos, outros parentes e amigos (p<0,01).

Gráfico 13 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e pessoas que os visitam

122
Na Tabela 19, observa-se que entre os homens, os presos na Capital recebem
menos a visita das mães que os das outras áreas. Os presos na Baixada são menos
visitados pelas companheiras que os da Capital e do Interior. Entre as mulheres,
as da Capital recebem mais a visita das mães e as do Interior, mais dos irmãos.
Houve diferença estatisticamente significativa entre todos os tipos de visitantes
dos homens; no caso das mulheres, só houve significância para pais e outros
familiares (p<0,01).

Tabela 19 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo


sexo, área e pessoas que os visitam
Homens Mulheres

Visita familiar Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Familiares 14.964 98,2 9.964 97,5 1.739 98,6 3.261 100,0 713 95,5 569 95,3 144 96,4

Mãe 7.869 51,6 5.012 49,0 1.008 57,2 1848 56,7 375 50,2 301 50,4 74 49,4

Pai 2.282 15,0 1.450 14,2 258 14,6 574 17,6 113 15,1 79 13,2 34 22,9

Irmãos 3.915 25,7 2.754 26,9 467 26,5 694 21,3 231 30,9 182 30,5 49 32,5

Companheiro(a) 7.129 46,8 4.778 46,8 766 43,4 1.585 48,6 93 12,4 80 13,4 13 8,4

Filhos 3.143 20,6 2.262 22,1 257 14,6 625 19,2 167 22,3 127 21,3 40 26,5

Avós 457 3,0 401 3,9 35 2,0 21 0,6 21 2,8 17 2,9 4 2,4

Outros familiares 1.338 8,8 893 8,7 178 10,1 267 8,2 115 15,4 75 12,6 40 26,5

Amigos 730 4,8 630 6,2 48 2,7 52 1,6 72 9,6 56 9,3 16 10,8

Outras pessoas 141 0,9 117 1,1 24 1,4 0 0,0 9 1,1 7 1,1 2 1,2

O percentual de quem recebe visitas toda semana é maior entre os homens.


Mais mulheres (38,6%) que homens (23,9%) disseram que nunca são visitadas
(Gráfico 14). Entre elas, predominam também as que são visitadas com maior
espaçamento de tempo: frequência mensal, trimestral e semestral ou anual
(p<0,01).
Na Tabela 20, observa-se a constância das visitas segundo as distâncias, e
chama atenção que na Capital, os homens são visitados com mais frequência que
nos outros locais. Um percentual expressivo (34,6%) dos homens da Baixada
afirmou que nunca foi visitado (p<0,01). Entre as mulheres, as presas no Interior
do estado são as mais visitadas semanalmente. Porém, como os homens da
Baixada (34,6%), o elevadíssimo percentual de 42,1% das detidas da Capital
não recebem nenhuma visita (p<0,01).

123
Gráfico 14 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e frequência das visitas

Tabela 20 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e frequência de visitas
Homens Mulheres
Frequência de
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
visitas
(N=21.107) (N=13.470) (N=2.997) (N=4.641) (N=1.260) (N=1.079) (N=180)

Semanal 38,7 40,7 31,6 37,7 24,0 22,9 30,0


Quinzenal 21,7 19,6 25,0 25,6 16,0 15,0 22,0
Mensal 12,0 13,5 7,3 10,4 15,9 14,8 22,0
Trimestral 2,3 2,4 0,8 3,0 3,4 3,3 4,0
Semestral-
1,4 1,8 0,7 0,7 2,2 1,9 4,0
anual
Nunca 23,9 22,0 34,6 22,6 38,5 42,1 18,0

A situação de abandono dos presos pelos familiares e amigos abrange tanto


homens quanto mulheres. Entretanto, são elas as principais vítimas, como foi
visto aqui (em média 39%) e mostram também outros estudos, como o de Soares
e Ilgenfritz (2002). Igualmente, o relatório produzido pelo Grupo de Trabalho
Interministerial, criado por decreto presidencial s/n., em 25 de maio de 2007,
com o objetivo de “elaborar propostas para a reorganização e reformulação do
Sistema Prisional Feminino”, chama atenção para essa situação diferenciada.
De acordo com os relatores, faz parte do perfil dessas mulheres serem jovens,

124
com pouca educação formal, mães solteiras, afrodescendentes e morarem com os
filhos antes da detenção – a elas sempre coube a criação e o cuidado dos filhos.
Após o encarceramento, a maioria das crianças passa a viver sob a tutela dos avós
maternos. É comum que os companheiros as abandonem e construam outras
famílias, ao contrário do que ocorre nos casos delas, em relação aos homens. Como
dito, um número significativo encontra-se em total desamparo afetivo e busca
saída nas drogas que entram nos presídios ou no uso de remédios controlados.
Grande parte das casas de detenção não lhes garante o direito à visita íntima,
procedimento assegurado aos homens há mais de vinte anos. No entanto, apesar
do abandono, várias buscam manter vínculos familiares, preferindo muitas vezes
estar em cadeias públicas – mesmo que em péssimas condições – que estejam
mais próximas de seus familiares (Brasil, 2008).
Pesquisas como a de Simões (2014) numa penitenciária feminina em
Cascavel (Paraná) também confirmam o que foi mencionado tanto no relatório
quanto nesta pesquisa. São assinalados pela autora diferentes motivos pelos
quais as mulheres cumpram sua pena em total solidão: distância do presídio em
relação ao local de moradia da família, que geralmente tem de assumir o cuidado
dos filhos delas; ter o parceiro também encarcerado; o fato de os parentes não
poderem mais contar com a ajuda da prática ilícita que elas lhes proporcionavam;
a estigmatização social da mulher que comete um delito, fator decisivo nos casos
de abandono dos parceiros e amigos; e a recusa dos familiares de aceitarem as
regras impostas e humilhantes para a visitação.
Quando casadas, os companheiros são os primeiros a abandoná-las,
ou foram seus cúmplices nos crimes e estão cumprindo pena também. Várias
mulheres se queixaram nas entrevistas e nas falas livres, dizendo que quando
seus maridos ficaram presos elas iam visitá-los, levavam-lhes alimentos e traziam
tudo que podiam introduzir na prisão, muitas vezes correndo riscos e passando
humilhações por causa deles. Mas quando a situação se inverteu, os favores não
foram retribuídos.
Simões (2014) comenta, com base nas entrevistas com presas, que muitas
delas buscam dar um jeito de suprir a carência afetiva namorando colegas
detentas ou se relacionando por meio de bilhetes e cartas com outros reclusos
ou mesmo com visitantes de companheiras de prisão. Novos relacionamentos,
homossexuais ou heterossexuais, costumam surgir no tempo de cumprimento da
pena. Alguns se consumam em casamentos, realizados por juízes que vão até as
prisões para efetivá-los.

125
Ainda sobre as vinculações entre familiares e presos, merecem especial
atenção as condições em que as visitas são efetuadas, pois não há dúvidas de
que o modo como essa ação é processada pelo sistema prisional contribui para o
isolamento social e o abandono dos presos e presas por parte de seus familiares.
Alguns homens internados em unidades da Capital citaram nas entrevistas que
recebem visitas frequentes de irmãos, sobrinhos e namoradas. No entanto, muitos
externaram seu desejo de não querer que seus familiares entrem no presídio para
visitá-los, por causa dos constrangimentos pelos quais passam nos procedimentos
de revista, principalmente suas mães, mulheres, filhas e namoradas.
Os que não recebem visitas falaram sobre isso com pesar: “cinco meses sem
visita. Não sei se a minha família até morreu, eu não sei, pois não tenho nenhuma
notícia deles” (Homem, Capital). Vários entrevistados destacaram que é comum
que parentes e amigos venham visitá-los uma ou duas vezes e se desanimem, em
razão das dificuldades burocráticas e humilhações que enfrentam para entrar nas
unidades. Como uma maneira positiva de se confortar, um dos presos afirmou
que, na realidade prisional, família são seus próprios companheiros, uma vez que
estão juntos, vivendo nas mesmas condições.
No questionário de pesquisa, 9,5% dos homens e 3,5% das mulheres presos
responderam que recebem visita íntima. Entre os da Capital, esses percentuais
chegam a 10,6% para os homens e 3,1% para as mulheres; no Interior são 9,6%
e 6,2%, respectivamente. Nenhum dos presos entrevistados recebe esse tipo de
visita. Algumas mulheres relataram que existe uma burocracia para ter direito a
essa “regalia”. É preciso apresentar a certidão de casamento, e os que não são
casados formalmente têm de passar pelo serviço de assistência social, que faz
uma avaliação da situação e ouve testemunhas para comprovar se a pessoa tem o
tal companheiro ou companheira que alega ter.
Além da burocracia exigida, um dos homens presos na Baixada relatou que
em sua unidade não são permitidas visitas íntimas. Apesar de existir espaço
reservado para esse fim, a direção não os libera. Mesmo quando todas as licenças
são concedidas, ainda é necessário que o parceiro adquira uma carteirinha de
visita, o que é exigido também para qualquer parente que vai encontrar-se com
o preso. De qualquer forma, os espaços destinados para esses encontros foram
muito mal avaliados pelos presos: “Para a visita íntima seriam preciso (sic) pelo
menos um espaço de três metros e meio por quatro. Mas é um cubículo. Uma
cama de concreto” (Homem, Capital).

126
Tem estrutura de visita íntima que é formada pelo que nós chamamos de
parlatório. Devido às regras da unidade de RDD, que significa Regime Disciplinar
Diferenciado, eles não deixam entrar nada. Têm vários cubículos lá embaixo que
estão sem colchão, sem ventilador e com fiação arrancada. (Homem, Capital)

Observando-se a questão da visitação pelo lado dos familiares, é preciso


reconhecer que o espaço prisional é assustador para quem não tem familiaridade
com ele. Logo na entrada existe uma primeira guarita, geralmente coordenada
por inspetores especialmente treinados para a tarefa. Um número maior de
mulheres que de homens, jovens, idosas, grávidas, mães com crianças no colo,
chega de madrugada ou no dia anterior na tentativa de garantir o lugar na fila.
Isso porque as revistas por que passam logo ao início para entrar no presídio
são demoradas e há o receio de que, caso não durmam nas filas, não consigam
encontrar seus familiares presos. Geralmente, os parentes são recebidos com
rispidez, falta de informação, e as filas são imensas para a chamada revista.
O clima é de amedrontamento por parte dos agentes e de vergonha por parte
dos visitantes. As mulheres costumam chegar aflitas, carregadas de sacolas, e
sentem muito temor do que lhes possa acontecer. A prisão, além de limitar o
convívio familiar – restrito aos dias de visitação e exercido apenas por aqueles
que possuem condições financeiras para custear a viagem até o local e, em alguns
casos, a hospedagem –, provoca uma espécie de criminalização das próprias
famílias. Esse ambiente para a maioria é humilhante, triste e ameaçador.
Batista e Thompson (2005) observaram em seus estudos que na maioria
dos presídios do Brasil os familiares e amigos dos presos sofrem vários tipos de
agressão. Segundo os autores, o procedimento de revista é tão humilhante que
muitos detentos preferem não receber visitas, confirmando o que se encontrou
aqui. Aqueles que vão lá para encontrá-los são submetidos a uma inspeção
rigorosa em relação a tudo que portam: comida, roupas, utensílios de limpeza
e higiene. A comida é praticamente destruída. As mulheres são submetidas a
situações degradantes. Muitas vezes, elas têm de se despir e agachar várias vezes
em cima de um espelho para que os agentes tenham certeza de que não levam
nada na vagina ou no ânus. Quando tal medida não se mostra suficiente, também
são submetidas à prova do toque vaginal e anal. Alguns vigilantes apreendem
a carteira de visitante segurando-a por horas, ou até semanas e meses, quando
alguém reclama da situação vexatória.
Um dos pontos cruciais na visita é que, além de suporte moral, a família
também se sente responsável por fornecer aos presos apoio material, como

127
produtos de higiene, roupas, comidas e, em alguns casos, drogas para sustentar
sua dependência química.
Tudo que entra no presídio vira objeto de comercialização, num mercado
paralelo e superfaturado. Às vezes, a família leva produtos não porque o preso
necessita deles, mas porque ele barganha vantagens com outros internos.
Esse é o lado perverso do encontro de quem está fora com os reclusos, pois é
responsável, frequentemente, pelo tratamento brusco dos que fazem a revista
nos visitantes, visando a não deixar passar objetos e mercadorias proibidas pelo
regulamento prisional.
Termina-se essa reflexão, sobre a situação de abandono ou de dificuldade
de encontros com os familiares vivida por grande parte dos detentos e detentas,
transcrevendo-se parte da fala de um preso sobre a espera das visitas e a
importância que os vínculos afetivos primários têm para seu equilíbrio emocional:
A gente se prepara para receber a família. Lavamos roupa, cuidamos do cabelo.
Deixamos tudo arrumado para ver se eles ficam bem aqui. Mas quando ninguém
vem dá uma tristeza! Eu já vi muito marmanjão chorar aqui dentro. Vejo homem
bravo se desmanchar quando a mãe chega. (Homem, Interior)

Relacionamentos dos detentos entre si


Os presos entrevistados nas unidades da Capital afirmaram ter bom
relacionamento com seus colegas. Para definir essa relação usam expressões
como “me dou bem com o pessoal”, “todo mundo se entende”. No entanto, a
aparente harmonia muitas vezes é mantida pelo respeito imposto por alguns,
cujo poder, frequentemente, está vinculado à função do detento, como é o
caso dos “faxinas”, ou à hierarquia na criminalidade que determinados presos
desfrutam mesmo na condição de detentos. Essa relação ambígua vai ao encontro
da discussão de Lemgruber (1999), segundo a qual a solidariedade nunca é total
entre populações de reclusos, mas não deixa de existir, posto que é condição de
sobrevivência numa existência praticamente sem individualidade, em condições
de superlotação, com aproximação permanente dos corpos, em lugares onde
todos ficam trancafiados juntos e passam a maior parte do dia.
Todos me respeitam como eu respeito eles, igualmente. Porque um é mais
poderoso do que o outro. Coisa de poder. Porque um deu mais tiro do que o outro.
(Homem, Capital)

128
Nós temos uma doutrina. Nós trabalhamos no âmbito psicológico. Instruímos,
avisamos e preparamos a todos da forma que se tem de se proceder aqui dentro.
(Homem, Capital)

Alguns presos da Capital revelaram que nessa vida em que compartilham


espaços e estratégias de sobrevivência, acabam por desenvolver formas de ajuda
mútua, respeito e afeto uns pelos outros. Um deles comentou que a saída de
alguém com quem se tem afinidade gera tristeza, mas também esperança de que
um dia chegará a sua vez: “Às vezes, a gente se acostuma com a pessoa, daqui a
pouco ela vai embora. Aí a gente fica naquela esperança de ir também. A gente
ora. Se agarra a Deus e ora” (Homem, Capital). A oração é uma das estratégias
encontradas para aliviar as tensões e alimentar as expectativas.
Os internos da Baixada Fluminense demonstraram uma relação mais
amistosa entre si do que os da Capital e do Interior. Os que foram entrevistados
definiram seus companheiros de cela como “amigos”, “coletividade legal”, “como
se fosse uma família”. Em todos os depoimentos, deixaram claro que existe
respeito entre eles. Apenas um preso externou indignação com alguns colegas que
“querem impor sua vontade sobre os outros, sem aceitar qualquer possibilidade
de negociação e diálogo”.
Para um “faxina” do Interior do estado, sua função aproxima as pessoas. Assim
definiu-se: “eu sou elo”. O “faxina” cumpre um papel que caberia aos agentes
desempenhar, tornando-o hierarquicamente diferente de seus companheiros.
Quem não tem os privilégios (que são mínimos) desses intermediários entre as
autoridades e os outros detentos assume uma conduta mais contida, respeitosa e
distante dos outros, buscando ter seu pequeno espaço respeitado. Um dos presos
comuns assim se posicionou:
Eu não dou confiança. Não dar confiança é eu ficar na linha da humildade e
deixar a rapaziada nova para lá com as paradas deles, cada um na sua; é eu
respeitar o espaço deles e eles respeitarem o meu. (Homem, Interior)

A relação entre os colegas que cumprem penas, portanto, são muito mais
complexas e ambíguas como aparece nas entrelinhas do depoimento transcrito.
Ao mesmo tempo que os relacionamentos ajudam a “tirar a cadeia”, podem ter
uma multiplicidade de repercussões. Uma delas é que muitos são aliciados dentro
das unidades carcerárias para integrar grupos de delinquentes que atuam fora e
continuam gerenciando negócios ilegais e violentos.

129
As presas na Capital também comentaram que têm, entre si, um
relacionamento solidário e amistoso. As expressões “a gente se dá bem”, “uma
ajuda a outra” e “o relacionamento é bom, ótimo” foram comuns em seus
depoimentos. As de uma unidade prisional no Interior usaram os termos “união”,
“família” e “cuidar umas das outras” quando se referiram à forma como convivem
entre si. Várias entrevistadas comentaram que emprestam umas às outras roupas,
produtos de higiene e remédios e, sobretudo, compartilham afeto. Elas acreditam
que a forma amigável e compassiva de se relacionarem ajuda a enfrentar as
dificuldades da prisão, principalmente a solidão, a ociosidade e o sentimento de
baixa autoestima.
Uma não tendo sabão a outra dá, uma não tendo lençol a outra empresta, uma
não tem um short, a outra empresta, é legal. Uma consola a outra quando está
chorando. Quando está sozinha abraça. (Mulher, Capital)

É claro que os discursos escondem as divergências no convívio, tanto


entre os homens quanto entre as mulheres. Uma das formas de explicitar essas
questões é analisando discriminações por que passam. Na Tabela 21, notam-se
as proporções de presos segundo preconceitos que sofrem por parte de outros
detentos, nas distintas áreas estudadas.
As mulheres relataram sofrer mais discriminações que os homens por parte
dos colegas (p<0,01): 25,0% em virtude da condição social (12,4% entre os
homens); 22,3% pelo fato de estarem presas (13,3% dos homens); 17,9% pelo
tipo de crime que cometeram (13,0% entre os homens); 16,6% pela aparência
física (9,9% dos homens); 11,2% pela orientação sexual (4,1% com relação aos
homens); e, com menor frequência, 6,9% são discriminadas pela cor da pele
(4,2% pelo sexo oposto).
Entre os homens, os presos no Interior disseram que sofrem menos
tratamentos discriminatórios que os da Capital (p<0,01). Entre as mulheres,
as do Interior também percebem menos preconceitos que as da Capital pela
sua condição de presa, cor da pele, condição social e aparência física. Já as da
Capital mencionam menos implicância com sua orientação sexual e com o tipo de
crime que cometeram. Não houve diferenças estatisticamente significativas nos
percentuais apresentados entre as detentas.

130
Tabela 21 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo sexo, área e formas de
discriminação por outros detentos
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Condição de preso
Muitas vezes 962 4,8 609 4,7 142 5,0 211 4,8 105 8,9 88 8,8 16 9,6
Poucas vezes 1.721 8,5 1.195 9,3 244 8,5 282 6,4 154 13,1 136 13,5 18 10,6
Nunca 17.492 86,7 11.087 86,0 2.472 86,5 3.933 88,9 920 78,0 785 77,7 135 79,8
Total 20.175 100 12.891 100 2.858 100 4.426 100,1 1.179 100 1.009 100 169 100
Cor da pele
Muitas vezes 191 1,0 79 0,6 35 1,3 77 1,8 34 3,1 31 3,2 4 2,4
Poucas vezes 627 3,2 433 3,5 129 4,8 65 1,5 43 3,8 41 4,2 2 1,2
Nunca 18.545 95,8 11.882 95,9 2.540 94,0 4.123 96,7 1.042 93,1 895 92,6 147 96,5
Total 19.362 100 12.394 100 2.704 100,1 4.265 100 1.119 100 967 100 153 100,1
Condição social
Muitas vezes 623 3,2 364 3,0 71 2,6 188 4,4 103 9,0 88 9,0 14 8,7
Poucas vezes 1.768 9,2 1.230 10,0 203 7,4 335 7,9 182 16,0 159 16,3 23 14,1
Nunca 16.864 87,6 10.674 87,0 2.462 90,0 3.728 87,7 855 75,0 728 74,7 128 77,2
Total 19.254 100 12.268 100 2.736 100 4.251 100 1.140 100 975 100 165 100
Orientação sexual
Muitas vezes 366 1,9 203 1,6 35 1,3 129 3,0 46 4,1 40 4,3 5 3,3
Poucas vezes 418 2,2 274 2,2 74 2,8 70 1,6 78 7,1 62 6,6 16 10,0
Nunca 18.532 95,9 11.957 96,2 2.511 95,9 4.064 95,3 980 88,8 840 89,1 140 86,7
Total 19.316 100 12.434 100 2.620 100 4.263 99,9 1.104 100 942 100 161 100
Tipo de crime
Muitas vezes 682 3,5 516 4,1 80 2,9 85 2,0 84 7,9 77 7,9 7 4,5
Poucas vezes 1.856 9,5 1.319 10,5 265 9,7 271 6,3 119 10,0 97 10,0 22 13,5
Nunca 17.026 87,0 10.700 85,4 2.391 87,4 3.936 91,7 930 82,1 799 82,1 131 82,0
Total 19.563 100 12.535 100 2.736 100 4.292 100 1.133 100 973 100 160 100
Aparência física
Muitas vezes 457 2,3 301 2,4 80 2,9 76 1,8 74 59 59 6,1 14 8,8
Poucas vezes 1.466 7,5 972 7,8 196 7,2 298 7,0 114 98 98 10,2 16 9,9
Nunca 17.571 90,1 11.223 89,8 2.454 89,9 3.894 91,2 943 810 810 83,7 133 81,3

131
Total 19.494 100 12.496 100 2.730 100 4.268 100 1.131 967 967 100 163 100
Por causa de vários tipos de pressão que sofrem ou por temperamento,
muitos entre as mulheres e homens não gostam de se relacionar e de conversar
sobre sua vida. Algumas presas preferem manter distância das outras, pois têm
afinidade com poucas pessoas: “eu procuro o máximo não sair para lugar nenhum.
Eu não participo nem de evento quando tem algum, eu fico dentro da cela, fico
na minha” (Mulher, Interior). Além de relevar um tipo de personalidade da
entrevistada, sua fala demonstra uma estratégia utilizada por muitos detentos e
detentas para evitar os conflitos que também fazem parte dessa vida em comum.
Estudo realizado em prisão feminina indica que o tempo de aprisionamento é um
fator relevante a ser observado, pois as detentas antigas tendem a relatar mais
conflitos relacionais e a cometer mais ofensas não violentas contra outras presas
ou contra os agentes que as admitidas recentemente na instituição (Thompson &
Loper, 2005).
Observa-se que nos depoimentos e questionários os presos privilegiaram
falar sobre a solidariedade que os une (com raras exceções), mas as informações
citadas anteriormente e a literatura sobre as relações entre detentos têm
enfatizado outros aspectos, como a socialização, com o passar do tempo,
dos menos perigosos por aqueles que cometeram crimes graves, tornando-os
criminosos mais cruéis e especializados (Foucault, 2009). Isso confere com
o que muitos presos revelaram nas informações que escreveram ao fim dos
questionários: “na cadeia a gente sai pior do que entrou”; “aqui a gente convive
com muito tumulto que deixa a gente perturbado”; “aqui não socializa ninguém,
você entra uma pessoa melhor e sai pior”.
Sobre os efeitos de socialização provocados pela vida comunitária dos
presos, Vianna e Reis (2010) concordam com os achados desta pesquisa. Eles
mencionam uma espécie de pacto simbolizado na frase “todos estão num mesmo
barco”. Nesse código interno há leis importantes como “não ser dedo-duro”, “não
ficar em dívida” e “repartir o que recebem dos familiares com todos os colegas
de cela”. Nesse mundo particular, existe uma hierarquia na qual os mais antigos
e os mais perigosos têm mais influência e, dentro de seu “código de ética”, por
exemplo, os estupradores são considerados sem moral e sem respeito – têm de
estar a serviço de todos, e a eles são destinados as tarefas e os serviços mais
humilhantes como limpar a privada, beber a água suja que sai dos sanitários e
lamber o chão. Frequentemente, os estupradores são abusados sexualmente como
forma de vingança pelo crime que cometeram. Vianna e Reis (2010) concluem
sobre essa relação entre os presos:

132
O preso, inserido no universo prisional acaba sendo produto e modificador,
no sentido em que, ao interagirem uns com os outros, eles modificam seus
comportamentos. O criminoso, na maioria das vezes torna-se mais cruel, perigoso,
frio e calculista na prática de suas ações, e muito desse aspecto pode ser relacionado
com a forma e os valores que eles absorvem no sistema. É como se eles estivessem
numa grande selva, onde somente o mais forte sobreviverá. Que vença quem
puder, não importa se a vítima for um inocente. (Vianna & Reis, 2010: 571)

Relações com os agentes e administradores


Depois do aprisionamento como um fato em si, as relações dos presos
com os agentes e gestores prisionais talvez seja o ponto mais crucial para a
vida dos detentos. No estudo qualitativo citaram-se vários tipos de vivências de
torturas e punições físicas promovidas por agentes penitenciários. Esses relatos
ocorreram majoritariamente nas unidades masculinas, com destaque para uma
unidade da Capital. Nessa penitenciária, a equipe que fez a pesquisa encontrou
muita dificuldade para realizar as etapas do estudo, uma vez que o espaço
disponibilizado era reduzido e foram necessários mais de dois agendamentos
para que o trabalho se concluísse. As punições mais frequentes referem-se ao uso
dos espaços de isolamento chamados buques, onde as condições de sobrevivência
são ainda piores do que as das celas comuns e ocorrem agressões físicas e uso
indiscriminado de spray de pimenta, como se constata nos depoimentos a seguir.
E aqui qualquer coisinha que nós falamos com funcionário é buque. Buque é um
quartinho que tem aqui fora. A gente não pode falar nada com o funcionário.
(Homem, Capital)
Eles batem muito mesmo em nós, nós não fazemos nada, jogam spray de pimenta
e eu acho que eles acham que nós não podemos fazer nada. Nós [procuramos] o
diretor, mas, nada foi resolvido até agora. (Homem, Capital)
Eles falam que o preso está olhando atravessado para eles, e vão lá e dão um
tapa na cara do preso. Isso acontece diariamente. É comum, spray de pimenta.
Agora eles estão com spray de pimenta, porque se vinha algum preso com marcas
de agressão a unidade dava parte. Então agridem assim sem deixar marcas, mas
agridem. Mas agora é spray de pimenta no preso. (Homem, Capital)
É desumano. Eles põem 100 num lugar que não cabe 50. Agressões físicas da parte
dos funcionários. Tanto verbalmente como fisicamente. (Homem, Baixada)

As agressões físicas e verbais e discriminações por parte dos agentes podem


ser constatadas nas respostas aos questionários. O Gráfico 15 e a Tabela 22
evidenciam uma questão importante nos relacionamentos: a percepção dos

133
presos sobre o preconceito que sofrem ou sobre o tratamento inferiorizado que
dizem receber dos funcionários nas unidades e também de outros presos, como
exposto anteriormente.

Gráfico 15 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e discriminação por funcionários e outros detentos

Para uma parcela considerável dos homens e mulheres, tais atitudes se


devem, principalmente, em virtude da condição de encarcerado (27%) ou ao tipo
de crime que cometeram e pelo qual estão cumprindo pena (15,9%). As atitudes
discriminatórias dos funcionários que mais ferem os homens e as mulheres são
as que se referem à orientação sexual, condição social e cor da pele. O maior
número de queixas sobre preconceitos e violência psicológica ocorre entre as
mulheres.
A Tabela 22 desdobra a descrição proporcional dos presos em relação às
discriminações sofridas por parte dos funcionários. De certa forma, o Gráfico 15 e
a Tabela 22 se superpõem. Neles se mostra que entre os homens houve diferença
significativa em todos os itens, com destaque para os do Interior que relataram
menos episódios de agressão. Todavia, eles também passam por maus-tratos pela

134
condição de detento, pelo tipo de crime e pela aparência física (p<0,01). Entre
os homens da Baixada foram menos frequentes as percepções de estigmatização
pela cor da pele e pela condição social (p<0,01). Entre as mulheres, as do
Interior percebem menos as discriminações que as da Capital em todos os itens
pesquisados. Houve diferença significativa relatada pelas presas do Interior,
apenas em relação ao tipo de crime que cometeram (p<0,05).

Tabela 22 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo


sexo, área e formas de discriminação por funcionários da unidade
prisional
Homens Mulheres
Frequência Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Condição de preso

Muitas vezes 5.381 26,3 3.552 27,0 792 27,9 1.038 23,4 339 27,6 299 28,4 40 22,9
Poucas vezes 4.987 24,4 3.263 24,8 726 25,6 998 22,5 311 25,4 265 25,1 47 27,1
Nunca 10.070 44,1 6.355 48,3 1.320 46,5 2394 54,0 577 47,0 491 46,6 86 50,0
Total 13.170 100,1 2.838 100 4.430 99,9 1.227 100 1.055 100,1 173 100 13.170 100,1
Cor da pele
Muitas vezes 1.240 6,6 795 6,6 214 8,2 231 5,7 52 4,8 49 5,2 4 2,2
Poucas vezes 1.165 6,2 690 5,7 251 9,6 224 5,6 39 3,6 34 3,6 5 3,4
Nunca 16.343 87,2 10.625 87,7 2.150 82,2 3.567 88,7 1.001 91,7 850 91,2 151 94,4
Total 18.748 100 12.110 100 2.615 100 4.022 100 1.092 100,1 933 100 160 100
Condição social
Muitas vezes 1.591 8,5 866 7,2 309 11,5 417 10,4 132 12,0 112 12,0 20 12,0
Poucas vezes 2.831 15,1 1.880 15,6 389 14,5 562 14,1 116 10,5 93 9,9 23 14,1
Nunca 14.290 76,4 9.299 77,2 1.978 73,9 3.013 75,5 853 77,5 730 78,1 122 73,9
Total 18.712 100 12.045 100 2.676 99,9 3.992 100 1.101 100 935 100 165 100
Orientação sexual
Muitas vezes 1.063 5,7 639 5,4 160 6,2 264 6,6 124 11,1 113 11,9 11 6,5
Poucas vezes 578 3,1 394 3,3 96 3,7 87 2,2 65 5,9 51 5,4 14 8,6
Nunca 16.917 91,2 10.903 91,3 2.345 90,1 3.670 91,3 926 83,1 784 82,7 142 84,9
Total 18.558 100 11.936 100 2.601 100 4.022 100 1.115 100 948 100 167 100
Tipo de crime
Muitas vezes 3.064 15,9 2.064 16,6 495 17,9 506 12,4 174 15,5 159 16,6 14 8,9
Poucas vezes 2.930 15,2 1.823 14,7 575 20,7 533 13,0 158 14,1 138 14,4 20 12,2
Nunca 13.307 68,9 8.550 68,7 1.702 61,4 3.055 74,6 790 70,4 662 69,0 128 78,9
Total 19.301 100 12.437 100 2.771 100 4.094 100 1.122 100 959 100 162 100
Aparência física
Muitas vezes 1.764 9,4 1.061 8,7 362 13,3 342 8,8 113 10,1 100 10,5 13 7,6
Poucas vezes 1.653 8,8 1.008 8,3 284 10,4 362 9,3 93 8,3 82 8,6 11 6,5
Nunca 15.403 81,8 10.122 83,0 2.079 76,3 3.202 82,0 916 81,6 774 80,9 142 85,9
Total 18.820 100 12.190 100 2.725 100 3.906 100 1.122 100 956 100 166 100

As discriminações e violências psicológicas sofridas pelos detentos por parte


de seus colegas (apresentadas na Tabela 21) foram bem menos mencionadas

135
que os preconceitos por parte dos funcionários. Entre as mulheres prevaleceu a
percepção de que são tratadas de forma inferior pelas companheiras de cela por
causa de sua condição social e pelo tipo de crime cometido, o que revela uma
contradição com o discurso anteriormente declarado de solidariedade e de mútua
proteção. Houve diferenças significativas entre os sexos para todas as formas de
discriminação aferidas, o que se observa no Gráfico 15 (p<0,01).
As situações de discriminação racial entre detentos foram estudadas em
prisões da Inglaterra, entre outros por Joseph (2006) e pela Commission for Racial
Equality, (2003). Indicaram-se falhas das autoridades em lidar com ambientes
racistas na gestão dos cárceres; presença de atitudes discriminatórias dos
funcionários; tratamento negativamente diferenciado aos presos das consideradas
minorias; e uso do poder discricionário quanto à disciplina, aos privilégios e às
punições, tendo como base estereótipos raciais. No Brasil, há que se acrescentar
a existência de outras formas relevantes de preconceitos, especialmente as que
dizem respeito às condições sociais e orientação sexual. A discriminação pelo
poder econômico e político é flagrante. Primeiramente, poucos ricos e poderosos
permanecem nas prisões. Em segundo lugar, quando são detidos, tendem a querer
e a exigir privilégios e que sejam tratados com deferência.
Ouvindo presas e presos na parte qualitativa deste estudo, constata-se que é
muito conturbado o relacionamento dos detentos com os agentes penitenciários.
Entre eles há uma relação hierárquica em que aos presos cabe obedecer e calar,
quando qualquer processo de socialização exigiria uma atuação mais dialógica e
compreensiva. Os homens relataram, principalmente, uma grande insatisfação
com o fato de não serem ouvidos pela direção, pelos agentes e defensores sobre
sua situação em relação ao cumprimento da pena. Isso cria neles um sentimento
de abandono: “estou sem notícias do meu processo desde que cheguei aqui”.
Muitos se queixaram de que sua condenação está vencida; que têm direito a
regime semiaberto, mas continuam cumprindo pena em cárceres fechados – “só
na minha unidade, são 30 com esse direito”, referiu-se um deles; que não têm
informação sobre seus processos e nem sobre o que vai acontecer com eles, pois
ainda não foram sentenciados. Vários alegaram que estão presos injustamente
ou não sabem o porquê de estarem detidos. Alguns declararam que pedem
insistentemente revisão de suas penas, mas não são ouvidos. Um que se expressou
por escrito disse que deveria estar no manicômio judiciário, pois é inimputável;
outro mencionou que está com nome trocado e por mais que peça para corrigir
essa situação, é sempre tratado como uma pessoa que ele não é. Outro, ainda,
disse que foi condenado duas vezes pelo mesmo crime.

136
As mulheres repercutiram as falas dos homens, embora a nota que atribuíram
aos relacionamentos tenha sido um pouco mais elevada que a deles: “nós temos
aqui um tratamento humilhante”; “tudo aqui é ruim”; “é horrível, só quero
sair deste inferno”; “o sistema é péssimo”; “não temos direito a nada”; “aqui é
um depósito de gente”; “muitos morrem aqui por falta de socorro”; “se toda a
alegria é passageira, o sofrimento aqui é eterno”. Queixaram-se da desumanidade
dos agentes, sobretudo para socorrer colegas doentes; da impossibilidade de
se expressar; da falta de orientação sobre várias questões que não entendem
a respeito de seus direitos; e do medo que sentem das funcionárias quando
protestam contra alguma coisa. As reclamações sobre sua condição perante a
lei penal também foram menos contundentes que as dos homens. No entanto,
também ressaltaram que “tem muita presa com cadeia paga e sem assistência”;
“a justiça para nós é muito lenta”; e “o juiz não liga, pois ele não conhece a nossa
vida”. As expressões negativas se multiplicavam: “o presídio é uma merda”; “aqui
é um massacre”; é um verdadeiro inferno”; “a cadeia gera ódio”; “estamos pagando
pelos crimes, mas nossos direitos não são respeitados”. Massacre, inferno, ódio
descrevem o clima de insatisfação com a situação. Pelo menos 63 homens e 55
mulheres disseram abertamente que sofrem constrangimentos físicos, mentais e
ofensas pessoais por parte dos agentes, da diretoria e dos enfermeiros. Também
muitos mencionaram a arrogância de alguns diretores que, segundo eles, “tratam
os presos com covardias, provocando revoltas, ódio e adoecimento”, como se
constata nos depoimentos a seguir.
Eu sou muito ameaçado, falta socorro emergencial, fico sem colchão, fico doente,
já sofri pneumonia e infarto, estou pior do que quando cheguei. Fui agredido pelos
guardas, fui agredido por vários presos em minha cela por calúnia! Os funcionários
são agressivos, agridem os presos com gás de pimenta, tem invasão de blitz. Além
de tudo, estou longe de tudo, dos filhos, tudo é muito ruim! (Homem, Capital)
Às vezes tem discussão, estresse. Sendo que nós mantemos o respeito, mas às vezes
tem um ou outro [funcionário] que nos provoca. Provoca para o preso poder errar
com ele para ele poder levar o preso para o castigo. Aqui o estresse é muito alto.
(Homem, Capital)
Aqui é só nós na nossa mesmo e eles na deles. Às vezes, aqui, até para pedir um
remédio é muito ruim. (Homem, Capital)
Eu não falo com funcionário porque é capaz deles tirarem nós da cela para botar
para o buque [castigo]. Então, para não sofrer essa covardia na mão deles nós
preferimos ficar oprimidos lá dentro, que é a realidade que nós estamos vivendo.
(Homem, Capital)

137
Observando-se a situação de discriminação de forma diferenciada nos três
espaços estudados, é nítida a diferença das relações dos presos com os agentes
da Capital, da Baixada Fluminense e do Interior do estado. Nesses dois últimos
espaços, o tratamento parece ser mais respeitoso. Há também diferenças na
percepção de homens e mulheres. Apesar de as presas também terem verbalizado
situações conflituosas, mais mulheres do que homens relataram que são tratadas
“com humanidade” pelas funcionárias. Em retribuição, mantêm o respeito e “se
colocam em seu lugar”, acatando as ordens recebidas. Essa negociação, que pode
chegar a um bom relacionamento, evidencia-se neste depoimento: “Algumas são
humanas, não deixam a farda passar por cima da humanidade delas. Você pode
parar na grade e conversar, pedir explicação, pedir conselho” (Mulher, Capital).
As presas do Interior do estado tendem a ser mais obedientes e internalizam
o fato de que precisam seguir as regras impostas pelos funcionários da unidade:
“É a disciplina. Umas colegas acham ruim, mas vamos fazer o quê? Está presa,
tem que seguir a regra” (Mulher, Interior).
Também merece destaque, mais uma vez, a figura dos “faxinas”: o seu status
de trabalhador do presídio oculta sua condição de preso. Eles consideram que
a relação com os agentes e administradores é a de companheirismo e que não
existem preconceitos, enquanto os demais internos relataram interação tensa
e estressante com os funcionários, num clima de opressão e de dificuldade de
comunicação.
Em síntese, a respeito das relações, existem algumas continuidades como, por
exemplo, a permanência dos problemas e conflitos familiares que atravessaram
a vida de muitos reclusos e se exacerbam no cárcere, deixando um percentual
muito elevado deles no mais total abandono e isolamento. Apresentam-se
também questões novas, como a convivência com o colega desconhecido, em que
estratégias de sociabilidade e de precaução se tornam necessárias. Nesse ambiente
que exige acima de tudo uma “solidariedade mecânica” (Durkheim, 2007),
novas vivências se impõem pela proximidade de corpos, pela ressignificação da
intimidade e por hierarquias internas que exigem comportamentos submissos
dentro e fora das celas e, por vezes, até fora das prisões. Mais desafiador ainda
é o enfrentamento da disciplina e dos encarregados de mantê-la, que tendem a
massificar os diferentes, a tornar subservientes os fortes e a fazer da obediência
a principal virtude da prisão.

138
Alimentação Como Problema
Um dos pontos de maior relevância para os reclusos e que merece atenção
especial em suas considerações sobre a vida prisional é a alimentação ou
dispensação de refeições, objeto de críticas, motivo de revoltas e até de motins
nas prisões. “A comida é perigosa a ponto de matar”, disse um dos presos na
Capital, realçando um dos riscos que correm nos cárceres. No entanto, existem
vários dispositivos, leis, normas e planos que dispõem sobre o tema tentando
garantir refeições nutritivas aos reclusos.
O Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário, criado pela portaria
interministerial n. 1.777, de 9 de setembro de 2003, estabeleceu como ações de
promoção da saúde o fornecimento de alimentação adequada e a realização de
atividades físicas pelos detentos. Nele se destaca que:
É preciso reforçar a premissa de que as pessoas presas, qualquer que seja a
natureza de sua transgressão, mantêm todos os direitos fundamentais a pessoas
humanas e, principalmente, o direito de gozar dos mais elevados padrões de saúde
física e mental. As pessoas estão privadas de liberdade e não dos direitos humanos
inerentes à sua cidadania. (Brasil, 2003)

Na resolução n. 216 (Anvisa, 2004) foram definidas as normas para o


Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de Alimentação e as regras
sobre a maneira adequada e segura para manipulação, preparo, acondicionamento,
armazenamento, transporte e venda de comida preparada de forma industrial.
A questão da alimentação é mencionada também nos artigos n. 12 e 41
da Lei de Execução Penal, os quais afirmam que é atribuição do Estado o
fornecimento de alimentação, vestuário e instalações higiênicas e, ainda, que a
alimentação deve ser suficiente. A resolução n. 14 de 11 de novembro de 1994,
acerca das regras mínimas para o tratamento do preso no Brasil, estabelece que
“a alimentação será preparada de acordo com as normas de higiene e de dieta,
controlada por nutricionista, devendo apresentar valor nutritivo suficiente para
manutenção da saúde e do vigor físico do preso”.
O Regulamento do Sistema Penal do Estado do Rio de Janeiro (Brasil,
1986) reúne as normas que dizem respeito tanto ao comportamento do preso
quanto a seus direitos, em que se estabelece num dos artigos que a oferta de
“alimentação variada, suficiente e de boa qualidade.” Segundo informações dos
profissionais, existe uma divisão específica dedicada à nutrição, responsável pelo
atendimento clínico-nutricional dos presos nas unidades hospitalares (Hospital

139
Psiquiátrico Heitor Carrilho e Henrique Roxo). Esse setor participa das reuniões
da Câmara Técnica da Secretaria de Estado de Saúde junto com a Secretaria de
Estado de Administração Penitenciária, produz relatórios sobre problemas na
alimentação dos presos, elabora um memorial descritivo do termo de referência
para o processo licitatório de refeições das unidades hospitalares e prisionais e é
responsável pela inspeção das refeições servidas nas unidades prisionais, como
previsto na resolução (Seap n. 255/2008).
O modelo prisional de alimentação passou por mudanças gradativas ao longo
dos anos. As refeições, que antes eram produzidas e servidas por detentos com bom
comportamento dentro das próprias penitenciárias, hoje em dia são elaboradas por
empresas especializadas. Nas unidades prisionais já não há refeitório destinado aos
detentos. Eles recebem os alimentos em caixas térmicas, distribuídas por presos
encarregados dessa tarefa, o que é feito, em geral, pelos “faxinas”.
Em relação às empresas licitadas para fornecer a alimentação, está previsto
que o cardápio seja formulado por uma equipe técnica: nutricionistas que atuem
para garantir o melhor aporte calórico e nutricional; engenheiros de alimentos,
responsáveis por definir quais alimentos mantêm boa aparência após duas horas
do fechamento do marmitex (mais ou menos o tempo previsto para a refeição
chegar até o consumidor final, quando será aberta); e compradores encarregados
de pesquisar no mercado novos produtos e alternativas que se encaixem no
padrão nutricional preestabelecido.
Após a finalização do processo de preparação, a refeição é embalada numa
marmitex individual que deve pesar no mínimo 550g e ser acondicionada em
embalagens isotérmicas, identificadas e transportadas por caminhão com
tratamento térmico apropriado para o transporte de refeições. Está previsto que
os detentos devem receber quatro refeições, distribuídas em desjejum, almoço,
café da tarde e jantar, o que custava ao estado do Rio de Janeiro, em 2009,
um valor aproximado diário de R$ 10,00 por pessoa. Além do básico, ainda
se estabelece que a alimentação seja adequada para pessoas com necessidades
especiais, como as que têm alguma patologia e precisam de dieta específica.
Segundo Tardelli (2007), é na hora que as tradicionais quentinhas são
entregues ao caminhão transportador que começam os problemas, pois todo o
processo que até o momento havia sido supervisionado, passa às mãos de pessoas
que não receberam nenhum tipo de treinamento ou orientação,
o que ocasiona falta de refeição suficiente, subtração do prato principal dos
marmitex antes da distribuição e transporte inadequado. Muitas vezes os

140
recipientes viram segundo o movimento dos caminhões, se abrem e a comida se
esparrama, sujando as caixas e contaminando seu conteúdo. (Tardelli, 2007: 3)

Tardelli (2007: 2) se refere também à demora na distribuição: “Esses


percalços, em se tratando de um produto altamente perecível e com armazenamento
inadequado, podem ocasionar a deterioração dos alimentos e até mesmo o
desenvolvimento de bactérias responsáveis por toxinfecção alimentar”.
No caso da alimentação, existe uma distância enorme entre o prescrito e
a realidade. Geralmente de qualidade duvidosa e péssima aparência, a comida
servida aos presos do estado do Rio de Janeiro parece manter o mesmo padrão
insosso e insalubre do que é ofertado na maioria das prisões do país, apesar
de haver uma instância funcional responsável pela nutrição e pela vigilância
da qualidade da comida. Existe um abismo de problemas, gerando queixas que
causam revoltas e motins e não se percebe a presença da vigilância institucional,
como revelado pelos entrevistados. Seus depoimentos contrariam inclusive
o discurso de Tardelli (2007), posto que, segundo a vivência dos presos, os
problemas não ocorrem apenas na entrega dos alimentos, mas também na falta
de cuidado na elaboração do que lhes é oferecido, pois dentro das quentinhas
“há sempre o mesmo tipo de ração: carne moída, arroz, feijão e batata”, o que
nutricionalmente é absolutamente equivocado.
Em todas as unidades, a alimentação foi mal avaliada por ser muito repetida,
apresentar baixa qualidade e ser pouco saudável. Os presos chamaram a atenção
também para o uso excessivo de produtos industrializados como salsicha e
Guaravita® – bebida que, além de sempre repetida, já lhes chega quente. De
forma geral, os entrevistados afirmaram: “não morremos de fome”. Ressaltaram
ainda que a rotina de comerem dentro das celas merece especial consideração,
tendo em vista a dificuldade de manterem o espaço limpo, atraírem insetos e por
ser muito precário o abastecimento de água.
Considerando-se os depoimentos segundo o sexo, as mulheres assinalaram
que execram a qualidade da comida, mencionando que tem o gosto insípido e que
frequentemente está estragada. Elas demonstraram consciência de que o Estado
paga muito caro para alimentá-las. Os homens enfatizaram e qualificaram melhor
suas queixas: “comida paga e ruim”, “comida sem variedade, sem frutas, legumes
e verduras, às vezes azeda e estragada”, “comida misturada com bichos mortos,
moscas, baratas, cabelo”, além de “a última refeição ser servida às três horas da
tarde, deixando a todos, o resto do tempo, com muita fome”.

141
Não se pode esquecer que a maioria da população encarcerada é jovem.
Várias pessoas que têm problemas de saúde se queixaram também de que suas
dietas não são obedecidas. Tudo isso leva o recluso a sentir-se dolorosamente
empobrecido e castigado no direito elementar de alimentação, como se observa
nos depoimentos a seguir:
É a mesma coisa, antes mesmo de chegar nós já sabemos o que é o almoço. Todo
dia da semana a mesma coisa, não tem uma nutricionista que faça um alimento
assim adequado. (Homem, Capital)
É uma alimentação muito viciada. Todo dia você comendo angu, todo dia você
comendo angu com salsicha. Independentemente do fato de estarmos aqui presos,
nós merecemos uma alimentação melhor. Porque a alimentação aqui tem dia que
vem azeda, não vem uma alimentação adequada. (Homem, Baixada)

Os presos consideram que existe falta de respeito e desonestidade por parte


dos empresários da alimentação. Os detentos são obrigados a ingerir o que lhes
é oferecido, sem alternativa de se nutrirem caso recusem a comida.
O problema alimentar nos cárceres não é exclusividade do estado do Rio
de Janeiro e nem é recente no país. Assim como a superlotação e os maus-
tratos impingidos pelos agentes, representam os principais motivos de rebeliões
nas penitenciárias brasileiras. No início dos anos 2000, no Rio de Janeiro, o
empresário Jair Coelho, apelidado de “rei das quentinhas”, foi investigado pelo
Ministério Público Estadual por superfaturamento na alimentação fornecida
aos presídios. Entre 1988 e 2000, suas empresas detiveram o monopólio das
marmitas destinadas aos reclusos cariocas, com um faturamento de 80 milhões
de reais por ano. Passados 14 anos, nada melhorou, ao contrário, os problemas
se acirraram. Aumentou-se o lobby para expansão da terceirização, não apenas
no caso da alimentação, mas também da gestão dos presídios no país.
Num artigo jornalístico, Cynara Menezes (2014) radiografou os que, do
lado de fora dos muros, denominou “mercadores das cadeias”. Trata-se dos
empresários que fornecem marmitas para a maioria dos mais de 550 mil presos
no país. Segundo a jornalista, uma parte das empresas contratadas sequer paga
todos os funcionários, já que são os detentos que trabalham na entrega das
refeições, embora cobrem valores ao poder público até duas vezes superiores aos
praticados fora dos muros. Em sua pesquisa, Menezes mostra que, frequentemente
entregues por meio de transporte pagos pelo estado, em delegacias, cadeias e
presídios, as tradicionais quentinhas são alvo constante de queixas feitas ao
Ministério Público, em razão do mau cheiro, aparência, presença de insetos e

142
alimentos fora do prazo de validade, confirmando os relatos dos presos ouvidos
nesta pesquisa. Denúncias de superfaturamento e falta de higiene no preparo dos
alimentos acontecem em quase todos os estados.
“O modelo adotado favorece a fraude”, afirmou também o promotor
Eduardo Nepomuceno, da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Minas
Gerais, na operação Laranja com Pequi (MP denuncia, 2012). Essa investigação
mostrou que as empresas superestimam a quantidade de presos, não obedecem
aos cardápios estipulados, além de não serem fiscalizadas.
Outra investigação, dessa vez realizada pelo Conselho Administrativo
de Defesa Econômica (Cade), órgão federal antitruste, apurou a denúncia
de formação de cartel por mais uma gigante do fornecimento de marmitas a
presídios, a Companhia Indústria e Comércio de Alimentos, responsável pelas
refeições dos detentos em Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Pará. Um
porta-voz da empresa alegou que a investigação do Cade se baseia em denúncia
anônima, “com toda a certeza patrocinada por uma empresa que não conseguiu
sucesso na concorrência”. A fornecedora também negou entregar comida de
baixa qualidade e disse que a insatisfação dos presos decorre do fato de “estarem
segregados da vida social” (Menezes, 2014).
As denúncias acontecem do Acre ao Rio Grande do Sul. No primeiro, uma
inspeção realizada em 2013 pelo Departamento Penitenciário Nacional orientou
o Estado a rever o contrato, em virtude do superfaturamento nos valores e da
utilização de produtos com validade vencida. Em março de 2014, uma equipe
da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil do
Espírito Santo fazia uma vistoria no Centro de Detenção Provisória do Complexo
Penitenciário de Viana quando a direção mandou devolver as quentinhas que
seriam servidas na ala feminina, por estarem “estragadas e fedendo”, confirmando
a queixa das presas de lá e as que foram ouvidas nesta pesquisa. Segundo a
investigação de Menezes (2014), as detentas relataram que já foram encontrados
pedaços de plástico, vidro, madeira, sacola e insetos misturados à comida. Por
não conseguirem identificar o tipo de carne que lhes é servido, as reclusas criaram
um apelido: “carne de monstro”. Muitas disseram passar mal com frequência,
têm vômitos, dores estomacais e diarreias.
No relatório Visão do Ministério Público sobre o Sistema Prisional Brasileiro,
o Conselho Nacional do Ministério Público apresentou dados oriundos de
inspeções prisionais realizadas em março de 2013 em todo o país. Mostra-se,

143
no referido documento, que o percentual de estabelecimentos cujo cardápio foi
elaborado por nutricionista variou de 39,1% no Nordeste a 70,7% no Sul. No
Sudeste, região na qual 569 instituições foram visitadas, esse percentual foi de
68,2% e, especificamente no estado do Rio de Janeiro, isso ocorre em 73,3% das
instituições visitadas (75 unidades). A qualidade dos alimentos, em média, foi
considerada regular ou ruim em 29% das unidades (CNMP, 2013).
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em relatório
temático publicado em 2013 sobre a progressão de regime de cumprimento
de pena no sistema prisional, apresentou dados sobre seis unidades visitadas,
como forma de exemplificar a realidade vivenciada pelos detentos. A inspeção
revelou que durante as visitas houve muitas reclamações em relação à qualidade
da comida (alimentos não cozidos adequadamente, comida fria ou estragada).
Em uma das penitenciárias, os detentos relataram que precisavam se revezar
no uso dos talheres ou mesmo fazer uso da tampa da quentinha como forma de
manusear os alimentos (Alerj, 2013).
Em São Paulo, entidades de defesa dos direitos humanos que visitaram as
cadeias da capital tiveram a oportunidade de ver a mesma “carne de monstro”
na forma de hambúrgueres tão brancos que seria impossível dizer se eram feitos
com carne de boi, de porco, de frango ou de qualquer outro animal. Em 2009, a
CPI do Sistema Carcerário realizada pela Câmara dos Deputados encontrou, pelo
Brasil afora, refeições em sacos plásticos contendo insetos e objetos estranhos na
comida e quentinhas rejeitadas, amontoadas fora das celas. “A pouca quantidade
e a má qualidade da comida servida não condizem com os preços pagos pelo
contribuinte”, segundo o relatório da CPI que confirmou os problemas citados
(Brasil, 2009: 200).
A péssima qualidade da alimentação ofertada acabou por aguçar a
criatividade dos presos. Uma das formas que encontraram foi criar um mercado
paralelo de revenda de comida e outros itens dentro dos presídios, sistema
denominado “Cobal”, atividade iniciada nas penitenciárias do Rio Grande
do Sul e socializada pelo país afora. Outra maneira de buscar alternativas foi
observada em quase todas as celas nos presídios do estado do Rio de Janeiro,
onde uma peça se tornou fundamental, o “fogareiro”: um tijolo com um sulco
esculpido pelo qual serpenteia uma resistência elétrica ligada à fiação que corre
pela parede. Muitos, ao receberem as refeições, lavam os alimentos, adicionam
outros temperos e cozinham tudo de novo, procedimento que leva o nome de
“recorte”. Outra solução, embora menos frequente, tem sido a de recorrer às

144
cantinas existentes em diversas unidades prisionais. Contudo, os preços nelas
operados, de modo geral, são superiores aos encontrados no comércio externo,
sendo acessíveis apenas a uma minoria de detentos. Tanto a “Cobal” quanto as
cantinas, ao fornecerem artigos que a instituição não provê a todos os presos,
agem no sentido de favorecer e reproduzir desigualdades, endividamentos e
corrupção interna no meio carcerário, marcando diferenças entre os que podem
se valer desses recursos e os que não podem.
A CPI encontrou ainda no Presídio Vicente Piragibe, no Complexo
Penitenciário de Gericinó (antigo Complexo de Bangu), um comércio diferente,
no qual os detentos com mais dinheiro compram os produtos na “bodega”
(mercearia), dividem-nos em pequenas porções e os vendem aos presos de menor
poder aquisitivo. Verificou-se ainda que essas mercearias ou cantinas vendem
quentinhas, de melhor qualidade e variedade que as oferecidas pelo Estado, com
valores entre cinco a sete reais (Brasil, 2009).
Em seu artigo, Menezes (2014: 16) adverte: “os interesses que mantêm o
fornecimento de comida aos presos são uma fonte de corrupção e sangria dos
cofres públicos”. Portanto, a distribuição de marmitas e seus reis são indícios de
que a simples privatização não é solução para esse problema. O sistema atual
de fornecimento de refeições demonstra que, tal como concebido, o modelo
é insustentável. Infelizmente não há uma discussão política sobre o tema e os
interesses externos e escusos prevalecem, delegando aos funcionários que cuidam
dos presos o papel de conter suas queixas, revoltas e rebeliões.
Quanto a esse tema, a CPI da Câmara dos Deputados concluiu que “a má
qualidade da alimentação, os preços exorbitantes e os esquemas existentes se
constituem em um dos graves problemas do sistema carcerário” (Brasil, 2009:
27) e afirmou ainda que parte dos alimentos poderia ser produzida pelos próprios
presos, o que acarretaria uma diminuição dos custos, melhoria da qualidade da
comida, além de lhes garantir ocupação e remuneração (Brasil, 2009).
O problema alimentar nas prisões foi tema de interesse para Buffard já nos
idos de 1973. A autora viu na alimentação um fator de punição, entendendo que
a detenção se inicia pela boca, pois, para os presos, os primeiros agravos e seus
últimos desejos se fundam nesse particular. Castigar por meio da comida foi
uma prática que ganhou relevância depois do século XVIII, quando a questão
alimentar se tornou um dos pilares da instituição penitenciária. Passar a pão e
água, morrer de inanição ou ser privado de uma refeição adequada constituíam

145
uma espécie de acréscimo às punições, dado que na maioria das vezes os desejos
e as projeções dos detentos versam acerca de prazeres orais, um dos poucos que
lhes poderiam ser acessíveis.
Em estudo observacional realizado entre março de 2000 e maio de 2001
por Nogueira e Abrahão (2009), com o intuito de verificar a associação entre o
tempo de prisão e a infecção por tuberculose, concluiu-se que fatores como as
precárias condições de higiene, a baixa qualidade da alimentação e o estresse
gerado pelo confinamento aumentam o risco de adoecimento dos presos.
Segundo Mirabete (1983 apud Paredes, 2005), a alimentação constitui um
poderoso fator que incide positiva ou negativamente no regime disciplinar dos
estabelecimentos penitenciários. Uma boa alimentação não é suficiente para o
bem-estar de um preso, mas pode evitar motins e conflitos cotidianos, além de
ser fundamental para sua saúde. Por isso, segundo tais autores, a alimentação
não deve ser descuidada, mas, ao contrário, escrupulosamente atendida.
Alguns presos têm uma opinião contrária à dos colegas, julgando que dada
a sua situação, a alimentação é boa. Seus discursos são ambíguos e, ao mesmo
tempo que criticam, agradecem pelo que recebem:
Em termos de alimentação, a meu ver, não tenho muita coisa a acrescentar e
nem a reclamar. De manhã um café com pão. Aí, logo depois, o almoço, às dez
horas, com Guaravita®. À tarde lanche com Guaravita®. Janta. Tudo direitinho.
(Homem, “faxina”, Interior)
Apesar de já estar acostumado com essa comida, esse pãozinho ruim, mas fazer o
quê? Pelo menos a gente não morre de fome. A alimentação aqui é ótima. É porque
tem preso que é acostumado às coisas fáceis na rua, aí vem para cadeia quer comer
bem. Não é assim não, ele já não trabalha e quer comer bem? (Homem, Interior)
Deixa a comida ali na frente pra ver se o parente de você não vai comer. A comida
não é boa, mas também eu não tenho o que reclamar. Fruta é bem difícil. Tem
doce às vezes. O Guaravita® que vem, é quente mesmo. (Homem, Interior)

Esses últimos depoimentos retratam a internalização de um pensamento


comum em boa parcela da população brasileira, segundo o qual os detentos são
privilegiados, com todas as suas refeições garantidas, sem que para isso tenham que
fazer nenhum tipo de esforço. Muitos ficam indignados ao compará-los a outros
trabalhadores que, em muitos casos, saem de suas casas ainda de madrugada,
para fazerem jus a salários baixos no fim do mês. Enquanto isso, o Estado estaria
custeando alimentação farta para presos. Essa é uma visão equivocada, visto que,
em primeiro lugar, a qualidade da alimentação é ruim, e os detentos não têm

146
alternativas de buscar outra forma de comer, a não ser nas exceções já citadas
que contemplam muitos poucos; e, em segundo lugar, a imagem-objetivo do
encarceramento é a ressocialização e não a vingança da sociedade em relação aos
criminosos. As penas previstas no ordenamento jurídico brasileiro são medidas
de segurança e de privação de liberdade, nunca a aplicação, por meios cruéis, de
castigos que impliquem tortura, como parece ser a comida habitualmente servida
aos presos.

Um Transporte que É “o Inferno”


A Lei de Execução Penal brasileira prevê algumas situações em que os presos
podem sair da unidade prisional, mediante escolta: nos casos de falecimento ou
doença grave de um familiar próximo, para realizar algum tratamento médico
(art. 120), para os depoimentos em processos e julgamentos, participar de
entrevistas ou receber sentenças.
Por questões de segurança e para evitar fugas, existe um protocolo especial
quando os presos precisam de serviços fora do cárcere. Dentro da Coordenação
de Segurança existe um departamento do Serviço de Operações Especiais no qual
há um Grupamento de Serviço de Escolta (GSE) responsável pelo transporte
dos presos. Dentro desse grupamento existem seções de escolta no Complexo
Penitenciário de Gericinó, Centro (presídio Ary Franco), Japeri, Magé e Campos.
Esse serviço se divide em Grupamento de Serviços Externos (GSE) e Grupo de
Intervenção Tática (GIT), ambos formados por inspetores considerados de elite,
selecionados e treinados especialmente para essas funções, que lhes asseguram
um adicional no salário. O GSE faz o transporte e o GIT entra nas cadeias para
conter conflitos e rebeliões. 
Para ser transportado para fora dos presídios há um agendamento prévio e
as viaturas chegam às unidades pelas mãos dos inspetores do GSE. O transporte
dos presos seja para onde for é feito por esses agentes, que têm um uniforme
diferenciado (se vestem de preto) e têm fama de serem mais violentos, truculentos
e menos tolerantes que seus colegas, quase sempre agindo com violência física e
psicológica (xingamentos, desqualificações e ameaças). Segundo os detentos, “os
inspetores agem assim porque pensam que o preso está fingindo doença para sair
do ambiente prisional”.
A forma como o transporte (compulsório) lhes é oferecido para
comparecimento aos tribunais e para o atendimento na rede hospitalar é uma

147
das queixas principais e motivo de grande sofrimento para os presos. Quando
uma viatura sai para transportar os detentos, busca presos de várias unidades.
Cada detento tem um destino diferente, cada um é recolhido em penitenciárias
distintas e todos seguem juntos num transporte fechado e superlotado.
A maioria dos detentos da Capital e na Baixada mencionou esse tema
como um motivo de imenso descontentamento: “o transporte é um horror, tem
gente que passa mal, desmaia e passa fome”; “no transporte sofremos insultos e
pancadas e, se reclamarmos, corremos risco de sermos contidos com spray de
pimenta e choque”.
Os problemas são muitos: sofrimento pelo excesso de pessoas (locomovem-
se cerca de 400 detentos/dia), dificuldades operacionais para o transporte
dos reclusos a lugares variados e distantes e, não menos importante, precária
estrutura para realizar tantas tarefas. Presos são conduzidos todos os dias para
se apresentarem aos juízos, hospitais ou são transferidos de uma unidade para
outra. Como os agendamentos dos compromissos não obedecem aos mesmos
horários, há atrasos nos deslocamentos de um local para outro por causa do
trânsito, cancelamentos de agendas e os presos são obrigados a esperar uns
pelos outros. Em suas falas, eles comentaram que costumam ficar o dia inteiro,
e às vezes madrugada adentro, no interior desses veículos a que denominam
“verdadeiros infernos”. Alguns disseram que, por vezes, antes que saiam dos
presídios, alguns agentes mais sensíveis lhes dão um lanchinho para a viagem.
A praxe é que passem todo o tempo com fome, sede e calor, algemados e em
condições degradantes. “Muitos se sentem mal” e “já houve gente que morreu”.
Mesmo nos casos de saúde não há ambulância, os presos são conduzidos nos
camburões que transportam todos os que devem se ausentar de suas unidades.
Os agentes vivenciam grandes riscos de fuga de detentos, muitas vezes
arquitetadas por delinquentes comparsas fora das prisões. Uma operação
malsucedida pode facilitar o trabalho desses criminosos que se aproveitam de
qualquer brecha para planejarem uma operação de resgate. Os agentes também
trabalham com quantidade insuficiente de veículos em condições precárias de
conservação, o que transforma essa operação logística que deveria primar pela
segurança numa manobra arriscada. Portanto, notícias como a publicada pela
revista Veja em 13 de junho de 2013 não são incomuns:

148
Na noite do dia 13 de junho passado, um agente da Seap morreu e outras quatro
pessoas ficaram feridas durante uma tentativa de resgate de detentos que eram
transportados do Fórum de Araruama, na Região dos Lagos, para o Complexo
Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio – uma distância de cerca de 150
quilômetros. Vinte bandidos armados interditaram um trecho da Rodovia Niterói-
Manilha (BR-101), por volta das 20h, e interceptaram uma van com 11 presos. Na
época, um dos agentes afirmou que o local era ermo e escuro, o que dificultou a
reação. O objetivo do bando era resgatar Lindomar de Oliveira Abrantes, o Dodô,
apontado como chefe do tráfico de drogas de Reta Velha, em Itaboraí, município
vizinho a São Gonçalo, na Região Metropolitana. Casos como esse não são raros.
(Veja, 2013)

No mesmo ano 2013, depois de fatos traumáticos vivenciados por agentes


e presos dentro das viaturas, a Justiça Criminal do Estado do Rio de Janeiro
reabriu a discussão sobre o uso de videoconferência para ouvir depoimentos de
detentos considerados perigosos. A defesa desse tipo de interrogatório on-line
se vale dos argumentos de que o transporte de presos aumenta o risco de fugas,
tumultua o trânsito, exige organização da estrutura de segurança também nas
dependências dos fóruns, por onde os presos transitam, colocando os próprios e
outras pessoas em risco. Além de ser muito dispendioso para os cofres públicos
(Guimarães, 2009).
Guimarães (2009) cita o caso notório do traficante Fernandinho Beira-
Mar que, desde 2001, quando foi preso, já havia realizado inúmeras viagens
que geraram gastos de aproximadamente R$ 220.000,00 a fim de participar
de audiências e interrogatórios, obviamente demonstrando a exorbitância dos
custos financeiros do transporte de presos como ele.
A mesma imprensa (matéria da revista Veja On-Line, 9 nov. 2013) noticiou
que o secretário de Administração Penitenciária admitiu não conseguir cumprir
todos os agendamentos em razão do excesso de pedidos de saída dos detentos dos
seus locais de reclusão. Na opinião do secretário, o ideal seria que o Tribunal de
Justiça construísse um fórum dentro do Complexo Penitenciário de Gericinó, em
Bangu,  para minimizar os problemas – como o dos casos em que os presos
precisam ir a locais distantes da sua unidade prisional de origem, obrigando-os,
às vezes, a cruzar toda a cidade.
Como se verá no capítulo seguinte, as condições gerais do cotidiano
prisional estão intrinsecamente vinculadas às situações sociais, organizacionais e
ambientais vivenciadas pelos presos do Rio de Janeiro.

149
4
A Vida na Prisão:
saúde física, mental e ambiental

Agravos e Problemas de Saúde Física e Mental


Neste capítulo serão tratados as violências, os riscos despercebidos de
agressão e morte e os efeitos das condições de vida na saúde física e mental
dos reclusos, a partir de sua situação nas prisões do estado do Rio de Janeiro.
Certamente, muitos problemas que os apenados vivenciam têm origem na sua
vida pregressa. Mas, como se verá a seguir, o modo de vida prisional é altamente
prejudicial à sua integridade física e mental, conclusão que concorda com uma
ampla revisão da literatura realizada por Freudenberg (2001), em que o autor
analisa os efeitos diretos e indiretos da reclusão sobre a saúde dos detentos.

Vivências de violência nas prisões


Por que tratar de violências e riscos no capítulo em que se discute a saúde?
Na verdade, a violência é um conceito intruso na área da saúde, pois seu sentido
está vinculado a questões sociopolíticas, de formação social, intrapsíquicas e de
personalidade. Refere-se à perda de reconhecimento do papel de sujeito (pessoa,
grupo, coletividade) quando rebaixado à condição de objeto, mediante o uso
do poder, da força física ou de qualquer outra forma de coerção. No entanto,
no mundo contemporâneo, violências e acidentes configuram, ao lado das
enfermidades crônicas e degenerativas, os maiores problemas de saúde.
Esse novo perfil epidemiológico, que coloca a violência ora em segundo
ora em terceiro lugar na morbimortalidade do país, vem-se mantendo desde a
década de 1980, ressaltando o peso do estilo de vida e das condições sociais e
ambientais no bem-estar da população. Por isso, desde a primeira década deste
século, a Organização Mundial da Saúde (OMS) trata o tema como uma de suas

151
prioridades de ação. O Ministério da Saúde brasileiro, desde 2001, também o
adotou como uma de suas diretrizes de atuação, particularmente em relação
aos jovens e à população em idade produtiva. Pois na faixa de 5 a 49 anos a
primeira causa de morte são as violências. Entre os homens jovens (15 a 29
anos), o percentual da mortalidade por agressão chega a 82%. As ocorrências
das várias expressões de violência têm um efeito mais universal, impactando
jovens, familiares, comunidade e sociedade, do ponto de vista físico e emocional.
Também aumenta a demanda aos serviços de atenção à saúde, para onde
convergem as diferentes formas de agravos e sequelas.
A seguir, ressaltam-se algumas informações obtidas nos questionários sobre
o tema que afeta de forma relevante os reclusos e reclusas do estado do Rio
de Janeiro. Ao serem indagados sobre situações de violências de que foram
vítimas no presídio, 46,4% dos homens e 55,4% das mulheres responderam
afirmativamente em relação a pelo menos uma das formas elencadas (p<0,01).
Destacam-se a agressão psicológica e a agressão física, conforme se observa no
Gráfico 16. As mulheres relataram, em maiores proporções que os homens, terem
sido alvo de agressão verbal, sexual, quedas, tentativas de suicídio e de homicídio
e perfuração por arma branca; os homens mencionaram mais que as mulheres
terem sofrido e ainda sofrerem agressões físicas. Há diferença significativa entre
os sexos para todos os itens de vitimização (p<0,01).
Os homens detidos na Baixada são os que mais sofrem agressão verbal e física,
conforme se destaca na Tabela 23. No Interior, os detentos do sexo masculino
assinalaram, mais que os dos outros locais, terem passado por agressão sexual e
tentativa de suicídio, com diferença significativa para todo os itens pesquisados
(p<0,01). Entre as mulheres, sobressaem tanto as do Interior como as da Capital
pela vitimização por agressão verbal, física, quedas, perfuração por arma branca
e tentativas de suicídio, com diferença significativa (p<0,05). As proporções
de tentativas de morte autoinfligida na população carcerária feminina (9,4%)
são muito mais elevadas que na população geral de mulheres brasileiras (2%),
indicando, possivelmente, suas dificuldades de adaptação ao ambiente fechado
das prisões, o maior abandono que sofrem e a falta que sentem dos filhos e da
família.

152
Gráfico 16 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e vitimização no presídio

Tabela 23 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo


sexo, área e vitimização nos presídios
Homens Mulheres
Itens Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Sofreu alguma forma de vitimização no presídio
Sim 9.775 46,4 6.438 47,6 1.472 48,6 1.866 41,2 689 55,4 568 53,3 120 68,4
Tipos de vitimização que sofreu
Sofreu agressão física 4.307 21,4 2.777 21,3 763 26,7 767 18,1 195 17,6 146 15,4 49 31,8
Sofreu agressão verbal 7.451 37,6 4.834 38,0 1.160 40,6 1.457 34,3 543 47,6 456 46,3 86 55,8
Sofreu assédio ou
320 1,6 198 1,6 35 1,3 87 2,2 37 3,4 30 3,1 7 5,2
agressão sexual
Perfuração por arma
760 3,9 485 3,8 131 4,9 145 3,6 15 1,4 13 1,4 2 1,3
de fogo
Perfuração por arma
733 3,8 539 4,3 70 2,6 124 3,1 50 4,6 37 4,0 13 9,1
branca
Queda 2.494 12,9 1.815 14,3 328 12,2 352 9,0 236 21,7 193 20,5 43 29,3
Tentativa de suicídio 754 3,9 529 4,2 71 2,7 154 3,9 104 9,4 84 8,8 20 13,9
Tentativa de homicídio 772 4,0 495 3,9 185 6,7 93 2,3 62 5,7 55 5,8 7 5,2

153
As informações apresentadas no Gráfico 16 e na Tabela 23 chamam a atenção
para as elevadas proporções de violência física, verbal e para as tentativas de
suicídio. É interessante observar que as tentativas de homicídio, cerca de 5,2%
nas prisões do Rio de Janeiro, são, proporcionalmente, quase duas vezes e meia
menores que as de tentativas de suicídio (13,9%) entre as mulheres do Interior.
E, ao contrário, as taxas de homicídio na população em geral são cerca de cinco
vezes e meia maiores que as mortes autoinfligidas. Sobre esse tema, é importante
lembrar que Freud (1980), já em 1917, ressaltava que todo suicida tem o desejo
anteriormente reprimido de matar outra pessoa. No suicídio, há o deslocamento
de impulsos destrutivos do outro, voltados para a destruição do próprio
self. Também Durkheim (2007), em seus estudos, constatou que os desejos
homicidas e suicidas vêm da mesma fonte: o mal-estar e a inconformidade social.
As tentativas de suicídio entre os presos do estado do Rio de Janeiro constituem
um forte indicador de sofrimento mental.
Em vários estudos realizados no Brasil e em outras partes do mundo almeja-
se esclarecer a relevância dos suicídios nas prisões, no intuito de revelar que sua
incidência é mais elevada que na população em geral. A OMS (2002) salienta
que as mulheres nas prisões apresentam um índice maior de tentativas, mas os
homens são indicados como os que mais concretizam o ato. Mulheres que estão
na cadeia, segundo a OMS, tentam se matar cinco vezes mais do que a população
feminina em geral e duas vezes mais do que os homens presos, o que se confirma
nesta pesquisa.
Um estudo experimental com caso-controle, acompanhado de entrevistas
semiestruturadas, realizado por Pragosa (2012) numa prisão em Portugal, em
que também se observaram taxas elevadas de tentativas de suicídio em relação à
população em geral, analisou as principais características desse grupo de detentos:
ser solteiro, ter baixa escolaridade, apresentar histórico de abuso e de dependência
de substâncias psicoativas. Boa parte dos presos de sua amostra tinha diagnóstico
psiquiátrico de perturbação mental e tomava medicação psicotrópica. Poder-se-
ia questionar por que essas pessoas tomavam tantos remédios para diminuir
o sofrimento psíquico e se as tentativas de suicídio eram uma causa primária
ou um sintoma do mal-estar. O meio mais utilizado pelos presos para tentar
o suicídio foi o enforcamento no período da noite. Os resultados do estudo
de Pragosa (2012) revelaram que os indivíduos que tentaram se matar eram
muito introvertidos e apresentavam sintomas marcadamente depressivos. Entre
os traços de vulnerabilidade, o autor encontrou ainda ansiedade, hostilidade e
impulsividade, problemas de sociabilidade e de desconfiança em relação ao outro.

154
Em uma pesquisa realizada com a população prisional do Rio Grande do
Sul entre 1995 e 2005 (Negrelli, 2006), verificou-se que as taxas de suicídio
consumado nesse grupo foram duas vezes e meia mais elevadas que as da
população em geral, e o perfil era de homens, como referido pelo documento da
OMS (2002), com idade entre 20 e 29 anos, de cor branca, solteiros, com grau de
instrução fundamental incompleto e com baixo nível de profissionalização. Esse
perfil demográfico não difere do que apresenta a população carcerária do Rio de
Janeiro, a não ser na cor da pele, pois no Sul a população é predominantemente
branca. As tentativas de autoextermínio nos presídios do Brasil ocorrem
principalmente em dezembro, janeiro e fevereiro, meses de verão, de calor
muito forte, em que a superlotação nas celas se torna mais insuportável, além de
coincidir com datas emocionalmente importantes para as famílias como Natal,
Ano Novo e Carnaval. O estudo de Negrelli assinalou como fatores de risco o
intenso sofrimento mental e o tempo de cumprimento da pena acima de quatro
anos, com expectativa de saída da prisão em mais de cinco anos.
Folino, Marchiano e Wilde (2003), em estudo sobre as prisões da cidade
de Buenos Aires, também mostraram que a taxa anual de suicídios nesses
locais é 13 vezes a da população em geral. Blaauw e colaboradores (2002), em
investigação sobre a população carcerária dos Estados Unidos, encontraram,
como explicação para as altas taxas de tentativas e autodestruição consumada,
uso excessivo de álcool e outras drogas, perda de recursos sociais, econômicos,
falta de apoio dos familiares, excessiva culpa ou vergonha pelo delito cometido,
acometimento de transtornos mentais, doenças físicas graves ou terminais, e
presença de algum tipo de estressor, como rupturas emocionais, ameaças de
castigo ou morte, entre outros.
Há bastante coincidência entre os estudos que tratam da violência
autoinfligida – não nas proporções dos atos ou intenções, mas em relação aos
aspectos da vida do cárcere que, frequentemente, remetem a histórias pessoais
que antecederam a reclusão. Na seção a seguir, dados sobre percepção de risco
concluem as informações sobre o impacto que a violência cometida e a violência
sofrida têm na saúde física e emocional dos detentos.

155
Percepção dos riscos que correm
e as lesões que sofrem
A percepção de risco na vida de reclusão dos apenados do estado do Rio
de Janeiro constitui uma manifestação do mal-estar que eles vivenciam em
sua cotidianidade, em sua rotina, sobretudo nas relações interpessoais com os
colegas, com os agentes penitenciários e, também, com os grupos delinquentes
externos que permancem em contato com muitos deles, particularmente com
os que participavam e continuam a atuar antes no tráfico de drogas e armas.
A percepção de risco está vinculada a todos os aspectos de seu cotidiano, muitos
deles tratados anteriormente.
A noção de risco é uma das criações da modernidade industrial, mais
precisamente do século XVII, servindo ora como elemento de precaução no nível
pessoal, quando existe alguma ameaça, ora como elemento de cálculo diante das
probabilidades de que algo de ruim e indesejável possa acontecer.
Quanto à definição do conceito, duas tendências concomitantes podem ser
notadas historicamente: de um lado, risco está associado a algum evento ou fato
negativo, e correr risco significa uma escolha individual em face de algo que pode
dar certo ou errado. De outro, risco é visto como algo inerente à vida, aos desafios
do progresso universal e ao desenvolvimento pessoal e do mundo. Lembra
Heidegger (1980) que “o risco é o próprio sentido da existência” e “viver é um
risco”. Só cresce e se desenvolve na vida quem se joga no abismo das incertezas
para conquistar os seus melhores desejos. Para os reclusos entrevistados, esse
conceito é percebido apenas no seu sentido negativo, como perigo, incerteza e
medo (Giddens, 2000; Douglas & Wildavsky, 1983).

Riscos que correm


Nas respostas ao questionário sobre esse tema, um número menor de
homens (54,5%) que de mulheres (62,7%) afirmou correr riscos no interior
do presídio (p<0,01), conforme se constata no Gráfico 17. Tanto os homens
como as mulheres consideram que têm maior a probabilidade de sofrer agressão
física e psicológica por parte dos agentes do que dos colegas, como foi analisado
anteriormente. Os homens, mais que as mulheres, acreditam que correm perigo
de serem vitimados por armas de fogo e explosões. As mulheres têm mais medo
da violência psicológica, dos ferimentos por arma branca e das queimaduras.

156
Tais diferenças estatísticas entre os sexos são significativas para todos os itens
pesquisados (p<0,01), menos para a probabilidade de sofrer agressões físicas e
violências sexuais.

Gráfico 17 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e tipos de riscos que correm no presídio

Nos dados apresentados na Tabela 24, observa-se que entre os homens a


percepção de que estão em risco de sofrer agressão física é bem maior que o
encontrado em relação aos outros tipos de violências. O grupo que se considera
mais vulnerável é o da Baixada Fluminense. Os presos do Interior são os que
menos se julgam em perigo (p<0,01), com diferença significativa para todos os
tipos de risco investigados (p<0,05). A percepção das mulheres é semelhante
entre as da Capital e as do Interior do estado, com diferença significativa apenas
para a probabilidade de serem feridas por arma de fogo (p=0,037) e sofrerem
queimaduras (p=0,012). Os maiores percentuais se encontram entre as presas
na Capital.

157
Tabela 24 – Número e proporção dos presos do estado do Rio de Janeiro, segundo
sexo, área e riscos que correm no presídio
Homens Mulheres

Itens Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Corre pelo menos um risco no presídio (entre os especificados abaixo)

Sim 11.404 54,5 7.397 55,4 1.708 55,7 2.299 51,0 810 62,7 693 62,4 117 64,4

Tipos de riscos que correm

Sofrer agressão física 8.414 42,5 5.396 42,6 1.318 45,9 1.700 40,1 535 44,1 447 43,1 86 50,5

Sofrer violência sexual


938 5,0 560 4,6 173 6,5 205 5,4 46 4,3 41 4,4 5 3,7
(assédio, estupro)

Sofrer violência
psicológica (ameaças, 5.857 31,1 3.703 30,5 849 31,6 1.305 32,9 603 51,8 526 52,4 77 47,8
humilhações)
Ser ferido por arma
3.652 19,2 2.662 21,4 267 9,9 723 19,0 342 31,0 302 31,7 40 26,2
branca
Ser ferido por arma
2.397 12,8 1.544 12,6 420 15,6 433 11,6 71 5,1 67 7,4 4 2,4
de fogo
Queimadura por fogo
2.073 11,1 1.344 11,0 247 9,3 482 13,0 159 14,9 148 16,0 11 7,7
ou química
Explosão (bomba,
granada, outros 2.531 13,6 1.468 12,1 428 16,2 635 16,9 64 6,0 58 6,4 5 3,8
explosivos)
Outros 2.482 18,4 1.635 19,3 399 18,3 448 15,9 138 18,8 124 19,3 14 15,1

Homens e mulheres aproveitaram o espaço aberto, de livre expressão, para


especificar uma série de riscos que sofrem no cotidiano, o que corresponde a
uma centena de situações a que estão expostos, em que perigo e medo se juntam.
As mulheres citaram, particularmente, os medos de serem castigadas
injustamente, acusadas por ações que não praticaram, reprimidas ao falar alguma
coisa que não devem com os agentes, de serem transferidas e sofrerem castigos
físicos no lugar para onde fossem, de ficarem de castigo sem visitas, de ficarem
muito tempo algemadas, de morrerem por falta de tratamento médico, de serem
golpeadas por agentes masculinos (os quais consideram muito agressivos). Também
afirmaram que sentem medo de que suas correspondências sejam violadas, de que
sejam elas agredidas com navalhas (escondidas com companheiras dominantes
e agressivas), de que tudo na cela possa virar arma, de perseguição por parte de
funcionárias, de se deslocarem para as unidades de saúde (em razão da violência
nos transportes), de armas não letais (pistola de choque, caneta de choque, escova
de dente amolada), assim como medo da direção.

158
Os homens também fizeram uma grande lista dos perigos que correm e dos
temores que sentem. Duas menções são emblemáticas: “medo de ser vencido pelo
descaso e pela crueldade”; “medo desse sistema falido”. Esses riscos que envolvem
todos os aspectos da vida prisional referem-se a medos de funcionários, de castigo
ou buque; de serem contaminados pela comida; de morrerem no transporte que
leva ao fórum ou aos hospitais, de serem espancados cada vez que saem da cela.
Têm receio também de serem envenenados, ameaçados e agredidos pelos agentes
por tiros, bombas, spray de pimenta ou choque; de serem alvejados em tentativas
de fuga ou feridos por bala de borracha ou pedaço de pau; de serem vítimas da
polícia ou dos próprios colegas em rebeliões; de sofrerem linchamento; passarem
mal à noite ou morrerem por falta de atendimento médico; pegarem alguma
doença pela convivência coletiva em ambiente insalubre da cela; perderem a
família. Alguns mencionaram ainda o medo de sofrerem distúrbios e convulsões
por serem dependentes químicos.

Lesões que sofrem


Já se mencionou anteriormente o grande número de detentos com lesões
permanentes, 26,3% das quais adquiridas no presídio. Segundo a Tabela 25, pelo
menos 10,4% dos detentos têm uma lesão permanente como: dedo ou membro
amputado; seio, rim ou pulmão retirado; paralisia permanente de qualquer
tipo; deformidade ou rigidez constante de pé, perna ou coluna; deformidade
permanente ou rigidez constante de dedo, mão ou braço; incapacidade para reter
fezes ou urina. Constata-se ainda que há mais mulheres (15,1%) que homens
(10,4%) com lesões permanentes (p<0,01) e que menos homens do Interior
(9,2%) que os da Baixada (11,5%) e da Capital (10,6%; p<0,01) relataram ter
esse tipo de agravo.

Tabela 25 – Lesões permanentes adquiridas na prisão em detentos do estado do


Rio de Janeiro, segundo sexo e área

Lesões Homens Mulheres


permanentes
adquiridas na Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
prisão N % N % N % N % N % N % N %

Sim 2.039 10,4 1.349 10,6 308 11,5 382 9,2 180 15,1 146 14,4 34 19,4

Não 5.730 29,2 3.609 28,3 835 31,2 1.285 30,9 403 33,7 349 34,2 54 30,6
Não tem lesões
11.821 60,3 7.788 61,1 1.536 57,3 2.497 60,0 583 51,2 524 51,4 88 50,0
permanentes
Total 10.590 85,7 12.746 100 2.679 100 4.164 100,1 1.166 100 1.019 100 176 100

159
O percentual de pessoas com lesões permanentes aumenta progressivamente
com o passar dos anos de prisão, tanto no caso dos homens como das mulheres
(p<0,001). No grupo masculino, no primeiro ano de prisão, 10,1% dos detentos
citaram que tinham algum tipo de agravo. Já os que estão há mais de vinte anos
em reclusão são vítimas de 25,8% de lesões. Entre as mulheres, essa progressão
ao longo do tempo passa de 9,4% no primeiro ano de detenção para 29,2% para
as que estão há mais de dez anos no cárcere. Não se encontrou uma bibliografia
específica sobre o tema nos estudos brasileiros. Os dados aqui apresentados
oferecem um verdadeiro testemunho dos efeitos da violência nas prisões e
justificam o que foi mencionado anteriormente, como o medo do perigo e do
risco que os reclusos sentem do que lhes possa acontecer durante o tempo de
cumprimento da pena.
Todos os aspectos mencionados são o avesso do que prescrevem o guia
“Saúde nas prisões” da OMS (WHO, 2007), a Lei de Execução Penal e a Política
Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no
Sistema Prisional. A percepção dos riscos que os detentos e detentas declararam
está relacionada a experiências vivenciadas ou testemunhadas de ameaças e à
consumação das agressões que sofrem, num ambiente em que têm poucos
instrumentos para reagir e se defender. O difícil relacionamento com os que
estão encarregados de guardá-los e a falta total de governabilidade e de domínio
sobre as atividades mais elementares de sua vida – como a comida de péssima
qualidade, o espaço mínimo para dormir, a falta de água constante, a superlotação,
o calor exacerbado, entre tantos outros aspectos – são motivos suficientes para
tornar violento o ambiente e emocionalmente insuportável o tempo de reclusão,
como escreveu um dos presos entrevistados, “eu corro o risco de ficar louco”.
No mesmo sentido, ressoa a frase dita por um detento a Pereira (2009: 25):
“Para quem está no inferno, um minuto é uma eternidade”. No sistema prisional,
comenta essa autora, pune-se por meio da quantidade de tempo. O que mais pesa
nessa lentidão marcada pelo ócio, pela rotina e pelos maus-tratos é a mortificação
da vida nos seus mais elementares direitos de sociabilidade, repercutindo o
pensamento de Goffman (1990) e Foucault (2009).

Saúde física
A Lei de Execução Penal brasileira, no título II, capítulo II, artigo 14,
dispõe que a atenção à saúde do preso e do internado, de caráter preventivo e
curativo, deve compreender atendimento médico, farmacêutico e odontológico

160
(Brasil, 1984). E mais: quando o estabelecimento penal não estiver aparelhado, a
assistência deverá ser prestada em outro local, mediante autorização da direção
da instituição. Esse ponto já foi detalhadamente tratado no capítulo 1 do livro.
Embora existam leis e tratados nacionais e internacionais com o objetivo de
contribuir para uma melhor assistência à população encarcerada, e a legislação
brasileira busque prevenir o crime e garantir o retorno à convivência social, o
sistema de gerenciamento das precárias condições de confinamento impossibilita
o acesso das pessoas presas à saúde de forma integral e efetiva. Portanto, uma
das maiores queixas dos detentos é quanto à negligência com sua saúde física e
psíquica, tema que vem seguido pelas reclamações de descaso com sua própria
existência, por parte dos operadores do sistema e dos operadores da lei.
Em âmbito mundial, como já foi mostrado no capítulo 1 deste estudo, a
OMS, com o Projeto de Saúde no Sistema Prisional de 1995, preconiza a
promoção da saúde pública e dos cuidados nas prisões e oferece consultoria
especializada para os seus Estados-membros para uma série de questões técnicas
relativas às doenças transmissíveis, especialmente tuberculose, Aids e hepatite.
Nas orientações a respeito dos adictos de drogas ilícitas, o documento inclui
propostas e orientações para ações de redução de danos e de apoio à saúde mental
(Carvalho et al., 2006). O guia “Saúde nas prisões”, também citado, baseia-se em
várias normas internacionais e define a qualidade dos cuidados de saúde a serem
providos às pessoas encarceradas.
Inicia-se esta seção pela descrição das atividades físicas, pois elas, num
ambiente confinado como a prisão, ajudam a manter o equilíbrio físico e
emocional. Observou-se que esse tópico constitui uma preocupação de 65,6%
dos homens presos, mas 34,4% deles não praticam. O percentual de mulheres
inativas é muito maior (74,6%), revelando a tendência já declarada por elas de
permanecerem nas celas e de se isolarem (Gráfico 18).
Desdobrando-se a questão sobre adesão a atividades físicas por tempo de
aprisionamento, observa-se um quadro distinto entre os sexos: 75% das mulheres
com menos de um ano de prisão não praticam exercícios e esse percentual piora
ainda mais, chegando a 87%, no grupo das que cumprem mais de dez anos
de detenção (p<0,001). Entre os homens, os que estão na prisão há um ano
ou menos realizam pouca ou nenhuma atividade (23,1%). Já os que têm dez
anos ou mais de reclusão apresentam uma frequência de atividades maior (46%),
que se estende por duas ou mais vezes por semana (p<0,001), em movimento
contrário ao das mulheres. Na Tabela 26, constata-se que os presos da Baixada e

161
as detentas da Capital são os mais inativos dentre os presos (p<0,01). E os mais
ativos são os homens da Capital e as mulheres do Interior.

Gráfico 18 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e frequência das atividades físicas praticadas no presídio

Tabela 26 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo, área e atividades físicas realizadas nos presídios
Homens Mulheres

Atividades físicas Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior


(N=20.711) (N=13.304) (N=2.895) (N=4.511) (N=1.280) (N=1.095) (N=185)

4 ou + vezes por
13,9 15,3 9,0 12,7 6,0 5,6 8,7
semana
2-3 vezes por semana 14,5 14,8 11,0 15,8 6,5 6,1 8,7
1 vez por semana 25,2 26,4 29,4 19,0 9,6 9,8 8,7
2-3 vezes por mês 4,8 5,0 3,4 5,2 0,5 0,3 1,9
Poucas vezes no ano 7,2 7,0 5,4 9,0 3,3 3,6 1,0
Não pratico 34,4 31,4 41,9 38,3 74,0 74,6 70,9
Total 100,0 100 100 100 100,0 100 100

162
Em seguida, apresentam-se as informações sobre o inquérito de saúde.
O primeiro ponto a se notar é a maior frequência de queixas de problemas de
saúde por parte das mulheres, quando comparadas aos homens. Em todos os
itens – menos em relação ao aparelho reprodutor – elas apresentam taxas mais
altas no período de 12 meses antes da pesquisa. Na Tabela 27 encontram-se os
percentuais das doenças mais frequentes entre os detentos, de ambos os sexos,
nas diferentes áreas investigadas.
Podem-se observar várias diferenças significativas na Tabela 27. Há
predomínio das queixas das mulheres nos itens relativos a doenças pulmonares,
em comparação aos homens, exceto no caso “de outro problema pulmonar”
e “bronquite”. As doenças cardíacas e circulatórias são mencionadas mais
por homens, com diferença significativa (p<0,05) para todos os itens. Não há
diferença expressiva para as mulheres da Capital e do Interior. No caso das
doenças digestivas, há diferença significativa (p<0,05) para todos os itens
entre os homens das três localidades estudadas, mas não entre as mulheres. Os
agravos de músculos, ossos e pele atingem tanto homens quanto as mulheres,
e a variação entre os grupos por locais é significativa (p<0,01). Também sobre
as doenças glandulares e sanguíneas e as enfermidades do sistema nervoso,
percebe-se diferença significativa (p<0,01) somente para os homens. No caso
das doenças urinárias, há diferença significativa (p<0,01) para todos os itens,
exceto “outro problema urinário” para os homens, mas não para as mulheres.
Entre essas também não há variações expressivas quanto a doenças reprodutivas
femininas. Em relação a doenças transmissíveis, nota-se diferença significativa
entre os homens (p<0,05) e entre as mulheres (p=0,032). Nas doenças de visão,
audição e fala há diferença significativa (p<0,01) para todos os itens, exceto para
“outro problema nos olhos” entre os homens das três localidades, e em todos os
itens entre as mulheres.

163
Tabela 27 – Número e proporção de presos do estado do Rio de Janeiro, segundo
sexo, área e doenças apresentadas ou tratadas no período de 12 meses
antes da pesquisa
Homens Mulheres

Doenças Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Respiratórias

Rinite alérgica 3.406 18,3 1.857 15,5 401 15,2 1.147 28,7 333 30,2 263 27,5 70 47,0

Sinusite 5.559 29,1 3.286 26,3 931 34,8 1.342 34,4 443 39,2 362 36,8 81 55,6

Bronquite crônica 1.950 10,8 1.375 11,5 253 10,1 322 8,9 109 10,7 91 10,1 18 15,6

Tuberculose pulmonar 1.573 8,7 1.034 8,7 205 8,3 334 8,9 26 2,5 20 2,3 5 4,7

Qualquer outro problema


2.001 11,3 1.271 11,1 300 11,9 430 11,8 70 7,0 55 6,3 14 11,9
pulmonar

Cardíacas e circulatórias

Hipertensão arterial
2.830 14,0 1.793 13,6 435 15,6 602 14,1 363 30,0 304 29,2 59 34,7
(pressão alta)

Qualquer outro problema


1.788 9,3 1.350 10,8 229 8,4 210 5,2 150 13,4 130 13,3 20 13,8
ligado ao coração

Digestivas

Gastrite crônica 1.918 10,3 1.247 10,1 351 13,4 320 8,8 151 14,9 131 14,8 20 15,9

Indigestão frequente 2.196 11,9 1.146 9,4 467 18,4 584 15,7 276 27,2 22,9 25,8 47, 37,1

Constipação frequente
2.733 14,8 1.628 13,3 422 16,9 684 18,3 473 44,4 403 43,7 70 48,8
(prisão de ventre)

Músculos, ossos e pele

Artrite ou qualquer outro tipo


1.193 6,2 764 6,1 216 8,0 213 5,4 143 13,4 123 13,0 20 15,9
de reumatismo

Ciática 1.819 9,4 1.080 8,5 297 11,2 442 11,3 155 14,8 128 13,9 27 22,1

Bursite 1.725 9,1 1.121 8,9 284 10,9 320 8,3 186 18,1 157 17,4 29 22,9

Frequentes dores no pescoço,


8.401 43,1 5.506 43,2 1.247 46,2 1.649 40,7 664 58,3 545 55,4 119 76,7
costas ou coluna

Torção ou luxação de
2.066 10,8 1.182 9,4 409 15,5 475 12,2 186 17,7 150 16,2 36 28,2
articulação

Fratura óssea 1.628 8,6 953 7,6 230 9,0 446 11,5 121 11,5 101 10,9 20 15,3

Qualquer outro problema de


1.948 10,2 1.229 9,8 341 13,0 379 9,7 158 15,1 142 15,5 16 12,5
ossos ou cartilagens

Qualquer outro problema de


2.455 13,0 1.564 12,6 431 16,2 460 11,8 134 12,8 114 12,4 20 15,7
músculos ou tendões

Doença crônica de pele


(úlceras, eczemas, psoríase, 1.230 6,5 716 5,8 235 8,9 279 7,2 114 11,1 94 10,4 20 15,9
etc.)

Alergia de pele, dermatite


3.551 18,6 2.055 16,5 716 26,5 780 19,7 317 29,3 257 27,3 59 43,4
alérgica, urticária

Qualquer outro problema


2.667 14,1 1.590 12,9 507 19,0 571 14,7 169 16,0 141 15,0 29 22,9
de pele

164
Tabela 27 – Número e proporção de presos do estado do Rio de Janeiro, segundo
sexo, área e doenças apresentadas ou tratadas no período de 12 meses
antes da pesquisa (continuação)
Homens Mulheres

Doenças Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Glandulares e sanguíneas

Anemia de qualquer tipo 1.807 9,1 994 7,7 333 12,2 480 11,7 361 31,7 303 30,9 58 36,8

Sistema nervoso

Dores de cabeça frequentes/


9.539 46,8 5.870 44,5 1.538 53,2 2.131 49,6 869 71,2 741 70,6 128 75,5
enxaquecas

Outro problema do sistema


3.593 18,5 2.262 17,8 662 24,5 669 16,7 408 36,5 344 35,5 65 42,9
nervoso

Urinárias

Infecção urinária (cistite/


2.202 11,0 1.339 10,2 395 14,1 468 11,0 512 54,8 442 43,5 70 45,9
uretrite)

Infecções renais 920 4,7 519 4,1 127 4,7 274 6,6 161 14,6 142 14,7 20 14,3

Outro problema do aparelho


1.147 5,9 747 5,9 154 5,6 247 6,1 149 13,8 125 13,5 23 15,9
urinário

Reprodutivas femininas

Tumor, cisto ou outro problema


- - - - - - - - 151 13,3 131 13,3 20 13,3
de útero ou ovário

Transmissíveis

Dengue 1.340 6,8 724 5,7 265 9,7 351 8,5 129 11,4 104 10,6 25 16,7

Qualquer tipo de tuberculose 1.305 6,7 905 7,1 175 6,5 225 5,6 35 3,2 28 2,9 7 4,9

Visão, audição e fala

Deficiência auditiva em um ou
2.562 13,0 1486 11,7 492 17,6 584 14,0 163 14,5 130 13,2 32 23,7
ambos os ouvidos

Cegueira em um ou ambos
1.429 7,4 871 7,0 316 11,5 241 6,1 115 10,5 92 9,6 23 17,6
os olhos

Defeito da visão
(miopia, astigmatismo, vista 4.932 25,0 3146 24,6 777 27,8 1009 24,3 475 40,9 381 38,1 94 58,4
cansada etc.)

Qualquer outro problema com


1.918 10,1 1252 10,2 295 10,7 371 9,3 163 14,7 127 13,1 36 25,0
os olhos

165
Notas:
a) Doenças respiratórias: diferença significativa (p<0,05) para todos os itens, exceto outro
problema pulmonar entre os homens e bronquite entre as mulheres.
b) Doenças cardíacas e circulatórias: diferença significativa (p<0,05) para todos os itens entre os
homens. Não há diferença significativa entre as mulheres.
c) Doenças digestivas: diferença significativa (p<0,05) para todos os itens entre os homens. Não
há diferença significativa entre as mulheres.
d) Doenças de músculos, ossos e pele: diferença significativa (p<0,01) para todos os itens entre
os homens.
e) Doenças glandulares e sanguíneas: diferença significativa (p<0,01) somente entre os homens.
f) Doenças do sistema nervoso: diferença significativa (p<0,01) para todos os itens somente
entre os homens.
g) Doenças urinárias: diferença significativa (p<0,01) para todos os itens, exceto outro problema
urinário entre os homens. Não há diferença significativa entre as mulheres.
h) Doenças reprodutivas femininas: não há diferença significativa.
i) Doenças transmissíveis: diferença significativa entre os homens (p<0,05) e entre as mulheres
(p=0,032).
j) Doenças de visão, audição e fala: diferença significativa (p<0,01) para todos os itens, exceto
outro problema nos olhos entre os homens e em todos os itens para as mulheres.

De todos os presos que responderam ao questionário, 47,7% dos homens e


54,5% das mulheres (p<0,01) informaram que apresentavam doença respiratória
ou haviam-se tratado de pelo menos uma delas. Os sintomas mais comuns são de
rinite alérgica (47%), sinusite (55,6%), bronquite crônica (15,6%), tuberculose
pulmonar (4,7%) ou de outros problemas (11,9%). Os percentuais das queixas
são muito elevados, pois se estima que a prevalência de problemas respiratórios
na população brasileira seja de 18%. As mulheres são as mais queixosas (acima
de 50% delas). Constata-se que se eleva o percentual de homens com esses
tipos de agravo à medida que evolui o tempo de aprisionamento (p<0,001).
O aumento das enfermidades pulmonares e respiratórias em pessoas que estão há
mais tempo em regime prisional é indicativo da insalubridade das celas, da falta
de arejamento e dos contatos intensos entre as pessoas por causa da superlotação.
Problemas de coração e do aparelho circulatório foram citados por 23,2% dos
homens e 36,5% das mulheres (p<0,01), e a hipertensão arterial é o agravo mais
frequente. Esses percentuais estão compatíveis e até abaixo da média, quando se
compara com a população brasileira como um todo, em que a prevalência é de
35,8% para homens e de 30% para mulheres. No entanto, quando se observam
os dados por faixa etária, conclui-se que a carga desse tipo de agravo é muito

166
mais elevada na população prisional, pois ela é composta, sobretudo, de jovens e
de jovens adultos entre 20 e 29 anos. No mesmo grupo de idade da população em
geral, a prevalência é de 24,5% entre as mulheres e de 17,5% entre os homens.
Esses percentuais sobem para 50% no grupo de 60 anos ou mais (Schmidt et al.,
2011). Entre os fatores de risco mais conhecidos estão o tabagismo, a inatividade
física, a hipertensão arterial, o sobrepeso, a obesidade e o estresse.
Um percentual de 35,6% dos homens e 57,6% das mulheres (p<0,01)
relatou sofrer de pelo menos um problema do aparelho digestivo. As principais
queixas são de gastrite (15,9%), dificuldades digestivas (37,1%) e prisão de
ventre (48,8%). Tais problemas, sem dúvida, estão fortemente vinculados à
péssima dieta com que são alimentados os presos e com a falta do equilíbrio
necessário entre os grupos alimentares, como foi exaustivamente discutido
anteriormente. Tais agravos estão muitíssimo acima da prevalência encontrada
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no censo de 2010
(15%). Também são mais elevados do que os dados provenientes da Federação
Brasileira de Gastroenterologia que mostram cerca de 20% de prevalência de
problemas no trato digestivo na população brasileira.
Ter pelo menos um problema osteomuscular foi citado por 57,3% dos
homens e 70,3% das mulheres presas (p<0,01), no período de 12 meses antes
da pesquisa. Os principais sintomas assinalados foram de artrite ou reumatismo
(15,9%), dor ciática (22,1%), bursite (22,9%), dores no pescoço, costas e coluna
(76,7%), torção ou luxação de articulação (28,2%), fratura óssea (15,3%),
agravos nos ossos ou cartilagens (12,5%), e músculos ou tendões (15,7%). As
frequentes dores no pescoço, costas e coluna foram as queixas mais citadas, com
percentuais expressivos para ambos os sexos, embora com predominância nas
mulheres (43,1% dos homens e 58,3% das mulheres).
Esse tipo de agravo à saúde está relacionado com a falta de exercícios físicos,
com a superlotação das celas, com as dificuldades dos homens e das mulheres
de se acomodarem nos lugares que lhes são reservados, com o pequeno espaço
de locomoção e com noites maldormidas em colchões inadequados ou no chão.
Mas se sabe que os problemas osteomusculares também têm um componente
emocional que não deve ser descartado. Comparando-se as prevalências
encontradas entre trabalhadores brasileiros, os achados são inferiores, embora
ainda muito elevados. Num inquérito de saúde, 75,2% dos trabalhadores
relataram algum tipo de sintoma osteomuscular, quando perguntados por esse
agravo no período de 12 meses antes da pesquisa (Picoloto & Silveira, 2008).

167
As doenças de pele são temidas pela maioria dos presos, particularmente
pelas mulheres. Elas têm prevalência mais elevada que na população brasileira,
como se pode constatar a seguir. Esses problemas estão associados à falta de água,
às condições precárias de higiene, assim como aos contatos intensos no ambiente
insalubre das celas e do presídio como um todo. Na população carcerária, as úlceras,
eczemas e psoríases foram citadas por 15,9% dos participantes. E 43,4% dessa
população se queixaram de alergias, dermatites de contato e urticárias. Segundo
censo de 2006 da Sociedade Brasileira de Dermatologia (2006), as doenças de
pele mais comuns no Brasil são as sexualmente transmissíveis (25,12%), as
dermatoses alérgicas (14,03%), as dermatoses não especificadas (13,01%), a
hanseníase (6,34%), a acne, a seborreia e outras (5,05%). A frequência maior
dos sintomas se observa na faixa etária de 20 a 29 anos. Estudos ambulatoriais
mostram que as prevalências mais elevadas são de psoríase (11,72%), eczemas
(8,68%), micoses superficiais (8,60%). Os percentuais mais baixos são para
acne, tumores cutâneos e verrugas (Alves, Nunes & Ramos, 2007). Em todos
esses estudos, os dados mencionados sobre incidência de doenças de pele é
menor que na população carcerária do estado do Rio de Janeiro.
Cerca de 15,9% dos homens e 39,6% das mulheres (p<0,01) declararam ter
pelo menos um problema glandular ou sanguíneo. A anemia foi menos frequente
entre os homens (9,1%) e mais frequente entre as mulheres, nelas apresentou-se
um percentual bem elevado (31,7%). Chama-se a atenção para as referências
a problemas de próstata e de mama. Os tumores de mama, citados como
preocupação por 13,3% das detentas, são de elevada incidência na população
feminina brasileira, com prevalência de 50 por 100.000 mulheres e com uma
média de 22% de casos novos por ano (Inca, 2004).
Os problemas de próstata estão associados ao aparelho reprodutor masculino.
Dos presos, 6,5% referiram agravos a sua saúde reprodutiva no período de 12
meses antes da pesquisa. Entre esses, 3,8% relataram sintomas na próstata (4%
dos presos na Capital, 3,9% na Baixada e 3,2% no Interior) e 4,5% disseram
padecer de outras doenças. Os cuidados são muito importantes, pois o câncer
nessa região do corpo masculino é o segundo em incidência no país, com uma
taxa de 70,42 por 100.000, embora atinja particularmente a população mais
idosa. Um percentual de 20,5% das mulheres revelou também ter tido problemas
do aparelho reprodutivo no último ano: tumores e cistos no útero ou no ovário
são os mais frequentes. Em suas falas livres, alguns detentos e detentas afirmaram
que estão diagnosticados com essas doenças ou já vieram para a prisão com esses

168
problemas, no entanto não são devidamente acompanhados e cuidados. Outros
se queixaram de que não têm oportunidade de se prevenirem dos vários tipos de
doenças, uma vez que não existe essa prática nas prisões.
Ter um ou mais problemas do aparelho urinário foi relatado por 17,2%
dos homens e 50,2% das mulheres presas (p<0,01). Cistite e uretrite foram
mencionadas por 45,9% dos entrevistados, infecções renais, por 14,3% e
outras, por 15,9% deles. O sintoma mais comum é o de infeccção urinária, que
acomete mais da metade das mulheres. Os especialistas explicam que essa maior
incidência na população feminina se deve às suas condições anatômicas: uretra
mais curta e sua maior proximidade com a vagina e com o ânus, possibilitando
assim que microrganismos comensais da microbiota intestinal penetrem pela
uretra e causem infecção no trato urinário. O estudo de Ramos e colaboradores
(2010) relata que numa amostra encontraram 20% de indivíduos com esse tipo
de infecção, 90% deles, mulheres. Heilberg e Schor (2003) detectaram uma
prevalência de 18,87% na população masculina, quase sempre vinculada à
insuficiência renal ou a doenças na próstata. Os percentuais de presos e presas
que se queixam de tais sintomas estão dentro da média do país, no entanto,
eles precisam de acompanhamento médico adequado, pois tanto os problemas
femininos quanto os masculinos podem evoluir para enfermidades mais graves
como o câncer, por exemplo.
A incidência de doenças infecciosas foi relatada por 17,0% dos homens
e 19,2% das mulheres presos (p=0,054). Os problemas mais citados foram
dengue (16,7%) e tuberculose (4,9%). Em queda no país, essas enfermidades
transmissíveis estão associadas à falta ou à precariedade de cuidados higiênicos
e ambientais. Com percentuais menores que a incidência da dengue, mas muito
preocupante pela gravidade e por ser uma doença infectocontagiosa, destaca-se a
tuberculose, mencionada por 8,7% dos presos e 2,5% das presas.Vários estudos
têm sido feitos sobre o assunto, como o de Sanchez e colaboradores (2007), que
atribuem à superpopulação, às celas mal ventiladas e sem iluminação solar e à
prevalência de HIV nas prisões do estado do Rio de Janeiro a manutenção e a
disseminação da tuberculose na população carcerária. As taxas de incidência e
prevalência são muito mais elevadas que na população em geral. Esses autores
enfatizam também o precário cuidado que recebem os presos doentes, em
virtude da falta ou escassez de profissionais da saúde que, por sua vez, são mal
remunerados ou têm contratos de trabalho precários, o que contribui para sua
grande rotatividade e para a descontinuidade nos tratamentos dos detentos.

169
Os presos foram perguntados também se consideravam ter deficiências de
visão, audição e fala, o que foi confirmado por 37,3% dos homens e 47,3% das
mulheres (p<0,01). Entre os problemas mais citados, estão a deficiência auditiva
(23,7%), mais presente entre os homens; cegueira em um ou em ambos os olhos
(17,6%); miopia, astigmatismo e vista cansada (58,4%). Essa última deficiência
foi mais citada pelas mulheres. Na população brasileira, a prevalência da miopia
varia de 11% a 36%, a hipermetropia, 34% e a cegueira atinge 3% (Sociedade
Brasileira de Oftalmologia, 2014). Quanto à audição, segundo autores como
Gondim e colaboradores (2012), baseados no censo demográfico do IBGE (2010),
3,4% dos brasileiros declararam alguma incapacidade ou grande dificuldade em
ouvir. De acordo com a declaração dos detentos, tanto os problemas de visão
quanto de audição estão muito acima do estimado para a população brasileira
em geral, o que é grave, levando-se em conta que os detentos, em sua maioria,
são muito jovens.
Houve quem afirmasse que sua situação de saúde tinha melhorado na
prisão, embora a maioria dos reclusos tenha declarado que ela era perfeita antes
da entrada no sistema prisional. Entre os que consideraram apresentar melhores
condições de saúde no momento da pesquisa do que no passado, o argumento é
de que na “rua” estavam muito mais expostos ao adoecimento por causa do uso
abusivo de substâncias psicoativas. Nesse aspecto, a prisão serviu de freio ao
consumo deletério e se tornou um fator de proteção para a saúde. Esse discurso
foi proferido principalmente por alguns homens; um deles comentou que na sua
unidade foi diagnosticado de hipertensão e diabetes e pôde assim cuidar melhor
desses problemas. Outro avaliou que seus hábitos alimentares e de sono estavam
mais regrados, contribuindo sobremaneira para a melhora de seu quadro de saúde.
Esses argumentos, no entanto, foram apresentados por uma minoria de presos.
A maioria reitera as queixas:
Nós temos muitas doenças que são transmitidas por vírus tuberculose. Muita
gente aglomerada, doença de pele tem muito. (Homem, Interior)
As coceiras que a gente atrai aqui, porque por mais que você lave a sua roupa de
cama, que você tenha a sua higiene, mas o lugar é úmido, é fechado. Sei lá, tenho
umas bolinhas no corpo. Como a cela é pequena todo mundo tem muito contato,
vai passando para o colega, quando vê está todo mundo com coceira. (Mulher,
Capital)

Os depoimentos dos detentos frequentemente estabeleceram uma relação


direta entre condições estruturais da unidade e adoecimento físico: celas
pequenas, lotadas, sem ventilação e úmidas, facilitando a transmissão de doenças

170
infectocontagiosas. A tuberculose e os problemas de pele foram recorrentemente
citados como vivências ou como possibilidades concretas de se contaminarem.
Alguns entrevistados disseram ter contraído essas doenças depois de encarcerados,
e outros comentam que convivem com presos que sofrem doenças contagiosas.

Saúde mental
Termina-se o diagnóstico de saúde aprofundando uma questão que poderia
soar como indicador dos agravos a que estão expostos os presos do estado do Rio
de Janeiro: um percentual de 52,2% dos detentos e 73,1% das detentas (p<0,01)
relatou ter sofrido pelo menos um problema do sistema nervoso, no período de12
meses antes da pesquisa. A dor de cabeça ou enxaqueca frequente foi o sintoma
mais comum entre os homens (46,8%), e predominante entre as mulheres
(71,2%). Esse tema se vincula às questões suscitadas sobre as percepções dos
presos a respeito da sua saúde mental.
Os homens, de maneira geral, se referiram ao estresse e ao aumento da
agressividade como efeito do encarceramento: perda da liberdade, falta de
acesso a informações sobre o “mundo lá fora” e condições insalubres e cruéis
de confinamento. O problema mental mais assinalado foi a depressão. Esse
sintoma, em presos do sexo masculino, pode estar associado ao uso de drogas, de
acordo com pesquisa realizada na cidade de Porto Alegre por Tavares, Scheffer e
Almeida (2012: 91). Segundo as autoras “quanto maior o uso de drogas maior o
sentimento de raiva, agressividade, nível dos sintomas depressivos e reincidência
de crimes ou vice-versa”.
O uso de medicamentos controlados foi mencionado por alguns entrevistados,
mas poucos procuram atendimento psicológico. As estratégias para lidar com os
sintomas de sofrimento mental, em geral, são “a religião na busca a ajuda de
Deus”, “tentar se isolar”, “não se misturar”, “não entrar em confusões” ou, ao
contrário, “participar ao máximo de atividades permitidas”.
Os problemas mentais afetam particularmente as mulheres. Cerca de 77%
delas se queixaram de uma sensação contínua de mal-estar emocional. Boa
parte tem diagnósticos fechados de transtornos e usa medicação psiquiátrica
controlada. Pesquisas realizadas por Trestman e colaboradores (2007) descrevem
que as presas têm um elevado grau de comorbidade psicopatológica, dependência
de substâncias, transtorno de estresse pós-traumático e depressão maior. Elas
também são mais propensas a apresentar distúrbios psiquiátricos que os homens,

171
exceto quando se trata de transtorno de personalidade antissocial.
São inúmeras as falas sobre crises emocionais vividas e presenciadas. Algumas
entrevistadas se referiram até à prática de automutilação, principalmente cortes
no antebraço. Os sintomas mais comuns de seu sofrimento mental são insônia,
irritabilidade, ansiedade, somatização e depressão, o que também foi encontrado
na pesquisa de Almeida (1998) numa penitenciária feminina de São Paulo.
O uso de medicamentos para dormir, quando é ofertado, aparece como uma das
estratégias utilizadas para lidar com os problemas: “Eu tomo o meu calmante, meu
antidepressivo e fico na minha cama quietinha” (Mulher, Interior). Os depoimentos
se repetem no mesmo sentido:
Tomo remédio quando estou muito estressada assim, quando eu estou a ponto de
explodir, de perder a minha sanidade, aí eu tomo. (Mulher, Capital)
Tem gente aqui que surta. A falta da família, a falta de notícia. A pessoa não
dorme, a pessoa não come, a pessoa só chora. Gruda na grade fica gritando que
quer ir embora, que quer ir embora, quer ir embora. Tem coleguinhas que se
cortam todinhas. Surtando, querendo notícias da família. (Mulher, Capital)
É muita loucura, tem mulher que se corta, que corta os pulsos, corta os braço,
aparece toda retalhada. (Mulher, Interior)

Sobre o caso da incidência de problemas mentais entre mulheres


encarceradas, Canazaro e Argimon (2010: 1.331) observam a vinculação de sua
situação atual com a vida pregressa:
A estimativa de gravidade dos problemas de saúde mental nas encarceradas, por
meio de uma alta prevalência de sintomas depressivos e envolvimento com drogas
e álcool, denota que a história de vida marcada por alguns fatores estressores
contribuiu para o desencadeamento de tais sintomatologias.

Vale lembrar o que já foi mencionado no capítulo 4, em que se discute


a violência. Além dos problemas citados, a literatura científica ressalta a alta
prevalência de transtornos mentais e de risco de suicídio na população prisional,
assim como sua maior vulnerabilidade, quando comparada à população em geral,
para problemas mentais (Butler et al., 2005; Gunter et al., 2008).
Por terem sido os tipos de problemas mentais mais citados tanto pelos
homens como pelas mulheres, a seguir são apresentados dados específicos sobre
depressão e estresse.
No Gráfico 19, observa-se que 71,2% dos homens e 82,4% das mulheres
apresentam sinais de depressão, aferidos pela escala de Beck. Essa escala ou

172
inventário de depressão (Beck, Ward & Mendelson, 1961) consiste num
questionário de autorrelato e contem 21 itens de múltipla escolha. Trata-se de
um dos instrumentos internacionalmente mais utilizados para medir a severidade
de episódios depressivos. Seu desenvolvimento marcou uma mudança na
compreensão e nos cuidados oferecidos pelos profissionais da saúde mental, que
até então entendiam a depressão em uma perspectiva psicodinâmica, em vez de
cognitiva, ou seja, enraizada nos próprios pensamentos dos pacientes.

Gráfico 19 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e presença de depressão
Verificando-se os níveis de gravidade que constam da Tabela 28, observa-se
que as mulheres presas na Capital e na Baixada tendem a apresentar sintomas

depressivos de maior gravidade (p<0,01), enquanto os homens em geral e as


mulheres do Interior demonstram sintomas menos severos. É de se notar que
apenas 28,8% dos detentos e 17,6% das detentas foram classificados como livres
de algum grau de depressão.

173
Tabela 28 – Sintomas de depressão em detentos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e área
Homens Mulheres

Depressão Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Ausência 3.415 28,8 2.280 29,9 394 22,9 741 29,4 131 17,6 127 19,7 4 3,7

Leve a moderada 4.497 37,9 2.982 39,1 600 34,8 915 36,3 238 32,1 208 32,2 31 31,5

Moderada a grave 2.718 22,9 1.722 22,6 502 29,1 494 19,6 246 33,1 197 30,6 49 50,0

Grave 1.242 10,5 646 8,5 226 13,1 370 14,7 128 17,2 113 17,6 14 14,8

Total 11.872 100,0 7.630 100 1.723 100 2.519 100 743 100,0 646 100 97 100

Não há um padrão claro que associe depressão com tempo de aprisionamento,


no caso da população masculina presa no estado do Rio de Janeiro. Entretanto,
observa-se que os homens com menos sintomas são os que mais participam
de celebrações religiosas (p<0,001), o que referenda os estudos nacionais e
internacionais sobre o assunto (Ribeiro & Minayo, 2012). Entre as mulheres não
se observa a associação com práticas religiosas e, no caso delas, existe um padrão
de dispersão dos vários graus de adoecimento.
Na clínica psiquiátrica faz-se a distinção entre a depressão que aparece como
sintoma e a depressão como síndrome. Como sintoma, ela se apresenta como um
dos elementos indicativos de alguma doença física, como reação a um trauma
psicológico e, no caso específico dos presos, como efeito da vida confinada, do
isolamento, do mal-estar geral, do uso continuado de certas drogas que alteram
o humor ou ainda como sinal de reação orgânica do sistema nervoso central a
determinadas situações difíceis e desconfortáveis. O estado depressivo configura
intenso sofrimento psicossocial, difícil de ser absorvido pelo organismo.
A pesquisa em foco se coaduna com os achados de Araújo, Nakano e
Gouveia (2009), segundo os quais existe uma maior frequência tanto em homens
quanto em mulheres presos dos níveis de depressão leve e moderado (no caso de
seu estudo, 31,1% entre os primeiros e 32,2% entre os segundos). Os autores
encontraram percentuais mais elevados entre os novatos nas prisões nos graus
“moderado” e “grave”, e muito mais o grau leve no grupo dos apenados antigos.
Portanto, os pesquisadores argumentam que, de um lado, há um decréscimo de
casos conforme os níveis se tornam mais graves; de outro, há uma diminuição dos
sintomas com o passar do tempo, indicando uma adaptação pessoal às condições
da vida prisional.

174
Apesar das observações de Araújo, Nakano e Gouveia (2009) que, de certa
forma, atenuam a análise da depressão entre presos, considera-se muito preocupante
que 22,9% dos homens e 33,1% das mulheres detidos no estado do Rio de Janeiro
apresentem sintomas moderados e que 10,5% dos homens e 17,2% das mulheres
estejam no estágio grave. Na sua forma mais severa, a depressão é uma doença que
precisa ser tratada (Cavalcante, Minayo & Mangas, 2013).
Saber que existe um percentual tão elevado de homens e mulheres presos
com essa síndrome significa que as pessoas atingidas por tal enfermidade
mental precisam, urgentemente, de tratamento especializado e contínuo, o
que aparentemente não acontece. A depressão grave é desencadeadora de
comportamentos suicidas e de mortes autoinfligidas. Já como sintoma, ela deve
ser compreendida como parte das injunções e estilo de vida prisional. Os esforços
dos profissionais da saúde deveriam ser orientados no sentido de colaborar para
melhorar as condições adversas da população reclusa.
Estudo de Blaauw, Roesch e Kerkhof (2000) assinalam que tanto nas
prisões americanas quanto nas europeias os sistemas prisionais enfrentam um
grande número de ocorrência de problemas mentais graves, numa proporção
duas vezes maior que na população que acorre aos hospitais com sérios distúrbios
psicológicos. Diferentemente do caso brasileiro, numa pesquisa em 13 capitais
europeias, esses autores encontraram serviços organizados e atenção permanente
aos que padecem de tais agravos.
Na Tabela 29, observa-se a presença de estresse entre os presos, utilizando-
se a escala proposta por Lipp (2000). Conclui-se que 35,8% dos homens e 57,9%
das mulheres estavam em situação de estresse no momento da pesquisa (p<0,001).
As mulheres apresentavam indícios de maior severidade (fases de resistência e
quase exaustão) e agravamento dos sintomas. No entanto, a predominância das
manifestações físicas e psicológicas ocorre para ambos os sexos.
Homens da Baixada apresentaram os mais elevados índices de estresse
em todos os graus e com maior agravamento (p<0,01), quando sua situação
foi comparada com as outras áreas pesquisadas. Sintomas físicos predominam
entre os presos do Interior e sintomas psicológicos nos da Capital e Baixada.
Entre as mulheres da Capital e as do Interior não há diferença significativa
para todos os itens analisados, a não ser o fato de se mostrarem muito mais
estressadas que os homens.

175
Tabela 29 – Estresse em presos do estado do Rio de Janeiro, segundo sexo e área
(Inventário de Sintomas de Stress Lipp)
Homens Mulheres

Estresse Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior

N % N % N % N % N % N % N %

Não 1.4457 64,2 9.701 67,5 1.537 49,0 3.220 64,5 574 42,1 498 42,9 76 37,5

Sim 8.051 35,8 4.673 32,5 1.602 51,0 1.775 35,5 789 57,9 664 57,1 126 62,5

Fases do estresse

Alerta 862 3,8 491 3,4 190 6,1 181 3,6 55 4,0 44 3,8 11 5,4

Resistência 5.735 25,5 3.421 23,8 1.057 33,7 1257 25,2 571 41,9 484 41,7 86 42,9

Quase exaustão 955 4,2 462 3,2 211 6,7 283 5,7 135 9,9 111 9,6 23 11,6

Exaustão 499 2,2 299 2,1 145 4,6 55 1,1 29 2,1 24 2,0 5 2,7

Agravamento do estresse

Não 14.457 64,2 9.701 67,5 1.537 49,0 3.220 64,5 574 42,1 498 42,9 76 37,5
Sim 8.051 35,8 4.673 32,5 1.602 51,0 1.775 35,5 789 57,9 664 57,1 126 62,5

Sintomas predominantes

Físicos e psicológicos 753 10,8 449 11,5 167 10,9 136 9,0 70 9,5 60 9,7 11 9,0
Psicológicos 3.620 52,0 2.181 55,7 784 51,0 655 43,5 374 50,7 304 49,3 70 58,2
Físicos 2.588 37,2 1.286 32,8 585 38,1 716 47,5 292 39,7 253 41,1 40 32,8

Considerando-se o tempo de aprisionamento, não se constata entre os


homens um padrão claro de progressão do estresse ao longo da vida reclusa.
Mas há menos relatos desse sintoma entre presos que participam de celebrações
religiosas, indicando que a religião pode ser um mecanismo importante para
ajudar pessoas com problemas emocionais. Os homens demonstram mais
sintomas físicos de estresse nos anos iniciais de aprisionamento e o aumento
de sintomas psicológicos com o passar do tempo na prisão. Embora, assim como
os homens, as mulheres não evidenciam uma relação direta entre o tempo de
prisão e a presença de estresse, elas apresentam proporções muito mais elevadas
de sintomas do que os homens, mesmo no caso das que participam de cultos e
celebrações religiosas.
Os presos foram indagados sobre o uso não médico de substâncias psicoativas,
no período de12 meses antes da pesquisa. O número de dias de utilização para
cada tipo de droga está mostrado no Gráfico 20. O tabaco e os tranquilizantes
são as drogas mais consumidas por homens e mulheres, mas as presas consomem
mais e com maior frequência essas substâncias. O uso do crack também foi mais
mencionado pelas detentas que pelos detentos. Do mesmo modo, o número

176
médio de dias que elas usam (2,4) é superior ao mencionado por eles (0,5). É de
se ressaltar que para todos os tipos de drogas utilizadas na prisão, as mulheres
têm preeminência sobre os homens, a não ser no caso das drogas injetáveis.
Trata-se de uma situação que necessitaria ser melhor estudada, pois enquanto a
adicção se agrava no grupo feminino confinado, diminui na população masculina
nas mesmas condições (Tabela 30).

Gráfico 20 – Número médio de dias de uso de substâncias psicoativas na prisão


por detentos do estado do Rio de Janeiro, segundo sexo

177
Tabela 30 – Número médio de dias de uso de substâncias nos últimos 30 dias (na
prisão) por detentos do estado do Rio de Janeiro, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Substâncias Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP Média DP
Álcool 0,7 3,5 0,5 2,7 1,2 4,4 1,0 4,8 0,8 4,1 0,85 4,4 0,5 2,1
Tabaco (cigarro) 18,2 13,9 17,9 13,8 18,7 14,0 18,7 14,0 20,8 13,5 20,78 13,4 20,7 13,9
Maconha 3,1 8,6 1,9 6,7 3,0 7,8 6,0 11,6 4,5 9,7 4,52 10,0 4,3 8,7
Cocaína 1,7 6,1 1,6 6,1 2,7 8,0 1,3 4,8 2,1 6,6 2,12 6,9 1,9 4,8
Mesclado, merla, bazuca
0,4 3,0 0,03 0,2 1,9 7,4 0,2 1,2 2,5 7,8 2,80 8,2 0,4 0,5
ou pasta de coca
Crack 0,5 3,5 0,03 0,2 2,4 7,8 0,03 0,2 2,4 7,4 2,68 7,8 0,3 0,7
Oxi 1,6 4,8 1,2 1,8 5,3 9,5 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Produtos para
0,3 2,3 0,0 0,0 1,7 5,7 0,08 0,5 0,8 3,3 0,9 3,5 0,0 0,0
“sentir barato”
LSD (ácido), chá de
cogumelo, mescalina, 0,2 1,2 0,0 0,0 1,1 2,8 0,4 1,6 1,0 0,2 0,1 0,2 0,0 0,0
êxtase, ketamina.

Heroína, morfina ou ópio 0,5 2,2 0,0 0,0 2,7 4,5 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0

Remédio para emagrecer


ou ficar acordado (“ligado”) 3,9 9,5 4,0 9,8 3,5 7,7 3,8 10,0 7,0 11,8 3,7 8,8 21,7 12,7
sem receita médica
Tranquilizante, ansiolítico,
calmante ou antidistônico 9,7 11,9 10,7 12,5 5,2 9,3 9,0 10,9 10,5 12,2 10,1 12,1 12,8 12,7
sem receita médica
Droga injetável 0,4 1,0 0,7 1,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0

Comparando-se o uso de drogas na vida pregressa (apresentado no capítulo 2,


que trata da vida antes do encarceramento), com o uso nos 30 últimos dias dentro
do sistema prisional, observa-se claramente uma diferenciação de gênero. Essa
constatação merece ser mais bem explorada, diante do fato, encontrado neste
estudo, de que a adição se agrava no grupo feminino confinado, ao passo que
diminui entre os homens presos, exceto no caso do tabaco e de tranquilizantes.
Apenas uma presa do Interior detida há oito meses contou que estava sem
usar cocaína durante todo esse tempo e que a abstinência involuntária tem-lhe
mostrado ser possível libertar-se da dependência ao sair da cadeia. Essa mesma
entrevistada, no entanto, falou da irritabilidade acentuada que vem sentindo e
atribui esse sintoma à falta da droga.
Várias mulheres também mencionaram que tinham problemas psicológicos
antes do aprisionamento e relataram que fazem uso contínuo de ansiolíticos,
tranquilizantes e antidepressivos para tratar depressão, bipolaridade e
hiperatividade. Mas é preciso ressaltar que o consumo preferencial desse tipo de
medicação por parte das mulheres está registrado na literatura sobre a população

178
em geral e também na que trata das encarceradas (Quitete et al., 2012; Damas,
2011). Ao contrário, nenhum dos homens mencionou problemas dessa ordem,
apenas um deles se referiu a sofrer de uma doença neurológica (não psiquiátrica)
que lhe exige o uso de anticonvulsivante.
Numa pesquisa com presas no estado do Rio de Janeiro, Quitete e
colaboradores (2012) mostraram, de um lado, o uso diário de drogas ilícitas
na prisão por 53% das entrevistadas, confirmando a preeminência já observada
neste estudo. De outro lado, as autoras evidenciaram a relação entre o elevado
consumo de substâncias psicoativas com o sofrimento mental, particularmente
com o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e com a depressão na
população feminina, confirmando os dados primários aqui apresentados. De
134 mulheres avaliadas, 40,3% apresentaram TEPT. Houve maior uso diário
de cocaína entre as positivas para o transtorno (p<0,01). Todas as usuárias de
drogas apresentavam algum grau de depressão. As autoras comentaram que o
elevado uso de cocaína entre as detentas com TEPT indica sua preferência por
drogas estimulantes.
Também o fato de o crime de tráfico de drogas ser o mais frequente entre
as mulheres reclusas já foi descrito em pesquisa conduzida no sistema penal do
estado do Rio de Janeiro (Carvalho et al., 2006) e confirmado neste estudo.
O elevado consumo de drogas ilícitas, em especial de maconha e cocaína,
encontrado aqui, é uma evidência inconteste do comércio que o tráfico mantém
dentro das prisões. Essa constatação é paradoxal (Quitete et al., 2012), posto
que o crime pelo qual as mulheres mais foram condenadas – envolvimento com
drogas – faz parte do seu dia a dia no local onde cumprem sua pena.
Em resumo, fica evidente que o sofrimento psíquico dos presos e das presas
está relacionado ao conjunto de fatores vivenciados na sua vida reclusa. Os
sintomas e enfermidades mentais costumam ser reações ao encarceramento e à
forma de levar a vida, em que os presos enfrentam regras rígidas de comportamento,
de privação da liberdade e hostilidade do ambiente. Esse conjunto de problemas
concorre para o aparecimento de sintomas nervosos inespecíficos e para o
acirramento ou desencadeamento de transtornos mentais severos.
Há vários estudos que sinalizam a relação entre condições e situações da
vida reclusa, particularmente, as queixas de “nervosismo”, associadas aos
distúrbios mentais mais comuns como depressão, estresse (em seus diferentes
graus) e consumo abusivo de drogas. Entre tais pesquisas cita-se a obra clássica

179
do antropólogo Luiz Fernando Duarte (1988), Da Vida Nervosa nas Classes
Trabalhadoras Urbanas. Nessa obra, o autor ressalta o “nervoso” como um
sinal de mal-estar e das dificuldades existenciais na cultura popular brasileira.
A doença nervosa estudada por Duarte, de tão difícil diagnóstico médico por
sua imprecisão, foi também comentada pelo psiquiatra Damas (2011) em sua
dissertação de mestrado sobre a população prisional de Santa Catarina. O autor
vincula os sintomas não a transtornos mentais específicos – a não ser no caso da
adição às drogas – mas, principamente, ao ambiente insalubre; à superlotação
que obriga os presos a dormirem juntos numa mesma cama ou no chão; às celas
escuras onde não entra a luz solar, há pouca ventilação e odor fétido; à má
alimentação; ao sedentarismo; à convivência com pessoas violentas e agressivas,
entre as quais se destacam os agentes penitenciários; ao confinamento em
solitárias em que o espaço físico é mínimo; e aos contatos humanos indesejados.
Confirmando a constância da articulação entre o sofrimento na vida
prisional e a insalubridade mental, assinalada por Damas, algumas falas de
homens e mulheres ouvidos na pesquisa são contundentes. Da parte das
mulheres, eis algumas frases emblemáticas: “tratamento humilhante não
transforma, revolta!”; “aqui não somos ressocializadas, somos humilhadas!”; “o
presídio nos traz problemas psicoemocionais!”; “ninguém se acostuma com o
sofrimento!”; “precisamos ser tratadas com respeito e dignidade!”. A fala dos
homens repercute os mesmos sentimentos: “aqui é um massacre!”; “aqui dentro
nada pode melhorar lá fora”; “nessas condições é impossível socializar-se”; “é
uma vergonha tratar assim o ser humano”; “sofremos constrangimentos físicos,
mentais e ofensas pessoais por parte dos agentes”; “isso aqui é um inferno!”.
Todos os fatores negativos, tratados pelos estudiosos e reverberados pela
fala sentida dos detentos, são estruturais, organizacionais e relacionais. Portanto,
há pouca expectativa de mudanças a não ser mediante uma determinação clara
de se repensar o estatuto da ressocialização, buscando-se novas formas de
cumprimento de penas, em respeito à Lei de Execução Penal e à política de saúde
específica para essa população. Nesse particular, um grande entrave é a opinião
pública que, em geral, considera que a população carcerária não é composta por
sujeito de direitos.

180
Serviços de Atenção à Saúde
Os serviços de saúde ofertados à população prisional do estado do Rio de
Janeiro serão aqui analisados sob dois ângulos: do ponto de vista do sistema
e de sua organização que, teoricamente, cumprem os preceitos do SUS e têm
uma estrutura lógica de atenção; e do ponto de vista dos presos, cujas queixas
são muito relevantes quanto às fragilidades e deficiências dos serviços que lhes
são prestados.

Organização do subsistema de saúde


Todo o subsistema de saúde da população carcerária é administrado pela
Coordenação de Gestão em Saúde Penitenciária. A ela compete promover
atividades de prevenção e tratamento da saúde dos presos e, assim, coordenar
e supervisionar as ações do setor. Sua estrutura é composta por divisões (que
assumem responsabilidades transversais) e por hospitais. As divisões são de
Programas e Projetos Especiais, Ambulatorial, Odontologia, Saúde Mental e
Psiquiatria, Enfermagem, Tecnologia da Informação em Saúde e Insumos de Saúde.
E os hospitais se distribuem desta forma: Unidade Materno-Infantil, Hospital de
Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo, Hospital Penal Psiquiátrico
Roberto Medeiros, Instituto Penal Heitor Carrilho, Sanatório Penal, Unidade de
Pronto Atendimento (UPA) Hamilton Agostinho e Hospital Penal. Além desses
setores e equipamentos, estão a cargo da Coordenação de Saúde, programas
de nutrição e controle de pragas e vetores. O programa de controle de pragas e
vetores, por exemplo, tem como meta manter o índice zero de dengue e evitar
infestações de insetos e roedores nocivos nas unidades prisionais. Responsável pela
desratização, dedetização e eliminação do Aedes aegypti, o programa estabelece
a periodicidade de mais ou menos 35 dias para as várias formas de intervenção,
dependendo da infestação de cada unidade prisional ou hospitalar.
O fluxo do atendimento à saúde dentro do sistema se inicia no ambulatório da
unidade prisional (algumas dispõem de médicos, outras não) e segue para a UPA
do Complexo Penitenciário de Gericinó. Casos de tuberculose são encaminhados
para o Sanatório Penal; casos psiquiátricos são levados para o Hospital Roberto
Medeiros, também do sistema. Outras demandas de atendimento clínico
especializado ou de internação são pautadas pela Coordenação de Saúde do
Sistema Prisional, que solicita o agendamento no Sistema Nacional de Regulação
(SisReg), um sistema on-line criado para o gerenciamento de todo o Complexo

181
Regulador da Assistência à Saúde no estado, da rede básica à internação.
A partir desse agendamento para um detento, o fluxo de atendimento transcorre
normalmente, da mesma forma como seria para qualquer usuário do SUS.
Há apenas uma UPA instalada dentro do Complexo Penitenciário de
Gericinó. Ela tem capacidade para receber até 300 pacientes/dia. A unidade
atende casos de urgência e de internações clínicas mais básicas que não exijam
o deslocamento dos apenados para hospitais da rede pública do estado e da
cidade do Rio de Janeiro. Essa UPA ocupa uma área de 827m², tem sala de
emergência e de observação com 20 leitos para homens e seis para mulheres;
dispõe de unidade intermediária com cinco leitos, cinco consultórios clínicos e
um odontológico, salas de gesso, raios X, ultrassonografia e duas de hemodiálise,
uma delas específica para tratamento de pacientes com hepatite C. É também
responsável pelo atendimento de emergência psiquiátrica, direcionando o
paciente para a unidade específica do sistema, o Hospital Psiquiátrico Roberto de
Medeiros, nos casos que exigem internação. Essa unidade atende presos de todo
o estado, produzindo uma média de 150 procedimentos diários, ou seja, atuando
com 50% de sua capacidade.
À divisão médico-ambulatorial compete a supervisão e coordenação das
atividades exercidas pelos médicos nas unidades prisionais de todo o sistema
penitenciário. Esse trabalho consiste na marcação de exames extramuros e
encaminhamento dos doentes aos hospitais públicos, a partir dos pedidos
feitos pelos médicos e agendados no SisReg; encaminhamento dos internos
aos ambulatórios das unidades nos casos de queixas específicas feitas a seus
representantes legais (Defensoria Pública, varas civis e Vara de Execução
Penal); gerenciamento do pessoal vinculado à divisão (como concessão de férias,
licenças e remanejamentos); aquisição dos medicamentos que não constam
dos estoques; apoio às unidades que não têm médicos ou que estão com falta
de pessoal; disponibilização de transporte para locais longe da sede. A divisão
médico-ambulatorial passa por inspeções periódicas da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto aos gastos dos recursos do SUS e quanto
à adequação da área física para funcionamento dos equipamentos de saúde, do
material médico e do funcionamento dos serviços.
A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) tem uma
considerável estrutura para atendimento psiquiátrico. Compõem a divisão de
prevenção e tratamento de dependência química e saúde mental o Hospital
de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo (HR), o Instituto de

182
Perícias Heitor Carrilho (HH) e o Instituto Penal Psiquiátrico Roberto Medeiros
(RM). Essa divisão planeja, implementa e monitora as ações de atenção voltadas
para os problemas psiquiátricos, dando especial atenção ao acompanhamento
dos portadores de transtornos psíquicos que cumprem medida de segurança
nos hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico, e atuando em favor da
desinstitucionalização e reinserção social dos pacientes. Apesar do nome, nesse
subsistema não existe nenhum programa específico para prevenir a dependência
química ou para atender pacientes adictos.
O Hospital Penal Psiquiátrico Roberto Medeiros fica no Complexo
Penitenciário de Gericinó, tem 141 leitos, dos quais 115 masculinos e 26
femininos e é referência para as internações que ocorrem por determinação
judicial de detentos com insanidade mental ou com diagnóstico psiquiátrico
impreciso. Nesse último caso, o juiz instaura o “incidente de sanidade mental” e
o envia ao médico perito. Dependendo do resultado do diagnóstico, é aplicada
“medida de segurança” ou “pena privativa de liberdade”. A medida de segurança
pode ser de tratamento ambulatorial ou de internação. Esta última é cumprida
no Hospital Henrique Roxo.
Segundo o diretor do Hospital Roberto Medeiros, a maioria dos pacientes
tem instaurado o “incidente de sanidade mental”, mas a unidade é responsável
também pelas emergências psiquiátricas de todos os internos do estado, após
uma avaliação clínica feita pela UPA. O hospital conta ainda com o atendimento
psiquiátrico ambulatorial. Qualquer preso que apresente necessidade de consulta
psiquiátrica deve ser encaminhado para essa unidade. Às sextas-feiras são
atendidos em média 60 presos/dia, provenientes de todo o estado. Nele também
são internadas as pacientes inimputáveis do sexo feminino para cumprimento de
medida de segurança. Essa particularidade se dá porque o Hospital Psiquiátrico
Henrique Roxo não conta com ala feminina.
Na visão do diretor do Hospital Roberto Medeiros, por receber presos
condenados por todos os crimes – incluindo-se mulheres que precisam de
medida de segurança e presos provisórios –, sua unidade vive sempre um grande
desafio. Um deles é o de fazer um planejamento terapêutico individualizado
para cada paciente, sem saber o destino jurídico dele, que pode ter sua prisão
relaxada, voltar para a sua unidade prisional de origem ou ainda seguir para o
cumprimento de medida de segurança. O número de profissionais que trabalha
nesse hospital não é suficiente para atender a demanda existente: são apenas três
médicos psiquiatras para cuidar dos pacientes internados e outros quatro para

183
realizar os exames criminológicos, conforme a solicitação do juiz ou de qualquer
unidade prisional.
No hospital, prescreve-se e libera-se a medicação controlada para um número
determinado de dias e depois o diretor da unidade insere aquela prescrição no
mapa de psicotrópicos que são distribuídos pelo almoxarifado da Seap. Esse
médico considerou que há uso abusivo desses medicamentos, principalmente
entre as mulheres.
O Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo dispõe de
155 leitos de internação, três de intercorrência clínica e dois de crise. Está situado
em Niterói e fica responsável pelo atendimento dos pacientes em cumprimento de
medida de segurança e pela prestação de cuidados nas intercorrências psiquiátricas
que acontecem nas unidades prisionais da cidade e unidades próximas.
O Instituto de Perícias Heitor Carrilho é o responsável pela produção de laudos
periciais. Foi criado para responder à alta demanda de exames de insanidade mental
e de dependência de drogas nos processos criminais, visando ao atendimento de
todas as varas criminais do estado, além das federais da Auditoria da Justiça Militar
e da de Execuções Penais. Os exames consistem na análise do processo criminal
pelo médico e na verificação de nexo causal entre a doença mental ou dependência
e o delito praticado. Sua meta é tornar-se uma referência nacional em assuntos
criminais envolvendo portadores de sofrimento mental.
Em espaço anexo ao Instituto de Perícia, a Seap mantém uma unidade de
acolhimento para os pacientes desinternados do Hospital Heitor Carrilho que
ainda mantém presos doentes mentais e, gradualmente, vem sendo desativado,
atendendo as adequações da Lei da Reforma Psiquiátrica (lei n. 10.216/2001),
as recomendações do Conselho Nacional de Justiça e às determinações do
Ministério Público. Os pacientes que lá vivem têm um histórico de longa
permanência em instituições psiquiátricas e perderam seus vínculos familiares
e sociais. Atualmente as equipes técnicas estão tentando realizar um trabalho
de reinserção seguindo os dispositivos da rede socioassistencial, para concluir
a desinstitucionalização dos pacientes que ainda se encontram abrigados nesse
espaço. Há ainda 48 moradores e, em 2014, foram reinseridos socialmente 12
pacientes.
Em resumo, estruturalmente existe uma organização consistente do
processo de cuidados em saúde. O problema é o seu funcionamento, a falta ou o
absenteísmo de profissionais e as difíceis relações entre profissionais da saúde-

184
pacientes e agentes penitenciários, dentro do sistema. Em visita às unidades de
saúde, chama atenção a coexistência desses dois modelos de poder e de gestão:
um de repressão e outro de cuidados. Ou seja, funciona como uma unidade
de saúde que tenta obedecer a todos os protocolos da área, mas, ao mesmo
tempo, é uma unidade prisional com todo o aparato de segurança e controle.
O próprio discurso dos gestores se confunde: ora os diretores das unidades de
saúde se referem aos usuários como pacientes, ora como presos. Andando pelos
corredores desses hospitais e aproximando-se das enfermarias, o duplo vínculo se
concretiza: as salas de atendimento são gradeadas. Alguns entrevistados falaram
das dificuldades que sentem por serem atendidos por profissionais da saúde
sob a vigilância de agentes penitenciários. Lógicas distintas que se refletem no
tratamento oferecido aos presos, como se verá a seguir.

A percepção dos presos sobre


os cuidados em saúde recebidos
No presídio não existem ambulâncias – essa é uma questão relevante
colocada pelos presos nas entrevistas – e sim camburões. Como o transporte
não é vinculado à Coordenação de Gestão em Saúde e sim à Coordenação de
Segurança, o preso doente não é acompanhado por um profissional da saúde.
A situação em que são conduzidos para tratamento provoca-lhes muito medo e
grande sofrimento e vários disseram que adiam ao máximo qualquer pedido que
inclua o uso do transporte, temendo possíveis maus-tratos.
O encaminhamento dos que apresentam algum sintoma e precisam de
atendimento na UPA – apenas uma para todo o Complexo Penitenciário de
Gericinó – também é muito burocratizado e, frequentemente, depende da boa
vontade dos agentes, que tendem a não atender as demandas dos presos. Se essas
questões são graves na Capital, são ainda mais precárias na Baixada Fluminense,
onde não existem hospitais, apenas um pequeno posto de saúde. Talvez por isso,
um dos presos ressaltou que “muita gente morre por falta de socorro” e que
“o serviço de saúde na prisão é uma piada de mau gosto”. Como observado, a
assistência em saúde na prática está subordinada ao setor de segurança e dele
depende. Este setor decide o fluxo dos atendimentos e age na contramão do que
é preconizado pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas
Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (Pnaisp) no âmbito do SUS. Segundo
um preso, cuja fala repercute a de vários outros,

185
Muitos morrem aqui por falta de socorro! A UPA e o hospital em Bangu são uma
carnificina; tratam presos como animais; não temos médicos depois das 16 horas e
nenhum sábado e domingo, só há atendimento para curativos; há falta de médico
24 horas como previsto na lei. (Homem da Capital)

Os cuidados e a prestação de serviços de saúde foram um dos pontos


de maior descontentamento entre os presos, sendo a falta e o absenteísmo de
médicos, dentistas, psicólogos e enfermeiros e enfermeiras os maiores motivos
de insatisfação. Esses depoimentos foram colhidos dos comentários livres dos
detentos e detentas ao fim do questionário, ampliando a compreensão do que foi
respondido nesse instrumento.
Indagados sobre os setores que costumam frequentar na unidade prisional,
um percentual pequeno de homens e mulheres respondeu que usa os equipamentos
de saúde, como o ambulatório médico e o serviço de psicologia. As detentas se
destacam por usá-los mais que os homens, conforme mostra o Gráfico 21. Assim
como apontado em outros estudos para a população geral, também no caso dos
presos, as mulheres procuram mais o atendimento médico que os homens e,
além disso, os serviços de saúde também as incluem de forma diferenciada, o
que pode reduzir a procura masculina pelos serviços (Vieira et al., 2013; Couto
et al., 2010).

Gráfico 21 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e profissionais consultados

186
Os presos do Interior, mais que os da Capital e da Baixada, procuraram
atendimento médico, de psicologia, de assistência social e de odontologia, no
último ano (Tabela 31). A média de consultas realizadas pelos primeiros foi
maior que a dos demais (p<0,05). Entre as mulheres, as do Interior também
tiveram mais acesso a todos os tipos de atendimento, exceto a dentistas, em que
as da Capital referiram utilizar mais (p=0,002).

Tabela 31 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro


e média de consultas realizadas no período de 12 meses antes da
pesquisa, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Consultas
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Médico
Sim 7.203 35,7 4.751 36,3 801 28,0 1.652 39,0 580 46,0 456 42,3 124 67,6
Média (DP) 5,4 (12,6) 4,8 (11,2) 3,3 (3,8) 8,1 (17,5) 4,7 (10,5) 3,4 (4,2) 9,6 (20,5)
Psicólogo
Sim 2.137 11,1 1.538 12,3 168 6,1 431 10,8 487 40,4 365 35,4 122 69,4
Média (DP) 4,0 (9,1) 3,8 (6,7) 3,6 (3,4) 5,2 (15,5) 4,8 (13,5) 4,5 (11,6) 5,7 (18,0)
Assistente social
Sim 6.120 31,4 4.164 33,0 484 17,3 1.472 36,2 686 56,3 548 52,6 138 77,8
Média (DP) 3,1 (6,3) 3,1 (5,4) 1,8 (3,1) 3,4 (9,0) 4,0 (9,8) 3,2 (4,8) 7,4 (19,1)
Dentista
Sim 2.596 13,2 1.753 13,7 290 10,3 553 13,3 232 18,5 208 19,5 23 12,6
Média (DP) 2,8 (4,4) 2,8 (2,9) 1,9 (1,8) 3,4 (7,7) 2,6 (3,5) 2,2 (1,8) 6,1 (8,9)

Indagados sobre sua saúde bucal e sobre a perda de algum dente durante a
prisão, 31,6% dos homens e 31,3% das mulheres responderam afirmativamente.
Homens perderam mais dentes (2,5 em média) que as mulheres (2,1; p<0,01).
Nota-se maior quantidade de perda dentária entre os detentos da Capital (p<0,05)
em relação aos das demais áreas. Das mulheres, as que mais extraíram dentes
foram as presas do Interior (p<0,01) como se constata na Tabela 32.

Tabela 32 – Número absoluto de dentes perdidos por presos do estado do Rio de


Janeiro, na prisão no período de 12 meses antes da pesquisa, segundo
sexo e área
Homens Mulheres
Perda de dentes Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %

Sim 7.232 31,6 4.911 39,3 890 30,1 1.431 31,9 397 31,3 323 29,8 74 39,8

Média (DP) 2,5 (2,9) 2,6 (3,1) 2,2 (2,2) 2,5 (2,2) 2,1 (1,5) 2,0 (1,6) 2,3 (1,2)

187
Os serviços dentários foram particularmente criticados pelos presos. A falta
de dentistas e a baixa qualidade da atenção à saúde bucal foram mencionadas por
homens e mulheres de todos os três territórios pesquisados. Pelos depoimentos
se observa que o tratamento se restringe, quando existente, à prática de extração.
As mulheres da Capital se referiram à ausência dos profissionais de
odontologia nas unidades e às restrições no atendimento. Uma delas comentou
que “os dentistas do sistema só fazem arrancar os dentes das pessoas”. Elas
esperavam que houvesse outros tipos de tratamentos, como limpeza de tártaro,
aplicação de flúor, restauração, mas isso não ocorre. Algumas comentaram que,
pela falta de atendimento na unidade, muitas internas sofrem com dores. E até
para conseguirem um analgésico é difícil. Para sintetizar a precariedade dos
serviços, uma presa afirmou que: “o dentista daqui manda você colar um pivô
com Super Bonder®, é louco!” (Mulher, Capital).
Um dos presos da Capital comentou o seguinte sobre os serviços hospitalares:
“não nos tratam, só vão vir aqui buscar nosso cadáver”! Um percentual pequeno
de detendos foi internado durante o tempo de prisão: 11,2% dos homens e
11,1% das mulheres (Gráfico 22).

Gráfico 22 – Distribuição percentual dos presos do estado do Rio de Janeiro,


segundo sexo e tipo de hospital em que foram atendidos

188
Os detentos e detentas da Capital, quando necessário, foram internados, em
maioria, no Hospital de Custódia, enquanto os do Interior usaram principalmente
a rede pública (p<0,05). O número médio de internações foi maior entre os
homens nas três áreas estudadas, tanto no Hospital de Custódia como nos
hospitais da rede pública (Tabela 33).

Tabela 33 – Número absoluto e média de internações em hospital (exceto serviços


de emergência) durante o tempo de prisão entre detentos do estado
do Rio de Janeiro, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Internações Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Em Hospital de Custódia 1.377 6,8 1.007 7,7 184 6,3 186 4,5 83 6,6 78 7,2 5 3,0
Média (DP) 3,5 (6,8) 4,1 (7,8) 1,4 (0,6) 1,9 (2,3) 2,0 (1,7) 2,0 (1,7) 1,0 (0,0)
Em hospital da rede pública 845 4,4 542 4,3 97 3,6 206 5,1 54 4,5 45 4,4 9 5,3
Média (DP) 13,0 (45,2) 16,6 (54,4) 1,6 (1,3) 9,0 (22,1) 1,9 (2,6) 1,5 (0,9) 4,2 (5,8)

Assim como as internações, foram poucas as cirurgias realizadas nos presos


durante seu tempo de reclusão: apenas 2,7% dos homens e 2,4% das mulheres
mencionaram ter recebido esse serviço. O número médio de operações foi maior
para os homens (3,26%) que para as mulheres (0,92%) (p=0,015). Não se
observaram diferenças em relação à área onde se encontra o presídio (Capital,
Baixada e Interior) para ambos os sexos (Tabela 34).

Tabela 34 – Número absoluto e média de cirurgias para detentos em hospital


durante o tempo de prisão no estado do Rio de Janeiro, segundo sexo
e área
Homens Mulheres
Cirurgias Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
N % N % N % N % N % N % N %
Sim 556 2,7 415 3,1 12 0,4 128 2,9 32 2,4 27 2,4 5 2,8
Média (DP) 3,3 (5,5) 4,1 (6,3) 1,0 (0,0) 1,0 (0,0) 0,9 (0,4) 0,9 (0,4) 1,0 (0,0)

Sobre o quesito ambulatorial, muitos presos afirmaram que a saúde estava


comprometida em decorrência da não continuidade dos tratamentos e da falta de
acompanhamento; acompanhamento esse que tinham antes de serem presos. Para
alguns, essa interrupção compromete e piora seu estado geral, pois, como se viu
nos inúmeros problemas de saúde referidos, há pessoas cardíacas, hipertensas,
diabéticas, com agravos osteomusculares e respiratórios crônicos, de vista, de
ouvido, de fala, entre outros. Cita-se como emblemático o caso de uma presa
do Interior, cadeirante, que tem vários tipos de doenças crônicas e não tem

189
garantida a continuidade do cuidado de que necessita. As queixas dos reclusos se
estendem à falta de ações de prevenção e de atenção primária: “para ir ao médico
só se estivermos morrendo, inclusive essa omissão acontece igualmente no caso
dos idosos presos”.
A inexistência de clínico geral, de ginecologista, de dentista foi o ponto
mais ressaltado pelas mulheres. Mais de duzentas delas mencionaram essas
deficiências e em seguida se queixarem das falhas no atendimento oftalmológico,
psicológico e psiquiátrico, da falta de medicamentos e da omissão do sistema
quanto aos exames de HPV, de DST e de preventivo de câncer, e da pouca
atenção às grávidas e aos diabéticos. Também a ineficácia do atendimento de
socorro foi muito realçada na maioria das falas.
Demasiadamente precário, muito precário, aqui eu acho que falta tudo, falta o
ginecologista, partindo do princípio que é uma penitenciária feminina, então eu
acho que tinha que ter ginecologista, porque tem muita gente aqui que não faz
preventivo. Também tem muita gente com problema de vista. (Mulher, Capital)

Em um bloco significativo de depoimentos se critica a demora nos


atendimentos em casos de emergência. “Perdemos companheiros por falta de
assistência médica de emergência” (Homem, Capital). Muitos entrevistados
disseram em tom de revolta que já viram pessoas morrer por falta de socorro. Essa
crítica está mais presente nas falas dos presos da Capital e da Baixada Fluminense.
É provável que as menores distâncias entre os presídios e a localização dos
serviços públicos no Interior amenizem a espera dos detentos pela assistência.
Os homens, principalmente os presos na Capital, reclamaram da ausência
de médicos, revelando que nunca, em seu tempo de internos, tiveram contato
com esse profissional. Outros afirmaram ainda que algum tempo atrás havia um
profissional que atendia os presos em um dia da semana, mas esse serviço era
restrito a casos mais graves. O depoimento de um deles revela a angústia que
sentem por não conseguirem acesso aos serviços de que precisam:
Em cinco anos nessa unidade sofro muito com isso, não interessa o tipo de doença
que você tem, o diagnóstico é o mesmo. Ou você vai pegar anti-inflamatório ou
você vai pegar remédio para dor. Independente de qual seja o seu estado de saúde,
o tratamento é o mesmo. (Homem, Capital)

A mesma realidade é apontada pelos homens presos na Baixada Fluminense:


reclamaram da dificuldade de conseguir medicamentos quando precisam.
Quando há necessidade de consultar um médico, eles têm que se deslocar para
a Capital, pelo Serviço de Operações Especiais (SOE), que realiza a escolta dos

190
presos, como mencionado. Todos os presos que precisam desse transporte se
queixam de que são muito maltratados e têm medo de morrer durante a viagem.
Algumas vezes, eles nem chegam a ser atendidos nos serviços públicos, retornam
para a prisão e continuam com os mesmos sintomas. No trecho a seguir, um
preso relata essa dificuldade:
Quando tem que ir para o médico, tem que ir para Bangu, para o hospital. Aí,
às vezes, a gente nem sai do carro da SOE, às vezes nem chega lá. Eu acho que
lá, na SOE, tem alguns funcionários que são tranquilos, mas tem vezes que
são dez presos algemados, e a gente vai igual a caranguejo. É um massacre!
(Homem, Baixada)

Apenas um dos entrevistados na Capital – enquanto todos os outros se


queixaram – informou ter a presença de um médico na sua unidade, que presta
bom atendimento durante a semana. Segundo ele, quando ocorre alguma
intercorrência nos fins de semana, eles podem ser atendidos na emergência.
Mulheres se queixaram que, quando chegam a ser atendidas, são tratadas com
muita brutalidade. Uma delas, que está numa unidade prisional da Capital, deu
exemplo reclamando muito da conduta médica no exame ginecológico. Afirmou
que foi tratada com grosseria e que o procedimento para o exame de Papanicolau
foi muito doloroso: “A mulher me arrebentou toda. Saí de lá sangrando, fiquei
três dias sentindo dor e só botei pomada vaginal porque a minha coleguinha tinha
um tubo fechado novo. Resultado? Nunca mais (Mulher, Capital).
Em relação à enfermagem, de acordo com os depoimentos dos homens presos
na Capital, existem dois extremos: de um lado, uma relação tranquila com as
enfermeiras e os enfermeiros; de outro, uma atenção de baixa qualidade, falta de
medicação e ausência de condições adequadas para o atendimento. Um deles foi
categórico quando se referia a esse profissional da saúde: “Não tem enfermeiro,
não tem medicação, não tem nada!” (Homem, Capital). E alguns homens, também
da Capital, reclamaram dos maus-tratos, da falta de pessoas qualificadas e da falta
de encaminhamentos dos doentes para os médicos quando necessário: “É preciso
melhorar a condição da enfermaria e dos hospitais”. Os homens presos da Baixada
Fluminense, entretanto, externaram sua preocupação com as péssimas condições
de trabalho para os profissionais da enfermagem e consideraram que, apesar disso,
esses profissionais lhes prestam um atendimento cuidadoso.
Os presos entrevistados na Capital, assim como os da Baixada, disseram que
não têm acesso ao atendimento de psicologia e que falta uma atenção psiquiátrica
para os que passam por problemas ou sofrimento mental. Para eles, esses

191
profissionais só aparecem quando são requisitados para fazer uma notificação
ou realizar algum parecer solicitado pela unidade, ou seja, para cumprir alguma
função burocrática. Para as detentas, essa experiência é diferente, pois contam
com psicólogas que, na opinião de muitas, oferecem um bom atendimento e
estão disponíveis quando precisam. Na verdade, são elas que mais necessitam
de cuidados, na medida em que há um elevado número de mulheres com vários
níveis de depressão e outros transtornos.
A relação dos homens presos na Capital com a assistência social às vezes
parece ser bem próxima e atenciosa e, outras vezes, ameaçadora ou indiferente.
Alguns detentos nem sabem qual é a função desse profissional e acreditam que
seu papel é providenciar documentos oficiais e se comunicar com suas famílias.
Os homens da Baixada Fluminense informaram que não há assistentes sociais
nas suas unidades. As mulheres presas na Capital, em geral, ao contrário, foram
muito elogiosas em relação a esse profissional.
O estudo quantitativo confirma muitas das representações trazidas
nas entrevistas. Nos trechos de depoimentos a seguir, é possível identificar
sentimentos opostos em relação aos que prestam esse tipo de assistência. Muitos
têm uma visão positiva sobre esse serviço: “A assistente social atende por galeria,
conversa com a gente, nos dá atenção, ela é legal” (Homem, Capital). Outros
avaliam de forma negativa:
A assistente social aqui quando cisma de não atender, ela não atende. E se ela
estiver irritada e você for conversar, ela te coloca até de castigo. É horrível. Ela
debate com o funcionário, ela debate conosco. Aí você tem que dar seu nome e ela
vai pensar se vai tirar você ou não. (Homem, Capital)
Nós sentimos na pele o tratamento diferenciado para as famílias e para os
internos. Eu não sei se de repente é porque muitos não têm uma educação, uma
educação formada em si, que saibam se portar ou falar, esclarecer o seu problema
de fato para tal pessoa, porque vira e mexe nós somos sempre maltratados.
(Homem, Capital)

A distribuição de medicamentos também foi muito criticada pela maioria


dos entrevistados. Verbalizaram que recebem a mesma medicação para todos
os sintomas que apresentam e que, muitas vezes, os remédios prescritos nas
unidades de saúde não estão disponíveis no presídio, cabendo, nesses casos,
às famílias providenciá-los, quando podem arcar com a despesa da compra.
Caso contrário, os doentes ficam sem os remédios, mesmo os de uso contínuo:
“O sistema nunca teve uma medicação que o médico tenha passado para me dar.

192
Eu sempre tive que mandar a receita para minha família e minha família comprar
o remédio” (Mulher, Capital).
A precariedade dos serviços evidencia a imensa distância que existe entre as
legislações, as propostas políticas e o funcionamento dos serviços de atendimento
à população carcerária. Há uma carência enorme de profissionais da saúde –
médicos, psicólogos, dentistas e técnicos de enfermagem – e, a se guiar pelas
falas dos presos, a situação, que é ruim na Capital, parece muito pior na Baixada
e no Interior. A grande maioria das unidades não conta com a equipe mínima
para atender a demanda de cuidados. Também aos agentes prisionais e aos
demais funcionários o ambiente insalubre e contaminado oferece riscos maiores
de adoecimento que para a população em geral. O contexto de precariedade, a
falta de respeito à dignidade dos reclusos e o elevado número de pessoas com
problemas de saúde convivendo com os companheiros em celas superlotadas têm
repercussões sobre a saúde mental de todos – presos e funcionários.

Condições Ambientais e de Saúde


As condições ambientais do sistema prisional do estado do Rio de Janeiro
foram estudadas e analisadas, como foi referido no capítulo 1, por meio de um
instrumento denominado “Instrutivo sobre condições ambientais que impactam
a saúde e a qualidade de vida dos presos”. Sua aplicação se deu em conformidade
com as diretrizes específicas descritas na metodologia adotada. Assim, os
resultados apresentados nesta seção são fruto da pesquisa observacional e de
inspeção realizada em 11 presídios que, no momento dessa atividade, cumpriam
um termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado com o Ministério Público
Estadual. Embora este seja um estudo amostral, os temas e problemas observados
permitem afirmar que o resultado encontrado in loco reflete o impacto das
condições ambientais sobre a saúde e a qualidade de vida de todos os que vivem
no sistema prisional do estado.
Os parâmetros utilizados para elaboração do instrutivo estão de acordo com
os dispositivos legais e a bibliografia (escassa) sobre o tema da avaliação ambiental
do sistema prisional brasileiro (Damas, 2011; Capitani, 2012; Brasil, 2012).
Tanto no corpus documental quanto nos trabalhos que se referem ao estado
da arte sobre o assunto, não foram observados instrumentos que fossem capazes
de abranger totalmente as condições ambientais que impactam a saúde e a
qualidade de vida dos presos, pretendidas no estudo. Diante disso, o instrutivo

193
elaborado e aplicado pela equipe de pesquisa guarda uma conformação que, por
não ser encontrada na base legal e bibliográfica, confere-lhe características de
originalidade.
A categoria central para análise das condições ambientais foram os “espaços
de convívio” em que o inter-relacionamento humano ocorre. Essa escolha difere,
portanto, da terminologia corrente das avaliações ambientais clássicas que ora
se referem ao ambiente de caráter ecológico, ora aos ambientes de trabalho,
domiciliar e escolar. No caso dos presídios, há um convívio e um uso compulsório,
dia e noite, dos mesmos espaços que caracterizam a privação de liberdade.

Resultados dos processos observacionais


A sequência de gráficos apresentados, a seguir, corresponde à observação
de oito dos dez espaços de convívio analisados, porquanto nas unidades
observadas não existem dois espaços previstos no instrumento (os refeitórios
para alimentação – restaurante, cantina, cozinha etc. – e os locais para higiene
– banheiro coletivo, barbearia, entre outros), salvo de forma apenas residual.
A opção por mantê-los como metodologia inicial se deveu à possibilidade de
haver tais espaços em outras unidades e ao desejo de preservar a capacidade
metodológica de reprodutibilidade do método.
Consolidaram-se inicialmente as observações dos oito espaços de convívio
num gráfico de barras com duas colunas que representam as adequações e
as inadequações (pouco ou muito), conforme se verificam no Gráfico 23. As
condições piores se encontram nas celas onde os presos estão em situação de
superlotação e mal acomodados para viver seu cotidiano. São raras as exceções
nesse quesito. Em compensação, os espaços de convívio coletivo, externos,
privativos dos funcionários e das visitas estão em situação melhor, levando-se em
conta as condições gerais do sistema.

194
Gráfico 23 – Dados consolidados dos presídios inspecionados segundo os espaços
de convívio considerados como adequados ou inadequados

Nos Gráficos 24, 25, 26 e 27, está representada percentualmente a


participação de cada um dos componentes dentro das celas: 1) estrutura e
infraestrutura; 2) equipamentos; 3) mobiliário; 4) convivência humana. Nestes
gráficos estão estabelecidas três categorizações: adequado, pouco inadequado e
muito inadequado. Em primeiro lugar, visualiza-se a situação das celas.

Gráfico 24 – Estrutura e infraestrutura do espaço de convívio nas celas

195
Gráfico 25 – Condições dos equipamentos no ambiente das celas

Gráfico 26 – Condições do mobiliário dentro das celas

Gráfico 27 – Condições da convivência humana cotidiana dos presos nas celas

196
A observação das condições de infraestrutura das celas seguiu os seguintes
critérios: em primeiro lugar, a iluminação: luz necessária para uma leitura
confortável; lâmpadas sempre piscantes; reposição automática das lâmpadas
queimadas; utilização da luz como instrumento intimidativo. Em segundo
lugar foi analisada a ventilação: ausência ou adequação de ventilação natural;
dificuldade de renovação do ar ambiente; adequação de ventilação artificial. Em
terceiro lugar, a umidade e o calor: sensação, na maior parte do tempo, de calor
ou frio extremo; mecanismos de controle sobre calor ou frio e sinais aparentes de
umidade excessiva do ambiente. Em quarto lugar, o destino do lixo: presença ou
ausência de coletores de lixo e resíduos; coletores de lixo e resíduos inadequados ao
espaço e número de detentos e seu estado de conservação; limpeza e manutenção
precárias e de forma casual (não sistemática e permanente); localização e acesso
inadequados; sujidade visível, acúmulo de dejetos e lixo.
Como se pode verificar no Gráfico 24, apenas 32% das celas estavam com
a infraestrutura adequada, e, por ser, entre os observados, o ambiente em pior
estado, as considerações vão se ater mais profundamente a ele.
Em relação à conservação das celas, constataram-se infiltração em
várias, mofo, paredes e tetos descascando, sem tinta, sem emboço; ausência
de revestimento lavável; presença de buracos ou saliências que dificultam
a locomoção; irregularidades, inclinação ou inadequações que dificultam o
escoamento de água e material de limpeza.
No que se refere à adequação para a convivência humana, a ocupação é
inadequada para o distanciamento corporal na maioria das unidades prisionais:
espaço insuficiente para mobilizar totalmente o corpo quando deitado; para dar
alguns passos; para praticar algum exercício físico (como flexão e abdominal); e
insuficiente ou inadequado para ler ou exercer práticas religiosas.
Percebe-se que não existe conforto para o descanso: na maioria dos
presídios, há mais de um indivíduo por cama; ausência ou inadequação de
colchão (rasgado, furado, sujo); dimensão mínima dos espaços para dormir
e falta de conservação desses espaços. Há poucos móveis, geralmente em
deplorável estado de deterioração. As condições dos banheiros são lastimáveis,
o que faz com que todos, numa cela, compartilhem o mau cheiro e a falta de
privacidade – uma situação particularmente cruel com as altas temperaturas do
Rio de Janeiro. Um dos maiores problemas de infraestrutura dentro das celas é
a falta ou insuficiência de água para mantê-las limpas e para consumo humano.

197
Também não há água para a higiene dos detentos, principalmente, para o banho
diário. Um ponto reiterativo das queixas e causa do mal-estar dos presos são as
condições inadequadas para fazerem suas necessidades fisiológicas.
Nos gráficos em geral (em barras e em forma de pizza) está representada a
evidente inadequação do ambiente celular. De todos os espaços de convívio dos
presídios inspecionados, a cela é o pior, contendo sempre, em cada uma delas,
acima de 30 apenados.
As celas de menor porte que abrigam em geral quatro apenados, por seu
turno, estão situadas em galerias onde os presos em seu conjunto dormem, fazem
sua higiene e circulam. Todos convivem entre si.
É evidente que, sendo o coração do sistema, a cela represente o imaginário
simbólico da crueldade da prisão como um todo, seja na modalidade de menor
porte ou como galeria, por exibir o maior grau de inadequação ambiental. Esse
fato constitui um indicativo de que o investimento fundamental de reestruturação
e reorganização tem que passar pela profunda revisão desse espaço, pensando-se
na situação humanitária e na possibilidade de ressocialização do apenado. Suas
condições precárias, ora mais ora menos, mas sempre inadequadas, refletem as
situações de violação de direitos a que os próprios apenados fazem menção.
Nos questionários e entrevistas (que tiveram uma abrangência geral do
sistema, enquanto a pesquisa observacional foi mais restrita), os presos também
puderam avaliar os espaços em que vivem. De forma geral, todos os aspectos
relativos ao ambiente de confinamento foram mal avaliados. As unidades
masculinas – do Interior, da Baixada e da Capital – registraram o maior número
de queixas.
Em relação às condições da cela e limpeza do espaço, os homens mencionaram,
com maior frequência, a superlotação e a falta de camas, travesseiros, lençóis e
cobertores. O chão nesses casos é frequentemente usado como leito, mas vários
deles disseram que existe colchão para todos. Nas unidades femininas, a queixa
maior foi em relação ao tamanho das celas e ao número de pessoas que ali estão.
Contudo, as mulheres foram menos críticas que os homens. A seguir trechos de
depoimentos que tratam do assunto:
Então, dentro dos cubículos moram sete. Cubículo apertado. São 16 em cada
galeria. Cabem só quatro, mas eles colocam duas comarcas. As duas comarcas
são as camas de concreto. Não tem cama para todos. O risco que [a pessoa] corre
ali é de uma barata passar por cima dela ou de um rato. Porque em cada galeria a

198
capacidade é de 96. Sendo que hoje, cada galeria está com 109, 104, 119. Então,
existe esse sofrimento. (Homem, Capital)
É horrível! Ficar o dia inteiro trancado numa cela em que [se você] der cinco
passos acabou, não tem como continuar. São seis, sete e oito pessoas. Na minha,
ao todo são 14 celas, e só têm duas televisões. (Mulher, Capital)
As condições são desumanas, mas também não é pela unidade, acho que é o
sistema carcerário que está superlotado, então está cheia a cadeia. O espaço em
uma cela que foi feita pra oito, mas que não tem condições de oito habitarem, às
vezes tem 12 e 13 pessoas. Dorme gente no chão, tem colchão. (Homem, Baixada)
É grande, a cela é grande. Cabem praticamente 65 pessoas. Mas aí, às vezes,
eles colocam 120, 180 lá dentro. Não tem onde dormir. Aí, às vezes, colocam
dois numa comarca. Aí tem amigo que dorme no chão, no colchão precário.
(Homem, Capital)

Apenas um entrevistado avaliou positivamente sua cela. No entanto, trata-se


de um “faxina” e, como já se mencionou aqui, o tratamento para esse grupo é
diferenciado. Em seu relato há ainda referência a policiais presos, que também
recebem tratamento diferenciado.
A minha cela é uma maravilha. Apesar de que é tudo misturado, os homens jogam
lá tudo, mas tem que aturar. É pensão, é Maria da Penha, é Comando Vermelho,
é ADA. Mas a gente respeita que é a cela do polícia. Lá a gente não pode nada
criticar, isso não. Assim: não pode falar nada, deixa o cara aí! Ah, o cara é ex-
policial. Vamos deixar ele errar primeiro, se ele errar aí a gente chama o guarda
para pôr ele para fora. (Homem, Interior)

A limpeza das celas em todas as unidades é realizada pelos próprios internos.


No entanto, eles reclamam da falta de produtos, principalmente, da falta de água
para que tal ação seja operacionalizada devidamente: “A cela a gente mantém
ela limpa. Final de semana está trancado, aí não tem como limpar, mas dia de
semana, assim, eu pego, a gente lava a cela, limpa tudo” (Homem, Baixada).
Destacam-se, nas unidades masculinas, a ausência de estrutura de banheiros
e o excesso de pessoas para usá-los. Segundo os entrevistados há apenas um
buraco onde os presos fazem suas necessidades, o que expõe todos à falta de
higiene, espalha o mau cheiro e contribui para proliferação de insetos e roedores.
A ausência de abastecimento contínuo de água foi citada em quase todas as
unidades visitadas, com especial destaque para as situadas em Gericinó, onde os
presos usam canecas para “dar descarga” ou tomar banho.
O banheiro não é banheiro. Nós chamamos de “boi”. Não tem vaso, é um
buraco. Você vai, quando você tem que fazer a sua necessidade você tem que se

199
agachar. Pequenininho. Um metro quadrado ali. Tanto na parte para fazer a sua
necessidade como na parte que você toma banho. São duas partes de um metro
quadrado. Só isso. Você faz a sua necessidade, pega a canequinha joga e vai tomar
banho de caneca. (Homem, Capital)

A dispensação de lixo orgânico também surgiu na pesquisa nas unidades


como um problema de destaque. Muitos detentos disseram que guardam restos
de comida nas galerias com o objetivo de vender o produto como lavagem.
Tal procedimento provoca um odor insuportável e atrai insetos e roedores, e é
escusado mencionar o quanto é prejudicial à saúde.
Os amigos que moram na frente próximo ao rol [lata de lixo que guarda os restos
de comida] têm que colocar garrafas, essas coisas, para o rato não entrar. E é só
rato grande que aparece. (Homem, Capital).
Nós também não temos coleta de resíduos. Nós chamamos de “mongonga” os
restos de comida levados lá para frente, depositados em galerias. É isso que prolifera
ratos. Porque esses galões de 200 litros são cheios de restos de comida podre,
ali. Para depois ser vendida como lavagem para porcos. Existem comerciantes
que compram. Então isso ajuda a conquistar alguma coisa aqui dentro.
(Homem, Capital)

Em todas as unidades, as condições de iluminação e ventilação foram


consideradas ruins. O excessivo calor e a falta de circulação de ar foram apontados
por todos os entrevistados, mas com maior ênfase nas unidades masculinas, como
mostram os relatos a seguir.
Então o espaço é reduzido. Então o calor aqui é horrível. A ventilação é precária.
Época de calor é horrível para a gente aqui. É desumano. Cubículo pequeno,
apertado. Tem companheiro dormindo no chão, porque não tem comarca.
Ventilador você não consegue. Eles nos trancam na hora em que o sol está se
pondo. Então aquilo ali fica mais quente ainda. Um ventilador não sustenta. Você
não tem água para você tomar um banho. Então a pressão da pessoa fica baixa.
(Homem, Capital)
A cela tem um tamanho pequeno também, não tem muita iluminação, ainda aqui
são 13, 14 pessoas para um banheiro. É ruim com certeza. A gente come na cela
mesmo e depois leva para fora. (Homem, Baixada)
É superabafado, só tem a grade na frente. (Homem, Baixada)
A cadeia não tem ventilação para circular o ar para nós, é uma coisa horrível para
nós que temos bronquite. (Homem, Capital)

Em todas as unidades foi registrada a falta de água, associada à pouca


ventilação e ao calor excessivo. O uso controlado dessa necessidade básica, que

200
é ofertada apenas uma vez ao dia, torna a rotina ainda mais cruel, levando-se em
consideração as altas temperaturas do Rio de Janeiro durante quase o ano inteiro.
Espera o café, espera a água cair, é uma luta para cair uma água! Para conseguir
tomar um banho é uma luta! Todo o dia é a mesma coisa, o almoço sempre a
mesma coisa. (Homem, Capital)
A água é controlada. Nós estamos há dois dias sem água. Sai uma água de 20
minutos. Só amanhã. O sofrimento que nós passamos! (Homem, Capital)
Muitas coisas precárias. A água cai cinco minutos depois para, não cai mais. Ah,
temos que jogar dois canecos de água só sobre as necessidades feitas no banheiro.
(Homem, Capital)
Acordo. Quero tomar um banho, não tem água para tomar banho, escovar os
dentes, a água não cai aqui, a água já caía apenas meia hora, agora cai 15 minuto
e a cadeia está superlotada. (Homem, Capital)

Os Gráficos 28, 29, 30 e 31 são referentes às áreas internas de convívio


(pátios, galerias, salas e outros). Esses espaços foram um pouco melhor avaliados
pelos pesquisadores envolvidos no estudo.

Gráfico 28 – Ambiente de convívio interno: pátios, salas e outros

201
Gráfico 29 – Equipamentos no ambiente de convívio interno

Gráfico 30 – Mobiliário no ambiente de convívio externo

Gráfico 31 – Recursos humanos no ambiente de convívio interno

202
É possível perceber, observando-se os gráficos, que o segundo espaço mais
inadequado é o de circulação interna, em consonância com o ambiente cela; eles
se complementam.
Em terceiro lugar, em pior situação está o ambiente laboral e escolar.
Entende-se, para fins deste estudo, como ambiente laboral e escolar, as oficinas,
bibliotecas, salas de aula e outros locais com a mesma função. Como pode ser
observado no Gráfico 23, em que se apresentam os dados consolidados, e nos
Gráficos 32, 33, 34 e 35, esse espaço de convívio está adequado apenas em
30% dos casos. No caso do ambiente de trabalho, a inadequação é quase total,
uma vez que, como foi assinalado, apenas 4,4% dos presos trabalham. Portanto,
nas unidades há um imenso déficit tanto da prática de atividades como de
infraestrutura para que elas ocorram.

Gráfico 32 – Estrutura e infraestrutura do ambiente laboral nas prisões

Gráfico 33 – Condições do mobiliário no ambiente laboral e escolar das prisões

203
Gráfico 34 – Condições dos equipamentos do ambiente laboral e escolar das prisões

Gráfico 35 – Condições dos recursos humanos no ambiente laboral e escolar das


prisões

Excetuando-se as escolas – existentes em todos os presídios inspecionados – em


que as condições de infraestrutura e ambientais são um pouco mais satisfatórias,
os demais ambientes laborais são, de modo geral, muito ruins. Mesmo no caso
das escolas – algumas estavam passando por obras de melhoria no momento das
visitas de inspeção –, é grande a necessidade de reestruturação e reorganização.
Essa advertência se deve à urgência de expansão de matrículas (pouco mais de
20% dos detentos estudam), de investimento em modernização tecnológica, de
ampliação do quadro de professores e do aprimoramento da qualificação, tanto
dos professores como dos próprios alunos.
Em quarto lugar, analisa-se o ambiente de convívio externo representado
por sala íntima, parlatório, sala de visita, pátio e outros. Esse componente está

204
aqui representado nos Gráficos 36, 37, 38, 39 e, resumidamente, no Gráfico 23.
Diante das condições gerais encontradas, junto com os locais destinados aos
funcionários, os espaços externos são os que estão em melhor situação nos
presídios.

Gráfico 36 – Estrutura e infraestrutura no ambiente externo de convívio nos


presídios

Gráfico 37 – Situação dos equipamentos no ambiente externo de convívio dos


presídios

205
Gráfico 38 – Situação do mobiliário do ambiente externo de convívio dos presídios

Gráfico 39 – Situação dos recursos humanos no ambiente de convívio externo

Apesar de todas as deficiências, as dependências externas dos presídios são


bem melhores, e o ambiente é mais agradável que o degradante espetáculo humano
que se expõe nas celas. No entanto, em todos os aspectos, eles apresentam cerca
de 30% de inadequação.
Por fim, reflete-se sobre a questão da saúde, considerando-se as condições
ambientais da assistência, ou seja, a adequação de sua infraestrutura, os
equipamentos, os mobiliários e os recursos humanos. Foram analisadas as
condições assistenciais dos consultórios, enfermarias, representadas nos Gráficos
40, 41, 42 e 43.

206
Gráfico 40 – Condições de estrutura e infraestrutura do ambiente assistencial de
saúde

Gráfico 41 – Condições dos equipamentos para fins assistenciais de saúde

Gráfico 42 – Condições do mobiliário para a assistência à saúde nos presídios

207
Gráfico 43 – Condições dos recursos humanos para a assistência à saúde nos
presídios

No caso das condições para socorro aos presos doentes, os pesquisadores


encontraram mais adequações que inadequações. No entanto, a atenção à
saúde constitui uma das maiores queixas dos presos, refletindo a falta de
acompanhamento, a escassez de profissionais ou seu descaso com os enfermos.
Não conseguimos, apenas com as informações coletadas, chegar a uma
conclusão sobre o tópico, entretanto, é possível encontrar alguma pista nas
pesquisas de Damas (2011) e de Diuana e colaboradores (2008). Segundo esses
autores, são os agentes penitenciários que gerenciam o acesso à saúde. Afirmam
Diuana e colaboradores (2008: 887):
O papel limitante dos agentes de segurança penitenciária no acesso dos detentos
aos serviços sanitários e o impacto de suas representações e práticas de saúde (...)
[mostram] uma hierarquização de riscos e estratégias de preservação no contexto
carcerário relacionadas às posições nessa organização social, aos conflitos e
tensões ali existentes e aos pertencimentos grupais que reforçam identidades e
antagonismos, refletindo-se nas práticas rotineiras e no acesso aos serviços. (...)
A melhoria das condições de saúde dos detentos implica também mudanças nas
condições de encarceramento.

Em resumo, atendo-se ao Gráfico 23, que permite visualizar todos os


componentes avaliados juntamente e compará-los entre si, as celas são o centro
da questão ambiental nas prisões, embora todos os demais espaços exibam
inadequações. A área de convívio externo, numa escala de prioridades em
propostas de melhoria, poderia ser considerada abaixo dos espaços celulares, de
circulação interna, laborais e escolares.

208
O ambiente cotidiano prisional é insalubre e nele se encontram elementos que
colaboram para a proliferação de doenças, como a tuberculose, em que a taxa de
incidência é 35 vezes maior que na população em geral e tem relação intrínseca com
as condições de reclusão, como lembram Sanchez e colaboradores (2007: 550):
A gravidade da situação da tuberculose nas prisões do Rio de Janeiro e provavelmente
de outras prisões brasileiras implica a melhoria das condições de encarceramento
e a definição de estratégias coerentes e eficazes que devem ser adaptadas para a
população carcerária em função das especificidades de cada unidade prisional.

Porém, não é apenas a tuberculose que grassa nesse ambiente hostil e cruel,
e sim uma série de enfermidades, como o HIV e outras transmissíveis chamadas
“doenças ligadas à sujeira”, como leptospirose, micoses, sarna, parasitoses e
infecções bacterianas. De acordo com Diuana e colaboradores (2008), o sujo
e o tóxico aparecem como algo imposto, interiorizado, contaminando não apenas
o ambiente em que vivem, mas também as identidades dos presos e dos agentes.

209
5
A Vida após a Prisão

É duro. Eu tinha 18 anos e fui rapidamente obrigado a transformar-me num


homem. A prisão não é só um lugar de jovens – é de muitos homens experientes na
vida. Se nós formos inteligentes o suficiente, crescemos e ganhamos maturidade
para perceber que aquilo não é vida.
(Ricardo Pereira, pseudônimo, ex-presidiário)

Este é o capítulo mais curto do estudo, pois ele é mais etéreo que real, é
feito de esperanças e sonhos. Pode-se considerá-lo sob dois aspectos: o que
é possível projetar de “ressocialização” num ambiente tão hostil ou o que a prisão
cristalizou como uma espécie de carreira dentro do crime.

Expectativas Vinculadas ao
Trabalho e à Escolarização
Pra aguentar aqui, tem que estar com uma esperança
muito grande lá fora. (Homem, Capital)

A visão de futuro dos detentos e detentas – da Capital, do Interior e da


Baixada – revela-se, em geral, perpassada pelo sentimento de busca e de retomada
de uma vida diferente da que levam na prisão. Nessas expectativas têm centralidade
o trabalho, a escolarização, a profissionalização, a família, as transformações
pessoais e a saída do tráfico de drogas ou o abandono de uma carreira iniciada
em outros tipos de crime. Grande parte dos reclusos cultiva esperanças para suas
vidas após a prisão, especialmente, no âmbito familiar e pessoal. A reinserção no
mundo do trabalho é o ponto mais problemático, atingindo 56,9% dos homens
e 50,4% das mulheres. Tais aspectos são apresentados mais detidamente no
Gráfico 44.

211
Gráfico 44 – Distribuição proporcional dos presos do estado do Rio de Janeiro,
segundo sexo e boas expectativas de vida ao sair do presídio

Nota: Diferença estatística significativa (p<0,05) para todos os itens, exceto vida familiar.

No contexto das prisões, as expectativas dos detentos sobre o seu futuro


remetem à ideia de reinserção social que, por sua vez, encontra-se relacionada à
ressocialização, a função idealmente orientada de todo o sistema penitenciário.
Julião (2010), em estudo acerca do impacto da educação e do trabalho na política
de execução penal do Rio de Janeiro, afirma que as finalidades da punição e
da ressocialização inerentes ao sistema penitenciário são passíveis de crítica por
caracterizarem ações e objetivos completamente antagônicos. Para o autor, assim
como para Rabelo (2005), esse antagonismo é decorrente da impossibilidade de
se recuperar uma pessoa por meio de castigo.
Outra questão importante nesse cenário é que grande parte dos detentos
nunca foi efetivamente, durante sua vida, incluída no mercado formal de trabalho,
tendo vivenciado processos de exclusão social anteriores à prisão, como se viu
no capítulo 2, que trata das condições de vida antes da institucionalização. Sobre
esse particular, Escorel (1999) mostra que a exclusão social abarca processos
de vulnerabilidade, fragilização, precariedade e ruptura de vínculos sociais em
várias dimensões da vida. Nesses processos se incluem aspectos econômicos,
ocupacionais, sociofamiliares, de cidadania e de representações sociais dos

212
excluídos sobre si mesmos e da população sobre eles. O presídio se configura,
assim, como um espaço de reprodução dessa situação, o que levou Wacquant
(2001) a denominá-lo “fábrica de exclusão”.
Apesar das considerações feitas anteriormente sobre os vários aspectos da
vida dos presos antes e durante o tempo de reclusão, observa-se que em torno
de seis de cada dez presos alimentam boas expectativas em relação ao futuro,
até mesmo quanto à vida profissional (Tabela 35). Os homens se destacam em
relação às mulheres (p<0,05).
As mulheres fazem piores projeções em relação à reinserção no mundo do
trabalho. Elas carregam um histórico de atividades laborais precárias e socialmente
desvalorizadas anterior ao aprisionamento. Suas vidas também têm sido marcadas
por relações desiguais de gênero, o que acaba por se refletir tanto no tempo de
reclusão como nas expectativas para o momento após a saída da cadeia.
Ireland e Lucena (2013), em estudo sobre o presídio feminino como espaço
de aprendizagem em João Pessoa (PB), mostram que entre as experiências de
trabalho das detentas, dentro e fora da prisão, prevalecem as efetuadas sem
proteção social, com carga horária elevada e baixa remuneração, o que repete o
ciclo de desvalorização de suas mães e avós. Guimarães e colaboradores (2006)
destacam que, especialmente no grupo das mais pobres, no qual se inclui a
quase totalidade das presidiárias, acrescenta-se o ônus da ideologia patriarcal, da
baixa escolaridade e das escassas oportunidades de trabalho, o que lhes dificulta
identificar condições de autonomia no momento pós-prisão.

Tabela 35 – Expectativas de presos do estado do Rio de Janeiro quanto à vida


profissional após sair do presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=19.977) (N=12.973) (N=2.699) (N=4.306) (N=1.235) (N=1.045) (N=191)
Boa 62,9 59,9 68,1 68,3 58,7 57,2 67,0
Regular 27,2 29,2 23,6 23,4 29,8 30,8 24,5
Ruim 9,9 10,8 8,2 8,3 11,5 12,0 8,5
Total 100 99,9 99,9 100 100 100 100

Ressalta-se também que homens e mulheres presos no Interior (68,3%) e na


Baixada (68,1%) têm melhores perspectivas que os da Capital (p<0,05). Cerca
de 10% de todos os detentos e detentas, com destaque para os homens (10,8%) e
as mulheres (12,0%) da Capital, no entanto, consideraram que suas perspectivas
são ruins para a vida futura fora da prisão.

213
Mais homens (56,9%) que mulheres (50,4%) (p<0,01), como já dito,
relataram ter boas expectativas de condições de trabalho quando deixarem o
cárcere (Tabela 36). Os que apresentam uma visão mais positiva são os homens
da Baixada e do Interior do estado (p<0,01). É relevante, no entanto, o percentual
de presos (15,2%) que refere uma perspectiva ruim de conseguir emprego e de
se integrar socialmente. Os índices mais elevados dos que têm expectativa
negativa se encontram na Capital (16,15%). A situação das mulheres é pior
(16%) e se assemelha à dos homens da Capital (16,2%).

Tabela 36 – Expectativas de presos do estado do Rio de Janeiro quanto à condição


de trabalho após sair do presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=18.823) (N=12.204) (N=2.689) (N=3.929) (N=1.201) (N=1.026) (N=175)
Boa 56,9 54,9 61,5 59,9 50,4 49,2 57,7
Regular 27,9 29,0 24,0 27,3 33,6 34,6 27,8
Ruim 15,2 16,1 14,4 12,8 16,0 16,2 14,4
Total 100 100 99,9 100 100 100 99,9

Para os que têm boa expectativa, o trabalho faz parte dos planos de reconstrução
da vida e se apresenta como uma forma concreta de reinserção social.
Quero ter o meu trabalho. Trabalhar honestamente para eu poder andar na rua
com a cabeça erguida. E o passado ficará para trás. Eu quero viver um presente e
um futuro completamente diferente. É essa vida que eu quero. (Homem, Capital)

Apesar da importância atribuída às atividades laborais, há entre os


apenados, especialmente entre os homens detidos na Capital e na Baixada, a
percepção de que a reintegração que pretendem, da qual necessitam e com a qual
sonham será dificultada por causa da falta de acesso à qualificação profissional e
do estigma e da discriminação que sofrerão como ex-presidiários. Para diminuir
os preconceitos, infelizmente, o período vivido nas prisões do estado do Rio de
Janeiro não tem ajudado. Pouco mais de 20% estão aproveitando o tempo para
estudar e apenas 4,4% trabalham. No último caso, os que o fazem, exercem
atividades que apenas os auxiliam a passar o tempo, nada acrescentando à sua
formação. Vários deles disseram que a falta de oportunidades quando saírem
pode ter como desdobramento o retorno à criminalidade.
Olha, para mim vai ser a mesma coisa. Ah, vai continuar do mesmo jeito, aqui
não tem nada que possa me fazer mudar. Eu vou sair pra rua, eu vou trabalhar
de quê? Vou fazer o quê? Não tem como. Não vai dar para viver. É difícil.

214
Não tem como eu fazer nada aqui dentro, não tem curso, não tem nada. Não
tem como estudar, não tem profissionalização. E aí posso voltar para o crime.
(Homem, Capital)

Assim, observa-se uma distância entre a realidade e o desejo. É importante


assinalar que o sistema penitenciário – caso tivesse como meta real a
ressocialização – precisaria pensar nas pessoas que estão lá como sujeitos de
direitos. Um dos direitos fundamentais é a melhoria de suas condições para
enfrentarem o mundo do trabalho formal na situação pós-prisão, o que não
é uma meta impossível. De acordo com Santos, Maciel e Matos (2013), as
transformações socioeconômicas que o país vivenciou nos últimos vinte anos
trouxeram novas oportunidades na quantidade e na qualidade dos empregos
ofertados, e o trabalho passou a ser cada vez mais um fator de inclusão e garantia
de um lugar social. Como já observava Weber (1984), no início do século XX, a
condição de trabalhador formal fortalece a disciplina, a identidade individual e
social e o reconhecimento do indivíduo na sociedade em que vive.
Ao contrário das aspirações que os presos têm de conseguir se inserir no
mercado de trabalho formal, seus relatos sobre as oportunidades reais ligam seu
passado a esse futuro projetado, mostrando, como oportunidades, uma série
de atividades informais como produção caseira de sorvetes, coleta de latas e
papelões para vendas, biscates e outras tarefas menos valorizadas, mas que lhes
garantiriam a imediata sobrevivência material.
Mesmo sem grandes esperanças para que isso aconteça, os detentos dão
sugestões para que o sistema prisional possa viabilizar seu desenvolvimento
durante o tempo na cadeia, como se observa no depoimento a seguir. Oxalá suas
sugestões sejam ouvidas:
Se os espaços puderem ser abertos aqui com os profissionais, seja de mecânica ou
qualquer outro tipo. Marcenaria. Qualquer tipo de curso profissionalizante que
lá fora dê a condição de uma ressocialização, isso aí seria muito benéfico. Muito
benéfico mesmo! (Homem, Capital)

Em resumo, é notória a importância dada pelos presos para a qualificação


profissional visando a um futuro melhor, ao mesmo tempo que predomina a falta
ou a escassez desse tipo de formação imprescindível para que possam pleitear
empregos formais e reinserção social. Julião (2010) em sua pesquisa ressaltou
que, solicitados a escolher entre o estudo e o trabalho, a maioria dos apenados
que entrevistou optou pelo primeiro, pois, para eles, uma melhor escolarização
se encontra relacionada à possibilidade de uma vida melhor.

215
Há exceções positivas no sistema que são dignas de nota, mas que
precisariam ser multiplicadas e tornadas como regras. Em algumas unidades
prisionais desenvolvem-se atividades profissionalizantes, a exemplo de cursos de
panificação e de fábrica de tijolos. Duas experiências bem-sucedidas, mas que
não têm o alcance nem a abrangência necessária.
No caso da escolarização ofertada pelo sistema, há muitos problemas. Em
algumas unidades foi possível visitar os locais destinados a essa função. Na
visita aos ambientes das prisões, os pesquisadores observaram que, em geral,
os espaços destinados para estudo são melhores, por exemplo, que o das celas,
embora muitas transformações tecnológicas e estruturais precisem ser feitas. Já
na observação participante, notou-se que há uma infantilização na organização
dos equipamentos e meios educativos, fazendo-os se assemelharem a escolas
para crianças. Essa é uma crítica importante, pois existe uma tendência de
se tratar os presos como crianças, com intenção de torná-los mais dóceis e
obedientes. E o ensino é um lugar privilegiado para tal: esse fato foi notado nas
unidades prisionais femininas, onde as relações das internas entre si e com as
agentes apresentam tais características. Não foi possível verificar a forma como
a infantilização do ambiente repercute na formação escolar dos detentos que
frequentam os cursos. Porém, esse é um tema que merece aprofundamento, pois
a literatura (Guimarães, Meneghel & Oliveira, 2006) mostra que a segregação e
o tratamento infantilizado dos presos produzem seu isolamento social e reduzem
sua capacidade de falar em causa própria.
Laffin e Nakayama (2013), em estudo acerca do trabalho de professores em
espaço de privação de liberdade, destacam que a aprendizagem que os apenados
precisam para sobreviver à prisão deve ser emancipatória e proporcionar ajuda
para desenvolver a criatividade e a autonomia. Na falta de um processo de
socialização que promova seu desenvolvimento intelectual e social, a maioria dos
detentos, mesmo expressando grandes esperanças, falou sobre as dificuldades
que vislumbram para sua reintegração na comunidade e na sociedade em geral.
Eles consideram que carregarão o estigma de ex-presidiários, e isso influenciará
negativamente em sua reinserção em atividades laborais:
Vou ser visto pela sociedade como um ex-presidiário. As coisas vão ser mais
difíceis! Eu vou querer reconstruir minha vida, mas vai se tornar mais difícil.
A dificuldade maior vai ser arrumar um emprego por esse motivo e porque tenho
pouco estudo. (Homem, Capital)

216
De forma geral, as características que conformam o mundo atual do trabalho
na sociedade livre constituem um desafio para os egressos do sistema. Sobre esse
fato, Santos, Maciel e Matos (2013) reforçam que a precarização das condições de
vida e a necessidade imediata de sobrevivência que, em vários casos, foram fatores
importantes no envolvimento em delitos e na reclusão dos detentos, costumam
permanecer na vida após a prisão, tornando problemática sua reinserção social.
Vários entrevistados mencionaram que a vida pregressa e o estigma que um ex-
prisioneiro carrega contribuem para a reincidência na vida criminal.
Vários homens e mulheres revelaram que têm como objetivo na vida pós-
prisão a retomada dos estudos, para que sua inserção da vida laboral se dê num
patamar mais elevado. Nesse sentido, entre outros depoimentos, uma detenta
relatou que pretende “terminar o terceiro ano do ensino médio e fazer faculdade
de estética”.
Nos espaços livres de expressão houve outras manifestações de esperança
tanto em relação ao estudo como ao trabalho, particularmente, entre as
mulheres: “sair, ser alguém”; “trabalhar, estudar e ser feliz”; “sair desta vida e
ter oportunidades”. E entre os homens, mais de cem deles se manifestaram com
expressões de que a vida reclusa foi um hiato em sua existência e que sonham
com um futuro melhor: “ir embora e ser feliz, sair com pensamentos positivos,
ser um homem melhor, reconstruir a vida”; “ter nova oportunidade na sociedade
com fé no futuro”; “trabalhar, se ocupar e ganhar melhor”; “trabalhar, ter uma
atividade e estudar”.
Assim, existe uma ambiguidade nas expectativas de futuro por parte dos
detentos e das detentas. Grande parte se arrepende dos crimes que cometeu e
gostaria de melhor se integrar socialmente. Na verdade, se houvesse um processo
realmente direcionado para a ressocialização, muitos retomariam a vida de
forma qualitativamente melhor. Outros não querem mudar o rumo de suas
atividades futuras, nesse caso se incluem alguns presos por tráfico de drogas e
armas. Alguns, ainda, têm medo do futuro, de não serem bem recebidos em suas
comunidades de origem nem conseguirem conduzir sua vida livremente, sendo
coagidos a continuar em atividades ilegais.

217
A Família como Estímulo para
a Retomada da Vida Pós-Prisão
A família foi realçada pelos presos como o apoio e a motivação mais
importantes para a retomada da vida fora do cárcere: isso foi mostrado nas
entrevistas, nas respostas aos questionários e pode ser constatado na Tabela 37.
Cerca de 85% dos entrevistados, independentemente do sexo e da localização
geográfica da penitenciária, disseram que contam com seus familiares para
reatarem relações na comunidade e para conseguir emprego.

Tabela 37 – Expectativas de presos do estado do Rio de Janeiro quanto à vida


familiar após sair do presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=20.613) (N=13.418) (N=2.819) (N=4.375) (N=1.267) (N=1.070) (N=198)
Boa 85,1 85,3 86,9 83,6 85,6 85,5 86,4
Regular 11,9 11,7 10,1 13,4 11,9 11,8 12,7
Ruim 3,0 2,9 3,0 3,0 2,5 2,7 0,9
Total 100 99,9 100 100 100 100 100

Aspectos relacionados ao reencontro com a família e ao convívio com os


parentes, à esperada dedicação aos filhos, à expectativa de ajuda dos irmãos e à
reconstrução de vínculos nesse grupo foram recorrentemente mencionados nos
relatos dos presos.
Estou querendo mesmo só ver minha família. Ver se está todo mundo. Não tenho
a foto deles. Todo mundo na cela tem, só eu que não tenho. Eu planejo dar uma
coisa melhor para meus filhos. Dar uma saúde boa. Pegar no meu filho porque é
recém-nascido, falar com ele o que é certo. (Homem, Baixada)

No contexto de reclusão, a casa adquire novo significado. Muitos detentos


mencionaram a necessidade desse espaço para a reconstituição de suas vivências,
de mais comunicação, de liberdade e de expressão de afetos reprimidos ao longo
do tempo e do ambiente prisional: “Quero comprar uma casa. Eu já tive, mas aí
ela foi vendida. O que eu vou fazer é comprar minha casa e continuar trabalhando.
Cuidar da minha mulher e dos meus filhos. A vida continua” (Homem, Interior).
A casa significa, na idealização dos presos, o cenário das várias possibilidades
que vislumbram em relação ao futuro: o lugar do acolhimento e da reconstituição
dos afetos, em contraposição ao ambiente hostil e regulado; o lugar de movimento
e o espaço, em contraposição ao cubículo que as celas lhes impõem; o meio de

218
ligação com a comunidade e o mundo exterior, em contraposição ao fechamento
em que vivem. Tais sentimentos e expectativas se manifestam em expressões
como: “sair e estar com a família” e “voltar para a família e cuidar dos filhos”,
ditas por boa parte dos presos, com pequenas variantes. Pinto e Hirdes (2006)
também constataram esse encaminhamento emocional dos presos de valorização
de suas famílias e de suas casas, como um ambiente de proteção e afeto. Esses
autores reforçam que a família se estabelece como o elo mais forte de conexão
do apenado com a vida extramuros e o apoio mais confiável para que sua
desinstitucionalização ocorra com menos problemas.
No entanto, em vários aspectos, as expectativas dos presos em relação à
família são muito idealizadas porque existem inúmeras alterações na dinâmica
familiar quando uma pessoa é presa. Há uma modificação nos papéis sociais,
uns parentes assumem mais responsabilidades, outros apenas se desiludem e
se afastam, outros literalmente se eximem dos novos problemas que a situação
do aprisionamento de um de seus membros gera. Todas essas questões exigem
rearranjos de toda a família, pois geram novos encargos financeiros, demandam
apoio ao detento e cuidados de crianças cujos pais estão reclusos. Não menos
importante, requer uma reinterpretação emocional da nova situação vivida. Por
isso, apesar de haver uma esperança quase absoluta dos presos nesses laços
primários, frequentemente os parentes não estão preparados para responder a
todas as expectativas neles depositadas, particularmente quanto à sua reintegração
na comunidade e na sociedade mais ampla.
É necessário que o sistema penitenciário facilite e reforce os vínculos familiares
dos internos, ajudando-os a evitar o abandono que costumam sofrer e auxiliando-
os a promover, da melhor forma possível, o processo de desinstitucionalização.
Os parentes dos detentos também sofrem com o processo de reclusão e igualmente
carregam o estigma por ter um de seus membros cumprindo pena de privação de
liberdade. Para Guimarães e colaboradores (2006), a família também se encontra
submetida às situações explícitas ou implícitas de controle. Os autores afirmam
que o estigma que os parentes também sofrem começa no choque que lhes causa
a estrutura física pauperizada e malcuidada da instituição prisional, manifesta-
se no silêncio que guardam sobre o local no qual se encontram seus familiares e
termina nos discursos dos gestores prisionais que os responsabilizam pela vida
criminosa de seu membro. Em especial, as mulheres dos apenados, além de todos
esses problemas de ordem cultural e moral, são sobrecarregadas pelas múltiplas
tarefas que desempenham, entre elas, a manutenção econômica da família e o
acompanhamento da execução penal do companheiro.

219
As Expectativas em Relação à História
Pessoal e Outros Aspectos Subjetivos
Os presos e presas sonham com o dia da libertação e, nesse sentido, todas
as suas expectativas pessoais, de saúde e de reinserção são mais positivas que
negativas. Essa visão, mais idealizada do que real, pode ser constatada nas
Tabelas 38, 39 e 40, que resumem as respostas dadas às perguntas do questionário.
Na Tabela 38 observa-se que a visão dos presos e das presas sobre sua vida
pessoal em liberdade é positiva. Porém, mais homens (79,9%) que mulheres
(76,4%) apresentam uma perspectiva otimista. Os presos da Baixada Fluminense
são os que têm expectativa pior em relação à sua vida pessoal, quando comparados
aos da Capital e aos do Interior (p<0,01).

Tabela 38 – Expectativas de presos do estado do Rio de Janeiro quanto à vida


pessoal após sair do presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=20.405) (N=13.193) (N=2.866) (N=4.445) (N=1.260) (N=1.078) (N=184)
Boa 79,9 80,3 78,5 79,8 76,4 76,1 78,4
Regular 17,2 17,2 16,4 17,5 20,7 20,9 19,6
Ruim 2,9 2,5 5,1 2,7 2,9 3,0 2,0
Total 100 100 100 100 100 100 100

Em relação às suas condições de saúde após a saída do presídio (Tabela 39),


as projeções são boas e, nesse particular também, os homens (67,0) são mais
otimistas que as mulheres (62,3%; p<0,01). Os detentos do Interior têm pior
expectativa, quando comparados com os da Capital e os da Baixada (p<0,01).

Tabela 39 – Expectativas de presos do estado do Rio de Janeiro quanto à condição


de saúde após sair do presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=19148) (N=12388) (N=2698) (N=4061) (N=1214) (N=1030) (N=183)
Boa 67,0 67,3 67,6 65,7 62,3 62,0 63,7
Regular 26,2 26,5 25,6 25,8 28,4 28,4 28,4
Ruim 6,8 6,2 6,8 8,5 9,3 9,6 7,8
Total 100 100 100 100 100 100 99,9

Em relação ao padrão de vida que projetam para depois da prisão, boa parte
dos homens (64,5%), mais que das mulheres (59,4%, p<0,01), também tem uma

220
perspectiva positiva, como se pode observar na Tabela 40. Os detentos do Interior
são mais pessimistas nesse quesito que os da Capital e os da Baixada (p<0,01).
Situação inversa observa-se entre as mulheres do Interior, que demonstram mais
esperanças quanto ao futuro que as da Capital (p=0,005).

Tabela 40 – Expectativas de presos do estado do Rio de Janeiro quanto ao padrão


de vida após sair do presídio, segundo sexo e área
Homens Mulheres
Total Capital Baixada Interior Total Capital Interior
(N=19.898) (N=12.912) (N=2.653) (N=4.333) (N=1.232) (N=1.042) (N=190)
Boa 64,5 63,7 66,4 65,5 59,4 57,5 69,8
Regular 31,0 32,0 28,1 29,8 36,4 38,1 27,4
Ruim 4,5 4,2 5,5 4,7 4,2 4,4 2,8
Total 100 99,9 100 100 100 100 100

Uma parte substancial dos homens e mulheres está detida por envolvimento
com o tráfico de drogas, pela disputa por territórios de vendas de substâncias
ilegais e pela violência armada. Nas entrevistas, alguns detentos e detentas presos
por esse tipo de crime e que cumprem pena na Capital mencionaram que, para
recomeçar a vida, terão que mudar de bairro ou mesmo de local de moradia se
não quiserem voltar para o crime: “Meu marido já está me esperando para a
gente poder abrir um novo comércio, eu não pretendo mais voltar para a minha
cidade por causa do tráfico” (Mulher, Capital). “Começar do zero para viver com
a minha família em paz. Longe dali, do local que me trouxe problema” (Homem,
Capital). Ir para um lugar onde não são conhecidos, na visão de vários presos, os
ajudará a tomar um novo rumo.
Nas instituições femininas localizadas na Capital foram muito marcantes as
falas acerca da participação das mulheres no tráfico de drogas e dos planos que
fazem para a vida após sair do presídio. É importante ressaltar o crescimento do
encarceramento feminino no Brasil por esse tipo de envolvimento. Em estudo
sobre a visibilidade da mulher brasileira nesse particular, Souza (2009) esclarece
que, mesmo com uma taxa de encarceramento muito inferior a dos homens,
chama atenção a velocidade do crescimento da população carcerária feminina
nos últimos anos, superior à dos homens. Sobre o que as levou a prisão e sobre
as expectativas, eis o depoimento de uma das presas:
O que me trouxe para cadeia, por exemplo, as drogas, o tráfico, isso aí para mim
é fundamental, nunca mais! Se possível, eu quero ser um grande instrumento
para falar com as outras pessoas para não se envolverem mais com isso! É o mal,
noventa por cento das mulheres presas estão envolvidas por questões relacionadas

221
à droga. Eu, o objetivo da minha vida, uma meta, o meu foco é falar sobre a droga,
levar para frente isso, que as pessoas digam não à droga, não se envolvam com
droga. A droga é um mal, é um mal terrível, ela só nos causa dor, não só a nós,
mas também para quem está à nossa volta. Meu objetivo de vida é esse: eu quero
ser uma arma contra a droga. (Mulher, Capital)

O planejamento da vida em liberdade deve levar em conta a vivência do


encarceramento como forma de enfrentar e prevenir o abuso de substâncias e
de sair das gangues armadas pelo tráfico. Entre os homens, as manifestações de
desejo de abandonar esse universo e reiniciar a vida por meio do trabalho legal
e formal também foram inúmeras. Com pequenas variações, muitos deles assim
se expressaram: “Quero viver a vida. Tocar os meus negócios, pois eu tenho os
meus negócios. Eu já tomei a minha atitude: eu não vou continuar no tráfico”
(Homem, Capital).
Embora, para os detentos e detentas envolvidos com o tráfico de drogas, o
afastamento dessa rede se tornou uma meta na retomada da vida em sociedade,
a reinserção social dessas pessoas é muito mais difícil. Silva, Valadares e Souza
(2013) em seus estudos ressaltaram as relações complexas que existem no
envolvimento dos indivíduos com o tráfico de drogas, de armas e com a violência,
descortinando uma espécie de modelo ecológico que envolve a combinação de
vulnerabilidades, precariedades e rupturas de vínculos nas dimensões individual,
familiar, comunitária e social.
Acerca dessa questão, Martins (2013) assegura que não há resposta simples
nem direta. A autora, assim como Wieviorka (1997), afirma que, ao se colocar as
drogas na ilegalidade e condená-las, atendem-se os interesses daqueles que não
se encontram no mercado varejista, mas que dominam a esfera da produção e da
circulação dessas substâncias – os capitalistas das drogas e os que enriquecem
com esse negócio lucrativo. Certamente, os varejistas também se beneficiam
desse comércio ilegal, no entanto sua participação é residual no usufruto dos
enormes lucros. Eles são um segmento menos aquinhoado.
Há uma expressão usada por um preso prestes a terminar o cumprimento
da pena que é simbólica da situação que todos vivenciam: “a liberdade me
apavora”. Ele confidenciou tal sentimento, referindo-se aos problemas que, tem
consciência, terá que enfrentar como ex-detento, pois o processo de retorno à
vida fora da cadeia não é simples. Assim, embora uma boa parte tenha uma visão
idealizada do retorno, vários outros reclusos têm muito medo das dificuldades
que os esperam: com a reacomodação na própria família; com o antigo local

222
de moradia que frequentemente tem que ser trocado para o ex-preso evitar ser
visto e olhado com desconfiança; com a ausência e falta de apoio de antigos
amigos que não querem ser associados com alguém que esteve na cadeia; para
conseguir qualquer emprego, particularmente no mercado formal, quando
é preciso mencionar a condição de ex-detento; com os preconceitos sociais,
particularmente quando o ex-preso é bastante conhecido ou seu crime repercutiu
muito na mídia e chocou a sociedade.
Apenas como um exemplo do que espera um ex-detento, é relevante o
depoimento de uma mulher que cumpriu 12 anos de pena por homicídio, e foi
entrevistada pela jornalista Elizabeth Misciasci (2014). Nesse relato, a maioria
dos elementos citados está presente:
Bem, na hora em que meu nome foi gritado na galeria, já fiquei com medo,
não sabia por que me requisitavam naquele horário, porque as trancas que se
fecham às 18 horas já tinham batido havia muito tempo. (...) Na verdade, era
para arrumar minhas coisas, porque meu alvará de soltura havia sido expedido.
(...) Fiquei em estado de choque e os meus pertences, que não passavam de
cartas e uma bolsa velha, foi o que peguei com a maior rapidez. (...) Não dá
tempo de se despedir das amigas que fazemos, mas no meu caso, por ser antiga
na unidade, as meninas gritavam felizes e puderam acenar pela boca da cela.
(...) Na prisão, eles permitem um único telefonema para que alguém que a gente
indique possa nos buscar. Como não pode ser número de telefone celular, dei o
telefone da minha cunhada. Ela nunca me visitou, mas eu sabia que meu irmão
receberia o recado. Saí com o uniforme da cadeia, um passe de ônibus que um
agente penitenciário me deu e com meus estimativos pertences. Já no portão da
cadeia, fiquei perdida entre o lado de dentro e a rua. Tinha perdido a noção das
horas, porque na cadeia o tempo não passa. E imaginava que seriam muitas
as que eu teria que esperar. Olhava com vontade de andar, mas não conseguia
sair do lugar, o pânico das luzes que ofuscavam minha vista, tão acostumada
com o amarelão do cárcere, deixava a sensação estranha de que eu não estava
vivendo nada daquilo. (...) Quando meu irmão chegou com a minha cunhada, me
abraçou e choramos. Mas não é assim com todas. Muitas não conseguem avisar
ninguém e saem vagando pelas ruas, perdidas. Meu irmão foi sensacional! (...)
Mas, assim mesmo, tive receio do que me esperava, achava que estava escrito na
minha testa “ex-presidiária”. Particularmente, eu acreditava que teria que dar
explicações a cada um que cruzasse meu caminho, afinal, 12 anos são 12 anos.
(...) Tanto tempo presa, perdi minhas referências como ser humano, tinha pressa
em resgatar o tempo perdido, precisava regularizar meus documentos, fazer um
curso, arrumar trabalho, recomeçar. Como se fosse fácil! (...) Não fui atrás das
velhas amizades, porque essas nunca me escreveram e no fundo a gente sabe que a
discriminação acontece e não podemos obrigar as pessoas a nos entenderem. (...)

223
Das pessoas novas que me cercam e entraram na minha vida, nunca revelei meu
passado, não tenho coragem. Pode ser que daqui a uns anos eu resolva mostrar a
minha cara e a minha história de vida, sem receio, por enquanto não posso. Nem
todos compreenderiam. (...) Recomeçar é difícil sim, quero frisar, eu sou uma
das pouquíssimas exceções das que saem dos presídios depois de cumprirem suas
penas e conseguem uma oportunidade de resgate social. Ainda não me encontrei
completamente, faço terapia e espero conquistar muitas coisas sonhadas desde
a infância. Com minha experiência gostaria de deixar uma mensagem, para as
mulheres, principalmente, as meninas, que estão envolvidas com gente errada:
nada vale mais do que nossa liberdade de ir e vir.

Portanto, apesar dos exemplos importantes de presos que se ressocializaram,


que retomaram o trabalho e os estudos, que reconstruíram famílias e que hoje
estão totalmente integrados à sociedade, a situação dos detentos que saem das
prisões costuma ser de muita fragilidade e sofrimento, deixando os sonhos dos
que aqui foram entrevistados bem longe da realidade. Como lembrou a mulher
cujo depoimento foi citado: “saibam que o que se perde nos anos de cadeia não
se recupera jamais”. As páginas da internet estão cheias de histórias de pessoas
arrependidas dos crimes cometidos e que vivem em sofrimento, pois continuam
a ser excluídas da sociedade.
Muitos homens e mulheres passaram a buscar na religião a paz e a conversão,
tornando-se pastores ou fervorosos devotos. Outros, por iniciativa própria ou
apoiados por ONGs ou empresários, iniciaram movimentos de reintegração,
como é o caso de Ronaldo Monteiro. Ele é um ex-detento de uma penitenciária
de São Gonçalo, região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, que, ainda
no cárcere, em 2002, criou o Centro de Integração Social e Cultural (Cisc) Uma
Chance. Esse homem passou a atuar para dar oportunidades de aprendizagem
e de trabalho para colegas que precisavam se reinserir socialmente. Em 2006,
Monteiro deu um passo mais largo e fundou a Incubadora de Empreendimentos
para Egressos (IEE), que fomenta ideias, apresentando dinâmicas que levam ao
desenvolvimento de habilidades criativas e de administração, visando a quebrar o
ciclo da reincidência criminal. O projeto, que continua atuante em São Gonçalo,
recebe apoio da Petrobras desde 2006 e tem parcerias com a Ashoka, a McKinsey
& Company e diversas universidades.1
A partir da década de 1990, diversas ONGs foram fundadas com o
propósito de colaborar na reintegração dos presos. A criação de meios pelo

1
Disponível em: <www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=Incubadora+de+Empreendimentos+para+
Egressos>. Acesso: maio 2015.

224
Estado para reinserir ex-detentos no mercado é prevista na Lei de Execução
Penal, mas normas que determinam ou incentivam a contratação de ex-presos
são recentes. Desde 2009 vários governos estaduais e prefeituras, seguindo
orientações do Conselho Nacional de Justiça, aprovaram leis que obrigam ou
estimulam empresas contratadas pelo poder público a ter uma cota de 2% a 10%
de ex-detentos entre seus funcionários.
Em funcionamento há pouco tempo, o Portal de Oportunidades do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) passou também a anunciar vagas de
cursos e empregos para presos e egressos do sistema carcerário. O sistema,
disponível no site do CNJ (<www.cnj.jus.br>), oferece a empresas, órgãos
públicos e outras entidades, um espaço para ofertar vagas em suas atividades,
no intuito de contribuir para a reintegração social de ex-detentos, o que já vem
ocorrendo em vários estados brasileiros, como em São Paulo, Santa Catarina,
Goiás, Distrito Federal, Ceará, entre outros. Segundo o responsável por esse
portal, serão instituídos grupos gestores do programa nos tribunais de Justiça
de todas as unidades da federação, que terão a atribuição de fazer a seleção dos
candidatos e encaminhá-los ao trabalho.
No entanto, apesar do todos os esforços, a sociedade continua a repudiar os
ex-presos, tem medo deles e reage com discriminação. Uma pesquisa da Fundação
Perseu Abramo (2010), revelou que, para 21% dos brasileiros, os ex-presidiários
são pessoas que menos gostariam de encontrar ou ver; eles despertam repulsa ou
ódio em 5%, antipatia em 16% e indiferença em 56% dos cidadãos. Por isso,
“a liberdade virou tormenta”, realçou um jovem que deixou a prisão e foi despedido
do trabalho pela sua condição de ex-preso. E os exemplos se multiplicam.
Sem oportunidades no mercado de trabalho, o ex-presidiário fica sem opções
de subsistência e vê no crime uma das poucas alternativas para continuar a
sobreviver. Como mencionado por vários presos, seu medo é que o preconceito
de que são vítimas acabe os empurrando outra vez para a criminalidade.

225
Conclusões

Um Clamor por Mudanças


As questões problemáticas dos cárceres do estado do Rio de Janeiro e do
país não começam dentro, mas fora deles. O dentro e o fora, neste caso, estão
intrinsecamente ligados e refletem as contradições sociais, as desigualdades
e as formas de vida que tornam uma pessoa estrangeira à outra, como se ela
não fizesse parte da mesma humanidade. Como lembra Rosanvallon (2014), a
desigualdade – que no caso das prisões se exacerba – não é escandalosa apenas
pelo princípio da diferença, mas por se tornar um princípio de corrosão da
sociedade, um elemento de destruição da união social.
Portanto, a inclusão social é a ideia e a ação forte a ser realizada por quem
acredita na democracia não apenas como um regime, mas como a construção
em conjunto de uma sociedade que produz um mundo comum. Grande parte
dos detentos sempre se sentiu sem cidadania, e a cadeia só veio aprofundar essa
sensação de desfiliados (Castells, 1998) e abandonados à própria sorte.
A maioria dos presos tem a cor da pele preta ou parda, são pessoas pobres
e com baixa escolaridade, grande parte vivia de empregos informais antes de
serem detidos, e, na quase totalidade os reclusos e reclusas no sistema prisional
do estado correspondem ao estrato comumente denominado “classes populares”.
Os detentos da Capital, em média, têm mais idade do que os do Interior e da
Baixada Fluminense. A idade das mulheres, em geral, é mais elevada que a dos
homens presos. Há mais homens casados que mulheres e há mais solteiros que
casados na coletividade dos detidos de ambos os sexos: boa parte deles vivia
sozinha antes do aprisionamento. Mesmo sendo em maioria solteiros, separados
ou viúvos, os reclusos têm em média dois a três filhos, sendo que entre as

227
mulheres, essa média é mais elevada. Quase todos os reclusos têm algum tipo de
religião, e as mulheres são mais praticantes que os homens.
Boa parte dos presos cumpre pena por envolvimento com drogas, e os que as
consomem dentro dos presídios, em geral, já o faziam anteriormente à reclusão.
Os entorpecentes mais utilizados na cadeia são álcool, maconha, cocaína e crack,
sendo este último o mais consumido pelos reclusos do Interior. É também muito
relevante o consumo de substâncias tóxicas e de medicamentos psicoativos pelas
mulheres presas.
Os homens estão presos, em média, há mais tempo que as mulheres.
Os homens da Baixada são os que cumprem penas menores e têm menos
tempo de reclusão. Os serviços idealmente previstos pelo sistema são muito
pouco utilizados, tanto pelos homens como pelas mulheres, e a pior situação
é a dos detentos da Baixada. Aliás, estes últimos estão em piores condições de
encarceramento em todos os aspectos. Quando entrevistados, os reclusos das
três áreas ressaltaram a revolta que sentem pelo estado de ócio e desocupação em
que vivem, sendo suas principais atividades: conversar, dormir, ver televisão e
ler. Uma parte muito pequena consegue vencer o estado de inação, aproveitando
as oportunidades que o presídio oferece, estudando, realizando alguns tipos de
trabalho, meditando e se preparando para a saída da cadeia. Estes são os mais
resilientes e capazes de vislumbrar oportunidades mesmo nas piores situações.
Os vínculos familiares são uma espécie de seguro e bálsamo para uma
pessoa presa e atuam como um ambiente de projeção positiva em relação a sua
situação futura. Boa parte dos detentos e detentas mantêm os laços de afeto
por meio de correspondências e de visitas. Porém, um número considerável
deles – particularmente das mulheres e dos presos da Baixada – parece que
foram esquecidos pelas famílias, seja pelas responsabilidades que assumiram
ao cuidar dos filhos dos presos, seja pelas distâncias que precisam percorrer
para chegar às unidades de detenção, seja pelo medo e vergonha que muitos
sentem das “revistas” invasivas, exigidas para adentrarem nos presídios. Nesse
aspecto particular, existe uma clara distinção de gênero: no caso das mulheres,
grande parte dos companheiros as abandona e constitui outros lares; no caso dos
homens, suas esposas ou companheiras costumam acompanhá-los assiduamente,
tomam providências para que tenham algum conforto na prisão e até se arriscam
a entrar nas cadeias com objetos proibidos pedidos ou exigidos por eles.

228
Existe uma solidariedade problemática entre os colegas de prisão. Isso
significa que, por um lado, o ambiente é de ajuda pessoal, apoio emocional e de
compartilhamento dos escassos bens materiais; por outro, qualquer episódio
de descontentamento pode transformar a precária paz em expressões de irritação,
ódio e agressão, sentimentos agravados pela proximidade dos corpos, pela quase
inexistente intimidade, pelo medo dos que se impõem e comandam as celas, pela
falta de água, de higiene e, sobretudo, pela superlotação.
A insatisfação dos presos e das presas é com a forma como são tratados
pelos agentes que os vigiam cotidianamente, quem consideram insensíveis,
grosseiros e inacessíveis e surdos a suas demandas; com os vigilantes que os
conduzem para fora da prisão para os fóruns e para as unidades de saúde, num
regime autoritário, desumano e cruel; com o atendimento recebido ou negado
pelos profissionais médicos, dentistas e enfermeiros e alguns assistentes sociais e
psicólogos. Nos depoimentos sempre foram citadas algumas honrosas exceções.
No entanto, as queixas são contundentes. As mulheres e os homens presos na
Baixada Fluminense são os mais críticos e sob todos os aspectos, são os que
recebem menos atenção do sistema.
A violência, que fazia parte dos relacionamentos criminosos antes de serem
detidos, acompanha homens e mulheres dentro da prisão: mais da metade deles
se considera em risco de lesões e morte. As mulheres e os homens presos na
Baixada são os que se sentem mais vulneráveis e também os que mais se queixam
de agressões físicas, verbais e emocionais.
Há elevados percentuais de pessoas em sofrimento mental dentro dos
presídios. As escalas de avaliação aplicadas neste estudo revelaram que os níveis
de depressão, inclusive os mais graves, assim como os de estresse, são muito mais
elevados que na população brasileira como um todo. Como nos outros casos,
os grupos mais vulneráveis são as mulheres de todas as unidades e os presos da
Baixada Fluminense. No entanto, não se observam cuidados preventivos nem
serviços de atenção nas proporções e com a especialização que a situação exige.
Embora tenha havido uma redução do consumo de substâncias –
particularmente entre os homens – ainda há muitos relatos do uso de variadas
drogas por pessoas de ambos os sexos. Entre as mulheres, é muito relevante o uso
de substâncias tóxicas com predomínio dos medicamentos legais e psicoativos.
Os homens presos na Baixada se destacam por apresentar um número médio de
dias de uso maior de substâncias tóxicas quando comparados aos reclusos das
outras áreas.

229
São inúmeros os problemas de qualidade de vida (mesmo se levando em
conta critérios mínimos) e de saúde mencionados pelos detentos e detentas, o
que reflete um total desacordo com a Lei de Execução Penal e a Política Nacional
de Atenção à Saúde da População Prisional (Pnaisp). As mulheres assinalaram
principalmente: a superlotação, que torna as celas “depósito de gente”; os
banheiros sujos e fétidos; a falta de lençóis e cobertores, mesmo em tempo de
frio; a péssima qualidade da alimentação, em que faltam frutas, legumes e leite;
as dietas especiais não oferecidas às pessoas doentes; as agressões físicas, verbais
e psicológicas; o constante medo de se expressarem; o ócio em que vivem; o
abandono de que são vítimas; e a demora de socorro quando precisam.
Sobre questões médicas, as mulheres referiram problemas ginecológicos,
cardiológicos – particularmente hipertensão –, respiratórios, dermatológicos,
psiquiátricos, neurológicos, ortopédicos, gastroenterológicos, de dependência
química, diabetes, de dentes, e houve pelo menos duas citações de colegas com
tuberculose e uma com Aids. Foram unânimes as queixas contra a falta de atenção
por parte dos serviços que compõem o sistema e contra os problemas que passam
para serem atendidas quando precisam de hospital extramuros, demonstrando
sentimentos de impotência e revolta.
Quanto à qualidade de vida, os homens foram até mais veementes que as
mulheres em seu detalhamento das situações que vivenciam: alimentação, pela
qual o estado paga caro, mas é ruim, sem frutas, verduras e legumes, às vezes,
azeda, estragada, com bichos mortos, moscas, baratas e cabelo. A última refeição
é servida às três horas da tarde, o que os deixa com fome (a maioria é jovem).
Queixam-se também da péssima condição das celas superlotadas, em que muitos
dormem no chão; roupa de cama e colchões imundos onde convivem com
ácaros, ratos, baratas e percevejos; colchões e camas inadequados que causam
problemas de coluna; banheiros constantemente entupidos; falta de privacidade
para fazerem suas necessidades; falta de água; sujeira da água, quando é servida;
e do esgoto que corre a céu aberto em algumas galerias, levando os presos ao
contato com fezes e urina.
Os homens se queixaram muito também da violência dos funcionários.
Alguns disseram que são tratados como bichos e sofrem constrangimentos físicos,
mentais e ofensas pessoais por parte dos agentes. Foi marcante a reclamação
sobre o serviço de escolta para as idas aos fóruns e hospitais extramuros.
Os detentos consideram esse serviço um massacre, na medida em que passam
fome trancafiados o dia todo, algumas pessoas se sentem mal e chegam a

230
desmaiar. Disseram ainda que adoecem pelo pouco sol que tomam e que lhes
falta um serviço social atuante, particularmente ruim em algumas unidades.
Reclamaram muito do sedentarismo, da inatividade, da falta de trabalho, da falta
de comunicação com a direção das prisões e da falta de cursos profissionalizantes.
Em algumas penitenciárias, os presos mencionaram a falta de biblioteca, bem
como se queixaram das condições inadequadas para receber visitas íntimas ou
da sua proibição.
Quanto às questões médicas, muitos homens falaram particularmente
de agravos dermatológicos; cardiovasculares, especialmente da hipertensão; de
diabetes, de problemas respiratórios associados a dores de cabeça e sinusite;
de sintomas psicossomáticos; gastroenterológicos; de dores musculares e de
problemas de coluna pela baixa qualidade das camas ou pelas lesões anteriores
ao aprisionamento ocasionadas por tiros ou agressões. Muitos referiram que
sofrem com dependência química, insônia, ansiedade, vários têm Aids ou são
soropositivos, têm ou tiveram tuberculose, muitos sentem fraqueza, cansaço
e têm hérnia inguinal, problemas urinários, de próstata e múltiplos tipos de
doenças contagiosas.
Para se referirem ao tratamento médico, homens e mulheres usam expressões
como: “é horrível”; “estamos largados”; “é uma piada, é muito triste, é uma merda”
“a UPA e o HC em Bangu são uma carnificina”, “tratam presos como animais”;
“perdemos companheiros por falta de assistência médica de emergência”; “para
ir ao médico só se estivermos morrendo, inclusive no caso dos idosos”. A falta
de profissionais médicos, psicólogos, psiquiatras e dentistas é uma queixa geral
entre os detentos. Além de todas as reclamações sobre a ausência e a qualidade
dos atendimentos, os presos acrescentam que não há médicos depois das 16h, aos
sábados e domingos, nem “atendimento 24 horas como previsto na lei”. Faltam
também ambulâncias para os socorros e emergências.
Diante de condições tão duras, cruéis e revoltantes, as expectativas dos
detentos se voltam para os sonhos de liberdade. O planejamento da vida após
o cumprimento da pena faz parte do processo de “resistência” ao cotidiano do
encarceramento. Ao vislumbrar a vida fora da cadeia e ao alimentar expectativas
quanto ao futuro, muitos detentos, especialmente os homens, costumam adotar
um comportamento mais colaborativo e buscam a inserção em atividades das
unidades prisionais que ajudem a passar o tempo ou mesmo a reduzir a pena.

231
De forma geral, os reclusos se mostram otimistas quanto à vida extramuros.
A família é seu maior estímulo para uma vida distante do ambiente criminoso
em que viviam. No entanto, com razão, preveem dificuldades de reinserção
no mundo do trabalho formal por causa da sua baixa educação formal e quase
nenhuma profissionalização – problemas que, em geral, o sistema prisional
do estado do Rio de Janeiro está longe de resolver. Não tendo sido sanadas as
lacunas de escolaridade e de profissionalização durante o tempo de reclusão, a
reinserção social por meio do trabalho certamente será feita de forma precária
no mercado informal. Boa parte dos que foram detidos por envolvimento com o
tráfico de drogas e armas considera que a saída desse mercado ilícito, inclusive
dos locais onde atuavam, será primordial para a reconstrução de sua vida, numa
nova perspectiva.
Não foi objetivo desta pesquisa analisar o lado da gestão do sistema, dos
funcionários e das autoridades responsáveis pelo cumprimento adequado da Lei
de Execução Penal e da Pnaisp. Existe um estudo em andamento desenvolvido
pelo mesmo grupo responsável por esta pesquisa que poderá trazer elementos
importantes no pareamento das questões suscitadas aqui acerca dos presos.
Ainda que mais pesquisas precisem ser desenvolvidas, já se pode afirmar que
tanto os relatórios de inspeção ambiental como as observações realizadas em
campo e as falas reiteradas dos presos corroboram o quanto a prisão é um lugar
inadequado para a ressocialização.
Inicialmente quatro aspectos poderiam ser imediatamente melhorados
para que o tempo do encarceramento pelo menos fizesse sentido e não fosse
uma mera etapa de castigo físico, mental e moral no estado do Rio de Janeiro:
o investimento na melhoria das celas e a adequação do número de presos ao
tamanho delas; a implementação de uma nova lógica nos meios de transporte
para os atendimentos dos presos extramuros; o fortalecimento e o incremento
de atividades de ensino formal e profissional para que abrangessem um número
maior de detentos; e acesso ao trabalho para todos os reclusos de forma que
os ajudasse na remissão da pena e tornasse mais fácil sua reintegração social e
promovesse a diminuição da reincidência criminal.
No caso da saúde – setor cujos problemas, em quase todos os aspectos,
têm uma magnitude muito maior que na população em geral –, o investimento
na gestão e nas relações entre detentos e profissionais é fundamental. Embora
algumas atividades sejam conduzidas de forma adequada, falta efetivar programas
de promoção da qualidade de vida e de prevenção de doenças, a maioria passível

232
de realização. A UPA do Complexo Penitenciário de Gericinó, por exemplo, exige
atenção especial, na medida em que ela está subutilizada, enquanto as queixas
dos presos contra a falta de assistência se multiplicam.
Os problemas aqui descritos, claramente, pedem consideração e atuação
mais presente da direção dos presídios, da Defensoria, do Ministério Público e
do Sistema Judiciário. Pela pouca efetividade ou mesmo inutilidade do sistema
penitenciário atual é importante encontrar formas alternativas de punição e
atuar na melhoria das condições ambientais e vivenciais dos que estão detidos.
É fundamental também ouvir e dar voz às pessoas encarceradas: 40% delas estão
sem a pena atribuída, muitos consideram que já deveriam estar em progressão para
o regime semiaberto e há diversos casos em que os presos se dizem injustiçados e
não têm a quem recorrer a não ser às instâncias públicas. Infelizmente, por serem
pobres, não podem constituir advogados e vocalizar de forma adequada seus
interesses. É lastimável que a acessibilidade tanto à Defensoria Pública como a
todas as outras instâncias seja tão complicada, difícil e lenta, levando os detentos
a se sentirem abandonados pela Justiça.
Alguns entrevistados e vários estudiosos referidos na pesquisa não acreditam
no instituto da prisão. Entre frases dos presos, duas são eloquentes “a partir
daqui de dentro, nada pode melhorar nossa vida lá fora”; “nessas condições é
impossível socializar”. Entre os estudiosos, o pensamento de Coelho (1987)
é contundente. Esse autor considera que a prisão sobrevive exatamente porque é
ineficaz. Torna-se indispensável porque fracassa em sua missão específica, pois
quanto menos cumpre seu papel ressocializador, mais recursos ela consome na
busca de melhorar algo que já nasceu condenado. Na sua visão, a prisão foi um
equívoco histórico com resultados sinistros que ninguém ainda teve coragem
de assumir. No mesmo sentido, Quintino (2006: 6) afirma que “descobrimos
até com certo desapontamento que não há como melhorar a prisão, porque ela
traz desde sua raiz o peso de uma enorme contradição: tentar punir e tratar ao
mesmo tempo”. O próprio Foucault (2009) lastima que apesar da luta pelo fim
da pena de prisão ter-se iniciado junto com seu próprio surgimento, o Estado
continue a investir cada vez mais para tornar os cárceres um lugar capaz de
vigiar, punir e corrigir os que infringem as normas e as leis, apostando nessa
forma de disciplinamento e de coerção social. Infelizmente, os resultados desta
pesquisa não aliviam esse sentimento de ineficácia e de tempo perdido que marca
a vida de tantos homens e mulheres presos. Como se pode esperar ressocialização
se os cárceres são apenas punição?

233
Considerando que a população encarcerada é constituída predominantemente
de jovens negros e pardos das periferias dos grandes centros urbanos e que esses
jovens sairão um dia dessas instituições, é imperativo investir em políticas que
não somente sejam capazes de ressocializá-los e reintegrá-los socialmente, mas
que sejam capazes de principalmente garantir seus direitos fundamentais.
Entretanto, na forma como está constituído, o sistema prisional,
frequentemente, contribui para o aprofundamento das múltiplas exclusões
vivenciadas pelos reclusos antes do encarceramento. As deficiências identificadas
pelos presos em relação ao pouco acesso à escolarização e à profissionalização nas
unidades prisionais suscitam modificações não somente para ampliar esse acesso,
mas também para estabelecer um sistema educacional que valorize e possibilite
o desenvolvimento de potencialidades, habilidades e competências e que ajude
os presos a enfrentar as dificuldades das relações sociais que encontrarão na
vida extramuros.
A prisão é uma instituição da sociedade e para a sociedade: suas mazelas
afetam direta ou indiretamente todos os cidadãos. Alguns estudiosos, como
Norbert Elias (1994), afirmam que a situação das penitenciárias em qualquer
lugar do mundo é um indicador do grau civilizatório de seu povo. Por exemplo,
a reincidência no crime por parte dos ex-detentos é uma prova de que o sistema
carcerário não cumpre sua função de ressocialização, ao contrário, ela permanece
como uma imagem-objetivo desacreditada. Entretanto, a questão é muito mais
profunda: a integração dos ex-presos numa sociedade não é apenas uma ação
setorial do sistema carcerário, mas é parte da construção de um processo
democrático em que os direitos econômicos, sociais, culturais e educacionais
dos jovens pobres, negros e pardos são, na prática, os mesmos dos filhos de
pais abastados e poderosos. Nesse sentido, o Brasil e, no caso específico, o Rio
de Janeiro têm um longo e pedregoso caminho a percorrer. Quem acredita na
ação política e institucional do ser humano na história dá os primeiros passos
e conta com todos que, juntos, seguem a mesma estrada do humanismo contra
a barbárie.

234
Referências

ACSELRAD, G. A construção social do ‘problema’ das drogas. Revista Democracia Viva, 15, 2003.
Disponível em: <www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/cidadania/0022.html>. Acesso em: 29
set. 2014.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Resolução - RDC n. 216, de 15


set. 2004. Dispõe sobre o Regulamento Técnico de Boas práticas para serviços de alimentação. Diário
Oficial da União, Brasília, 16 set. 2004. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/con
nect/4a3b680040bf8cdd8e5dbf1b0133649b/RESOLU%C3%87%C3%83O-DC+N+216+DE+15+
DE+SETEMBRO+DE+2004.pdf?MOD=AJPERES>. Acesso em: 18 jun. 2015.

ALLEN, R. S. et al. Religiousness/spirituality and mental health among older male inmates.
Gerontologist, 48(5): 692-697, 2008.

ALMEIDA, K. M. Metáforas de uma Pena Capital: um estudo sobre a experiência prisional e suas
relações com a saúde mental das presidiárias, 1998. Dissertação de Mestrado em Saúde Coletiva,
Salvador: Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia.

ALVES, G. B.; NUNES, H. N. & RAMOS, L. D. Prevalência das dermatoses no ambulatório de


dermatologia da UNISUL. Arquivos Catarinenses de Medicina, 36(1): 64-68, 2007.

ALVES, P. C. & MINAYO, M. C. S. Saúde e Doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Editora
Fiocruz, 1994.

APPLEGATE, B. K. et al. Forgiveness and fundamentalism: reconsidering the relationship between


correctional attitudes and religion. Criminology, 38(3): 719-751, 2000.

ARAÚJO JR., R. M. Privatização das Prisões. São Paulo: E.R. dos Tribunais, 1995.

ARAÚJO, F. A. F. M.; NAKANO, T. C. & GOUVEIA, M. L. A. Prevalência de depressão e ansiedade


em detentos. Avaliação Psicológica, 8(3): 381-390, 2009.

ARTHUR, M. W. et al. Measuring risk and protective factors for substance use, delinquency, and
other adolescent problem behaviors. Evaluation Review, 26(6): 575-601, 2002.

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (ALERJ). Relatório temático:


análise da progressão de regime de cumprimento de pena no sistema penitenciário do Rio de Janeiro.
2013. Disponível em: <www.apt.ch/content/files/npm/americas/Relatorio%20Porta%20de%20
Saida%20.pdf>. Acesso em: 18 jun. 2015.

235
BARROS, M. B. A. et al. Desigualdades sociais na prevalência de doenças crônicas no Brasil, PNAD-
2003. Ciência & Saúde Coletiva, 11(4): 911-926, 2006.

BATISTA, N. & THOMPSON, A. Penitenciárias e Estado criminoso. A Nova Democracia, ano 4,


n. 27, nov. 2005. Disponível em: <www.anovademocracia.com.br/no-27/570-penitenciarias-e-
estado-criminoso>. Acesso em: 7 nov. 2014.

BECK, A. T.; WARD, C. & MENDELSON, M. Beck Depression Inventory (BDI). Archive of Genetic
Psychiatry, 4(6): 561-571, 1961.

BECKER, K. L. Uma Análise Econômica da Relação entre Educação e Violência, 2013. Tese de
Doutorado, Piracicaba: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz.

BLAAUW, E.; ROESCH, E. & KERKHOF, A. Mental disorders in European prison systems:
Arrangements for mentally disordered prisoners in the prison systems of 13 European countries.
International Journal of Law and Psychiatry, 23(5-6): 649-663, 2000.

BLAAUW, E. et al. Traumatic life events and suicide risk among jail inmates: the influence of types of
events, time period and significant others. Journal of Traumatic Stress, 15(1): 9-16, 2002.

BRASIL. Lei n. 7.210, de 11 jul. 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Diário Oficial da União,
Brasília, 13 jul. 1984. Seção 1, p.1-37.

BRASIL. Decreto lei n. 8.897 de 31 mar. 1986. Regulamento penal do Estado do Rio de Janeiro.
Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 31 mar. 1986.

BRASIL. Ministério da Saúde.  Portaria MS/GM n. 737, de 16 jun. 2001. Política Nacional de
Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências. Brasília: Ministério da Saúde, 2001.

BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Justiça. Portaria Interministerial n. 1.777, de 9 set.


2003. Dispõe sobre o Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário. Diário Oficial da União,
Brasília, 2003.

BRASIL. Presidência da República. Ministério da Justiça. Secretaria Especial de Políticas para as


Mulheres. Grupo de Trabalho Interministerial. Reorganização e Reformulação do Sistema Prisional
Feminino. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2008.

BRASIL. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados. Comissão Parlamentar de Inquérito do


Sistema Carcerário. CPI Sistema Carcerário. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2009.

BRASIL. Ministério da Justiça. Departamento Penitenciário Nacional. Manual de Intervenções


Ambientais para o Controle da Tuberculose nas Prisões. Brasília: Ministério da Justiça, 2012.

BRASIL. Ministério da Educação. Censo de Educação Básica de 2013. Brasília: Inep/MEC, 2014a.

BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Justiça. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde
das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional. Brasília: Ministério da Saúde, Ministério
da Justiça, 2014b.

BROOK, J. S. et al. The psychosocial etiology of adolescent drug use: a family interactional approach.
Genetic, Social, and General Psychology Monographs, 116(2): 111-267, 1990.     

BUTLER, T. et al. Mental disorder in the New South Wales prisoner population. The Australian and
New Zealand Journal of Psychiatry, 39(5): 407-413, 2005.

236
CAMPOS, C. E. A. Os inquéritos de saúde sob a perspectiva do planejamento. Cadernos de Saúde
Pública, 9(2): 190-200, 1993.

CANAZARO, D. & ARGIMON, I. I. L. Características, sintomas depressivos e fatores associados em


mulheres encarceradas no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, 26(7):
1.323-1.333,  2010. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
311X2010000700011&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 14 jun.  2015. 

CAPITANI, R. O Meio Ambiente Prisional Brasileiro e a Saúde do Preso: um estudo no Presídio


Estadual de Bento Gonçalves, 2012. Dissertação de Mestrado, Caxias do Sul: Universidade de Caxias
do Sul.

CARVALHO, A. X. et al. Custos das Mortes por Causas Externas no Brasil. Brasília: Ipea, 2007.
(Texto de discussão, n. 1.268).

CARVALHO, M. L. et al. Perfil dos internos no sistema prisional do Rio de Janeiro: especificidades
de gênero no processo de exclusão social. Ciência & Saúde Coletiva, 11(2): 461-471, 2006.

CASTELLS, M. O Poder da Identidade. v. II. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

CASTELLS, R. As Metamorfoses da Questão Social. Petrópolis: Vozes, 1998.

CAVALCANTE, F. G. & SCHENKER, M. Famílias que se comunicam através da violência. In:


NJAINE, K., ASSIS, S. G. & CONSTANTINO, P. (Orgs.). Impactos da Violência na Saúde. Rio de
Janeiro: Ensp, 2013.

CAVALCANTE, F. G.; MINAYO, M. C. S. & MANGAS, R. M. N. Diferentes faces da depressão no


suicídio em idosos. Ciência & Saúde Coletiva, 18(10): 2.985-2.994, 2013.

CHESNAIS, J. Histoire de la Violence: en Occident de 1800 à nos jours. Paris: Éditions Robert
Laffont, 1981.

COELHO, E. C. A Oficina do Diabo. Rio de Janeiro: Iuperj, 1987.

COELHO, H. C. et al. Soroprevalência da infecção pelo vírus da hepatite B em uma prisão brasileira.
Revista Brasileira de Epidemiologia, 12(2): 124-131, 2009.

COELHO, M. T. A. D. Concepções de normalidade e saúde mental entre infratores presos de uma


unidade prisional da cidade do Salvador. Ciência & Saúde Coletiva, 14(2): 567-575, 2009.

COMMISSION FOR RACIAL EQUALITY (CNMP). Racial Equality in Prision: a formal


investigation. London: CNMP, 2003.

CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO (CNMP). A Visão do Ministério Público


sobre o Sistema Prisional. Brasilia: CNMP, 2013.

COUTO, M. T. et al. O homem na atenção primária à saúde: discutindo (in)visibilidade a partir da


perspectiva de gênero. Interface, 14(33): 257-270, 2010.

DALGALARRONDO, P. Relações entre duas dimensões fundamentais da vida: saúde mental e


religião. Revista Brasileira de Psiquiatria, 28(3): 177-178, 2006.

DALGALARRONDO, P. Estudos sobre religião e saúde mental realizados no Brasil: histórico e


perspectivas atuais. Revista de Psiquiatria Clínica, 34, supl. 1: 25-33, 2007.

237
DAMAS, F. B. Saúde Mental no Sistema Prisional, 2011. Dissertação de Mestrado em Saúde
Coletiva, Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina.

DE MICHELI, D. & FORMIGONI, M. L. O. S. Are reasons for the first use of drugs and family
circunstances predictors of future use patterns? Addictive Behaviors, 27(1): 87-100, 2002.

DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL (DEPEN). Levantamento Nacional de


Informações Penitenciárias. Brasília: Depen, Ministério da Justiça, 2015.

DESLANDES, S. F.; ASSIS, S. G. & SILVA, H. O. (Coord.). Famílias: parceiras ou usuárias


eventuais? Análise de serviços de atenção a famílias com dinâmica de violência doméstica contra
crianças e adolescentes. Brasília: Claves, Unicef, 2004.

DIAS, C. C. N. Evangélicos no cárcere: representações de um papel desacreditado. Debates do NER,


6(8): 39-55, 2005.

DIUANA, V. et al. Saúde em prisões: representações e práticas dos agentes de segurança penitenciária
no Rio de Janeiro, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, 24(8): 1.887-1.896, 2008.

DOUGLAS, M. & WILDAVSKY, A. Risk and Culture: an essay on the selection of technical and
environmental dangers. Berkeley, London: University of California Press, 1983.

DUARTE, L. F. D. Da Vida Nervosa nas Classes Trabalhadoras Urbanas. 2. ed. Rio de Janeiro:
J. Zahar, 1988. (Antropologia Social).

DURKHEIM, É. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ELIAS, N. O Processo Civilizador. v. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

ESCOREL, S. Vidas ao Léu: trajetórias de exclusão social. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1999.

FAERSTEIN, E. et al. Estudo Pró-Saúde: características gerais e aspectos metodológicos.  Revista


Brasileira de Epidemiologia, 8(4): 454-466,  2005. 

FAJNZYLBER, P. & ARAÚJO JR., A. Violência e criminalidade. In: LISBOA, M. B. E. & MENEZES
FILHO, N. A. (Orgs.). Microeconomia e Sociedade no Brasil. Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.

FERNANDER, A. et al. Exploring the type-of-crime hypothesis, religiosity, and spirituality in an adult
male prison population. International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology,
49(6): 682-695, 2005.

FLECK, M. P. A. et al. Aplicação da versão em português do instrumento abreviado de avaliação da


qualidade de vida ‘WHOQOL-bref’. Revista de Saúde Pública, 34(2): 178-183, 2000. 

FOLINO, J. O.; MARCHIANO, S. E. & WILDE, A. S. Suicídios en convictos bonarenses. Vertex –


Revista Argentina de Psiquiatria, 15(54): 286-291, 2003.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. 37. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

FREUD, S. Obras Completas. Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

FREUDENBERG, N. Jails, prisons and the health of urban populations: a review of the impact of the
correctional system on community health. Journal of Urban Health, 78(2): 214-235, 2001.

GABE, C. & LARA, G. M. Prevalência de anti-HCV, anti-HIV e coinfecção HCV/HIV em um


presídio feminino do estado do Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Análises Clínicas, 40(2):
87-89, 2008.

238
GALDURÓZ, J. C. et al. I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas no Brasil. São Paulo:
Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), Universidade Federal de São
Paulo, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), 2002.

GIDDENS, A. A Transformação da Intimidade. São Paulo: Editora Unesp, 1993.   

GIDDENS, A. O Mundo na Era da Globalização. Lisboa: Editorial Presença, 2000.

GOFFMAN, E. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 1990.

GOIS, S. M. et al. Para além das grades e punições: uma revisão sistemática sobre a saúde
penitenciária. Ciência & Saúde Coletiva, 17(5): 1.235-1.246, 2012.

GONDIM, L. M. A. et al. Estudo da prevalência e fatores determinantes da deficiência auditiva no


município de Itajaí, SC. Braz. Journal of Otorhinolaryngology, 78(2): 27-34, 2012.

GROGGER, J. Market wages and youth crime. Journal of Labor Economics, 16(4): 45-61, 2002.

GUEDES, M. A. Intervenções psicossociais no sistema carcerário feminino. Psicologia Ciência e


Profissão, 26(4): 558-569, 2006.

GUIMARÃES, C. F. et al. Homens apenados e mulheres prezas: estudo sobre mulheres de presos.
Psicologia e Sociedade, 18(3): 48-54, 2006.

GUIMARÃES, C. G.; MENEGHEL, S. N. & OLIVEIRA, C. S. Subjetividade e estratégias de


resistência na prisão. Psicologia, Ciência e Profissão, 26(4): 632-645, 2006.

GUIMARÃES, T. C. Interrogatório por videoconferência: uma visão principiológica. Direito em


Debate, ano 17, n. 31, jan.-jun. 2009.

GUNTER, D. T. et al. Frequency of mental and addictive disorders among 320 men and women
entering the Iowa prison system: use of the MINI-Plus. Journal of Academy of Psychiatric Law, 36:
27-34, 2008.

HARDING, T.W. et al. Mental disorders in primary health care: a study of their frequency and
diagnosis in four developing countries. Psychological Medicine, 10: 231-241, 1980.

HEIDEGGER, G. Heidegger. São Paulo: Abril, 1980. (Coleção Pensadores).

HEILBERG, I. P. & SCHOR, N. Abordagem diagnóstica e terapêutica na infecção do trato urinário.


Revista da Associação Médica Brasileira, 49(1): 58-72, 2003.

HOFFMANN, J. P. & CERBONE, F. G. Parental substance use disorder and the risk of adolescent
drug abuse: an event history analysis. Drug and Alcohol Dependence, 66(3): 255-264, 2002. 

HOOKS, B. Intelectuais negras. Periódicos USC, 3, 1995. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.


br/index.php/ref/article/viewFile/16465/15035>. Acesso em: 30 jun. 2015.

HUCULAK, S. & McLENNAN, J.D. The Lord is my shepherd: examining spirituality as a protection
against mental health problems in youth exposed to violence in Brazil. Mental Health, Religion and
Culture, 13(5): 467-484, 2010.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por


Amostra de Domicílios – um panorama da saúde no Brasil: acesso utilização de serviços, condições
de saúde e fatores de risco e proteção à saúde em 2008. Rio de Janeiro: IBGE, 2010.   

239
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010:
educação e deslocamento, 2011. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/
censo2010/default_resultados_amostra.shtm>. Acesso em: 10 mar. 2014.

INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (INCA). Inquérito Domiciliar sobre Comportamento de


Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos Não Transmissíveis – Brasil: 15 capitais e Distrito
Federal, 2002-2003. Rio de Janeiro: Inca, 2004.  

IRELAND, T. & LUCENA, M. H. R. O presídio feminino como espaço de aprendizagens. Educação


e Realidade, 38(1): 113-136, 2013.

JOHNSON, B. R. Reviewing and clarifying the role of religion in reducing crime and delinquency.
Federal Probation, 65(3): 49-52, 2001.

JOSEPH, J. Drug offenses, gender, ethnicity, and nationality women in prison in England and Wales.
The Prison Journal, 86(1): 140-157, 2006.

JULIÃO, E. F. Uma Visão Socioeducativa da Educação como Programa de Reinserção Social na


Política de Execução Penal, 2006. Dissertação de Mestrado, Juiz de Fora: Universidade Federal de
Juiz de Fora.

JULIÃO, E. F. O impacto da educação e do trabalho como programas de reinserção social na política


de execução penal do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Educação, 15(45): 529-596, 2010.

KODJO, C. M. & KLEIN, J. D. Prevention and risk of adolescent substance abuse: the role of
adolescents, families and communities. The Pediatric Clinics of North America, 49(2): 257-268, 2002.

LABOISSIERE, P. IBGE derruba a tese preconceituosa de que ‘pobres fazem filhos para conseguir
bolsa família’. Revista BR29, 2015. Disponível em: <http://br29.com.br/ibge-derruba-a-tese-
preconceituosa-de-que-pobres-fazem-filhos-para-conseguir-bolsa-familia/>. Acesso em: 30 jun. 2015.

LAFFIN, M. H. L. F. & NAKAYAMA, A. R. O trabalho de professores e professoras em um espaço


de provação de liberdade. Educação e Realidade, 38(1): 155-178, 2013.

LEIBER, M. Gender, religion, and correctional orientations among a sample of juvenile justice
personnel. Women and Criminal Justice, 11(2): 15-41, 2000.

LEMGRUBER, J. Cemitério dos Vivos: sociologia de uma prisão de mulheres. Rio de Janeiro: Forense,
1999.

LEMOS, A. M.; MAZZILLI, C. & KLERING, L. R. Análise do trabalho prisional: um estudo


exploratório. Revista de Administração Contemporânea, 2(3): 129-149, 1998.

LESSA, C. F. A Prática Religiosa e a Questão Social: considerações sobre condições de vida e saúde na
visão dos pastores e fiéis pertencentes à denominação metodista, 2008. Dissertação de Mestrado em
Ciências, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz.

LIBENCE, P. A carne mais barata do mercado é a carne negra? Escrevivência WordPress. Disponível


em: <https://escrevivencia.wordpress.com/2013/01/19/a-carne-mais-barata-do-mercado-e-a-carne-
negra/>. Acesso em: 30 jun. 2015.

LIMA, J. L. A. Reabilitação criminal, ressocialização e direitos humanos. Disponível em: <www.


ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=10246>.Âmbito
Jurídico>. Acesso em: 30 jun. 2015.

240
LIPP, M. E. N. Manual do Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL). São Paulo:
Casa do Psicólogo, 2000.

LOCHNER, L. & MORETTI, E. The effect of education on crime: evidence from prison, inmates,
arrests and self-reports. The American Economic Review, 94(1): 155-189, 2004.

LONGO, I. Auxílio-reclusão: não acredite em tudo que você lê nas redes sociais. Disponível em:
<www.revistaforum.com.br/blog/2015/02/auxilio-reclusao-um-direito-que-vai-muito-alem-da-
moralidade-de-um-bolsa-bandido/>. Acesso em: 30 jun. 2015.

LOUREIRO, N. E.; MATOS, M. G. & DINIZ, J. A. Actividade física, desporto e consumo de


substâncias entre adolescentes portugueses. In: MATOS, G. M. (Coord.). Consumo de Substâncias:
estilo de vida? À procura de um estilo. Lisboa: Instituto da Droga e da Toxicodependência, 2008.

MACEDO, C. F. A evolução das políticas de saúde mental e da legislação psiquiátrica no Brasil. Jus
Navigandi, 10(1.017): 140-147, 2006.

MAGNABOSCO, D. Sistema penitenciário brasileiro: aspectos sociológicos. Jus Navigandi, 3(27):


1-9, 1998.

MARI, J. J. & WILLIANS, P. A validity study of a psychiatric screening questionnaire (SRQ 20) in
primary care in the city of São Paulo. British Journal of Psychiatry, 148(1): 23-26, 1986.

MARTINS, V. L. A política de descriminalização de drogas em Portugal. Serviço Social e Sociedade,


114: 332-346, 2013.

MARX, K. O Capital: crítica da economia política. 14. ed. v. 1. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

MELLO, D. C. & GAUER, G. Vivências da maternidade em uma prisão feminina do estado do


Rio Grande do Sul. Saúde & Transformação Social, 1(3), 2011. Disponível em: <http://periodicos.
incubadora.ufsc.br/index.php/saudeetransformacao/article/view/654/876>. Acesso em: 2 Dez.2014.

MENEZES, C. Os mercadores das cadeias. Carta Capital. São Paulo, 11 jan. 2014. Disponível em:
<www.cartacapital.com.br/.../os-mercadores-das-cadeias>. Acesso em: 1 dez. 2014.

MESSUTI, A. O Tempo como Pena. Trad. Tadeu Antonio Dix Silva e Maria Clara Veronessi de
Toledo. São Paulo: RT, 2003.

MINAYO, M. C. S. A violência social sob a perspectiva da saúde pública. Cadernos de Saúde Pública,
10, supl. 1: S7-18, 1994.

MINAYO, M. C. S. Violência: um problema para a saúde dos brasileiros. In: BRASIL. Ministério da
Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Impacto da Violência na Saúde dos Brasileiros. Brasília:
Ministério da Saúde, 2005.

MINAYO, M. C. S. & CONSTANTINO, P. Visão ecossistêmica do homicídio. Ciência & Saúde


Coletiva, 17(12): 3.269-3.278, 2012.

MINAYO, M. C. S. & SOUZA, E. R. É possível prevenir a violência? Ciência & Saúde Coletiva,
4(1): 7-24, 1999.

MINAYO, M. C. S. & SOUZA, E. R. (Orgs.). Missão Investigar: entre o ideal e a realidade de ser
policial civil. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.

241
MINAYO, M. C. S.; ASSIS, S. G. & NJAINE, K. É possível construir relações amorosas sem violência?
In: MINAYO, M. C. S.; ASSIS, S. G. & NJAINE, K. (Orgs.).  Amor e Violência: o paradoxo das
relações de namoro e do ficar entre jovens brasileiros. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.

MINAYO, M. C. S.; SOUZA, E. R. & CONSTANTINO, P. (Coord.). Missão Prevenir e Proteger:


condições de vida, trabalho e saúde dos policiais militares do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora
Fiocruz, 2008.

MIRANDA, A. E.; MERCON-DE-VARGAS, P. R. & VIANA, M. C. Saúde sexual e reprodutiva em


penitenciária feminina, Espírito Santo, Brasil. Revista de Saúde Pública, 38(2): 255-260, 2004.

MISCIASCI, E. O Relato de uma mulher que acabou de cumprir pena e saiu da cadeia. Acesso em:
17 dez. 2014. Disponível em: < www.eunanet.net/beth/news/topicos/egressa.htm>. Acesso em: 30
jun. 2015.

MISSE, M. O Movimento: a estruturação das redes de tráfico no Rio de Janeiro – reconstituição e


análise, 1999. Tese de Doutorado em Sociologia, Niterói: Universidade Federal Fluminense.

MORAES, P. A. C. & DALGALARRONDO, P. Mulheres encarceradas em São Paulo: saúde mental


e religiosidade. Brazilian Journal of Psychiatry, 55(1): 50-56, 2006.

MOREIRA, E. M. A Criminalização dos Trabalhadores Rurais no Polígono da Maconha, 2007. Tese


de Doutorado, Niterói: Universidade Federal Fluminense.

MOREIRA, F. G.; SILVEIRA, D. X. & ANDREOLI, S. B. Redução de danos do uso indevido de


drogas no contexto da escola promotora de saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 11(3): 807-816, 2006.

MORRIS, P. K. Imprisoned in Jamaica: an exploratory study of inmate experiences and differential


responses to prison life in a developing country international. Criminal Justice Review, 18(4): 435-
454, 2008.

MP DENUNCIA INVESTIGADOS na operação Laranja com Pequi do Ministério Público Estadual


de Minas Gerais, 22 ago. 2012. Disponível em: <www.hojeemdia.com.br/horizontes/mp-denuncia-
investigados-na-operac-o-laranja-c1om-pequi-1.25367>. Acesso em: 2 dez. 2014.

NASCIMENTO, M. G. O. Ciclo de debates sobre religiões e prisões: visão interreligiosa. Comunicações


do Iser, 61, ano 24: 47-52, 2005.

NEGRELLI, A. M. Suicídio no Sistema Carcerário: análise a partir do perfil biopsicossocial do preso


nas instituições prisionais do Rio Grande do Sul, 2006. Dissertação de Mestrado em Direito, Porto
Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

NOGUEIRA, P. A. & ABRAHAO, R. M. C. M. A infecção tuberculosa e o tempo de prisão da


população carcerária dos Distritos Policiais da zona oeste da cidade de São Paulo. Revista Brasileira
de Epidemiologia, 12(1): 30-38, 2009.

NOVAES, R. R. Religiões e prisão. Comunicações do Iser, 2005. Disponível em: <www.iser.org.br/


arquivos/comunicacoes_do_iser_61.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2015.

O’ CONNOR, T. P. & PERREYCLEAR, M. Prison religion inaction and its influence on offender
rehabilitation. Journal of Offender Rehabilitation, 35(3/4): 11-33, 2002.

OETTING, E. R. et al. Primary socialization theory: culture, ethnicity, and cultural identification – the
links between culture and substance use. Part IV. Substance Use & Misuse, 33(10): 2.075-2.107, 1998.

242
OLIVEIRA, F. População feminina na prisão cresce quase duas vezes mais que a masculina. Último
Segundo Brasil. Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-07-08/populacao-
feminina-na-prisao-cresce-quase-duas-vezes-mais-que-a-masculina.html>. Acesso em: 30 jun. 2014.

OLIVEIRA, M. M. C. A Religião nos Presídios. v. 2. São Paulo: Cortez e Moraes, 1978. (Série
Estudos Penitenciários).

OLIVEIRA, V. A. S. & GUIMARÃES, S. J. Saúde atrás das grades: o Plano Nacional de Saúde no
sistema penitenciário nos estados de Minas Gerais e Piauí. Saúde e Debate, 35(91): 597-606, 2011.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Regras mínimas das Nações Unidas para o
tratamento de prisioneiros, 1955. Disponível em: <www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/fpena/lex52.
htm>. Acesso em: 5 nov. 2014.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório Mundial sobre Violência e Saúde.


Genebra: OMS, 2002.

PALMA, A. C.; ROGERIO, I. & NEVES, L. C. D. A Questão Penitenciária e a Letra Morta da Lei.
Curitiba: JM, 1997.

PANZINI, R. G. et al. Revisão da literatura: qualidade de vida e espiritualidade. Revista de Psiquiatria


Clínica, 34, supl. 1: 105-115, 2007.

PAREDES, L. C. Avaliação da Alimentação Terceirizada no Sistema Penitenciário do Paraná, 2005.


Monografia de Especialização em Administração em Saúde Pública, Curitiba: Instituto Superior de
Ensino, Pesquisa e Extensão.

PASTORAL CARCERÁRIA; CONECTAS DIREITOS HUMANOS & INSTITUTO SOU DA PAZ.


Penitenciárias são feitas por homens e para homens, 2014. Disponível em: <http://carceraria.org.br/
wp-content/uploads/2012/09/relatorio-mulherese-presas_versaofinal1.pdf >. Acesso em: 9 set. 2014.

PATTERSON, G. R.; REID, J. & DISHION, T. Antisocial Boys. Eugene: Castalia, 1992.

PATTON, L. H. Adolescent substance abuse: risk factors and protective factors. The Pediatric Clinics
of North America, 42(2): 283-293, 1995.

PEARCE, M. J. et al. The protective effects of religiousness and parent involvement on the
development of conduct problems among youth exposed to violence. Child Development, 74(6):
1.682-1.696, 2003.

PEREIRA, V. L. P. A vida na prisão: o tempo entre parênteses. Âmbito Jurídico.com.br., 12 (70), 2009.
Disponível em: <www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_
id=6942>. Acesso em: 13 nov. 2014.

PETTERSSON, T. Religion and criminality: structural relationships between church involvement and
crime rates in contemporary Sweden. Journal for the Scientific Study of Religion, 30(3): 279-291,
1991.

PICOLOTO, D. & SILVEIRA, E. Prevalência de sintomas osteomusculares e fatores associados em


trabalhadores de uma indústria metalúrgica de Canoas - RS. Ciência & Saúde Coletiva, 13(2): 507-
516, 2008.

PINTO, F. A casa do perdão: resistências e estímulos aos umbandistas. Comunicações do Iser, 61,
ano 24: 53-56, 2005.

243
PINTO, G. & HIRDES, A. O processo de institucionalização de detentos: perspectivas de reabilitação
e reinserção social. Revista de Enfermagem, 10(4): 678-683, 2006.

PISCITELLI, A. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes


brasileiras. Sociedade e Cultura, 11(2): 263-274, 2008.

PRAGOSA, C. S. M. Tentativa de Suicídio em Meio Prisional: estudo exploratório de uma população


de reclusos com e sem condutas autodestrutivas não fatais, 2012. Dissertação de Mestrado em
Medicina Legal e Ciências Forenses, Lisboa: Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa.

QUINTINO, S. A. A prisão como castigo, o trabalho como remissão-contradições do Sistema


Penitenciário Paranaense. Revista de Sociologia Jurídica, 3, 2006.

QUIROGA, A. M. Religiões e prisões no Rio de Janeiro: presença e significados. Comunicações do


Iser, 61, ano 24: 13-21, 2005.

QUITETE, B. et al. Transtorno de estresse pós-traumático e uso de drogas ilícitas em mulheres


encarceradas no Rio de Janeiro. Revista de Psiquiatria Clínica, 39(2): 43-47, 2012.

RABELO, F. O. A coragem de transgredir a lei em busca do princípio da dignidade humana – um


grito do judiciário mineiro. Boletim IBCCRIM, 157, ano 13: 2, 2005.

RABELO, M. C. Religião, ritual e cura. In: ALVES, P. C. & MINAYO, M. C. S. (Orgs.). Saúde e
Doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1994.

RAMOS, T. R. et al. Perfil de sensibilidade de microrganismos isolados em uroculturas de pacientes


com infecção do trato urinário na cidade de Paranavaí - PR. Arquivos de Ciências da Saúde Unipar,
14(2): 111-116, 2010.

REGNERUS, M. D. Moral communities and adolescent delinquency: religious contexts and


community social control. Sociology Quartely, 44(4): 523-554, 2003.

RIBEIRO, F. M. L. & MINAYO, M. C. S. As comunidades terapêuticas religiosas na recuperação


de dependentes de drogas: o caso de Manguinhos, RJ, Brasil. Interface (Botucatu), 19(54): 515-526,
2012.

RIBEIRO, F. M. L. & MINAYO, M. C. S. O papel da religião na promoção da saúde, na prevenção da


violência e na reabilitação de pessoas envolvidas com a criminalidade: revisão de literatura. Ciência
& Saúde Coletiva, 19(6): 1.773-1.178, 2014.

ROCHA, M. L. A. O processo de recuperação do uso indevido de drogas em igrejas pentecostais


Assembleia de Deus. Rio de Janeiro: s.n., 2010.

RODRIGUES, G. E. Transgressão, controle social e religião: um estudo antropológico sobre práticas


religiosas na penitenciária feminina do estado do Rio Grande do Sul. Debates do NER, 6(8): 9-20, 2005.

ROSA, A. J. M. F. Execução Penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995.

ROSANVALLON, P. The Society of Equals. Cambridge: Harvard University Press, 2014.

SANCHEZ, A. R. et al. A tuberculose nas prisões do Rio de Janeiro, Brasil: uma urgência de saúde
pública. Cadernos de Saúde Pública, 3: 545-552, 2007.

SANTOS, J. B. F.; MACIEL, R. H. M. O. & MATOS, T. G. R. Reconquista da identidade de


trabalhador por ex-detentos catadores de lixo. Caderno CRH, 26(68): 377-390, 2013.

244
SANTOS, M. J. & KASSOUF, A. L. Uma investigação econômica da influência do mercado de drogas
ilícitas sobre a criminalidade brasileira. Revista de Economia, 8(2): 187-210, 2007.

SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Saúde. Coordenação de Epidemiologia e Informação (CEInfo).


Boletim ISA–Capital 2008, n.1, 2010.

SARTRE, J. P. Preface. In: FANON, F. The Wretched of the Earth. New York: Grove Press, 1961.

SARTRE, J. P. Entrevista. Le Nouvel Observateur, p. 1, 28 jan. 1970.

SCHELIGA, E. L. Sob a proteção da Bíblia? A conversão ao pentecostalismo em unidades penais


paranaenses. Debates do NER, 8, ano 6: 57-71, 2005a.

SCHELIGA, E. L. Trajetórias religiosas e experiências prisionais: a conversão em uma instituição


penal. Comunicações do Iser, 61, ano 24: 75-85, 2005b.

SCHENKER, M. Valores Familiares e Uso Abusivo de Drogas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008.

SCHENKER, M. & MINAYO, M. C. S. A implicação da família no uso abusivo de drogas: uma


revisão crítica. Ciência & Saúde Coletiva, 8(1): 299-306, 2003.

SCHENKER, M. & MINAYO, M. C. S. Fatores de risco e de proteção para o uso de drogas na


adolescência. Ciência & Saúde Coletiva, 10(3): 707-717, 2005.

SCHMIDT, M. I. et al. Doenças crônicas não transmissíveis no Brasil: carga e desafios atuais. The
Lancet, 11: 60.135-60.139, 2011.

SCHNEIDER, R. Z. & FELTEY, K. M. No matter what has been done wrong can always be redone
rightg: spirituality in the lives of imprisoned battered women. Violence Against Women, 15(4): 443-
459, 2009.

SILVA, J. G.; VALADARES, F. C. & SOUZA, E. R. O desafio de compreender a consequência fatal


da violência em dois municípios brasileiros. Interface, 17(46): 535-547, 2013.

SILVA, R. & MOREIRA, F. A. Objetivos educacionais e objetivos da reabilitação penal: o diálogo


possível. Revista Sociologia Jurídica, 3, 2006. Disponível em: <www.sociologiajuridica.net.br/
numero-3>. Acesso em: 30 jun. 2015.

SILVA, V. G. Neopentecostalismo e religiões afrobrasileiras: significados do ataque aos símbolos da


herança religiosa africana no Brasil contemporâneo. Revista Mana, 13(1): 207-236, 2007.

SIMÕES, K. G. Etnografia na ala feminina da Cadeia Pública de Cascavel - PR. Revista do Núcleo
de Antropologia Urbana da USP, 14(14): 2-7, 2014. Disponível em: <http://pontourbe-revues.
org/1691>. Acesso em: set. 2015.

SKOTNICKI, A. Religion and rehabilitation. Criminal Justice Ethics, 15(2): 34-43, 1996.

SOARES, B. M. & ILGENFRITZ, I. Prisioneiras: vida e violência atrás das grades. Rio de Janeiro:
Garamond, 2002.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA (SBD). Perfil nosológico das consultas


dermatológicas no Brasil. Anais Brasileiro de Dermatologia, 81: 549-558, 2006.

SOUZA, E. R. et al. Morbimortalidade de homens jovens brasileiros por agressão: expressão dos
diferenciais de gênero. Ciência & Saúde Coletiva, 17(12): 3.243-3.248, 2012a.

245
SOUZA, E. R. et al. Estudo multicêntrico da mortalidade por homicídios em países da América
Latina. Ciência & Saúde Coletiva, 17(12): 3.183-3.193, 2012b.

SOUZA, K. O. J. A pouca visibilidade da mulher brasileira no tráfico de drogas. Psicologia em


Estudo, 14(4): 649-657, 2009.

STRAZZA, L. et al. Estudo de comportamento associado à infecção pelo HIV e HCV em detentas de
um presídio de São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, 23(1): 197-205, 2007.

STROPPA, A. & MOREIRA-ALMEIDA, A. Religiosidade e saúde. In: SALGADO, M. I. & FREIRE, G.


(Orgs.). Saúde e Espiritualidade: uma nova visão da medicina. Belo Horintonte: Inede, 2008.

TABORDA, J. G. & BINS, H. D. Assistência em saúde mental e o sistema prisional no Brasil. Revista
de Psiquiatria, 21(3): 164-170, 2008.

TARDELLI, F. Alimentação carcerária, 2007. Disponível em: <http://palavrassussurradas.wordpress.


com/2007/12/10/nutricao-psicologia-alimentacao-carceraria>. Acesso em: 30 nov. 2014.

TARTER, R. E.; SAMBRANO, S. & DUNN, M. G. Predictor variables by developmental stages: a


center for substance abuse prevention multisite study. Psychology of Addictive Behaviors, 16, supl. 4:
3-10, 2002.

TAVARES, G. P. & ALMEIDA, R. M. M. Violência, dependência química e transtornos mentais em


presidiários. Estudos Psicológicos, 27(4): 12-27, 2010.

TAVARES, G. P.; SCHEFFER, M. & ALMEIDA, R. M. M. Drogas, violência e aspectos emocionais


em apenados. Psicologia: reflexão e crítica, 25(1): 89-95, 2012 . Disponível em: <www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722012000100011&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 14 jun. 2015. 

THOMPSON, A. A Questão Penitenciária. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2000.

THOMPSON, C. & LOPER, A. B. Adjustment patterns in incarcerated women an analysis of


differences based on sentence length. Criminal Justice and Behavior, 32(6): 714-732, 2005.

TIMOR, U. Constructing a rehabilitative reality in special religious wards in Israeli prisons.


International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, 42(4): 340-359, 1998.

TRESTMAN, R. L. et al. Current and lifetime psychiatric illness among inmates not identified as
acutely mentally ill at intake in Connecticut’s jails. Journal of American Academy of Psychiatry and
Law, 35: 490-500, 2007.

UNNEVER, J. D.; CULLEN, F. T. & APPLEGATE, B. K. Turning the other cheek: assessing the
impact of religion on punitive ideology. Justice Quartely, 22(3): 304-339, 2005.

VARELLA, D. Estação Carandiru. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

VASCONCELOS, E. M. (Org.). Desafios Políticos da Reforma Psiquiátrica Brasileira. São Paulo:


Hucitec, 2010.

VEJA. Rio de Janeiro, 13 jun. 2013.

VIANNA, F. B. & REIS, S. A. A interação do apenado na cadeia pública de Poços de Caldas, MG.
Psicologia em Revista, 16(3): 557-574, 2010.

VIEIRA, K. et al. Atendimento da população masculina em unidade básica Saúde da Família: motivos
para a (não) procura. Escola Anna Nery, 17(1): 120-127, 2013.

246
WACQUANT, L. Punir os Pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos condenados da
cidade – estudo sobre marginalidade avançada. Rio de Janeiro: Instituto Carioca de Criminologia,
Freitas Bastos, 2001.

WAHL, R. A.; COTTON, S. & HARRISON-MONROE, P. Spirituality, adolescent suicide, and the
juvenile justice system. Southern Medical Journal, 101(7): 711-715, 2008.

WALMSLEY, R. World prison population list. World Health Organization, International Centre for
Prison Studies, 2008. Disponível em: <www.apcca.org/uploads/8th_Edition_2009.pdf>. Acesso em:
20 jul. 2014.

WEBER, M. Economía y Sociedad. México: Fondo de Cultura Económica, 1984.

WEBER, M. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 13. ed. São Paulo: Pioneira, 1999.

WIEVIORKA, M. O novo paradigma da violência. Tempo Social, 9(1): 5-41, 1997.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health in Prisons: a WHO guide to the essentials in
prison health. Copenhagen: Organization Regional Office for Europe, 2007.

WORRALL, J. L. & MORRIS, R. G. Inmate custody levels and prison rule violations. The Prison
Journal, 91(2): 131-157, 2011.

ZWEIG, J. M.; PHILLIPS, B. S. & LINDBERG, L. D. Predicting adolescent profiles of risk: looking
beyond demographics. Journal of Adolescent Health, 31: 343-353, 2002.

247
Formato: 16 x 23 cm
Tipologia: Candara | Elision
Papel: Polen bold 70g/m2 (miolo) e Cartão Supremo 250g/m2 (capa)
CTP, impressão e acabamento: Imos Gráfica e Editora Ltda.
Rio de Janeiro, novembro de 2015

Não encontrando nossos títulos em livrarias,contactar a Editora Fiocruz:


Av. Brasil, 4036, 1º andar, sala 112 – Manguinhos
21040-361 – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 3882-9039 e 3882-9007
Telefax: (21) 3882-9006
editora@fiocruz.br
www.fiocruz.br/editora

View publication stats

Você também pode gostar