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Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 13: 101-115, 2003.

HISTÓRIA, GÊNERO, AMOR E SEXUALIDADE:


OLHARES METODOLÓGICOS

Lourdes M.G.C. Feitosa*

O passado nunca conhece o seu lugar.


O passado está sempre no presente.
[Mário Quintana]

FEITOSA, L.M.G.C. História, gênero, amor e sexualidade: olhares metodológicos. Rev. do Museu
de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 13: 101-115,2003.

RESUMO: Esse artigo apresenta uma reflexão sobre gênero para o estudo da
História Antiga Romana e discute aspectos teóricos sobre a escrita e o conhecimento
histórico. Considerando dimensões amorosas e de gênero, propõe definições para os
conceitos de “feminino” e “masculino”. Neste caminhar, estudos historiográficos
recentes da Antigüidade Romana são analisados, dos quais são destacados as
contribuições e avanços trazidos pelos “estudos das mulheres” e sua trajetória em
direção a uma cuidadosa análise de gênero sobre o mundo romano.

UNITERMOS: Teoria da História - Estudo de gênero - Amor - Sexualidade.

Os temas do amor e da sexualidade tomaram- enraizados pressupostos, e buscar outros suportes


se mais freqüentes no campo histórico ao longo das teóricos que permitissem inserir, em sua área de
últimas décadas do século, momento em que se conhecimento, a história daqueles até então dela
aprofundam e intensificam os debates a respeito excluídos e rever antigos conceitos. A classificação
dos métodos e da escrita da História e a inserção dos indivíduos entre mulher e homem, segundo suas
de temáticas até então desconsideradas em sua características físicas e com desempenhos e parceiros
análise. O interesse em compreender as inúmeras sexuais específicos, fixados por uma tradição moral
nuances que envolvem a vida dos seres humanos baseada em relações heterossexuais, passou a ser
tem estimulado o desenvolvimento de análises incessantemente debatida. Essas discussões
interessadas nas variações culturais e históricas da refletiram-se no campo teórico com análises
constituição do corpo, das relações afetivas e das preocupadas nas variedades que os com portamen­
maneiras de instituir e gerir a sexualidade. tos pessoais, as relações afetivas e sexuais, e os
Nos temas históricos, as reflexões sobre essas valores morais adquiriram ao longo da História.
abordagens passaram a refletir o anseio de Alguns aspectos desses questionamentos
pesquisadores preocupados em questionar sociais e culturais e sua influência sobre o
surgimento de novas propostas teóricas, bem como
posturas metodológicas sobre o conhecimento e a
escrita da História, são considerados neste artigo.
(*) Doutora em História Social pelo IFCH/UNICAMP.

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Nesse caminho, é delimitado o posicionamento crítica cultural, teórica e epistemológica à elabora­


teórico adotado, principalmente no que diz respeito ção, à escrita e ao discurso do modelo iluminista.
ao estudo de gênero, utilizado como referência para Originadas em lugares diversos e com enuncia­
a análise das concepções de feminino e de masculi­ dos diferenciados, tais análises chamam a atenção
no no universo popular pompeiano. Por ser um para o uso do método histórico como representante
tema de análise muito recente, envolto em um de uma ótica capitalista e industrial, fundamentada
efervescente e amplo debate, é apresentado um na imagem de progresso e da superioridade dessas
breve histórico de sua convergência com as sociedades. O saber histórico aparece como o
reflexões feministas e os elementos de sua abordagem resultado dessa visão, propagada por meio de
contemplados para o desenvolvimento deste texto. idéias universais dadas pelo resgate de contextos
históricos; a existência de sujeitos universais como
“a mulher” “o homem” “o povo”; além da crença
R eflexões teóricas na objetividade do discurso científico e na onisciên-
cia do narrador, projetando uma imagem de
O que é História? De que maneira é produzido autoridade à análise como se fosse a própria
o conhecimento histórico? Questionamentos como recuperação do passado.1
esses têm freqüentemente acompanhado os Nele, as sociedades anteriores eram vistas
historiadores na análise histórica e, nas últimas como etapas de uma evolução programada e
décadas, pode-se perceber que propostas apre­ destinada a gerar o homem moderno. Não todo e
sentadas tanto por historiadores, como filósofos, qualquer homem, mas aqueles que “verdadeiramen­
sociólogos, antropólogos e literatos, têm contribuído te” faziam e ocupavam o espaço definido como o
para se fazer mais claro um entendimento sobre eles. da história (social e, por extensão, acadêmica), ou
Gostaria de iniciar essa discussão com estas seja, o político e o econômico, portanto, os
duas questões postas por Foucault: Quem somos imperadores, os militares e os grupos dominantes,
nós hoje? O que significa pensar a nossa atualida­ considerados os detentores do poder e definidores
de? Foucault, em Q 'est-ce que les Lumières? do curso da História. Um dos aspectos salientados
(1984), procura refletir sobre essas questões já por interpretações críticas é como esses estudos
levantadas em um texto, de mesmo título, publicado sobre o passado e os dos aspectos enaltecidos
por Kant em 1784. Considerado por Foucault como as guerras, os expansionismos territoriais, os
como o texto inaugural da Modernidade, inovador conceitos de cultura dominante e dominada e de
em sua reflexão histórica naquele período, Kant superioridade das elites masculinas caracterizam
esboça uma resposta ao que definia como não o seu resgate, mas olhares e versões sobre ele,
Modernidade ou Período das Luzes. Define-a a partir de enfoques e perspectivas que garantem às
como uma atitude mais do que um período da sociedades ocidentais capitalistas a manutenção de
história, sendo esta identificada em uma maneira seu status quo.
diferente de pensar, de sentir, de agir e de se Os inúmeros questionamentos e discussões
conduzir em relação ao homem do passado realizados em tomo do conhecimento histórico e a
(Foucault 1984: 568). O espírito da modernidade grande profusão de métodos e propostas teóricas
permitiria o uso livre e público da razão pela alternativas acabaram gerando tempos de incerte­
humanidade, a conquista de sua maioridade por zas e crises epistemológicas na Ciência Histórica,
meio da racionalidade e sua autonomia em relação como disse Chartier nos anos setenta (1994: 100).
à superstição e à dependência religiosa (Foucault Desde então, não se tem um conceito único do que
1984: 562,568,571). Por meio dessa interpretação, seja História, nem as direções definidas para fazê-
o saber histórico passava a envolver concepções
absolutamente centralizadas em explicações racionais
e objetivas da realidade, ocasionando a sua redução
a conceitos rígidos e padronizados, a verdade. ( 1) Há uma ampla bibliografia crítica às formulações
Como fez Kant no final do século XVIII, nas teóricas da narrativa tradicional e do repensar historiográfico,
dentreaqual menciono: Thompson 1981;Veyne 1982;
últimas décadas, muitos historiadores e filósofos
Castoriades 1982; Foucault 1984; White 1997; J. Schmitt
têm se dedicado a repensar o momento presente, a 1990; R. Chartier 1994; R Joyce 1995; M. Certeau 1999; D.
realizar inúmeros questionamentos e propor ampla Fowler 2000 e M. Rago, R. Gimenes 2000.

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Ia, e uma multiplicidade de estudos passou a realçar perspectivas para pensar o nosso m omento e
outras maneiras de se conceber o conhecimento e a questionar as razões que induziram as conotações
escrita da História. construídas sobre o passado (White 1994:62). Uma
Diversos aspectos desses novos questionamentos História vista pelo ângulo proposto por David Harían:
e de suas implicações teórico-metodológicas
que não diga respeito a autores mortos, mas
orientam os rumos deste estudo. Partilho, com tais
a livros vivos, não a um retorno de escrito­
questionamentos, a idéia de que os fatos históricos
res antigos a seus contextos históricos, não
não estão prontos para serem descobertos e
à reconstrução do passado, mas fornecendo
revelados em uma seqüência contínua, mas que são
um meio crítico pelo qual os trabalhos
definidos, segundo uma formulação do historiador e
valiosos do passado possam sobreviver a
interpretados por ele (Veyne 1982: 53; Chartier
seu passado de modo a falar-nos sobre
1990: 79; Barthes 1988: 156; Joyce 1995). Como
nosso presente (Harían 2000: 62).
o “fato” histórico não é concebido como um
acontecimento, a ser encontrado em algum lugar do Sim, olhar para o passado a partir de reflexões do
passado, também não é possível dizer “o que presente, sob a influência de diversos questionamentos
realmente aconteceu”, na medida em que é o pelos quais tem passado a ciência histórica, dos
historiador quem elege o seu tema e constrói as quais alguns aspectos mais diretamente relaciona­
suas verdades parciais. O objetivo não é produzir dos a este estudo estão sendo apresentados. Parto
um conhecimento absoluto, verdadeiro e definitivo de uma preocupação em confrontar discursos
do assunto proposto, mas oferecer interpretações historiográficos contemporâneos sobre a sexualida­
que sejam utilizadas como chaves de uma caixa de de de populares romanos, com dados advindos de
ferramentas (Ewald 1993:26), que auxiliem as interpretações dos grafites pompeianos. As
análises dos temas investigados por meio de seus indicações parietais sexo-amorosas, além da
pontos em comum ou de seus embates. comparação acima mencionada, permitem sugerir
A intenção não é fazer uma meta-história, nem outras referências de feminino e de masculino para
a preocupação em compreender objetivamente aquele universo. Com essa preocupação de uma
“toda” a realidade social analisada. Caminha-se análise de gênero, a seguir é apresentado o
para a microhistória, cuja proposta é penetrar as significado adotado para esse conceito.
tensões sociais por meio da história de uma pessoa,
de um grupo ou de algum acontecimento, e destacar
o heterogêneo, o local e o específico. Estou em Relações de gênero: uma definição
sintonia com o conceito de conhecimento histórico
como um discurso subjetivo, histórico e político.2 A abordagem do sistema sexo/gênero, que
Subjetivo e histórico porque os valores e as trata da apreensão das relações de gênero, por
experiências que me identificam como ser humano e meio de estudos sobre comportamento ou repre­
pesquisadora interferem na escrita do texto que sentações da sexualidade, ainda é muito recente na
produzo; e político, porquanto a escolha do tema pesquisa histórica, como enfatiza Skinner (1997:3).
pesquisado não é aleatório, mas visa a questionar No estudo da Antigüidade, a questão tem sido
uma dada situação. A aceitação da História como tratada principalmente pela historiografia de língua
um discurso abre a possibilidade de se questiona­ inglesa, cuja anáüse vincula discursos sobre
rem os motivos que levaram à construção de sexualidade, articulação de gênero e o lugar social.3
diversas acepções de passado. Trata-se de um A análise de gênero utilizada para os estudos de
olhar sobre povos que já viveram, um olhar que sociedades antigas ganha maior destaque a partir
não tenha um fim em si mesmo, ou seja, que não se
restrinja a saber “o que aconteceu”, mas que ofereça
(3) O livro organizado por Hallett e Skinner sobre
Sexualidades Romanas é um bom exemplo desse tipo de
análise. Por meio de discursos como os da medicina, das leis
(2) Cf. Jones 1997 e Funari, Hall, Jones 1999. Como e da literatura, os autores apresentam variados ângulos da
escreve Saffioti, “aceitou-se o engajamento do historiador construção da imagem de masculino e de feminino a partir
em sua contemporaneidade e a relativização de sua de posturas sexuais estabelecidas entre as elites romanas
objetividade” (1992:45). do início do Império. Cf. Hallett e Skinner 1997.

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dos anos de 1990, mas é ainda muito discutida e influência e participação nas esferas de poder.
ambígua para aqueles que desejam enveredar por Ampliaram-se os estudos sobre as mulheres
essa área.4A idéia de gênero surgiu durante a romanas, principalmente daquelas pertencentes a
década de 1980, no bojo das epistemologías grupos aristocráticos. Um número significativo de
feministas, e tem perpassado diversas áreas do documentos como moedas, inscrições, estátuas e
conhecimento como a Psicanálise, a História, a tumbas passou a ser utilizado como evidências da
Lingüística, a Antropologia e a Sociologia, dentre participação de muitas delas no meio público.
outras, com extensas perspectivas de análises. Estudo mais específico sobre mulheres não
Já as abordagens feministas, amplamente aristocráticas, que merecem especial atenção nesta
discutidas nas últimas três décadas, colocaram em pesquisa, é o trabalho de Michele D ’Avino
debate o papel das mulheres na História, procuran­ intitulado Donna a Pompei (D ’Avino 1964). A
do compreender as diferenças instituídas entre os obra é baseada em evidências epigráficas, inscri­
sexos e as relações de poder estabelecidas entre ções e grafites, encontrados na cidade de Pompéia,
eles. Até os anos sessenta, grande parte da oferecendo informações gerais sobre a participação
historiografia e, de maneira geral, a que tratava da de pompeianas na vida pública da cidade. A sua
Antigüidade, pouca atenção destinou às mulheres, valiosa contribuição está na apresentação de
pois o interesse corrente estava nas cenas de atividades desempenhadas por aquelas das “classes
guerras e nas disputas políticas, espaços nos quais baixas” - plebéias, livres e escravas - em suas
“elas” pouco apareciam (Perrot 1989: 9-18). As atividades de trabalho e na política local, apoiando
exceções dão-se em alguns estudos relacionados às candidatos em escrutínios locais.
mulheres chamadas célebres como, por exemplo, a Das diversas pesquisas sobre mulheres
história de Messalina, de Cleópatra, de Lívia ou trabalhadoras romanas, publicadas a partir daquele
Penélope, cujo interesse está na relação que momento, destacam-se as análises inovadoras de
possuíam com homens famosos ou pelo poder que Le Gall (1970) eTreggiari (1975 e 1976), cuja
detinham (López 1994: 37-40). proposta foi reunir informações sobre os ofícios
Essas discussões feministas vieram acompa­ desempenhados com o status social e familiar dessas
nhadas de uma recolocação dos princípios teóricos trabalhadoras. Em 1981, Natalie Kampen publica
das Ciências Humanas, até então pouco atentos às Image and status: Román working women in
experiências femininas. Alargou-se o conceito de Ostia. A autora utiliza imagens de trabalhadoras
documento histórico e, além dos tradicionais esculpidas em relevos de Ostia, para examinar
escritos oficiais, também ganharam valor documen­ concepções apresentadas a respeito delas, em uma
tal a iconografia, a numismática e muitos outros discussão inicial de classe e gênero. Ainda nos anos
vestígios arqueológicos, permitindo, desde então, 80, Bemstein publicou The public role ofPompeian
“trazer para a História” as experiências e os olhares Women, em que destacou a participação feminina,
femininos. Sobre a História Antiga Romana, esses de diferentes estratos sociais, na vida pública e social
estudos têm permitido rever as áreas de atuação de Pompéia. Desenvolve o trabalho apoiado em
tradicionalmente atribuídas às mulheres, bem como documentos epigráficos e arqueológicos, que são
repensar conceitos como “público” e “privado”, particularmente importantes para o conhecimento
formas de atuação política e os fundamentos, do mundo do trabalho urbano no âmbito popular.
composição e participação dos grupos sociais nas
diversas esferas da organização social. O movimento feminista impulsionou os estudos
É possível perceber, nos estudos sobre sobre as mulheres em diversos períodos históricos,
mulheres, publicados no período de 1960 até mas é com a análise das relações de gênero que a
1980, o forte objetivo de trazer à luz quem eram e questão feminina passa a ser discutida em confronto
quais as atividades e papéis sociais desempenhados com a masculina. Com a influência das reflexões
por elas na sociedade em que viviam, juntamente pós-modemistas e pós-estruturalistas, e a valoriza­
com discussões mais particularizadas sobre a sua ção do diverso e do heterogêneo no interior das
sociedades, as discussões das epistemologias
femininas ganharam complexidade, e a idéia de uma
(4) Sobre eles ver Costa, Bruschini 1992; Rabinowitz, essência feminina ou masculina tomou-se insuficien­
Richlin 1993; Scott 1995; Pedro, Grossi 1998. te para justificar os diferentes interesses e compor­

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tamentos femininos e masculinos de grupos sócio- sociedades que constroem o significado de gênero
culturais diversos. Passou-se a questionar, dessa em uma associação direta com o sexo biológico, fato
maneira, o uso dos termos “homem” e “mulher” até pouco tempo aceito, sem discussão, em diversas
como categorias fixas e de sentidos universais sociedades contemporâneas, e ainda fortemente
estabelecidos estritamente por uma determinação presente em seu imaginário, como é o caso da nossa.
física. Como escreve Saffioti: Mas os atributos que definem o masculino e o
feminino não são nem foram sempre idênticos (Sena
os fa to s biológicos nus da sexualidade não
1992:31).
falam p o r si próprios; eles devem ser
expressos socialmente. Sente-se o sexo como
É notório que as reflexões de gênero são
individual ou, pelo menos, privado, mas
permeadas pela perspectiva do olhar crítico
estes sentim entos sempre incorporam
feminista (Machado 1992a: 9), feroz combatente
papéis, definições, símbolos e significados
das desigualdades sociais entre masculino e
dos mundos nos quais eles são construídos
feminino das sociedades contemporâneas, mas se
(Saffioti 1992: 187).
distanciam dessa perspectiva quanto à aceitação
Não que a questão seja simples ou fácil de desse modelo social binário - homem e mulher. As
optar entre uma inclinação “biologizante”, na qual análises de gênero ampliaram o campo da discus­
as definições de feminino e de masculino são são e acirraram os debates em tom o da construção
dados pelas características físicas, ou “culturalista” dos conceitos de “feminino” e “masculino”
analisados em função de cada sociedade. Os apresentando diferentes e mesmo divergentes
avanços nas pesquisas biomédicas permitem abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de
perceber, por exemplo, que determinadas doenças gênero têm sido formulados e, polemicamente,
acometem com mais freqüência o corpo feminino, utilizados em diversas áreas do conhecimento.6
enquanto outras, o m asculino; ou ainda, que Sem a intenção de resumir ou simplificar em
determinados m edicamentos, testados e aperfei­ demasia esse intrincado debate, aqui são apresen­
çoados no físico de homens, não surtem os tados os pressupostos de gênero que estão sendo
mesmos efeitos em mulheres, deixando em considerados nesta pesquisa. O primeiro deles trata
evidência o quanto é discutível a interferência, ou da constituição histórica do que seja característico
não, do aspecto fisiológico na caracterização de à feminilidade e à masculinidade,7possibilitando
cada um deles. Certamente esse princípio dual compreender como os comportamentos que os
existe e é a prim eira referência de classificação, distinguem são influenciados pelas relações culturais
como foi indicado anteriormente. Entretanto, ainda articuladas entre eles. Por essa razão, os variados
que resguardadas as devidas especificidades grupos sociais, baseados em seus valores, concei­
físicas, as contribuições de gênero são importantes tos e visões de mundo, formulam diferentes vínculos
na medida em que vêm conferir à diferença sexual e interpretações para o que seja característico de
não apenas um parâmetro exclusivo e natural da cada um deles.
distinção entre eles. Para além das essências, os Uma outra dimensão está na atenção sobre as
estudos de gênero abordam os variados significa­ construções discursivas constituídas no interior das
dos que estes conceitos adquirem quando sociedades com o propósito de justificarem as
considerados o momento histórico, os grupos diferenças sexuais. Formuladas entre os grupos
sociais e os valores culturais em que foram e são sociais, as representações de si e do outro são
formulados. alicerçadas em discursos que evidenciam marcas
Isso tem sentido na medida em que, em
diferentes tradições culturais, as noções das identida­
des - homens ou mulheres - são variadas e podem,
ou não, estar relacionadas ao aspecto físico.5 Há (6) Como exemplo, pode-se citar Costa e Bruschini 1992;
Pedro e Grossi 1998 e Bessa 1998, onde diversas áreas
apresentam a complexidade e diversidade de posicionamentos,
tanto no Brasil como no exterior.
(5) Sobre diferentes construções culturais entre sexualida­ (7) Exemplos da teorização sobre as questões de gênero
de e gênero em sociedades contemporâneas, conferir os podem ser vistos em Scott 1988/1994; Tilly 1990; Costa,
instigantes artigos que estão em Caplan 1996. Bruschini 1992eRago 1998.

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das tensões, dos conflitos e das contradições de coloca em discussão a idéia da supremacia do
originadas nas relações sociais em que são poder do “homem” sobre a “mulher”, na medida em
articuladas (Scott 1995: 86-87; Heilborn 1992: que a noção generalizante de imposição masculina
93; M ontserrat 2000: 164). Isso significa que as não pode dar respostas satisfatórias à diversidade
palavras “homem” e “mulher”, em si mesmas, não de comportamentos atribuídos tanto a um como a
permitem antever as condutas e os papéis outro. Com relação a essa questão, considero
vivenciados por cada um deles, se não identifica­ pertinente a observação de Lia Machado (1992b:
dos os valores culturais e as relações que lhes dão 35) sobre a escolha que os estudiosos de gênero
sentido, assim como as divergências e os embates podem fazer entre adotar uma postura que estabe­
sociais e discursivos estabelecidos entre os grupos leça a dominação masculina e obscureça a percep­
sociais. ção de diferentes poderes, muitas vezes instalados
Dessa maneira, com a proposta de analisar os no feminino e não no masculino, ou definir que as
significados de feminino e masculino, caracterizados relações de gênero podem ser relações de poder,
em relações sociais específicas, faz-se importante mas, também, relações complementares, recíprocas
refletir sobre dois aspectos fundamentais: primeiro, ou de prestígio.
a idéia de imposição do poder do homem sobre a Essa observação é particularmente significativa
mulher, denunciada pelo feminismo; segundo, a para a análise do mundo romano. Durante o
investigação que leva a perguntar se as relações de Principado (séculos I e II d.C.), o vasto território
gênero devem, necessariamente, ser fundamentadas que compunha a sociedade romana circundava
em relações de poder. todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras
Com a influência das reflexões pós-modemis- regiões, com povos diversos, anexadas ao longo do
tas nos estudos feministas e de gênero, a aceitação processo de conquista, como pode ser observado
de diversos perfis de feminilidade e de masculinida­ no mapa seguinte:

Fig. 1 - Províncias do Império romano no início do Século 11 d. C. (Huskinson 2000: xi).

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A com posição desse imenso império 96). As profundas mudanças pelas quais teria
em aranhado de latinos, gálatas, egípcios, héticos, passado a sociedade rom ana com a transição da
germ anos, dácios, gregos, entre tantos outros, R epública para o Império, a participação de
denotam diversidades jurídicas, econômicas, filhos(as) nos negócios do pai, a possibilidade de
étnicas, de idade, sexo, profissão e língua que aqueles recusarem o esposo(a) escolhidos pelo
acabam sendo camufladas e sim plificadas pela pai, quando este desconsiderava o estatuto de
expressão “povo rom ano” Variedades que cidadania ou a condição m oral dos eleitos, o tipo
interferiam no lugar social ocupado pelos de casamento efetuado, entre outros pormenores,
diferentes indivíduos e que são elementos seriam alguns dos aspectos que influenciavam as
im portantes a serem considerados pelo pesquisa­ relações entre pais e filhos.
dor interessado em uma análise de gênero e de Outro aspecto a ser considerado é a atenção
poder (Funari 1995: 180; Skinner 1997: 13; dada às variações ocorridas segundo o momento
M ontserrat 2000: 165). Isso não significa histórico em que se constituíam. Alterações nas leis,
desconsiderar o caráter patriarcal da sociedade durante o final da República e início do Império,
rom ana e o m onopólio das relações públicas e atestam mudanças na condição feminina. O próprio
dos cargos políticos por determ inados homens, Augusto efetuou uma série de revisões nas leis
mas é preciso cuidado em não transferir, para o matrimoniais promulgadas em 18 a.C. (lexlulia de
passado, sentidos atuais, form ulados para adulteriis coercendis e lex Iulia de m aritandis
diferentes conceitos. Essa transposição e a ordinibus), dentre elas, as que continham implica­
conclusão de uma inferioridade e opressão social ções na maternidade e na paternidade. Com elas
feminina romana, tomada como “natural” em uma ficou estabelecido que a romana livre, casada ou
sociedade “falocêntrica” , há anos vem sendo não, que passasse por três gestações (para as
questionada. libertas ou livres itálicas, quatro, e para as provinci­
A releitura de obras literárias e o uso de outras ais, cinco), tendo os filhos sobreviventes ou não,
evidências históricas, como as fontes epigráficas, estaria isenta do controle dos agnados sobre elas.
arqueológicas e iconográficas, têm possibilitado Legalmente, essas mulheres deixavam de estar sob
altercar essa transposição de valores e situações o poder paterno e passavam, elas próprias, a gerir
atuais para a Antigüidade e refletir sobre os o seu patrimônio, situação que se estendeu
significados que conceitos como, por exemplo, posteriormente a todas as outras, com exceção do
paterfam ilias, política, espaço público e privado dote, administrado pelo esposo enquanto estivesse
poderiam ter adquirido na sociedade romana. a mulher casada.8
Autores como Thomas (1990: 136) e Grimal Quanto à idéia do confinamento feminino ao
(1991: 62) analisaram a situação jurídica de lar, dedicada a fiar a lã e administrar a casa e,
mulheres livres, filhas ou esposas de cidadãos e portanto, distante da vida pública e do centro das
defendem como a menoridade civil feminina decisões políticas e de poder, pesquisas recentes
rom ana e a sua subordinação à autoridade do pai ajudam a repensar a questão. Essa imagem
não se restringiam apenas às mulheres. Em uma atribuída a uma mulher da alta sociedade, casada
familia, tanto elas quanto os seus irmãos estariam (matrona), apresentada na literatura e de acordo
subm etidos ao poder do pai, pois o cidadão com a tradição do mos maiorum, idealizada
romano adquiria personalidade civil autônoma, durante a República, manteve-se em nível
deixando o seu estado de dependência legal, discursivo embora já convivendo com uma
somente ao ser designado como o responsável redefinição dos papéis sociais femininos. Sobre
pela família, título conquistado após a morte do essa questão, dois argumentos podem ser mencio­
patriarca. Mas quais seriam os níveis dessa nados.
autoridade paterna denominada, em latim, de O primeiro deles diz respeito à caracterização
patria p o testa sl A análise de fontes literárias e da casa romana como um espaço privado, destina­
jurídicas romanas, apresentada porTreggiari, do ao descanso e restrito à convivência familiar,
expõe como nós criamos uma imagem rígida e
absoluta do poder paterno de um cidadão romano
sobre os seus filhos e filhas, que não é consensual (8) Sobre essa questão, ver Suetônio, Diuus Augustus, 34,
nem mesmo entre autores romanos (Treggiari s/d: em Vite dei Cesari. Cf., também, Cohen, s/d: 109-10.

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agora discutida sob um ponto de vista arqueológi­ outros, Pomeroy 1978; Cameron, Kuhrt 1983;
co.9 Wallace-Hadrill (1994: 5 e 10), por exemplo, Boatwright 1991: 248-272; Rawson 1995;
considera que no interior dessas casas aristocráti­ Franco 2000: 1269-1278; C antarella 1999a e
cas desenvolviam-se articulações políticas e 1999b; M ossé 1999; M orretta 1999; Dimopoulou
relações de clientelismo com pessoas de diferentes 1999; Hemelrijk 1999).
estratos sociais, recebidos em espaços específicos A cidade de Pompéia guarda inúmeras
de acordo com a sua posição social. Com isso, o evidências materiais da participação feminina de
próprio âmbito da casa integraria as duas extensões diferentes estratos sociais na economia, na vida
e leva a supor que mulheres estavam mais próximas social e no apoio a candidatos em escrutínios locais
de discussões políticas do que o imaginado. (Tanzer 1939;LeGall 1970;Treggiari 1981;
A separação entre as esferas pública e privada Savunen 1995). Uma das mais notáveis de que se
seria também inapropriada para as casas menores tem registro é Eumáquia, mencionada em uma
de Pompéia. Segundo Laurence (1994: 131), era inscrição celebrativa e em uma estátua honorífica
comum as pessoas trabalharem e morarem no encontrada na entrada do grandioso edifício dos
mesmo local, o que fazia com que homens e fu llo n es,10 sede de uma das maiores corporações
mulheres permanecessem juntos grande parte do de Pompéia, da qual era patrona.
tempo, constituindo outros tipos de relações que A representação de Eumáquia com o manto
não correspondem à divisão tradicionalmente sobre o corpo, a divisão dos cabelos, o rosto
estabelecida. Esse estudo de Laurence nos faz harmoniosamente ovalado e sua expressão
pensar que, ou esses homens não participavam das indefinida, com os olhos profundos e sonhadores é,
discussões políticas tanto quanto as mulheres que segundo Étienne e de Franciscis, inspirada em
habitavam e trabalhavam ali, ou que o modelo de modelos estatuários gregos do século IV a. C.,
análise precisa ser revisto para poder compreender comumente retratados em estátuas romanas (de
situações que não se enquadram no molde formula­ Franciscis s/d: 91;Étienne 1971: 153).
do. Os grafites pompeianos com indicações Autores como D ’Avino e Étienne consideram
eleitorais nos convencem da segunda alternativa, que Eumáquia, da gens dos Eumachii, deveria ser
como será mostrado mais diante. uma ativa e afortunada senhora de uma família
O outro elemento está relacionado às proprietária de vinhedos e de indústria de ladrilhos,
mulheres que participavam do denominado espaço da qual se tem referência de outros membros como
público. López aduz que pertencer a um grupo Lucius Eumachius Fuscus (candidato a edil em 32
familiar era fundamental para poder integrar-se à d. C.), Lucius Eumachius Erotus e um Lucius
vida da cidade (López 1994: 45). A participação Eumachius (D’Avino 1964: 33 e Étienne 1971:153).
de mulheres abastadas, identificadas pelo nome de Logo nas colunas de entrada do edifício
sua família, é atestada na sociedade romana por encontra-se a inscrição que explicita a sua condição
meio da política de benefícios e de construções de sacerdotisa pública e patrona da associação dos
públicas; no apoio financeiro a jogos e na distri­ fullones, com a qual contribuiu financeiramente
buição de alimentos; nas relações pessoais, para a construção do edifício:
desenvolvidas por meio do sistema de clientela e
de am icitia\ no patrocínio a corporações de
ofício e no gerenciamento de propriedades
particulares e de negócios familiares (cf., entre (10) Segundo de Franciscis (s/d: 91), este edifício seria
usado para depósito e venda de lã e de tecidos, tese com
a qual Etienne concorda, embora saliente que a suntuosi-
dade do edifício e a notoriedade dos personagens,
(9) Cândida López, em seu estudo sobre as mulheres no representados nas estátuas ali encontradas, parecem-lhe
mundo antigo, considera que se convencionou, na indicar uma certa similaridade com o ambiente do Foro
historiografia romana moderna, estabelecer a casa como Imperial, espaço público destinado ao culto. Como a
símbolo da esfera privada e o fórum como o espaço da inscrição informa sobre a participação de Eumáquia em
política, do poder e da vida pública. Este seria o lugar da sua construção, portanto, de seu caráter privado, a
palavra, da reflexão e do uso da razão entre os “iguais” e exuberância deste edifício parece-lhe um sinal evidente da
como as mulheres não ocupavam os cargos políticos riqueza dessa pompeiana, cuja ostentação também foi
públicos, consideravam-nas marginalizadas e afastadas manifestada no mausoléu que construiu para si mesma e
desse meio. Cf. López 1994: 35-77. para sua família (Étienne 1971: 155).

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FEITOSA, L.M.G.C. História, gênero, amor e sexualidade: olhares metodológicos. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, 13: 101-115,2003.

EUMACHIA L F SACERD PUBE NOM INE


SUO E T M NU M ISTRI FRONTONIS FILI
CHALCIDICUM CRYPTAM PORT1CUS
CONCORDIAE AUGUSTAE PIETATI SUA
PECUNIA FEC1T EADEMQUE DEDICAVIT
(CIL, X, 810)

Eumáquia, filha de Lúcio, sacerdotisa pública,


em seu nome e de seu filho M Numistro Frontão,
fez, com sua pecùnia, a galena do mercado,
um criptopòrtico e vestíbulos em honra à
Concordia Augusta e à Piedade (Augusta).

Etienne apresenta urna interessante leitura sobre a


escolha das palavras utilizadas nesta inscrição: Piedade
Augusta faria alusão aos sentimentos de Tibério para
com sua mãe Lívia, depois de sua enfermidade no ano
de 22 d. C. e Concórdia celebraria a união sentimental
do filho com a sua mãe. Para esse autor, não há dúvidas
de que Eumáquia teria se inspirado naquele modelo de
sentimento familiar, associando ao seu filho a dedicatória
do monumento. Além disso, como sacerdotisa pública,
também deveria render culto a Lívia (Étienne 1971 :
153). O caso de Eumáquia é um dos exemplos da
participação de mulheres abastadas na vida pública da
cidade, atestada por meio desse conjunto de fontes
materiais - inscrição, estátua e mausoléu - que não são
perceptíveis na literatura.

E essa dedicação a res publica, segundo Nicolet,


constituía-se em uma das atribuições essenciais da
cidadania romana (1992:24-30). Essas mulheres
participariam, de uma maneira mais ou menos direta,
das decisões comuns da comunidade, sendo razoável
considerar que a sua participação na organização do
espaço comunitário em que viviam sinalizava uma
integração política nas esferas do poder local.
A atuação feminina também pode ser observa­
da em outra esfera que, até alguns anos atrás, era
considerada como essencialmente masculina:
campanhas políticas. Em Pompéia, foram encontra­
dos cartazes de propagandas eleitorais, denomina­
dos program m ata,n que indicam a presença
feminina no apoio e indicação de candidatos.12
Fig. 2 - Imagem de Eumáquia preservada no Mu­
seu Nacional de Nápoles (de Franciscis s/d: 91).

(11) Inscrições eleitorais pintadas - tituli picti.


(12) A análise das inscrições eleitorais citadas segue, com
algum as variações, as idéias apresentadas no artigo
Nessas inscrições verificam-se apoios tanto de
Sobre o fem inino e a cidadania em Pom péia (Revista
Pyrene, Barcelona, no prelo), que escrevi em parceria com familiares, como o caso de Tédia Segunda pedindo
Fábio Faversani. votos para seu neto L. Popídio Segundo (CIL, IV,

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FEITOSA. L.M.GC. História, gênero, amor e sexualidade: olhares metodológicos. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, 13: 101-115,2003.

7469), como de mulheres de diferentes ocupações poder político por meio da amicitia e clientela.
e condições jurídicas e sociais. Mas essa não é a única possibilidade, pois, como
Cássia e seu marido, Ceriales, pedem voto a foi visto anteriormente, dentre as assinaturas
A. Trébio Valente em uma mesma inscrição (CIL, presentes nos cartazes encontravam-se nomes de
IV, 7669). A menção dos dois nomes parece mulheres de diferentes status sociais, incluindo
indicar que Cássia tinha independência para apoiar libertas e escravas, teoricamente sem possibilidades
um candidato diferente daquele escolhido por seu financeiras para trocas políticas.
marido. Não fosse assim, para que seu nome seria Então, como compreender essa participação
explicitado? Mesmo porque, se o apoio da esposa de mulheres ricas ou não na vida política do
necessariamente acompanhasse o do marido, não município? Autores como Savunen (1995) e Will
precisaria ser mencionado. (1979) sugerem que os programmata podem ser
Aselina, considerada como a chefe de um vistos como uma atividade coletiva da qual
grupo de prostitutas por D ’ Avino (1964:49), mulheres faziam parte como membros ativos,
deixou registrado, juntamente com outras garotas, dando suas opiniões, discutindo política, apoiando
suas indicações aos pleitos locais. Aselina teria a e indicando candidatos e que, talvez, essa partici­
seu cargo Egle (grega), Maria (judia), Esmima pação na organização da comunidade fosse mais
(“exótica”). Ainda há outras, como Palmira importante do que as eleições em si mesmas.
(“oriental”), por exemplo, mas esta a serviço de É certo que em um universo de, aproximada­
Hermes. Aselina apóia dois candidatos a duumviw, mente, 2500 cartazes encontrados em Pompéia,
Esmima, também (CIL, IV, 7863,7864 e 7873).13 apenas 750 possuem o nome da pessoa que está
Um deles coincide e elas fazem uma única inscrição apoiando e, dentre esses, somente 52 apresentam
para manifestar sua preferência por C. Lolio Fusco. nomes de mulheres (Bemstein 1987: 180e
Quanto ao outro candidato, há divisão. Aselina Savunen 1995:195). Seriam números inexpressivos
prefere L. Ceio Segundo, e Esmima, C. I. Políbio. em uma população de cerca de 10.000 habitantes?
Mas nenhuma das duas tem candidato à edilidade. Alguns dirão que sim, entretanto, a importância não
Nesta casa, o apoio a edis ficou por conta de está no número, mas no fato de esses cartazes
Maria e Egle. Cada uma delas, como fica claro, indicarem possibilidade de participação feminina
tinha independência para escolher seus candidatos. jamais imaginada tempos atrás.
Como estas, também deixaram as suas Esses registros históricos certificam possibili­
menções trabalhadoras de tabernas como Polia, dades financeiras e de participação de pompeianas
que apoiou Cn. Cerino Vátia à edilidade (CIL, IV, na organização da cidade e, ainda, a necessidade
368;) e Ferusa, que preferiu L. Popídio Segundo de releituras de seu papel na sociedade romana.
(CIL, IV, 7749). Da mesma maneira fizeram outras Assim, mais do que a aprovação irrestrita de um
mulheres.14 domínio do “homem”, é importante estar atento
E o que justificaria essa participação em aos variados exemplos de atuação social e de
campanhas eleitorais se não há indícios da possibili­ papéis desempenhados pelos “masculinos” e os
dade de votarem ou serem votadas? Procurando “femininos”, o que propicia uma abertura para o
analisar algumas razões que levariam mulheres a conhecimento do heterogêneo, do diverso e da
apoiarem publicamente candidatos, uma justificativa complexidade que envolvia as relações sociais e
poderia estar na possibilidade de elas exercerem históricas romanas.
Dessa maneira, como diz López:
es fundam ental considerar la existencia de
sociedades donde los roles sociales no se
(13) Para Delia Corte, em comentários apresentados abaixo
das inscrições, esses nomes estariam associados às corresponden en su atribución sexual a los
mulheres de condição servil. Mas a condição de cada uma modelos de dominio o sumisión con los que
delas só pode ser identificada quando mencionada na se identifica en los tiempos modernos, e
própria inscrição. incluso, en sociedades definidas claramente
(14) Cf., entre outros exemplos, Júnia (CIL, IV, 1168), como patriarcales pueden existir perfiles no
Epídia (CIL, IV, 6610) e Sutória Primigênia (CIL, IV, 7464),
tan definidos en su atribución como nos
na campanha de 79; Comélia (CIL, IV, 3479), em 77;
Caprásia (CIL, IV, 171), em 76; e Víbia (CIL, IV, 3746), cujo imaginamos desde nuestra perspectiva
candidato não foi possível discernir. actual (López 1994: 44).

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FEITOSA, L.M.GC. História, gênero, amor e sexualidade: olhares metodológicos. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, 13\ 101-115,2003.

Gênero e estudos das m ulheres Im portantes reflexões teóricas são apresen­


tadas e um a preocupação central perm eia os
É tênue o limiar entre os estudos de gênero e textos, a busca pelos diversos femininos. Assim,
os estudos das mulheres desenvolvidos para a há um a m udança de enfoque - da m ulher para as
Antigüidade romana. Logo no início da década de m ulheres - e o destaque para as diferenças
1990, foi publicada uma coleção de grande existentes entre elas, m arcadas pela percepção
prestígio, inclusive no Brasil, chamada Histoire de de classes, races, ethnicities and sexualities
la Fem m e,15 cujo primeiro volume foi dedicado à (Rabinowitz 1993: 11). Em bora haja o realce
Antigüidade. Sob a influência da Escola dos para as relações de género com o urna das
Annales, e com o objetivo de fugir das representa­ categorias de análise, ainda não é perceptível
ções universais sobre as mulheres, Georges Duby e uma clara articulação entre masculino e feminino
Michelle Perrot propõem uma investigação de nos estudos aí apresentados.
diferentes aspectos da vida feminina no mundo Nessa mesma linha, segue o Primeiro Con­
ocidental, a partir do contexto de uma história gresso Internacional sobre Mulheres na Antigüidade
relacionai, preocupada com a sociedade como um (Women in Antiquity), realizado em Oxford,
todo e, portanto, também com os homens. Desta- também em 1993.16 Consistentes críticas teóricas
ca-se a busca pela diversidade de papéis e poderes são apresentadas aos métodos tradicionais de
femininos e, no último capítulo, Pauline Pantel interpretação histórica e à utilização de outras
apresenta uma série de reflexões geradas pela fontes que não as literárias, e são indicadas como
História das Mulheres e uma rápida trajetória de importantes para impulsionar estudos de diferentes
uma história do gênero. Ela também considera esse temas sobre o universo feminino. Com exceção do
caminho como categoria analítica útil para as artigo de Lin Foxhall, que parece mais próximo de
necessidades de formulações teóricas geradas com uma discussão de gênero, os demais estão centrali­
a propagação dos estudos de casos, quando bem zados na esfera da mulher. Mesmo assim, as
especificado o sentido dado ao termo gênero, na editoras do livro Hawley e Levick enfatizam como
grande maioria das vezes empregado de forma as discussões desenvolvidas em tomo da temática
geral e vaga para designar simplesmente o fato de feminina teriam levado a um amadurecimento das
existirem homens e mulheres. O que lhe confere questões de gênero:
apenas um sentido descritivo, neutro e consensual The theme o f the conference “Women in
(Pantel 1993:595-6). Antiquity ” New Assessm ents had two
Em 1993, foi publicado Feminist theory and sources: the changes that a theme naturally
the classics (Rabinowitz e Richlin 1993), contem­ undergoes when it is treated over a number
plando aspectos mais teóricos e apresentando o f years, and our own awareness that the
severas críticas aos métodos de pesquisa ainda emphasis o f the seminar was also changing,
predominantes sobre o Mundo Antigo: and rightly, away fro m “wom en" towards
The fa c t is that classics has, w ith fe w “gender studies” (Hawley e Levick 1995: xiii).
exceptions, been anti-theory in general and Ainda no campo das representações dos
anti-fem inist in particular. ... certain femininos, no ano de 1998, Sandra Joshel e Sheila
questions tend not to be asked, fo r example, M umaghan editam o livro Women & slaves in
questions about social class, gender, Greco-Roman culture. Um aspecto inovador dessa
ethnicity, the relationship between author obra é o número de reflexões em tom o da condi­
and audience, or outside influences on the ção de mulheres escravas, representadas sob
author (Rabinowitz 1993: 1 e5). variados ângulos em obras da literatura greco-
romana. Em direção às discussões de gênero, dois
artigos apresentam a questão em análises sobre a
construção da identidade na oratória romana

(15) Publicação italiana de Duby e Perrot (Orgs.), Storia


delle Donne, 1990. Logo após três anos saiu a tradução
portuguesa História das Mulheres no Ocidente. A (16) Os textos apresentados foram publicados posterior­
Antigüidade. mente por Hawley e Levick.

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FEITOSA, L.M.GC. Historia, gênero, amor e sexualidade; olhares metodológicos Rev do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, 75: 101-115,2003.

(Connolly 1998) e em símbolos de gênero e status Assim, a observação feita por Pantel, anos
na casa romana (Saller 1998). atrás, sobre a importância de se especificar a
Concepções do feminino e relações de gênero, função de gênero no conjunto das relações sociais
nos estudos da Antigüidade, são questões que e as contribuições de seu estudo para o conheci­
ainda caminham muito próximas e esse aspecto mento histórico, ainda é um grande desafio para os
também pode ser observado aqui no Brasil. historiadores interessados nesse tipo de análise.
Apresento dois exemplos sobre isso: o primeiro Entretanto, ainda que muito ligado ao exame do
deles é o dossiê Gênero e História, apresentado na feminino, são perceptíveis, tanto no Brasil como no
revista História: questões e debates, no qual se exterior, avanços nas caracterizações de feminino e
verifica um predomínio das discussões na questão de masculino na Antigüidade, sob o ângulo de
da representação do feminino ou do masculino, mas gênero e em acordo com as posições sociais
com pouca articulação entre eles, o que seria ocupadas por cada um.
peculiar da análise de gênero. O mesmo acontece
no volume Amor, desejo e poder na Antigüidade:
relações de gênero e representações do fem inino Agradecimentos
organizado por Funari, Feitosa e Silva (2003). O
nosso objetivo inicial era o de publicar um livro no Agradeço as contribuições de Pedro Paulo
qual se vislumbrassem articulações entre os A. Funari, André L. Chevitarese, M aria Isabel
femininos e os masculinos em diversas sociedades D ’A. Fleming, João B atista P. Toledo, Norm a
da Antigüidade, por meio das discussões de M usco M endes, Renata S. G arraffoni e Fábio
gênero, mas o número de textos apresentados com Faversani. Também sou grata à FAPESP pelo
destaque para as representações do feminino fez apoio financeiro que viabilizou essa pesquisa. A
com que o título do livro fosse adequado para responsabilidade pelas idéias apresentadas recai
contemplar, também, esse enfoque. apenas sobre mim.

FEITOSA, L.M.G.C. History, gender, love and sexuality: methodological views. Rev. do Museu de
Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 13: 101-115,2003.

ABSTRACT: This paper uses a gender approach to study ancient Roman history
and discusses theoretical issues on writing and historical knowledge. Taking into
account gender and love relations, the paper tries to define what is feminine and
masculine. To do that, studies on the recent historiography relating to the Roman world
are carried out, particularly studies on women.

UNITERMS: History theory - Gender studies - Love - Sexuality.

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Recebido para publicação em 10 de janeiro de 2003.

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