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Universidade de Passo Fundo

Programa de Pós-Graduação em
Letras
Disciplina: Conceitos e Objetos de
Investigação Linguística e Literária
Profa. Dra.: Patrícia S. Valério
Acadêmica: Marina de Oliveira

BENVENISTE, E. Comunicação animal e linguagem humana. In.:


_______. Problemas de Linguística Geral I. São Paulo: Ed.
Naciona, Ed. da Universidade de São paulo, 1976, p. 60-67.

COMUNICAÇÃO ANIMAL E LINGUAGEM HUMANA

PARA COMEÇAR

Sabemos que foi impossível até aqui estabelecer que os animais disponham, mesmo sob
uma forma rudimentar, de um modo de expressão que tenha os caracteres e as funções
da linguagem humana. (p. 60)
As condições fundamentais de uma comunicação propriamente linguística parecem faltar
no mundo dos animais. (p. 60).
Tudo leva a crer que as abelhas têm um modo de comunicar-se.

AS ABELHAS

Uma abelha operária colhedora encontra durante um voo uma solução açucarada -> a
abelha volta depois a sua colmeia -> outro grupo vai exatamente na mesma flor, mas a que
veio antes não está entre elas -> a abelha indicou o lugar as companheiras... Mas como?
(p. 61).
Karl von Frish observou que as abelhas executavam "danças" e que essas eram o momento
essencial do processo e do ato da comunicação.
-> Uma consiste em traçar círculos horizontais da direita para a esquerda, depois da
esquerda para a direita;
-> A outra, acompanhada por uma vibração do abdômen (dança do ventre), imita a figura
de um 8. (p. 61).
A dança em círculos e a dança em oito evidenciam-se, pois, como verdadeiras mensagens
pelas quais a descoberta é assinalada na colmeia. (p. 62).
Significação das danças:
# Se reportam como uma descrição da distância que separa o achado (néctar) da colmeia:
* A dança em círculo anuncia um local próximo (raio de 100 metros da colmeia);
* A dança em oito (e vibrando) indica um ponto que se situa em uma distância superior
(além de 100 metros até seis quilômetros);
# Essa mensagem comporta duas indicações distintas - uma sobre a distância, outra sobre
a direção:
* A distância está implícita pelo número de figuras desenhadas num tempo determinado
(a abelha descreve dez "oito" completos em 15 segundos - distância de 100 metros;
quatro e meio para um quilômetro; dois para seis quilômetros);
* É o eixo do "oito" que assinala, em direção ao sol, indicando o ângulo que o local da
descoberta forma com o sol. (p. 62-63).
Pela primeira vez pode-se imaginar o funcionamento de uma "linguagem" animal -
ajudando a definir, por semelhança ou contraste, a linguagem humana. (p. 64).
SEMELHANÇAS

Até aqui encontramos as próprias condições sem as quais nenhuma linguagem é possível -
a capacidade de formular e de interpretar um "signo" que remete a uma certa
"realidade", a memória da experiência e a aptidão para decompô-la.
Esses  processos põem em ação um simbolismo pelo qual dados objetivos são transpostos
em gestos formalizados, que comportam elementos variáveis e de "significação"
constante.
Além disso, a situação e a função são as de uma linguagem, no sentido de que o sistema é
válido no interior de uma comunidade determinada e de que cada membro dessa
comunidade tem aptidões para empregá-lo ou compreendê-lo nos mesmos termos. (p. 64).

DIFERENÇAS

A mensagem das abelhas consiste inteiramente na dança, sem intervenção de um aparelho


"vocal", enquanto não há linguagem sem voz.
Situação da comunicação: A mensagem das abelhas não provoca nenhuma resposta do
ambiente, mas apenas uma certa conduta, que não é uma resposta. Ou seja, as abelhas não
conhecem o DIÁLOGO, que é a condição da linguagem humana.
A abelha não constrói uma mensagem a partir de outra mensagem - o caráter da
linguagem é o de propiciar um substituto da experiência que seja adequado para ser
transmitido sem fim no tempo e no espaço. (p. 65).
É evidente o contraste com o ilimitado dos conteúdos da linguagem humana.
Na linguagem humana, o símbolo não configura os dados das experiências, no sentido de
que não há relação necessária entre a referência objetiva e a foma linguística.
Um último caráter da comunicação das abelhas que se opõe formalmente às línguas
humanas: a mensagem das abelhas não se deixa analisar. A linguagem humana caracteriza-
se justamente aí: cada enunciado se reduz a elementos que se deixam combinar
livremente segundo regras definidas, de modo que um número bastante reduzido de
morfemas permite um número considerável de combinações - de onde nasce a variedade da
linguagem humana que é a capacidade de dizer tudo. (p. 66).

POR FIM

O termo mais apropriado para definir o modo de comunicação das abelhas, não é
linguagem, mas código de sinais.
Todos os caracteres resultam disso: a fixidez do conteúdo; a invariabilidade da mensagem;
a referência a uma única situação; a natureza indecomponível do enunciado, e sua
transmissão unilateral.
Porém, ajuda a compreender a linguagem humana. (p. 67).

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