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APRECIAÇÃO CRÍTICA LIVRO “ARQUIPÉLAGO” DE JOEL NETO

Nunca fui grande aficionado de grandes leituras e,


honestamente, penso que ao longo da minha vida, devo ter
ligo um ou dois livros, no máximo até ao fim.
Lembro-me que, inclusive quando era criança, me tentaram
incutir este hábito mas não é algo que me fascine. Não sou
daquelas pessoas que se embrenha a ler, que vê a história a
passar à sua frente, que sufoca à espera do desenlace ou
mesmo que chora e ri como se estivesse a vivenciar as
experiências que o livro e as palavras transmitem. Esse
efeito tenho quando vejo um filme por exemplo.
Entretanto, e como esta tarefa incidia sobre a leitura de um
livro, e depois de pedir opinião a algumas pessoas, fui
apresentado a este livro de Joel Neto, um terceirense que
viveu em Lisboa por 20 anos, conforme se pode ver na nota
biográfica dele, e que decidiu regressar à sua ilha e lá dar
largas à imaginação no que à escrita diz respeito.
Trata-se de um romance policial, que começa com um
sismo, ou melhor, recorda um grande sismo que assolou a
ilha Terceira e as modificações que isso trouxe às gentes
daquela localidade.
Imagem 1: Joel Neto é açoriano e A personagem principal do livro, José Artur, era criança
escreveu "Arquipélago" quando se deu o terramoto e, por incrível que pareça, tal
como eu em 1998, não sentiu o sismo, nem esse, nem qualquer outro ao longo da sua vida toda.
Depois desse terrível acontecimento vai para Lisboa e regressa aos Açores 20 anos depois.
É um homem sofrido, que volta aos Açores depois de um casamento desfeito, da dor causada pela
distância que tem do seu pai e do seu único filho.
Voltar à Terceira foi um renascimento, e aqui identifico-me porque sai do Faial em criança para
viver no Pico num convento. Aos 17 anos voltei ao Faial e apesar das memórias boas que tenho do
Pico, de ser eternamente reconhecido àquelas Irmãs que cuidaram de mim como mais ninguém
fez, a verdade é que a distância, as saudades das minhas irmãs e irmãos, sempre foi muito grande.
Nunca me senti completo. Foi necessário regressar a casa, reviver momentos e lugares, alguns
deles menos bons, para fechar capítulos e começar novas histórias. A minha história.
Quando José Artur regressa à Terceira, os acontecimentos começam a surgir uma vez que volta à
casa do avô, que entretanto já morreu e descobre, quando faz as obras de remodelação da mesma,
um cadáver envolvo em mistério.
Dedica-se a tentar descobrir de quem eram aquelas ossadas e como foram lá parar. Acaba por ver-
se a braços com um crime acontecido há 20 anos, num cenário digno de filme.
Trata-se de uma criança, com quem ele brincara anos antes que foi morta numa espécie de ritual
satânico que alguns homens daquela localidade levavam a efeito em dias específicos do ano. Era
mesmo uma seita ritualista baseada no mito da Atlântida, a ilha perdida no meio do atlântico.
José Artur descobre mesmo rivalidades entre a sua família e outra família da localidade. Eram dois
clãs rivais por assim dizer, cujas atitudes egoístas acabaram por provocar a morte àquela criança.

Rui Vieira Utente - 15627


É esta descoberta pelo autor do crime, a busca por respostas, o surgir de pistas atrás de pistas, que
me cativou.
No romance José Artur apaixona-se por Luísa, uma mulher inatingível e tão cativante com quem
acaba por viver um grande amor. Luísa tem uma filha, Maria Rosa, que vai ser nada mais nada
menos do que a ajudante de José Artur em algumas aventuras hortícolas que ele tenta
protagonizar. Maria Rosa fez-me lembrar a minha afilhada, a pequena Matilde que, da pequenez
dos seus 3 anos me dá as maiores alegrias do mundo.
O facto de José Artur se tornar tão amigo de Elias Mão-de-Ferro também é algo que me cativou.
Elias era um sofredor. Sofria pela perda precoce do amor da sua vida. Por instantes recordei a
minha mãe e a falta que ela me faz.
Este romance é, sem dúvida, um hino às suas iguarias gastronómicas da ilha Terceira uma vez que
as descrições dos petiscos da taberna do Cabrinha são de deixar água na boca, sobretudo para
quem, como eu, conhece bem a Terceira e já experimentou alguns dos pratos típicos.
Foi uma aventura ler um livro desta envergadura. Quando o folheei pensei que seria mais um para
ficar na gaveta, mas a verdade é que me cativou. A escrita é simples, a linguagem acessível e o
mistério que lhe está subjacente deixou-me curioso e com vontade de chegar ao fim e descobrir as
coisas.
Uma das principais mensagens que “Arquipélago” me transmitiu foi de que não somos nada nesta
vida perante a força que a natureza se nos apresenta. Vejamos só, um terramoto, a força de um
povo em se reerguer, resultaram na morte de uma inocente provocada por um ódio tolo, ódio esse
resultante de invejas. Para quê? Para quê vivermos de costas voltadas uns para os outros por causa
de trocos? Por causa de um pedaço de terra? Quando vivemos envolvidos nestes ódios
desmedidos a Terra, a Natureza revolta-se e dá-nos um abanão que, num abrir e fechar de olhos
destrói tudo e nos faz ver a vida com outros olhos.
Por outro lado, fez-me pensar na consequência dos nossos atos. Vejam só o caso da morte daquela
criança. Uma inocente morreu porque duas famílias não se davam bem. Isto é ridículo! Temos que
pensar que os nossos atos têm consequências e que, muitas das vezes, são os inocentes que
sofrem as consequências.

Como escreveu João de Melo, outro ilustre escritor açoriano, “Excepcional. Obras de tão superior
qualidade como este Arquipélago não acontecem todos os dias. Nem todos os anos. Notável.”.
https://www.joelneto.com/book/arquipelago/

Rui Vieira Utente - 15627

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