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EM DIREITO: NOTAS E
FRONTEIRAS GLOBAIS
 16 de setembro de 2020 REVISTA LUA
NOVA 108
Gabriel Antonio Silveira Mantelli[1]

Este texto apresenta algumas reflexões teóricas sobre as


possibilidades de descolonização do direito, muitas delas
fruto direto da experiência de pesquisa em nível de pós-
graduação no campo crítico do direito internacional
(MANTELLI, 2019), especificamente na intersecção entre
As abordagens críticas funcionam como formas diversas de acompanhar esse
observar o direito internacional , seja opondo ou blog e receber
complementando-se a ele (ver, e.g., BADIN; MOROSINI; notificações de
GIANNATTASIO, 2019). Por exemplo, os trabalhos do novos posts por
critical legal studies, vertente bastante popular nos EUA na email.
década de 1980 e que, ainda hoje, tem influenciado diversas
outras perspectivas críticas no âmbito do direito no esforço Junte-se aos outros
comum de revelar as implicações políticas e de poder das seguidores de 215
normas jurídicas e do direito. Também podemos nos referir,
ainda que com certa dificuldade de precisão teórica, a um Insira seu endere

conjunto de movimentos que recentemente partilham da


crítica à doutrina liberal do direito e da crença total ou Seguir
parcial da inseparabilidade do direito e da política. Como
advertia Nigel Purvis (1991, p. 127, minha tradução com
acréscimo) nos anos 1990, que

AGRADECIME
[…] a incoerência da ética liberal do direito
NTO
internacional, da estrutura intelectual restritiva – e
O Boletim Lua
eu acrescentaria invisibilizadora – do direito
Nova é uma criação
internacional, da indeterminação da doutrina
do CEDEC realizada
internacional e da natureza de auto validação da
a partir da campanha
autoridade do direito internacional.
de assinaturas e
apoios à revista Lua
Nova. O CEDEC
No plano das ideias, a formação desta agenda crítica para
agradece a
pensar o direito internacional é configurada pela influência
colaboração dos
do realismo jurídico norte-americano, da teoria crítica, do
apoiadores e
marxismo e do construtivismo. Se usarmos a categorização
assinantes.
de Anne Orford e Florian Hoffman (2015), teremos que as
duas principais vertentes da crítica do direito internacional
seriam as New Approaches to International Law (NAIL) (ver,
e.g., KENNEDY; TENNANT, 1994) e as Third World
Approaches to International Law (TWAIL) (ver, e.g.,
CHIMNI, 2006). De modo sintético, podemos dizer que as
NAIL seriam a produção do Norte Global sobre a crítica do
direito internacional, enquanto as TWAIL representam a
produção do Sul Global.
O QUE SIGNIFICA DESCOLONIZAR?

É nas TWAIL que a crítica pós-colonial ganha relevo. Ela


aparece tanto como fio teórico que acompanha
consideravelmente toda a produção filiada às abordagens
terceiro-mundistas; quanto é capaz de abrir caminho para
campos próprios, como acontece nos estudos de direito e
desenvolvimento (MANTELLI, 2019). Dentre as
preocupações e possibilidades, ganha destaque a ideia de
reconfiguração do verbo “descolonizar”, no sentido de
enquadrá-lo não só à tecnologia jurídico-institucional de
independência institucional; como também, à emancipação
dos imaginários, das subjetividades e, como advoga a virada
decolonial latino-americana, a ruptura com as colonialidades
do poder, do ser e do saber (ver, e.g., MBEMBE, 2001;
CASTRO-GÓMEZ; GROSFOGUEL, 2007; LUGONES, 2010;
BRAGATO, 2014).

A ideia de descolonizar as “coisas” – leia-se descolonizar


tudo que nos rodeia – baseada no fato de que o regime
colonial modificou o mundo e persiste em modificá-lo com
seus legados assume conotações diferentes no debate
contemporâneo. Em primeiro lugar, há uma intenção política
anticolonial, que é livrar as “coisas” do mundo das relações de
poder assimétricas entre povos, culturas, territórios. Existe,
assim, certa inspiração histórica nas lutas anticoloniais
vivenciadas nos países e nas comunidades que sofreram ou
ainda sofrem o império do regime colonial. Pensemos na
resistência diária dos povos indígenas e na denúncia do
genocídio negro no Brasil.

Segundo, há uma influência específica pós-colonial, vinda


dos estudos literários e dos estudos subalternos, que aponta
como certos eventos históricos foram deixados de fora da
história oficial: não porque fossem desimportantes, mas
porque estavam além do alcance de um certo recorte de
mundo eurocêntrico. A característica desse aspecto da
descolonização é vocalizar, trazer representatividade, revelar
“coisas” invisíveis, resgatar pensadores e pensadoras
marginais, revisitar outros conhecimentos. Finalmente, há
uma mudança epistemológica decolonial que diz respeito à
práxis de oposição ao projeto de conhecimento eurocentrado
e racista, imposto como universal ao mundo, desde os
tempos coloniais. Essa resistência epistêmica, na prática,
impõe a reelaboração de currículos e a inclusão de outros
conhecimentos nas ciências.

Descolonizar “coisas” implica necessariamente reajustar a


maneira como vemos o mundo. Por exemplo, a prática
comum no direito internacional em dividir o mundo em
países desenvolvidos e em desenvolvimento, tem implicações
diretas sobre como as pessoas se percebem em seus
territórios, como as nações elaboram suas políticas e como o
direito (internacional) organiza suas doutrinas. A onda
emancipatória do Terceiro Mundo é importante como um
agente político unificador de rejeição de modelos prontos,
mas ainda traz consigo a “padronização” das histórias do
mundo. Neste sentido, é possível usar o termo Terceiro
Mundo como TWAIL faz, mas, ao mesmo tempo, é
necessário que defendamos teoricamente conceituações mais
amplas (e novas geografias) do mundo com mais
possibilidades. Hoje em dia, a noção do Sul Global parece
tentar remediar essa lacuna.

TRAJETÓRIAS METODOLÓGICAS A “DESCOBRIR”

Vale ressaltar o caráter empírico da elaboração teórica. A


utilização de uma abordagem crítica na pesquisa em direito
internacional passa necessariamente por se questionar e
adotar uma postura de criticidade em relação à posição
epistêmica e epistemológica de quem escreve. É impossível
fazer “teoria” de forma crítica – ou seja, elaborar quadros
mais abstratos e gerais sobre determinado assunto com uma
perspectiva contra/anti hegemônica – sem necessariamente
adotar posturas e metodologias empíricas. Contudo, a
simples “revisão de literatura”, que não é normalmente
entendida como uma tarefa empírica, passa a sê-la quando
pretendemos encarar o direito de forma crítica e
descolonizada.

A descolonização da pesquisa passa necessariamente por


revisitarmos os manuais de metodologia científica (ver, e.g.,
SMITH, 2013). Nesta linha, sugiro três premissas que podem
servir de orientação para pesquisas em termos de processos
metodológicos e de observação. O(a) pesquisador(a) pode se
imaginar respondendo a três questões elementares: Onde
estou e de onde falo? Como estou abordando meu problema de
pesquisa?; e Por que estou fazendo isso?.

Primeiro (onde), é fundamental localizar-se enquanto sujeito


pensante (sentir-pensar) a fim de compreender
possibilidades e limitações relacionadas ao próprio lugar de
enunciação e episteme. O que consigo observar e o que está
fora do meu campo de visão, desde onde me situo? A
descolonização normalmente está nos espaços que nós,
acadêmicos(as) e/ou sujeitos privilegiados, não conseguimos
ver. Do ponto de vista disciplinar, é importante ter
consciência de se estar no campo dos estudos jurídicos e, no
limite, do que entendemos por direito. Há determinadas
questões que são ligadas a este campo do conhecimento e da
prática, sendo uma delas a necessária vinculação com a
realidade social e a possibilidade de produzir conhecimento
– “doutrina” – com características prescritivas e normativas.
Nesse sentido, é indispensável explorar os problemas de
pesquisa no campo jurídico usando a literatura feita no Sul
Global ou, pelo menos, focada em seu contexto.

Em segundo lugar (como), uma sugestão de caminho


argumentativo é a utilização da abordagem sociológica dos
problemas de pesquisas do campo jurídico. . Isso significa
buscar quadros teóricos em contato com contextos sociais, e
pode-se ainda acrescentar a preocupação empírica de se
atentar para aspectos biográficos do(a) autor(a) da produção
acadêmica. Ainda, a possibilidade de se utilizar tal
abordagem se explica porque a literatura percebe que a
academia do direito normalmente tem dificuldade em se
engajar em debates com outras humanidades de uma
maneira orgânica. Logo, o diálogo com a Sociologia pode
levar à aproximação do campo do direito com a sociedade,
fornecendo um arcabouço crítico e capaz de ir além do
cientificismo positivista, de modo a examinar o discurso
jurídico como base de várias formas de constituição social e
de ver suas próprias realidades sociais e jurídicas com “olhos
frescos” ou, como dizem minhas alunas, com “olhares
sensíveis”.

Finalmente (porque), existe uma dimensão da teoria crítica


que é o de colocar a produção do conhecimento em favor de
determinadas lutas políticas. Quando se procede dessa
maneira, pressupõe-se que fazer pesquisa é produzir
conhecimento necessário à emancipação social. Sendo que, a
desobediência epistêmica é torna-se ferramenta potente
para articular o diagnóstico de tempo com a práxis da
descolonização que deve se dar nos livros e nas lutas.

Tais premissas metodológicas estão interligadas. Em relação


à primeira premissa (onde), estudos no campo do direito e
desenvolvimento têm afirmado a importância do contexto e
da perspectiva crítica. Em relação à segunda (como), estudos
do Sul Global e experiências concretas de movimentos
sociais já se mostraram capazes de ir além das formas
hegemônicas de organizações socioeconômicas. Quanto à
última premissa , (por que), os debates sobre pós-
colonialismo e emancipação decolonial estão inseridos nesse
corpo de perspectivas críticas e podem avançar na
descolonização do direito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BADIN, Michelle Ratton Sanchez; MOROSINI, Fábio;


GIANNATTASIO, Arthur Roberto Capella. Direito
Internacional: Leituras Críticas. São Paulo: Almedina, 2019.

BRAGATO, Fernanda Frizzo. Para além do discurso


eurocêntrico dos direitos humanos: contribuições da
descolonialidade. Novos Estudos Jurídicos, v. 19, n. 1, p. 201-
230, 2014.

CASTRO-GÓMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramón (Ed.).


El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica
más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre
Editores, 2007.

CHIMNI, Bhupinder S. Third World Approaches to


International Law: a manifesto. International Community
Law Review, Leiden, v. 8, p. 3-27, 2006.

ESLAVA, Luis. Local space, global life: the everyday operation


of international law and development. Cambridge:
Cambridge University Press, 2015.

KENNEDY, David; TENNANT, Chris. New approaches to


international law: a bibliography. Harvard International Law
Journal, v. 35, p. 417-460, 1994.

LUGONES, María. Toward a decolonial feminism. Hypatia,


v. 25, n. 4, p. 742-759, 2010.

MANTELLI, Gabriel Antonio Silveira. Maps and encounters:


postcolonial approaches to international law and development.
Mestrado em Direito e Desenvolvimento, FGV, 2019.
Disponível em:
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/27399.

MBEMBE, Achille. On the postcolony. Berkeley: Univ. of


California Press, 2001.

ORFORD, Anne; HOFFMANN, Florian (Ed.). The Oxford


Handbook of the Theory of International Law. Oxford: Oxford
University Press, 2015.

PAHUJA, Sundhya. Decolonising international law:


development, economic growth and the politics of
universality. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.
PURVIS, Nigel. Critical legal studies in public international
law. Harvard International Law Journal, v. 32, n. 1, p. 81-128,
1991.

RAJAGOPAL, Balakrishnan. International law from below:


development, social movements and Third World Resistance.
Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

SHAFFER, Gregory. Transnational legal ordering and state


change. In: SHAFFER, Gregory (Ed.). Transnational legal
ordering and state change. Cambridge: Cambridge University
Press, 2013, p. 1-22.

SMITH, Linda Tuhiwai. Decolonizing methodologies: research


and indigenous peoples. 2. ed. London: Zed Books, 2013.

Referência imagética:

Profa. Dra. Eunice Prudente (USP). Disponível em:


https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2020/06/judici
ario-e-educacao-precisam-se-descolonizar-diz-unica-
professora-negra-de-direito-da-usp/

[1]
Professor de Direito na Universidade São Judas Tadeu
(USJT), onde é pesquisador-líder do Núcleo de Direito e
Descolonização (CNPq) e coordenador da Clínica de
Direitos Humanos e Socioambientais. Mestre em Direito e
Desenvolvimento pela FGV Direito SP e bacharel em Direito
pela USP. Advogado e consultor em São Paulo. E-mail:
gabriel.mantelli@saojudas.br

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criação e São Paulo:
desenvolvimento Perspectiva, 2018.
institucional (1994- Em "n.4"
2014)
Em "n.3"

ANTI-COLONIALISMO DECOLONIAL DIREITO

« A Ciência Política brasileira


também odeia os povos
indígenas?
direito e desenvolvimento, estudos pós-coloniais e direito
internacional (ver, e.g., RAJAGOPAL, 2003; PAHUJA, 2011;
ESLAVA, 2015). A pesquisa, em si, resultou em um trabalho
primordialmente teórico, em que avançou na compreensão
do campo do direito e desenvolvimento por meio de lentes
críticas e pós-coloniais. Aqui, por sua vez, faço referência a
essa pesquisa e busco explorar os elementos empíricos
utilizados na construção teórica proposta naquela ocasião,
em um esforço de contribuir para uma determinada
sociologia do direito internacional. Busco, assim, apontar
para possíveis trajetórias “descoloniais” de pesquisa empírica
BLN N.4 –
no direito internacional.
DOWNLOAD
CRÍTICA DO DIREITO INTERNACIONAL

O direito internacional é um espaço interessante para se


discutir as temáticas anticolonial, pós-colonial e decolonial,
porque é uma plataforma (ou até mesmo uma arena) para o
projeto global do desenvolvimento. Se nos atentarmos para o
direito internacional, compreendido em suas lentes
habituais, podemos sintetizá-lo a partir do trabalho de
Gregory Shaffer (2013, p. 3, minha tradução), cujo
argumento é que “o direito internacional público se baseou e
se originou com a criação dos Estados, governando suas
Boletim Lua N
relações e garantindo reconhecimento mútuo. O papel 2.405 curtidas
central [desse direito] seria garantir a regulação jurídica às
trocas internacionais dos Estados” (SHAFFER, 2013:3).
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predominância que as questões pós-coloniais (como
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como porque a produção acadêmica nesse campo é bastante
profícua e segue em ascensão no Brasil. Há um espaço para
observar – e, aqui, coloco uma ênfase nesse verbo – o direito
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