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UNIVERSIDADE FEDERAL DA INTEGRAÇÃO LATINO–AMERICANA–UNILA

MESTRADO – INTEGRAÇÃO CONTEMPORÂNEA DA AMÉRICA LATINA – ICAL

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: MESTRADO EM INTEGRAÇÃO


CONTEMPORÂNEA DA AMÉRICA LATINA – ICAL

FABIO RODRIGO MALIKOSKI DE SOUZA

CARICATURA, HENFIL, VANGUARDA E A ARTE ENGAJADA

Ensaio teórico apresentado à Profa. Dra. Clara


Agustina Suárez Cruz, para avaliação na disciplina: Culturas e
Sociedades na America Latina. Universidade Federal da
Integração Latino–Americana – UNILA, junto ao Programa de
Pós-graduação em Integração Contemporânea da America
latina (PPG-ICAL)–Stricto Sensu, nível de Mestrado – área de
concentração em Integração Latino-Americana.

Linha de Pesquisa: Integração, Cultura e Sociedade.

Foz do Iguaçu – PR

2014
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CARICATURA, HENFIL, VANGUARDA E A ARTE ENGAJADA

“Pois o crítico deve tentar compreender plenamente, tornar-se


responsável pelos passados nao ditos, não representados, que
habitam o presente histórico.” Homi Bhabha

Durante a história recente da America Latina e do Brasil, muitos artistas se


destacaram na arte usando-a como suporte de discursos de resistência em questões
sociais, como manifestação política partidária ou não, e em cenários totalmente
variados.
No mundo das artes e da literatura, podemos tomar muitas linguagens
artísticas ou gêneros literários como exemplos da participação ativa na sociedade,
desses pensadores que se expressam em linguagens não verbais, que sejam elas
textuais ou pictóricas levam a reflexões profundas, de carga filosófica e políticas
altamente complexas e algumas vezes acessíveis para todas as camadas da
população, incluídos no debate político um estrato social ampliado, com em sua
percepção da realidade, fossem para influenciar ou para instruir.
Fazer análise de discurso não é uma tarefa para um ensaio, talvez para um
artigo, ou dissertação. O que pode ser contemplado em poucas páginas é a
relevância da arte no contexto social que discute as demandas das sociedades na
America Latina e no Brasil, e que podem ser lidas e entendidas nos fenômenos
plásticos que se tem em trabalhos de artistas que foram publicados nos periódicos e
em galerias de arte por toda a América. Quero destacar no século XIX, aqui, na
região platina os periódicos brasileiros e argentinos como El Mosquito, Don Quijote,
Revista Ilustrada, O Besouro, e os Salões Caricaturais de Ângelo Agostini, por
exemplo, são verdadeiros repositórios de pensadores, e que trazem ilustrações de
conhecidos artistas acadêmicos (estilo ou escola corrente na Europa e que era
reproduzido nas academias de belas artes por toda a América) que dedicam parte
de seu tempo a crítica política e que trazem de forma bem divertida e ácida (em
alguns casos) temas desconfortáveis aos senhores do poder nas assembléias e no
senado, aos chefes de estado e ás oligarquias.
No campo das artes plásticas é possível destacar outras linguagens pictóricas
que levantam questões e bandeiras polícias e filosóficas e que são de interesse
social, e que podem levar a uma reflexão do papel do artista na sociedade. Cito as
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pinturas de cavalete ou parietal-mural, tem nomes de artistas fabulosos como David
Álfaros Siqueiros, Diego Rivera, José Clemente Orozco no México, com trabalhos
em vários países e discurso socialista de forte crítica aos estados nacionais que
oprimem seu povo. Existe no século XIX e o inicio do século XX uma influência dos
trabalhos de Karl Marx, Fiedrich Engels e Max Webber, que segundo (LARRAIN
IBAÑEZ, 1996) causam um forte impacto nas vanguardas e nas utopias desses
artistas na Europa e nas Américas.
No Brasil temos vários artistas que podem exemplificar em seu pensamento
vanguardista, a posição do artista como ser social e protagonista na construção de
sociedade mais justa. (SILVA, R. 2014) apresenta a caricatura no século XIX como
arte menor, segundo ela esta forma de arte, ligada ao cômico, ao humor satírico que
revela em seus traços a fealdade, ou o lado menos belo, tirando o expectador do
lugar comum, levando a um novo olhar e notando características antes não vistas.
Ressalta ainda que nem toda a caricatura da imprensa ilustrada nessa época tem
caráter revolucionário.
Os salões ilustrados são espaços impressos que reúnem obras de caricaturas
e ilustrações com forte caráter crítico. Esse gênero já eram publicados nos anos de
1840 em Paris, tendo seu auge nos anos de 1860. Em solo brasileiro temos o
precursor ou pioneiro do tema a figura de Angelo Agostini que faz com maestria
esse tipo de caricatura, e de maneira consciente ou não deixa um legado de
vanguardismo nas artes visuais com cunho de crítica. (SILVA, R. 2009)
A pesquisadora apresenta ainda Araujo de Porto Alegre, como nome de
destaque na imprensa brasileira, a partir da década de 1880, com forte presença no
imaginário artístico pré-modernista, e que tem em seus traços uma crítica forte a
sociedade brasileira.
Ainda no período pré-modernista, (Silva, L. F. P., 2012) nos apresenta a
importância do periódico O Malho, que com suas caricaturas publicadas em no
tempo que circulou (1902 a 1954), na cidade do Rio de Janeiro. Foi um periódico,
que juntamente a outros de igual gênero e teor, representa neste período a evolução
da “imprensa ilustrada” nas primeiras décadas do século XX. Esse periódico fica
conhecido, e importante justamente por ter um forte caráter crítico, humorístico e
satírico, com suas caricaturas políticas produzidas por nomes como Storni, Leônidas
e Kalixto. Esses artistas fazem fortes críticas usando a figura de Rui Barbosa e da

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Campanha civilista com vistas a posicionarem-se nos debates políticos travados
naquele contexto. (Silva, L. F. P., 2012)
Pesando que as vanguardas modernistas tem oposição estética e ideológica
ao passado acadêmico, é fácil pensar no artista do fim de século sendo esquecido
ou negado pelo movimento antropofágico das décadas de 1920 e 1930. Esses
artistas buscam novas linguagens visuais e plásticas que ao seu modo de ver
deveriam ser novas e criar um próprio diálogo entre a política e a arte. Podemos
citar nas obras dos brasileiros Osvald de Andrade Tarsilla do Amaral a figura
controvertida Monteiro Lobato, as pinturas de reflexão social de Candido Portinari
que se inspiravam em muito no trabalho icônico do espanhol Pablo Picasso e que
era forte e grandiloqüente discurso anti-fascista e de com apelo comunista tendendo
as ideias de Marx e Engels. (MONTALDO, 1994),(GIUNTA, 2011).
Neste início do século XX com um cenário político complexo, onde
sociedades e repúblicas Latino Americanas estavam se construindo e se
consolidando como estados democráticos após apenas um século de
independência, surgem movimentos sociais das mais diversas orientações. Grupos
de militância político-artístico tanto na Argentina como no Brasil se organizam, como
o Martín Fierro e os antropofagistas e mesmo os Tropicalistas na segunda metade
do século XX.
Na segunda metade do século XX temos um momento político que marcou a
memória de gerações de artistas, e tornou esse fato divisor de água na produção
intelectual brasileira. O golpe militar de 1964 abriu uma ferida no já tão oprimido e
esfacelado tecido social, um golpe não apenas de tomada de poder de forma anti -
revolucionária, este golpe fez com que a evolução social, intelectual e artística
tivesse uma verdadeira “idade das trevas”. Um apagão forçado com censuras e
proibições de obras e artistas em todas as áreas e todo tipo de suporte, o que exigia
da classe artista uma coragem e inteligência que pudesse usar de subterfúgios para
levar suas mensagens de forma velada com textos nas entrelinhas, e usando de
ambigüidades pueris que fossem interpretadas pela sociedade e atingisse seus
objetivos de crítica e até subversão política como forma de resistência.
Um guerrilheiro do cartum, assim Miguel Paiva definiu Henfil. É impossível ver
a obra de Henfil e não abordar sua vertente política, sendo ele de uma geração que
fica fortemente marcada pelo regime militar que faz o golpte de 1964 ser um vácuo

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na vida e na história da democracia do país. (Malta, 2008). Segundo Malta, ainda
determina uma interrupção nas discussões sociais, culturais e filosóficas que se
construíam no Brasil.
No contexto jornalístico da época que tinha dificuldade em seus editoriais de
levar informações reais sobre a situação política brasileira, uma vez que em muitos
casos agentes censores do governo, com suas fardas e armas faziam plantão nas
redações, e liam as laudas antes dessas serem aprovadas pelos editores. Raras as
vezes que um jornalista conseguia “furar” as barreiras impostas, e levar um por mais
leve que fosse alento ao senso crítico do cidadão comum. A pessoa de Henrique de
Souza Filho, o Henfil, tem grande relevância, pois em seus traços caricatos de
simplicidade inenarrável, onde uma meia dúzia de riscos que segundo ele mesmo
eram quase caligráficos, e que tinham preocupações menores dos que as de seu
argumento crítico e incisivo. (Malta, 2008).
Mesmo recebendo ameaças por telefone de grupos anônimos de caça aos
comunistas, Henfil não desistiu de seu trabalho dentro do novo e heróico jornal que
no ano de 1969 surge no Brasil, o jornal Pasquim. Essa publicação que é em seu
tempo considerada “alternativa” foi de extrema importância para a continuidade da
expressão de uma voz questionadora ao regime e seus desmandos e barbáries
contra a liberdade coletiva.
Em 1970 os colaboradores do jornal ou estavam presos ou impedidos de denunciar
essa perseguição, pois claramente era censurada nessa tentativa. Então Henfil em
outro importante escritor do periódico Millôr Fernandes, deram continuidade aos
trabalhos do jornal imitando os estilos dos desenhos de seus colegas presos. Além
de ter um apoio de voluntários que colaboraram com as edições, dentre eles o
artista, compositor e escritor Chico Buarque.
Com um ar infantil e insinuando uma ingenuidade de criança os desenhos
críticos de Henfil eram impressos sem muita oposição do agente censor, e
passavam pela peneira do regime, conforme afirma Luís Fernando Veríssimo. O
traço caligráfico de Henfil se prestou ao trabalho de denúncias, criticas, as injustiças
sociais, ao capitalismo, humanitário e dedicado a ajuda até financeira, ele era
conhecido tanto em seu trabalho como artista, mas mesmo na vida particular como
um homem solidário. (PIRES, 2008).

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Seus trabalhos em tiras ou quadrinhos eram povoados por personagens
zoomorfizados ou antromorfizados, que conferiam um aspecto lúdico ao seu
imaginário pictórico, e proporcionava um “ar mais leve” aos discursos fortemente
combativos, fossem eles políticos, filosóficos, seja tratando dos temas dentro do
universo futebolístico, clérico, ou da caatinga, pessoas comuns como operários, ou o
“típico malandro carioca” ou mesmo quando os personagens fossem apenas mudos,
sem expressão “oral”.
Em seus textos todos os temas eram criticados, desde a inflação, a reforma
agrária, abandono do nordeste frente ao desenvolvimentismo do “Sul Maravilha”,
satirizava o machismo com suas personagens femininas que eram combativas, uma
alusão as companheiras mulheres presas, (algumas de sua família inclusive), a
educação burguesa, a concentração de renda, programas e propagandas do regime
militar e ao desaparecimento de companheiros de luta política, o exílio de seu irmão
o sociólogo Betinho de Souza por exemplo.
Seu estilo teatral, onde os personagens por vezes interagiam com o leitor, era
uma metalinguagem que foi marca de seu estilo. Sob a forte influência da obra do
cineasta Glauber Rocha aborda o tema da caatinga e da reforma agrária. Usava
técnicas de fotografia ao enquadrar os personagens em campos de aproximação, e
planos vazios, o enquadramento dava uma carga dramática maior aos seus
cenários. (MALTA, 2008).
Toda sua obra (maior que 15 mil originais) não condiz com sua breve
existência, morre muito jovem, aos 43 anos de idade, em 1988. Hemofílico, pois a
doença era comum em sua família, como era obrigado a fazer transfusões de
sangue, não somente ele, mas seus dois irmãos também contraem o vírus do HIV e
morrem vitimados pela AIDS, comum naquela década o controle hospitalar falhou.
Ironicamente ele criticava a qualidade dos serviços públicos no país, falando sobre
isso um amigo seu diz sobre sua morte: “Henfil morreu de Brasil”.
Um breve ensaio não dará conta de abordar a importância de artistas
engajados em nossa América Latina. Tarefa que precisa de linguagem acadêmica,
técnica e dedicação de tempo maior, e espaço que essas poucas linhas não
favorecem. Tentei aqui ilustrar como tivemos em algumas décadas de America pós-
colonialismo, em nossa região artistas e pensadores conectados com nossas

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causas, nossos temas mais importantes, a justiça social, a liberdade de expressão e
o direito a vida.
Henfil foi a exemplo de outros artistas como Araujo de Porto Alegre, Ângelo Agostini,
e Siqueiros, (respeitadas as proporcionalidades e genialidades no fazer de cada um
a sua arte) um revolucionário, vanguardista em suas técnicas, e pensador do Brasil
com uma sensibilidade que deixa claro o papel do artista na sociedade. Ser antes de
tudo um ser social, pensante, e combativo, enfim, engajado no melhor sentido da
palavra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JOSEF, Bella: “O lugar da América”. SENTIDOS DOS Lugares: trabalho


apresentado no Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada,
ABRALIC 2005.
GIUNTA, Andrea. Escribir las imágenes. Ensayos sobre arte argentino y
latinoamericano. 1ª. Ed. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2011.
MALTA, Marció. Henfil: o humor subversivo.-1ed.- São Paulo: Expressão Popular,
2008.
MONTALDO, Graciela. Zonas ciegas. Populismos y experimentos culturales en
Argentina. 1ª. Ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2010.
___________.La sensibilidad amenazada. Fin de siglo y Modernismo. 1ª. Ed.
Rosario: Beatriz Viterbo Editora, 1994.
LARRAIN IBAÑEZ, Jorge. Modernidad, razón e identidad en América Latina.
Santiago de Chile: Editorial Andrés Bello, 1996.
PIRES, Maria da Conceição Francisca: Humor, Participação e Engajamento
Político na Imprensa Alternativa. Publicação digital da UFRGS. 2008. Disponível
em:<http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/6o-encontro-2008-1/Humor-
%20Participacao%20e%20Engajamento%20Politico%20na%20Imprensa%20Alterna
tiva.pdf>. Acessado em 10 de Nov. de 2014.
SILVA, Lívia Freitas Pinto: Rui Barbosa e a Campanha Civilista nas caricaturas
da revista O Malho. Periódico ANPUH. 2012. Disponível em:<

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http://www.encontro2012.mg.anpuh.org/resources/anais/24/1340747304_ARQUIVO
_artigoanpuh11.pdf> acessado em 10 de out. de 2014.
SILVA, Rosangela de Jesus: Crítica de arte na imprensa carioca do século xix:
revista musical e de bellas artes-Um panorama crítico:III Encontro de História da
Arte – IFCH / UNICAMP. 2007. Disponível
em:<http://www.unicamp.br/chaa/eha/atas/2007/SILVA,%20Rosangela%20de%20Je
sus.pdf>acessado em 10 de out. de 2014.
______________________: A (DES)CONSTRUÇÃO Da América Latina: Imprensa
Ilustrada Na Segunda Metade Do Século XIX (ARGENTINA E Brasil). Audição in
loco, no 1° Colóquio Interdisciplinar da Universidade da Integração Latinoamericana
-Unila. Foz do Iguaçu- 2014.