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Michel de Certeau

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Nova edição, estabelecida e apresentada por Luce Giard


TfaduçâiEphran Fsreia Alves

3' Edição

EDITORA
VOZES
Petr ópolis
1998
© Éditions Gallimard, 1990
Título do original francês: Uinvention du quotidien - la. arts de
faire
Direitos de publica ção em l íngua portuguesa no Brasil:
Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Lu ís, 100
25689-900 Petró polis, RJ
Internet: http://www.vozes.com br ,

Brasil
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser
reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletró nico ou mecâ nico, incluindo fotocó pia e gra-
vação ) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem SUMÁRIO
permissão escrita da Editora.
.
Esta obra é uma nova edi ção de 4r/s de faire de Michel de Certeau ,
primeiro tomo de Uinvention du quotidien (Union gén é rale d édi-
?

tions, Collection 10-18, 1980; segundo tomo: Habitei; cuisinert por


Luce Giard e Pierre Mayol ).
Apresentação de Luce Giard 9
FICHA TÉCNICA DA VOZES
Mais que das intenções, a paisagem de uma pesquisa ..., 35
PRESIDENTE INTRODUÇÃO GERAL, 37
Gilberto M.S Píscitelli . OFM A produção dos consumidores, 38
DIRETOR EDITORIAL
Táticas de praticantes, 45
Avelino Grassi
PRIMEIRA PARTE
EDITORES
Lídio Peretti
UMA CULTURA MUITO ORDIN ÁRIA
Edgar Orth
Dedicatória, 57
DIRETOR INDUSTRIAL
José Luiz Castro
I . UM LUGAR COMUM: A LINGUACEM ORDINÁRIA, 59
EDITOU DE ARTE “ Cada um* e “Ninguém”, 60
Ornar Santos Freud e o homem ordinário, 61
EDITORAÇÃ O 0 perito e o fil ósofo , 64
Revisàft grá fica: Revitec S/ C O modelo Wittgenstein da linguagem ordinária, 67
Diayftimaçào - Rowngda Louren ço Uma historicidade contemporânea, 72
Superrisúa grá fica: Valderes Rodrigues

ISBN 2-07-032576-8 ( edi ção francesa) 1L CULTURAS POPULARES, 75


ISBN 85.326.1148-6 ( edi ção brasileira ) Uma “ arte” brasileira , 76

livro íoi composto .


e impresso pela Editora Vozes Lida
A enuncia ção proverbial, 79 Percursos e mapas, 203
Lógicas: jogos, contos e artes de dizer, 83 Demarcações, 207
Uma prática de dissimulação: a “sucata*?, 86 Delinquê ncias?, 215

III. FAZER COM: USOS E TÁTICAS, 91 QUARTA PARTE


O uso ou o consumo, 93 USOS DA L Í NCUA
Estratégias e tá ticas, 97
Retó ricas das prá ticas, astúcias milenares, 103 X. A ECONOMIA ESCRITUR ÍSTICA, 221
, Escrever: prática m ítica “ moderna*, 224
SECUNDA PARTE Inscri ções da lei no corpo, 230
TEORIAS DA ARTE DE FAZER De um corpo ao outro, 233
Aparelhos de encarna ção, 236
As práticas cotidianas, 109 A maquinaria da representa ção, 239
As “ m á quinas celibatá rias", 243
IV, FOUCAULT E BORD1EU, 111
Tecnologias disseminadas: Foucault, 111 XL CITAÇÕES DE VOZES, 247
A “ douta ignor â ncia*; Bourdieu, 117 A enunciação deslocada , 250
A ciência da f á bula, 253
V. ARTES DA TEORIA, 131 Ruídos de corpos, 256
Destacar e pôr do avesso: uma receita da teoria, 132
A etnologizaçáo das “ artes", 135 Xn. LER: UMA OPERAÇÃO DE CAÇ A, 259
Os relatos do não sabido, 140 Ã ideologia da “ informação" pelo livro, 260
Uma arte de pensar Kant, 145 Uma atividade desconhecida: a leitura, 262
O sentido “ literal", produto de uma elite social, 265
VL O TEMPO DAS HISTÓ RIAS, 151 Um “ exercício de ubiquidade", esta “ impertinente ausência", 268
Uma arte de dizer, 152 Espaços de jogos e astú cias, 270
Contar os lances: Detienne, 155
A arte da mem ória e a ocasião, 157 QUINTA PARTE
Histórias, 165 MANEIRAS DE CRER

TERCEIRA PARTE XIII. CREDIBILIDADES POLÍTICAS, 277


PRÁTICAS DE ESPAÇO Queda de cotação das crenças, 279
Uma arqueologia. O trá fico do crer, 281
VII. CAMINHADAS PELA CIDADE, 169 Do poder "espiritual" à oposi ção de esquerda, 284
Do conceito de cidade às prá ticas urbanas, 172 A instituição do real, 286
A fala dos passos perdidos, 176 A sociedade recitada, 289
M íticas: aquilo que “ faz andar” , 183
XIV. O INOMIN ÁVEL: MORRER , 293
VIII. NAVAL E CARCERÁ RIO, 193 Uma prá tica impensável, 294
Dizer é crer, 296
IX. RELATOS DE ESPAÇO, 199 Escrever, 298
“ Espaços” e “ lugares ”, 201
0 poder terapêutico e seu duplo, 299
0 perec í vel , 302

INDETERMINADAS, 305
Lugares estratificados, 309
0 tempo acidentado, 311

Notas , 313 /
*
HISTÓRIA DE UMA PESQUISA

“ Somente o fim de uma época permite enunciar o que


a fez viver, como se ela tivesse que morrer para tomar-se
um livro ” ( p. 300);

Em fevereiro de 1980 sai a primeira edição france -


sa de A invenção do cotidiano.' Trata-se de uma obra iné dita,
apresentando os resultados de uma pesquisa de longo fôlego
(do final de 1974 a 1978), da qual só haviam circulado até entã o
alguns peda ços fragmentá rios .
2

Michel de Certeau é um destes esp íritos anticonformistas


e perspicazes . No cená rio intelectual, é personagem especial,
inconformado com os cânones de uma disciplina rígida , e cuja
irradia ção intelectual segue caminhos estranhos à lógica das
instituições, quer estas se achem ligadas à Universidade, à
Igreja ou ao Estado. Historiador conhecido, respeitado por sua
produ ção cient ífica sobre a m ística e as correntes religio -
sas nos séculos XVIe XVII, é também temido por sua cr í tica

* As referê ncias que di 2em respeito a esta obra estáo integradas no corpo do
texto. As notas numeradas foram postas no final do volume.

9
e x i g e n t e e l ú c i d a d a epistemologia que governa em alvo de suspeita por sua “ loucura ", n ã o se contenta com este
sil ê ncio a profissão de historiador , É censurado por relativjzar estatuto de excel ê ncia em um compartimento delimitado do
a noçã o de verdade, por suspeitar da objetividade das institui - -
passado. Preocupa se com psicaná lise, pertence à Escola Freu -
ções do saber , por sublinhar o peso das depend ê ncias e das diana de Jacques Lacan , desde a funda çã o em 1964 e at é a sua
conivê ncias hier á rquicas e, enfim , por colocar em d ú vida mo - dissolu ção em 1980 manté m amizade intelectual com diversos
4
delos recebidos que fazem a fama da escola francesa de história. grandes barões lacanianos. Mas ainda encontra tempo para
Logo o censurarã o por dar a primazia à escrita em detrimento estudar lingu ística , frequenta assiduamente os semin á rios de
da apreensã o do “ real ” de que o historiador quer dar uma semiótica no grupo de A.J. Creimas, em Paris, e os encontros
descriçã o “ verdadeira ”. Nã o se interessa demais pela leitura anuais de Urbino, na Itá lia , discretamente orquestrados por
semiótica ou psicanal í tica das situa ções e dos textos, coisa Pino Paioni .
estranha ao bom m é todo hist ó rico e que danificam o ideal Se em 1974 um ó rgã o p ú blico ihe encomenda uma pesqui -
( sagrado ) de fixa ção a partir do arquivo, de acumula çã o de uma sa sobre os problemas de cultura e sociedade ( voltarei a falar
( imposs ível ) documenta çã o exaustiva? Censuras repetidas, cen - das circunstâ ncias dessa tarefa ), isto se deve a uma outra faceta
suras injustas e que se irritam por serem tais, pois em nenhum de sua atividade. Com efeito, em 1968 sua notoriedade já
dos pontos em litígio consegue-se vê - lo falhar na sua prá tica ultrapassara as fronteiras dos meios dos historiadores onde
profissional . Assim Emmanuel Le Roy Ladurie deixa transpa- seus trabalhos o consagravam , fora das redes cristã s onde se
recer seu embaraço e irritação corporativa diante da releitura inseria por sua condição de Jesu íta , mas a que se recusava a
brilhante ( demais? ) do caso de Loudun sob Richelieu: “ para limitar a sua circulação intelectual e social . Doravante recebe
Michel de Certeau , teó logo e historiador, o diabo se acha em convites de in ú meros círculos intelectuais de esquerda, dos
toda a parte, salvo no lugar exato onde os ca çadores de bruxas decisores pol íticos que o consultam ou mandam consultar , de
julgaram t ê-io detectado ”. Certeau “sabe fazer o jogo de todas grupos de reflexão nos mais altos escal ões administrativos.
as palavras e assumir sucessivamente todas as linguagens. Ele Vê-se assim associado, de modo informal, ao brain-trust que,
é sucessivamente historiador da medicina e da sociedade, em torno de Edgar Faure, procura reformar a universidade
teólogo, psicanalista , quantificador , discípulo de Freud ou durante o verã o de 1968 e cria novas funda ções para organizar
Foucault ”; “ nunca baixa a guarda. Manté m -se indecifrável. a volta à s aulas. Logo vai receber propostas para ensinar
Apresentando esta astuciosa Possession de Loudun , Michel de Histó ria e Antropologia nesses locais: primeiro em Paris- VIII -
Certeau escreveu portanto o livro mais diabólico do ano".
3
Vincennes ( 1968-1971 ) e depois em Paris Vll -Jussieu {1971-
Pelo leque de seus interesses de estudo, pelo entrecruza- 1978).
mento dos m étodos que pratica sem prestar vassalagem a Este novo papel social nasceu de sua surpreendente capa
nenhum deles, e pela diversidade de suas competê ncias, Cer- cidade de analisar , ao vivo, entre maio e setembro de 1968, o
teau intriga e desconcerta . No tabuleiro de uma profissão de turbilh ã o dos “acontecimentos", como se dizia ent ã o. Numa
gostos geralmente sedentá rios ele n ão pá ra de se movimentar sé rie de artigos brilhantes, e ainda atuais, publicados em
e nunca se identifica com um lugar determinado. Jesu í ta , ele Etudes. revista mensal dos Jesu í tas, apresentou desse tempo
se recusa a ganhar dividendos com esta situaçã o de perten ça de incerteza uma leitura inteligente e generosa, acolhedora da
a uma grande Ordem , mas nunca rompe os v í nculos com a mudan ça , livre do medo que paralisava muitos dos seus con-
Companhia . Historiador que se mostrou magistral na erudi ção temporâ neos.5 Procurou n ã o propor solu ções, nem apresentar
mais clássica , como o mostra a sua edi çã o monumental da um diagn óstico definitivo que encerrasse o futuro, mas sobre-
Correspondê ncia de Surin , um jesu í ta m ístico do século XVII,

10 11
tudo compreender o que estava acontecendo. Toma por objeto qu ê e como ’? ” 10 Nesta pergunta eu reconheço a primeira forma
n á o a escuma dos dias, o desconcerto e a confusã o do discurso de inversão de perspectiva que fundamenta A invenção do
político , as lamenta ções de uns, as censuras dos outros, mas o cotidiano , deslocando a atenção do consumo supostamente
sentido oculto daquilo que , mais profundo, e ainda misterioso, passivo dos produtos recebidos para a criação anónima , nasci -
se manifesta essencial em uma grande confusão de palavras. da da prá tica do desvio no uso desses produtos.
Esta ebuli ção, esta desordem de palavras e barricadas, esta Em vista de suas originais tomadas de posi ção em diversos
revolta e tantas greves, o que dizem a respeito de uma socie- estudos publicados a partir de 1968 , Certeau recebe a proposta
dade , do que ela esconde e espera ? Na brecha entre o dizer e de ser o relator do Colóquio Internacional de Arc-et-Senans
®
o fazer, que ele acredita perceber, Certeau n ã o v ê ameaças, ( abri! de 1972 ) onde se deve preparar o encontro de Helsinque
mas uma possibilidade de futuro. Decifra ali o começo de uma entre Ministros da Comunidade (setembro do mesmo ano), para
grandiosa aventura social e reconhece, em face da gera çã o dos definir uma pol í tica europé ia da cultura. Esse trabalho será
pais ( a sua ) que n ã o soube ou n ã o conseguiu assumir a sua uma etapa decisiva na cristalização de sua reflexão sobre as
paternidade, as legítimas impaci ê ncias de uma gera ção de filhos prá ticas culturais . Em 1974, ele re úne sob um tí tulo revelador,
que nem a mediocridade das pequenas venturas nem a gestã o A cultura no plural , os relatórios redigidos para Arc-et-Se-
11

da ordem social poderiam satisfazer. nans e alguns trabalhos com objeto semelhante. O simples
Maio de 1968 deixa Michei de Certeau intrigado, “ tocado ” , tí tulo escolhido já manifesta a recusa da uniformidade que um
“ alterado ” , segundo seus pró prios termos . Receberá uma mar - poder administrativo gostaria de impor em nome de um saber
superior e do interesse comum . Através dos textos reunidos ,
ca definitiva . Segundo outra de suas fórmulas, forjada para
pode-se acompanhar , nas entrelinhas , o programa de pesquisa
descrever a situaçã o contempor â nea do7 Cristianismo, deu-se que vai ter o seu desdobramento em A invenção do cotidiano .
ent ã o nele “ uma ruptura instauradora ” , não que ele queira
abandonar , esquecer ou renegar a sua existê ncia anterior mas ,
J á se acha claramente esboçada a sua “ empreitada teórica ”: e
preciso interessar-se não pelos produtos culturais oferecidos
porque doravante o seu saber e sua inteligê ncia, sua energia
no mercado dos bens, mas pelas operações dos seus usuá rios;
social serã o mobilizados de outra forma , pondo-se a servi ço de é mister ocupar-se com “as maneiras diferentes de marcar
um esforç o de elucidação agora prioritá rio. Doravante ele socialmente o desvio operado num dado por uma prática ”. O
precisa , como diz , “ voltar a esta ‘ coisa’ que aconteceu e
que importa já não é , nem pode ser mais a “ cultura erudita ",
compreender aquilo que o imprevis í vel nos ensinou a respeito D
tesouro abandonado à vaidade dos seus proprietá rios. Nem
de n ós mesmos, ou sejaT aquilo que. entãof nos tornamos ”. tampouco a chamada “cultura popular", nome outorgado de
Ningu é m poderia furtar-se a essa tarefa: ‘elucid á -la era. para
fora por funcioná rios que inventariam e embalsamam aquilo
mim . uma necessidade. N ã o primeiro para os outros. Antes de
9 que um poder já eliminou , pois para eles e para o poder “ a
mais nada . por uma necessidade de veracidade", E a essa busca
beleza do morto ” é tanto mais emocionante e celebrada quanto
radicai , ele nã o sabe como lhe dar realidade, hesita , tateia, melhor encerrada no túmulo 13. Sendo assim , é necessá rio
busca um campo de a çã o. instrumentos de an á lise , um modo voltar-se para a “ proliferação disseminada" de criações anóni -
adequado para intervir . Reflete sobre os problemas da escola , mas e “ perec íveis” que irrompem com vivacidade e não se
Jas universidades, das minorias lingu ísticas, sobre aquilo que capitalizam . 14 Um dom ínio de pesquisa é circunscrito , se os
constitui a cultura numa sociedade . Seu pensamento procura meios teóricos de trabalhar nele se acham ainda mal definidos.
achar seu pr ó prio caminho e seu objeto, e já identificou a sua Esse dom ínio dirá respeito às “ operações culturais (que ) sã o
verdadeira quest ão: “ a questã o indiscreta ”: Como se criar ?, que movimentos” e cujas “ trajetórias não são indeterminadas mas
toma o lugar daquela que fora a “ imperiosa urgê ncia : ‘ criar o

lir 13
insuspe í tá veis” constituindo aquilo cuja formalidade e modali- na Universidade de Genebra (1977-1978), e depois como Pro -
dades se deve estudar para dar-lhes o estatuto de inteligibilida- fessor titular na Universidade San Diego (Calif ó rnia ), a partir
de. 15 cultura no plural , nâ o podendo dizer mais, ele retornará
^ -
de setembro de 1978. Dá se a Certeau ampla liberdade para
aos trabalhos ulteriores de esclarecer os caminhos sinuosos definir o conte ú do e os m é todos do contrato, ele sozinho
que se percebem nas ast ú cias tá ticas das prá ticas ordin á rias. garante a sua dire çã o científica e se cerca de colaboradores
A ocasião para tanto se apresentará gra ças à amizade e escolhidos. São-lhe impostos um plano de trabalho sobre a
admira çã o de Augustin Girard. Responsá vel pelo Serviço de prospectiva ( os tecnocratas acreditam então nesse gê nero de
Estudos e Pesquisas , na Secretaria de Estado da Cultura ( esse discurso ) e um pesquisador encarregado de trabalhar no pro -
era o departamento governamental em vigor ), Girard leu e jeto, mas este último logo deixará o trabalho em curso, de sorte
escutou Certeau . Começa por assegurar durante um ano a sua que Certeau terá que resolver, para honrar a letra do contrato
colaboraçã o gra ças a uma dire çã o de estudos ad hoc em seu assinado, constituir um grupo de prospectiva cultural, conside-
Servi ço. Essa experi ê ncia o confirma em sua convicçã o: Cer
teau é o homem indicado, ele é capaz de definir esta problemá-
- rada “sob a sua formalidade cientí fica e como literatura utó pi -
17
ca ” (segundo um documento de trabalho enviado à DGRST).
tica de pesquisa e de açã o sobre a cultura da qual os decisores A leitura cr ítica dos “ cená rios para o futuro ” e dos grandiosos
pol íticos e suas administra ções necessitam para orientar suas projetos de uma “sisté mica ” supostamente capaz de colocar
escolhas e fixar prioridades orçamentarias. Com habilidade e ordem na descrição do presente e possibilitar a previsão do
um certeiro senso da oportunidade
16
. Girard apresenta uma futuro se mostrará decepcionante , pobre em conceitos, rica em
proposta junto à DGRST, onde atua no Comit é de Dire ção redund â ncias e retóricas cifradas, de tal sorte que o estudo
( presidido por Paul Delouvrier ), encarregado da tarefa deter
minada “ Desenvolvimento cultural ’’. Corre o m ês de junho de
- anunciado não será redigido. No intervalo, felizmente, o vento
mudará de direçã o e a DGRST cessou de acreditar na impor-
1974, já est á à vista a prepara çã o do VII Plano, o Comité está tâ ncia desse amável palavró rio.
embaraçado, sem ideias bem claras a propor ão Delegado Geral
( Hubert Curien , antigo Diretor Geral do CNRS ( Centre National
O contrato assinado prevê que Certeau poderá beneficiar -
de Recherches Scientifiques ), e futuro Ministro da Pesquisa sob se da documentação e da experiê ncia acumuladas pelo Servi ço
o governo de esquerda ). Mas ainda h á créditos de pesquisa de Cirard. Este acabara de publicar uma ampla enquete sobre
1O

dispon íveis e é preciso alocá -los, logo, antes que, como de as pr á ticas culturais, fornecendo um instantâ neo preciso e
quantificado dos modos de consumo cultural e de ocupação do
praxe, os serviços do orçamento congelem os excedentes n ão
gastos. Girard sugere um projeto de reflexã o de envergadura , tempo livre, repartidos segundo a idade, o sexo, a categoria
esboça -o, propõe que se chame Michel de Certeau , argumenta , social, a á rea de resid ê ncia etc. Quanto a Certeau , pretende
persuade , atinge o seu desideratum . Logo se pede a Certeau afastar seu projeto desse tipo de sondagem estat ística, cujos
'
uma síntese feita simultaneamente a partir da prospectiva, de limites percebe, limites devidos à pr ópria natureza dos proces-
casos concretos e do meio da pesquisa " ( termos do Comité). sos aplicados. Nã o que ele despreze as estatísticas, mas uma
demarche como esta deixa escapar o que mais lhe interessa: as
A encomenda ganha a forma oficial de um contrato de
opera ções e os usos individuais, suas liga ções e as trajetó rias
pesquisa , intitulado “ Conjuntura , s íntese e prospectiva ” , inicial -
vari á veis dos praticantes. A introdu ção das Artes de fazer
mente previsto para dois anos, depois prolongado mais um ano.
resumirá claramente a sua crítica, A estat ística “ apreende o
O contrato dura materialmente do final de 1974 ao final de
material destas prá ticas e n ão a sua forma; ela põe à mostra os
1977 , a reda çã o final dos trabalhos ser á apresentada em 1979
elementos utilizados e não o ' fraseado’ devido à bricolagem , à
pois, no intervalo, Certeau lecionar á como Professor convidado
inventividade ‘artesanal’, à discursivjdade que combinam esses

14 15
elementos, todos ‘recebidos' e de cor indistinta ”. Por isso, “ a tempo ).” Ficam portanto definidos um campo de objetos, uma
sondagem estatística só ‘acha' o que é homogéneo. Ela repro- linha de pesquisa, uma tarefa teó rica. Trata -se , diz o texto, “ de
duz o sistema a que pertence ”. esboçar uma teoria das práticas cotidianas para extrair do seu
A cr ítica de Certeau tem como fonte a sua reflexão sobre ru ído as maneiras de fazer" que, majoritá rias na vida social,
a epistemologia da histó ria. Em sua geração, foi ele um dos não aparecem muitas vezes senão a título de “ resistê ncias” ou
raros historiadores ao mesmo tempo apaixonado pelos novos de in é rcias em relação ao desenvolvimento da produ ção “ só -
m é todos, disposto a correr o seu risco e l úcido sobre suas cio-cultural ”. O essencial do que ser á feito na Invençã o do
determinaçõ es e seus limites. Por isso, não sucumbe aos cantos cotidiano está claramente enunciado e a introdu ção geral das
de sereia do quantitativo ou à s seduções modernistas da Artes de fazer nã o dirá outra coisa sen ã o que “as ast úcias de
informatização; talvez tenha sido o seu amor ao texto ( e sua consumidores comp õ em , no limite, a rede de uma antidisciplina
consciê ncia da diversidade dos métodos de leitura) que o que é o tema deste livro”.
protegeu das ilusões contemporâ neas. De modo semelhante, Somente um termo novo, “antidisciplina ", aparece a mais
foi capaz de não ceder ao parti pris contrá rio, que difamava
sistematicamente o recurso ao n ú mero, ao computador, à
em 1980, como eco, certamente, do trabalho de Michel Fou
cault, cujo livro-chefe (aos olhos de Certeau ), Vigiar e Punir,
-
formalização. Em ú ltima instâ ncia, sua lucidez provinha, creio veio a lume em 1975 e teve logo uma grande repercussão 20 No .
eu, de sua formação filosófica e do interesse pela epistemologia. entanto, não está absolutamente exato dizer que “ existe uma
Da í sua insistê ncia no fato que os dados numéricos só tê m filiação evidente e aliás reivindicada ” entre as duas obras, 21
validade e pertin ê ncia conforme as condições de sua coleta. filiação na qual Certeau teria constru ído as Artes de fazer, em
Tratados manualmente ou submetidos a um tratamento sofis - resposta e oposiçã o à aná lise de Foucault, pois os grandes
ticado pela máquina, os dados continuam sendo o que são no temas de Certeau estão nitidamente articulados nos seus textos
momento de sua produ ção como tais; sua qualidade e sua anteriores à leitura de Vigiar e punir. Assim ele usa já o
significa ção informativa são proporcionais às dos procedimen - vocabulá rio das “ estratégias” e das “ táticas” em um artigo
publicado em abril de 1974 e esse vocabulá rio estrutura os
tos para obtê-los e construir as categorias que organizaram essa
produçã o. E umas valem o que valem as outras.19 Historiador, documentos internos de trabalho, redigidos para a DGRST na
Certeau estava armado para resistir às ilusões da cientificí dade fase de definição do contrato em junho de 1974 ou dirigidos
através do n ú mero, dos quadros e porcentagens. Analista da na mesma data àqueles que Certeau esperava reunir no “ pri -
cultura , não tinha razão alguma para aceitar aqui o que lá meiro círculo” de interlocutores ( voltarei a este ponto mais
rejeitara. adiante ). Mas é verdade que a referê ncia a Foulcault está em
Tendo definido o seu quadro de pesquisa em relação ao bom lugar na obra de 1980. Quantitativamente , Bourdieu se
contrato estabelecido com a DGRST, Certeau se ocupa em acha tã o presente aí quanto ele, senão um pouco mais. Os
precisar o seu objetivo e as principais orientações. Um docu - dois autores recebem de fato um tratamento compará vel,
dividem o mesmo papel de fornecedores de propostas teóricas
mento de trabalho, enviado ao comanditá rio em fevereiro de
1975, enfatiza a “cultura comum e cotidiana enquanto apro - fortes, lidas de perto, com admiração e respeito, cuidadosamen-
te discutidas e , enfim , postas de lado.
priação ( ou reapropriação) ” , o consumo ou recepçã o conside-
rada como “ uma maneira de praticar ”, enfim a necessidade de Se Foulcault e Bordieu strvem ao mesmo tempo de figuras
“elaborar modelos de an á lise que correspondam a essas traje - teóricas de oposição, é por motivos semelhantes, e a discussão
tó rias ( ou séries de operações articuladas umas às outras no de suas teses não basta para explicá-lo. Aqui entra em jogo uma

16 17
falaria de Deus com mais vigor e sabedoria que todas as
diferença que precede a teoria, uma distância que se poderia 26
qualificar de antiaímidade eletiva e que n ã o impede o interesse autoridades da Escritura ou da Igreja. Sua não-credulidade
ou o fascínio pelas teses contrá rias. Por estas palavras quero diante da ordem dogm á tica que as autoridades e instituições
querem sempre organizar , sua aten ção à liberdade interior dos
-
referir me a uma coisa que caracterizaria a inspiração de
não-conformistas, mesmo reduzidos ao silê ncio, que modificam
conjunto de um pensamento, seu "estilo ”, sua tonalidade
pr ó pria , em suma , seus pressupostos que n ã o dependem da ou desviam a verdade imposta , seu respeito por toda resistên -
cia, ainda que m ínima , e por toda forma de mobilidade aberta
consciência cr ítica do autor e jamais são explicitados, mas onde
por essa resistê ncia, tudo isso dá a Certeau a possibilidade de
- -
se enra íza aquilo que especifica um modo de estar no mundo e .
crer firmemente na Uberdade gazeteiro das práticas Assim, é
de tornar o mundo inteligível a si mesmo . Isto se refere à
organizaçã o das for ças internas que governam a economia de natural que perceba microdiferen ças onde tantos outros só
um pensamento, determinando suas preferê ncias e desconfian - veem obedi ê ncia e uniformizaçã o. É natural que ele concentre
a aten ção nos min úsculos espa ços de jogo que táticas silencio-
ças.^ Em Michel de Certeau são sempre perceptíveis um elã
otimista, uma generosidade da inteligê ncia e uma confiança
sas e sutis “ insinuam ” , como lhe apraz dizer , brincando com
os dois sentidos do verbo, na ordem imposta. E pouco importa
depositada no outro, de sorte que nenhuma situaçã o lhe parece
que esta ordem hoje diga respeito a produtos de consumo
- -
a priori fixa ou desesperadora. Dir se ia que , sob a realidade
oferecidos por uma distribuiçã o de massa que pretende confor-
maciça dos poderes e das institui ções e sem alimentar ilusões
quanto a seu funcionamento, Certeau sempre discerne um mar a multid ão a modelos de consumo impostos, ao que ontem
movimento browniano de micro-resistê ncias, as quais fundam se trataria da ordem das verdades dogmá ticas que se devem
por sua vez microliberdades, mobilizam recursos insuspeitos, crer e dos ritos obrigató rios de celebraçã o. Os mecanismos de
e assim deslocam as fronteiras verdadeiras da dominação dos resistê ncia são os mesmos, de uma é poca para outra , de uma
poderes sobre a multidã o an ónima. Certeau fala muitas vezes ordem para outra , pois continua vigorando a mesma distribui-
desta inversã o e subversão pelos mais fracos, por exemplo a çã o desigual de forças e os mesmos processos de desvio servem
propósito dos ind ígenas da Am é rica do Sul, submetidos à ao fraco como último recurso, como outras tantas escapató rias
cristianiza ção forçada pelo colonizador hispâ nico. Parecendo e ast ú cias, vindas de “ imemoriais inteligê ncias”, enraizadas no
por fora submeter-se totalmente e conformar-se com as expec- passado da espécie , nas “ distâ ncias remotas do vivente ”, na
tativas do conquistador, de fato “ metaforizavam a ordem domi- -
história das plantas ou dos animais tema aristoté lico inespe -
nante ” fazendo funcionar as suas leis e suas representações rado num homem que preferia ao lógico naturalista da Grécia
“ num outro registro ”, no quadro de sua pr ó pria tradiçã o. Antiga a escrita poé tica da filosofia plató nica.

Essa diferen ça em face da teoria se deve a uma convicçã o Certeau resume sua posição em uma tirada que se deve
ética e pol ítica, alimenta -se de uma sensibilidade estética que levar a sé rio:
se exprime em Certeau através da constante capacidade de se “Sempre é bom recordar que n ão se devem tomar os outros
maravilhar. “ O dia-a -dia se acha semeado de maravilhas, escuma por idiotas ”. Nesta confian ça posta na inteligência e na inven -
tã o brilhante (...) como a dos escritores ou dos artistas. Sem tividade do mais fraco, na aten çã o extrema à sua mobilidade
nome pr ó prio, todas as espécies de linguagens d ão lugar a essas tá tica , no respeito dado ao fraco, sem eira nem beira , m óvel por
festas efémeras que surgem , desaparecem e tornam a surgir ”. ser assim desarmado em face das estratégias do forte, dono do
Se Michel de Certeau vè por toda a parte essas maravilhas, é teatro de opera ções, se esboça uma concepçã o pol ítica do agir
porque se acha preparado para v ê-las, como Surin no século e das relações nã o igualitá rias entre um poder qualquer e seus
XVII estava apto a encontrar “ o cocheiro analfabeto ” que lhe

18 19
s úditos. Aqui me parece que ele reconhece o vestígio de uma se trata de elaborar um modelo geral para derramar neste
concepção ignaciana do agir . Assim designo nã o o conte údo de molde o conjunto das prá ticas, mas, pelo contrá rio, de “ especi-
um projeto polí tico definido por sua relação a uma é poca, um ficar esquemas operacionais” e procurar se existem entre eles
lugar , uma situa ção, mas as pr ó prias moias do agir assim como categorias comuns e se, com tais categorias, seria poss í vel
In ácio de Loiola as aplica em seus enunciados principais ( por explicar o conjunto das prá ticas. Voluntariamente, em sua
exemplo as regras dos Exercícios Espirituais ou as normas das adequa çã o a seu objeto concreto, a aná lise aqui se dedica a um
Constituições ). Esta concepçã o do agir é, em Michel de Cer- incessante vaivé m do teórico para o concreto, e depois do
teau , insepará vel da referência a uma “arte ” , um “estilo” , duas particular e do circunstancial ao geral. Certeau o diz claramente
noções igualmente familiares à cultura jesuí tica da Renascen ça. a propósito da leitura para a qual traça um paradigma central ,
Certeau se utiliza desses dois conceitos , em Artes de fazer, para esta an álise das pr á ticas “ vai e vem , cada vez novamente
compreender as prá ticas culturais, assim como lhe servem aliás captada brincalhona, protestatá ria , fujona ”, à imagem da
para interpretar os textos m ísticos. Na cultura ordiná ria, diz realidade m óvel que procura captar.
ele, “ a ordem é exercida por uma arte", ou seja, ao mesmo Para cumprir esse programa de pesquisa, ambicioso e
tempo exercida e burlada. Nas determina ções da institui ção “ se complexo, Certeau tentou organizar três círculos de interlocu-
insinuam assim um estilo de trocas sociais, um estilo de tores, círculos distintos com fun ções separadas, mas com
invenções técnicas e um estilo de resistência moral ”. Ou seja , pontos de contato, certos membros circulando de um para o
“ uma economia do dom" , “ uma esté tica de lances” e uma “ é tica outro. O " primeiro círculo ” em ordem cronol ógica aparece em
da tenacidade" , três qualificativos que levam ao termo a junho de 1974. Certeau reú ne aí jovens pesquisadores, cursan -
valoriza ção da cultura ordin á ria e atribuem com todo o direito do ou terminando a faculdade, com poucas exceções, pessoas
às prá ticas o estatuto de objeto teórico. Resta então encontrar que ainda nã o tê m um estatuto institucional ou que empreen-
o meio para “ distinguir maneiras de fazer ”, de pensar “estilos dem um trabalho de pesquisa à margem de uma atividade
de a ção”, ou seja, fazer a teoria das pr á ticas. alimentar. A sua média de idade beira os trinta anos, quanto
Para realizar tã o dif ícil tarefa , convoca-se uma multiplici
dade de saberes e de métodos, aplicada segundo procedimentos
- aos mais experientes, e na maioria dos casos não passa dos
-
vinte e cinco. A proposta inicial se dirige a Marie Pierre Dupuy,
variados, escolhidos segundo a diferença das prá ticas conside- Marie Ferrier, Dominique Juiia (que se recusou , absorvida por
radas. Mas Certeau se precavem dissipando qualquer equ ívoco seus trabalhos hist ó ricos ), Patrick Mignon , Olivier Mongin,
sobre suas intenções, ele não quer nem oferecer “ uma histó ria Isabelle Orgogozo e eu. Em julho entram no “ primeiro círculo”
das teorias sobre as prá ticas” nem “ a constituição de uma Thomas Gunther ( estudante americano ), Pierre Mayol e Pierre
semiótica " que tentasse satisfazer o sonho do século XVIII de Michelin. O círculo não se estenderá mais, talvez por causa de
ter enfim uma descrição completa e sistemá tica das artes. Mas sua dura ção efé mera. Numa carta circular, Certeau propõe a
se limita a propor “ algumas maneiras de pensar as prá ticas cada interlocutor que escolha “ uma prá tica observadora e
cotidianas dos consumidores, supondo no ponto de partida que engajada ” num bairro parisiense a determinar em conjunto,
elas s ã o do tipo tá tico ” . Com esse intuito, a an á lise se ordena mas especifica que nã o se trata nem de se ligar a uma “ comu -
em tr ês n íveis: as modalidades da açã o, as formalidades das nidade ” ( nascida nos anos ’60, o sonho comunitá rio ainda é
pr á ticas, os tipos de opera çã o especificados pelas maneiras de muito atraente) nem constituir um grupo fechado. Pelo contr á -
fazer . Cada proposi ção teórica é logo submetida ao teste de rio, escreve, “ nosso grupo se acha aberto a outros que pode -
uma prá tica concreta, aqui o modo de caminhar na cidade, ali riam interessar-se ”, “ formamos um lugar transitó rio que se
a descrição de uma moradia, alhures a leitura silenciosa. Não percorre e de onde se sai tá o amigavelmente como se entrou ”.

20 21
0 que ele deseja é um trabalho em cooperação, um confronto variável , uma cumplicidade duradoura e a insistê ncia posta na
de experi ê ncias e de engajamentos com a gera ção mais moça, -
necessidade de referir se a casos concretos para fazer “ sua
mas não quer que a aventura culmine na constituição de um descriçã o ou historiografia ”, f órmula diversas vezes usada por
“ ref ú gio" nem na formação de uma seita, ainda que de pensa - Certeau nos documentos internos do “ primeiro círculo” . 0
mento. Protege-se desses perigos, e ao grupo, conhecido sob o “ primeiro círculo ” nã o foi in ú til, pois reuniu pessoas que, com
título vago e insólito de “ grupo experimental ”, recusando raras exceções, como o duo insepar á vel Mignon e Mongin (cuja
instalar-se como l íder carismá tico como “ maitre à penser ” -
duração parecia consolidar se com o parentesco dos sobreno-
cercado de discí pulos." Ainda que a vida do “ primeiro círculo” mes) não se conheciam anteriormente. Alé m disso, os colabo-
tenha sido efémera , o eco dessa proposta se encontra , enuncia- radores efetivos da pesquisa foram enfim escolhidos por
do quase nos mesmos termos, na abertura de A invenção do Certeau entre os membros do “ primeiro círculo”, o que alguns
cotidiano, cujos dois tomos escritos em colaboraçã o permiti - dos outros membros sentiram como forma de desaprova çã o e
ram que “a pesquisa se pluralizasse ” e que “ vá rios passantes me explicaram alguns anos depois,
se cruzassem ”, sem erigir um lugar próprio nem acumular um O “ segundo círculo ” de interlocu çã o foi o Seminá rio de 36
tesouro cuja propriedade guardariam. Pelo contrá rio, “esse Ciclo, assegurado por Michel de Certeau em Antropologia na
entrelaçamento de percursos, muito ao invés de constituir um Universidade de Paris-VIIJussieu , de 1974 a 78, até sua ida
fechamento, prepara, assim espero, nossos caminhos para se definitiva para a Calif ó rnia. Foi este na verdade o ponto onde
perderem na multidão". se ancorou a empreitada, um lugar extraordiná rio onde a gente
O “ primeiro cí rculo ” funciona de junho de 1974 à prima- aprendia, confrontava dados e perguntas, ia buscar esquemas
vera de 1975, e suas atividades vão decrescendo silenciosamen- -
teó ricos, instru ía se no leque das ciê ncias sociais, segundo a
te. Desfaz-se tranquilamente. Os participantes, cada um preso tradição francesa, mas também na produ ção estrangeira recen-
por seu lado em redes, trabalhos e militâ ncias, não souberam te, da Europa e da Am é rica. Ali qualquer proposi ção era
ou não puderam inventar para si um lugar comum de investi - submetida à cr ítica comum e ao mesmo tempo levada a sério,
mento e de investigação, suas prá ticas e seus interesses eram pois toda posi ção teó rica era a priori considerada defensável,
provavelmente muito divergentes para chegarem a um acordo contanto que esteada em argumentos e posta em rela ção com
sobre um projeto. Talvez só tivessem em comum a impaciência uma prova concreta . Certeau gostava de citar a refutabiiidade
de sua gera ção e sua ligação pessoal a Michel de Certeau, coisa das teorias, sugerida por Karl Popper como crité rio de cienti-
que era muito pouco para que pudesse emergir um grupo ficidade e inspirando-se, sem no entanto ser um poperiano,
s ólido na medida em que seu promotor se recusava a ser a sua quanto ao resto ( no passado frequentara muito Hegel, e recen -
razã o e seu cimento. Talvez a procura de Certeau fosse ambi- temente se interessava muito em Wittgenste í n , para se deixar
valente e deixasse o círculo se desfazer à medida que tomou iludir pelas pretensões de Popper ). O Seminá rio discutia com
consci ê ncia dessa ambival ência ( quero falar da ambivalê ncia de equanimidade todas as etapas de uma pesquisa , desde as
seu papel no grupo que suscita, mas do qual não quer ser o primeiras hipó teses te ó ricas mal afinadas, com as quais se
pólo de atração nem a razão de ser ). Em todo o caso, após partia à procura de um “ terreno”, até as interpreta ções ú ltimas
alguns meses, fica evidente que a inserção do grupo em um que formalizavam os resultados obtidos. Isto ocorria num clima
bairro fora um sonho e continuaria sendo. Outro fator dessa de liberdade intelectual e de igualdade de todos os participan-
dissolu ção silenciosa foi a importâ ncia logo assumida pelo tes , aprendizes inseguros ou pesquisadores tarimbados, todos
“ segundo círculo” e a vitalidade que irradiava. Do “ primeiro igualmente ouvidos e discutidos. Ali não reinava nenhuma
círculo” subsistir ão entre os membros laços de intensidade ortodoxia , n ão se impunha nenhum dogma, pois a ú nica regra

22 23
mas vigorosa) era um desejo de elucida ção e um
( impl ícita , aportava ao grupo parisiense a diferen ça de uma inserçã o na
interesse de conhecer a vida concreta. Momento miraculoso, proví ncia, num bairro popular, e o material de um estudo
ali pairava um ar de inteligê ncia , uma forma de alegria no longitudinal, levando em conta tr ês gerações de uma fam ília
trabalho que jamais eu encontrara na instituição do saber. que ficara sempre ligada ao mesmo bairro. Minha colaboração
Havia ali um vau onde o barqueiro encorajava , orientava, e teve inicialmente como objeto um pedido de Michel de Certeau ,
depois se apagava, cada um recebido com a mesma intensidade que esperava encontrar na ló gica da ação ( da qual ouvira
de escuta, o mesmo calor, a mesma aten çã o incisiva, cada um vagamente falar em c írculos de semioticistas e linguistas
tratado como interlocutor ú nico, insubstitu ível , com delicadeza chomskianos ) um modelo teórico aplicável às prá ticas. Logo
extrema , cheia de respeito. cheguei a um diagnóstico negativo, que foi dif ícil fazer com que
Nesse lugar de popula çã o heterogé nea, m ó vel , que atra ía ele aceitasse em nome da '' limpeza ” l ó gica. Ampliei entã o o
os estranhos, reinava curiosa mistura de proximidade e distâ n- meu campo de pesquisa até as l ógicas do tempo, das modalida-
cia em face do responsá vel , de disponibilidade a cada um e de des e normas, na esperan ça de ali encontrar um n úcleo rigoroso
reserva que evitava ao mesmo tempo a familiaridade, o mime- e preciso para analisar, se n ã o as prá ticas, ao menos enunciados
tismo ou a instalaçã o na depend ê ncia. Por ali a gente passava, referentes a elas. Num segundo momento dessa reflexã o, come-
depois continuava o caminho, por vezes se voltava lá depois de cei a estudar a articulaçã o entre língua formal e l íngua natural,
longa ausê ncia, como um psicanalista que procura outro psica- apoiando-me em particular nas teses em confronto de Wittgens-
nalista para “ controle” num momento dif ícil. Desta “ maneira tein (ao mesmo tempo o “ primeiro ” e o “segundo ” Wittgens-
de fazer ” , que tanto talento propiciou aos estudantes (como tein ) e do l ógico Hintikka. Elementos desse trabalho foram
atestam in ú meras memórias de DEA e teses do 32 Ciclo, fruto incorporados à 1 parte das Artes de fazer.
do Seminá rio ), M . de Certeau levou consigo o segredo para a Era meu intuito redigir à parte um estudo t écnico sobre
Calif órnia.30 Mas há como que um reflexo deste segredo em A este problema das lógicas e sua maneira de “ folhear ” os
invenção do cotidiano, dando a esta obra seu particular sabor. enunciados lingu ísticos, mas com Michel de Certeau, quando
No fundo, o “ segundo círculo ” constituiu o lugar de experimen - em 1979 terminaram os dois volumes, decidimos publicá -los
taçã o e a câmara de ressonâ ncia em que as proposições teó ricas sem esperar o té rmino do terceiro que pretend íamos consagrar
das Arfes de fazer foram elaboradas e testadas em vá rios a este problema das l ógicas e à questã o das pr á ticas de
contextos, no cruzamento de m ú ltiplas sondagens in loco, feitas linguagem. Esta ú ltima parte teria sido um trabalho a quatro
em Paris e fora da cidade. O Semin á rio não produziu essas m ã os, redigido por ele e por mim. Este projeto foi inicialmente
proposições teó ricas das quais, como já indiquei, o essencial se intitulado Lógicas e astúcias ( nos documentos intermediá rios
encontra nos trabalhos de Certeau entre 1968 e 1974, mas redigidos para a DGRST ), depois Dizer o outro ( quando a obra
forneceu um lugar favorável para serem afinadas e levadas ao apareceu , em 1980 ), enfim , o título que lhe conservamos. Artes
ponto final. de dizer. Depois de 1980, discutimos mais de uma vez o projeto,
O “ terceiro cí rculo ” foi um grupinho restrito e está vel , -
refizemos seu plano, tentamos fixar lhe o calend á rio de reda-
composto de colaboradores diretos do contrato com a DGRST. ção, e Certeau a ele consagrou alguns de seus Cursos e
Primeiro , Pierre Mayol e eu , a seguir, na ú ltima fase do Semin á rios, na Califórnia. Mas estava então absorto na sua
trabalho, Marie Ferrier . Logo em seguida , Pierre Mayol tomou Histó ria da M ística , e eu pela história da lógica e das l ínguas
como tema a prá tica da cidade, na rela ção entre o bairro e o na Renascen ça , o tempo correu , e o terceiro volume nunca veio
espaço privado da moradia. Foi uma colaboraçã o preciosa, pois
31
à luz. Ele o lamentou sempre, bem como os “ capítulos fal -
tantes ”, dizia ele, em Artes de fazer, que teriam abordado a

24 25
memória e a museologia, o crer ( deste se acha um esboço no diá logos de maravilhosa liberdade, ricos em informa ções ines-
Capítulo XIII ), a tortura, enfim a cientificidade ( um dossi ê no peradas. O “ segundo círculo ”, como o nosso pequeno trio antes
qual hav íamos trabalhado intensamente e do qual publiquei da chegada de Marie Ferrier, refletira longamente sobre as
minha parte em diversos artigos, particularmente em Esprit , técnicas de observação-participação e de coleta de conversas
entre 1974 e 1981 ). profundas, com relação aos m é todos cl ássicos da antropologia
Mas logo o meu trabalho no “ terceiro círculo ” assumiu um e em rela ção à redescoberta, pela lingu ística, do significado da
rumo inesperado. Nosso trio se reunia uma vez por semana, de distin ção entre o oral e o escrito. O trabalho de Marie Ferrier
manhã, para discutir, isto é, para fazer uma análise teó rica de se beneficiou então dessas explorações teóricas preliminares,
prá ticas concretas. Observei que as mulheres estavam estranha- igualmente aproveitadas por Pierre Mayol em seu estudo sobre
mente ausentes dessa m ú sica concreta, protestei, arrazoei (era o Bairro de Croix-Rousse, em Li ão. Decidiu -se també m publicar
no tempo da tomada de consciê ncia feminista ), e o fiz tã o bem in extenso , no tomo 2, um diá logo de cada sé rie ( o bairro, a
que se decidiu sanar esta grave lacuna , assim que houvessem cozinha ) para atestar a riqueza da palavra das pessoas ordiná -
cessado os outros assuntos. Fui encarregada de definir rapida- 32
-
rias, por menos que algu é m se dê o trabalho de escutá las e
mente um objeto, um terreno, um m étodo, pois já chegara a encorajá-las a exprimir -se. Em fazendo isto, o trio que se
primavera de 1976, o tempo urgia, a DGRST pedia resultados. tornara um quarteto não perdia de vista a inten ção primeira da
Depois de medita ções e debates diversos, escolhi a cozinha por empreitada, a refutaçã o das teses comuns sobre a passividade
sua necessidade primordial, sua capacidade de perpassar todas dos consumidores e a massifica ção dos comportamentos.
as clivagens e sua relação intr ínseca com a ocasião e a A evocação desses três círculos de interlocutores não basta
circunstâ ncia, duas noções que se haviam tornado centrais em para explicar como é que a pesquisa se baseou em experiê ncias
nossa compreensão de praticantes. Para conhecer, em seus concretas levadas a cabo em meios diversos. A isso é mister
detalhes ocultos, os gestos de cada dia, pensamos em recolher, acrescentar o aporte de muitos grupos de ação social ou de
com mulheres idosas e em situações diversas, longos diá logos pesquisa, situados no estrangeiro. Nos anos 1974 1978, Michel
*

constru ídos segundo um esquema flexível, capaz de permitir de Certeau n ão cessou de viajar, convidado a lecionar, partici-
comparações sem que houvesse respostas estereotipadas. Pen- par, supervisionar in ú meros programas de pesquisa ou de a ção
sava-se em ganhar a confian ça no diálogo, para que aflorassem social, e ele aproveitou essas ocasi ões para acumular impres-
aos lá bios lembranças, receios, reticê ncias, todo um não-dito sionante documenta ção sobre os problemas, os métodos, as
experimenta ções culturais e sociais. Algumas dessas estadas
33
dos gestos de mão, decisões e sentimentos que presidem em
silê ncio ao cumprimento das tarefas do cotidiano. Essa maneira se prolongaram bastante ( até um trimestre), o que lhe permitiu
de “ dar a palavra ” às pessoas ordiná rias correspondia a uma participar diretamente em experi ê ncias concretas, e outras mais
das principais inten ções da pesquisa, mas ela exigia na coleta breves só lhe deixaram o tempo de escutar e discutir os
das conversas uma atençã o nunca diretiva e uma capacidade relat órios de outros. Assim se estabeleceu uma rede de pesqui-
de empatia fora do comum. sa informal e ativa, da Europa at é a Am é rica , que teve em de
A tarefa foi proposta a Marie Ferrier , entã o a ponto de Certeau o seu pivô, graças a uma imensa correspondê ncia
retornar da Grécia onde havia morado e trabalhado bom tempo, mantida com grande regularidade e sempre sob forma pessoal ,
e que fizera parte do “ primeiro círculo” em sua existê ncia malgrado o acú mulo de tarefas e suas in ú meras viagens. O
ef émera . Ela aceitou , deixou-se envolver , aplicou-se o melhor aporte desta rede informal se deixa ver por toda a Arte de fazer ,
que pôde em 1974, e soube travar com suas interlocutoras quer se trate do tema dos relatos referentes às façanhas dos
heróis populares no Brasil , à coleta da cultura oral da Dinamar-

26 27
ca , ao espa ço constru ído da cidade americana ou à maneira eu de novo debru çada sobre o texto das Artes de fazer , para
como os nova-iorquinos descrevem o seu local de residência. estabelecer pormenorizadamente a sua segunda edi ção. A
No entanto, esses elementos, lembranças e testemunhos sobre primeira versã o publicada eu acrescentei algumas modifica ções
um outro lugar, não tê m fun ção de incrustação decorativa ou menores, quer para corrigir erros tipogr á ficos da precedente
de realce ex ó tico, são a cada passo incorporados à aná lise como edi ção (quando as condi ções materiais de sua produ ção não
tal e postos a serviço da inten çã o teó rica que d á unidade à permitiram uma apresenta ção perfeita do texto impresso ), quer
tarefa. para levar em conta correções posteriores indicadas por Michel
Esta circulação diversificada e m ú ltipla através do tecido de Certeau sobre o exemplar de seu livro. Assim se suprimiram
algumas repeti ções pouco felizes entre o desenvolvimento da
socia! jamais se limitou apenas ao espaço situado fora da
Fran ça , pois teve o seu equivalente na França nos grupos mais análise e a “ Introdu ção Geral ”, redigida a posteriori para
explicar à DGRST a natureza dos resultados obtidos. Da mesma
-
diversos: militantes da periferia mobilizando se contra grandes
forma, se corrigiram erros pequenos ou imprecisões notadas
operações urban ísticas, decididas por um poder tecnocr á tico,
por ocasi ã o da releitura efetuada com os tradutores da obra
educadores no meio carcerá rio ou nas periferias deserdadas,
( em inglês em 1984, em japon ês e em espanhol em 1987, em
associações de auxílio aos imigrantes, arquitetos responsá veis
pela edifica ção das cidades novas em regi ã o parisiense, moças alemão em 1988). Como o decidira o autor em 1984, para a
tentando aprender a administrar a pró pria sa ú de, minorias versã o americana, o texto da apresentação de conjunto recebeu
defendendo uma tradi ção e uma l íngua regionais contra o o novo título de “ Introdu çã o Geral ”, conforme sua fun ção.
Estado centralista e unificador etc. Todas essas experiências, Nas notas desta introdu ção suprimi as três menções que
esses encontros, esses relatos e esses debates, e igualmente anunciavam estudos complementares futuros, pois sabemos
todo um terreno feito de panfletos , de publicaçõ es efémeras e agora que jamais hão de vir à luz; elas se referiam , como já
de relatórios de estudos produzidos por min ú sculos canais, indiquei , às l ógicas, às pr á ticas da linguagem e à prospectiva.
todos esses filetes de á gua foram irrigar a reflexão, enriquece- Acrescentei algumas notas ao pé de pá gina , sempre indicadas
ram- na , sob o mesmo título que o despojamento da literatura por minhas iniciais , para dar pequenas precisões e traduzir as
científica e da “ literatura cinza ”, empilhada nos centros de citações em l íngua estrangeira . Fazendo esse pequeno traba
lho, percebi que essas citações, em n ú mero de seis, eram em
-
pesquisa e nos minist é rios comanditá rios. A todas essas fontes
Michel de Certeau em A Invenção do cotidiano deve muito, seis lí nguas diferentes ( alem ão, ingl ês, espanhol, italiano, latim ,
mesmo que o rastro de seu aporte se tenha fundido na massa portugu ês ). Esse colorido leque n ão foi consciente , mas gostei
dos materiais acumulados. Certeau reconhecia suas d ívidas do papel revelador do acaso, mesmo aqui , que “ trai ” ( Michel
para com eles, e a eles també m se dirigem as páginas que fazem de Certeau gostava de jogar com o duplo sentido deste verbo)
refer ê ncia à dimensão coletiva de todo trabalho científico, e é uma circulaçã o entre a Europa e a Am é rica , do Velho para o
a eles ainda que se deve referir a dedicat ó ria da I Parte: “ Este Novo Mundo, à imagem do que Fran çois Hartog com muita •5 i

ensaio é dedicado ao homem ordiná rio. Her ó i comum. Perso- felicidade descreve como “ a escritura da viagem ”. Nas refe-
nagem disseminada . Andarilho inumerá vel ”. rências dadas pelas notas homogeneizei e completei as indica-
Quis o acaso (seria mesmo? ) que eu cuidasse da publicaçã o ções bibliogr á ficas. Para os textos de Certeau a cada passo
da primeira edi ção, em 1980, ao passo que Michel de Certeau mencionei a ediçã o mais recente ou a coletâ nea que re ú ne
artigos antigamente dispersos.
iec í onava a tempo integral na Calif órnia. E eis que dez anos
depois, e quase cinco anos depois da morte do autor, aqui esteja

28 29
F

També m acrescentei um índice dos autores citados, para -


É dipo, Robinson na companhia de Sexta Feira, Scapin , Ulrich
e muitos outros povoam estas pá ginas. Figuras-arqué tipos de
permitir itinerários cruzados. A leitura de um índice sempre é
instrutiva e indiscreta, permite ver claramente os segredos da
estatuto intermediá rio, cumprem o of ício de liga ção entre os
fabrica çã o de um texto. Este índice permite constatar ( o que autores conhecidos, indiv íduos nomeados e renomeados, e a
multid ão anó nima dos praticantes inventivos e astutos “ produ -
n ã o é surpresa para os leitores atentos) que o autor que mais
tores desconhecidos, poetas de seus negócios” . Sua presença
contribuições deu ao texto deste volume é sem d ú vida Freud,
presente de um extremo ao outro, homenagem ali ás natural em confere a esta obra inclassificá vel uma profunda humanidade ,
vista de um autor tã o l ú cido de uma Psicopatologia da vida
uma densidade poética onde se reconhece “ o artista, sem
cotidiana ( 1901). Ao lado de Freud , a influê ncia mais profunda d ú vida um dos maiores do nosso tempo, pela graça de um
permanente contraponto entre o rigor de sua escritura e a
não é exercida nem por Foucault nem por Bordieu, cujas teses 35
riqueza das metáforas que o animam ” . Obra inclassificá vel de
são pesadas e perscrutadas num mesmo capítulo, nem por
Detienne e Vernant , cuja “ astú cia " grega desempenhou um um “ jesu íta que se tornou caçador fora da estação legal ”, que
papel essencial no colocar em evid ência as astú cias dos prati - n ão se pode enquadrar nem num gê nero, nem numa disciplina ,
consegue a fa çanha de fazer do ato de ler , imagem da passivi-
cantes, nem por Lé vi-Strauss cujas “ bricolagens” foram um
fator estimulador, mas por Wittgenstein ao qual se dá o crédito dade para a maioria dos observadores e dos professores, o
exemplo de uma atividade de apropria ção, produ ção indepen-
m áximo: “ esta obra disseminada e rigorosa permite fornecer
dente de sentido, noutras palavras, “ o paradigma da atividade
uma é pura filosó fica a uma ciê ncia contemporâ nea do ordiná - tática ”.37
rio ”. Percorrendo-se o í ndice, percebe-se até que ponto o
pensamento de Certeau , alimentado com os aportes comple- Elogio da sombra e da noite ( a inteligê ncia ordin á ria , a
mentares da antropologia , da história, da lingu ística ou da cria ção efé mera, a ocasião e a circunstâ ncia), esta viagem
sociologia, é primeiramente estruturado por sua raizama filo- filosófica atrav és d ’ “a vida comum ”, n ão se mostra cega nem
sófica. Da tradi çã o filosófica, aproveitam -se as contribui ções de para as realidades pol íticas ( de que trata todo o cap ítulo XIII )
todas as é pocas: a Antiguidade com Heráclito, Platã o e sobre- nem para o peso da temporalidade sempre de novo afirmado.
tudo Aristó teles; a é poca moderna com Hobbes, Descartes, Relendo assim o texto, dez anos depois, fico impressionada por
Pascal, Diderot, Rousseau, Kant e Condillac; o século XIX com uma nota insistente, oculta, cont ínua e teimosa, que diz a
Hegel, Marx, Nietzsche ou Peirce; o nosso século com Wittgens- presen ça da morte entre os vivos. Morte de Deus cuja Palavra
tein, Heidegger, Quine, a filosofia anal ítica de lí ngua inglesa, e nã o mais habita o mundo, morte das sociedades, morte das
a vertente francesa com Merleau- Ponty, Deleuze, Lyotard ou cren ças, morte que espera cada um de nós (cap. XIV). Em
Derrida. Michel de Certeau , a morte remete sempre para o processo da
Lamentei n ã o ter podido incluir neste í ndice a galeria de escritura , no qual ele via a matriz das sociedades ocidentais, o
personagens legend á rios ou fictícios, heróis de mitos gregos meio desta racionalidade conquistadora que se estende ao
ou tirados das ' histó rias de enfermos” de Freud , este moderno Novo Mundo no século XVI. Esta hipó tese desempenha um
criador de mitos. Nã o são autores. Mas a sua tropa bem papel central em seu pensamento: apresentada em L’Ecriture
alinhada atravessa ,4s artes de fazer, como outrora os fil ósofos de ihistoire (1975) e já nos artigos reunidos em UAbsent de
e os poetas mortos habitavam os cantos de Dante, ora possíveis Vhistoire ( 1973), vem retrabalhada na La Fable mysiique
( 1982 ). Aqui ela arquiteta a segunda metade das Artes de fazer ,
atores, ora portadores metaf ó ricos do sentido. Antígona , a Bela
Adormecida no Bosque, a Borralheira , Dédalo e ícaro, Dora e e desta tese depende o lugar concedido à teoria do “ relato",
o pequeno Hans, Em ílio, Figaro, Don Juan , Lady Macbeth, insepará vel de uma teoria das prá ticas e central em Certeau.

30 31
Porque o relato é a l íngua das operações, “ abre um teatro de
legitimidade para ações efetivas” e permite seguir as etapas da
operatividade , daí a atençáo concedida, a t ítulo de exemplo, aos
.
relatos de espa ço {cap IX).
Desde o Renascimento, Deus se retirou do mundo e a
escritura não é mais a inté rprete do sentido oculto de sua
Palavra. Assim ela se tornou a grande fabricante , fonte de todo
poder . Desta nova figura da história, Michel de Certeau encon -
/
trava a expressão m ítica perfeita em Robinson Crusoé, texto
que ele jamais se cansava de ler e comentar: agora “ o sujeito
da escritura é o senhor, e o trabalhador que maneja outra
-
ferramenta que não a linguagem será Sexta Feira ”. Sob esta forma
ARTES DE FAZER
nova , a escritura tem uma relação intr ínseca com a morte;
escrevendo, cada escritor se encaminha para a sua própria
morte. “ Sob este aspecto, o escritor é também ele o moribundo
que procura falar. Mas , na morte que seus passos v ão inscre -
vendo em uma pá gina negra (e não mais branca ), ele conhece ,
pode dizer o desejo , que espera do outro o excesso maravilhoso
e efé mero ” de sobreviver numa atenção que ele altera ”.
-
“ Feliz naufr á gio” teria dito Surin, esta inscriçã o da vida
na morte , da morte na vida , à imagem dos dias ordin á rios da
multidão inumerá vel cuja astú cia incansá vel d á vigor a estas
pá ginas.38

Luce Giard

32
Mais que das intenções, eu gostaria de apresentar a
paisagem de uma pesquisa e, por esta composi ção de lugar,
indicar os pontos de referê ncia entre os quais se desenrola uma
ação. O caminhar de uma an á lise inscreve seus passos, regula -
res ou ziguezagueantes, em cima de um terreno habitado há
muito tempo. Somente algumas dessas presen ças me são
conhecidas. Muitas, sem d úvida mais determinantes, conti-
-
nuam impl ícitas postulados ou dados estratificados nesta
paisagem que é mem ória e palimpsesto. Que dizer desta histó-
ria muda? Ao menos, indicando os sítios onde a questã o das
prá ticas cotidianas foi articulada, vou marcar já as d ívidas e
també m as diferen ças que possibilitaram um trabalho nestes
lugares.
Os relatos de que se compõe esta obra pretendem narrar
prá ticas comuns. Introduzi las com as experiê ncias particula
-
res, as frequentações, as solidariedades e as lutas que organi-
-
zam o espaço onde essas narra ções vão abrindo um caminho,
significará delimitar um campo. Com isto, se precisará igual-
mente uma “ maneira de caminhar ”, que pertence ali ás às
“ maneiras de fazer ” de que aqui se trata. Para ler e escrever a
cultura ordin á ria, é mister reaprender opera ções comuns e
fazer da aná lise uma variante do seu objeto.
Quanto às diversas contribuiçõ es que compõe este volu -
me , permitiram que a pesquisa se pluralizasse e que muitos
* Esta pesquisa, financiada pela DCRST e dirigida por Michel de Certeau, é
resumida na Introdução Gerai Aqui só se publica uma parte dos seus resultados, 0

35
dos passantes se entrecruzassem . Concili á bulos na pra ça . Mas
este entrela çamento de percursos, embora longe de constitu í-
rem uma clausura , prepara, assim o espero , nossos caminhos
para se perderem na multid ão.

INTRODU ÇÃO GERAL

A pesquisa publicada parcialmente nestes dois volumes


nasceu de uma interroga çã o sobre as operações dos usuários,
supostamente entregues à passividade e à disciplina. Mais que
de tratar um tema tã o fugidio e fundamental , trata-se de torná-lo
tratá vel, ou seja , fornecer, a partir de sondagens e hipó teses,
alguns caminhos poss íveis para análises ainda por fazer. A meta
seria alcan çada se as prá ticas ou “ maneiras de fazer ” cotidianas
cessassem de aparecer como o fundo noturno da atividade
social , e se um conjunto de questões teó ricas e m é todos, de
categorias e de pontos de vista , perpassando esta noite, permi -
tisse articulá-la.
O exame dessas prá ticas n ão implica um regresso aos
indiv íduos. O atomismo social que, durante tr ês séculos, serviu
de postulado histó rico para uma aná lise da sociedade supõe
uma unidade elementar, o indiv íduo, a partir da qual seriam
compostos os grupos e à qual sempre seria possível reduzi los. -
Volume I foi redigido pot Michel de Certeau: o Volume 2 por Luce Giard e Pierre Mayot
Recusado por mais de um século de pesquisas sociol ógicas,
com a colaboraçã o òe Marie Ferrier para a coleta de algumas entrevistas. Quanto ao econó micas, antropológicas ou psicanal í ticas ( mas, em histó ria,
trabalho de copidesque dos dois volumes desta publica ção esteve a cargo de Luce Giard. isto seria um argumento? ), tal postulado se acha fora do campo

36 37
Muitos trabalhos, geralmente
deste estudo. De um lado, a análise mostra antes que a relação O uso ou o consumo notáveis, dedicam-se a estudar
( sempre social ) determina seus termos, e não inverso, e que
°
cada individualidade é o lugar onde atua uma pluralidade
seja as representa ções seja os
comportamentos de uma socie-
incoerente ( e muitas vezes contraditó ria) de suas determina- dade. Graças ao conhecimento desses objetos sociais, parece
ções relacionais. De outro lado, e sobretudo, a questão tratada possível e necessá rio balizar o uso que deles fazem os grupos
se refere a modos de operação ou esquemas de ação e não
diretamente ao sujeito que é o seu autor ou seu ve ículo. Ela
ou os indiv íduos. Por exemplo, a análise das imagens difundi
das pela televisão ( representações) e dos tempos passados
-
visa uma ló gica operat ória cujos modelos remontam talvez às diante do aparelho ( comportamento) deve ser completada pelo
ast ú cias multimilenares dos peixes disfar çados ou dos insetos estudo daquilo que o consumidor cultural " fabrica ” durante
camuflados, e que, em todo o caso, é ocultada por uma essas horas e com essas imagens. 0 mesmo se diga no que diz
.
racionalidade hoje dominante no Ocidente Este trabalho tem respeito ao uso do espa ço urbano, dos produtos comprados no
portanto por objetivo explicitar as combinatórias de operações supermercado ou dos relatos e legendas que o jornal distribui.
que compõem també m ( sem ser exclusivamente ) uma “ cultura ”
e exumar os modelos de ação caracter ísticos dos usu á rios, dos A “fabricação” que se quer detectar é uma produ ção, uma
quais se esconde, sob o pudico nome de consumidores, o -
po é tica ” mas escondida, porque ela se dissemina nas regiões
estatuto de dominados ( o que não quer dizer passivos ou definidas e ocupadas pelos sistemas da “ produção" ( televisiva,
dóceis ). 0 cotidiano se inventa com mil maneiras de caça não urban ística, comercial etc,) e porque a extensão sempre mais
autorizada. totalitá ria desses sistemas não deixa aos “ consumidores” um
Dado o estado necessariamente fragmentá rio desta pesqui- lugar onde possam marcar o que fazem com os produtos. A
sa, parece ú til apresentar uma vista de conjunto dela, uma uma produ ção racionalizada , expansionista além de centraliza
da, barulhenta e espetacular, corresponde outra produção,
-
espé cie de prospecto. Esta paisagem , vista do alto, oferece
apenas a miniatura de um quebra-cabeça onde ainda faltam qualificada de “ consumo”: esta é astuciosa, é dispersa, mas ao
muitas das pe ças. mesmo tempo ela se insinua ubiquamente, silenciosa e quase
invisível, pois não se faz notar com produtos pró prios mas nas
maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem
1. A PRODUÇÀO DOS CONSUMIDORES económica dominante.
Há bastante tempo que se tem estudado que equívoco
Surgida de trabalhos sobre a “ cultura popular ” ou sobre rachava, por dentro, o “sucesso ” dos colonizadores espanhóis
1
as marginalidades , a interrogaçã o sobre as prá ticas cotidianas entre as etnias indígenas; submetidos e mesmo consentindo na
foi a principio precisada negativamente pela necessidade de não dominação, muitas vezes esses ind ígenas faziam das a ções
localizar a diferen ça cultural nos grupos que portavam a rituais, representações ou leis que lhes eram impostas outra
-
bandeira da “ contracultura ” grupos já singularizados, muitas coisa que nã o aquela que o conquistador julgava obter por elas.
-
vezes privilegiados e em parte folclorizados e que eram Os ind ígenas as subvertiam , não rejeitando-as diretamente ou
apenas sintomas ou reveladores. Mas três determina ções posi- -
modificando-as, mas pela sua maneira de usá las para fins e em
-
tivas, acima de tudo, permitiram articulá la. função de referê ncias estranhas ao sistema do qual não podiam
.
fugir Elas eram outros , mesmo no seio da colonizaçã o que os
“ assimilava" exteriormente; seu modo de usar a ordem domi-

38 39
nante exercia o seu poder, que nà o tinham meios para recusar; Uma outra refer ê ncia preci-
Os modos de proceder da
-
a esse poder escapavam sem deixá lo. A força de sua diferença
criatividade cotidiana sa melhor uma segunda de-
se mantinha nos procedimentos de “consumo”. Em grau me- terminaçã o desta pesquisa.
.
nor um equ ívoco semelhante se insinua em nossas sociedades Em Vigiar e Punir , Michel
com o uso que os meios “ populares" fazem das culturas Foucault substitui a aná lise dos aparelhos que exercem o poder
difundidas e impostas pelas “elites” produtoras de linguagem. ( isto é, das institui ções localizá veis, expansionistas, repressivas
A presença e a circulação de uma representaçã o (ensinada e legais ) pela dos “ dispositivos ” que “ vampirizaram ” as insti-
-
como o código da promoçã o s ócio econ ómica por pregadores, tui ções e reorganizaram clandestinamente o funcionamento do
por educadores ou por vulgarizadores) n ã o indicam de modo poder: procedimentos técnicos “ min ú sculos", atuando sobre e
algum o que ela é para seus usuários. É ainda necessá rio com os detalhes, redistribu íram o espa ço para transform á-lo no
analisar a sua manipula çã o pelos praticantes que n ã o a fabri- operador de uma “ vigil â ncia ” generalizada.4 Problemá tica bem
cam. Só então é que se pode apreciar a diferen ça ou a nova . No entanto mais uma vez, esta “ microf ísica do poder ”
semelhança entre a produçã o da imagem e a produ ção secun - privilegia o aparelho produtor (da disciplina ), ainda que, na
d á ria que se esconde nos processos de sua utilizaçã o. “educa ção ” , eia ponha em evidência o sistema de uma “ repres
sã o" e mostre como, por tr ás dos bastidores, tecnologias mudas
-
A nossa pesquisa se situa nessa diferença ou nesse distan -
ciamento. Poderia ter como baliza teó rica a construção de determinam ou curto-circuitam as encena ções institucionais.
frases pr ó prias com um vocabulá rio e uma sintaxe recebidos. Se é verdade que por toda a parte se estende e se precisa a rede
Em lingu ística , a “ performance ” não é a “competê ncia”: o ato da “vigilâ ncia ”, mais urgente ainda é descobrir como é que uma
de falar ( e todas as tá ticas enunciativas que implica ) n ão pode sociedade inteira nã o se reduz a ela: que procedimentos popu -
ser reduzido ao conhecimento da língua. Colocando-se na lares ( també m “ min ú sculos” e cotidianos) jogam com os meca-
perspectiva da enuncia ção, objeto deste estudo, privilegia-se o nismos da disciplina e n ão se conformam com ela a nã o ser
ato de falar: este opera no campo de um sistema lingu ístico; para alter á-los; enfim , que “ maneiras de fazer” formam a
coloca em jogo uma apropriação, ou uma reapropriaçâo, da contrapartida , do lado dos consumidores ( ou “ dominados ” ? ),
língua por locutores; instaura um presente relativo a um dos processos mudos que organizam a ordena ção sócio-política.
momento e a um lugar; e estabelece um contrato com o outro Essas “ maneiras de fazer ” constituem as mil prá ticas pelas
( o interlocutor ) numa rede de lugares e de relações. Estas quais usu á rios se reapropriam do espa ço organizado pelas
3
quatro caracter ísticas do ato enunciativo poderão encontrar se
em muitas outras prá ticas ( caminhar, cozinhar etc.). Neste
- t écnicas da produ çã o sócio-cultural. Elas colocam questões
aná logas e contrá rias às abordadas no livro de Foucault:
paralelo se indica ao menos uma visada, paralelo que só tem aná logas, porque se trata de distinguir as operações quase
valor parcial , como se ver á. Supõe que à maneira dos povos microbianas que proliferam no seio das estruturas tecnocrá t í-
ind í genas os usu á rios “ façam uma bricolagem ” com e na cas e alteram o seu funcionamento por uma multiplicidade de
economia cultural dominante , usando in ú meras e infinitesimais “ tá ticas ” articuladas sobre os “ detalhes ” do cotidiano; contrá -
metamorfoses da lei , segundo seus interesses pró prios e suas rias, por n ã o se tratar mais de precisar como a violê ncia da
pr ó prias regras. Desta atividade de formigas é mister descobrir ordem se transforma em tecnologia disciplinar , mas de exumar
os procedimentos, as bases, os efeitos, as possibilidades. as formas sub- rept ícias que sã o assumidas pela criatividade
dispersa , tá tica e bricoladora dos grupos ou dos indiv íduos
presos agora nas redes da “ vigilâ ncia ”. Esses modos de proce-

40 4)
sé rio a l ógica deste pensamento que não se pensa. Três campos
der e essas ast ú cias de consumidores compõem, no limite, a oferecem um interesse particular. De um lado, trabalhos socio-
rede de uma antidisciplina5 que é o tema deste livro. l ógicos, antropol ó gicos, e mesmo histó ricos (de E. Goffman a
Pode-se supor que essas P. Bourdieu , de Mauss a M. Detienne, de J . Boisseva í n a E.O.
operaçõ es multiformes e Laumann ) elaboram uma teoria dessas práticas, misto de ritos1
A formalidade das práticas e bricolagens, manipula ções de espaços, operadores de redes."
fragmentá rias, relativas a
ocasiões e a detalhes, insi- De outro lado, desde J . Fishman , as pesquisas etnometodológi-
nuadas e escondidas nos aparelhos das quais elas são os modos cas e sócio-lingu ísticas de H . Garfinkel, W. Labov, H. Sacks,
de usar, e portanto desprovidas de ideologias ou de institui ções E.A. Schegloff etc. destacam os processos de interações coti-
pr ó prias, obedecem a regras. Noutras palavras, deve haver uma dianas relativas a estruturas de expectativa, de negociação e
l ógica dessas prá ticas. Isto significa voltar ao problema, já improvisação pró prias da l íngua ordiná ria.10
antigo, do que é uma arte ou “ maneira de fazer” . Dos gregos Enfim, além das semi óticas e das filosofias da “ convenção”
a Durkheí m , passando por Kant, uma longa tradição tentou de ( O. Ducrot a D. Lewis ),11 deve-se interrogar as lógicas
precisar as formalidades complexas ( e nã o de todo simples ou pesadas formalizadas e sua extensão à filosofia anal ítica, nos
6
“ pobres" ) que podem dar conta dessas opera ções Por esse . dom ínios da ação ( G.H. von Wright, AC. Danto, RJ. Berns-
prisma, a “ cultura popular” se apresenta diferentemente, assim tein ), do tempo {A. N. Prior, N. Rescher e J. Urquhart) ou da
como toda uma literatura chamada “ popular ”: ela se formula modalização (G.E. Hughes e MJ. Cresswell, A. R. White ).14
7
essencialmente em “ artes de fazer ” isto ou aquilo , isto é, em Pesado aparelho que procura captar a dispersividade e a
consumos combinató rios e utilitá rios. Essas práticas colocam plasticidade dos enunciados ordiná rios, combinações quase
em jogo uma ratio " popular”, uma maneira de pensar investida orquestrais de partes l ó gicas ( temporalização, modaliza ção,
numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociá vel de injunções, predicados de açã o etc.) cujas dominantes são suces-
uma arte de utilizar. sivamente determinadas pela circunstâ ncia e pela urgê ncia
conjuntural. Um trabalho an álogo ao desenvolvido por N.
Para apreender a formalidade dessas prá ticas, eu me servi Chomsky para as pr á ticas orais da língua deve empenhar-se por
de dois tipos de enquêtes. As primeiras, mais descritivas, deram
ê nfase a algumas maneiras de fazer selecionadas segundo o -
restituir a sua legitimidade ló gica e cultural às pr á ticas cotidia
interesse que apresentavam na estraté gia da an á lise, e em vista nas, ao menos nos setores ainda limitados, onde podemos
dispor de instrumentos para estudá-las.
de obter variantes bem diferenciadas; pr á ticas da leitura, prá ti - Pesquisa complexa porque essas prá ticas volta e meia
cas de espa ços urbanos, utilização das ritualiza ções cotidianas,
reempregos e funcionamentos da memória atrav és das “ auto - exacerbam e desencaminham as nossas l ógicas. Encontra os
lamentos do poeta e, como ele, combate o esquecimento: “ E eu
ridades” que possibilitam ( ou permitem ) as prá ticas cotidianas,
etc. Al é m disso, duas monografias mais pormenorizadas tentam me esquecia do acaso da circunstâ ncia, o bom tempo ou a
seguir em seus entrela çamentos as operações pr ó prias seja à tempestade, o sol ou o frio, o amanhecer ou o anoitecer, o gosto
recomposi çã o de um espaço ( o Bairro da Croix Rousse, em dos morangos ou do abandono, a mensagem , ouvida a meias,
Liã o ) por prá ticas familiais, seja às tá ticas da arte culiná ria, que a manchete dos jornais, a voz ao telefone, a conversa mais
organizam ao mesmo tempo uma rede de rela ções, ‘‘bricola- anódina , o homem ou a mulher anó nimos, tudo aquilo que fala,
gens” poé ticas e um reemprego das estruturas comerciais.8 rumoreja, passa, aflora, vem ao nosso encontro ”.15
A segunda sé rie de enqu ê tes utilizou -se da literatura cien -
tífica suscetível de fornecer hipóteses que permitam levar a

42 43
A marginalidade de Essas trê s determinações possi- cultura articula conflitos e volta e meia legitima, desloca ou
uma maioria bilitam uma travessia do campo controla a razã o do mais forte. Ela se desenvolve no elemento
cultural , travessia definida por de tensões, e muitas vezes de viol ê ncias, a quem fornece
uma problemá tica de pesquisa e equil íbrios simbólicos, contratos de compatibilidade e compro-
pontuada por sondagens localizadas em fun ção de hipó teses missos mais ou menos temporá rios. As tá ticas do consumo,
de trabalho a verificar. Ela tenta balizar os tipos de operações engenhosidades do fraco para tirar partido do forte, vão desem-
que caracterizam o consumo na rede de uma economia e bocar então em uma politiza çã o das práticas cotidianas.
reconhecer nessas prá ticas de apropria çã o os indicadores da
criatividade que pulula justamente onde desaparece o poder de
se dar uma linguagem própria. 2. TÁTICAS DE PRATICANTES
A figura atual de uma marginalidade n ão é mais a de Este esquema, demasiadamente dicotomista, das relações
pequenos grupos , mas uma marginalidade de massa; atividade que os consumidores mantê m com os dispositivos da produçã o,
cultura! dos n ã o produtores de cultura , uma atividade n ã o se diversificou no decorrer do trabalho segundo três modos:
assinada , n ã o legível, mas simbolizada, e que é a ú nica possível pesquisa das problem á ticas suscetíveis de articular o material
a todos aqueles que no entanto pagam, comprando-os, os coletado; descri çã o de algumas prá ticas ( ler, falar, caminhar,
produtos-espetáculos onde se soletra uma economia produti- habitar, cozinhar etc.), consideradas significativas; extensão da
vista . Ela se universaliza . Essa marginalidade se tornou maioria aná lise dessas operações cotidianas a setores científicos apa-
silenciosa . rentemente regidos por outro tipo de l ógica. Ao apresentar os
Isto nã o quer dizer que ela seja homogé nea. Os processos passos dados nessas três direções, o propósito de conjunto
pelos quais se efetua o reemprego de produtos ligados juntos ganha diversos matizes.
em uma espécie de língua obrigató ria tê m funcionamentos
relativos a situa ções sociais e a relações de forças. O trabalha - Produtores desconhecidos,
dor imigrado não tem , diante das imagens televisivas, o mesmo Trajetórias, táticas e os consumidores produzem
espaço de cr ítica ou de cria ção que o quadro francês médio. retóricas por suas prá ticas significan -
No mesmo terreno, a fraqueza em meios de informaçã o, em tes alguma coisa que poderia
bens financeiros e em "seguran ças” de todo o tipo exige um ter a figura das “ linhas de erre ” desenhadas pelos jovens
acréscimo de ast ú cia , de sonho ou de senso de humor. Dispo- autistas de F. De í igny.16 No espaço tecnocraticamente construí-
sitivos semelhantes, jogando com relações de forças desiguais, do, escrito e funcionalizado onde circulam, as suas trajetó rias
n ã o geram efeitos idê nticos. Da í a necessidade de diferenciar formam frases imprevis íveis, "trilhas” em parte ileg íveis. Embo -
as “ ações ” ( no sentido militar do termo) que se efetuam no ra sejam compostas com os vocabulá rios de l í nguas recebidas
interior da rede dos consumidores peio sistema dos produtos, e continuem submetidas a sintaxes prescritas, elas desenham
e estabelecer distinções entre as margens de manobra permiti- as astúcias de interesses outros e de desejos que não são nem
das aos usu á rios pelas conjunturas nas quais exercem a sua determinados nem captados pelos sistemas onde se desenvol -
" arte ” . vem .!T
A rela çã o dos procedimentos com os campos de força onde Mesmo a estatística praticamente não leva isso em conta,
intervê m deve portanto introduzir uma an á lise polemológica pois ela se contenta em classificar, calcular e tabular as unida-
da cultura. Como o direito ( que é um modelo de cultura), a des “ léxicas", de que se compõ em essas trajetó rias, mas às quais

44 45

I
não se reduzem, e em fazê-lo em função de categorias e
taxionomias que lhe são pr ó prias. Ela consegue captar o
-
contrá rio, pelo fato de seu não lugar, a tá tica depende do
tempo, vigiando para “ captar no vôo” possibilidades de ganho.
material dessas práticas, e não a sua forma; ela baliza os O que ela ganha, não o guarda. Tem constantemente que jogar
elementos utilizados e não o “ fraseado ” devido à bricolagem , com os acontecimentos para os transformar em “ocasiões ”.
à inventividade “artesanal ”, à discursí vidade que combinam Sem cessar, o fraco deve tirar partido de for ças que lhe sã o
estes elementos, todos recebidos, e de cor indefinida. Decom - estranhas. Ele o consegue em momentos oportunos onde
pondo essas “ vagabundagens” eficazes em unidades que ela combina elementos heterogé neos (assim , no supermercado, a
mesma define, recompondo segundo seus códigos os resulta- -
dona de-casa, em face de dados heterogéneos e m óveis, como
dos dessas montagens, a enquête estatística só “encontra” o as provisões no freezer , os gostos, apetites e disposi ções de
homogéneo. Ela reproduz o sistema ao qual pertence e deixa â nimo de seus familiares, os produtos mais baratos e suas
fora do seu campo a proliferação das histó rias e operações possíveis combinações com o que ela já tem em casa etc.), mas
heterogé neas que compõem os patchworks do cotidiano. A a sua síntese intelectual tem por forma n ão um discurso, mas
força dos seus cálculos se deve à sua capacidade de dividir, mas a pró pria decisão, ato e maneira de aproveitar a “ocasião”.
é precisamente por essa fragmentação analítica que perde Muitas prá ticas cotidianas (falar, ler, circular, fazer com-
18
aquilo que julga procurar e representar. pras ou preparar as refeições etc.) são do tipo tá tica. E també m ,
A “ trajetória ” evoca um movimento, mas resulta ainda de de modo mais geral, uma grande parte das “ maneiras de fazer ”:
-
uma projeção sobre um plano, de uma redução. Trata se de uma vitó rias do “ fraco” sobre o mais "forte ” ( os poderosos, a doença,
transcri ção. Um gráfico (que o olho pode dominar) é substitu í - a violê ncia das coisas ou de uma ordem etc.), pequenos suces -
do por uma operação; uma linha reversível ( que se pode ler nos sos, artes de dar golpes, ast úcias de “ caçadores”, mobilidades
dois sentidos) d á lugar a uma série temporalmente irreversível; - -
da m âo de obra, simula ções polimorfas, achados que provocam
um traço, a atos. Prefiro então recorrer a uma distinção entre euforia, tanto poéticos quanto bé licos. Essas performances
táticas e estratégias. operacionais dependem de saberes muito antigos. Os gregos as
Chamo de “ estratégia ” o cá lculo das relações de forças que designavam pela métis.20 Mas elas remontam a tempos muito
se torna possível a partir do momento em que um sujeito de mais recuados, a imemoriais inteligê ncias com as ast úcias e
querer e poder é isolá vel de um “ambiente ”. Ela postula um simulações de plantas e de peixes. Do fundo dos oceanos até
lugar capaz de ser circunscrito como um pró prio e portanto as ruas das megal ó poles, as táticas apresentam continuidades
capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma e perman ê ncias. Em nossas sociedades, elas se multiplicam com
exterioridade distinta. A nacionalidade política, econó mica ou o esfarelamento das estabilidades locais como se, não estando
científica foi constru ída segundo esse modelo estratégico. mais fixadas por uma comunidade circunscrita, sa íssem de
Denomino, ao contr á rio, “ tática” um cálculo que não pode órbita e se tornassem errantes, e assimilassem os consumidores
contar com um próprio, nem portanto com uma fronteira que a imigrantes em um sistema demasiadamente vasto para ser o
distingue o outro como totalidade visível. A tá tica só tem por deles e com as malhas demasiadamente apertadas para que
lugar o do outro.19 Ela a í se insinua, fragmentariamente, sem pudessem escapar-lhe. Mas introduzem um movimento brow -
-
apreend ê lo por inteiro, sem poder retê-lo à distâ ncia. Ela não niano neste sistema . Essas tá ticas manifestam igualmente a que
ponto a inteligê ncia é indissociá vel dos combates e dos prazeres
dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos, preparar suas
expansões e assegurar uma independ ê ncia em face das circuns- cotidianos que articula , ao passo que as estraté gias escondem
tâ ncias. O “ pró prio” é uma vitó ria do lugar sobre o tempo. Ao sob cálculos objetivos a sua relação com o poder que os
sustenta, guardado pelo lugar pró prio ou pela instituiçã o.

46 47
Para diferenciar os tipos de tá ticas, podem -se encontrar

cracia
.. , fomenta uma hipertrofia da leitura. 0 binómio pro-
25

modelos na ret ó rica. Nada de surpreendente, pois, de um lado, du ção-consumo poderia ser substitu ído por seu equivalente
ela descreve os “ rodeios” de que uma lí ngua pode ser simulta- geral: escritura-leitura. A leitura (da imagem ou do texto) parece
neamente o lugar e o objeto e, de outro, essas manipula ções aliá s constituir o ponto máximo da passividade que caracteri-
zaria o consumidor , constitu ído em voyeur ( troglodita ou
sã o relativas às ocasi ões e às maneiras de mudar (seduzir, 26
persuadir , utilizar ) o querer do outro (o destinatá rio). Por n ó made ) em uma ‘' sociedade do espetáculo”.
essas duas raz ões, a retó rica ou ciê ncia das “ maneiras de falar ” De fato, a atividade leitora apresenta , ao contrá rio, todos
oferece um aparelho de figuras tí picas para a aná lise das os traços de uma produ çã o silenciosa: flutuaçã o através da
maneiras cotidianas de fazer ao passo que ela, em princípio, se pá gina , metamorfose do texto pelo olho que viaja , improvisação
acha exclu ída do discurso científico. Duas lógicas da ação ( uma e expectação de significados induzidos de certas palavras,
tá tica e outra estrat é gica ) se depreendem dessas duas maneiras intersecções de espa ços escritos, dan ça ef é mera . Mas incapaz
de praticar a linguagem. No espaço da língua ( como no dos de fazer um estoque (salvo se escreve ou “ registra ” ), o leitor
jogos) uma sociedade explicita mais as regras formais do agir n ão se garante contra o gasto do tempo (ele se esquece lendo
e os funcionamentos que as diferenciam . e esquece o que já leu ) a nã o ser pela compra do objeto ( livro,
No imenso corpus retó rico consagrado à arte de dizer ou imagem ) que é apenas o ersatz ( o resíduo ou a promessa ) de
de fazer, os sofistas ocupam um lugar privilegiado, do ponto instantes “ perdidos ’ na leitura. Ele insinua as ast ú cias do
1

de vista das tá ticas. Tinham eles como princípio, segundo prazer e de uma reapropriaçã o no texto do outro: a í vai caçar,
Corax, tornar “ mais forte” a posiçã o “ mais fraca ” e pretendiam ali é transportado, ali se faz plural como os ru ídos do corpo.
possuir a arte de vencer o poder por uma certa maneira de Ast ú cia , metá fora , combinató ria , esta produ ção é igualmente
22
aproveitar a ocasião. As suas teorias inscrevem aliás as tá ticas uma “ inven çã o ” de mem ória. Faz das palavras as solu ções de
em uma longa tradi ção de reflexões sobre as rela ções que a histó rias mudas. O legível se transforma em memorá vel: Bart-
27
razão manté m com a ação e com o23instante. Passando pela Arte hes lê Proust no texto de Stendhal; o espectador l ê a paisagem
da Guerra de Shun Tzu na China ou pela antologia árabe do de sua infâ ncia na reportagem de atualidades. A fina pel ícula
Livro das Astúcias , esta tradiçã o de uma lógica articulada em do escrito se torna um remover de camadas, um jogo de
cima da conjuntura e a vontade do outro conduz até a sócio- espaços. Um mundo diferente ( o do leitor ) se introduz no lugar
lingu ística contemporâ nea. do autor.
Para descrever essas prá ti - Esta mutaçã o torna o texto habitá vel , à maneira de um
Ler, conversar , habitar, cas cotidianas que produ - apartamento alugado. Ela transforma a propriedade do outro
cozinhar... zem sem capitalizar , isto é, em lugar tomado de empréstimo, por alguns instantes, por um
sem dominar o tempo, im- passante. Os locatá rios efetuam uma mudan ça semelhante no
apartamento que mob í liam com seus gestos e recordaçõ es; os
punha-se um ponto de partida por ser o foco exorbitado da
.
cultura contemporâ nea e de seu consumo: a leitura Da televi- locutores, na l íngua em que fazem deslizar as mensagens de
sã o ao jornal , da publicidade a todas as epifanias mercado íógi sua língua materna e, pelo sotaque, por “ rodeios" ( ou giros)
pr óprios, etc., a sua pró pria histó ria; os pedestres, nas ruas por
cas, a nossa sociedade canceriza a vista , mede toda a realidade
por sua capacidade de mostrar ou de se mostrar e transforma onde fazem caminhar as florestas de seus desejos e interesses.
as comunicações em viagens do olhar. É uma epopeia do olho Da mesma forma , os usuá rios dos códigos sociais os transfor -
e da pulsã o de ler . At é a economia, transformada em “semio- mam em metá foras e elipses de suas caçadas. A ordem reinante

48 49
dade plural de interesses e prazeres, uma arte de manipular e
serve de suporte para produções in ú meras, ao passo que torna comprazer-se.31
os seus proprietá rios cegos para essa criatividade (assim como
esses “ patrões ” que não conseguem ver aquilo que se inventa A análise dessas tá ticas se
28
de diferente em sua pró pria empresa ). No limite, esta ordem Extensões: prospectivas e estendeu a dois terrenos
seria o equivalente daquilo que as regras de metro e rima eram políticas cujo estudo fora previsto,
antigamente para os poetas: um conjunto de imposições esti - mas cuja abordagem se
muladoras da inven çã o, uma regulamenta ção para facilitar as modificou no decorrer do estudo: uma diz respeito à prospec-
improvisa ções. tiva; a outra , ao sujeito na vida pol ítica. Logo de saída se põe
A leitura introduz portanto uma “ arte” que não é passivi- a questão da “ cientificidade” dos trabalhos de prospectiva. Se
-
dade. Assemelha se muito ao que foi feito com a teoria pelos têm no final das contas como objetivo uma inteligibilidade da
poetas e romanceiros medievais: uma inovação infiltrada no realidade presente e sua regra, uma preocupação de coerê ncia,
texto e nos termos de uma tradição. Imbricados nas estratégias deve-se constatar de um lado o cará ter n ão operatório de um
da modernidade (que identificam a criaçã o com a inven ção de n ú mero crescente de conceitos e, de outro, a inadequaçã o dos
uma linguagem pró pria, cultural ou cient ífica ), os procedimen- procedimentos a um pensamento do espaço (objeto visado, o
tos do consumo contemporâ neo parecem constituir uma arte espa ço n ã o se encontra mais a partir das determinantes políti-
sutil de “ locatá rios” bastante sensatos para insinuar as suas mil cas ou econ ómicas utilizadas, e não existe uma teoria destas).
diferenças no texto que tem força de lei. Na Idade M édia o texto A metaforizaçã o dos conceitos usados, a distâ ncia que medeia
se enquadrava na teoria das quatro ou sete leituras que poderia entre a atomiza çã o que caracteriza a pesquisa e a globalização
receber . E era um livro. Agora , o texto n ã o provém mais de que é a coerção da exposição etc. sugerem que é mister tomar
uma tradi ção. É imposto pela geração de uma tecnocracia como uma defini çã o do pró prio discurso a “simula ção” que lhe
produtivista. Nã o se trata mais de um livro de referê ncia mas caracterizava o método.
de toda a sociedade feita texto, feita escritura da lei anó nima
da produçã o. Deste modo, chegou-se a considerar nos estudos de pros-
pectiva: 1. as relações mantidas por uma racionalidade com
A esta arte de leitores conviria comparar outras. Por um imaginá rio ( que é no discurso o indicador do seu lugar de
exemplo, a arte de conversar: as retó ricas da conversa ordiná ria produ çã o); 2. a diferen ça entre os tateios, astúcias pragm á ticas
sã o prá ticas transformadoras “ de situações de palavra” , de e táticas sucessivas, que escalonam a investigaçã o prática e, de
produ ções verbais onde o entrelaçamento das posi ções locuto- outro lado, as representações estratégicas que sã o oferecidas
ras instaura um tecido oral sem proprietá rios individuais, as aos destinatá rios como o produto final dessas operações.
criações de uma comunica ção que n ão pertence a ningu é m. A
conversa é um efeito provisório e coletivo de competê ncias na Constata-se, nos discursos, o retorno sub-reptído de uma
arte de manipular “ lugares comuns” e jogar com o inevitá vel retórica metaforizadora dos “ campos pró prios” da análise
dos acontecimentos para torn á-los " habitáveis”.29 científica e, nos gabinetes de estudos, uma distâ ncia crescente
das práticas efetivas e cotidianas (que pertencem à ordem da
Mas a pesquisa se dedicou sobretudo às práticas do espa- arte culin á ria ) com relaçã o às escrituras em “ cená rios” que
30
ço, à s maneiras de frequentar um lugar , aos processos com - escalonam com quadros ut ó picos o murm ú rio das maneiras de
plexos da arte culin á ria e aos mil modos de instaurar uma
fazer em cada laboratório: de um lado, mistos de ciê ncia e
confiabilidade nas situações sofridas, isto é, de abrir ali uma ficção; de outro lado, a disparidade entre os espetáculos de
possibilidade de vivê-las reintroduzindo dentro delas a mobili-
estratégias globais e a opaca realidade de tá ticas locais. Tende-

50 51
se entã o a interrogar -se sobre os "alicerces” da atividade qualidades" de Musil, "o homem ordin á rio” a quem Freud
científica e a se perguntar se ela nã o funciona à maneira de consagra o Mal-estar na civilização ), que tem o seguinte
uma colagem que justap õe mas articula sempre menos as estribilho: "Quando n ão se tem o que se ama, é preciso amar
ambições teó ricas expressas pelo discurso e a persistê ncia o que se tem ’’. “ Tive que recorrer , queiram me compreender,
obstinada, remanescente, de ast úcias milenares no trabalho sempre mais a pequenos prazeres, quase invisíveis, substitu -
cotidiano dos gabinetes e dos laboratórios. Em todo o caso, tos... Vocês nã o fazem ideia como, com esses detalhes , algu é m
esta estrutura clivada , observá vel em muitas administra ções ou se torna imenso, é incr ível como se cresce ”.34
empresas, obriga a repensar todas essas tá ticas até aqui tã o
negadas pela epistemologia da ciência.
O problema n ã o diz respeito somente aos processos efeti -
vos da produ çã o. Coloca em causa , sob uma forma diferente, o
estatuto do indivíduo nos sistemas técnicos, pois o investimen-
to do sujeito diminui à medida de sua expansão tecnocrática.
Cada vez mais coagido e sempre menos envolvido por esses
amplos enquadramentos, o indiv íduo se destaca deles sem
poder escapar-lhes, e só lhe resta a astú cia no relacionamento
com eles, "dar golpes” , encontrar na megal ópole eletrotecnici -
zada e informatizada a “arte" dos caçadores ou dos rur ícolas
antigos. A atomiza ção do tecido social d á hoje uma pertinê ncia
política à questão do sujeito. Comprovam-no os sintomas que
sã o as a ções individuais, as opera ções locais e at é as formações
ecológicas pelas quais se preocupa , no entanto, de modo
prioritá rio, a vontade de administrar coletivamente as rela ções
com o meio ambiente. Essas maneiras de se reapropriar do
sistema produzido, cria ções de consumidores, visam uma tera-
pê utica de socialidades deterioradas, e usam té cnicas de
reemprego onde se podem reconhecer os procedimentos das
prá ticas cotidianas. Deve-se entã o elaborar uma pol ítica dessas
-
ast úcias. Na perspectiva aberta por Mal estar na civilização,
ela deve também interrogar-se sobre aquilo que pode ser hoje
a representaçã o p ú blica ( “ democrá tica ” ) das alian ças microscó-
picas, multiformes e inumerá veis entre manipular e gozar ,
realidade fugidia e massiva de uma atividade social que joga
com sua ordem .
Vision á rio afiado , Witold Combrowicz atribu ía a esta “ po
-
titica ” um herói - este anti heró i que habita nossa pesquisa
quando dava a palavra ao pequeno funcionário ( “ o homem sem
-

52 53
1/
PRIMEIRA PARTE

Uma cultura muito ordinária


1/

Este ensaio é dedicado ao homem ordiná rio. Herói


comum . Personagem disseminada. Caminhante inumer á vel.
Invocando, no limiar de meus relatos, o ausente que lhes d á
-
princípio e necessidade, interrogo me sobre o desejo cujo
objeto impossível ele representa . A este oráculo que se confun -
de com o rumor da história, o que é que pedimos para nos fazer
crer ou autorizar-nos a dizer quando lhe dedicamos a escrita
que outrora se oferecia em homenagem aos deuses ou às musas
inspiradoras?
Este herói anónimo vem de muito longe. É o murm ú rio
das sociedades. De todo o tempo, anterior aos textos. Nem os
espera. Zomba deles. Mas, nas representações escritas, vai
progredindo. Pouco a pouco ocupa o centro de nossas cenas
científicas. Os projetores abandonaram os atores donos de
nomes próprios e de brasões sociais para voltar -se para o coro
dos figurantes amontoados dos lados, e depois fixar -se enfim
na multid ão do pú blico. Sociologiza ção e antropologização da
pesquisa privilegiam o anónimo e o cotidiano onde zooms
-
destacam detalhes meton ímicos partes tomadas pelo todo.

* Ma ís teóricas, as I e II partes podem ser consideradas por isso como uma


conclusáo prospectiva. que deve ser lida no decorrer de outra viagem . Introdutório é
o Cap í tulo III : Fazer com: usos e táticas , esboço de um modelo geral para as aná lises
que se seguem .

57
Lentamente os representantes que ontem simbolizavam fam í-
.
lias grupos e ordens, se apagam da cena onde reinavam quando
era o tempo do nome. Vem então o n ú mero, o da democracia,
-
da cidade grande, das administrações, da cibernética. Trata se
de uma multidão m óvel e contínua, densamente aglomerada
como pano inconsútil, uma multid ão de heróis quantificados
que perdem nomes e rostos tomando-se a linguagem m óvel de
cá lculos e racionalidades que não pertencem a ningué m. Rios
cifrados da rua.
1/
CAP ÍTULO PRIMEIRO

UM LUGAR COMUM:
A LINGUAGEM ORDINÁRIA

Esta erosão e derrisão do singular ou do extraordin ário


já vinha anunciada em 0 Homem sem qualidades: “Talvez seja
precisamente o pequeno-burguê s a pressentir a autora de um
novo hero ísmo, enorme e coletivo, a exemplo das formigas ” .1
Na verdade, a chegada dessa sociedade de formigas começou
com as massas , as primeiras a serem submetidas ao enquadra-
mento das racionalidades niveladoras. O fluxo subiu. A seguir,
atingiu os quadros possuidores do aparelho, quadros e técnicos
absorvidos no sistema que geravam; invadiu enfim as profissões
liberais que se acreditavam protegidas contra ele, e as “ belas
almas” literá rias e artísticas. Em suas á guas, ele rola e dispersa
as obras, antigamente insulares, hoje mudadas em gotas d’água
no mar, ou em metá foras de uma disseminação da lingua que
não tem mais autor, mas se torna o discurso ou a citaçã o
indefinida do outro.

58
59
Certamente, existem ante- escrita contando a “ todo o mundo ” a sua rid ícula desventura.
*Cada um ” e “ Ningué m ” cedentes, mas organizados Mas quando a escrita elitista utiliza o locutor “ vulgar ” como
por uma comunidade na travesti de uma meialinguagem sobre si mesma, deixa igual -
loucura e na morte “ co- mente transparecer aquilo que a desloca de seu privil é gio e a
muns”, e n ã o ainda pelo nivelamento da racionalidade técnica . aspira fora de si: um Outro que n ã o é mais um deus ou a musa,
Assim , na aurora da modernidade, no século XVI , o homem mas o anónimo. O extravio da escrita fora do seu lugar próprio
ordin á rio aparece com as insígnias de uma desventura geral é traçado por este homem ordiná rio, metáfora e deriva da
que ele transmuda em derrisã o. Assim como é desenhado em d ú vida que a habita , fantasma de sua “ vaidade ”, figura enigm á -
uma literatura iró nica , aliás t ípica dos pa íses do Norte e de tica da relação que ela mantém com todo o mundo, com a perda
inspiração já democrá tica , “ embarca ” na apertada nau humana de sua isen ção e com sua morte.
dos insensatos e dos mortais, inversão da Arca de Noé, pois Desta personagem “filo-
leva ao extravio e à perda. Fica aí encurralado na sorte comum.
Chamado “Cada um ” ( nome que trai a ausê ncia de nome ), este Freud e o homem ordinário só fica ” nossas referê n-
cias contempor â neas
anti- heró i é també m Ningué m, Nemo , da mesma forma que o d ã o alguns exemplos
Everyman ingl ês se torna o Nobody ou o Jedermann alemã o
sem d ú vida mais pregnantes . Quando toma dergemeine Mann
se torna Niemand } É sempre o outro, sem responsabilidades ( o homem comum , o homem ordiná rio para come ço e tema
)
pró prias (“ a culpa n ã o é minha , mas do outro: o destino” ) e de
propriedades particulares que limitam o lugar pr ó prio (a morte
das an álises que consagra à civilização { Mal-estar na civiliza-
apaga todas as diferen ças). No entanto, mesmo neste teatro ção ) ou à religi ã o ( O Futuro de uma ilusão )? estas duas formas
da cultura, Freud n ão se contenta, fiel à Aufklârung, em opor
humanista , ele ainda ri. E nisto é sá bio e louco ao mesmo tempo,
l ú cido e rid ículo, no destino que se impõe a todos e reduz a
as luzes da Psicaná lise ( “ m é todo de investigação, instrumento
imparcial, semelhante por assim dizer ao cá lculo infinitesi -
nada a isen çã o que cada um almeja.
mal ” ),4 ao obscurantismo da “ grande maioria" e em articular
De fato, pelo riso an ó nimo que produz, uma literatura diz num saber novo as crenças comuns. N ão somente usa de novo
o seu pró prio estatuto: sendo apenas um simulacro, ela é a o velho esquema que infalivelmente combina “ a ilusão ” do
verdade de um mundo de prest ígios condenado à morte. O “n ão espí rito e a desventura social ao “ homem comum ” (este o tema
-
importa quem ” ou “ todo o mundo” é um lugar comum , um do Mal-estar , mas em Freud, contrariamente à tradi ção, o
topos filosó fico. Esta personagem geral ( todo o mundo e homem ordiná rio não ri ). Ele quer ligar a sua “elucidação”
ningu é m ) tem como papel dizer uma rela ção universal das ( Aufklârung ) pioneira a esta maioria “ infantil ” 5 Deixando de
ilusórias e loucas produ ções escritas com a morte, lei do outro. lado “ o pequeno n ú mero” dos “ pensadores ” e dos “ artistas",
Ele joga em cena a pró pria definição da literatura como mundo capazes de metamorfosear o trabalho em prazer pela sublima-
e do mundo como literatura. Al ém de n ã o ser mais representado çã o, deixando portanto esses “ raros eleitos" que designam
ai , o homem ordin á rio dá como representa ção o pr ó prio texto, entretanto o lugar onde o seu texto se elabora, Freud estabelece
no e pelo texto, e ele reconhece ainda por cima o cará ter um contrato com “o homem ordiná rio" e conjuga o seu
universal do lugar particular onde permanece o louco discurso discurso com a multid ão cujo destino comum consiste em ser
de uma sabedoria sá bia. É ao mesmo tempo o pesadelo ou o ludibriada, frustrada, forçada ao trabalho cansativo, submetida
sonho filosófico da ironia humanista e a semelhan ça de refe- portanto à lei da mentira e ao tormento da morte. Este contrato,
rencial ( uma histó ria comum ) que d á credibilidade a uma an á logo ao que a história de Michelet estabelece com “o Povo”,

60 61
b Schreber. 0 homem ordiná rio representa em primeiro lugar a
que no entanto nunca falará aí, parece dever permitir à teoria tentaçã o moralista de Freud , o retorno de generalidades éticas
ce-lhe um lugar seguro .
-
estender -se ao universal e apoiar se no real da histó ria. Forne- ao campo profissional, um acréscimo ou decréscimo em relaçáo
aos procedimentos psicanal í ticos. Deste modo, explicita uma
Sem d ú vida, o homem ordin á rio é acusado de arranjar para inversã o do saber. Com efeito, se Freud zomba dessa introdu -
si , graças ao Deus da religião, a ilusão de "esclarecer todos os ção a uma futura " patologia das sociedades civilizadas ”, é
enigmas do mundo ” e de animar “ a segurança que uma porque ele mesmo é este homem ordin á rio de que fala , tendo
7
Provid ê ncia cuida de sua vida ”. Por esse prisma , atribui-se um na m ão algumas “verdades banais” e amargas. Termina as suas
saber da totalidade e uma garantia de seu estatuto (pela certeza considerações por uma cambalhota: “ Inclino- me diante da
do seu futuro ). Mas a teoria freudiana també m n ã o tira proveito censura de não trazer consolação alguma” ,10 pois, diz ele, não
an álogo da experiê ncia geral que ela invoca? Figura de um tenho nenhuma. Está envolvido do mesmo jeito, e então se põe
universal abstrato , o homem ordin á rio desempenha aqui ainda a rir. Uma iró nica e sá bia loucura se acha ligada ao fato de
o papel de um deus que se pode reconhecer por seus efeitos, perder a singularidade de uma competê ncia e de se achar, não
mesmo acanalhado e confundido com o comum supersticioso: importa se todo mundo ou ningu é m, na histó ria comum. No
fornece ao discurso o meio de generalizar um saber particular conto filosó fico que é Mal-estar na civilização, o homem
e garantir por toda a história a sua validade. Ele o autoriza a ordiná rio é o locutor. Ele é no discurso o ponto de junção entre
superar os seus limites - os limites de uma competência
psicanalítica circunscrita a algumas curas, aquelas també m de
o sá bio e o comum - o retorno do outro { todo o mundo e
ningué m ) no lugar que dele se havia cuidadosamente distingui-
toda a linguagem , da pr ó pria linguagem, privada do real que do. Uma vez mais, tra ça ali a ultrapassagem da especialidade
coloca como referencial . Ele o assegura ao mesmo tempo de pela banalidade, e a recondu çã o do saber a seu pressuposto
sua diferença (o discurso “esclarecido” é distinto do discurso geral: não sei nada de sé rio. Sou como todo o mundo.
“ comum ” ) e de sua universalidade ( o discurso esclarecido
exprime e explica a experiê ncia comum ). Fosse qual fosse a
-
‘‘ Privação”, “ recalque ”, " Eros”, "Thanatos” etc.: estes ins
8
opinião pessoal que Freud pudesse ter do “ povinho ” e cujo
trumentos de um trabalho técnico vão escalonando, no Mal-es
tar, o percurso que se estende da Aufklãrung conquistadora
-
oposto se encontraria nas visões otimistas de Michelet sobre o aos lugares comuns, mas a aná lise freudiana da cultura se
Povo, o homem ordin á rio presta ao discurso o serviço de aí caracteriza antes de tudo pela trajetória dessa inversão. Uma
aparecer como princípio de totaliza çã o e como princí pio de diferença aparentemente fraca e no entanto fundamental dis-
reconhecimento: permite-lhe dizer “é verdade a respeito de tingue seu resultado das trivialidades distribu ídas pelos espe-
todos" e *‘ é a realidade da histó ria ”. Aí funciona à maneira do cialistas da cultura: essas trivialidades não mais designando o
Deus de outrora. objeto do discurso, mas o seu lugar. O trivial nãó é mais o outro
Mas o velho Freud bem que alimenta suas d ú vidas. Ele ( encarregado de reconhecer a isen ção do seu diretor de cena );
mesmo faz ironia sobre seu texto, “ absolutamente sup é rfluo”, é a experiê ncia produtora do texto. O enfoque da cultura
obra de lazer ( “ n ã o se pode fumar e jogar baralho o dia começa quando o homem ordin á rio se torna o narrador,
inteiro ” ), “ passatempo ” consagrado a “assuntos elevados” que quando define o lugar ( comum ) do discurso e o espaço ( an ó ni-
9
lhe fazem “ redescobrir as verdades mais banais” Ele o distin- mo ) de seu desenvolvimento.
gue de seus “ trabalhos anteriores”, articulados segundo as Este lugar tanto é dado ao locutor do discurso como a
regras de um m é todo e constru ídos a partir de casos particula- qualquer outro. Ele é o ponto de chegada de uma trajetó ria.
res. Aqui nã o se trata mais do pequeno Hans, nem de Dora ou

62 63
N ã o é um estado, tara ou gra ça inicial, mas algo que veio a ser , cientificidade se atribuiu lugares pró prios e apropriáveis por
efeito de um processo de afastamento em rela çã o a prá ticas projetos racionais capazes de colocar zombeteiramente os seus
reguladas e falsificá veis, uma ultrapassagem do comum numa modos de proceder, os seus objetos formais e as condi ções de
posi ção particular. Tal é o caso para Freud , no termo dos sua falsifica çã o, desde que ela se fundou como uma pluralidade
“ trabalhos” que ele executa (como se executa um condenado) de campos limitados e distintos, em suma , desde que não é mais
com seus ú ltimos contos sobre o homem ordin á rio: a realização do tipo teol ógico, a ci ê ncia constituiu o todo como o seu resto ,
11
do luto pela elabora çã o ficcional do saber . e este resto se tornou o que agora denominamos a cultura.
0 importante é o trabalho de ultrapassagem operado pela Esta clivagem organiza a modernidade. Recorta-a em insu-
insinua çã o do ordin á rio èm campos científicos constitu ídos. laridades científicas e dominantes sobre um fundo de “ resistê n-
Bem longe de se dar arbitrariamente o privil é gio de falar em cias” prá ticas e de simboliza ções irredut íveis ao pensamento.
nome do ordin á rio ( ele é indiz ível ), ou de pretender estar neste Ainda que a ambi çã o d’“ a ci ê ncia ” vise conquistar este “ resto”
lugar geral ( seria falsa “ m ística ” ) ou , pior , de oferecer à edifi- a partir dos espa ços onde se exercem os poderes de nossos
ca çã o uma cotidianidade hagiográfica, trata-se de atribuir à sua saberes, ainda que, para preparar a realizaçã o integral deste
historicidade o movimento que reconduz os procedimentos de impé rio, haja reconhecimentos que inventariam as regi ões
análise para suas fronteiras , at é o ponto em que se mudam , ou fronteiriças e ligam assim o claro ao obscuro (são os discursos
mesmo se perturbam , pela ir ónica e louca banalidade que falava opacos de ci ê ncias mistas assim chamadas " humanas”, relatos
em " Ninguém ” , no século XVI, e que retornou no acabamento de expedições que tendem a tornar assimilá veis - senão pensá-
do saber de Freud . Eu gostaria de descrever a erosã o que -
veis e a balizar as noites da viol ê ncia , da superstição e da
desenha o ordin á rio em um corpo de técnicas de an á lise , pôr alteridade: histó ria, antropologia, patologia etc. ), a ruptura que
à vista as aberturas que marcam o seu traço sobre as margens as institui ções científicas produziram entre l ínguas artificiais
onde se mobiliza uma ci ê ncia , indicar os deslocamentos que de uma operatividade regulada e falares do corpo social jamais
levam para o lugar comum onde “ n ã o importa quem ” enfim se cessou de ser um foco de guerras ou de compromissos. Esta
cala , a nã o ser repetindo ( mas de outro jeito ) banalidades. linha divisó ria, aliás mutá vel, continua sendo estratégica nos
Mesmo que seja aspirada pelo rumor oce â nico do ordin á rio, a combates para confirmar ou contestar os poderes das técnicas
tarefa n ã o consiste em substitu í-la por uma representa çã o ou sobre as práticas sociais. Eia separa as l ínguas artificiais que
cobri -la com palavras de zombaria, mas em mostrar como ela articulam os procedimentos de um saber especificado e as
-
se introduz em nossas técnicas à maneira como o mar volta l í nguas naturais que organizam a atividade significante comum .
-
a encher os buracos da praia e pode reorganizar o lugar de Alguns desses debates (que dizem precisamente respeito à
onde se produz o discurso. rela ção de cada ciê ncia com a cultura ) podem ser precisados,
O caminho técnico a percorrer e é possível indicar suas possíveis saídas, através de duas
consiste, em primeira aproxi- personagens que a í se defrontam , curiosamente próximas e
O perito e o filó sofo antin ô micas: o perito e o fil ósofo. Cabe a ambos a tarefa de
ma çã o, em reconduzir as prá ti -
cas e as linguas cientí ficas para mediadores entre um saber e a sociedade, o primeiro enquanto
seu pais de origem , a everyday life , a vida cotidiana. Este introduz a sua especialidade na á rea mais vasta e complexa de
retorno, hoje sempre mais insistente , tem o cará ter paradoxal decisões sócio- pol íticas, o segundo enquanto reinstaura, relati
vamente a uma técnica particular ( matem á tica , lógica, psiquia-
-
de ser tamb é m um ex ílio em rela çã o à s disciplinas cujo rigor
se mede pela estrita defini ção de seus limites. Desde que a tria, histó ria etc.) a pertinê ncia de interroga ções gerais. No

64 65
perito, uma competência se transmuta em autoridade social; no reconhecimento precisamente por um saber que lhe falta no
filósofo, as questões banais se tornam um princí pio de suspeita terreno onde se exerce. É indissociável de um “ abuso de
num terreno técnico. A rela çã o ambígua (ora de fascínio ora de -
saber ” 12 onde talvez seja mister reconhecer o efeito da lei
repulsa que o filósofo manté m com o perito parece aliás estar social que desapropria o indiv íduo de sua competê ncia em vista
muitas vezes subjacente a suas empreitadas: ora as propostas de instaurar ou restaurar o capital de uma compet ê ncia coleti -
filosóficas visam com ansiedade a realiza ção de sua antiga va , isto é, de um prová vel comum.
utopia pelo perito (sustentar em nome de uma cientificidade Não podendo ater-se ao que sabe, o perito se pronuncia em
específica a passagem a problemas de conjunto), ora derrotadas nome do lugar que sua especialidade lhe valeu. Assim ele se
pela histó ria , mas rebeldes, elas se apartam daquilo que lhes inscreve e é inscrito numa ordem comum onde a especializaçã o
foi arrebatado, para acompanharem em seu exílio ( ó mem órias, tem valor de inicia ção enquanto regra e prática hierarquizante
ó transgressões simb ólicas, ó reinados inconscientes) o Sujeito, da economia produtivista. Por se ter submetido com êxito a
ontem rei, e hoje expulso de uma sociedade tecnocrá tica. esta prá tica iniciá tica, ele pode, sobre questões estranhas à sua
É verdade que o perito prolifera nesta sociedade, a ponto competê ncia técnica , mas n ã o ao poder que por ela se adquire,
de se tornar a sua figura generalizada , tensionada entre a proferir autoritativamente um discurso que já nã o é o do saber,
exigê ncia de uma crescente especializaçã o e a de uma comuni - mas o da ordem sócio-econômica. Fala então como homem
cação tanto mais necessá ria. Ele eclipsa ( e de certo modo ordiná rio, que pode “ receber ” autoridade com o saber como se
substitui) o filósofo, ontem o especialista do universal. Mas o ganha um salá rio pelo trabalho. Inscreve-se na linguagem
seu sucesso n ã o é assim tã o espetacular. A lei produtivista de comum das prá ticas onde, aliá s, uma superprodu ção de auto -
uma atribuição (condiçã o de eficácia ) e a lei social de uma ridade implica a sua desvalorização, uma vez que ela é procu -
circula ção ( forma do intercâ mbio) se contradizem dentro dele. rada sempre mais com uma soma igual ou inferior de
Sem d ú vida, cada vez mais, cada especialista deve ser também competê ncia. Mas quando ele continua crendo ou dando a crer
um perito, ou seja, o intérprete e o tradutor de sua competê ncia que age como cientista, confunde o lugar social e o discurso
para outro campo. Isto fica manifesto até mesmo em um técnico. Toma um pelo outro: ocorre um quiproquó. Desconhe -
laboratório: assim que se trata de se pronunciar sobre objetivos, .
ce a ordem que representa Não sabe mais o que diz. Alguns
promo ções ou financiamentos, os peritos intervêm “ em nome ” somente depois de terem por muito tempo acreditado falarem
- mas fora - de sua experiê ncia particular. E como é que como peritos uma linguagem científica acordam do seu sono e
-
conseguem passar de sua técnica l íngua dominada e regula - se d ã o conta, de repente, que a certa altura, como o Gato Félix
-
dora para a l íngua , mais comum , de outra situação ? Mediante num filme antigo, estão andando em pleno ar, longe do terreno
curiosa operaçã o, que “converte" a competê ncia em autorida- científico. Reconhecido como científico, seu discurso n ã o pas-
de. Existe um intercâ mbio de compet ê ncia por autoridade. No sava da linguagem ordin á ria dos jogos tá ticos entre poderes
limite, quanto maior a autoridade do perito, menor a sua económicos e autoridades simbólicas.
competê ncia , até o ponto em que seu fundo se esgota, como a
energia necessá ria para o lan çamento de um projétil . Durante
O modelo Wittgenstein da Sendo assim, o discurso
o tempo desta conversã o, n ã o fica sem competê ncia ( tem que
ter uma. ou ao menos fazer crer que tem ) mas abandona aquela linguagem ordinária “ universal ” de uma filoso -
fia passada não consegue
que possui à medida que a sua autoridade se estende para mais
longe, exorbitada pela demanda social e/ou por responsabili - recuperar mais seus direi-
tos. Enquanto diz respeito à linguagem, a questão filosófica
dades pol íticas. Paradoxo ( geral? ) da autoridade: ganha o

66 67
consistiria sobretudo em interrogar, em nossas sociedades neiro das estrebarias de Á ugias da intelectualidade contempo-
técnicas, a grande partilha entre as discursividades reguladoras râ nea, não são em primeiro lugar os seus procedimentos de
da especializa ção (elas manté m uma razão social por compar- restriçã o, efeitos da exata paixã o que ele coloca a serviço de
timentos estanques operatórios) e as narratividades do inter - um pudor na aná lise da linguagem “ de cada dia” (este everyday
câmbio massificado ( multiplicam as astúcias que permitem ou substitu ído graças ao enfoque lingu ístico pelo Everyman da
refreiam uma circulação numa rede de poderes), lndependen- é tica renascente, mas portador da mesma questão); é, de modo
temente das análises que reduziram
pr 13
ou
umas e outras ao índice
das pesquisas que põem
mais fundamental, a maneira como, para retomar a sua expres
são, Wittgenstein traça “do lado de dentro” desta linguagem
-
comum de ticas á lingu ísticas ,
em evidencia ou a insinua çã o das cren ças, da probabilidade, os limites daquilo que, é tico ou m ístico, a ultrapassa. É
das metáforas, isto é do “ comum no
, " discurso cient ífico, ou as exclusivamente do lado de dentro que ele reconhece um fora
lógicas complexas impl ícitas na linguagem ordin á ria14 - tenta - em si mesmo indizível. Seu trabalho efetua portanto uma dupla
tivas para rearticular as peças desconexas e abusivamente erosão: aquela que , de dentro da linguagem ordiná ria, mostra
-
hierarquizadas da linguagem é possível recorrer também a
uma filosofia que forneça um “ modelo” (assim como se fala de
esses limites; aquela que denuncia o caráter irreceptível (o
nonsense ) de toda sentença que tenta uma saída para “ aquilo
um modelo de autom óvel ) e que efetue um exame rigoroso da que não se pode dizer”. A análise põe à mostra os vazios que
linguagem ordiná ria: a de Wittgenstein. Na perspectiva em que minam a linguagem , e eia destr ói os enunciados que pretendem
me coloco, ela pode ser considerada uma cr ítica radical do preenchê-los. Ela trabalha com aquilo que mostra ( zeigen ) sem
perito. Corolá rio: é també m uma cr ítica do filósofo como perito. .
poder dizer ( sagen) Wittgenstein examina um jogo de sintaxes
Se Wittgenstein pretende “ trazer a linguagem do seu uso
regionais e combinadas, cujos fundamentos, coerência e signi -
filosófico de volta ao seu uso ordin á rio ”, ao everyday use,
15 ficado global dependem de questões pertinentes, são até essen
ciais, mas não podem ser abordadas em um lugar “ próprio”,
-
projeto que ele desenvolveu sobretudo durante o seu último porque a linguagem não poderia tomar-se o objeto de um
período, ele se proíbe, ou pro íbe ao fil ósofo toda extrapola ção discurso. “ Não dominamos com o olhar o uso de nossas
metaf ísica para fora do que o falar possa dizer . Este seu palavras.” Raras vezes a realidade da linguagem foi tão
programa, o mais constante: “ Não dizer coisa alguma , a não rigorosamente levada a sé rio, isto é, o fato de ela definir a nossa
ser o que se pode dizer... e então, sempre que um outro quisesse historicidade, de nos superar e envolver sob o modo do
dizer alguma coisa de metafísico, demonstrar-lhe que não deu
ordiná rio, que nenhum discurso pode portanto “sair dela ” e
sentido a certos sinais em suas proposi çõ es. ” 16
Fixou para si
colocar -se à distâ ncia para observá-la e dizer o seu sentido.
como tarefa ser o cientista da atividade significante na lingua-
gem comum. Qualquer outra coisa só é levada em conta como Deste modo, Wittgenstein se manté m no presente de sua
linguagem por analogia ou comparaçã o com o “ aparelho de historicidade sem precisar recorrer ao “ passado” do historia-
17
nossa linguagem ordiná ria ”. Mas trata-se de abordá la de - dor. Rejeitaria até a historiografia porque, separando um
passado do presente, de fato ela privilegia um lugar pró prio e
maneira a n ã o afirmar nada que extrapole a competê ncia desta
linguagem e, portanto , a jamais tornar-se o perito nela, ou o produtor de onde pretende “ dominar" os fatos lingu ísticos ( ou
inté rprete, em outro campo lingu ístico ( por exemplo, metaf ísico -
“ documentos ” ) e distinguir se do dado, produzido e suposta-
mente o ú nico submetido às regras comuns. Ele se reconhece
ou é tico ), a nunca falar noutro lugar “ em seu nome ” . Deve
assim tornar -se impossível a conversã o da competê ncia em .
“ preso ” na historicidade lingu ística comum Por isso não aceita
autoridade. 0 que fascina na empreitada deste H é rcules, faxi- -
localizar està dependê ncia no ob jeto (denominado “ passado ”)
do qual a operação historiográfica se destaca ficticiamente ( de

68 69
uma ficção que é aliás o espaç20o onde se produz o desafio toda posição de dom ínio. O discurso analisador e o “ objeto ”
científico de dominar a história). Na realidade, a sua posição analisado tê m o mesmo estatuto, o de se organizar pelo
n ão está em jogo ali mas em um duplo combate cuja articulação trabalho de que d ão testemunho, determinados por regras que
nos fornece um referencial formal para o estudo da cultura. De não fundam nem superam , igualmente disseminadas em fun -
um lado, ele combate a profissionalização da filosofia , isto é , cionamentos diferenciados ( Wittgenstein quis que a sua pró-
sua redu çã o ao discurso técnico ( positivista) de uma especiali- pria obra fosse apenas feita de fragmentos ), inscritos em uma
dade. De modo mais geral, recusa a desinfecçã o que, eliminan - textura onde cada fragmento pode cada vez “apelar” a uma
do o uso ordiná rio (a everyday language ), e portanto o -
outra instâ ncia, citá-la e a ela referir-se. Dá se uma permanente
troca de lugares distintos. 0 privilégio filosófico ou científico
fundamental , possibilita apenas a uma ciê ncia a produção e o
dom í nio de uma l íngua artificial. De outro lado, combate a se perde no ordin á rio. Essa perda tem como corolá rio a
avidez metaf ísica ou a impaciência da é tica , sempre inclinadas invalidação das verdades. De que lugar privilegiado poderiam
a subsumir as regras da correção e se expor ao risco do elas ser significadas ? Dar -se-ão portanto fatos que não serão
nonsense de seus enunciados e perder a autoridade de seus mais verdades. E a infla çã o destas se encontra controlada,
discursos sobre a linguagem da experi ê ncia comum. Combate senão jugulada, pela cr í tica dos lugares de autoridade onde os
a presunçã o que leva a filosofia a fazer “ como se ” ela desse fatos se veem convertidos em verdades. Mostrando que sã o uma
sentido ao uso ordin á rio, e supusesse para si mesma um lugar mistura de nonsense e de poder, Wittgenstein se esforça por
pró prio de onde pensar o cotidiano. reduzir essas verdades a fatos lingu ísticos e àquilo que, nestes
fatos, remete a uma indiz ível ou “ m ística ” exterioridade da
Estamos submetidos, embora nã o identificados, à lingua- linguagem.
gem ordiná ria. Como na nave dos insensatos, estamos embar - Pode-se ligar a esta posi ção a importâ ncia sempre maior,
cados, sem possibilidade de fuga ou de totaliza ção. É a “ prosa
do mundo ” de que falava Merleau-Ponty. Ela engloba todo o em Wittgenstein, dos comportamentos e dos usos linguísticos.
discurso, mesmo que as experi ê ncias humanas não se reduzam Abordar a linguagem “ na" linguagem ordin á ria, sem poder
ao que ela pode dizer a seu respeito. As cientificidades se -
“ dominá la com o olhar ”, sem visibilidade a partir de um ponto
permitem esquecê-la para constituir-se, e as filosofias acredi - distante, quer dizer apreend ê-la como um conjunto de prá ticas
- - -
tam dominá la para autorizar se a abordá la. Nem estas nem
aquelas, sob este aspecto, tocam a questão filosófica, sem cessar
onde a pr ó pria pessoa do analisador se acha implicada e pelas
.
quais a prosa do mundo opera A an álise será portanto “ um
-
re-aberta por este “elá ” que “ leva o homem a lançar se contra exame interno a este trabalhar de nossa l íngua ” ( eine Einsicht
in das Arbeiten unserer Sprache ).22 Ela é levada assim a
os limites da linguagem ” { an die Grenze der Sprache anzu-
rennen ) 21 Wittgenstein reintroduz esta linguagem tanto na reproduzir a sua disseminaçã o, que faz em peda ços todo o
-
filosofia , que a tomou por objeto formal mas atribuindo se um sistema. Mas, procurando “ precisar a morfologia de uso ” das
expressões, isto é, examinar “ os seus dom ínios de uso" e
dom í nio fictício, como nas ci ê ncias que a exclu íram para se
atribu í rem um dom í nio efetivo . “ descrever suas formas”, 23 pode “ reconhecer" diferentes mo
dos de tuncionamentos cotidianos, governados por “ regras
-
Ele muda assim o lugar da an á lise , definido agora por uma pragmáticas”, elas mesmas dependentes de “ formas de vida ”
universalidade que é identicamente uma obediê ncia ao uso 0
( Lebensformen ) .
A

ordin á rio. Essa mudan ça de lugar modifica o estatuto do


discurso. Vendo-se “ preso” na linguagem ordin á ria , o fil ósofo
-
n ã o possui mais lugar pr ó prio ou apropriá vel . É lhe retirada

70 71
Na elaboração desta an á lise, cujos “ o segundo ensaio ” e o terceiro ensaio, “ o mais importante ’',
Uma historicidade desenvolvimentos
cos ou “ etnometodol
-
ógicos” ainda
-
sócio lingu ísti de Ulrich , o homem sem qualidades. Ele também foi dono “ dos
fragmentos de uma nova maneira de pensar e de sentir” e viu
contemporânea
serão retomados mais adiante, “ o espetáculo primeiro tão intenso da novidade ” dissolver-se
n ão há d ú vida alguma que Wittgenstein deve muito à tradição “ na multiplicação dos detalhes". A ele também só restava a
filosó fica que ele conheceu em Cambridge. De Cook Wilson a filosofia para se consagrar.31 Mas, como Ulrich, no campo do
C.E. Moore e J.L. Austin, ela se detivera a estudar “ os modos “ bom uso de suas capacidades" ( lingu ísticas), conservou “a
de falar ” [ ways of speaking ) da linguagem cotidiana ( ordinary -
maravilhosa nitidez ” 32 afinada por uma cientificidade conju-
gando assim rigor técnico com a obediê ncia a seu “ objeto”.
ou everyday languagé) , a tal ponto que Austin tinha como
programa “ perseguir as minudê ncias da linguagem ordiná ria ” Contrariamente ao discurso do perito, ele nã o tira proveito do
e ganhara a fama de ser “ o evangelista da linguagem ordiná ria” saber tornando-o um direito de falar em seu nome. Dele
-
(TLS, 16 de nov. 1973). Davam se para isso diversas razões, conserva a exigê ncia mas nã o o dom ínio.
que també m nos interessam: 1. as maneiras de falar usuais não Enfim , essa ciê ncia do ordiná rio se define por uma tríplice
têm equivalê ncias nos discursos filosóficos e não são traduz í- estranheza ; estranheza do especialista ( e do grande burguês )
veis para elas porque nelas existem mais coisas do que nesses em face da vida comum , do cientista em face da filosofia e, até
discursos; 2 , elas constituem uma reserva de “ distinções” e de ao fim, do alem ã o em face da l í ngua inglesa usual ( na qual
“ conexões” acumuladas pela experi 5
ência histórica e armazena- -
jamais se estabeleceu ). Pode se comparar esta situaçã o às do
das no falar de todos os diasf 3. enquanto práticas lingúísti- -
etn ólogo e do historiador, mas radicalizando as. Pois essas
cas, elas manifestam complexidades26lógicas das quais nem há maneiras de ser um estranho fora da pró pria casa ( como o
suspeita nas formaliza ções eruditas. viajante ou o arquivista) sã o pensadas por Wittgenstein como
Mas essas trocas de certo modo profissionais não poderiam
as metá foras de demarches anal íticas estranhas no interior da
pró pria linguagem que as circunscreve. “Quando fazemos
fazer esquecer um enraizamento histó rico anterior. Vou aqui
ater -me a três aspectos com valor indicativo. Em primeiro lugar, filosofia ( isto é, quando trabalhamos no ú nico lugar que é
‘ filosófico’, a prosa do mundo ), somos como selvagens, homens
paralela à rea ção que inspira a Loos Crime e ornamento
primitivos que, ouvindo a maneira de se exprimir de homens
reivindicando uma austeridade funcionalista contra a degene-
rescência decorativa de Viena, ou paralela à que , em Musil, civilizados, fazem dela uma falsa interpretaçã o”, etc.33 Nã o é
provoca a ironia cl ínica de suas observações em Cacanie, h á mais a posi çã o de profissionais, supostamente cultos entre
selvagens , mas aquela que consiste em ser um estrangeiro na
em Wittgenstein uma “ execra çã o ” quase jansenista do encanto
pró pria casa , um “ selvagem ” no meio da cultura ordin á ria ,
“falacioso” e os brilharecos “ jornal ísticos’’ de uma 29“ cultura perdido na complexidade do que se ouve e do que se ouve
podre ” ou das “ tagarelices” que se lhes assemelham. “ Pure-
za ”30 e pudor marcam o estilo de um engajamento na histó ria comumente. Ecomo ningu é m “sai ” desta linguagem , nem pode
contemporâ nea , uma pol í tica filosófica da cultura. O retorno encontrar outro lugar de onde interpretá -la , n ã o há portanto
interpretações falsas e outras verdadeiras mas apenas interpre-
cr ítico do ordin á rio, tal como o compreende Wittgenstein, deve
destruir todos os tipos de brilharecos retó ricos de poderes que tações ilusó rias. Em suma , n ã o existe sa ída , e apenas o fato de
hierarquizam e de nonsense que gozam de autoridade.
se ser um estranho dentro mas sem fora , e na linguagem
ordin á ria , resta " lan çar-se contra os seus limites" - situação
Analogia igualmente impressionate por sua experiê ncia de próxima da posi ção freudiana, com uma pequema diferen ça:
técnico superior , depois de matem á tico, Wittgenstein conheceu

72 73
Wittgenstein n ã o toma como referê ncia um inconsciente para
designar esta estranheza em si.
Por essas caracter ísticas, essa obra disseminada e rigorosa
parece oferecer uma é pura filosófica a uma ci ê ncia contempo-
râ nea do ordin á rio. Sem entrar nos pormenores de sua tese,
deve-se confrontar este modelo, tomado como hipótese teó rica,
com as contribuições positivas de “ ciê ncias humanas” ( sociolo-
.
gia , etnologia , hist ó ria ..) ao conhecimento da cultura ordin á ria
,

CAP ÍTULO H

CULTURAS POPULARES

Deixar Viena ou Cambridge, deixar os textos teóricos


-
nã o significa separar-se de Wittgenstein , mestre escola de aldeia
de 1920 a 1926, mas partir para o alto-mar da experiência
comum que envolve, penetra e acaba vencendo os discursos,
se todavia a pessoa não se contenta em substituir uma apro-
priaçã o cient ífica por uma domina ção pol í tica . Retornam lem -
branças pessoais, lugares desses mutismos na mem ó ria. Assim ,
introdu çã o a um seminá rio sobre a cultura popular do Nordeste
brasileiro, uma caminhada durante a noite entã o barulhenta de
Salvador até a Igreja do Passo. Contrastando com o teatro sutil
da Misericórdia, a fachada sombria ergue em sua dignidade
toda a poeira e o suor da cidade. Acima dos antigos bairros
cheios de barulho e vozerio, eis o seu segredo, monumental e
silencioso. Domina a Ladeira do Passo. N ão se entrega aos
pesquisadores que no entanto o tê m diante do olhar, ali diante

74 75
deles, como lhes escapa també m a l í ngua popular , vinda de també m com a proibição de dizer, para mostrar em toda a parte
muito longe e de muito alto quando se aproximam dele. Bem -
uma injustiça nã o só a dos poderes estabelecidos mas, de
modo mais profundo, a da história: reconhecia nesta injusti ça
diferente da Igreja do Rosá rio, toda azul e aberta , esta pedra
negra levanta a face noturna do humor baiano. Rochedo uma ordem das coisas, em que nada autorizava a esperar a
inexpugn ável , embora ( ou porque ) familiar, despojado de sole- mudan ça. É sempre assim, é o que se via todo dia. Mas n ã o se
nidade , semelhante às canções da saudade brasileira. Voltando concedia nenhuma legitimidade a esse estado de fato. Pelo
dessa peregrinaçã o, pelas ruas os rostos, malgrado sua alegre contr á rio, embora sendo uma realidade sempre repetida , esta
mobilidade, parecem multiplicar, passando, o indecifrável e rela çã o de for ças nem por isso se tornava mais aceitá vel . O fato
familiar segredo do monumento. n ã o era aceitá vel como uma lei, mesmo sendo sempre um fato.
Tomada numa depend ê ncia, obrigada a obedecer aos fatos, essa
A observa ção prolifera. Ela convicção opunha no entanto uma radical recusa ao estatuto
tateia, como o fizemos, em da ordem que se impõe como natural e um protesto ético contra
Uma “arte ” brasileira equipes interdisciplinares lo- sua fatalidade (se alguma ciê ncia pode permitir-se opções
cais, no Rio, em Salvador, diferentes sobre a rela çã o dos fatos e das leis, é antes de tudo
Recife Brasil
( ) ou ainda em Santiago do Chile, em Concepci ón pelo fato de ela escapar a essa dependê ncia ). Mas para afirmar
)
(Chile em, Posadas ( Argentina ) etc . Assim , uma dessas an á lises
-
a n ão coincidência entre fatos e sentido, era necessá rio um
foi consagrada àl í ngua falada pelos lavradores de Pernambuco outro cená rio, religioso, que reintroduzisse, ao modo de acon-
( em Crato, Juazeiro , Itapetim etc .) sobre a sua situa çã o em 1974 tecimentos sobrenaturais, a contingê ncia histó rica desta “ natu -
da regiã o.
1
e sobre as gestas de Frei Dami ã o , her ó i carism á tico reza " e, com referenciais celestes, um lugar para esse protesto.
O espa ço distribu ía o espaço de maneira a estratificá-lo em dois No entanto dizia-se uma inaceitabilidade da ordem estabeleci -
n íveis. De um lado, um espa ço sódo-econ ô mico, organizado da, a justo tí tulo sob a forma do milagre. Ali , numa linguagem
por uma luta imemorial entre “ poderosos” e “ pobres ”, apresen - -
necessariamente estranha à an á lise das rela ções s ócio econ ó -
-
tava se como o campo das perpétuas vitó rias dos ricos e da micas, podia-se sustentar a esperança que o vencido da histó ria
pol ícia, mas també m como o reinado da mentira (ali nunca se - corpo no qual se escrevem continuamente as vitó rias dos
diz uma verdade, a nã o ser em voz baixa e na roda dos -
ricos ou de seus aliados possa, na “ pessoa ” do “santo”
lavradores: “ Agora a gente sabe, mas não pode dizer alto ” ). Ali, humilhado, Dami ã o, possa erguer-se gra ças aos golpes desferi-
sempre, os fortes ganham e as palavras enganam - experiê ncia dos pelo cé u contra os adversá rios.
muito semelhante à constata ção de um magrebino, sindicalista
em Billancourt: “ A gente sempre leva a pior! ” Por outro lado, Sem retirar nada que seja à quilo que se diz cotidianamente,
distinto desse espaço polemológico e que apresenta à perspi- os relatos de milagres respondem a isso "de lado”, de vi é s, por
cácia dos lavradores uma rede inumerá vel de conflitos, escon- um discurso diferente no qual só se pode “crer ” - da mesma
dida sob o manto da l íngua falada , havia um espaço utó pico forma que uma rea çã o é tica deve acreditar que a vida nã o se
onde se afirmava , em relatos religiosos, um poss ível por defini - reduz à quilo que se vê. Da mesma forma, cantos anarquistas,
çã o milagroso. Frei Dami ã o era o seu centro quase im óvel sem em A Cecília (filme de J.-L. Comoili), formam o contraponto
cessar qualificado pelas histó rias sucessivas dos castigos do cé u dos acontecimentos que destroem , golpe atr á s de golpe, à
que atingiam seus inimigos. medida que se desenvolve, a comuna socialista fundada no
Brasil porTito Rossi: eles permanecem intactos e, no fim, sobre
No que dizia respeito à reia çã o efetiva das forças, o a pró pria ru ína de uma história reduzida à ordem, essas
discurso de lucidez trapaceava com as palavras falsificadas e

76 77
can ções ainda se elevam, escapando ao campo fechado do com a qual pode ser acreditada, nem a lucidez com a qual , aliás,
fracasso , levantando a voz que far á surgir , em outro lugar , se véem as lutas e as desigualdades que se ocultam sob a ordem
outros movimentos: estabelecida.
Falando de modo mais geral, uma maneira de utilizar
Un’idea 1’amante mia sistemas impostos constitui a resistê ncia à lei histórica de um
A cui detti braccio e cuor... estado de fato e a suas legitimações dogmá ticas. Uma prática
Deh faffretta a sorgere -
da ordem constru ída por outros redistribui lhe o espaço. Ali ela
O sol dell’awenir cria ao menos um jogo, por manobras entre forças desiguais e
Vivere vogliam liberi por referê ncias utó picas. A í se manifestaria a opacidade da
Non vogliam pi ú servir . cultura “ popular” - a pedra negra que se opõe à assimilação.
O que a í se chama sabedoria, define-se como trampolinagem,
À maneira das Loas vudus, “ esp í ritos” e vozes de outra palavra que um jogo de palavras associa à acrobacia do
referência , os relatos de milagres são també m cantos, mas
3
saltimbanco e à sua arte de saltar no trampolim , e como
graves, relativos não a sublevações mas à constatação de sua trapaçaria, astúcia e esperteza no modo de utilizar ou de
permanente repressão. Apesar de tudo, oferecem ao possível 4
driblar os termos dos contratos sociais. Mil maneiras de
um lugar inexpugnável , por ser um n ão-lugar, uma utopia. jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja , o espaço institu ído por
Criam um espaço diferente, que coexiste com aquele de uma outros, caracterizam a atividade, sutil, tenaz, resistente , de
experiência sem ilusões. Dizem uma verdade (o milagroso), não
redutível às crenças particulares que lhe servem de metáforas
grupos que, por não ter um próprio, devem desembara çar se
em uma rede de forças e de representa ções estabelecidas. Tem
-
ou de s ímbolos. Estariam ao lado da análise dos fatos como o que “ fazer com ”. Nesses estratagemas de combatentes existe
equivalente daquilo que uma ideologia política introduz nesta uma arte dos golpes, dos lances, um prazer em alterar as regras
análise. de espaço opressor . Destreza tá tica e alegria de uma tecnicida -
Os "crentes” rurais desfazem assim a fatalidade da ordem de. Scapin e Fígaro são apenas ecos literá rios desse modo de
estabelecida. E o fazem utilizando um quadro de referê ncia agir. Como a habilidade do motorista nas ruas de Roma ou de
que , també m ele, vem de um poder externo (a religi ão imposta Ná poles, uma mestria que tem seus peritos e sua estética se
pelos missioná rios). Reempregam um sistema que, muito longe exerce no labirinto dos poderes, recria sem cessar opacidade e
de lhes ser pr ó prio, foi constru ído e propagado por outros, e -
ambiguidade cantos de sombras e astúcias - no universo da
transparê ncia tecnocrá tica , a í se perde e aí se encontra sem
marcam esse reemprego por “ super-a çòes”, excrescê ncias do
miraculoso que as autoridades civis e religiosas sempre olha - precisar assumir a gestã o de uma totalidade. Até o campo da
ram com suspeita, e com razão, de contestar às hierarquias do desventura a í é refeito por essa combinaçã o do manipular e do
poder e do saber a sua “ razã o”. Um uso (“ popular ” ) da religião gozar .
-
modifica lhe o funcionamento. Uma maneira de falar essa
Generaliza çã o m u i t o
linguagem recebida a transforma em um canto de resistê ncia,
apressada ? Hipó tese de
sem que essa metamorfose interna comprometa a sinceridade A enunciação proverbial
pesquisa, com efeito, mas
fundamentada no exame
5
* “ Minha amante é uma id éia/ a quem dei bra ç o e coração.-/ Apressa-te a de outros terrenos e situada , naturalmente, num conjunto de
levantar -te/ Ó sol do futuro,/ Queremos viver Jivres,/ N âo mais queremos servir ” (LG), precedentes e vizinhos, por exemplo as pesquisas mais recentes

78 79
6
sobre “ a inteligê ncia prá tica ” ( a mètis ) dos gregos ou sobre o “ Quem dorme se alimenta " etc.) refor ça o impacto do sentido
“ senso prá tico ” e as “ estratégias ” kabilas e bearnesas.' diminuindo as diferen ças de som ( pela rima , pela alitera ção
etc.).10 Detectam -se entã o sistemas, seja de significados, seja de
Com efeito, este enfoque da cultura popular se inspira em fabricaçã o. Por um duplo dom ínio sobre o corpus que circuns-
uma problemá tica do enunciado, na tr íplice referê ncia daquilo crevem e sobre as operações que aí efetuam , esses métodos
que devemos à análise da performatividade por Austin , à conseguem definir, eles mesmos, o seu objeto (que é um
semiótica da manipulação em AJ. Creimas, e à semiologia da prové rbio?), racionalizar a sua coleta, classificar os seus tipos
Escola de Praga . Inicialmente relativa ao ato de palavra me - e transformar o “ dado ” em algo que se pode reproduzir ( por
diante o qual um locutor realiza e se apropria da l íngua numa exemplo, conhecendo-se as regras de produ ção dos prov é rbios,
situaçã o particular de intercâ mbio ou de "contrato" , essa podem -se fabricar em série). Essas técnicas adquirem deste
problem á tica pode ser estendida ao conjunto da cultura a título modo, explicando-os, a capacidade de construir fenô menos
das semelhan ças entre os procedimentos { “ enunciativos ” ) que sociais, bem como a biologia é capaz de sintetizar insulina . Mas
articulam intervenções, seja no campo da lí ngua seja na rede que a dos prov é rbios por estar mais desenvolvida , a an á lise dos
das prá ticas sociais. Ela se distingue dos estudos, de corte mais mitos, de Aarne até Lévi-Strauss, mostrou como uma ci ê ncia
tradicional , que abordam os enunciados das lendas, prové rbios desses discursos, isolando-os e fazendo uma triagem , e forma -
etc. ou , de modo mais amplo, a forma objetiva dos ritos ou lizando as unidades m ínimas que trata,11 conseguiu classificar
comportamentos, visando constituir um corpus próprio da
cultura popular e a í analisar os termos vari á veis de fun ções
uma literatura supostamente heteróclita , encontrar um " pensa
mento selvagem " e uma l ógica nos corpos constitu ídos como
-
invariá veis em sistemas finitos. Entre essas duas óticas, diver- “ estranhos ” , enfim renovar deste modo a interpretaçã o e a
gem os postulados e os métodos. Onde uma se esforça para produ ção de nossos pró prios discursos.
encontrar os tipos de operações que surgem das conjunturas
0 inconveniente do mé todo, condi ção do seu sucesso, é
histó ricas, a outra prefere identificar os equil íbrios estruturais
cuja constâ ncia se manifesta diversamente em cada sociedade.
extrair os documentos de seu contexto histórico e eliminar as
operações dos locutores em circunstâ ncias particulares de
As diferen ças não sã o, é claro, nem tão simples nem tã o tempo, de lugar e competi ção. É necessá rio que se apaguem as
antin ô micas. Assim , Pierre Bourdieu combina as duas em uma prá ticas lingu ísticas cotidianas ( e o espaço de suas tá ticas ), para
-
" teoria da prá tica " à qual irá voltar ainda. Mas pode se precisar
que as prá ticas científicas sejam exercidas no seu campo
o que implica esta alternativa , a partir de um caso particular, pr ó prio. Por isso n ão se levam em conta as mil maneiras de
o dos provérbios. “ colocar bem ” um prové rbio, neste ou naquele momento e
Um dos m é todos consiste em isolar primeiro os prov é rbios diante deste ou daquele interlocutor . Tal arte fica exclu ída e os
e armazen á -los, como Aarne e Propp fizeram com os contos. seus autores, lan çados para fora do laborat ó rio, n ã o só porque
Do material colecionado , ou se abordará o conte ú do, dividido toda cientificidade exige delimitação e simplificaçã o de seus
em labels ou unidades sem â nticas ( a ções, temas, atores ) cujas objetos, mas porque à constitui çã o de um lugar cient ífico,
rela ções são analisá veis em termos de estruturas e cujas condi çã o pr évia de qualquer aná lise, corresponde a necessida -
constela ções indicam a geografia mental própria deste ou de de poder transferir para ali os objetos que se devem estudar.
daquele grupo,9 ou então podem -se estudar os modos de Só pode ser tratado o que se pode transportar. O que n ã o se
produ çã o, por exemplo o processo que, nos prové rbios (geral- pode desarraigar tem que ficar fora do campo, por definiçã o.
mente d ísticos ): “ Natal no balcã o, Pá scoa na lareira" ( Noel au Da í o privil é gio que esses estudos concedem aos discursos,
balcon , Pã ques au tison ); “ Longe dos olhos, longe do cora ção ”, coisa deste mundo que é aquela que se pode mais facilmente

80 81
captar , registrar , transportar e abordar em lugar seguro, en - A partir dessas marcas na
Ló gicas: jogos, contos e linguagem , já se pode retor-
quanto o ato de palavra nã o pode separar-se da circunstâ ncia. artes de dizer
Mesmo das prá ticas só se h á de reter os m óveis (instrumentos nar à s maneiras de fazer
e produtos que se colocam na vitrine ) ou esquemas descritivos dos operadores. Mas nào
( comportamentos quantificá veis, estereótipos de encena ções, basta descrever lances, golpes ou truques singulares. Para
estruturas rituais ), deixando de lado o inarraigá vel de uma -
pensá-los, deve se supor que a essas maneiras de fazer corres -
pondem procedimentos em n ú mero finito ( a invenção não é
sociedade: modos de usar, as coisas ou as palavras segundo as
ocasi ões. Algo essencial se joga nessa historicidade cotidiana , ilimitada e, como as “ improvisa çõ es” no piano ou na guitarra,
sup õe o conhecimento e a aplicação de códigos) e que implicam
indissociá vel da Existê ncia dos sujeitos que são os atores e
.
autores de opera ções conjunturais Pelo contrá rio, de modo uma lógica dos jogos de ações relativos a tipos de circunstâ n-
semelhante ao Deus de Schreber, que “ tem comé rcio apenas cias. Esta lógica articulada em cima da ocasião tem como
preliminar , contrariando a cientificidade ocidental, a não-auto-
com cadá veres ”,12 nossos saberes parecem considerar e tolerar
apenas de um corpo social objetos inertes. - -
nomia do campo de ação. Poder se ia encontrar uma rica
Fatalidade ? Lembro-me do maravilhoso Shelburne Mu - elucida ção desse ponto no pensamento chinês, desde o canó
nico Livro das mutações ou do trabalho de Sun Tzé sobre ,4
-
seum , de Vermont, EUA, onde pululam, nas trinta e cinco casas arte da guerra,15 ou na tradição á rabe do Livro das astúcias,16
de uma aldeia reconstitu ída, todos os sinais, utensílios e pro- Mas seria preciso ir tão longe para encontrar modelos? Toda
dutos da vida cotidiana no século XIX, desde o trem de cozinha sociedade mostra sempre, em algum lugar, as formalidades a
e as prateleiras de rem é dios até aos instrumentos para costurar,
objetos de toalete e os brinquedos de crian ça. O inumer ável -
que suas pr á ticas obedecem. Onde então procurá las no Oci-
dente, desde que a nossa cientificidade, substituindo os seus
das coisas familiares, polidas, deformadas ou embelezadas pelo lugares “ pr óprios ” dos terrenos complexos das ast ú cias sociais
uso, multiplicava també m as marcas das mãos ativas e dos e suas l í nguas “ artificiais” pela linguagem ordin á ria, 1 ' permitiu
corpos laboriosos ou pacientes de que essas coisas compunham
e impôs à razão uma l ógica do dom í nio e da transparê ncia?
as redes di á rias: presença obsessionante de ausê ncias traçadas Como a “ carta roubada ” de Edgar Põe, as escrituras dessas
em toda a parte. Ao menos essa aldeia abarrotada de objetos l ógicas diferentes são colocadas em lugares tão evidentes que
abandonados e recolhidos remetia, por eles, aos murm ú rios
ordenados de cem aldeias passadas ou possíveis, e o visitante
nem aparecem. Sem voltar à linguagem ordiná ria , pode se já
sugerir três lugares onde se exp õ em , escondidas por sua
-
se punha a sonhar com esses traços imbricados com mil evid ê ncia , as formalidades dessas maneiras de fazer ocasionais.
combina ções de existê ncias. Como os utensílios, os prové rbios
-
ou outros discursos, são marcados por usos, apresentam à Em primeiro lugar, os jogos específicos de cada sociedade:
an á lise as marcas de atos ou processos de enunciação;
33
essas operações disjuntivas ^ ( produtoras de acontecimentos
significam as operações de que foram objeto, operações relati- diferenciadores) dão lugar a espaços onde os lances são pro-
vas a situa ções e encará veis como modalizações conjunturais porcionais a situações. Desde o jogo de xadrez, forma aristo-
14
do enunciado ou da prá tica; de modo mais lato, indicam crá tica de uma “arte da guerra ” , proveniente da China e
portanto uma historicidade social na qual os sistemas de introduzida pelos á rabes no Ocidente medieval onde veio a
representa ções ou os procedimentos de fabrica ção n ã o apare - constituir o essencial da cultura nas cortes palacianas, até o
cem mais só como quadros normativos mas como instrumentos jogo de baralho, o loto ou o scrabble, os jogos formulam (e até
manipuláveis por usuários . formalizam ) as regras organizadoras dos lances e constituem

82 83
també m uma memó ria (armazenamento e classificação) de de estrat égias já se pode encontrar um exemplo em Propp,
esquemas de ações articulando novos lances conforme as pioneiro consagrado do Comendador das pesquisas “formalis-
ocasiões. Exercem essa função precisamente por estarem longe tas” sobre os contos populares. Os quatrocentos contos
dos combates cotidianos que nã o permitem “ desvelar o seu maravilhosos que examinara , ele os reduzia a “ sé ries fundamen-
jogo ”, e cujas aplicações, regras e lances sã o de uma complexi - 23
tais ” de funções, sendo a “ fun çã o ” “ a a çã o de um personagem,
dade muito grande. A explicitação é sempre inversamente definida do ponto de vista de sua significação no desenrolar da
proporcional ao engajamento prá tico. Ao se destacar nesses intriga ”.24 N ã o é certo, como observava A. R égnier, que a
jogos uma formalidade de tá ticas (como se faz a propósito do homologaçã o dessas fun ções seja coerente nem , como o mos-
19
jogo depo/ ou comparando aos jogos a adivinhação técnica , traram tanto Lévj-Strauss como Greimas, que as unidades
cujo quadro formal tem como objetivo ajustar uma decisão a destacadas sejam estáveis: mas a novidade ainda nova de Propp
situações concretas, > tem-se um primeiro fundo sobre as
2t reside na an á lise das tá ticas cujo inventá rio e cujas combina-
racionalidades próprias a prá ticas de espaços - espaços fecha- ções se encontram nos contos, na base de unidades elementares
dos e “ historicizados” pela variabilidade dos acontecimentos a que n ã o sã o nem significa ções nem seres, mas ações relativas
abordar . a situa ções conflituais. Com outros mais tarde, esta leitura
permitiria reconhecer nos contos os discursos estratégicos do
A esses jogos correspondem os relatos de partidas. Fala-se
povo. Da í o privil égio que esses contos concedem à simula-
sobre o jogo de baralho do outro dia à noite ou sobre...
schelen ... do outro dia. Essas histó rias representam uma suces- ção/dissimula ção. Uma formalidade das prá ticas cotidianas
sã o de combinações entre todas aquelas possibilitadas pela vem à tona nessas histó rias, que invertem freqiientemente as
organizaçã o sincrô nica de um espa ço, de regras, dados etc. São rela ções de for ça e, como as histórias de milagres, garantem ao
oprimido a vitória num espa ço maravilhoso, ut ópico. Este
as projeções paradigm á ticas de uma opção entre esses possíveis espa ço protege as armas do fraco contra a realidade da ordem
- opçã o correspondente a uma efetuação (ou enunciaçã o) estabelecida. Oculta-as també m às categorias sociais que “fa-
particular. Como o relat ório sobre um jogo de bridge ou a
reprodu ção de uma partida de xadrez no Le Monde , poderiam zem história ”, pois a dominam. E onde a historiografia narra
ser quantificadas, ou seja, tornar visível o fato de que cada no passado as estratégias de poderes institu ídos, essas histó rias
“ maravilhosas ” oferecem a seu p ú blico ( ao bom entendedor ,
acontecimento é uma aplicaçã o singular do quadro formal. Mas
-
jogando de novo uma partida, relatando a , essas histó rias um cumprimento ) um poss ível de tá ticas dispon íveis no futuro.
registram ao mesmo tempo regras e lances. Memorizadas bem Enfim, nesses mesmos contos, os feitos, as astú cias e
como memorizá veis, sã o repertórios de esquemas de ação “ figuras ” de estilo , as alitera ções, inversões e trocadilhos,
entre parceiros. Com a sedu çã o a í introduzida pelo elemento participam també m na colaçã o dessas tá ticas. Tornam -se tam
bé m , mais discretamente, os museus vivos dessas tá ticas, mar-
-
surpresa , esses memorandos ensinam as táticas possíveis em
um sistema (social ) dado. cos de uma aprendizagem. A retó rica e as prá ticas cotidianas
Contos e lendas parecem ter o mesmo papel.' Eles se sã o igualmente defin íveis como manipulações internas a um
desdobram , como o jogo, num espa ç o excetuado e isolado das sistema - o da língua ou ao de uma ordem estabelecida.
“Torneios " ( ou “ tropos ” ) inscrevem na l íngua ordin á ria as
competi ções cotidianas, o do maravilhoso, do passado, das
origens. Ali podem entã o expor-se, vestidos como deuses ou ast ú cias, os deslocamentos, elipses etc. que a razã o cient ífica
her ó is, os modelos dos gestos bons ou maus utilizáveis a cada eliminou dos discursos operat órios para constituir sentidos
dia . A í se narram lances, golpes, n ã o verdades. Dessas pan ó plias “ pr ó prios ”. Mas nessas zonas “ literá rias ” para onde sã o recal-
cados ( como no sonho, onde Freud os encontrou ), continua a

84 85
prática dessas astúcias, memó ria de uma cultura. Esses tor- aliás um revelador no interior do próprio estudo: a ruptura ou
neios caracterizam uma arte de dizer popular. Tã o viva, tão o corte entre o tempo das solidariedades (o da docilidade e da
perspicaz, quando os reconhece no contista e no camelo, um gratid ão do pesquisador para com seus anfitriões ) e o tempo
ouvido de campon ês de oper á rio sabe detectar numa maneira da redaçã o que põe à mostra as alianças institucionais ( cientí-
de dizer uma maneira de tratar a linguagem recebida. Sua ficas, sociais ) e o lucro ( intelectual , profissional, financeiro etc.)
aprecia ção engraçada ou artística refere-se também a uma arte que tem objetivamente nessa hospitalidade o seu meio. Os
de viver no campo do outro. Ela distingue nesses torneios de Bororo vão descendo lentamente para a morte coletiva, enquan -
-
linguagem um estilo de pensamento e de ação modelos de to Lévi-Strauss veste o fardã o da Academia. Mesmo que ele não
prá ticas.26 se console com essa injustiça , isto n ão muda em nada o fato.
E esta é també m a nossa pr ó pria história, n ã o apenas a dele.
Com esses exemplos de Apenas sob este aspecto (sinal de outros mais importantes), o
Uma prática de dissimu - terrenos onde se podem
mesmo se dava antigamente, quando o popular alimentava o
lação: a Usucata ” rastrear as modalidades
específicas de pr á ticas
clero.
" enunciativas”, manipulações de espaços impostos, tá ticas re - -
Sem voltar a insistir sobre as implicações sócio econ ômicas
27
-
lativas a situa ções particulares, abre se a possibilidade de do lugar onde se produz um estudo etnológico ou histórico,
analisar o imenso campo de uma “arte de fazer ” diferente dos nem sobre a política que, desde as origens da pesquisa contem -
modelos que reinam ( em princípio) de cima para baixo da porâ nea , inscreveu o conceito popular numa problem á tica de
cultura habilitada pelo ensino (do superior ao primá rio ) e que repressã o,28 é necessá rio levar em conta uma urgê ncia: caso
postulam , todos eles, a constitui çã o de um lugar pró prio ( um não se fique esperando que venha uma revolução transformar
espaço científico ou uma página branca para escrever ), inde - as leis da histó ria , como vencer hoje a hierarquizaçã o social
pendente dos locutores e das circunstâ ncias, onde construir que organiza o trabalho científico sobre as culturas populares
um sistema a partir de regras que garantam a sua produ çã o, e ali se repete? As ressurgê ncias das prá ticas “ populares” na
sua repetição e verificação. Mas há duas questões que pesam modernidade industrial e cient ífica mostram os caminhos que
nesta pesquisa. Dizem respeito aliás às duas faces de um mesmo poderiam ser assumidos por uma transforma çã o do nosso
problema pol ítico. De uma parte, esta “ arte ”, em nome do quê objeto de estudo e do lugar de onde o estudamos.
a declaramos diferente? De outra, de onde ( de que outro lugar ) Não é possível prender no passado, nas zonas rurais ou
efetuamos sua an á lise? Ao invés de recorrer aos mesmos nos primitivos os modelos operat órios de uma cultura popular.
procedimentos dessa arte, talvez possamos rever tanto a sua Eles existem no cora çã o das praças-fortes da economia contem -
defini çã o como “ popular ” como també m a nossa posição de por â nea. Como no caso da sucata , por exemplo. Este fen ô meno
observadores. se vai generalizando por toda a parte, mesmo que os quadros
Sem d ú vida continua havendo diferen ças, sociais, econó- -
o penalizem ou “ fechem os olhos” para não vê lo. Acusado de
roubar, de recuperar material para seu proveito pró prio e
micas, histó ricas, entre os praticantes (camponeses, operá rios
utilizar as máquinas por conta pró pria, o trabalhador que
etc. ) dessas ast ú cias e os analistas, neste caso, n ós. Não se dá
por acaso que toda a sua cultura se elabora nos termos de “ trabalha com sucata ” subtrai à fá brica tempo ( e não tanto bens,
porque só se serve de restos ) em vista de um trabalho livre,
relações confiituais ou competitivas entre mais fortes e mais
fracos, sem que nenhum espaço, nem legend á rio ou ritual,
criativo e precisamente nã o lucrativo. Nos pró prios lugares
onde reina a m áquina a que deve servir , o oper á rio trapaceia
-
possa instalar se na certeza de neutralidade. Essa diferença tem

86 87
pelo prazer de inventar produtos gratuitos destinados somente da tenacidade ( mil maneiras de negar à ordem estabelecida o
-
a significar por sua obra um saber fazer pessoal e a responder estatuto de lei, de sentido ou fatalidade ). A cultura “ popular ”
por uma despesa a solidariedades operá rias ou familiares. seria isto. e nã o um corpo considerado estranho, estra çalhado
Com a cumplicidade de outros trabalhadores ( que deste modo a fim de ser exposto, tratado e “ citado” por um sistema que
põem em xeque a concorrência fomentada entre eles pela reproduz, com os objetos, a situação que impõe aos vivos.
fá brica ), ele realiza “ golpes ” no terreno da ordem estabelecida. A progressiva compartimentaliza çã o dos tempos e dos
Longe de ser uma regressã o para unidades artesanais ou lugares, l ógica disjuntiva da especializa ção pelo e para o
individuais de produ çã o, o trabalho com sucata reintroduz no trabalho, n ã o encontra contrapartida suficiente nos rituais
espa ço industrial ( ou seja , na ordem vigente) as tá ticas “ popu- conjuntivos das comunica ções de massa. Tal fato n ão poderia
lares ” de outrora ou de outros espa ços. tornar-se a nossa tei. É contorn á vel por serviços que, “ rivali-
Cem outros exemplos poderiam mostrar a constâ ncia des- zando” com os dons de nossos benfeitores, lhes oferecem
sas á ticas , mesmo na modernidade mais normalizada. Com
pr produtos tomados dos fundos da institui ção que divide e trata
variantes, os produtos an á logos à sucata proliferam nas admi - os trabalhadores. Essa prá tica do desvio ou da dissimulação
nistra ções p ú blicas ou comerciais, como també m nas f á bricas. econ ó mica é na realidade o retorno de uma é tica sócio- pol í tica
Sem d ú vida a í se acham tão difundidas hoje como ontem (seria a um sistema econ ó mico. Leva -nos a pensar, sem d ú vida , no
preciso ainda estud á-las), igualmente suspeitas, reprimidas ou potlatch segundo Mauss, jogo de prestações voluntá rias que
cobertas com o silê ncio. N ã o apenas as oficinas e os escritórios levam em conta a reciprocidade e organizam uma rede social
articulada pela “obrigação de dar ”. Semelhante “emulação”
30
e repartições, mas os museus e as revistas eruditas as penalizam
-
ou querem olvid á las. As instâ ncias do saber etnol ógico ou n ão determina hoje a economia de nossas sociedades: o libera -
folcl ó rico delas retê m apenas objetos f ísicos ou lingu ísticos, lismo tem como unidade básica o indivíduo abstrato e regula
etiquetados em lugares de origem e em temas, colocados na todas as trocas entre essas unidades segundo o código da
vitrina, expostos à leitura e destinados a disfar çar, sob “valores" equival ê ncia generalizada que é a moeda. Sem d ú vida , hoje este
camponeses oferecidos à edificaçã o ou à curiosidade dos cita- postulado individualista vem novamente à baila precisamente
dinos, a legitimação de uma ordem supostamente imemorial e como a questão que perturba todo o sistema liberal. O apriori
“ natural ” por seus conservadores. Ou então, de uma lingua- de uma opção histó rica ocidental passa a ser o seu ponto de
gem de operações sociais elas extraem os utensílios e os implosão. Seja como for , o potlatch parece que se manté m ali
produtos para com ele mobiliar as prateleiras com gadgets como o sinal de outra economia. Sobreviveu dentro da nossa,
té cnicos e colocá -los, inertes, às margens de um sistema intato. mas na periferia ou em seus interst ícios. E até se desenvolve,
A ordem efetiva das coisas é justamente aquilo que as embora ilegí timo, no liberalismo avan çado. Deste modo. a
tá ticas “ populares ” desviam para fins pró prios, sem a ilusão pol ítica do “ dom ” se torna também uma tá tica desviacionista .
que mude proximamente. Enquanto é explorada por um poder Do mesmo modo, a perda que era voluntá ria em uma economia
dominante, ou simplesmente negada por um discurso ideológi- do dom se transforma em transgressã o na economia do lucro:
co, aqui a ordem é representada por uma arte. Na institui çã o Aparece a í como excesso ( desperd ício), contestaçã o (a rejeiçã o
a servir se insinuam assim um estilo de trocas sociais, um estilo do lucro) ou delito (atentado contra a propriedade).
de invenções té cnicas e um estilo de resistê ncia moral, isto é, Esse caminho, relativo à nossa economia, deriva de outra
uma economia do “dom ” ( de generosidades como revanche ), economia : compensa a primeira, embora seja ilegal e (deste
uma est ética de “golpes " {de opera ções de artistas ) e uma é tica ponto de vista ) marginal. É que ela permite encontrar també m

88 89
no estudo uma posiçã o que não se define mais somente por um
poder adquirido ou por um saber observador, com o acréscimo
de um pouco de saudade. A melancolia não basta. Sem d ú vida,
com rela ção à escritura que separa em nome de uma divisão
do trabalho e que revela alianças de classe, seria '' maravilhoso ”
se, como acontece nos relatos de milagres, os grupos que nos
deram ontem tantos mestres e que hoje estão deitados nos
nossos corpus, se levantassem para marcar, eles mesmos, as
suas idas e vindas nos textos que os veneram, enterrando-os.
1/
Essas esperan ças se perderam, com as crenças que, há tanto
tempo, n ão habitam mais nossas cidades. N ã o aparecem mais
fantasmas para lembrar aos vivos a reciprocidade. Mas na
ordem organizada pelo poder do saber {o nosso ), como também CAP ÍTULO III
na ordem das zonas agr ícolas ou das ind ústrias, sempre é
possível uma prá tica desviacionista.
FAZER COM:USOS E TÁTICAS
Com rela ção ao sistema econ ómico, cujas regras e hierar -
quias se repetem , como sempre, nas instituições científicas,
pode-se tentar usar a sucata. No terreno da pesquisa científica
( que define a ordem atual do saber ), com suas m á quinas e
-
graças a seus resíduos, pode se desviar o tempo devido à
instituição; fabricar os objetos textuais que significam uma arte
e solidariedades; jogar esse jogo do intercâ mbio gratuito, Apesar das medidas tomadas para reprimi - lo ou para
mesmo que castigado pelos patrões e pelos colegas, quando
não se limitam a “ fechar os olhos"; inventar os traçados de
-
escond ê lo, o “ trabalho com sucata ” ( ou seus equivalentes) se
infiltra e ganha terreno. Mas ele mesmo é somente um caso
conivê ncias e de gestos; responder com um presente a outro particular entre todas as pr á ticas que introduzem jeitos de
dom; subverter assim a lei que, na f á brica científica, coloca o artistas e competições de cú mplices no sistema da reprodu ção
trabalho a servi ço da m áquina e, na mesma lógica, aniquila e da divisão em compartimentos pelo trabalho ou pelo lazer.
progressivamente a exigê ncia de criar e a “ obrigação de dar ”. Corre, corre o fur ão: mil maneiras de “ fazer com ” .
Conheço pesquisadores habilidosos nesta arte do desvio, que
Deste ponto de vista, o corte n ã o passa agora entre o
é um retorno da é tica , do prazer e da invenção à institui ção
trabalho e os lazeres. Essas duas regiões de atividades se
cient ífica. Sem lucro ( o lucro fica do lado do trabalho executado homogene í zam. Elas se repetem e se refor çam uma à outra.
para a ind ú stria ), muitas vezes levando preju ízo, tiram alguma
Nos locais de trabalho $e vã o difundindo as técnicas culturais
coisa à ordem do saber para ali gravar “sucessos ” artísticos e
que camuflam a reprodu çã o econó mica sob ficçõ es de surpresa
ali inserir os graffiti de suas d ívidas de honra. Tratar assim as (o “ happening" ), de verdade ( “ a informa çã o” ) ou de comunica -
tá ticas cotidianas seria praticar uma arte “ ordin á ria ", achar-se
na situa ção comum e fazer da escritura uma maneira de fazer
ção ( “a anima ção” ). Reciprocamente, a produ çã o cultural ofe -
rece um campo de expansão para as opera ções racionais que
“ sucata ".
permitem gerir o trabalho mediante a divisã o ( uma an á lise ),

90 91
-
mapeando o ( uma síntese) e massificando-o (generalização). espaço de jogo para maneiras de utilizar a ordem imposta do
Outra distin çã o se impõe, alé m daquela que distribui os com - lugar ou da l íngua. Sem sair do lugar onde tem que viver e que
portamentos segundo o seu lugar ( de trabalho ou de lazer ) e lhe impõe uma lei , ele a í instaura pluralidade e criatividade.
os qualifica então pelo fato de se colocarem nesta ou naquela Por uma arte de intermediaçã o ele tira daí efeitos imprevistos.
casa do tabuleiro social - no escritório, na oficina ou no cinema . -
Essas operações de emprego ou melhor, de reemprego
Existem diferenças de outro tipo. Elas se referem às modalida-
des da açã o, às formalidades das prá ticas. Atravessam as
- se multiplicam com a extensão dos fenômenos de aculturaçã o,
ou seja, com os deslocamentos que substituem maneiras ou
fronteiras que permitem as classificações de trabalho ou de “ métodos” de transitar pela identificação com o lugar. Isso não
lazer. Por exemplo, a arte da “ sucata ” se inscreve no sistema impede que correspondam a uma arte muito antiga de “ fazer
da cadeia industrial ( é seu contraponto, no mesmo lugar ), como com ”. Gosto de dar lhes o nome de usos, embora a palavra
-
variante da atividade que, fora da fá brica ( noutro iugir ), tem a designe geralmente procedimentos estereotipados recebidos e
forma da bricolagem. reproduzidos por um grupo, seus “ usos e costumes”. O proble-
Embora sejam relativas às possibilidades oferecidas pelas ma está na ambiguidade da palavra pois, nesses “ usos” , trata-se
circunstâ ncias, essas táticas desviacionistas n ã o obedecem à lei precisamente de reconhecer “ ações ” ( no sentido militar da
do lugar. N ão se definem por este. Sob esse ponto de vista, sã o palavra) que são a sua formalidade e sua inventividade pró prias
tão localizá veis como as estratégias tecnocrá ticas (e escritur ís- e que organizam em surdina o trabalho de formigas do consumo.
ticas ) que visam criar lugares segundo modelos abstratos. O Depois dos trabalhos, muitos
que distingue estas daquelas sã o os tipos de operações nesses
espaços que as estratégias sã o capazes de produzir, mapear e
deles notáveis, que analisaram
O uso ou o consumo os “ bens culturais”, o sistema
impor , ao passo que as tá ticas só podem utilizá -los, manipular
de sua produ ção,1 o mapa de
e alterar.
sua distribui ção e a distribui çã o dos consumidores nesse
É preciso portanto especificar esquemas de operações. mapa,2 parece poss ível considerar esses bens não apenas como
Como na literatura se podem diferenciar “ estilos ” ou maneiras dados a partir dos quais se pode estabelecer os quadros
de escrever , també m se podem distinguir “ maneiras de fazer ” estatísticos de sua circulação ou constatar os funcionamentos
- de caminhar, ler, produzir falar, etc. Esses estilos de ação econó micos de sua difusão, mas também como o repertório
intervê m num campo que os regula num primeiro n ível ( por com o qual os usu á rios procedem a opera ções próprias. Sendo
exemplo, o sistema da ind ú stria ), mas introduzem ai uma assim, esses fatos nã o são mais os dados de nossos cá lculos
maneira de tirar partido dele, que obedece a outras regras e mas o léxico de suas prá ticas. Assim, uma vez analisadas as
constitui como que um segundo n ível imbricado no primeiro imagens distribuídas pela TV e os tempos que se passa assis-
( é o que acontece com a “sucata ” ). Assimil á veis a modos de
tindo aos programas televisivos, resta ainda perguntar o que é
emprego , essas “ maneiras de fazer ” criam um jogo mediante a que o consumidor fabrica com essas imagens e durante essas
estratifica çã o de funcionamentos diferentes e interferentes. horas. Os 500 mil franceses que compram Information-santé,
Assim , as " maneiras” de habitar ( uma casa ou uma língua) os fregueses do supermercado, os praticantes do espaço urba-
pr ó prias de sua Kab ília natal , o magrebino que mora em Paris no, os consumidores das hist ó rias e legendas jornal ísticas, o
ou Roubaix as insinua no sistema que lhe é imposto na que é que eles “ absorvem ”, recebem e pagam ? 0 que fazem
constru çã o de um conjunto residencial popular ou no francês. com isso?
Ele os superimpõe e , por essa combinação, cria para si um

92 93
qual não podiam fugir.4 Eles metaforizavam a ordem dominan-
-
Enigma do consumidor esfinge. Suas fabrica ções se disse - te: faziam -na funcionar em outro registro. Permaneciam outros,
minam na rede da produção televisiva , urban ística e comercial.
Sã o tanto menos visíveis como as redes do enquadramento se
no interior do sistema que assimilavam e que os assimilava
fazem mais apertadas , á geis e totalitá rias. Proteiformes então, -
exteriormente. Modificavam-no sem deixá lo. Procedimentos de
consumo conservavam a sua diferen ça no pr óprio espaço
ou cor de muralha , elas desaparecem nas organiza ções coloni-
organizado pelo ocupante.
zadoras cujos produtos não deixam lugar para os consumidores
marcarem sua atividade. Uma criança ainda rabisca e suja o Exemplo extremo ? Nã o, mesmo que a resistência dos povos
livro escolar; mesmo que receba um castigo por esse crime, a ind ígenas tivesse como base uma mem ó ria tatuada pela opres-
crian ça ganha um espa ço, assina a í sua existê ncia de autor . O sã o, um passado inscrito no corpo.5 Em grau menor, o mesmo
telespectador não escreve coisa alguma na tela da TV. Ele é processo se encontra no uso que os meios “ populares” fazem
afastado do produto, excluido da manifestação. Perde seus das culturas difundidas pelas “elites” produtoras de linguagem.
direitos de autor, para se tornar, ao que parece, um puro Os conhecimentos e as simbólicas impostos são o objeto de
receptor, o espelho de um ator multiforme e narcísico. No manipula ções pelos praticantes que n ã o seus fabricantes. A
limite, seria ele a imagem de aparelhos que não mais precisam linguagem produzida por uma categoria social dispõe do poder
dele para se produzir, a reprodu ção de uma “ m áquina celiba
3
- de estender suas conquistas às vastas regi õ es do seu meio
ambiente, “ desertos " onde parece n ão haver nada de tão
tá ria ” .
Na realidade, diante de uma produção racionalizada, ex- articulado, mas se vê prisioneira nas armadilhas de sua assimi-
-
pansionista , centralizada , espetacular e barulhenta , posta se lação por um maquis de procedimentos que suas pró prias
vitó rias fazem invis ível ao ocupante. Por espetacular que seja,
uma produ çã o de tipo totalmente diverso, qualificada como
“ consumo", que tem como caracter ística suas ast ú cias, seu
o seu privilé gio corre o risco de ser apenas aparente, caso sirva
esfarelamento em conformidade com as ocasiões, suas “ pirata- apenas de quadro para as prá ticas teimosas, astuciosas, cotidia
nas que o utilizam . Aquilo que se chama de “vulgarização ” ou
-
rias”, sua clandestinidade, seu murm ú rio incansável, em suma,
uma quase-invisibilidade, pois ela quase n ão se faz notar por “ degradação” de uma cultura seria entã o um aspecto, caricatu -
produtos pr ó prios (onde teria o seu lugar ? ) mas por uma arte rado e parcial, da revanche que as tá ticas utilizadoras tomam
de utilizar aqueles que lhe são impostos. do poder dominador da produ ção. Seja como for, o consumidor
não poderia ser identificado ou qualificado conforme os produ-
J á faz muito tempo que se vê m estudando em outras tos jornalísticos ou comerciais que assimila: entre ele ( que deles
sociedades as inversões discretas e no entanto fundamentais se serve ) e esses produtos ( ind ícios da “ ordem ” que lhe é
ali provocadas pelo consumo. Assim o espetacular sucesso da imposta), existe o distanciamento mais ou menos grande do
coloniza çã o espanhola no seio das etnias ind ígenas foi alterado uso que faz deles.
pelo uso que dela se fazia: mesmo subjugados, ou até consen-
tindo, muitas vezes esses ind í genas usavam as leis, as prá ticas Deve se portanto analisar o uso por si mesmo. Não faltam
ou as representaçõ es que lhes eram impostas pela força ou pela modelos, sobretudo no que se refere à l íngua , terreno privile-
giado para se encontrar as formalidades pró prias a essas
sedu ção, para outros fins que n ã o os dos conquistadores.
Faziam com elas outras coisas: subvertiam- nas a partir de -
pr á ticas. Gilbert Ryle, servindo se de uma distin çã o saussuriana
entre a “ l í ngua" ( um sistema ) e a " palavra ” ( um ato ), comparava
dentro - não rejeitando-as ou transformando-as ( isto acontecia
-
també m ), mas por cem maneiras de empregá las a serviço de a primeira a um capital e a segunda às operações que ele
regras , costumes ou convicções estranhas à colonização da permite de um lado um estoque, do outro, negócios e usos.6

94 95
No caso do consumo, poder-se-ia quase afirmar que a produ çã o particulares e de um fazer ( produzir l íngua e modificar a
fornece o capital e os usuá rios, como locatá rios, adquirem o dinâ mica de uma relação ), o ato de falar é um uso da l íngua e
direito de efetuar opera ções sobre este fundo sem serem os -
uma operação sobre ela. Pode se tentar aplicar o seu modelo a
seus proprietá rios. Mas a compara ção vale apenas para a muitas operações n ã o lingu ísticas, tomando como hipó tese que
relaçã o entre um saber da l íngua e atos de palavra ( speech todos esses usos dependem do consumo.
acts ). A este título apenas, surge toda uma sé rie de questões e É necessá rio ainda precisar a natureza dessas operações
categorias que permitiram, sobretudo a partir de Bar Hillel , - por outro prisma, n ão mais a título da relação que mantê m com
abrir no estudo da linguagem ( semiosis ou semiotic ) uma um sistema ou uma ordem, mas enquanto h á relações de forças
secção particular ( chamada pragmatics ) , consagrada ao uso ou definindo as redes onde se inscrevem e delimitam as circuns-
às indexical expressions , isto é, “as palavras e às frases cuja tâ ncias de que podem aproveitar-se. Sendo assim, de uma
refer ê ncia n ão pode ser determinada sem conhecer o contexto refer ê ncia lingu ística é preciso passar a uma referência pole-
do uso ” .’ -
mológica. Trata se de combates ou de jogos entre o forte e o
Antes de voltar ulteriormente a essas pesquisas que escla - fraco, e das “ações” que o fraco pode empreender.
recem toda uma regi ão das prá ticas cotidianas ( o uso da l íngua ),
basta observar que elas se ap ó iam numa problemá tica do Produtores desconhecidos,
enunciado.* Os “contextos de uso ” ( contexts of use ), colocando Estraté gias e táticas poetas de seus negócios, in
o ato na sua relaçã o com as circunstâ ncias, remetem aos traços ventores de trilhas nas selvas
que especificam o ato de falar ( ou prá tica da língua ) e sã o efeitos da racionalidade funcionalis-
dele. Dessas caracter ísticas o enunciado fornece um modelo, ta, os consumidores produzem uma coisa que se assemelha às
10
mas elas vã o se encontrar na relaçã o que outras pr á ticas “ linhas de erre ” de que fala Deligny. Traçam “ trajetó rias
11
( caminhar, morar etc. ) mant ê m com sistemas não lingu ísticos. indeterminadas”, aparentemente desprovidas de sentido por-
O enunciado, com efeito, supõ e: 1. uma efetuação do sistema que n ã o sã o coerentes com o espaço constru ído, escrito e
lingu ístico por um falar que atua as suas possibilidades ( a pré-fabricado onde se movimentam . São frases imprevisíveis
l í ngua só se torna real no ato de falar ); 2. uma apropriação da num lugar ordenado pelas técnicas organizadoras de sistemas.
l í ngua pelo locutor que a fala; 3, a implantaçã o de um interlo - Embora tenham como material os vocabulários das l ínguas
cutor ( real ou fict ício ) e por conseguinte a constituiçã o de um recebidas (o vocabulá rio da TV, o do jornal, o do supermercado
contrato relacional ou de uma alocu ção (a pessoa fala a ou das disposi ções urban ísticas ), embora fiquem enquadradas
algu é m ); 4. a instauraçã o de um presente pelo ato do “ eu " que por sintaxes prescritas ( modos temporais dos horá rios, organi-
fala , e ao mesmo tempo, pois " o presente é propriamente a fonte zações paradigm á ticas dos lugares etc. ), essas “ trilhas” conti-
do tempo ” , a organiza çã o de uma temporalidade ( o presente nuam heterogé neas aos sistemas onde se infiltram e onde
cria um antes e um depois ) e a existê ncia de um “ agora ” que é esbo çam as ast ú cias de interesses e de desejos diferentes. Elas
presen ça no mundo.9 circulam, vã o e v ê m , saem da linha e derivam num relevo
imposto, ondulações espumantes de um mar que se insinua
Esses elementos ( realizar, apropriar-se, inserir-se numa
rede relacional , situar-se no tempo ) fazem do enunciado, e entre os rochedos e os d édalos de uma ordem estabelecida .
secundariamente do uso, um nó de circunstâ ncias, uma nodo- Dessa á gua regulada em princ í pio pelas redes institucio-
sidade insepará vel do “ contexto ”, do qual abstratamente se nais que de fato ela vai aos poucos erodindo e deslocando, as
distingue . Indissoci á vel do instante presente, de circunstâ ncias estat ísticas n ão conhecem quase nada. N ã o se trata, com efeito,
de um l íquido, circulando nos dispositivos do só lido, mas de

96 97
movimentos diferentes, utilizando os elementos do terreno. ( isto se l ê nos dois sentidos, uma vez projetado num papel )
Ora, as estatísticas se contentam em classificar, calcular e substitui uma prá tica indissociá vel de momentos singulares e
tabular esses elementos - unidades “ lé xicas ” , palavras publici - de “ ocasi ões”, portanto irreversível ( não se pode remontar ao
tempo primordial, nã o se pode voltar atrás e aproveitar uma
tá rias, imagens televisivas, produtos manufaturados, lugares
-
constru ídos etc. e o fazem com categorias e segundo taxino- -
ocasi ão perdida). Tem se então um traço no lugar dos atos, uma
mias conformes às da produ çã o industrial ou administrativa. rel íquia no lugar das performances: esta é apenas o seu resto,
Por isso elas s ó captam o material utilizado pelas práticas de o sinal de seu apagamento. Essa projeçã o postula que é possível
-
consumo material que é evidentemente o que é a todos
imposto pela produ çã o - e n ão a formalidade pró pria dessas
tomar um ( este traçado) pelo outro ( operações articuladas em
cima de ocasiões. É um “ quiproquó” ( um no lugar do outro),
prá ticas, seu “ movimento” sub- reptício e astucioso, isto é, a t ípico das reduções necessariamente efetuadas, para ter eficá -
atividade de “ fazer com ”. A força desses cá lculos se deve à cia , por uma gestã o funcionalista do espa ço. É preciso recorrer
capacidade de dividir , mas essa capacidade ana-l ítica suprime a outro modelo.
a possibilidade de representar as trajetó rias tá ticas que, segun- Uma distin çã o entre estratégias e táticas parece apresentar
do crité rios pr ó prios, selecionam fragmentos tomados nos um esquema inicial mais adequado. Chamo de estratégia o
vastos conjuntos da produção para a partir deles compor cálculo ( ou a manipulação ) das rela ções de for ças que se torna
-
hist ó rias originais. Contabiliza se aquilo que é usado , não as possível a partir do momento em que um sujeito de querer e
-
maneiras de utilizá lo. Paradoxalmente, estas se tornam invis í - poder ( uma empresa, um exé rcito, uma cidade, uma instituição
veis no universo da codifica ção e da transparência generaliza - científica ) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar
das. Dessas á guas que se vão insinuando em toda a parte só se suscetível de ser circunscrito como algo pró prio e ser a base
tornam perceptíveis os efeitos ( a quantidade e a localização dos de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de
produtos consumidos). Elas circulam sem ser vistas, perceptí - alvos ou ameaças ( os clientes ou os concorrentes, os inimigos,
veis somente por causa dos objetos que movimentam e fazem o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa
desaparecer , As prá ticas do consumo são os fantasmas da etc.). Como na administração de empresas, toda racionaliza ção
sociedade que leva o seu nome. Como os “ espíritos" antigos, “ estraté gica ” procura em primeiro lugar distinguir de um
constituem o postulado multiforme e oculto da atividade pro - “ ambiente ” um “ pró prio", isto é, o iugar do poder e do querer
dutora. pró prios. Cesto cartesiano, quem sabe: circunscrever um pró-
Para dar conta dessas prá ticas, recorri à categoria de prio num mundo enfeiti çado pelos poderes invisíveis do Outro.
"trajet ó ria" 12 Ela deveria evocar um movimento temporal no
. Gesto da modernidade científica, pol ítica ou militar.
espaço, isto é, a unidade de uma sucessão diacr ô nica de pontos A instauração de um corte entre um lugar apropriado e seu
percorridos, e n ã o a figura que esses pontos formam num lugar outro é acompanhada de efeitos considerá veis, alguns dos
supostamente sincrô n í co ou acrô nico. De fato, essa “ represen- quais devem ser apontados imediatamente:
ta çã o ” é insuficiente , pois precisamente a trajetó ria se desenha , 1. O “ pró prio” é uma vitória do lugar sobre o tempo.
e o tempo ou o movimento se acha assim reduzido a uma linha Permite capitalizar vantagens conquistadas, preparar expan-
total í zá vel pela vista , leg ível num instante: projeta-se num plano sões futuras e obter assim para si uma independê ncia em
o percurso de um pedestre caminhando na cidade. Por mais rela çã o à variabilidade das circunstâ ncias. Ê um dom ínio do
ú til que seja essa '‘ redu ção", metamorfoseia a articula ção tempo peia funda çã o de um lugar autó nomo.
temporal dos lugares em uma sequ ê ncia espacial de pontos.
Um gr áfico toma o lugar de uma opera çã o . Um sinal reversível

98 99
2. É també m um dom í nio dos lugares pela vista. A divisã o das por um instante. Tem que utilizar, vigilante, as falhas que
do espa ço permite uma prática panó ptica a partir de um lugar as conjunturas particulares vão abrindo na vigilâ ncia do poder
de onde a vista transforma as forças estranhas em objetos que proprietá rio. A í vai ca çar. Cria ali surpresas. Consegue estar
se podem observar e medir, controlar portanto e “ incluir ” na onde ninguém espera. É ast ú cia.
sua visã o. 13 Ver ( longe ) será igualmente prever, antecipar-se ao Em suma, a tá tica é a arte do fraco. Clausewitz o observava
tempo pela leitura de um espaço. a propósito da astúcia , em seu tratado Da guerra. Quanto maior
3. Seria leg ítimo definir o poder do saber por essa capaci - um poder, tanto menos pode permitir-se mobilizar uma parte
dade de transformar as incertezas da história em espaços de seus meios para produzir efeitos de ast ú cia: é com efeito
legíveis. Mas é mais exato reconhecer nessas “estraté gias” um perigoso usar efetivos consider á veis para aparê ncias, enquanto
tipo especí fico de saber, aquele que sustenta e determina o esse gê nero de “ demonstrações ” é geralmente in ú til e “a
poder de conquistar para si um lugar pró prio. De modo seriedade da amarga necessidade torna a a ção direta tão
semelhante, as estratégias militares ou cient íficas sempre foram urgente que não deixa lugar a esse jogo ”. As forças sã o
inauguradas graças à constitui ção de campos “ próprios ” (cida - distribu ídas, n ã o se pode correr o risco de fingir com elas. 0
poder se acha amarrado à sua visibilidade. Ao contrá rio, a
des autónomas, instituições " neutras" ou “ independentes ”,
laborató rios de pesquisas “ desinteressadas ” etc.). Noutras pa- ast ú cia é possível ao fraco, e muitas vezes apenas ela, como
lavras , um poder é a preliminar deste saber , e não apenas o “ último recurso”: “ Quanto mais fracas as forças submetidas à
seu efeito ou seu atributo. Permite e comanda as suas caracte - direção estratégica, tanto mais esta estará sujeita à ast úcia ”.15
rísticas. Ele se produz a í. Traduzindo: tanto mais se torna tá tica.
Com respeito às estraté gias (cujas figuras sucessivas aba- Clausewitz compara ainda a ast úcia à palavra espirituosa:
lam esse esquema demasiadamente formal e cujo laço com uma “ Assim como a palavra espirituosa é uma espécie de prestidigi-
configuração histórica particular da racionalidade deveria tam- ta ção em face das idéias e das concepções, a ast úcia é uma
bém ser precisada ), chamo de tática a ação calculada que é prestidigitação relativa a atos”. Isto sugere o modo pelo qual
determinada pela aus ê ncia de um pr óprio. Então nenhuma a tá tica , verdadeira prestidigita ção, se introduz por surpresa
delimita ção de fora lhe fornece a condi ção de autonomia. A numa ordem . A arte de “ dar um golpe ” é o senso da ocasião.
tá tica não tem por lugar senão o do outro. E por isso deve jogar Mediante procedimentos que Freud precisa a respeito do
com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de chiste,17 combina elementos audaciosamente reunidos para
uma força estranha. Nã o tem meios para se manter em si insinuar o ins íght de outra coisa na linguagem de um lugar e
mesma, à distâ ncia, numa posição recuada, de previsão e de para atingir o destinatá rio. Raios, rel â mpagos, fendas e achados
convocação pr ó pria: a tá tica é movimento “ dentro do campo no reticulado de um sistema , as maneiras de fazer dos consu-
14
de visão do inimigo” , como dizia von B ú llow, e no espaço por midores sã o os equivalentes prá ticos dos chistes ,
ele controlado. Ela nã o tem portanto a possibilidade de dar a Sem lugar pr óprio, sem visã o globalizante, cega e perspicaz
si mesma um projeto global nem de totalizar o adversá rio num como se fica no corpo a corpo sem distâ ncia, comandada pelos
espa ço distinto, vis ível e objetiv á vel. Ela opera golpe por golpe, acasos do tempo, a tática é determinada pela ausê ncia de poder
lance por lance. Aproveita as “ ocasi ões” e delas depende, sem assim como a estraté gia é organizada pelo postulado de um
base para estocar benef ícios, aumentar a propriedade e prever
-
sa í das. O que ela ganha n ã o se conserva. Este n ão lugar lhe
poder. Deste ponto de vista , a sua dial é tica poderá ser ilumina-
da pela antiga arte da sof ística. Autor de um grande sistema
permite sem d ú vida mobilidade, mas numa docilidade aos
azares do tempo, para captar no v ôo as possibilidades ofereci-
“ estratégico", Aristó teles se interessava muito pelos procedi -
mentos desse inimigo que pervertia , pensava ele, a ordem da

100 101
verdade. Desse adversá rio proteiforme, r á pido, surpreendente, Retóricas das práticas,
Diversas referê ncias teóri-
ele cita uma f órmula que, precisando a força da sof ística, pode cas permitirão caracterizar
enfim definir a tá tica , tal como a compreendo aqui: trata -se - astúcias milenares melhor as tá ticas ou a po-
18
-
dizia Corax de “ fortificar ao máximo a posição do mais iemologia do “fraco ”. É o
fraco” . Em sua densidade paradoxal, esta palavra destaca a caso, em particular, das “figuras ” e das “ metáforas ” analisadas
relação de forças que está no princípio de uma criatividade pela retórica. Freud aliás já as tinha individuado e utilizado em
intelectual tão tenaz como sutil, incansável , mobilizada à espera seus estudos sobre o chiste e sobre as formas assumidas, no
de qualquer ocasião, espalhada nos terrenos da ordem domi - campo de uma ordem , pelos retornos do eliminado: economia
nante, estranha à s regras próprias da racionalidade e que esta e condensa ções verbais, duplos sentidos e contra -sensos, des -
impõe com base no direito adquirido de um pró prio. As locamentos e alitera ções, empregos m ú ltiplos do mesmo mate-
estratégias são portanto ações que, graças ao postulado de um rial etc.19 Não é de se ficar espantado com essas homologias
lugar de poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares entre as astúcias práticas e os movimentos retóricos. Com
teó ricos (sistemas e discursos totalizantes ), capazes de articular relação às legalidades da sintaxe e do sentido " pró prio”, isto é,
um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem. com rela çã o à definiçã o geral de um "pró prio” distinto daquilo
-
Elas combinam esses tr ês tipos de lugar e visam dominá los uns que n ão é, os bons e os maus torneios da retórica jogam no
pelos outros. Privilegiam portanto as rela ções espaciais. Ao terreno que foi assim posto de lado. São manipulações da
menos procuram elas reduzir a esse tipo as relações temporais l íngua relativas a ocasiões e destinadas a seduzir, captar ou
*

inverter a posição lingu ística do destinatá rio.^ Enquanto a


f|

pela atribuiçã o anal í tica de um lugar pró prio a cada elemento


particular e pela organizaçã o combinatória dos movimentos gramática vigia pela “ propriedade ” dos termos , as alterações
espec íficos a unidades ou a conjuntos de unidades. 0 modelo -
retó ricas (desvios metaf ó ricos, condensa ções elípticas, miniatu
para isso foi antes o militar que o “científico”. As tá ticas sã o rizações meton ímicas etc.) indicam o uso da l í ngua por locuto -
procedimentos que valem pela pertinê ncia que d ã o ao tempo res nas situações particulares de combates lingu ísticos rituais
- às circunstâ ncias que o instante preciso de uma intervençã o ou efetivos. Sã o indicadores de consumo ou de jogos de forças.
transforma em situa ção favor á vel, à rapidez de movimentos que Estão na depend ê ncia de uma problemá tica do enunciado. Por
mudam a organiza çã o do espa ço, às relações entre momentos isso, embora (ou por serem ) exclu ídas em princípio do discurso
sucessivos de um “ golpe ”, aos cruzamentos possíveis de dura - científico, essas “ maneiras de falar" fornecem à aná lise “ manei-
.
ções e ritmos heterogé neos etc Sob este aspecto, a diferença ras de fazer ” um repert ó rio de modelos e hipóteses. Afinal de
entre umas e outras remete a duas opções históricas em maté ria contas, são apenas variantes, numa semi ótica geral das tá ticas.
de a çã o e segurança ( opções que respondem ali ás mais a Certamente, para elaborar essa semiótica, seria necessá rio
coerções que a possibilidades): as estratégias apontam para a percorrer antes de pensar e agir diferentes daquela que se
resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto fundou graças à articula ção de uma razã o sobre a delimita ção
do tempo; as tá ticas apontam para uma há bil utilização do de um pró prio: dos sessenta e quatro hexagramas do I
tempo , das ocasi ões que apresenta e també m dos jogos que Ching chinês" ou da rn étis grega até a hila á rabe , indicam -
introduz nas funda ções de um poder . Ainda que os métodos se outras “ ló gicas". Meu trabalho n ão visa diretamente a
praticados pela arte da guerra cotidiana jamais se apresentem constitui çã o de uma semi ótica. Consiste em sugerir algumas
sob uma forma tã o n í tida, nem por isso é menos certo que maneiras de pensar as prá ticas cotidianas dos consumidores,
apostas feitas no lugar ou no tempo distinguem as maneiras de supondo, no ponto de partida , que sã o do tipo tá tico. Habitar,
agir . circular, falar, ler, ir às compras ou cozinhar, todas essas

102 103
nianos de tá ticas invisíveis e sem -n ú mero. Haveria uma prolife-
atividades parecem corresponder às caracter ísticas das astú cias raçã o de manipulações aleat ó rias e incontrol á ve ís, dentro de
e das surpresas tá ticas: gestos há beis do "fraco” na ordem
estabelecida pelo “ forte ” , arte de dar golpes no campo do outro,
-
uma imensa rede de coerções e seguranças sócio econ ômicas:
mir íades de movimentos quase invisíveis, operando na textura
ast ú cia de caçadores, mobilidades nas manobras, opera ções sempre mais fina de um lugar homogé neo, contínuo e pr ó prio
polim órficas, achados alegres, poé ticos e bélicos. a todos. Seria já o presente ou ainda o futuro da grande cidade ?
Talvez respondam a uma arte imemorial, que não apenas Deixando de lado a arqueologia multimilenar das ast úcias
atravessou as institui ções de ordens sócio- pol íticas sucessivas, bem como a possibilidade de seu futuro formigueiro, o estudo
mas remonta bem mais acima que nossas hist órias e liga com de algumas tá ticas cotidianas presentes n ã o deve no entanto
estranhas solidariedades o que fica aquém das fronteiras da esquecer o horizonte de onde vê m e, no outro extremo, nem o
humanidade. Essas prá ticas apresentam com efeito curiosas horizonte para onde poderiam ir. A evocação desses remotos
analogias, e como imemoriais inteligê ncias, com as simulações, passados ou futuros permite ao menos resistir aos efeitos da
os golpes e manobras que certos peixes ou certas plantas an á lise , fundamental mas muitas vezes exclusiva e obsessional
executam com prodigiosa virtuosidade. Os procedimentos des- que procura descrever as institui çõ es e os mecanismos da
ta arte se encontram nas regi ões remotas do ser vivo, como se repressã o. O privil é gio detido pela problemá tica da repressã o
vencessem nã o apenas as divisões estratégicas das institui ções no terreno das pesquisas n ã o surpreende: as instituições cien-
histó ricas mas també m o corte instaurado pela pr ó pria institui- t íficas pertencem ao sistema que estudam ; examinando-o, elas
çã o da consciê ncia. Garantem continuidades formais e a per- se conformam ao gê nero bem conhecido da histó ria da fam ília
manência de uma mem ó ria sem linguagem, do fundo dos mares ( uma ideologia crítica n ã o muda nada ao seu funcionamento,
até as ruas de nossas megal ó poles. pois a crítica cria a apar ê ncia de uma distâ ncia no seio da
Seja como for, na escala da histó ria contemporâ nea, parece perten ça ). Elas até lhe acrescentam o charme inquietante dos
també m que a generaliza çã o e a expansã o da racionalidade diabos ou dos lobisomens cujas hist órias se contam de noite.
tecnocr á tica criaram , entre as malhas do sistema, um esfarela- Mas essa elucida çã o do aparelho por si mesmo tem como
mento e um pulular dessas pr á ticas antigamente reguladas por inconveniente não ver as pr á ticas que lhe s ão heterogéneas e
unidades locais estáveis. Cada vez mais as tá ticas vão saindo que reprime ou acredita reprimir. No entanto, elas tê m alta
de ó rbita. Desancoradas das comunidades tradicionais que lhes probabilidade de sobreviver a esse aparelho também e, em todo
circunscreviam o funcionamento, elas se põem a vagar por toda o caso, fazem també m parte da vida social, tanto mais resisten -
a parte num espaço que se homogene í za e amplia. Os consu - tes quanto mais á geis e ajustadas a mudanças perpé tuas.
midores se tornam migrantes. 0 sistema onde circulam é Escrutando essa realidade fugidia e permanente, tem-se a
demasiadamente amplo para fixá-los em alguma parte, mas impressã o de explorar a noite das sociedades, uma noite mais
-
dema siadamente regulamentado para que possam escapar longa que seus dias, camada obscura onde se distinguem
dele e exilar-se alhures. Sendo assim, o modelo “estratégico” institui ções sucessivas, imensid ã o marítima onde os aparelhos
també m muda . como que perdido no seu sucesso: repousava sócio-econ ó micos e pol í ticos seriam como que insularidades
na defini ção de um " pró prio ” distinto do resto; torna-se o todo. ef é meras.
Seria possível que, aos poucos, esgotasse as suas capacidades A paisagem imagin á ria de uma pesquisa sempre tem algum
transformadoras para constituir somente o espaço ( tã o totali - valor , mesmo que destitu ída de rigor. Restaura aquilo que se
tá rio como o cosmos de tempos idos) onde se ativaria uma indicava um dia sob o ró tulo de "cultura popular", mas para
sociedade de tipo cibern é tico, entregue aos movimentos brow-

105
104
mudar em uma infinidade mó bil de tá ticas aquilo que se
representava como uma força matricial da história. Manté m
portanto presente a estrutura de um imagin á rio social de onde
a questão não cessa de assumir formas diferentes e de surgir
sempre de novo. Previne também contra os efeitos de uma
an álise que, necessariamente, n ã o é capaz de apreender essas
prá ticas a não ser nas extremidades de um aparelho técnico,
onde alteram ou distorcem os seus instrumentos. E assim o
próprio estudo se faz marginal com relação aos fenômenos
1/
estudados. A paisagem que coloca em cena esses fenômenos
em um modo imaginá rio tem portanto o valor de corretivo e
terapia global contra a sua redu ção por um exame lateral.
Assegura ao menos a sua presen ça a tí tulo de fantasmas. Essa SEGUNDA PARTE
volta a uma outra cena lembra assim a relaçã o que a experi ê ncia
dessas prá ticas manté m com aquilo que fica à mostra com uma
aná lise. Testemunha, que só pode ser fantástica e não científica,
da despropor ção entre as tá ticas cotidianas e uma elucida ção
estraté gica. Daquilo que cada um faz o que é que se escreve ? Teorias da arte de fazer
Entre os dois, a imagem , fantasma do corpo experiente e mudo,
preserva a diferença.

106
As prá ticas cotidianas estão na depend ê ncia de um
grande conjunto, dif ícil de delimitar e que, a título provis ó rio,
pode ser designado como o dos procedimentos. São esquemas
de opera ções e manipula ções técnicas. A partir de algumas
análises recentes e fundamentais ( Foucau í t, Bourdieu, Vernant
e Detienne et alii ), é poss ível, senã o defini- los, ao menos
precisar melhor o seu funcionamento em rela çã o ao discurso
( ou à “ ideologia ” , como diz Foucau í t ), ao adquirido ( o habitus
de Bourdieu} e a esta forma do tempo que é a ocasi ã o ( o kairôs
de que falam Vernant e Detienne). Maneiras de balizar uma
tecnicidade de tipo particular e ao mesmo tempo situar o seu
estudo em uma geografia atual da pesquisa.
Situando este ensaio num conjunto mais amplo e num
lugar onde já existe alguma coisa escrita ( malgrado a ficção da
p ágina em branco, sempre escrevemos sobre algo escrito ), não
pretendo esboçar um quadro, necessariamente ilusório, dos
trabalhos teó ricos e descritivos que organizaram a questão ou
a esclarecem de passagem, nem mesmo apenas reconhecer
minhas d ívidas. O que se acha em jogo é o estatuto da aná lise
e sua rela çã o com seu objeto. Como numa oficina ou num
laborató rio, os objetos produzidos por uma pesquisa resultam
de seu aporte, mais ou menos original, no campo onde ela se
tornou possível. Remetem portanto a um “status quaestionis”,
isto é , a uma rede de intercâ mbios profissionais e textuais, à
“ dial é tica ” de um trabalho em curso (se, por “ dialé tica", se quer
designar, como no século XVI , os movimentos de relações entre

109
!
demarches diferentes e um mesmo cen á rio, e nã o o poder
conferido a um lugar particular de totalizar ou “superar ” essas
diferen ças). Vendo as coisas deste ponto de vista, os “ objetos ”
de nossas pesquisas não podem ser destacados do “ com é rcio ”
intelectual e social que organiza as suas distinções e seus
deslocamentos.
Ao “esquecer ” o trabalho coletivo no qual se inscreve, ao
isolar de sua gé nese histó rica o objeto de seu discurso, um
1/
“ autor ” pratica portanto a denega ção de sua situaçã o real. Ele
cria a ficçã o de um lugar pr ó prio. Malgrado as ideologias
contrá rias de que pode ser acompanhado, o ato de isolar a
-
rela ção sujeito objeto ou a rela ção discurso-objeto é a abstração
CAP ÍTULO IV
que gera uma simulação de “ autor ”. Esse ato apaga os traços
-
da pertença de uma pesquisa a uma rede traços que sempre
comprometem, com efeito, os direitos autorais. Camufla as FOUCAULT E BOURDIEU
condi ções de produ ção do discurso e de seu objeto. Esta
genealogia negada deixa lugar ao teatro combinando um simu -
lacro de objeto com um simulacro de autor. Um discurso
manterá portanto uma marca de cientificidade explicitando as
condições e as regras de sua produçã o e, em primeiro lugar, as
rela ções de onde nasce.
Esse rodeio leva novamente à d ívida, mas como a um 1. TECNOLOGIAS DISSEMINADAS: FOUCAULT
elemento que é essencial em todo discurso novo e não mais
como empr éstimo que uma homenagem ou agradecimento De sa ída, se coloca o problema da relação desses procedi-
possa exorcizar. Por isso , mostrando-se l írico ao menos uma mentos com o discurso. Eles não tê m a fixidez repetitiva dos
vez, Panurgo via nisto o sina! de uma solidariedade universal . -
ritos, dos costumes ou dos reflexos saberes que n ão mais ou
Todo lugar “ pr ó prio” é alterado por aquilo que, dos outros, já ainda não se articulam em discursos. Sua mobilidade os ajusta
se acha nele. Por esse fato, é igualmente exclu ída a represen - incessantemente a uma diversidade de objetivos e “ golpes”,
taçã o “ objetiva ” dessas posições pr óximas ou distantes que mas sem que dependam de uma elucida ção verbal. Mas sã o de
denominamos “ influ ências ”. Elas aparecem num texto ( ou na fato autó nomas a este respeito? Tá ticas no discurso podem , já
defini ção de uma pesquisa) pelos efeitos de altera ção e elabo- se viu , ser o ponto de referê ncia formal de táticas sem discurso.
raçã o que ali produziram . Como tampouco as d ívidas nã o se Como també m essas maneiras de pensar investidas em manei-
transformam em objetos. Intercâ mbios, leituras e confrontos -
ras de fazer constituem um caso estranho e maci ço das -
que formam as suas condi ções de possibilidade, cada estudo relações que tais prá ticas mantê m com teorias.
particular é um espelho de cem faces ( neste espaç o os outros No livro onde estuda como é que se organizam os “ proce-
estã o sempre aparecendo ), mas um espelho partido e anamór- dimentos” da “ vigil â ncia " carcer á ria, escolar e m édica no
fico ( os outros a í se fragmentam e se alteram ). come ço do século XIX, Michel Foucault multiplica os sinô ni -

110 111
mos, palavras dançantes , abordagens sucessivas de um impos- conquistou sobre a elabora çã o de um corpo doutrinal. Mas ele
-
sível nome pr ó prio: “ dispositivos” , “ instrumentalizações ” , “ téc
2
n ã o se contenta em separar duas formas de poder. Seguindo o
nicas ” , “ mecanismos ” , “ maquinarias ” etc. A incerteza e a estabelecimento e a multiplica çã o vitoriosa dessa “ instrumen-
constante mobilidade da coisa na linguagem já estã o a indicá - lo. talidade menor ”, procura pô r em evid ê ncia as molas desse
Mas a pr ó pria histó ria que ele conta , a de um grande quiproqu ó, poder opaco, sem proprietá rio, sem lugar privilegiado, sem
postula e estabelece uma dicotomia entre as “ ideologias ” e os superiores nem inferiores, sem atividade repressiva nem dog -
“ procedimentos ”, tra çando as suas evolu çõ es distintas e seus matismo, eficaz de modo quase autónomo por sua capacidade
cruzamentos. Ele analisa com efeito o processo de um quiasmo: tecnológica de distribuir, classificar , analisar e individualizar
o lugar ocupado pelos projetos reformistas do final do século espacialmente o objeto abordado ( enquanto isso, a ideologia
XVIII foi “ colonizado ”, “ vampirizado” pelos procedimentos “ tagarela ” ). Numa sé rie de quadros cl í nicos ( maravilhosamente
disciplinares que organizam desde então o espaço social . Esta “ pan ó pticos", eles també m ), tenta por sua vez denominar e
histó ria policial da troca de corpos teria agradado a Freud. classificar as “ regras gerais”, as “ condi ções de funcionamento ”,
Em Foucault , o drama se desenrola , como sempre, entre as ‘‘ técnicas'’ e os “ procedimentos” , as “ operações” distintas,
duas forças, cuja relaçã o a ast ú cia do tempo inverte. De um os “ mecanismos”, “ princ í pios” e “elementos ” que compõem
lado, a ideologia das Luzes, revolucioná ria em mat é ria de uma “ microf ísica do poder’’.3 Esta galeria de diagramas tem
justi ça penal. Os lluministas querem substituir o “ supl ício ” do como dupla fun ção delimitar uma camada social de prá ticas
Ancien R é gime, ritual sangrento do corpo a corpo que teatra - sem discurso e instaurar um discurso sobre essas prá ticas.
liza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos por Do que então é feito este n ível de pr á ticas decisivas que a
seu valor simbólico, por castigos aplicá veis a todos, em propor
çã o com os delitos, ú teis à sociedade, educadores para os
- aná lise isola ? Por um desvio que caracteriza a estraté gia de
suas pesquisas, Foucault detecta a í o gesto que organizou o
condenados. Com efeito, procedimentos disciplinares lenta - espaço do discurso - nã o mais, como na História da Loucura,
mente aplicados no ex é rcito e na escola vão superando rapida
mente o enorme e complexo aparelho judici á rio elaborado
- o gesto epistemológico e social de confinar um exclu ído para
criar o espa ço que possibilita a ordem de uma razão, mas o
pelas Luzes. Essas té cnicas v ã o se afinando e estendendo sem gesto, pequeno e por toda a parte reproduzido, de delimitar
precisar recorrer a uma ideologia . Mediante um lugar celular meticulosamente um lugar visível para oferecer seus ocupantes
do mesmo tipo para todos ( estudantes, militares, operá rios, a uma observa çã o e a uma “ informa ção ”. Os procedimentos
criminosos ou doentes ), elas aperfeiçoam a visibilidade e o que repetem , amplificam e aperfei çoam este gesto organizaram
reticulado desse espa ço para o transformar num instrumento o discurso que assumiu a forma de ciê ncias humanas. Deste
capaz de disciplinar, vigiando, e de “ tratar ” n ão importa que modo se acha identificado um gesto não discursivo que,
grupo humano. Trata-se de detalhes tecnol ógicos, processos privilegiado por motivos histó ricos e sociais, que se devem
í nfimos e decisivos. Acabam vencendo a teoria: por eles se explicar, se articula nos discursos da cientificidade contempo-
impõe a universaliza çã o de uma pena uniforme, a prisã o, que râ nea .
inverte, a partir de dentro , as institui ções revolucion á rias e Às perspectivas novas que se abrem com esta aná lise"1 - e
instala em toda a parte o “ penitenci á rio” no lugar da justi ça que permitiriam ali ás també m outra teoria do “ estilo" ( o estilo,
penal . esta maneira de andar, gesto n ã o textual , organiza o texto de
Foucault distingue assim dois sistemas heterogé neos. Ele um pensamento ) - é possível acrescentar algumas quest ões
identifica as vantagens que uma tecnologia pol í tica do corpo relativas à nossa pesquisa:

112 113
1. Para empreender uma arqueologia das ciências humanas nante - assim as pesquisas de Serge
5
Moscovici, em particular
as de Pierre Legendre,
( objetivo expl ícito a partir de As palavras e as coisas ) e sobre a organizaçã o urban ística 6ou
,
procurar uma “ matriz comum ”, a saber, uma “ tecnologia do sobre o aparelho jur ídico medieval. Parecem prevalecer duran-
poder” , que estaria no princípio do direito penal {o castigo do te um tempo mais ou menos longo , depois cair na massa
homem ) como ci ê ncia humana ( o conhecimento do homem ), estratificada dos procedimentos, enquanto vão dando lugar a
Foucault é levado a estabelecer uma seleção no conjunto dos outros no papel de “ informar ” um sistema.
procedimentos que formam o tecido da atividade social nos Uma sociedade seria composta de certas prá ticas exorbita-
.
séculos XVIII e XIX Essa opera ção cir ú rgica consiste em das, organizadoras de suas institui ções normativas, e de outras
remontar a história a partir de um sistema contemporâ neo prá ticas, sem -n ú mero, que ficaram como “ menores”, sempre no
-
proliferante - uma tecnologia judiciá ria e científica isolar do entanto presentes, embora nã o organizadoras de um discurso
corpo inteiro a forma ção cancerosa que o invadiu , e explicar e conservando as prim ícias ou os restos de hipóteses (institu-
seu funcionamento atual por sua gé nese no curso dos dois cionais, científicas), diferentes para esta sociedade ou para
sé culos precedentes. De um imenso material historiográ fico outras. É nesta m últipla e silenciosa “ reserva ” de procedimen-
( penal, militar, escolar , m é dico), ela extrai os procedimentos tos que as pr á ticas "consumidoras ” deveriam ser procuradas,
óticos e panó pticos que a í pululam progressivamente, e a í com a dupla característica, detectada por Foucault, de poder,
reconhece os ind ícios, a princípio disseminados, de um apare - segundo modos ora min úsculos, ora majoritá rios, organizar ao
lho cujos elementos se vão precisando, combinando e reprodu- mesmo tempo espa ços e linguagens.
zindo aos poucos em toda a densidade do corpo social. 2 . A formaçã o final (a tecnologia observadora e disciplinar
Esta notá vel “opera ção" historiogr áfica destaca ao mesmo contemporâ nea ), que serve de ponto de partida para a hist ória
tempo duas quest ões que não se devem, no entanto, confundir: regressiva praticada por Foucault, explica a impressionante
de um lado, o papel decisivo dos procedimentos e dispositivos coerê ncia das prá ticas que ele seleciona e examina. Mas será
tecnol ógicos na organiza ção de uma sociedade; de outro lado, que se pode supor que o conjunto dos procedimentos tenha a
o desenvolvimento excepcional de uma categoria particular mesma coerê ncia ? A priori, não. O desenvolvimento excepcio-
desses dispositivos. Deve-se portanto perguntar ainda: ná l, até mesmo canceroso, dos procedimentos panó pticos pa-
a ) Como explicar o desenvolvimento privilegiado da série rece indissociável do papel hist ó rico que lhes foi atribu ído, o
particular que é constitu ída pelos dispositivos panó pticos? de ser uma arma para combater prá ticas heterogéneas e para
-
b ) Qual o estatuto de muitas outras sé ries que, prosseguin controlá-las. A coerê ncia é o efeito de um sucesso particular, e
n ão a característica de todas as prá ticas tecnol ógicas. Sob o
do em seus silenciosos itinerá rios, n ão deram lugar a uma
configuração discursiva nem a uma sistematização tecnológi - monote ísmo aparente a que se poderia comparar o privil é gio
ca ? Poderiam ser consideradas como imensa reserva consti - que garantiram para si mesmos os dispositivos pan ó pticos,
tuindo os esboços ou os traços de desenvolvimentos dife - sobreviveria um ‘' politeísmo’' de práticas disseminadas, domi -
rentes. nadas mas n ã o apagadas pela carreira triunfal de uma entre
Imposs ível, em todo o caso, reduzir os funcionamentos de elas.
uma sociedade a um tipo dominante de procedimentos. Outros 3. Qual é o estatuto de um dispositivo particular quando
dispositivos tecnol ógicos, e seus jogos com a ideologia, foram se transmuda em princípio organizador de uma tecnologia do
já esquadrinhados por estudos recentes que sublinham tam - poder ? Qual é sobre ele o efeito de sua exorbitaçâo? Que nova
bé m , embora em perspectivas diferentes, o seu cará ter determi- rela çã o se estabelece com o conjunto disperso dos procedimen-

114 115
tos, quando um deles se institucionaliza em sistema penitenci á- sempre postulado por aqueles que Foucault elucida, a saber,
rio e cient ífico? O dispositivo assim privilegiado poderia bem um lugar pró prio no qual possa funcionar a maquinaria
perder a eficá cia que, segundo Foucault, obtinha de seus panó ptica. Essas técnicas, també m operató rias, mas inicialmen -
mudos e min ú sculos avan ços técnicos. Saindo da camada te privadas daquilo que fez a for ça das outras, são as “ tá ticas "
escura onde Foucault coloca as maquinarias determinantes de a cujo respeito já esbocei a hipó tese que forneciam um sinal
uma sociedade, ele estaria na posi ção das instituições lentamen- formal às prá ticas ordin á rias do consumo.
te “colonizadas ” por procedimentos ainda silenciosos. Talvez
com efeito (esta é pelo menos uma das hipó teses deste ensaio)
o sistema da disciplina e da vigil â ncia , formado no século XIX 2. A “DOUTA IGNORÂNCIA”: BOURDIEU
a partir de procedimentos anteriores, esteja sendo, ele mesmo,
“vampirizado ” por outros procedimentos. Nossas “ tá ticas” parece que não podem ser analisadas a
4. Pode-se ir mais longe? O próprio fato, em consequ ê ncia
não ser enveredando pelo desvio de uma outra sociedade: a
de sua expansã o, de os dispositivos da vigilâ ncia se tornarem França do Ancien Ré gime ou do sé culo XIX, em Foucault; a
Kab ília, ou o Beá rn , em Bourdieu; a Antiguidade Grega, em
o objeto de uma elucida ção e portanto fazerem parte da
linguagem das Luzes, nã o seria o sinal de que cessam de Vernant e Detienne etc. Elas voltam até nós, aliás, como se fosse
necessá ria uma outra cena para que, marginalizadas pela
determinar as instituições discursivas? Efeito de dispositivos
racionalidade “ ocidental ”, encontrem um espa ço de visibilidade
organizadores, o discurso designaria por aqueles que pode
abordar aqueles que não tê m mais esse papel. Seria entã o
e elucidação. Outras regiões nos fornecem aquilo que a nossa
cultura excluiu de seu discurso. Mas, precisamente, náo foram
necessá rio perguntar por que outro tipo de dispositivos ele é
definidas por aquilo que n ós eliminá vamos ou perd íamos?
-
articulado sem poder tom á lo como objeto. A menos que um
Como em Tristes Tró picos,' nossos viajantes vã o para longe e
discurso ( o de Vigiar e punir? ) , analisando as práticas de que
ele mesmo depende, supere assim a divisão, estabelecida por
descobrem ali aquilo cuja presen ça entre n ós se tornou incog -
noscível. Essas astú cias tá ticas e retóricas, condenadas à ilegi-
Foucault, entre as “ ideologias” e os “ procedimentos”. timidade pela fam ília cientí fica da qual Freud por longo tempo
Essas perguntas, que no momento só poderiam receber tentou ser o filho adotivo, ele também as vai novamente achar
respostas temer á rias, indicam ao menos as transformações que pela inven çã o e a exploraçã o de uma terra incógnita, o incons-
Foucault introduziu na an á lise dos procedimentos e as pers- ciente: mas ele as acha sem d ú vida em uma região mais antiga
pectivas que se abrem depois de seu estudo. Mostrando, num
caso, a heterogeneidade e as relações equ ívocas dos dispositi-
-
e mais pr óxima de uma estranheza judaica por muito tempo
recusada , que remonta com ele no discurso científico, mas
vos e das ideologias, ele constituiu em objeto histórico abord á-
vel esta regiã o onde procedimentos tecnoló gicos tê m efeitos de
disfarçada em sonhos e em lapsos ou atos falhos. O freudismo
seria uma combina çã o entre as estratégias legí timas, filhas da
poder específicos, obedecem a funcionamentos lógicos pró
prios e podem produzir uma alteraçã o fundamental nas insti-
- Aufklãrung e os “ jeitos ” que procedem de mais longe sob o
manto do inconsciente.
tui ções da ordem e do saber . Resta ainda perguntar o que é
que acontece com outros procedimentos, igualmente infinite- Quea Kab ília seja, em Bourdieu , o
simais. que n ão foram “ privilegiados" pela histó ria , mas nem Duas metades cavalo de Tr óia de uma “ teoria da
por isso deixam de exercer uma atividade inumerá vel entre as prá tica "; que os três textos que lhe
malhas das tecnologias institu ídas. Este em particular é o caso são consagrados ( os mais belos já
dos procedimentos que n ão dispõem do elemento preliminar, escritos por Bourdieu , sobretudo “ A casa ou o mundo às

116 117
avessas" ) sirvam de vanguarda plural a um longo discurso dificilmente se pode situar. Dependerá dos confrontos interdis-
epistemol ógico; que à maneira de poemas , esses " tr ê s estudos ciplinares outrora preconizados por Bourdieu e que , ultrapas-
de etnologia kabila ” induzam uma teoria ( uma espé cie de sando a etapa dos simples intercâ mbios de “dados", visam uma
comentá rio em prosa ) e lhe sirvam como um fundo indefinida
mente citá vel em maravilhosos clarões; que no final de contas,
- explicitação recí proca dos pressupostos pró prios de cada espe-
12
cialidade ? Esses confrontos buscam uma m ú tua elucidação
no momento em que Bourdieu publica os seus três textos epistemol ógica: procuram trazer os seus alicerces implícitos à
"antigos", o seu lugar referencial e poé tico fique apagado no luz que é a ambi ção e o mito do saber. Mas talvez seja diferente
tí tulo ( que volta no comentá rio: uma teoria ) e que, disseminado o que está aqui em jogo e remeta àquilo que de diferente faz
em efeitos que produz no discurso autoritativo, este originá rio intervir o gesto pelo qual uma disciplina se volta para o
kabila desapareça també m aos poucos, sol perdido pela paisa - noturno que a cerca e a precede - não para eliminá lo, mas -
gem especulativa que ainda ilumina: esses tra ç os já caracteri
zam uma posição da prá tica na teoria.8
- porque é ineliminá vel e determinante? Haveria teoria quando
uma ciência tentasse pensar a sua relação a essa exterioridade
e nã o se contentasse em corrigir suas regras de produção ou
N ã o se trata de acidente. Os trabalhos que, em 1972 e em
determinar seus limites de validade. Seria o caminho tomado
seguida , t ê m como objeto “ o sentido pr á tico"9, organizam -se
da mesma maneira, exceto “ Futuro de classe e causalidade do
pelo discurso de Bourdieu? Em todo o caso, é fora das frontei -
ras da disciplina que as prá ticas formam a realidade opaca de
prová vel ".10 Com uma variante poré m: em Kab ília , o estudo
onde pode nascer uma questão teó rica.
sobre “ as estrat é gias matrimoniais” (que aborda justamente a
economia geneal ógica ) substitui a referê ncia bearnesa.11 Dois Seus “ estudos etnológicos” tê m um estilo pró prio. Seria o
violino de Ingres do sociólogo mas, como todo violino de
lugares referenciais portanto. Será possível dizer qual, o bear
nès ou o kabila, é o duplo do outro? Eles representam duas
- Ingres, um jogo mais sério que a profissã o. Esses trechos são
“ familiaridades ” controladas - e frequentadas - uma pelo executados com rara precisã o. Jamais Bourdieu se mostra tão
afastamento do solo natal, outra pela estranheza da diferença minucioso, perspicaz, virtuose. Seus textos têm mesmo algo de
-
cultural. Parece no entanto que o béarn , in fans como toda estético, na medida em que um “fragmento” , uma forma parti -
origem , teve que encontrar primeiro o duplo de uma cena cular e “ isolada”,13 se torna a figura de uma relação global ( e
não geral ) da disciplina com uma realidade ao mesmo tempo
kabila ( tão pró xima da terra natal segundo a aná lise de Bour - estranha e decisiva, primitiva. Este fragmento de sociedade e
dieu ) para ser diz ível. Assim “ objetivá vel ” fornece o suporte
real ( e legendá rio: onde estã o os bearneses de antanho ? ), para de aná lise é prime í ramente a casa que é, sabe-se bem, a
introduzir nas ci ê ncias humanas o habitus, que é a marca referê ncia de toda metá fora .14 Seria necessá rio dizer: uma casa.
pessoal de Bourdieu sobre a teoria. Entã o a particularidade da Pelas prá ticas que articulam o seu espa ço interior, ela inverte
experi ê ncia origin á ria se perde em seu poder de reorganizar o as estraté gias do espa ço p ú blico e organiza silenciosamente a
linguagem ( um l éxico, prové rbios etc.) .15 Inversão da ordem
discurso geral.
p ú blica e gera ção de discurso: estes dois tra ços fazem també m
Dividida em duas metades, uma das quais permite a outra, da casa kabilina a inversã o da escola francesa , objeto onde
L ' Esquisse d'une théorie de la pratique ( Esboço de uma teoria Bourdieu, que fez dela a sua especialidade, só descobre “ repro16-
da pr á tica ) é em primeiro lugar uma prá tica da interdisciplina- du çã o ” das hierarquias sociais e repetição de suas ideologias.
ridade . Metáfora , portanto: no sentido em que existe uma Com rela ção à sociedade estudada pela sociologia, a habita çã o
passagem de um gê nero para outro: da etnologia para a situada lá é portanto, em sua singularidade, um lugar contr á rio
sociologia . Na verdade, nã o é tã o simples assim. Este livro e determinante. Seu estudo é mesmo considerado por seu autor

118 119
-
como ilegal do ponto de vista da normatí vidade sócio econ ó mi17
ca da disciplina: joga demasiadamente com a gama simbó lica.
- heterogé neas. O parentesco, o espaço e o tempo não são
portanto os mesmos num caso ou no outro.
É, em suma , um lapso. A " teoria” vai eliminar a distâ ncia entre
{Eu gostaria de acrescentar que essa diferença se situa na
essas legalidades da sociologia e as particularidades etnol ógi-
cas. A racionalidade de um campo científico e as pr á ticas que fronteira de duas ast ú cias. Com seus quadros sinté ticos, o
vão aparecendo fora do campo vã o ser rearticuladas. O Esboço cientista esconde a opera çã o de afastamento e de poder que os
de uma teoria... ( e os artigos posteriores) efetua com efeito a possibilita. Por seu lado, fornecendo os “ dados ” solicitados
uni ã o desses dois elementos. Manobra delicada, que consiste pelos pesquisadores, os praticantes calam necessariamente a
em encaixar a exceção "etnol ó gica ” num v á cuo do sistema diferen ça pr á tica criada entre eles pelas operações que delas se
sociol ógico. Para acompanhar esta operaçã o, é preciso consi- servem ( ou não ), e assim colaboram na produção dos quadros
derar mais de perto o trabalho da obra : de um lado, a an á lise gerais que escondem ao observador as suas táticas. O saber das
dessas pr á ticas particulares, de outro, o papel que lhes é prá ticas seria o efeito dessa dupla ast ú cia).
atribu ído na constru çã o de uma ‘' teoria ". 2. A "estratégia ” ( por exemplo, para casar um filho ) equi-
vale a " um lance numa partida de cartas". Ela depende da
Designadas como “ estraté gias ” , as " qualidade do jogo", ou seja, ao mesmo tempo da m ão ( ter um
prá ticas estudadas por Bourdieu di- 20
estraté gias jogo bom ) e da maneira de jogar ( ser um jogador habilidoso).
zem respeito ao sistema de sucessã o O “ lance ” põe em causa de um lado os postulados que condi-
bearn ês, ou à disposição interior da .
cionam um espaço de jogo de outro, as regras que dão à m ã o
casa kabilina, ou à reparti çã o das tarefas e dos per íodos no
calend á rio kabilino etc. A í se acham somente alguns gê neros
um certo valor e ao jogador possibilidades, enfim uma habili
dade para manobrar em conjunturas diferentes onde o capital
-
de uma espé cie que comportaria “ estrat é gias” de fecundidade , inicial se acha empenhado. Este conjunto complexo é um tecido
de sucessão, de educa çã o, de profilaxia , de investimento social de funcionamentos qualitativamente distintos:
ou econ ó mico, de casamento etc., e també m de “ reconversão ” a ) Existem " princí pios implícitos" ou postulados ( por
quando há uma brecha entre as pr á ticas e as situa ções18. Em
exemplo, no casamento bearn ê s, o primado do homem sobre a
cada um dos casos examinados, há diferen ças que permitem -
mulher , ou do filho mais velho sobre os mais novos princí pios
especificar "algumas propriedades ” de “ uma lógica da prá tica ”. que garantem a integridade e a salvaguarda do patrim ó nio em
1 . Os quadros ou “ á rvores ” genealógicas, os cadastros e uma economia dominada pela escassez do dinheiro ), mas o fato
planos geom é tricos residenciais, os ciclos lineares de calend á - de n ão serem definidos ( n ã o explicitados) cria margens de
rios sã o produ ções totalizantes e homogé neas, efeitos da dis- tolerâ ncia e possibilidades de recorrer a um contra o outro.
tâ ncia e da “ neutralização ” observadoras, com rela çã o às b) H á també m “regras explicitas” ( por exemplo, o adot ,
estraté gias como tais que constituem em "ilhotas” seja os “ contrapartida que se d á aos filhos mais novos em troca de sua
parentescos efetivamente praticados por sua utilidade , seja os ren ú ncia à terra ), mas são acompanhadas de um limite que as
lugares que se distinguem pelos movimentos invertidos e inverte ( por exemplo, tournadot , restitui çã o do adot em caso
sucessivos do corpo , seja as dura ções de a ções efetuadas uma de casamento sem filhos ). Todo uso dessas regras deve entã o
por uma em ritmos pró prios e incomensurá veis entre si.19 Onde calcular o refluxo sobre ela dessa inversão sempre amea çadora,
a representa çã o sin ótica , instrumento de ac ú mulo e de domi- por estar ligada aos azares da existê ncia ) ”.
na ção pelo olhar, nivela e classifica todos os “ dados” coletados, c) As “estrat égias ” , “combinações” sutis ( “ o agir é uma
a pr á tica organiza descontinuidades, n ú cleos de opera ções ast úcia ” ), “ navegam ” entre as regras, “ jogam com todas as

120 121
possí bilidades oferecidas pelas tradi ções, usam esta de prefe- respeitam. Deste ponto de vista, reconhecer a autoridade das
rência à quela, compensam uma pela outra. Aproveitando o regras é justamente o contrá rio de aplicá -las. Quiasmo funda-
macio que esconde o duro, vão criando nesta rede as suas mental que hoje mudaria de sentido, pois devemos aplicar leis
pró prias pertin ê ncias. Mais ainda, como numa classe, onde se cuja autoridade nã o mais reconhecemos. Seja como for, é
poderia jogar com a globalidade dos resultados sem ser obri- interessante mostrar como Bourdieu descobre, como instâ ncia
gado à média em cada disciplina, elas se movem e deslizam de derradeira dessas pr á ticas, este “ uso da analogia ” que os
uma funçã o para a outra , pondo em curto-circuito as divisões cientistas cujos textos ele recolhia em 1968 ( Duhem, Bachelard ,
econ ó micas, sociais e simbólicas: por exemplo, o n ú mero pe- Campbell, etc.) consideravam o próprio movimento da criaçã o
queno de filhos ( questão de fecundidade) compensa um casa- teó rica.23
mento ruim ( fracasso no matrim ónio ); ou conservar o filho mais 4. Enfim essas prá ticas são todas comandadas por aquilo
moço em casa , celibatá rio , como uma espécie de “ empregado que eu denominarei uma economia do lugar pró prio. Esta
n â o assalariado ” ( investimento econ ó mico e limita çã o da nata - recebe, na aná lise de Bourdieu, duas figuras igualmente funda -
lidade ) evita a obriga çã o de lhe pagar um dote ( benef ício mentais mas n ão articuladas: de uma parte, a maximização do
matrimonial ). As “ estraté gias ” não “ aplicam ” princípios ou capital ( os bens materiais e simbólicos) de que se constitui
regras, mas escolhem entre elas o repertó rio de suas opera- essencialmente o patrimó nio ) de outra parte, o desenvolvimen-
ções.21 to do corpo, individual e coletivo, gerador de duração ( por sua
3. Assimilá veis a transferê ncias e a “metaforizações ”, fecundidade ) e de espaço ( por seus movimentos). A proliferação
passagens constantes de um gê nero para o outro, essas prá ticas das ast ú cias, de seus ê xitos ou de seus facassos, remete à
supõem uma " lógica ”. Mais astucioso que nunca, mais astucio- economia que se esfor ça por reproduzir e fazer frutificar essas
-
so que elas para captá las nos desdobramentos labir ínticos de duas formas distintas, e no entanto complementares, da
suas frases, Bourdieu reconhece nelas alguns procedimentos “casa ”:24 os bens e o corpo - a terra e a descend ência. Uma
essenciais:22 pol ítica desse “ lugar ” se acha sempre subjacente a essas
a ) a politética: a mesma coisa tem usos e propriedades que estratégias.
variam segundo as combina ções em que entra; Daí os dois tra ços que as fazem prá ticas absolutamente
particulares ao espaço fechado onde Bourdieu as examina e ao
b ) a substituibilidade: uma coisa é sempre substituível por
outra , pelo fato da afinidade de cada uma com as outras na olhar que lança sobre elas:
totalidade que representa; a ) ele sempre supõe o duplo vínculo dessas práticas a um
c ) eufemização: é preciso esconder o fato de que as a ções lugar próprio ( um patrimó nio ) e um princí pio coletivo de gestão
transgridem as dicotomias e antinomias representadas pelo ( a fam ília, o grupo ). O que acontece porém quando esse duplo
sistema dos símbolos. As a ções rituais forneceriam o modelo postulado está ausente? Caso interessante, pois é o que sucede
dessa “ eufemiza çã o ’, reunindo os contrá rios. em nossas sociedades tecnocrá ticas com relação às quais as
insularidades proprietá rias e familiais de ontem ou de alhures
Finalmente, a analogia fundiria todos esses procedimentos se tornam as utopias de mundos perdidos, ou até mesmo
que constituem transgressões da ordem simbólica e dos limites
robinsonadas. Ora , quando Bourdieu encontra o mesmo tipo
que estabelece, mas transgressões camufladas, metá foras insi-
diosas e, nessa mesma medida, recebidas, consideradas l ícitas
-
de prá ticas nos “ pequenos-burgueses" ou nas donas de-casa de
hoje, nã o sã o mais que “estratégias de curto prazo e de pequeno
pois ao lesarem as distinções estabelecidas pela l í ngua elas as
alcance", respostas aná rquicas relativas a “ um conjunto hete -

122 123
rogê neo de meios-saberes”, um “ sabir cultural ”, “ bricabraque Com efeito, na medida em que a sociolo-
de noções fora do contexto ”. Uma mesma l ógica prá tica se A uteoria ” gia define “estruturas objetivas" a partir
acba no entanto atuando aí, mas independentemente do lugar das “ regularidades” que recebe das esta-
que lhe controlava o funcionamento nas sociedades tradicio - tísticas {elas mesmas baseadas em enqué -
nais. Isto quer dizer que a problemá tica do lugar parece, no tes empíricas ), na medida em que ela considera toda “situação”
Esboço, levar a melhor sobre a d3$ prá ticas. ou "conjuntura objetiva" como um “estado particular ” de uma
b ) O uso do termo “estratégia ” é igualmente limitado. dessas estruturas, precisa compreender o ajustamento ou -
o desn ível - das pr á ticas em relação a essas estruturas. Entre
Justifica -se pelo fato de que as prá ticas d ão uma resposta
adequada às conjunturas. Mas Bourdieu repete ao mesmo as prá ticas e as estruturas ( estas presentes através de seus
tempo que n ã o se trata de estraté gias propriamente falando: “estados particulares ” que são as conjunturas), de onde é que
vem a concord â ncia que se constata geralmente? As respostas
não h á escolha entre diversos possíveis, portanto “ intenção
estraté gica ”; n ão h á introdu çã o de corretivos devidos a uma
recorrem ora a um automatismo reflexo das pr á ticas, ora a uma
informaçã o melhor , portanto n ã o h á o “ menor cálculo” . Não
genialidade subjetiva de seus autores. Por boas razões, Bour -
dieu rejeita ambas as hipó teses. Em seu lugar coloca a sua
há previsão mas apenas um “ mundo presumido” como a
“ teoria ” que visa explicar, pela gé nese das prá ticas, a sua
repeti ção do passado. Em suma , “ como os indiv íduos não
adequa ção às estruturas.
sabem, propriamente falando, o que fazem , o que fazem tem
mais sentido do que sabem ". “ Douta ignorâ ncia ” , portanto, Poder-se-ia insinuar que os termos da questã o estão passa-
habilidade que se desconhece. velmente trapaceados. Dos tr ês dados considerados - as estru-
Com essas “estraté gias" regidas pelo lugar, sá bias mas que turas, as situações e as prá ticas - somente os dois ú ltimos (que
se ignoram , está de volta a etnologia mais tradicionalista. Nas se correspondem) sã o observados, enquanto os primeiros sã o
reservas insulares onde as observava , ela considerava com concluídos a partir de estat ísticas e são modelos construídos.
efeito os elementos de uma etnia como coerentes e inconscien- Antes de se deixar encerrar no problema “ teórico”, seria
tes: dois aspectos indissociá veis. Para que a coerê ncia fosse o necessá rio levar em conta um duplo preliminar epistemológico,
que consiste em interrogar-se: a ) sobre a “ objetividade ” suposta
postulado de um saber, do lugar que ele se dava e do modelo
de conhecimento ao qual se referia , dever-se-ia colocar esse dessas “estruturas” , objetividade sustentada pela convicção de
que o real em pessoa se diz no discurso do sociólogo; b) sobre
saber à distâ ncia da sociedade objetivada , portanto supô lo - os limites das prá ticas ou das situações observadas, e sobretudo
estranho e superior ao conhecimento que a sociedade tinha de
de suas representa ções estat ísticas com rela ção à s globalidades
si mesma . A inconsci ê ncia do grupo estudado era o pre ço a
que os “ modelos estruturais” pretendem explicar. Mas esses
pagar ( o preço que deveria pagar ) por sua coerência. Uma
preliminares são esquecidos, em nome de uma urgê ncia da
sociedade nã o poderia ser um sistema a n ã o ser sem sabê-lo.
teoria .
Da í o corol á rio: precisava-se de um etn ó logo para saber o que
Nos termos em que o problema se coloca para ele, Bour-
-
ela era sem sabê -io. Hoje, o etn ólogo n ã o ousaria mais diz ê lo
dieu deve encontrar alguma coisa que ajuste as prá ticas à s
Ut n ã o pensá-lo ). Como è possível que Bourdieu assuma esse
compromisso a titulo de soci ó logo ?
estruturas e que no entanto explique também os desn íveis entre
das. Ele necessita entã o de uma casa suplementar. Ele a
encontra num processo que é o lugar forte de sua especialidade
como soci ó logo da educa ção, a aquisição: é a mediação procu -

124 125
rada entre as estruturas que a organizam e as “ disposições” as “ estratégias” que se ajustam às “ conjunturas” , estas mesmas
que ela produz. Essa “ gé nese ” implica uma interioriza ção das reduzidas às “estruturas” , de que são efeitos e estados particu -
estruturas ( pela aquisição ) e uma exteriorização do adquirido lares. De fato, este cí rculo passa de um modelo construído ( a
( ou habitus ) em prá ticas. Deste modo se introduz uma dimen- estrutura ) a uma realidade suposta ( o habitus ) , e desta a uma
sã o temporal: as prá ticas ( exprimindo o adquirido ) respondem intepreta çã o dos fatos observados ( estratégias e conjunturas).
adequadamente à s situações ( manifestando a estrutura ) se, e Ainda mais porém que os estatutos heterogé neos de peças
somente se, durante a fase da interiorização-exterioriza ção, a postas em cí rculo pela teoria impressiona o papel que ela
estrutura ficou está vel; em caso contrá rio, as prá ticas ficam atribui aos “fragmentos” etnol ógicos de tapar um buraco na
desniveladas, correspondendo ainda ao que era a estrutura no coerê ncia sociológica. O outro ( kabilino ou bearnês) vem
momento de sua interiorização pelo habitus. Segundo esta fornecer o elemento que falta à teoria para que ela funcione e
análise, as estruturas podem mudar e tornar-se um princípio “ tudo se explique ” . Esse estranho situado longe de todos os
de mobilidade social ( é mesmo o ú nico). O adquirido não. Nã o caracteres que definem o habitus: coerência, estabilidade, in-
goza de movimento pró prio. É o lugar de inscrição das estru
turas, o m á rmore onde se grava a sua história. Nada aí se passa
- consciê ncia e territorialidade ( o adquirido equivale ao patrim ó-
nio ). Ele é “ representado ” pelo habitus, lugar invisível onde,
que n ã o seja o efeito de sua exterioridade. Como a imagem como na casa kabilina, as estruturas se invertem interiorizan -
tradicional das sociedades primitivas e/ou camponesas, nada do-se, e onde essa escritura se transforma de novo exteriorizan -
a í se mexe, nem a histó ria, salvo o que ali é gravado por uma -
do se sob a forma de prá ticas que têm a enganadora aparê ncia
ordem estranha. A imobilidade dessa mem ó ria garante à teoria
que o sistema sócio-econô mico será fielmente reproduzido nas
de improvisações livres. É justamente a casa, mem ória silencio
sa e determinante, que se estabelece na teoria sob a metáfora
-
prá ticas. E por isso nã o é a aquisi çã o ou a aprendizagem do habitus e que, al é m disso, aporta à suposi çã o um referencial,
( fen ômenos visíveis), mas o adquirido, o habitus, que desem - uma aparência de realidade. Gra ças ao fato de sua metaforiza -
penha aqui o papel central: ele sustenta a explicaçã o de uma ção teó rica, esse referencial n ão passa no entanto de algo
sociedade pelas estruturas. Mas isso tem um preço. Para supor prová vel . A casa d á ao habitus a sua forma, n ão poré m o seu
que o suporte tenha tamanha estabilidade, é necessá rio que conte údo. Aliás, a argumentaçã o de Bourdieu procura n ão
seja incontrol ável, invisível. O interesse de Bourdieu está na tanto indicar essa realidade mas antes mostrar a necessidade e
génese, no “ modo de geração das prá ticas". Não se interessa, as vantagens de sua hipótese para a teoria. Deste modo, o
como Foucault, pelo que produzem , mas por aquilo que as habitus se torna um lugar dogm á tico, caso se entenda por
produz. Dos “ estudos etnol ógicos” que as examinariam para a dogma a afirma ção de um “ real ” de que o discurso necessita
sociologia que teoriza sobre elas há portanto um deslocamento para ser totalizante. Sem d ú vida, como acontece com um
que remove o discurso para o habitus, cujos sinó nimos ( exis, sem - n ú mero de dogmas, nem por isso tem menos valor heur ís-
ethos, modus operandi, “ senso comum ”, “ natureza segunda ” tico para deslocar e renovar possibilidades de pesquisa .
etc. ), defini ções, e justifica ções se multiplicam . Das primeiras Esses textos de Bourdieu fascinam por suas an álises e
para a segunda o her ó i muda . Um ator passivo e noturno toma agridem por sua teoria . Lendo-os sinto- me como o prisioneiro
o lugar da multiplicidade astuciosa das estratégias. A este de uma paixão que eles irritam excitando-a. São feitos de
m á rmore im óvel são atribu ídos, como a seu ator, os fenô menos contrastes. Examinando escrupulosamente as prá ticas e sua
constatados em uma sociedade.31 Personagem essencial, com -
l ógica de uma maneira que n ão tem sem d ú vida equivalente
efeito, por permitir à teoria seu movimento circular: agora, das
“estruturas” passa para o habitus (sempre em grifo); deste para
-
desde Mareei Mauss eles os reduzem enfim a uma realidade
m ística , o habitus, destinada a colocá -los sob a lei da reprodu-

126 127
ção. As descri ções sutis das tá ticas bearnesas ou kabilinas .
apenas uma sa ída falsa, uma “estraté gia” do texto Mas esse
desembocam de repente em verdades proferidas agressivamen - apressado retorno não seria ind ício que ele conhece , també m
te, como se fosse necessá ria a uma complexidade tã o lucida - o perigo, talvez mortal, que acarretam para o saber científico
mente perseguida o brutal contraponto de uma razão dog - essas prá ticas demasiado inteligentes?
m á tica. Contrastes também do estilo, retorcido e labir íntico em Combinaçã o ( com longínquos toques pascalianos) entre a
suas caças, e maciçamente repetitivo em suas afirmações. pulverizaçã o da razão e uma fé dogmá tica. Ele bem conhece o
Estranha combinação de um “sei perfeitamente bem ” ( essa saber cient ífico e o poder que o funda , da mesma forma que
proliferaçã o astuciosa e transgressora ) e de um “ mas apesar de essas táticas cujas ast ú cias ele sempre de novo joga com
tudo" ( deve existir um sentido totalizante). Para sair dessa tamanho virtuosismo em seus textos. Ele irá então encerrar
agressiva sedu ção, suponho ( por minha vez) que neste contras - essas astúcias por trás das grades da inconsciê ncia e negar ,
te se deve jogar algo de essencial para a an á lise das tá ticas. A pelo feiti ço do habitus, o que falta à razã o para que esta seja
cobertura que a “ teoria ” de Bourdieu lança sobre elas, como outra coisa que não a razão do mais forte. Afirmará, com o
para apagar as suas labaredas certificando a sua docilidade à habitus, o contrário do que sabe - tá tica popular tradicional -
racionalidade sócio-econ ó mica, ou como para celebrar a sua e essa proteção ( homenagem que se presta à autoridade da
morte declarando-as inconscientes, deve nos informar alguma razão ) lhe valerá a possibilidade científica de observar essas
coisa de sua relação a toda teoria. Essas tá ticas, por seus tá ticas em lugares cuidadosamente circunscritos.
critérios e seus procedimentos, utilizariam de maneira tão Se isto fosse verdade ( mas quem poderia dizê-lo ? ) , ele nos
autónoma a organiza ção institucional e simbólica que, levan - ensinaria tanto a seu respeito pelo seu “ dogmatismo” como por
-
do as a sé rio , a representação científica da sociedade se perderia seus “estudos ”. O discurso que esconde aquilo que sabe (em
aí, em todos os sentidos do termo. Seus postulados e suas vez de esconder o que ignora ) teria precisamente valor “ teóri -
ambições não lhes resistiriam. Normalidades, generalidades e co” enquanto pratica o que sabe. Seria o efeito de uma relação
rupturas cederiam diante do pulular transversal e “ metafori - consciente com a sua ineliminá vel exterioridade, e não somente
zante ” dessas microatividades diferentes. A matem á tica e as o teatro de uma elucidaçã o. Atingiria assim a “ douta ignor â n-
ciê ncias exatas afinam interminavelmente as suas l ógicas para cia ”, acusada de ser sá bia inconscientemente, justamente por
acompanhar os movimentos aleat órios e microbianos de fen ô- saber demais o que n ão diz nem pode dizer?
-
menos não humanos. À s ciências sociais, cujo objeto é mais
“sutil ” ainda , mas que usa instrumentos bem mais grosseiros,
restaria defender seus modelos ( isto é, uma ambiçã o de dom í-
nio), exorcizando tal proliferaçã o. De fato, segundo os m étodos
experimentados do exorcismo, eles o consideram singular
( local ) , inconsciente ( estranho em seu princípio) e, sem saber,
revelador do saber que dele tem o seu juiz. Quando o “ obser-
vador ” está bastante encerrado em sua institui ção judiciá ria, e
portanto bastante cego, tudo vai bem . O discurso que produz
parece ter consistê ncia .
Em Bourdieu. nada disso ocorre. Certamente , num primei -
ro n ível ( bem evidente ), parece sair ( ir a essas tá ticas), mas para
entrar de novo ( confirmar a racionalidade profissional) Seria .

128 129
1/
CAPÍTULO V

ARTES DA TEORIA

Surge um problema particular quando, em vez de ser,


como acontece habitualmente, um discurso sobre outros dis-
cursos, a teoria deve desbravar um terreno onde não há mais
discursos. Desnivelamento repentino: começa a faltar o terreno
da linguagem verbal , A opera ção teorizante se encontra aí nos
limites do terreno onde funciona normalmente, como um carro
à beira de uma falésia. Adiante, estende-se o mar...
Foucault e Bourdieu situam a sua empresa nessa borda,
articulando um discurso sobre pr á ticas não discursivas. Mas
não s ã o os primeiros. Sem remontar até ao dilú vio, a partir de
Kant nenhuma pesquisa teó rica pôde se dispensar, mais ou
menos frontalmente, de explicitar a sua relação a essa atividade
sem discurso, a esse “ resto ” imenso constitu ído por aquilo que,
da experiê ncia humana, não foi cativado e simbolizado na
linguagem. Uma ci ê ncia particular evita esse confronto direto.
Ela estabelece as condições a priori para só encontrar as coisas

131
num campo próprio e limitado onde as “verbaliza ” . Ela as ção teorizante se resume em dois momentos: em primeiro
-
espera na rede de modelos e hip ó teses onde é capaz de “ fazê las lugar, destacar e, depois, pô r do avesso. Em primeiro lugar, um
falar’’ , e esse aparelho investigador , como uma armadilha de isolamento “etnológico ”; depois, uma inversã o lógica.
caçador, transforma o seu mutismo em “ respostas”, portanto O primeiro gesto destaca certas prá ticas num tecido inde-
1
em linguagem: é a experimenta çã o. A interrogaçã o teó rica, finido, de maneira a tratá -las como uma população à parte,
pelo contrá rio, n ã o esquece, nã o pode esquecer que al ém da
formando um todo coerente mas estranho no lugar de onde se
relaçã o desses discursos científicos, uns com os outros, existe produz a teoria. Assim os procedimentos “ pan ópticos” de
a sua rela ção comum com aquilo que eles tomaram cuidado Foucault, isolados em uma multid ã o, ou as “ estratégias ” de
-
para excluir de seu campo para constitu í lo. Ela se liga ao
pulular daquilo que n ã o fala ( ainda n ã o? ) e que assume, entre
Bourdieu , localizadas entre os bearneses ou os kabilinos. Deste
modo, recebem uma forma etnol ógica. Além do mais, tanto num
outras, a imagem das prá ticas “ ordin á rias”. Ela é a memória caso como no outro, o gê nero ( Foucault ) ou o lugar ( Bourdieu )
desse " resto". É a Ant ígona daquilo que não se pode diante da que foi isolado é considerado como a meton ímia do espaço
jurisdi ção científica . Constantemente ela traz de volta esse integral: uma parte ( observ á vel por ter sido circunscrita ) é
inolvidá vel aos lugares científicos onde restri ções técnicas lhe considerada como representativa da totalidade ( in -defin ível )
tornam o esquecimento “ politicamente ” ( metodologicamente das prá ticas. Certa mente, em Foucault, esse isolamento se
e, em princípio, provisoriamente ) necessá rio. Como chega a baseia na elucida çã o da dinâ mica própria de uma tecnologia:
isso? Por que brilhantes intuições ou por que ast ú cias? Tal a
questão. -
trata se de um corte produzido por um discurso historiográfico.
Em Bourdieu , supõe-se que seja fornecido pelo espaço organi-
É preciso voltar aos tra- zado pela defesa de um patrim ó nio: é recebido como um dado
Destacar e pôr do avesso: balhos de Foucault e de sócio-econõ mico e geográ fico. Mas o fato desse destaque etno-
uma receita da teoria Bourdieu . Ambos im - lógico e meton ímico é comum às duas aná lises, mesmo que as
portantes, apresentam modalidades de sua determina çã o sejam heterogéneas tanto
entre si uma brecha evidente, razão mesmo para se parar ali num caso como no outro. 0 segundo gesto inverte ou põe do
no limiar de um ensaio que não pretende ser uma história das avesso a unidade assim obtida por isolamento. De obscura,
teorias sobre as práticas. Esses dois monumentos situavam um tácita e distante, ela se muda no elemento que esclarece a teoria
campo de pesquisa quase em dois pó los opostos. No entanto, e sustenta o discurso. Em Foucault os procedimentos escon-
por mais afastadas que se encontrem, as duas obras parecem didos nos detalhes da vigil â ncia escolar, militar ou hospitalar,
ter em comum o processo de sua fabricaçã o. Nelas se pode microdispositivos sem legitimidade discursiva, té cnicas estra-
observar um mesmo esquema operacional, apesar da diferença nhas à s Luzes, tornam -se a razão por onde se esclarecem ao
dos materiais utilizados, das problem á ticas em jogo e das mesmo tempo o sistema de nossa sociedade e o das ciê ncias
perspectivas abertas. Aqui se teriam duas variantes de uma humanas. Por elas e nelas, nada escapa a Foucault Permitem
“ maneira de fazer ” a teoria das prá ticas. Como por exemplo a seu discurso ser ele mesmo e teoricamente panó ptico, ver
uma maneira de cozinhar , ela pode exercer-se em circunstâ n - tudo. Em Bourdieu, o lugar distante e opaco organizado por
cias e com interesses heterogé neos; ela també m variou seus “ estrat é gias ” cheias de ast ú cia , polim órficas e transgressoras
lances e seus bons ou maus jogadores; permite també m que se quanto à ordem do discurso é igualmente invertido para
d éem golpes. Para caracteriz á- la pelos infinitivos ( ou pelos fornecer sua evid ê ncia e sua articula çã o essencial à teoria que
imperativos ) que pontuam com gestos uma receita , essa opera- reconhece em toda a parte a reprodução da mesma ordem.

132 133
Reduzidas ao habitus que ali se exterioriza , essas estratégias cada indiv íduo possibilita de um lado uma coexistência e, de
inconscientes de seu saber proporcionam a Bourdieu o meio outro, conven ções entre membros de um grupo. Noutras pala-
de explicar tudo e tomar consciê ncia de tudo. Mesmo que vras, a prá tica da ren ú ncia e da abnegação permite uma
Foucault se interesse pelo efeito dos seus procedimentos sobre pluralidade e contratos, isto é, uma sociedade: o limite aceito
um sistema , e Bourdieu , pelo “ princí pio ú nico” que tê m nas funda o contrato social .2
estratégias os seus efeitos, ambos executam a mesma manobra Quanto a Freud , nas pr á ticas da horda primitiva, ele decifra
quando transformam pr á ticas isoladas como afásicas e secretas
os conceitos essenciais da Psican á lise: o incesto, a castração, a
na peça-mestra da teoria , quando fazem dessa população no-
articulação da lei a partir da morte do pai.3 Inversão tanto mais
turna o espelho onde brilha o elemento decisivo de seu discurso
explicativo. Mediante essa manobra , a teoria pertence aos
impressionante, por n ã o ter nenhuma experi ê ncia direta a jus -
procedimentos que aborda , embora , considerando uma só -
tificá la. Nem um nem outro observou as prá ticas que aborda.
categoria da espé cie , supondo um valor meton ímico a esse dado
Não foram nunca observá-las diretamente, da mesma forma que
Marx nunca foi a uma fá brica.4 Por que portanto a constitui ção
isolado e fazendo assim o impasse das outras prá ticas, esquece
dessas prá ticas em enigma fechado onde se vai ler pelo avesso
aquelas que garantem a sua pró pria fabrica ção. Que o discurso
a palavra -chave da teoria?
seja determinado por procedimentos, Foucault já o analisa, no
caso das ciê ncias humanas. Mas també m a sua aná lise, confir- Hoje, essas prá ticas portadoras do segredo de nossa razão
mada pelo modo de produ çã o que atesta, depende de um não se acham mais tão distantes. Com o tempo, elas se aproxi-
dispositivo aná logo à queles cujo funcionamento descobre. Res - -
mam. Essa realidade etnológica, é in ú til agora ir procurá la na
Austrá lia ou no princípio dos tempos. Ela se instala em nosso
taria saber que diferença é introduzida , com rela ção aos proce-
dimentos panó pt í cos cuja história é narrada por Foucault, pelo sistema ( os procedimentos pan óptícos) ou ao lado, ou talvez
duplo gesto de delimitar um corpo estranho de práticas e mesmo dentro de nossas cidades (as estratégias bearnesas ou
inverter o seu obscuro conte ú do em luminosa escritura. kabilinas) e mais perto ainda ( “ o inconsciente” ). Mas por mais
perto que esteja o seu conte ú do, sua forma “ etnol ógica ”
Mas conv é m precisar em primeiro lugar a natureza desses
gestos e n ã o limitar seu exame a obras que seriam postas fora
subsiste. Constitui portanto um problema em primeiro lugar a
forma a essas prá ticas estabelecidas longe do saber e no entanto
de ó rbita pelas necessidades da causa. Com efeito, o procedi-
detentoras do seu segredo. Existe aí uma figura da modernidade.
mento do qual resultam está longe de ser excepcional. E até
uma antiga receita , muitas vezes utilizada , e que nã o merece a A reflexã o teó rica não
n ã o ser um pouco mais de consideraçã o. Bastará lembrar dois A etnoíogização das “artes” escolhe manter as prá ti-
exemplos cé lebres, do começo deste século: Durkheim, em As cas à distâ ncia de seu
Formas elementares da vida religiosa, e Freud , em Totem e lugar, de maneira que
Tabu . Quando constroem uma teoria das prá ticas, eles as -
tenha de sair para analisá-las, mas basta lhe invertê-las para se
situam primeiro num espa ço “ primitivo ” e fechado, etnol ógico encontrar em casa. Ela repete o corte que efetua. Este lhe é
em cotejo com nossas sociedades “ esclarecidas”, e reconhecem imposto pela histó ria. Os procedimentos sem discurso são
ali. neste lugar obscuro, a fó rmula teó rica de sua aná lise. E nas coligidos e fixados em uma regi ã o que o passado organizou e
prá ticas sacrificais dos Arunta, da Austrália , etnia certamente que lhes dá o papel, determinante para a teoria, de ser consti -
primitiva entre as “ primitivas ” , que Durkheim descobre o tu ídos em “ reservas” selvagens para o saber esclarecido.
principio de uma é tica e de uma teoria sociais contempor â neas:
a restriçã o contraposta ( pelo sacrif ício ) ao querer indefinido de

134 135

i
Esses procedimentos foram aos poucos adquirindo um do discurso, mas obedece já à lei da produ çã o, valor ú ltimo da
valor fronteiriço, à medida que a razão que surgiu da Aufklà- economia fisiocrata e depois capitalista. Ela contesta portanto
rung ia determinando suas disciplinas, suas coerê ncias e seus à escritura científica o seu privil é gio de organizar a produção.
poderes. Aparecem entã o como alteridades e “ resistências”, Ela irrita e estimula volta e meia os técnicos da linguagem. Pede
relativas às escrituras cient í ficas cujo rigor e operatividade se uma conquista , n ã o como de prá ticas desprez íveis, mas ao
vã o precisando a partir do século XV Í1I . Em nome do mesmo contrá rio de saberes “ engenhosos”, “ complexos ” e “ operati -
progresso, vê -se ocorrer o diferenciamento, de um lado, das vos”. De Bacon e Christian Wolff ou Jean Beckmann, faz se -
artes ( ou maneiras) de fazer, cujos títulos se multiplicam na gigantesco esforço para colonizar essa imensa reserva de
literatura popular,5 objetos de crescente curiosidade dos “ob- -
“artes” e “of ícios” que, por n ã o conseguirem ainda articular se
servadores do homem ” 6 e, de outro lado, as ci ências esboçadas em uma ci ê ncia , podem ser já introduzidos na linguagem por
por uma nova configuração do saber. uma “Descrição ” e, deste modo, levados a uma maior “perfei
çã o ". Mediante esses dois termos - a “ descrição” que depende
-
A distin ção n ã o se refere mais essencialmente ao binómio da narratividade e a “ perfei çã o” que tem em mira uma otimiza-
tradicional da “ teoria ” e da “ prá tica", especificado pela separa-
ção entre a “ especulação” que decifra o livro do cosmos, e as ci ê ncia.
8
-
çã o técnica a posição das “artes” é fixada , perto mas fora da
“ aplicações” concretas, mas visa duas operações diferentes,
uma discursiva ( na e pela linguagem ) e a não discursiva. Desde Desse trabalho de compilação, a Enciclopédia é um resul -
o século XVI, a idéia de método abala progressivamente a tado e ao mesmo tempo a bandeira: Dictionnaire raisonné des
rela ção entre o conhecer e o fazer, a partir das prá ticas do Sciences, des arts et des métiers. Ela coloca lado a lado, numa
direito e da ret órica , mudadas pouco a pouco em "ações” proximidade que é promessa de assimilação ulterior, as “ciên-
discursivas que se exercem em terrenos diversificados e por- cias” e as “artes”: umas são l ínguas operatórias cuja gramá tica
tanto em técnicas de transformação de um ambiente, impõe-se e sintaxe formam sistemas constru ídos e controláveis, portanto
o esquema fundamental de um discurso que organiza a manei- escrevíveis; as outras são técnicas à espera de um saber
ra de pensar em maneira de fazer , em gestão racional de uma esclarecido e que lhes falta. No artigo Arte , D í derot tenta
produ ção e em operação regulada sobre campos apropriados. precisar a relação entre esses elementos heterogé neos. Esta-
Eis o “ mé todo” , semente da cientificidade moderna. No fundo, mos diante de “arte”, escreve ele, "se o objeto é executado";
o m étodo sistematiza a arte que Platã o já colocava sob o signo diante de uma “ ciê ncia ", “se o objeto é contemplado”. Distinção
da atividade.' Mas é por um discurso que ele ordena um mais baconiana do que cartesiana , entre execução e especula-
saber-fazer. Portanto, a fronteira n ão separa mais dois saberes ção. Ela se repete no interior da pr ó pria “arte”, dependendo de
hierarquizados, um especulativo, o outro ligado às particulari- ser representada ou praticada: “ Toda arte tem sua especulação
dades, um ocupado em ler a ordem cósmica e o outro às voltas e sua pr á tica: sua especula ção, que nada mais é que seu
com os pormenores das coisas no quadro que lhe é fixado pelo conhecimento inoperativo das regras da arte; sua prá tica, que
primeiro, mas ela opõe as prá ticas articuladas pelo discurso às outra coisa não é sen ão o uso habitual e nào reflexivo das
que ( ainda ) n ã o o s ã o. mesmas regras ” . A arte é portanto um saber que opera fora do
discurso esclarecido e que lhe falta. Mais ainda, esse saber- fazer
Do “ saber-fazer ” n ã o discursivo, essencialmente sem escri- precede, por sua complexidade, a ciê ncia esclarecida. Assim , a
tura ( é o discurso do m é todo que é ao mesmo tempo escritura propósito da “ geometria das artes”, eis a observa çã o de Diderot:
e ciê ncia ), qual será o estatuto? É feito de operatividades “ É evidente que os elementos da geometria da academia sã o
m ú ltiplas, mas selvagens. Essa proliferação não obedece à lei os mais simples e os menos compostos dentre os da geometria

136 137
das oficinas ”. Por exemplo, em muitos problemas de alavancas, saber -fazer cotidianos. Todas essas Gatas Borralheiras, a ci ê n -
de fricçã o, de torções têxteis, de mecanismos de rel ógios etc., cia há de transform á-las em princesas. O princ ípio de uma
o “ cá lculo” é ainda insuficiente. A solu ção será antes "o operaçã o etnológica sobre essas práticas já se acha então posto:
negócio ” de uma antiqu íssima “ matemá tica ” experimental e o seu isolamento social pede uma espécie de “ educação” que,
manual mesmo que a sua “ l í ngua ” fique inculta pela “ car9ência -
graças a uma inversão linguística , vai introduzi las no campo
de palavras pr ó prias ” e pela "abundâ ncia de sin ó nimos ”. da escritura científica.
Por manuais, Diderot quer designar, segundo Girard, as Fato notável, desde o século XVIII ao XX, os etnólogos ou
artes que se limitam a “ adaptar” os materiais cortando-os, os historiadores consideram as técnicas respeitáveis em si
talhando, unindo etc., sem “ lhes dar um novo ” { por 10 fusã o, mesmas. Destacam aquilo que fazem. Não sentem necessidade
composiçã o etc.), como o fazem as artes manufatureiras . Não de intepretar. Basta descrever. Ao contrá rio, consideram como
“ formam ” tampouco um produto novo nem dispõem de uma "lendas ” que significam outra coisa diferente do que dizem as
l íngua pró pria . Pazem bricolagem . Mas a reorganiza ção e a hist órias pelas quais um grupo situa ou simboliza suas ativida-
hierarquiza çã o dos conhecimentos segundo o crit é rio da pro - des. Estranha disparidade entre o tratamento dado às prá ticas
dutividade fazem essas artes ganhar um valor de referência, e o dado aos discursos. Onde o primeiro registra uma “ verdade”
por causa de sua operatividade, e um valor de vanguarda, por do fazer o outro decodifica as “ mentiras” do dizer. As breves
causa de sua sutileza “experimental e manual ”. Estranhas para descrições do primeiro tipo contrastam aliás com as interpre -
-
as “ línguas” científicas, elas constituem fora delas um ab soluto ta ções prolixas que fizeram dos mitos ou das lendas um objeto
do fazer ( uma eficácia que, livre do discurso, testemunha no privilegiado pelos profissionais da linguagem , “ cl é rigos” com
entanto seu ideal produtivista) e uma reserva de saberes que longa experiência , com procedimentos hermen ê uticos transmi -
se devem inventariar nas “ oficinas” ou nos campos ( há um tidos dos juristas aos professores e/ou etnólogos, para glosar
Logos escondido no artesanato e ele já murmura o futuro da e “ traduzir” em textos científicos os documentos referenciais.
ci ê ncia ). Uma problem á tica de retardamento se introduz na As cartas estão lan çadas. A instâ ncia muda das prá ticas está
relação entre ci ê ncia e artes. Um handicap temporal separa historicamente circunscrita. Cento e cinquenta anos depois,
dos saber-fazer a sua progressiva elucidação por ci ê ncias epis- Durkheim praticamente não corrige essa defini çã o “ etnológica ”
temologicamente superiores.
Os “observadores” se apressam portanto em direção a
- -
e ainda a reforça abordando o problema da arte (de fazer ),
isto é, “ aquilo que é prá tica pura sem teoria ”. A í está o absoluto
essas pr á ticas ainda afastadas das ciê ncias mas avan çando para da operatividade, em sua “ pureza ”. Escreve ele: "Uma arte é
elas. Fontenelle já fazia esse convite desde 1699: “ As oficinas um sistema de maneiras de fazer que são ajustadas a fins
dos artesãos brilham em todos os cantos com um esp írito e especiais e que sã o o produto ou de uma experiê ncia tradicional
uma inventividade que no entanto não atraem os nossos comunicada pela educa çã o, ou da experi ê ncia pessoal do indi-
olhares. Faltam observadores a instrumentos e a prá ticas
11
v íduo”. Enquistada na particularidade , desprovida das genera -
extremamente ú teis e muito engenhosamente imaginadas...” lizações que fazem a competê ncia exclusiva do discurso, a arte
Esses “ observadores ” se fazem colecionadores, descritores, nem por isso deixa de formar um “sistema ” e organizar-se por
analistas. Mas embora reconhecendo ali um saber que precede “ fins ” - dois postulados que permitem a uma ciência e a uma
os eruditos, procuram destacá-lo de sua linguagem “ impró- é tica conservar em seu lugar o discurso “ pró prio ” de que está
pria ” , inverter em um discurso “ pr óprio ” a expressão err ó nea privada , isto é , escrever -se no lugar e em nome dessas prá ticas.
das “ maravilhas” que já estão presentes nos in ú meros tipos de

138 139
Característico també m o interesse pela produ ção ou pela . 14
poderiam chegar a bom termo sem a teoria ..” Esse mediador
15
aquisi ção da arte por este grande pioneiro que ligou a funda ção entre “o homem do teorema ” e “ o homem da experiência ” há
da sociologia a uma teoria da educação: “ Não se pode adquiri la - de ser o engenheiro.
a n ã o ser pondo-se em rela ção com as coisas sobre as quais se O “ terceiro homem " sempre frequentou e ainda frequenta
deve exercer a ação e exercendo-a pessoalmente ” . À “ imediati- o discurso esclarecido ( filosó fico ou científico ),16 mas n ão
cidade" da operação Durkheim nã o op õe mais, como o fazia surgiu como se esperava . O lugar que lhe foi atribu ído ( hoje
Diderot, um atraso da teoria quanto ao saber manual das lentamente ocupado por outra figura, a dos tecnocratas) é
oficinas. Permanece apenas tra çada a uma hierarquia estabele- relativo ao trabalho que, ao longo do século XIX, de um lado
-
cida sobre o crité rio da educaçã o: “Sem d ú vida prossegue
Durkheim - pode acontecer que a arte seja esclarecida ( eis a
isolou da arte as suas té cnicas e, de outro, “ geometrizou ” e
matematizou essas técnicas. No saber-fazer se conseguiu aos
-
palavra chave das Luzes ) pela reflexã o, mas a reflexão n ão é o poucos isolar aquilo que poderia ser destacado da performan-
seu elemento essencial , pois a arte pode existir sem ela. Mas ce individual e isto se “aperfeiçoou ” em máquinas que consti-
não existe uma só arte em que tudo seja fruto da reflexão”.12 tuem combina ções controlá veis de formas, maté rias e forças.
Existiria entã o uma ci ê ncia onde “ tudo seja fruto da Esses “ ó rgã os técnicos” são retirados da competê ncia manual
reflexã o ” ? Seja como for, usando um vocabul á rio bastante {ultrapassam -na tornando -se m á quinas) e colocados num espa-
pró ximo da Enciclopédia ( que mencionava o “ contemplar ” ), ço pró prio, sob a jurisdiçã o do engenheiro. Passam a subordi
cabe à teoria “ refletir ” esse “ todo”. De modo ainda mais geral, nar-se a uma tecnologia. E agora o saber-fazer se acha
para Durkheim a sociedade é uma escritura que só se faz legível lentamente privado daquilo que o articulava objetivamente
por ele. Aqui existe um saber já escrito nas pr á ticas, mas não num fazer. Aos poucos essas técnicas lhe são tiradas para serem
ainda esclarecido. A ciê ncia fornecerá o espelho para torná-lo transformadas em m á quinas, e entã o o saber-fazer parece
legível, com o discurso “ refletindo” uma operatividade imediata retirar-se para um saber subjetivo, separado da linguagem de
e precisa, mas privada de linguagem e consci ê ncia, já sá bia mas seus procedimentos (que agora lhe são devolvidos e impostos
ainda inculta . em m áquinas produzidas por uma tecnologia ). Toma as feições
de uma capacidade “ intuitiva” ou “ reflexa ”, quase secreta, cujo
Da mesma forma que o sa - estatuto fica indefinido. A otimização técnica do século XIX,
Os relatos do nâo sabido crif ício, “ mais perto de nós indo inspirar-se no tesouro das “artes” e “ofícios” para criar os
do que se poderia crer se- modelos, pretextos ou regras obrigatórias para suas inven ções
gundo a sua aparente gros-
mecâ nicas, deixa às prá ticas cotidianas apenas um solo privado
seria ” , a arte constitui em rela ção à ciência um saber em si
'

de meios ou de produtos próprios. Ela o constitui em região


mesmo essencial mas ileg ível sem ela. Posi çã o perigosa para a
folcl ó rica ou em uma terra duplamente silenciosa, sem discurso
ci ê ncia , pois só lhe resta poder dizer o saber que lhe falta. Ora,
verbal como outrora e agora sem linguagem manual.
entre a ciê ncia e a arte . considera-se não uma alternativa mas
a complementaridade e, se possível, a articula çã o. Ou seja , Aqui ainda subsiste um “ saber ”, mas sem o seu aparelho
como o pensa Wolff já em 1740 (depois de Swedenborg, ou té cnico ( transformado em m áquinas) ou cujas maneiras de
antes de Lavoisier . D é saudray, Augusto Comte et alii ), pensa-se fazer não tê m legitimidade aos olhos de uma racionalidade
em um “terceiro homem capaz de reunir em si a ciê ncia e a produtivista ( artes do dia-a-dia na cozinha , artes de limpeza, da
arte: ele poria um remédio à enfermidade dos teó ricos, liberta- costura etc. ). Ao contrá rio, esse resto, abandonado pela coloni-
ria os amantes das artes do preconceito segundo o qual elas -
za çã o tecnol ógica, adquire valor de atividade “ privada ” , carre

140 141
ga-se com investimentos simbólicos relativos à vida cotidiana , intui ção ora artística ora reflexa. Trata -se, como se costuma
funciona sob o signo das particularidades coletivas ou indivi- dizer, de um conhecimento que n ã o se conhece . Este “ fazer
duais. torna-se em suma a mem ó ria ao mesmo tempo legendá ria cognitivo” n ã o viria acompanhado de uma autoconsciê ncia que
e ativa daquilo que se manté m à margem ou no interstício das lhe desse um dom í nio por meio de uma reduplicação ou
ortopraxias científicas ou culturais. Enquanto ind ícios de sin- “ reflexão ” interna. Entre a prá tica e a teoria, esse conhecimento
-- -
gularidades - murm ú rios poé ticos ou trá gicos do dia a dia as ocupa ainda uma " terceira ” posi ção, n ão discursiva mas primi -
maneiras de fazer se introduzem em massa no romance ou na tiva. Acha-se recolhido, originá rio, como uma “fonte ” daquilo
ficçã o. Assim , em primeiro lugar o romance realista do sé culo que se diferencia e se elucida mais tarde.
XIX. Essas maneiras encontram a í um novo espa ço de repre - Trata-se de um saber não sabido. H á, nas prá ticas, um
senta ção, o da ficçã o, povoado por virtuosidades cotidianas das estatuto an á logo à quele que se atribui às f á bulas ou aos mitos,
quais a ci ê ncia n ã o sabe o que fazer, e que se tornam, bem como os dizeres de conhecimentos que nã o se conhecem a si
-
reconhecíveis para os leitores, as assinaturas das micro hist ó- mesmos. Tanto num caso como no outro, trata -se de um saber
rias de todo o mundo. A literatura se muda em repertório sobre os quais os sujeitos n ã o refletem. Dele d ã o testemunho
dessas prá ticas desprovidas de Copyright tecnol ógico. Sã o elas sem poderem apropriar-se dele. Sã o afinal os locatá rios e não
ainda que logo vã o ocupar um lugar privilegiado nos relatos
dos clientes nas salas das instituições psiquiá tricas ou nos
-
os proprietá rios do seu pró prio saber fazer. A respeito deles
n ão se pergunta se há saber (supõe-se que deva haver ), mas
consultó rios dos psicanalistas. este é sabido apenas por outros e n ão por seus portadores. Tal
Noutras palavras, há “ histó rias” que fornecem às prá ticas -
como o dos poetas ou pintores, o saber fazer das prá ticas
cotidianas o escrí nio de uma narratividade. Certamente, só cotidianas n ã o seria conhecido sen ão pelo inté rprete que o
descrevem alguns de seus fragmentos. Sã o apenas metáforas esclarece no seu espelho discursivo, mas que não o possui
delas. Mas, a despeito das rupturas entre configurações suces- tampouco. Portanto, n ã o pertence a ningué m. Fica circulando
sivas do saber , representam uma nova variante na sé rie contí- entre a inconsciê ncia dos praticantes e a reflexão dos nã o pra- -
nua de documentos narrativos que, a partir ,
dos contos .
ticantes sem pertencer a nenhum. Trata-se de um saber anó ni -
populares, pan ó plias de esquemas de a ção,1 até as Descrições mo e referencial , uma condi çã o de possibilidade das prá ticas
das Artes da era cl ássica, expõem as maneiras de fazer sob a técnicas ou eruditas.
forma de relatos. Essa sé rie compreende entã o igualmente o Este saber retirado, privado ao mesmo tempo de procedi -
romance contemporâ neo - e també m os micro-romances que mentos leg íveis ( por n ão possuir linguagem própria ) e de
sã o geralmente as descrições etnol ó gicas de técnicas artesa - proprietá rio legí timo ( pois n á o tem linguagem própria ), encon -
nais, culin á rias etc. Tal continuidade sugere uma pertinência tra na psican á lise freudiana uma versã o particularmente notá-
teó rica da narratividade no que concerne à s pr áticas cotidianas. vel . Tudo funciona a í a partir de um postulado que seus efeitos
O “ retorno ” dessas prá ticas na narra ção ( será necessá rio fizeram considerar realidade : h á saber , mas inconsciente; reci-
examinar o seu alcance em muitos outros exemplos) está ligado procamente, é o inconsciente que sabe. Os relatos de clientes
a um fen ô meno mais amplo, e historicamente menos determi - e as “ histórias de doentes" ( Krankengeschichte ) freudianos
nado . que se poderia designar como estetização do saber ocupam pá ginas e pá ginas para cont á -lo. Ali ás, depois de Freud
impl ícito no saber - fazer . Separado de seus procedimentos, este todos os psicanalistas o aprenderam por experiê ncia pró pria:
saber é considerado um “ gosto ” ou um “ tato ”, quem sabe “as pessoas já sabem tudo” aquilo que, na sua posi çã o de
mesmo “ genialidade ”. A ele se emprestam os caracteres de uma “suposto saber ”, pode ou poderia permitir-lhes articular. Tudo

142 143
se passa como se “ as oficinas” de que falava Diderot se do estético, do cognitivo ou do reflexivo, como se o saber-fazer
houvessem tornado a metá fora do lugar recalcado e reprimido se reduzisse a um princ í pio inapreensivel do saber.
no fundo do qual os conhecimentos “ experimentais e manuais ”
precedem hoje o discurso proferido sobre eles pela teoria ou Fato caracter ístico, Kant
-
pela “ academia ” psicanai ítica. De seus clientes e de todos os Uma arte de pensar: Kant vai tratar a rela ção entre
outros - o analista diz muitas vezes: “ Em algum lugar eles o a arte de fazer ( Kunst ) e
sabem ”. “ Em algum lugar ”, mas onde? Sã o as suas práticas que a ciê ncia (Wissenschaft),
ou entre uma técnica ( Technik ) e a teoria ( Theorie ), no
o sabem - gestos, comportamentos, maneiras de falar ou
caminhar etc. Temos a í um saber, mas de quem? É um saber decorrer de uma pesquisa que se deslocou de uma jjrimeira
tã o rigoroso e preciso que todos os valores de cientificidade redaçã o sobre o gosto para uma cr ítica do ju ízo. E ele
parecem ter-se transportado com armas e bagagens para o lado encontra a arte durante esse percurso que vai do gosto ao ju ízo.
desse inconsciente, de sorte que s ó restam à consciência Parâmetro de um conhecimento pr á tico que vai mais longe que
fragmentos e efeitos desse saber, ast úcias e tá ticas aná logas o saber e de forma esté tica , Kant percebe a í aquilo que,
à quelas que antigamente caracterizavam “ a arte ”. Mediante genialmente, denomina “ um tato l ógico ” (logische Takt ). Ins-
essa inversã o o que tem razão é aquilo que não se reflete e
,
crita na ó rbita de uma esté tica , a arte de fazer é colocada sob
o signo do ju ízo, condi ção “ a-l ógica ” do pensamento. A
-
que n ã o se diz, o não-sabido e o in íans,enquanto a consci ê ncia
‘ esclarecida " é apenas a l í ngua “ impr ó pria ” desse saber. Mas tradicional antinomia entre uma “ operatividade ” e uma “ refle -
essa inversã o tem em mira mais o privilégio da consciê ncia que xão” é superada graças a um ponto de vista que, reconhecendo
mudar a divisã o do saber e do discurso. Nas “ oficinas” artesa- uma arte na raiz do pensar, faz do ju ízo um “ meio termo”
nais bem como naquelas do inconsciente jaz um saber funda- ( Mittelglied ) entre a teoria e a pr áxis. Esta arte de pensar
mental e primitivo que antecede o discurso esclarecido, mas ao constitui uma unidade sint é tica entre as duas.
qual falta uma cultura pr ó pria. Ao saber do inconsciente - Os exemplos kantianos se referem precisamente às prá ticas
como ao das “ artes” - o analista oferece por isso a possibilidade cotidianas: “ A faculdade de julgar ultrapassa o entendimento
de palavras “ pró prias ” e de uma distinçã o entre os “sin ónimos”. (...) Faculdade de julgar sobre a roupa que uma camareira deve
Daquilo que se move obscuramente no fundo desse poço de vestir. Faculdade de julgar sobre a dignidade que convé m a um
saber , a teoria “ reflete" uma parte à plena luz da linguagem edif ício, sobre os ornamentos que n ã o devem ir contra o fim
"cient ífica ”. Sobre tr ês séculos, malgrado os avatares históricos perseguido ”. O ju ízo n ã o se refere apenas à “ conveni ê ncia ”
da consciê ncia ou as defini ções sucessivas do conhecimento, social (equil íbrio elástico de uma rede de contratos tá citos ) mas,
paira sempre a combina çã o entre dois termos distintos, de uma de modo mais geral, à relação de numerosos elementos, e só
parte um conhecimento referencial e “ inculto ” e, da outra, um existe no ato de concretamente criar um conjunto novo por
discurso eiucidador que à plena luz produz a representa ção uma articula ção conveniente dessa relaçã o com um elemento
inversa de sua fonte opaca. Este discurso é “ teoria ”. Conserva a mais, como se acrescenta um tom vermelho ou ocre a um
da palavra o seu sentido antigo e cl ássico de “ver/fazer ver” -
quadro, modificando- o sem destru í lo. A transforma ção de um
ou de contemplar ” ( theorein ). É “ esclarecido ". 0 saber primi-
"
equil íbrio dado em outro equil íbrio caracterizaria a arte.
tivo. na medida em que foi progressivamente dissociado das Precisando melhor o que pensa, Kant cita a autoridade
té cnicas e das linguagens que o objetivavam , torna-se uma geral do discurso, mas uma autoridade que no entanto é sempre
inteligê ncia do sujeito, mal definida sen ã o por neutros (ter faro, local e concreta: em meu canto, escreve ele ( fn meinen Gegen -
tato. gosto , ju ízo , instinto etc. ), que oscilam entre os regimes den: em minha regi ão, no meu “ país ” ), “ o homem comum ” ,

144 145
“ ordin á rio ” (der gemeine Mann ) diz (sagt ) que os prestidigita- mais nos detalhes de uma tese que recusa a divisã o ideol ógica
dores ( Taschenspieler ) dependem de um saber (você pode entre os saberes, e portanto també m a sua hierarquizaçã o
fazer a mesma coisa , quando conhece o truque), ao passo que social , pude-se ao menos sustentar a esse propósito que este
os que dançam na corda ( Seiltànzer ) dependem de uma arte.22 tato re ú ne em um só todo uma liberdade ( moral ) , uma criação
Dan çar sobre a corda é de momento em momento manter um (estética) e um ato ( prático ) - três elementos .i á presentes no
-
equilíbrio , recriando o a cada passo graças a novas interven - trabalho com “ sucata", exemplo contemporâ neo de uma tá tica
ções; significa conservar uma relação nunca de todo adquirida cotidiana."5
e que por uma incessante inven çã o se renova coro a aparência Desse ju ízo investido num ato ético e poé tico talvez se
de “ conservá-la ” . A arte de fazer fica assim admiravelmente devam procurar os antecedentes no lado da antiga experiê ncia
definida , ainda mais que efetivamente o pró prio praticante faz religiosa , quando era també m um “ tato", a apreensão e a
-
parte do equil íbrio que ele modifica sem comprometê lo. Por criaçã o de uma “ harmonia" em prá ticas particulares, o gesto
essa capacidade de fazer um conjunto novo a partir de um é tico e poético de religare ( re-ligar ) ou de estabelecer um
acordo preexistente e de manter uma rela çã o formal malgrado acordo gra ças a uma sé rie indefinida de atos concretos. New-
a variação dos elementos, tem muita afinidade com a produ ção man també m reconhecer á a í um " tato”. Mas em consequ ê ncia
art ística. Seria uma inventividade incessante de um gosto na de uma série de deslocamentos históricos que limitaram singu -
experiê ncia pr á tica.
larmente os equil íbrios possíveis para a arte religiosa “ danç ar
Mas esta arte designa igualmente aquilo que, no pró prio na corda bamba ”, uma pr ática esté tica foi aos poucos substi-
trabalho científico, n ão depende da aplicaçã o no entanto neces- tuindo-a, ficando ela mesma progressivamente isolada da ope-
sá ria de regras ou modelos e é sempre, em ú ltima instância, ratividade e da cientificidade, a tal ponto que, por exemplo,
como dir á també m Freud , “ uma questã o de tato ” (eine Sache desde Schleiermacher até Gadamer, ela se tornou a experiência
des Takts ). Quando volta a esse ponto, Preud tem em vista o marginal a que uma tradi çã o “ hermen ê utica ” nã o cessa de
diagn óstico, uma questã o de julgamento que põ e precisamente recorrer para sustentar sua cr ítica das ciê ncias objetivas. Em
em causa , numa interven ção prá tica, uma relação ou um razão de um gê nio ajudado pela conjuntura ( da arte de J.S.
equil íbrio entre in ú meros elementos. Para Freud , como para Bach à da Revolu çã o ), Kant se situa na encruzilhada onde do
Kant. trata-se a í de uma faculdade autó noma que se afina mas ato religioso concreto subsiste a forma é tica e estética ( ao passo
n ã o se aprende: “ A falta de ju ízo - diz Kant - é propriamente que o seu conteú do dogm á tico desaparece), e onde a criação
aquilo que se chama estupidez, e para esse v ício não há art ística ainda tem o valor de ato moral e técnico. Essa
rem é dio" 24 Esse v ício n ã o poupa nem o cientista , da mesma
.
combinaçã o transitiva, que nele já oscila de uma “ Cr ítica do
forma que os outros. gosto ” para uma “ Metaf ísica dos costumes”, fornece uma
Entre o entendimento que conhece e a razã o que deseja, refer ê ncia moderna fundadora para analisar a natureza esté ti -
a faculdade de julgar é portanto um “arranjo ” formal, um ca, é tica e prá tica do saber-fazer cotidiano.
“ equil íbrio" subjetivo do imaginar e do compreender . Ela tem
Kant procura ainda determinar melhor esse tato, num texto
a forma de um prazer relativo n ã o a uma exterioridade mas a
de jornalismo esclarecido, publicado em plena Revolu çã o fran -
:.im modo de exerc ício: põe em jogo a experiê ncia concreta de
um principio universa! de harmonia entre a imagina çã o e o
cesa , no Berlinische Monatsschrift, de setembro de 1793, a
propósito de um “ ad á gio comum ”: “ A teoria ê uma coisa, mas
entendimento . Trata -se de um sentido ( Sinn ), mas é “ comum ”:
o senso comum ( Gemeinsinn ) ou o ju ízo comum . Sem se deter
a prá tica é outra ” 26 ( lit.: “ Pode estar certo na teoria , mas de
nada vate na prá tica ” ). Esse importante texto teó rico tem

146 147
portanto como objeto, e como título um prové rbio, uma sen - moral , à lei constitucional e à ordem internacional. Aqui
ten ça popular, e usa a linguagem da imprensa ( houve quem importa , mais que essas variações, o princípio de um acordo
falasse de uma “ obra popular ” de Kant ). Ele intervé m num formal das faculdades no ato de julgar. Este n ão é localiz á vel
debate onde sucessivamente, depois das respostas de Kant às nem no discurso científico, nem numa técnica particular , nem
obje ções de Christian Garve ( 1792 ), os artigos de Friedrich numa expressã o artística. É uma arte de pensar da qual tanto
Gentz ( dezembro de 1793) e de August Wilhelm Rehberg dependem as prá ticas ordin á rias como a teoria . Como a ativi -
( fevereiro de 1794 ) voltam de novo, na mesma revista , ao dade do equilibrista na corda, tem valor ético, estético e prá tico.
comentá rio do prové rbio. Esse “ ad á gio” é um Spruch , isto é, N ão é de se admirar que uma arte organize os discursos que
ao mesmo tempo um prové rbio ( sabedoria ), uma senten ça abordam prá ticas a título de teoria , por exemplo, os de Foucault
(JU í ZO ) e orá culo ( palavra autorizada e sapiencial ). Seria por ou de Bourdieu. Mas assim se abre a questão, pouco kantiana,
efeito da Revolu ção que um prové rbio recebe a pertinê ncia de um discurso que seja a arte de dizer ou fazer a teoria bem
filosófica de um versículo ( Spruch) de texto sagrado e mobiliza como a teoria da arte, ou seja, um discurso que seja mem ória
em torno de si. como nas antigas edi ções do Talmude, do Corão e pr á tica, em suma, o relato do tato.
ou da B íblia o saber exegé tico dos teorizadores ? 27 Este debate
filosófico em torno de um prové rbio evoca igualmente a histó-
ria evangé lica do lnfans falando no meio dos escribas, ou o
tema popular O menino sábio aos três anos. Mas agora não
se trata mais de uma inf â ncia e nem tampouco de uma velhice
( como se faz Kant dizer, traduzindo Gemeinspruch por “ velho
ad á gio " ou Old Saw), mas de qualquer pessoa e de todo o
mundo do homem “ comum ” ou “ ordiná rio” (<gemem ), cuja
,

sentença , mais uma vez , interroga os eruditos e escribas e faz


proliferar os seus comentá rios.
A •‘senten ça ” comum n ã o afirma um princ í pio. Constata
um fato, que Kant interpreta como o sinal ou de um interesse
insuficiente na teoria da parte do homem prá tico, ou de um
desenvolvimento insuficiente da teoria no pr ó prio teó rico.
“ Quando a teoria ainda se acha pouco desenvolvida ( noch
wenig ) na prá tica , n ã o cabe a falta à teoria , mas, ao contrá rio,
nã o ha bastante tmcht genug ) teoria que se deveria ter apren -
.
dido com a experi ê ncia.. ”' Sejam quais forem os exemplos
dados tencontra-se o problema tradicional das fricções), Kant
organiza a sua demonstraçã o numa pe ça em três atos onde o
homem ordiná rio aparece sucessivamente sob a figura de três
personagens ( o negociante o pol í tico e o cidad ão comum )
,

opustos a tr ês filósofos ( Garve , Hobbes e Mendelssohn ) e com


isso se podem analisar sucessivamente as quest ões relativas à

14 « 149
1/
CAPÍTULO VI

O TEMPO DAS HISTÓRIAS

Subindo, descendo e girando em torno dessas prá ticas,


algo escapa sem cessar, que nào pode ser dito nem “ ensinado”,
mas deve ser “ praticado ”. Assim pensava Kant a propósito do
ju ízo ou do tato. Se ele situou a questã o a esse propósito em
um nível “ transcendental ” com rela ção à prá tica e à teoria ( e
nã o mais na posição de um resto referencial com relação às
“ luzes” da razã o ), ele não nos precisa qual poderia ser a sua
linguagem . A esse propósito, ele usa a cita çã o: um adá gio
.
comum ou uma palavra do homem "ordin á rio” Esse procedi -
mento, ainda jur ídico ( e já etnol ógico), faz o outro dizer o
fragmento oferecido à glosa. 0 “ or á culo popular” ( Spruch )
deve falar dessa arte, e o comentá rio explicará essa “ sentença ”.
Sem d ú vida, deste modo o discurso leva a sé rio essa palavra
( muito longe de considerá-la uma cobertura enganadora das
prá ticas) , mas ele se situa do lado de fora, na distâ ncia de uma
.
observa ção apreciadora É um dizer sobre aquilo que o outro
diz de sua arte, e não um dizer dessa arte. Se se afirma que

151
essa " arte” só pode ser praticada e fora do seu exercício n ão dade tem ali uma fun çã o necessá ria, e supondo que uma teoria
se dá enunciado, a linguagem deve ser então a sua prá tica. Ser á do relato é indissociável de uma teoria das práticas, como a
uma arte de dizer: nela se exerce precisamente essa arte de sua condição ao mesmo tempo que sua produçã o?
fazer onde Kant reconheceria uma arte de pensar. Noutras
palavras, ser á um relato. Se a pró pria arte de dizer é uma arte Isto implicaria sem d ú vida reconhecer o valor teó rico do
de fazer e uma arte de pensar , pode ser ao mesmo tempo a romance , tornado o z ôo das prá ticas cotidianas desde que
prá tica e a teoria dessa arte. existe ? ci ê ncia moderna. Isto seria sobretudo restituir impor-
tâ ncia “ científica ” ao gesto tradicional (é també m uma gesta )
As sondagens precedentes apon- que sempre narra as pr á ticas. Neste caso, o conto popular
Uma arte de dizer tam nessa direção. Ali distingo fornece ao discurso científico um modelo, e não somente
um dado e uma hipó tese. objetos textuais a tratar. N ã o tem mais o estatuto de um
documento que não sabe o que diz, citado à frente de e pela
1) Um fato, em primeiro lugar, é -
an á lise que o sabe. Pelo contrá rio, é um “saber dizer ” exata-
mdicativu. As maneiras de fazer nã o designam somente ativi - mente ajustado a seu objeto e, a este título, n ã o mais o outro
dades que uma teoria tomaria como objetos. Essas maneiras do saber mas uma variante do discurso que sabe e uma
organizam també m a sua constru ção. Longe de se achar fora autoridade em maté ria de teoria. Entã o se poderiam compreen-
da cria çã o te ó rica , à porta os “ procedimentos ” de Foucault, as
,
der as altern â ncias e cumplicidades, as homologias de procedi-
“ estraté gias ” de Bourdieu e, de maneira mais geral, as tá ticas
mentos e as imbrica ções sociais que ligam as “ artes de dizer ”
formam um campo de opera ções dentro do qual se desenvolve às “artes de fazer ”: as mesmas prá ticas se produziriam ora num
també m a produção da teoria. Deste modo se alcança, embora campo verbal ora num campo gestual; elas jogariam de um ao
em outro terreno , a posi ção de Wittgenstein em rela ção à outro , igualmente tá ticas e sutis cá e lá; fariam uma troca entre
“ linguagem ordin á ria ” . i
-
si do trabalho no serão, da culiná ria às lendas e às conversas
2 ) Para explicitar a rela ção da teoria com os procedimentos de comadres, das ast úcias da histó ria vivida à s da hist ória
dos quais é efeito e com aqueles que aborda , oferece se uma- narrada.
possibilidade: um discurso em histó rias. A narratí viza ção das Essa narratividade seria um retorno à “ Descri ção” da é poca
prá ticas seria uma “ maneira de fa2er " textual , com seus proce- cl ássica ? H á uma diferen ça que as separa, fundamental: no
dimentos e tá ticas pr ó prios. A partir de Marx e Freud ( para nã o -
relato n ão se trata mais de ajustar se o mais possível a uma
remontar mais acima ), n ã o faltam exemplos autorizados. Fou - “ realidade ” ( uma opera ção técnica etc.) e dar credibilidade ao
cault declara , aliás, que está escrevendo apenas hist órias ou texto pelo “ real ” que exibe. Ao contrá rio, a história narrada cria
“ relatos ” Por seu lado , Bourdieu toma relatos como a vanguar- -
um espaço de ficçã o. Ela se afasta do “ real ” ou melhor, ela
da e a refer ê ncia de seu sistema. Em muitos trabalhos, a .
aparenta subtrair -se à conjuntura: "era uma vez. .” Deste modo ,
narratividade se insinua no discurso erudito como o seu precisamente , mais que descrever um “ golpe ", ela o faz. Para
indicativo geral ( o t í tulo ), como uma de suas partes (an á li- voltar ao que dizia Kant , ela mesma é um ato de fun â mbulo,
ses de “ casos ” , “ histó rias de vida ” ou de grupos etc.), ou como um gesto equilibrista em que participam a circunstâ ncia ( lugar
seu contraponto ( fragmentos citados, entrevistas, “ ditos” etc.). e tempo ) e o próprio locutor, uma maneira de saber, manipular ,
Aparece ai sempre de novo. Nã o seria necessá rio reconhecer- arranjar e “ colocar ” um dito deslocando um conjunto , em suma
lhe a legitimidade cientifica supondo que em vez de ser um “ uma questão de tato”.
resto inelimin á vei ou ainda a eliminar do discurso, a narrativi -

152 153
Existe com certeza um conte ú do do relato, mas pertence, Para compreender a relaçã o entre o relato e as tá ticas,
ele também, à arte de fazer um golpe: ele é desvio por um -
deve se encontrar e demarcar melhor um seu modelo científico
passado ( " no outro dia ”, “ outrora ” ) ou por uma cita ção ( uma mais expl ícito, onde a teoria das pr á ticas tenha precisamente
"senten ça ", um “ dito”, um provérbio), para aproveitar uma por forma uma maneira de narrá-las.
ocasião e modificar um equil íbrio por uma surpresa. 0 discurso
a í se caracteriza n ã o tanto por uma maneira de se exercer mas Historiador e também
Contar os lances: Detienne antrop ólogo, Mareei
antes pela coisa que mostra. Ora, é preciso entender outra coisa
do que a que se diz. O discurso produz então efeitos, n ã o Detienne escolheu deli -
objetos. É narração, n ã o descri ção. É uma arte do dizer. O beradamente a narra -
p ú blico ali n ã o se engana . Do “truque ” (o que basta saber para -
ção. Ele não instala as hist ó rias gregas diante de si para tratá las
faz ê- lo ) - mas també m da revela ção/vulgariza ção ( o que inde- em nome de outra coisa que não elas mesmas. Recusa o corte
finidamente é preciso saber ) - ele diferencia a arte, como as que delas faria objetos de saber, mas também objetos a saber,
pessoas ordin á rias a que Kant se refere ( ali ás, onde está ele cavernas onde “ misté rios” postos em reserva aguardariam da
mesmo ? ) distinguem facilmente o prestidigitador do homem pesquisa cient ífica o seu significado. Ele não supõe, por trás de
que dança na corda. Algo na narra çã o escapa à ordem daquilo todas essas histó rias, segredos cujo progressivo desvelamento
que é suficiente ou necessá rio saber e, por seus tra ços, está lhe daria , em contrapartida , o seu pr óprio lugar , o da interpre-
subordinado ao estilo das tá ticas. ta ção. Esses contos, histó rias, poemas e tratados para ele já são
pr á ticas. Dizem exatamente o que fazem. Sã o o gesto que
Esta arte, n ã o seria dif ícil reconhecê-la em Foucault uma significam. Nã o h á necessidade alguma de lhes acrescentar
arte do suspense, das citações, da elipse , da meton ímia; uma alguma glosa que saiba o que exprimem sem saber, nem
arte da conjuntura (a atualidade, o p ú blico ) e das ocasiões perguntar de que sã o a metáfora . Formam uma rede de
( epistemológicas, pol íticas); em suma, uma arte de fazer “ gol
- operações da qual mil personagens esboçam as formalidades e
.
pes" “ lances’’, com ficções de hist órias. Não é primeiramente
os bons lances. Neste espaço de prá ticas textuais, como num
a sua erudi çã o ( prodigiosa no entanto ) que d á tanta eficá cia a
jogo de xadrez cujas figuras, regras e partidas teriam sido
Foucault . mas esta arte de dizer que é uma arte de pensar e
multiplicadas na escala de uma literatura, Detienne conhece
fazer . Com os mais sutis procedimentos da retó rica , esboçando
como artista mil lances já executados ( a mem ó ria dos lances
alternadamente e com sabedoria quadros figurativos ( “ histó- antigos é essencial a toda partida de xadrez ), mas ele joga com
rias ” exemplares) e quadros anal íticos (distinções teóricas), ele
produz um efeito de evid ê ncia sobre o p ú blico visado, desloca
esses lances: deles faz outros com esse repertó rio: conta
histórias por sua vez . Re -cita esses gestos tá ticos. Para dizer o
os campos em que sucessivamente se insinua , cria um novo que dizem , n ão há outro discurso senão eles. Algu é m pergunta :
‘arranjo’’ do conjunto . Mas
essa arte da narração representa mas o que “ querem ” dizer ? Então se responde: vou contá-los
també m o seu outro, com a “ descrição ” historiográfica e lhe
de novo. Se algué m lhe perguntasse qual era o sentido de uma
modifica a lei sem a substituir por outra . Náo possui discurso sonata, Beethoven, segundo se conta , a tocava de novo. O
pr ó prio N ão se diz a si mesma . Pratica o n ã o-lugar: fort? da?
Ali e nã o ali . Finge que se eclipsa por trá s da erudi çã o ou das
mesmo acontece com a recita çã o da tradição oral , assim como
a analisa J. Goody: uma maneira de repetir sé ries e combina ções
taxinomias que no entanto manipula . Dan çarino disfarç ado em
arquivista . O riso de Nietzsche perpassa o texto do historiador .
-
de operações formais, com uma arte de “ faz ê las concordar ”
com as circunstâ ncias e com o p ú blico.2

154 155
O relato nã o exprime uma prá tica. Nã o se contenta em dizer Desta aná lise, três elementos me prendem mais a aten çao,
um movimento. Ele c (az . Pode-se portanto compreendê-lo ao por diferenciarem mais nitidamente a métis em face de outros
entrar na dan ça . Assim Detienne. Diz as prá ticas gregas narran- comportamentos , mas també m por caracterizarem igualmente
do m historias gregas... “ Era uma vez...” O Jardim de Adónis, ?s flatos que falam dela. É a tr í plice relaçã o que a métis
"

A Pantera perfumada, Dioniso morto, A Cozinha do sacrifí


cio: fá bulas de um narrador praticante.3 Traça os movimentos
- manté m com “a ocasião ” , com os disfarces e com uma parado-
xal invisibilidade. De um lado, a métis conta com o “ momento
dos gregos executando ele mesmo os seus relatos à sua maneira oportuno" ( o Kairós) e o aproveita: é uma prá tica do tempo.
no cená rio atual. Protege-os contra a alteração museográfica De outro lado, multiplica as m áscaras e metáforas: é uma
por uma arte que a historiografia perde após ter achado muito defecçã o do lugar pr ó prio . Enfim , desaparece no seu pró prio
tempo que era essencial e cuja importâ ncia o antropólogo ato, como que perdida no que faz , sem espelho para re-presen -
descobre nas outras, desde as Mythologiques à Etnography of -
tá la; n ã o tem imagem pró pria. Esses traços da métis podem
Speaking 4: a arte de contar histórias. Ele faz seu jogo portanto igualmente atribuir-se ao relato. Sugerem entã o um “suplemen -
entre aquilo que a historiografia praticava no passado e aquilo to " a Detienne e Vernant: a forma de inteligência prá tica que
que a antropologia restaura hoje como um objeto estranho . analisam e a maneira como o fazem devem ter entre si um nexo
Nesse terreno intermedi á rio, eis que um prazer de contar teó rico se a narratividade contadora é també m algo semelhante
encontra pertin ê ncia cient ífica. Recitando-o no ritmo alegre de a uma métis.
suas fá bulas. Faz todas as idas e vindas desse relato, exercendo
assim uma arte de pensar. Como o cavalo, no jogo de xadrez, Na relação de forças onde
atravessa o imenso tabuleiro da literatura com as “ curvas” A arte da memória e interv é m , a métis é “ a
dessas histó rias, fios de Ariadne, jogos formais das prá ticas. a ocasião arma absoluta ”, aquela
Justamente aqui , como o pianista , ele “ interpreta ” essas fá bu- que vale a Zeus a suprema -
las. Executa - as privilegiando duas “figuras” onde particular- cia sobre os outros deuses. É um princ í pio de economia: com
mente se exercia a arte grega de pensar: a dan ça e a luta, ou o mínimo de força, obter o m áximo de efeito. Define també m
seja . as pr ó prias figuras que a escritura do relato aciona. uma estética , como se sabe. A multiplicaçã o dos efeitos pela
rarefaçã o dos meios é, por motivos diferentes, a regra que
Com Jean - Pterre Vernant, ele escreveu um livro sobre a organiza ao mesmo tempo uma arte de fazer e a arte poética
“ métis" dos gregos, As astúcias da inteligê ncia, 5 Esse livro é de dizer , pintar ou cantar.
uma sé rie de relatos. Consagra -se a uma forma de inteligência
sempre “ mergulhada numa prá tica ” onde se combinam “o faro, Essa rela ção econ ó mica enquadra a métis e nã o tanto
a sagacidade , a previsã o, a flexibilidade de espírito, a finta, a indica o seu alcance. A “ volta " ou retorno que leva a operaçã o
esperteza , a aten çã o vigilante , o senso de oportunidade, habi- do seu ponto de partida ( menos for ça) até seu termo ( mais
lidades diversas, uma experiê ncia longamente adquirida”6. De efeito ), implica em primeiro lugar a media çã o de um saber , mas
extraordin á ria “ estabilidade ” de um extremo a outro do hele- um saber que tem por forma a dura çã o de sua aquisição e a
ntsmo . embora ausente da imagem ( e da teoria ) que o pensa- coleção intermin á veis dos seus conhecimentos particulares.
mento grego construiu de si mesmo, a métis tem muita Questã o de “ idade ”, dizem os textos: à “ irreflexão da juventu -
afinidade com as tá ticas cotidianas por “seus gestos manuais, de ” eles opõem “ a experiê ncia do ancião ”. Este saber se faz de
suas habilidades e seus estratagemas", e pela enorme gama das muitos momentos e de muitas coisas heterogé neas. N ão tem
condutas que abrange , desde o saber-fazer até a ast ú cia. enunciado geral e abstrato, nem lugar pr ó prio. É uma memó-
ria,7 cujos conhecimentos n ão se podem separar dos tempos

156 157
de sua aquisição e vão desfiando as suas singularidades. Em ( I ) diminuem as for ças; em ( II ) o saber-mem ó ria aumen-
Instru ída por muitos acontecimentos onde circula sem possu í- ta; em ( III ) diminui o tempo; e em ( IV ) aumentam os efeitos.
los ( cada um deles é passado , perda de lugar, mas brilho de Esses crescimentos e decréscimos se articulam em proporções
tempo}, ela suputa e prev ê també m “ as vias m ú ltiplas do futuro” inversas. Obtemos as rela ções seguintes;
combinando as particularidades antecedentes ou possíveis.8 - de ( I ) a ( II ), quanto menos força , mais se precisa de
Assim se introduz uma dura ção na rela çã o de forças, capaz de saber-mem ó ria;
modificá-la. A métis aponta com efeito para um tempo acumu-
lado , que lhe é favorá vel , contra uma composição de lugar, que - de ( II ) a ( III ), quanto mais há saber-mem ória, menos se
lhe é desfavorá vel. Mas a sua memória continua escondida (n ã o precisa de tempo;
tem lugar que se possa precisar ), até o instante em que se - de ( III ) a ( IV ), quanto menos tempo há, mais aumentam
revela , no " momento oportuno ” , de maneira ainda temporal os efeitos.
embora contrá ria ao ato de se refugiar na dura ção. 0 resplen- A ocasião é um nó tão importante em todas as prá ticas
dor dessa mem ó ria brilha na ocasião. cotidianas, como nos relatos “ populares ” atinentes, que é
Enciclopédia , graças à capacidade da métis para aí acumu- preciso deter-se um pouco mais e precisar melhor este primeiro
lar experiê ncias passadas e inventariar as poss íveis, a ocasião esboço. Mas a ocasi ã o não cessa de enganar as definições, por
armazena todo esse saber no menor volume possível. Concen - não ser isol á vel nem de uma conjuntura nem de uma opera ção.
tra o m áximo de saber no mínimo de tempo. Reduzida ao seu Nã o é um fato destacá vel da “ volta ” que o produz. Inscreven -
m ínimo formato, num ato metamor íoseador da situação, esta do-se numa série de elementos, ela distorce as suas rela ções.
enciclopédia concreta se assemelha a uma pedra filosofal! Ela a í se traduz em torsões geradas numa situação pela
aproxima çã o de dimensões qualitativamente heterog é neas
Evoca aliá s sobretudo o tema ló gico da identidade entre a
que n ã o sã o mais apenas oposi ções de contrariedade ou de
circunfer ê ncia e o ponto. Mas aqui a extensão é dura ção; a
concentra çã o, instante. Deslocando o espa ço para o tempo, a
contradi ção. Esse processo “ de retor ção” tem como í ndices as
coincid ê ncia entre a circunfer ê ncia indefinida das experiências rela ções inversamente proporcionais anotadas acima: seriam
e o momento pontual de sua recapitula ção seria então o modelo compar áveis às proporções e distorções que, por efeitos de
teó rico da ocasião. espelho (inversões, encurvamentos, redu ções ou amplia ções )
ou de perspectiva ( tanto menor quanto mais longe etc.), permi-
Atendo-se a esses primeiros elementos, seria possível uma tem justapor , num mesmo quadro, espa ços diferentes. Mas, na
representaçã o esquem á tica da “ volta ”, desde o seu ponto inicial
( I ) - menos for ças - até o seu ponto terminal ( IV ) - mais efeitos.
sé rie em que se insinua a ocasião, a justaposição de dimensões
heter ô nomas diz respeito ao tempo e ao espa ço, ou estado e
Algo que se poderia representar mais ou menos assim : a ção etc. Ela é marcada por relações proporcionalmente inver-
i
sas, análogas à quelas que, em Pascal , articulam “ ordens'
li
diferentes e sã o do tipo: tanto mais presente quanto menos
menos
Forças
mais
\ visível ; tanto menos numerosos quanto mais privilegiados pela
Mem ória
graça; etc.9 H á qualitativamente passagens para a outra , por
relações “ torcidas”, por sucessivas inversões.
mais menos
Efeitos Tempo Entre as diferen ças qualitativas estabelecidas por relações
ÍV 1 )1 inversas, vou mencionar ao menos duas espécies, que obrigam
a duas leituras distintas de sua seriaçã o:

158 159
!

1) Uma diferen ça entre espaço e tempo fornece a sé rie 0 quadro recapitulativo desses elementos daria:
paradigmá tica: na composi çã o de lugar inicial ( I ), o mundo da
mem ó ria ( II ) intervém no “ momento oportuno ” ( III ) e produz I ( I) ( ]]) I ( III )
I
1 ( IV )
modificações do espaço (IV). Segundo esse tipo de diferen ça, a lugar memória kairós efeitos
sé rie tem por começo e fim uma organização espacial; o tempo TEMPO 5
i
fica a í como o espaço intermedi á rio, estranheza que sobrevé m
FAZER
de alhures e produz a passagem de um estado dos lugares para t
o seguinte. Em suma , entre dois “equilíbrios”, a irrupção de PARECER i

um tempo:

A mem ória mediatiza transformações espaciais. Segundo


ESPAÇO I ii TEMPO o modo do “ momento oportuno '’ ( kairós), ela produz uma
ruptura instauradora. Sua estranheza torna possível uma trans-
gressão da lei do lugar. Saindo de seus insondá veis e m óveis
UI segredos, um “ golpe ” modifica a ordem local. A finalidade da
série visa portanto uma operação que transforme a organiza ção
visível . Mas essa mudan ça tem como condi ção os recursos
2 ) Uma diferen ça entre ser estabelecido ( um estado ) e fazer invis íveis de um tempo que obedece a outras leis e que, por
( produ çã o e transforma ção) se combina com a primeira. Joga surpresa , furta alguma coisa à distribui ção proprietá ria do
ali ás com uma oposi ção entre visível e invisível, sem lhe espaço.
corresponder exatamente. Seguindo este eixo, temos a série Este esquema se encontra em muitas histó rias. Constituiria
paradigm á tica seguinte: dado um estabelecimento visível de a sua unidade mí nima. Pode ter forma có mica com a mem ória
forças ( I ) e um dado invis ível da mem ória ( II), uma ação pontual que, no momento oportuno, inverte uma situaçã o - do tipo:
da mem ó ria ( III ) acarreta efeitos visíveis na ordem estabelecida “ Mas... o senhor é meu pai! - Meu Deus, minha filha!” Revira -
( IV ). A primeira parte da sé rie se compõe de duas situações de volta que se deve ao regresso do tempo que era ignorado pela
fato, onde o invisível saber escapa ao poder vis ível; a seguir
vem uma parte operacional. Distinguindo entre os ciclos ser/fa
-
distribuição espacial das personagens. Tem se uma forma poli -
zer e visível/invis ível, temos:
- cial, onde o passado, voltando, abala os dados de uma ordem
hierá rquica: “ Ah, entã o ele é o assassino!” A estrutura do
milagre també m tem analogia com isso: de um outro tempo, do
INVIS Í VEL tempo que é outro, surge esse “ deus ” que tem os caracteres da
mem ó ria , silenciosa enciclop é dia dos atos singulares, e cuja
figura , nos relatos religiosos, representa com tanta fidelidade
FAZER VIS ÍVEL
a mem ó ria “ popular ” daqueles que n ã o t ê m lugar mas tê m o
tempo - “ Pacitndar Com variantes, aqui se repete o recurso
ao mundo estranho de onde pode , de onde deverá vir o lance
ou golpe que mudar á a ordem estabelecida. Mas todas essas
variantes poderiam ser apenas, ampliadas em projeções simbó -

160 161
licas e narrativas, as sombras da pr á tica cotidiana que consiste cimentos que n ão dependem dela , ligada à expectativa de que
em aproveitar a ocasião e fazer da memória o meio de transfor - vai se produzir ou de que deve se produzir algo de estranho
mar os lugares. ao presente. Longe de ser o relicá rio ou a lata de lixo do
Resta precisar ainda um ú ltimo ponto, que é o essencial: -
passado, a memó ria vive de crer nos poss í veis, e de esperá los,
como é que o tempo se articula num espaço organizado ? Como vigilante, â espreita.
se efetua sua “ penetra çã o ” no modo de ocasi ões? Em suma , An á loga no tempo ao que é uma “ arte da guerra ” para as
qual a implantação da memória num lugar que já forma um manipulações do espaço, uma ‘' arte ” da mem ória desenvolve a
conjunto? Este é o momento equilibrista e tá tico, o instante da
arte . Ora. essa implanta ção não é localizada nem determinada
aptidã o para estar sempre no lugar do outro mas sem apossar -
se dele, e tirar partido dessa alteração mas sem se perder a í.
pela mem ória-saber , A ocasi ã o é “ aproveitada ”, não criada. E Essa força não é um poder ( mesmo que seu relato o possa ser ).
fornecida pela conjuntura , isto é, por circunstâ ncias exteriores Recebeu antes o nome de autoridade: aquilo que, “ tirado ” da
onde um bom golpe de vista consegue reconhecer o conjunto mem ória coletiva ou individual, “autoriza ” ( torna possíveis )
novo e favor á vel que irã o constituir mediante um pormenor a uma inversã o, uma mudança de ordem ou de lugar, uma
mais. Um toque suplementar , e ficará “ bom ”. Para que haja passagem a algo diferente, uma “ metá fora ” da prática ou do
“ harmonia ” pr á tica, falta apenas um pequeno nada, um pingo discurso. Dai o manejo tã o sutil das “ autoridades” em toda
de algo, um resto que se tornou precioso na circunstâ ncia, e tradi çã o popular. A memó ria vem de alhures, ela nã o está em
que o invisível tesouro da mem ória vai fornecer. Mas o frag- si mesma e sim noutro lugar, e ela desloca. As tá ticas de sua
mento que vai sair desse fundo só pode ser insinuado numa arte remetem ao que ela é, e à sua inquietante familiaridade.
disposi ção imposta de fora, para mudá-la em harmonia instável, i Terminando, eu gostaria de sublinhar alguns de seus
bricolada. Sob a sua forma prá tica , a mem ó ria não possui uma modos de proceder, muito particularmente os que organizam
organizaçã o já pronta de antemão que ela apenas encaixaria
a ocasião nos comportamentos cotidianos: o jogo da alteração,
ali. Ela se mobiliza relativamente ao que acontece - uma a prá tica meton ímica da singularidade e ( mas isso no fundo é
surpresa que ela está habilitada a transformar em ocasiã o. Ela
,
apenas um efeito geral ) uma mobilidade desconcertante e
só se instala num encontro fortuito, no outro.
“ torcida ”.
Como os pássaros que só põ em seus ovos no ninho de
1) A mem ó ria prá tica é regulada pelo jogo m ú ltiplo da
outras espécies, a mem ó ria produz num lugar que nã o lhe é alteração , não só por se constituir apenas pelo fato de ser
pró prio. De uma circunstâ ncia estranha recebe a sua forma e
implanta ção, mesmo que o conte ú do {o pormenor que falta )
marcada pelos encontros externos e colecionar esses brasões
sucessivos e tatuagens do outro, mas també m porque essas
venha dela. Sua mobilizaçã o é indissociá vel de uma alteração.
escrituras invis íveis só são claramente “ lembradas” por novas
Mais ainda , a sua forç a de interven çã o, a memória a obtém de
circunstâ ncias. 0 modo da rememora ção é conforme ao modo
sua pr ó pria capacidade de ser alterada - deslocã vel , m óvel, sem da inscrição. Talvez a mem ó ria seia aliás apenas essa “ rememo-
iugar fixo. Traço permanente: ela se forma (e seu “ capital ” )
ração" ou chamamento pelo outro , cuja impressão se traçaria
nascendo do outro ( uma circunstâ ncia ) e perdendo-o ( agora é
apenas uma lembran ça ). Dupla altera çã o, e de si mesma, que
como em sobrecarga sobre um corpo h á muito tempo alterado
já mais sem o saber , Essa escritura originá ria e secreta “sairia ”
se exerce , ao ser atingida , e de seu objeto, que ela só conserva
depois que desapareceu . A mem ó ria se esvai quando não é mais
aos poucos, onde fosse atingida pelos toques. Seja como for, a
mem ó ria é tocada pelas circunstâ ncias, como o piano que
capaz dessa opera çã o. Ela se constr ó i ao contrá rio de aconte - “ produz ” sons ao toque das mãos. Ela é sentido do outro. E

162 163
I

por isso ela se desenvolve també m com a rela çã o


sociedades “ tradicionais”, como no amor - ao passo que se
-
nas 3) A coisa mais estranha é sem d ú vida a mobilidade dessa
mem ó ria onde os detalhes n ã o são nunca o que são: nem
atrofia quando se dá a autonomização de lugares próprios. Mais objetos, pois escapam como tais; nem fragmentos, pois ofere-
que registrar , ela responde às circunstâ ncias, até ao momento cem també m o conjunto que esquecem ; nem totalidades, pois
em que, perdendo sua fragilidade m ó vel, tornando-se incapaz n ã o se bastam ; nem está veis, pois cada lembrança os altera.
de novas alterações, ela só consegue repetir suas primeiras Esse " espa ço” de um n ão-lugar que se move com a sutileza de
respostas. um mundo cibern ético. Constitui provavelmente ( mas esta
Esse regime de altera çã o respondente organiza, momento i referência é mais indicadora que esclarecedora, remetendo ao
após momento, o tato que acompanha a insinuação num con - que n ós não sabemos ) o modelo da arte de fazer, ou desta métis
que , aproveitando as ocasi ões, n ão cessa de restaurar nos
junto circunstanciai. A ocasiã o, apreendida quando surge , seria
a pró pria transformação do toque em resposta , “ uma inversão” lugares onde os poderes se distribuem a insólita pertinência
da surpresa esperada sem ser prevista: aquilo que o aconteci- do tempo.
mento inscreve, por mais fugitivo e rá pido que seja , é devolvido,
é -lhe devolvido em palavra ou em gesto. Lance a lance. A Tudo parece igual na estrutura onde se
Histórias introduz o pormenor que lhe muda
vivacidade e a precisã o da devolu ção são indissociá veis de uma
dependê ncia em rela ção aos instantes e de uma vigil â ncia que
por é m o funcionamento e o equil íbrio.
marcam com tanto mais vigor quanto menos lugar pró prio tê m As an á lises científicas contemporâ neas,
para se proteger contra eles. que inscrevem a memó ria nos seus "quadros sociais ”,19 ou as
2 ) Esta resposta é singular. No conjunto em que ela se
técnicas clericais que, na Idade M édia, a transformaram habili -
dosamente em uma composi ção de lugares e que assim prepa-
-
produz , é apenas um detalhe a mais um gesto, uma palavra raram a mutação moderna do tempo em espaço controlável,11
.
- tão exato que inverte a situação Mas que mais poderia a esquecem-lhe ou lhe recusam os rodeios, mesmo que apresen-
mem ó ria fornecer ? Ela é feita de clarões e fragmentos particu- tem o interesse maior de explicar por que procedimentos e por
lares. Um detalhe, muitos detalhes, eis o que são as lembran ças. que razões estratégicas legítimas a ocasião - este instante
Cada uma delas, quando se destaca tecida de sombra, é relativa indiscreto, este veneno - foi controlada para espacialização do
a um conjunto que lhe falta. Brilha como uma metoní mia em discurso erudito. Incessantemente, a escritura cient ífica, cons-
relaçã o a esse todo. De um quadro, há somente, deliciosa ferida, titui çã o de um lugar pr óprio, reconduz o tempo, este fugitivo,
esse azul profundo. De um corpo, esse brilho de um olhar, ou à normalidade de um sistema observá vel e legível. Assim , nã o
esse granulado de uma brancura que apareceu no entreabrir-se há surpresas! Uma conservação dos lugares elimina essas voltas
de uma encrespadura. Essas particularidades têm a força de ruins.
demonstrativos: aquele sujeito ao longe que passava inclina -
do... aquele odor que nem se sabe de onde subia... Detalhes Mas elas retornam sempre , n ã o apenas sub-rept ícias e
cinzelados, singularidades intensas funcionam já na memó ria silenciosas, na pró pria atividade cientifica,12 n ão apenas nas
quando interv ê m na ocasião. O mesmo tato se exerce cá e lá, a --
pr á ticas do dia a dia que, por n ã o terem mais discurso, nem por
mesma arte da relaçã o entre um pormenor concreto e uma isso deixam de ter existê ncia, mas nas histórias també m ,
conjuntura que é, aqui , sugerida , como tra ço de acontecimento tagarelas, cotidianas e astuciosas. Basta , para reconhecê-las a í,
e, !á , operada , pela produ ção de uma conveniê ncia ou de uma nã o se contentar ( trabalho no entanto necessá rio ) com exami -
“ harmonia ” . nar as suas formas ou estruturas repetitivas. A í se exerce um
-
saber fazer onde se podem encontrar todos os traços da arte

164 165
da mem ó ria. Um só exemplo. De uma histó ria bem conhecida,
classificá vel portanto, um detalhe “ de circunstâ ncia ” pode
modificar radicalmente o alcance. “ Recitá-la " é jogar com esse
elemento a mais, escondido no estereótipo feliz do lugar
comum. O “ nada fixado no quadro que lhe serve de suporte faz
que esse lugar produza outros efeitos. Quem tem ouvidos para
ouvir , que ouça! O ouvido apurado sabe discernir no dito aquilo
-
que a í é marcado de diferente pelo ato de dizê (lo) aqui e agora,
1/
e n ão se cansa de prestar atenção a essas habilidades astuciosas
do contador."
Será preciso determinar melhor os giros que mudam em
ocasiões as histórias do legend á rio coletivo ou da conversa ção TERCEIRA PARTE
cotidiana e que dependem numa grande parte da retó rica, uma
vez mais.13 Mas já se pode ter como hipótese inicial que, na arte
de contar as maneiras de fazer, estas se exercem por si mesmas.
É també m exemplar que Detienne e Vernant se tenham feito
os contadores dessa “ inteligê ncia em dédalos", na feliz expres - Práticas de espaço
são de Fran çoise Frontisi. Essa prá tica discursiva da história
é ao mesmo tempo a sua arte e o seu discurso.
No fundo, tudo isso é uma história muito antiga. O velho
Aristó teles, que não faz precisamente o papel de um dançarino
de corda , gostava de se perder no mais labiríntico e no mais
sutil dos discursos. Tinha então a idade da métis: “ Quanto mais
solitá rio e isolado me torno, tanto mais gosto das histó rias”.15
E dera admiravelmente a raz ão para isso: como no velho Freud ,
era uma admira çã o de conhecedor pelo tato compositor de
harmonia e por sua arte de fazê-lo de surpresa: “ o amante do
mito é em certo sentido um amante da sabedoria , pois o mito
se comp õ e de admirações”.16

166
1/
CAP ÍTULO VII

CAMINHADAS PELA CIDADE

Do 1102 andar do World


Voyeurs ou caminhantes Trade Center, verManha-
tan . Sob a bruma varrida
pelo vento, a ilha urbana,
mar no meio do mar, acorda os arranha-cé us de Wall Street,
abaixa-se em Creenwich , levanta de novo as cristãs de Midtown,
aquieta-se no Central Park e se encapela enfim para lá do
Harlem. Onda de verticais. A gigantesca massa se imobiliza sob
o olhar. Ela se modifica em texturologia onde coincidem os
extremos da ambi ção e da degradaçã o, as oposições brutais de
ra ças e estilos, os contrastes entre os prédios criados ontem,
agora transformados em latas de lixo, e as irrupções urbanas
do dia que barram o espaço. Diferente neste ponto de Roma,
Nova Iorque nunca soube a arte de envelhecer curtindo todos
os passados. Seu presente se inventa , de hora em hora, no ato
de lançar o que adquiriu e de desafiar o futuro. Cidade feita de
lugares paroxísticos em relevos monumentais. O espectador

169
pode ler a í um universo que se ergue no ar. Ali se escrevem as
deuses. Será que hoje a$ coisas se passam de outro modo, agora
que processos técnicos organizaram um “ poder onividente" ?3
figuras arquitetó nicas da coincidatio oppositorum antigamen-
te esboçada em miniaturas e texturas m ísticas. Neste palco de
O olho totalizador imaginado pelos pintores de antanho sobre -
vive em nossas realizações. A mesma pulsão escó pica frequenta
concreto, de aço e vidro , que uma á gua fria corta entre dois os usuários das produ ções arquitetônicas materializando hoje
oceanos ( o atlâ ntico e o americano), os caracteres mais altos
do globo compõem uma gigantesca retó rica de excessos no a utopia que ontem era apenas pintada. A torre de 420 metros
gasto e na produ çã o. i
que serve de proa a Manhattan continua construindo a ficção
que cria leitores, que muda em legibilidade a complexidade da
A que eró tica do saber se liga o êxtase de ler tal cosmos? cidade e fixa num texto transparente a sua opaca mobilidade.
Apreciando-o violentamente, pergunto-me onde se origina o A imensa texturoiogia que se tem sob os olhos seria ela
prazer de “ver o conjunto ”, de superar, de totalizar o mais outra coisa senã o uma representa ção, um artefato ótico? É o
desmesurado dos textos humanos. Subir até o alto do World -
análogo do fac sí mile produzido, graças a uma projeção que é
Trade Center é o mesmo que ser arrebatado até ao dom ínio da uma espécie de colocação à distâ ncia, pelo administrador do
cidade. O corpo n ã o está mais enla çado pelas ruas que o fazem espa ço, o urbanista ou o cartógrafo. A cidade- panorama é um
rodar e girar segundo uma lei an ó nima; nem possu ído, jogador simulacro “ teórico ” (ou seja, visual ), em suma um quadro que
ou jogado, pelo rumor de tantas diferen ças e pelo nervosismo tem como condi ção de possibilidade um esquecimento e um
do tráfego nova-iorquino. Aquele que sobe até lá no alto foge desconhecimento das prá ticas. O deus voyeur criado por essa
à massa que carrega e tritura em si mesma toda identidade de ficção e que, como o de Schreber, só conhece os cadá veres,4
autores ou de espectadores. ícaro, acima dessas á guas , pode
agora ignorar as ast ú cias de Dédalo em labirintos m óveis e sem
deve excluir-se do obscuro entrela çamento dos comportamen -
tos do dia-a-dia e fazer-se estranho a eles.
fim. Sua elevação o transfigura em voyeur. Coloca-o à distâ ncia.
Muda num texto que se tem diante de si, sob os olhos, o mundo Mas “ embaixo” (down ), a partir dos limiares onde cessa a
que enfeiti çava e pelo qual se estava “ possu ído". Ela permite visibilidade, vivem os praticantes ordin á rios da cidade. Forma
.
lê-lo, ser um Olho solar, um olhar divino Exaltaçã o de uma elementar dessa experiê ncia , eles são caminhantes, pedestres,
pulsã o escó pica e gn óstica. Ser apenas este ponto que vê, eis Wandersmãnner , cujo corpo obedece aos cheios e vazios de
a ficção do saber. -.
um “ texto” urbano que escrevem sem poder lê lo Esses prati-
cantes jogam com espaços que n ão se veem; têm dele um
Ser á necessá rio depois cair de novo no sombrio espaço
onde circulam multid ões que, vis íveis lá do alto, embaixo não
-
conhecimento tão cego como no corpo a-corpo amoroso. Os
caminhos que se respondem nesse entrelaçamento, poesias
vêem ? Queda de ícaro. No 1109 andar , um cartaz, semelhante ignoradas de que cada corpo é um elemento assinado por
a uma esfinge, propõe um enigma ao pedestre por instantes muitos outros, escapam à legibilidade. Tudo se passa como se
transformado em vision á rio: It’s hard to be down when you’re uma espécie de cegueira caracterizasse as prá ticas organizado -
up. ras da cidade habitada.5 As redes dessas escrituras avançando
A vontade de ver a cidade precedeu os meios de satisfaz ê-la. e entrecruzando-se compõem uma histó ria m ú ltipla, sem autor
As pinturas medievais ou renascentistas representavam a cida- nem espectador, formada em fragmentos de trajetó rias e em
de vista em perspectiva por um olho que no entanto jamais altera ções de espaços: com relação às representa ções, ela
existira até entã o . ” Elas inventavam ao mesmo tempo a visão permanece cotidianamente, indefinidamente, outra.
do alto da cidade e o panorama que ela possibilitava . Essa ficçã o
já transformava o espectador medieval em olho celeste. Fazia

170 171
Escapando às totaliza ções imagin á rias do olhar, existe uma 1. a produ ção de um espa ço pró prio: a organiza çã o racio-
estranheza do cotidiano que não vem à superf ície, ou cuja nal deve portanto recalcar todas as polui ções f ísicas, mentais
superf ície é somente um limite avançado, um limite que se ou polí ticas que a comprometeriam ;
.
destaca sobre o vis ível Neste conjunto, eu gostaria de detectar -
2. estabelecer um não tempo ou um sistema sincrônico,
prá ticas estranhas ao espaço “geomé trico” ou “ geográfico" das para substituir as resist ê ncias inapreens íveis e teimosas das
constru ções visuais, panópticas ou teó ricas. Essas prá ticas do tradiçõ es: estratégias científicas un ívocas, possibilitadas pela
espaço remetem a uma forma específica de “ opera ções” ( “ ma- redu ção niveladora de todos os dados, devem substituir as
6
neiras de fazer ” ), a “ uma outra espacialidade ” ( uma experi ê n- tá ticas dos usu á rios que astuciosamente jogam com as “ oca-
cia “ antropológica ” , poé tica e m ítica do espaço) e a uma -
siões” e que, por esses acontecimentos armadilhas, lapsos da
mobilidade opaca e cega da cidade habitada. Uma cidade visibilidade, reintroduzem por toda a parte as opacidades da
-
transumanle , ou metaf órica , insinua se assim no texto claro da histó ria ;
cidade planejada e visível. 3. enfim , a cria çã o de um sujeito universal e an ó nimo que
é a pró pria cidade: como a seu modelo político, o Estado de
Hobbes, pode-se atribuir -lhe pouco a pouco todas as fun ções e
1. DO CONCEITO DE CIDADE ÀS PRÁTICAS URBANAS predicados até entã o disseminados e atribu ídos a m ú ltiplos
sujeitos reais, grupos, associa ções, indiv íduos. “ A cidade", à
0 World Trade Center é somente a mais monumental das maneira de um nome pr ó prio, oferece assim a capacidade de
figuras do urbanismo ocidental. A atopia-utopia do saber ótico
conceber e construir o espa ço a partir de um n ú mero finito de
leva consigo h á muito tempo o projeto de superar e articular propriedades está veis, isoláveis e articuladas uma sobre a
as contradi ções nascidas da aglomeração urbana. Trata se de - outra. Nesse lu | ar organizado por opera ções “especulativas ” e
gerir um aumento da cole ção ou ac ú mulo humano. “ A cidade 8
classificatórias, combinam -se gestão e elimina ção. De um lado,
é um grande mosteiro ”, dizia Erasmo. Vista perspectiva e vista existem uma diferencia çã o e uma redistribui çá o das partes em
prospectiva constituem a dupla projeçã o de um passado opaco fun çã o da cidade , gra ças a inversões, deslocamentos, acú mulos ,
e de um futuro incerto numa superf ície tratá vel. Elas inaugu-
ram ( desde o século XVI ? ) a transforma ção do fato urbano em
-
etc.; de outro lado, rejeita se tudo aquilo que n ã o é tratá vel e
constitui portanto os “ detritos ” de uma administra çã o funcio-
conceito de cidade. Muito antes de o pró prio conceito destacar nalista (anormalidade , desvio, doença, morte etc.). Certamente,
uma figura da histó ria , ele supõe que este fato seja tratá vel com o progresso permite reintroduzir uma proporção sempre maior
uma unidade que depende de uma racionalidade urbanística. de detritos nos circuitos da gestã o e transforma os pró prios
A aliança da cidade e do conceito jamais os identifica mas joga d éficits ( na sa ú de, na seguridade social etc.) em meios de
com sua progressiva simbiose: planejar a cidade é ao mesmo densificar as redes da ordem. Mas. de fato, n ã o cessa de
tempo pensar a pró pria pluralidade do real e dar efetividade produzir efeitos contr á rios à quilo que visa: o sistema do lucro
a este pensamento do plural: é saber e poder articular. gera uma perda que, sob as m ú ltiplas formas da misé ria fora
A “ cidade" instaurada pelo dele e do desperd ício dentro dele, inverte constantemente a
Vm conceito operat ório? discurso utó pico e urban ís- produçã o em “ gasto ” ou “despesa ”. Alé m disso, a racionaliza-
tico ' é definida pela possibí- çã o da cidade acarreta a sua mitificação nos discursos estraté-
lidade de uma tr íplice opera ção: .
gicos cá lculos baseados na hipó tese ou na necessidade de sua
9
destruição por uma decisão final. Enfim , a organiza çã o funcio -

172 173
nalista , privilegiando o progresso (o tempo), faz esquecer a sua outro caminho: analisar as prá ticas microbianas, singulares e
condiçã o de possibilidade , o pr ó prio espaço, que passa a ser o plurais, que um sistema urban ístico deveria administrar ou
nã o-pensado de uma tecnologia cient ífica e pol ítica. Assim suprimir e que sobrevivem a seu perecimento; seguir o pulular
-
funciona a Cidade conceito, lugar de transformações e apropri- desses procedimentos que , muito longe de ser controlados ou
ações, objeto de interven ções mas sujeito sem cessar enrique - eliminados pela administração panóptica, se reforçaram em
cido com novos atributos: ela é ao mesmo tempo a maquinaria uma proliferação ilegitimada, desenvolvidos e insinuados nas
e o herói da modernidade. redes da vigilâ ncia, combinados segundo táticas ilegíveis mas
Hoje , sejam quais forem os avatares desse conceito, temos está veis a tal ponto que constituem regulações cotidianas e
de constatar que se , no discurso, a cidade serve de baliza ou criatividades sub-reptícias que se ocultam somente graças aos
marco totalizador e quase m ítico para as estratégias sócio-eco - dispositivos e aos discursos, hoje atravancados, da organização
nô micas e pol í ticas, a vida urbana deixa sempre mais remontar observadora.
à quilo que o projeto urban ístico dela exclu ía. A linguagem do Esse caminho poderia inscrever-se como uma sequência,
poder “ se urbaniza ” , mas a cidade se vê entregue a movimentos mas també m como a rec í proca da an á lise que Michel Foucault
contraditó rios que se compensam e se combinam fora do poder fez das estruturas do poder . Ele deslocou para os dispositivos
panó ptico. A Cidade se torna o tema dominante dos legend á rios e os procedimentos técnicos “ instrumentalidades menores”
pol í ticos, mas n ã o é mais um campo de operações programadas capazes, peia mera organiza çã o dos “ detalhes”, de transformar
e controladas. Sob os discursos que a ideologizam , proliferam uma multiplicidade humana em sociedade “ disciplinar ” e de
as ast úcias e as combinações de poderes sem identidade, legível, gerir, diferenciar, classificar, hierarquizar todos os desvios
sem tomadas apreensíveis, sem transparência racional - impos- concernentes à aprendizagem, sa úde, justiça, for ças armadas
.
s íveis de gerir ou trabalho.10 “ Essas ast ú cias muitas vezes min ú sculas da
disciplina ”, maquinarias “ menores mas sem falha ”, tiram sua
-
A cidade conceito se degrada.
eficácia de uma rela çã o entre processos e o espaço que redis-
O retomo das práticas Isto significaria que a enfermi- tribuem para produzir um “ operador ”. Mas a esses aparelhos
dade que afeta a razão que a produtores de um espa ço disciplinar, que práticas do espaço
instaurou e seus profissionais correspondem, do lado onde se joga ( com ) a disciplina? Na
é igualmente a das popula ções urbanas? Talvez as cidades se conjuntura presente de uma contradi çã o entre o modo coletivo
estejam deteriorando ao mesmo tempo que os procedimentos
da gestão e o modo individual de uma reapropriação, nem por
que as organizaram . Mas é necessá rio desconfiar de nossas
isso essa pergunta deixa de ser essencial , caso se admita que
an á lises. Os ministros do saber sempre supuseram o universo as prá ticas do espa ço tecem com efeito as condições determi-
amea çado pelas mudan ças que abalam as suas ideologias e os
nantes da vida social. Eu gostaria de acompanhar alguns dos
seus lugares. Mudam a infelicidade ou a ru í na de suas teorias procedimentos - multiformes, resistentes, astuciosos e teimo-
em teorias da ru í na . Quando transformam em " catástrofes ” os
sos - que escapam à disciplina sem ficarem mesmo assim fora
seus erros e extravios, quando querem aprisionar o povo no do campo onde se exerce, e que deveriam levar a uma teoria
"p
â nico” de seus discursos, ser á necessá rio, mais uma vez, que das prá ticas cotidianas, do espaço vivido e de uma inquietante
tenham razão?
familiaridade da cidade.
Ao invés de permanecer no terreno de um discurso que
manté m o seu privilégio invertendo o seu conte ú do ( que fala
de catástrofe e n ão mais de progresso), pode-se enveredar por

174 175
.
2 A FALA DOS PASSOS PERDIDOS
Enunciações pedestres
Uma comparação com o ato
de falar permite ir mais lon-
" Reconhece** a deusa por seu passo" * ge12 e não se limitar somente
à crí tica das representações
VJRC ÍLIO gráficas, visando, nos limites da legibilidade, um inacessível
Eneida, Ir 40S além. O ato de caminhar está para o sistema urbano como a
enuncia ção (o speech ací ) está para a l íngua ou para os
enunciados proferidos.13 Vendo as coisas no nível mais elemen-
tar, ele tem com efeito uma tríplice função “enunciativa ”: é um
Essa hist ó ria começa ao rés do ch ão, com passos. São eles processo de apropriação do sistema topográ fico pelo pedestre
o n ú mero, mas um n ú mero que n ão constitui uma série. Não (assim como o locutor se apropria e assume a l íngua ); é uma
se pode contá-lo, porque cada uma de suas unidades é algo realização espacial do lugar ( assim como o ato de palavra é
qualitativo: um estilo de apreensão tá ctil de apropriaçã o cine-
uma realizaçã o sonora da l íngua ); enfim , implica relações entre
sí ca . Sua agita çã o é um inumerá vel de singularidades. Os jogos posi ções diferenciadas, ou seja , “ contratos ” pragm á ticos sob a
dos passos moldam espa ços. Tecem os lugares. Sob esse ponto forma de movimentos (assim como a enunciaçã o verbal é
de vista as motricidades dos pedestres formam um desses
,
“ alocuçã o ”, “ coloca o outro em face ” do locutor e põe em jogo
“ sistemas reais cuja existê ncia faz efetivamente a cidade” , mas 14
contratos entre colocutores). 0 ato de caminhar parece por-
11
“ n ão cê m nenhum receptáculo f ísico ”. Elas não se localizam ,
tanto encontrar uma primeira definição como espaço de enun-
mas são elas que espacializam . Nem tampouco se inscrevem cia ção.
em um continente como esses caracteres chineses esboçados
pelos falantes, fazendo gestos com os dedos tocando na mão. Poder-se-ia aliás estender essa problemá tica às rela ções que
Certamente, os processos do caminhar podem reportar se - o ato de escrever manté m com o escrito, e até mesmo transpô-la
em mapas urbanos de maneira a transcrever-lhes os traços ( aqui para as relações do “ toque ” ( o/a gesto/a do pincel ) com o
quadro executado (formas, cores etc.). Isolado primeiro no
densos, ali mais leves ) e as trajetórias ( passando por aqui e não
por lá ). Mas essas curvas em cheios ou em vazios remetem campo da comunica ção verbal, a enuncia ção teria a í apenas
somente, como palavras, à ausê ncia daquilo que passou. Os uma de suas aplicações, e sua modalidade lingu ística seria
destaques de percursos perdem o que foi; o pró prio ato de apenas o primeiro ponto de referência de uma distinção muito
passar a operaçã o de ir, vagar ou “ olhar as vitrines”, noutras mais geral entre as formas empregadas num sistema e os
palavras, a atividade dos passantes é transposta em pontos que modos de usar esse sistema , isto é, entre dois “ mundos dife-
compõ em sobre o plano uma linha totalizante e revers ível. Só rentes”, pois “as mesmas coisas” são a í consideradas segundo
se deixa então captar um resíduo colocado no nã o-tempo de formalidades contrá rias. Considerada atrav és desse prisma, a
uma superf ície de proje ção. Visível, tem como efeito tomar enunciaçã o pedestre apresenta três característlcas que de saída
invis ível a opera ção que a tornou possível . Essas fixações a distinguem do sistema espacial: o presente, o descont ínuo, o
constituem procedimentos de esquecimento. O traço vem subs- “ f á tico”.
tituir a prá tica . Manifesta a propriedade ( voraz) que o sistema Em primeiro lugar, se é verdade que existe uma ordem
geogr á fico tem de poder metamorfosear o agir em legibilidade, espacial que organiza um conjunto de possibilidades ( por
mas a í ela faz esquecer uma maneira de estar no mundo. exemplo, por um local por onde é permitido circular) e proibi-
ções ( por exemplo, por um muro que impede prosseguir ), o

176 177
caminhante atualiza algumas delas. Deste modo, ele tanto as organicidade móvel do ambiente, uma sucessã o de topoi fá ti-
faz ser como aparecer. Mas també m as desloca e inventa outras, cos. E se a função fá tica , esfor ço para assegurar a comunicação,
pois as idas e vindas, as varia ções ou as improvisa ções da já caracteriza a linguagem dos pássaros falantes como constitui
caminhada privilegiam, mudam ou deixam de lado elementos “a primeira função verbal a ser adquirida pelas crian ças”, não
espaciais. Assim Charlie Chaplin multiplica as possibilidades de é de causar espé cie que anterior ou paralela à elocu ção infor -
sua brincadeira : faz outras coisas com a mesma coisa e ultra - mativa, ela també m saltite , caminhe nas quatro patas, dance e
passa os limites que as determinações do objeto fixavam para passeie , pesada ou leve, como uma sequ ê ncia de “ alõ! ” em um
o seu uso. Da mesma forma , o caminhante transforma em outra labirinto de ecos.
coisa cada significante espacial. E se, de um lado, ele torna Da enuncia çã o pedestre que se destaca assim de sua
efetivas algumas somente das possibilidades fixadas pela ordem representaçã o no papel se poderiam analisar as modalidades,
constru ída (vai somente por aqui, mas n ão por l á), do outro isto é, os tipos de rela çã o que mantém com os percursos ( ou
aumenta o n ú mero dos possíveis ( por exemplo, criando atalhos “enunciados ” ) atribuindo- lhes um valor de verdade ( modalida -
ou desvios ) e o dos interditos ( por exemplo, ele se proíbe de ir t cas ” do necessá rio, do impossível , do possível ou do
des “ al éí
por caminhos considerados l ícitos ou obrigató rios). Seleciona contingente ), um valor cognitivo ( modalidades “ epistê micas ”
portanto. “0 usu á rio da cidade extrai fragmentos do enunciado do certo, do exclu ído, do plausível ou do contestável) ou enfim
para atualizá-los em segredo”.15 um valor concernente a um dever -fazer ( modalidades “deônti -
Cria assim algo descont í nuo, seja efetuando triagens nos cas" do obrigat ó rio, do proibido, do permitido ou do facultatí-
significantes da “ l íngua ” espacial , seja deslocando-os pelo uso vo ). A caminhada afirma, lan ça suspeita, arrisca, transgride,
que faz deles. Vota certos lugares à iné rcia ou ao desapareci
mento e, com outros, comp õ e “ torneios” espaciais “ raros",
- respeita etc., as trajet órias que “fala ”. Todas as modalidades
entram aí em jogo , mudando a cada passo, e repartidas em
“ acidentais ” ou ileg ítimos. Mas isso já introduz a uma retó rica proporções, em sucessões, e com intensidades que variam
da caminhada. conforme os momentos, os percursos, os caminhantes. Indefi-
No quadro da enunciação, o caminhante constitui, com nida diversidade dessas opera ções enunciadoras. Não seria
relação à sua posi çã o, um próximo e um distante, um cá e um portanto poss ível reduzi-las ao seu tra çado grá fico.
lá. Pelo fato de os advé rbios cá e lá serem precisamente, na
comunica ção verbal, os indicadores da instâ ncia locutora 16 -
As caminhadas dos pedes -
tres apresentam uma sé rie
coincid ê ncia que refor ça o paralelismo entre a enunciação Retóricas ambulat ó rias de percursos variá veis assi-
-
linguística e a enuncia ção pedestre deve-se acrescentar que milá veis a “ torneios” ou “ fi-
essa localização (cá lá ) necessariamente implicada pelo ato de guras de estilo ”. Existe uma
andar e indicativa de uma apropria ção presente do espaço por retó rica da caminhada. A arte de “ moldar” frases tem como
um “ eu ” tem igualmente por fun ção implantar o outro relativo equivalente uma arte de moldar percursos. Tal como a lingua -
a esse “ eu ” e instaurar assim uma articulaçã o conjuntiva e gem ordiná ria ,19 esta arte implica e combina estilos e usos. O
disjuntiva de lugares. Vou aqui destacar sobretudo o aspecto
“ fatico ' se entende por isso, isolada por Malinowsk í e Jakobson,
estilo especifica “ uma estrutura lingu ística que manifesta no
plano simb ólico (...) a maneira de ser no mundo fundamental
a fun çã o dos termos que estabelecem , mantê m ou interrompem 21
de um homem ’’ . Conota um singular. O uso define o fen ô meno
'

o contacto, como “ al õ ” , “ pois bem , pois bem ” etc.17 A caminha- social pelo qual um sistema de comunicação se manifesta de
da. que sucessivamente persegue e se faz perseguir, cria uma fato: remete a uma norma . O estilo e o uso visam, ambos, uma

178 179
‘ maneira de fazer ” (falar, caminhar etc.), mas um como trata - encontros de ocasiões sucessivas que nã o cessam de alterá la -
mento singular do simbólico, o outro como elemento de um e de usá- la como o brasão de outra , ou seja, o que carreia aquilo
código. Eles se cruzam para formar um estilo do uso, maneira que surpreende, atravessa ou seduz seus percursos. Esses
de ser e maneira de fazer.
21 vá rios aspectos instauram uma retó rica. Chegam mesmo a
defini-la.
Introduzindo a noçã o de uma “ retó rica habitante", via Analisando, atrav és dos relatos de prá ticas de espa ços, esta
fecunda aberta por A. M
A r >
édam, sistematizada por S. Ostrowets
A
- 28
“ arte moderna da expressã o cotidiana", J.-F. À ugoyard desco-
ky e J.- F. À ugoyard , supõe-se que os “ tropos” catalogados
bre a í sobretudo como fundamentais duas figuras de estilo: a
pela ret ó rica forneçam modelos e hipó teses à análise das
sin édoque e o assindeto. Esta predominâ ncia, creio eu, esboça
maneiras de se apropriar dos lugares. Dois postulados, ao que
a partir de seus dois pólos complementares uma formalidade
me parece, condicionam a validade dessa aplicação: dessas prá ticas. A sinédoque consiste em " empregar a palavra
1) supõe-se que as pr á ticas do espaço correspondam , elas num sentido que é uma parte de um outro sentido da mesma
tamb é m , a manipulações sobre os elementos de base de uma 29
palavra ” Essencialmente, ela designa uma parte no lugar do
ordem constru í da ; 2 ) supõe-se que sejam , como os tropos da todo que a integra . Assim , “ cabeça ” é usada no lugar de
retó rica , desvios relativos a uma espécie de “sentido literal ” “ homem ”, na expressã o: “ Ignoro o paradeiro de uma cabeça
definido pelo sistema urban ístico. Haveria homologia entre as tã o querida ”. Da mesma forma , a cabana de alvenaria ou a
figuras verbais e as figuras ambulatórias ( destas ú ltimas já se pequena elevaçã o de terreno é tomada como o parque na
teria uma seleção estilizada com as figuras da dan ça ) enquanto narrativa de uma trajetória. 0 assindeto é supressão dos termos
umas e outras consistem em “ tratamentos” ou operações que de liga ção, conjunções e advé rbios, numa frase ou entre frases.
trabalham com unidades isolá veis25, e em “arranjos ambíguos” Do mesmo modo, na caminhada, seleciona e fragmenta o
que modificam e deslocam o sentido para uma equivocidade, espaço percorrido; ela salta suas liga ções e partes inteiras que
da mesma maneira que uma imagem que se mexe perturba e omite. Deste ponto de vista , toda caminhada continua saltando,
multiplica o objeto fotografado. Pode-se descobrir uma analo - saltitando , como a crian ça, “ num pé só” . Pratica a elipse de
gia sob esses dois modos. Vou acrescentar que o espaço lugares conjuntivos.
geom é trico dos urbanistas e dos arquitetos parece valer como
De fato, essas duas figuras ambulat órias remetem uma à
o “ sentido pr ó prio " constru ído pelos gramá ticos e pelos linguis-
outra. Uma dilata um elemento de espa ç o para lhe fazer
tas visando dispor de um n ível normal e normativo ao qual se
representar o papel de um “ mais ” ( uma totalidade ) e substitu í- lo
podem referir os desvios e variações do “ figurado”. De fato,
( o veloc í pede ou o m ó vel à venda vale por uma rua inteira ou
este “ pr ó prio” ( sem figura ) permanece n ão localizá vel no uso um bairro ). A outra , por elisã o, cria um “ menos”, abre ausê ncias
corrente, verbal ou pedestre; é apenas a ficção produzida por no continuum espacial e dele só reté m peda ços escolhidos, até
um uso també m particular , o uso metalingu ístico da ci ê ncia restos. Uma substitui as totalidades por fragmentos ( um menos
que se singulariza justamente por essa distinção.27
A gesta ambulató ria joga com as organizações espaciais,
em lugar de um mais ); a outra os desata suprimindo o conjun -
tivo e o consecutivo ( um nada em vez de alguma coisa ). Uma
por mais pan ó pt í cas que sejam: ela nã o lhes é nem estranha densifica: amplifica o detalhe e miniaturiza o conjunto. A outra
( n ã o se passa alhures ) nem conforme ( nã o recebe delas a sua
corta: desfaz a continuidade e desrealiza a sua verossimilhan ça.
identidadeI . A í ela cria algo sombrio e equ ívoco. Ela aí insinua O espa ç o assim tratado e alterado pelas prá ticas se transforma
a multid ã o de suas refer ê ncias e cita ções ( modelos sociais, usos em singularidades aumentadas e em ilhotas separadas. Por
30

culturais , coeficientes pessoais). A í ela mesma é o efeito de

180 181
essas incha ções, diminui ções e fragmentações, trabalho retóri- 3. M ÍTICAS: AQUILO QUE “ FAZ ANDAR ”
co, se cria um fraseado espacial de tipo antológico (composto
de citações justapostas) e d íptico ( faz buracos, lapsos e alu- As figuras desses movimentos (sinédoques, elipses etc.)
sões ) . Em vez do sistema tecnol ógico de um espa ço coerente e caracterizam ao mesmo tempo uma “ simbólica do inconscien -
totalizador, "ligado” e simultâneo, as figuras ambulatórias te ” e “ certos processos típicos da subjetividade manifestada no
introduzem percursos que tê m uma estrutura de mito, se ao discurso ”.33
A
34
similitude entre o “ discurso" e o sonho se
35

menos se entende por mito um discurso relativo ao lugar/não deve ao uso dos mesmos “ processos estilísticos”: ela abrange
lugar ( ou origem ) da exist ê ncia concreta, um relato bricolado portanto també m as pr á ticas comerciais. 0 “velho catá logo de
com elementos tirados de lugares-comuns, uma histó ria alusiva tropos” que, desde Freud até Benveniste, fornece um inventá-
e fragmentá ria cujos buracos se encaixam nas prá ticas sociais rio apropriado à retó rica dos dois primeiros registros de
que simboliza . expressã o, vale igualmente para o terceiro. Se existe paralelis-
As figuras são os gestos dessa metamorfose estilística do mo, não é apenas porque a enuncia ção domina nessas três
espaço. Ou antes, como afirma Rilke , “á rvores de gestos” em regiões, mas porque o seu desenrolar discursivo (verbalizado,
movimento. Mudam até de lugar os territórios fixos e maqui- sonhado ou andado) se organiza em relação entre o lugar de
-
nados do instituto médico pedagó gico onde crianças d é beis se
31 -
onde sai ( uma origem ) e o não lugar que produz ( uma maneira
põem a brincar e dan çar no celeiro suas “ histórias espaciais”. de " passar” ).
Essas á rvores de gestos se movimentam por toda a parte. Suas Deste ponto de vista, depois de ter aproximado das forma-
florestas caminham pelas ruas. Transformam a cena, mas nã o -
ções lingu ísticas os processos caminhatórios, pode se rebatê-los
podem ser fixadas pela imagem em um lugar. Se fosse neces-
para o plano das figura ções oníricas, ou ao menos descobrir
sá ria, apesar de tudo, uma ilustra ção, seriam as imagens-trâ n-
sito, caligrafias amarelo-verde e azul metal , que bradam sem
nessa outra face aquilo que numa prá tica do espaço é indisso -
ciável do lugar sonhado. Caminhar é ter falta de lugar. É o
gritar e listram os subsolos da cidade, “ bordados ” de letras e
processo indefinido de estar ausente e à procura de um pró prio.
n ú meros, gestos feitos de viol ências pintadas com pistolas,
A errâ ncia, multiplicada e reunida pela cidade, faz dela uma
xivas em escrituras, grafos dançantes, cujas fugidias aparições
são acompanhadas pelos ru ídos abafados dos trens do metrô:
-
imensa experi ê ncia social da privaçã o de lugar - uma experiên
cia, é verdade, esfarelada em deportações inumerá veis e ínfimas
os graffiti de Nova Iorque. ( deslocamentos e caminhadas), compensada pelas relações e os
Se é verdade que as florestas de gestos manifestam, então cruzamentos desses êxodos que se entrelaçam, criando um
sua caminhada não poderia ser detida num quadro, nem o tecido urbano, e posta sob o signo do que deveria ser, enfim,
sentido dos seus movimentos circunscrito num texto. A sua o lugar, mas é apenas um nome, a Cidade. A identidade
transum â ncia ret ó rica traz e leva os sentidos pró prios anal íticos fornecida por esse lugar é tanto mais simbólica ( nomeada )
e coerentes do urbanismo: é uma “ errâ ncia do sem â ntico”,32 quanto, malgrado a desigualdade dos títulos e das rendas entre
produzida por massas que fazem desaparecer a cidade em habitantes da cidade, existe somente um pulular de passantes,
certas regi ões, exageram - na em outras, distorcem- na, fragmen - uma rede de estadas tomadas de empréstimo por uma circula-
tam e alteram sua ordem no entanto im óvel. ção, uma agitação atrav és das apar ê ncias do pr ó prio, um
-
universo de loca ções frequentadas por um não lugar ou por
lugares sonhados.

182 183
0 que é que soletram então? Postas em constelações que
Um ind ício da relação que as prá- hierarquizam e ordenam semanticamente a superf ície da cida-
Nomes e sí mbolos ticas do espaço mantê m com essa de, operadoras de arranjos cronol ógicos e legitimações históri-
ausência é precisamente forneci- cas, estas palavras ( Borrego, Botzaris, Bougainville... ) perdem
do por seus jogos sobre e com os aos poucos o seu valor gravado, como moedas gastas, mas a
nomes “ próprios”. As relações do sentido da caminhada com o sua capacidade de significar sobrevive à sua determinaçã o
sentido das palavras situam duas espécies de movimentos primeira. Saints-Pères, Corentin, Celton, Place Rouge. Elas se
aparentemente contrários, um de exterioridade (caminhar é
oferecem às polissemias que lhes atribuem os passantes: desta-
sair); o outro, interior ( uma mobilidade sob a estabilidade do cam-se dos locais que se julgava definissem e servem de locais
significante ) . A caminhada obedece com efeito a tropismos
de encontros imaginários para viagens que, mudadas em metá-
sem â nticos; é atra ída ou repelida por denominações de sentidos foras, determinam por razões estranhas ao seu valor original
obscuros , ao passo que a cidade , esta sim , se transforma, para mas razões sabidas/não sabidas dos passantes. Estranha topo-
muitos , em um “ deserto” onde o insensato, ou mesno 0 ní mia, descolada dos lugares, pairando por cima da cidade
terrificante nã o tem mais a forma de sombras mas se torna,
,
como uma geografia nebulosa de “sentidos" à espera, e daí
como no teatro de Cenet, uma luz implacável , produtora do conduzindo as deambulações f ísicas: Place de VEtoile, Concor-
texto urbano sem obscuridade, criada em toda a parte por um de, Poissonnière. .. Essas constelações mediatizam circulações:
poder tecnocrá tico, que põe 0 habitante sob vigilância (de quê?
estrelas dirigindo itinerá rios. “ A Place de la Concorde nã o
nã o se sabe ): “ A cidade nos mantém sob o seu olhar, que não
existe - dizia Malaparte - é uma id é ia” . E mais que uma
se pode suportar sem vertigem ", diz uma moradora de Ru ão.36 “ ideia". Seria necessá rio multiplicar as compara çõ es para ex -
Nos espaços brutalmente iluminados por uma razão estranha, plicar os poderes mágicos de que dispõem os nomes pró prios.
os nomes pr ó prios cavam reservas de significações escondidas Parecem carregados pelas mãos viajoras que conduzem enfei-
e familiares. Eles “ fazem sentido”: noutras palavras, impulsio-
tando-as.
nam movimentos, à maneira de voca ções e chamados que
dirigem ou alteram 0 itinerá rio dando-lhe sentidos ( ou direções) Ligando gestos e passos, abrindo rumos e direções, essas
até então imprevis í veis. Esses nomes criam um não-lugar nos palavras operam ao mesmo tí tulo de um esvaziamento e de um
lugares: mudam -nos em passagens. desgaste do seu significado primá rio. Tornam-se assim espaços
liberados, ocupá veis. Uma rica indeterminação lhes vale, me-
Um amigo, habitante da cidade de Sèvres, se desvia em diante uma rarefa ção semâ ntica , a fun ção de articular uma
Paris para as ruas dos Santos-Padres e de Sèvres , ao passo que geografia segunda, poé tica, sobre a geografia do sentido literal ,
ele vai ver a mãe em outro bairro: esses nomes articulam uma proibido ou permitido. Insinuam outras viagens à ordem fun -
frase que seus pés constroem sem que saiba . Os n úmeros ( 112* cional ista e histórica da circulação. A caminhada as segue:
rue , ou 9 rue Saint-Charles ) magnetizam também trajetórias “ Preencho com um belo nome este enorme espaço vazio" . 8 O
assim como podem frequentar sonhos. Outra amiga circula de que faz andar sã o rel íquias de sentido e às vezes seus detritos,
novo sem saber pelas ruas que são nomeadas e que , por esse os restos invertidos de grandes ambi ções. Pequenos nadas,
fato. “ significam " para ela ordens ou identidades à maneira de ou quase-nadas simbolizam e orientam os passos. Nomes que
convocações e classifica ções; vai andando por caminhos sem no sentido preciso deixaram de ser “ pr ó prios".
nome e sem assinatura . É ainda para os nomes pró prios uma Nesses n úcleos simbolizadores se esboçam (e talvez se
maneira negativa de fazè- la andar .
fundam) trés funcionamentos distintos ( mas conjugados) das

185
184
rela ções entre prá ticas espaciais e prá ticas significantes: o num passado ou numa poética uma parte dos terrenos que são
crí vel, o memorável e o primitivo. Designam aquilo que reservados pelos promotores de razõ es técnicas e rentabiliza -
"autoriza ' ou ( faz possíveis ou críveis) as apropria ções espa-
1

ções financeiras.
ciais. aquilo que ali se repete ( ou se recorda ) de uma memó ria
silenciosa e fechada , e aquilo que aí se acha estruturado e não No fundo, os nomes próprios já são "autoridades locais”
cessa de ser marcado por uma origem in -fantil (in- fans ). Esses ou “superstiçõ es”. Por isso, costumam ser substitu ídos por
três dispositivos simbólicos organizam os topoi dos discursos n ú meros: nã o mais Opéra mas 073; n ã o mais Calvados, mas
sobre/da cidade (a legenda, a lembran ça e o sonho) de uma 14. O mesmo se dá com os relatos e a$ lendas que povoam o
maneira que escapa també m à sistematicidade urbanística. espaço urbano como habitantes de mais ou a mais. São o objeto
Pode se reconhecê -los já nas funções dos nomes pró prios: eles de uma caça às bruxas. somente pela lógica da tecnoestrutura.
tornam habit á vel ou cr ível o lugar que vestem com uma palavra Mas esse exterm ínio ( como o das á rvores, dos bosques e dos
41
( esvaziando-se do seu poder classificador, adquirem o de “ per- cantos onde vivem essas lendas), faz da cidade uma “ simbólica
mitir ” outra coisa ); lembram ou evocam os fantasmas ( mortos em sofrimento ”.42 Existe anula çã o da cidade habitável. Entã o,
supostamente desaparecidos) que ainda perambulam , escondi- como diz uma moradora de Ru ã o: aqui, “ n ão, n ã o h á nenhum
dos nos gestos e nos corpos que caminham ; e, enquanto lugar especial, só lá em casa , é tudo... N ão h á nada ” . Nada de
nomeiam, isto é, impõem uma injunção vinda do outro ( uma “ especial ”: nada de marcado, de aberto por uma lembran ça ou
histó ria ) e alteram a identidade funcionalista afastando-se dela, um conto, assinado por algo de outro. Só permanece cr ível a
criam no pr ó prio lugar essa erosão ou n ã o-lugar aí cavado pela gruta da casa , durante algum tempo ainda porosa a lendas ,
lei do outro. ainda penetrada por sombras . À parte isso, segundo outro
morador da cidade, “só há lugares onde não se pode crer em
Por um paradoxo apenas 43
mais nada!”
Críveis e memoráveis: aparente, o discurso que
a habitabilidade
Pela possibilidade que oferecem de esconder ricos sil ê ncios
leva a crer é aquele que e desfiar histó rias sem palavras, ou antes por sua capacidade
priva do que impõe, ou
de criar em toda a parte adegas e celeiros, as legendas ( lendas)
que jamais d á aquilo que promete. Muito longe de exprimir um
locais (legenda: aquilo que se deve ler, mas também aquilo que
vazio, de descrever uma falta , ele o cria. Dá lugar a um vazio.
se pode ler ) permitem saídas, meios de sair e de entrar e,
Deste modo, abre clareiras; “ permite ” que se faça o jogo num portanto, espa ços de habitabilidade. Sem d úvida o ato de
sistema de lugares definidos. “ Autoriza ” a produção de um caminhar e de viajar suprem sa ídas, idas e vindas, garantidos
espaço de jogo (Spielraum) num tabuleiro anal ítico e classifi- outrora por um legendário que agora falta aos lugares. A
cador de identidades. Torna o espa ço habitável . A este título, circula çã o f ísica tem a fun ção itinerante das “ supersti ções ” de
designo-o como “ autoridade local ”. É uma falha no sistema que
ontem ou de hoje. A viagem ( como a caminhada ) substitui as
satura de significados alguns lugares e os reduz a ele, a ponto legendas que abriam o espa ço para o outro. O que é que produz,
de torn á-lo “ irrespirá vel ”. Tend ê ncia sintomá tica , o totalitaris- finalmente, senão, por uma espécie de inversão, “ uma explora-
mo funcionalista (inclusive quando programa jogos e festas ) çã o dos desertos de minha memória ”, a volta a um exotismo
procura portanto eliminar essas autoridades locais, porque pró ximo pelas andan ças ao longe, e "a inven çã o” de relíquias
comprometem a univocidade do sistema. Ataca aquilo que
e lendas ( “ visões fugidias do campo francês”, “fragmentos de
iustamente chama superstições: camadas semâ nticas superer- 44
m úsica e de poesia ” ) , em suma , algo como um “ desenraiza-
rogató rias, que se insinuam , “ a mais ” e “ demais”,40 e alienam
mento nas suas origens ” ( Heidegger )? O que produz esse ex ílio

186 187
caminhante é muito precisamente o legend á rio que falta hoje dos bairros, das fam ílias ou dos indiv íduos, ao passo que a
no lugar pr ó ximo. É uma ficção que tem aliás a dupla caracte- boataria dos meios cobre tudo e, sob a figura da Cidade,
rística. como o sonho ou a retó rica pedestre, ser o efeito de palavra-chave de uma lei an ó nima , substituto de todos os
deslocamentos e de condensa ções45. Num corol á rio, pode se - nomes pr ó prios, apaga ou combate as superstições culpadas de
medir a importâ ncia dessas prá ticas significantes ( contar len - ainda lhe resistir.
das ) como prá ticas inventoras de espa ços. A dispersã o dos relatos indica já a do memor á vel. De fato,
Vendo as coisas desse ponto de vista, os seus conte ú dos a mem ó ria é o antimuseu: ela n ão é localizá vel. Dela saem
s bastante reveladores, e mais ainda o princípio que as
ã o clarões nas lendas. Os objetos também , e as palavras, são ocos.
organiza . Os relatos de lugares sã o bricolagens. São feitos com A í dorme um passado, como nos gestos cotidianos de caminhar,
res í duos ou detritos de mundo. Mesmo que a forma literá ria e comer , deitar-se , onde dormitam revoluções antigas. A lembran -
o esquema actandal das “ superstições” respondam a modelos ça é somente um pr íncipe encantado de passagem , que desper
está veis, cujas estruturas e combinações de uns trinta anos para ta , um momento, a Bela-Adormecida- no- Bosque de nossas
cá já foram bem estudadas, o material ( todo o detalhe retó rico histó rias sem palavras. " Aqui, aqui era uma padaria ”; " ali
-
da " manifesta çã o” ) é lhe fornecido pelos restos de denomina - morava a mere Dupuis ” . O que impressiona mais. aqui, é o fato
ções. de taxinomias, de predicados heroicos ou cómicos etc., de os lugares vividos serem como presen ças de ausê ncias. O
ou seja , por fragmentos de lugares sem â nticos dispersos. Esses que se mostra designa aquilo que n ã o é mais: “ aqui vocês vêem ,
elementos heterogé neos, ou at é contrá rios à s vezes, preenchem aqui havia..” , mas isto nã o se vê mais. Os demonstrativos dizem
a forma homogé nea do relato. Algo do mais e do outro do visível suas invisíveis identidades: constitui a pr ó pria defini-
( detalhes e acréscimos provenientes de outro lugar ) se insinua ção do lugar, com efeito, ser esta sé rie de deslocamentos e de
no quadro recebido, ordem imposta. Tem-se assim a pró pria efeitos entre os estratos partilhados que o compõem e jogar
rela çã o das prá ticas do espaço com a ordem constru ída. Em com essas espessuras em movimento.
sua superf í cie, esta ordem se apresenta por toda a parte furada “ Estamos ligados a este lugar pelas lembranças... É pessoal,
e cavada por elipses, variações e fugas de sentido; é uma isto n ã o interessaria a ningué m, mas enfim é isso que faz o
ordem -coador. As rel íquias verbais de que se compõe o relato, esp í rito de um bairro” 48. Só há lugar quando frequentado por
ligadas a hist ó rias perdidas e a gestos opacos, sã o justapostas esp í ritos m ú ltiplos, ali escondidos em sil ê ncio, e que se pode
numa colagem em que suas rela ções não sã o pensadas e “ evocar " ou nã o . Só se pode morar num lugar assim povoado
formam , por esse fato, um conjunto simb ó lico46. Elas se articu-
lam por lacunas. Produzem portanto, no espaço estruturado
-
de lembranças esquema inverso daquele do Panopticon. Mas
assim como as esculturas reais g óticas de Notre - Dame , guarda-
do texto, ant í textos, efeitos de dissimulação e de fuga , possibi- dos h á dois séculos no subsolo de um im ó vel da rua de la
4 il
lidades de passagem a outras paisagens, como subterrâ neos e Chaussée -d’Antin , esses “ esp í ritos” , també m quebrados, n ã o
falam nem tampouco vêem . É um saber que se cala. Daquilo
A
arbustos: “ ó maci ços, ó plurais!” Pelos processos de dissemi -
na çã o que abrem os relatos se opõem ao boato , porque o boato
, que se sabe mas se cala , só circulam “ entre n ós” meias- palavras.
e sempre injuntivo. instaurador e consequ ê ncia de um nivela - .
Os lugares são hisiona; fragmentá rias e isoladas em si, dos
mento do espa ço criador de movimentos comuns que reforçam
,
passados roubados à legibilidade por outro, tempos empilhados
uma ordem acrescentando um fazer -crer ao fazer-fazer . Os que podem se desdobrar mas que estão ali antes como histó rias
relatos diversificam os boatos totalizam . Se h á sempre oscila
,
- à espera e permanecem no estado de quebra-cabeças, enigmas,
çã o de uns para os outros, parece que h á sobretudo estratifica - enfim simboliza ções enquistadas na dor ou no prazer do corpo.
çã o , boie: os relatos se privatizam e se escondem nos cantos

188 189
„50 necessária com o objeto desaparecido, é uma “estrutura espa-
"Gosto muito de estar aqui! é uma prá tica do espaço este
bem-estar tranquilo sobre a linguagem onde se traça, um cial original ”.
instante, como um dar ã o. Sem d ú vida, pode-se fazer essa diferencia ção remontar
ainda mais acima, até a nomea ção que já separa da mã e o feto
identificado como masculino ( mas como fica a menina, intro-
Infâncias e metá foras de lugares duzida desde esse momento em uma outra relação com o
espaço?). O que importa neste jogo de iniciação como na
-A metáfora é a transposi ção para uma coisa <4 o nome
.
que designa uma outra diferente ”
“ pressa jubilatória ” da criança que, diante do espelho, se
reconhece um (é ele, totalizável), mas nã52 o é senão o outro { isto,
uma imagem com a qual se identifica , é o processo dessa
)
Aristòteles “ captação espacial " que inscreve a passagem ao outro como a
.
Poético 1457 b lei do ser e a do lugar. Praticar o espaço é portanto repetir a
experiê ncia jubilatória e silenciosa da inf â ncia. É, no lugar , ser
outro e passar ao outro.
Assim começa a caminhada que Freud compara ao ato de
O memorá vel é aquilo que se pode sonhar a respeito do pisar o solo da terra-mãe . Essa rela çã o de uma pessoa consigo
53
lugar. Já nesse lugar palimpsesto, a subjetividade se articula
mesma comanda as alterações internas do lugar (os jogos entre
sobre a ausê ncia que a estrutura como existê ncia e a faz “ser-aí”
( .Dasein ). Mas, como já se viu, este ser-aí só se exerce em
suas camadas ) ou os desdobramentos caminheiros das histó rias
empilhadas num lugar (das circulações e viagens). A infâ ncia
prá ticas do espaço, ou seja, em maneiras de passar ao outro.
que determina as prá ticas do espaço desenvolve a seguir os
A í se deve enfim reconhecer a repetição, em metá foras diversas,
de uma experi ê ncia decisiva e originá ria, a diferenciação que
seus efeitos, prolifera, inunda os espaços privados e p ú blicos,
desfaz as suas superf ícies legíveis e cria na cidade planejada
ocorre quando a crian ça percebe ser outro corpo que o da mãe.
A í se inaugura a possibilidade do espaço e de uma localização
uma cidade “ metafórica ” ou em deslocamento, tal como a
( um “ nã o tudo” ) do sujeito. Sem voltar à famosa aná lise de
sonhava Kandinsky: " uma enorme cidade construída segundo
todas as regras da arquitetura54e de repente sacudida por uma
Freud, estudando essa experiê ncia matricial na brincadeira de
força que desafia os cálculos" .
seu netinho, com um ano e meio, que jogava para longe uma
- -
bobina com um o o-o o de contentamento { fort, para “ lá ”, “foi
embora ” ou “ n ã o pôde ” ) e a trazia de volta puxando o fio com
um alegre da ( para “ aqui ”, “de volta ” )51, basta conservar esse
-
ato de arrancar se ( perigoso e satisfeito ) à indiferenciaçã o no
corpo materno que tem na bobina um substituto: essa sa ída da
m ãe (que sucessivamente a criança faz desaparecer e aparecer )
constitui a localização e a exterioridade sobre um fundo de
ausê ncia . A manipulação jubilató ria que permite ao objeto
materno “ partir ” e se esconder (enquanto id ê ntico a esse
objeto ), de estar ai ( porque) sem o outro mas numa relação

190 191
1/
CAP ÍTULO VIU

NAVAL E CARCERÁ RIO

Um viajante isolado na cabina. Im óvel, no vagão, vendo


deslizar coisas imóveis. Que acontece? Nada se mexe nem
dentro nem fora do trem.
Imutável, o viajante est á alojado no compartimento, nume-
rado e controlado no tabuleiro do vagão, esta realização
perfeita da utopia racional. A vigilâ ncia e o alimento ali circu-
lam de casa em casa: “ Bilhete, faz favor!”... “Sandu íche? Cerve-
ja ? Cate?...” Somente os WC abrem uma porta para a fuga no
sistema fechado. É o fantasma dos amantes , a sa ída dos doentes,
-
a escapató ria das crian ças (“ xixi!" um cantinho de irracional,
como o eram os amores e esgotos nas Utopias antigas. Mas
pondo de lado esse lapso abandonado aos excessos, tudo é bem
minuciosamente mapeado. Só viaja uma célula racionalizada.
Uma bolha do poder pan óptico e classificador, um mó dulo do
isolamento que torna possível a produ çã o de uma ordem , uma
insularidade fechada e autó noma , eis o que pode atravessar o

193
espaço e se tornar independente das ra ízes locais. Dentro, a em frente , este nã o é teu país, nem aquele tampouco - impera-
imobilidade de uma ordem. Aqui reinam o repouso e o sonho. tivo do desapego que obriga a pagar o preço de um abstrato
Não há nada a fazer, a pessoa se acha no estado de razão. Aí
cada coisa está no seu lugar como na Filosofia do Direito de
dom ínio ocular do espaço deixando todo lugar pró prio, perden -
do o pé. A vidra ça e a linha fé rrea repartem de um lado a
Hegel. Cada ser é colocado ali como um caráter tipográfico em interioridade do viajante, narrador putativo e, do outro, a força
uma pá gina militarmente alinhada. Esta ordem , sistema orga - de sê-lo, constitu ído em objeto sem discursos, poder de um
nizacional, quietude de uma razã o, é para o vagã o como para silêncio exterior. Mas, paradoxo, é o silê ncio dessas coisas
o texto a condi ção de sua circulação. colocadas à distância, por trás da vidraça que, de longe, faz as
Fora, uma outra imobilidade, a das coisas, montanhas nossas memórias falarem ou tira da sombra os sonhos de
solenes, extensões verdes, aldeias sossegadas, colunatas de nossos segredos. O isolador produz pensamentos com separa -
prédios, negras silhuetas urbanas contra a rosa do entardecer, ções. A vidra ça e o aço criam especulativos ou gnósticos. É
brilhos e luzes noturnas em um mar de antes ou depois de necessá rio esse corte, para que nasçam , fora dessas coisas mas
nossas histórias. O trem generaliza a Melancolia de Duhrer, não sem elas, as paisagens desconhecidas e as estranhas fá bulas
experiê ncia especulativa do mundo: estar fora dessas coisas que de nossas histórias interiores.
a í estã o, destacadas, absolutas, e que nos deixam sem se A divisão é a ú nica que faz barulho. À medida que vai
importar conosco ; ser privado delas , surpreendido com sua avançando e criando dois sil ê ncios invertidos, o corte escande,
ef é mera e tranquila estranheza. Encantamento no abandono. assobia ou geme. Os trilhos batem , há vibratos de vidraças -
E no entanto elas n ã o se mexem. Elas não tê m movimento a atrito de espa ços nos pontos evanescentes de suas fronteiras.
não ser aquele provocado entre suas massas pelas modificações Essas junções nã o têm lugar. São marcadas em gritos de
de perspectiva , momento após momento; mutações que dã o a passagens, em ru ídos de instantes. Ilegíveis, as fronteiras não
impressão de realidade. Como eu, elas n ã o mudam de lugar, -
podem sen ã o ouvir se, finalmente confundidas, tã o contínuo é
mas apenas a vista desfaz e refaz continuamente as rela ções o rasgão que aniquila os pontos por onde vai passando.
que entre si mantê m estes dois fixos.
Esses ru ídos assinalam no entanto, também , como seus
Entre a imobilidade de dentro e de fora, introduz-se um efeitos, o Princípio que assume toda a açã o arrebatada ao
quiproquó, fina lâ mina que inverte as suas estabilidades. 0 mesmo tempo aos viajantes e à natureza: a máquina. Invisível
quiasma é efetuado gra ças à vidraça e aos trilhos. Dois temas como toda maquinaria teatral , a locomotiva organiza de longe
de J ú lio Verne, este Victor Hugo da viagem: a escotilha do todos os ecos de seu trabalho. Mesmo discreto, indireto, a sua
Nautilus, cesura transparente entre os sentimentos flutuantes orquestra indica o que faz a história, e garante, à maneira de
do observador e os movimentos de uma realidade oceâ nica: a um boato, que existe ainda uma história. Existe igualmente o
ferrovia que, numa linha reta, corta o espa ço e transforma em acidental. Desse motor do sistema prové m abalos, freadas e
velocidade de sua fuga as serenas identidades do terreno. A surpresas. Esse resto de acontecimentos depende do invisível
vidraça permite ver, e os trilhos permitem atravessar {o terre- e ú nico ator , apenas reconhecível gra ças à regularidade de seu
no ) São dois modos complementares de separação. Um modo murm ú rio ou a bruscos milagres que perturbam a ordem. A
cria a distâ ncia do espectador: nã o tocarás. Quanto mais vês, má quina, primeiro motor, é o deus solitá rio de onde sai toda a
-
menos agarras despojamento da mã o para ampliar o percurso a ção. Operador da divisã o entre os espectadores e os seres, o
da vista. O outro tra ça , indefinidamente, a injunção de passar: motor os articula também , móvel s ímbolo entre eles, incansável
como na ordem escrita, de uma só linha, mas sem fim: vai, segue shifter , produtor das mudan ças de rela ções entre os im óveis.

194 195
Carcerá rio e naval , aná logo aos barcos e submarinos de J ú lio monumental e quase incongruente por sua in ércia de ídolo
Verne, o vagã o alia o sonho e a técnica. O “especulativo ” mudo. Deus desmanchado.
regressa ao coraçã o da má quina. Os contrá rios coincidem Cada um retorna ao servi ço, para o lugar que lhe é fixado,
durante o tempo de uma viagem. Momento estranho em que para o escritó rio ou para a fá brica . Acabou o isolamento do
uma sociedade fabrica espectadores e transgressores de espa - passeio. À bela abstração do carcerá rio sucedem os compromis -
ços, santos e bem-aventurados colocados nas auréolas-alvéolos sos, as opacidades e as depend ê ncias de um local de trabalho.
dos seus vagões. Nesses lugares de preguiça e de pensamento, Recomeça o corpo a corpo com um real que desaloja o
naves paradisíacas entre dois encontros sociais (negócios e espectador, privado de trilhos e vidraças. Terminou a robinso -
fam ílias, violê ncias cor de barro), realizam-se liturgias atópicas, -
nada da belle âme viajante, que podia julgar se intacta , por
parê ntesis de orações sem destinatá rio ( a quem se dirigem estar toda cercada de vidro e aço.
portanto tantos sonhos viajores?). As assembleias não obede-
cem mais às hierarquias de ordens dogm âtjcas: sã o organizadas
pelo minucioso tra çado da disciplina tecnocrá tica, racionaliza -
ção muda do atom ísmo liberal.
Como sempre acontece, foi preciso pagar para entrar.
Limiar histórico da beatitude: só existe história onde há um
pre ço a pagar. 0 repouso só se alcan ça mediante esse tributo .
E os bem -aventurados do trem ainda são modestos comparados
com os do avi ã o que, tendo mais dinheiro, podem ocupar uma
posição mais abstrata (embranquecimento da paisagem e simu -
lacros filmados do mundo ) e mais perfeita (a de está tuas
im óveis num museu aé reo), mas a que se atribui um excesso
cujo castigo é uma diminui çã o do prazer ( “ melancólico ” ) de ver
aquilo de que se está separado.
E como sempre també m acontece, é preciso sair: só existem
para ísos perdidos. O termo da viagem seria o fim de uma ilusã o?
Outro limiar, feito de momentâ neos extravios no hall das gares.
A histó ria recomeça , febril , envolvendo com suas ondas a
armadura parada do vagã o: o visitante distingue o barulho das
fendas das rodas, o carregador leva as bagagens, os controla -
dores andam de l á para cá. Bon és e uniformes restauram na
multidã o a rede de uma ordem profissional, enquanto a onda
dos viajantes-sonhadores se lan ça na rede composta de rostos
maravilhosamente expectativos ou preventivamente justicei -
ros. Gritos de cólera. Vozes que chamam. Alegrias. No mundo
m óvel da esta ção, a má quina, agora parada, parece de repente

196 197
I

1/
CAPÍTULO IX

RELATOS DE ESPAÇO

*0 que criou a humanidade foi a narração".

PJERRE JANET
L'évolution de la métnoire et la notion
du ternps, 1928, p, 261

Na Atenas contemporâ nea, os transportes coletivos se


chamam metaphorai. Para ir para o trabalho ou voltar para
-
casa, toma-se uma “ metáfora" um ônibus ou um trem. Os
relatos poderiam igualmente ter esse belo nome: todo dia, eles
atravessam e organizam lugares; eles os selecionam e os
re ú nem num só conjunto; deles fazem frases e itinerá rios. São
percursos de espaços.
Vendo as coisas assim , as estruturas narrativas têm valor
de sintaxes espaciais. Com toda uma panó plia de códigos, de

199
comportamentos ordenados e controles, elas regulam as mu - ater-se apenas aos estudos relativos às operações especializan -
dan ças de espa ço (ou circula ções ) efetuadas pelos relatos sob tes (e n ão aos sistemas espaciais), in ú meros trabalhos fornecem
a forma de lugares postos em sé ries lineares ou entrelaçadas: -
m étodos e categorias. Entre os mais recentes, podem se apontar
daqui ( Paris) a gente vai para lá ( Montargis); este lugar ( um em particular aqueles que se referem a uma semâ ntica do
quarto ) inclui outro (um sonho ou uma lembrança ); etc Alé m espa ço (assim John Lyons sobre os “ Locative Subjects” e as
1
disso, representados em descrições ou figurados por atores ( um “ Spatial Expressions” ) a uma psicoling úística da percepçào
estrangeiro, um citadino, um fantasma ), esses lugares estão (assim Miller e Johnson-Laird sobre “ a hipótese de localiza -
ligados entre si de maneira mais ou menos firme ou fácil por ção") , a uma sociolingúística das descrições de lugares ( por
“ modalidades” que precisam o tipo de passagem que conduz ex. Will íam Labov )3, a uma fenomenologia dos comportamentos
de um lugar a outro: pode-se atribuir ao trâ nsito uma modali- organizadores de “ territó rios” ( por ex. Albert E. Scheflen e
dade “epistêmica ” , referente ao conhecimento (por exemplo: Norman Aschcraft)4, a uma ‘‘etnometodologia” dos índices de
“ não é certo que seja aqui a Place de la Republique ” ) ou localização na conversa ( por ex. Emanuel A. Schegloff )5, ou a
“ al ética”, referente à existê ncia (por exemplo: “ a terra do uma semió tica que estuda a cultura como uma metalinguagem
Eldorado é um termo imprová vel ”); ou “deôntica ”, referente espacial ( por ex. a Escola de Tartu , sobretudo Y.M. Lotman ,
aos deveres ( por exemplo: “deste ponto, você tem que passar B.A. Ouspenski)6 etc. Como outrora as pr áticas significantes,
para aquele ” )... Entre muitas outras, essas observações apenas que se referem às efetuações da l íngua, foram tomadas em
esbo çam com que sutii complexidade os relatos, cotidianos ou consideração depois dos sistemas lingu ísticos, hoje as pr á ticas
literá rios, são nossos transportes coletivos, nossas metaphorai. espacializantes prendem a aten çã o depois que se examinaram
os códigos e as taxinomias da ordem espacial. Nossa pesquisa
Todo relato é um relato de viagem - uma pr á tica do espaço. pertence a este tempo “segundo" da aná lise, que passa das
A este título, tem a ver com as tá ticas cotidianas, faz parte delas, estruturas às ações. Mas neste conjunto muito amplo vou
desde o abecedá rio da indicação espacial (“dobre à direita ”, considerar apenas açõ es narrativas. Elas permitirã o precisar
“siga à esquerda ” ), esboço de um relato cuja sequê ncia é escrita algumas formas elementares das prá ticas organizadoras de
pelos passos, até ao “ notici á rio” de cada dia ( “ Adivinhe quem
espa ço: a bipolaridade “ mapa ” e “ percurso”, os processos de
eu encontrei na padaria?”), ao “ jornal ” televisionado (“Teher ã: delimitação ou de “ limitação ” e as “ focaliza çôes enunciativas”
.
Khomeiny sempre mais isolado. ,”), aos contos lendá rios (as
( ou seja, o índice do corpo no discurso).
Gatas Borralheiras nas choupanas) e às histó rias contadas
( lembran ças e romances de países estrangeiros ou de passados Inicialmente, entre espaço e
mais ou menos remotos). Essas aventuras narradas, que ao “ Espaços ” e ulugares ” lugar , coloco uma distin ção
mesmo tempo produzem geografias de ações e derivam para que delimitar á um campo.
os lugares comuns de uma ordem, n ão constituem somente um Um lugar é a ordem (seja
“ suplemento ” aos enunciados pedestres e às retó ricas caminha - qual for ) segundo a qual se distribuem elementos nas rela ções
-
tó rias. N ã o se contentam em deslocá los e transpô-los para o de coexistê ncia. A í se acha portanto exclu ída a possibilidade,
campo da linguagem. De fato, organizam as caminhadas. Fazem para duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei
a viagem , antes ou enquanto os pés a executam. do “ pró prio”: os elementos considerados se acham uns ao lado
-
Esse pulular de metá foras ditos e relatos organizadores dos outros , cada um situado num lugar “ pr óprio ” e distinto
de lugares pelos deslocamentos que “ descrevem ” ( como se que define. Um lugar é portanto uma configura ção instantâ nea
“ descreve ” uma curva ) - como é que pode ser analisado? Para de posições. Implica uma indicaçã o de estabilidade.

200 201
Existe espaço sempre que se tomam em conta vetores de sobretudo, nos relatos, a duas espécies de determinações: uma,
direção, quantidades de velocidade e a variável tempo. 0 espaço por objetos que seriam no fim das contas reduzíveis ao estar-aí
é um cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo de um morto, lei de um “ lugar ” (da pedra ao cadáver, um corpo
conjunto dos movimentos que a í se desdobram. Espaço é o inerte parece sempre, no Ocidente, fundar um lugar e dele fazer
efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstan - a figura de um t ú mulo); a outra, por operações que, atribu ídas
ciam , o temporalizam e o levam a funcionar em unidade a uma pedra, a uma á rvore ou a um ser humano, especificam
polivalente de programas conflituais ou de proximidades con- “ espaços” pelas ações de sujeitos histó ricos (parece que um
tratuais. 0 espaço estaria para o lugar como a palavra quando movimento sempre condiciona a produçã o de ura espa ço e o
falada, isto é , quando é percebida na ambiguidade de uma associa a uma história). Entre essas duas determinações, exis-
efetuação, mudada em um termo que depende de m ú ltiplas tem passagens, como o assassinato ( ou a transformação em
conven ções, colocada como o ato de um presente (ou de um paisagem ) dos heró is transgressores de fronteiras e que, culpa-
tempo ), e modificado pelas transformações devidas a proximi- -
dos de terem atentado contra a lei do lugar, restauram no por
dades sucessivas. Diversamente do lugar, não tem portanto seu tú mulo; ou então, ao contrá rio, o despertar dos objetos
nem a univocidade nem a estabilidade de um “ pró prio". inertes (uma mesa, uma floresta, uma personagem do ambiente)
Em suma, o espaço é um lugar praticado. Assim a rua que, saindo de sua estabilidade, mudam o lugar onde jaziam
geometricamente definida por um urbanismo é transformada na estranheza do seu pró prio espaço.
em espaço pelos pedestres. Do mesmo modo, a leitura é o Os relatos efetuam portanto um trabalho que, incessante -
espaço produzido pela prá tica do lugar constitu ído por um mente, transforma lugares em espa ços ou espaços em lugares.
sistema de signos - um escrito. Organizam també m os jogos das rela ções mutáveis que uns
Merleau -Ponty já distinguia de um espaço “ geom étrico” mantêm com os outros. São in ú meros esses jogos, num leque
(“ espacialidade homogé nea e isótropa ”, análoga do nosso “ lu - que se estende desde a implantação de uma ordem imóvel e
quase mineralógica ( aí nada se mexe, salvo o pró prio discurso
gar ” ) uma outra “ espacialidade ” que denominava “espaço
antropol ógico”. Essa distin çã o tinha a ver com uma problemá- que, numa espécie de travelling , percorre o panorama ) até a
tica diferente, que visava separar da univocidade “ geom étrica ” sucessividade acelerada das ações multiplicadoras de espaços
a experiência de um “fora " dado sob a forma do espaço è para ( como no romance policial ou em certos contos populares, mas
o qual “o espaço é existencial ” e “ a existência é espacial ”. Essa esse frenesi espacializante nem por isso deixa de ser menos
experiê ncia é relaçã o com o mundo; no sonho e na percepçâ o, circunscrito pelo lugar textual ). Seria possível uma tipologia
e por assim dizer anterior à sua diferencia ção, ela exprime ‘‘a de todos esses relatos, em termos de identifica ção de lugares e
mesma estrutura essencial do nosso ser como ser situado em de efetuações de espaços. Mas, para a í encontrar os modos
rela ção com um meio” - um ser situado por um desejo, segundo os quais se combinam essas distintas opera ções,
indissociável de uma “ direçã o da existência ” e plantado no -
precisa se ter critérios e categorias de an á lise - necessidade
espaço de uma paisagem . Deste ponto de vista, “existem tantos que reduz aos relatos de viagem os mais elementares.
espa ços quantas experiê ncias espaciais distintas".7 A perspec - As descrições orais de lugares,
tiva é determinada por uma “ fenomenologia ” do existir no
mundo. Percursos e mapas narrados de um apartamento, re -
latos de rua, representam um
Num exame das pr á ticas do dia-a-dia que articulam essa primeiro e imenso corpus. Numa
experiê ncia, a oposi ção entre “ lugar ” e “ espaço ” há de remeter aná lise muito precisa das descrições de apartamentos em Nova

202 203
Iorque pelos ocupantes, C. Linde e W. Labov reconhecem dois espaço. Dois pólos da experiência. Parece que, da cultura
tipos distintos que designam , um como “ mapa ” ( map ) e o outro "ordiná ria” ao discurso cient ífico, se passa de um para o outro.
como “ percurso” (tour ). O primeiro segue o modelo: “ Ao lado Nos relatos de aparamento ou de rua, as manipulações de
.
da cozinha fica o quarto das meninas” 0 segundo: “ Você dobra espa ço ou “ percursos ? levam a melhor. Na maioria das vezes,
-
à direita e entra na sala de estar ”. Ora, no corpus nova iorquino, essa forma de descritores determina o estilo inteiro da narra -
somente três por cento dos descritores pertencem ao tipo .
ção Quando intervé m a outra forma, ela tem como valor ou
“ mapa ”. 0 resto, portanto quase a totalidade, pertence ao tipo ser condicionada ou suposta pela primeira. Exemplos de
“ percurso ”: “ Você entra por uma portinha ” etc. percursos condicionadores de um mapa: "Se você dobra à
Essas descri ções na grande maioria se fazem em termos de
órmula semelhante: “se você segue
direita , entã o existe... ” ou , f
operações e mostram “ como entrar em cada cômodo ”. A sempre em frente, vai ver..." Nos dois casos, um fazer permite
propósito desse segundo tipo, os autores precisam que um um ver. Mas há també m casos em que um percurso sup õe uma
circuito ou um “ percurso” é um speech act ( um ato de enun - indicação de lugar: “ Ali , onde h á uma porta, você toma a
ciaçã o ) que “ fornece uma série mínima de caminhos pelos quais
seguinte ” - um elemento de mapa é o postulado de um
itinerário. O tecido narrativo onde predominam os descritores
se pode entrar em cada cô modo ”: e que o “ caminho” ( path) é
uma série de unidades que têm a forma de vetores seja de itinerá rios é portanto pontuado de descritores do tipo mapa,
.
“ está ticos ” ( “ à direita ”, "à suaa frente” etc ) seja “ móveis ” ( “ se que t ê m como funçã o indicar ou um efeito obtido pelo percurso
( “você vê..."), ou um dado que postula como seu limite ( “ h á
você dobrar à esquerda ” etc.) .
uma parede ” ), sua possibilidade ( “ há uma porta") ou uma
Noutras palavras, a descri çã o oscila entre os termos de uma obrigação (“ h á um sentido ú nico ” ) etc. A cadeia das operações
alternativa: ou ver (é um conhecimento da ordem dos lugares), espacializantes parece toda pontilhada de refer ê ncias ao que
ou ir (sã o ações espacializantes). Ou então apresentará um produz ( uma representação de lugares) ou ao que implica ( uma
quadro ( “existe ”...), ou organizará movimentos (“você entra”,
“ você atravessa", “ você retorna"... ). Entre essas duas hipóteses,
-
ordem local ). Tem se assim a estrutura do relato de viagem:
histórias de caminhadas e gestas são marcadas pela "citação”
-
as escolhas feitas pelos narradores nova iorquinos privilegiam dos lugares que da í resultam ou que as autorizam. Segundo
maciçamente a segunda.
Pondo agora de lado o estudo de Linde e Labov ( pois visa
-
essa maneira de ver, pode se comparar a combinação dos
“ percursos” e dos " mapas” nos relatos cotidianos com a manei -
sobretudo as regras das intera ções e convenções sociais às ra como são, h á quinhentos anos, imbricados, e depois lenta -
quais obedece a “ linguagem natural ”, problema com o qual mente dissociados nas representações literá rias e cient íficas do
toparemos depois), eu gostaria, através desses relatos nova ior- - -
espa ço. Em particular, tomando se o " mapa ” sob a sua forma
quinos - e de outros semelhantes -
9
de precisar melhor as geográfica atual, parece que no decurso do per íodo marcado
rela ções entre indicadores de “ percursos” e indicadores de pelo nascimento do discurso cient ífico moderno (séculos XV-
“ mapas ” onde coexistem numa mesma descrição. Qual é a XVII ), ele se foi aos poucos separando dos itinerá rios que
coordenaçã o entre um fazer e um ver, nesta linguagem ordi
ná ria onde o primeiro domina de maneira tão evidente? A
- constitu íam a sua condi ção de possibilidade. Os primeiros
mapas medievais comportavam só os tra çados retil íneos de
questã o toca finalmente, na base dessas narrações cotidianas, percursos (indicações performativas que visavam aliás sobretu-
a relaçã o entre o itinerá rio ( uma sé rie discursiva de opera ções) do peregrina ções), com a men ção de etapas a efetuar (cidades
e o mapa ( uma descriçã o redutora totalizante das observações ), onde passar, parar, alojar-se, rezar etc.) e distâ ncias computa -
das em horas ou em dias, ou seja , em tempos de marcha.* Cada
0
isto é, entre duas linguagens simb ólicas e antropológicas do

204 205
mapa desses é um memorando que prescreve a ções. Ai domina uma tradição e outros produzidos por uma observação. Mas o
o percurso a fazer. Engloba os elementos do mapa, bem como essencial aqui é que se apagam os itinerários que, supondo os
a descrição de um caminho a efetuar é acompanhada hoje de primeiros e condicionando os segundos, asseguram de fato a
um desenho apressado que traça já no papel, em citações de passagem de uns aos outros. O palco, cena totalizante onde
lugares, uma dança de passos através da cidade: "vinte passos elementos de origem vá ria sã o reunidos para formarem o
bem em frente, depois dobre à esquerda, e depois ainda quadro de um “ estado” do saber geogr áfico, afasta para a sua
quarenta passos..." 0 desenho articula prá ticas espacializantes, frente ou para trás, como nos bastidores, as operações de que
como os planos de itinerá rios urbanos, artes de gestos e relatos é efeito ou possibilidade. O mapa fica só. As descrições de
de passos, que servem para os japoneses como “cademinhos percursos desapareceram ,

de endereç os” , ou como o admirável mapa asteca {século XV )
que descreve o êxodo dos Totomihuacas em um traçado que
A organizaçã o reconhecível nos relatos de espaço da cul-
tura cotidiana se acha portanto invertida pelo trabalho que
nào segue o relevo de uma “ estrada " (ainda não havia ) mas um
isolou um sistema de lugares geográ ficos. A diferença entre
-
“ di á rio de marcha ” tra çado escalonado por marcas de passos
com distâ ncias regulares entre eles e pelas figuras de aconteci- essas duas descri ções não se deve evidentemente à presença
mentos sucessivos no decorrer da viagem ( refeições, combates,
ou à ausência das pr á ticas (elas estã o sempre atuando) mas no
fato de os mapas, constitu ídos em lugares próprios para expor
travessias de rios ou montanhas etc.): n ão “ mapa geográfico”
.
mas “ livro de hist ó ria ” 12 os produtos do saber, formarem os quadros de resultados
legíveis.Os relatos de espaço exibem ao contrá rio as operações
Entre os séculos XV e XVII, o mapa ganha autonomia. Sem que permitem, num lugar obrigatório e não “ próprio”, “ tritu-
d ú vida , a proliferação das figuras “ narrativas” que o povoam r á-lo” apesar de tudo, como o diz uma moradora a propósito
durante muito tempo ( navios, animais e personagens de todo -
dos cômodos do seu apartamento: “ A gente pode tritur á los".
14

o tipo) tem ainda por fun ção indicar as operações - de viagem, Do conto popular às descrições de um apartamento, uma
guerreiras, construtoras, pol íticas ou comerciais - que possibi- exacerbação do “ fazer ” (e portanto da enunciação) anima os
litam a fabrica ção de um plano geográ fico. Bem longe de relatos narrando percursos em lugares que têm como caracte-
serem “ ilustrações", glosas icô nicas do texto, essas figurações, r ística, do cosmo antigo ao BNH contempor â neo, ser as formas
como fragmentos de relatos, assinalam no mapa as operações
histó ricas de que resulta. Assim a caravela pintada no mar fala
diversas de uma ordem imposta .
De uma geografia preestabelecida, que se estende (se a
da expediçã o marí tima que permitiu a representação das costas.
gente se limita apenas a casa) desde os quartinhos, tão peque-
Equivale a um descritor de tipo “ percurso”. Mas o mapa ganha
nos “ que não se pode fazer nada neles” até ao legend á rio
progressivamente dessas figuras: coloniza o espaço delas, eli- 15
celeiro, desaparecido, “ que serve para tudo", os relatos coti-
mina aos poucos as figura ções pictó ricas das prá ticas que o
produzem . Transformado pela geometria euclidiana e mais dianos contam aquilo que, apesar de tudo, se pode a í fabricar
tarde descritiva, constitu ído em conjunto formal de lugares
e fazer. Sã o feituras de espaço.
abstratos, é um “ teatro” ( este era antigamente o nome dos atlas) Operações sobre os lugares, os rela-
onde o mesmo sistema de projeção justapõe no entanto dois Demarcações tos exercem també m o papel coti-
elementos bem diversos: os dados fornecidos por uma tradição diano de uma instâ ncia m óvel e
( a Geografia de Ptolomeu, por exemplo ) e aqueles que provi - magisterial em matéria de demarca -
nham de navegadores ( os portulanos, por exemplo). No mesmo ção. Como sempre, este papel aparece mais no segundo grau ,
plano o mapa junta lugares heterogé neos, alguns recebidos de quando é explicitado e repetido no discurso jur ídico. Segundo

206 207
a bela língua tradicional usada nos autos de processos, os Vou me prender somente a alguns aspectos relativos à delimi-
magistrados antigamente “ se transportavam aos locais” ( trans- .
ta ção como tal questão primeira e í iteralmente “fundamental ”:
portes e metáforas jurídicas), a fim de “ ouvir ”, a propósito de .
a distribuição do espaço que o estrutura Tudo remete com
fronteiras “ litigiosas ”, as falas contraditó rias das partes. O seu efeito a essa diferencia ção que permite os jogos de espaços.
“ ju ízo interlocutório ”, como se dizia, era uma “ operação de Desde a distin ção que separa de sua exterioridade um sujeito
demarcaçã o ” . Escritos em bela caligrafia pelos amanuenses em até aos cortes que localizam objetos, desde o habitat ( que se
pergaminhos cuja escritura por vezes se prolonga (ou se constitui a partir da parede) até a viagem (que se constrói em
inaugura ? ) em desenhos tra çando fronteiras, esses ju ízos inter- cima do estabelecimento de um “ alhures” geográfico ou de um
locut órios eram em suma apenas meta -relatos. Combinavam “além ” cosmológico), e no funcionamento da rede urbana como
num todo ú nico ( trabalho de escriba que coteja variantes) as no da paisagem rural, não existe espacialidade que não organi-
histó rias contrá rias que cada parte lhe relatava: “ O senhor ze a determina ção de fronteiras.
Mulatier nos declara que seu avô plantou este pomar à margem Nessa organiza ção, o relato tem papel decisivo. Sem d úvi-
do seu campo... João Pedro nos recorda que o senhor Bouvet da , “ descreve ”. Mas " toda descri ção é mais que uma fixaçã o ”,
17
tem uma esterqueira num terreno que ficaria indiviso entre ele é “ um ato culturalmente criador ”. Ela tem até poder distribu-
e o seu irmão Andr é...” Genealogias de lugares, legendas de tivo e força performativa (ela realiza o que diz ) quando se tem
territó rios. Aná loga a uma edi ção cr ítica, a narra çã o do magis - um certo conjunto de circunstâ ncias. Ela é então fundadora de
trado concilia essas diversas versões. Ela é “estabelecida ” a espa ços. Reciprocamente: onde os relatos desaparecem (ou se
partir de relatos “ primeiros ” ( o do senhor Mulatier, o de João degradam em objetos museográ ficos), existe perda de espa ço:
Pedro, e muitos outros), que tê m já a fun ção de legislações privado de narrações (como se constata ora na cidade, ora na
espaciais, fixando e dividindo terrenos por "gestos” ou discur- região rural ), o grupo ou o indiv íduo regride para a experiência,
sos de ações ( plantar um pomar, ter uma esterqueira etc.). inquietante, fatalista, de uma totalidade informe, indistinta,
As “ opera ções de demarca ção”, contratos narrativos e noturna. Considerando o papel do relato na delimita ção, pode-
compilações de relatos, são compostas com fragmentos tirados se aí reconhecer logo de in ício a função primeira de autorizar
de histó rias anteriores e “ bricolados” num todo ú nico. Neste o estabelecimento, o deslocamento e a supera çã o de limites e,
sentido, esclarecem a forma çã o dos mitos, como tê m també m por via de consequ ê ncia, funcionando no campo fechado do
.
a fun ção de fundar e articular espa ços Constituem, conservada discurso, a oposi ção de dois movimentos que se cruzam (esta-
nos fundos dos cartó rios, uma imensa literatura de viagens, isto belecer e ultrapassar o limite) de maneira que se faça do relato
é, de ações organizadoras de á reas sociais e culturais mais ou uma espécie de quadrinho de “ palavras cruzadas” ( um mapea-
menos extensas. Mas essa literatura representa apenas uma mento dinâ mico do espaço) e do qual a fronteira e a ponte
parte ínfima (aquela que se escreve em pontos litigiosos) da parecem as figuras narrativas essenciais.
narração oral que não cessa , trabalho intermin ável , de compor 1. Criar um teatro de ações.0 relato tem inicialmente uma
espa ços, verificar , confrontar e deslocar suas fronteiras. fun çã o de autoriza çã o ou , mais exatamente, de fundação.
Propriamente falando, essa fun çã o n ã o é jur ídica, isto é , relativa
Esses “ comportamentos" de relato, como dizia Pierre Ja-
net , 1 oferecem portanto um campo muito rico à an á lise da
R a leis ou a ju ízos. Depende antes daquilo que Georges Dum é zil
espacialidade. Entre as questões assim suscitadas, devem se - analisa, na raiz indo-europé ia dhe, "pôr, colocar”, através dos
distinguir aquelas que dizem respeito à dimensã o ( extensiona -
.
seus derivados sâ nscrito (dhatu ) e latim (tas) “Fas”, escreve
lidade ), orientaçã o (vetorialidade ), afinidade (homografias) etc. ele, é propriamente a base m ística, no mundo invis ível, sem a

208 209
qual todas as condutas ordenadas ou autorizadas pelo ius autoriza pr áticas sociais arriscadas e contingentes. Mas, trí plice
( direito humano) e de maneira ainda mais geral todos os diferença em relação à função tão cuidadosamente isolada pelo
dispositivo romano, ele assegura o fas sob uma forma dissemi-
comportamentos humanos, sã o incertos, perigosos ou at é fa -
.
tais. O fas n ã o é suscet ível de an álise , de casu ística, como o ius nada (e não mais ú nica ), miniaturizada (e não mais nacional) e
polivalente ( e não mais especializada ). Disseminada, não só
N ão se detalha, como tampouco não é um substantivo decliná-
vel. H á ou n ão h á base: fas est ou fas non est. “ Diz-se que um por causa da diversificaçã o dos meios sociais, mas sobretudo
tempo ou um lugar sã o fasti ou nefasti (fastos ou nefastos), por causa de uma crescente heterogeneidade ( ou de uma
conforme derem ou n ão derem às a ções humanas esta neces
sá ria base ”.18
- heterogeneidade sempre mais desvelada) entre as "referê ncias
autorizantes”: a excomunh ão das "divindades” territoriais, o
desapreço pelos lugares habitados pelo espírito dos relatos e a
Diversamente do que aconteceu na í ndia antiga ( onde extensão de á reas neutras, privadas de legitimidade, marcaram
diversos papé is são sucessivamente representados pelos mes - a fuga e a fragmentação das narrações organizadoras de
mos personagens ), esta fun çã o foi objeto de um corte institu-
fronteiras e de apropriação ( Uma historiografia oficial - livros
-
cional particular nas partes ocidentais do mundo indo europeu.
-
de histó ria , atualidades televisionadas etc. procura no entanto
Criaçã o do Ocidente ”, um ritual pr ó prio corresponde ao fas ,
"

realizado em Roma por sacerdotes especializados, os fetiales.


impor a todos a credibilidade de um espa ço nacional ). Minia -
Esse rito ocorre "no limiar de toda a çã o de Roma para com -
turizada, porque a tecnocratização sócio econõ mica reduz à
algum povo estrangeiro ”, declaraçã o de guerra, expedi ção unidade familial ou individual o jogo do fas ou do nefas, com
militar, alian ça com outra na çã o. É uma marcha em três etapas a multiplicação das “ histó rias de fam ília”, das “ biografias” ou
de todas as narrações psicanal ítí cas ( Pouco a pouco desanco-
centr í fugas, uma dentro mas perto da fronteira, a segunda na
fronteira, a terceira no estrangeiro. A ação ritual se efetua antes -
radas dessas histó rias particulares, justificações p ú blicas trans
de toda açã o civil ou militar porque se destina a criar o campo
formadas em boatos cegos se mantê m no entanto ou
ressurgem, selvagens, nos confrontos de classes ou nos confli-
necessá rio para as atividades políticas ou bélicas. É portanto
também uma repetido rerum: ao mesmo tempo retomada e
tos raciais). Polivalente, enfim, porque a mistura de tantos
micro-relatos lhes atribui fun çõ es que variam ao sabor dos
repeti ção de atos fundantes originá rios, uma recitação e cita - grupos onde circulam. Essa polivalê ncia não toca entretanto as
çã o das genealogias capazes de legitimar a nova iniciativa, e
origens relacionais da narratividade: o antigo ritual criador de
uma predição e promessa de sucesso no começo de combates,
campos de ações pode ser reconhecido em “ cacos” de relatos
contratos ou conquistas. Com uma repetição geral antes da
representaçã o efetiva , o rito, narra çã o gestuai, precede a efe-
plantados em torno dos limiares obscuros de nossas existê n -
tua çã o histó rica . A volta ou a “ marcha ” dos fetiales abre um cias; esses fragmentos escondidos articulam inconscíentemente
espa ço e assegura uma base à s opera ções dos militares, diplo- a história “ biográ fica ” cujo espaço fundamentam .
matas ou comerciantes que se arriscam fora das fronteiras. Uma atividade narrativa , mesmo que seja multiforme e não
Assim , no Veda , V íshnu, “ por seus passos, abre à ação guerreira mais unitá ria, continua portanto se desenvolvendo onde se
de Indra a zona do espa ço onde se desenrolará ”. É uma trata de fronteiras e de relações com o estrangeiro. Fragmen-
funda çã o. Ela “ d á espaç o " à s ações que se vã o empreender; ela tada e disseminada , ela nã o cessa de efetuar opera ções de
cria um campo” que lhes serve de “ base ” e de “ teatro” .19 demarcaçã o. Continua pondo em jogo o fas que “ autoriza "
Eis a í precisamente o primeiro papel do relato. Abre um certas iniciativas e as precede. Assim como os fetiales romanos,
teatro de legitimidade a ações efetivas. Cria um campo que existem relatos que “ marcham ” à frente das prá ticas sociais
para lhes abrir um campo. As próprias decisões e combinações

210 211
ídicas só vê m após, bem como os ditos e os atos do direito
jur ações progressivas {a aquisi ção de predicados no curso do
romano ( ius ) conciliando as á reas de ação reconhecidas a cada relato ) e os deslocamentos sucessivos ( movimentos internos ou
20
um , faziam parte dos comportamentos que tinham seu “fun - externos) dos actantes. Devem-se esses limites a uma distribui-
damento” no fas.Segundo as regras que lhes são próprias, “os ção dinâ mica dos bens e das funções possíveis, para constituir,
ju ízos interlocutórios ” dos magistrados trabalham na massa sempre mais complexificada, uma rede de diferenciações, uma
dos espaços heterogéneos já criados e fundamentados por uma combinat ória de espaços. Resultam de um trabalho da distinção
inumerá vel narratividade oral feita de hist órias familiares ou a partir de encontros. Assim, na noite de sua ilimitação, corpos
locais, de “ gestos ” costumeiros ou profissionais, de “ recita - só se distinguem onde os “toques'’ de sua luta amorosa ou
guerreira se inscrevem sobre eles. Paradoxo da fronteira:
ções ” de caminhos e paisagens. Esses teatros de operações, eles
n ão os criam; articulam-nos e manipulam-nos. Supõe as auto- criados por contatos, os pontos de diferenciação entre dois
ridades narrativas que os magistrados “ouvem ”, confrontam e corpos são també m pontos comuns. A jun ção e a disjunção são
hierarquizam. Antes do juízo regulador, vem o relato fundante. a í indissociá veis. Dos corpos em contato, quai deles possui a
2. Fronteiras e pontes. Os relatos são animados por uma fronteira que os distingue? Nem um nem o outro. Então,
contradição que neles representa a relação entre a fronteira e ningu é m?
a ponte, isto é, entre um espaço ( legítimo ) e sua exterioridade Problema teó rico e prá tico da fronteira: a quem pertence
(estranha ). Para compreend ê-lo melhor, convém voltar às uni- a fronteira? O rio, a parede ou a á rvore faz fronteira. Não tem
dades elementares. Pondo de lado a morfologia (que não é -
o car á ter de não lugar que o traçado cartográfico supõe no
nosso tema aqui), que se deve situar na perspectiva de uma limite. Tem um papel mediador. Também a narração o faz falar:
pragmá tica e, mais exatamente, de uma sintaxe determinante -
“ Pá ra!” diz a floresta de onde sai o lobo. “Stop!” diz o rio -
dos “ programas” ou sé ries de prá ticas pelas quais a gente se mostrando o seu jacaré. Mas este ator, pelo simples fato de ser
-
apropria do espaço, pode se tomar como ponto de partida a a palavra do limite, cria a comunicação assim como a separação:
-
definição de Miller e Johnson Laird para a unidade de base que e muito mais, só põe uma margem dizendo aquilo que o
-
eles denominam a “ região”: trata se, dizem eles, de um encontro atravessa, vindo da outra margem. Articula. É também uma
passagem. No relato, a fronteira funciona como um terceiro.
entre programas de ação. A “ região” vem a ser portanto o
espaço criado por uma interação.21 Daí se segue que, num -
Ela é um “entre dois ” “ um espaço entre dois”, Zwischen
raum , diz um maravilhoso e irónico poema de Morgenstern
-
mesmo lugar, há tantas “ regiões” quantas interações ou encon-
tros entre programas. E també m que a determinação de um sobre a “clausura” ou "recinto cercado" (Zaun ), que rima com
espa ço é dual e operacional, portanto, numa problemá tica de “espaço” ( Raum ) e “ver através de" (hindurchzuschaun ) É a .
enunciação, relativa a um processo “ interlocutó rio ”. histó ria de uma paliçada ( recinto fechado por estacas, Latten
zaun ):
-
Deste modo , se introduz uma contradi çã o dinâ mica entre
cada delimitaçã o e sua mobilidade. De um lado, o relato não se Es war einmal ein Lattenzaun
cansa de colocar fronteiras. Multiplica-as, mas em termos de mit Zwischenraum, hindurchzuschaun
intera ções entre personagens - coisas, animais, seres humanos:
os actantes repartem lugares entre si ao mesmo tempo que
predicados ( bom , astucioso, ambicioso, simpl ório etc.) e movi- * 41 Era uma vei um recinto fechado, com darabóia/coir espaços para se ver
- - - -
mentos ( adiantar se, subtrair se, exilar se, voltar se etc.). Os abravés./Uni arquiteto, que viu aquik),/veio certa tarde até lá/e se apoderou dos
limites são tra çados pelos pontos de encontro entre as apropri - espaços/para fazer uma moradia enorme./Então o Senado se apropriou dele/enquanto
- - ..
o arquiteto fugiu/ para a Áfri ou Amé rica” ( LG )

212 213
Lugar terceiro, jogo de interações e de entrevistas, a vezes em nomes pr ó prios, paradoxos escondidos, elipses de
-
fronteira é como um vácuo, sím bolo narrativo de intercâ mbios órias, enigmas pedindo decifração: Pont-à-Mousson, Pont
hist
e encontros. Passando por a!i, um arquiteto se apressou a tomar -
Audemer, Pontcharra, Pontchâ teau, Pont-Croix, Pont de-Beau-
voisin , Pont -de- l ’Arche, Pont-de- Roide, Pont-du -Diable,
esse “espaço entre dois'’ para construir ali um casarão: .
Ein Architekt, der dieses sah, Ponthieu etc.
stand eines Abends plõtzlich da
und rtahm den Zwischenraum herans
- Com razão, ele indexa por toda a parte o diabólico nas
pinturas onde Hyeronimus Bosch inventa suas modificações de
und baute draus ein grosses Hatis. espaços.24 Transgressã o do limite, desobediência à lei do lugar,
ele representa a partida, a lesão de um estado, a ambição de
Mutação do vazio em cheio e do entre-dois em lugar um poder conquistador, ou a fuga de um exílio, de qualquer
estabelecido. O resto nem se precisa contar. 0 Senado “endos- maneira a “ traição” de uma ordem. Mas ao mesmo tempo ergue
- -
sou ” o monumento instala se a Lei - e o arquiteto foge para
*
um alhures que extravia, deixa ou faz ressurgir, fora das
a África ou para a América: fronteiras, a estranheza que era controlada no interior, d á
Drum zog ihn der Senat auch ein . - -
ob jetividade (ou seja, expressão e re presenta ção) à alteridade
que se escondia do lado de cá dos limites, de sorte que cruzando
Der Architekt jedoch entfloh
nach Afri-od-Ameriko 22. a ponte para lá e para cá e voltando ao recinto fechado, o
viajante aí encontra agora o outro lugar que tinha a princípio
Concretar a paliçada, encher e construir “o espa ço entre procurado partindo e fugido depois voltando. No interior das
dois”, eis a pulsão do arquiteto; mas ao mesmo tempo, a sua fronteiras já está o estrangeiro, exotismo ou sabbat da memó ria,
ilusão pois, sem o saber, trabalha para o congelamento pol ítico inquietante familiaridade. Tudo ocorre como se a pró pria
dos lugares e só lhe resta, quando percebe o que fizera, fugir delimitação fosse a ponte que abre o dentro para seu outro.
para longe dos laços da lei. O relato, ao contrá rio, privilegia,
por suas histó rias de interaçã o, uma “ l ógica da ambiguidade . Onde o mapa demarca, o relato faz
“ Muda ” a fronteira em ponto de passagem, e o rio em ponte.
Delinqâências? uma travessia. O relato é “ diége-
Narra com efeito inversões e deslocamentos: a porta para fechar
se”, como diz o grego para desig -
nar a narra ção: instaura uma
é justamente aquilo que se abre; o rio aquilo que dá passagem;
caminhada ( “ guia ” ) e passa através ( “ transgride ” ). 0 espaço de
a á rvore serve de marco para os passos de uma avançada; a opera ções que ele pisa é feito de movimentos: é topológico,
pali çada, um conjunto de interstícios por onde escoam os
relativo às deforma ções de figuras, e não tó pico, definidor de
olhares. lugares. 0 limite aí só circunscreve a modo de ambivalê ncia.
H á por toda parte a ambiguidade da ponte, que ora solda Ele mesmo, um jogo duplo. Faz o contrá rio daquilo que diz.
ora contrasta insularidades. Distingue-as e as ameaça. Livra do Entrega o lugar ao estranho que na aparê ncia lança fora. Ou
fechamento e destrói a autonomia . Assim, por exemplo, inter - então, quando marca uma parada, não é estável, segue antes
vé m como personagem centra! e ambivalente nos relatos dos as variações dos encontros entre programas. As demarcações
Noirmoutrins, antes, durante e ap ós a constru çã o, em 1972, de são limites transportáveis e transportes de limites, eles també m
uma ponte entre La Fosse e Fromentine.23 “metaphorai".
Dá prosseguimento a uma vida dupla em inumeráveis Nas narrações organizadoras de espaços, as demarca ções
memó rias de lugares e legendas cotidianas, resumidas muitas parecem desempenhar o papel dos xoana gregos, estatuetas

214 215
cuja inven ção se atribui ao astuto Dédalo: astuciosas como ele, sociedades tradicionais ( antigas, medievais etc.), com uma
elas não punham limites a nã o ser se (e os) deslocando. Esses ordem firmemente estabelecida mas suficientemente flexível
indicadores apontavam em caracteres retos as curvaturas e os para deixar proliferar essa mobilidade contestadora, desrespei-
movimentos do espa ço. O seu trabalho divisório diferia portan - tosa dos lugares, sucessivamente obediente e amea çadora, que
to inteiramente das divisões estabelecidas pelos mourões, pi
quetes ou colunas estáveis que, enraizadas no solo, recortavam
- se estende das formas microbianas da narração cotidiana até
as antigas manifestações carnavalescas.
27

e compunham uma ordem dos lugares.25 Eram também limites Resta saber , naturalmente, que mudan ças efetivas produz
transportáveis. As opera ções narrativas de demarcação substi
tuem hoje os enigmá ticos descritores de antigamente, quando
- em uma sociedade essa narratividade delinquente. Em todo o
caso, pode-se de antem ão dizer que, em maté ria de espaço, essa
insinuam a mobilidade pelo próprio gesto de fixar, a título da delinqu ência começa com a inscrição do corpo no texto da
delimitaçã o. Michelet já o dissera: desmoronando, no fim da ordem. A opacidade do corpo em movimento, gesticulando,
Antiguidade, a aristocracia dos grandes deuses do Olimpo de andando, gozando, é que organiza indefinidamente um aqui
modo algum arrastou em sua queda “ a multid ã o dos deuses em rela çã o a um alhures, uma “familiaridade ” em confronto
ind ígenas, o populacho dos deuses ainda de posse da imensidão com uma “estranheza ” . O relato de espaço é em seu grau
dos campos, dos bosques, dos montes, das fontes, confundidos m ínimo uma l íngua falada, isto é, um sistema lingu ístico
infimamente com a vida rural. Esses deuses que habitam no distributivo de lugares sendo ao mesmo tempo articulado por
cora ção dos carvalhos, nas águas fugidias e profundas, nã o uma “focaliza çã o enunciadora ”, por um ato que o pratica. Este
podiam ser expulsos dali... Onde estão? No deserto, na lande, 28
o objeto da “ proxêmica ”. Basta aqui, antes de ir buscar as
na floresta? Sim, mas sobretudo dentro de casa. Mantêm se no - suas indicações na organização da memória, lembrar que com
mais íntimo dos há bitos domésticos ”.25 Mas també m em nossas essa enuncia çã o focalizante o espaço surge de novo como lugar
ruas e em nossos apartamentos. Talvez fossem apenas, no final praticado.
das contas, as ágeis testemunhas da narratividade e de sua
forma delinquente. O fato de mudarem de nomes ( todo poder
é topon ímico e instaura a sua ordem de lugares dando nomes )
nada tira a essa força m ú ltipla , insidiosa, m óvel. Ela sobrevive
aos avatares da grande histó ria que os desbatiza e rebatiza.
Se o delinquente só existe deslocando-se, se tem por
especificidade viver n ã o à margem mas nos interstícios dos
códigos que desmancha e desloca, se ele se caracteriza pelo
privil égio do percurso sobre o estado, o relato é delinquente.
A delinquê ncia social consistiria em tomar o relato ao pé da
letra , tom á -lo como o princí pio da existê ncia f ísica onde uma
sociedade não oferece mais sa ídas simbólicas e expectativas de
espa ços a pessoas ou grupos, onde n ã o há mais outra alterna -
tiva a nã o ser o alinhamento disciplinar e o desvio ilegal , ou
seja , uma forma ou outra de prisã o e a errâ ncia do lado de fora.
Reciprocamente, o relato é uma delinquê ncia em reserva,
mantida , ela mesma , deslocada no entanto e compatível, nas

2)6 217
1/
QUARTA PARTE

Usos da língua
1/
CAP ÍTULO X

A ECONOMIA ESCRITUR ÍSTICA

"Somente palavras que andam, passando de boca em


boca, lendas e cantos, no â mbito de um pa ís, mantém
vivo o povo”.
N F S. GRUNDTVIG

A epígrafe de Grundtvig, poeta e profeta dinamarquês,


cujos caminhos vã o todos na direçã o da “ palavra viva ” ( det
levende ord ), Graal da oralidade, autoriza hoje, como o faziam
antigamente as Musas, a busca de vozes perdidas e que voltam
hoje a nossas sociedades “escritur ísticas ”. Procuro ouvir esses
frá geis efeitos de corpo na l í ngua, vozes m ú ltiplas, afastadas
pela triunfal conquista da economia que, a partir da “ moderni -
dade" (séculos XVII e XVI11), se titularizou sob o nome de
escritura. Meu tema é a oralidade, mas modificada por três ou

221
quatro sé culos de trabalho ocidental. N ós não acreditamos, dade entre os ruídos da presença, ciyo ato enunciador influen -
como Grundtvig ( ou Michelet ), que, por trás das portas de -
cia uma l íngua quando a fala. Deve se por isso renunciar à
ficçã o que reú ne todos esses ruídos sob o sino de uma “ Voz ”,
nossas cidades, no pr ó ximo distante dos campos, existam vastas
pastagens poé ticas e “ pagas” onde falem ainda os cantos, os de “ uma cultura pró pria ” - ou do grande Outro. A oralidade
3
mitos e o proliferante sussurro da folkelighed ( termo intradu- se insinua sobretudo como um desses fios de que se faz, na
z ível porque o seu equivalente em nossa língua, “ popularida-
tica.
-
trama interminável tapeçaria - de uma economia escriturís-
de ”, foi també m desvalorizado pelo uso que dele fizemos,
enquanto ele é para “ povo ” o an á ogo de “ nacionalidade ” para É pela análise dessa economia, de sua implantação históri -
nação. Essas vozes n ã o se fazem mais ouvir, a não ser dentro
dos sistemas escritur ísticos onde reaparecem. Elas circulam ,
ca, de suas regras e instrumentos do seu êxito enorme-
programa que vou substituir por uma hist ória em quadrinhos!
bailando e passando, no campo do outro. - que convé m começar para detectar insinua ções vocais no
grande livro de nossa lei. Eu gostaria de simplesmente dese-
A instituiçã o dos aparelhos escritur ísticos da "disciplina ”
moderna indissoci á vel da “ reprodu ção” possibilitada pela im - nhar a configuração hist órica criada entre nós pela disjunção
entre escritura e oralidade, para indicar alguns de seus efeitos
prensa foi acompanhada pelo duplo isolamento do “ Povo” (em
relação à “ burguesia ” ) e da “ voz” (em rela ção à escrita ). Daí a e para destacar a í alguns deslocamentos atuais que assumem
convicçã o que, longe, bem longe dos poderes económicos e a forma de tarefas.
administrativos, “ o Povo fala ”. Palavra ora sedutora ora peri- Referir-se à escritura e à oralidade, quero precisar logo de
gosa, ú nica, perdida ( malgrado violentas e breves irrupções), saída, não postula dois termos opostos, cuja contrariedade
constituída em “ Voz do povo” por sua pró pria repressão, objeto poderia ser superada por um terceiro, ou cuja hierarquização
de nostalgias, controles e sobretudo imensas campanhas que a se pudesse inverter. Não se trata aqui de voltar a uma dessas
rearticularam sobre a escritura por meio da escola . Hoje, “oposições metafísicas” (escritura x oralidade, língua x palavra
“ registrada " de todas as maneiras, normalizada, aud ível em etc), sobre as quais Jacques Derrida dizia com razão que “ têm
toda a parte , mas uma vez “ gravada ”, mediatizada pelo rádio, como ú ltima referência (...) a presença de um valor ou de um
pela televisã o ou pelo disco, e “ depurada ” pelas técnicas de sua sentido que seria anterior à diferença ”.3 No pensamento que as
difusão. Onde ela mesma se infiltra , ru ído do corpo, toma se - instaura, essas antinomias postulam o princípio de uma origem
muitas vezes a imita ção daquilo que a m ídia produz e reproduz ú nica ( uma arqueologia fundadora) ou de uma conciliação final
dela - a có pia de seu artefato. ( um conceito teleológico ), e portanto um discurso baseado
In ú til portanto sair em busca dessa voz simultaneamente nessa unidade referencial. Pelo contrá rio, sem que seja aqui o
colonizada e mitificada por uma história ocidental recente. Não -
lugar para explicá lo, suponho o plural como algo originá rio;
existe aliás voz “ pura ”, porque ela é sempre determinada por que a diferença é constituinte de seus termos; e que a l íngua
um sistema ( familial . social etc.) e codificada por uma recepção. está fadada a esconder indefinidamente por uma simbólica o
Mesmo que as vozes de cada grupo componham uma paisagem trabalho estruturante da divisão. Na perspectiva de uma antro -
-
sonora - um s ítio sonoro facilmente reconhec ível, um dialeto pologia cultural, n ã o se poderia aliás esquecer:
- um sotaque - se destaca por seu traç ado numa l íngua, como 1) que essas “ unidades” ( por exemplo, escritura e oralida-
um perfume; mesmo que uma voz particular se distinga entre
mil por acariciar ou irritar o corpo que ouve, instrumento de
de) são o efeito de distinções recíprocas dentro de configura
ções histó ricas sucessivas e imbricadas.
-
m ú sica tocado por essa m ão invisível , n ã o h á tampouco unici -

222 223
Sendo assim , não são isoláveis dessas determinações his- preende aquilo que se escreve” . Esta a lei interna daquilo que
tó ricas e n ão podem ser erigidas em categorias gerais; se constituiu como “ ocidental ”.
2) que essas distinções, uma vez que se apresentam como Mas entáo, o que é escrever? Designo por escritura a
a relação entre o estabelecimento de um campo ( por exemplo, atividade concreta que consiste, sobre um espa ço próprio, a
a l í ngua ) ou de um sistema ( por exemplo, a escritura) e de outra página , em construir um texto que tem poder sobre a exterio-
parte aquilo que constitui como sua exterioridade ou seu resto ridade da qual foi previamente isolado. Neste n ível elementar
(a palavra ou a oralidade), esses dois termos não sã o iguais ou há três elementos decisivos.
compará veis nem no que diz respeito à sua coerê ncia (a Primeiro, a página em branco: um espa ço “ pró prio” cir -
definiçã o de um põe o outro como indefinido) nem no que diz cunscreve um lugar de produ çã o para o sujeito. Trata -se de um
respeito à sua operatividade ( um produtivo, dominante e arti - lugar desenfeitiçado das ambiguidades do mundo. Estabelece
culado, institui o outro numa posição de inércia, de dominado o afastamento e a distâ ncia de um sujeito em relaçã o a uma
e de opaca resistência ). Portanto é impossível supor que -
á rea de atividades. Oferece se a uma operação parcial mas
tenham funcionamentos hom ólogos mediante uma inversão de controlá vel. Efetua-se um corte no cosmos tradicional , onde o
sinais. A diferença entre eles é quantitativa, sem escala comum. sujeito era possuído pelas vozes do mundo. Coloca-se uma
superf ície aut ó noma sob o olhar do sujeito que assim d á a si
A pr á tica escriturística as-
Escrever: prática mítica mesmo o campo de um fazer pr ó prio. Cesto cartesiano de um
sumiu valor m ítico nos ú l-
timos quatro séculos reor- corte instaurador, com um lugar de escritura , do domínio (e
“moderna” isolamento) de um sujeito diante de um objeto. Diante de sua
ganizando aos poucos
página em branco cada criança já se acha posta na posiçã o do
todos os dom ínios por onde se estendia a ambição ocidental de
industrial ou do urbanista , ou do fil ósofo cartesiano - aquela
fazer sua histó ria e, assim, fazer histó ria. Entendo por mito um de ter que gerir o espa ço, pró prio e distinto, onde executar um
discurso fragmentado que se articula sobre as prá ticas hetero- querer pró prio.
gé neas de uma sociedade e que as articula simbolicamente. No
Ocidente moderno, não há mais um discurso recebido que .
Em segundo lugar, a í se constrói um texto Fragmentos ou
desempenhe esse papel , mas um movimento que é uma prá tica: - -
materiais lingu ísticos sã o tratados { usinados, poder se ia dizer )
escrever. A origem não é mais aquilo que se narra, mas a neste espaço, segundo mé todos explicitáveis e de modo a
atividade multiforme e murmurante de produtos do texto e de produzir uma ordem. Uma sé rie de operações articuladas
produzir a sociedade como texto. O “ progresso ” è de tipo (gestuais e mentais) - literalmente é isto, escrever, - vai
escriturístico. De modos os mais diversos, define-se portanto tra çando na pá gina as trajetó rias que desenham palavras, frases
pela oralidade (ou como oralidade) aquilo de que uma prá tica e, enfim , um sistema. Noutras palavras, na página em branco,
“legítima ” - científica, pol ítica, escolar etc. - deve distinguir-se. uma pr á tica itinerante, progressiva e regulamentada - uma
“Oral ” é aquilo que não contribui para o progresso; e, recipro- caminhada - comp õ e o artefato de um outro “ mundo ” , agora
camente, “escritur ístico” aquilo que se aparta do mundo má gi- não recebido, mas fabricado. O modelo de uma razão produtora
co das vozes e da tradição. Com tal separação se esboça uma escreve-se sobre o nã o- lugar da folha de papel. Sob formas
fronteira ( e uma frente) da cultura ocidental . Da mesma forma, m ú ltiplas, este texto constru ído num espaço pró prio é a utopia
també m se poderiam ler , nos frontões da modernidade, inscri- fundamental e generalizada do Ocidente moderno.
ções como: “ Aqui, trabalhar é escrever " ou “ Aqui só se com - Um terceiro elemento: esta constru çã o nã o é apenas um
jogo. Sem d ú vida , em toda sociedade, o jogo é um teatro onde

224 225
se representa a formalidade das prá ticas, mas tem como condi - projeto. Hoje, por uma inversão que indica a ultrapassagem de
ção de possibilidade o fato de ser distinto das prá ticas sociais um limiar nesse desenvolvimento, o sistema escriturístico anda
efetivas. Pelo contrá rio, o jogo escritur ístico, produção de um auto move Imente; ele se torna auto-móvel e tecnocrá tico; muda
sistema, espa ço de formalização, tem como “ sentido” remeter os sujeitos que tinham o seu dom ínio em executores da
.
à realidade de que se distinguiu em vista de mudá-la Tem como máquina de escrever que os comanda e utiliza. Sociedade
alvo uma eficácia social. Atua sobre a sua exterioridade. O informática.
laborató rio da escritura tem como função “ estratégica”: ou
fazer que uma informaçã o recebida da tradição ou de fora se Portanto, com toda a razão, nos ú ltimos tr ês séculos
encontre aí coligida, classificada, imbricada num sistema e, aprender a escrever define a inicia ção por excelê ncia em uma
assim, transformada; ou fazer que as regras e os modelos sociedade capitalista e conquistadora. É a sua prática iniciá tica
elaborados neste lugar excepcional permitam agir sobre o meio fundamental. Poi preciso sentir os efeitos inqu íetantes de um
e transform á-lo. A ilha da pá gina é um local de passagem onde tão prodigioso avanço para que suspeitássemos ser a formação
se opera uma inversão industrial: o que entra nela é um da crian ça moderna uma prá tica escriturística.
“ recebido”, e o que sai dela é um “ produto”. As coisas que Dessa prá tica escriturante vou levar em conta apenas um
entram na pá gina são sinais de uma “ passividade ” do sujeito exemplo, por seu valor m ítico. É um dos raros mitos que a
em face de uma tradição; aquelas que saem dela são as marcas sociedade ocidental moderna foi capaz de inventar ( com efeito,
do seu poder de fabricar objetos. No final das contas, a empresa ela substituiu por prá ticas os mitos das sociedades tradicio-
escritur ística transforma ou conserva dentro de si aquilo que nais): o Robinson Crusoé de Daniel Defoe. 0 romance combina
recebe do seu meio circunstancial e cria dentro de si os os três elementos que eu distinguia: a ilha que demarca um
instrumentos de uma apropriação do espaço exterior. lugar pr ó prio, a produ ção de um sistema de objetos por um
Ela estoca aquilo que vai selecionando e se dá os meios de sujeito senhor, e a transformaçã o de um mundo “natural ”. É o
uma expansão. Combinando o poder de acumular o passado e romance da escritura. Aliás, em Defoe, o despertar de Robinson
o de conformar a seus modelos a alteridade do universo, é para o trabalho capitalista e conquistador de escrever a sua ilha
capitalista e conquistadora. 0 laborató rio cient ífico e a ind ús- se inaugura com a decisão de escrever o diá rio, de garantir-se
tria ( que é, com razã o, definida por Marx como “o livro" da assim um espaço de domínio sobre o tempo e sobre as coisas,
“ ci ê ncia ” ) obedecem ao mesmo esquema. A cidade moderna
4 e de constituir-se assim, com a página em branco, uma primeira
também: é um espaço circunscrito onde se realizam a vontade ilha para aí produzir o seu querer. Não é de se admirar então
que desde Rousseau , que queria apenas este livro para seu
-
de colig í r estocar uma popula çã o exterior e a de conformar o
Emílio, Robinson tenha sido ao mesmo tempo a personagem
campo a modelos urbanos.
recomendada aos educadores “ modernos ” de futuros técnicos
A pró pria revolu ção, esta ideia “ moderna ”, representa o sem voz e o sonho das crianças que desejam criar um mundo
projeto escritur ístico no n ível de uma sociedade inteira que tem
sem pai.
a ambi ção de se constituir em pá gina em branco com rela ção
ao passado, de se escrever a si mesma ( isto é, produzir-se como Analisando esse escrever, pr á tica m ítica moderna, n ão
sistema pró prio) e de refazer a história pelo modelo daquilo quero negar em absoluto aquilo que todos n ós lhe devemos,
que fabrica (será o “ progresso” ). Será apenas necessá rio que particularmente nós, mais ou menos funcioná rios, portanto,
esta ambi çã o multiplique a opera çã o escriturística nos campos crianças, profissionais e beneficiá rios da escritura numa socie -
econ ó micos, administrativos ou pol íticos, para que se realize o dade que nela vai haurir sua força. Gostaria até de destacar
ainda dois dos seus aspectos que precisarão o alcance dessa

226 227
força . Relacionam-se com o meu tema pois dizem respeito à seu avanço, na medida em que a voz pró pria de uma cultura
relação que a escritura tem com a perda de uma Palavra cristã se lhe torna o outro e onde a presença que lhe era dada
identificadora e, de outro lado, a um novo tratamento da l íngua no significante ( é a própria definição da voz ) se muda em
pelo sujeito locutor. passado. A conquista capitalista escriturí stica se articula nesta
Não se poderia superestimar a relação fundamental do perda e no gigantesco esforço das sociedades “ modernas" para
Ocidente com aquela que foi durante muitos séculos a Escritura se redefinirem sem essa voz. A tarefa revolucionária é apenas
por excel ência, a B íblia. Simplificando a história ( vou construir um dos seus efeitos principais. Ela é indissociável da mensagem
um artefato , sabendo que um modelo não se avalia por suas que, até então, significara sempre para as outras civilizações o
provas, mas pelos efeitos que produz na interpretação), pode-se seu fim (nenhuma delas sobrevivera à morte dos seus deuses):
dizer que antes do período “ moderno” , portanto até os séculos “ Nossos deuses não falam mais - Deus está morto! ”
XVI - XVII, essa Escritura fala. O texto sagrado é uma voz, ensina Ao mesmo tempo em que a escritura se modificava, trans-
( primeiro sentido de documentum ) , é a chegada de um “querer formou-se também a relaçã o com a linguagem. Uma não vai
dizer ” do Deus que espera do leitor ( de fato, o ouvinte ) um sem a outra , mas deve-se sublinhar igualmente este segundo
“ querer - ouvir ” do qual depende o acesso à verdade. Ora , por
aspecto , para perceber depois a forma sob a qual a palavra,
razões analisadas em outra instância, a “ modernidade ” se hoje, retoma . Outro apanhado histórico pode sugeri-lo . A
forma descobrindo aos poucos que essa Palavra não se ouve virada da modernidade se caracteriza em primeiro lugar, no
mais, que ela foi alterada nas corrupções do texto e nos avatares século XVII , pela desvalorização do enunciado e pela concen-
da história . Não se pode ouvi la . AJ‘ verdade ” não depende mais tração sobre o ato de enunciar, a enuncia ção. Quando se tinha
da atençã o de um destinatário que se assimila com uma certeza quanto ao locutor ( “ Deus fala no mundo ” ), a atenção
grandiosa mensagem identificatória . Será o resultado de um se voltava para o ato de decodificar os Seus enunciados, os
trabalho - histórico, crí tico, económico. Depende de um que- “ mistérios ” do mundo. Mas quando essa certeza fica perturbada
rer- fazer. A voz hoje alterada ou extinta é em primeiro lugar com as instituições pol íticas e religiosas que lhe davam garantia,
esta grandiosa Palavra cosmol ógica, que se percebe nào vir pergunta-se pela possibilidade de achar substitutos para o único
mais: ela não atravessa a distância das eras. Desapareceram os locutor: Quem falará? E a quem ? Com o desaparecimento do
lugares fundados por uma palavra, perderam-se as identidades Primeiro Locutor surge o problema da comunicação , ou seja,
que se julgava que elas recebiam de uma palavra. É preciso de uma linguagem que se deve fazer e não mais somente ouvir .
guardar o luto . Agora , a identidade depende de uma produção, No oceano da linguagem progressivamente disseminado , mun-
de uma iniciativa interminá vel ( ou do desapego e do corte) que do sem margens e sem â ncoras ( é duvidoso, e logo improvável,
essa perda torna necessárias. Mede-se o ser pelo fazer. que um Ú nico sujeito se aproprie dele para fazê-lo falar ), cada
A escritura, com isso, fica progressivamente abalada. Outra discurso particular atesta a ausê ncia do lugar que, no passado,
escritura vai aos poucos se impondo sob formas científicas, era atribu ído ao indiv íduo pela organização de um cosmos e ,
eruditas ou pol íticas: ela nã o é mais o que fala, mas o que se portanto, a necessidade de cortar para si um lugar por uma
fabrica Ligada ainda à quilo que desaparece , endividada em
. maneira pró pria de tratar um departamento da l íngua. Noutros
face daquilo que se afasta como um passado mas é sempre uma termos, pelo fato de perder seu lugar, o indiv íduo nasce como
origem , esta nova escritura deve ser uma prá tica, a produção sujeito O lugar que lhe era outrora fixado por uma lí ngua
.

indefinida de uma identidade mantida apenas por um fazer , cosmol ógica, ouvida como “ voca çã o” e colocação numa ordem
uma empreitada sempre relativa ao que de outro se oferece a do mundo, torna-se agora um “ nada ”, uma espécie de vácuo,

228 229
-
que obriga o sujeito a apoderar se de um espa ço, colocar se a- assumida pela escritura na modernidade. E lhe sobreviverá. Ele
si mesmo como um produtor de escritura. se imbrica nela e a determina como uma arqueologia contínua
à qual não sabemos mais que nome nem que estatuto dar.
Devido a esse isolamento do sujeito, a linguagem se obje - Aquilo que a í se joga diz respeito à relação do direito com o
tiva, tornando-se um campo que se deve lavrar e não mais corpo - corpo, ele mesmo, definido, circunscrito, articulado
decifrar , uma natureza desordenada que se há de cultivar. A pelo que o escreve.
ideologia dominante se muda em técnica, tendo por programa
-
essencial fazer uma linguagem e não mais lê la. A pró pria N ão há direito que não se escreva sobre corpos. Ele domina
o corpo. A pr ópria id éia de um indiv íduo isolável do grupo se
linguagem deve ser agora fabricada, “escrita ”. Construir uma
ci ê ncia e construir uma lí ngua é, para Condillac, o mesmo instaurou com a necessidade, sentida pela justiça penal, de
trabalho , bem como estabelecer a revolu ção és, para os homens corpos que devem ser marcados por um castigo e, pelo direito
de 1790, forjar e impor um francês nacional. Isso implica um matrimonial, de corpos que se devem marcar com um preço
afastamento do corpo vivido (tradicional e individual ) e, por- nas transações entre coletividades. Do nascimento ao luto, o
tanto, também de tudo aquilo que, no povo, continua ligado à -
direito se "apodera ” dos corpos para fazê los seu texto. Median -
.
terra , ao lugar, à oralidade ou às tarefas nã o verbais O dom í nio -
te toda sorte de inicia ções ( ritual, escolar, etc.), ele os transfor
da linguagem garante e isola um novo poder, “ burguês”, o ma em tá buas da lei, em quadros vivos das regras e dos
poder de fazer a história fabricando linguagens. Este poder, costumes, em atores do teatro organizado por uma ordem
essencialmente escriturístico, não contesta apenas o privilégio social. E até para Kant e Hegel, não há direito sem pena de
do “ nascimento ”, ou seja, da nobreza: ele define o código da morte, ou seja, sem que, em casos extremos, o corpo assinale
promoção sócio-econômica e domina, controla ou seleciona por sua destruição o absoluto da letra e da norma. Afirmação
segundo suas normas todos aqueles que n ã o possuem esse discutível . Seja como for, sempre é verdade que a lei se escreve
dom ínio da linguagem. A escritura se toma um princípio de sobre os corpos. Ela se grava nos pergaminhos feitos com a
hierarquizaçã o social que privilegia, ontem o burgu ês, hoje o pele dos seus sú ditos. Ela os articula em um corpo jur ídico.
tecnocrata. Ela funciona como a lei de uma educação organi - Com eles faz o seu livro. Essas escrituras efetuam duas opera-
zada pela classe dominante que pode fazer da linguagem ções complementares: graças a elas, os seres vivos são "postos
(retó rica ou matem á tica ) o seu instrumento de produ ção. Ainda num texto”, transformados em significantes das regras ( é uma
aqui Robinson esclarece uma situaçã o: o sujeito da escritura é contextualizaçâ o) e, por outro lado, a razã o ou o Logos de uma
o senhor, e o trabalhador que usa outra ferramenta, além da -
sociedade "se faz carne” (trata se de uma encarnação).
linguagem: ser á Sexta - Feira . Há toda uma tradição para contá-lo: a pele do empregado
é o pergaminho onde a m ã o do patrã o escreve. Assim fala
Esta mutaçã o histó rica Dromio, o escravo, a seu senhor Antífolo de É feso em The
Inscrições da lei no corpo não transforma toda a or
ganizaçã o que estrutura
- Comedy of Errors: "If the skin were parchment and the blows
you gave were ink... ” 6 Shakespeare indicava deste modo o
uma sociedade pela es- lugar primordial da escritura e a rela çã o de domínio que a lei
critura. Inaugura um outro modo de usá-la. Um novo modo de mantém com o seu sú dito pelo gesto de “ lhe fazer a pele ”. Todo
usar a linguagem. Um funcionamento diferente. Deve-se pois poder, inclusive o do direito, se traça primeiramente em cima
relacionar a sua instauraçã o com o trabalho, quase imemorial, das costas de seus sujeitos. 0 saber faz o mesmo. Assim a
que se esfor ça por colocar o corpo (social e/ou individual ) sob ciê ncia etnológica ocidental se escreve no espa ço que o corpo
a lei de uma escritura . Esse trabalho precedeu a figura histórica

230 231
do outro lhe oferece. Poder-se-ia portanto supor que os perga- articula, permitindo os gestos que farã o da “ficção ” textual o
minhos e os papéis sã o colocados no lugar de nossa pele e que, modelo reproduzido e realizado pelo corpo.
-
substituindo a durante os períodos felizes, formam em torno Essa panó plia de instrumentos para escrever pode ser
dela uma vala protetora. Os livros são apenas as metá foras do isolada. É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. Pode
corpo. Mas nos tempos de crise, o papel nã o basta para a lei, e ser colecionada, antes ou depois do uso. Fica lá, à espera ou
ela se escreve de novo nos corpos. O texto impresso remete a como resíduo. Essas coisas duras são utilizá veis em corpos que
tudo aquilo que se imprime sobre o nosso corpo, marca-o (com
ferro em brasa) com o Nome e com a Lei, altera-o enfim com
estão ainda longe, desconhecidos, e podem ser usadas nova -
dor e/ou prazer para fazer dele um símbolo do Outro, um dito,
mente a servi ço de outras leis, diferentes daquelas que permi -
tiram a sua “ aplicaçã o ”. Esses objetos feitos para apertar,
.
um chamado , um nomeado A cena livresca representa a endireitar, cortar, abrir ou encerrar corpos se expõem em
experiência, tanto social como amorosa, de ser o escrito daquilo vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes, madeiras com -
que n ã o se pode identificar: “ Meu corpo será apenas o texto pactas, cifras sólidas e abstratas alinhadas como caracteres de
que tu escreves sobre ele, significante indecifrável para qual - imprensa , instrumentos curvos ou direitos, envolventes ou
quer outro que n ã o tu. Mas o que és tu, Lei, que mudas o corpo contundentes, que esboçam os movimentos de uma justiça
em teu sinal ?” O sofrimento de ser escrito pela lei do grupo suspensa e moldam já partes de corpos que se h ão de marcar ,
vem estranhamente acompanhado por um prazer, o de ser mas ainda estã o ausentes. Entre as leis que mudam e seres
reconhecido ( mas não se sabe por quem), de se tornar uma
palavra identificá vel e legível numa l íngua social, de ser muda -
vivos que vão passando, as galerias desses instrumentos está -
veis pontuam o espaço, formam redes de nervuras, remetendo
do em fragmento de um texto an ó nimo, de ser inscrito numa de um lado ao corpo simbólico e, do outro, aos seres de carne
simbólica sem dono e sem autor. Cada impresso repete essa e osso. Por mais disseminada que seja (como os ossos de um
ambivalente experiê ncia do corpo escrito pela lei do outro. esqueleto ), essa pan ó plia desenha em pontos fixos as rela ções
Conforme os casos, ele é a sua metáfora longínqua e gasta que entre regras e corpos igualmente m óveis. Em peças destacadas,
não atua mais na escritura encarnada , ou então é a sua memó ria eis a má quina de escrever da Lei - o sistema mecâ nico de uma
viva quando a leitura toca no corpo as cicatrizes do texto articula çã o social.
7
desconhecido que a í se acha impresso há muito tempo.
Para que a lei se escreva sobre os corpos, deve haver um Essa maquinaria transforma
aparelho que mediatize a relaçã o de uma com os outros. Desde De um corpo ao outro os corpos individuais em
os instrumentos de escarifica ção, de tatuagem e da iniciação corpo social. Ela faz esses
primitiva até aos instrumentos da justi ça , existem instrumentos corpos produzirem o texto
para trabalhar o corpo. Ontem , o punhal de sílex ou a agulha. de uma lei. Uma outra maquinaria vem somar se a esta: paralela
Hoje, a aparelhagem que vai desde o cassetete do policia! até à primeira mas de tipo m édico ou cir ú rgico, e não mais jur ídico.
às algemas e ao box do acusado. Esses instrumentos compõem Ela serve uma “ terapê utica ” individual e não coletiva. O corpo
uma sé rie de objetos destinados a gravar a for ça da lei sobre o que ela trata se distingue do grupo. Depois de ter sido durante
seu súdito, tatuá -lo para fazer dele uma demonstração da regra, muito tempo apenas um “ membro” - bra ço, perna ou cabeça
produzir uma “ có pia ” que torne a norma leg ível. Essa sé rie - da unidade social, ou lugar de cruzamento de forças ou
forma um ponto intermedi á rio: ela debrua o direito (ela o arma) “ espíritos” cósmicos, foi lentamente se destacando como uma
e visa a carne ( para marcá -la ). Fronteira ofensiva, eia organiza totalidade com suas enfermidades, seus equilíbrios, desvios e
o espa ç o social: separa o texto e o corpo mas também os anormalidades pró prios. Foi necessá ria uma longa história, dos

232 233
séculos XV ao XVIII , para que esse corpo individual fosse direito à de uma medicina cir ú rgica e ortopédica, o aparelho
“ isolado ” , da mesma maneira como se “ isola ” um corpo em dos instrumentos mantém a função de marcar ou conformar os
qu ímica ou em microf ísica: para que então se tornasse a corpos em nome de uma lei. Se o corpus textual (científico,
unidade básica de uma sociedade, após um tempo de transição ideol ógico e mitol ógico ) se transforma, se os corpos se tornam
onde aparecia como uma miniaturiza ção da ordem pol ítica ou sempre mais aut ónomos em face do cosmos e assumem a figura
celeste - um “ microcosmo ”. Ocorre uma mudança dos postu-
8 de montagens mecâ nicas, a tarefa de articular o primeiro com
-
lados sócio culturais, quando a unidade de referência progres - os outros continua de pé, sem d ú vida exorbitada pela multipli-
-
sivamente deixa de ser o corpo social para tornar se o corpo cação das interven ções possíveis, mas sempre definida pela
individual, e quando o reino de uma pol ítica jurídica começa escritura de um texto sobre os corpos pela encarnação de um
a ser sucedido pelo reino de uma pol ítica médica, da represen - saber. Estabilidade da instrumentação. Estranha in ércia funcio -
taçã o, da gestã o e do bem-estar dos indiv íduos. nal desses instrumentos, no entanto sempre ativos para cortar,
apertar, modelar as carnes interminavelmente oferecidas a uma
O corte individualista e m édico circunscreve um espaço criação destinada a fazê-los corpos em uma sociedade .
“ corporal" pró prio onde se deve poder analisar uma combina- Uma necessidade ( destino? ) parece indicada por esses
tó ria de elementos e as leis de seus intercâ mbios. Dos séculos objetos de aço e níquel: aquela que introduz a lei na carne pelo
XVII ao XVIII, a ideia de uma f ísica dos corpos em movimento
aço e que nã o autoriza ou não reconhece como corpos, numa
. 9
neste corpo habita a medicina antes que esse modelo científico cultura, a não ser as carnes escritas pelo instrumento. Mesmo
seja substitu ído, no século XIX , pela refer ência termodin â mica
quando a ideologia médica se inverte lentamente, no início do
e qu ímica. Sonho de uma mecâ nica de elementos distintos, cuja século XIX, quando, de modo geral, uma terapê utica de extra-
força é transmitida por pulsôes, pressões, modifica ções de
equil íbrios e manobras de todo o tipo . O trabalho do corpo:
-
ções (o mal é um excesso algo a mais ou algo demasiado -
que se deve arrancar do corpo pela sangria, a purga etc.) é
uma complexa maquinaria de bombas, de tubos, de filtros, de substitu ída por uma terapê utica de acréscimos ( o mal é uma
alavancas , onde circulam licores e há ó rgãos que se correspon - falta, um d é ficit, que se deve suprir por drogas, apoios etc.), a
dem. 50 A identificaçã o das pe ças e de seus jogos permite que aparelhagem da utensilidade continua exercendo o seu papel
sejam substitu ídos por elementos artificiais aqueles que se
de escrever sobre o novo texto do saber social em vez do antigo,
deterioram ou apresentam algum defeito, e até construir corpos assim como a grade de ferro da Colónia penal é sempre
autómatos. O corpo se repara. Educa -se. Até mesmo se fabrica. id ê ntica, mesmo que se possa trocar o papel normativo que ela
A pan ó plia dos instrumentos ortopédicos e dos instrumentos grava sobre o corpo do supliciado.
para intervençã o prolifera portanto, à medida que, daqui em
diante , o homem se torna capaz de decompor e reparar, cortar, Sem d ú vida, a m á quina m ítica de Ka íka assume, no decor-
substituir , tirar, acrescentar , corrigir ou endireitar. A rede -
rer dos tempos, formas menos violentas e talvez menos
capazes de provocar o ú ltimo clar ã o de prazer que a testemu-
desses instrumentos se comp í exifica e se estende. Até hoje está
funcionando, apesar da passagem para uma medicina qu ímica nha da Colónia percebia no olhar dos moribundos feridos pela
e para modelos ciberné ticos. Milhares de lâ minas afiadas e sutis escritura do Outro. Ao menos a an á lise do sistema permite
se ajustam às infinitas possibilidades que lhes oferece a meca - detectar as variantes e os regimes da m á quina que faz dos
niza çã o do corpo. corpos a gravura de um texto, e interrogar -se sobre o olho ao
qual se destina esta escritura ilegível em seus suportes.
Mas a sua prolifera çã o por acaso modificou o seu funcio -
namento? Mudando de serviço, passando da “ aplicação” do

234 235
Do movimento que, no sé- faz livros e nesses livros que, como imagina o Século das Luzes,
Aparelhos de encarnação culo XVII, deportou os Re- irã o refazer a histó ria. E essa ideia poderia ter també m como
formadores puritanos bem símbolo as “ constitui ções" que se vão multiplicando, do século
como os juristas para o sa- XVIII ao século XIX: dão ao texto o estatuto de ser “ aplicá vel ”
ber de m édicos justamente denominados Physicians , u de- -
sobre os corpos p ú blicos ou privados, de defini los e encontrar
preende-se uma grande ambição: consiste em refazer a história assim a sua efetividade.
a partir de um texto. Que as Escrituras forneçam, no seio de Essa grande paixã o m ítica e reformadora funciona a partir
uma sociedade corrompida e de uma Igreja em decadência, o de tr ês termos que a caracterizam: de uma parte, um modelo
modelo para se re formar tanto uma como a outra, eis o mito
da Reforma. Volta às origens, nã o apenas às origens do Ociden-
.
ou “ficção ”, isto é um texto; de outra parte, os instrumentos
de sua aplica çã o ou de sua escritura, isto é, instrumentos:
te cristão, mas à do universo, para uma gé nese que dá corpo enfim , o material que é ao mesmo tempo suporte e encarnaçã o
ao Logos e o encarna de maneira que de novo, mas diferente - do modelo, isto é, uma natureza, essencialmente uma carne
mente, ele “se fa ça carne ”. As variantes desse mito se encon-
tram por toda a parte, nesse tempo de Renascença, com a
.
que a escritura transforma em corpo Por meio de instrumen-
tos, conformar um corpo àquilo que lhe define um discurso
convicçã o, ora utó pica, ora filosófica ou científica, política ou social, tal é o movimento. Parte de uma id é ia normativa
religiosa, que existe uma Razão capaz de instaurar ou restaurar veiculada por um código de intercâ mbios económicos ou pelas
um mundo, e que não se trata mais de ler os segredos de uma variantes dela, apresentadas nos relatos do legend á rio comum
ordem ou de um Autor escondido, mas de produzir uma ordem e nas criações do saber. No começo, há uma ficção determinada
-
para escrevê la no corpo de uma sociedade selvagem ou
depravada. A escritura adquire um direito sobre a histó ria, em
por um sistema “ simbólico” que tem força de lei, portanto uma
representaçã o ( um teatro ) ou uma fá bula ( ou um “ dito” ) do
-
vista de corrigi-la, domesticá-la ou educá la.12 Ela se torna poder corpo. Isto é, um corpo colocado como o significante ( o termo )
nas m ãos de uma “ burguesia ” que coloca a instrumentalidade de um contrato. Essa imagem discursiva deve informar um
da letra no lugar do privil égio do nascimento, ligado à hipó tese “ real ” desconhecido, outrora designado como “carne ”. Da
de que o mundo dado é razão. Faz-se ci ê ncia e pol ítica, com a ficção ao desconhecido que lhe dará corpo, a passagem se
certeza, logo transformada em postulado “esclarecido” ou efetua por instrumentos que se multiplicam e diversificam pelas
revolucioná rio, de que a teoria deve transformar a natureza resistê ncias imprevisíveis do corpo a ( con )formar. Torna-se
-
inscrevendo se nela. Ela se faz violência, cortando e arrancando necessá ria uma fragmentação indefinida da aparelhagem para
na irracionalidade de povos supersticiosos ou de regiões enfei - ajustar e aplicar cada um desses ditos e/ou saberes do corpo,
ti çadas. modelos unificadores, à opaca realidade carnal cuja complexa
A imprensa representa essa articula ção do texto no corpo organizaçã o se revela no decorrer das interven ções resistindo-
-
mediante a escritura. A ordem pensada o texto concebido - lhe. Entre o instrumento e a carne, existe portanto um jogo que
se traduz de um lado por uma mudan ça na ficção ( uma correção
se produz em corpos - os livros - que a repetem, formando
cal çamentos e caminhos, redes de racionalidade através da do saber ) e, do outro, pelo grito, dor inarticul á vel, impensado
incoer ê ncia do universo. O processo vai se multiplicar. Ele é da diferença corporal.
ainda apenas a metá fora das técnicas, melhor taylorizadas, que Produtos de um artesanato, e mais tarde de uma ind ú stria ,
transformarã o os pró prios seres vivos em impressos da ordem. os instrumentos se propagam em torno das imagens que
Mas a id é ia fundamental já se acha presente neste logos que se servem e que são os centros vazios, os puros significantes da

236 237
comunicação social, “ nadas” - e representam, em bruto, os De fato, ao perder a sua capacidade ( mítica) de organizar
saberes astuciosos, as sinuosidades cortantes, as ast ú cias per- o pensável , o sistema tern á rio do texto, do instrumento e do
furadoras, os giros incisores que sã o necessá rios e produzidos corpo fica na clandestinidade. Sobrevive, embora il ícito ao
para a penetração no corpo labir íntico. Desde modo, tomam se - oihar de uma cientificidade cibern ética. Parcelar e fragmentá -
o vocabulá rio metá lico dos conhecimentos que trazem dessas rio, ele se empilha sobre muitos outros. Configurações episte -
viagens. Sã o os n ú meros de um saber experimental conquista - mol ógicas jamais são substitu ídas pelo aparecimento de ordens
do pela dor dos corpos que se vã o transformando em gravuras novas; elas se estratificam para formar o tufo de um presente.
e mapas dessas conquistas. De todos esses instrumentos, her óis Do sistema do instrumento sempre se encontram relíquias e
imputrescíveis, as carnes dilaceradas ou aumentadas, decom- -
bolsas, assim como esses meios soldos que, depois de terem
postas ou recompostas, narram as façanhas. Para o tempo de simbolizado um regime e uma conquista imperial, ainda conti-
uma vida ou de uma moda, elas ilustram as ações do instru - nuam constituindo redes e n ú cleos através da França da
mento. São os seus relatos humanos, ambulantes e passageiros. Restauraçã o. Os instrumentos assumem ares folk. Nem por isso
Mas os aparelhos tê m valor instrumental se, e somente se, deixam de compor os meios-soldos deixados pelo falecido
uma “ natureza" supostamente exterior ao modelo, se uma impé rio da mecânica. Essas popula ções de instrumentos osci -
“ maté ria ” se distingue das opera ções informadoras e reforma- lam entre o estatuto de ruí nas memorá veis e uma intensa
doras. Torna -se necessá rio um exterior a essa escritura. Não se atividade cotidiana. Formam uma classe intermediá ria de obje-
dando uma separa çã o entre o texto a gravar e o corpo que o tos já aposentados (é o museu ) e ainda trabalhando (sua
historiciza, o sistema deixa de funcionar. Ora, são os instrumen - operatividade em uma grande multiplicidade de empregos
14
tos que colocam essa diferença . Marcam a cesura sem a qual secundários). Desse trabalho de formigueiro, existem mil
tudo se torna escritura dispersa, combinat ó ria indefinida de terrenos, desde os banheiros até os laborat órios mais ricos,
ficções e simulacros ou então, ao contrá rio, um continuum de desde os salões de beleza até as salas de opera ção. Filhos de
forças naturais, de pulsões libidinais e de fluxos instintuais. uma outra é poca, eles pululam no entanto no seio da nossa,
Operadores da escritura , os instrumentos são igualmente seus gadgets ou bisturis informadores de corpos.
defensores. Protegem o privilégio que a circunscreve e a
distingue do corpo a educar. As suas redes mantêm, face à
Duas operações principais ca -
A maquinaria da racterizam as suas interven-
instâ ncia textual de que sã o os executantes, um referencial
representação ções. Uma visa em primeiro
ontol ógico ou um “ real ” - que informam. Mas essa barreira
- lugar tirar do corpo um ele-
se esboroa aos pouquinhos. Os instrumentos cedem aos pou - mento demais, enfermo ou inestético, ou então acrescentar ao
-
cos, perdendo importâ ncia e espa ço, tornando se quase anacró - corpo o que lhe falta. Os instrumentos se distinguem assim
nicos na ordem contempor â nea onde a escritura e a
conforme a a ção que efetuam: cortar, arrancar, extrair, tirar
maquinaria, finalmente confundidas, se tornam, elas mesmas,
etc. ou inserir, colocar, colar, cobrir, reunir, coser, articular etc.
as modaliza ções aleató rias das matrizes programá ticas demar - - sem falar daqueles que substituem órgãos que faltam ou se
cadas por um código genético,13 e onde, de realidade “ carnal ”,
ontem submetida à escritura , n ã o resta quem sabe senão o grito
deterioraram válvulas e reguladores card íacos, próteses de
- de dor ou de prazer - voz incongruente na indefinida articulações, pinos implantados no fémur, íris artificiais, subs-
titutos de ossos etc.
combinató ria de simula ções.
Do lado de fora ou de dentro, corrigem um excesso ou um
d éficit, mas em relaçã o a quê? Como acontece no caso de

238 239
depilar uma perna ou pintar cílios, de cortar ou implantar soletrem uma ordem.16 A economia liberal não é menos eficaz
cabelos, essa atividade de extração ou de acréscimo remete a que o totalitarismo para efetuar essa articulação da lei pelos
um código. Mantém os corpos submetidos a uma norma . Deste corpos. Ela procede apenas segundo outros métodos. Em vez
ponto de vista , até as roupas podem passar por instrumentos, de esmagar os grupos para marcá- los com o ferro ú nico de um
gra ças aos quais uma lei social se assegura dos corpos e de só poder, atomiza -os inicialmente e depois multiplica as r«des
-
seus membros, regula os e os exerce por mudanças de moda estreitas dos intercâ mbios que conformam unidades indivi -
como em manobras militares. O automóvel, como um esparti - duais às regras (ou às “ modas” ) dos contratos sócio-econômicos
lho , também os molda e os conforma a um modelo postural . É -
e culturais. Tanto neste como naquele caso, pode se perguntar
um instrumento ortopédico e ortopráxico. Os alimentos sele - por que isso funciona. Que desejo ou que necessidade nos leva
cionados por tradições e vendidos nos mercados de uma assim a fazer de nossos corpos os emblemas de uma lei
sociedade modelam igualmente os corpos mediante a nutrição; identificadora? As hipó teses que tentam responder a essa
impõem -lhes uma forma e um tônus que têm valor de uma pergunta mostram de outro modo a for ça dos la ços que os
carteira de identidade. Os óculos, o cigarro, os sapatos etc. -
instrumentos estabelecem entre nossas “ naturezas” in fantis e
refazem , à sua maneira, o “ retrato ” físico... Onde se acha o as discursividades sociais.
limite da maquinaria pela qual uma sociedade se representa Uma credibilidade do discurso é em primeiro lugar aquilo
por gente viva e dela faz as suas representações? Onde é que
15
que faz os crentes se moverem. Ela produz praticantes. Pazer
pá ra o aparelho disciplinar que desloca e corrige, acrescenta crer é fazer fazer. Mas por curiosa circularidade a capacidade
ou tira nesses corpos, maleáveis sob a instrumentção de um de fazer se mover - de escrever e maquinar os corpos - é
sem -n ú mero de leis? Na verdade, eles só se tornam corpos precisamente o que faz crer. Como a lei é já aplicada com e
graças à sua conformação a esses códigos. Pois onde é que há, sobre corpos, "encarnados” em pr á ticas f ísicas, ela pode com
e quando, algo do corpo que não seja escrito, refeito, cultivado, isso ganhar credibilidade e fazer crer que está falando em nome
identificado pelos instrumentos de uma simbó lica social? Tal - do “ real". Ela ganha fiabilidade ao dizer: “ Este texto vos é
vez, na fronteira extrema dessas escrituras incansá veis, ou -
ditado pela pró pria Realidade ”. Acredita se então naquilo que
-
furando as com lapsos, exista somente o grito: ele escapa, se supõe real, mas este “ real ” é atribu ído ao discurso por uma
-
escapa lhes. Do primeiro grito até o ú ltimo, alguma coisa de crença que lhe dá um corpo sobre o qual recai o peso da lei. A
outro irrompe com ele, que seria sua diferen ça em face do lei deve sem cessar “ avançar ” sobre o corpo, um capital de
corpo, uma diferen ça ora in - fans e mal educada, intolerável na encarnação, para assim se fazer crer e praticar. Ela se inscreve
criança, a pessoa possessa, o louco ou o doente uma falta de - portanto gra ças ao que dela já se acha inscrito: são as testemu -
“ compostura ”, como os berros do bebe em Jeanne Dielman ou nhas, os má rtires ou exemplos que a tornam digna de crédito
o grito do vice-cônsul na í ndia Song.' para outros. Assim se impõe ao sú dito da lei: “Os antigos a
Esta primeira operação de retirar ou acrescentar algo não praticaram ” , ou “outros assim acreditaram e fizeram ” , ou ainda:
é sen ã o o corol á rio de outra, mais geral, que consiste em fazer “ Tu mesmo, tu levas já no teu corpo a minha assinatura ”.
os corpos dizerem o código. Como se viu, esse trabalho Noutras palavras, o discurso normativo só “ anda ” se já se
“ realiza ” uma l í ngua social ( no sentido inglês do termo ), d á-lhe houver tornado um relato, um texto articulado em cima do real
efetividade. Tarefa imensa de “ maquinar ” os corpos para que e falando em seu nome , isto é, uma lei historiada e historicizada,
narrada por corpos. Sua fixa çã o em um relato é o dado
* Filmes da autoria, respectivaineote, de Chantal Akerman e Marguerite Duras pressuposto para que produza ainda relato fazendo-se acredi-
Í L.C . )

240 241
À inauguração de uma
tar. E o instrumento assegura precisamente a passagem do 4s *imáquinas celibatárias”
i ísti-
nova prática escritur
discurso ao relato por intervenções que encarnam a lei em lhe
ca, marcada no céu do
conformando corpos, e lhe valem assim o crédito de ser relatada
pelo pró prio real. Da inicia ção à tortura, toda ortodoxia social
século XVIII pela insu -
se utiliza de instrumentos para atribuir-se a forma de uma -
laridade laboriosa de Robinson Crusoé, pode se então compa-
histó ria e produzir a credibilidade ligada a um discurso articu - rar a sua generalização assim como é representada pelas
máquinas fantásticas cujas figuras vão aparecer, por volta dos
lado por corpos. Uma outra dinâmica completa a primeira e
-
nela se imbrica, aquela que leva os vivos a tornar se sinais, a anos de 1910-1914, nas obras de Alfred Jarry ( O Supermacho,
encontrar num discurso o meio de transformar se em uma - 1902; O Doutor Faustroll, 1911), Raymond Roussel {Impres-
unidade de sentido, em uma identidade. Desta carne opaca e sões da Á frica, 1910; LocusSolus, 1914), Mareei Duchamp ( Le
dispersa, desta vida exorbitante e confusa, passar enfim à Grand Verre: A casada desnudada por seus celibatários, mes-
limpidez de uma palavra , tornar -se um fragmento da lingua- mo, 1911-1925), Franz Kafka ( A Colónia Penal, 1914), etc.18:
gem , um só nome, legível por outros, citá vel: esta paixã o habita mitos que falam do encerramento nas operações de uma
o asceta armado de instrumentos para combater a pr ó pria escritura que se maquina indefinidamente e nã o encontra
carne, ou o filósofo que faz a mesma coisa com a linguagem , nunca a não ser a si mesma. Só há saídas em ficções, janelas
pintadas, espelhos de vidro. Só há brechas e rompimentos
“ até perder o corpo ”, como dizia Hegel. Mas seja lá quem for
a sua testemunha, com fome de ter ou ser enfim um nome, de escritos. São comédias de desnudamentos e torturas, relatos
ser chamado, de se metamorfosear em um dito, ao preço at é “ autómatos" de desfolhamentos de sentidos, estragos teatrais
da vida. Esta intextua çáo do corpo responde ã encarna ção da de rostos decompostos. Essas produ ções tê m um ar fantástico,
lei; serve-lhe de apoio, parece até que a fundamenta, em todo n ão pela indecisão de um real que mostrariam nas fronteiras
o caso lhe serve. Pois a lei joga com o corpo: “ Dá me o teu - da linguagem, mas pela relação entre os dispositivos produ-
corpo e eu te darei sentido, dou -te um nome e te faço uma tores de simulacros e a ausê ncia de outra coisa. Essas ficções
palavra de meu discurso ”. As duas problem á ticas se apoiam , e romanescas ou icô nicas narram que não existe, para a escritura,
talvez a lei não tivesse poder algum se não se apoiasse no nem entrada nem saída, mas somente o interminá vel jogo de
obscuro desejo de trocar a carne por um corpo glorioso, de ser -
suas fabricações. O mito diz o não lugar do acontecimento ou
escrito, ainda que mortalmente, e mudado em uma palavra -
um acontecimento que não tem lugar se todo acontecimento
reconhecida. Aqui ainda, a esta paixã o de ser um sinal somente é uma entrada ou uma saída. A má quina produtora de lingua-
se opõe ao grito, o desvio ou êxtase , revolta ou fuga daquilo gem é lavada da história, limpa das obscenidades de um real,
que do corpo escapa à lei do nomeado. -
ab soluta e sem relaçã o com o outro “ celibatá rio”.
Talvez toda experi ê ncia , que nã o é grito de prazer ou de É uma “ ficção teórica ”, tomando o termo de empréstimo
dor, seja coligida pela institui ção. Toda experiê ncia que não é de Freud que, já em 1900, esboçava uma espécie de m áquina
deslocada ou desfeita por esse êxtase é captada pelo “ amor do -
celibatá ria , fabricadora de sonhos avan çando de dia e, de
censor",17 coligida e utilizada pelo discurso da lei. Ela é noite, recuando19. Ela se escreve numa língua sem terra e sem
canalizada e instrumentada. É escrita pelo sistema social. Por corpo, com todo o repertó rio de um ex ílio fatal ou de um êxodo
isso. seria necessário procurar, do lado dos gritos, aquilo que impossível- A máquina solitá ria faz funcionar o Eros do morto,
n ã o é “ refeito ” pel 3 ordem da instrumentalidade escriturística. mas esse ritual de luto ( n ã o h á outro ) é uma comédia no tú mulo
do(a) ausente. Não existe morte no campo das operações

242 243
grá ficas e lingu ísticas. O “supl ício" da separação ou do assas- Essas tragicomédias, fragmentos de mitos, reconhecem
sínio do corpo continua sendo literário. Ferindo, torturando, que é impossível a comunica ção se a língua é ao mesmo tempo
-
matando, desenrola se no interior da página. O celibato é a promessa e o fantasma. Uma poética , mais uma vez, veio antes
escriturístico. As personagens transformadas em cilindros, tím - da teoria. Mais tarde, a reflexã o avançou nessa direção. Em
Lacan , a categoria da “ lal íngua ” relaciona efetivamente o falar
panos , devastações e mo ías reunidos e pintados no “ vidro”
onde a sua representa ção em perspectiva se mistura com os à impossibilidade de se unir sexualmente ( “ Nã o há relaçã o
objetos situados por trás (o vidro é uma janela) e à frente (o sexual ” ), e a pró pria possibilidade da linguagem à impossibili -
vidro é um espelho ) não representam somente, no painting- dade da comunicaçã o que se supõe produzir . O linguista
glass-mirrorque é A Casada desnudada de Duchamp instalada acrescenta: “ Assim como a linguagem do filósofo é o lugar do
20
na biblioteca da casa de campo de Miss Dreier, a disseminação imposs ível do conhecimento m ú tuo , també m lal í ngua é o lugar
do tema da pintura , mas o logro da comunica ção que é do impossível da relaçã o sexual ”.22 Entre desejantes, só resta
prometida pela transpar ê ncia do vidro. Tragicomédia da lingua- a possibilidade de amar a l í ngua que substitui sua comunica çã o.
gem: ser uma mistura de efeitos óticos, pois esses elementos E é justamente um modelo de l íngua que é fornecido pela
n ão sã o coerentes nem unidos. O olhar casual dos espectadores máquina , feita de peças diferenciadas e combinadas (como todo
os associa, mas não os articula.“Desnudada ” por uma defecçáo enunciado ) e desenvolvendo, pelo jogo dos mecanismos, a
mecanicamente organizada , a casada jamais se casa com um lógica de um narcisismo celibatá rio.
real ou com um sentido. -
“ Trata se de esgotar o sentido das palavras, de jogar com
Certamente, apenas uma er ótica, desejo do outro ausente, -
elas até violen tá las em seus atributos mais secretos, pronunciar
é capaz de fazer andar o aparelho produtor, mas ela visa algo enfim o divórcio total entre o termo e o conte ú do expressivo
que jamais estará tá e que torna obsessivo o olhar do espectador que estamos habituados a lhe reconhecer ”. Agora , o impor
23

tante não é mais o dito (um conteú do ) nem o dizer ( um ato ),


-
apreendido por seu Duplo que se agita no meio das coisas
oferecidas/recusadas no espelho de vidro. O espectador aí se mas a transformação, e a invençã o de dispositivos, ainda A fc

vê disperso no meio do inapreensível. A figura pintada no vidro insuspeitos, que permitem multiplicar as transformações.
de Mareei Duchamp é a ilusão de ótica desnudada para e por Acabou-se portanto o tempo em que o “ real ” parecia vir
voyeurs que serã o sempre celibatá rios. A visão indexa e engana até o texto para ser a í manufaturado e exportado. Acabou -se o
a comunicação ausente. Outras máquinas celibatá rias funcio - tempo em que a escritura parecia fazer amor com a violê ncia
nam do mesmo modo, identificando o sexo com sua imagem -
das coisas e alojá las na ordem de uma razão. O verismo lidava
mecâ nica, e a sexualidade com uma ilusão de ótica. Assim, em com o aparente, teatro de um verossí mil. Depois de Zola, vêm
Os dias e as noites, de Alfred Jarry , há uma inscri çã o no alto Jarry , Roussel, Duchamp etc., ou seja , vê m as “ ficções te ó ricas"
da muralha de vidro que circula a ilha da nereida , mulher do outro impossível e da escritura entregue a seus pró prios
cercada de vidro no meio de um cen á rio militar; ela fala mecanismos ou a suas ereções solitá rias. O texto representa a
“ daquele que beija com paixão o seu Duplo através do vidro ”: sua pró pria morte e zomba dela. A essa escritura , cadá ver de
“ O vidro se anima num ponto e se torna sexo, e o ser e a imagem suma beleza , n ã o se liga mais nenhum respeito. Ela é apenas
se amam através da muraiha” 21. Nessa “ ilha de vidro l úbrica ”, o ilusório sacramento do real, espaço de risadas contra os
uma maquinaria fabrica em cada ponto beijado um sexo que postulados de ontem . A í se desdobra o trabalho iró nico e
nã o passa de um ersatz. Assim, em As dez mil milhas, há uma meticuloso do luto.
vidraça separando a mulher fechada no vagã o dos homens de
bicicleta , que apostam corrida com o trem.

244 245
-
Acham-se agora comprometidas as peças mestras da escri -
tura conquistadora de Defoe: a página em branco é agora
apenas um vidro onde a representa ção é atra ída por aquilo que
exclu ía; o texto escrito, fechado em si mesmo, perde o referente
que o autorizava; a utilidade expansionista se inverte em
“estéril gratuidade” do Don Juan celibatá rio ou do "viú vo”, sem
outra geração que não a simbolizante, sem mulher e sem
-
natureza, sem o outro. A escritura é aqui “ ilha inscrição”, Locus
Solus, “ colónia penal” - sonho laborioso, ocupado pelo impos -
1/
.
sível ao qual ou do qual acredita “ falar ”
Por esse desnudamento do mito moderno da escritura, a
máquina celibatá ria se torna, mediante a derrisão, blasfema.
Ela combate a ambição ocidental de articular no texto a CAPÍTULO XJ
realidade das coisas e reformá-la. Ela subtrai a aparência de
ser (de conte údo, de sentido ) que era o segredo sagrado da CITAÇÕES DE VOZES
Bíblia, mudada por quatro séculos de escritura burguesa em
poder da letra e do n ú mero. Talvez este antimito ainda se ache
à frente de nossa hist ória , mesmo que já encontre muitas
confirmações com a erosão das certezas científicas, com o
“ tédio” em massa dos escolarizados ou com a progressiva
metaforização dos discursos administrativos. Talvez ele esteja
simplesmente colocado “ ao lado” de uma tecnocratização ga - Vax,
Nympha fugax*
..
lopante, como um para doxo indicativo, uma pedrinha branca.

G COSSART,
Orútiones et Carmina,
]675 l

Robinson Crusoé já indicava como é que uma falha se


introduz em seu impé rio escriturístico. Durante algum tempo,
seu empreendimento é com efeito interrompido, e habitado,
por um ausente que volta ao terreno da ilha. Trata-se da
“ impressão ( print) de um pé descal ço de homem na areia da
praia ”. Instabilidade da demarcaçã o: a fronteira cede ao estran -
geiro. Nas margens da pá gina , o rastro de um invisível fantasma

* « Voz... fugitiva ninfa ".

246 247
campo da escritura, embora Daniel Defoe considere somente
(an apparition ) perturba a ordem constru ída por um trabalho
capitalizador e met ó dico. E provoca em Robinson “ pensamen - uma demarca ção silenciosa do texto por uma extremidade do
corpo ( um pé descalço ) e n ã o a pró pria voz, que é demarcação
tos loucos” ( fluttering thoughts)2, “ extravagâ ncias” (shimsies )
e até um certo “ terror ” (terror ). O conquistador burguês se
da língua pelo corpo. E já se d á també m um nome a esta forma
transforma em homem “ fora de si ”, ele mesmo agora selvagem
e a estas modalidades: dependem , diz Robinson, de algo “sel-
vagem " (wild ). O ato de nomear não é mais aqui ( como alhures )
por este sinal (selvagem ) que n ã o mostra nada. Fica como um
a “ pintura ” de uma realidade; é um ato performativo que
louco. Sonha, tem pesadelos. Perde as suas certezas num
- organiza o que enuncia. “ Significa ”, como se significa a algu é m
-
mundo governado pelo grande relojoeiro. Sente se abandona
sua despedida. Faz o que diz, e constitui a selvageria que
do por suas razões. Desalojado da ascese produtora que lhe
garantia o sentido , conhece dias e dias diabólicos, possu ído declara. Tal como se excomunga algu é m dizendo-lhe o nome,
pelo desejo antropofá gico de devorar o desconhecido ou pelo o nome do “ selvagem ” cria e define ao mesmo tempo aquilo
que a economia escritur ística situa fora de si. Ele é aliás logo
temor de ser ele mesmo devorado.
apodado com seu atributo essencial: o selvagem é passageiro.
-
Na página escrita aparece então uma mancha como as
Ele se marca ( por manchas, lapsos etc.), mas nã o se escreve.
garatujas de uma criança no livro que é a autoridade do lugar.
in$inua-se na linguagem um lapso. 0 território da apropriação -
Altera um lugar ( perturba o ), mas n ã o funda nenhum.
se v ê alterado pelo rastro de alguma coisa que n ão está lá e A “ ficção teórica " inventada por Daniel Defoe esboça assim
não ocupa lugar (como o mito). Robinson vai recuperar o uma forna de alteridade relativa à escritura, uma forma que
poder de dominar, quando tiver a possibilidade de ver, isto é, vai també m impor a sua identidade à voz, uma vez que mais
quando substituir o sinal de uma falta por um ser palpá vel, um tarde, aparecendo Sexta-Feira, será submetido a uma alternati-
i objeto visível: Sexta -Feira. Então estará de novo em ordem . va prometida a uma histó ria muito longa: ou criar ( ruptura
Quanto à desordem, esta se deve ao indício de uma coisa “selvagem ", que exige a interpretação e a correção de um
passada e passageira , ao “ quase nada ” de uma passagem. A -
“ tratamento” pedagógico ou psiquiá trico), ou então fazer de
seu corpo a efetivaçã o da l íngua dominante ( tornando-se "a voz
viol ê ncia que oscila entre a pulsão de devorar e o terror de ser
comido nasce daquilo que, segundo Hadewijch de Antué rpia, do seu patrão", corpo d ócil que executa a ordem, encarna uma
-
pode se ainda denominar uma “ presença de ausê ncia ”. O outro, razão e recebe como estatuto ser um substituto de enunciação,
n ão mais o ato mas o fazer do "dito" do outro). Por seu turno
aqui , n ã o constitui um sistema que se acharia escondido sob
aquilo que Robinson escreve. A ilha n ã o é um palimpsesto onde a voz se insinuar á també m à maneira de um rastro no texto,
seria poss ível revelar, decodificar e decifrar um sistema coberto efeito ou meton ímia de corpo, cita çã o passageira como a
pela ordem que lhe é superimposta mas do mesmo tipo que ela . “ ninfa" de G. Cossart - Nympha fugax, fugitiva passageira,
Aquilo que se rastreia e passa não tem um texto pró prio. Isso indiscreta apari ção, reminiscê ncia “ pagã ” ou “ selvagem ” na
só se diz pelo discurso do proprietá rio, e só se instala no seu economia escritur ística , barulho inquietante de uma outra
lugar . A diferença n ã o tem por linguagem senã o o del írio tradi ção, e pretexto de interminá veis produ ções interpretativas.

son .
-
interpretativo sonhos e “ extravagâ ncias ” - do próprio Robin - É preciso ainda determinar algumas das formas histó ricas
impostas à oralidade pelo fato de sua exclaustraçã o , Por causa
0 romance de 1719 já está indicando o n ão-lugar ( um dessa exclusão por motivo de pureza e eficácia econó micas, a
rastro , que morde pelas margens ) e a modalidade fantástica voz aparece essencialmente sob as figuras da citação , que é
( uma loucura í nterpretativa ) do que vai intervir como voz no homóloga , no campo do escrito, ao rastro do pé descal ço na

24 B 249
ilha de Robinson. Na cultura escriturística, a cita ção conjuga liberal, onde se supunham atividades insulares e competitivas
efeitos de interpretação (ela permite produzir texto) com efeitos concorrendo para uma racionalidade geral, o trabalho de
-
de alteraçã o ( ela in quieta o texto). Opera entre esses polos que escrever dá ao mesmo tempo à luz o produto e seu autor. Sendo
caracterizam, cada um deles, suas duas figuras extremas: de assim, em princí pio, não há mais necessidade de vozes nessas
-
um lado a citação- pré texto, que serve para fabricar texto
-
(suposto comentá rio ou an á lise ) a partir de rel íquias seleciona
.
oficinas industriais Assim , durante a era clássica, que tem como
tarefa primeira formar “ línguas” científicas e técnicas indepen-
das numa tradição oral funcionando como autoridade; de outro -
dentes da natureza e destinadas a transform á la (gesto simbo-
lado, a citação-reminiscê ncia que é traçada na linguagem pelo lizado por aquele de Robinson , que inaugura o seu
retorno insólito e fragmentá rio (como um fragmento de voz ) empreendimento redigindo o seu diá rio, ou “ livro de contas”),
de relações orais estruturantes mas recalcadas pelo escrito. cada um desses sistemas de “ escrituras ” coloca fora da d ú vida
Casos-limites, parece, fora dos quais não se trata mais da voz. os seus produtores “ burgueses ” certos das conquistas que esse
No primeiro caso, as cita ções se tornam para o discurso o meio instrumento autónomo lhes permite sobre o corpo do mundo.
de sua prolifera çã o; no segundo, escapam -lhe e o cortam.
Cresce agora um novo rei: o sujeito individual, senhor
Conservando apenas essas duas variantes, vou designar inapreensível. Ao homem da cultura esclarecida se acha trans-
uma como “ a ciê ncia da fá bula ” (do nome que lhe foi tantas ferido o privilégio de ser, ele mesmo, o deus outrora “ separado”
vezes dado no século XVIII ), e a outra “ retornos e voltas de .
de sua obra e definido por uma gé nese Sem d ú vida, entre os
voz ” ( pois os seus retornos, como as andorinhas na primavera, atributos do Deus judeu -cristão, os seus herdeiros burgueses
são acompanhados de modalidades e processos sutis, à maneira fazem uma triagem: o novo deus escreve, mas nã o fala; é autor,
dos torneios ou tropos da ret órica, e se traduzem em percursos mas não se palpa nenhum corpo em uma interlocu çâo. A
que invadem lugares desocupados, em “ filmes para vozes”, diz inquietude da enunciação se encontra portanto a priori liqui-
-
Marguerite Duras, em turn ês ef é meras “ uma voltinha e depois
dada, antes de voltar hoje como problema da comunicação. A
vai embora "). O esboço dessas duas figuras pode servir de crescente fabricação de ordenamentos objetivos, colocada sob
preliminar a um exame das pr á ticas orais, precisando alguns a bandeira do “ progresso”, pode também passar pelo relato
aspectos do quadro que deixa ainda às vozes maneiras de falar . autobiográ fico de seus promotores: eles se contam em suas
Uma problemá tica geral realizações. A história que se faz a histó ria deles; por um duplo
atravessa e determina es- corte que, de um lado, isola as operações, subordinadas ao
A enunciação deslocada poder e ao saber e que, de outro lado, reduz a natureza a ser
sas figuras, e deve ser lem-
brada para introduzi-las. apenas o fundo inesgotá vel sobre o qual se destacam e de onde
Vou abord á-la pelo seu prisma lingu ístico. Desse ponto de vista, se arrancam os seus produtos. Isen çã o dos novos criadores em
Robinson participa e se refere a um deslocamento histórico do sua solid ã o e iné rcia da natureza oferecida a suas expedições:
problema da enunciaçã o, isto é, do “ ato de falar ” ou speech esses dois postulados históricos romperam as comunicações
act. A questã o do locutor e de sua identidade se tornara aguda orais entre os mestres (que não falam ) e o universo (que
com a fragmentação do mundo supostamente falado e falante: -
tampouco fala ), e possibilitaram , durante três séculos, o traba
quem é que fala quando n ã o existe mais um Falante divino que lho exorbitado que mediatiza as suas relações e que, fabricante
funda toda enuncia ção particular ? Ela fora aparentemente -
de homens-deuses, transformador do universo, torna se a estra -
regulada pelo sistema que fornecia ao sujeito um lugar garan - tégia central e silenciosa de uma nova história. Volta, no
4
.
tido e medido por sua produ ção escritur ística Numa economia entanto, a pergunta em princípio eliminada pelo trabalho: quem

250 251
fala ? A quem ? Mas ela volta a aparecer fora dessa escritura camente, na distinção lingu ística entre a consoante (que é razão
transformada em meio e em efeito da produ çã o. Ela renasce ao escrita) e a vogal ( que é sopro, efeito singular do corpo),6 parece
lado , vindo de um al é m das fronteiras atingidas pela expansão ter finalmente recebido o seu estatuto e a sua legitimidade
da empresa escriturística. “ Uma outra coisa ainda fala, e ela se cientifica com o corte que Saussure estabelece entre “ l íngua”
apresenta aos senhores sob as figuras diversas do n ã o-trabalho e “ palavra ” ( “ langue/ parole"). Sob este modo, a “ tese primor -
- o selvagem , o louco, a criança, até mesmo a mulher - depois, dial ” ( Hjelmslev) do Curso de Linguística Geral separa o
recapitulando muitas vezes as precedentes, sob a forma de uma “ social ” do “ individual ”, e o "essencial ” d ,uaquilo que é acessó-
voz ou dos gritos do Povo exclu ído da escrita; mais tarde ainda , rio e mais ou menos acidental".7 Ela supõe também que " a
sob os sinais de um inconsciente, esta l íngua que continuaria língua só vive para governar a palavra"? Os corolá rios que
“ falando ” nos burgueses e nos " intelectuais” , mas sem que especificam essa tese (ela mesma dependente do “ primeiro
estes o saibam. Eis entã o que um falar se depreende ou se princípio ” saussuriano, a saber, que o signo é arbitrá rio), e que
mant é m , mas como aquilo que “ escapa ” à domina çã o de uma opõem o sincr ônico ao diacrô nico, indicam a tradiçã o que
economia sócio-cultural, à organiza çã o de uma raz ã o, à escola- Saussure generaliza elevando-a à cientificidade e que, durante
riza çã o obrigató ria, ao poder de uma elite e, enfim, ao controle dois séculos, constituiu em postulado da tarefa escriturística a
da consci ê ncia esclarecida. fratura entre o enunciado (objeto escrevível ) e a enunciação
A cada forma dessa enuncia çã o estranha corresponde uma (ato de dizer ). E isso dito, deixando de lado uma outra tradição
mobiliza çã o científica e social; a coloniza çã o civilizadora , a ideológica, também presente em Saussure, e que opõe a “ cria
tividade ” da palavra ao “sistema da l íngua ”.9
-
psiquiatria , a pedagogia , a educação popular, a psican á lise, etc.
- restauração de escrituras nessas regiões emancipadas. Mas o Mesmo deslocada , posta de lado - ou transformada em
importante aqui é sobretudo o fato que serve de ponto de -
resto a enunciaçã o não pode ser dissociada do sistema dos
partida (e de ponto de fuga ) para todas essas reconquistas: a enunciados. Mesmo que se retenham só duas formas sócio-his -
excentra çã o do dizer ( falar ) e do fazer ( escrever ). O lugar de -
tó ricas dessa re articulação, pode-se distinguir de uma parte um
onde se fala é exterior ao empreendimento escriturístico. A trabalho da escritura para dominar a “voz ” que ela não pode
elocu çã o sobrevém fora dos lugares onde se fabricam os ser mas sem a qual no entanto ela também não pode ser e, de
sistemas de enunciados. De uma , já n ã o se sabe de onde vem ;
de outra quest ã o, quem articula o poder , sabe-se cada vez
outra parte, as voltas ilegíveis de vozes que listram os enuncia
dos e atravessam a casa da língua como estranhas, como se
-
menos como poderia falar. fossem “as loucas da casa ” .
A primeira v í tima dessa dicotomia foi sem d ú vida a retó rica :
Quando se considera em primeiro
ela pretendia fazer da palavra um instrumento para influenciar
o querer do outro , estabelecer adesões e contratos, coordenar A ciência da fábula lugar a ciê ncia da fábula, toca se-
em todas as hermenê uticas erudi-
ou modificar prá ticas sociais e, portanto, forjar a história. Ela
foi aos poucos expulsa dos campos cient í ficos. E n ã o é por -
tas ou elitistas da palavra palavra
selvagem, religiosa , louca, infantil ou popular - assim como se
acaso que ela reaparece do lado onde prosperam os legend á - elaboram h á dois séculos através de discursos como a etnolo-
rios. e se Freud a restaura nas regi ões exiladas e improdutivas
gia , as “ ci ê ncias religiosas”, a psiquiatria, a pedagogia e os
do sonho onde um “ falar ” inconsciente torna a aparecer. Essa
procedimentos pol íticos ou historiográ ficos visando introduzir
divisã o, já tã o acentuada no século XV1 I 1, na crescente oposi çã o
na linguagem autorizada a “ voz do povo”. Campo imenso,
entre as té cnicas ( ou as ci ê ncias ) e a ó pera ,5 ou , mais especifi-
desde as “explicações” das “ fá bulas” antigas ou exóticas no

252 253
século XVIII, até a obra pioneira de Oscar Lewis “dando a ticas, produzidas e “ compreendidas") os “ ru ídos” insólitos ou
palavra ” aos filhos da fam ília Sanchez, e ponto de partida de sem sentido procedentes das vozes. Como se pode constatar
um n ú mero enorme de “ histórias de vidas”. Essas diferentes
10 ainda em Hjelmslev, supõe uma “ traduzibilidade” de todas as
línguas {icõ nicas, gestuais ou sonoras) para “a l íngua natural
“ heterologias” (ou ciências do outro) têm como traço comum cotidiana ”. A partir desse postulado, a análise pode reduzir
o projeto de escrever a voz. O que fala de longe deve encontrar
um lugar no texto. Assim a oralidade selvagem deverá ser todas as expressões à forma que foi elaborada num campo
particular mas que se sup õ e “ nã o específica ” e dotada de um
escrita no discurso etnológico: o “ gênio ” das “ mitologias” e das
“ fá bulas ” religiosas (como diz a Enciclopédia ) no saber erudi - . -
“ cará ter universal” 11 E, deste modo, tornam se legítimas ope-
to; ou a “ Voz do povo”, na historiografia de Michelet O que é rações sucessivas: a transcrição, que muda o oral em escrito; a
audível , mas à distâ ncia, ser á transformado em textos afinados constru ção de um modelo, que toma a fá bula como um sistema
com o desejo ocidental de ler os seus produtos.
mento desse modelo sobre aquilo que foi mudado em texto;
-
lingu ístico; a produ çã o de um sentido que resulta do funciona

A operação heterológica parece repousar em duas condi- etc. É impossível levar em conta cada uma das etapas do
ções: um objeto, definido como “ fá bula"; um instrumento, a trabalho de usinagem que transforma assim em produtos
tradu ção. Definir pela fábula a posi ção do outro (selvagem, culturais escritos e legíveis o material que lhe foi fornecido
religioso, louco, infantil ou popular ) não é somente identificá-la como “ fá bula ”. Vou sublinhar apenas a importâ ncia da trans-
com “ o que fala ” ( fari), mas com uma palavra que “ não sabe o crição, prá tica muito comum e dada por evidente, pois, substi -
que diz ” . Quando sé ria , a an álise esclarecida ou sá bia supõe tuindo em primeiro lugar um escrito pelo oral (como ao
certamente que algo essencial se anuncia no mito do selvagem , transcrever uma legenda popular), ela permite depois acreditar
nos dogmas do crente, no balbuciar da criança, nas palavras do que o produto escrito da aná lise feita sobre esse documento
sonho ou nas conversas gnô micas do povo, mas postula tam- escrito se refere à literatura oral.
bém que essas palavras n ão conhecem o que dizem de essencial. Essas astú cias que garantem de antemão um sucesso para
A “ fá bula” é portanto uma palavra plena, mas que deve esperar as operações escritur ísticas tê m no entanto como condição de
a exegese erudita para que se torne “ explícito ” o que ela diz possibilidade um fato estranho. Diversamente das ciências
“ implicitamente”. Mediante essa astú cia, a pesquisa conquista
chamadas exatas, cujo desenvolvimento obedece à autonomia
para si, de antemão, em seu pró prio objeto, uma necessidade de um campo, as ciências “ heterol ógicas” geram os seus
e um lugar. Ela tem a certeza de poder sempre alojar a
interpreta ção no n ã o-saber que mina o dizer da fá bula . Sub-rep-
produtos gra ças a uma passagem pelo outro. Progridem segun
do um processo “sexual ”, que coloca a chegada do outro como
-
ticiamente, a distâ ncia de onde procede a voz estranha se o recurso necessá rio para o seu progresso. Na perspectiva pela
transforma na brecha que separa a verdade oculta ( inconscien - qual estamos olhando aqui, isto se traduz pelo fato de a
te ) da voz e o logro de sua manifesta ção. A dominação do oralidade ser indefinidamente uma exterioridade sem a qual a
trabalho escritur ístico se acha assim de direito fundada por essa escritura n ã o funcionaria. A voz faz escrever. Esta a relaçã o
estrutura de “ fá bula ” que é o seu produto histórico. mantida pela historiografia de Michelet com “ a voz do povo”
Para que essa dominação passe do direito ao fato, existe que, no entanto, diz ele, jamais “ conseguiu fazer falar” - ou a
um instrumento: a tradução. Temos aqui uma maquinaria, escritura psicanal ítica de Freud com o prazer de Dora, sua
aperfei çoada no decorrer das gera ções. Ela permite passar de cliente, que lhe “escapou ” durante todo o intercâ mbio oral da
uma l íngua para outra , eliminar a exterioridade transferindo-a cura.
para a interioridade e transformar em “ mensagens" (escritur ís-

254 255
Da etnologia à pedagogia se constata que o sucesso garan- segue ainda a curva da melodia, vacila, lentamente sai de órbita,
tido da escritura se articula num fracasso primeiro e numa desgarra-se e se perde enfim no silê ncio. Voz entre outras que
falha, como se o discurso se constru ísse por ser o efeito e a traspassam o discurso onde faz um par ê nteses e um extravio.
ocultação de uma perda que é sua condição de possibilidade, Na cena moderna as trajetórias orais são tão singulares
como se todas as conquistas da escritura tivessem como sentido como os corpos, opacas ao sentido que é sempre generalidade.
fazer proliferar produtos que vão substituir uma voz ausente, Por esse motivo, não se pode “ evocá-las” (como os “espíritos”
- -
sem jamais conseguir captá la, colocá la no lugar do texto, e vozes de antanho ) a não ser da maneira como Marguerite
suprimi-la como estranha. Noutras palavras, a escritura moder - Duras apresentava "o filme das vozes”: “ vozes de mulheres...
-
na não pode encontrar se no lugar da presença. Já o vimos, a
pr ática escriturística nasceu precisamente de um deslocamento
Vê m de um espa ço noturno, como que elevado, de um balcã o
acima do vácuo, do todo. Estã o ligadas pelo desejo. Rasgam -se...
entre a presença e o sistema. Ela se formou a partir de uma Ignoram -nos. Não ypodem ser ouvidas ” Destruir, diz ela: “ A
fratura na antiga unidade da Escritura que falava. Tem por escritura cessou ”.
*i

-
condição uma não identidade de si consigo mesma.
Para ouvir novamente essas vozes, para criar assim um
Pode-se portanto considerar toda a literatura “ heterol ógi- espaço de audição, a pró pria filosofia se empenha obstinada-
ca ” como o efeito dessa fratura. Ela conta ao mesmo tempo o mente, desde oAnti-Êdipo de Deleuze até a Economia libidinal
-
que faz da oralidade (alterando a) e como fica alterada da voz
de Lyotard. É a inversão que leva a psican álise a passar de uma
e por ela. Os textos dizem assim uma voz alterada na escritura “ ci ê ncia dos sonhos ” à experiê ncia daquilo que as vozes falan-
que ela torna necessá ria por sua invencível diferença. Com essa
tes mudam na gruta noturna dos corpos ouvintes. 0 texto
literatura temos, portanto, uma primeira figura da voz simulta- literá rio se modifica tornando-se a espessura ambígua onde se
-
neamente “ citada ” ( em ju ízo) e alterada voz perdida, apagada
no pró prio objeto (a “ fá bula ” ) cuja fabrica ção escrita permite.
movem sons irredut íveis a um sentido. Um corpo plural onde
circulam , ef é meros, rumores orais, eis o que vem a ser essa
Mas esse funcionamento “sexual ” da escritura heterológica, escritura desfeita, “ cena para vozes”. Ela toma imposs ível a
-
funcionamento sempre falho, transforma a em erótica: é a redu ção da pulsã o ao signo. Tende a criar, como fazia Maurice
inacessibilidade do seu “objeto” que a faz produzir. Ohana, “ gritos para doze vozes mistas”. Então não se sabe mais
Dessa formação, distingo uma ou - o que é, senão vozes alteradas e alterantes.
Ruidos de corpos tra figura moderna: as “ vozes do De fato, na escritura erudita ocorre o retorno das vozes
corpo”. Um exemplo dessa outra pelas quais o corpo social “ fala” em citações, em fragmentos
-
cena é nos dado pela ópera, que se de frases, em tonalidades de “ palavras”, em ru ídos de coisas.
foi progressivamente instituindo à medida que o modelo escri
turístico organizava as t écnicas e as prá ticas sociais no século
- “ Assim falam meus pais ” , diz Helias, “ assim fala meu pai ”;13
encanto sonoro ligado a res íduos de enunciados. Essa glosso-
XVIII . Espa ço para as vozes, a ó pera deixa falar uma enunciação í alia disseminada em estilha ç os vocais comporta palavras que
que nos seus mais sublimes momentos se separa dos enuncia-
dos , perturba e parasita as sintaxes, e fere ou causa prazer, no
-
novamente se tornam sons: por exemplo, Marie Jeanne “ gostará
de usar certas palavras pelo ruído que irã o fazer em sua boca
p ú blico, aos lugares do corpo que nã o tê m mais capacidade de e em seus ouvidos” ,14 Ou sons que se tornam palavras, como
falar. Assim , no Macbeth de Verd í , o final da á ria da loucura de por exemplo “o ru ído ” produzido pelo “ cochon de pin ”, esse
Lady Macbeth : a voz a princ ípio sustentada pela orquestra brinquedo em forma de pinha , quando salta. Ou rimas,
avan ça, logo sozinha quando se calou , depois por um momento

256 257
cantigas de roda, jibidis e jabadaos , escrínios sonoros de
sentidos perdidos e memó rias presentes:
Dibedoup, dibedi
Voil à le chien qui entre ici
Dibedoup, dibedein
Avec le chat sur les reins
Dibedoup, dibedeu
La souris entre les deux.1S 1/
Atrav és de legendas e fantasmas, que continuam povoando
a vida cotidiana, por cita ções sonoras, mantém-se toda uma
tradi çã o do corpo. Pode-se ouvir, mas não ver.
São com efeito reminiscências de corpos plantados na CAPÍTULO XII
linguagem ordiná ria e balizando-a, como pedrinhas brancas na
floresta dos signos. Experiê ncia morosa, finalmente. Marcados LER: UMA OPERAÇÃO DE CAÇA
na prosa dos dias, sem comentá rio nem tradu ção possível,
continuam sendo os sons poé ticos de fragmentos citados.
“ Existem ” em toda a parte essas ressonâ ncias de corpo tocado,
como "gemidos" e ru ídos de amor, gritos que vão quebrando
o texto que farão proliferar em torno de si, lapsos enunciativos
em uma organização sintagm á tica de enunciados. São os
análogos lingu ísticos da ere ção, ou de dores sem nome, ou das '‘Eliminar de uma vez por todas o sentido das palavras,
lá grimas: vozes sem l í ngua, enuncia ções que fluem do corpo eis o objetivo do Terrorl"
que se lembra, opaco, quando nã o dispõe mais do espaço
oferecido pela voz do outro ao dizer amoroso ou endividado. JEAN FRANÇOtS LYOTARD
Gritos e lágrimas: afásica enuncia ção daquilo que sobrevé m Rudiments paíens
sem que se saiba de onde ( de que obscura d ívida ou escritura
do corpo ) , sem que se saiba como, sem a voz do outro, se
poderia dizer isto.
Esses lapsos de vozes sem contexto, cita ções “obscenas"
Faz pouco tempo, Alvin Toffler anunciava o nascimento
de corpos, ru ídos à espera de uma linguagem , parecem certifi - de uma “ nova espécie ” humana, gerada pelo consumo art ístico
car , por uma “desordem " secretamente referida a uma ordem de massa. Essa espé cie em formação, transumante e voraz,
movimentando-se entre as pastagens da m ídia, teria como traço
desconhecida , que existe o outro. Mas ao mesmo tempo vão
distintivo a sua "automobilidade ” Voltaria ao antigo nomadis-
1

contando interminavelmente ( é um murm ú rio que jamais pá ra)


a expectativa de uma impossí vel presen ça que muda em seu mo, para caçar agora , poré m , em pradarias e florestas artificiais.
pró prio corpo os vest ígios que deixou . Essas cita ções de vozes Essa análise prof é tica, no entanto, só dizia respeito à
sã o marcadas numa prosa cotidiana que n ão pode, em enun- multidão que consome “ arte ” . Ora, uma enquê te do Secretaria2-
ciados e em comportamentos, sen ão produzir seus efeitos. do de Estado para Assuntos Culturais ( dezembro de 1974 )

258 259
mostra até que ponto apenas uma elite se beneficia dessa lar ” significa necessariamente ' tornar-se semelhante ” àquiio
produ çã o. Desde 1967 (data de uma enquête anterior , promo - -
que se absorve, e n ã o “ torn á lo semelhante ” ao que se é, faz ê-lo
vida pelo INSEE ), os fundos p ú blicos investidos na criaçã o e
no desenvolvimento de focos culturais reforçaram a desigual-
- -
próprio, apropriar se ou reapropnar se dele , Entre esses dois
possíveis sentidos, impõe-se uma escolha, e em primeiro lugar
dade cultural entre os franceses. Multiplicam lugares de expres - a t ítulo de uma histó ria cuio horizonte se deve esboçar, “ Era
sã o e simbolização, mas, de fato, são as mesmas categorias que uma vez...”
se beneficiam com isso: a cultura, como o dinheiro, “ vai sempre
para os ricos”. A massa quase nã o circula pelos jardins da arte.
_
No século XVIII, a ideologia das Luzes queria que •> livro
Mas vê-se capturada e reunida nas redes da m ídia, da televisão fosse capaz de reformar a sociedade, que a vulgariza çã o escolar
( que atraem 9 franceses em 10 ), da imprensa (8 franceses em transformasse os h á bitos e costumes, que uma elite tivesse com
10 ). do livro ( 7 franceses em 10, dos quais 2 lêem razoavelmente seus produtos, se a sua difusã o cobrisse todo o territó rio, o
1
e. segundo uma enqu ê te do outono de 1978, 5 lêem muito),3 poder de remodelar toda a na çã o. Este mito da Educa ção
etc. Em lugar de um nomadismo ter -se-ia então uma “ redu ção" inscreveu uma teoria do consumo nas estruturas da pol ítica
e um estacionamento: o consumo, organizado por esse mapea - cultural . Sem d ú vida , pela l ógica do desenvolvimento técnico
mento expansionista, assumiria a figura de uma atividade de e económico que mobilizava, essa pol í tica foi levada até ao
arrebanhamento, progressivamente imobilizada e “ tratada ” sistema atual que inverte a ideologia ontem preocupada em
gra ças à crescente mobitidade dos conquistadores do espaço difundir as “ luzes”. Os meios de difusã o agora ganham a
que sã o os meios de massa. Fixação dos consumidores e primazia sobre as id é ias veiculadas. O meio toma o lugar da
circulaçã o dos meios. Às massas só restaria a liberdade de mensagem. Os procedimentos “ pedagó gicos", com base na rede
pastar a ração de simulacros que o sistema distribui a cada escolar, se desenvolveram a tal ponto de abandonar como in ú til
um /a. ou quebrar o “ corpo” professoral que os aperfei çoou durante
dois séculos: hoje compõ e o aparelho que, cumprindo o sonho
Eis precisamente a id é ia contra a qual me levanto: n ão se
pode admitir tal representa çã o dos consumidores.
antigo de enquadrar todos os cidad ã os e cada um em particu -
lar, destrói aos poucos a finalidade, as convicções e as institui -
Em geral, esta imagem ções escolares das Luzes. Em suma, tudo se passa na Educaçã o
A ideologia da “informação ” do “ p ú blico ” n ã o se -
como se a forma de implantá la tecnicamente se houvesse
exibe às claras. Mas ela realizado desmesuradamente, eliminando o conteúdo que lhe
pelo livro dava a possibilidade de ser e, desde entã o, perde a sua utilidade
costuma estar implíci-
ta na pretensão dos “ produtores” de informar uma população, social . Mas no decorrer de toda essa evolu ção, a id éía de uma
isto é. “ dar forma ” às prá ticas sociais. Até os protestos contra produçã o da sociedade por um sistema “ escritur ístico" nã o
a vulgarização/ vulgaridade da m ídia dependem geralmente de cessou de ter como corolá rio a convicçã o de que, com m «ns ou
uma pretensão pedagó gica an á loga: levada a acreditar que seus menos resistê ncia, o p ú blico é moldado pelo escrito ( verba* ou
pr ó prios modelos culturais sã o necessá rios para o povo em icô nico ), torna -se semelhante ao que recebe, enfim , c rixa -se
vista de uma educaçã o dos espíritos e de uma eleva ção dos imprimir pelo texto e como o texto que lhe é imposto ,
corações, a elite impressionada com o " baixo n ível ” da imprensa Ontem , esse texto era escolar . Hoje. o texto é a pró pria
marrom ou da televisão postulada sempre que o pú blico é sociedade. Tem forma urban ística, industrial , comerciai ou
modelado pelos produtos que lhe sã o impostos. Mas isto não televisiva. Mas a mutaçã o que provocou a passagem da arqueo-
-
capta devidamente o ato de “ consumir ”. Supõe se que “assimi- logia escolar para a tecnocracia dos meios n ã o diminuiu a força

260 261
do postulado de uma passividade pró pria do consumo postu -
lado que justamente é preciso discutir. Ao contrá rio, ainda o
- leitura. 0 poder instaurado pela vontade ( ora reformista, ora
cientí fica , revolucion á ria ou pedagógica) de refazer a histó ria,
reforçou: a implantaçã o massiva de ensinos normalizados tor - graças a operações escriturísticas efetuadas em primeiro lugar
num campo fechado, tem ali á s por corolá rio uma intensa troca
nou impossíveis ou invisíveis as relações intersubjetivas da
aprendizagem tradicional; os técnicos “ informadores” muda- entre ler e escrever.
ram - se então, pela sistematiza ção das empresas, em funcioná- “A modernização, a modernidade é a escritura”, diz Fran-
rios compartimentalizados em uma especialidade e sempre çois Furet. A generalização da escritura provocou com efeito
mais ignorantes dos usu á rios; a pró pria l ógica produtivista , a substituição do costume pela lei abstrata, das autoridades
-
isolando os produtores, levou os a supor que n ão exista criati - tradicionais pelo Estado e a desagregação do grupo em bene-
vidade nos consumidores; uma cegueira recíproca, gerada por f ício do indivíduo. Ora , essa transformaçã o se efetuou sob a
este sistema , acabou por fazer que tanto uns como os outros figura de uma “ mesti çagem ” entre dois elementos distintos, o
acreditassem que a iniciativa habita apenas nos laborat ó rios escrito e o oral. 0 estudo recente de F. Furet e J. Ozouf de fato
técnicos. Mesmo a an á lise da repressão exercida pelos disposi- mostrou que existe, na Fran ça menos escolarizada , " uma vasta
tivos desse sistema de enquadramento disciplinar postula ainda semi-alfabetí zação, centrada na leitura, animada pela Igreja e
um p ú blico passivo , “ informado ", tratado , marcado e sem papel pela fam ília, destinada essencialmente às mo ças ”. A escola só
histó rico. fez unir, mas por uma costura que muitas vezes ficou frá gil, as
A eficácia da produ ção implica a in é rcia do consumo . duas capacidades, a de ler e a de escrever. Com efeito, elas
Produz a ideologia do consumo-receptáculo. Efeito de uma estiveram por muito tempo separadas no passado, até durante
ideologia de classe e de uma cegueira técnica, esta lenda é um bom trecho do século XIX; hoje. a vida adulta dos escolari-
necessá ria ao sistema que distingue e privilegia autores, peda
gogos, revolucioná rios, numa palavra, “ produtores” em face
- zados dissocia ali á s bem depressa, em muitos, o “ ler apenas” e
o escrever. Por isso, é també m preciso interrogar-se sobre os
daqueles que nã o o sã o. Recusando o "consumo”, tal como foi caminhos pró prios tomados pela leitura ali onde se casou com
concebido e ( naturalmente ) confirmado por essas empresas de a escrita.
“ autores”, tem-se a chance de descobrir uma atividade criadora
Por seu lado, as pesquisas consagradas a uma psicol í ngu ís-
ali onde foi negada, e relativizar a exorbitante pretensã o de tica da compreensão distinguem, na leitura, “o ato lé xico ” do
uma produçã o ( real mas particular) de fazer a histó ria “ infor - “ato escriturístico”. Mostram que a criança escolarizada apren -
mando" o conjunto do pa ís. de a ler paralelamente à sua aprendizagem da decifração e n ão
A leitura é apenas gra ças a ela; ler o sentido e decifrar as letras correspondem a
Uma atividade desconhecida: um aspecto parcial duas atividades diversas, mesmo que se cruzem. Noutras pala -
a leitura do consumo, mas vras, somente uma mem ó ria cultural adquirida de ouvido, por
fundamental. Numa tradi çã o oral, permite e enriquece aos poucos as estraté gias de
sociedade sempre mais escuta , organizada pelo poder de mo- interrogaçã o sem â ntica cujas expectativas a decifra çã o de um
dificar as coisas e reformar as estruturas a partir de modelos escrito afina , precisa ou corrige . Desde a leitura da criança até
escritos ( científicos , económicos, pol íticos ) , mudada aos poucos a do cientista , ela é precedida e possibilitada pela comunicaçã o
em “ textos ” combinados í administrativos, urbanos, industriais oral, inumerá vel “autoridade ” que os textos nã o citam quase
- -
etc , ), pode-se muitas vezes substituir o bin ó mio produção con nunca . Tudo se passa portanto como se a construçã o de
sumo por seu equivalente e revelador geral, o bin ómio escrita- significações, que tem por forma uma expectativa (esperar por

262 263
algo .i oo uma antecipação (fazer hipóteses) ligada a uma a “ intenção” deles. Destaca -os de sua origem ( perdida ou
transmissã o oral , era o bloco inicial que a decodificação dos acessória). Combina os seus fragmentos e cria algo não-sabido
materiais grá ficos esculpia progressivamente, invalidava, veri- no espaço organizado por sua capacidade de permitir uma
ficava , detalhava para dar lugar a diversas leituras. 0 escrito pluralidade indefinida de significações. Essa atividade “ leitora ”
apenas corta e cava na antecipa ção. será reservada ao cr ítico literário (sempre privilegiado pelos
Malgrado os trabalhos que exumam uma autonomia da estudos sobre a leitura), isto é , novamente a uma categoria de
prá tica iente sob o imperialismo escrituristico, uma situação de funcionários, ou pode se estender a todo o consumo cultural ?
fato scaoou criada por mais de três séculos de história . 0 Esta a pergunta à qual a história , a sociologia ou a pedagogia
funcionamento social e t écnico da cultura contemporânea escolar deveriam trazer elementos de resposta.
hierarquiza essas duas atividades. Escrever é produzir o texto; Infelizmente, a abundante literatura consagrada à leitura
-
ler e recebe lo de outrem sem marcar a í o seu lugar, sem só fornece precisões fragmentárias sobre este ponto ou destaca
-
reíaz é !o. Sob este aspecto, a leitura do Catecismo ou da experiências letradas. As pesquisas se referem sobretudo ao
Sagrada Escritura que o clero recomendava antigamente às ensino da leitura . E se aventuram mais discretamente pelo
jovens e às m ã es, proibindo a escrita a essas Vestais de um texto lado da história e da etnologia, na ausência de traços deixados
sagrado intocá vel, se prolonga hoje com a “ leitura" da televisão por uma prática que desliza através de todo o tipo de “escritu-
proposta à ' consumidores ” colocados na impossibilidade de ras” ainda mal observadas ( por exemplo “ lê-se ” uma paisagem
traçar a sua pró pria escrita na telinha onde aparece a produção como se lê um texto). Mais numerosas em sociologia, elas são
do Outro - oa “ cultura ”. “ 0 nexo que existe entre a leitura e a gera í mente de tipo estatístico: calculam as correlações entre
Igreja " se reproduz na relaçã o que existe entre a leitura e a objetos lidos, lugares sociais e lugares de frequência ao inv és
igreja da m í dia. Sob esse modo , à construção do texto social de analisarem a própria operação do ler , suas modalidades e
por funcion á rios parece corresponder ainda a sua “recepção” sua tipologia. 14 Resta o domínio literá rio, particularmente rico
por fiéis que deveriam contentar- se em reproduzir os modelos hoje ( de Barthes a Riffaterre ou Jauss ), privilegiado mais uma
elaborados pelos manipuladores da linguagem . vez pela escritura mas altamente especializado: os “ escritores”
0 que se deve pôr em causa não é , infelizmente, essa deportam “a alegria de ler” para o lado onde se articula com
divisão do trabalho ( é muito real), mas o fato de assimilar a uma arte de escrever e um prazer de re- ler . A í no entanto, antes
.
leitura a uma passividade . Corr efeito, ler é peregrinar por um ou depois de Barthes, se contam errâ ncias e inventividades que
sistema imposto ( o do texto, analogo à ordem constru ída de jogam com as expectativas, as astúcias e as normatividades da
,
_
uma cidade ou de um supermercado ). An á lisesa recentes mos- “obra lida”; aí já se elaboram os modelos teóricos, suscetíveis
-
de explicá la. Apesar de tudo, a história das andan ças do
u íiiíi que “ toda feitura modifica o seu objeto ” , que (já dizia
là qj íissi “ utiij ilteraiura difere de outra .neaos pelo texto que homem através de seus pró prios textos está ainda em. hna parte
Pt !;:, maneira como e iniaV e que enfim um sistema de signos por descobrir.
•i ibais ou kiõ nicos e uma reserva de formas que esperam do
Das análises que acom -
ser sentido. Se portanto "o Itvro é um efeito ( uma O sentido “literal ”, panham a atividade lei -
ao ,euor , 10 deve-se considerar a opera ção deste produto de uma elite social tora em seus rodeios,
v i - . r. : ; con \ n
i
urna esp écie de lectio , produçã o pr ó pria do percursos atrav és da pá -
Í1
Este n ão toma nem o lugar do autor nem um lugar gina, metamorfoses e anamorfoses do texto pelo olho que viaja ,
de autor . Inventa nos textos outra coisa que nac aquilo que era
voos imaginários ou meditativos a partir de algumas palavras,

264 265
% í>

transposíções de espaços sobre as superf ícies militarmente determina a sua relaçã o com o texto. A leitura fica de certo
dispostas do escrito, dan ças efé meras, depreende-se ao menos modo obliterada por uma rela ção de forças ( entre mestres e
em um primeiro enfoque que n ã o se poderia conservar a rígida alunos, QU entre produtores e consumidores), das quais ela se
separação da leitura e do texto legível ( livro, imagem etc.). Quer torna o instrumento. A utiliza çã o do livro por pessoas privile-
se trate do jornal ou de ProusL o texto só tem sentido gra ças giadas o estabelece como um segredo do qual somente eles são
-
a seus leitores; muda com eles; ordena se conforme códigos de
percep çâo que lhe escapam. Torna-se texto somente na rela ção
os “ verdadeiros" inté rpretes. Levanta entre o texto e seus
leitores uma fronteira que para ultrapassar somente eles entre -
à exterioridade do leitor , por um jogo de implicações e de gam os passaportes, transformando a sua leitura ( legítima, ela
ast ú cias entre duas espécies de “ expectativa ” combinadas: a também ) em uma “ literalidade” ortodoxa que reduz as outras
que organiza um espa ço legí vel ( uma literalidade ) e a que leituras ( també m legí timas) a ser apenas heréticas ( não “ con-
organiza uma dé marche necessá ria para a efetuação da obra formes” ao sentido do texto ) ou destitu ídas de sentido ( entre-
( uma leitura ).
16
gues ao ouvido ). Deste ponto de vista, o sentido “ literal ” é o
Fato estranho, o princí pio dessa atividade lente já fora
-
sinal e o efeito de um poder social, o de uma elite. Oferecendo se
a uma leitura plural o texto se torna uma arma cultural uma
colocado por Descartes h á mai $ de tr ês séculos, a propósito reserva de caça, o pretexto de uma lei que legitima, como
dos trabalhos contemporâ neos sobre a análise combinatória e
“ literal ”, a interpreta ção de profissionais e de clé rigos social-
sobre o exemplo das "cifras” ou textos cifrados: “ E se alguém , mente autorizados.
para adivinhar uma cifra escrita com letras comuns, acha por
bem ler um B sempre que houver um A, e um C sempre que Ali ás, se a manifesta ção das liberdades do leitor através do
houver um B, substituindo assim no lugar de cada letra a texto é tolerada entre funcioná rios autorizados (é preciso ser
seguinte na ordem alfabética , e lendo desta maneira, aí encon - -
Barthes para se atrever a fazê lo), ela é ao contrá rio proibida
,

tra palavras que fa çam sentido, n ã o duvidará que este seja o aos alunos (simplesmente ou habilmente reduzidos à escuderia
verdadeiro sentido dessa cifra que terá achado deste modo do sentido “ recebido” pelos mestres ) ou ao p ú blico ( cuidado-
embora pudesse ocorrer que aquele que a escreveu tenha posto samente advertido sobre “ o que se deve pensar e cujas inven-
a í outro sentido bem diferente, dando outro significado a cada ções são consideradas desprez íveis, e assim reduzidas ao
letra...”.17 A operaçã o codificadora , articulada a partir dos silêncio”).
significantes, faz o sentido que n ã o é portanto definido por um Na hierarquiza ção social, por conseguinte, esconde-se a
depósito, por uma “ intençã o" ou por uma atividade autoral realidade da prá tica da leitura ou se torna irreconhecível.
De onde nasce entã o a muralha da China que circunscreve Ontem , a Igreja , instituindo uma ruptura social entre clérigos
um “ pr ó prio" do texto , que isola do resto a sua autonomia e “ fié is”, mantinha a Escritura no estatuto de uma “ Letra ”
sem â ntica e que faz dela a ordem secreta de uma “ obra ”? Quem
,
supostamente independente de seus leitores e, de fato, de posse
eleva essa barreira que constitui o texto em ilha sempre fora dos seus exegetas: a autonomia do texto era a reprodução das
do alcance para o leitor ? Essa ficçã o condena à sujeição os rela ções sócio-culturais no seio da instituição cujos pressupos-
consumidores que agora se tornam sempre culpados de infide- tos fixavam o que se deveria ler na Escritura. Com o enfraque-
lidade ou de ignor â ncia diante da “ riqueza ” muda do tesouro cimento da institui ção, aparece entre o texto e seus leitores a
assim posto à parte, Essa ficçã o do “ tesouro” escondido na reciprocidade que ela escondia, como se, em se retirando, ela
obra. cofre-forte do sentido , n ã o tem evidentemente como base permitisse ver a pluralidade indefinida das “escrituras" produ-
a produtividade do leitor , mas a instituição social que sobre- zidas por diversas leituras. A criatividade do leitor vai crescen -

266 267
do a medida que vai decrescendo a instituiçã o que a controlava. “ Leio e me ponho a pensar.. . Minha leitura seria então a
Este processo, visível desde a Reforma, começa a inquietar os minha impertinente ausência. Seria a leitura um exercício de
pastores já no sé culo XVH . Hoje h á os dispositivos sócio-pol íti- ubiq ú idade?”20 Experiê ncia inicial , até iniciática: ler é estar
cos da escoia , da imprensa ou da TV que isolam de seus leitores alhures, onde não se está, em outro mundo; é constituir uma
o cexto que fica de posse do mestre ou do produtor . Mas por cena secreta, lugar onde se entra e de onde se sai à vontade; é
tr ás do cená rio teatral dessa nova ortodoxia se esconde ( como criar cantos de sombra e de noite numa existência submetida
19
j á acontecia ontem ) , a atividade silenciosa , transgressora ,
à transparê ncia tecnocrá tica e àquela luz implacável que , em
irónica ou poética , de leitores ( ou telespectadores) que sabem
Genet, materializa o inferno da alienação social . Já o observava
manter sua distâ ncia da privacidade e longe dos “ mestres". Marguerite Duras: “Talvez se leia sempre no escuro... A leitura
A leitura ficaria então situada na conjunção de uma estra- depende da escuridão da noite. Mesmo ue se leia em pleno
tificação social idas reia ções de ciasse) e de operações poé ticas
(construção do texto por seu praticante ): uma hierarquização
social atua para conformar o ieitor à “ informação" distribu ída
dia, fora, faz-se noite em redor do livro". ^
O leitor é o produtor de jardins que miniaturizam e
congregam um mundo . Robinson de uma ilha a descobrir mas
po > uma elite (ou semi-el í te ): as opera ções de leitura trapaceiam
“ possuído” també m por seu pró prio carnaval que introduz o
com a primeira insinuando sua inventividade nas brechas de
urna ortodoxia cultural . Destas duas histórias, uma esconde m ú ltiplo e a diferen ça no sistema escrito de uma sociedade e
aquilo que não é conforme aos “ mestres” e lho torna invisível; de um texto . Autor romanesco portanto. Ele se desterritorializa,
a outra o dissemina nas redes do privado. Ambas pois colabo- oscilando em um não-lugar entre o que inventa e o que
ram para fazer da ie í tura uma incógnita de onde emerge de um modifica. Ora efetivamente , como o caçador na floresta, ele tem
lado , teatraiizada e dominante, a ú nica experiê ncia letrada e, o escrito à vista, descobre uma pista , ri , faz “ golpes ” , ou então,
do outro, raros e parcelados , à maneira de bolhas que sobem como jogador, deixa -se prender aí. Ora perde aí as seguranças
do íundo d'água, os índices de uma poética comum . fictícias da realidade: suas fugas o exilam das certezas que
colocam o eu no tabuleiro social . Quem l ê com efeito? Sou eu
Um ‘exercício de A autonomia do leitor ou o quê de mim? “ Não sou eu como uma verdade mas eu como
depende de uma trans- a incerteza do eu , lendo esses textos da perdição. Quanto mais
' ibiqiiiúade ” esta formação das relações os leio, tanto menos os compreendo, tanto mais ele deixa de
Mimpertinente ausência”
sociais que sobredeter- ser evidente ” .23
minam a sua relação com os textos. Tarefa necessária. Mas esta Experiência comum , a dar crédito a testemunhos não
revolução seria de novo o totalitarismo de uma elite com a quantificáveis nem citáveis, e nã o somente literários . Vale
pretensã o de criar , eia mesma , condutas diferentes e capazes també m para os leitores e as leitoras de Nous Deux, de La
de suostiluir uma Educa ção anterior por outra normativa France Agricole ou de L ’ami ou du boucher , seja qual for o
também , se não pudesse contar com o fafo de já existir, grau de vulgarização ou de tecnicidade dos espaços percorridos
multiforme embora sub-reptícia ou reprimida , uma outra expe - pelas Amazonas ou pelos Ulisses da vida cotidiana.
cue não é a da passividade. Uma pol í tica da leitura deve
portanto articular -se a partir de uma aná lise que , descrevendo Longe de serem escritores, fundadores de um lugar pró-
pr á ticas há muito tempo efetivas, as torne politizáveis. Destacar prio, herdeiros dos servos de antigamente mas agora trabalhan-
alguns aspectos da opera çã o leitora indica já como é que ela do no solo da linguagem , cavadores de poços e construtores
escapa à lei da informaçã o de casas, os leitores são viajantes; circulam nas terras alheias,
nómades caçando por conta pró pria através dos campos que

268 269
não escreveram, arrebatando os bens do Egito para usufru í-los. lhes serve de quadro, mas sem que o seu jogo obedeça à coerção
A escritura acumula , estoca, resiste ao tempo pelo estabeleci- de sua lei. Essas ast ú cias poé ticas, nã o ligadas à criação de um
mento de um lugar e multiplica sua produ ção pelo expansio - -
lugar pró prio ( escrito ), mantiveram se através dos sé culos até
nismo da reprodução. A leitura n ão tem garantias contra o na leitura contemporâ nea, igualmente ágil na prá tica dos
desgaste do tempo ( a gente se esquece e esquece ), ela não desvios e metaforizações que, às vezes, é mal e mal sinaiizada
conserva ou conserva mal a sua posse, e cada um dos lugares por um “bof \ Os estudos realizados em Bochum , tendo em
por onde ela passa é repetição do paraíso perdido. vista uma Rezeptionsàsthetik ( Esté tica da recepção) e uma
Com efeito, a leitura não tem lugar Barthes lê Proust no Handlungstheorie (teoria da ação), fornecem também diversos
texto de Stendhal;24 o telespectador l ê a paisagem de sua modelos sobre as rela ções das t á ticas textuais com as “expec-
inf â ncia na reportagem da atualidade. A telespectadora que diz tativas” e hipó teses sucessivas do receptor que considera o
da emissão vista na vé spera: “ Era uma coisa idiota, mas eu não drama (ou romance ) uma ação premeditada. Este jogo de
desligava ”, qual era o lugar que a prendia, que era e no entanto produ ções textuais relativas àquilo que as expectatlvas do leitor
não era o da imagem vista ? 0 mesmo se dá com o leitor: seu lhe fazem produzir no decorrer do seu progresso no relato é
lugar não é aqui ou lá, um ou outro, mas nem um nem outro, apresentado, certamente, com um pesado aparelho conceptual:
simultaneamente dentro e fora , perdendo tanto um como o onde, teatro desolador, uma doutrina ortodoxa tinha plantado
-
outro misturando os, associando textos adormecidos mas que a estátua da “obra ”, cercada de consumidores conformados ou
ele desperta e habita, não sendo nunca o seu proprietá rio. ignorantes.
Assim, escapa també m à lei de cada texto em particular, como
à do meio social.
-
Atrav és dessas pesquisas e muitas outras, busca se uma
orientação na leitura que nã o se caracteriza mais somente por
Espaços de jogos Para caracterizar esta ativida- uma “ impertinente ausência ” mas pelos avanços e recuos, pelas
e astúcias de , pode-se recorrer a diversos tá ticas e pelos jogos com o texto. Vai e vem , ora captada ( mas
por que, então, que desperta ao mesmo tempo no leitor e no
modelos. Pode ela ser conside - texto? ), jogando, protestando, fugindo. Seria necessá rio reen-
rada uma espécie de “ bricola
gem ” que Lévi-Strauss analise em “o pensamento selvagem ”,
- contrar os seus movimentos no pró prio corpo, aparentemente
ou seja , um arranjo feito com “ meios marginais", uma produção dócil e silencioso, imitando -a à sua maneira: os retiros em toda
“ sem rela ção com um projeto ”, que reajusta “ os resíduos de espécie de “ gabinetes” de leitura liberam gestos desconhecidos,
constru ções e destruições anteriores” / 5 Mas contrariamente resmungos, tics, exposições ou rotações, ruídos insólitos, enfim
aos “ universos mitol ógicos” de Lévi -Strauss, se esta produ çã o uma orquestra çã o selvagem do corpo. Por outro lado, poré m,
organiza també m acontecimentos, não forma um conjunto: é em seu n ível mais elementar, a leitura se tornou há três séculos
uma " mitologia ” dispersa na dura çã o, o desfiar de um tempo uma obra da vista. Ela nã o é mais acompanhada, como antiga-
não reunido , mas disseminado em repeti ções e em diferenças mente, pelo ru ído de uma articulaçã o vocal nem pelo movimen-
de gozos, em mem ó rias e em conhecimentos sucessivos. to de uma mastigaçã o muscular. Ler sem pronunciar em voz
alta ou a meia-voz é uma experiê ncia " moderna", desconhecida
Outro modelo: a arte sutil cuja teoria foi elaborada por durante mil é nios. Antigamente, o leitor interiorizava o texto:
poetas e romanceiros medievais: insinuam a inova ção no pró - fazia da própria voz o corpo do outro, era o seu ator. Hoje o
prio texto e nos termos de uma tradição. Procedimentos texto n ão impõe mais o seu ritmo ao assunto, n ã o se manifesta
refinados infiltram mil diferen ças na escritura autorizada que mais pela voz do leitor. Esse recuo do corpo, condição de sua

270 271
autonomia, é um distanciar-$e do texto. É para o leitor o seu Mas onde o aparelho científico {o nosso ) é levado a parti-
habeas corpus . lhar a ilusão dos poderes de que é necessariamente solidário,
Como o corpo se retira do texto para se comprometer com isto é, a supor as multid ões transformadas pelas conquistas e
ele apenas pela mobilidade dos olhos,28 a configura ção geogr á - as vitó rias de uma produ ção expansionista, é sempre bom
fica do texto organiza cada vez menos a atividade do leitor. A recordar que não se devem tomar os outros por idiotas.
leitura se liberta do solo que a determinava. Afasta se dele A - .
autonomia do olho suspende as cumplicidades do corpo com
o texto; ela o desvincula do lugar escrito; faz do escrito um
ob-jeto e aumenta as possibilidades que o sujeito tem de
circular. Um sintoma: os métodos de leitura din â mica.29 Assim
como o avião permite independência crescente em face das
coerções exercidas pela organiza ção do solo as técnicas de .
leitura dinâ mica obtê m, diminuindo as paradas da vista, uma
aceleraçã o das travessias, uma autonomia maior em relaçã o às
determina ções do texto e uma multiplicação dos espaços per -
corridos . Emancipado dos lugares, o corpo que lê se acha mais
livre em seus movimentos. Exerce em gestos a capacidade que
cada sujeito tem para converter o texto pela leitura e “ queimá -
lo”, assim como se queimam as etapas.
Fazendo a apologia da impertinê ncia do leitor, estou negli
genciando muitos aspectos. Barthes distinguia já três tipos de
-
-
leitura: aquela que se apraz em deter se em certas palavras, e
a que vai correndo até o fim e “ não consegue esperar ”, a que
cultiva o desejo de escrever.30 Leituras erótica, venató ria ou
inici á tica. Existem outras, no sonho, no combate, no autodida-
tismo etc., que não é o caso de abordar aqui . Seja como for,
sua maior autonomia não preserva o leitor, pois é sobre o seu
imaginá rio que se estende o poder dos meios, ou seja, sobre
tudo aquilo que deixa vir de si mesmo nas redes do texto seus -
medos, seus sonhos, suas autoridades fantasmadas e ausentes.
A í em cima jogam os poderes que fazem das cifras e dos “ fatos”
uma retó rica que tem por alvo esta intimidade liberta.

* Noçá o central do direito inglê s ( século XVII ), que garante a


liberdade do
indiv íduo e o protege de uma prisào arbitrá ria ( LG.).

272 273
1/
QUINTA PARTE

Maneiras de crer
1/
CAPÍTULO XIII

CREDIBILIDADES POLÍTICAS

"Gosto da palavra crer . Em geral , quando alguém diz


'sei', nã o sabe, mas crê \

MARCEL DUCHAMP
Duchamp du signe
( Flommarion, 1975, p- 185)

Os judeus, disse uma vez Léon Poliakov, são franceses


que , ao invés de não irem mais à igreja, não vã o mais à sinagoga.
Na tradu ção humorística de Hagadah, essa piada designava
crenças no passado que deixaram de organizar prá ticas. As
convicções pol íticas parecem, hoje, seguir o mesmo caminho.
Algué m seria socialista porque foi, sem ir às manifestações, sem
reuni ã o, sem contribuição financeira, em suma sem pagar. Mas
reverenciai que identificatória, a “ pertença " só se marcaria por

277
aquilo que se chama uma voz , este resto de palavra, um voto
por ano. Vivendo com base numa aparente “ confiança ”, o
-
rogar se sobre os avatares do crer em nossas sociedades e sobre
as prá ticas originadas a partir desses deslocamentos.
partido reú ne cuidadosamente as rel íquias de convicções anti-
gas e, mediante esta ficçã o de legitimidade, vai mais ou menos
Queda de cotação
Durante séculos, supunha se-
gerindo seus negócios. Precisa somente, por sondagens e que fossem indefinidas as re-
estat ísticas, multiplicar a citaçã o dessas testemunhas fantas- - das crenças servas de crença. Bastava ape -
mas, re-citando lhes a ladainha . nas, no imenso oceano da
Uma técnica bastante simples manteria o teatro desse credulidade, criar ilhas de racionalidade, destacar e garantir as
crédito Basta que as sondagens abordem um outro ponto que frá geis conquistas de uma cr ítica. O resto, considerado inesgo-
n ã o aquilo que liga diretamente os “ adeptos” ao partido, mas tá vel, supunha -se que podia ser transportado para outros
aquilo que não os engaja alhures - n ã o a energia das convic- objetos e outras metas, como a á gua de uma cachoeira pode
ções, mas a sua in é rcia. “ Se é falso que você acredita em outra ser veiculada e usada para produzir eletricidade. Procurava-se
coisa , é portanto verdade que você ainda é dos nossos ”. Os “ captar ” essa energia deslocando-a de um lugar para outro: das
resultados da operaçã o contam então com restos de adesã o . sociedades assim chamadas pagã s, onde residia , era transpor-
Fazem cá lculos até mesmo com o desgaste de toda convicção, tada para o cristianismo que ela devia apoiar; depois, das
Igrejas, a energia era canalizada para uma política moná rquica;
pois esses restos indicam ao mesmo tempo o refluxo daquilo
em que os interrogados creram e a ausência de uma credibili- e enfim, de uma religiosidade tradicionalista para as institui -
dade mais forte que os leva para outro lugar: as “ vozes” não ções da Repú blica, da Educaçã o p ú blica ou dos socialismos.
se exilam , ficam ali; jazem onde estavam , dando lugar no Essas “conversões" consistiam em captar a energia crente
entanto ao mesmo total . A conta se torna um conto. Essa ficção -
transportando a. Aquilo que não era transportá vel , ou ainda
poderia muito bem ser um apê ndice ao Esse est percipi de não fora transportado, para as novas regiões do progresso era
Borges. 1 Ê o apólogo de um declínio que os n ú meros não visto como “supersti ção”; o que era utilizá vel pela ordem
registram e que atinge as cren ças. vigente ganhava o valor de “ convicçã o". O reservatório era tão
A titulo de primeira aproximação, entendo por “ cren ça ”
rico que, explorando-o, esquecia-se da necessidade de analisá -
lo. Campanhas e cruzadas consistiam em “ colocar ” a energia
n ão o objeto do crer ( um dogma , um programa etc.), mas o do crer num lugar bom e em objetos bons (de crer).
investimento das pessoas em uma proposi ção, o ato de enun -
ciá-la considerando-a verdadeira 2 - noutros termos, uma “ mo
dalidade ” da afirma çã o e n ã o o seu conte ú do. Ora , a
O
- Aos poucos a crença se poluiu, como o ar e a água. Essa
força motriz, sempre resistente mas tratá vel, começa a faltar.
capacidade de crer parece estar em recessã o em todo o campo Percebe-se ao mesmo tempo n ã o se saber o que ela é. Estranho
pol í tico. E era ela que sustentava o funcionamento da “ autori paradoxo; tantas pol ê micas e reflexões sobre os conte údos
dade '. A partir de Hobbes, a filosofia pol í tica , sobretudo na sua ideológicos e os enquadramentos institucionais para lhe forne-
tradi çã o inglesa , considerou essa articula çã o fundamental .4 Por cer n ão foram (salvo na filosofia inglesa, de Hume a Wittgens-
esse v í nculo a pol í tica expiicitava a sua rela çã o de diferença e tein, H.H. Price, Hintikka ou Quine ) acompanhadas de uma
de continuidade com a religi ã o. Mas a vontade de “ fazer crer ”, elucidaçã o acerca da natureza do ato de crer. Hoje, n ão basta
de que vive a institui çã o, fornecia nos dois casos um fiador a mais manipular , transportar e refinar a cren ça. É preciso
uma busca de amor e/ ou de identidade.5 Importa entã o inter - analisar -!he a composi ção, pois h á a pretensão de fabricá la
artificialmente. Ainda parciaimente o marketing comercial ou
-

278 279
pol ítico está se empenhando nisso.6 Existem agora demasiados para se mexer e ainda estejam contando com o capital fictício
objetos para crer e muito escassa credibilidade. de um antigo “espírito ” de fam ília, de casa ou regiã o.
Dá-se uma inversão. Os poderes antigos geriam habilmente Onde achar material para injetar credibilidade nos apare-
a sua "autoridade ” e supriam assim a insuficiê ncia do seu lhos? Existem duas minas tradicionais, uma pol ítica, a outra
aparato té cnico ou administrativo: eram sistemas de clientelas, religiosa: numa, um superdesenvolvimento de suas instâ ncias
de cooptações , de "legitimidades” etc. Procuravam no entanto administrativas e de seu enquadramento compensa a mobilida -
se tornar mais independentes dos jogos dessas fidelidades por de ou o refluxo das convicções nos militantes: na outra, pelo
uma racionalização, pelo controle e a organização do espaço . contrá rio, instituições que estão caindo em ru ínas ou fechan -
Fruto desse trabalho, os poderes de nossas sociedades desen- - -
do se em si mesmas deixam disseminar se por toda a parte as
volvidas dispõem de procedimentos bastante finos e firmes para crenças que elas durante longo tempo fomentaram, mantive-
vigiar todas as redes sociais: são os sistemas administrativos e ram e controlaram.
“ pan ópticos " da pol ícia , da escola, da sa ú de, da seguridade
Desses dois “ dep ósitos”, as
social , etc.7 Mas vão lentamente perdendo toda a credibilidade.
Dispõem agora de mais for ça e menos autoridade.
Uma arqueologia . relações são ao mesmo tempo
O trá fico do crer estranhas e antigas.
Muitas vezes os té cnicos nã o se preocupam muito com isso,
ocupados como estã o em estender e complexificar os disposi - 1. A religiosidade parece mais
tivos de persistê ncia e de vigil â ncia. Enganadora segurança. A f ácil de explorar. As agências de marketing reutilizam avida -
sofistica ção da disciplina n ão é capaz de compensar o desenga - mente esses resíduos de cren ças ontem violentamente comba -
jamento das pessoas. Nas empresas, a desmobilizaçã o dos tidas como superstições. A publicidade passa a ser evangélica.
trabalhadores cresce mais depressa que o controle policial de Numerosos são os gerenciadores de uma ordem económica e
que é alvo, pretexto e efeito. Desperd ício dos produtos, perda social que se mostra inquieta com o lento naufrágio de Igrejas
de tempo, “ sucata ”, rotatividade ou absente ísmo dos emprega - onde jazem os restos de “ valores ” que pretendem recuperar a
dos, etc. solapam a partir de dentro um sistema que, como nas seu pró prio servi ço batizando-os como “atuais”. Antes que
fá bricas Toyota ,8 tende a se tornar carcerá rio para evitar essas cren ças se afundem com os navios que as transportam,
qualquer fuga . Nas administra ções, nos escritórios e at é nas são apressadamente desembarcadas nas empresas e nas admi -
formações pol íticas ou religiosas, uma canceri 2a çâo do apare - nistrações. Mas os usu á rios dessas rel íquias nã o cr êem mais
lho responde ao desvanecimento das convicções. Ela o gera nelas. Nem por isso deixam de formar , com todo o tipo de
també m . O interesse n ã o toma o lugar da crença .9 “ integristas ”, associações ideoló gicas e financeiras em vista de
Esgota-se o crer . Ou se refugia no lado dos mass media ou reparar essas n á ufragas da hist ó ria e fazer das Igrejas os
do lazer . Sai de f é rias; e a í també m se torna um objeto captado museus de cren ças sem crentes, ali guardadas para serem
e tratado pela publicidade, o com é rcio e a moda. Para recuperar exploradas pelo capitalismo liberal.
essas cren ças que v ão embora e se perdem , as empresas Essa recuperaçã o funciona com base em duas hipó teses
procuram, por sua vez, fabricar simulacros de credibilidade. A tá ticas provavelmente erró neas. Uma postula que a cren ça se
Shell produz o Credo dos “ valores" que “ inspiram ” a direção manté m ligada a seus objetos e que, preservando estes, aquela
e que os quadros e os empregados devem adotar. Assim se preserva. De fato ( mostram -no tanto a histó ria como a
també m centenas de outras ind ú strias, mesmo que demorem semi ó tica ), o investimento do crer passa de mito em mito, de
ideologia em ideologia, ou de enunciado em enunciado.10 Assim

280 281
a crença se retira de um mito e o deixa quase intacto, mas com século XVII as Igrejas ganham das monarquias os seus modelos

destino diferente, transformado em documento. 1 Durante esse
trá fico , a convicçã o ainda ligada aos terrenos que ela aos
e os seus direitos, ainda que d éem testemunho de uma “ reli-
giosidade ” que legitima o poder e aumenta o seu crédito. Com
poucos vai abandonando n ã o seria capaz de combater os o desgaste desse poder eclesi ástico, nos ú ltimos três séculos,
movimentos que a deslocam para outros lugares. Não existe as cren ças reflu íram para o pol ítico, mas sem lhe restituir os
equival ê ncia entre os objetos que ainda a conservam e aqueles valores divinos ou celestes que as Igrejas tinham posto de lado,
que a mobilizam para outra parte. controlado e assumido.
A outra tá tica n ão supõe que a cren ça permaneça ligada a Esse vaivém complexo, que fez passar do político para o
seus primeiros objetos, mas, ao contrá rio, que ela poderia religioso cristã o, e deste religioso para um novo pol ítico,13 teve
desligar-se deles de modo artificial; que a sua fuga para os como efeitos uma individualiza çã o das cren ças {os quadros de
relatos da mídia , para os “ paraísos" do lazer, para os retiros referê ncia comuns se fragmentando em “ opiniões ” sociais ou
íntimos ou tur ísticos etc., poderia ser detida ou desviada; que em " convicções ” singulares) e a sua mobilidade numa rede
se poderia , portanto, traz ê-la de volta para o redil, para a ordem sempre mais diversificada de objetos possíveis , A id éia de
disciplinar que ela abandonou. Mas a convicção não regressa democracia correspondia à vontade de gerenciar essa multipli-
tã o facilmente para os campos que desertou. Não se consegue ca çã o de convicções que tomaram o lugar da fé que fundara
mand á-la de volta tã o facilmente para administra ções ou em - uma ordem. Impressionante é que, quebrando o sistema antigo,
presas que se tornaram " inacreditá veis’’. As liturgias que pre- isto é, a credibilidade religiosa do pol ítico, o cristianismo afinal
tendem “ animar " e “ revalorizar " os lugares de trabalho não de contas comprometeu a fiabilidade desse religioso que ele
conseguem transformar o seu funcionamento. També m não separou do pol ítico, contribuiu para a desvaloriza ção daquilo
produzem crentes. 0 p ú blico n ã o é mais tão cr édulo. Diverte se- de que se apropriara e a que dera autonomia e, assim , possibi -
com essas festas e com esses simulacros. Mas não “ se engaja ”. litou o refluxo das crenças para autoridades políticas agora
2. As organiza ções políticas foram tomando o lugar das privadas ( ou libertadas ? ) dessas autoridades espirituais que
Igrejas como lugares de prá ticas crentes mas, assim, parece que eram outrora um princí pio de relativiza çã o e ao mesmo tempo
passaram a ser habitadas pela volta de uma antiqu íssima de iegitima ção. 0 regresso de um recalcado “ pagã o ” foi portan-
-
( pr é cristã ) e muito “ pagã ’’ alian ç a entre o poder e o religioso.
Tudo se passou como se, tendo o religioso cessado de ser um
to afetado por esse decl ínio do “espiritual ”. A erosão do
cristianismo deixou um traço indel ével na modernidade; a
poder aut ó nomo ( o “ poder espiritual ”, como se dizia ), o pol ítico “ encarnaçã o” ou a historiciza çâo que já no sé culo XVIII Rous-
se tornasse de novo religioso. 0 cristianismo tinha efetuado seau denomina uma “ religi ã o civil ” .14 Ao Estado pagão que
uma ruptura no entrelaçamento dos objetos vis íveis da crença “ n ã o distinguia seus deuses e suas leis”, Rousseau opõe uma
( as autoridades pol í ticas ) e de seus objetos invisíveis ( os deuses, “ religião ” do cidad ã o, “ onde pertence ao soberano fixar os seus
os esp í ritos etc.). Mas só conseguiu manter essa distin çã o artigos”. “ Se algu é m , depois de ter publicamente reconhecido
constituindo um poder clerical , dogmá tico e sacramental no esses mesmos dogmas, se comporta como n ão acreditando
lugar deixado livre pela deteriora çã o momentâ nea do pol ítico neles, seja punido de morte ” . Desta religi ã o civil do cidadão se
nu fim da Antiguidade . Nos sé culos XI e XII, sob o signo da distinguia uma religi ã o espiritual do homem , individual , a-so-
“ paz de Deus ", o poder eclesiá stico imp õe a sua “ ordem " aos cial e universal , de La Profession de foi du vicaire savoyard.
poderes civis conflitantes. ‘ 0$ sé culos seguintes vão mostrar
1 O
Essa visão prof é tica , muito menos incoerente do que se dizia ,
a deteriora çã o dessa ordem em benef ício dos pr íncipes. No já articula o desenvolvimento de uma dogmá tica “ civil ” e
pol ítica sobre a radicalização de uma consci ê ncia individual

282 283
desligada de todo dogma e privada de poderes. Mais tarde, a revolucioná rio, socialista etc. ) contra a fatalidade ou a norma-
aná lise sociol ógica verificou estar correta essa previsã o.15 lidade dos fatos; a legitima ção por valores éticos, por uma
Desde entã o, a cren ça se reinveste no sistema pol ítico verdade teó rica ou por um martirol ógio deve compensar a í a
apenas, à medida que vã o saindo de ó rbita, disseminando-se ou legitimidade com a qual pode se fazer acreditar todo poder pelo
m í niaturizando-se os “ poderes espirituais” que tinham garanti- mero fato de sua existê ncia; as t écnicas do “ fazer crer ” desem
penham um papel mais decisivo onde se trata daquilo que ainda
-
do os poderes civis na Antiguidade e tinham entrado em
competiçã o com eles no Ocidente cristão. não é;18 as intransigê ncias e os exclusivismos doutrinais são
portanto mais fortes que nos lugares onde o poder adquirido

Do poder uespiritual " à


A distin ção, hoje arqueo
l ógica, entre o temporal
- permite e muitas vezes exige os compromissos; enfim , por uma
lógica aparentemente contradit ó ria , todo poder reformista so-
oposição de esquerda e o espiritual como duas
jurisdições diversas, con -
fre a tenta ção de adquirir vantagens políticas, mudar se em -
administraçã o eclesiástica para apoiar seu projeto, perder as-
tinua ainda estruturalmente inscrita na sociedade francesa, mas sim sua “ pureza” primitiva ou mud á-la em mero elemento
agora dentro do sistema político. 0 lugar antigamente ocupado decorativo do aparelho e transformar os seus militantes em
pela Igreja ou pelas Igrejas em face dos poderes estabelecidos funcioná rios ou em conquistadores.
é ainda reconhecível , há uns dois séculos, no funcionamento Esta analogia tem razões estruturais: elas nã o remetem
de uma oposição assim chamada de esquerda . També m na vida diretamente a uma psicologia da militâ ncia ou a uma sociologia
política, uma mutação dos conteú dos ideol ógicos pode deixar cr ítica das ideologias, mas antes de tudo à lógica de um “ lugar"
intacta uma "forma ” social .16 Um indício dessas transi ções que que produz e reproduz, como seus efeitos, as mobilizações
deslocam as crenças, mantendo porém o mesmo esquema militantes, as tá ticas do “ fazer crer” e das institui ções eclesiais
estrutural, seria a história do jansenismo: uma oposição profé - em uma relação de distâ ncia, de competiçã o e de transformaçã o
-
tica ( o Port-Royal do sé culo XVII ) transforma se ali na oposiçã o
pol í tica de um ambiente “ esclarecido ” e parlamentar no século
futura em rela çã o aos poderes estabelecidos. As passagens dos
cristianismos para os socialismos pela media ção das “ heresias”
XVIII. J á se esboça a troca que uma intelligentsia de cl é rigos ou das seitas constituíram o objeto de in ú meros trabalhos,19
ou notáveis garante à oposição sustentada por um poder eles mesmos operadores das passagens que analisavam. Mas se
“ espiritual ” contra (ou à margem ) das autoridades pol íticas ou esse tráfico transporta rel íquias de crenças religiosas para
“ civis ”. novas formações pol í ticas, da í não se poderia concluir que esses
Seja lá como for o passado, e caso se deixem de lado as restos de cren ças abandonadas autorizam a reconhecer algo de
-
comparações demasiadamente fá ceis ( e a pol íticas ) entre os religioso nesses movimentos. Só se é obrigado a isso por uma
traços psicossociol ógicos carater ísticos de toda militâ ncia, 17 identifica çã o, indevida , dos objetos cridos ao ato de crer, e por
existe funcionalmente , em face da ordem estabelecida, uma seu corolá rio que supõe algo de religioso em todo grupo onde
relaçã o entre as Igrejas que defendiam um outro mundo e os funcionam ainda elementos que foram religiosos. H á outro
partidos de esquerda que, desde o sécuto XIX, promovem um modelo de aná lise, que parece mais conforme aos dados da
futuro diferente . Tanto numa parte como na outra se percebem histó ria e da antropologia : as Igrejas, ou mesmo as religiões,
caracter ísticas funcionais semelhantes: a ideologia e a doutrina seriam não unidades referenciais, mas variantes sociais nas
desempenham aí um papel importante que n ã o lhes é dado reia ções possíveis entre o crer e o crido; elas teriam sido
pelos detentores do poder; o projeto de uma outra sociedade configurações ( e manipula ções ) histó ricas particulares das re-
tem a í como efeito o papel prioritá rio do discurso ( reformista , la ções que podem ser mantidas pelas modalidades {formais) do

284 285
crer e do saber com as séries ( quase léxicas) dos conte údos lado notícias, informações, estat ísticas e sondagens. Jamais
dispon íveis. Hoje, o crer e o saber se distribuem de outro modo houve uma hist ória que tivesse falado ou mostrado tanto.
que nas religi ões de outrora; o crer n ão modaliza mais o crido Jamais, com efeito, os ministros dos deuses os fizeram falar de
segundo as mesmas regras; enfim os objetos do crer ou do uma maneira tã o cont ínua , tão pormenorizada e tã o injuntiva
saber, o seu modo de defini ção, o seu estatuto e seu estoque como o fazem hoje os produtores de revelações e regras em
em boa parte se renovaram. També m não se pode isolar e
i
-
nome da atualidade. Os relatos do-que está-acontecendo cons -
inscrever numa continuidade duas constelações de “ crenças” i tituem a nossa ortodoxia. Os debates de n ú meros sã o as nossas
mantendo apenas, de uma e de outra, o fato comum de um guerras teol ógicas. Os combatentes não carregam mais as
Belief , elemento supostamente invariá vel . Para analisar as armas de id éias ofensivas ou defensivas. Avan çam camuflados
rela ções do discurso e do crer na variante nova , política e em fatos, em dados e acontecimentos. Apresentam-se como os
militante, apresentada pelos partidos de esquerda em um lugar mensageiros de um “ real ”. Sua atitude assume a cor do terreno
ainda historicamente determinado pelo papel das Igrejas anti- económico e social. Quando avan çam , o pró prio terreno parece
gas. deve-se portanto abandonar o exame em perspectiva ar - que també m avan ça. Mas, de fato, eles o fabricam, simulam-no,
usam -no como máscara, atribuem a si o cr édito dele, criam
queol ógica. precisar bem os modos segundo os quais, hoje, o
crer. o saber e seus conte ú dos se definem reciprocamente, e assim a cena da sua lei .
deste modo tentar captar alguns funcionamentos do crer e do Malville, Kalkar , Croissant, o Polisá rio, o nuclear , Khomei-
fazer, crer nas formações pol íticas onde se desdobram, no ny , Cá rter etc.: esses fragmentos de hist ó ria se organizam em
interior desse sistema, as tá ticas permitidas pelas exigê ncias de artigos de doutrina. “ Calem-se!" - diz o locutor ou o responsá-
uma posi ção e pelas pressões histó ricas. Esse enfoque da vel político: “A í estão os fatos. Eis os dados, as circunstâ ncias
atualidade pode distinguir a í os dois dispositivos pelos quais
uma dogm ática sempre se impôs à crença: de um lado, a
etc. Portanto, vocês devem ...”. O real contado dita intermina -
velmente aquilo que se deve crer e aquilo que se deve fazer. E
pretensão de falar em nome de um real que, supostamente o que se pode contrapor aos fatos? A pessoa tem que se inclinar,
inacessível , é ao mesmo tempo o princ í pio daquilo que é crido e obedecer à quilo que “ significam ” , como o orá culo de Delfos.
( uma totaliza çã o ) e o princí pio do ato de crer ( uma coisa sempre A fabrica ção de simulacros fornece assim o meio de produzir
subtra ída , inverificá vel, ausente ); de outro lado, a capacidade crentes e portanto praticantes. Esta insti tui ção do real é a forma
do discurso, autorizado por um “ real ” para se distribuir em .
mais visível de nossa dogm á tica contemporâ nea É também a
elementos organizadores de práticas, isto é, em “ artigos de mais disputada entre partidos.
f é ”. Essas duas forças tradicionais se acham hoje no sistema Ela nã o comporta mais um lugar pró prio, nem cá tedra ou
que combina com a narratividade da m ídia - uma instituiçã o .
magistério Código an ó nimo, a informa ção inerva e satura o
-
do real o discurso dos produtos de consumo - uma distribui- corpo social . Desde a manh ã até a noite , sem pausa , histórias
ção deste real em " artigos ” que se devem crer e comprar . povoam as ruas e os pré dios. Articulam nossas existê ncias
Importa insistir sobre o primeiro, dado que o segundo é ensinando- nos o que elas devem ser. “ Cobrem o acontecimen -
bastante conhecido. to ” . ou seja, fazem deles as nossas legendas ( legenda: aquilo
O grande sil ê ncio das coisas que se deve ler e dizer ). Apanhado desde o momento em que
A instituição do real muda-se no seu contrário atra - acorda pelo rádio (a voz é a lei), o ouvinte anda o dia inteiro
pela floresta de narratividades jornal ísticas, publicitá rias, tele-
v és da m ídia. Ontem constitu í-
do em segredo , agora o real tagarela . Só se vêem por todo o visionadas, que, de noite , ainda introduzem as suas ú ltimas

286 287
mensagens sob as portas do sono. Mais que o Deus narrado deste novo postulado ( crer que o real é visível) a possibilidade
antigamente pelos teólogos, essas histó rias desempenham uma de nossos saberes, de nossas observa ções, de nossas provas e
fun ção de provid ê ncia e de predestinação: elas organizam de nossas práticas. Nesta nova cena , campo indefinidamente ex-
antemão nossos trabalhos, nossas festas e até os nossos sonhos. tensível das investigações óticas e de uma pulsão escópica,
A vida social multiplica os gestos e os comportamentos impres- subsiste ainda a estranha coalizão entre o crer e a questão do
sos por modelos narrativos; reproduz e empilha sem cessar as real. Mas agora ela se joga no elemento do visto, do observado
“ có pias ” de relatos. A nossa sociedade se tornou uma sociedade ou do mostrado. O “simulacro ” contemporâ neo22 é, em suma,
recitada, e isto num triplo sentido: é definida ao mesmo tempo a localização derradeira do crer no ver, é o visto identificado
por relatos {as fá bulas de nossas publicidades e de nossas com aquilo que se deve crer - uma vez que se abandonou a
informa ções ), por suas cita çõ es e por sua intermin ável recita - hipótese que esperava que as á guas de um oceano invisível (o
çã o. Real) viessem habitar as margens do visível e fazer delas os
Esses relatos t ê m o duplo e estranho poder de mudar o ver efeitos, os sinais decodificá veis ou os reflexos enganadores de
num crer , e de fabricar real com aparê ncias. Dupla inversão. sua presença. Torna-se um simulacro a relação do visível com
De um lado, a modernidade, outrora nascida de uma vontade o real quando desmorona o postulado de uma imensid ão
observadora que lutava contra a credulidade e se fundava num invis ível do Ser ( ou dos seres), escondido por trás das apar ê n -
contrato entre a vista e o real, transforma agora essa relação e cias.
.
deixa ver precisamente o que se deve crer A ficção define o
Em face dos relatos imaginá -
campo, o estatuto e os objetos da visão. Assim funcionam os
mass media, a publicidade ou a representação política. Sem A sociedade recitada rios, que agora são apenas
d ú vida, també m ontem havia ficçã o, mas em lugares circunscri - “ ficçõ es”, produ ções visíveis e
legíveis, o espectador-observa-
tos, estéticos e teatrais: ali a ficçã o se indicava a si mesmo ( por
exemplo gra ças à perspectiva , arte da ilusão); ela fornecia, com dor sabe muito bem que se trata de “aparê ncias” , resultados
as regras de seu jogo e as condições de sua produçã o, a sua de manipula ções - Sei muito bem que é uma patranha mas
assim mesmo ele supõe que tais simula ções tenham um esta
- -
pr ópria metalinguagem .21 Falava somente em nome da lingua - tuto de realidade : uma crença sobrevive ao desmentido que
gem. Narrativizava uma simbólica , deixando a verdade das
coisas em suspenso e quase em segredo. Hoje, a ficçã o pretende
recebe de tudo aquilo que sabemos sobre a sua fabrica çã o.
presentificar o real , falar em nome dos fatos e, portanto, fazer Como dizia um telespectador: “Se fosse mentira, a gente
saberia ”, Ele postulava outros lugares sociais capazes de
assumir como referencial a semelhan ça que produz. E os
garantir o que ele sabia ser fictício, e isso lhe permitia crer no
destinatá rios ( e compradores ) dessas legendas nã o estão mais
que via “ assim mesmo ”. Como se a crença não pudesse mais
obrigados a crer no que n ã o v ê em ( posi çã o tradicional), mas a
crer no que v êem ( posi çã o contemporâ nea ) . se dizer em convicções diretas, mas somente passando pelo
desvio daquilo que se imagina outros acreditarem. A crença
Essa revirada do terreno onde se desenvolvem as cren ças não repousa mais em uma alteridade invisí vel , escondida por
resulta de uma muta çã o nos paradigmas do saber: a invisibili- trá s dos signos, mas em cima daquilo que outros grupos, outros
dade do real , postulado antigo, cedeu o lugar à sua visibilidade, campos, ou outras disciplinas supostamente sã o. 0 “ real ” é
A cena sócio-cultural da modernidade remete a um “ mito ”. aquilo que, em cada lugar, a referê ncia a um outro faz acreditar.
Define o referente social por sua visibilidade ( e portanto por 0 mesmo se d á nas disciplinas científicas. Por exemplo, as
sua representatividade cient ífica ou pol ítica); articula em cima relações entre a informá tica e a história funcionam tendo como

288 289
base um espantoso quiproqu ó: à informá tica os historiadores objeto crível . Mas é també m apontar os “ anarquistas" ou
solicitam que dê crédito a um poder “ científico” capaz de dar “ desviantes" (citá - los diante da opini ã o ); é apontar à agressivi-
um peso técnico e real a seu discurso; à história os informati * dade pú blica aqueles que, afirmando por seus gestos não
cistas pedem uma validação pelo “ real ” que é fornecido pelo acreditar nisso, demolem a “ realidade ” fictícia que cada um não
“ concreto” da erudição. Cada um deles, por seu lado , espera pode manter “ assim mesmo” a n ã o ser a tí tulo da convicção
24
do outro uma garantia que lastreie o seu simulacro. alheia. Na medida em que esse instrumento que “faz a opinião”
Politicamente, acontece a mesma coisa. Cada partido rece - -
é manipul á vel por aqueles que o seguram , pode se com razão
perguntar sobre as capacidades que oferece para mudar a
be a sua credibilidade daquilo que crê e faz crer a respeito de
seu referente (as “ maravilhas” revolucioná rias efetuadas no “cren ça" em “desconfian ça ”, em “suspeita” e até mesmo em
Leste? ) ou de seus adversá rios ( os vícios e as infelicidades dos dela ção, como també m sobre a possibilidade para os cidad ãos
malvados adversá rios). Cada discurso pol ítico tira efeitos de de controlar politicamente aquilo que serve de fiabilidade
real graças ao que supõe e faz supor da aná lise económica que circular e sem objeto à pró pria vida pol ítica.
o sustenta ( e esta mesma análise validada por essa remissão ao
pol ítico ). No seio de cada partido, os discursos profissionais
dos “ responsáveis” se mantêm graças à credulidade que supõ-
em nos militantes de base ou nos eleitores e, reciprocamente,
o “ sei muito bem que se trata de patranha!” de muitos dos
eleitores tem como contraponto o que postulam de convicção
ou de saber nos quadros do aparelho pol ítico. A cren ça funcio-
na assim tendo como base o valor do real que se supõe “ assim
mesmo ” no outro, mesmo quando “ a gente bem sabe ” muito
bem, até demais, até que ponto “ existe sujeira” no lugar que
se ocupa .
A cita ção será portanto a arma absoluta do fazer crer.
Como ela joga com aquilo que o outro supostamente crê, é
portanto o meio pelo qual se institua o “ real ”. Citar o outro em
seu favor é portanto dar credibilidade aos simulacros produzi -
dos num lugar particular. A esse respeito, as “ sondagens” de
opini ã o se tornaram o processo mais elementar e o mais
-
passivo. A autocitaçáo perpétua a multiplica ção das pesquisas
de opinião - é a ficção pela qual o pa ís é induzido a crer no
que é. Cada cidad ã o supõe de todos aquilo que, sem ele mesmo
crer . sabe da cren ç a dos outros. Substituindo doutrinas que se
tornaram inacreditá veis, a citaçã o permite aos aparelhos tecno-
crá ticos tornar-se fi á veis a cada um em nome dos outros. Citar
é dar realidade ao simulacro produzido por um poder, induzin-
do a crer que outros acreditem nele , mas sem fornecer nenhum

290 291
1/
CAPÍTULO XIV

O INOMINÁVEL: MORRER

Quando se aproxima a morte, o pessoal do hospital se


retira. “Sí ndrome de fuga da parte dos m édicos e das enfermei-
ras”.1 O afastamento é acompanhado de senhas cujo vocabulá -
rio coloca já o vivo na posição do morto: “ Ele precisa
.
descansar... Deixem o doente dormir” Ê preciso que o mori -
bundo fique calmo e descanse. Além dos cuidados e dos
calmantes necessá rios ao doente , esta senha põe em causa a
impossibilidade , para o pessoal hospitalar, de suportar a enun
ciação da angústia, do desespero ou da dor: é preciso impedir
-
que se diga isso .
Os moribundos sã o proscritos ( outcasts) porque sã o os
desviantes da institui ção por e para a conserva çã o da vida. Um
“ luto antecipado” , fenô meno de rejeição institucional, os coloca
-
de antem ã o na “ câ mara da morte ”; envolve os de silê ncio ou,
pior ainda , de mentiras que protegem os vivos contra a voz que
poderia quebrar essa clausura para gritar: “ Estou morrendo!”

293
Esse grito produziria um embarrassingly graceless dying. A técnicas visando a defesa da sa ú de assim como outros se
mentira ( “ N ão, o doente vai melhorar!” ) é uma garantia contra dedicam à defesa da ordem ou da limpeza. Lançado fora de
a comunicação. Pois a palavra proibida, caso se fizesse ouvir, uma sociedade que, conforme as utopias de antanho, limpa suas
trairia a luta que mobiliza o hospital e que, supondo que cuidar
quer dizer curar, nã o quer saber do fracasso: seria uma
ruas e suas casas de tudo o que parasita a razão do trabalho
detritos, delinqu ência, doença, velhice - o doente deve seguir
-
blasf êmia . a sua enfermidade onde será tratada, nas empresas especializa
das onde logo se muda num objeto científico e lingu ístico,
-
Pior ainda , morto em estranho à vida e à l íngua cotidianas. É posto de lado numa
Uma prática impensável sursis , o moribundo cai das á reas técnicas e secretas ( hospitais, prisões, depósitos de
fora do pensável, que se lixo ) que aliviam os vivos de tudo aquilo que poderia frear a
identifica com aquilo que cadeia da produ ção e do consumo e que, na sombra onde
se pode fazer . Saindo do campo circunscrito por possibilidades ningué m penetra, consertam e fazem a triagem daquilo que
de interven ção , entra numa região de insignificâ ncia. N à o se pode ser reenviado à superf ície do progresso. Retido ali ,
pode dizer mais nada ali onde nada mais pode ser feito. Com torna-se um desconhecido para os seus. Não mora mais nas
o ocioso, e mais do que ele, o moribundo é o imoral: um, casas deles nem no seu falar. Talvez o exilado um dia regresse
cidad ã o que n ão trabalha; o outro, objeto que nem mesmo se do pa ís estranho cuja l íngua, na casa dele, ninguém conhece e
oferece mais a um trabalho; ambos intoleráveis numa sociedade que há de ser fatalmente esquecida. Se regressar, será o objeto
onde o desaparecimento dos sujeitos é em toda a parte com - longínquo, nã o significá vel , de um esforço e de um fracasso
pensado e camuflado pela multiplica ção das tarefas. Foi neces - impossíveis de tra çar no espa ço e na linguagem familiar.
sá rio o nazismo, l ógico em seu totalitarismo tecnocrá tico, para Considerada por um lado um fracasso ou uma parada
tratar os mortos e ultrapassar com os processos de rentabiliza- provisó ria da luta m édica, subtraída por outro lado à experi ê n-
ção o limite que o cadá ver, inerte, lhes opõe. cia comum , chegando portanto ao limite do poder científico e
Nesta combinação entre indivíduos sem ação e operações escapando às prá ticas familiares, a morte é o outro lugar. Numa
sem autor, entre a angústia dos indiv íduos e a administração sociedade que só conhece oficialmente “ repouso” como inércia
das prá ticas, o moribundo reduz a questão do sujeito à extrema ou desperdício , ela é deixada, por exemplo, às linguagens
fronteira da inação, onde é a coisa mais impertinente e menos religiosas fora de moda , entregue a ritos agora desprovidos das
suportá vel . Em nossa sociedade, ausência de trabalho significa crenças que os habitavam . Ela é posta nesses espaços de
-
absurdo: deve-se eliminá la para que prossiga o discurso que antanho, també m “ deslocados” pela produtividade científica,
incansavelmente articula as tarefas e constrói o relato ocidental que fornecem ao menos algo para soletrar em alguns signos
do “ há sempre alguma coisa a fazer ”. O moribundo é o lapso ( agora indecifrá veis) esta coisa privada de sentido. Espetá culo
desse discurso. É, e n ã o pode ser senã o ob sceno. Portanto, - exemplar e nacional: a pompa que cercou a morte do General
censurado , privado de linguagem , envolto numa mortalha de De Gaulle era há muito tempo considerada “superstiçã o ” pela
silê ncio: inominá vel . maioria dos dignitá rios que lhe confiavam o seu morto. Aquilo
A fam ília tampouco nã o tem nada a dizer. O doente é-lhe que não podiam nomear, encarregavam disso uma linguagem
arrebatado pela instituição que vai cuidar não do indiv íduo mas na qual n ã o podiam crer. Nos repertó rios religiosos, diabólicos,
da sua doen ça, objeto isolado, transformado ou eliminado pelas de feiti çaria ou de fantasia , l éxicos marginalizados, o que se
depõe em segredo ou ressurge mascarado é a morte que agora
* u
Uma morte de aborrecedora deselegâ ncia "* (LG )
, .
se tornou impensá vel e inominá vel.2

294 295
O fato de, recalcada, a morte voltar Entre apodrecer na lata do lixo, fantasma subjacente à
Dizer é crer numa língua exótica ( a de um pas- struggle for life generalizada no Ocidente, e morrer, existe a
sado, de religiões antigas, ou de diferen ça da palavra que articula o desmoronamento do ter e
tradições remotas); o fato de ela ter as representações da pergunta: “ O que é ser? ” Pergunta “ ocio-
que ser evocada em dialetos estranhos; o fato de ser tão dif ícil sa ”. Falar que n ã o diz mais nada, que possui apenas a perda
dizè-la em sua l í ngua quanto morrer “ em casa ”, isto define um de onde se forma o dizer. Entre a m áquina que pá ra ou estoura,
.
exclu ído que só pode voltar disfarçado Sintoma paradoxal -
e o ato de morrer , existe a possibilidade de dizê lo. A possibi-
dessa morte sem frases, toda uma literatura designa o ponto lidade de morrer se joga nesse espaço intermediá rio.
onde se focalizam as rela ções com o insensato, O texto prolifera Detendo-se no limiar da diferen ça entre estourar e morrer,
em torno dessa ferida de uma razã o. Mais uma vez, ele se apóia o moribundo se vê impossibilitado de dizer esse nada que ele
naquilo que só pode ser calado, A morte, eis a questã o do se torna, incapaz do ato que só produziria a sua pergunta.
sujeito. Bastar-lhe-ia mesmo ter como lugar aquele que receberia na
linguagem do outro, no momento em que n ã o tem mais bem
Um sinal: as curas anal íticas mostram até que ponto a algum nem provas a apresentar. Ser apenas chamado “ Láza- -
experiê ncia se articula com a posição do sujeito na hora da
3
morte. O melancólico vai dizer: “ N ão posso morrer!” ; o obses- -
ro!” e tra çado por seu nome pr ó prio na l íngua de outro
desejo, sem que nada de pró prio, tanto na morte como no
sivo: “ N ão posso nã o morrer!” nascimento, lhe dê esse direito, o que seria uma comunicação
(" Antes de tudo, diz Freud , os obsessivos necessitam da alé m da troca. Aí se poderia confessar do desejo a sua rela ção
4
possibilidade da morte para resolver os seus conflitos” ). Mas necessá ria com aquilo que nã o pode ter, com uma perda. Seria
antes de aparecer no campo do intercâ mbio psicanalí tico, esta “simbolizar ” a morte, encontrar para isto palavras (que não
posi ção do sujeito depende da questão ed ípica: “ Quando n ão “ relatam ” nenhum conte údo ), abrir na l íngua da interlocu çào
sou mais nada, só então me torno verdadeiramente um ho- a ressurreição que n ão traz de volta à vida.
mem ? ” Comentá rio de Jacques Lacan: “ Aí começa a sequ ê ncia
Mas esse lugar é negado ao isolado. A perda de seus
da histó ria : o al é m do princ ípio do prazer ”. Mas a í, precisamen - poderes e de suas faces sociais lhe proíbe també m o que lhe
te, um terceiro silê ncio vem somar-se aos da institui çã o prepos- parecia permitir: o acesso à relação recíproca cujo léxico narra
ta e da linguagem comum: o silê ncio do pró prio sujeito. Esse ,
somente "tu me faltas”.
sobretudo , busca um dizer. Boris Vian :
Existe no entanto uma coincid ê ncia primeira e derradeira
Je voudra ís pas crever Eu bem gostaria de n ão morrer entre morrer, crer e falar. Com efeito, ao longo de toda a minha
non Monsieur, non Madame , n ã o senhor , n ão senhora , vida, não posso afinal crer a não ser em minha morte, caso
avant d'avo í r tâ té antes de ter experimentado “ crer ” designe uma relaçã o ao outro que me precede e n ão
le go ú t qui me tourmente , o gosto que me atormenta , cessa de se aproximar . Nada existe tão “ outro ” como a minha
le go ú t qu ’est le plus fort . o gosto mais forte. morte, índice de toda alteridade. Mas nada tampouco precisa
Je voudrais pas crever Eu bem gostaria de n ã o morrer melhor o lugar de onde posso dizer o meu desejo do outro,
avant d 'avoir goúte antes de ter provado minha gratid ão de ser - sem fiador nem penhor a oferecer -
la saveur de la mort . o sabor da morte . recebido na linguagem impotente de sua expectativa; nada
* *a luta peia vida ** ( L.G .K

296 297
portanto define com maior exatid ão que minha morte o que é escrever, senão a tí tulo de uma palavra impossível? No começo
falar . da escrita existe uma perda . 0 que não se pode dizer -
impossível adequa çã o entre a presen ça e o sinal - é o postulado
O “ derradeiro momento” é somente o do trabalho sempre recomeçando que tem como princípio um
Escrever ponto último onde se refugia, se exa- n ã o-lugar da identidade e um sacrif ício da coisa . A injunçáo de
cerba e se aniquila o desejo de dizer. 5
Joyce: “ escreve-o, bom homem , escreve-o!” nasce de uma
Sem d ú vida, aquilo que da morte tem presen ça que se arrancou ao sinal. A escritura repete essa falta
a forma de expectatí va se insinua muito antes na vida social, com cada um de seus sinais gr áficos, rel íquias de uma caminha-
mas sempre tem que mascarar a sua obscenidade. Sua mensa - da através da linguagem. Ela soletra uma ausência que é o seu
gem se trai nos rostos que se vão desfazendo, mas só tê m preâ mbulo e o seu destino final. Ela procede por abandonos
-
mentiras para dizer o que anunciam {calem se, relatos de sucessivos dos lugares ocupados, e se articula numa exteriori-
envelhecimento contados por meus olhos, minhas rugas e dade que lhe escapa, tendo o seu destinatá rio vindo de outro
in ú meros pesos ), e todos evitam fazê-los falar ( não nos digam, lugar, visitante esperado mas nunca ouvido nos caminhos
rostos, aquilo que n ão queremos saber ). escritur ísticos tra çados na pá gina pelas viagens de um desejo.
O segredo imoral da morte é depositado nas grutas prote - Pr ática da perda da palavra, a escritura só tem sentido fora
gidas que lhe são reservadas pela psican álise ou peia religiã o. de si mesma , num lugar outro, o do leitor, que produz como a
Habita as imensas metáforas da astrologia , da necromancia ou sua pró pria necessidade indo ela mesma para esta presença que
da feitiçaria, l ínguas toleradas enquanto formam as regiões do não poderia ganhar. Vai em direçã o a uma palavra que n ão lhe
obscurantismo de que se “ distinguem ” as sociedades do pro - será jamais dada e que, por isso mesmo, constrói o movimento
gresso. A impossibilidade de dizer remonta entã o bem antes do de ser indefinidamente ligada a uma resposta solta, ab-soluta,
momento em que os esforços do locutor se anulam com ele. a do outro. Dessa perda se forma a escrita. É um gesto de
Acha-se inscrita em todos os procedimentos que encerram a moribundo, uma defecçã o do ter percorrendo o campo de um
morte ou a expulsam para fora das fronteiras da cidade, para saber, modesta aprendizagem do “ fazer sinal ”.
fora do tempo, do trabalho e da linguagem, para salvaguardar
um lugar.
Desta maneira, a morte que não se diz pode escrever se e -
encontrar uma linguagem, justamente quando, nesse trabalho
Mas quando vou produzir a imagem do moribundo, proce- da despesa, volta sempre novamente a necessidade de possuir
do da mesma forma. Participo da mentira que localiza a morte pela voz, de negar o limite do intranspon ível, que articula entre
alhures, no hospital ou nos momentos derradeiros: eu a meta - si presen ças diferentes, de esquecer num saber a fragilidade
-
morfoseio na imagem do outro; identificando a com o moribun - que é instaurada em cada lugar por sua relaçã o com outros.
do, transformo a no lugar onde nã o estou. Pela representação,
exorcizo a morte, colocada no vizinho, relegada num momento Dessa escritura “ literá ria”
do qual postulo que n ã o é o meu. Protejo o meu lugar. O O poder terapêutico que vai se construindo
moribundo de que falo é ob-sceno, se não sou eu. e seu duplo numa relação com a morte,
A inversã o se esboça no pró prio trabalho de escrever cujas -
distingue se o sistema
representa ções n ã o sã o mais que o seu efeito e/ou os seus <
“científico” e “ escrituristí co ” também ) que parte de uma
ruptura entre a vida e a morte, e que encontra a morte como
detritos . Eu me interrogo sobre o que fabrico, pois o "sentido ”
ali está. escondido no gesto, no ato de escrever. Por que o seu fracasso, sua queda ou amea ça. H á tr ês s éculos, foi
necessá rio pór essa divisão da vida e da morte, para que se

298 299
tornassem possíveis os discursos pienos da ambição científica, tomando aos poucos, da demografia até a biologia , uma forma
capazes de capitalizar o progresso sem sofrer a falta do outro. cient ífica cujo postulado universal é a luta contra o envelheci -
Mas a sua mutação em instituições de poder foi a ú nica que mento , considerado ora uma fatalidade ora um conjunto de
lhes permitiu constituir -se. fatores controláveis. Essa ci ê ncia é o corpo transformado em
Assim a ruptura que opôs à morte um trabalho conquista- pá gina em branco onde uma operaçã o escriturística pode
dor, e a vontade de ocupar por uma administração econ ó mica indefinidamente produzir o avanç o de um querer-fazer , um
e terap ê utica o imenso espa ço vazio dos campos do século progresso. Mas como o papel usado para escrever, este corpo-
suporte se gasta. 0 que se produz como uma gestã o de vida,
-
XVIII região da infelicidade, nova terra dos mortos vivos - - dom ínio ou escrita do corpo nã o cessa de falar da morte em
organizaram o saber numa rela ção com a misé ria. Uma institu
cionalização do saber m édico produziu a grande utopia de uma
- ação. 0 que escapa ou aparece de novo no discurso da ciê ncia
política terapêutica abrangendo, da escola até o hospital, todos confessa o adversá rio obsessivo que pretende exorcizar. E de
os meios de lutar contra o jugo da morte no espa ço social. Uma todos os lados, prolifera uma literatura em torno da instituição
transformaçã o geral em poder deu aparê ncia “ médica ” a uma pol ítica e terapê utica. Ela faz esse diabo aparecer de novo e
administra ção encarregada de curar e, mais ainda, de organizar relata a inquietante proximidade do exilado. De Nietzsche a
Bataille , de Sade a Lacan , essa " literatura ” que, desde o sé culo
a ordem em prevenção. Essa campanha sanitá ria devia preen - XVIII , mediante a instaura ção do discurso " cientí uco ” se viu
cher todas as brechas por onde o inimigo se insinuava. Inscre
via até a escola como um setor particular de uma “ polícia
- expulsa do seu campo “ pró prio” e constituída como outra,
médica ”, invadia as regi ões da vida privada para encher, por assinala na linguagem o retorno do eliminado. Hoje, é também
medidas sanitá rias, todas as vias secretas e íntimas que se a regi ão da ficção. Confessa do saber o que cala. É “diferente ”
abrem ao mal; institu ía a higiene como problema nacional em apenas porque, deixando de tratar objetos produzidos pela
uma luta contra a infelicidade biol ógica. Esse modelo médico operação escriturística , tem como sujeito essa opera ção; ela fala
de uma pol ítica se referia simultaneamente à ambi ção ocidental da pró pria escrita , trabalho do livro no campo da morte; é o
de um progresso indefinido do corpo ( numa economia do retorno sobre si mesmo do mito escritur ístico; é “ficção'*, no
desafio que encontrava a sua representa ção p ú blica no esporte ) sentido que , no espaço do livro , deixa aparecer de novo o outro
e à obsessã o de uma surda e permanente degenerescência ( que indiscreto cujo lugar o texto social queria tomar; põe em cena,
comprometia o capital biol ógico sobre o qual respousava a no pr ó prio lugar de sua elimina çã o, o exclu ído insepará vel do
expansã o colonizadora do pa ís). qual a sexualidade e a morte restabelecem sucessivamente a
interroga ção. Respondendo à ciê ncia no modo de uma zomba-
A escrita , possibilidade de compor um espaço conforme a
um querer, se articulava com o corpo como em cima de uma
ria ainda habitada pelo fantástico que criou ou no modo de
pá gina m ó vel, opaca, fugidia. Dessa articulação o livro se
uma poé tica da alteraçã o e do despojamento, o espaç o escritu -
tornava a experiê ncia em laborató rio, no campo de um espaço
-
r ístico se erotiza. Na forma do mito do progresso o Livro -
se desenvolve o jogo perigoso da reconstru çã o. O pró prio
econ ó mico, demogr á fico ou pedag ógico. O livro é, no sentido corpo, enfim , aí se escreve , mas como êxtase nascido da ferida
cient ífico do termo, uma “ ficção " do corpo escrev í vel: é um
“ cen á rio” constru ído pela prospectiva que visa fazer do corpo
do outro, como “despesa ” ou gasto de um prazer indissociável
aquilo que uma sociedade pode escrever. Doravante, só se
do efé mero, como o inapreensível ponto de fuga que conjuga
o "excesso” com o perec í vel. Numa problem á tica escritur ística,
escreve sobre o corpo. O corpo deve transformar-se em escri -
tura . Este corpo-livro, rela ção da vida com o que se escreve, foi
ligada à capacidade de n ão perder nada do tempo que passa,
-
de computá lo e acumul á -lo, de rentabilizar a posse para fazer

300 301
do capital o substituto da imortalidade, o corpo reaparece como a sua itinerâ ncia. Desse ponto de vista , o escritor é també m o
o instante , simultaneidade da vida e da morte: os dois num moribundo que tenta falar . Mas, na morte que seus passos
mesmo lugar.
b
inscrevem em uma p á gina negra ( e n ã o em branco), ele sabe,
pode dizer o desejo que espera do outro o excesso maravilhoso
A morte por é m não se nomeia. Es- e efé mero de sobreviver numa atenção que ele altera.
O perecível creve-se no discurso da vida , sem
que seja possível atribuir-lhe um
lugar particular. A biologia vai en -
contrar “ a morte imposta a partir de dentro". François Jacob:
‘‘Com a reprodu ção pela sexualidade, é necessá rio que desapa-
reçam os indiv íduos ” . A morte é condi ção de possibilidade da
7

evolu ção. Que os indiv íduos percam o seu lugar, eis a lei da
espé cie. A transmissão do capital e o seu progresso são garan
tidos por um testamento, sempre assinado por um morto.
-
Alé m dos sinais que , de todos os lados, trazem de volta à
escritura a sua relação com a sexualidade e a morte, pode se -
perguntar se o movimento histórico que desloca as figuras
recalcadas - “ No tempo de Freud, a sexualidade e o moralismo;
hoje, uma viol ê ncia tecnol ó gica ilimitada e uma morte absur-
O

da ” - nã o é sobretudo a revela çã o progressiva do modelo que


articulava as prá ticas sociais e que passa para a representação
à medida que vai diminuindo a sua eficá cia. A decad ê ncia de
uma civilização construída sobre o alicerce do poder da escri -
tura contra a morte se traduziria pela possibilidade de escrever
o que a organizava. Somente o fim de uma época permite
enunciar o que a fez viver, como se lhe fosse preciso morrer
para tornar-se um livro.
Entã o, escrever ( este livro ) é ter que caminhar através do
terreno inimigo, na pr ó pria região da perda, fora do domínio
protegido delimitado pela localiza çã o da morte noutro lugar .
É produzir frases com o l éxico do perecível , na proximidade e
até mesmo no espaço da morte. É praticar a rela çã o entre gozar
e manipular , nesse interregno onde uma perda ( um lapso) da
produ çã o de bens cria a possibilidade de uma expectativa ( uma
cren ça ) sem apropriaçã o mas já agradecida. Desde Mallarm é, a
experiê ncia escriturística se desdobra segundo o modo da
rela çã o entre o ato de avan çar e o solo mortífero onde se traça

302 303

i
I
I

/
Indeterminadas
1/

* A anarquia do claro-escuro do cotidiano".

LUKÁCS

A teoria preconiza uma epistemologia pluralista feita de


uma “ multiplicidade de pontos de vista, cada um dos quais goza
sensivelmente do mesmo poder de generalidade que os outros’’.
Arte da “ circula ção ao longo das estradas e das fibras", arte do
transporte e da intersecção, o progresso seria um “entrecruza -
mento”. Relativo à compleiçã o, levaria a “ uma filosofia da
comunica ção sem subst â ncia , isto é, sem fixidez nem referê n -
cia ”.'
Mas a técnica racional n ã o l í quida com tanta facilidade o
dogmatismo. Ela se defende das interferê ncias que criam opa -
cidade e ambiguidade nas planifica ções, ou reduzidas ao n ível
ínfimo. Tem seu jogo pr ó prio, o da legibilidade e da distinção
das funções, na pá gina onde pode escrevê-las lado a lado, uma

307
ap ós a outra, de maneira a poder decalcar este quadro no ch ão portanto classificável , tratase de uma subversã o comum e
ou na fachada , em cidades ou em m áquinas. -
silenciosa, quase de um rebanho a nossa. Dela vou destacar
Legibilidade das rela çõ es funcionais entre elementos, e apenas dois sintomas: “ ubiquidade ” do lugar , fracassos no
reproduçã o do modelo em ampliações e relevos, tais os dois tempo. Significará sugerir que os espa ços sociais, estratifica -
princí pios operató rios da técnica. Certamente, entraram no dos, são irredutíveis à sua superf í cie controlá vel e construtível
caminho de uma sofistica çã o indefinida que atende à diversifi- e que avatares reintroduzem o impensado de um circunstancial
ca çã o da procura, ela mesma aliás compreendida no sistema , no tempo calculado. Ilegibilidades de espessuras no mesmo
mapeada, e analiticamente repartida num espaço que tem como lugar, de ast ú cias no agir e de acidentes da história. Dessas
essê ncia ( inclusive no computador )2 ser um artefato legível, um evoca ções, a escritura se traça, ir ónica e passageira, em graffiti,
objeto oferecido de um extremo ao outro aos percursos de um como se a bicicleta pintada numa parede, brasão de um trâ nsito
6
olho im óvel . Estranho qu í asma: a teoria vai para o indetermi- comum, se destacasse para percursos indeterminados.
nado . e a tecnologia para a distin ção funcionalista em que ela
transforma tudo e ela mesma se transforma també m. Como se
A diferen ça que define todo
Lugares estratificados lugar n ão é da ordem de
uma se comprometesse, i ú cida, pelos trilhos sinuosos do alea-
O

tório e da metá fora , enquanto a outra se obstinaria em supor uma justaposiçã o, mas tem
como “ natural ” a lei utilitarista e funcionalista do seu pró prio
a forma de estratos imbrica -
mecanismo. O que ocorre abaixo da tecnologia e lhe perturba dos. Sã o in ú meros os elementos exibidos sobre a mesma
o jogo nos interessa aqui. E seu limite, percebido há muito -
superf ície; oferecem se à an á lise; formam uma superf ície tratá-
tempo, mas ao qual se deve dar outro alcance que não o de vel. Toda “ renova ção ” urbana dá preferê ncia à tá bula rasa em
cima da qual vai escrever em cimento a composi ção feita no
-
uma no man's land. Pois, trata se de pr á ticas efetivas. Os
conceptores conhecem muito hem essa mobilidade a que d ão
laborató rio à base de “ necessidades ” distintas às quais quer dar
respostas funcionais. A necessidade , “ substâ ncia ” primeira
o nome de “ resistê ncias” e que perturba os cá lculos funciona
listas ( forma elitista de uma estrutura burocr á tica ). Não podem
- dessa composiçã o, o sistema a produz també m ao separ á la. -
Essa unidade é pr ó pria como uma cifra. Mais ainda , a insatis-
,
deixar de perceber o car á ter fictício instilado numa ordem por
sua relaçã o à realidade coddiana.' Mas não devem confessá-lo. façã o que define cada necessidade exige e justifica prev íamente
Constitui crime de lesa-majestade ironizar a este respeito nos a construçã o que a combina com outras. Lógica da produção:
ó rgãos oficiais, e o culpado ser á por eles expulso. N ão se toca , desde o século XVIII , gera o seu espaç o, discursivo e pr á tico,
objeto art ístico. Deixemos portanto esta racionalidade funcio- a partir de pontos de concentra çã o - o escritório, a f á brica , a
cidade. Recusa a pertin ê ncia dos lugares que nã o cria.
nalista à proliferação do seu bem -d í zer, euf é mia5 sempre rema -
nescente no discurso da administra çã o e do poder , e voltemos Todavia , sob a escritura fabricadora e universal da tecno-
antes ao ru ído das prá ticas cotidianas. logia subsistem lugares opacos e teimosos. As revoluções
Elas n ã o formam bolsões na sociedade econó mica. Nada a histó ricas, as muta ções econ ó micas, os caldeamentos demográ-
ver com essas marginalidades integradas logo pela organização ficos a í se estratificaram e a í permanecem, ocultos nos costu -
-
t écnica para lhes dar significado e torn á las objetos de troca. mes, nos ritos e prá ticas espaciais. Os discursos legíveis que
antigamente os articulavam desapareceram, ou deixaram na
Por elas. ao contrá rio, uma diferen ça incodificá vel se insinua
na relação feliz que o sistema gostaria de ter com as operações linguagem apenas alguns fragmentos. Esse lugar , na superf ície,
cuja gestão pretende assegurar . Longe de ser uma revolta local . parece uma colagem. De fato, é uma ubiquidade na espessura.

308 309
Um empilhamento de camadas heterogéneas. Cada uma, seme - Outra figura do transporte das
planificações para aquilo que não
lhante a uma página de livro, estragada, remete a um modo O tempo acidentado
diferente de unidade territorial, de repartição sócio-econômica, determinam: o imprevisto. O tem -
de conflitos pol í ticos e de simboliza çâo identificatória. po que passa, separa ou liga ( e
O conjunto, feito de peças n ã o contempor â neas e ainda que sem d ú vida jamais foi pensado), n ão é o tempo programa-
ligadas a totalidades em ru ínas, é gerido por equil íbrios sutis do. Seria um truísmo se n ã o fosse posto entre parê nteses pelas
e compensat órios que garantem silenciosamente complemen-
programações prospectivas, mesmo quando constroem hipóte-
taridades. Movimentos infinitesimais, atividades multiformes, ses m últiplas. O tempo acidentado aparece somente como a
noite que constitui um “ acidente ” e lacuna na produ ção. É uma
homólogas à “sopa de elétrons, de pró tons e fótons... todos
seres de propriedades mal definidas em perpétua interaçã o ” falha do sistema, e seu adversá rio diabólico: isso a historiogra-
fia se encarrega de exorcizar substituindo essas incongruidades
.
graças à qual segundo René Thom , a teoria f ísica representa
do outro pela transparente organicidade de uma inteligibilida -
o universo. Esses movimentos d ão a ilusão, tanto no bairro
de científica (correlações, “causas” e efeitos, continuidades em
como na cidade , do “ im óvel ”. Falsa inércia. Esse trabalho e seus
sé rie etc.). O que a prospectiva não faz a historiografia garante,
jogos s ó se tornaram invis íveis de onde, na distâ ncia de uma
obedecendo à mesma exigê ncia ( fundamental) de cobrir pela
classe que se "distinguiu ” do resto, a observa ção só capta a produ ção de uma “ razã o ” (fict ícia ) a obscenidade do indeter-
relaçã o entre o que ela quer produzir e o que lhe resiste. A
minado.
cidade, o bairro, o imóvel não são aliás os ú nicos a fazerem
funcionar juntos os fragmentos de estratos heterogé neos. A Esses tempos constru ídos pelo discurso se apresentam na
menor frase da linguagem comum “ anda ” da mesma maneira. realidade quebrados e aos solavancos. Submetido a “ servid ões"
Sua unidade sem â ntica opera a partir de equilíbrios compen- e a depend ências,8 o tempo da teoria é de fato um tempo ligado
satórios tão sutis, aos quais uma an álise sintá tica ou léxica ao improvável, aos fracassos, aos desvios, portanto deslocado
superimpõe um quadro superficial , o de uma “ elite ” que toma por seu outro. É o equivalente do que circula na linguagem
como “ metaf órica temporal ”. E, por um estranho fenômeno,
9
seus modelos pela realidade. Melhor vale apelar ao modelo,
agora on írico ( mas teó rico porque articula a prática ), evocado essa relação do controlá vel com os fracassos constitui precisa-
por Freud a propósito da cidade de Roma, cujas épocas mente a simbolizaçâo, uniã o daquilo que coere sem ser coeren-
sobreviveriam todas no mesmo lugar, intactas e animando-se te. daquilo que faz conexão sem ser pensá vel.
mutuamente.7 A falha ou o fracasso da razão é precisamente o ponto cego
O lugar é o palimpsesto. A aná lise erudita só conhece o seu que a faz ter acesso a uma outra dimensão, a de um pensamen-
texto final; e ainda é para ela apenas o efeito de suas decisões to , que se articula com o diferente como sua inapreensível
epistemol ógicas, de seus crité rios e de seus objetivos. Nã o é de necessidade. A simbólica é indissoci á vel do fracasso. As pr á ticas
se espantar que as opera ções concebidas em função dessa cotidianas, fundadas na rela ção com o ocasional, isto é , no
reconstitui ção tenham um car á ter “ fict ício” e devam menos o tempo acidentado, seriam portanto dispersas ao longo da
seu sucesso ( provisório?) a sua perspicá cia que a seu poder de duração, na situação de atos de pensamento. Gestos permanen-
esmagar a compleição desses jogos entre forças e tempos tes do pensamento.
confusos. -
Assim , eliminar o imprevisto ou expulsá lo do cálculo como
acidente ilegítimo e perturbador da racionalidade, é interdizer
a possibilidade de uma prá tica viva e “ m í tica ” da cidade. Seria

310 311
I

deixar a seus habitantes apenas os pedaços de uma programa - I

çã o feita pelo poder do outro e alterada pelo acontecimento. O


tempo acidentado é o que se narra no discurso efetivo da
cidade: f á bula indeterminada, melhor articulada em cima das
prá ticas metaf ó ricas e dos lugares estratificados que o impé rio
da evid ê ncia na tecnocracia funcionalista.

NOTAS

312
HISTÓRIA DE UMA PESQUISA
L A obra se divide em dois tomos e tr ês autores:Ulnvention du
.
quotidien 1. Michet de Certeau, Arts de faire; 2, Luce Ciard e Pierre
. -
Mayol, Habiter, cuisiner Paris UCE, 10 18, 1980.
2. Diversos fragmentos dos dois tomos apareceram em Traverses,
entre 1975 e 1979, e em Esprit, em 1978 e 1979. O conjunto da
pesquisa é apresentado por Michel de Certeau e Luce Giard em dois
artigos simultâ neos: “ Mani è res de faire et pratiques quot
ídiennes* e
.
“ Pratiques culinaires: une mé moire* em: Le Progrès scientifí que
- -
( revista da DGRST), n 2 193, março abril 1978, p. 45 56.
3. Emmanuel Le Roy Ladurie, *Le diable archiviste*, resenha
- -
publicada em Le Monde , 12 11 1971, retomado em sua coletâ nea Le
Territoire de Vhistorien, Paris, Callimard , Bibliothèque des h ístoires,
-
1973, p. 404 407. Compare-se com outra an á lise, radicalmente dife-
rente, de Philippe Boutry, “ De 1’histoire des mentalités à Phistoire
des croyances. La Possession de Loudun (1970) em: Le Débat, n 2 49,
.
mar ço-abril 1988, p 85-96. Quanto ao lugar de Certeau entre os
historiadores, ver Dominique Julia, “ Une histoire en artes*, em Luce
Giard et alii, Le Voyage mystique. Michel de Certeau, Paris , Cerf e
-
RSR, 1988, p. 103 123.
4. Quanto à sua relaçã o com Freud e Lacan , cf. Michel de
Certeau, Histoire et psychanalyse entre Science et fiction , Paris,
Gallimard, Folio, 1987, cap. V a VIII.
5. Artigos que apareceram em Etudes e Esprit, entre junho e
outubro de 1968, reproduzidos em La Prise de parole, Paris, Desclée
De Brouwer, 1968 ( o té rmino da impressã o traz a data de 22 de
outubro ).
6. La Prise de parole, n. 71.
7. " La rupture instauratrice ou le chrístianisme dans la culture
contemporaine ” (1971), reproduzido em Michel de Certeau , La
-
Faiblesse de croire, Paris, Seuil, Esprit, 1987, p. 183 226.
8. La Prise de parole, p. 10.
9. Ibidem , p. 22.
10. Ibidem,, p. 133.

315
-
11 . Michel de Certeau , La Culture ao pluriel Paris, UGE, 10 18, Sobre a relação com Foucault, cf. Histoire et psychanalyse entre
- -
1974: 24 ed . , Paris , Christian Bourgois, 1980. Os textos de Arc et Se- Science et fiction , Cap. I a ( II .
nans constituem os cap . 9 e 10. 24. Giltes-Gaston Granger, Bssai cTune phiiosophie du style, 21
12. La Culture au pluriel , 2* ed ., p. 247-248 . ed ., Paris, Odile Jacob 1988, e Gerald Holton, Thematic Origins of
13. Esta fórmula serve de íttulo para um belo estudo redigido
Scientifí c Thought Kepler to Einstein, Cambridge ( Mass.), Harvard
com Dominíque Julia e Jacques Revel, em 1970, e reproduzido em University Press, 1973 (obra parcialmente traduzida em Llmagina•
La Culture au pluriel cap. 3. tion scientifí que, Paris, Gallimard 1981), cada um à sua maneira,
procuraram definir essas características de um estilo de pensamento ,
14 . Ibidem , p . 241-243. a respeito do qual diz Certeau: “o estilo, essa maneira de andar , gesto
15 . Ibidem , p . 249 . não textual , organiza o texto de um pensamento ” (p. 78).
16 . A Dé l égation G é n érale à la Recherche Sci çntifique et Tech
*
25. La Culture au pluriel 2a ed ., p , 244*245.
nique , diretamente vinculada ao Primeiro-Ministro, é então encarre-
26. Michel de Certeau, La Fable mystique, tomo 1.2* ed ., Paris,
gada de monitorar e gerir a pesquisa pú blica por contrato.
Gallimard, Tel 1987, p. 282 e todo o Cap 7 .*

17. O grupo se constituiu de economistas (Bemard Guibert 27. Este texto, intitulado “ Acteurs en quête d’une pièce (suite) *,
Claude Mé nard , Àlain Weil ) com Certeau e comigo. O trabalho durou com data de 14/07/ 1974, termina por uma Bibliografia que se deve
pouco menos de um ano, dividido entre o fasc ínio e a exasperação
ler no verão, articulada em duas partes, uma de “obras gerais sobre
diante das publicações especializadas em prospectiva e "futurologia ”. a cultura * ( Pierre Bourdieu, Cérard Athabe, Pierre Legendre, Richard
18 . Pratiques culturelles des Fran çais , Paris, Secretaria de Hoggart et alii), a outra sobre “o espaço urbano e sua cultura* ( o n2
Estado da Cultura, Serviço de Estudos e Pesquisas 1974, 210 mesmo especial dosAnnales ESC de julho de 1970 , e Castells, CL Soucy, Ch.
serviç o acaba de dar, numa perspectiva renovada , sequência a esta Alexander e S. Chermayeff, R Williams et alii) ,
enquê te: Les Pratiques culturelles des Français, 1973-1989 , Paris , 28. Mais tarde, um estudante brasileiro que frequentara o
La Découverte et la Documentation Fran ça íse 1990 . Seminário escreveu numa brochura, publicação interna de Paris VII,
19. Cf. Michel de Certeau, LEcriture de Vhistoire, 3a ed., Paris, um maravilhoso retrato do "mestre que não queria ter discípulos*.
Gallimard, Bibliothèque des Histoires 1984, cap. I , p . 33-36 (a propó- 29. Sobre a maneira de administrar as coisas, cf . Michel de
sito da sociologia religiosa de Gabriel Le Bras), cap. 2, p. 84-92 (sobre Certeau, “Q est-ce qu'un séminaire?’, em: Esprit, novembro-dezem-
o recurso ao computador e o que François Furet diz a respeito da ^
bro de 1978, p. 176-181.
história quantitativa ) .
30. Cf Paul Rabinow, " Um prince de 1’exiP , e Richard Terdiman ,
20 . Michel Foucault Surveiller et punir (Vigiar e Punir), Paris, "Une mé moire d ^éveilleur * em: Luce Giard ( Ed .) , Michel de Certeau ,
Callimard, Bibliothèque des Histoires 1975: acabado de imprimir em Paris, Centro Georges Pompidou , Cahiers pour un temps 1987 , p ,
fevereiro . 3943, e 91-96.
21 , Michel le Perro t, ‘ Mille maniè res de braconner", em LeDé bat,
'

31. Espero reunir em um pequeno volume os fragmentos dessas


nfi 49. março-abril de 1988 , p. 118 ,
Arts de diret com os outros trabalhos publicados juntos após 1980
22 . Cf La Culture au pluriel conclusão, E "Actions culturelles sobre a cultura ordinária.
et strat é gie poli tique * , em La Revue nouvelle ( Bruxelas ), abril de
32. L’Invention du quotidien, t 2, p. 235-271 sobre a cozinha,
1974 , p 351 -360 Michel de Certeau apreciava este artigo ao qual
, .
e p. 273-295 sobre o bairro.
remete em de faire ( Introdu çã o, nota 17, cap. II , nota 5 ) .
33. Ele trabalha assim, na Itália, todo ano de 1974 a 1978; em
23 O Cap . IV é consagrado metade a cada um deles. Sobre as 1975, na Espanha, na Inglaterra e na Dinamarca; em 1977 e 1978,
men ções respectivas de um e de outro. cf . o índice no fina! do volume. na Su íça. Fora da Europa, acha-se em Quebeque em 1974 e 1975, no

316 317
Brasil em 1974, em Israel em 1976, nos EUA em 1977 (em Vermont ) 5. Deste ponto de vista também, os trabalhos de Henr í Lefebvre
e também em 1976 e 1978 (na Calif ó rnia ). Um lugar especial cabe sobre a vida cotidiana constituem uma fonte fundamental .
aos contatos regulares com a Bélgica para os quais Marie Beaumont 6. Sobre a arte, da Enciclopédia até Durkheim, cf. cap. V, p.
e Georges Thill, em Bruxelas e Namur, foram a correia de transmissã o; 102-107.
a esses dois em particular, â inesquecível generosidade de Maria, ao 7. Para esta literatura , cf. os livrinhos assinalados por Le Livre
ambiente ativo e inventivo que os cercava , é que remete intencional - dons la vie quotidienne, Paris, Bibliothèque nationale 1975; e por
mente a passagem sobre a ampliaçã o da “sucata ”, do mundo operário Geneviève Bollè me, La Bible bleue. Anthologie d *une littérature
até à institui ção científica , onde se gravam “sucessos artísticos" e “ os
graffiti de d ívidas de honra" ( p. 49).
-
*populaire ”, Paris, Flammar í on 1975, p. 141 379.
.
8 Essas duas monografias foram redigidas uma por Pierre Mayol,
34. François Hartog, aL’écriture du voyage” , em: Luce a outra por Luce Giard (a partir de entrevistas colhidas por Marie
Giard ( ed. ) , Michel de Certeau , p. 123- 132 . Ferrier ).
35. Fran çois Choay, "Tours et traverses du quotidien ”, ibidem , 9. De Erving Goffman, cf. sobretudo La Mise en scene de la vie
p. 85-90. quotidienne, Paris, Minuit 1973; Les Rites d’interaction, ibidem
36. Michelle Perrot, op. cit , p. 117. 1974; Frame Analysis, Nova Iorque, Harper & Row 1974. De Pierre
37. Ànne-Marie Chartier e Jean H ébrard, “ L'Invention du quoti - Bourdieu , cf. Esquisse d’une théorie de la pratique, Genebra , Droz
- 1972; "Les stratégies matrimoniales", em : Annales ESC, t 27, 1972,
dien. Une lecture des usages ”, em: Le Débat, n * 49, março abril de
p. 1105-1127; "Le langage autorisé”, em Actes de la recherche en
1988, p. 97, 99, 100.
38. Sobre Michel de Certeau, cf. as tr ês coletâ neas que lhe foram
-
Sciences soáales, n. 5-6, novembro de 1975, p. 184 190; “ Les sens
pratique ”, ibidem, nfl 1, fevereiro de 1976, p. 43-86. De Mareei Mauss,
dedicadas pelo Centro Georges Pompidou (acima nota 30), em parte cf. sobretudo "Techniques du corp$*, em sua coletâ nea Sociologie et
por um n ú mero do Débat (acima nota 37) e sob o título de Voyage
mystique (acima nota 3). Nesta ú ltima coletânea se encontrará a sua
anthropologie, Paris, PUF 1950. De Mareei Detienne e Jean Pierre-
Vernant, Les Ruses de Tintelligence. La métis des Grecs, Paris,
“ Bibliografia completa " que estabeleci (op. cit , p. 191-243).
Flammarion 1974. De Jeremy Boissevain, Friends of Friends. Net
works. Manipulators and Coatitions, Oxford, Blackwell 1974. De
Edward O. Laumann, Bonds ofPluralism. The Form and Substance
INTRODUÇÃO GERAL of Vrban Social Networks, Nova Iorque, John Wiley 1973.
10. Joshua A. Fishman, The Sociology of Language , Eowley
1. Cf. Michel de Certeau, La Prise de parole, Paris, Desclée De ( Mass.), Newbury 1972. Ver també m David Sudnow (ed.), Studies in
Brouwer 1968; La Possession de Loudun, 34 ed., Paris, Callimard , Social í nteraction, Nova Iorque, Free Press 1972; William, Sociolin -
Archives 1990; LAbsentde Vhistoire , Paris, Mame 1973; La Culture guistique , Paris, Minuit 1976 etc.
au pluriel, 2 - ed., Paris, Christian Bourgois 1980; Une politique de
la langue (com Dominique Julia e Jacques Revel ), Paris, Callimard, 11. Oswald Ducrot, Dire et ne pas dire, Paris, Hermann 1972;
Biblio-thèque des histoires 1975, etc. David K. Lewis, Conventioru a Philosophical Study, Cambridge
( Mass.), Harvard University Press 1974, como també m, ibidem 1973.
2 . Do grego poiein: "criar, inventar, gerar ".
12. Georg H. von Wright, Norm andAction, Londres, Routledge
3. Cf . Emile Benveniste, Problè mes de linguistique générale, t & Kegan Paul 1963; Essay in Deontic, Logic and the General Theory
-
1. Paris. Callimard 1966, p. 251 266. of Action, Amsterd á , Holanda do Norte 1968; Explanation and
4. Michel Foucault, Surveiller et punir ( Vigiar e punir ), Paris, Understanding, Ithaca (Nova Iorque), Cornell University Press 1971.
Callimard 1975 ( trad. VOZES ). Cf . també m A.C. Danto fAnalytical Philosophy of Action , Cambridge,

318 319
Cambridge University Press 1973; Richard J. Bernstein, Praxis and
.
24. R.K Khawam ( ed .), Le Livre des ruses. La stratégie politique
des Á rabes, Paris, Phébus 1976.
Action, Londres, Duckworth 1972; Paul Ricoeur e Dorian Tiffeneau
(ed .), La Sémantique de FAction, Paris, CNRS 1977. 25. Ver Jean Baudrillard, Le Systè me des objets; Paris, Gallimard
1968; La Société de consommation, Paris, Denoê l 1970; Pour une
13. A. N. Prior, Pastf Present and Future: a Study of aTense
Logic ", Oxford. Oxford University Press 1967; e Papers on Tense and
.
critique de Téconomie politique du signe Paris, Gallimard 1972.
.
Time, ibidem 1968. N Rescher e A. Urquhart Temporal Logic, . -
26 Guy Debord, La Société du spectacle, Paris, Buchet Chastel
Oxford, Oxford University Press 1975. 1967.
14. Alan R. White , A/od<?/ Thinking , Ithaca ( Nova Iorque), Comell 27. Roland Barthes, Le Plaisir du texte , Paris, Seuil 1973, p. 58.
University Press 1975; G.E. Hughes e MJ. Cre$swell, 4tt Introduction 28. Cf. Gé rard Mordillat e Nicolas Philibert, Ces Patrons éclairés
to Modal Logic, Oxford, Oxford University Press 1973; I.R. Zeeman, qui craignent la lumière, Paris, Albatros 1979.
Modal Logic, ibidem , 1975; S. Haacker, Deviant Logic, Cambridge, 29. Cf. H. Sacks, EA Schlegloff etc., citados acima.
Cambridge University Press 1976; H. Parret (ed.), Discussing Lan- 30. Cf. abaixo os Cap. VII a IX.
.
guage with Chomsky, Halliday etc , Haia, Mouton 1975.
31. A essas práticas consagramos monografias onde se encontra -
15. Jacques Sojcher, La Démarche poétique, Paris, UGE 10 18, - rá a Bibliografia proliferante e disseminada do tema. Ver o volume 2:
1976, p. 145. Habiter, cuisiner, por Luce Giard e Pierre Mayol.
16. Ver Fernand Deligny, Les Vagabonds effí caces, Paris, Mas- 32. Ver por exemplo À. Lipietz, "Structuration de fespace,
pero 1970; Nous et Tinnocent, ibidem 1977, etc. problème foncier et am é nagement du territoire ”, em: Environment
17. Michel de Certeau , La Culture au piuriel: "Des espaces et and Planning, A, 1975, vol, 7, p. 415425, e "À pproches théoriques
-
des pratiques", p. 233 251; " Actions culturelles et stratégie politique”, des transforma tio ns de Tespace français", em: Espaces et Sociétés,
em La Revue nouvelle, abril de 1974, p. 351 360. - n* 16, 1975, p. 3-14.
18. A análise dos princí pios da divisão permite ao mesmo tempo 33. A an á lise da série Travaux et recherches de prospective,
.
nuan çar e precisar essa cr ítica Ver a obra coletiva Pour une histoire Paris, Documentation fran çaise, em particular os volumes 14, 59, 65
de ta statistique, L 1, Paris 1NSER 1978, em particular Àlain Desro- e 66 e de modo especial os estudos de Yves Barel e Jacques Durand
siè res, “ Eléments pour rhistoí re des nomendatures socioprofession- serviram de base para esta pesquisa sobre a prospectiva.
neiles", p. 155-231. 34. Witold Combrowícz, Cosmos, Paris, Gallimard, Folio 1971,
19. Os trabalhos de Pierre Bourdieu, de Mareei Detienne e p. 165-168.
Jean-Pierre Vemant permitem precisar a noçáo de "tática*, mas para
isso també m contribuem as pesquisas socioling úísticas de H . Garfin
kel, H. Sacks etc. (ver acima as notas 9 e 10).
-
CAPÍTULO I
-
20. Mareei Detienne e Jean Pierre Vemant Les ruses de fintei
tigence.
-
1. Robert Musil , L 'Homme sans qualilés, trad. Philippe Jacottet
21. Cf. S. Toulmin, The Uses ofArgument, Cambridge, Cambrid - Paris, Gallimard, Folio 1978, L I , p. 21.
-
ge University Press 1958; Ch . Perelman e L. Olbrechts Tyteca, Traité 2. Robert Klein, La Forme et fintelligible, Paris, Gallimard 1970,
de Vargumentation, Bruxelas, Universidade livre 1970; Jean Dubois p. 436444. Ver também Enrico Castelli-Gattinara, "Quelques consi -
et aliif Rhétorique gé nérale, Paris, Larousse 1970 etc. d é rations sur le Niemand et.. Persone*, em: Folie et dé raison à la
22. Aristóteles, Retórica II, 24 , 1402a. Ver W.K.C. Guthrie, The Renaissance, Bruxelles, Université Libre 1976, p. 109-118.
Sophists, Cambridge, Cambridge University Press 1971, p. 178 179. -
23. Sun Tzu , L'Art de la guerret Paris, Flammarion 1972.

321
320
3. Sigmund Freud, Gesammelte Werke, Londres, t XIV, p. . .
19. Philosophical investigations^ § 122, p 49 Cf. Jacques
-
431432. Neste texto de Mal estar na civilização, § 1, Freud remete
ao Futuro de uma ilusào que, com efeito, no § 1 toma como ponto
j
1
Bouveresse , La Parole malheureuse, Paris, Minuit 1971: “ Langage
.
ordinaire et philosophie ”, p 299-348.
de partida a oposição entre uma “ minoria ” e a “ maioria ” (as “ massas ”) \ 20. Sobre este aspecto da história, ver Michel de Certeau ,
que motiva a sua análise. L Êcriture de Vhistoire„ p. 63-122, e “ Ecriture et histoí re ”, em
'
4. O Futuro de uma ilusão, trad. francesa Marie Bonaparte, Politique aujourdhui, novembro-dezembro de 1975, p. 65-77. Deixo
Paris, PUF, 1971, § 7, p. 53. de lado os debates filosóficos a propósito de Marx e Wittgenstein (este
5. Gesammelte Werke, t XIV, p. 431. i ú ltimo , aliás, exprimiu o desejo de trabalhar na URSS), Cf. os estudos
6. Ver Michel de Certeau, U Êcriture de Vhistoire, 3* ed., Paris,
I -
de F. Rossi Land (“ Per un uso marxíano di Wittgenstein”), Tony
Callimard, Bibliothèque des histoires 1984, p. 7-8. Manser ("The End of Philosophy: Marx and Wittgenstein ”, University
of Southampton 1973) ou Ted Benton ( “ Winch, Wittgenstein and
7. Gesammelte Werke, t XIV, p. 431. Marxism ”, em: Radical Philosophy, n* 13, 1976, p . 1-6). Pode-se
8. Freud, carta a Lou Andréas Salomé, 28 de julho de 1929, em: reconhecer em Wittgenstein um materialismo histó rico que seria
Lou Andréas Salomé, Correspondance avec Sigmund Freud , Paris, típico deste "burguês”, mas nenhuma “ ciência ” ( no sentido marxista)
Callimard 1970, p. 225. da histó ria.
9. Ibidem. 21. Cf. Ludwig Wittgenstein , Leçons et conversations, Paris,
10. Gesammelte Werke, t XIV, p. 506. - .
Callimard 1971, p. 154 155. Cf também a palavra, mencionada por
11. Cf.UÊcriture de Vhistoire , “ La fiction de 1'histoire. L'écriture Norman Malcolm, sobre o homem que, para sair de um quarto onde
de Molse et le monothéisme” , p. 312-358. ele acha que está fechado, se poria “ a caminhar ao longo das paredes ”
(em Ludwig Wittgenstein, Le Cahier bleu et le Cahier brun, Paris,
12. Ver a aná lise do perito à qual é consagrado o volume coletivo
Abus de savoir, Paris, Descl ée De Brouwer 1977. Callimard 1965, p. 369).
13. Veja abaixo a IV Parte: O uso da língua 22. Philosophical Investigations, § 109: a tradu ção inglesa diz:
"looking into the working o f o u r language ”, p. 47.
14. Cf. o volume 2: Habiter; cuisiner, por Luce Ciard e Pierre
Mayol. 23. Cit por Norman Malcolm , em Ludwig Wittgenstein, Le
Cahier bleu et le Cahier brun, p. 367 368. *

15. Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations, Oxford,


24. Esta palavra, de origem vienense, designa " todos os tipos
Blackwell 1976, § 116, p. 48.
possíveis de pensamento, de cará ter e linguagem ” (cf. A. Janick e S.
-
16. Ludwig Wittgenstein, Tractatus togico phitosophicus, Lon- Toulmin , op. cit , p. 198) ou , de modo mais geral, as estrutura ções
dres Routledge & Kegan Paul, 1961, § 6.53, p. 150*151.
, factuais ( históricas) de nossa existê ncia .
.
17. Philosophical Investigations § 494, p. 138. 25. Ver por exemplo J.L. Austin, Philosophical Papers, 2 nd ed .
18. Cf. a carta de Ficker sobre o Tractatus: “ Meu livro traça os Oxford University Press 1969, p. 181 182. *

limites da esfera da ética de certo modo a partir de dentro, e eu tenho 26. Acerca desta tradiçã o inglesa, cf. GJ. Warnock, English
a convicçã o que esta é a ú nica maneira rigorosa de tra çá-los” (cit em Philosophy since 1900, 2 nd ed., Oxford , Oxford University Press,
Allan Janick e Stephen Toulmin, Wittgenstein, Vienne et la moder- 1969, p. 19 20, 100 102 etc.; e sobretudo Charles E. Caton (ed.),
nité. Paris, PUF 1978, p. 165). Deste modo, diz Wittgenstein , o - *

Philosophy and Ordinary Language; Urbans ( III.), 1963, e V.C.


Tractatus compreende duas partes, uma , o livro escrito, e a outra, a Chapei ( Ed , ), Ordinary Language , Englewood Cliffs ( NJ.), Prentice
essencial, a que nã o está escrita nem se pode escrever, consagrada à Hall 1964.
É tica.

322 323
27. Ver o texto de Adolf Loos traduzido em: Traverses, n ® 7, 1976, u
Âctions culturelles et siratégie politique ” , em La Revue nouvelle,
-
p. 15 20.
abril de 1974. p. 351-360 etc.
28. R. Musil, L *Horhme sans qualités.
29. A palavra “ execrar ” caracteriza a sua alegria a um estilo de
\
.
-
6. Mareei Detienne et Jean Pierre Vernant, Les Ruses de Vintel
ligence La métis des Grecs; Paris, Fiammarion 1974.
pensamento. Ver por exemplo Leçons et conversations, p. 63 64; e -
Jacques Bouveresse, “ Les derniers jours de Thumanité ”, em: Critique,
7. Pierre Bourdieu, Esquisse d'une théorie de la pratique,
Genebra, Droz 1972; e sobretudo " Les $ens pratique '’, em Actes de
de 1975, p. 753 05,
-
nq 339-340, sob o título Vienne , début d*un siècle , agosto setembro
la recherche en Sciences sociales, nfi 1, fevereiro de 1976, p. 43-86 .
*
30. Cf. o prefácio das Remarques philosophiques, Paris, Calli
8. Cf. abaixo, IV Parte: Usos da lí ngua.
mard 1975. p. 11.
- 9. Assim as pesquisas de A. Charraud , F. Loux, Ph. Richard e M.
de Virville no Centro de Etnologia Francesa: cf. també m o relató rio
32. Ibidem, p . 75.
-
31. L’Homme sans qualités, L I, p. 74 75. que produziram: Analyse de contenu de proverbes médicaux; Paris,
MSH 1972, ou o artigo de François Loux, em Ethnologie française,
33. PhilosophicQl Investigations , § 194, p. 79. n 2 3-4, 1971, p. 121-126. Os mesmos m étodos tinham sido antes
aplicados a um Essai de description des contes populaires, Paris,
MSH 1970.
CAPÍTULO II 10. Cf. por exemplo Alberto Mario Cirese, I Proverbi: struttura
I deite defí nizioni, Urbino 1972, a propósito dos prové rbios sardos.
1. Seminá rio realizado à base de uma enqu ête feita a partir de 11. Essas unidades foram sucessivamente os “ tipos” (Àarne ), os
1971 e de um primeiro relató rio [ Frei Damião: sim ou não? E os “ motivos ” (Thompson ), a$ “ funções ” (Propp ), as “ provas” (Meletins-
impasses da religião popular, Recife, policopiado ); o conjunto dos ky) etc.
documentos coligidos não foi divulgado. Uma aná lise do mesmo
gênero tomou como objeto uma enqu ê te feita na peregrina ção
12. Daniel Paul Schreber, Mémoires d'un névropathe Paris, .
t Seuil 1975, p. 60.
popular do Senhor do Bonfim , Salvador , BA. Ver Fernando Silveira
Massote, Esplosione sociale det Sertão Brasiliano, tese, Urbino 13. Analisar “a marca do processo de enunciação do enunciado ”
é, como se sabe, o objeto estrito de uma lingu ística da enuncia ção.
-
1978, p. 74 183, sobre a religiã o.
Ver Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov, Dictionnaire encyclopédique
2. Os dois primeiros versos são tirados da can ção anarquista des Sciences du langage, Paris, Seuil, 1972, p. 405.
Amore ribelle , sendo “ a idéia ” a sociedade igualitá ria; os seguintes
-
vê m do Canto dei Malfatori. Os dois textos são citados por Jean Louis
Comotli, La Cecília, Paris, Daniel et Cie, 1976, p. 99, 103. Quanto ao í
14. Sobre a modalidade pela qual o locutor atribui um estatuto
( relativo à exist ência , certeza , obriga ção etc. ) ao seu enunciado
filme , ver Michel de Certeau, Jacques Revel et alii, em Ça cinéma, n* ( dictum ou texts ), cf . por exemplo Langages, nB 43, setembro de 1976,
e a bibliografia, p. 116-124.
-
10 11, 1976, p. 3844. i
15. Sun Tzu , L 'Art de la guerre, Paris, Fiammarion 1972, obra
3. Ver Willy Apollon , Le Vaudou , Un espace pour les uvoixnr
Paris, Galil é e 1976. que data do século IV aC.
4. Por exemplo , Tom é Cabral, Dicionário de termos e expressões 16. R.K , Khawam ( Ed .), Le Livre des ruses. La stratégie politique
popularesr Fortaleza , Universidade Federal do Cear á 1972. des Á rabes, Paris, Phébus 1976.
5 Cf . Michel de Certeau , La Culture au pluriel, 21 ed., Paris, 17. Deste ponto de vista, a cíentificidade seria a generalizaçã o
Christian Bourgo í s 1980: “ Des espaces et des pratiques ” , p. 233-251: de uma ast úcia: o artif ício não se situa mais no uso da l íngua ordiná ria
(com seus mil “ meandros ” retó ricos), mas na produção de l ínguas

324 i
325
próprias ( l ínguas artificiais que asseguram o emprego un ívoco e 26. Para Roman Jakobson , as muta ções e relações de fonemas
transparente de termos constru ídos). -
nas glossolalias e nas " profecias em línguas" discursos desprovidos
18. Lév í-Strauss opõe o jogo, “ disjuntivo", produtor de diferenças -
de sentido e que constituem uma "arte popular abstrata ” obedecem
a regras tã o rigorosas que é possível, a partir daí, procurar os
entre campos inicialmente iguais, ao rito, "conjuntivo”, instaurador
ou restaurador de união. Cf. La Pensée sauvage, Paris, Plon 1962,
"princípios de composi ção” (compositional principies ) mais comple
xos de espécimes estratificados (sonoros e significantes) da tradição
-
p . 4447. oral (Selected Writings, Haia, Mouton, t 6, 1966, p. 642 ). Os jogos
19. Cf. Roger J. Girault, Traité du jeu de go, Paris, Flammarion de letras, nessas fórmulas sem significado (tipo Am stram gram...),
1977, 2 t teriam pois o valor de fórmulas algébricas indicando as possibilidades
20. Cf . Robert Jaulin , La Géomancie. Anatyse formeUe, Paris, formais de produção de textos. Haveria então uma formalizaçã o
.
Plon 1966; A Àder e A. Zemplent, Le Bâton de VAveugle, Paris, abstrata inscrita assim nesta literatura "abstrata ” e forneceria ela
-
Hermann 1972; Jean Pierre Vernant et alii, Divination et Rationalité, modelos lógicos das prá ticas fabricadoras de "manifestações ” popu *

Paris, Seuil 1974 etc. lares?


.
21 Seria possível analisar a reciprocidade entre jogos e contos 27. Ver as aná lises críticas de Pierre Bourdieu , Le M étier de
à luz das pesquisas de Nicole Belmont sobre as relações entre sociologue, 2* ed ., Haia, Mouton, 1973, prefácio; de Maurice Godelier,
" observâ ncias” e "crenças” populares: “ Les croyances populaires ! Horizon, trajets, marxistes en anthropologie, Paris, Maspero 1973
comme récit mythologique ”, em L'Homme, t 10/2, 1970, p. 94-108 . etc.
22. Viadimir Propp, Morphologie du conte ( 1928), Paris, Galli - 28. Cf. Michel de Certeau , La Culture au pluriet: *La beauté du
mard et Seuil 1970; e a este se deve ajuntar Le radiei storiche dei mort” (em colaboraçã o com Dominique Julia e Jacques Revel ), p.
raconti di faie , Turim, Einaudi 1949. Sobre Propp, ver sobretudo A. 49-80.
-
Dundes, The Morphology of North American í ndian Folktales, Hel-
.
29. Miklos Haraszti, Salaire aux pièces, Paris, Seuil 1976, p.
sinque, Academia Sc íentiarum Fennica 1964; AJ Creimas, Sémanti *
136-145. Quanto aos " bousillés”, peças de vidro realizadas pelos
que structurale, Paris, Larousse 1966 , p . 172- 213; Claude oper ários da industria de vidro por conta pró pria, cf. Louis Mériaux,
Lévi-Strauss, Anthropologie structurale deux, Paris, Plon 1973, p. -
"Retrou vailles chez les verriers*, em Le Monde, 22-23 de outubro de
.
139-173; André Régnier, "La morphologie selon VJ Propp ”, em La -
1978. E M.J. e J. R. Hissard , " Henri H. Perruquiste ”, em Autrement,
Crise du langage $cientifiquer Paris, Anthropos 1974, e "De la
morphologie selon VJ. Propp à la notion de système préinterprétatiF,
-
n° 16, novembro de 1978, p. 75 83.
30. Mareei Mauss, Sociologie et Anthropologie, Paris, PUF 1966:
em UHomme et la société, n ô 12, p, 171 189.
*

23. É um termo de Régnier, "De la morphologie selon VJ.


-
“ Essai sur le don ”, p. 145 279.

Propp ”, p. 172.
24. Morphologie du conte, p. 31. CAPÍTULO III
25. Assim , nos contos ciganos, o herói n âo mente mas sabe, com
proveito, fazer dizer às ordens que recebe outra coisa do que pensava L Ver particularmente A, Huet et alii, LaMarchandise culturelle,
exprimir o senhor ou o poderoso. Ver também Denise Paulme e Paris, CNRS 1977, que n ão se limita a analisar produtos (a foto, o
Claude Bremond , Typologie des contes africains du décepteur. disco, os selos ), mas um sistema de repeti ção mercantil e de reprodu -
Prí ncipes d'un index des ruses, Urbino 1976; ou, de um ponto de ção ideológica,
vista teórico, Louis Marin, Sémiotique de la Passion, Paris, coed. .
2. Cf por exemplo Pratiques culturelles des Français, Paris,
Aubier etc. 1971; “ Sé miotique du traitre ” , p , 97 186.
*
.
Sécrétariat d Etat à la Culture Service des Etudes et Recherches
1974, 2 t Ainda é fundamental e pioneira, embora pouco estatística

326 327
e limitada à arte de massa , a obra de Alvin Toffler , The Culture 14. “ A estratégia é a ciê ncia dos movimentos bélicos fora do
Consumers, Baltimore , Penguin 1965. campo de visão do inimigo; a tá tica, dentro deste" (von Búllow).
3. Sobre o tema premonitório da “ m áquina celibatária " na arte 15. Karl von Clausewitz, De la guerre , Paris, Minuit 1955, p.
( Mareei Duchamp etc. ) ou na literatura (J úlio Verne a Raymond
Roussel ) do começo do século, cf. Jean Clair et alii , Junggesellen
-
212 213, Esta an álise se encontra aliás em muitos outros te ó ricos,
desde Maquiavel. Ver Y . Delahaye , “Simulation et dissimulation", e
Maschinen. Les Machines célibataires, Veneza , Alfieri 1975. La Ruse (Cause communc 1977/1), Paris UCE, 10-18, p. 55 74. -
4 . Cf. por exemplo, a respeito dos Aymarás do Peru e da Bol ívia , 16. Clausewitz, op. ciL , p. 212.
J.- E. Monast, On les croyat chrétiens; les Aymaras, Paris, Cerf 1969,
5. Cf . Michel de Certeau , “ La longue marche indienne", posf á cio
17. Sigmund Freud , Le Mot d'esprit et ses rapports avec Vin
conscient, Paris, Callimard , Idées 1969.
-
a Yves Materne ( Ed. ) Le Réveil indien en Amérique latiney Paris,
y
18. Aristóteles, Retó rica II, 24, 1402 a; “ tomar o mais fraco de
Cerf 1977, p. 121-135. dois argumentos o mais forte" (trad. M . Dufour, Paris, Les Belles
6. G. Ryie, “ Use, Usage and Meaning ”, em G . H.R. Parkinson ( Ed.), Lettres, Bud é 1967, t 2, p. 131). O mesmo “ achado ” se atribui a Tísias,
The Theory of Meaning, Oxford , Oxford University Press 1968, p. em Platão, Fedro 273bc) (Platã o, Obras completas, Paris, Gallimard ,
109-116, Boa parte do volume é consagrada ao uso. Plê iade, t 2, 1950, p. 72-73). Cf. també m W.K.C. Guthrie, The
7. R í chard Montague, “ Pragmatics ” , em Raymond Klí bansky Sophists, Cambridge, Cambridge University Press, 1971, p. 178 179. -
( Ed.) , La Philosophie contemporaine, Floren ça, La Nuova Italia, t Sobre a technè de Corax, mencionada por Aristó teles a propósito dos
-
1, 1968, p. 102 122. Bar-Hillel retoma assim um termo de C.S. Peirce, .
“ lugares dos entimemas aparentes", cf. Ch Perelman e L. Olbrechts -
que tem como equivalentes em Russel os “ egocentric particulars", em Tyteca, Traité de Targumentation, Bruxelas, Université Libre 1970,
Reichenbach as "token reflexive expressions”, em Goodman as . -
p 607 609.
“indicator words * em Quine as unon eternal sentences” etc H á toda 19. Freud, Le Motdesprit, p. 19-173, sobre as técnicas do chiste.
uma tradição que se inscreve nessa perspectiva. A ela também se filia 20. Cf. S. Toulmin, The Uses of Argument, Cambridge, Cambrid -
Wittgenstein , ele que tinha como slogan procurar não o sentido mas ge University Press 1958; Ch. Perelman e L. Olbrechts-Tyteca, op. dt ;
o uso r D o n f t ask for the meaning, ask for the use % referindo-se Jean Dubois et alii, Rhétorique gé nérale, Paris, Larousse 1970 etc.
aliás ao uso normal, regulado pela institui ção da linguagem.
2 L Cf. LChing (Chou-I ), O Livro das Muta ções que representa
8. Ver acima “ A enunciação proverbial", p. 36. por 64 hexagramas (formados de seis linhas quebradas ou cheias)
9. Cf. Emile Benveniste, Problèmes de linguistique g énérale, todas as situações possíveis dos seres no decorrer das mutações do
Paris, Callimard , t 2, 1974, p. 79-88. universo.
10. Fernand Deligny , Les Vagabonds effí caces, Paris, Maspero -
22. Mareei Detienne e Jean Pierre Vernant, Les Ruses de Vintel-
1970, define com esta palavra os percursos dos jovens autistas com ligence. La métis des Grecs, Paris, Flammarion 1974.
os quais vive, escritas através de madeira , errándas de quem n ão pode 23. Cf. Maxime Rodinson , Islam et Capitalisme, Paris, Seuil
mais tra çar para si um caminho no espaç o da l í ngua . 1972.
11. Ver abaixo “ Indeterminadas ", p. 291.
12 . fbidem .
13. “ N ã o existem estratégias senão incluir a estraté gia do outro", CAPÍTULO IV
para John von Neumann e Oskar Morgensterp, of Games and
Economic Behavior . 3rd . -
ed No a
. Iorque . í nSn Wilev 1984. 1. Cf. acima Cap. II , p. 42, a propósito das tá ticas para as quais
as legendas e a arte de dizer populares oferecem “ panó plias ", mas em
um lugar escondido,

328 329
2 . Michel Foucault, SurveiUer et punir, Paris, Gallimard 1975. 9 . Pierre Bourdieu , " Le$ straté gies matrimoniales dans le systè -
Sobre a obra anterior de Foucault, ver Michel de Certeau, Histoire me de reproduction ", em Annales ESC t 27, 1972 , p. 1105 1127; -
et psychanalgse entre Science et fiction, Paris, Gallimard, Folio 1987, uLe langage autorisé", em Actes de la recherche en Sciences sociales,
Cap. I. -
ns 5-6, novembro de 1975, p. 183 190; “ Le sens pratique", ibidem, n*
1, fevereiro de 1976, p. 43-86. E a epopéia social do "gosto", que é
- - -
- -
185. 189-194, 211 217, 238 251, 274 275, 276 etc.: uma sé rie de
-
3. M. Foucault, op. city p. 28, 96-102, 106 113, 143 151, 159 161,
La Distinction. Critique sociale du Jugement, Paris, Minuit 1979,
“ quadros" teó ricos baliza o livro: ela demarca um objeto histórico e sobretudo cap. 2 e 3, p. 9-188.
para ele inventa um discurso adequado. 10. Em Revue française de sociologie, l 15, 1974, p. 342.
4. Cf. particular mente Gilles Deleuze, “ Ecrivain, non; un nouveau 11. Ver " Les stratégies matrimoniales".
cartographe", em Critique, n * 343, dezembro de 1975, p. 1207-1227. 12. Este é o confronto desejado por Bourdieu , Jean-Claude
5. Serge Moscovici , Essal sur Vhistoire humaine de la nature, Passeron e Jean -Claude Chamboredon, no M étier de sociologue, 2l
Paris, Flammar íon 1968. ed., Haia, Mouton 1973, p. 108409.
6. Pierre Legendre, LAmour du censeur Essai sur Vordre 13. Esquisse d'une théorie, p. 11.
dogmatique, Paris, Seuil, 1974. 14. Cf. Jacques Derrida, Marges de la philosophie , Paris, Minuit
7. Claude Lé vi-Strauss, Tristes Tropiquest Paris, Plonn 1958, em 1972: "La Mythologie Manche ", p. 247-324 ,
particular as páginas que falam do "retorno", medita ção sobre a 15. Cf. a an álise de Bourdieu, Esquisse d une théorie, p, 45-69 ,
'

viagem invertida, mudada em investigação da memória.


-
16. Pierre Bourdieu e Jean Claude Passeron, Les H é ritiers, Paris,
8. Pierre Bourdieu, Esquisse d *une théorie de la pratique, Minuit 1964; La Reproduction, ibidem, 1970 etc.
Genebra, Droz 1972. O título do livro retoma o da segunda parte, 17. Ver as censuras que Bourdieu faz a este estudo quando o
teó rica. Sobre Bourdieu, nã o são muito numerosas as críticas france- publica em 1972 ( Esquisse dune théorie, p. 11).
sas, diversamente do que se passa com Foucault Efeito simultâ neo
18. "Avenir de classe", em Revue française de sociologie, 115,
dos temores e da admiração inspirados por um império beamês? O
1974, p. 22, 33-34 , 42 etc.
cará ter "ideol ógico" das posições de Bourdieu lhe é censurado por
Raymond Boudon ( .LTnégalité des chances, Paris, Armand Colin 19. Esquisse drune théorie, p. 211-227: “ Les stratégies matrimo-
1973; Effets pervers et ordre social\ Paris, PUF 1977). Numa pers - -
niales*, p. 1107-1108; "Le sens pratique", p. 51 52 etc.
pectiva marxista, Christian Baudelot e Roger Establet, U Êcole capi - 20. "Les stratégies matrimoniales", p. 1109 etc.
taliste en France, Paris, Maspero 1974; Jacques Bidet, "Questions à 21. Ibidem.
Bourdieu " , em Dialectiques, n® 2. Louis Pinto, "La théorie de la 22. Cf. particular mente "Le sens pratique", sobretudo p. 54 75. -
pratique ” , em La Pensée , abril de 1975 etc. De um ponto de vista
epístemol ógico, Louis Marin, "Champ th éorique et pratique symboli- 23. Le M étier de sociologue, p. 257 264. -
que ", em Critique n 2 321, fevereiro de 1974; W. Paul Vogt apresentou 24. Como se sabe, nas sociedades tradicionais, a " casa" designa
as teses de Bourdieu: "The Inheritance and Reproduction of Cultural ao mesmo tempo a residê ncia (o bem ) e a fam ília (o corpo genealógi-
-
Capital ", em The Review of Education , Summer 1978, p. 219 228, E co).
-
ainda J.- M . Geng, LTIlustre Inconnu, Paris, UGE 10 18, 1978, p. -
25. “ Avenir de classe", p. 11 12, Bourdieu não leva ali ás em conta
-
53 63, sobre a “ totaliza ção sociológica” em Bourdieu e a produção os estudos sobre as estrat é gias individuais de consumidores em
de uma “ fé sociol ó gica ”, cr ítica a qual Bourdieu se apressou a nossas sociedades. Ver ibidem , p. 8, nota 11, que $e refere a Albert
responder em "Sur robjectivation participante ”, em Actes de la O. Hirschmann , Exit Voice and Loyalty Cambridge ( Mass. ) , Harvard
<

recherche en Sciences sociales, nfi 23, setembro de 1978, p. 67 69. - llniversity Press 1970.

330 331
26. Esquisse d 'une théorie, p. 175 -177 , 182: ‘ Averi í r de classe", 7. Platão, Górgios, 465a. Cf. Giuseppe Cambiano, Platone e le
p. -
28 29 etc. technice; Turim. Einaudi 1971.
27. Esquisse d une théorie, p. 202. 8. Em Jacques Guilherme e Jan Sebestik, “ Les commencements
28. Ibidem, p. 177 179. -
de la technologie”, em: Thalès, 1 12, 1966, p. 1-72, encontra se uma
29. A idé ia e o termo de exis ( habitus ) vem de Mareei Mauss, série de exemplos desse estatuto intermediário: as artes constituem
Sociologie et Anthropologie , Paris, PUF 1966, p. 368-369; por seu objetos de Descriptions ( p. 2, 4, 32, 37, 41, 4647 etc.) e, supostamente
turno, Panofsky, em textos célebres aliás citados por Bourdieu , Unha inacabadas, devem ser aperfeiçoadas ( p, 8, 14, 29, 33 etc. ).
sublinhado a importâ ncia teórica e prá Uca do habitus na sociedade 9. Encyclopédie , Genebra, Pellet 13, 1773. art “Art\ p. 450455.
-
medieval ( ver Le M étier de Sodologue, p. 253 256). Em Bourdieu, a
id é ia já é antiga. Cf . Le Métier de sodologue , p. 16, 84 etc. a propósito
10. Ibidem , art “Catalogue” ( por David, segundo um manuscrito
de Cirard ). Cf. J. Guilherme e J. Sebestik, op, cit , p. 23.
dos " esquemas" do soció logo; ou LAmour de Vart , Paris, Minuit
11. Fontenelle, “ Prefácio” à Histoire de Vacadémie royale pour
1969 , p. 163, a propósito do gosto. Ela se sustenta hoje em um 1699; onde se acha publicado Sur la description des arts. Cit em J.
impressionante aparelho de termos e axiomas escolásticos, ind ícios
Guilherme e J. Sebestik , op. cit , p. 33, nota 1.
muito interessantes de uma possibilidade de ler na tecnocracia
contemporâ nea um retorno da ordem medieval. 12. Emile Durkheim, Education et sociologie , Paris, Alcan 1922,
p. 87s. Ver Pierre Bourdieu, Esquisse d *une théorie de la pratique,
30. Esquisse d une théorie, p. 175, 178-179; “ Avenir de classe",
p. 28- 29; La Distinction, p. 189-195.
Genebra, Droz 1972, p. 211, que reconhece a í uma “ perfeita descri -
ção ” da “ douta ignorâ ncia ”.
31. Cf. o elogio do herói, em “ À venir de classe*, p. 28s. Deste
13. Emile Durkheim , Les Formes élémentaires., p. 495.
modo, podem-se agora estudar “ as estraté gias do habitus" , ibidemf
p 30 ( é meu o sublinhado deste “ de" ).
,
14. Christian Wolff, “ Prefácio ” à Iraduçáo alemã de Belidor,
Architecture hydraulique, 1740, não paginado. Cit em J. Guilherme
e J. Sebestik , op. cit , p. 23, nota 2.
CAPÍTULO V 15. H . de Villeneuve, uSur quelques pré jugés des industrieis”
( 1832). Cit em J. Guilherme e J. Sebestik, op. cit , p. 24.
1. Kant já o dizia , em sua Kritik der reinen Vernunfb o cientista 16. Sob mais de um ponto de vista, a posi ção do perito é uma
é “ um juiz que obriga as testemunhas a responder às perguntas que variante.
ele mesmo formulou". 17. Cf. acima “ Lógicas: jogos, contos e artes de dizer”, Cap. II, p.
2 . Emile Durkheim , Les Formes élémentaires de la vie religieu• 40.
se , Paris. PUF 1968. Ver també m W.S. F. Pickering, Durkheim on 18. Tema constante em Freud , embora o estatuto desse “saber "
Religion, Routiedge & Kegan Paul 1975. permane ça teoricamente indeciso,
3. Sigmund Freud , Totem e tabu, Paris, Payot 1951. 19. Sobre esta evolu ção, desde o projeto de uma Critica do gosto
4 . Ver Fritz Raddatz. KarIMarx, une biogtaphie politique Paris,
Favard 1978
. ( 1787) até a redação da Crítica da faculdade do juízo (1790 ), cf.
Victor Dalbos, La Philosophie pratique de Kant, Paris, PUF 1969, p.
5 Cf o catá logo da exposi ção, Le Livre datis la vie quotidienne, 416422, O texto de Kant se encontra em Kritik der Urteilskraft, §
-
,

Paris, Biblioth è que Nationale 1975, 43, "Von der Kunst uberhaupt" (Werke; ed. W. Weischedel, Insel Ver-
lag, t 5, 1957, p. 401402 ); ou Critica da faculdade do juí zo, trad.
6 Foi em 1799 que Louis- Fran çois Jouffret fundou a Sociedade
Philonenko, Paris, Vrin 1979, p. 134 136. A critica da estética
,
*

dos Observadores do Homem .


kantiana por Bourdieu, fundamental ( “ uma relaçã o social negada” ),

332 333
-
mas praticada com l â mina de sociólogo, situa se em outra perspectiva,
diferente da minha , embora se refira à distin ção kantiana entre “ a
populaires, Paris, Amyot 1854, 12, p. 16-19, e citado por Geneviève
Bollème, La Bibie bleue, Paris, Flammarion 1975, p. 222-227.
arte livre” e a "arte necessá ria” ( La Distinction, Paris, Minuit 1979, 29. Kant et alii, uber Theorie und Praxis, p. 41. O sublinhado é
-
p. 565 583) , de Kant
20. Cf. A, Ph ílonenko, Théorie et praxis dans la pensée morale
et politique de Kant et de Fichte en 1793, Paris, Vrin 1968, p. 19-24;
Jurgen Heinrichs, Das Problem der Zeit in der praktischen Philo- CAPÍTULO VI
-
sophie Kants, Bonn , Bouvier 1968, p. 34 43 (“Innerer Sinn und
Bewusstsein ” ); Paul Guyer, Kantand the Claims of Toste, Cambridge 1. Cf. acima, Cap. I, p. 23.
( Mass.) , Harvard University Press 1979, p. 120-165 ("A Universal 2. Jack Coody, " Mé moires et apprentissage dans les soci étés avec
-
Voice* ), 331 350 ("The Metaphysics of Taste ” ). ou sans écriture: la transmission du Bagre”, em UHomme , 1 17, 1977,
21. Citado em A. Phílonenko, Théorie et praxis, p. 22, nota 17. -
p. 29 52. E, do mesmo autor, The Domestication of the Savage Mind,
Cambridge, Cambridge University Press 1977.
22. Kant Kritik der Urteilskraft, § 43.
23. Freud , Gesammelt Werke , t XIII, p. 330; t XIV, p. 66, 250 .
3 Mareei Detienne, Les Jardins d Adó nis, Paris, Gallimard 1972;
etc. Dionysos mis à mort, ibidem 1977; Detienne et alii, La Cuisine du
24. Kant Kritik der reinen Vernunft, cit em A. Philonenko,
í ce, ibidem 1979.
sacrif

Théorie et praxis, p. 21. 4. Ver Richard Bauman e Joel Sherzer ( Eds.), Explorations in
25. Cf. acima, Cap. H, p. 43.
the Ethnography of Speaking , Cambridge , Cambridge University
Press 1974; David Sudnow (Ed.), Studies in Social Interaction, Nova
26. Das mag in der Theorie richiig sein, taugt aber nicht fur Iorque, Free Press 1972.
die Praxis. O texto ( Kant Werke, ed. W. Weischedel, t 6, 1964, p.
127s ) foi reeditado e apresentado por Dieter Heinrich com todo o -
5. Mareei Detienne e Jean Pierre Vernant Les Ruses de VintellL
gence. La métis des Grecs, Paris, Flammarion 1974.
debate do final de 1793 ao começo de 1794 sobre a rela çã o teo-
ria/ praxis: Kant Centz, Rehberg, Uber Theorie und Praxis, Frank- 6 . Ibidem, p . 9- 10.
furt am Main, Suhrkamp , 1967. Vou citar este notável dossiê. Cf. 7. "Memória” no sentido antigo do termo, que designa uma
também a preciosa tradu ção inglesa em um volume especial ( bem presen ça à pluralidade dos tempos e náo se limita , por conseguinte,
justificado): Kant On the Old Saw; That May Be Right in Theory, ao passado.
but it Wonl Work in Practice, Introd . G. Miller, trad. E.B. Ashton, 8. Entre aspas, expressões ou citações tomadas de empréstimo a
Filadélfia , University of Pennsilvania 1974 , ecf. em francês: Kant Sur Detienne e Vernant Les Ruses de Vintelligence, p. 23 25. -
lexpression courante: ilse peut que cesoite juste en théorietrad.
9. Cf . Michel de Certeau , L ’é trange secret "Maniè re d ’écrire
L. Guilhermit Paris, Vrin 1967. pascalienne ", em Rivista di storia e letteratura religiosa, L 13, 1977,
27. Sobre Kant e a Revolu ção, cf. J.W . Beck , “ Kant and the Right p. 104-126.
of Revolution ” , em Journal of the History of Ideas, t 32, 1971, p.
10. Cf. Maurice Halbwachs, Les Cadres sociaux de la mémoire,
411422; e sobretudo L. W. Beck ( Ed.), Kant on History, Nova Iorque ,
Haia , Moutou 1975.
L í brary of Liberal Arts 1963.
11. Cf. Francês A. Yates, LArt de la mémoire, Paris, Gallimard
. -
28 Evangelho de Lucas 2, 41 50, sobre o Menino Jesus, " sentado
1975.
-
no meio dos doutores, ouvindoos e interrogando os ”. Tema que vai
reaparecer na literatura de colportagem com L 'Enfant sage d trois 12. Cf. abaixo, IV Parte: O uso da lí ngua.
ans. texto já analisado por Charles Nizard , Histoire des livres

334 335
13. Cf , abaixo; e já acima, Cap. II, “ Lógicas: jogos, contos e artes -
9. Cf. Andr é Clucksmann , “ Le totalitarisme en effet *, em Traver
de dizer *, p. 40. -
ses, n 2 9, intitulado Ville panique, 1977, p. 3440.
-
14. Françoise Frontisi Ducroux, Dédate. Mythologie de Vartisan 10. Michel Foucault, Sutveiller et punir, Paris, Gallimard 1975.
en Grèce ancienne, Paris, Maspero 1975. -
11. Ch. Alexander, “ La cité semi treillis, mais non arbre ”, em
Architecture, Mouvement, Continuité 1967.
15. Arist ó teles, Fragmentos, ed. Rose, Leipzig, Teubner 1886,
fragm. 668. 12. Ver as indicações de Roland Barthes, em Architecture
16. Aristóteles, Metafísica A, 2, 982b 18. d’aujourdphui, n* 153, dezembro de 1970-janeiro de 1971, p. 11*13:
“ Dizemos nossa cidade (simplesmente ) habitando-a, percorrendo-a,
olhando-a*; e Claude Soucy, L ftmage du centre dans quatre romans
CAPÍTULO VII contemporains, Paris, CSU 1971, p. 6-15.
13. Ver os numerosos estudos consagrados a esse tema desde
1. Cf. de Alain Médam , “ New York City* em Les Temps moder - John Searle, “ What is a Speech Act?*, em Max Black ( Ed.), Pkilosophy
in America, Londres, Allen & Unwin e Ithaca ( N. Iorque ), Cornelt
nes, agosto-setembro de 1976, p. 15-33, um texto admirá vel; e seu
livro New York Terminal, Paris, Galilée 1977. University Press 1965, p. 221 239.
*

2. Cf. Henri Lavedan, Les Représentations des villes dons Vart 14. Emile Benveniste, Problèmes de linguistique générale, Pa -
du Moyen Aget Paris, Van Oest 1942; Rudolf Wittkower, Architectu - -
ris, Gallimard, L 2, 1974, p. 79 88 etc.
ral Principies in the Age of Humanism , Nova Iorque, Norton 1962; 15. Roland Barthes, op. cit ; Claude Soucy, op. cit , p. 10.
Louis Marin, Utopiques: jeux d'espacef Paris, Minuit 1973; etc. 16. “ Aqui e agora delimitam a instâ ncia espacial e temporal
3. Michel Foucault, * L'oeil du pouvoir*, em Jeremy Bentham! , * coextensiva e contemporânea da presente instâ ncia de discursos que
Panoptique 1791 Paris Belfon 1977
( ) , , , p. 16. contê m eu * ( E. Benveniste, op. cit, 11, 1966, p. 253).
4. Daniel Paul SchreberfM émoiresdfun névropathe, Paris, Seuil 17. Roman Jakobson, Essais de linguistique générale , Paris,
1975, p. 41, 60 etc. Seuil 1970, p. 217.
5. J á Descartes, em suas Regulae, fazia do cego o fiador do 18. Sobre as modalidades, cf. Hermann Parret, La Pragmatique
conhecimento das coisas e dos lugares contra as ilusões e enganos des modalités, Urbino 1975; A.R. White, Modal Thinking , Ithaca ( N.
da visã o. Iorque), Cornell University Press 1975.
6. Maurice Merleau Ponty, Phénoménologie de la perception,
* 19. Ver as aná lises de Pau! Lemaire , Les Signes sauvages. Une
Paris, Gallimard , Tel, 1976, p. 332 333.<