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Escravos, livres e insurgentes

Ê 1 sse livro a n a lis a o processo d e transform ação do


Paraíba, 18501888.
I T escravo em lib erto , do kom em liv re em trab alk ad o r
regu lar, b em com o as in su rg ên cias sociais em q u e Sá
am bas as ca te g o rias so ciais se m an ifestaram . R e la ta o fim d a

escravidão na Província d a P a ra k q b a , a p artir das form as de utilização

do escravo, d e sua resistên cia e do m ovim ento a b o licio n ista. R essalta,

tam bém , as práticas d iscip lin ad o ras d o tra b a lk o nas exp eriências das

C olónias A grícolas, das C asas d e C a rid a d e do P a d re Ibiapina e d a

E scola d e A rtífices. Por fim, são exam in ad os dois m ovim entos sociais:

"Ronco da A k elk a" (1 8 5 1 -1 8 5 2 ) e "Q u e b ra -Q u ilo s" (1 8 7 4 -1 8 7 5 ),

através dos quais foi possível ca ra c te riz a r as v in cu laçõ es económ icas e

sociais e, por se tra ta r d e co n ju n tu ra s e sp ecia is, as formas d e

m anifestações políticas dos livres, lib erto s e escravos.


A o longo do livro, que já é
À -\ referência, Ariane foi muito
éSLm ^ \ sensível ao tra ta r de
temáticas consideradas áridas pela Escravos, livres e insurgentes:
historiografia: escravos - do cativeiro à
liberdade; economia oitocentista na Paraíba, 1850-1888
Paraíba, colocada a partir do contexto
brasileiro; homens livres pobres e
movimentos sociais. E corajosa,
também, ao revisitar, com um novo olhar,
uma temporalidade muito frequentada
pela historiografia brasileira. Essa é,
sem dúvida, uma tarefa árdua, mas que
a autora, embasada em documentos e
referências bibliográficas sobre o
assunto, apresentou de uma forma
clara e concisa. Com uma boa
argumentação o texto flui, a narrativa é
agradável e deixa o leitor com vontade
de ler de novo, com uma sensação de 'já
acabou?'. Assim, Ariane mostra que
possui qualidades para escrever
história: escreve bem, é curiosa, e nas
pesquisas foi em busca dos indícios que
a documentação apresentou, abrindo a
possibilidade de dialogar com uma
historiografia que relegou a um segundo
plano, ou simplesmente silenciou sobre
a Paraíba no império. Tem o mérito de
dialogar com a produção intelectual do
seu tempo, tendo em vista que, como
chama a atenção Cario Guinzburg
"ninguém aprende o o fício de
co n h e ce d o r ou d ia g n o s tig a d o r
limitando-se a pôr em prática regras
preexistentes" (1989). Portanto, esse
livro responde aos questionamentos e
inquietações da autora no momento da
sua produção, mas acima de tudo, abre
espaço para o debate e permite que as
investigações sobre essa temática
continuem.
Serioja R. Cordeiro Mariano
Ariane Norma de Menezes Sá

Escravos, livres e insurgentes


Paraíba, 1850-1888

Editora Universitária da UFPB


João Pessoa
2009
••••••••••••••••••••••••••••••••••
U N IVERSID AD E F E D E R A L DA PARAÍBA
reitor
RÔMULO SOARES POLARI
vice-reitora
MARIA YARA CAMPOS MATOS

ED IT O R A UNIVERSITÁRIA
Diretor
JO SÉ LUIZ DA SILVA
vice-diretor
JO S É AUGUSTO DOS SANTOS FILHO
divisão de editoração
ALMIR CORREIA D E VASCONCELLOS JÚN IO R

Capa: Pinturas de Jean Baptiste Debret (1816-1834); Mapa: Revista Nossa História, n° 8
Concepção: Emmanuel Conserva de Arruda.
Impressão: F&A Gráfica e Editora Ltda.

S llle Sá, Ariane Norma de Menezes.


Aos meus pais, Osni (in memoriam) e Amável, pelas opções.
Escravos, livres e insurgentes: Paraíba (1 8 5 0 - 1888)/Ariane A Lúcio Flávio, cúmplice e parceiro de muitas histórias.
Norma de Menezes Sá. —2. ed. —João Pessoa : Editora Universitária A Paulo, Nadja (in memoriam), Niedja, Aline, Marcos, Aleuda,
da UFPB, 2009. Neila e Osni Jr., p ela alegria de poder compartilhar a vida com eles.
134p.

1. História - Paraíba 2. Paraíba - século X IX


3. Escravos - Paraíba 4. Livres e insurgentes - século X IX

ISBN 979-85-7745-256-8
UFPB/BC CDU: 981.33

Direitos desta edição reservados à:


EDITORA UNTVERSITÁRIA/UFPB
Caixa Postal 5081 - Cidade Universitária - João Pessoa - Paraíba - Brasil - CEP: 58 .051-970
www.editora-UFPB.com.br
Impresso no Brasil Printed in Brazil
Foi feito depósito legal
Durante anos esse trabalho circulou entre pesquisadores, sendo
freqíientemente utilizado por professores na disciplina História da
Paraíba. Fui muito cobrada e estimulada a publicá-lo, mas só agora,
depois de quase uma década da realização de sua defesa junto ao
Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP),
dispus-me a fazer uma rápida revisão, que consistiu mais em cortes do
que em acréscimos, e contou com a leitura, discussão e contribuição de
muita gente.
Por isso, gostaria de agradecer a alguns membros do grupo
de pesquisa: Sociedade e Cultura na Paraíba Imperial, com quem
compartilho a paixão pela pesquisa em temáticas sobre o Império
brasileiro, pelas importantes sugestões, muitas das quais incorporei.
Serioja Cordeiro Mariano, amiga e companheira na coordenação do
referido grupo, que, além do incentivo permanente, leu e opinou de
forma definitiva sobre muitos aspectos, até mesmo os formais. Carmelo
Filho, pelo cuidado com que se ateve aos detalhes; Nayana Cordeiro
Mariano, pelas relevantes sugestões; Maximiano Lopes Machado,
pelas discussões conceituais; Mayrinne Meira e Naiara Ferraz, que
gentilmente se dispuseram a ler a versão final e fizeram importantes
sugestões; A p ro f Dr3 Eliane Ferraz, pela cuidadosa correção do texto;
Fabrício Morais, por seus comentários sempre pertinentes; Emmanuel
Conserva, que fez considerações muito pontuais e foi de enorme ajuda
ao pesquisar os mapas e adaptá-los às necessidades deste livro, além da
inestimável participação na formatação final desse livro
A Raimundo Barroso Cordeiro Júnior, meu amigo e compadre,
colega de trabalho, professor do Departamento de História da
Universidade Federal da Paraíba (UFPB), devo a presteza e dedicação
com que leu e sugeriu alterações nos originais, o que me levou a
transformar os anteriores quatro capítulos em três, mais enxutos e,
talvez, até mais leves. Mais do que agradecer, quero registrar a honra

i
de poder compartilhar, em diferentes momentos, um pouco da sua
Sumário
sabedoria. A ele, minha admiração!
À banca examinadora, composta pela P rof Dr3 Vera Lúcia
Ferlini e pelo Prof. Dr. Ariovaldo Umbelino de Oliveira, pelas sugestões Nota da au to ra..................... 11
que, agora, tentei incorporar.
À P ro f Dr3 Socorro de Fátima Barbosa, por ser honesta e Prefácio da 2a edição............................................................................... 13
verdadeira na sua leitura. Introdução....................................................................................................15
Finalmente, quero agradecer as duas Inês/Inez, que foram muito
importantes, vivas, presentes e definitivas na minha vida. Primeiro, a
C apítulo I
Inês Caminha Rodrigues, professora que me ensinou com sua didática
o quanto uma aula pode ser prazerosa e rica em informações, por ter me Escravos: do cativeiro à liberdade.......................... 21
reconhecido entre tantos e por abrir as primeiras portas profissionais. 1. Origem da escravidão e economia no Brasil oitocentista..............21
Segundo, a Inez Garbuio Peralta, minha orientadora no mestrado e no 2. As leis abolicionistas.............................................................................. 26
doutorado, que depositou, desde o primeiro momento, confiança em
3. Economia e trabalho escravo na Paraíba.......................................... 35
mim, demonstrada pela liberdade vigiada, que permitiu meu crescimento
intelectual. 4. Escravidão e abolição na Paraíba........................................................39
Em comum, as duas têm a grandeza de identificar e de criar
condições para que seus alunos possam crescer. Com elas, aprendi não C apítulo II
só história, mas também aprendi lições para minha vida profissional.
Livres: da itinerância à inserção no mercado de trabalho........ 57

João Pessoa, maio de 2005. 1. A regulamentação do mercado de trabalho livre


no Brasil do século X I X ................ 57
2. O trabalho livre no Norte Agrário.......................................................63
3. O trabalho livre na Paraíba...................................................... 74

C apítulo III

Insurgentes: Abelhas e “Quebra-Quilos” ......................................... 81


1. “Ronco da Abelha” .................................................................................81
2. “Quebra-Quilos” ......................................................................................93

Considerações finais................................................................................ 127

Referências..................................................................................................131
N ota da autora.

Publicar o mesmo livro uma segunda vez deve atender a motivos


que fogem ao controle do autor. Sem dúvida, esse é o caso. A primeira
edição esgotou em menos de um ano. Os colegas que ministram a
disciplina História da Paraíba, que passaram a adotar o livro, e o
distribuidor Garibaldi, que o disponibilizou nas bancas de jornais
em todo o estado, foram os principais responsáveis pela façanha. Os
novos alunos que ingressam na Universidade, tanto na Federal como
na Estadual, desde 2006, passaram a ter como único acesso ao livro, a
cópia de capítulos, o que gera um conhecimento fragmentado da obra.
Com a intenção de atender essa demanda e de difundir a história da
Paraíba, também, entre os alunos do ensino médio, foi que me propus
a fazer uma revisão, sem alterar o conteúdo original, e publicar essa
segunda edição, numa tiragem de 1.600 exemplares. Para isso, contei
com a ajuda dos bons parceiros, os historiadores Carmelo Ribeiro do
Nascimento Filho, que revisou o texto, Emmanuel Conserva de Arruda
que, mais uma vez, não satisfeito com o resultado anterior, concebeu
essa primorosa capa, Eliane Ferraz e Amanita de Sá Maia, que fizeram
a correção final e Serioja Mariano que escreveu a apresentação. A todos,
meu muito obrigado!

João Pessoa, janeiro de 2009.

Ariane Norma de Menezes Sá


Prefácio da segu n d a edição

A segunda edição de Escravos, livres e insurgentes: Paraíba


(1850-1888) vem em uma boa hora. Vivenciamos um momento em que
as pesquisas sobre o império brasileiro, e suas dimensões nas várias
províncias, começam a ganhar mais espaço no cenário acadêmico. Esse
livro vem, portanto, somar-se às publicações e contribuir com mais
um ponto de vista, notadamente sobre as especificidades da história
da Paraíba nesse período. Fruto de suas inquietações e do interesse
em pesquisar e compreender um momento tão complexo da História,
Ariane Norma de Menezes Sá se debruçou sobre essa temática durante
o mestrado em História Social, realizado na Universidade de São Paulo,
no final dos anos 1980 e primeiros anos da década de 1990. Estudiosa
e conhecedora da história imperial brasileira, a autora sempre está
preocupada em montar o mosaico da história da Paraíba no Império,
o que fica claro em sua trajetória acadêmica, produção bibliográfica,
orientações realizadas nas Programas de Pós-Graduação em História
(PPGH) e em Geografia (PPGG) e participação no Grupo de Pesquisa
“Sociedade e Cultura na Paraíba Imperial” (CNPq), do qual somos
coordenadoras. Uma pesquisa que segundo a autora: “levará pelo menos
vinte anos” pra mapear e preencher as lacunas existentes, ainda hoje,
sobre esse período na Paraíba.
Ao longo do livro, que já é referência, Ariane foi muito sensível
ao tratar de temáticas consideradas áridas pela historiografia: escravos
- do cativeiro à liberdade; economia oitocentista na Paraíba, colocada
a partir do contexto brasileiro; homens livres pobres e movimentos
sociais. E corajosa, também, ao revisitar, com um novo olhar, uma
temporalidade muito frequentada pela historiografia brasileira. Essa
é, sem dúvida, uma tarefa árdua, mas que a autora, embasada em
documentos e referências bibliográficas sobre o assunto, apresentou
de uma forma clara e concisa. Com uma boa argumentação o texto
flui, a narrativa é agradável e deixa o leitor com vontade de ler de
novo, com uma sensação de ‘já acabou?’. Assim, Ariane mostra que
possui qualidades para escrever história: escreve bem, é curiosa, e nas
pesquisas foi em busca dos indícios que a documentação apresentou,
abrindo a possibilidade de dialogar com uma historiografia que relegou

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a um segundo plano, ou simplesmente silenciou sobre a Paraíba no Escravos, livres e insurgentes
império. Tem o mérito de dialogar com a produção intelectual do seu
tempo, tendo em vista que, como chama a atenção Cario Guinzburg
“ninguém aprende o ofício de conhecedor ou diagnostigador limitando-
se a pôr em prática regras preexistentes” (1989). Portanto, esse livro
responde aos questionamentos e inquietações da autora no momento da
sua produção, mas acima de tudo, abre espaço para o debate e permite Introdução
que as investigações sobre essa temática continuem.

Cabedelo, dezembro de 2008 Meados do século X IX . Comandantes de navios ingleses invadem


Serioja R. Cordeiro Mariano a costa brasileira e interceptam embarcações, justificando estarem
cumprindo o determinado pelo Aberdeen Act (1845), que decretava a
ilegalidade do tráfico de escravos. No Congresso, deputados e senadores
conservadores, em acalorados discursos, acusam o Gabinete liberal de
não garantir a defesa da soberania nacional.
A “carga” que os ingleses se propunham a apreender eram
africanos que seriam comercializados no Brasil. As discussões sobre a
extinção desse tráfico envolvendo o Brasil arrastaram-se durante toda a
primeira metade do século X IX , e apenas foi solucionado em 1850, com
a decretação de sua abolição. A partir de então, a questão do trabalho
passou a ocupar o centro da discussão política no Brasil.
Segunda metade do século X IX . Diferentes conjunturas históricas.
A transição do trabalho escravo para o livre é o assunto mais recorrente
nas distintas rodas sociais. Os proprietários de escravos questionavam
a interferência do Estado em assuntos relacionados ao trabalho e
defendiam que a alforria deveria ser uma iniciativa do dono, pois a
repercussão de seu ato seria a gratidão do escravo. Ao mesmo tempo,
solicitavam do Estado medidas que definissem melhor a relação com os
homens livres. Em 1878, em dois congressos agrícolas realizados em
Recife e no Rio de Janeiro, esses senhores se posicionaram a favor de
uma lei que regulamentasse o trabalho livre.
Os escravos, durante todo o período colonial, reagiram à exploração
a que eram submetidos. Individualmente, as ações convergiam para a
fuga, assassinato do senhor ou capataz, suicídio, aborto, infanticídio.
Coletivamente, formavam quilombos, sendo o mais conhecido o
de Palmares, organizado durante o século X V II, na serra da barriga,

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Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

localizada no que se compreende atualmente o estado de Alagoas. Na bibliográfico teve por finalidade buscar pistas sobre o tema, mais do que
Paraíba, embora pouco estudados, ressaltamos os de Parati be, Guajú, fazer uma análise historiográfica, e se restringiu à produção realizada
Livramento, Mucambo do Engenho Espírito Santo. Mas, a maioria até a década de 1980.
permaneceu submetida a uma situação em que não apenas o trabalho Em um segundo momento, fiz um levantamento no Arquivo
era apropriado, como também o próprio trabalhador. No século X IX , Público Nacional e na Biblioteca Nacional, ambos no Rio de Janeiro; no
nas décadas de setenta e, principalmente, oitenta, as ações dos escravos Instituto Histórico e Geográfico daParaíbaenoNúcleo de Documentação
em busca da liberdade tomaram uma dimensão mais ampliada. e Informação Histórica Regional (NDIHR/UFPB), onde pude localizar
No Congresso, senadores e deputados discutem e aprovam leis artigos de jornais, leis e medidas homologadas pelo Império brasileiro,
e medidas para regulamentar a gradativa transformação do escravo além de relatórios de Presidentes de Província.
em liberto. São as Leis do Ventre Livre (1871), Sexagenário (1885) e Dividido em três capítulos, o livro tem por finalidade analisar o
Áurea (1888). Também é aprovada uma lei que corrige os problemas processo de transformação do escravo em liberto, do homem livre em
que inviabilizam os contratos de trabalho feitos com os homens livres trabalhador regular, bem como as insurgências sociais em que ambas as
categorias sociais se manifestaram. Numa sociedade em que a produção
pobres, principalmente os imigrantes, e obrigam os trabalhadores
tem como referência de trabalho o escravo, aos homens livres e pobres,
nacionais, especialmente os nortistas, a trabalhar. A lei reformada em
1879 é a de Locação de Serviços de 1831. que não possuíam terra ou escravos, restava a itinerância, pois o fato de
trabalhar para alguém significava ter que se submeter a uma condição
Nesse contexto, este livro tem por finalidade aprofundar essas
semelhante à do escravo, considerando que os proprietários rurais, ao
discussões, tendo como referência os trabalhos escravo e livre e os
empregarem a mão-de-obra livre, não abandonavam os maus tratos
movimentos sociais que abalaram a rotina das províncias nortistas no
nem a mentalidade senhorial para se metamorfosearem em patrões ou
século X IX . Trata das leis e medidas tomadas pelo Estado imperial para
empregadores no sentido moderno da palavra. Essa situação tomava
resolver a questão do trabalho e verifica suas formas de implementação
explosiva qualquer mudança no cotidiano dessas pessoas.
no Norte do Brasil e, mais especificamente, na Província da Paraíba.
Atendendo à necessidade de articular esses diferentes aspectos de
Nos oitocentos, o Norte era a região geográfica que abrangia a área
transição do trabalho, examino, no primeiro capítulo, a desarticulação do
compreendida do Recôncavo Baiano ao Amazonas.
escravismo, considerando as leis que foram elaboradas e homologadas
O período escolhido, 1850 a 1888, corresponde ao intervalo de
pelo Estado imperial. Especial atenção foi dada ao fato de que estas
tempo em que se define o perfil de cada região quanto às formas de
leis eram resultantes de uma experiência social, posto que absorviam as
garantir mão-de-obra livre para suas lavouras: imigrante para o Sul
transformações sócio-econômicas e garantiam a transição do trabalho
cafeicultor e o trabalhador nacional para o Norte açucareiro e algodoeiro.
escravo para o livre, conforme os interesses dos proprietários rurais.
Há de se considerar, ainda, que o ano de 1850 registra a homologação
Verifico também o fim da escravidão na Paraíba, com base na
de duas leis importantes para o processo de organização do mercado de
forma de utilização do escravo, na sua resistência e no movimento
trabaiho livre, a que extingue o tráfico negreiro e a Lei de Terras. O ano
abolicionista. Mereceu destaque a inexpressiva repercussão da Lei
de 1888 corresponde à abolição da escravidão.
Áurea na Província, considerando a pequena quantidade de escravos,
A primeira fase da pesquisa foi historiográfica. Tive acesso às posto que o homem livre pobre já participava ativamente do processo
mais diversas obras sobre as temáticas, livros, textos publicados e produtivo desde meados do século X IX , sendo o impacto de tão
inéditos, teses de doutorado e dissertações de mestrado. O levantamento importante medida muito pequeno.

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Escravos, livres e insurgentes
Ariane Norma de Menezes Sá

No segundo capítulo, inicialmente, trato das leis e medidas existente entre sua realidade e as medidas tomadas pelo Estado. Essa foi
adotadas pelo Estado imperial para disciplinar o trabalho livre no a temática central do terceiro capítulo.
Brasil. Em seguida investigo a crise económica enfrentada pelo Norte, Esta versão de história, elaborada nos últimos anos da década de
que era agravada pela desarticulação do escravismo e pelos níveis 1980 e primeiros da de 1990, e agora transformada em livro, sugere
de exploração a que estavam submetidos os homens livres pobres. A inúmeros objetos de pesquisa sobre a problemática tratada, sendo assim
discussão central aborda a forma como a transição do trabalho escravo convido todos aqueles interessados em história do Brasil e Paraíba a ler
para o livre foi enfrentada pelos grandes proprietários de terra do Norte, e discutir tão apaixonante temática.
especificamente, pelos paraibanos.
Para tanto, verifiquei as resoluções tomadas por esses senhores
em dois congressos agrícolas (1878) e o discurso de alguns dos seus
representantes na Câmara dos Deputados. Discorro, ainda, sobre as
razões que levaram estes proprietários a optar pelo trabalhador livre
nacional e sobre as saídas históricas para a formalização do mercado de
trabalho livre na Província da Paraíba.
Ao iniciar uma pesquisa, muitas vezes acabamos guiados por ela.
Foi por isso que, para entender aspectos disciplinadores do trabalho, tive
que relatar a existência de experiências como as Colónias Agrícolas, as
Casas de Caridade do Padre Ibiapina e a Escola de Artífices, com as
quais finalizo o segundo capítulo.
Também, de forma recorrente, dois movimentos sociais eram
freqiientemente relacionados à existência e à identificação dos homens
livres e pobres, um dos centros das minhas preocupações. Por isso,
inevitavelmente, fui levada a investigar as revoltas “Ronco da Abelha”
(1851-1852) e “Quebra-Quilos” (1874-1875), por meio das quais
foi possível caracterizar as vinculações económicas e sociais, por se
tratarem de conjunturas especiais e as formas de manifestações políticas
dos livres, libertos e, na segunda sedição mencionada, dos escravos.
Essas revoltas coletivas demonstram claramente as reações
dos homens livres pobres aos níveis de exploração a que estavam
submetidos, considerando-se que cada vez mais se utilizavam menos
escravos na produção. As tentativas feitas pelo Estado imperial de
controlar melhor, através de leis, esse trabalhador livre nacional foram
o motivo desencadeador dessas revoltas, pois demonstravam a distância

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Escravos, livres e insurgentes

C a p ít u l o I

Escravos: do cativeiro à liberdade

1. O rigem da escravidão e econom ia no Brasil oitocentista

O Brasil colonial foi estruturado para ser um complemento


económico da metrópole que, em diferentes contextos históricos,
determinaria a forma de sua inserção no mercado internacional. Mesmo
assim, a historiografia aponta que, intemamente, a colónia criou espaços
próprios de convivência e de sobrevivência, denotados pelo crescente
desenvolvimento de um mercado interno, e pelas manifestações contra
Portugal ou portugueses, intensificadas no final do século XVIII.
As três primeiras décadas de exploração foram marcadas pela
extração do pau-brasil. As feitorias instaladas no litoral brasileiro
funcionavam como base de apoio, não havendo iniciativa por parte
do Estado português no sentido de povoar ou de estabelecer unidades
produtivas.
A mão-de-obra utilizada inicialmente foi a nativa. A extração do
pau-brasil foi feita com a ajuda dos índios que, de acordo com uma
prática cultural existente em algumas tribos - o escambo - estabeleceram
um sistema de trocas com os portugueses e outros povos europeus1.

1 A relação de escambo era estabelecida a partir da troca de instrumentos de ferro e


bugigangas por pau-brasil e produtos de subsistência, fornecidos, respectivamente, por
europeus e indígenas. Com as expedições de interiorização da conquista, o escambo
tomou outra conotação. As trocas passaram a ser de cavalos, armas de fogo e outros
adereços de guerra, fornecidos pelos portugueses por índios capturados por inimigos
de tribos rivais.
21
Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

Com a efetivação da conquista, os portugueses passaram a recorrer cada É importante ressaltar que, ao donatário era cedida apenas a jurisdição
vez mais à mão-de-obra indígena, por meio do apresamento e, com o parcial da capitania. Este não mantinha relação de subordinação com o
decorrer do tempo, de sua escravização. sesmeiro, como acontecia no feudalismo.
Alguns fatores contribuíram para diminuir a escravização do Nesse contexto de organização das atividades produtivas, o
indígena sem, contudo, significar seu fim: a suscetibilidade dos nativos trabalho escravo africano, que foi introduzido na colónia portuguesa,
às doenças do Velho Mundo, que os tornava um investimento de alto deve ser entendido a partir de vários aspectos diferenciados, entretanto
risco; a resistência contínua do gentio ao trabalho forçado, através de complementares: a lucratividade do tráfico, comandado pelo capital
fugas individuais e coletivas, eram uma forma de preservação física mercantil; a necessidade de limitar o acesso à terra, pois a vinda de
e sócio-cultural da dominação colocada em prática por colonos e trabalhadores livres poderia gerar uma dispersão de mão-de-obra,
missionários católicos. As leis sancionadas pela Coroa Portuguesa, a devido à existência de grande quantidade de terra não utilizada, pondo
partir de 1570, dificultavam a escravidão indígena. Porém, mesmo com em risco o próprio sentido da colonização, que era implantar uma
a introdução de africanos, o índio continuou sendo utilizado em muitos
estrutura económica que atendesse às demandas externas. (FERLINI,
setores produtivos durante o período colonial (SCHWARTZ, 1988;
1988). Por fim, era necessário garantir a lucratividade do proprietário
MEDEIROS, 1999).
do escravo que, depois de ter tirado o investimento inicial da compra,
No Sul, os índios, denominados de “negros da terra”, durante os
teria lucros absolutos sobre o trabalho do africano. Há de se considerar,
anos seiscentos e setecentos, eram bastante utilizados. Nas áreas de
também, a experiência que os portugueses já possuíam com a utilização
produção do açúcar, o número de africanos só ultrapassa o de indígenas
dessa mão-de-obra em outras partes de suas possessões ultramarinas.
no século XVII e, até o final do século X V III, eram a principal mão de
Algumas estratégias eram colocadas em prática para dificultar a
obra nas áreas que atualmente correspondem aos estados do Maranhão,
Pará e Amazonas. (PERRONE-M OISÉS, 1992) reação dos africanos à escravidão, como por exemplo, separar as pessoas
A partir dos anos 30 do século X V I, a ocupação da terra brasileira de uma mesma etnia, distribuindo-as entre diferentes proprietários. A
foi estratégica, pela necessidade de defendê-la contra outros povos vinda de escravos de outras terras também serviu para diminuir o impacto
europeus interessados em sua riqueza. Foi também económica, para que as fugas de trabalhadores causavam ao processo produtivo, pois,
trazer lucros à coroa portuguesa e demais agentes coloniais envolvidos diferentemente dos indígenas, os africanos desconheciam a geografia
no processo de expansão e de colonização. da América portuguesa, onde passavam a habitar. (MATTOSO, 1982).
A preocupação da coroa portuguesa era a de ocupar o território No final do século X V III, os fundamentos do sistema colonial
brasileiro sem que isso lhe fosse oneroso. O pressuposto básico era estavam abalados. Do ponto de vista internacional, o desenvolvimento
doar terras a quem tivesse condições económicas para explorá-las. Para da indústria, principalmente inglesa, solicitava matéria-prima e mercado
tanto, a terra foi dividida em grandes lotes, denominados Capitanias consumidor. Intemamente, alguns movimentos sociais colocavam em
Hereditárias (1534), concedidos a donatários e herdeiros que, por sua questão a permanência da intermediação portuguesa nos negócios
vez, os dividiam em quantidades generosas e os distribuíam entre do Brasil com o exterior. No entender de Emília Viotti da Costa, tais
sesmeiros. movimentos tinham por base a luta contra o pacto colonial e como
As Capitanias significavam a posse da terra e oficializavam a limite a manutenção da escravidão (COSTA, 1985).
propriedade da coroa portuguesa. As sesmarias a efetivação da conquista.

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Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

A luta por maior autonomia económica e política é fruto de A economia oitocentista deve ser pensada como algo mais
um mesmo contexto histórico, marcado pela contestação ao caráter complexo do que uma “plantation” escravista-exportadora2, pois desde
o período colonial que, ao lado do sistema escravista dominante, voltado
monopolista, garantido pelo exclusivismo colonial. A maneira como foi
para o comércio exterior, vinha se desenvolvendo uma economia
conduzida a autonomia do Brasil inaugurou uma forma diferenciada
dirigida para o abastecimento interno.
de fazer política de sua elite: para evitar mudanças radicais e perda
A historiografia, a partir dos anos setenta do século X X, por meio
do controle da sociedade ou mudanças na economia, aqueles que
de novas pesquisas, demonstrou que a economia colonial era bastante
estavam na condução do processo optaram por fazer um pacto de poder
diversificada, havendo uma importante demanda comercial interna e
restrito a um arranjo forjado no âmbito da política. Na perspectiva dos
que o escravo era utilizado em outras atividades produtivas que não
ilustrados nativos, o Brasil já nascia grande, por suas riquezas naturais e aquela voltada para o mercado externo. Maxwel, analisando a economia
dimensões territoriais, e civilizado, pois estavam fundando um Império mineira no século X V III, demonstrou que o período pós-mineração não
monárquico-constitucional nos trópicos, conduzido por um imperador significou a decadência económica da região, haja vista a manutenção
de origem europeia (LYRA, 1994). e o estabelecimento de produções escravistas mercantis voltadas para o
No entanto, o novo modelo político, instalado com a independência abastecimento do mercado interno (MAXWEL, 1973).
em 1822, não modificou a orientação da economia, baseada na exportação O século X IX confirmaria esta tendência. Martins(1980),
e no trabalho escravo, nem tampouco diminuiu o impacto da ingerência analisando Minas Gerais do século X IX , provou ser ela a maior província
internacional em seus negócios, pois os ingleses, através da instalação escravista do Brasil, onde 75% dos escravos em 1874 eram utilizados
de uma rede de comércio, de transporte e de créditos, passaram a deter nas atividades não exportadoras. O Rio de Janeiro, no mesmo ano de
um importante controle sobre os rumos económicos do novo país. 1874, possuía 51% do número total de seus escravos desenvolvendo
No século X IX , principalmente a partir dos anos 30, o eixo mais atividades que não eram ligadas a agro-exportação. Assim como Martins,
dinâmico da economia deixou de ser o Norte açucareiro e algodoeiro e muitos outros historiadores vão sublinhar a crescente importância do
deslocou-se para o Sul cafeicultor, inicialmente para o Vale do Paraíba mercado interno (FRAGOSO, 1988).
- Rio de Janeiro -, e nas décadas seguintes para o Oeste paulista, como Contudo, assinale-se que os lucros auferidos com o mercado
podemos constatar na tabela abaixo: interno eram inferiores aos conseguidos com a exportação. Mesmo
assim, o crescimento demográfico e a concentração populacional em
T A B EL A l-B R A S IL :P R IN C IP A IS P R O D U T O S E X P O R T A D O S centros urbanos possibilitaram que 60% da população cativa total,
(EM PERC EN TU A IS) 1821-1860 concentrada nas principais províncias cafeeiras em 1874 (São Paulo,
PRODUTOS 1821-1830 1830-1840 1841-1850 1851-1860 Minas Gerais e Rio de Janeiro), estivessem desenvolvendo atividades
Açúcar 30,1 24,0 26,7 21,2 económicas em municípios não cafeeiros, o que confirma a importância
Algodão 20,6 10,8 7,5 6,2 das produções voltadas para o abastecimento do mercado interno
Café 18,4 43,8 41,5 48,8
(FRAGOSO, 1990).
Couros e peles 13,6 7,9 8,5 7,2
Fonte: PINTO, 1971.
2 Conceito utilizado pela historiografia para definir a economia brasileira, estabelecida
a partir da colónia, baseada na grande propriedade, na monocultura e no trabalho
escravo.

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Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

2. As leis abolicionistas Apartir de 1845, com a decretação do AberdeenAct pe\a Inglaterra,


que determinava o fim do tráfico com represálias aos navios negreiros,
A questão social que mais repercutiu politicamente no Brasil o governo brasileiro começou a discutir uma lei com o objetivo de
oitocentista foi a do trabalho. Tratava-se de superar a escravidão resolver o problema do tráfico, que não havia cessado, apesar da lei
assegurando aos proprietários rurais o controle do processo de transição anterior.
do trabalho escravo para o livre. Por isso, essa operação deveria ser O ano de 1850 foi marcado por duas leis fundamentais para a
feita de forma lenta e gradual, para garantir mecanismos de controle, compreensão do processo histórico brasileiro nas décadas seguintes. A
disciplina e organização do mercado de trabalho (GEBARA, 1986; lei Eusébio de Queiroz, que extinguia o tráfico negreiro, dando início
KOWARICK, 1987). a um processo irreversível de transição para um sistema de trabalho
E possível distinguir dois momentos históricos diferentes. livre, pois a escravidão perdeu sua fonte de reabastecimento e se
O primeiro, marcado pelas discussões sobre o fim do tráfico de tomava condenada; e a Lei de Terras, que estabelecia o acesso à terra
escravos, praticamente desencadeadas por pressões externas. O devoluta apenas mediante a sua compra, devendo o seu registro ser feito
segundo, mobilizou intemamente vários setores políticos em diferentes imediatamente.
conjunturas históricas e corresponde aos movimentos que levaram à Essas leis são consideradas pela historiografia como um marco
abolição da escravidão. no processo de desagregação da ordem escravista. A Lei de Terras, à
A legalidade do tráfico de escravos desde muito vinha sendo medida que restringia o acesso à terra, garantia mão-de-obra para a
contestada pela Inglaterra. Nos tratados de 1 8 1 0 ,1815e 1817 feitos com lavoura, pois impelia o trabalhador livre nacional ou estrangeiro e o
Portugal, já constavam cláusulas que acenavam para o fim do tráfico. ex-cativo a se submeterem às condições do mercado de trabalho como
O Brasil, após a independência, para ser reconhecido como nação pela única forma de assegurar a sobrevivência. Isso reforçava o sentido da
Inglaterra, assinou um acordo em 1826 que, ratificado em 1827, que transição, uma vez que a transformação das relações de produção não
dava o prazo de três anos, a partir dos quais o tráfico seria considerado traria grandes problemas para as estruturas existentes (MARTINS, J.,
pirataria.3 1981).
No período imediatamente posterior a 1826, houve um aumento O debate sobre a escravidão, nos anos de 1830 e 1852 é posto
considerável na importação de escravos. Quando a lei antitráfico na ordem do dia na Câmara dos Deputados, mas, só volta à tona,
entrou em vigor em 1831, ocorreu uma redução no número de escravos efetivamente, em 1866, quando D. Pedro II coloca a possibilidade da
comprados pelos brasileiros, sem prejuízo para o setor produtivo mais Lei do Ventre Livre. No entanto, essa idéia foi rechaçada pelo Conselho
importante: o agro-exportador, considerando a quantidade acumulada de Estado, por considerar que não havia pressão social neste sentido e
no período anterior (CARVALHO, 1988). também por receio da ocorrência de revoltas internas que dificilmente
seriam controladas, pois o exército brasileiro estava mobilizado na
guerra contra o Paraguai (1865-70).
3Para a Inglaterra era importante a independência do Brasil, bem como o fim do tráfico.
A independência significava negociar diretamente com o Brasil sem intermediação As discussões em tomo da questão eram de duas ordens: de um
de Portugal. O fim do tráfico garantiria que o processo de abolição seria irreversível, lado, a defesa de uma lei que possibilitasse uma abolição gradual,
e a Inglaterra, em pleno florescimento industrial, necessitava de novos mercados
garantindo um controle maior por parte do governo e dos proprietários
consumidores e a utilização do trabalho de homens livres lhe garantiria isto. Além disso,
era necessário relativizar os preços das mercadorias que, produzidas por escravos, de escravos, evitando-se, assim, rebeliões e agitações, como as que
tinham um menor valor embutido, o que as tomavam mais baratas e competitivas.
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Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

ocorreram em outros países, como Haiti. Essa era a posição de alguns senhor poderia receber uma indenização ou utilizar seus serviços até os
deputados como Nabuco Araújo, e que mais tarde seria assumida 21 anos de idade.
por Rio Branco, entre outros; argumentação contrária era feita pelos Assim, o Estado interferia nas relações entre senhor e escravo,
proprietários rurais de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas deixava ao encargo do primeiro a forma como deveria conduzir
no sentido de inviabilizar o projeto. No entender deles, uma alforria a educação do liberto. Era dado ao proprietário da mãe do escravo um
concedida pelo dono do escravo, e não pela força da lei, provavelmente, tempo de oito anos, prorrogável até os 21, para orientar o liberto. Além
desenvolveria no escravo um sentimento de gratidão e reconhecimento, disso, aos proprietários era dada a opção de aproveitar os serviços do
considerando que esse seria entendido como um ato de generosidade do menor até que completasse 21 anos, o que lhes permitia a utilização
proprietário, não havendo, assim, rompimentos ou ressentimentos por desse numa fase extremamente produtiva, dando-lhes a chance de
parte do liberto. exercer um controle sobre os libertos que poderia transcender o período
A Lei do Ventre Livre só foi aprovada em 1871, apoiada por estipulado pela maioridade.
funcionários públicos que ocupavam cadeiras no Congresso e, segundo A lei reforçou outro meio de se conseguir a liberdade: a compra
alguns, com a indiferença dos nortistas e a oposição dos representantes da alforria. Uma e outra forma de possibilidades, criadas para se
do Sul4. Segundo José Murilo de Carvalho, a diferença quantitativa do obter a liberdade, deixava nas mãos dos proprietários de escravos o
número de escravos entre o Norte e o Sul não motivou a aprovação da poder de decisão sobre os caminhos do processo de organização do
lei, apenas facilitou. Em 1872, o Norte contava com 33,7% dos escravos mercado de trabalho. O liberto pela Lei do Ventre Livre teria seu tempo
contra 59% do Sul. Também seria exagerado atribuir à mobilização dos de aprendizado, e aquele escravo que desejasse a liberdade teria que
escravos a motivação da aprovação da lei. (CARVALHO, 1988) economizar para comprar sua alforria, o que era, em si, um mecanismo
A referida lei, de acordo com Ademir Gebara, disciplinador, pois esse trabalhador passava a ter contato com valores
desconhecidos até então no seu universo de referência, baseado na
[...] foi o componente decisivo para a organização escravidão.
e disciplina do mercado de trabalho livre no Brasil, A aplicação da lei asseguraria certo controle do Estado e da elite
essa lei fonnulou a estratégia básica, tanto para
sobre o número de escravos existentes no Império, pois ela previa a
definir a forma pela qual se dariam a abolição da
existência de um registro especial, onde deveria constar quantos
escravidão e a transição para o sistema de trabalho
escravos havia por região, e de uma classificação dos escravos como
livre, quanto para a configuração do mercado de
trabalho livre (1986, p.ll). única forma de receber os benefícios do Fundo de Emancipação que
então se criava.
A lei do Ventre Livre decretou a liberdade dos filhos de escravos A principal preocupação dos proprietários rurais do Norte e do
nascidos após 28 de setembro de 1871 e estabeleceu que o dono dos pais Sul do Império era com a possibilidade de esses ex-escravos tomarem-
de ingénuos deveria cuidar do menor até os oito anos. Depois disso, o se vadios. E tanto que foram muitas as sugestões para reprimir a
ociosidade.
Para assegurar a permanência dos libertos no mercado de
trabalho, a Lei do Ventre Livre previa que estes ficariam sob a inspeção
4 A região Norte compreendia as províncias situadas ao Norte de Minas Gerais,
localizadas entre a Bahia e o Amazonas. O Sul compreendia as províncias situadas ao do Estado durante cinco anos, tendo de exibir um contrato de trabalho,
Sul da Bahia e englobava as províncias localizadas entre Minas Gerais e Rio Grande.
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Ariane Norma de Menezes Sá
Escravos, livres e insurgentes

sob pena de serem considerados vadios e constrangidos a trabalhar A questão do tráfico interprovincial preocupou inicialmente os
nos estabelecimentos públicos. Assim, a intenção dessa premissa era proprietários rurais nortistas que, em 1854, através de seus representantes
incutir nos libertos certos valores éticos que garantissem a disciplina e políticos, apresentaram um projeto no qual propunham o seu fim. que
regularidade do trabalho. foi rejeitado.
Os mecanismos criados pela Lei de 1871 abriam para os escravos Nos anos de 1870, o projeto voltou à tona e foi encaminhado
algumas possibilidades de liberdade. A existência da família de escravos, pelos Sulistas. Esses, preocupados com o apoio dado pelos nortistas à
assegurada pela Lei de 1869 e reforçada pela de 1871, acabava gerando Lei do Ventre Livre, começaram a desconfiar do descompromisso deles
um compromisso deles com o projeto de abolição gradualista proposto. com a escravidão, que estaria sendo motivado pelo número cada vez
Poderia haver na família, hipoteticamente, libertos pelo nascimento, menor de escravos no Norte, devido, justamente, ao tráfico interno ou
alguns que estavam economizando dinheiro para comprar a liberdade e interprovincial. Segundo estimativas feitas por Kátia Mattoso (1982), o
outros que poderiam estar numa boa colocação na tabela de classificação tráfico transferiu do Norte para o Sul, no período compreendido entre
do Fundo de Emancipação. Essa família era a síntese do projeto de 1850-1888, de 100.000 a 200.000 escravos.
transição. Se em 1854 os nortistas queriam inviabilizar o tráfico, agora
As leis de 1850, que extinguiam o tráfico e a de 1871, que libertava eles passavam a defender sua permanência. Isto se explica porque,
o ventre, deixavam claro o interesse do Estado em definir uma estratégia ao contrário do que ocorria no Sul, a existência de um considerável
de organização do mercado de trabalho livre, pois as duas únicas fontes contingente de homens livres pobres permitiu aos nortistas utilizarem-
de onde provinham os escravos estavam definitivamente cortadas. se deles para desenvolver as atividades agrícolas. Somem-se a isto o
O importante, nesse processo, é identificar os dispositivos criados fato de que, cada vez mais,
pelo Estado que permitiam aos proprietários agrícolas acomodar o
... devido à oferta inelástica de capitais, o tráfico
sistema produtivo às transformações das relações de trabalho, que
representa, sobretudo durante a crise de meados de
ocorriam de forma lenta.
setenta, a única fonte de recursos com que financiar
Se os proprietários rurais escravistas, inicialmente, haviam as perdas resultantes de uma má safra, de uma queda
hostilizado a Lei de 1871, com o tempo, passaram a utilizá-la como meio mais forte dos preços ou do incremento na taxa de
de evitar a abolição definitiva. Os dados comprovam a adesão deles ao juros (M E L O , 1984, p.3).
cumprimento da lei, em que o número de manumissões particulares foi
bem maior do que as concedidas pelo Fundo de Emancipação. Para o Em 1879, Meira de Vasconcelos, um deputado paraibano,
ano de 1882, contabilizou-se 10.001 alforrias financiadas pelo Fundo defendendo a permanência do tráfico, argumenta o seguinte:
de Emancipação e 60.000 por particulares (CARVALHO, 1988, p.72).
Para resolver o problema de reposição da mão-de-obra escrava nas dificultar sua [i.é., do escravo] venda é ainda um
prejuízo do agricultor, (...) quando ele vende seus
lavouras do Sul, com a extinção do tráfico negreiro (1850), a solução,
escravos é para satisfazer a seus compromissos
pelo menos em parte, foi trazê-la do Norte, onde o setor produtivo se
(...) senão puder transportá-los para o Sul a fim de
encontrava em crise, devido à queda das exportações de seus principais
vendê-los por m elhor dinheiro, há de vendê-los na
produtos: o açúcar e o algodão. província por metade de seu valor (Anais da Câmara

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Ariane Norma cie Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

dos Deputados, 1878, pp. 178-179. Apud M ELO , A Lei Saraiva-Cotegipe estabelecia que os escravos que tivessem
1984, p .3 1). acima de 60 anos seriam libertados. Para minimizar a preocupação
maior dos proprietários rurais em relação à vadiagem e à necessidade
O tráfico interprovincial aumentou consideravelmente na segunda de manter uma boa oferta de braços para a lavoura, a lei afirmava que o
metade da década de 1870, devido à grande seca de 1877-79. Esse liberto deveria permanecer, no mínimo, cinco anos no município onde
estava colocando em risco a estabilidade do regime escravista, pois de morou até então, e definia que “... qualquer liberto encontrado sem
um lado encontramos o Norte descapitalizado que cada vez mais vendia ocupação será obrigado a empregar-se ou a contratar seus serviços no
seus escravos na tentativa de minimizar suas perdas, e de outro, o Sul prazo que fôr marcado pela polícia”5 (Lei n. 3270 de 28 de setembro de
que aumentava a compra de escravos para garantir sua produção. No 1885. Apud LAMOUNIER, 1988, p. 157).
entender dos sulistas, este desequilíbrio numérico entre as regiões podia A Lei dos Sexagenários traria mais transtornos para o Norte do
levar os nortistas a se solidarizar com a causa emancipacionista. Para que para o Sul. Devido ao tráfico interprovincial, boa parte dos escravos
prolongar a escravidão, só aprovando uma lei antitráfico. jovens do sexo masculino foi vendida para o Sul, ficando o Norte com
Tanto os sulistas quantos os nortistas não teriam força política um número maior de escravos em idade avançada, tendo de libertá-los
suficiente para, sozinhos, impor suas posições para um problema de agora para cumprir a lei.
implicações nacionais. A manutenção do tráfico interprovincial se deu Além disso, o imposto adicional de 5% sobre os tributos
devido ao apoio recebido pelos nortistas dos cafeicultores do Vale do gerais, exceto o de exportação, estabelecido pela lei para financiar o
Paraíba e dos grandes comerciantes da Corte. Aos primeiros, interessava Fundo de Emancipação, impunha a todos pagá-lo, mesmo quem não
a manutenção do tráfico, devido à crise em que se encontravam por causa fosse proprietário de escravos, inclusive aquelas províncias que não
da queda de produtividade de suas terras, e aos grandes comerciantes tivessem escravos, como Amazonas e Rio Grande do Sul, ou onde o
do Sul, por ser a forma de garantir os lucros auferidos com o tráfico seu número fosse reduzido, como as do Norte. Ou seja, todos estavam
(MELO, 1984). compulsoriamente convidados a participar financeiramente do proj eto de
Frente à indecisão do Governo imperial, as províncias cafeeiras emancipação, mesmo aquelas províncias que não estavam diretamente
tomaram providências para inviabilizar o tráfico criando impostos envolvidas com o problema da escravidão (MELO, 1984).
muito altos. Em 1880, as Assembléias Provinciais do Rio de Janeiro A década de 1880 foi marcada por uma crescente movimentação
e São Paulo deliberaram pelo aumento do imposto sobre os escravos popular pelo fim da escravidão. Nas cidades, participavam do movimento
que entrassem em seu território. Em 1881, Minas Gerais sancionou a abolicionista desde libertos e operários, profissionais liberais, estudantes
mesma medida (MELO, 1984). e intelectuais até funcionários da burocracia estatal. A posição
Em 1881,o tráfico interprovincial de escravos estava praticamente condescendente da Coroa relativa ao fim da escravidão diminuía as
acabado, devido também aos impostos provinciais. No entanto, apenas possibilidades de repressão e incentivava a atuação dos abolicionistas.
em 1885, pela Lei Saraiva-Cotegipe ou dos Sexagenários, o Parlamento Com o tempo, a ação repressiva aos abolicionistas e suas organizações
do Império sancionou a lei que definiu seu fim. Essa previa algumas foram se tomando obra de proprietários de escravos insatisfeitos com o
exceções, que beneficiavam a lavoura e o comércio do café, tais como: curso dos acontecimentos (CARVALHO, 1988).
“... a mudança de domicílio do senhor, a transferência de escravos
para fazenda do mesmo proprietário localizada em outra província, a
adjudicação forçada e herança” (MELO, 1984, p.54). 5A ortografia original dos documentos será mantida.

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A riane Norma d e M enezes Sá
Escravos, livres e insurgentes

O ano de 1887 trouxe para o seio do movimento abolicionista


A utilização do trabalhador livre deu-se muito mais pela
os republicanos paulistas e os militares. Neste ano, o Clube Militar
condenação da escravidão colocada desde 1850 do que pela crença
deliberou pela não participação dos militares na perseguição de escravos
na maior produtividade do trabalho livre. A adesão final de alguns
fugitivos. Era o apoio político e militar que se juntava ao que a Coroa,
proprietários à causa abolicionista foi a forma de conseguir a simpatia
de certa forma, já oferecia.
dos cativos, em um processo que se mostrava irreversível.
O movimento abolicionista tomou uma dimensão tamanha que,
Em relação às questões levantadas, o que se pode inferir é que
quando da votação final da lei de abolição, em 13 de maio de 1888, todas as leis, elaboradas para viabilizar a transição do trabalho escravo
apenas nove députados e seis senadores votaram contra. Oito deputados para o livre, tiveram por base as experiências históricas acumuladas. A
eram da Província do Rio de Janeiro, que defenderam até o final a legislação escravista teve como parâmetro não só garantir o processo de
continuidade da escravidão (CARVALHO, 1988). transição seguro, de acordo com os interesses dos grandes proprietários
Nesse processo abolicionista, a posição dos grandes proprietários rurais, mas incorporou a interferência do escravo nos diferentes
Sulistas e nortistas foi buscar alternativas ao trabalho escravo, mesmo momentos. A sua resistência à escravidão, através de fugas, por formação
utilizando-se do cativo até o fim. A existência de um significativo de quilombos e crimes isolados, colocava em xeque o próprio sistema
contingente de homens livres pobres no Norte gerou, nas regiões de escravista. Resistência esta que se tomou crescente nos últimos anos
grandes lavouràs, a crescente combinação do trabalho escravo com o da década de 1870 e durante a de 80, período em que setores urbanos
livre. Nas áreas de pequena propriedade ou de pecuária, a transição se passaram a interferir e integrar-se à causa abolicionista.
completou antes da decretação da Lei Áurea, como foi o caso do Ceará
(CARVALHO, 1988).
3. Econom ia e trabalho escravo na Paraíba
A região Sul tinha problemas diferenciados, mesmo nas áreas
cafeicultoras. A queda da produtividade das terras do Vale do Paraíba A Paraíba surge como parte da capitania de Itamaracá, de
e a existência de um número significativo de escravos levaram os acordo com o projeto de Capitanias hereditárias definido pelo Estado
proprietários a se posicionarem contrariamente à abolição, até o último Metropolitano Português (1534). Mas, ainda no século X V I, é
momento, pois utilizar a mão-de-obra livre era cada vez mais difícil transformada em Capitania Real da Paraíba (1574).
devido à decadência que assolava a região. Por conta da resistência indígena e para expulsar os estrangeiros
Os cafeicultores da Província de São Paulo consideravam a mão- que negociavam com os índios, principalmente os franceses, bem como
de-obra livre nacional vadia e desclassificada para o trabalho e para por sua posição estratégica, importante para a conquista do Norte -
não incorporá-los, como fizeram outras regiões, a solução foi garantir o Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão, Pará, era imperativo para os
afluxo de imigrantes, que, conforme asseguravam, já tinham disciplina portugueses tomar a posse definitiva da Paraíba6.
para o trabalho regular. Além disso, devido a problemas enfrentados pelo donatário da
Dessa forma, os potentados do café garantiam uma oferta vizinha capitania de Pernambuco - Duarte Coelho - que reclamava
crescente de mão-de-obra: a livre nacional, historicamente acumulada concentrar-se nessa área, “bandidos e vadios” e, também, a um episódio
nos interstícios da economia, a dos ex-cativos e a dos imigrantes, que foi
a preferida, pelo menos até a década de 1920 (KOWARICK, 1987).

6 Os índios que ocupavam esta área geográfica pertenciam aos grupos linguísticos dos
Tupi e Jê.
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Ariatie Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

ocorrido em 1574 - tragédia de Tracunhaém - resolve-se criar a Capitania quando a Paraíba foi subordinada administrativamente a Pernambuco
Real da Paraíba (Decreto de 1574). (OLIVEIRA, 1985).
A ocupação portuguesa, pelo menos até meados do século XV II, A Paraíba, durante a segunda metade do século XIX, bem como toda
restringiu-se à Zona da Mata, compondo, juntamente com Pernambuco a região Norte, atravessou uma grave crise social, que era aprofundada
e Rio Grande, uma importante área de produção do açúcar. pela crise do setor agro-exportador e agravada pelas periódicas secas.
A necessidade de especialização das terras na produção da cana- A crise económica tinha por fundamento a queda dos preços
de-açúcar, na Zona da Mata, foi favorecida com a conquista do interior, do açúcar e do algodão no mercado internacional, apesar do “boom”
pois o Agreste e o Sertão paraibanos, juntamente com as áreas similares algodoeiro na década de 1860, estimulado pela Guerra de Secessão
nos Estados Unidos da América (1860-65). Essa crise foi intensificada,
das capitanias de Pernambuco, Rio Grande e Ceará, passaram a dedicar-
segundo os Presidentes de Província, pela dependência económica a
se à pecuária, economia complementar a que era desenvolvida na Zona
Pernambuco.
da Mata (MOREIRA, 1997)7.
Em seus relatórios e exposições, os presidentes afirmavam ser
Em fins do século X V III, com o desenvolvimento da indústria
necessário incentivar a instalação de casas comerciais européias na
têxtil, os ingleses passam a solicitar uma quantidade cada vez maior
Paraíba, assim como garantir a existência de um Porto equipado para
de algodão. Neste período, o Agreste e o Sertão desempenharam um
que pudesse haver o contato direto dos produtores com o exterior. Suas
importante papel na economia colonial especializando-se em sua
solicitações iam, também, no sentido de que houvesse investimento
produção.
do Governo Imperial em estradas, pois a precariedade das vias de
No Agreste, paralelo à grande produção, desenvolveu-se em
comunicação dificultava o escoamento da produção.
pequenas unidades produtoras, denominadas de sítios, o cultivo de
A esses problemas, somavam-se as reclamações dos proprietários
alimentos, como a fava, o milho, o feijão e a mandioca.
rurais, que se sentiam insatisfeitos com os impostos que tinham de ser
Desde o período colonial a Paraíba era dependente economica­
pagos na Paraíba e em Pernambuco, para que seus produtos fossem
mente. A independência política do país não modificou essa tendência.
exportados e calculavam que a diminuição de seus lucros era causada,
De um lado, em âmbito internacional, sua economia permaneceu voltada
também, pelos preços baixos que tinham de atribuir a seus produtos para
para a exportação, mantendo intocáveis seus fatores de produção: a garantir sua concorrência com os pernambucanos. Em seus discursos,
grande propriedade, o caráter monocultor e a utilização da mão-de-obra no que eram corroborados pela administração provincial, colocavam
escrava. O que significa dizer que os principais setores de sua economia ser fundamental para a economia local uma política nacional de crédito
estavam sujeitos às oscilações de preços dos seus produtos no mercado agrícola e a fundação de bancos rurais e hipotecários, como única forma
internacional. de garantir capital para investir na melhoria da produção.
Por outro lado, sua dependência interna a Pernambuco se manteve. Apesar da tão decantada crise económica, o número de engenhos
Neste mesmo período, Recife era o pólo mercantil da região, ao qual a na Paraíba cresceu durante o período em estudo, conforme tabela
Paraíba estava comercialmente subordinada, acentuando-se esta relação abaixo:
desigual, do ponto de vista intraregional, no período de 1755-1799,

7 Nessa publicação, a designação das mesorregiões obedece à classificação mais geral e


atual de Zona da Mata, Agreste, Borborema e Sertão (MOREIRA, p. 14,1997).
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Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

TABELA 2 - N Ú M ERO D E EN G EN H O S NA PA RA ÍBA acordo com os parâmetros de desenvolvimento de sua economia.


ANO NÚMERO DE ENGENHOS A participação dos setores exportadores na economia paraibana era
1850 150 significativa para a Província, apesar de ser simbólica para a região,
1860 214
quando comparada às exportações realizadas por Pernambuco e Bahia.
1889 350
Mesmo assim, a utilização do escravo na produção era considerada
Fonte: ALMEIDA, J. 1980. essencial, pois os proprietários rurais acreditavam ser essa mão-de-obra
A exportação de algodão também cresceu, pelo menos até 1871, mais eficiente e produtiva e desconfiavam da capacidade de disciplina
dos homens livres ao trabalho regular.
conforme tabela abaixo:
Dois anos depois da Lei Eusébio de Queiroz (1850), que extinguiu
o tráfico, o número de escravos na Paraíba correspondia a 13,4% do
TABELA 3 - EXPO RTAÇÃO D E A LG O D Ã O
total da população, declinando essa cifra em 1872, quando o Censo
ANO ALGODÃO (arrobas exportadas) Demográfico nacional detectou apenas 5,7% de escravos do total de
1862 216.468
habitantes, conforme fica demonstrado na tabela 5, mais à frente.
1864 397.728
1866 542.133
1869 533.609 4. Escravidão e abolição na Paraíba
1871 681.355
Fonte: Relatório do Engenheiro de Minas Francisco Soares da Silva Retumba, A tividades económ icas do escravo
“Sobre os melhoramentos de que precisa a Paraíba”, Revista do Instituto Histórico e
Geográfico da Paraíba, 1912, vol. 4, p. 208. Como na maior parte das províncias brasileiras, na Paraíba os
proprietários utilizaram seus escravos até a abolição da escravidão
De acordo com os dados levantados, a produção do algodão em 13 de maio de 1888. Nos vários setores da economia detecta-se
cresceu na Província durante o século X IX . O aumento da exportação a presença do escravo. Nas atividades açucareiras e de criatório, com
desse produto superou a do açúcar a partir da década de 1850, mantendo- maior intensidade, e, em menor grau, na algodoeira.
se assim até o final do século, com exceção apenas dos anos de 1857 A lavoura algodoeira, de ciclo vegetativo curto, necessitava de
a 1860 (VIANNA, 1985, p. 85). Do que se deduz que, para manterem baixo investimento de capital e pouca quantidade de mão-de-obra para o
a economia no ritmo de crescimento e garantirem seus lucros, os desenvolvimento de suas atividades, possibilitando assim o cultivo por
proprietários rurais, ao ampliarem a quantidade de terras produtivas, parte de sitiantes, moradores e pequenos proprietários, que combinavam
repassavam as perdas para os trabalhadores envolvidos no processo as plantações de algodão com culturas de subsistência.
produtivo, por meio do aumento de sua exploração, e para os parceiros, Os grandes proprietários, produtores de algodão, achavam mais
arrendatários ou foreiros, que muitas vezes eram expulsos da terra. vantajoso utilizar a mão-de-obra livre de forma sazonal, considerando
Outra saída encontrada foi diversificar a produção para enfrentar a crise que o proprietário, quando o trabalhador não fosse morador, não teria
económica. obrigação de garantir serviços para ele, durante os meses de janeiro a
Desde o período colonial, a importação de escravos feita pelos maio, período de entressafra. Assim, os escravos passaram a ser pouco
produtores paraibanos não era grande, uma vez que esta ocorria de utilizados nessa atividade produtiva, quando comparado às outras
atividades económicas, como pode ser observado na tabela 4.
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Escravos, livres e insurgentes
Ariane Norma cie Menezes Sá

Total 7213 25,25 2935 13,63 3013 15,23 2736 14,56


TA BELA 4 - PO PU LA Ç Ã O ESC R A V A DOS M U N ICÍPIO S
População Total 28566 21526 19778 18785
PA RA IBA N O S D ISPO STA EM G RU PO S DE A C O R D O CO M
A EC O N O M IA A Q U E ESTÁ V IN C U LA D A Fonte: GALLIZA. 1979, p.40.

Açucareira
Municípios 1852 1872 % 1884 % I 1886 % O gado foi o fator de integração do sertão com as outras áreas
%
Paraíba 4391 2684 1972 2376 produtivas, a partir de meados do século XVII. A disputa no agreste por
Alagoa G rande — 339 476 461 terras entre o gado e o algodão, levou o primeiro a caminhar rumo ao
Alagoa Nova 1024 419 283 203 sertão. Os criadores de gado do sertão também se dedicavam à cultura do
M am anguape 2398 802 1320 1599 algodão, atividade prejudicada durante os períodos de seca. O número
Areia 2020 1424 1052 1229 de escravos utilizados nas áreas criatórias do sertão era significativo:
Pedras de Fogo — 1145 898 940
para os anos de 1852, 33,46% ; 1872, 38,19%; 1884, 40,87% e 1886,
Total 9733 34,85 6813 31,65 6001 30,34 6808 36,24
34,53% do total de escravos da Província da Paraíba, conforme tabela
Algodoeira
1884 1886 %
supracitada.
Municípios 1852 % 1872 % %
Ingá 693 1308 1074 953 A importância da utilização de escravos na área criatória pode ser
Independência 1246 1334 1056 1259 verificada quando se observa o número deles nas atividades essenciais
C uité — 611 51 323 à organização da economia sertaneja. Observemos os dados de um
Teixeira - - 99 100 relevante município do sertão, Piancó: para o ano de 1876, Piancó
Total 1939 6,78 3253 15,11 2680 13,55 2635 14,02 possuía 317 cozinheiras; 316 trabalhadores de enxada; 106 costureiras;
Pecuária
39 fiandeiras e 30 vaqueiros (GALLIZA, 1979, pp.87-88).
Municípios 1852 % 1872 % 1884 % 1886 %
As atividades domésticas eram muito importantes no sertão. De
C abaceiras 1013 587 481 377
acordo com a cultura da região, todo e qualquer trabalho físico deveria
M isericórdia - 628 490 490
S.J. Cariri 1538 642 1976 1399 ser atribuição de escravos. Cozinheiras, costureiras e fiandeiras eram
S.L. Sabugí — 335 244 219 fundamentais na manutenção da família do grande proprietário. As duas
A. M onteiro - 611 524 354 últimas, por exemplo, eram as responsáveis por fazer redes, panos e
Patos 544 830 499 320 roupas para uso próprio e da família do fazendeiro.
Piancó 997 612 1015 616 Atribuiu-se aos trabalhadores de enxada a função de arar a terra
C. do R ocha 1108 1016 791 780 durante o inverno, para garantir produtos agrícolas à fazenda e, em alguns
Pom bal 915 1182 1031 886
casos, para a venda nas feiras locais. Esses também eram utilizados em
Souza 3448 1376 743 979
outras atividades fundamentais para possibilitar a criação de gado e a
C ajazeiras - 403 290 87
Total 9561 33,46 8222 38,19 8084 40,87 6487 34,56
manutenção das propriedades rurais, como a feitura de valados, cercas,
Economia mista currais e açudes. De acordo com a necessidade, poderiam também,
Municípios 1852 % 1872 % 1884 % 1886 % a depender de sua qualificação, ser pedreiro, ferreiro e carpinteiro
Pilar 1982 1191 1128 1326 (GALLIZA, 1979, p.87-88).
Bananeiras 1785 639 972 595
C am pina G rande 3446 1105 913 815
41
40
A ritme Norma de Menezes Sá
Escravos, livres e insurgentes

A atividade de guarda dos rebanhos, que não requer uma grande quando crescidos, em condição de dar serviço
quantidade de mão-de-obra, era desempenhada por aquele escravo (A LM EID A , H., 1958, p.207).
de extrema confiança do proprietário, pois o perigo de fuga era bem
acentuado, por ele andar livremente pela fazenda. A existência de fazendas de criação de escravos, no entanto, nunca
A existência de um número razoável de escravos no Sertão pode foi comprovada.
ser explicada pelo número de municípios que era bem maior nessa área. . Geraldo Joffily, apoiado em Irinêo Joffily e Irineu Pinto, bem
Como também, pela evidência de que os proprietários rurais do litoral como em vários anúncios de jornais de diferentes anos sobre escravos
possuíam terras no sertão e no Agreste, podendo deslocar seus escravos, fugitivos ou expostos à venda, constata haver entre os escravos, uma forte
quando fosse preciso. incidência de mulatos ou pardos, existente especialmente nos engenhos
A mobilidade dos escravos é outro aspecto que chama a atenção da Borborema e fazendas de gado do sertão do Cariri (JOFFILY, G.,
na tabela acima. Em relação à capital, Paraíba, em 1884, existem 1.972 1977, p. 18-21).
escravos e em 1886, 2.376, o que nos leva a deduzir, considerando não Diana Galliza também envereda por essa explicação. Para ela,
haver mais o tráfico de escravos, que seus proprietários desenvolviam no sertão paraibano, a descendência negra preponderou sobre a índia,
atividades económicas em diferentes localidades, deslocando-os a quando na segunda metade do século X IX , a maioria dos escravos tinha
depender da necessidade. Com exceção de Alagoa Grande e Alagoa sua origem na miscigenação do branco com o negro. Tais escravos,
Nova, constata-se que esse fenômeno ocorre em outros municípios portanto, nasceram no Brasil. Em dados levantados pela historiadora, a
da zona açucareira. Nos municípios produtores de algodão, destaca- cor da pele que mais frequentemente apareceu foi a parda, resultante de
se apenas Teixeira, nos que desenvolviam a pecuária, Souza e nos de cruzamentos secundários, com predominância da pigmentação morena.
economia mista, Pilar. Os inventários arrolados nos municípios de Piancó, São João do Cariri
Uma discussão interessante é a mantida pela historiografia e Pombal apontam para a presença maciça de escravos pardos, crioulos
paraibana quanto à procedência étnica do escravo. Horácio de Almeida e mulatos8 (GALLIZA, 1979, p.98-101).
acreditava ter existido a criação de escravos por parte de alguns grandes
proprietários e relata o caso de um português, de nome Jorge Torres, A resistência escrava
comerciante, que ao se instalar em Areia, expandiu seus negócios na
agricultura e na pecuária: Embora presente enquanto durou a escravidão, aresistência escrava
será abordada em três formas distintas. Na formação de quilombos, que
Sua obra mais caprichada foi, sem dúvida, a fazenda a título de exemplo citaremos os mais referidos pela historiografia. Um,
Tanques do Jorge, a poucas léguas do povoado
localizado no engenho Espírito Santo, que foi arrasado pela polícia
(...) N essa fazenda exercia o português grandes
da província da Paraíba em 1851, outro nas proximidades de Princesa
atividades, entre as quais a criação de gado e de
Isabel, o Quilombo do Livramento, onde é possível até os dias atuais,
gente. Possuindo vasta escravaria, mandava para lá
as negras de barriga para descansarem e cuidarem
identificar seus descendentes, (durante a seca de 1877-79, inúmeros
dos filhos, enquanto durava o período da mama. escravos fugiram das fazendas do Sertão).
Havia na fazenda mucamas encarregadas da criação
dos moleques, que só eram chamados ao Brejo
8Mulato e pardo referem-se a filhos de pais negros e brancos. Crioulo diz respeito tanto
ao negro nascido no Brasil, quanto àqueles que nascem de pais de etnias diferentes.
42 43
Ariane Norma (le Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

Ainda, a mais significativa forma de resistência ocorreu durante a que elles confiavão, e que ali chegando declarou-
lhes o vigário que não existia livro contra sua
sedição Quebra-Quilos em 1874, pois enquanto os revoltosos invadiam,
liberdade. (Apêndice do “Relatório apresentado
incendiavam e quebravam nas cidades os lugares que simbolicamente
ao Exmo. Sr. Presidente da Província . Dr Siivino
representavam as leis que os oprimiam, em Campina Grande alguns Elvídio Carneiro da Cunha pelo Chefe de Polícia
escravos buscavam “um livro” que poderia significar a liberdade.9 Dr. Manoel Caídas Barreto, em 23 de fevereiro de
Devido às invasões constantes dos insurgentes às cidades, aqueles 1875, sobre os movimentos sediciosos em diversos
que podiam se retiravam delas. No sítio Timbaúba, distante duas léguas municípios da Província”. Apud SOUTO MAIOR,
da cidade de Campina Grande, refugiaram-se o presidente da Câmara 1978, p.201-202, grifo nosso).
Bento Gomes Pereira Luna e sua família.
Esse sítio foi cercado por um grupo de escravos, todos armados, Cerca de 400 escravos juntaram-se na cidade de Campina Grande
a exigir que lhes fosse entregue o “livro da liberdade”. Vejamos como com o objetivo de tomarem-se livres a partir do que lhes dissesse o
o fato é narrado ao chefe de polícia, Manoel de Caídas Barreto, por Vigário Calixto. No entanto, considerando-se a declaração do vigário
Raimundo Teodorico José Domelas, genro do presidente da Câmara: e a notícia de que vários proprietários de escravos estariam a caminho
da cidade com homens armados, os escravos se dispersaram. Alguns
No dia vinte e nove forão cercadas as casas do sítio fugiram para o mato e a maioria retornou para o trabalho.
Timbaúba, distante duas legoas desta cidade, por
um grupo de trinta a quarenta escravos armados; O fim da escravidão na Paraíba
n ’essa casa achava-se ele, respondente, com a sua
família e foram forçados pelos mesmos escravos Muitos foram os fatores que contribuíram para a redução do
a vir a esta cidade com outras pessoas onde se número de escravos na Província da Paraíba, na segunda metade do
achavam em Timbaúba, para onde se haviam
século X IX , o que pode ser explicado pela proibição do tráfico negreiro
refugiado receosos dos sediciosos, a fim de lhes
em 1850 e o crescente tráfico interprovincial, intensificado durante os
entregar o livro da liberdade, que eles forçados
com o estavão prometterão entregar, que na viagem
anos de 1874-1884, quando, oficialmente, foi registrada a saída de pelo
vinhão as pessoas de Timbaúba montadas à cavallo, menos 3.788 cativos. São eles: as epidemias, como o cólera-morbo, que
tendo a anca um escravo armado e que encerrava a dizimou 2.982 ou 10,4% dos cativos existentes em 1852, as alforrias,
m archa o famigerado escravo Firmino, crim inoso de motivadas pelas leis abolicionistas, considerando-se que, no período
morte e de propriedade de Alexandrino Cavalcanti de 1852-1888, foram concedidas 1.052 cartas de alforria, e, por fim, o
de Albuquerque, prompto a disparar a arma sobre movimento abolicionista, que na década de 1870 já se fazia presente.10
aquelle que corresse; que chegando a esta cidade Os números apontam para o ano de 1852, a existência de 15,5% de
pelo estado declarado, forão levados até d’elle escravos, quando comparados à população livre. Para 1872,6,0%. Entre
respondenteealiseapoderarãoosmesmos escravos
do livro de classificação de escravos e levarão ao
dito Vigário Calisto para lel-o, por ser pessoa em
'° Os dados e estatísticas apresentadas nessa parte do trabalho têm como referência
9 O movimento Quebra-Quilos será tratado de forma mais detalhada no terceiro o livro de Galliza, 1979, p. 83-194, que até os dias atuais é o mais significativo
levantamento sobre a abolição da escravidão.
capítulo desse livro.
44 45
Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

1884 e 1887, se comparada com o ano de 1852, houve uma diminuição 1877-79, tendo como estímulo a crescente necessidade de trabalhadores
de 52,2% no número de escravos, conforme dados da tabela abaixo. na lavoura cafeeira da região Sul do império.
A quantidade de escravos vendidos para o Sul, possivelmente,
TABELA 5 - ESTA TÍSTICA D A PO PU LA Ç Ã O LIV R E E deve ter sido superior ao apontado pelos dados oficiais, pois muitas
ESCRAVA DA PA RA ÍBA : 1852 E 1872 vezes para evitar o imposto de exportação, alguns senhores usavam o
artifício do contrabando, embora tais dados demonstrem que hóuve uma
População em 1852 População em 1872
Escrava % Livre Escrava % perda significativa de escravos. O Relatório do Ministro da Agricultura,
Municípios Livre
Paraíba 24691 4391 17,8 26914 2684 9,9 de 7 de maio de 1884, contabilizou, para o período de 1856-1884, o
Mamanguape 11161 2398 21,5 16661 802 4,8 decréscimo de 3.788 escravos, o que equivale a 13,2% dos escravos de
Independência 12291 1246 10,1 26854 1334 5,0 1852.
Alagoa Grande - 10765 642 6,0
— -
Como já foi mencionado na primeira parte desse capítulo, o tráfico
Bananeiras 26966 1785 6,6 21639 639 2,9
5,2
foi assunto de discussão no Parlamento. Inicialmente, os parlamentares
Cuité — - - 11729 611
Areia 19240 2020 10,5 24125 1422 5,9 do Norte tinham a posição de tentar cessar o tráfico, sob pena de haver
Alagoa Nova 5951 1024 17,2 10522 419 4,0 um esvaziamento de escravos na região, o que acarretaria enormes
Pilar 7249 1982 27,4 9191 1191 12,7 prejuízos para a lavoura. Foi nesse sentido que o governo provincial da
Pedras de 6,8 Paraíba estabeleceu o imposto de 100$000 entre os anos de 1856-1860.
- - - 16654 1145
Fogo Na década de 1860, esse imposto cairia para 25$000.
Ingá 8316 693 8,3 20173 1308 6,5
Os anos de 1860 foram marcados pela recuperação da economia
Campina
14449 3446 23,8 13999 1105 7,9 paraibana. Devido ao desenvolvimento da lavoura algodoeira para
Grande
S.João 9912 1538 16,7 14471 642 4,4 atender às solicitações do mercado internacional, as rendas provinciais
A. do Monteiro — - - 9891 611 6,2 cresceram, tomando desnecessário cobrar altos impostos pela exportação
Cabaceiras 7551 1013 13,4 7557 587 7,8
de escravos, considerando que a retomada do crescimento económico
Patos — — - 13265 830 6,2
definiria o nível de necessidade dessa mão-de-obra. É importante
Santa Luzia 4522 544 12,0 3964 335 8,4
Pombal 4183 915 20,2 11800 1800 10,0 observar, também, que a venda de escravos, a partir da década de 1860,
Catolé do seria uma importante renda para seus donos, não sendo politicamente
6135 1108 18,0 16005 1106 6,9
Rocha interessante para a Província inviabilizar seu comércio com altos
Piancó 7894 997 12,2 13057 612 4,7 impostos, como os cobrados nos anos de 1850.
Misericórdia - - - 14018 628 4,5
A década de 1870 seria marcada pela crise da lavoura paraibana,
Souza 14109 3446 24,4 28350 1326 4,7
Cajazeiras - - - 12572 403 3,2 havendo, assim, um aumento no comércio de escravos. A crise também
Total 184595 28546 15,5 354700 21526 6,0 afetava os cofres da província, o que possibilitou ao governo aumentar
novamente o imposto de exportação de escravos para 50$000.
Fonte: GALIZZA, 1979, pp.83-84.
A grande seca de 1877-79 levou agricultores e criadores a se
O tráfico interno de escravos era incentivado pela crise da desfazerem de seus escravos, medida bem recebida pelos cafeicultores,
economia açucareira e algodoeira e foi acentuado durante a seca de por ser um período de expansão de sua lavoura, principalmente no Oeste

47
Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

paulista. Os dados arrolados para o período demonstram ter havido o As alforrias, em menor escala do que o tráfico interprovincial.
desembarque de 166 escravos no Porto do Rio de Janeiro, procedentes contribuíram para diminuir o número de cativos na Paraíba. No período
da Paraíba. Desses, 47,5% tinham a idade de 16 a 30 anos, e, pelo menos compreendido entre os anos de 1850 e 1888, foram arroladas 1.052
25,2%, tinham idade inferior a 15 anos. cartas de alforria, das quais 56,5% foram emitidas para escravos do
O elevado número de escravos exportados na faixa etária de 3 a 16 sexo feminino e 43,5% para o sexo masculino.
anos deve-se ao fato de ser essa a idade de maior produtividade. Quanto Essa diferença pode ser analisada quando se considera que a
ao considerável número de escravos menores de 15 anos, pode-se deduzir demanda de braços para trabalhar nas lavouras do Sul era por escravos
que tenha sido para acompanhar seus pais, conforme o determinado na do sexo masculino, pois eram considerados mais produtivos e, por isso,
lei de 1871 que previa a preservação da família escrava". seus proprietários obtinham um valor superior no mercado de escravos.
A seca gerou fome e desorganização dos setores produtivos do Assim, detecta-se a permanência de um número mais elevado de escravas
Sertão, levando muitos escravos a fugirem das fazendas, alguns a se na província, o que talvez explique por que havia uma frequência maior
tomarem salteadores e outros a integrarem grupos de bandoleiros. de alforrias para mulheres cativas.
O escravo praticamente desapareceu das engenhocas do sertão Várias foram as formas de concessão de alforrias. Gratuitas,
paraibano, responsáveis pela produção da rapadura. O número de compradas, condicionais, através do Fundo de Emancipação, por
escravos também diminuiu nos engenhos, depois da seca de 1877-79. testamento ou por ação judicial.
O tráfico interprovincial gerou muita controvérsia no Parlamento.
Dessa discussão, ressaltamos a percepção da elite paraibana através TA BELA 6 - A LFO R RIA S ARROLADAS EM NOVE
M U N IC ÍPIO S PA RA IBA N O S NOS ANOS DE 1850-1888
do discurso proferido na Câmara, na sessão de 24 de março de 1879,
pelo bacharel João Florentino Meira de Vasconcelos, deputado Tipos de Alforrias N° de Alforrias Percentagem
que representava a Paraíba, ao comentar o significado do tráfico Gratuitas 479 45,5
interprovincial de escravos para as províncias do Norte e do Sul: Compradas 270 25,6
Condicionais 199 19,0
É sab ido que a escravatura do Norte está m igrando em Fundo de emancipação 44 4,2
grande escala para o Sul. Está fugindo a escravatura Por testamento 30 2,9
para o Sul aos milhares por ano, e por esta forma a Sem dados precisos 13 1,2
lavoura do Sul vai pouco a pouco refazendo seus Ação judicial 17 1,6
braços. O escravo que vem é moço, sadio, de bonita Total 1052 -
figura; é, finalmente, o bom trabalhador, nem o Fonte: GALLIZA, 1979, p. 143. (Dados arrolados nos cartórios de João Pessoa,
lavrador do Sul o compraria em outras condições.... Areia, Mamanguape, São João do Cariri, Pilar, Bananeiras, Piancó e Guarabira.)
N o Sul encontra-se para o escravo um bom preço, no
Norte o preço é insignificante, porque não há capital As alforrias gratuitas, concedidas sem nenhuma condição,
nem procura {Apud JO F FIL Y , G ., 1977, pp.20-21). 1
correspondiam a 45,5% das cartas. Do total, 62% das 479 cartas foram
outorgadas para o sexo feminino; 21,1% para escravos com idade acima
de 45 anos; 57,4% possuíam idade entre 14 e 45 anos; e 21,5% abaixo
de 14 anos (GALLIZA, 1979, pp. 144-146).
11 Verificar os termos dessa lei no item 2 desse capítulo.

48 49
Ariane Norma de Menezes Sá
Escravos, livres e insurgentes

Do total das alforrias, 25,6% foram compradas. O pagamento


O processo abolicionista desencadeado com a Lei Eusébio de
era feito em dinheiro, mercadoria, gado e imóveis pelo próprio
Queiroz, em 1850, foi revitalizado na década de 1860 com a Guerra
escravo, familiares ou protetores. A Lei do Ventre Livre (1871) criava
do Paraguai, quando muitos dos soldados que iam para as frentes de
a possibilidade de o escravo comprar sua própria liberdade e proibia batalhas eram escravos, que, ao retornarem, deveriam receber sua carta
a revogação da alforria concedida, caso o ex-proprietário alegasse de alforria, conforme lei imperial de 1866. Em relação à Província da
“ingratidão”. Paraíba, não existem pesquisas que tenham disponibilizado a quantidade
O dinheiro para a compra da liberdade poderia advir do trabalho e o nível de participação dos escravos na referida guerra.
do próprio escravo, considerando que o Censo Geral do Império de 1872 Mesmo nas províncias que possuíam poucos escravos, houve
atestava a existência, na Paraíba, de 369 escravos que possuíam renda, pressão por sua emancipação. Na década de 1860 na Paraíba, duas leis
recebendo-a na condição de criado ou jornaleiro, podendo também homologadas pela Assembléia Provincial autorizavam o presidente
ser fruto de economias feitas durante anos com a venda de produtos da província a empregar uma verba na libertação de crianças do sexo
comercializados em feiras, que eram cultivados em terras cedidas por feminino. A de 1864 previa o emprego de 300$000 por criança e não
seu proprietário. poderia ultrapassar cinco contos de réis. Anualmente seriam libertadas
Emdeterminadasconjunturaseconômicas,olequedepossibilidades em média 3 crianças por município (a rigor 2,7 crianças).
de compra da alforria aumentava, como foi o caso de muitas liberdades A outra lei, que substituiu a anterior, foi de 1869, na qual estava
compradas quando do “boom” algodoeiro. Na zona criatória, a forma previsto que o Presidente da Província poderia dispor de 25 contos de
de aquisição de alforria frequentemente ocorria mediante a compra em réis para libertar crianças de 3 a 7 anos de idade, não devendo o governo
dinheiro, apesar de se verificarem casos em que foram compradas com aplicar quantia superior a 600$000 por criança. Por essa lei seriam
gado ou imóveis. libertos, em média, 2 escravos por município (a rigor 1,7 crianças).
Do número total de manumissões compradas, 73,7% ou 199 Ambas, em quase nada, modificariam a face da sociedade escravista
foram pagas pelo próprio escravo, das quais oito foram divididas paraibana, dados os parcos recursos e o pequeno número de alforriados
em prestações; 8,2%, ou 22 alforrias foram compradas por parentes, (GALLIZA, 1979, p. 165-166).
* 'r'

sendo que 16 pela mãe, 3 pelo pai, 2 pelo marido e 1 pelo filho, isso A década seguinte foi marcada pela votação da Lei do Ventre
demonstra que os escravos mantinham relações familiares; 2,6% , ou Livre, quando toda representação paraibana votou favorável ao projeto.
sete alforrias, foram compradas por Sociedades Emancipadoras e 4,8%, Nessa década, houve a criação de jornais e clubes emancipacionistas na
ou 13 alforrias, por terceiros. Província.
Das 1.052 alforrias, 199 foram outorgadas condicionalmente. A lei de 28 de setembro de 1871 previa, entre outras coisas já
Nas cláusulas, constava que os ex-escravos deveriam prestar serviços mencionadas, que os filhos das escravas deveriam ficar sob custódia do
ao seu senhor até sua morte (69,4% ) ou a seus filhos e parentes (6,5%) proprietário da escrava até a idade de 8 anos, quando o senhor poderia
e outras em que se estabeleciam serviços em períodos diversos (24,1%). optar pela indenização prevista em 600$000 mil réis em títulos de 30
Em algumas Cartas, ficava colocado que a alforria podia ser revogada anos ou utilizar a mão-de-obra até os 21 anos. No caso da Paraíba,
em casos de ingratidão, desobediência ou abandono do senhor pelo raramente o proprietário da escrava abriu mão do usufruto do trabalho
liberto. dos menores livres pela Lei do Ventre Livre, não tendo sido encontrados
até agora documentos que demonstrem ter havido ocorrências em que
estes ficassem sob a supervisão ou tutela do governo.
50
51
Escravos, livres e insurgentes
Ariane Nornui de Menezes Sá

Sexagenários foi significativo. De acordo com o Relatório do Presidente


A classificação dos escravos, necessária para a implementação do de Província, Herculano de Souza Bandeira, de Io de agosto de 1886,
Fundo de Emancipação, foi em muito prejudicada pela morosidade das em vinte municípios foram declarados 823 escravos que possuíam a
juntas, e, no caso da Paraíba, em alguns municípios, devido a danos idade de 60 anos ou mais (GALLIZA, 1979, pp.l 76-178).
e a extravios de livros de classificação ocorridos durante a revolta A despeito da maior parte das províncias brasileiras, o movimento
Quebra-Quilos. Essas dificuldades repercutiram na aplicação do Fundo abolicionista na Paraíba despontou no interior em 1873, quando foi
de Emancipação, pois, até 1879, a quota de 1875 ainda não havia sido fundada a Emancipcidora Areiense com 34 membros. A cidade de
completamente gasta em importantes municípios do interior paraibano Areia era um importante entreposto comercial, abastecendo o interior
(GALLIZA, 1979, p.170). com farinha e rapadura. Areia mantinha uma importante relação
A aplicação da segunda quota do Fundo de Emancipação comercial com Pernambuco. O desenvolvimento económico da cidade
na Paraíba foi acompanhada de acontecimentos graves. Muitos possibilitava que muitos filhos de grandes proprietários e comerciantes
senhores matriculavam escravos velhos e inválidos, outros tantos não fizessem cursos superiores em faculdades brasileiras e algumas vezes
declaravam quando da morte do escravo. Em alguns casos, havia uma em universidades européias. Atribui-se a esses dois últimos fatores a
supervalorização do escravo liberto. Portanto, várias foram as formas proliferação das idéias emancipacionistas na região, antes mesmo do
encontradas pelos proprietários de escravos de tirar vantagem económica surgimento delas na capital.
sobre o Fundo de Emancipação - houve, inclusive denúncias de desvio A Emancipadora Areiense defendia a idéia de que a abolição
de verbas por políticos em Areia. ocorresse de forma lenta e gradual, para garantir o direito de propriedade
Como em todo o Brasil, na Paraíba, o número de escravos e acomodação da agricultura. A Emancipadora admitia sócios de outros
libertos gratuitamente foi maior do que aqueles alforriados pelo Fundo municípios, aplicava todo o seu dinheiro na compra de alforrias e, para
de Emancipação. Para o período de 1875-1886, computando-se a divulgar o movimento abolicionista, o número de cartas concedidas
aplicação de seis quotas do Fundo, apenas 783 cativos foram libertos seria publicado em jornais.
por esse meio e, mesmo assim, desse total, 80 alforrias correspondiam A época, foram fundadas sociedades filantrópicas em
a pecúlios do próprio escravo. Mamanguape, Campina Grande e na Capital. Essas sociedades
A questão da escravidão volta a ser discutida pela Assembléia estabeleciam que, de acordo com o montante arrecadado, em datas
Geral, quando o Senador Manoel Dantas apresenta um projeto de comemorativas dos aniversários de fundação, seriam compradas
libertação dos sexagenários. Apesar da crescente diminuição do alforrias para crianças escravas.
número de escravos em sua província, o Deputado paraibano Souza No entanto, o que se pode verificar é que a Emancipadora
Carvalho, representava a mentalidade escravista dos proprietários Areiense só toma uma postura de encaminhar seus esforços para acabar
rurais. Em discurso proferido em 1884, acusava o governo imperial de definitivamente a escravidão em 1883, quando foi reorganizada. Seus
defender a causa abolicionista, sem verificar os danos que a lei traria membros, a partir de então, usaram várias táticas para viabilizar a nova
para a agricultura, colocando ainda que o cumprimento de tal lei apenas postura: enviavam cartas circulares para os proprietários de escravos que
seria possível mediante uma indenização. A lei levaria o nome Saraiva haviam matriculado seus escravos ilegalmente ou possuíam escravos
Cotegipe e só seria aprovada em 1885. cuja filiação era desconhecida na tentativa de instigá-los amigavelmente
Mesmo com a omissão dos proprietários de escravos e as
deficiências das coletorias, o número de alforriados pela lei dos
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Aríane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

a alforriar seus escravos; do contrário, levariam esses casos escusos à Sexagenários foi significativo. De acordo com o Relatório do Presidente
justiça (GALLIZA, 1979, p. 183-185). de Província, Herculano de Souza Bandeira, de Io de agosto de 1886,
Os abolicionistas areienses também promoviam fugas. Utilizavam- em vinte municípios foram declarados 823 escravos que possuíam a
se da imprensa para incentivar a concessão de alforrias. A Igreja, por idade de 60 anos ou mais (GALLIZA, 1979, pp.l 76-178).
meio do Padre Sebastião Bastos de Almeida, teve um papel fundamental A despeito da maior parte das províncias brasileiras, o movimento
nesse processo, ao estimular os proprietários de escravos a libertá-los abolicionista na Paraíba despontou no interior em 1873, quando foi
(GALLIZA, 1979, p.187). fundada a Emancipadora Areiense com 34 membros. A cidade de
Na década de 1880, houve um aumento considerável do número Areia era um importante entreposto comercial, abastecendo o interior
de alforrias no município de Areia. Além do próprio movimento com farinha e rapadura. Areia mantinha uma importante relação
abolicionista, outros fatores contribuíram para que tal ocorresse. Uma comercial com Pernambuco. O desenvolvimento económico da cidade
doença se alastrou pelos canaviais, deixando em “fogo morto” os possibilitava que muitos filhos de grandes proprietários e comerciantes
engenhos da região, gerando uma crise económica de grandes dimensões. fizessem cursos superiores em faculdades brasileiras e algumas vezes
Somada a isso, a decretação de leis antitráfico em várias províncias do em universidades européias. Atribui-se a esses dois últimos fatores a
Sul tomava mais barato alforriar o escravo do que mantê-lo. proliferação das idéias emancipacionistas na região, antes mesmo do
Em Campina Grande, localizada no Agreste, entreposto comercial surgimento delas na capital.
e área de produção de algodão e produtos de subsistência, segundo A Emancipadora Areiense defendia a idéia de que a abolição
Elpídio de Almeida, a maior parte das alforrias foi feita via Fundo de ocorresse de forma lenta e gradual, para garantir o direito de propriedade
Emancipação. Segundo esse autor, até 30 de junho de 1885 existiam e acomodação da agricultura. A Emancipadora admitia sócios de outros
18.295 escravos matriculados, tendo sido aplicado até aquela data seis municípios, aplicava todo o seu dinheiro na compra de alforrias e, para
quotas do Fundo, por meio das quais foram concedidas 783 alforrias divulgar o movimento abolicionista, o número de cartas concedidas
(ALMEIDA, E„ 1979, p.208-209). seria publicado em jornais.
Elpídio de Almeida considera que o baixo número de manumissões À época, foram fundadas sociedades filantrópicas em
espontâneas deva-se ao fato de não ter havido, em Campina Grande, Mamanguape, Campina Grande e na Capital. Essas sociedades
um movimento abolicionista organizado, que incentivasse a concessão estabeleciam que, de acordo com o montante arrecadado, em datas
de alforrias. Dessas poucas, segundo consta nas Cartas, umas eram o comemorativas dos aniversários de fundação, seriam compradas
reconhecimento dos lucros auferidos com a exploração do escravo, daí alforrias para crianças escravas.
resultar sua libertação, outras buscavam garantir o trabalho do escravo No entanto, o que se pode verificar é que a Emancipadora
até a morte de seu proprietário (ALMEIDA, E., 1979, p.208-209). Areiense só toma uma postura de encaminhar seus esforços para acabar
Na capital, o movimento abolicionista ganhou forças quando da deíinitivamente a escravidão em 1883, quando foi reorganizada. Seus
criação da Emancipadora Paraibana, em 1883, que em muito contribuiu membros, a partir de então, usaram várias táticas para viabilizar a nova
para pressionar pelo fim da escravidão na província. O Emancipado foi postura: enviavam cartas circulares para os proprietários de escravos que
o jornal criado pela sociedade para respaldá-la na luta pela abolição haviam matriculado seus escravos ilegalmente ou possuíam escravos
(GALLIZA, 1979. p. 194). cuja filiação era desconhecida na tentativa de instigá-los amigavelmente

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a alforriar seus escravos; do contrário, levariam esses casos escusos à


justiça (GALLIZA, 1979, p. 183-185).
Os abolicionistas areienses também promoviam fugas. Utilizavam-
se da imprensa para incentivar a concessão de alforrias. A Igreja, por
C a p ít u l o II
meio do Padre Sebastião Bastos de Almeida, teve um papel fundamental
nesse processo, ao estimular os proprietários de escravos a libertá-los
(GALLIZA, 1979, p. 187).
Na década de 1880, houve um aumento considerável do número
de alforrias no município de Areia. Além do próprio movimento Livres: da itinerância à inserção no m ercado de
abolicionista, outros fatores contribuíram para que tal ocorresse. Uma trabalho
doença se alastrou pelos canaviais, deixando em “fogo morto” os
engenhos da região, gerando uma crise económica de grandes dimensões.
Somada a isso, a decretação de leis antitráfico em várias províncias do 1. A regulam entação do m ercado de trabalho livre no Brasil no
Sul tornava mais barato alforriar o escravo do que mantê-lo. Século X IX
Em Campina Grande, localizada no Agreste, entreposto comercial
No latifúndio produtivo, assim formado, o trabalho
e área de produção de algodão e produtos de subsistência, segundo
escravo criou condições dificilmente aceitáveis para
Elpídio de Almeida, a maior parte das alforrias foi feita via Fundo de
o homem livre (...), não se tendo preparado a sua
Emancipação. Segundo esse autor, até 30 de junho de 1885 existiam incorporação a este, agia sempre como fator negativo
18.295 escravos matriculados, tendo sido aplicado até aquela data seis a comparação com o cativeiro (CÂNDIDO, 1987,
quotas do Fundo, por meio das quais foram concedidas 783 alforrias P-80).
(ALMEIDA, E„ 1979, p.208-209).
Elpídio de Almeida considera que o baixo número de manumissões Os homens livres pobres somavam quase metade da população
espontâneas deva-se ao fato de não ter havido, em Campina Grande, brasileira estimada em 3 milhões de habitantes no final do século XVIII.
um movimento abolicionista organizado, que incentivasse a concessão De várias origens sociais e etnias, eram negros libertos, brancos, índios
de alforrias. Dessas poucas, segundo consta nas Cartas, umas eram o e os miscigenados mulatos, cafuzos e mamelucos.
reconhecimento dos lucros auferidos com a exploração do escravo, daí Uma parte vivia da rudimentar subsistência, como os sitiantes e
resultar sua libertação, outras buscavam garantir o trabalho do escravo posseiros que, a depender da necessidade de expansão do latifúndio,
até a morte de seu proprietário (ALMEIDA, E., 1979, p.208-209). eram expulsos ou expropriados da terra que cultivavam. Outra parte
Na capital, o movimento abolicionista ganhou forças quando da ficava na condição de agregado ou morador, dependente do arbítrio
criação da Emancipadora Paraibana, em 1883, que em muito contribuiu senhorial. Havia ainda mendigos e desocupados, pessoas que viviam
para pressionar pelo fim da escravidão na província. O Emancipado foi sem local fixo de morada. Vinculados ou não às fazendas e engenhos,
o jornal criado pela sociedade para respaldá-la na luta pela abolição os homens livres pobres não conseguiam inserir-se de forma estável na
(GALLIZA, 1979. p.194). excludente divisão do trabalho da rígida ordem escravista.

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Ariane Norma de Menezes Sá
Escravos, livres e insurgentes

Em uma sociedade em que a base produtiva era determinada pela Em uma sociedade em que o principal setor económico tinha por
escravidão, o homem livre, que não possuía terra ou escravos, estava base a relação de produção escravista, não havia necessidade de criar leis
destinado a ficar à sua margem. Desclassificados para o trabalho, os que regulamentassem os contratos de trabalho com os homens livres.
homens livres pobres incorporavam a seu sistema de valores a bravura No entanto, quando surgiu a possibilidade de se fazer cumprir o fim do
e a ousadia, como forma de reagir a uma sociedade que os excluía, tráfico negreiro, de acordo com o tratado de 1827, aprovou-se a primeira
colocando-os à margem do sistema sócio-econômico, numa terra lei que tratou da legislação do trabalho livre, nacional ou estrangeiro
farta e rica, onde a existência da escravidão acabava impondo a quase no Brasil, em 13 de setembro de 1830. A lei constava apenas de oito
impossibilidade de trabalhar. artigos simples e vagos. Segundo ela, o contrato de trabalho deveria ter
A escassez do trabalho, ao mesmo tempo em que criava laços de o tempo prefixado, que se não fosse obedecido traria como penalidade
solidariedade, gerava disputa em torno dos meios de vida. No entender para o prestador de serviços, a sua prisão. Nesse contrato de trabalho,
de Maria Sylvia de Carvalho Franco, a violência tinha por base: “A poucas eram as obrigações do contratante (GEBARA, 1986, p.77).
definição do nível de subsistência em termos de mínimos vitais, a O não cumprimento do Tratado de 1827 levou a Inglaterra a
emergência de tensões em tomo das probabilidades de subsistência pressionar o Brasil no sentido de que tomasse medidas mais efetivas
e sua resolução através de conflitos irredutíveis...” (FRANCO, 1983, quanto à extinção do tráfico de escravos. O governo regencial brasileiro,
p.57). então em plena organização de sua vida institucional e administrativa,
O proprietário de terra e escravos via os homens livres nacionais enfrentando uma crise interna de grandes proporções com várias
como vadios, que não possuíam aptidão para o trabalho disciplinado revoltas sociais regionais, para tentar viabilizar a atração e a utilização
e regular, preferindo a vadiagem, o vício e o crime. Por sua vez, o do trabalho livre estrangeiro, elaborou uma nova lei de locação de
trabalhador nacional vislumbrava que o fato de trabalhar para alguém serviços, ficando a de 1830 restrita à contratação de um reduzido número
significava ter que se submeter a uma condição semelhante à do de trabalhadores nacionais que se aventuravam ao trabalho na lavoura.
escravo. Os proprietários rurais, ao empregarem a mão-de-obra livre, A nova Eei de Eocação de Serviços, aprovada em 11 de outubro
não abandonavam os maus tratos nem a mentalidade senhorial para se de 1837, tinha o objetivo claro de estabelecer uma política de atração
metamorfosearem em patrões ou empregadores, no sentido restrito da da mão-de-obra estrangeira, em um momento crítico de pressões
palavra. Daí que, para o homem livre pobre, “liberdade significa não internacionais quanto ao tráfico negreiro, para garantir uma maior oferta
só a escolha de locomover-se para um pauperismo itinerante, como de braços para o setor cafeeiro, que começava a expandir-se.
também, sobretudo a possibilidade de desobedecer” (KOWARICK, De acordo com a nova lei, os contratos deveriam ser prefixados.
1987, p. 113). O locatário poderia dispensar o locador, sem ônus para si, quando
A condição de mobilidade dos homens livres pobres que prestavam alegasse motivos de doença, prisão, embriaguez habitual, imperícia
serviços ocasionais à grande propriedade não sofreu grandes alterações para o trabalho, injúria à segurança ou honra do locatário e família e
no século XIX. A crise da escravidão gerou um maior grau de exploração atentado à propriedade. O locador que fosse despedido deveria indenizar
dos escravos, pois, para atrair os homens livres ao trabalho regular, era o locatário, caso contrário seria preso e condenado a trabalhos em obras
preciso oferecer vantagens materiais, algo que os grandes proprietários públicas até que pudesse pagar as obrigações contratuais.
rurais não estavam dispostos a fazer. O trabalhador só poderia rescindir o contrato se o locatário
atentasse contra a honra de sua família ou lhe atribuísse serviços não

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constantes do contrato inicial. Até 1879 esta lei foi a base para elaboração obrigar o nacional a trabalhar, fossem eles livres ou libertos, e também
atrair estrangeiros.
de contratos, ao regulamentar os diferentes sistemas de trabalho em uso,
a meação, aparceria e o colonato. Para discutir esta questão de oferta de trabalhadores para a lavoura
A lei de 1837, pensada para criar uma política de atração aos e outros problemas relativos à agricultura ocorreram, no ano de 1878
imigrantes, acabou gerando uma péssima repercussão internacional. dois Congressos Agrícolas. O do Rio de Janeiro, realizado em julho,
deliberou como sendo a “falta de braços” o problema mais urgente que
Muitas foram as revoltas de estrangeiros no Brasil, sendo a mais retratada
afetava a lavoura e que a solução seria “uma boa lei de locação de
pela historiografia, por ter sido coletiva, a ocorrida na fazenda Ibicaba
serviços”. Desse congresso, o que se pode concluir é que o interesse
de propriedade do Senador Vergueiro, na região Oeste de São Paulo,
era não só garantir a utilização do trabalhador nacional, mas também
em meados do século X IX , envolvendo imigrantes suíços e alemães
manter um fluxo satisfatório de imigrantes (LAMOUNIER, 1988).
(KOWARICK, 1987).
Em outubro do mesmo ano, lavradores do Norte se reuniram no
As questões de trabalho eram mediadas pelos consulados de
Recife para discutir seus problemas. As discussões giraram em tomo
origem do imigrante. Isso levava os países a tomarem uma postura
contrária à imigração para o Brasil, por terem informações prévias das questões de crédito, empréstimos, juros altos e a crise da lavoura e,
do tipo de tratamento dispensado aqueles que vinham trabalhar nas como no Sul, a “falta de braços” se apresentava como um dos grandes
problemas do setor.
lavouras, como foi o caso da oposição feita durante certo período pelos
Dizia-se que,
governos português e suíço.
Os contratos eram feitos de forma a garantir o endividamento do O estado de cousas actual em relação a braços de
contratado, forçando-o a permanecer na fazenda mesmo quando esses trabalho não pode ser permanente, porque nossas
prescreviam. Além disso, para controlar a possibilidade de opção do leis e, mais que ellas, nossos costumes, impostos
colono, a lei penalizava os proprietários que contratassem os serviços até certo ponto pelo actual systema de eleições,
de algum estrangeiro que tivesse vínculo com outra fazenda (GEBARA, sanccionam o habito de vagabundagem e quasi o
1986). direito de preguiça das classes que devem substituir
As rebeliões e greves dos trabalhadores estrangeiros e nacionais, o elemento servi! (...) Os braços que existem e até
as pressões dos consulados internacionais com representação no Brasil, com certa abundancia, mas em razão da desigual
a expansão de fronteiras no Oeste paulista, o fim do tráfico negreiro distribuição da população, quer nas diversas
(1850) e a Lei do Ventre Livre (1871), apontavam para a necessidade propriedades, quer no território onde os povoados
de se criar uma nova lei que obrigasse o trabalhador nacional a prestar são mui distantes dos estabelecimentos agrícolas,
a falta de braços é permanente em certos lugares e
serviços à lavoura e a regulamentar, em novos moldes, o contrato de
épocas do anno.
estrangeiros para atraí-los, oferecendo-lhes garantias de proteção
legal. E para solucionar esta deficiência devia-se
Fazia-se mister, portanto, uma lei que viabilizasse a transição
do trabalho escravo para o livre, de forma que o controle do processo facilitaro bom aproveitamento dos braços nacionais;
ficasse nas mãos dos proprietários rurais. Era fundamental garantir uma esperar a espontânea immigração estrangeira; dar
boa “oferta de braços”, como dizia-se à época. Para tanto, era preciso prompta e severa execução às leis que prohibem
a vagabundagem; fazer leis em que se regulem as

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E s c r a v o s , l i v r e s e in s u r g e n te s

relações entre proprietários e lavradores, e entre


garantiria que os trabalhadores nacionais se empregassem. Para estes, a
locatários e locadores, ou melhor - um código
aplicação da lei ainda era o recurso mais interessante.
rural; tornar official o procedimento pelo crime de
furto! (Congresso Agrícola da Pernambuco. Apud Em 1890, um ano após a proclamação da república, o Decreto n°
LA M O U N IER, 1988, pp.97-98). 213 revogava todas as leis de locação de serviços anteriores e deixava
ao encargo dos Estados a competência de regular sobre os contratos
As acaloradas discussões sobre a necessidade de se criar uma de trabalho. Respeitadas as diferenças regionais tão reclamadas, isto
oferta regular de mão-de-obra para a lavoura levaram o projeto de lei vinha atender, principalmente, aos interesses dos paulistas em realizar
sobre o assunto a ser discutido em caráter de urgência em dezembro uma política de atração de imigrantes, bem como garantir que cada
de 1878. A lei foi votada em 15 de março de 1879. Tratava da locação elite estadual regulamentasse as relações de trabalho entre locatário e
de serviços na agricultura, constava de 86 artigos e dizia respeito às locador de acordo com sua conveniência.
obrigações de locatários e locadores. , Assim, no que diz respeito à regulamentação do trabalho livre,
Atendendo aos anseios dos proprietários rurais, a lei trazia artigos a insistente não integração do homem livre pobre nacional ao trabalho
explícitos contra greves, considerando que, se a recusa ou ausência ao regular e disciplinado, assim como a resistência dos imigrantes às
trabalho fosse coletiva, os infratores seriam detidos até o julgamento formas de contratos impostas pelo governo e senhores de escravos,
que ocorreria em um único processo. fez com que, periodicamente, a legislação que tratava dos contratos de
É importante observar que a lei garantia ordem e regularidade locação de serviços fosse refeita.
dos serviços prestados. Para os trabalhadores nacionais, os contratos Portanto, para analisar a organização do mercado de trabalho livre
teriam um período mínimo de duração de seis anos, sendo renovados em uma sociedade escravista, é de significativa importância considerar-
sem aquiescência do locador, estando reservado para este a prisão, caso se a interferência de todos os agentes envolvidos, bem como partir
não cumprisse as obrigações ajustadas. do princípio que as leis são resultantes de uma carga de experiências
Os libertos teriam seu trabalho regulamentado pela Lei do Ventre históricas presentes no momento de sua regulamentação. Normalmente,
Livre e, a partir dos vinte e um anos, seriam regidos pela lei de 1879. elas trazem para o campo jurídico o que já estava colocado socialmente,
A lei que surgiu como solução para os problemas da lavoura e seja como experiência, seja para viabilizar o projeto de uma classe, seja
para garantir uma transição lenta e segura para a questão do trabalho no para consolidar um processo de mudança irreversível.
Brasil, aos poucos começou a ser questionada.
Para alguns, a “liberdade de trabalho” nos contratos seria a 2. O trabalho livre no Norte A grário
solução para atrair os imigrantes, pois a minuciosidade da lei de 1879
emperrava a dinâmica das relações de trabalho, devendo os contratos A economia dessa região foi estruturada com base na grande
ficar ao arbítrio das partes contratadas. propriedade e no trabalho escravo. As condições naturais geraram
Para outros, aqueles que não conseguiam acompanhar o subdivisões espaciais, com especializações económicas distintas. A
desenvolvimento económico do setor cafeeiro, manter as leis de locação Zona da Mata desenvolvia a cultura da cana-de-açúcar. O Agreste, que
de serviços era a única saída para garantir mão-de-obra, pois sem as em algumas conjunturas produzia açúcar, juntamente com o Sertão,
penalidades previstas e sem a repressão à ociosidade, dificilmente se dedicava-se à pecuária e, a depender das solicitações do mercado
internacional, ambos aumentavam o cultivo do algodão (MONTEIRO,
1980, p. 35).
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A região Norte, durante o período pesquisado (1850-1888), acompanhadas de surtos de epidemias como o cólera-morbo, o tifo e a
atravessou uma grave crise social, que tinha como base a grande varíola, levavam populações de vilas inteiras a migrarem para a Zona
concentração de terra, aprofundada pela crise do setor agroexportador e da Mata. A escassez de alimentos e seus altos preços geravam a fome,
agravada pelas periódicas secas. a violência e a morte, acompanhadas da falência de inúmeras casas
O setor económico mais importante da região enfrentou uma comerciais. A seca que mais catástrofes trouxe para a região, durante o
significativa crise. Os preços de seu principal produto de exportação, período pesquisado, foi a de 1877-1879, sem se considerar os frequentes
0 açúcar, caíram a uma média anual de 1%. Isto ocorria devido à repiquetes, pequenas manifestações de seca sem consequências
concorrência do açúcar de beterraba no mercado europeu e sua produção, calamitosas, ocorridos nos anos de 1851, 1853,1860,1865,1866, 1869
a partir da cana-de-açúcar, em áreas de influência económica das nações e 1870 (ALMEIDA J„ 1980, p.181).
industrializadas, onde o grande capital investia em uma tecnologia mais As contínuas secas e crises da agricultura desequilibravam o
moderna que barateava a produção (FRAGOSO, 1990, p. 152). orçamento das províncias, uma vez que geravam queda na arrecadação
Mesmo assim, os dados apontam para um crescimento da de impostos - daí os insistentes pedidos de ajuda financeira dos
exportação do açúcar a uma taxa anual de 0,27% entre os anos de 1850 presidentes provinciais ao governo imperial, para sanar os problemas
mais elementares.
e 1910. Do que se deduz que houve um desenvolvimento da produção
O agravamento da crise levava os proprietários rurais a utilizarem
açucareira na região considerada.1
empréstimos com altas taxas de juros para saldar seus compromissos. A
Extemamente isso pode ser explicado pelo aumento demográfico
dos países consumidores - europeus e Estados Unidos - que solicitavam descapitalização destes senhores obrigava-os a se desfazerem de parte
de seus escravos, vendendo-os para o Sul. As reclamações que eles
uma quantidade maior do produto. Do ponto de vista interno, foi
faziam eram sempre as mesmas: falta de trabalhadores e de capitais;
possível ampliar a capacidade de produção da economia canavieira
altas taxas alfandegárias (13% para o açúcar e de 9% para o algodão) e
através da expansão das plantações, sem se fazer necessários muitos
a impossibilidade de melhorar as técnicas empregadas devido à falta de
investimentos, dada a existência de grandes extensões de terra. Ao
crédito agrícola (MONTEIRO, 1980, p.46).
mesmo tempo, passou-se a investir capitais na modernização dos
engenhos, principalmente a partir da década de 1870. Esses fatores, O tráfico interprovincial de escravos era um dos sintomas mais
somados à forma como se dava a apropriação do sobretrabalho, explicam importantes para se detectar o aprofundamento das diferenças regionais,
a tendência ao desenvolvimento económico em meio a crise. identificadas desde a década de 1830, quando a cultura do café superou
O segundo mais importante produto de exportação da região, o a do açúcar e a do algodão.
algodão, a partir da década de 1830, sofreu uma significativa queda de As caravanas de escravos rumo ao Sul cafeicultor comprovavam
preços devido à concorrência do algodão norte-americano, só voltando a crise que o Norte passava, pois a rentabilidade da economia daquela
a recuperar um bom lugar no mercado mundial, durante a Guerra de região possibilitava uma maior capacidade de compra no mercado interno
Secessão nos Estados Unidos (1861-65). de escravos. A década de 1870 marcou o auge do tráfico interprovincial
A crise sócio-económica que se abatia sobre a região Norte era de escravos, devido, sobretudo, à severa seca que assolou o Norte e à
agravada pelas periódicas secas causadoras de altas taxas de mortalidade, falta de capitais para investir na produção. Nos anos de 1860, a região
concentrava em média 50% dos escravos, no ano de 1887 tinha apenas
1 O Brasil durante o século XIX perde, gradativamente, a posição de principal 28% da população escrava do país.
exportador de açúcar para a Inglaterra. Com a virada do século, também é preterido
no mercado Norte-americano.
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TA BELA 7 - PO PU LA ÇÃ O E S C R A V A N O N O R T E D O nomeada pela Câmara dos Deputados, em 1875, para estudar os meios
B R A SIL de auxiliar a lavoura, teve como uma de suas principais conclusões
que:
ANO BRASIL NORTE
1864 1,717 milhão 774.000
Dispense o governo séria e efficaz protecção aos
1874 1,540 milhão 436.000
fazendeiros e senhores de engenho que conseguirem
1884 1,240 milhão 301.000
fixar população brasileira em seus estabelecimentos,
1887 720 mil 172.000
ou condensá-la em núcleos organisados; crêe, para
Fonte: CONRAD, 1978, p.77-78. lhe dar educação e hábitos de trabalho rural, colonias
agrícolas em certa e determinada escala; favoreça-os
com isenções de serviços de exército e marinha, afim de
O tráfico interprovincial, que diminuiu consideravelmente o
que essa população se não afaste dos povoados e centros
número de escravos na região Norte, não significou a adesão dos agrícolas; e este germen de trabalho, fixando-se no solo
proprietários rurais à causa emancipacionista. Pelo contrário, em dois por amor da propriedade, e tendo, para reger-se uma boa
Congressos Agrícolas realizados no Recife em 1878 e 1884, duas lei de locação de serviços, ha de desenvolver-se em largas
proporções, formando o mais importante, aproveitável e
questões foram insistentemente frisadas pelos participantes: a falta de
barato pessoal da lavoura (Melhoramentos da lavoura.
trabalhadores e o perigo de aceleração do processo abolicionista. Apud LAMOUNIER, 1988, p. 125-126).
O tráfico e a abolição da escravidão não impediram que o setor
açucareiro nortista se desenvolvesse. Se, em meados do século X IX , o Entre os proprietários rurais nortistas, reunidos no Congresso
número de escravos que trabalhava nas plantações de cana-de-açúcar Agrícola de 1878, a solução que se apresentava para a lavoura era a
era proporcionalmente de três, para cada trabalhador livre, de acordo utilização da mão-de-obra nacional. Segundo eles, sendo melhor
com o Censo de 1872, na região em geral, o número de livres superava distribuídos entre cidade e campo e havendo uma legislação eficiente
o de escravos em todos os tipos de ocupação (FRAGOSO, 1990, p. que garantisse a fixação dos trabalhadores nacionais nas regiões dos
155-156). engenhos, a “vadiagem” podia ser controlada.
Isso deve ser entendido ao se considerar que o tráfico É neste sentido que os deputados nortistas, desde 1877, vinham
interprovincial de escravos deixou os setores produtivos descobertos. discutindo na Câmara a possibilidade de, com a ajuda imperial, criar
Com o crescimento da economia canavieira, que era extensiva e não colónias agrícolas para fixar o “elemento nacional” à terra e incutir-lhe
possuía um padrão tecnológico moderno, exigindo assim mais terras e a disciplina do trabalho.
trabalhadores, fez-se necessário utilizar-se a mão-de-obra livre, que teve Para concretizar a colonização nacional, proceder-se-ia uma
de ser a nacional, pois não houve uma política consistente de imigração reforma fundiária limitada, cujo objetivo central seria o de criar núcleos
de trabalhadores estrangeiros para a região Norte. de pequenos proprietários agrícolas, que garantiriam uma razoável
Mesmo caracterizando o homem livre e pobre como “indolente” oferta de produtos de primeira necessidade. No dizer do engenheiro
e “vadio”, os proprietários rurais brasileiros, especialmente os nortistas, e economista francês, Henrique Augusto Millet, participante do
em meados da década de 1870, passaram a ver no trabalhador nacional Congresso Agrícola de 1878, que propunha a desapropriação de terras
uma saída frente à inevitável abolição. É nesse sentido que a Comissão da Zona da Mata, estes homens livres poderiam “(...) proporcionar aos

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Ariane Norma de Menezes Sá E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

mesmos engenhos, nas ocasiões próprias, o suprimento de braços de Além disso, há de se considerar o desinteresse do Governo
que precisará sempre as lavouras de exportação erri certas épocas do Imperial na colonização nacional, o que é explicado, em parte, pelo
ano” {Apud M ELO, 1984. p.78). interesse do setor mais dinâmico - a lavoura cafeeira - na imigração
No entender dos deputados, a atuação do governo imperial seria estrangeira, onde o Estado investiu seus esforços.
no sentido de concentrar a população livre e pobre, que se encontrava Em relação à imigração estrangeira, os proprietários rurais,
dispersa na região, em núcleos agrícolas que deveriam ser próximos às reunidos no Congresso Agrícola de 1878 no Recife, pregavam que ela
ferrovias e ao litoral, ou seja, em áreas que margeavam os engenhos. deveria ocorrer espontaneamente, sem ónus para o Governo Imperial
Em Pernambuco, por exemplo, quando da seca de 1877-1879, e, caso isso não fosse possível, que sua subvenção fosse feita de tal
o governo provincial criou quatro núcleos nas cercanias do Recife, forma que as despesas coubessem exclusivamente à região interessada
para atender aos flagelados. A função desses núcleos, de acordo com em fazê-la, ou seja, ao Sul. Os senhores de terra reunidos acreditavam
o governo, seria dividir a grande propriedade, fomentando a pequena que o Governo deveria centrar sua atenção na busca de soluções para
lavoura e a policultura. Sua população chegou a ser estimada em nove garantir crédito barato para a agricultura.2
mil habitantes, mas foram desestruturados quando cessou a ajuda A apropriação e o controle sobre a terra permitiriam aos grandes
imperial aos flagelados da seca em 1880 (MELO, 1984, p.82). proprietários manter o domínio sobre a mão-de-obra livre, que, para
Como havia previsto Henrique A. Millet, em 1876, os senhores de se reproduzir, tinha que se submeter aos seus desígnios, bem como
engenho começaram a fazer oposição ao projeto de criação de colónias viabilizar uma transição do trabalho escravo para o livre, de acordo
agrícolas, argumentando que estas feriam os princípios do liberalismo com seus interesses.
económico, no que se refere à liberdade de venda e compra da força de Alguns fatores contribuíram para uma boa oferta de mão-de-obra
trabalho, uma vez que não dava opção ao trabalhador. No entanto, o que na área canavieira durante o processo de transição.
estava por traz desta crítica era que os proprietários rurais, na década Durante a segunda metade do século XIX, houve migração entre
de 1880, já tinham certa clareza de que a melhor maneira de incorporar as áreas económicas, como é o caso da ocorrida do Agreste e Sertão
o homem livre e pobre ao trabalho, sem grandes resistências, era na para a Zona da Mata. Isso acontecia, sobretudo, devido à expansão ou
condição de morador ou de forma sazonal. consolidação da propriedade fundiária pecuarista que levou à expulsão
As colónias agrícolas, ao garantir uma oferta razoável de mão- de antigos posseiros produtores de alimentos. As migrações entre essas
de-obra nos períodos determinados pela safra de cada região, criavam áreas ocorriam também devido às secas e repiquetes. É possível inferir
um problema sério, pois os proprietários rurais tinham de utilizar que o cumprimento da Lei de Terras (1850) tenha contribuído também
trabalhadores assalariados, o que ia de encontro aos princípios de uma para esse processo.
economia escassamente monetarizada. Do ponto de vista político, os Nesse período foi possível integrar homens livres como os
núcleos agrícolas significavam a existência de certa independência “corumbás”, pequenos sitiantes do Agreste que nos meses de moagem
dos trabalhadores livres e de sua família, pois, por terem uma terra de
onde tirar o sustento, os laços de subordinação dos trabalhadores aos
2 A década de 1870 foi marcada pela crise internacional do capitalismo, quando
proprietários rurais se tomavam frouxos, contrariando os princípios do cada potência industrial tratou de garantir sua própria economia e a de suas áreas
sistema de poder local. de influência. A depressão económica nos Estados Unidos e Europa interferiu na
economia brasileira devido à sua dependência do mercado internacional. Neste
período os bancos suspenderam as operações de crédito.

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Ariane Norma de Menezes Sá

da cana-de-açúcar vinham prestar serviços na Zona da Mata, como de suas terras e passaram a garantir o trabalho regular e disciplinado
forma de complementar seus humildes ganhos. dos livres nacionais, em troca de terra, para que estes cultivassem com
toda a família.
Há de se considerar, também, que, quando da abolição da
escravidão, não houve uma migração em massa dos ex-escravos da No auge da produção açucareira, ou seja, durante o período de
zona canavieira para outras áreas, do que se conclui que não existiu uma corte da cana-de-açúcar, era necessária a utilização de um número maior
perda considerável desta mão-de-obra pelos seus antigos senhores. de trabalhadores; para tanto, contratavam-se os assalariados e diaristas
No caso do Norte, a incorporação do homem livre pobre que não possuíam qualquer qualificação. Estes compunham o segundo
nacional ao trabalho disciplinado e regular, no caso do Norte ocorreu maior contingente de trabalhadores nos engenhos.
mediante a transformação deste em morador-agregado e em assalariado Os dados indicam que, na década de 1860, os salários puderam
subir devido à procura de mão-de-obra pelos produtores de algodão e
(FRAGOSO, 1990).
O mais antigo e conhecido sistema de trabalho utilizado pelos construtores de estradas de ferro. No entanto, na década seguinte, com
grandes proprietários rurais era o de morador-agregado. Em troca de a seca e os repiquetes, houve uma migração em massa para a Zona da
um lote de terra, de onde extraía a maior parte de sua subsistência, o Mata, gerando um excedente de mão-de-obra e causando o declínio dos
morador ficava obrigado a trabalhar para o engenho, cabendo-lhe, entre níveis salariais. Dos assalariados, os únicos que recebiam pagamentos
outras coisas, o trato e o corte de uma tarefa, área correspondente a 625 mais compatíveis com as exigências de mercado eram os trabalhadores
braças de cana de açúcar que, considerando ser cada braça equivalente qualificados e os ligados a serviços administrativos ou técnicos.
a 2,2 m, media 1.375 m. Uma outra forma de utilização do trabalho livre na produção
O morador-condiceiro tinha a obrigação de trabalhar dois ou três açucareira era o sistema de parceria. Ao lavrador era arrendado um
dias por semana nas terras do proprietário. Caso excedesse estes dias, lote de terra, onde este passava a cultivar alimentos e cana-de-açúcar.
ele receberia uma remuneração monetária. O morador-foreiro recebia A produção era dividida entre os dois, possibilitando aos proprietários
uma quantidade maior de terra, tendo de pagar um foro ao proprietário de terra usufruir os lucros sem correr riscos de perda, já que a divisão
e fornecer o cambão, que seria 20 ou 30 dias de trabalho gratuito por dava-se a partir do que concretamente se conseguia produzir.
ano nas terras do senhor. Apesar das queixas constantes dos proprietários rurais nortistas,
Este tipo de relação de produção possibilitou a utilização de um quanto à falta de mão-de-obra, historicamente comprovou-se que foi
trabalhador que custava o mínimo para o empregador, uma vez que possível garantir uma transição do trabalho escravo para o livre, de
aquele garantia seu próprio sustento e de sua família ao desenvolver forma razoavelmente tranquila, utilizando-se os trabalhadores livres
uma agricultura de subsistência. Não sendo inteiramente mediatizada locais: os desempregados, os subempregados e os ingénuos da Lei
pelo mercado, a condição de morador possuía um componente do Ventre Livre (1871). As reclamações, a partir da década de 1870,
camponês, pois sua base era familiar. Esta foi a forma encontrada pelo seriam contra o recrutamento militar, que diminuía a oferta de mão-de-
grande proprietário, para assegurar mão-de-obra barata que substituísse obra, levando-se em consideração o número de convocações do Norte
o escravo, com a segurança de poder sempre contar com ela, pois estava que eram superiores às do Sul, e a favor de uma boa lei de locação
sob seu constante controle. de serviços, em que constassem penalidades para quem não quisesse
Assim, os proprietários trouxeram os trabalhadores que achavam trabalhar (MELO, 1984).
necessários para garantir o processo produtivo para dentro das cercas

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A inconstância e a resistência do homem livre pobie ao trabalho Em uma sociedade em que a economia tinha por base a grande
regular levaram alguns proprietários rurais do Norte a radicalizarem os propriedade e o trabalho escravo, e cujo elemento fundamental de
pedidos de leis repressoras contra a vadiagem e a reclamarem leis que estratificação social era a terra, estruturou-se um grande contingente
estabelecessem o trabalho compulsório. Isso, apesar de não ser sequer de trabalhadores livres que, por não terem acesso à terra, viviam
discutido na Câmara dos Deputados, repercutia entre os homens livres. miseravelmente. O trabalho, quando conseguido, estava abaixo de suas
Já em 1851, ano seguinte à lei que instituiu o fim do tráfico necessidades; quando se integravam à grande propriedade na condição
negreiro, quando o Governo Imperial baixou os Decretos 797 e 798, de agregados, estavam sujeitos a serem expulsos a qualquer momento,
que estabeleciam, respectivamente, o “Censo Geral do Império e o perdendo sua roça e as benfeitorias que haviam feito juntamente com a
“Registro Civil dos Nascimentos e Óbitos”, irromperam revoltas família.
armadas em Pernambuco, Paraíba, Alagoas, com maior intensidade, e A crise do trabalho escravo e a abolição da escravidão não
no Ceará e Sergipe, de forma mais branda, em dezembro de 1851 e significaram a integração do homem livre e liberto a um mercado de
janeiro de 1852, pois espalhou-se a notícia de que estes decretos tinham trabalho nos moldes puramente capitalista, nem tampouco seu acesso
por finalidade reduzir todos os homens de cor e, diziam os mais agitados, aos setores mais dinâmicos da economia de exportação. A região cafeeira
todos os homens livres, a escravos. A esse movimento popular deu-se o optou pela imigração estrangeira, ocasionando a marginalização do
nome de “Ronco da Abelha” (EISEN BERG, 1977, p.212-213). trabalhador nacional nesta área. Na região Norte, este trabalhador foi
A idéia do trabalho compulsório volta à tona entre os homens incorporado muito mais na condição de agregado do que de assalariado,
livres pobres nos primeiros anos da década de 1870, quando os salários ou seja, nesta área foi mais difícil o redimensionamento da nova situação
estavam em alta e a oferta de mão-de-obra reduzida. No final do ano de do trabalhador. É possível explicar este fato através do entendimento da
1874 e começo de 1875, espocaram sedições nas Províncias da Paraíba, crise económica porque passava a região.
Pernambuco, Rio Grande do Norte e Alagoas, que tinham como alvo A solução encontrada pelos proprietários para enfrentar as
as leis recem criadas, como a que instituiu o imposto de consumo dificuldades económicas e manterem seus lucros médios foi expandir
sobre a carne seca e farinha, contra o novo sistema métrico decimal e as plantações na Zona da Mata e nas áreas de criação no Agreste e no
contra a nova Lei de Recrutamento Militar, de 26 de setembro de 1874 Sertão. Desse processo resultou a expropriação de pequenos produtores,
que, de acordo com a notícia difundida, tomava o cidadão escravo. A que viviam nas cercanias das propriedades, e na sua transformação em
ação dos revoltosos era invadir vilas e cidades em grupos de 60 a 600 trabalhadores os quais, em boa parte, se submetiam aos potentados
homens armados, destruir os novos padrões de medidas (daí o nome sob a condição de moradores e jornaleiros, quando não passavam a
do movimento: “Quebra-Quilos”) e incendiar os arquivos das Câmaras engrossar as fileiras do contingente de trabalhadores desempregados.
Municipais, Coletorias e Cartórios (MONTEIRO, 1980, p.129-133). Simultaneamente, aqueles que estavam diretamente envolvidos no
Os homens livres pobres do Norte viviam alarmados com a processo produtivo das grandes propriedades compartilhavam das
possibilidade de serem escravizados: eis aí mais um motivo para se perdas, pois os proprietários, ao aumentarem a exploração sobre os
compreender a insistente resistência deles ao trabalho regular, que trabalhadores, reduziam as roças dos agregados e passavam a exigir
mais dos arrendatários e foreiros.
poderia remetê-los a uma condição não só similar à do escravo, como
Assim sendo, foi possível minimizar a crise económica e superar
também havia o temor de que poderiam tomar-se escravos.
a crise do trabalho escravo, utilizando relações de produção não
propriamente capitalistas, que implicavam baixo nível de monetarização
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Ariane Norma cie Menezes Sá

da Província, contando com nove alunos pobres que se iniciaram na


e, inclusive, em muitos casos, o uso gratuito do trabalho familiar.
matéria do curso primário e nos ofícios de alfaiate e sapateiro. Em 1869,
A extorsão do sobretrabalho foi a forma encontrada pelos grandes
a Escola de Educando Artífices já contava com 34 meninos.
proprietários de, ao reduzir os custos de produção, resistir às flutuações
As Casas de Caridade, criadas pelo Padre Ibiapina, surgiram
económicas do mercado internacional.
na década de 1860 para combater o cólera-morbo que se alastrava na
região. Se, inicialmente, este era o objetivo, nas décadas seguintes elas
3. O trabalho livre na Paraíba
proliferaram na região Norte, com clara definição de serem “uma obra
O declínio da escravidão reforçou a utilização do homem livre de assistência à educação, a fim de curar o operário e preparar para fins
pobre em todos os setores da economia paraibana. Assim como em todo domésticos a mulher pobre dos sertões” (MAR1Z, 1980, p.4).
o Norte, o morador-agregado foi a relação de trabalho mais utilizada, O sucesso destas Casas de Caridade ou de trabalho foi tanto, que
acompanhada pelo assalariamento e pela ampliação do sistema de chegaram a ser criadas vinte e duas na região Norte, das quais nove
parceria. A soldada também foi uma das formas de utilização da mão- estavam localizadas na Paraíba.
de-obra livre. Esta relação ocorria quando o proprietário rural recebia A Paraíba, no período que antecedeu a grande seca de 1877-79,
autorização do juiz para exercer a tutela de um órfão ou filhos de pais passava por uma grave crise. Os surtos de cólera, de 1856 e 1862, e
de conduta irregular, até que esse atingisse a maioridade. a Guerra do Paraguai (1865-1870) causaram baixas consideráveis na
O receio da desorganização da economia, frente ao caráter população. O movimento Quebra-Quilos e a perseguição aos envolvidos
irreversível do fim da escravidão, levou os proprietários rurais a desorganizaram a produção no Agreste que, juntamente com a Zona
sugerirem medidas preventivas, e o governo a intentar soluções. da Mata, não puderam retornar à plena atividade produtiva devido à
No entender desses senhores, era necessário aprovarem-se leis crise dos preços do algodão e do açúcar no mercado internacional. Esta
que obrigassem os homens livres e libertos a trabalhar, sendo atendidos crise repercutia nos cofres da Província, deixando as finanças em estado
pelas leis abolicionistas, que asseguravam a transição gradual do precário.
trabalho escravo para o livre com todas as penalidades previstas para No primeiro ano de seca, o governo provincial tomou algumas
evitar a vadiagem, como também pela lei de locação de serviços de providências no sentido de evitar a migração. Foram montados dois
1879, que ratificava os interesses dos proprietários rurais. depósitos de gêneros alimentícios. Um na capital, sendo a distribuição
Era importante ainda uma nova ideologia do trabalho. Até feita para o Sertão por intermédio de Campina Grande, e outro em
então, este se tinha pautado na violação do trabalhador através da Mossoró, cidade localizada no Rio Grande do Norte. Para comprar os
escravidão, considerando que não só o trabalho era apropriado, mas alimentos e organizar os depósitos, foram nomeados chefes de polícia
que o trabalhador também era propriedade. A partir de agora, o trabalho e inspetores da Tesouraria geral e provincial (ALMEIDA, J., 1980,
deveria ser considerado dignificante e bem maior do homem. Nesse p. 183-184).
sentido, foram criadas instituições que tentaram formalizar essa nova A criminalidade se alastrava pelo sertão. As depredações e
mentalidade, como é o caso da criação, na Paraíba do Norte, de Escolas invasões de coletorias se repetiam. Várias fazendas foram assaltadas.
de Artífices, Casas de Caridade e Colónias Agrícolas. Os latrocínios proliferavam-se. Algumas cenas de antropofagia foram
Na década de 1850, foi autorizada na Paraíba, pela Lei n. 24, retratadas pela imprensa. Era o terror que vagava pelo sertão.
de 4 de julho de 1854, a criação de uma escola de agricultura teórica
e prática. A primeira escola começou a funcionar em 1866, na capital
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A marginalização e a miséria cada vez maior da população


De acordo com dados apresentados por Almeida, de maio a
geravam o banditismo. Inúmeros grupos foram criados e engrossados
setembro de 1878, na capital, morreram 7.073 pessoas, e de janeiro a
neste período. Para a década de 1870, Monteiro identifica a atuação
maio de 1879, 1.596 (ALMEIDA, J., 1980, p.201).
de 14 bandos na Província da Paraíba. Eram formados por escravos
A seca de 1877-79 estimulou o mercado interprovincial de
fugitivos, desertores, criminosos, ex-militares e homens livres sem
escravos, desorganizou a produção onde eles eram utilizados, e
trabalho e sem terra (MONTEIRO, 1980, p.69-72).
contribuiu para um maior aproveitamento de mão-de-obra livre.
Várias cidades tiveram suas cadeias arrombadas. Em Campina
Nesse período, foi implementada a criação de inúmeros núcleos
Grande, alguns presos foram soltos, entre eles estava Alexandre de
coloniais na Paraíba. O objetivo central deles era possibilitar trabalho
Viveiros, indiciado no movimento Quebra-Quilos, apesar de estar
para os flagelados da seca, o que de certa forma serviu para familiarizar
cumprindo pena por outros crimes cometidos antes e depois da
os proprietários rurais com o trabalho livre, bem como para integrar os
sedição.
homens livres pobres ao trabalho produtivo.
A seca expulsava os sertanejos que tomavam o caminho incerto Os núcleos foram implantados:
do Agreste e Litoral. Mamanguape, Campina Grande, Areia, Bananeiras
e a capital eram os portos eleitos pelos retirantes. Este percurso, traçado ... em terras de propriedade de particulares, cujos
pela dor e pela perda de referência, é colocado por dois repentistas: possuidores as cederam para serem cultivadas pelos
“E-me preciso mudar / da terra que tanto amo e moro / Terra que muito retirantes, sob sua administração, e sem outra atribuição
ou compensação que um dia de trabalho dos colonos
adoro / A minha pátria natal / Magino na beira mar / Me entristece o
em cada semana, fornecendo a este o governo, por uma
coração / Lagadiço, lameirão / Pois a fome não é pêca / Nesta tão terrível vez, a ferramenta necessária para o trabalho agrícola,
sêcca / Foge, povo do sertão!” (Ãpud ALMEIDA, J., 1980, p.208). sementes e uma muda de roupa, e alimentos por espaço
Muitos foram os créditos abertos pelo presidente de província. de oito meses. (Exposição com que Dr. José Pereira
Várias foram as remessas oficiais de socorro para os setores vitimados. Júnior passou a administração ao Exmo. Sr. Padre Felipe
Benício de Fonseca Galvão - Segundo Vice Presidente,
A iniciativa particular de ajuda aos deserdados da seca também foi
p.3. Apud ALMEIDA, J., 1980. p.205).
importante. Mas, tudo era pouco, frente à miséria generalizada.
Obras públicas foram iniciadas para gerar empregos, como
O governo da Província da Paraíba, temendo pela segurança social
a construção da cadeia e do Paço Municipal de Campina Grande, a
e considerando o grande número de flagelados que, fugidos da seca,
abertura de novas cacimbas, também neste município, e a continuação
saíam do interior para o litoral, encaminhou seus esforços no sentido
de um açude em Princesa Isabel.
de diminuir os problemas sociais que a aglomeração poderia causar.
Fadiga, inanição, doenças, desonra, mendicância e o terror eram
De um lado, incentivou uma política migrantista para estimular parte
os companheiros de viagem dos flagelados, que sequer sabiam onde
destes retirantes a saírem para outras regiões. E, por outro, para garantir
conseguiriam chegar.
a permanência de mão-de-obra na Província, implantou colónias
A capital, segundo cálculo do presidente da província, Ulysses
agrícolas e investiu em obras públicas. Eis a justificativa apresentada:
Vianna, foi invadida por 35 mil retirantes; esses dormiam ao relento ou
ficavam amontoados no saguão do convento de São Bento, no mercado, No intuito de prever distúrbios, e talvez crimes que a
na escola pública ou ao redor do palácio presidencial. aglomeração de tanta gente ociosa poderia ocasionar e
também na esperança de utilizar os seus serviços para
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compensação, posto que fraca, dos dispêndios públicos, Durante a segunda metade do século X IX , intensifica-se o uso
recomedei a todas as comissões que empregassem os da mão-de-obra livre no Norte. Os baixos níveis de remuneração
socorridos em trabalhos públicos, como construção de demonstram a existência de um grande contingente de homens livres
açudes, cadeias, estradas, etc... (Mensagem apresentada
e libertos que, com a crise do setor agro-exportador, era duramente
à Assembléia Legislativa em 12 de junho de 1877, pelo
então Presidente da Província da Paraíba, Esmerino
explorado. Esta exploração vai gerar tensões sociais, cujos movimentos
Gomes Parente. A pud D W IZ , 1988. p.80.) de revolta popular mais significativos foram o “Ronco da Abelha” e o
“Quebra-Quilos”. Era o prenúncio das modificações que ocorriam na
Foram formadas 31 colonias agrícolas, das quais 24 ficavam na organização sócio-econômica da região.
comarca da capital, 6 na de Mamanguape, e uma na de Independência, No dizer de Hoffnagel:
atual Guarabira. Estes núcleos reuniram, inicialmente, cerca de 8.920
pessoas, que correspondiam a 1.882 famílias. Devido ao abandono O homem livre pobre no campo, fosse ele parceiro,
meeiro, morador, pequeno sitiante, arrendatário,
ou mesmo à expulsão dos que se recusavam a trabalhar e daqueles
foreiro, etc., precisava se submeter ao domínio do
de condutas irregulares e maus hábitos, como sugeriu Pereira Júnior,
latifundiário que monopolizou o acesso àterra. De um
presidente da província, três núcleos foram fechados: Barra de lado, ele permanecia à margem da economia porque
Grammame, Jacaré e Miriri do Lagamar (ALMEIDA, 1980, p.206.). suas atividades produtivas foram determinadas
A atuação do Estado mudou qualitativamente durante a seca pelos grandes proprietários, Ao mesmo tempo,
ocorrida em 1877-79. Tratava-se de uma intervenção com base em porém, este segmento da população se constituiu
um projeto modemizador cuja ênfase era estabelecer uma política de em um elemento altamente integrado no sistema
mão-de-obra livre na região. Era importante manter um contingente de económico, dado seu papel como fornecedor de
trabalhadores livres que se habituasse ao trabalho regular e disciplinado, mão-de-obra e produtor de mercadorias destinadas
para, assim, promover o processo produtivo, quando da sua retomada ao mercado interno e externo (HOFFNAGEL, 1984.
P-4 -).
após a seca.
A política do Estado para atenuar os efeitos da seca e das tensões
Mas, longe de ser passível à exploração a que tinha de submeter-
sociais que a aglomeração de pessoas famintas causaria, foi reduzida
-se para garantir a sobrevivência, o homem livre pobre era capaz de
pela participação dos proprietários rurais, que doaram uma grande
participar de atos coletivos de rebelião, a exemplo do “Ronco da Abelha”
quantidade de terra para a criação dos núcleos agrícolas.
e do “Quebra-Quilos”. Sobre eles, falaremos no próximo capítulo.
Mesmo assim, a permanência dos núcleos coloniais ficou
comprometida devido ao fim da ajuda imperial aos flagelados em 1880,
e também pela compreensão dos proprietários rurais que acreditavam
ser a condição de morador a forma mais adequada de incorporar o
homem livre pobre ao trabalho. Utilizar assalariados ia de encontro
às necessidades de uma economia na qual a circulação de moedas era
restrita.

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C a p ít u l o I I I

Insurgentes: A belhas e Q uebra-Q uilos

As revoltas sociais tratadas nesse capítulo não poderiam ser


classificadas como revolucionárias, posto que não havia um programa
determinado de tomada de poder, com líderes mobilizando a população
para lutar contra determinados setores e assim alcançar objetivos
previamente estabelecidos.
As reivindicações que norteavam esses movimentos diziam
respeito a uma situação imediata, envolvendo o cotidiano de pessoas
que momentaneamente tomavam-se agressivas, quando na normalidade
eram mulheres e homens pacíficos. Os líderes, geralmente, surgiam de
forma espontânea e desapareciam sem deixar rastros.
Na documentação cotejada, esses movimentos são definidos como
sedição, rebelião ou insurreição. Acreditamos que, para dar a conotação
de tratar-se apenas de perturbação da ordem pública, sem lhes atribuir
uma conotação política ou social.

1. "R on co da A belha"

Dezembro de 1851. Grupos armados invadem a vila do Divino


Espírito Santo, Termo de Pau d’Alho, localizada na província de
Pernambuco, com o propósito de rasgar um edital afixado pelo Juiz
Municipal, acreditando ser uma declaração de escravização. Era a
primeira manifestação da revolta social que ficou conhecida como
“Ronco da Abelha”. Os papéis afixados, que seriam motivos de tantos
desentendimentos, eram os Decretos 797 e 798, homologados pelo
governo imperial, em 18 de julho de 1851.

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Ariane Norma de Menezes Sá

O Decreto 797 determinava que, após os esclarecimentos feitos


à população, através de editais afixados nas Igrejas e publicados em
jornais, far-se-ia o arrolamento da população no dia 15 de julho de
1852, para o “Censo Geral do Império”. O “Censo”, acreditamos, seria
muito importante, para que o governo imperial pudesse dimensionar
o contingente populacional e localizar a mão de obra como forma de
tentar resolver a questão do trabalho, considerando a extinção do tráfico
negreiro, ocorrido um ano antes e que tomava irreversível o fim da
escravidão. Era importante observar a realidade de cada região, para,
assim, definir uma política que assegurasse trabalhadores para a lavoura,
considerando suas especificidades.

Ronco da Abelha (1851-1852)


O Decreto 798 estabelecia que o “Registro Civil dos Nascimentos
e Óbitos” da população, com base na cor da pele, seriam feitos pelo
escrivão dos Juízes de Paz dos Distritos, a partir de I o de janeiro de
1852. Sua implantação gerou um clima de revolta entre os homens
livres pobres. A desconfiança da possível redução à condição de escravo
aumentava por saber que, a partir de então, o “Registro de Nascimento e
Óbitos”, não mais seria feito pelo padre, em quem a população pobre e
excluída tinha plena confiança e sim por repartições leigas, devendo-se
declarar a cor da pele. “A idéia de que o captiveiro dos homens de côr
era o fim do registro espalhou-se e alguns espíritos fracos subiu a altura
do fanatismo” (Relatório do Presidente de Província da Paraíba, Sá e
Albuquerque, apresentado à Assembléia Provincial, em 1852. {Apud
PINTO, 1977, p. 210)
Foi em oposição a estes Decretos que, nos meses de dezembro
de 1851 e janeiro de 1852, houve manifestações de gmpos de pessoas
armadas nas Províncias de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, de forma
mais intensa, e, em menor grau, no Ceará e em Sergipe. Na Paraíba
atingiu oito cidades e vilas, identificadas no mapa abaixo.

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Ariane Norma de Menezes Sá
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Antecedentes históricos
TA BELA 8 - ESTA TÍSTIC A D A POPULAÇÃO LIVRE E
O fim do tráfico negreiro em 1850, o aumento do preço do escravo
ESCRA V A D A PR O V ÍN C IA PO R MUNICÍPIOS (1851)
no mercado interno, as reclamações dos proprietários rurais da falta de
trabalhadores para a lavoura, a reivindicação crescente destes setores por Comarcas N° de Freguesias Livres Escravos
leis contra a vadiagem, somada a uma maior exploração do trabalho dos freguesias
pequenos produtores, foram fatores que tomaram explosiva a situação Cidade de Alhandra 24.691 4.391
Villa do Pilar 7.249 1.982
do campo nortista (EISEN BERG, 1977, p.213). a . '«
E
Villa de Mamanguape 11.161 2.398
A estatística da população da Província da Paraíba do Norte, no
Cidade D’Arêa 19.240 2.020
ano de 1851, demonstra que o número de livres é bem superior ao de
Villa do Ingá 8.316 693
escravos. É provável que essa evidência tenha estimulado a disseminação (D Villa de Cabaceiras 7.551 1.013
dos boatos sobre uma possível escravização dos homens livres pobres C
ZJ V. de Alagoa Nova 5.951 1.024
D)
que não fossem brancos. <D Villa de Bananeiras 26.966 1.785
</>
V. de Independencia 12.291 1.246
Villa de Campina 14.449 3.446
Villa de São João 9.212 1.538
Villa de Pombal 4.183 915
(D
L. Villa do Catolé 6.135 1.108
(D
O
£■> Villa de Piancó 7.894 997
|2 Villa de Patos 4.522 544
Villa de Souza 14.109 3.446
Soma 183.920 28.546

Comarcas Livres Escravos Total


Primeira 43.101 8.771 51.872
Segunda 103.976 12.765 116.741
Terceira 36.843 7.010 43.853
183.920 28.546 212.466
Fonte: PINTO, 1977, p.208.

A década de 1840 foi rica em transformações na organização


produtiva do Agreste. Entre os anos de 1841 e 1849, a produção do
algodão quase triplicou para atender às solicitações das indústrias
têxteis inglesas.
O pequeno agricultor agrestino, até então, fora habituado a
plantar o algodão ao lado dos produtos de subsistência cujo excedente
era vendido na feira, para que ele, com o apurado, pudesse comprar
outras mercadorias.
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Ariane Norma de Menezes Sá E s c r a v o s , l iv r e s e i n s u r g e n t e s

Com a procura do algodão pela Inglaterra, os proprietários rurais, Campina Grande, Guarabira, Areia,'Araruna, Ingá, Fagundes e Alagoa
Nova (JOFFILY, G., 1977, p.25).
para aumentar seus lucros, passaram a exigir dos pequenos produtores,
de certa forma antes autónomos, que plantassem mais algodão e que Em algumas localidades, os rebelados solicitavam as informações
pelo menos a metade do produto final ou o dinheiro de sua venda fosse e, tão logo as obtinham, se dispersavam, sem causar nenhum prejuízo
material. Já na vila de Ingá houve confronto entre autoridades e
entregue como pagamento pelo usufruto da terra.
insurgentes:
Alguns mecanismos de exploração da mão-de-obra passaram a
ser utilizados, a exemplo da dívida, através da qual o proprietário da terra
Segundo as informações que obtivemos, um grupo de
adiantava sementes e equipamentos, ficando o trabalhador endividado mais de duzentas pessoas appareceu na referida villa do
e, portanto, preso à fazenda. A “soldada” foi outra forma de garantir a Ingá, e vindo a casa do escrivão de paz apoderou-se de
permanência do trabalhador nas propriedades; bastava um proprietário todos os papeis e livros que encontrou, com o fim de obter
rural alegar ao juiz ser o menor órfão e este passava a ter sua tutela a lei ou regulamento acerca dos nascimentos e obitos,
e destruir tudo que existisse e dissesse respeito a este
em troca de alimentação, vestuário e abrigo. O assalariamento também
negócio. Esse grupo dirigiu-se a casa do Sr. Ladisláo e
passou a ser utilizado (HOFFNAGEL, 1984). consta que apoderou-se de algumas armas que encontrou,
Os novos níveis de exploração a que os homens livres pobres e destruiu alguns moveis. Em seguida foi a casa do Sr.
passaram a ser submetidos os deixavam receosos de uma possível Euffazio, onde nada encontrando, nenhuma hostilidade
escravização, o que lhes pareceu vir com os Decretos 797 e 798. Estes praticou; e tendo imposto ao Dr. Peixoto a obrigação de
evacuar a villa dentro de 24 horas, retirou-se e dissolveu-
ficariam conhecidos como a “Lei do Cativeiro”, posto que tais “papéis”
se (Jornal Argos Paraibano do dia 26 de fevereiro de
classificariam as pessoas de acordo com a cor da pele. 1852. Apud PINTO, 1977, p.213-214, grifo meu).

Táticas utilizadas pelos insurgentes Os alvos dos insurgentes acabavam sendo os poderes imperiais
constituídos. Em seus representantes identificavam aqueles que
Foi com a intenção de impedir a aplicação da “Lei do Cativeiro”
poderiam, de forma arbitrária, instituir o estatuto da escravidão. O medo
que grupos armados de cacetetes, bacamartes e clavinotes (espingardas
os movia em direção às repartições públicas, com o claro objetivo de
estriadas) entraram nas localidades e passaram a exigir que as autoridades
obter a lei ou regulamento acerca dos nascimentos e obitos, e destruir
lhes entregassem os Livros de Registro. Em seguida, pediam aos padres
tudo que existisse e dissesse respeito a este negócio (Cf. grifo acima).
que lessem o “papel da escravidão”. Reunidos em grupos de 300 a 600
As notícias sobre os decretos teriam se espalhado graças aos
pessoas, ouviam atentamente a leitura.
mercadores que, com suas tropas de animais, percorriam várias feiras,
Frequentemente, as pessoas verificavam se novos editais eram
realizadas em diferentes dias da semana, e levavam as informações do
fixados nas portas das Igrejas. Há informações de que na Serra de
que ocorria em outras localidades. Segundo Joffily, nas feiras do Agreste
Araruna algumas mulheres foram assistir à missa levando cacetes e
e chapadas da Serra da Borborema, as notícias sobre a aplicação dos
pedras escondidas como forma de reagir a qualquer investida do poder
novos decretos diziam que, em alguns lugares, registros já haviam sido
público (PINTO, 1977, p.2-14).
feitos arbitrariamente, onde constava se a criança seria considerada
Na Província da Paraíba, na primeira semana de fevereiro de 1852,
livre ou escrava (JOFFILY, G., 1977).
ocorreram tumultos quase simultâneos nas feiras de Alagoa Grande,

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Ariane Norma de Menezes Sá E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

A repressão e os rebeldes. Não se tem notícia da instauração de processos crimes


Afinal, ficava difícil determinar culpas quando a ação dos sediciosos
Ao ser informado da ocorrência de motins em algumas localidades ocorria de surpresa e de forma rápida, para depois fugirem sem deixar
da Província de Pernambuco, e considerando a proximidade e afinidade vestígios:
que a Paraíba tinha com sua vizinha, foi que o Presidente Sá e
Albuquerque tomou suas primeiras providências: ...mas as autoridades, ostentavão o seu carater
publico e coadjuvando-se reciprocamente,
...E com effeito poucos dias depois chegaram-me conseguirão chamaro povo a obediência, perdoando-
communicações officiaes de que nas villas de Ingá, lhe esses desvarios que não tinhão feição de crimes
Campina Grande, Alagoa Nova e Alagoa Grande, o povo
individuaes. Perdoar o erro do povo, esquecer o
desrespeitando as Autoridades, reunido em grupos mais
seu louco e criminoso entusiasmo pelas ideas de
ou menos numerosos commettia desacato contra a lei
e contra as autoridades. Naturalmente amigo do povo liberdade nunca agredida, não perseguil-o com
e mais condoído de seu erro do que desejoso de sua processos e outros vexames, reabilital-o emfim, para
perseguição e martyrio, mandei instruções às differentes uma vida de cidadão brazileiro amigo da ordem e de
autoridades ' no sentido de ser destituído esse fatal seus verdadeiros interesses, foi o meu pensamento
prejuiso com o emprego de meios brandos e suasorios. (Relatório de Presidente de Província da Paraíba, Sá e
Infelizmente porem, em alguns lugares o emprego desses Albuquerque, apresentado à Assembléia Provincial,
meios não foi sufficiente e as Autoridades judiciosamente em 16 de fevereiro de 1852. Apud PINTO, 1977,
interpretando as instrucções que de accordo com o p.211, grifo meu).
Chefe de Policia transmiti-lhes, fizerão uzo moderado e
prudente dos meios de força e conseguirão restabelecer
a ordem publica já gravemente alterada (Relatório do De acordo com o presidente, era preciso perdoar o erro do povo,
Presidente de Província da Paraíba, Sá e Albuquerque, que sequer parecia entender os motivos que o levava a se manifestar.
apresentado à Assembléia Provincial, em 16 de fevereiro Essa benevolência era uma forma de desqualificar os insurgentes, ao
de 1852. Apud PINTO, 1977, p.211). ■ tempo em que lhes tirava qualquer significação política, considerando
a ação criminosa dos mesmos em defesa de ideas de liberdade jamais
A análise deste documento oficial permite verificar que a repressão ameaçadas.
ao movimento “Ronco da Abelha” teve dois momentos distintos. Também não se justificava uma repressão violenta, considerando
Inicialmente, a ordem era tentar debelar a rebelião através da persuasão, que os decretos do Registro de Nascimento e Óbitos e o Censo Geral
evitando assim problemas sociais mais graves, bem como uma possível sequer seriam aplicados, pois o governo imperial, preocupado com a
desorganização do setor produtivo. O governo queria evitar prejuízos
repercussão que vinham causando, e admitindo falhas na sua consecução,
de ordem económica e política.
preferiu revogá-los em 29 de janeiro de 1852 pelo decreto 907.
Informado de que no interior o povo armado não atendia
Além da utilização das forças legais, foram organizadas “santas
aos apelos das autoridades, o presidente Sá e Albuquerque, então,
missões” com o objetivo de desarmar a população e estabelecer a paz.
encaminhou destacamentos da força policial e da Guarda Nacional para
Em 5 de janeiro de 1852, chegava a Pau d’Alho o capuchinho Frei
Ingá, Areia, Alagoa Grande e Alagoa Nova. No entanto, as evidências
Caetano de Messina. De acordo com as pregações que fazia, sua missão
demonstram não ter havido nenhum confronto entre as tropas legais

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Aricine Norma de Menezes Sá E s c r a v o s , l i v r e s e i n s u r g e n te s

era pacificar a vila. Se isto não ocorresse “naturalmente”, teria de se ...estou convencido de que os movimentos populares
nesta Provínciaembora em alguns lugares figurassem
fazer valer das autoridades legais. A frequência nesta Missão chegou a
como provocadores homens da política distincta da
10 mil pessoas durante uma procissão realizada no dia 24 de janeiro. A do governo, não forão todavia o resultado de um
população reunida na Missão foi de 3 mil pessoas. Em troca de proteção, plano político anteriormente concebido e meditado e
considerando as perseguições feitas pelas tropas legais, passaram a calculadamente executado. (Relatório de Presidente
trabalhar em obras públicas (MONTEIRO, 1980, p. 126). de Província da Paraíba, Sá e Albuquerque,
Na Paraíba, o presidente da província, Sá e Albuquerque, apresentado à Assembléia Provincial, em 16 de
mirando-se no exemplo de seu colega de Pernambuco, encaminhou os fevereiro de 1852. Apud PINTO, 1977, p.214).
capuchinhos para a Serra da Borborema, com missão de convocar o
Para Sá e Albuquerque, alguns liberais da Província incentivaram
retomo à paz e divulgar que os decretos não mais seriam postos em
os insurgentes, pois mesmo que não tenham participado diretamente de
prática.
seu planejamento ou ação, “no remanso de seus gabinetes e no seio de
suas famílias e amigos folgassem com os embaraços do governo” . Mas
Composição social ou sobre a necessidade de identificar na tentativa de diminuir o impacto do que declara e, considerando não
líderes ser interessante para o partido, a que estava vinculado, demonstrar que
não conseguia manter a ordem, prefere encerrar o relato da seguinte
Uma das discussões mais recorrentes, quando a temática tratada forma:
é insurreição, diz respeito à identificação dos líderes do movimento.
Segundo Monteiro (1980), não teria sido difícil para a oposição liberal ...mas atirar sobre um partido político inteiro a
capitalizar a incompreensão da população amedrontada e passar a fazer imprudência e desmandos de alguns dos seus
associação entre a Lei Eusébio de Queiroz (1850), que extinguiu o membros distinctos, o interesse calculado de outros
tráfico de escravos e os novos Decretos. Considera que os indicados menos importantes, e a ignorância e fraqueza
pelos documentos oficiais como participantes da rebelião, a população de espirito de muitos, é abdicar a justiça dando o
rural mais pobre, principalmente “moradores” e “proletários”, não seu lugar ao capricho. (Relatório de Presidente de
conseguiriam, por si mesmos, fazer essa associação, cabendo aos Província da Paraíba, Sá e Albuquerque, apresentado
à Assembléia Provincial, em 16 de fevereiro de
grupos remanescentes do movimento praieiro (1848-1849) fazê-la.
1852. Apud PINTO, 1977, p.214).
(MONTEIRO, 1980, p. 122-123).
Mesmo com os cuidados tomados pelas autoridades
Dez dias depois o jornal Argos Paraibano publica uma matéria na
governamentais de evitar mencionar a participação de outros grupos
qual questiona a participação dos liberais na sedição:
sociais, a correspondência do Presidente de Província de Pernambuco
deixa transparecer a possível participação do clero e de políticos do ....E quando as cousas assim se passão, se manda, com a
Partido Liberal. mais requintada má fé, e deslialdade, publicar na folha
No já referido Relatório enviado à Assembléia, o Presidente da official, que taes motins são devidos á opposição!! O
Paraíba do Norte afirma: governo da província sabe, que deve-se aos esforços da
opposição, aos esforços dos nossos amigos não terem

90 91
Ariane Norma de Menezes Sá Escravos, livres e insurgentes

tomado um caracter mais serio nas villas de Campina, as autoridades constituídas atribuir aos livres e pobres a culpa pelos
Alagoa Nova, Guarabira, povoação de Alagoa Grande, movimentos dos insurgentes. Inicialmente chamados de “maribondos”
Fagundes e outros logares; e custa a comprehender
em Pernambuco, no Relatório do Presidente de Província de Alagoas a
como, não obstante O Governista animou-se a accusar
a opposição por taes factos. Se foi uma especulação, as
sedição é denominada de “Ronco da Abelha”, numa clara referência de
vantagens não corresponderão de certo ao trabalho da que se tratava de algo sem grande repercussão ou organização política,
invenção. (Jornal Argos Paraibano do dia 26 de fevereiro sendo apenas reações isoladas e espontâneas de pessoas ignorantes
de 1852. Apud PINTO, 1977, p.214). e desinformadas, que, como um enxame de abelhas, entravam nas
localidades e sem maiores consequências se esvaiam para o mato.
Apesar de ser possível identificar através de jornais, cartas e
circulares a oposição ao governo conservador, feita pelos liberais, não
se pode comprovar a participação efetiva de membros do Partido na
2. "Q uebra-Q uilos"
insurreição, ainda ressabiados com a repressão desencadeada pelo
governo imperial ao movimento praieiro.1 Assim, consideramos que o
mais provável é que a participação liberal tenha ocorrido de forma velada Sou quebra-quilo, encouletado em couro / Por vil
e cautelosa. Para os governos imperial e provinciais, era importante desdouro, se me trouxe aqui IA bofetada minha face
mancha / A corda, a prancha se me afligir aqui /Não há
ocultar essa participação, sob pena de deixar transparecer a resistência
direitos; isenções fugiram /Nas leis cuspiram desleais
dos liberais e sua incapacidade de manter a ordem social vilões;/Crianças, velhos, aleijados, aguardam, / A triste
Para Joffily, alguns padres teriam animado a desconfiança dos farda de cruéis baldões. / Tiranos vede que miséria tantas!
homens livres pobres em seus sermões, ao falarem contra o decreto 798 [...] / Nem a quebranta, nem pungir, nem ais / Martírios,
que lhes tirava a função do registro de nascimento e óbito e os atribuía ultrajes de negror, fazei-me / Porém, dizei-me se também
sois pais! / A bofetada minha face mancha / A corda a
a repartições leigas, sob a responsabilidade dos cartórios e a cargo dos
prancha me doer senti / A vil desonra da família querida
escrivãos e dos juízes de paz dos distritos. Argumenta também que, de / Tira-me a vida [...]. de pudor morri (Versos atribuídos a
fato, os registros poderiam gerar dúvidas a respeito da origem social, Pedro Joaquim d’Alcantra César. Apud SOUTO MAIOR,
havendo possibilidade de falsificação de óbito e a transformação de 1978, p.34-35).
órfãos em escravos. Esse era um medo dos desvalidos da sociedade
escravista (JOFFILY, G„ 1977). Nos primeiros dias do mês de novembro de 1874, o Presidente da
A participação do clero nessa insurreição, considerando que o Província da Paraíba, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, era informado
decreto 798 lhes tirava uma importante atribuição, deve ter ocorrido, de que havia ocorrido uma revolta na feira da vila de Fagundes, do
principalmente durante as pregações, como afirma Geraldo Joffily, mas termo de Campina Grande.
não foi possível identificar maiores indícios desse envolvimento. O Jornal da Paraíba , órgão vinculado ao Partido Conservador, de
Mesmo considerando a participação velada de liberais e do propriedade do referido presidente, noticiou o acontecido:
clero e não interessando uma investigação profunda que poderia
transformar membros da elite em suspeitos, foi mais interessante para O conflito preparado pelo ‘O Despertador’, mas que não
tem por ora a importância que se lhe atribui, é oriundo dos
1No âmbito nacional o Gabinete Conservador (1849-1852) era presidido por José da Costa atos de seus próprios correligionários de Campina; por
Carvalho, o Marquês de Monte Alegre, e nas províncias por seus representantes

92 93
Ariane Norma de Menezes Sá E s c r a v o s , liv r e s e i n s u r g e n t e s

isso servem-lhe de pretexto os impostos municipais da


Câmara daquela cidade.O que se quer é levantar poeira e
ferir a atual administração. As providências já estão sendo
tomadas e a esta hora as coisas já terão chegado aos seus
devidos eixos (Jornal da Paraíba, 11 de novembro de
1874, ApudiOVV\Ví,G., 1977, p.41).

O jornal O Despertador, de direção liberal, oposição ao governo


de Silvino da Cunha, já havia noticiado o fato, e a despeito do que
deveria esperar-se, narrou o ocorrido de forma branda, descrevendo-o
como um conflito acontecido na vila de Fagundes, envolvendo povo e
polícia, em decorrência da cobrança dos novos impostos lançados pela
Assembléia Provincial, tendo como saldo alguns feridos.
Seria interessante observar o embate entre os dois jornais mas,
devido à existência de poucos números do O Despertador, só é possível
identificar as discussões através das respostas provocativas do Jornal
da Paraíba.
A rebelião, que inicialmente pareceu ser localizada, rapidamente
alastrou-se por todo o Agreste e Zona da Mata, atingindo não só a
Paraíba, como também outras Províncias. Na Paraíba, ao todo foram 35
localidades que se sublevaram, e em Pernambuco, 23, Alagoas, 7 e Rio
Grande do Norte, 13.

94

£

Ariane Norma de Menezes Sá


E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

qualquer posse de terra, pois os proprietários já não podiam mais


Antecedentes históricos pagar os salários tradicionais e os reduziam. Houve um aumento do
número de desempregados e, conseqúentemente, uma grande oferta de
Ao analisar a insurreição, Henrique Augusto Millet2 colocou uma trabalhadores.
questão muito oportuna. Ele tentava entender por que o homem do Os cofres das províncias nortistas também foram afetados pela
campo, tão cerimonioso e respeitador, ciente de seus deveres, devido ao
crise económica devido à diminuição da arrecadação dos impostos de
condicionamento secular a que havia sido submetido, teria atendido aos
exportação. Considerando isto, seus Presidentes e Câmaras Municipais
apelos dos agitadores encaminharam propostas de aumento de impostos e criação de novos,
Um contemporâneo seu, de codinome Philopoemen, de certa no que foram prontamente atendidos pelas Assembléias Provinciais.
forma responde a' esta indagação. Questiona ele: “Que outra coisa foi
o Quebra-Killos senão o grito dos padecimentos populares acumulados Sobre as leis
durante muito tempo e que num momento explodiria?” (Apud SOUTO
MAIOR, 1978, p.54). O movimento, apesar das distâncias geográficas e da falta de um
A que padecimento se referia Philopoemen? Para os homens líder que o unificasse, colocaria as mesmas questões: os novos impostos
livres pobres sobreviver em uma sociedade escravista era a primeira e os arrematados, a imposição do sistema métrico decimal com novos
grande dificuldade. A seca, a pobreza do solo, a concentração de terra, pesos e medidas e a nova lei de recrutamento. A estes motivos, seriam
eram fatores que os deixavam na miséria, doentes e famintos. A estes insistentemente acrescentados pelas autoridades provinciais e imperiais,
elementos foram acrescentados outros de ordem conjuntural. o fanatismo religioso e a motivação políticos.
A década de 1870 foi marcada pela crise. Os produtos da lavoura Vejamos o que constatou como causa imediata da sedição o
nortista, o açúcar e o algodão, enfrentavam a crescente concorrência Coronel Severiano da Fonseca, irmão de Deodoro da Fonseca, enviado
do mercado internacional e sofriam com a restrição do crédito devido à pelo governo imperial para combater os rebelados na Província da
crise da economia mundial. Paraíba:
Millet colocava que a crise estava levando os proprietários rurais
a um crescente endividamento, passando a viver à custa de empréstimos Foi em Fagundes onde a 31 de outubro de 1874
ou fazendo retiradas do próprio capital. Acrescentava ainda que, dentre desabrochou o movimento sedicioso, por ocasião em
estes, os mais prejudicados eram os pequenos engenhos cuja única que, na feira, o arrematante dos impostos municipais
forma para resolver a questão do trabalho no campo era recorrer ao cobrava o imposto denominado -de chão-; o povo
trabalhador “alugado”, aumentando os custos de produção. que ia à feira para abastecer-se pronunciou-se
contra esse imposto; a autoridade policial acudiu de
A crise dos anos 1870 fez com que os proprietários de terra,
pronto, porém foi desrespeitada e obrigada a retirar-
para manter seus lucros médios, ampliassem seus espaços produtivos,
se (Apud JOFFILY, G. 1977, pp.54-55).
expulsando ou diminuindo as terras de moradores, arrendatários, etc.
Além disso, a crise trouxe implicações para aqueles que não tinham A feira, ponto de encontro de várias pessoas que viviam isoladas,
2 Engenheiro francês, trazido para o Recife em 1840, com a função de implantar obras foi o local privilegiado dos acontecimentos que tanto preocuparam as
públicas. Em 1876, publica o livro Os Quebra Kilos e a crise da lavoura, precioso relato autoridades provincial e imperial. Esse era o local em que os homens
das condições sociais e económicas sobre a década de 1870.

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livres pobres, que moravam nos arredores das vilas e cidades, na O “imposto de chão” era cobrado pelos arrematantes, quando se
condição de jornaleiros, moradores, assalariados,- arrendatários e ocupava o pátio da feira para expor os produtos à venda.
pequenos proprietários encontravam-se, uma vez poi semana, para Os impostos municipais e provinciais, por uma taxa determinada,
comprar e vender seus produtos.3 Essa era a forma encontrada pelo eram arrematados por particulares. Os arrematantes de impostos para
pequeno produtor de livrar-se dos 1atravessadores ou vampiros , que aumentar seus rendimentos procuravam cobrar o máximo que pudessem.
lhes compravam os produtos agrícolas a baixo preço e os redistribuíam, Daí o Coronel Severiano acusá-los de abusar “cinicamente” do direito
de forma que ficavam com parte substancial do lucro. que lhes fora conferido.
Durante o dia da feira, os problemas de ordem individual eram Henrique Augusto Millet achava que a cobrança de impostos
relatados e aqueles que, de certa forma, viviam isolados, trabalhando sobre carga só deveria ocorrer quando:
em seus roçados, tinham a oportunidade de falar, discutir e brigar.
...as Câmaras proporcionassem aos feirantes algum
Era também o local onde havia cobrança de impostos provinciais e
edifício, com feitio ou nome de Mercado Público, ou pelo
municipais. Uma sobrecarga aos já tão sacrificados trabalhadores e menos um telheiro que os abrigasse de chuva; e também
pequenos produtores rurais. ser exigido tão somente do que se pode chamar carga, e
Os impostos cobrados no momento da feira eram de duas ordens. não de meia dúzia de cordas de carangueijos ou de um
O que atingia a todos, como o imposto de consumo, cobrado sobre cesto de beijus que pouco mais valem que a importância
do imposto (MILLET, 1987, p.55).
gêneros alimentícios (ex: carne seca e farinha), que havia sido criado
naquele período. E aquele que havia sido majorado recentemente, o
A questão que Millet levanta é importante para que possamos
caso do já referido “imposto de chão”, que passou a ser cobrado nas
avaliar a distância entre o setor administrativo do Estado e a realidade
feiras a um tostão por carga (ALMEIDA, J., 1980, p. 165).
do homem livre pobre, “o matuto”. Este não conseguia identificar quais
O Coronel Severiano da Fonseca demonstrou seu desagrado com
os motivos plausíveis que justificassem a cobrança de impostos, visto
a cobrança deste imposto pelos arrematantes, considerada por ele uma
que nenhuma parte do que era cobrado era revertido em seu benefício.
exorbitância:
Outra coisa levantada é que, indiscriminadamente, todos tinham que
...Os arrematantes de impostos levaram o abuso à altura pagar imposto, desde o consumidor com as taxas sobre os produtos, até
do cinismo. Um pobre homem trazia, às vezes, para a um simples vendedor ambulante.
feira uma certa quantidade de farinha, logo que pousasse As dificuldades pelas quais passava a região, tomavam-na
no chão o saco que trazia, pagava imediatamente uma
explosiva. Por motivos diferentes, a população sentia-se incomodada
certa quantia e se por qualquer circunstância mudava de
lugar tinha que pagar novamente, de modo que, muitas com os “abusivos” impostos. A criação e majoração de impostos
vezes, sem ter ainda vendido o que trazia, já tinha pago elevavam o custo de vida, atingindo principalmente os homens livres
ao exigente arrematador grande parte do valor do que pobres que já vinham sofrendo com o desemprego e baixos salários.
trazia para vender (Apud JOFFILY, G., 1977, p.58, grifo Os proprietários rurais ressentiam-se, pois atravessavam uma crise
meu). económica, e o Estado, a quem pediam socorro, ao tempo em que
rejeitava os financiamentos solicitados, aumentava os impostos.
Os liberais, então fora do poder, colocavam que a criação e a
3 Vide definições dessas categorias sociais no capítulo 2. majoração de impostos ocorriam devido à necessidade de manter uma

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burocracia estatal inoperante. Vejamos o pensamento de um liberal Apesar de cautelosa, a lei não se fez aplicar na sua íntegra. Ou
paraibano que, em panfleto anónimo, analisa o assunto: seja, não foi implantado gradativamente o novo sistema como havia
sido previsto. Dessa forma, a população não teve os dez anos de preparo.
Porque foram tão descomunalmente aumentados os
impostos provinciais da Paraíba? Os cofres estão
Até 1872, o governo não havia expedido o regulamento e distribuído os
“phtysicos”, a província sobrecarregada de uma dívida novos padrões.
imensa; os empregados públicos (exceto os de casa) Portanto, o cumprimento da lei trouxe um impacto muito grande
com o ordenado de meses sem ser pago, os soldados de para os feirantes e consumidores, que viam seu sistema de pesos e
polícia morrendo à fome, e todos os dias criam-se novos
medidas tradicionais serem trocados quase que repentinamente, e
impostos e pesadíssimos impostos! [...] É que os intimos
sustentam, sem rendas aparentes, um luxo de príncipe
prevendo penas para aqueles que não cumprissem o determinado.
{Apud SOUTO MAIOR, 1978, p.26). Nas feiras da Paraíba, estes novos padrões começaram a aparecer
em meados de 1874, havendo a substituição das cuias, canadas, côvados,
Se a revolta em Fagundes explode quando um tal Marcolino palmos, arrobas, onças, comumente usadas pelos feirantes por litros,
ou Marcos diz que não pagará o imposto de chão, seu desenrolar metros e quilos, que a maioria não entendia direito como funcionava.
demonstraria que a questão era bem mais ampla. Vejamos a relação entre as medidas antigas e suas equivalências.
Novas mudanças estavam para acontecer no cotidiano dos ho­
mens livres pobres. A Lei N° 1.157, aprovada em 26 de junho de 1862 T A B EL A 9 - V A LO R ES D E REFERÊNCIA DAS M EDIDAS
decretava a substituição das medidas lineares, de superfície, capacidade
e peso em uso, até aquele momento, pelo sistema métrico decimal Padrões Unidade de medida Equivalência Equivalência
francês. No seu parágrafo primeiro do artigo segundo, o governo Cuia Peso Padroniza quantidade de grãos
Canada Líquido 4 quatrilhos 2,6621
oferecia o prazo de 10 anos, para que houvesse a substituição total dos
Côvado Comprimento Três palmos 0,66m
antigos pesos e medidas. E, no parágrafo segundo do mesmo artigo, 22 cm
Palmo Comprimento 8 polegadas
determinava que todas as escolas primárias deveriam colocar no ensino Peso 14,7 Kg
Arroba
da aritmética a comparação entre o sistema métrico decimal francês Onça Peso 28,691g
com o que era até então usado. No parágrafo terceiro, definia ainda que
caberia ao governo organizar tabelas de conversão de um sistema em
Millet comenta que nem os aferidores sabiam utilizar os padrões
outro, para serem usadas pelas repartições públicas, que orientariam as
de medidas para secos e líquidos, que haviam sido enviados pelo
modificações. Por fim, no artigo terceiro, previa pena de prisão de até
governo sem as necessárias explicações (MILLET, 1987, p. 55).
um mês e multa de 100$000 para os infratores. (Documento citado por
Fato é que, no momento do “vamos quebrar”, eram os símbolos
SOUTO MAIOR, 1978, p.20-21).
dos pesos e medidas os imediatamente atacados. O povo quebrava os
Dez anos depois, o Ministério da Agricultura publicava as
pesos e decepava suas cabeças de ferro.
instruções em 18 de setembro de 1872, que reduzia a pena para 5 ou 10
A outra causa apontada que teria contribuído para aumentar a
dias e a multa para 10$000 a 20$000. De acordo com estas “instruções”,
insatisfação dos insurgentes seria a nova Lei de Recrutamento Militar.
a partir do dia 1 de julho de 1873, todas as mercadorias apenas seriam
A Lei N° 2.556 de 26 de setembro de 1874 previa o alistamento
vendidas quando medidas ou pesadas de acordo com o novo sistema
feito por sorteio e abolia os castigos físicos, muito comuns à época da
métrico decimal, sob pena dos infratores serem indiciados.

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Ariane Norma de Menezes Sá

...mantendo a máxima severidade neste serviço, visto


Guerra do Paraguai, quando os jornais noticiavam a chegada de várias como, pela falta de trabalho e ocupação honesta é que
caravanas do interior de “...recrutas acorrentados pelo pescoço com a população ignara procura atentar contra aqueles tão
gargalheiras” (Jornal O Tempo, do dia 7 de setembro de 1865. Apud apreciáveis direitos de sociedade. E não me enganei.
Com efeito, devo o grande melhoramento da segurança
JOFFILY, G., 1977, p.32).
individual e de propriedade, além das prisões e punições
No corpo da lei aparecia uma série de isenções. Estavam isentos dos delinquentes, à severidade com que tenho procedido
do alistamento militar todos os que pagassem uma contribuição em no recrutamento, fechando os olhos às mais poderosas
dinheiro estabelecido pela lei; aqueles que fossem estudantes ou tivessem considerações e procurando cumprir, religiosamente, os
curso superior; os que apresentassem substituto idóneo; todos que meus árduos deveres.
tivessem as seguintes ocupações: proprietários rurais, administradores Durante a minha administração já foram presos para o
recrutamento 250 indivíduos, 50 assentaram praça no
ou feitores de fazenda com mais de 10 trabalhadores, caixeiros de casa
Exército, 12 na Marinha e 150 foram para a Polícia,
comercial; e, por fim, todo aquele que presumida ou comprovadamente por isenção legal foram postos em liberdade 2, por
fosse possuidor de um capital igual ou acima de 10.000$000 (SOUTO incapacidade física 16, por motivos atendíveis 12, 7
MAIOR, 1978, p. 182). foram removidos para a cadeia por terem a nota de
O recrutamento era conhecido como “imposto de sangue”, uma ladrões de cavalo e 2 para a enfermaria (Apud JOFFILY,
G., 1977, p.33).
vez que qualquer problema havido entre o proprietário de terra e o
trabalhador rural, poderia ser resolvido pela indicação do nome do
A falta de identidade dos homens livres pobres com o sentido
trabalhador para compor a armada, exército ou polícia. Para escapar
de nação, a má divulgação da nova lei que, segundo ouviram falar,
de tal castigo, só restava cair na ilegalidade. A arbitrariedade era tanta
“escravizaria o cidadão”, somadas às causas anteriormente apresentadas,
que, várias são as correspondências que o Governo Imperial envia aos
compõem o quadro geral que indicava para a revolta.
Presidentes de Províncias nortistas, aconselhando-os a abrandar as
Além disso, concretamente, as isenções supracitadas geraram a
medidas coercitivas de recrutamento para evitar perdas para a lavoura.
desconfiança de que só seria recrutado aquele que não tivesse prestígio
Um cancioneiro popular, através de um canto triste, retrata um
e dinheiro, ou seja, as exceções que a nova lei criava em quase nada
pouco da angústia da violência e da arbitrariedade que eram cometidas:
mudavam a condição anterior do “imposto de sangue”.
Agua Preta, adeus, adeus/Não sei quando te verei/Vou recrutado para o
É tanto que, durante a agitação popular em Alagoa Nova, depois
Sul/Contra a razão/ Contra a lei (Apud JOFFILY, G., 1977, p.30).
de quebrarem os pesos e medidas e incendiarem os papéis da Câmara
Mesmo com o fim da Guerra do Paraguai, o recrutamento continuou
e dos cartórios, alguns sediciosos se encaminharam para um engenho
intenso. Em Relatório enviado à Assembléia Provincial, o Presidente da
de propriedade de Francisco de Sousa Gouveia, com o intuito de
Província da Paraíba, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, às vésperas da
fazê-lo destruir a Lei do Recrutamento, considerando que um doutor
revolta “Quebra-Quilos”, reconhecia a necessidade de se moderar nas
poderia fazer isto. Voltaram, ao constatar que ele não estava no engenho
medidas tomadas para garantir o recrutamento, ao que denominava de
“repugnante imposto de sangue”, para evitar maiores clamores. Mesmo (SOUTO MAIOR, 1978).
Os comentários sobre a nova lei criaram certo desconforto também
assim, considerando o estado de insegurança individual e de propriedade
para os proprietários rurais, posto que esta apresentava-se como uma
em que encontrou a Província tomou as seguintes providências:
ameaça ao seu poder. Por dizer-se que não seria mais possível substituir

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um parente por um desafeto ou por escravos, agora espalhava-se que pela documentação e historiografia que trabalha a sedição. Analisemos,
u lei igualaria todos e que os recrutados seriam pessoas de todas as especificamente, os fatos ocorridos na Província da Paraíba.
condições sociais.
Movimentos sediciosos, oriundos da província da Paraíba,
Desde muito, disseminou-se a idéia de que o quartel era um
têm lavrado no centro desta, do Rio Grande do Norte e
bom lugar para recuperar marginais, daí que muitos dos implicados na das Alagoas; grupos numerosos, embora as mais das
sedição “Quebra-Quilos” foram enviados para o Exército. vezes desarmadas, têm invadido as povoações do interior
Em 1879, praticamente cinco anos após o movimento sedicioso, o na ocasião das feiras semanais, opondo-se à percepção
deputado João Florentino mostra sua indignação frente à repressão, que dos direitos municipais, quebrando ou dispersando as
medidas do novo padrão, atacando as coletorias e câmaras
tinha como uma das bases o recrutamento:
municipais para queimar os arquivos, e praticando mais
alguns desacatos, próprias das massas ignorantes quando
...É certo que alguns dos infelizes presos para recrutas
se acham desenfreadas (MILLET, 1987, p.29).
e que eram logo remettidos para a Côrte, encontraram
justiça no governo imperial, alguns maiores de 40 annos
foram aqui julgados incapazes, postos em liberdade O primeiro atrito ocorrido entre o povo e as autoridades foi na
e reenviados para a província. Era esta, porem, uma feira de Fagundes, em 31 de outubro de 1874, como já foi relatado
reparação incompleta. O ataque á liberdade já tinha anteriormente. Daí para frente, o movimento se alastrou, com pequenas
sido effectuado, a violência contra a propriedade, a vida
diferenças cronológicas, mas com bastante semelhança nas formas e
e a honra não tinham mais reparação possível (Apud
Almeida, J., 1980, p.263-264).
táticas de ataques.
Os primeiros movimentos eclodiram quando da cobrança de
Mesmo depois de sufocada a rebelião “Quebra-Quilos”, a lei impostos nas feiras. Dos protestos contra tal atitude, partia-se para
foi sistematicamente rejeitada pela população. Segundo documento quebrar os pesos e medidas do novo sistema métrico decimal. O próximo
datado de 4 de setembro de 1875, o Presidente da Província da Paraíba passo era incendiar ou destruir os arquivos das Câmaras Municipais,
informava ao Conselheiro de Estado que, em geral, a população do Coletorias e Cartórios cível e criminal e, em algumas localidades, as
interior continuava resistindo ao recrutamento, sendo difícil para agências de correios.
as juntas paroquiais de alistamento, que segundo ele funcionavam A medida que o movimento foi crescendo, houve uma mudança
irregularmente por falta de pessoal, formarem listas de cidadãos aptos na tática dos “Quebra-Quilos”. Bandos de homens armados com foice,
a cumprir o serviço das forças armadas (Souto Maior, 1978). Essas leis cacetete e bacamarte, sob o comando de chefes eventuais, cujo número
gerariam nos diferentes setores da sociedade as mais diversas reações. apresentado pela documentação variava de 30 a 600, entravam de assalto
nas mais diferentes localidades (povoações, vilas e cidades), nos dias
A tática de feiras semanais, cometiam os atos relatados por Millet e prometiam
voltar.
Passemos agora a verificar a atuação desses “Quebra-Quilos”, E interessante notar que, nas localidades invadidas, os sublevados
como eram denominados os participantes do movimento, para praticavam as mesmas ações, eram recebidos com simpatia pelo povo
podermos concretamente, através de suas ações, definir as formas de e, na maior parte das vezes, sem nenhuma resistência das autoridades
manifestações de cada grupo social envolvido, ou pelo menos citado

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Ariane Norma cie Menezes Sá

sua liberdade a seus senhores, ao invadirem o sítio Timbaúba, a 2 léguas


policiais que, segundo o Presidente de Província, se encontravam
de Campina Grande.4
impotentes devido ao seu pequeno número.
Geraldo Joffily descreve o primeiro atrito na feira de Campina
Os sediciosos falavam em governo do povo e se contrapunham ao
Grande, a partir do que contaram testemunhas oculares:
governo dos bacharéis, provavelmente deve-se a esse tipo de referência,
uma outra denominação atribuída por Irenêo Joffily ao movimento, ...persistiam os matutos nas suas recusas e
tratando-a como a revolta dos matutos contra os doutores. Apesar de reclamações, quando aparece o delegado João
manterem o controle das cidades que ocupavam, em nenhuma houve Peixoto com alguns soldados da polícia e cabras do
saque ou derramamento de sangue, nem tampouco permanência. Saíam coronel Alexandrino Cavalcante, dono do mercado,
tão logo tivessem executado os atos comuns ao movimento. tentando dispersar os grupos mais agitados a
O Jornal da Paraíba, do dia 9 de dezembro de 1874, coloca os lambadas de facão; [...] alguns tiros foram disparados
fatos da seguinte forma: e deu-se o pânico na grande feira.
...um rebolo de rapadura acertou em cheio a cabeça
O povo, iludido e excitado, não encontrando resistência
arroja-se de preferência sobre os escritórios das coletorias,
do delegado.
rasga e inutiliza os papeis e livros, pensando subtrair-se, ...Os matutos tomaram conta da cidade, arrombando
assim, ao pagamento de imaginários impostos provinciais. a cadeia, inutilizando os novos pesos e medidas e
Acomete, igualmente, as Casas das Câmaras Municipais destruindo os arquivos públicos, sem que se tenha
cujos arquivos incendeia para não ser constrangido ao notícia de mortes, roubos e atentados sexuais
pagamento de fantásticos impostos municipais. Queixa-se (JOFFILY, G., 1977, p.55-56).
do novo sistema de pesos e medidas, cujos instrumentos
despedaça e inutiliza. Vocifera contra a reforma da lei do
Segundo o Relatório do Coronel Sevenano da Fonseca, enquanto
recrutamento, a que chama lei do cativeiro... (JOFFILY,
G., 1977, p.45-46).
acontecia a segunda invasão dos “Quebra-Quilos” na cidade de Campina
Grande, mais 15 lugares eram tomados. E passa a narrar várias invasões
Para os revoltosos, tratava-se de resolver de forma direta, através ocorridas simultaneamente:
do quebra-quebra e de incêndios, tudo que representasse o poder que
No dia 21 de novembro, ao mesmo tempo que a cidade
os constrangia, em meio a tanta miséria, a pagar impostos que nunca de Campina Grande estava a braços com os sediciosos,
retornavam em seu beneficio, ou para eliminar a Lei de Recrutamento, mais quinze lugares arcavam com as iras dos faciosos
que obrigava filhos, irmãos e maridos a prestar serviço militar, por uma invasores, a saber: Alagoa Nova, Pilões, Arará, Ingá,
nação quando eles não compreendiam o sentido de pátria. Independência, Bananeiras, Esplanada, Esperança,
Guarabira, Fagundes, Serra do Pontes, Serra Redonda,
Em meados do mês de novembro de 1874 muitos foram os lugares
Mogeiro e Itabaiana. No dia 28, enquanto Areia debatia-
invadidos. Acontecia, normalmente, no momento da feira semanal. se, estavam sendo devastadas São Sebastião, Salgado e
Campina Grande, importante cidade por sua densidade Serrinha. No dia 29, Fagundes foi novamente invadida
populacional e comércio, localizada na Serra da Borborema, foi invadida e no mesmo dia Pedras Lavradas, Triunfo, Pocinhos,
nos dias 14, 21, 23 e 28 de novembro e 2, 4 e 5 de dezembro de 1874, Piabas, São João, Cabaceiras, Baixa Verde, Alagoa de
Monteiro, Mata Virgem e a vila de Pilar eram assaltadas
por grupos de mais ou menos 100 homens. Desses diferentes momentos,
há de se destacar o dia 4 de dezembro, quando escravos queriam impor 4 Este levante de escravos foi tratado no capítulo 1.

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por mais de duzentos homens. Na vila de Pilar foi


O pequeno teatro existente nesta cidade, diz Dr. Corrêa
completamente destruído o arquivo mais importantè da Lima, era uma das principais cousas procuradas pelo
Província, onde haviam riquíssimos documentos e cuja povo em sua idéia fixa contra a maçonaria; diziam os
falta muito se ressentirá a história geral do Império (Apud exaltados que era casa de maçons e que nela tinha o livro
JOFFILY, G„ 1977, p.68). azul contra a Igreja. Existia um retrato a óleo de S.M.
o Imperador, apenas o viram apoderaram-se dele com
Em Alagoa Grande e Alagoa Nova, os “Quebra-Quilos” jogaram um frenesi de canibais, o esfaquearam e puseram-no em
os pesos numa lagoa e incendiaram os arquivos da Câmara e Cartórios. pequenos pedaços no meio de violentas injúrias à pessoa
Augusta do Chefe da Nação (Apud JOFFILY, G., 1977,
Em Cuité, quando atacada, não havia nenhuma autoridade, pois todas
p.67).
tinham fugido. Bananeiras e Arara foram invadidas pelo mesmo grupo
de homens. Salgado foi atacado por 100 homens aos quais foram Em Areia, os sediciosos foram recepcionados pela banda
somados mais 200 do lugar, depois de quebrarem os pesos. Sob o som de música e por figuras ilustres, que já tinham conhecimento da sua
da banda de música local, deram vivas a todos que se negavam a pagar caminhada em direção à cidade. Apesar disto, os Quebra-Quilos
impostos. Em Pilar houve adesão dos trabalhadores dos engenhos cometeram os atos acima descritos pelo Coronel Severiano. Mandaram
e fazendas, apesar de não ter sido identificado um chefe. Cabaceiras abrir as casas comerciais, para quebrar os pesos e medidas, soltaram
também teve seus arquivos queimados e os pesos e medidas quebrados. os presos da cadeia. As famílias mais ricas, que não saíram para suas
Em Ingá, os rebeldes entraram na vila gritando “morra os maçons” e, fazendas e engenhos, mantinham as portas fechadas. Não se tem notícia
dando vivas aos católicos, queimaram os papéis da Casa da Comarca,
de derramamento de sangue ou de violação de domicílios (ALMEIDA,
obrigaram o Comandante de Polícia a assinar papéis, garantindo o fim H., 1958, p. 142-143).
dos impostos e a revogação da Lei do Recrutamento e aplicação dos Em Campina Grande, no dia 26 de novembro, os revoltosos
novos pesos e medidas. O Comandante fugiu da vila no dia seguinte queimaram os papéis da Câmara Municipal, da Coletoria e do cartório
(SOUTO MAIOR, 1978, p.24-36-37). de Pedro Américo de Almeida. No dia seguinte, levaram ao Padre
O Coronel Severiano da Fonseca, em seu Relatório, retrata os Calixto os livros apreendidos da “Segredo e Lealdade”, colocando a
detalhes da invasão da cidade de Areia: maçonaria nas mãos da Igreja (SOUTO MAIOR, 1978, p.46).
A cidade de Areia, importante não só pela sua posição
geográfica, como também por ser o ponto principal de A repressão
todo o comércio do sertão, foi duas vezes assaltada, uma
a 26 e outra a 28 de novembro. Seiscentos indivíduos O Coronel Severiano Martins da Fonseca recebeu a missão do
entraram na cidade às 9 horas da manhã do dia 26, segundo governo imperial de debelar a sedição surgida na Paraíba do Norte.
consta da carta que sobre os acontecimentos recebi do Tamanha era a urgência, que o Coronel foi encarregado no dia 28 de
Juiz de Direito João da Mata Corrêa de Lima. Toda a
novembro de 1874 e, já no dia 29, embarcava em direção à Província,
sorte de atentados foi praticada pelos ferozes assaltantes.
Quebraram os pesos e medidas, destruíram o açougue chegando à sua capital, no dia 7 de dezembro.
público, acometeram a casa da coletoria, fazendo ouvir- A tropa reunida pelo Coronel Severiano era formada por 667
se os gritos de morra maçon, abaixo os tributos e medidas homens vindos do Rio de Janeiro, 477 soldados e oficiais da Província,
novas inventadas pelos maçons. dos quais 266 eram do Corpo de Polícia da Província e 181 da Guarda

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Nacional. As forças repressivas contavam, assim, com um contingente envolvendo pessoas que nada tinham a ver com a sedição. Em Areia,
de 1.114 homens. depois de torturados, para dar exemplo, os presos eram enviados para a
Mesmo com as dificuldades encontradas pelo governo provincial capital acorrentados e envoltos em coletes de couro.
para reprimir o movimento, este havia-se esgotado por si mesmo. É O capitão Longuinho era indicado pela criação ou adaptação do
tanto que, quando a tropa do Coronel Severiano chegou à Paraíba, a colete de couro que, segundo alguns autores, teria sido usado durante
Província já estava praticamente pacificada. Mesmo assim, as forças a Guerra do Paraguai. Elpídio de Almeida descreve como funcionava
repressoras agiram de forma arbitrária e violenta. Muitas pessoas essa tortura:
estranhas ao movimento foram agredidas, surradas, aprisionadas,
...Entrou em uso o suplício do colete de couro, que
envolvidas em coletes de couro, presas ou pronunciadas.
consistia em costurar-se ao torax dos presos, muitos
A violência, que não foi praticada pelos revoltosos, ocorreu de inculpados, uma faixa de couro cru, previamente
forma acintosa durante o processo de repressão, a ponto de o Coronel molhada durante horas. À medida que o couro secava
Severiano enviar um ofício circular, determinando que os roubos ia cumprimindo o peito da vítima, causando-lhe muitas
fossem evitados pelos soldados e que a repressão se desse de forma vezes morte torturante por asfixia (ALMEIDA, E., 1979,
p. 156-157).
mais comedida:

Chegando ao meu conhecimento que alguns senhores Em Campina Grande, as tropas de linha também agiam de forma
oficiais, quando encarregados, já de efetuar prisões, arbitrária. Em fato narrado por Irenêo Joffily, o capitão Piragibe, em
e já de conduzir presos, empregam demasiado rigor, missão a Pocinhos, teria chegado ao povoado em um dia de domingo.
vossa senhoria faça-lhes sentir que um tal procedimento
A população encontrava-se ouvindo missa, quando o capitão invadiu a
é ofensivo à disciplina e preceitos militares. A cega
observância da lei é um padrão de glória para o militar Igreja e mandou que todos entrassem em um círculo feito pelos soldados.
zeloso de seus créditos, e é a única e segura norma que Em seguida, o capitão passou a escolher os homens mais robustos, que
deve seguir (Apud JOFFILY, G., 1977, p.74). somaram quarenta e, depois de amarrá-los, levou-os para Campina
Grande onde ficaram presos (ALMEIDA, E., 1979, p. 157).
O Coronel Severiano havia destacado para comandar as forças A repressão foi retratada de forma dramática por José Florentino
legais em Areia, o 18° Batalhão de Infantaria, sob as ordens do Capitão Meira de Vasconcelos, deputado do partido da oposição ao governo
José Longuinho da Costa Leite e, em Campina Grande, o 14° Batalhão provincial:
de Infantaria, sob o comando do Capitão Piragibe.
À circular supracitada, o capitão Longuinho respondeu que os ...Horrores foram praticados, o asilo do cidadão era
violado em qualquer hora; a honra da esposa, da donzela,
presos encaminhados para a capital da Província eram implicados na
da viuva, e da mulher honesta ficou exposta ao assalto e
sedição ou bandidos indicados pela própria população local. O Capitão à violência militar. As mães, as filhas, as irmãs, seguiam
Longuinho afirmava que as notícias veiculadas na imprensa, acusando-o até a capital seus filhos, pais e protetores, mas o que podia
de selvageria, eram intrigas da oposição para atingir a administração fazer senão clamores? Fizeram-se prisões em massa,
provincial. velhos e moços, solteiros e casados, todos acorrentados
e alguns metidos em coletes de couro remetidos para
A população do interior da Província sofreu com a violência
a capital. Alguns infelizes, cruelmente comprimidos
cometida pelas tropas de linha que faziam prisão em massa, muitas vezes

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e quase asfixiados pelos coletes de couro, caiam sem Assembléia Legislativa da Paraíba do Norte, afirmava serem as causas
sentidos pelas estradas, deitando sangue pela boca (Anais
do Quebra-Quilos:
da Câmara dos Deputados, sessão de 21 de janeiro de
1879. Apud ALMEIDA, J„ 1980, p. 171-172).
Esta provincia, que sempre se distinguiu em todas as
epochas pelo seu conhecido espirito d’ordem e respeito
O inquérito policial foi orientado pelo Chefe de Polícia da ás autoridades, em Novembro do anno próximo passado
Província da Paraíba, Manuel Caídas Barreto que, depois das várias foi victima, em diversos municípios, das ciladas de
prisões efetuadas, abriu processos em Campina Grande, Ingá, Pilar, agitadores, e fanatismo religioso, sob o pretexto dos
impostos provinciais e leis do alistamento do exercito e
Areia, Alagoa Nova, Alagoa Grande e demais lugares assaltados. Foram
armada e do systema métrico decimal (Apud JOFFILY,
pronunciados 34 réus como cabeças da sedição. G., 1977, p.74).
Para Caídas Barreto, todos apareciam como suspeitos: as
autoridades judiciais, o delegado, o padre. Foi assim em Campina Na primeira notícia que o Jornal da Paraíba, órgão conservador,
Grande, onde foram pronunciados como cabeças do movimento o publicou sobre o movimento “Quebra-Quilos”, citada na primeira página
capitão Gustavo de Farias e Antero Francisco de Paula Cavalcanti e desse capítulo, já constava a acusação de que a sedição teria sido obra
o padre Calixto da Nóbrega. Também em Areia foram pronunciados da oposição liberal para desestabilizar a administração do conservador
major, alferes e tenente. Carneiro da Cunha. Passado praticamente um ano, o Presidente da
O juiz de direito de Campina Grande, Bacharel Antonio de Província retoma o tema, apontando como causas principais “ciladas de
Trindade A. M. Henriques, indignado com as conclusões a que o agitadores e fanatismo religioso”.
Chefe de Polícia chegara a respeito de sua participação na revolta, fez Desde a queda do Gabinete liberal de Zacarias, em 1868, que
circular na cidade um documento, onde respondia à acusação de ter os liberais passaram para a oposição. Se antes as críticas eram feitas
sido um de seus chefes. O juiz lembrava que, durante a revolta, tivera ao poder moderador, em 1870, com o Manifesto Republicano, os mais
sua casa saqueada e seus papéis queimados, pagando o preço de ser um radicais passaram a pregar que a solução de todos os males seria o fim
representante da lei. Concluía que os Quebra-Quilos não teriam agido da monarquia.
assim, caso fosse ele seu chefe. Depois disso o Chefe de Polícia, Caídas Para Monteiro (1980), o movimento de 1874-75 fez renascer
Barreto, foi substituído (SOUTO MAIOR, 1978, p.49-52-53). no espírito liberal os gritos de liberdade ouvidos no Norte, durante
os movimentos de 1817, 1824 e 1848 e, em menor escala, durante o
Os liberais e o Q uebra-Q uilos de 1851-52. No entanto, consideramos que mesmo tendo reerguido
a oposição liberal nesse contexto, a conotação dos movimentos ao
As autoridades provinciais e imperiais colocavam, insistentemente,
intentar a liberdade, tem outras características, relativizadas por cada
como causas principais do movimento sedicioso, o fanatismo religioso,
conjuntura histórica.
que teria sido explorado por alguns padres devido à prisão do bispo D.
A ação política dos liberais tinha várias frentes. A imprensa liberal
Vital, e o político, considerando que a oposição liberal incentivava a
tentava desgastar ao máximo a administração provincial. Colocava-se
revolta para desestabilizar o governo conservador.
contra tudo que fosse determinado pelo governo conservador. Acusava-o
Vejamos o que o Presidente da Província, Silvino Elvídio Carneiro
de ser contra a Igreja, por prender o bispo D. Vital, angariando simpatias
da Cunha, em Relatório do dia 9 de outubro de 1875, apresentado à
do clero e dos católicos. Explorava a difícil relação da população com
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o Estado, sugerindo a escravização dos homens livres pobres de cor O coronel Severiano da Fonseca também acusa os liberais de,
como objetivo central da nova Lei do Recrutamento, argumento que através da imprensa, insuflar os ânimos populares:
havia sido usado com sucesso, quando do movimento Ronco da Abelha
(1851-52). E pregava contra as leis que determinavam o pagamento de ...Um trabalho às claras e nas trevas. Tem o púlpito
impostos, argumento utilizado em 1817. e o confessionário para minar a consciência dos
Agentes liberais foram enviados às localidades para organizar povos; outro, sem à luz do dia, abusando na
imprensa de sua inteligência e brilhante linguagem
a resistência. Para sensibilizar os setores descontentes, as críticas
para levantar ódios, no seio de uma população dócil
abordavam não apenas os aspectos importantes das medidas
e pacífica; este é o político desgostoso, que quase
governamentais, mas também se utilizavam do expediente de boatos, nunca trepida em caluniar a bandeira de seu próprio
divulgando que o governo havia criado imposto para “estender roupa partido... {Apud JOFFILY, G., 1977, p.87)
para secar”, que “cada pessoa deveria pagar 100 réis por cada galinha
que possuísse”, ou ainda que, “para usar óleo no cabelo deveria-se pagar Segundo Geraldo Joffily, o Coronel se refere aos artigos
2 mil réis”, etc. Todos os ataques traziam como refrão “era chegado do liberal Felizardo Toscano que, em publicações feitas no Jornal
o tempo de libertar-se” (MONTEIRO, 1980, p.142). Espalhar boatos O Despertador, combatia abertamente o recrutamento militar e a
foi um expediente comum utilizado em vários movimentos, como por majoração de impostos.
exemplo, nos de 1817 e 1824. O Partido Liberal institucionalizado via com reservas o
Além dos discursos e conversas informais, os liberais usavam a movimento popular do Quebra-Quilos, apesar de sua fração mais
tática da distribuição de manifestos na Zona da Mata e Agreste, sendo radical considerá-lo legítimo. Mesmo o liberalismo do professor José
estes frequentemente dirigidos aos pernambucanos. Antônio de Figueiredo da Faculdade de Direito de Pernambuco tinha
Verifiquemos como a participação liberal era vista pela imprensa como limite o medo de mudanças drásticas que colocassem em risco o
conservadora: comércio e a já tão desanimada lavoura nortista. Em artigo publicado
no jornal A Província de 1 de dezembro de 1874, N° 456, ele concluía
...O que sobre esses fúteis pretextos parece haver como causas da revolta:
oculto é um pensamento político e religioso,
buscando habilmente ofuscar a razão dos fracos.
O povo, constante vitima de recrutamentos barbaros,
Uma certa imprensa, há longos meses, emprega
verdadeira caçada humana, o povo encurralado
doutrinas subversivas, aqui e na Província da
por tributos excessivos lançados sem contestação
Paraíba, com violentos artigos contra os homens
alguma por camaras unanimes; o commercio e a
e as instituições semeando ventos que foram
lavoura em deplorável estado como numa crise
habilmente dirigidos para outros. Eis os motivos do
igual os fulminava; os proprietários e lavradores
movimento sedicioso... (Transcrição de artigo do
das províncias do Norte, forçados pela necessidade
Diário de Pernambuco de 3 de dezembro de 1874
a venderem os poucos escravos que possuem, os
para o Jornal da Paraíba do dia 9 de dezembro de
quais, as centenas são conduzidos mensalmente em
1874. Apud JOFFILY, G., 1977, p.46).
vapores que os ievam para o Sul; e para cumulo
de males essa fatal questão religiosa, essa geral

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Ariane Norma de Menezes Sá
E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

inquietação das consciências, taes, são as causas


Amaior controvérsia sobre o “Quebra-Quilos” diz respeito ao grau
dessa lamentável sedição! Não é pois de boa política
nem de são patriotismo fechar os olhos às verdadeiras de importância da questão religiosa para o movimento. Os governos
causas da sedição, e tel-os bem abertos para lançar a provincial e imperial tendiam a atribuir aos problemas enfrentados com
responsabilidade sobre homens inocentes punindo- a Igreja a causa principal das agitações que abalaram as províncias do
os por crimes a que são estranhos, por crimes dos Norte.
quaes são antes victimas do que authores {Apud Desde o começo do ano de 1874, as correspondências trocadas
SOUTO MAIOR, 1978, p.57-58). entre os governos provinciais de Pernambuco e Paraíba com o Presidente
do Conselho, Ministro da Guerra e Ministro da Fazenda, do Gabinete
Portanto, para os liberais menos radicais, a revolta popular Conservador, o Visconde de Rio Branco, trazem a preocupação dos
tinha por base a situação vigente. Para eles, o movimento deveria ser presidentes com uma possível revolta popular causada pela prisão dos
considerado como uma resposta violenta aos bacharéis, deputados, bispos do Pará e de Olinda, respectivamente, D. Macedo e D. Vital.
câmaras, coletorias, cartórios e impostos, peças fundamentais da É tanto que, quando informado das agitações que ocorriam
engrenagem político-administrativa da época. nas Províncias do Norte, o governo imperial, rapidamente, concluiu
Os liberais paraibanos iam mais longe. Segundo o manifesto citado ser a questão religiosa a causa principal da sedição: “Essa chamada
anteriormente, os impostos eram majorados para garantir ‘ um luxo conflagração deve ser a presença de grupos agitadores naqueles lugares
de príncipe' aos burocratas do aparelho administrativo da Província, mediatos onde não encontra forças. O grito morra os maçons mostra
acrescentando ainda: que é a questão religiosa” (Cartas do Presidente do Conselho. Apud
SOUTO MAIOR, 1978, p.84).
...E é das veias do povo que sai o sangue com que se
O Presidente do Conselho rapidamente atribuiu culpas e indicou
alimenta todo esse luxo, todo esse jogo imoral, todas suas
zangas de dardos! Povo desgraçado! E amanhã a Paraíba nomes dos que deveriam ser mentores intelectuais do movimento. Eram
será um vasto tumulo, mas tudo irá bem, porque estão padres. Vejamos como o caso é colocado:
satisfeitas as paixões danadas deste desgraçado Governo!
Um Paraibano (SOUTO MAIOR, 1978, p.26). A autoridade não deve recuar. Os jesuítas de Triunfo são
os mais perigosos; preparam o movimento da Paraíba
e Pernambuco, de inteligência com Ibiapina e outros
A oposição liberal não vacilava em acusar os conservadores de
missionários. Parece que ali está o foco principal da
venais, tentando demonstrar o não compromisso deles com a causa do sedição. Proceda com prudência, mas com energia,
povo. dispondo para esse fim de elementos eficazes. Aumente-
se a força de linha... (Correspondência do Presidente da
Religiosos e o "Q u eb ra-Q u ilos" Província de Pernambuco. Apud SOUTO MAIOR, 1978,
p.70-71).
E importante relativizar o poder da imprensa e dos liberais, pois
mesmo considerando a significativa mobilização política, outros fatores A correspondência segue com o Visconde do Rio Branco, dando
contribuíram para a revolta popular. instruções de como deveriam atuar as forças repressivas da Província
de Pernambuco, e sugere que as tropas entrem em acordo com as das

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Ariane Norma de Menezes Sá

outras províncias rebeladas, bem como com as forças vindas da Bahia, recolheu-se ao trabalho em suas Casas de Caridade. O mesmo não se
para, assim, mais rapidamente, debelar-se o movimento. podendo dizer do Padre Calixto.
Nesse sentido, é que o Chefe de Polícia da Província da Paraíba, O Padre Calixto, juntamente com Irenêo Joffily e Felizardo
Manuel Caídas Barreto, indicado para apurar responsabilidades e indiciar Toscano, fazia oposição aos Carneiro da Cunha, representante dos
os envolvidos no “Quebra-Quilos”, no seu Relatório apresentado ao conservadores na Paraíba. Era também notório o combate que o padre
Presidente da Província da Paraíba, em fevereiro de 1875, apontou o fazia aos maçons. Horácio de Almeida relata um episódio em que o
Padre Calixto Correia da Nóbrega como um dos principais articuladores Padre Calixto, durante um sermão, teria expulsado da Igreja, debaixo
do movimento. de “apóstrofes vexatórias”, figuras ilustres da cidade, por serem eles
O Padre Calixto, segundo consta no Relatório, teria tentado maçons. O autor também retrata alguns atritos que teriam ocorrido entre
envolver o Padre Ibiapina, figura de grande prestígio junto à população, católicos mais próximos do Padre e maçons durante todo o ano de 1874
quando o convidou a abrir as missões em Campina Grande em dezembro (ALMEIDA, H., 1958, p.140).
de 1873. Apesar de identificados alguns nomes de padres como agitadores,
Para Caídas Barreto, o Padre Calixto há muito tempo vinha estando estes insatisfeitos com o desafio do Império brasileiro ao Papa
preparando a sedição, pois na verdade as assinaturas que ele andava e à sacralidade episcopal, o que se verifica é uma ação individual de
colhendo em favor de D. Vital, e que seriam enviadas ao governo, eram alguns padres. Como, por exemplo, em Pernambuco, os padres jesuítas
uma forma discreta de identificar todos aqueles que eram favoráveis ao estrangeiros, Onorati, Aragnetti e outros que foram expulsos do país,
movimento que ele estaria a empreender. ou do Padre Manuel de Jesus, ou do Padre Calixto na Paraíba. Mesmo
Para o Chefe de Polícia, todos apareciam como suspeitos. assim, foi possível observar que a maior parte dos padres pregava a paz
Algumas autoridades municipais, mesmo quando inimigas entre si, e o fim do movimento.
eram apresentadas como chefes do movimento. Foi o caso de dois E certo que, quando o movimento explodiu, Marcolino, na feira
capitães, que, comprovadamente, eram inimigos do Padre Calixto, mas de Fagundes, dizia que não pagaria o “imposto de chão”, por ser coisa
que foram indiciados juntamente com ele. de maçom. Mas isto está mais próximo de uma justificativa para não
O Coronel Severiano da Fonseca, em seu Relatório, ao se referir pagar do que o contrário: não pagar simplesmente porque ele seria
ao caso ocorrido em Campina Grande, às vésperas do natal de 1873, católico. Nesse caso é interessante ponderar a condição social dos
diz que o Padre Ibiapina, durante a pregação, teria plantado a semente feirantes, componente essencial para compreender sua reação, talvez
do movimento que só desabrocharia quase um ano depois. Segundo o mais importante do que sua religiosidade.
Coronel, o Padre Ibiapina naquela oportunidade, teria dito que todos As pregações encontravam um campo fértil e o Padre Calixto
deveriam desobedecer ao governo maçom, não pagar impostos, e que gozava de boa reputação entre os populares. Há indícios de que o Padre
o filho, a esposa e o escravo deveriam desobedecer o pai, abandonar o Calixto tenha visitado D. Vital no Recife, quando este ainda respondia
marido e fugir do senhor, caso esse fosse maçom (JOFFILY, G., 1977, a processo em liberdade, e que não olhava com simpatia o governo
p.87-88). contrário à Igreja. Mas seria sutileza demais investir contra o governo
Em seguida, o que se verificou, segundo o Coronel, foi um recuo maçónico, induzindo o povo a quebrar pesos e medidas e incendiar
do Padre Ibiapina que, logo após a pregação feita em Campina Grande, cartórios e coletorias, para, assim, indiretamente, colocar-se contra o
governo, por causa da questão religiosa.

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Ariane Norma de Menezes Sã E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

O trabalhador do campo, que frequentava as feiras para garantir população do campo e a burocracia estatal, para Horácio de Almeida,
suas necessidades mínimas e evitar os ‘ vampiros , não acolheria um o centro da revolta foi o fanatismo religioso. Argumenta ele ser muito
discurso tão sutil, nem agiria com tamanha desfaçatez como sugerem mais vantajoso o uso dos novos padrões de pesos do que o até então
os relatórios oficiais, invadindo feiras quando o objetivo era atacar o utilizado, não sendo este o motivo fundamental para a compreensão do
“Estado maçónico”, que feria seus brios religiosos. fato (JOFFILY, I., 1977; ALMEIDA, H„ 1958).
Uma testemunha ocular dos acontecimentos, Ireneo Joffily, coloca Horácio de Almeida não analisou o impacto e o despreparo dos
a questão da seguinte forma: frequentadores de feiras, ao verem sendo-lhes imposto algo sem maiores
explicações, que previa violência caso a lei não fosse cumprida. Ou
Podemos assegurar, como testemunha de vista, que seja, ao contrário do colocado, o “natural” neste caso seria uma reação
não é verdadeira a opinião dos que dizem ter sido a tal imposição, como de fato ocorreu e, que por ter como alvo principal
a sedição dos Quebra-Quilos promovida pelo clero
os pesos e medidas, levou o nome de “Quebra-Quilos”.
paraibano e principalmente pelo missionário padre
Para o governo imperial, colocar o fanatismo religioso como causa
Ibiapina. A causa foi a decretação de novos impostos
pela Assembléia Provincial da Paraíba em sua sessão principal do movimento significava se fortalecer intemamente em tomo
desse ano. A notícia chegou a essa população pobre do sentido de nacionalidade, posto que a luta que se travou foi contra a
e ignorante de tal modo aumentada e extravagante Igreja Romana, colocando em xeque uma prerrogativa do imperador, ou
que despertou logo um ódio geral contra o governo, seja, mexia com assuntos internos do Brasil. Também dava uma prova
que chamavam de doutores ou bacharéis. Queriam da exterioridade do movimento, ao expulsar alguns padres estrangeiros,
um governo de homens rústicos como eles. Nesse que haviam, segundo o governo, encabeçado a revolta.
estado de exaltação de espírito estava o povo quando Por outro lado, ao colocar o problema na perspectiva da questão
se pôs em execução a lei que estabelecia o sistema religiosa, o governo negava-se a assumir seu fracasso, ao tentar diminuir
métrico decimal, cuja vantagem não podendo ser por a crise económica da região que se rebelava.
ele compreendida fez explodir a mina já preparada
Para o historiador contemporâneo, o problema que deve ser
(JOFFILY, I., 1977, p. 187-188).
colocado é se a questão religiosa de fato possibilitou certo nível de
mobilização, devido à atuação dos padres, junto aos que viriam a ser os
Alguns dos principais representantes da historiografia paraibana
“Quebra-Quilos”. O que deve ser evitado é a idéia do fanatismo religioso
preferem ver, nessa citação, uma tentativa de Irenêo Joffily disfarçar
ter sido o eixo principal, pois embora seja um elemento extremamente
seu próprio envolvimento, bem como acobertar a principal causa do
enriquecedor de qualquer movimento social, significaria restringir a
movimento “Quebra-Quilos”: a questão religiosa. Chegam a esta
análise de outros aspectos de um momento histórico bem mais rico.
conclusão, dentre outros argumentos, por comprovarem ter sido Irenêo
Certamente, a dificuldade em identificar os chefes do movimento levou
muito amigo do Padre Calixto, tendo-o defendido, na condição de seu
as autoridades a determinar os padres como líderes da sedição.
advogado e de outros implicados, da acusação de envolvimento na
rebelião. Para eles, o próprio Irenêo teria sido um dos chefes da sedição
Sobre líderes e atribuições de culpas
(ALMEIDA, H.,1958, p. 138; ALMEIDA, E, 1979, p.154).
Se para Joffily a revolta deve ser entendida como uma resposta
A discussão sobre quais seriam os líderes da sedição é relevante, na
ao governo dos bacharéis, que delimitou claramente o divórcio entre a
medida em que possibilita identificar as razões de ser do movimento.
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Ariane Nomta de Menezes Sá

Os documentos analisados colocam que, nas principais vilas e Analisando os dados colocados pelo Coronel Severiano sobre as
cidades, a “turba” invadia a gritar: “morra maçons”, “abaixo os tributos invasões dos sediciosos à cidade de Campina Grande, pode-se inferir
e medidas novas inventadas pelos maçons”. Ou seja, de alguma forma que, com exceção do grupo comandado por Manoel de Barros e Souza
os sediciosos identificavam as medidas criadas pelo governo como cuja intenção era libertar presos da cadeia, a liderança do movimento era
“coisa de maçom”. Assim retomamos à questão religiosa. transitória. Aquele que no momento oportuno se destacava, passava a
É claro que os párocos, ao fazerem suas pregações, levavam aos ocupar a chefia e, tão logo desocupasse a cidade, o grupo se dispersava e
fiéis os problemas enfrentados pela Igreja naquele momento. Encerrar o chefe voltava à sua condição anterior. Uma prova circunstancial desta
o problema aqui significaria não considerar as dificuldades próprias transitoriedade era a não existência de uma estratégia ou de um plano
enfrentadas pelos homens livres pobres envolvidos na sedição. O que montado de ação por parte dos sediciosos, o que levaria à necessidade
os incomodava de fato eram as medidas criadas pelo Estado. Era contra de um líder para chefiar os movimentos de revolta.
a sua execução que eles agiam, recusando-se a pagar os novos impostos,
Assim, o movimento não possuía um ideário claro que definisse
a usar os novos padrões de pesos e medidas e a cumprir a imposição do
suas reivindicações, ou uma organização que garantisse uma ação
recrutamento.
contínua, o que poderia levar homens e mulheres a pôr termo ao estado
Quando referiam-se aos maçons, era a forma de identificar o
opressor, que seria o Estado, os bacharéis, figuras distantes do seu de miséria em que viviam.
cotidiano, assim como o próprio sentido do que era ser maçom. Tratava- A agitação social ocorreu de forma diferenciada nas várias
se, portanto, da explosão, aparentemente irracional, de uma população localidades. Em algumas, foi articulada com a interferência de padres,
que vivia em condições de pobreza, em alguns casos, quase que absoluta, juízes ou de pessoas vinculadas ao partido liberal, em outras, não passou
não vendo possibilidade de melhorias. Era uma revolta contra tudo que de uma rápida manifestação. Talvez, seja por isso que em Campina
representasse o Estado, que apenas lembrava de procurá-los quando era Grande, com base nas rivalidades locais, juiz e delegado passaram
para cobrar impostos ou impor o recrutamento. a sugerir em ofícios a participação do outro na sedição, fazendo-se
Atribuir aos padres a liderança do movimento “Quebra-Quilos” acusações mútuas (SOUTO MAIOR, 1978, p.84).
seria limitá-lo. As próprias autoridades imperiais se contradiziam E importante notar que a revolta não era dirigida contra os
quando tratavam do assunto. Enquanto o Visconde de Rio Branco, em senhores de engenho ou fazendeiros. Em determinada passagem de seu
documento já citado, acusava Ibiapina e outros missionários de chefiarem Relatório, o Coronel Severiano coloca a possibilidade de participação dos
a revolta, o Coronel Severiano nos dava o seguinte depoimento: grandes proprietários de terra, quando os acusa de certa cumplicidade,
demonstrada por “... uma indiferença culposa ou uma animação mais
Em frente a um dos grupos apresentou-se ostensivamente
João Vieira, conhecido por Carga D’Água, magarefe culposa ainda” (Apud MONTEIRO, 1980, p.135).
morador da Varzea Alegre, do outro, o criminoso de Um pouco mais à frente, o Coronel Severiano faz uma observação
homicídio Manoel de Barros e Souza, de outro Antonio que, de certa forma, compromete mais ainda os proprietários de terra e
Barros e Souza e João Nunes, de outro Marcolino de tal, negociantes:
conhecido por Marcos e um indivíduo conhecido por
Piaba. Esses grupos compunham-se de 80 a 100 pessoas
Os negociantes, os proprietários e os senhores de engenho,
[...] a exceção de Manoel Barros, que se compunha de 8 sobre quem recaem quase todos os impostos, consentiam
a 10 indivíduos seus parentes (Apud JOFFILY, G., 1977, em suas próprias casas conversações tendentes a um
P-60). protesto enérgico contra um ato menos considerado da

122 123
Ariane Norma de Menezes Sá E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

Assembléia Provincial, parecendo assim de qualquer


sorte terem inoculado no coração as idéias do que se
sendo extensivo aos indiciados no movimento “Quebra-Quilos”. Dos
achava possuído o resto do povo ( Apud JOFFILY, G., 34 réus pronunciados e processados como chefes da sedição, apenas 2
1977, p.80). permaneceram presos por responderem a outros processos.
A revolta “Quebra-Quilos” deve ser compreendida a partir
A luta contra o Estado ocasionou certa identidade de interesses da crise económica por que passava a região e que tinha dimensões
entre os grandes proprietários rurais e homens livres pobres. nacionais, pois refletia a mudança do eixo político do Norte para o
O Coronel Severiano da Fonseca, em seu Relatório, apesar de Sul, o que poderia èxplicar, em parte, as razões da “cumplicidade” dos
reconhecer a exorbitância dos impostos, a exploração dos arrematantes proprietários rurais mencionadas pelo Coronel Severiano.
quando os cobrava, a resistência à implantação do novo sistema métrico Do ponto de vista político, o movimento sedicioso contou com
decimal, a impopularidade do governo provincial, preferiu concordar o incentivo e a participação direta ou indireta de políticos liberais,
com o que é colocado pelo governo imperial e definir como causa oposição ao governo, e de religiosos, inconformados com a prisão dos
principal do movimento “Quebra-Quilos” os desentendimentos entre bispos.
jesuítas e maçons, pois assim não colocava em risco a própria estrutura A interferência do Estado Imperial, que através de leis, determinava
imperial, então um tanto quanto carcomida (JOFFILY, G., 1977, p.87- a implantação do sistema métrico decimal e o recrutamento, somadas
88 ). aos novos impostos criados pelos governos provinciais e municipais,
Para outro contemporâneo, Henrique Augusto Millet, no entanto, estimulou uma população rotineiramente pacífica e anónima a reagir e
as conclusões sobre a motivação da revolta eram bem outras: lutar de forma não premeditada.

Está acabada a minha tarefa: mostrei que o movimento


Quebra-Quilos não era protesto religioso nem político e
nascera unicamente do mal-estar de nossas populações
do interior que, privadas pela crise da lavoura dos meios
de adquirir dinheiro, reagiram contra os vários tributos de
cobrança mais ou menos vexatória, a que têm recorrido
as Assembléias Provinciais e Câmara Municipal por
ocorrerem às necessidades dos diversos serviços a seu
cargo, por ter o governo geral monopolizado todas as
fontes de renda de cobrança mais suave (MILLET, 1987,
p.95).

Na Província da Paraíba, os impostos baixaram após a rebelião.


Em Areia, por exemplo, o imposto cobrado por carga exposta na feira
passou de 100 para 40 réis. De certa forma é possível afirmar que os
insurgentes conseguiram um de seus intentos.
O Decreto Imperial N° 5.993, datado de 17 de setembro de
1875, anistiava todos os envolvidos na denominada questão religiosa,

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E s c r a v o s , l i v r e s e i n s u r g e n te s

C onsiderações finais

O crescimento das produções açucareira e algodoeira, durante a


segunda metade do século X IX , não foi inibido pela lenta desarticulação
do uso da mão-de-obra escrava na província da Paraíba. A manutenção
dos níveis de produção foi garantida pela expansão do uso do trabalho
livre. A crise nos mercados de exportação dos produtos nortistas foi
transferida para os trabalhadores livres, através do rebaixamento dos
salários e das más condições de trabalho, que frente ao monopólio da
terra, não tinham praticamente nenhum poder de barganha.
Certamente, os padrões de desenvolvimento da economia nortista
não permitiam que o trabalhador livre utilizado fosse o imigrante europeu,
como ocorria nas fazendas de café de São Paulo. Os proprietários rurais
do Norte optaram por empregar os homens livres pobres nacionais, que
existiam em grande quantidade na região e que, de certa forma, já eram
utilizados antes mesmo da crise social desencadeada com a legislação
escravista.
As formas mais notáveis de uso dessa mão-de-obra foram o
assalariamento, os sistemas de moradia e o de parceria. Os assalariados,
na maior parte das vezes, habitavam as cercanias da grande propriedade,
sua condição era caracterizada pela instabilidade no emprego e má
remuneração, levando muitos trabalhadores livres a não manterem
contratos fixos com os proprietários de terras, optando, antes, pela
pobreza itinerante. Quando eram ex-escravos, devido às experiências
anteriores de trabalho, preferiam juntar-se aos grupos itinerantes, ou
então permanecer na mesma condição de exploração. Fora da grande
propriedade, as oportunidades de emprego eram muito limitadas.
O morador também foi bastante utilizado. Trazido para dentro das
cercas das fazendas, este era rigidamente controlado pelos proprietários

127
A riane Norma d e M enezes Sá
E s c r a v o s , liv r e s e in s u r g e n te s

rurais. A parceria ocorria quando o trabalhador livre possuía um capital a tradição, os contratos eram, na maior parte das vezes, acertos verbais,
mínimo para investir na produção. dificultando uma comprovação documental da quantidade e da forma
Na transição do trabalho escravo para o livre, os mais beneficiados
de trabalho livre utilizado.
foram os proprietários rurais, pois esse processo permitiu uma Os dados apresentados para os anos de 1852 e 1872 demonstram
acomodação de seus interesses. Utilizar trabalhadores livres desobrigou- a preponderância numérica de homens livres em todos os municípios
os de fazer despesas para manter os escravos, possibilitou o pagamento paraibanos. Além disso, os fatores que condicionaram a queda do
de salários cada vez mais baixos, considerando a incorporação dos número de escravos a partir de 1850, como o tráfico interprovincial,
libertos ao mercado de trabalho, bem como o uso de formas alternativas as epidemias, as alforrias concedidas através de medidas legais ou por
de remunerar os livres, cedendo parte de suas terras para moradores particulares, antes mesmo da abolição em 1888, demonstram que se
e parceiros. Essa foi a saída histórica dos grandes proprietários, fazia necessária a incorporação do trabalhador livre para garantir o
para assegurar a utilização de mão-de-obra livre em uma economia
processo produtivo.
escassamente monetarizada. Portanto, para falar em transição do trabalho escravo para o livre,
Falar de transição do trabalho escravo para o livre no caso de na Paraíba, na segunda metade do século XIX, temos que levar em
algumas províncias do Norte agrário, principalmente na Paraíba, nos consideração a existência de um grande contingente de homens livres e
coloca uma questão que antecede o período compreendido entre os pobres e que o interesse dos proprietários rurais era garantir a extração
anos de 1810 e 1888, quando, oficialmente, o fim da escravidão começa do sobretrabalho, fosse do escravo ou do trabalhador livre.
a ser discutido, pois, antes mesmo das leis que iriam possibilitar a
desarticulação do escravismo, já ocorria o uso da mão-de-obra livre.
Concordamos com Peter L. Eisenberg (1989), quando afirma
que tanto a escravidão quanto o trabalho livre tiveram como única
função garantir a extração do sobretrabalho do produtor direto e que,
no caso do Brasil, a escravidão, ao invés de ter sido um empecilho para
o desenvolvimento do capitalismo, teria contribuído de várias maneiras
para preparar o terreno para uma economia moderna “seja por meio da
realização de uma acumulação primitiva sobre o trabalho escravo, seja
pela incorporação de ritmos e métodos capitalistas de trabalho” (p.
205), tendo sido a transição marcada pelo reforço do trabalho livre.
Desde o período colonial, o homem livre pobre era utilizado nas
grandes propriedades nortistas. No século X IX , o uso dessa força de
trabalho seria intensificado, considerando seu grande peso demográfico
em detrimento do número de escravos, conforme os censos da época.
No caso da Paraíba, o número de escravos não era grande, levando-nos
a acreditar que, desde o começo desse século, o homem livre pobre era
utilizado nas várias atividades económicas. No entanto, como mandava

128
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k

A riane Norma de Menezes S á.


é professora do*'
«v ■ 2 y Departamento de H is tó ria ,# 1
desde 1992, e dos Programas de P ó s-£
Graduação de História (PPGH) e de '
Geografia (PPGG) da Universidade*
Federal da Paraíba e, entre 1988 e 1 9 9 2 #
foi professora do Departamento d e ^
História da Universidade Estadual do A
Sudoeste da Bahia. Doutora (2001) e *
Mestre (1994) em História Social, te n d o #
realizado ambas as qualificações n a ^ >
Universidade de São Paulo, concluiu
sua graduação na Universidade Federal *
da Paraíba (1986). Desde abril de 2007, #
é secretária de educação do município £
de João Pessoa. Autora de artigos
sobre temas ligados a sua área d e *
pesquisa, também publicou q u a tr o #
livros pela Editora Universitária/UFPB. q
O primeiro, em co-autoria com Maria do 1
Céu Medeiros, “O trabalho na Paraíba: •
das origens à transição para o trabalho #
livre”, em 1999. O segundo, em 2003, f
em co-autoria com Serioja Mariano e
pesquisadores vinculados ao grupo: #
“Sociedade e Cultura na Paraíba #
Imperial”: “Histórias da Paraíba: autores f
e análises sobre o século XIX”, e em 1
2009, com os mesmos autores está
lançando “ H istórias da Paraíba: #
so cie d a d e e c u ltu ra no B ra sil ^
oitocentista - Livro 2”. Em 2005, ^
publicou a primeira edição de “Escravos, #
livres e insuroentes: Paraíha MflfiO- m

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