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Boletim Oficial da Associação de Apoio e Assistência Jurídica as Comunidades

Director Executivo: Rui de Vasconcelos* Tel. 20030252*email:binfo.aaajc@gmail.com

Cidade de Tete* Edição 509* Data: 11 de Março* Ano 2021

Formalização dos Direitos à terra e aceitação das comunidades


gestão das suas terras e recursos Haverá sempre necessidade duma
Há, no país uma série de lições Nós, já entendemos e partilhamos
naturais. E há, um outro elemento. educação cívica cuidadosa e abran-
aplicáveis quanto a formalização dos com as comunidades que a lei co-
Devem-se considerar seriamente as gente e de capacitação da comunida-
direitos da comunidade à terra e a mum ou, o Código Civil, pode pro-
questões de representação do grupo, de. Os actores estatais também preci-
aceitação das comunidades locais porcionar algumas dessas respostas.
as quais devem ser respondidas no sarão de ser constantemente apoia-
como administradores activos de É certo que pode surgir uma série de
âmbito do quadro legislativo. Neste dos e formados em novas abordagens
terra e dos recursos naturais com problemas legais relacionados, en-
aspecto, o princípio orientador deve e incutidos de um novo tipo de pen-
poderes formais, e que permanece, volvendo questões que têm a ver
ser o de ‘assentar naquilo que já samento. Será quase sempre necessá-
em muitos contextos. É necessário com a prova da identidade, a cida-
existe’, isto é, tanto quanto possível, rio haver acções significativas de
equilibrar a introdução de aborda- dania e a adesão a grupos. E estas
devem-se reconhecer formalmente formação e de apoio em métodos e
gens progressivas e radicais com a questões devem ser abordadas como planeamento participativos, para os
parte do ‘pacote jurídico completo’. os grupos já existentes e os seus
probabilidade de aceitação política a processos de tomada de decisões, gestores e para as outras entidades
longo termo e requer a interacção sem introduzir alterações desneces- envolvidas na realização de progra-
contínua entre os diferentes interes- As comunidades estão conscientes mas e na gestão de recursos. E a
sárias.
ses no seio do governo e da socieda- de que a delimitação de terras comu- formação deste tipo deve-se conside-
de civil, com base nos princípios do nitárias deve ser considerada como rar como fazendo parte integrante do
fazendo parte dum processo mais O legislador também está consciente
compromisso e do consenso. currículo formal das instituições de
amplo de formalização de direitos e para não tratar as comunidades formação em administração de terras.
de aumento da participação local como se fossem homogéneas, com
Está mais do que evidente que é interesses comuns identificados
necessário o envolvimento significa- nos processos de desenvolvimento e, Nos casos em que as novas aborda-
consequentemente, de alcançar através de processos consensuais. gens envolvem o reconhecimento dos
tivo e constante dos intervenientes
direitos à terra, até agora informais,
para conceder um nível elevado de
de grupos comunitários, é inevitável,
legitimidade social a estas aborda-
e desejável que tanto os actores esta-
gens, sendo que tal pode, então, criar
tais como os não estatais precisem de
um espaço político maior para reco-
ser envolvidos na facilitação e imple-
nhecer e dar seguimento às reivindi-
mentação do processo. E a lei em
cações e direitos das comunidades. É
Moçambique sugere firmemente a
importante considerar as formas
implementação de processos de
formais e institucionalizadas de delimitação através duma parceria
consulta das partes interessadas, tais entre os serviços do estado e as
como as comissões de terra ou ou- ONGs locais e devem-se envidar
tros fóruns de consulta. A delimita- esforços para criar uma atmosfera
ção de terras comunitárias, como propícia ao apoio e ao encorajamento
ferramenta para a formalização dos desta abordagem, a todos os níveis.
direitos à terra, precisa de ser apoia-
da por um quadro legal que seja Os facilitadores dos processos de
abrangente e claro e que responda às delimitação devem ser sensíveis aos
diversas situações no terreno. contextos em que trabalham. Nal-
guns contextos ‘tradicionais’, os
A AAAJC entende que o quadro processos de delimitação formais e
deve ser suficientemente flexível e legais podem colocar desafios parti-
inovador para ser aplicado em toda culares em termos de educação cívi-
uma vasta gama de situações de ca, dependendo da história e da
posse que existirá invariavelmente cultura predominante das comunida-
melhores níveis de governação das Na realidade, a estratificação social
dentro dum território. A legislação des; em muitos contextos, existem
terras e dos recursos naturais locais. dentro de qualquer comunidade é
deve dar respostas claras a uma crenças duradouras segundo as quais
E sabem ainda que os decisores um facto, e é possível que sejam
vasta gama de questões relativas à as relações personalizadas e as regras
políticos devem considerar a interli- apenas os mais visíveis e poderosos
natureza dos direitos, à identidade informais ainda valem muito mais do
gação de processos e a criação de a participarem nos processos de
dos titulares de direitos, aos poderes que as relações e regras da praxe
sinergias entre o registo de direitos e delimitação e a encaminharem os
e deveres dos representantes dos codificadas na lei. E nestes contextos,
uma maior participação noutros mesmos para a obtenção de benefí-
titulares de direitos. É do conheci- a legislação não pode ser encarada
processos de desenvolvimento, tais cios pessoais. E os projectos também pela população local como a que
mento global que conceitos, tais devem estar preparados para a
como o planeamento descentraliza- determina as ‘regras do jogo’, mas
como ‘comunidade', ou mesmo possível emergência de novas elites
do, o desenvolvimento rural local e apenas como aquela que faz parte do
‘aldeia’, podem ser problemáticos locais. Assim, todos os intervenien-
o planeamento do uso da terra. jogo. Noutros contextos, a profunda
quando são usados em políticas sem tes, incluindo funcionários públicos, desconfiança ou o medo das autori-
que haja uma compreensão comum funcionários de ONGs e membros
É por isso que o objectivo central dades no seio das comunidades
daquilo que significam, no seio das da comunidade, também precisam
deve ser sempre a determinação rurais podem, de facto, fazer com que
pessoas responsáveis pela imple- de estar bem informados e formados
pelas comunidades locais dos bene- a delimitação formal e legal das
mentação. no uso do quadro legal, incluindo no terras seja entendida como uma
fícios directos com a utilização e
uso da metodologia. ameaça.

Nossa Identidade: A Associação de Apoio e Assistência Jurídica as Comunidades (AAAJC), é uma organização da Socie-
dade Civil Moçambicana, não-governamental, sem fins lucrativos, de âmbito nacional, fundada em 2008 e com os seus
estatutos legalmente publicados em 2010 no Boletim da República nº. 2, III serie, 4º suplemento de 19 de Janeiro.
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OFICIAL NEWSLETTER OF THE ASSOCIATION FOR SUPPORT AND LEGAL ASSISTANCE TO COMMUNITIES

Executive Director: Rui de Vasconcelos* Phon. 20030252*email:binfo.aaajc@gmail.com

City of Tete* Edition 509* Date: March 11* Year 2021

Formalization of land rights and acceptance by communities


another element. Group representa- There will always be a need for care-
There are a number of applicable We already understand and share
tion issues should be given serious ful and comprehensive civic educa-
with communities that common law,
lessons in the country regarding the consideration, which must be an- tion and community empowerment.
or the Civil Code, can provide some
formalization of community land swered within the framework of the State actors will also need to be con-
of these answers. It is certain that a
rights and the acceptance of local legislative framework. In this re- stantly supported and trained in new
series of related legal problems may
communities as active administra- spect, the guiding principle should approaches and instilled in a new
arise, involving issues that have to
tors of land and natural resources be to 'build on what already exists', type of thinking. It will almost al-
do with proof of identity, citizenship
with formal powers, and that re- that is, as much as possible, formally ways be necessary to have significant
and membership of groups. And
mains in many contexts. It is neces- recognize existing groups and their training and support actions in par-
these issues must be addressed as
sary to balance the introduction of decision-making processes, without ticipatory methods and planning, for
part of the ‘full legal package’.
progressive and radical approaches introducing unnecessary changes. the managers and for the other enti-
with the likelihood of long-term ties involved in the execution of
Communities are aware that the
political acceptance and requires The legislator is also aware not to programs and in the management of
delimitation of community lands
continuous interaction between treat communities as if they are resources. And training of this type
should be considered as part of a
different interests within govern- homogeneous, with common inter- must be considered as an integral
broader process of formalizing
ment and civil society, based on the ests identified through consensus part of the formal curriculum of
rights and increasing local participa-
principles of commitment and con- processes. In reality, social stratifica- training institutions in land admin-
tion in development processes and,
sensus. tion within any community is a fact, istration.
consequently, to achieve better
levels of governance of local land and it is possible that they are only
It is more than evident that signifi- In cases where new approaches
the most visible and powerful to
cant and constant stakeholder in- involve the recognition of land rights,
volvement is necessary to grant a hitherto informal, of community
high level of social legitimacy to groups, it is inevitable, and desirable,
these approaches, and this can then that both state and non-state actors
be create a larger political space to need to be involved in facilitating
and implementing the process. And
recognize and follow up on the
the law in Mozambique strongly
claims and rights of communities. It
suggests the implementation of de-
is important to consider formal and
limitation processes through a part-
institutionalized forms of stakehold-
nership between state services and
er consultation, such as land com-
local NGOs and efforts should be
missions or other consultation fo-
made to create an enabling environ-
rums. The delimitation of communi-
ment to support and encourage this
ty lands, as a tool for the formaliza-
approach at all levels.
tion of land rights, needs to be sup-
ported by a legal framework that is Facilitators of the delimitation pro-
comprehensive and clear and that cesses must be sensitive to the con-
responds to different situations on texts in which they work. In some
the ground. 'traditional' contexts, formal and
legal delimitation processes can pose
The AAAJC understands that the particular challenges in terms of civic
framework must be flexible and education, depending on the prevail-
innovative enough to be applied in a and natural resources. And they also
participate in the delimitation pro- ing history and culture of communi-
wide range of possession situations know that policy makers must con-
cesses and to direct them towards ties; in many contexts, there are
that will invariably exist within a sider the interconnection of process- enduring beliefs that personalized
es and the creation of synergies obtaining personal benefits. And the
territory. Legislation must provide relationships and informal rules are
between the registration of rights projects must also be prepared for
clear answers to a wide range of still worth far more than the usual
and greater participation in other the possible emergence of new local
questions concerning the nature of relationships and rules encoded in
development processes, such as elites. Thus, all stakeholders, includ-
rights, the identity of rights holders, the law. And in these contexts, the
decentralized planning, local rural ing civil servants, NGO staff and
the powers and duties of representa- legislation cannot be seen by the local
development and land use planning. community members, also need to
tives of rights holders. It is global population as the one that deter-
be well informed and trained in the
knowledge that concepts, such as mines the 'rules of the game', but
That is why the central objective use of the legal framework, includ-
'community', or even 'village', can be only as that which is part of the
must always be the determination ing the use of the methodology.
problematic when used in policies game. In other contexts, the profound
by the local communities of the distrust or fear of the authorities
without a common understanding of
direct benefits with the use and within rural communities can, in fact,
what they mean, within the people
management of their lands and make the formal and legal delimita-
responsible for implementation.
natural resources. And there is, tion of land to be understood as a
threat.

Our ID: Association for Support and Legal Assistance to Communities (AAAJC), is a non-governmental, non-profit,
Mozambican Civil Society organization, nationwide, founded in 2008 and with its statutes published in 2010 in Bulletin
of Republic no. 2, III series, 4th supplement of 19 January. The headquarters is in the city of Tete.