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ARTIGO ARTICLE 207

A configuração da reforma psiquiátrica em


contexto local no Brasil: uma análise qualitativa

Psychiatric reform in a local context in Brazil:


a qualitative analysis

Sônia Marina Martins de Oliveira Antunes 1

Marcos de Souza Queiroz 1

Abstract Introdução

1 Faculdade de Ciências
This study focuses on the daily institutional ac- Durante a segunda metade do século XX, a assis-
Médicas, Universidade
Estadual de Campinas,
tivities in a Center for Psychosocial Care (CAPS), tência psiquiátrica passou e vem passando por
Campinas, Brasil. a municipal mental health service in Andradas, profundas mudanças nos países ocidentais, in-
Minas Gerais, Brazil. The study specifically ana- clusive o Brasil. Tais mudanças culminaram na
Correspondência
M. S. Queiroz
lyzes the social representations by health care reforma psiquiátrica, que determinou o surgi-
Faculdade de Ciências professionals regarding the social rehabilitation mento de um novo paradigma científico e novas
Médicas, Universidade of their patients, vis-à-vis new proposals ap- práticas de assistência em saúde mental. Por ser
Estadual de Campinas.
Cidade Universitária Zeferino proved under the Brazilian psychiatric reform. um fenômeno recente no Brasil, que se manifesta
Vaz, C. P. 6166, Campinas, SP The study adopts a historical and conjunctural no contexto descentralizado do Sistema Único
13083-970, Brasil.
analysis, based on the premise that to evalu- de Saúde (SUS), a sua avaliação passa necessa-
msq44@uol.com.br
ate the new process of institutional interven- riamente por estudos qualitativos em nível local.
tion contributes to both its implementation Este trabalho é uma contribuição nesse sentido.
and improvement. The study also focuses on the O objetivo principal desse artigo é avaliar o
stance by health care professionals towards in- processo de desospitalização no interior da re-
terdisciplinary work and the factors involved in forma psiquiátrica, conforme sua manifestação
this practice. A qualitative approach was used no Município de Andradas, Minas Gerais. Para
throughout the study. isso, através de uma perspectiva qualitativa, ana-
lisamos as representações sociais dos profissio-
Mental Health; Deinstitutionalization; Health nais de saúde do programa do Centro de Atenção
Personnel Psicossocial (CAPS) desse município, sob os se-
guintes aspectos: as condições de trabalho, en-
volvendo o trabalho interdisciplinar; a eficácia
do tratamento e os benefícios para o paciente; as
dificuldades e obstáculos enfrentados no dia-a-
dia; as críticas ao sistema de saúde e ao modelo
de desospitalização.

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O movimento da reforma mentais. A lei em questão proíbe, em todo o Bra-


psiquiátrica no Brasil sil, a construção de novos hospitais psiquiátricos
e a contratação pelo serviço público de leitos e
O processo de reforma psiquiátrica inicia-se, nos unidades particulares deste tipo; estabelece que
anos 60, como um movimento contestador da os tratamentos devem ser realizados, preferen-
perspectiva medicalizante da doença mental, en- cialmente, em serviços comunitários de saúde
volvendo propostas alternativas em relação aos mental e, como finalidade primordial, procura a
manicômios. O chamado movimento anti-psi- reinserção social do doente mental em seu meio.
quiátrico percorreu vários países, com o intuito de A internação só será indicada quando os recursos
dissolver a barreira entre assistentes e assistidos; extra-hospitalares se mostrarem insuficientes 5.
abolir a reclusão e repressão imposto ao pacien- Com o fenômeno da desospitalização, sur-
te e promover a liberdade com responsabilidade gem novos serviços, denominados de CAPS e
dos pacientes. Tais propósitos incluíam, ainda, a Hospitais-Dia. Tais serviços são caracterizados
prática de discussão em grupo, envolvendo uma como estruturas intermediárias entre a interna-
postura essencialmente interdisciplinar 1. ção integral e a vida comunitária; são impulsio-
Ao enfatizar sua crítica aos pressupostos que nados pelos projetos de reforma psiquiátrica,
sustentavam a instituição manicomial, Basaglia 2 que vêm sendo implementados em grande parte
demonstrou que o problema da doença mental dos Estados brasileiros.
está inserido no interior de uma temática políti- Como resultado dessa nova política, o nú-
ca. A ênfase prática de sua proposta envolvia, ba- mero de leitos em hospitais psiquiátricos vem
sicamente, a diminuição de leitos nos hospitais apresentando um declínio contínuo no Brasil.
psiquiátricos e o desenvolvimento de uma rede Em 1996, o seu número era de 72.514, enquanto
de serviços psiquiátricos na comunidade, com- em 2002, projetava-se uma queda para 55.069.
posta por equipes interdisciplinares, capazes de Simultaneamente à diminuição de leitos hos-
responder às demandas dos pacientes e de seus pitalares, tem ocorrido a ampliação dos CAPS.
familiares. Em 1996, havia 154 deles e, em 2002, projetava-
Tal perspectiva foi desenvolvida em oposição se um crescimento para 424, representando um
ao reducionismo positivista, que percebia o fe- aumento da ordem de 175% 5.
nômeno da doença mental como um fenômeno Ao finalizar este tópico, é importante trazer à
que se manifesta meramente no nível biológico, tona alguns números sobre a dimensão do pro-
em prejuízo das noções de ser, de existência e de blema de saúde mental no Brasil. Segundo o Mi-
integridade dos seres humanos 3. nistério da Saúde, a prevalência de transtornos
No Brasil, a criação do SUS, em sintonia com mentais na população está em torno de 21,4%.
a constituição de 1988, preconiza a universaliza- Tais transtornos ocorrem de acordo com a se-
ção do acesso aos serviços de saúde, a integrali- guinte distribuição: os severos e persistentes, que
dade da atenção, a eqüidade e a hierarquização necessitam de atendimento contínuo, estão em
dos serviços, em um contexto descentralizado e torno de 3%; os graves, decorrentes do uso preju-
municipalizado. Com mecanismos de descentra- dicial de álcool e outras drogas, em torno de 6%;
lização e co-gestão em sua organização, o SUS os que necessitam de atendimento contínuo ou
contemplou em suas diretrizes os princípios da eventual correspondem a 12%; os relacionados à
reforma psiquiátrica, incluindo o processo de de- epilepsia correspondem a 1,4% do total 5.
sospitalização e a garantia dos direitos de cidada- O estudo empreendido por Costa 7 traz algu-
nia dos doentes mentais 4,5. ma luz sobre o significado dos gastos do SUS com
Assim como o SUS, a reforma psiquiátrica no problemas relacionados ao transtorno mental.
Brasil consistiu em um processo que incluiu mo- Segundo este autor, este tipo de gasto ocupa o
vimentos sociais e políticos, que desconstruíram quarto lugar em relação aos gastos totais de in-
tanto os conceitos de saúde em geral, como os de ternação do SUS, realizada principalmente em
práticas em psiquiatria, em particular. O Proje- hospitais privados. Em 2000, o gasto do SUS com
to de Lei “Paulo Delgado” propõe, nesse sentido, tal tipo de serviço consumiu cerca de 470 milhões
a extinção progressiva do modelo psiquiátrico de Reais em custos financeiros diretos, sem con-
clássico, inclusive de hospitais especializados, siderar as perdas que a internação representa,
com sua substituição por outras modalidades tanto em âmbito social como em âmbito da pro-
assistenciais 6. dução econômica. Apenas 10% desse montante
Após 12 anos de tramitação no Congresso Na- são atribuídos a gastos com o modelo preconi-
cional, a Lei n. 10.216 foi finalmente sancionada zado pela reforma psiquiátrica, o que representa
pelo Presidente da República em 6 de abril de o financiamento de 266 serviços substitutivos ao
2001, lei esta que dispõe sobre a proteção e os hospital psiquiátrico. Tais serviços foram criados
direitos das pessoas portadoras de transtornos nos últimos dez anos, mas ainda são insuficien-

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tes para o atendimento integral das necessidades O tratamento das entrevistas, após serem
da população. transcritas, foi feito de acordo com os princípios
consagrados pela pesquisa qualitativa, que en-
volvem a extração de categorias, unidades de sig-
Referencial metodológico nificado e análise, de acordo os procedimentos
e o campo de pesquisa preconizados por Bardin 9 e Martins & Bicudo 10.
No que diz respeito à observação participan-
O conceito de representação social, adotado por te, ela ocorreu quase sempre nos momentos que
esta pesquisa como categoria analítica, foi de- antecederam e que sucederam as entrevistas,
senvolvido por Moscovici 8. De acordo com este tendo em vista observar a prática profissional no
autor, tal conceito diz respeito ao fenômeno da dia-a-dia da instituição. Um diário de pesquisa
comunicação psicológica e social de significados foi elaborado com o propósito de coletar as im-
no espaço da vida cotidiana. Neste sentido, a re- pressões extraídas da experiência de pesquisa.
alidade é entendida como uma construção tanto
social como mental, dentro de um contexto de
valores, noções, regras e normas pré-estabeleci- Apresentação e análise dos dados
das pela sociedade e pela cultura mais ampla.
O campo da presente investigação é o CAPS Concepções dos profissionais de saúde
de Andradas. A instituição localiza-se em uma sobre a doença mental: a influência do
chácara dentro do perímetro urbano, ocupando paradigma mecanicista nas representações
uma área de 20.000m2, oferecendo assistência, dos profissionais de saúde
na ocasião da pesquisa, a 45 pacientes distribuí-
dos em regime de um ou dois turnos, respeitando No interior de um novo paradigma e de uma nova
os parâmetros estabelecidos pelo SUS. prática de atenção à saúde, que envolve, conco-
As modalidades de atendimento no CAPS mitantemente, a desospitalização e a implemen-
constituem um universo de prática, que visa dar tação de iniciativas para reinserir o paciente em
suporte ao paciente em crise, envolvendo não seu meio social e familiar, o contato mais imedia-
só o tratamento clínico, mas uma compreensão to da equipe de saúde com a realidade cotidiana
da situação que o circunda, com intervenções do paciente tem se mostrado um fator crucial.
que têm por objetivo assegurar sua reinserção É ela que permite a compreensão do fenômeno
no contexto social e familiar. O CAPS é compos- saúde-doença em termos ampliados e estabele-
to por uma equipe interdisciplinar (psiquiatras, ce um limite à dimensão que define o processo
assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocu- saúde-doença em termos meramente biológicos.
pacionais, auxiliares de enfermagem, monitores Nesse caso, o foco necessário para o diagnóstico,
sociais). Na ocasião de nossa pesquisa, a equipe tratamento e cura abrange as dimensões emo-
de saúde era representada por um médico psi- cional, familiar e social do paciente. Ao penetrar
quiatra, dois assistentes sociais, dois psicólogos, o modo de vida do paciente, a causa da doença
um terapeuta ocupacional, uma enfermeira, du- mental torna-se complexa e passa a exigir uma
as auxiliares de enfermagem e três monitores so- aproximação interdisciplinar, como revelam os
ciais. Destes profissionais, somente os auxiliares trechos de entrevistas abaixo.
de enfermagem e os monitores sociais não pos- “... As questões extrínsecas à doença, quer se-
suíam nível universitário. jam questões individuais, ambientais ou sociais
Utilizamos, nessa pesquisa, procedimentos irão influenciar decisivamente tanto na sua evo-
metodológicos influenciados pela perspectiva lução como no seu prognóstico; aí é que percebe-
etnográfica, sendo os principais instrumentos o mos as limitações do modelo tradicional e a ne-
método da observação participante e as técni- cessidade da realização prática, através de uma
cas de entrevistas semi-estruturadas. Sem seguir equipe interdisciplinar, das concepções teóricas
padrões rígidos ou pré-determinados, o pesqui- sobre saúde mental” (Psiquiatra).
sador procurou desenvolver, no trabalho de cam- “Quando realizo visitas domiciliares, todo
po, uma postura aberta, na qual a pesquisa se o prisma ambiental vivido pelo usuário doente
transforma em experiência vivencial. mental surge com todas as suas cores e comple-
As entrevistas foram direcionadas à totali- xidades; é possível então compreender porque
dade de profissionais de saúde que compõem a determinado paciente não evolui satisfatoria-
equipe do CAPS. Todas as entrevistas, gravadas, mente. O ambiente familiar negativo desempe-
foram realizadas individualmente no espaço do nha um papel preponderante nisso” (Assistente
CAPS e, em média, duraram aproximadamente social).
noventa minutos cada. A coleta de dados foi apli- Observamos em nossas entrevistas certo cla-
cada no período de junho a setembro de 2003. mor para modificar a visão preconceituosa tra-

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dicionalmente aceita, inclusive por médicos e por exemplo, o câncer ...” (Auxiliar de enferma-
profissionais da saúde, que considera o doente gem).
mental como incapaz de socializar-se, incorpo- Uma representação de ordem biológica e
rando-o em padrões de rejeição e isolamento. organicista da doença mental tende a produzir
Há, nesse sentido, uma convicção generalizada uma reificação do paciente, na medida em que
de que a reinserção do paciente em seu meio fa- elimina o contexto sócio-psicológico em torno
miliar e social é uma condição fundamental para do qual se formou o seu estado patológico 11.
a sua cura. Esta postura percebe o tratamento e Nesse sentido, o processo saúde-doença torna-
a cura como um processo que envolve não só a se impregnado pelos preceitos que concebem a
equipe de saúde, mas também o paciente e seu doença como o resultado da perturbação da re-
meio social e familiar. Há, entre nossos entrevis- gularidade e do equilíbrio biológico.
tados, uma adesão total a esta perspectiva. Desse modo, os profissionais entrevistados
“... Temos observado que a reforma psiquiátri- apontam que o exercício de suas práticas está
ca se apresenta como um processo que vem cres- baseado no diagnóstico psiquiátrico, com alusão
cendo, gerando novas discussões onde a sociedade às causas biológicas da doença mental. Assim,
também tem a sua responsabilidade, precisamos apesar de todas as tentativas e debates teóricos
acreditar nisso” (Psicóloga). no sentido de se fomentar o trabalho multiprofis-
“... Tentamos fazer o melhor para a aceitação sional, a prática ainda está impregnada pelo mo-
da doença e o fim do preconceito. Eu não tenho delo tradicional, que busca a causa da doença,
dúvidas de que isso pode facilitar muito o trata- primariamente, na dimensão biológica e a cura
mento e a cura do paciente” (Assistente social). através da intervenção medicamentosa.
Ainda que pautadas por uma perspectiva que, Reforça esta atitude o comportamento dos
em termos teóricos, propõe um novo paradigma usuários, que procuram o serviço com queixas
científico para a área da saúde mental, no nível específicas (sintomas) e buscam um alívio ime-
da intervenção prática, ainda ocorre significativa diato para esta queixa (remédio que cura). A
influência da perspectiva medicalizante ante- resistência às praticas terapêuticas mais demo-
rior ao movimento da reforma psiquiátrica. Isso radas, que envolvem uma atuação na dimensão
ocorre por dois motivos principais: a dificuldade emocional e social do paciente, é quase sempre
de intervir nas condições de vida do paciente e muito grande.
os meios ainda insuficientes de que dispõem o “... Já ouvi o paciente dizer: a psicóloga não
CAPS. resolve nada – eu não vou ficar trabalhando de
Nesse sentido, observamos um aspecto co- graça na oficina terapêutica, não estou vendo ne-
mum a todas as entrevistas, que diz respeito tan- nhum resultado. Eu quero um remédio que fun-
to ao reconhecimento de que o envolvimento de cione para o meu problema” (Terapeuta ocupa-
aspectos afetivos, sociais e comunitários são fun- cional).
damentais para a superação da doença, como o Em contraponto, e sustentando tais com-
reconhecimento da dificuldade de implementar, portamentos, os profissionais da equipe multi-
na prática, procedimentos que possam dar conta profissional sentem-se, por vezes, inseguros em
da complexidade desta dimensão. promover tratamentos alternativos, não médi-
Ainda que toda a equipe tenha uma boa for- cos, para a solução de alguns problemas de saúde
mação teórica da reforma psiquiátrica, os entre- mental. Esta insegurança, algumas vezes, acaba
vistados demonstraram certa insegurança quan- por se traduzir em uma atitude subordinada,
do a questão focalizou a definição do fenômeno dependente da consulta psiquiátrica. O produto
da doença mental. Quando solicitada em poucas final do trabalho multiprofissional, nesse con-
palavras, esta raramente apareceu pronta. De um texto, desvaloriza-se, transformando-se em ex-
modo geral, houve a tendência de caracterizar a pressão de simples complemento do tratamento
doença a partir de uma base organicista, embo- prescrito pelo psiquiatra. O sucesso ou insuces-
ra a dimensão emocional também tivesse sido so do tratamento é, então, referendado ao êxito
considerada. ou fracasso da conduta psiquiátrica, sendo que,
“... Acho que poderia ser definida de várias nesse caso, a responsabilidade pesa despropor-
maneiras. Pode ser um distúrbio mental de fundo cionalmente sobre o profissional médico: “... ti-
hereditário, pode também ser relacionado a fato- midamente observamos uma tentativa de trazer
res emocionais. Enfim, existem vários conceitos ...” às queixas dos usuários questões outras que não o
(Terapeuta ocupacional). mero tratamento farmacológico” (Psiquiatra).
“... Entendo doença mental como um mau A questão da força que o antigo paradigma
funcionamento do cérebro ...” (Monitor social). mecanicista da medicina mantém no contexto
“... Comparo a doença mental como um fato da reforma psiquiátrica do CAPS de Andradas
que pode acontecer como qualquer outra doença, mostra, ainda, um desdobramento no trabalho

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em equipe, no qual o médico psiquiatra detém cientes é feita numa constante discussão entre
um papel de hegemonia. Esta questão será trata- os profissionais, o que demonstra uma forma
da no tópico seguinte. prática de expressão do que seria uma forma de
trabalho tipo colegiado. Considera-se que esta
Perspectiva interdisciplinar no forma operacional permite vislumbrar o usuário
trabalho de equipe por um prisma mais abrangente, e a atenção pra-
ticada faz-se de modo mais integral e dinâmico,
O sentido da interdisciplinaridade reside na mesmo que o prisma médico da questão “tratar
oposição à concepção de que o conhecimento sintomas” seja a prioridade.
se processa em campos fechados, em mundos É evidente que, neste contexto, em que o sa-
particulares, isolados dos processos e contextos ber é construído e reconstruído constantemente
histórico-culturais. A proposta da reforma psi- em função de um determinado caso, as verdades
quiátrica, pelo contrário, conduz o profissional produzidas são mais instáveis e provisórias. Co-
de saúde a novas práticas em saúde mental e abre mo mencionado anteriormente, em tal ambien-
perspectivas enriquecedoras envolvendo o tra- te, o recurso ao diagnóstico médico e às formas
balho interdisciplinar. mais tradicionais de tratamento ocorre em várias
De um modo geral, o sentido interativo da in- ocasiões.
terdisciplinaridade visa resgatar o diálogo entre o “... Percebo que algumas vezes a palavra final,
conhecimento humano e a realidade do mundo. a melhor maneira de prosseguir na intervenção, é
O rompimento com a tradição e a abertura ao a do médico ...” (Auxiliar de enfermagem).
cotidiano, necessários para a manutenção deste Nas representações observadas, pudemos
diálogo, têm como referência negativa o reducio- observar que as práticas buscam alcançar o ideal
nismo positivista o qual, em função de manter contido no novo paradigma da reforma psiqui-
os formalismos e a quantificação nas ciências, átrica, mas esbarram nas dificuldades políticas,
prejudicou as noções de ser, de existência e inte- sociais e econômicas. Dentro de uma plêiade de
gridade do saber humano 3. condições cotidianas, os profissionais de saúde
Observamos que os profissionais do CAPS entrevistados reconhecem que a sua atuação
procuram partilhar suas experiências e, com is- deveria apreender as complexidades do adoecer
so, desenvolver uma troca de informações entre psíquico, assim como os fatores que permeiam
as várias especialidades na busca de soluções pa- sua constituição dentro de um processo bio-psi-
ra os problemas emergentes. Ao promover este cossocial. Porém, a hegemonia do modelo médi-
sentido de diálogo, o trabalho interdisciplinar é co tradicional sempre ocorre para os casos mais
explicitado pelos profissionais de saúde como a difíceis. Nesses casos, o papel do médico (com
única forma de se conseguir um resultado efeti- sua visão centrada na dimensão biológica) é con-
vo no interior do objetivo proposto pela reforma siderado crucial para o tratamento, enquanto o
psiquiátrica. papel dos demais profissionais da saúde (com
“... O lidar com a questão da doença mental sua visão centrada na dimensão psicológica e
extrapola as questões puramente médicas, psi- social) é considerado auxiliar ou complemen-
cológicas e sociais; a loucura deve ser avaliada tar. O trecho da entrevista abaixo exprime bem a
dentro da sua própria multiplicidade e da sua in- dominância e o poder simbólico do profissional
teração com todos os aspectos da existência e do médico.
conhecimento” (Psiquiatra). “... Foi o psiquiatra que encabeçou todo o pro-
“... Eu entendo interdisciplinaridade como jeto na criação do CAPS, por isso ele usufrui uma
troca de informação e de experiência, o que re- grande credibilidade, tanto dos pacientes como
quer trabalho com muita união, cada um na sua da comunidade. A dominância que ele usufrui na
especificidade, mas também com o propósito de equipe de trabalho nos deixa mais seguros tam-
entender um pouco do trabalho do outro” (Tera- bém e isso, com certeza, favorece a reinserção so-
peuta ocupacional). cial do paciente” (Terapeuta ocupacional).
“... Não tem jeito de você trabalhar sozinha Ainda que se processe com a dominância do
numa equipe de saúde quando esta equipe se dis- profissional médico, a interdisciplinaridade é
põe a prestar um serviço de qualidade ...” (Enfer- utilizada pelos profissionais de saúde do CAPS
meira). como condição necessária para estabelecer as
“... Entendo que, num trabalho em equipe, é conexões possíveis entre todas as áreas de co-
importante se sentir à vontade para discutir al- nhecimento do serviço. Para os profissionais
gum caso, trocar informações a respeito do quadro pesquisados, verificamos uma tendência de cres-
do paciente” (Psicóloga). cimento da perspectiva interdisciplinar, envol-
No ambiente de trabalho do CAPS, a busca vendo tanto o respeito às especialidades como
de soluções para os problemas trazidos pelos pa- um ímpeto natural de estabelecimento de pontes

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que possibilitam o diálogo. É provável que a con- locução e realimentação de suas experiências,
solidação dessa prática possa trazer, em futuro reflexões e práticas. Tal situação é particularmen-
próximo, um sistema mais igualitário, tipo co- te verdadeira quando os gestores da saúde em
legiado, entre os profissionais que constituem a municípios brasileiros desprezam as políticas de
equipe de saúde. saúde mental já estruturadas em nível federal. A
autonomia do nível político local na gestão dos
O papel do SUS e do profissional de saúde serviços de saúde permite aos municípios a in-
na desospitalização do doente mental clusão precária, ou até mesmo a não inclusão,
da reforma psiquiátrica na implementação das
O CAPS de Andradas reproduz, em nível local, as políticas públicas para o setor.
dificuldades do sistema de saúde brasileiro. En- Os profissionais de saúde advertem que os
tre essas dificuldades, configura-se uma grande investimentos governamentais insuficientes in-
contradição entre o plano ideal e as condições viabilizam a inclusão de novas tecnologias como
efetivas de sua implantação. Tal tipo de contradi- o treinamento voltado aos profissionais de saúde
ção é consistente nas representações de nossos que atuam no contexto da reforma psiquiátrica.
entrevistados, que procuram encontrar um res- Todos os membros do CAPS entrevistados enfa-
ponsável político pelo aperto financeiro e pelo tizam a necessidade de mudanças significativas
precário apoio disponível: “... todos nós aqui sen- nas políticas públicas de saúde, a fim de permitir
timos uma falta danada de compromisso do setor um maior compromisso, responsabilidade, soli-
público ...” (Assistente social). dariedade e ética no atendimento.
Há um reconhecimento de que houve avan- “... Precisamos investir em tecnologias hu-
ços na implementação de políticas públicas para manas, e isso também custa dinheiro. Os profis-
a área de saúde mental nos últimos anos, mas a sionais precisam aprimorar seus conhecimentos,
influência que estas produzem na realidade coti- precisam de treinamentos, cursos, enfim precisam
diana é percebida como insuficiente, pela mag- se sentir mais seguros e tranqüilos para intervir ...”
nitude do problema e pelo isolamento de várias (Assistente social).
regiões do país, principalmente o seu interior “Percebo uma insensibilidade das autorida-
distante das capitais e zonas metropolitanas. des governamentais para com a formação técnica
“... Com muita lentidão, o sistema tem incor- e capacitação dos trabalhadores na composição
porado em suas políticas os novos conhecimentos; de equipes de saúde mental. A equipe de saúde
não tem sido um processo equânime em todo o mental realiza um trabalho especialmente delica-
Brasil, sendo que em algumas regiões o avanço é do e precisa estar adequadamente formada para
maior e em outras, menor ...” (Psiquiatra). tal. Poderíamos fazer muito melhor o que estamos
No que diz respeito ao processo de desospi- fazendo” (Enfermeira).
talização, a maioria das representações manifes- Para a grande maioria dos nossos entrevista-
ta um sentimento de frustração com o investi- dos, a maneira que o SUS investe no processo de
mento governamental insuficiente para o setor. desospitalização está intrinsecamente ligada às
Nos trechos abaixo, observamos uma explicação questões que envolvem o modo de produção ca-
política e econômica, bastante prevalente nas re- pitalista, onde o sistema prioriza a quantificação
presentações sociais dos entrevistados, o que é e dificulta a qualidade da assistência, sob a ótica
considerado um desestímulo ao seu trabalho. da produção e ampliação de capital.
“Há um discurso contraditório dos governan- “... Há grandes incoerências dos governantes:
tes e a atuação do SUS; percebo que gira em torno percebo que gira em torno de resistências políticas,
de questões políticas, com grande incompetência a eterna crise econômica do país e o massacre que
dos profissionais governantes” (Psiquiatra). sofremos do FMI e do capital externo; as mudan-
“Acho que para a desospitalização acontecer ças de rumo dos programas governamentais; a ler-
é preciso dar suporte aos municípios. Vejo que deza ou os excessos na efetivação dos projetos ...”
o movimento de reforma, com a própria desos- (Psiquiatra).
pitalização, o doente mental não foi o principal Tal ponto de vista é reforçado por vários au-
objetivo do movimento, mas a idéia principal tores, entre eles, Luis 12, que constata que o fator
era encontrar uma forma de amenizar o ‘rombo’ primordial da reforma psiquiátrica é o da produ-
que havia nas finanças do Ministério da Saúde” ção de uma maior racionalidade econômica na
(Psicóloga). área da saúde mental. Em tal contexto, a maior
De acordo com Costa 7 os profissionais da qualidade no tratamento médico dispensado aos
saúde mental, ao mesmo tempo em que se res- pacientes torna-se um fator secundário.
sentem da ausência de suporte governamental Apesar das dificuldades inerentes à conjun-
para com os objetivos das políticas públicas vol- tura econômica do país, para os profissionais
tadas ao setor, advogam a necessidade de inter- entrevistados, a reforma psiquiátrica tem con-

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tribuído sobremaneira para os avanços relacio- pouco suporte. É importante mencionar que o
nados às suas práticas profissionais. Verificamos, médico da equipe de saúde é e tem sido o princi-
assim, que o CAPS de Andradas mostra-se com pal mentor da reforma psiquiátrica no interior da
possibilidades reais de se tornar viável, sobretu- equipe de saúde CAPS. Se não fosse por este fator,
do, porque os profissionais envolvidos acreditam dificilmente, tanto a reforma psiquiátrica como o
nas mudanças que o CAPS pode proporcionar ao trabalho interdisciplinar teriam condições de se
usuário rumo à construção de sua cidadania. sustentar no Município de Andradas.
Como principal obstáculo ao avanço da re-
forma psiquiátrica no contexto da nossa pes-
Considerações finais quisa encontra-se a perspectiva biologicista e
hospitalocêntrica do paradigma mecanicista an-
Observamos, nesta pesquisa, que a equipe de teriormente hegemônico na área de saúde men-
saúde do CAPS de Andradas reconhece, teori- tal. Tal perspectiva ainda constitui um obstáculo
camente, a complexidade do adoecer psíquico, principalmente porque ela ainda é partilhada,
admitindo, nesse sentido, os fatores bio-psicos- não só pelas classes populares, mas também pela
sociais que permeiam sua constituição. Tal re- classe dominante, envolvendo políticos, admi-
conhecimento, no entanto, continua pressupon- nistradores e prefeitos que gerenciam o sistema
do a hegemonia do saber médico, que subme- de saúde. Tais classes, ainda percebem a doença
te a equipe de saúde à sua lógica dominante e, mental como um problema a ser afastado, não
com isso, enfraquece a dimensão cuidadora do importando muito a forma de fazê-lo.
programa. A inexistência de um clima político/cultu-
A medicina pressupõe uma profissão que, his- ral favorável à implementação e instituição do
toricamente, se beneficia de maior legitimação CAPS, principalmente por parte das prefeituras
social, o que lhe confere um exercício de domi- locais, frustra de certo modo a equipe profissio-
nância em relação aos demais profissionais que nal encarregada de sua implementação. As nos-
formam uma equipe multidisciplinar de saúde. sas entrevistas revelam que todos os profissionais
Tal dominância foi unanimemente reconhecida entrevistados consideram que poderiam atuar
por nossos entrevistados. com mais competência se os recursos disponí-
Em um contexto de transição de uma ordem veis fossem adequados. Há, nesse sentido, um
centrada no hospital para uma ordem centrada descontentamento generalizado com relação às
na família e no meio social do paciente, nem as políticas sociais públicas voltadas para o setor de
regras estão bem constituídas, nem as práticas saúde mental. Há, ao mesmo tempo, uma con-
plenamente institucionalizadas. Com um apoio vicção de que o fechamento dos hospitais psi-
governamental insuficiente, o saber e a prática quiátricos vem acompanhado da montagem de
acumulados pela equipe de saúde tendem a ser novos serviços extra-hospitalares com recursos
interpretados e constituídos a partir de cada ca- insuficientes para funcionar corretamente.
so. Sem um lastro baseado no acúmulo de expe- Em relação ao papel do SUS, a equipe de
riências e com pouco apoio institucional, é na- saúde do CAPS ressente-se da ausência de um
tural que, em tal circunstância, haja a tendência investimento governamental adequado para o
de recorrer ao velho paradigma médico centrado município. Entre as carências observadas, mais
em uma perspectiva biologicista. do que a falta de pessoal especializado, estaria
A própria visão cultural do paciente em rela- a ausência de treinamento desse pessoal, assim
ção ao novo modelo de desospitalização impede, como a realimentação de suas experiências es-
por vezes, um exercício efetivo de ação interdis- pecíficas.
ciplinar. Afastado de condições sociais que lhe De um modo geral, nossos entrevistados atri-
proporcionariam maior cidadania, o paciente buíram à postura conservadora da esfera munici-
e seu meio sócio-familiar impõem, muitas ve- pal uma parcela maior da culpa pela situação de
zes, considerável resistência quando a equipe de isolamento do profissional de saúde mental. Tal
saúde tenta reintroduzir o usuário nas atividades atitude inclui, ao mesmo tempo, uma percepção
cotidianas de sua comunidade. de saúde centrada no aspecto biológico da doen-
A população, de um modo geral, ainda guar- ça, e um desprezo pela política de saúde mental
da preconceitos e temores em relação à loucura já estruturada em nível federal.
e, freqüentemente, não colabora com a proposta Nesta situação, os entrevistados reconhece-
de assumir qualquer responsabilidade no trata- ram que o setor mais prejudicado é o relaciona-
mento e na reinserção familiar do paciente. Ain- do com o acompanhamento pós-alta, que pro-
da que reconhecido pela equipe de saúde como cura a reinserção do paciente em sua família e
fundamental para o exercício do novo paradig- na comunidade. Tal tipo de serviço, considera-
ma, o trabalho multidisciplinar ainda apresenta do fundamental, é praticamente inexistente no

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contexto de nossa pesquisa. Para implementá-lo, Em suma, as representações sociais de nos-


considerou-se indispensável, além da formação sos entrevistados sugerem que o atendimento
técnica e capacitação continuada dos profissio- realizado no CAPS de Andradas apresenta vários
nais envolvidos, um serviço de supervisão tan- aspectos positivos em um contexto de várias di-
to das equipes como da situação do paciente. A ficuldades. Ficou evidente que os profissionais
possibilidade de realizar tal formação sempre de saúde percebem o novo paradigma no campo
esbarra na questão financeira. da saúde mental como um avanço significativo
Apesar dos obstáculos mencionados, perce- no tratamento de indivíduos expostos a tais pro-
bemos que, no contexto do CAPS de Andradas, blemas, ainda que a sua implementação se faça
há uma tendência de crescimento da reforma com recursos insuficientes. A principal dificulda-
psiquiátrica, em sentido mais amplo, e do traba- de apontada pelos entrevistados, nesse sentido,
lho interdisciplinar, em sentido mais estrito. Os diz respeito à ausência de novas tecnologias para
profissionais entrevistados revelaram perceber a área, as chamadas tecnologias humanas, que
positivamente o atendimento e as práticas in- capacita e confere realimentação teórica à expe-
terdisciplinares no interior do processo de de- riência dos profissionais.
sospitalização. A conseqüência inevitável da dificulda-
Percebemos também uma atitude por parte de apontada acima é que o trabalho em saúde
de cada especialista entrevistado no sentido de mental tende a fragmentar-se e perder de vista a
admitir os limites de sua especialidade para dar integralidade do cuidado, um aspecto que cons-
conta de um processo maior, que é o da saúde. titui a essência da reforma psiquiátrica. De certa
Implícito em tal atitude encontra-se o enten- forma, nossos entrevistados estão cientes desse
dimento de que um diálogo constante entre as fato, ao mesmo tempo em que procuram superar
especialidades é absolutamente necessário para o problema através de uma postura voluntarista.
dar conta da doença mental. O avanço da reforma psiquiátrica nesse contexto
Desta forma, podemos afirmar que, de um exige o apoio de uma política pública específica
modo geral, a equipe de saúde do CAPS esfor- voltada para a promoção de um processo de tra-
ça-se para superar os limites de suas atribuições balho integrado.
específicas, tendo em vista promover a reabili- Podemos concluir nosso estudo afirmando
tação e reinserção na comunidade do paciente. que o desenvolvimento da reforma psiquiátrica
Verificamos, nesse sentido, uma unanimidade, no CAPS de Andradas requer um investimento
entre os profissionais entrevistados, na avaliação maior na integração das equipes de trabalho, in-
de que os pacientes tratados a partir do processo tegração esta que necessita de um investimento
de desospitalização têm sido amplamente bene- específico no sentido de aprofundar a interação
ficiados em relação aos pacientes tratados na for- e o diálogo interdisciplinar. Faz parte deste apro-
ma hospitalar tradicional. Mesmo quando consi- fundamento a visão de que o conceito de saúde
derado o tratamento dispensado a pacientes do diz respeito a um fenômeno integral, que só pode
sistema privado, através de convênio médico, foi ser acessível a um conjunto de especialidades em
creditado ao programa CAPS um reconhecimen- constante interação e diálogo.
to favorável.

Resumo

Este estudo focaliza o cotidiano institucional das bém a postura dos profissionais de saúde, o trabalho
atividades desenvolvidas pelo Centro de Atenção Psi- interdisciplinar e os fatores que permeiam esta práti-
cossocial (CAPS), um serviço municipalizado de saúde ca. Uma abordagem qualitativa é utilizada em toda a
mental em Andradas, Minas Gerais, Brasil. O estudo pesquisa.
analisa, em particular, as representações sociais dos
profissionais de saúde envolvidos com o atendimento Saúde Mental; Desinstitucionalização; Pessoal de
do doente mental, face a sua reinserção social, fr- Saúde
ente às novas propostas preconizadas pela reforma
psiquiátrica. Remete a uma análise histórica e conjun-
tural, partindo-se da hipótese de que avaliar o novo Colaboradores
processo de intervenção institucional contribui para a
sua implementação e aprimoramento. Focaliza tam- O artigo foi escrito por ambos os autores.

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