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Design e tecnologia assistiva:

Produto para público com nanismo

Cláudia S. Alves Fabiane V. Romano


Universidade Federal de Santa Maria Universidade Federal de Santa Maria
Santa Maria, RS, Brasil Santa Maria, RS, Brasil
claudinhalvs@gmail.com fabiromano@gmail.com

RESUMO
O presente trabalho é um estudo do design ABSTRACT
no âmbito da acessibilidade. O público direto The present work is a study of design in the
deste projeto são as pessoas com nanismo. context of accessibility. The direct public for this
Inicialmente, foram feitas pesquisas referentes às project are people with dwarfism. Initially,
políticas sociais de acessibilidade e os produtos research were made regarding the social policies
existentes no mercado para o público citado for accessibility and existing products in the
donde se verificou que há uma grande carência market for the public selected, and ended up
de projetos que favoreçam essa comunidade. discovering that there is a dearth of projects that
Sendo assim, foram realizadas análises, foster this community. Thus, surveys, interviews
entrevistas e acompanhamento de possíveis and follow-up were made with possible users,
usuários, definindo duas necessidades maiores defining two greater needs faced for them, reach
enfrentadas por eles, o alcance e a mobilidade. O and mobility. The objective then became to
objetivo, então, tornou-se o desenvolvimento de develop a multifunctional product that works
um produto multifuncional, que trabalhasse estes these two points. The final model is made up on
dois pontos, facilitando a vida do usuário. O a kick scooter that takes three different formats,
modelo final constitui-se em um patinete que helping with the problems raised. Was built the
assume três formatos diferentes, de forma a 3D model for visual representation of the
auxiliar nos problemas levantados. Foi realizada a dimensions and operation. The models and
construção do modelo tridimensional para renderings of the product were also performed.
representação visual das dimensões e
funcionamento. Também foram realizadas as KEYWORDS: Dwarfism, assistive technology,
modelagens e renderizações do produto. Além da design.
validação junto ao usuário.

INTRODUÇÃO
PALAVRAS CHAVES: Nanismo, tecnologia Desde os tempos mais remotos os seres
assistiva, design. humanos interagem com o meio que os cerca
para desenvolverem produtos capazes de superar

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as limitações humanas. O homem pré-histórico mercados diferenciados no que diz respeito à
fazia uso de elementos naturais para produzir idade, experiência e capacidade.
ferramentas que aprimorassem suas habilidades Considerando estes indicativos, escolheu-se
manuais, posteriormente estas ferramentas projetar para pessoas que apresentam nanismo.
passaram a ser modificadas de forma a facilitar o Especificamente para este grupo, há grande
trabalho às quais eram destinadas. No decorrer carência de produtos adaptados às suas
dos anos, o homem continuou interferindo e limitações naturais. No caso das pessoas
modificando artefatos, principalmente em dois pequenas, as medidas antropométricas mais
fatores: funcionalidade e estética, com o intuito próximas referem-se a medidas infantis,
de melhorar funcional, ergonômica e dificultando a existência de produtos que sanem
esteticamente os produtos, de forma a atender necessidades adultas para estas pessoas,
às necessidades do ser humano – processo, hoje, exigindo um maior esforço para realização de
denominado design. Segundo Cristine Nogueira e atividades corriqueiras.
Vera Damazio (2005) [1] o design é uma
atividade estruturada para materializar soluções DESIGN CENTRADO NO USUÁRIO
para problemas de toda ordem, dos mais básicos O produto assistivo é antes orientado para a
aos mais complexos. Desta forma encontra-se necessidade de um público-alvo do que para o
intimamente ligado com as necessidades da mercado, dessa forma optou-se pelo uso de uma
sociedade da qual faz parte, precisando atender a ferramenta metodológica que abordasse essa
todo tipo de problemática que se apresente, centralização no usuário, o kit de ferramentas
independente de sexo, idade, habilidade ou HCD – Human Centered Design (Design Centrado
situação. Seguindo este viés, o projetista no Humano), desenvolvido pela IDEO (IDEO,
apresenta um papel primordial no que diz 2014) [3]. O HCD foi desenvolvido de forma a ser
respeito à priorização da relação desempenho flexível o suficiente para se adaptar a qualquer
versus capacidade. problema proposto. Não há regras de quais
Citando Oliveira (1998) [2] “a função métodos devem ser seguidos, dando liberdade ao
pedagógica do trabalho material, como a da projetista de construir o processo mais adequado
sociedade em geral, não depende apenas das à sua necessidade. No entanto, este processo,
condições em que é dado ao homem, mas obrigatoriamente, parte de um problema
também e, sobretudo, da luta dos homens contra específico e continua por três fases principais:
essas condições”. Ouvir (Hear), Criar (Create) e Implementar
Atualmente temáticas como o (Deliver). Durante a fase Ouvir, são coletadas as
desenvolvimento de produtos que atendam histórias do usuário, através da pesquisa de
necessidades específicas e universais do indivíduo campo. Esta pesquisa é qualitativa, pois não há
deixaram de ser apontadas como tendências e necessidade de cobrir uma amostragem grande o
tornaram-se parte do dia-a-dia, através da suficiente para ser estatisticamente relevante. O
inclusão de produtos que atuam como objetivo é analisar dados não mensuráveis como
potencializadores da qualidade de vida, seja por sentimentos, sensações, pensamentos e
suas características estéticas ou pela função a percepções. Compreender o contexto do
qual se destinam. problema. Na fase Criar, as informações
A importância dada à usabilidade só tende a levantadas são transformadas em estruturas,
aumentar nas próximas décadas com populações oportunidades, soluções e protótipos. Por fim,
cada vez mais diversificadas, devido ao aumento durante a etapa Implementar, as soluções
da longevidade da raça humana nos últimos anos passam a serem testadas e desenvolvidas,
e a melhoria das tecnologias médicas que resultando no projeto final.
possibilitam um maior número de opções a
pessoas que apresentam algum tipo de
deficiência. Esses dois fatores combinados criam

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PROCESSO PROJETUAL
Para contextualizar o projeto a ser
desenvolvido, é necessário realizar uma Pesquisa
Informacional, onde são reunidas e analisadas
informações que justificam a relevância do
trabalho e auxiliam no entendimento do
problema proposto. A partir desta etapa pode-se
ter uma compreensão real do escopo do projeto,
possibilitando a definição dos seus requisitos.
Durante a Pesquisa Informacional, procurou-se
informações referentes ao design no campo da
acessibilidade, através de estudos sobre inclusão,
design universal e tecnologias assistivas, com a
finalidade de compreender aonde o design já vem
atuando e o seu potencial como promotor de
autonomia e bem-estar.
Além disso, foram realizados estudos sobre o
público-alvo deste projeto, o portador de
Figura 1 – HCD nanismo acondroplásico, o tipo mais comum, em
que o indivíduo atinge em média 1,20m de
altura, possui órgãos em tamanho maior do que
o esperado em relação à sua altura, a cabeça é
grande, mas os ossos das coxas e braços tem a
metade do tamanho normal. Suas pernas
normalmente se tornam curvas, seus cotovelos
apresentam habilidade limitada para
movimentação, as mãos são pequenas e os pés
pequenos e largos. É importante ressaltar que a
capacidade intelectual raramente é afetada.
Independente do tipo ou classificação do
nanismo não há como revertê-lo, muitas vezes,
no entanto, os pequenos se submetem a
tratamentos para amenizar os sintomas e
adaptarem-se ao mundo que os rodeia.
Devido sua baixa estatura, a pessoa pequena
enfrenta inúmeras dificuldades no dia-a-dia.
Entre as principais informações levantadas,
destacam-se os problemas enfrentados
diariamente no que diz respeito ao alcance,
principalmente em ambientes e serviços públicos,
como a utilização de um ônibus, onde há
dificuldade em acessá-lo pela diferença de altura
entre o degrau e a calçada; de acionar a
campainha indicativa da parada, pela altura em
que ela se encontra; e de sair do ônibus, tendo
que pular para fora no último degrau. Além dos
problemas com o transporte público, destacaram-
Figura 1 – HCD se também dificuldades no uso de caixas

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eletrônicos, banheiros públicos, geladeira/freezer, menina em questão faz uso de dois ônibus,
degraus ou cadeiras altas (os quais precisam levando cerca de 1 hora por dia neste trajeto.
escalar) e até mesmo containers de lixo. Em suas Além deste caso, foram ouvidos diversos
casas adaptadas o alcance não é um grande depoimentos de pessoas com nanismo através de
desafio, o problema se intensifica da porta para grupos na Internet e vídeos, com a intenção de
fora. O espaço público, dentro do contexto compreender a perspectiva do indivíduo, os
urbano, apresenta uma padronização que não sentimentos dele e como ele encara o dia-a-dia,
inclui pessoas de estaturas muito divergentes das de forma a levantar as necessidades emocionais
comumente encontradas. Barras de apoios em que o produto deve tentar suprir.
ônibus, balcões de atendimento, lavatórios de Para facilitar a análise e organização desta
banheiros públicos em alturas inacessíveis, pesquisa, dividiram-se as informações em três
ausência de rampas alternativas às escadas que categorias: necessidades físicas, necessidades
possuem degraus muito altos, máquinas para emocionais e demanda ambiental. Em cada uma
cartão, são apenas alguns exemplos de delas foram analisadas as principais necessidades
dificuldades de alcance que as pessoas pequenas e possíveis soluções.
precisam enfrentar no seu dia-a-dia. Para superar No quesito necessidades físicas, com o
estas dificuldades, na maior parte das vezes, a conhecimento referente a altura média da pessoa
pessoa com nanismo precisa solicitar apoio de pequena definiu-se o requisito de um produto
terceiros ou ainda escalar o mobiliário público, o que adicione, pelo menos, 20 cm a altura da
que, segundo Hélio Pottes (2012) [4], é muitas pessoa com nanismo, embora recomende-se
vezes constrangedor e limitador, uma vez que valores maiores, partiu-se desta medida pelo
lhes tira a liberdade. caráter experimental do projeto. Em relação a
Além das dificuldades com alcance, outro sua dificuldade em caminhar longas distâncias ou
fator afetado pela mutação genética é a ficar muito tempo em pé, retirou-se o e possa
mobilidade. O portador de nanismo costuma servir como meio de transporte para o usuário.
sofrer de degeneração precoce nas articulações, De igual importância para o público estudado,
como a artrite, mesmo quando criança. Como são suas necessidades emocionais. Um dos
resultado, sentem muitas dores nas articulações principais desconfortos citados foi o de precisar
e dificuldades em caminhar longas distâncias ou pedir ajuda a estranhos para as mínimas coisas
permanecer muito tempo em pé. Em alguns que envolvam alcance, em locais públicos.
casos acabam fazendo uso de cadeiras de rodas Courtney (2014) [5] comentou “pedir ajuda é
durante parte do dia para ajudar com a sempre estranho para mim. Mas o nível de
mobilidade. Embora não tenha um tratamento desconforto atravessa o telhado quando eu estou
para evitar, sessões de fisioterapia ajudam a pedindo ajuda a alguém que eu não conheço”.
amenizar as dores e problemas de articulação. Esse foi um dos pontos mais apontados pelos
Com o objetivo de realizar uma pesquisa portadores de nanismo, a partir daí concluiu-se a
centrada no usuário, durante o desenvolvimento importância do produto desenvolvido promover
deste projeto acompanhou-se a realidade de uma independência e autonomia ao usuário. Outro
menina com nanismo, 14 anos, estudante de ponto bastante discutido foi o preconceito, um
Ensino Médio, moradora da cidade de Santa comportamento com o qual já estão acostumados
Maria, RS, Brasil. Através da observação do seu por parte das outras pessoas. Situações onde são
dia-a-dia e depoimentos, foram retiradas apontados, fotografados e motivos de piadas,
importantes necessidades a serem resolvidas apareceram muitas vezes durante a pesquisa e
pelo produto final. Dentro da sua rotina, o trajeto depoimentos. Sendo assim, é importante que o
diário de casa para escola pode ser percorrido em produto não exponha, exageradamente, as
uma caminhada de aproximadamente 15 minutos pessoas pequenas, deixando-as desconfortáveis.
(por uma pessoa que não apresenta nanismo), Da mesma forma não é desejável que o mesmo
Porém, devido à dificuldade de mobilidade, a remeta a ideia de limitação. Desta problemática

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se pensou em trabalhar com um design
esportivo, uma vez que se contrapõe a ideia de
deficiência.
Outro fator considerado para a definição dos
pré-requisitos do projeto foi onde o mesmo seria
utilizado e quais seriam as funções necessárias
em cada ambiente. Para isso consideraram-se
duas situações que exigem diferentes
performances do produto: supermercado e
ônibus. Importante ressaltar que o objetivo de
uso deste produto é para locais públicos, uma vez
que as residências das pessoas com nanismo
normalmente já estão adaptadas aos seus
moradores.
No supermercado o maior problema é o
alcance, tanto no que diz respeito a mercadorias
em prateleiras altas, quanto ao momento de
passar o cartão de crédito no caixa, para realizar
o pagamento. No ônibus, assim como em
elevadores, o tempo em que a pessoa pequena
precisa interagir com o produto deve ser
relativamente curto, é preciso ter o cuidado para
que o mesmo não apresente grande
complexidade de uso, no caso de precisar ser
montado, aberto, etc.
Para melhor visualização, foi desenvolvido um Figura 2 – Mapa centrado no usuário
mapa, centrado no usuário, que possibilita uma
visão geral da problemática, garantindo que
fatores importantes para o design fossem A partir da imagem anterior, foram
considerados e priorizados. levantados os pré-requisitos do projeto:

Obrigatórios Desejáveis
Altura Compactabilidade
Transportabilidade Autonomia
Meio de transporte Elétrico
Peso Velocidade

Tabela 1 – Requisitos do projeto

Depois de definidos os requisitos, foram feitos


painéis semânticos de diferentes produtos que
atendiam uma ou mais das necessidades citadas,
e passou-se para a criação de idéias
preliminares. A partir de desenhos iniciais,
definiu-se que a ideia que melhor se adequava à
problemática apresentada seria uma plataforma
que promovesse altura e tivesse a presença de
rolamentos, além de uma estrutura de apoio ao
usuário. O conceito foi sendo desenvolvido até
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resultar na criação de um patinete-banco, cita Paola Vichy (2011) [6], deve-se observar a
atuando tanto como meio de transporte quanto análise da tarefa de acordo com o projeto, para
ferramenta de alcance. determinar as variáveis de dimensionamento do
Como a metodologia HCD preza por incluir o produto.
usuário em todas as fases do projeto, o conceito Uma vez que os requisitos e o conceito do
foi apresentado ao público deste projeto, e projeto estavam definidos, iniciou-se a fase de
levantou-se a necessidade de que o produto, definição dos mecanismos do produto. Para isto
além das posições patinete e banco, ainda contou-se com a ajuda de profissionais das áreas
deveria possibilitar uma forma compacta, ou de engenharia e física, de forma a desenvolver
seja, que o mesmo pudesse ser dobrado de um sistema que priorizasse simplicidade de
maneira a ocupar pouco espaço, para ser produção e praticidade para o usuário. Sendo
carregado dentro de um ônibus lotado, por assim, o modelo mecânico divide-se em dois
exemplo. Por apresentar diferentes sistemas compostos por uma mola e duas travas.
funcionalidades, foram definidos novos requisitos Um sistema localiza-se na base e o outro na
para cada função a qual o produto se dispunha, haste. A ideia foi desenvolvida de forma que o
de modo a facilitar o encontro de soluções mais acionamento do mecanismo seja todo realizado
efetivas. pelo guidão, aumentando a praticidade,
simplicidade e velocidade da operação para o
usuário.
Na Figura 4 pode ser visualizado o sistema e
os elementos mecânicos do produto: 1 – rodas; 2
– longarinas; 3 – mola; 4 – braço de metal; 5 –
dobradiças; 6 – estrutura da base; 7 – haste.

Figura 4 – Elementos mecânicos da base

Figura 3 – Requisitos funcionais

Para a definição de dimensões e refinamento


do modelo é importante a compreensão dos
aspectos ergonômicos na relação patinete-
usuário.
No entanto, não foi encontrada nenhuma
norma sobre ergonomia para o uso do patinete,
dessa forma, optou-se pela realização de um
estudo antropométrico específico para o usuário
com nanismo, através de experimentação. Como
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Figura 5 – Sistema mecânico, posição 1

Figura 6 – Sistema mecânico, posição 2

Como demonstrado pela Figura 5, quando em


posição patinete, a mola presente na haste, está
pressionada para baixo, esta pressão se mantém
devido às travas. Estas travas se comunicam com
o agente acionador, ou seja, um botão ou
alavanca no guidão, por meio de cabos de aço,
semelhante ao funcionamento do freio de
bicicleta. Quando este agente é pressionado, as
travas recolhem-se permitindo que a mola se
estique. Quando a mola se estica, carrega junto
consigo a estrutura da haste em que a base está
presa, fazendo com que a base suba.
O agente acionador está conectado a ambos
os sistemas, tanto o da haste quanto o da base,
sendo assim, quando pressionado, ele libera as
travas simultaneamente e o patinete muda de
configuração. Ao chegar à nova forma, ele é
travado por um sistema de pinos, sem que haja a
necessidade de intervenção do usuário. Para que

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a peça mude da posição degrau para a posição
patinete, é necessário aplicar um pouco de força,
de forma a romper a resistência da mola,
empurrando a base para baixo até que ela volte à
posição deitada. Ao atingir essa posição o
patinete trava automaticamente. Sendo assim, a
rotina de ações necessárias para as mudanças de
configuração pode ser descrita como: para passar
da posição patinete para a posição degrau,
pressione o botão; para reverter as posições,
pressione o mesmo botão e pise na base,
simultaneamente, até ela voltar à posição
deitada.
Uma vez definidos os sistemas, iniciou-se a
fase de geração de alternativas, para definir a Figura 8 – Rendering da solução
forma do produto.
A base do patinete atinge uma altura de 20
cm quando em posição degrau. Para facilitar, foi
criado um vazado em uma das superfícies, de
forma a servir de primeiro apoio durante a
subida. As rodas traseiras foram posicionadas
lateralmente de maneira a não tocarem o chão
enquanto o patinete estiver dobrado, assim o
ponto de apoio do degrau fica sendo a própria
base, garantindo maior equilíbrio.

Figura 7 – Geração de alternativas

Após definição da alternativa, foi feita a sua


representação digital para melhor visualização e
análise dos mecanismos.

Figura 9 – Diferentes configurações do


patinete: meio de transporte, degrau e
portabilidade (lateral e frontal).

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No estudo de cor do patinete, exploraram-se
configurações em cores neutras, para uso mais
adulto, e vibrantes, para uso infantil, uma vez
que visa atingir diferentes faixas etárias.

Figura 11 – Componentes da haste


Figura 10 – Opções de acabamento
A base divide-se em: peça de ligação,
O patinete se divide em duas partes estrutura frontal, longarinas e estrutura
principais: haste e base. posterior.
A haste é responsável pela direção do
patinete e, neste projeto, é composta por 5
estruturas: guidão, manoplas, estrutura frontal,
estrutura posterior e apoio para roda. A
superfície posterior é oca para permitir a
passagem interna dos cabos de aço, e apresenta
uma estrutura em diagonal, onde se localiza o
sistema de mola, responsável por elevar a base.
O guidão se configura em uma estrutura cilíndrica
revestida por duas manoplas de borracha, peça
colocada nas extremidades do guidão para
garantir maior conforto na pega. Acoplado ao
guidão, estão o freio manual e o botão de
acionamento das dobras.
Figura 12 – Componentes da base

A peça de ligação une a base e a haste, e


permite a mudança de direção do patinete.
Compõe-se por uma estrutura retangular, na
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qual, em uma das extremidades, está o pino que
vai fixado ao sistema de molas, presenta na
haste, e na outra um pequeno tubo de alumínio,
em torno do qual a base irá se movimentar.

Figura 13 – Peça de ligação

O material definido para o projeto é o


alumínio, devido à leveza do material e
resistência à corrosão, além do fato de não ser
tóxico como alguns metais e não criar faíscas
quando exposto a atrito. Com relação às rodas,
embora os patinetes mais comuns no mercado
utilizem rodas em gel ou silicone, esse tipo de
roda exige pisos relativamente lisos, limitando os
locais de uso, o que conflitaria com a finalidade
deste projeto. Desta forma, optou-se pela
utilização de rodas pneumáticas com raio entre 8
cm a 10 cm. Este tipo de roda diminui o impacto
causado pelas irregularidades do piso e ameniza
as trepidações, proporcionando uma rodagem
mais suave.
Uma vez definido o projeto, foi desenvolvido
um mocape em tamanho real, representativo e
não-funcional tanto para análise quanto para
molde do produto final, que será futuramente
produzido.
Figura 15 – Vistas do modelo montado

Para validação da ideia, foram levadas a uma


possível usuária as imagens e o modelo
tridimensional para simulação de uso e
recebimento de feedback.

Figura 14 – Mocape em madeira

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Após confirmar-se que as dimensões são
adequadas à usuária, a versão final do produto
foi modelada e renderizada.

Figura 16 – Simulação de uso do patinete

Figura 19 - As três configurações do patinete

Figura 17 - Teste do degrau de apoio

Figura 20 – Diferentes vistas da configuração


degrau

Figura 18 - Uso na configuração portabilidade Figura 21 – Botão de acionamento e freio

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alcançar prateleiras mais altas, para isso só é
necessário apertar o botão de acionamento,
liberando o sistema de molas, permitindo o
deslocamento da base até a posição degrau,
travando-se ao chegar nela. Em uma simulação
de uso em que o usuário precise utilizar um meio
de transporte como um ônibus, por exemplo, ele
ainda pode mudar a configuração do patinete
para a posição de portabilidade, tornando-o
compacto, de forma a ser carregado apenas
puxando-o pela haste.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pessoa com nanismo, por não encontrar
uma realidade fora de casa adaptada às suas
características, tem suas diferenças ressaltadas.
É importante desconstruir a ideia de que as
limitações da pessoa pequena a impede de levar
uma vida normal.
Figura 22 – Detalhe da peça de ligação Após a validação do produto junto a usuária,
comentou-se sobre a independência que o
produto representava, a simplicidade de uso e a
criatividade da solução. Um dos pontos
levantados foi o fato do produto ser útil ao
mesmo tempo em que é divertido, e como não se
encontra muito dessa abordagem no mercado.
O produto final configura-se como tecnologia
assistiva, mas não remete a essa categoria, por
ser associado a um produto utilizado como forma
de diversão e brincadeira. Isso abre um leque
pouco explorado pelo design, de transfigurar o
produto assistivo em produtos do cotidiano. Além
disso, o projeto possui potencial para ser
utilizado como brinquedo ou meio de transporte
por pessoas de diferentes capacidades,
independente de ser um produto assistivo.
Por fim, ressalta-se a relevância do design no
campo da tecnologia assistiva. Como o produto
Figura 23 – Configuração patinete e sugestão de assistivo é, em grande parte das vezes,
armazenamento
caracterizado como necessidade do público-alvo,
como no caso de um cadeirante e a cadeira de
Por fim, o projeto final cumpre as principais rodas, não há um maior empenho em torná-lo
funções exigidas, sanando os dois maiores agradável ou divertido, apenas útil. Mas é
problemas levantados, altura e mobilidade. Em exatamente pela característica de necessidade
um exemplo de uso, o portador de nanismo pode que produtos como esses deveriam receber uma
percorrer curtas a médias distâncias utilizando o atenção e criatividade maior por parte do
patinete, de sua casa a um supermercado, por desenhista.
exemplo. Ao chegar no supermercado, o patinete
pode ser utilizado na configuração degrau para
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Quando design e acessibilidade trabalham
juntos, considerando o usuário o centro do
processo, possibilita-se inovações que permitem
que portadores de deficiência tenham suas
capacidades naturais potencializadas,
possibilitando com que vivam sem tantos limites.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Damazio, Vera, and Nogueira, Cristine.,
2005, “Design e responsabilidade Social”.
Fundação Banco do Brasil. Repórter Social.
Disponível em:
<http://www.fbb.org.br/portal/pages/publico/exp
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mar. 2014.
[2] Oliveira (Org). Ciência, Ética e Cultura na
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1998, p. 231-249.
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[4] POTTES, Hélio. O pequeno grande Hélio.
AME: Amigos Metroviários dos Excepcionais.
2012. Disponível em: <http://www.ame-
sp.org.br/site/index.php?option=com_content&vi
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2012.
[5] SIMROSS, Courtney, 2013. “Life is short
and so am I”. Disponível em: <http://courtney-
simross.blogspot.com.br>. Acesso em: 17 jan.
2014.
[6] VICHY, Paola de Lima. Proposta de
redesenho de uma bicicleta de locação. 2011.
112 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de
Produção) – Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

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