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As preexistências na obra de Eduardo

Souto de Moura:
o Mercado Municipal de Braga

Maria João Trigo Santana

Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura


Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
Ano Lectivo 2012 | 2013
Docente Acompanhante
Professor Doutor Rui Jorge Garcia Ramos
À minha mãe e ao meu irmão.
agradecimentos

Ao Professor Doutor Rui Ramos pelo saber, rigor na orientação, disponibilidade


e paciência.
À minha mãe e ao meu irmão pelo amor, carinho e apoio incondicionais. Sem
vocês não chegaria tão longe nem seria a pessoa que sou hoje.
À Doutora Rosa Basto pela amizade, força e ajuda constantes.
Ao Engenheiro Luís Canedo pela disponibilidade contínua de enviar material
importante para a concretização deste trabalho.
Ao Professor Doutor José Ribeiro pelo tempo, atenção e dedicação cedidas.
A todos que me apoiaram e contribuíram para a realização desta etapa final,
deixo aqui o meu profundo agradecimento.
8
resumo

A observação da obra de Eduardo Souto de Moura, comprovadamente vasta


e diversificada, permite verificar como o respeito pela história, pelo lugar e pelas
preexistências constitui uma presença constante ao longo de todo o seu percurso
arquitectónico. Para o arquitecto, o lugar a intervir detém sempre dados a ele
inerentes que o definem e caracterizam, nunca se trata de um contexto vazio
isento de significações e preexistências a ele associadas. Souto de Moura encontra
no lugar e nas suas características as directrizes para uma intervenção coadunada,
consciente e responsável, não entendendo que estes factores restringem a
arquitectura mas pelo contrário são o ponto de partida para o processo criativo.
Para entender de que forma esta convicção influencia todos os seus projectos,
é importante verificar quais os antecedentes próximos que tiveram um papel
preponderante na sua formação e no seu entendimento sobre estas questões. A
observação do modo como o arquitecto aborda estes temas em algumas das suas
obras torna-se igualmente pertinente para compreender o seu entendimento da a
história, da especificidade de cada lugar e das preexistências como instrumentos e
matéria de projecto indispensáveis ao acto projectual. Apesar de as circunstâncias
serem sempre distintas de obra para obra e, consequentemente, também as
estratégias adoptadas, é possível verificar a existência de aspectos comuns entre
eles que refletem o modo como Souto de Moura encara as preexistências.
O Mercado Municipal de Braga e as suas posteriores remodelações constituem
uma obra que aglomera várias intervenções com diferentes abordagens às
preexistências. O seu estudo permite compreender que para Eduardo Souto de
Moura as preexistências são elementos indissociáveis do processo de projecto,
apropriando-se delas e do lugar como matéria de projecto operativa susceptível
de manipulação a favor da coesão das soluções arquitectónicas pretendidas.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 9


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abstract

The analysis of Eduardo Souto de Moura’s work, proven vast and diverse,
allows one to recognize how the respect for the history, the place and the
preexistence has a constant presence throughout his architectural path. To the
architect, the place to intervene has data attached that defines and characterizes
it, it is never an empty space free of preexistences and meanings. Souto de
Moura finds in the place and its characteristics the guidelines for a coalescing,
conscientious and responsible intervention and he does not see them as
restrictions to the architecture but, instead, as the starting point for the creative
process.
To understand how this belief influences all his projects, it is important
to observe which antecedents played a key role in his training and in his
understanding of these issues. The observation of how the architect tackles
these themes in some of his works becomes also relevant to understand his
understanding of the history, the specificity of each place and the preexistence
as indispensable instruments required to design the project. Although the
circumstances are always distinct from work to work, and consequently also
the strategies adopted, it is possible to verify the existence of commonalities
between them that reflect how Souto de Moura understands the preexistence.
The Braga Municipal Market and its subsequent renovations constitute a work
crowding various interventions with different approaches to the preexistence.
Their study demonstrates that Eduardo Souto de Moura sees the preexistences
as inseparable elements of the designing process, assuming them and the
place as operative matter that can be manipulated in order to achieve cohesive
architectural solutions.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 11


12
índice

Introdução 15

1. Eduardo Souto de Moura. Raízes e Filiação


1.1 A Formação 21
1.2 O Passado e as Preexistências na Construção do Presente 47

2. Construir com Preexistências. Diferentes Abordagens


2.1 As Preexistências na Arquitectura de Eduardo Souto de Moura 57
2.2 Exemplos de Algumas Obras 66

3. O Mercado Municipal de Braga


3.1 A cidade de Braga
3.1.1 Pontos de Partida 95
3.1.2 Transformações do Tecido Urbano 103

3.2. O novo Mercado Municipal


3.2.1 O Mercado Municipal do Carandá 109
3.2.2 A Utilização do Mercado Municipal do Carandá 127

3.3 Sobreposição de Memórias


3.3.1 A Escola de Dança 133
3.3.2 A Escola de Música 143

4. Considerações Finais 155

Bibliografia 161
Fontes Iconográficas 169
Índice de Imagens 183
Anexos 191

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 13


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introdução

A presente dissertação teve como ponto de partida o interesse que as


intervenções no existente desde cedo suscitaram, particularmente a coordenação
entre a liberdade inerente ao acto criativo e as condicionantes do contexto a
intervir para que estas funcionem como estímulos ao projecto e não como
restrições. Ao longo da pesquisa realizada, foram surgindo algumas questões que
acentuaram o interesse neste tema. Qual a influência das preexistências no acto
criativo? Estará inerente à análise e integração das preexistências no projecto
uma eliminação da liberdade do processo criativo, restringindo a abordagem a
realizar, ou permitirá antes encontrar as bases que direccionem a proposta para
uma solução coesa e legítima?
Neste contexto, a obra de Eduardo Souto Moura, mais concretamente o
Mercado Municipal de Braga (1981-1984) e as suas posteriores remodelações - a
Escola de Dança (1997-2001) e a Escola de Música (2004-2010) - surgem como
objecto principal de estudo devido ao conjunto de diferentes intervenções em
preexistências que as obras reúnem em si.
Este estudo tem como objectivo desenvolver uma reflexão sobre o papel que
as preexistências – obra física ou simplesmente lugar - possuem na obra de Souto
de Moura no sentido de perceber de que forma o arquitecto as compreende e
se apropria delas para iniciar o processo criativo e legitimar a solução proposta.
Perceber de que forma a sua valorização das preexistências e do lugar refletem
e se relacionam com a compreensão da história e do passado como material de
projecto indispensável à criação arquitectónica.
O trabalho inicia-se por um estudo dos antecedentes que mais significativamente

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 15


16
introdução

influenciaram Souto de Moura, tentando perceber o modo como estes marcaram


o desenvolvimento da sua obra, nomeadamente no entendimento da importância
do passado, do lugar e das preexistências para a produção arquitectónica.
Analisando como o conhecimento da história, adaptado às novas necessidades e
conceitos contemporâneos, constitui um instrumento de projecto fundamental
para a arquitectura contemporânea, procura-se entender como esta valorização
do passado influencia a sua compreensão da especificidade de cada circunstância
e suas preexistências como elementos legitimadores das opções projectuais.
Partindo de uma observação do significado e abrangência do conceito de
preexistência para Souto de Moura, bem como da forma como este entende o
lugar, a reflexão é conduzida para uma análise de um conjunto das suas obras. Os
projectos selecionados permitem perceber como o autor aborda a especificidade
de cada um e que, apesar da diversidade de estratégias adoptadas relativamente à
preexistência, é possível encontrar pontos comuns entre estes.
Estabelecida esta base, o trabalho é direcionado para o estudo do Mercado
Municipal de Braga e das suas remodelações para se compreender a influência
das preexistências ao longo dos vários projectos e as diferentes abordagens que
Eduardo Souto de Moura adoptou em relação a estas. Este capítulo organiza-
se fundamentalmente em três partes: numa primeira em que é apresentada a
evolução urbana da cidade de Braga para se compreender as circunstâncias que
determinantes do caso de estudo; uma segunda onde é estudado o projecto do
Mercado Municipal de Braga e das condicionantes funcionais e socio-urbanas
que inviabilizaram o seu funcionamento; e uma última parte que analisa as duas
fases de remodelação do mercado e o modo como o arquitecto se apropriou
e interveio nas preexistências que, naquele lugar, se foram acumulando,
reinterpretando e manipulando a sua própria obra.
A observação do Mercado Municipal de Braga e da sua reconversão permite
compreender como os projectos de Eduardo Souto de Moura resultam de uma
análise do contexto da intervenção e de todas as condicionantes impostas. O
arquitecto reconhece o lugar e o passado como fonte de conhecimento para a
criação arquitectónica, interpretando e utilizando todo o repertório acumulado
a fim de encontrar uma solução legítima e adequada às circuntâncias actuais.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 17


1.
Eduardo Souto de Moura
raízes e filiação
20
1. Eduardo Souto de Moura
raízes e filiação
1.1 a formação

Para compreender o inveterado respeito que Eduardo Souto de Moura (1952)


possui pelas preexistências e de que forma este influenciou (e influencia) o
desenvolvimento de toda a sua obra, é necessário ter em conta a sua formação
académica, profissional e pessoal. É importante entender quais foram os
antecedentes teóricos e práticos que mais marcadamente o influenciaram
e conduziram num percurso arquitectónico pautado por uma profunda
consideração pela história, pelo passado e pelo preexistente.

Fernando Távora. Álvaro Siza

A mudança política vivida em consequência do 25 de Abril de 1974 marcou o


período de formação de Eduardo Souto de Moura na Faculdade de Belas Artes
do Porto. Após a revolução, a política e a filosofia ditavam as questões em torno
das quais se centravam os debates na escola, “não se faziam projectos ou desenhos
e a arquitectura era uma ciência social.” 1 Souto de Moura não era apologista da
pedagogia vigente na época “que prolongaba indefinidamente una supuesta ilegitimidad
del diseño, en contraposición a una práctica orientada a impulsar el cambio social y político.” 2
O arquitecto Fernando Távora (1923-2005), seu professor de projecto no
segundo ano, surge neste contexto como uma importante influência: “A primeira
coisa que me tocou no Távora foi mesmo o seu hábito de desenhar, porque nunca tinha visto

1
MOURA, Eduardo Souto de, “Fernando Távora, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura” in Antonio
Esposito e Giovanni Leoni (ed.), Eduardo Souto de Moura, Electa, Milano, 2003, p.11 [entrevista por Antonio
Esposito e Giovanni Leoni].
2
SIZA, Álvaro “Secretaria de Estado da Cultura” in Wilfried Wang (dir.), Souto de Moura, Editorial
Gustavo Gilli, Barcelona, 1990, p.10.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 21


1.

2. 3.

4. 5.

1. Esquissos para a Renovação da Praça Giraldo. Évora. 1982.


2. Esquisso da Porta dei Colli. Palermo. 1987.
3. Esquisso de espaços interiores. Casas em banda Quinta da Avenida. Porto. 2003-2005.
4. Esquisso da relação com envolvente próxima. Casa das Artes - S.E.C. Porto. 1981-88.
5. Esquisso de pormenor construtivo. Bloco de Habitação na Rua do Teatro. Porto. 1992-95.

22
raízes e filiação

ninguém que o fizesse. Depois tocou-me a sua cultura, porque tudo aquilo que nós pensávamos
que fosse o futuro da arquitectura, que líamos nos livros, que aprendíamos nas lições de
matemática, estudando os princípios de Rossi ou Le Corbusier, Távora já o conhecia.” 3
Homem extremamente culto e viajado, Távora defendia o desenho como um
instrumento indispensável à prática de arquitectura, convicção que introduziu
Souto de Moura a uma nova dimensão da disciplina. “(...) para mim, até então, a
arquitectura tinha sido uma actividade intelectual, já que não se desenhava mas se falava,
se lia, se discutia para chegar à condição mental necessária para poder desenhar (...) Chega
Távora e diz: «Pessoal, temos de desenhar.» (...) Foi ele que nos abriu o mundo da disciplina,
do desenho, das relações da arquitectura com o mundo, o mundo físico e também cultural.” 4
O desenho tornou-se para Souto de Moura um instrumento vital ao projecto
que o coloca em confronto com a realidade e conduz a toma de decisões. 5
Acompanhando as várias escalas do projecto – no plano urbano, na relação do
edifícios com a envolvente próxima, na definição de espaços interiores ou nos
pormenores construtivos – o desenho é uma forma de apreender as coisas como
elas são e de avaliar como poderão ser. A forma abstrata como se desenhava
nas aulas que teve com Alberto Carneiro (1937) no primeiro ano da Faculdade
de Belas Artes do Porto condicionou igualmente a sua arquitectura; ao pedir
representações de emoções através do desenho, o escultor transmitiu-lhe fortes
ensinamentos que se viriam a reflectir directamente na forma como este emprega
os materiais nas suas obras.
Souto de Moura herdou de Fernando Távora aqueles que são hoje princípios
condutores da sua arquitectura:“o papel do desenho, a compreensão do lugar, a
importância da história.” 6 O professor interessava-se pela mudança ocorrida com
o modernismo mas defendia que não deveriam ser esquecidas as características
do lugar nem a herança do passado pela sua leitura histórica. Távora acreditava
que a arquitectura deveria passar “(...) por uma cultura mais local sem perder a
correspondência com a história universal. Frequentemente, aliás sempre, dizia: «Quanto mais
é local, mais é universal.»” 7 Esta sensibilidade para com a especificidade de cada

3
MOURA, Eduardo Souto de, “Fernando Távora, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura”, op. cit.,
p.11.
4
MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista Biográfica” in Antonio Esposito e Giovanni Leoni (ed.),
Eduardo Souto de Moura, Electa, Milan, 2003, p.435 [entrevista por Monique Danielle].
5
“O desenho é uma espécie de energia do processo. (...) O desenho é mais um instrumento para nos filtrar alguns
caminhos, leva-nos a ponderar como vamos actuar no território, porque nos faz confrontar com a realidade.”, MOURA,
Eduardo Souto de, “Arte de Adequação”, Revista Mais Arquitectura, nº19, 2007, p.31.
6
MOURA, Eduardo Souto de, “Fernando Távora, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura”, op. cit.,
p.11.
7
MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista Biográfica”, op. cit., p.435.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 23


6. 7.

8. 9.

10. 11. 12.

13.

6. Esquisso do conjunto. Bairro de S. Vítor. Álvaro Siza. 1974-79.


7. Esquisso do encontro do novo edifício com o muro preexistente. Bairro de S. Vítor. Álvaro Siza. 1974-79.
8. Vista por trás do muro preexistente. Bairro de S. Vítor. 1974-79.
9. Vista geral com muro prexistente. Bairro de S. Vítor. 1974-79.
10.|11.|12. Pormenores do encontro do novo edifício com o muro preexistente. Bairro de S. Vítor. 1974-79.
13. Esquisso do alçado com vista do muro preexistente.. Bairro de S. Vítor. 1974-79.

24
raízes e filiação

local repercutia-se igualmente no reconhecimento da necessidade de articular


a realidade da arquitectura moderna internacional com a realidade portuguesa,
conciliando de um modo consciente as técnicas contemporâneas com as técnicas
tradicionais, preocupação herdada pelo arquitecto do Porto.
Ainda como estudante, Souto de Moura colabora com Álvaro Siza Vieira
(1933) no projecto SAAL 8, mais concretamente na renovação do bairro de S.
Vítor (1974-77) no Porto. Trabalhar com Siza Vieira nesta fase da sua formação
tornou-se determinante para o seu percurso arquitectónico procedente. Na
reconversão do bairro de S. Vítor, a ruína é articulada com a nova dialéctica
formal e construtiva numa associação simbiótica onde o novo nasce do
preexistente e ajuda a coadunar a intervenção com o sítio. A sensibilidade e
o respeito pelo preexistente que Souto de Moura ganhou com a experiência
em S. Vítor reflecte-se de imediato nos seus primeiros projetos através de uma
assunção contínua da preexistência como elemento principal justificativo das
suas opções arquitectónicas.
A síntese entre os modelos internacionais e as características regionais que
Fernando Távora e Siza Vieira desenvolveram nas suas obras iniciais vai também
influenciar fortemente o percurso de Souto de Moura, que procurará uma
arquitectura alicerçada na conciliação entre os valores da inovação e a cultura
portuguesa, rompendo com a dicotomia entre cá dentro e lá fora. Este processo
decorrerá não tanto através da forma ou processos construtivos mas antes
através dos materiais empregues e do processo artesanal de os trabalhar.

“«Matámos», à nascença, o pós-moderno de importação e inventámos o nosso pós-moderno,


com senso de medida e de utilidade.” 9

Souto de Moura pertence à geração de arquitectos que se formou no pós-25


de Abril, período em que Portugal vivia uma fase de reconstrução para colmatar
o défice de “(...) vivendas, hospitales, escuelas, etc., (...) algo parecido a lo que había
sucedido en Europa tras la guerra.” 10 Este contexto de uma forte necessidade de
intervenção social colocou o país em dissonância relativamente à ideologia que

8
SAAL: Serviço de Apoio Ambulatório Local, criado para dar apoio às populações que possuíam
condições habitacionais precárias através da construção de novas habitações e infraestruturas.
9
MOURA, Eduardo Souto de, “Um Quadradinho a Menos”, JA, nº208, A Condição Pós-Moderna,
2002, p.18.
10
MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
Moura”, El Croquis, nº 124, Eduardo Souto de Moura 1995-2005. La naturalidade de las cosas, 2005, p.7 [entrev-
ista por Luís Rojo de Castro].

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14.

15.

16.

14. Escultura de Donald Judd. Untitled. 1990.


15. Escultura de Soul Lewitt. Uncomplete Open Cube 7/11. 1974.
16. Colagem sobre fotografia de uma escultura de Donald Judd. Casa em Miramar. Souto de Moura 1987-91.

26
raízes e filiação

emergia internacionalmente, o Pós-Moderno, pois era preciso “(...) construir, e a


Europa propunha desconstruir.” 11 “(...) os ecos dos modelos formais europeus não deixam de
influenciar os arquitectos portugueses,(...) mas esteve sempre presente (...) o sinal da preocupação
pelos problemas da nossa própria cultura (...)” 12. Levantou-se assim uma “(...) desconfiança
em relação a este novo internacionalismo, não medeado pela realidade portuguesa” 13, cuja
rejeição adveio precisamente da inadequação do ecletismo proclamado por este
movimento ao contexto nacional.
Souto de Moura não se interessa pelo movimento pós-moderno não só “(...)
porque las condiciones de nuestro país eran completamente distintas” 14, mas também porque
considerava, tal como outros arquitectos seus contemporâneos, sem cabimento
a arbitrariedade que caracterizava o movimento.15 Como tal, perante a falta de
identidade que o pós-moderno possuía, e em contraposição ao pluralismo de
formas, cores e imagens que esta vanguarda proclamava, o arquitecto decide
começar do início, procurando no minimalismo do contexto americano (Donald
Judd, Sol Lewitt) as soluções para uma arquitectura contemporânea.16 Naquele
momento, em Portugal, era necessário “(...) encontrar las formas, el programa y los
sistemas constructivos más adecuados” e Souto de Moura encontrou no “(...) sentido puro
y duro (...)” do Movimento Moderno “(...) un lenguaje capaz de resolver los problemas” 17
e as bases para a construção de uma gramática própria e renovadora em tempos do
movimento pós-moderno. A linguagem moderna disponibilizou os instrumentos
que lhe permitiram transpor para a arquitectura a precisão e a essencialidade da arte
minimalista com que se identificava. As suas primeiras obras nascem marcadas por
uma dualidade consequente de uma estratégia de colocar em confronto os valores
modernos com os valores culturais da arquitectura vernacular portuguesa, numa
“(...) postura pós-moderna que elegeu linguisticamente o Movimento Moderno, contornando
qualquer «Regionalismo Crítico» e o próprio «Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa».” 18

Aldo Rossi. Mies van der Rohe

MOURA, Eduardo Souto de, “Um Quadradinho a Menos”, op. cit, p.18.
11

DIAS, Adalberto et al., [s/ título], JA, nº208, A Condição Pós-Moderna, 2002, p.9.
12

COSTA, Alexandre Alves, “Um Quadradinho a Menos”, op. cit., p.16.


13

MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
14

Moura”, op. cit., p.7.


Id., ibid.
15

MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista Biográfica”, op. cit., p.436.


16

MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
17

Moura”, op. cit., p.7.


18
MOURA, Eduardo Souto de, “Os Amantes – A Modernidade e o Pós-Modernismo no Norte de
Portugal” in Rita Vanez (coord.), Descontinuidade. Arquitectura Contemporânea Portuguesa, Civilização Editora,
Porto, 2005. p.14.

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raízes e filiação

Eduardo Souto de Moura conhece Aldo Rossi (1931-1997) quando em 1976


participa num Seminário em Santiago de Compostela. “A primeira aula do Rossi
em Santiago de Compostela foi uma coisa demolidora que me marcou para sempre.” 19 O
arquitecto italiano tornou-se uma figura determinante para o seu percurso
arquitectónico relativamente ao modo como o português interpreta a realidade
“Se Siza me deu a mecânica do projecto, Rossi deu-me epistemologia, o suporte conceptual
para a leitura da realidade.” 20 Com o seu texto L’Architettura della Città (1966),
Rossi possibilita um entendimento mais aprofundado da cidade, clarificando a
sua estrutura ao estabelecer hierarquias e classificar os espaços. São explorados
os conceitos de tipo, forma, monumento, lugar e permanência, entendendo a
cidade como território da arquitectura. Ao determinar regras e facultar novos
instrumentos de intervenção, Rossi influencia profundamente Souto de Moura
na sua forma de pensar o projecto e a cidade.
Contudo, foi a dimensão poética exposta no livro Autobiografia Scientifica
(1981) que influenciou com mais relevância o percurso teórico e prático de
Souto de Moura. No texto, Rossi explora a inserção do elemento pessoal no
acto projectual, defendendo que “(...) las formas y las decisiones tienen mucho más que
ver con una actitud interior voluntariosa que con un proyecto lineal y mecanicista de llegar a la
forma a través del analisis de la ciudad.” 21 Rossi defende a repetição e a continuidade
na arquitectura na medida em que se deve insistir no aprofundamento de um
tema, desenvolvendo-o e reformulando-o por forma a evoluir, e não começar
continuamente de novo, eliminando o conhecimento adquirido até então. 22
Neste sentido, acentua a importância da experiência pessoal no projecto; este
deverá ser um processo apoiado na cultura arquitectónica de cada um, construída
através da acumulação, cruzamento e reinterpretação de experiências, referências
e memórias individuais. Souto de Moura interioriza esta base subjetiva inerente
ao processo criativo e formula uma “(...) visão própria do mundo através de muitas
verdades contemporâneas diferentes, enunciadas, conservadas sem receio de contradição,

19
MOURA, Eduardo Souto de, “A Poética da Materialidade”, Revista Arquitectura e Vida, nº19, 2001,
p. 26 [entrevista por Rui Barreiros Duarte e Pedro Prostes da Fonseca].
20
MOURA, Eduardo Souto de citado por Jorge Figueira, “Para Lá do Comtemporâneo – Regressando a
Rossi”, JA, nº217, O Livro do Desassossego, 2004, p.52.
MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista a Eduardo Souto de Moura”, 2G, nº5, Eduardo Souto de Moura
21

– Obra Reciente”, Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 1998, p.130.


22
“(...) este continuo empezar de nuevo, que es típico de los menores, este volver siempre a cosas ajenas a la experiencia
que se realiza, (...) es signo de una debilidade y fragilidade cultural extrema.”, ROSSI, Aldo, “Arquitectura para los
Museos” in Para una arquitectura de tendencia. Escritos: 1956-1972, Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 1965-66,
p.202.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 29


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raízes e filiação

intercaladas e, algumas vezes, colocadas em conflito (...)” 23. Utilizando sem quaisquer
restrições tudo o que apreende, a sua arquitectura nasce de uma transcrição da
realidade, executada de forma natural, multiplicando as formas e referências
resultantes de diversos princípios. Através de Rossi, Eduardo Souto de Moura
descobre então “(...) a possibilidade da manipulação poética da realidade, através
da repetição, colagem e analogia” 24, o que lhe permite criar um terreno comum,
elementar e claro de forma a servir um campo de diversas formas e linguagens e
alcançar uma arquitectura adequada.
Se Souto de Moura absorveu de Fernando Távora e Álvaro Siza Vieira o
valor da história como erudição e conhecimento do real, de Rossi retém uma das
principais directrizes do seu percurso arquitectónico: o entendimento da história
como suporte da arquitectura e a sua importância enquanto material de projecto.
“(...) Rossi foi dos que recuperou componentes que aparentemente estavam esquecidos no
Movimento Moderno: a História, que estava implícita, mas nunca era evocada.” 25 O
arquitecto do Porto aprende com Rossi um dos alicerces fundamentais da prática
arquitectónica contemporânea: o reconhecimento da história como instrumento
base indispensável ao processo criativo.
Consequentemente, Eduardo Souto de Moura adquire um grande respeito
pelo lugar e pelas preexistências, desenvolvendo uma profunda consciência da
importância da compreensão da história e da memória. “ser rossiano, para mim,
significa perceber a cultura, compreender a história da própria cidade, do próprio lugar,
da própria memória, e conectá-los, seguindo uma lógica afectiva.” 26 Esta consciência
conduz Souto Moura a rejeitar as soluções tipo, pois tudo depende do lugar e
da interpretação que se faz deste. Cada lugar possui uma identidade única, o
que obriga a uma leitura atenta das suas características para que se o consiga
compreender e trabalhar com ele. O arquitecto diverge assim da teoria de Rossi
no desinteresse pelo aprofundamento da tipologia em si mesma, uma vez que a
assume como um dado a transformar em função da especificidade de cada obra.
“(...) não defendo que a tipologia seja a base do projecto, como o Rossi – “Sem a Tipologia não

23
LEONI, Giovanni, “À Procura de uma Regra. A Arquitectura de Eduardo Souto de Moura” in An-
tonio Esposito e Giovanni Leoni (ed.), Eduardo Souto de Moura, Electa, Milan, 2003, p.19.
24
FIGUEIRA, Jorge, “Uma Paisagem Exacta” in A Noite em Arquitectura, Relógio D’Água, Lisboa,
1986, p.40
25
MOURA, Eduardo Souto de, “Chão, Moderno, Híbrido 1”, JA, nº200, A Arquitectura Portuguesa Chã,
2001, p.23 [Mesa Redonda entre Ana Vaz Milheiro, Eduardo Souto de Moura, João Luís Carrilho da Graça,
Jorge Figueira e Manuel Graça Dias].
26
MOURA, Eduardo Souto de, citado por Jorge Figueira, “Para Lá do Comtemporâneo –
Regressando a Rossi”, op. cit., p.52.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 31


18.

17. 1- Clássico, 2- Moderno, 3- Pós-Moderno, 4- ... , Esquisso de Eduardo Souto de Moura.


18. Esquissos do concurso “A House for Karl Friedrich Schinkel”. 1979.

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raízes e filiação

há Arquitectura” – (...) Uso as tipologias, estudo-as, desde o momento que não haja ruptura
entre a tipologia e o novo programa que me fornecem.” 27
O interesse pela Antiguidade Clássica é outro tema convergente entre Aldo
Rossi e Eduardo Souto de Moura. Para o arquitecto do Porto, “O Classicismo é a
regra que entende o todo e é capaz de incluir as partes, o particular, a excepção a que o lugar
obriga. (...) O modernismo continuou a pensar assim (Schinckel, Behrens, Mies) só que teve
de mudar os «materiais».” 28 Não é, portanto, inopinável que Souto de Moura encare
o movimento moderno como uma prossecução do classicismo, reconhecendo
esta relação com o passado como “(...) um discurso de continuidade com meios técnicos e
intenções diferentes, mas com um campo em comum: as proporções, a relação da estrutura com
17.
a forma, a linguagem depurada.” 29
O projecto que realiza para o concurso “A House for Karl Friedrich Schinkel”
(1979) traduz a sua convicção na articulação entre estes dois momentos da
história da arquitectura e evidencia o início de uma influência clássica constante
em toda a sua obra subsequente. Desde o início que Souto de Moura se interessou
pela obra de Friedrich Schinkel (1781-1841), para o qual “(...) o problema não estava
em aceitar a validade dos vários estilos da História; (...) estava sim na compreensão do que,
apesar de todas as diferenças entre os estilos, que existem e que são significativas, nos permite
liga-las através de uma mesma ideia comum ao longo do tempo (...)”. 30 Schinkel torna-
se numa das referências de Souto de Moura pela relação de continuidade que
estabelecia entre o modernismo e o classicismo sem, contudo, renunciar os
novos materiais contemporâneos. A casa Schinkel nasce de uma interpretação
da casa neoclássica, onde o “(...) contraponto entre uma linguagem clássica e uma
paisagem industrial, que no fundo não são tão diferentes como parecem” 31, representa
o encontro entre o passado e o futuro. O projecto, desenhado no interior da
refinaria de Leça da Palmeira, tem como suporte o existente e a sua utilização
enquanto material de projecto. A interactividade com o lugar e a sua inclusão no
interior do projecto são exaustivamente procuradas através de uma implantação

27
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura” in Luiz Trigueiros (ed.), Eduardo Souto de Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.30 [entrevista por Paulo Pais].
28
MOURA, Eduardo Souto de, “Fragmentos” in Antonio Esposito e Giovanni Leoni (ed.), Eduardo
Souto de Moura, Electa, Milão, 2003, p.435.
29
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.31.
30
RODRIGUES, José Miguel, O Mundo Ordenado e Acessível das Formas da Arquitectura. Tradição Clássica
e Movimento Moderno na Arquitectura Portuguesa: dois exemplos, Dissertação de Doutoramento em Arquitectura
apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, FAUP, 2006, p.90.
31
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.32.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 33


19.

20.

19.|20. Projecto do concurso “A House for Karl Friedrich Schinkel”. 1979.

34
raízes e filiação

passiva e discreta no espaço disponível dos interstícios naturais. É inequívoca


a presença da doutrina de Fernando Távora neste projecto, claramente
perceptível na “(...) organização de uma nova ordem que não considera simplesmente a
preexistência mas assume o existente, a circunstância, como elemento de projecto a colocar
no mesmo plano do hipotético.” 32 O duplo significado que a preexistência adquire,
simultaneamente contemplativa e operativa, reflecte este mesmo princípio de
respeito e valorização da preexistência e da sua identidade. O projecto de “A
House for Karl Friedrich Schinkel” resulta de “(...) uma hierarquização de espaços dotados
de uma identidade volumétrica própria [as estruturas da refinaria] que se presta, com
uma simples mudança de sentido, à poética da fragmentação (...)”. 33 Por outro lado,
esta obra expressa também uma intuição que permanece inerente a Souto de
Moura e que se refere à compreensão do neoclassicismo como principal fonte
do movimento moderno, o que possibilita a coexistência entre o espaço fluído
caracteristicamente modernista e o retraimento de que a fragmentação do espaço
clássico fechado e hierarquicamente organizado é detentor.
Aldo Rossi também defende este discurso de continuidade entre a Antiguidade
e a contemporaneidade, encontrando o arquétipo para a sua arquitectura no
classicismo:“(...) todas as grandes arquitecturas propõem de novo a arquitectura da
Antiguidade (...) mas de cada vez se repropõe com uma diferente individualidade.” 34 A sua
grande admiração pela arquitectura clássica incide especialmente na arquitectura
grega; no texto El Orden Griego (1959), Aldo Rossi descreve a civilização grega
como “(...) la expressión más cabal de un orden, de un mundo irrepetible, y, a la vez,
depositário de una enseñanza eterna.” 35 Considera a arquitectura desta época
detentora de uma singularidade que a torna irrivalizável com qualquer outra e,
como tal, base e exemplo para toda a produção arquitectónica posterior.
A cultura grega não assumia qualquer distinção entre os conceitos de arte e
técnica, defendendo que a expressão máxima das artes se traduzia no domínio
da técnica. 36 Esta relação de indissociabilidade é defendida por alguns artistas
modernos como Mies Van der Rohe (1886-1969) que afirma que “(...) Whenever

32
ESPOSITO, Antonio, LEONI, Giovanni, “Projectos de Formação 1977-1983” in Antonio Esposito
e Giovanni Leoni (ed.), Eduardo Souto de Moura, Electa, Milan, 2003, p.58.
Idem, p.57.
33

ROSSI, Aldo, A Arquitectura da Cidade, Edições Cosmos, Lisboa, 2001, p.156.


34

ROSSI, Aldo, “El Orden Griego” in Para una arquitectura de tendencia. Escritos: 1956-1972, Gustavo
35

Gili, Barcelona, 1965-66, p.45.


36
“Cualquier estúdio sério (...) sobre la civilización griega, nos disse que en Grecia, cuando las artes alcanzaron el más
alto grado de desarrollo que pudieron alcanzar, no se llamaron otra cosa que técnica (...) y no querían ser otra cosa que un
problema de conocimiento y procucción.”, idem, p.46.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 35


23.

24.

21. Regra e anti-regra. Pátio da Casa na Quinta do Lago. 1984-89.


22. Regra e anti-regra. Mesa Boaventura. Eduardo Souto de Moura
23. Mercado Municipal de Braga. 1981-84.
24. Casa das Artes - S.E.C. 1981-91.

36
raízes e filiação

technology reaches its real fulfilment, it transcends into architecture. (...) Our real hope is
that they grow together, that someday the one will be the expression of the other.” 37 Para
o arquitecto alemão, o domínio da técnica construtiva é a única forma de se
conseguir alcançar uma arquitectura “(...) as a true symbol of our time.” 38 Mies
rejeita o predomínio da forma como objectivo principal da prática arquitectónica,
considerando-a apenas o resultado das soluções construtivas.“Rechazamos
reconocer problemas de forma; sólo problemas de construcción. (...) La forma, por sí misma,
no existe. (...) Nuestra tarea, en esencia, es liberar a la práctica constructiva del control de los
especuladores estéticos y restituirla a aquello que debiera ser exclusivamente: construcción.” 39
Esta convicção da técnica como elemento essencial à arquitetura é partilhada
por Eduardo Souto de Moura que considera que o “(...) único discurso posible sobre
la arquitectura es el de la construcción; cualquier otro es demasiado impreciso y subjectivo.” 40
O interesse de Souto de Moura pelo arquitecto alemão, bem como outros
arquitectos modernos, surge no seguimento da transposição que realiza do
conceito minimalista para a arquitectura aquando dos seus primeiros projectos -
Mercado Municipal de Braga (1980-84) e Casa das Artes (1981-91). “A sua vocação
analítica e a obsessão de encontrar uma ‘gramática’ construtiva operativa, em anos de crescente
volatilidade teórica, levam-no ao encontro de Mies Van der Rohe.” 41 A influência do
discurso miesiano na linguagem arquitectónica de Souto de Moura é claramente
21. visível, nomeadamente na lógica construtiva e compositiva. No entanto, tal como
existem pontos de contacto entre ambos arquitectos, existem também pontos de
divergência. Mies Van der Rohe procura a ordem, a regra e o racional na sua
arquitectura, gosto partilhado por Souto de Moura e que ele próprio reconhece ser
uma obsessão. Contudo, esta procura é apenas “(...) um pressuposto teórico para poder
trabalhar, (...) não tem um objectivo final (...)” 42 uma vez que ao arquitecto português
interessa mais a capacidade que a regra possui de ser modificada sem que deixe de
ser operativa como um sistema. Souto de Moura recorre à manipulação da regra
22.
estabelecida para reforçar a sua leitura, introduzindo uma anti-regra segundo uma
lógica que vem sublinhar a validade do reconhecido adágio “a excepção faz a regra”.

ROHE, Mies Van der, Mies Van der Rohe at Work, Peter Carter, Phaindon, Londres, 1999, p.177-178.
37

Idem, p.178.
38

ROHE, Mies Van der, “Tesis de Trabajo” in Escritos, Diálogos y Discursos, Galería-Librería Yerba,
39

Murcia, 1981, p.27.


40
MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.11.
FIGUEIRA, Jorge, “Uma Paisagem Exacta”, op. cit., p.38.
41

MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
42

Moura”, op. cit., p.33.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 37


27.

28.

25. Pormenor construtivo de uma coluna em betão e aço revestida a bronze. Edifício Seagram. Mies van
der Rohe. 1954-58.
26. Pormenor construtivo de uma coluna em betão e aço revestida a bronze. Toronto Dominion Bank
Tower. Mies van der Rohe. 1963-67.
27. Estrutura pontual e planos organizadores do espaço. Pavilhão Alemão em Barcelona. Mies van der
Rohe. 1929.
28. Estrutura pontual e planos organizadores do espaço. Mercado Municipal de Braga. Eduardo Souto de
Moura. 1981-84.

38
raízes e filiação

Apesar da importância que ambos atribuem à estrutura e à clareza


construtiva, este é um dos temas em que os dois arquitectos se distanciam. Mies
Van der Rohe utiliza planos, superfícies e linhas para construir o espaço mas
opta preferencialmente pela estrutura pontual onde as paredes surgem como
elementos neoplásticos de definição e orientação dos espaços, como é possível
observar no Pavilhão Alemão em Barcelona (1929). Na arquitectura de Souto de
Moura, porém, predomina a estrutura parietal composta por paredes maciças,
recorrendo apenas ocasionalmente à estrutura pontual por necessidades
estruturais e funcionais. Contudo, uma das poucas exepções que existem ao
longo da obra do arquitecto ocorre logo no início da sua carreira com o Mercado
Municipal de Braga. Ambos sistemas estruturais se encontram representados
neste projecto, mas apenas os apoios pontuais possuem efectivamente uma
função portante, enquanto que os planos somente definem e orientam os
espaços. Os elementos estruturais não são declaradamente distinguidos daqueles
25.
que não o são, havendo mesmo uma simulação dessas funções como acontece
com os muros do mercado. A falsa aparência é utilizada como forma de conseguir
a naturalidade das obras e simultaneamente responder às exigências do projecto,
uma atitude também presente na arquitectura de Mies Van der Rohe:“(...) Mies
simuló la verdad: pilares de bronce que no son de bronce – son de hormigón que envuelve
pilares de acero en su interior -, fachadas con pilares que no llegan al suelo, ascensores que
26. parecen de mármol, etc. (...)” 43
É comummente assumido que o arquitecto alemão se trata de uma referência
directa para Souto de Moura no que diz respeito à utilização da linguagem
clássica. “A obra de Mies parece inquestionavelmente ligada a uma interpretação clássica
do Movimento Moderno. A dificuldade está, neste caso, nas razões que justificam a leitura
clássica da sua obra.” 44 Apesar de também Mies acreditar na tradição clássica
e na adaptação da sua linguagem à modernidade como forma de assegurar
a continuidade da arquitectura, esta relação directa com o classicismo não é
unanimemente reconhecida. “(...) Sendo a referência de Mies na obra de Souto de Moura
iniludível, parece-nos contudo insuficiente a persistência de um vínculo de tradição clássica entre
as suas obras. (...)” 45 Rui Ramos (1961), em “A obra de Eduardo Souto de Moura e

43
MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.18.
44
RODRIGUES, José Miguel, op. cit., p.152.
45
RAMOS, Rui J. G., “A obra de Eduardo Souto de Moura e a influência de Mies van der Rohe”,
Expresso (Cartaz), 26 de Junho, 1999, p.26.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 39


40
raízes e filiação

a influência de Mies van der Rohe”, expõe as opiniões de Marie Clément e Ignasi
Solà-Morales (1942-2001) sobre esta questão, os quais acreditam que a ligação
mais sólida entre Mies van der Rohe e Souto de Moura se encontra antes a nível
dos materiais e da sua utilização.
A presença do classicismo na obra do arquitecto alemão é inegável; as
fortes influências da sua aprendizagem com Peter Beherens (1868-1940) e a sua
admiração pela obra de Friedrich Schinkel confluíram num conjunto de obras de
cunho clássico que refletem Mies van der Rohe como “(...) un atípico maestro del
Movimiento Moderno empapado de tradición clásica más allá de la aparencia moderna del acero
y cristal de sus edificios.” 46 Contudo, para Ignasi de Solà-Morales, este classicismo
presente em algumas dos trabalhos de Mies van der Rohe não é suficiente
para generalizar a “intensidade estética” de todas as suas obras. Questionando a
existência de uma influência directa da tradição clássica na obra do arquitecto
alemão, Solà-Morales afirma que “La obra de Mies no nace de la recreación de una
naturaleza permanente y transhistórica basada en los órdenes clássicos y en su gramática.
(...) En Mies no existe la referncia a la totalidade del cosmos con la que el arte clássico
construía el sentido, los ordenes, los tipo, las proporciones, la perspectiva.” 47 Como tal, não
parece lógica a denominação de Mies van der Rohe como o último classicista
normalmente atribuída pela crítica, ou tampouco a insistência da presença de
uma relação directa do arquitecto com o classicismo.
Mies van der Rohe não considera a função como o único factor determinador
da forma, defendendo a necessidade da interacção com outros elementos de
índole não programática para a sua definição. Por conseguinte,“(...) regressa al
mundo autónomo del lenguage arquitectónico, a los tropos de los materiales, de la construcción,
de la tectónica y, en suma, al mundo de las configuraciones.” 48 Tal como Wilfried Wang,
Solà-Morales considera que a obra do arquitecto alemão nasce dos materiais
e no modo como este os emprega e manipula. Para Mies, estes são a matéria
pura e abstracta com que constrói os seus edifícios e objectos, uma matéria
“(...) general, geométricamente cortada, lisa y pulida, pero materia consistente, evidente,
sólida.” 49 A materialidade das suas obras é sempre resultado de uma conjugação
das características dos materiais com as realidades físicas dos edifícios como

46
SOLÀ-MORALES, Ignasi de, “Mies van der Rohe y el Minimalismo” in Diferencias. Topografia de la
arquitectura comtemporánea, Editorial Gustavo Gilli, Barcelona, 1995, p.30.
Idem, p.31-32.
47

WANG, Wifried, “La Estrutura Exacta. Observaciones sobre la Obra de Eduardo Souto de Moura”
48

in Wilfried Wang (dir.), Souto de Moura, Editorial Gustavo Gilli, Barcelona, 1990, p.6-7.
SOLÀ-MORALES, Ignasi de, “Mies van der Rohe y el Minimalismo”, op. cit., p.32.
49

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 41


29.

30.

29. Conjugação de diferentes materiais. Casa das Artes - S.E.C.. Eduardo Souto de Moura. 1981-81.
30. Conjugação de diferentes materiais.Pavilhão Alemão. Mies van der Rohe. 1929.

42
raízes e filiação

“(...) la gravedad y el peso de los elementos constructivos, las tensiones de sus comportamientos
estáticos, la dureza o la fragilidade, la artificiosidad material de la técnica que prepara y
manipula los elementos con los que se levanta el edificio.” 50 Uma materialidade que é
trabalhada desde o início em função dos problemas inerentes a qualquer projecto
de arquitectura, como a iluminação, a ventilação ou o isolamento dos edifícios,
por forma a garantir a sua adequação ao uso que lhes foi destinado.
As soluções arquitectónicas de Mies van der Rohe não advêm de meras
reproduções ou de conceitos abstractos sobre o espaço, a luz ou o território; são
as realidades físicas que constituem a matéria com que produz a sua arquitectura.
Mies “(...) no adecua las formas de sus materiales a leyes o convenciones preexistentes que
hay que imitar, reproducir. (...) La arquitectura radical miesiana es un bloque consolidado,
permanente, de produción de sensaciones a través de las cuales pasan los materiales y se llega
a los conceptos.” 51 “De esta manera se ha de interpretar lo que Mies ha escrito: « (...) Cada
material adquiere significado solamente por la manera como lo utilizamos (Each material is
only what we make it).»” 52
O entendimento dos materiais e das suas propriedades físicas como
matéria essencial para a produção arquitectónica constitui o vínculo que mais
predominantemente une Souto de Moura ao seu antecessor alemão. Ambos
nutrem uma profunda obsessão pelo rigor construtivo e pela representação dos
materiais, o que os conduz a um exaustivo e incessante aperfeiçoamento da
técnica e dos pormenores construtivos. Tal como nas obras miesianas, a essência
da obra de Souto de Moura reside nos materiais e na sua manipulação, sendo
a influência de Mies van der Rohe “(...) conduzida pela importância da matéria como
realidade palpável que constrói a arquitectura, e não pela via, inicialmente sugerida, de uma
percussão da gramática clássica na sua obra ou na sua formação.” 53
Eduardo Souto de Moura adopta, numa fase inicial da sua obra, certos gestos
linguísticos e formais manifestamente miesianos mas tem sempre o cuidado
de os equilibrar e adaptar à realidade construtiva portuguesa, atribuindo-lhes
significados e valores diferentes relativamente à obra onde se inserem. Souto de
Moura reinterpreta a arquitectura de Mies e constrói a sua própria gramática,
afastada do isolamento caracteristicamente miesiano, e onde prevalecem a

Id., ibid.
50

Idem, p. 33-34.
51

ROSSI, Aldo, “El Orden Griego”, op. cit., p.48.


52

53
RAMOS, Rui J. G., “A obra de Eduardo Souto de Moura e a influência de Mies van der Rohe”, op.
cit., p.26.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 43


44
raízes e filiação

precisão da materialidade dos elementos arquitectónicos, o rigor construtivo,


as formas simples e os gestos únicos. É com a vertente neoplástica de Mies van
der Rohe que o arquitecto portuense mais se identifica; a utilização de planos,
superfícies e linhas rectas para construir os espaços, explorando os diferentes
valores dos materiais, das cores e das texturas. O projecto “A House for Friedrich
Schinkel” é exemplo da manifestação destes princípios neoplásticos que dominam
o início da obra de Eduardo Souto de Moura, nomeadamente com a introdução
dos traçados ordenadores implícitos nos muros de pedra que atravessam a
composição do projecto da refinaria.
Apesar de apreciar a grandeza das ideias e a beleza das obras de Mies Van
der Rohe, Souto de Moura reconhece que existem lacunas nos resultados que o
alemão obteve. “(...) En el caso de Mies me interessa mucho esa búsqueda suya, de toda
una vida, intentando descubrir la forma perfecta, platónica: el arquetipo de la arquitectura.
Pero me interesa más su actitud que el resultado, que sabemos que no alcanzaría. (...)” 54

54
MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.11.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 45


46
1.2 o passado e as preexistências na construção do presente

A relação de continuidade com o passado e a valorização da história


defendidas por Eduardo Souto de Moura, bem como por Fernando Távora, Siza
Vieira, Aldo Rossi e Mies van der Rohe, reside precisamente na compreensão
dos conhecimentos do passado e da tradição para a construção do presente.
A arquitectura encontra-se em evolução contínua desde as suas primeiras
manifestações, tanto a nível teórico e formal como tecnológico e material.
Contudo, a evolução arquitectónica nunca abdicou dos conhecimentos e
experiências anteriormente adquiridos; o progresso e inovação da arquitectura
apenas é possível se alicerçada nos saberes já conquistados no passado pois
estes, adaptados aos novos materiais e instrumentos, constituem a base para
novas soluções “(...) la inovacíon pasa inevitablemente por la tradición.” 55
Para se ser contemporâneo é necessário não abandonar os referentes nem
as ligações ao passado e à memória, pois o espírito criador inovador deve
ser cultivado a partir da confiança obtida do legado arquitectónico que nos é
deixado. Ao longo dos tempos, a análise perspicaz do passado foi fornecendo
lições ao arquitecto para os problemas com que este se ia deparando. “É
portanto de uma forte, excepcional, segura presença do passado que é necessário partir
para o nosso fazer de hoje. Um passado que guarda tudo aquilo que possuímos e que nos
pertence, ao ponto de tornar-se a nossa verdadeira pedra angular, única com capacidade para
medir as dificuldades e os progressos no resultado do nosso trabalho.” 56 Desta forma,
o conhecimento rigoroso da história como instrumento para conhecer o real
confere segurança ao acto projectual pois, ao legitimar, tirar dúvidas e dar
certezas, permite que novas questões e novas soluções possam ser colocadas.
A história da arquitectura surge como um instrumento operativo que fornece

SIZA, Álvaro “El Sentido de las Cosas. Una conversación con Álvaro Siza” El Croquis, nº 140,
55

2008, Álvaro Siza, 2008, p.20 [entrevista por Juan Domingo Santos].
56
BATTISTA, Nicola di, “A Lição do Passado” in Michele Cannatà e Fátima Fernandes, Construir no
Tempo. Souto de Moura, Rafael Moneo, Giorgio Grassi, Estar Editora, Lisboa, 1999, p.11.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 47


48
raízes e filiação

ensinamentos a ser transportados e integrados na construção do presente para


que se possa alcançar um acto criativo conhecedor e responsável. “(...) utilizar
o exemplo histórico para o exercício e para o debate (...)” permite “(...) armazenar na
memória, apreender mecanismos, perceber intenções e condicionamentos para, esquecendo
tudo, nos abrirmos de forma culta e eticamente responsável à criação escandalosamente
artística, como é nosso dever.” 57
A história guarda e transporta consigo, ao longo do tempo, grandes
exemplos de arquitectura alcançados pelo homem que “(...) não são em caso algum
apenas lembranças, mas estímulos e armas para prosseguir (...)” 58, mas este recurso
aos ensinamentos do passado não pode ser meramente contemplativo. Para
que este recuo ao passado resulte numa apropriação produtiva da história é
imperativo um aguçado criticismo para que dele se possam retirar preciosas
lições para criar de forma evolutiva ao invés de um modo estagnado e recluso
de um mero mimetismo. “O passado é uma prisão de que poucos sabem livrar-se
airosamente e produtivamente; vale muito, mas é necessário olhá-lo não em si próprio mas
em função de nós próprios.” 59 Facilmente se poderá cair na simples reprodução
do passado devido à segurança que este nos pode proporcionar, mas a
história deve ser entendida como uma base geradora de ideias que reflectem
respostas ao real e não como um modelo para cópias, tornando-se ela própria
num obstáculo à inovação. A história não vem forçar a imposição de uma
linguagem ou boicotar a contemporaneidade no momento do acto criativo; a
obra projectada hoje deverá encontrar o seu lugar no tempo actual sem viver
da cópia do passado.
Como tal, é fundamental que, simultaneamente ao estudo da
lição do passado, se faça também uma aprofundada análise da nossa
contemporaneidade para que o legado da história contribua para solucionar
problemáticas actuais específicas que muitas vezes já não se encontram
compatíveis com as do passado. É necessário o cruzamento da história com
os conhecimentos e realidades contemporâneas dos quais “(...) é necessário
começar a apreender e reconhecer causas e efeitos para que se não nos escape mas, pelo
contrário, nos permita fruí-lo com sabedoria e sentido de oportunidade.(...)” 60 Estas duas

57
COSTA, Alexandre Alves, “O Lugar da História”, JA, nº202, Faire École 2, 2001, p.29.
58
BATTISTA, Nicola di, “A Lição do Passado”, op. cit., p.11.
59
TÁVORA, Fernando, “Para Uma Arquitectura Portuguesa de Hoje” in Luiz Trigueiros (ed.),
Fernando Távora, Blau, Lisboa, 1993, p.13.
60
BATTISTA, Nicola di, “A Lição do Passado”, op. cit., p.12.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 49


50
raízes e filiação

análises são complementares e apenas com a sua conjugação se consegue que


a contemporaneidade possua uma autenticidade histórica sem que cada época
precedente perca os seus valores próprios. “Viver no nosso tempo com tudo aquilo
que é do passado, nos pertence e nos convence, mas sem renunciar a nada daquilo que
actualidade é capaz de nos oferecer.” 61 A conciliação do entendimento da lição do
passado com os conhecimentos e anseios da sociedade actual é crucial para
que se adquiram as bases necessárias para a uma produção arquitectónica que
solucione as questões do tempo presente. Portanto, “(...) as obras do passado,
por mais longínquas ou remotas que sejam, nunca chegam a ser coisas mortas, ou apenas
excelentes testemunhos [inertes] de civilizações desaparecidas.(...)” A herança que temos
do passado está, antes, “(...) a incitar-nos a avançar na busca de novas metas e novas
sínteses para novas obras capazes de juntar-se às existentes e competir com elas.”62

Eduardo Souto de Moura compreende este suporte da arquitectura na


história, e o entendimento que adquire do passado e da memória faz com que
nutra um grande respeito pelo lugar e pelas preexistências. Da mesma forma
que da história da arquitectura se retiram ensinamentos que fornecem uma
base sólida à produção contemporânea, da história do lugar, da sua memória
e de todas as suas preexistências físicas e afectivas retiram-se as directrizes que
irão fundamentar a intervenção. O existente é detentor das suas próprias regras
e vínculos, o que o torna elemento fundamental ao projecto pois a solução
deverá nascer da leitura destes dados inerentes ao lugar.
Procurando a lógica no existente, Souto de Moura “(...) vai, obra a obra,
concretizando como que respostas únicas na circunstancialidade da encomenda, do lugar,
do tempo.” 63 Cada projecto nasce de uma circunstância específica e cada
abordagem é naturalmente diferente, procurando responder às condições e
condicionantes que cada caso apresenta. “A forma só não tem existência anterior
porque são únicas e irrepetíveis as condições que a geraram, porque os conteúdos são vários
ou reinterpretáveis caso a caso (...)” 64 Os projectos respondem às especificidades
de cada circunstância e “a dificuldade da posição a tomar está exactamente em saber
que porção da circunstância haverá que seguir e que porção haverá que esquecer ou mesmo

61
Id., ibid.
62
Id., ibid.
63
COSTA, Alexandre Alves, “Reconhecer é Dizer” in Textos Datados, e|d|arq, Coimbra, 2007, p.90.
64
Id., ibid.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 51


52
raízes e filiação

contrariar (...)” 65. As preexistências são lidas com um acentuado sentido crítico
para que sejam entendidas como matéria projectável geradora de ideias e
possam contribuir para o projecto como factores colaborantes e não como
meras reminiscências que provocam restrições ou imposições.
A arquitectura de Eduardo Souto de Moura ressalta as características do
lugar e das suas preexistências através da relação entre a obra e o seu contexto
- factores indissociáveis – cuja articulação possui como objectivo um resultado
final coeso. “Por este motivo, Souto de Moura aceita trabalhar sem impedimentos
em todos os sítios, e com qualquer programa, na medida em que cada acção sua se
torna ocasião para exprimir juízos sobre as características físicas e sobre as implicações
culturais das preexistências.” 66 Tirando partido do existente, as suas intervenções
enchem-se de clareza no respeito pela preexistência e, em simultâneo,
ganham a autonomia dada pelo seu tempo. As obras de Souto de Moura não
elegem idades ou tempos senão o presente, aquele que o arquitecto pode
manipular, organizar e representar, reconstituindo a lógica do lugar através
da uma reinvenção onde o novo e o antigo são conjugados para se tornarem
compatíveis. A intervenção surge não como uma ruptura com a história e o
passado mas antes como um legado seu, fruto da acção do tempo, que assegura
a continuidade com o novo.
“Os projectos de Souto de Moura vão, antes de mais, à procura dum “campo” de
relações a descobrir entre as coisas que o projecto pode introduzir deslocações moderadas
para a revelação das características primárias do lugar e para a mudança de significado do
sistema contextual: o projecto constitui-se, em síntese, como “refundador” do ambiente.” 67
Nenhum lugar ou preexistência é pois um dado objectivo e intocável; não
permitindo que condicionem ou ditem as regras do acto projectual, Souto de
Moura entende-os como o início do processo criativo.

65
TÁVORA, Fernando, op. cit., p.24.
66
ANGELILLO, Antonio, “Obras de Souto de Moura. Uma Interpretação.” in Luiz Trigueiros (ed.),
Eduardo Souto Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.14.
67
Id., ibid.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 53


2.
construir com preexistências
diferentes abordagens
56
2. construir com preexistências
diferentes abordagens
2.1 as preexistências na arquitectura de Eduardo Souto de Moura

Importa, neste ponto, notar que para Eduardo Souto de Moura o conceito
de preexistência não abrange apenas o construído mas todas as características
do local de intervenção, as suas histórias e memórias. A preexistência é
entendida como condição anterior à intervenção do arquitecto pelo que todas
as preexistências físicas e afectivas de um lugar são tidas em conta na sua
realização pois possuem informações imperativas para as opções de projecto.
Como tal, para Souto de Moura o acto criativo nunca parte do zero, existem
sempre dados e referências associados ao lugar a intervir que o caracterizam e
particularizam.
O lugar é resultado de um processo de acumulação derivado tanto de
alterações espontâneas associadas às acções dos elementos naturais como
à intervenção humana, numa “(...) soma infinita de factores, de alguns dos quais o
homem tem plena consciência e agindo outros inconscientemente sobre ele.” 68 Decorrente
de um contínuo acumular de estratos e vestígios que testemunha a passagem
do tempo, o lugar assume-se como um repositório de vivências, significados
e atribuição de valores. Torna-se num elemento em constante mutação que,
na sua condição de permanência, ganha e perde significados, o que o torna
passível de uma elevada multiplicidade de interpretações, significações e
apropriações. Esta concepção de lugar comprova a impossibilidade de uma
dissociação categórica do que é a condição do lugar e o que é resultante da
intervenção humana pois ambos contribuem conjuntamente para a sua
conformação. Souto de Moura encara o lugar como uma aglomeração de

68
TÁVORA, Fernando, Da Organização do Espaço, FAUP Publicações, Porto, 1999, p.21.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 57


58
construir com preexistências. diferentes abordagens

estratos que se vão sobrepondo e é da sua interpretação e compreensão


que resultam as bases que auxiliam uma melhor intervenção. “Un «lugar» no
es un dato, sino el resultado de una condensación. (...) Todos los accidentes del territorio
tienen significación. Compreenderlos es darse la oportunidade de una intervención más
inteligente.” 69
Para Souto de Moura, a arquitectura deve, pois, tornar-se parte integrante
do território, constituir-se em continuidade com o existente. O arquitecto
defende a adequação e a integração destas duas entidades e, numa postura
assumidamente distinta da ideia clássica de que a arte deve imitar a natureza,
tem consciência de que para se fazer arquitectura por vezes é necessário violar
o meio natural. E assim como entende a história como material de projecto,
Souto de Moura encara também o lugar como uma realidade disponível para
apropriação e manipulação. “O sítio é um instrumento. (...) E o sítio é aquilo que
se quer que ele seja. (...) Portanto, o sítio é tão importante quanto as outras coisas que
intervém no projecto.” 70 Por isso, nos seus projectos, parte sempre de uma leitura
do lugar e assume a sua manipulação como uma condição da arquitectura pois
acredita que esta é um processo de reconstrução da realidade física onde se
intervém. “El terreno nunca es virgen, y cuando veo que la arquitectura que me interessa
no está bien en su lugar, manipulo el terreno, el lugar.” 71
Souto de Moura encara o sítio, as suas preexistências e as suas histórias
como uma ferramenta de trabalho indispensável enquanto matéria a trabalhar
em função do projecto que tanto influencia e altera a solução como se deixa
modificar em prol desta. Por isso o transforma, sem hesitação, considerando
esta manipulação como um meio que conduz ao desejado equilíbrio entre o
lugar – o natural - e a arquitectura – o artificial. “Cuando naturaleza y artefacto
coexisten en perfecto equilíbrio, entonces se alcanza el estadio supremo del arte o el silencio
de las cosas (...) el silencio de las cosas perennes.” 72 O objectivo é alcançar um estado
em que o sítio já não poderia existir sem a presença da obra, em que esta se
torna quase presença indispensável porque passou a pertencer ao fluxo do
lugar e à sua história. Souto de Moura procura adequar, numa nova ordem,

CORBOZ, André, “El Territorio como Palimpsesto” in Ángel Martín Ramos (ed.), Lo Urbano en 20
69

Autores Contemporáneos, Ediciones UPC, Barcelona, 2004, p.34.


70
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.30
71
MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.10.
MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista a Eduardo Souto de Moura”, op. cit., p.135.
72

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 59


60
construir com preexistências. diferentes abordagens

os diversos elementos que constituem a circunstância do lugar e do projecto


para restabelecer o equilíbrio e a coesão paisagística. O arquitecto recusa nas
suas intervenções uma postura alienada do carácter e da estrutura do sítio,
procurando antes estabelecer uma relação de interdependência entre lugar e
arquitectura admitindo sem preconceitos, se assim for necessário, modificar
o terreno para que esta relação exista. Como tal, muitas vezes a estratégia de
projecto do arquitecto passa pela inserção da sua obra na estrutura do terreno,
dissimulando-a como se de um elemento pertencente ao lugar se tratasse e não
de uma evidente adição posterior. “(...) Todo esto es una forma de dar más sentido a
las cosas, aunque después el trabajo del arquitecto no se evidencie, pues esa manipulación del
terreno no se debe sentir ya que perderia interés. (...)” 73
A importância do lugar na obra de Souto de Moura encontra-se
intrinsecamente ligada à relação que esta estabelece com a natureza. Nas
palavras do próprio arquitecto, “(...) la naturaleza proporciona constantemente
formas y materiales a la arquitectura y ésta interviene en la naturaleza para adecuarla
a sus próprios fines.” 74, noção que se aproxima muito daquela de lugar como
fonte de soluções para a intervenção, pois tanto a condição do lugar como
a natureza fornecem os dados necessários a uma adequação da arquitectura.
Esta interpretação da relação entre arquitectura e natureza explica, em parte,
a presença da temática da ruína no percurso de Souto de Moura. “Creo que las
ruinas tienen ese escenario ideal de serenidade y la gente se encuentra a gusto passeando
entre ellas. (...) Esa serenidade procede de la adecuación del envolvente. Como no se require
ningún esfuerzo, la gente no aprehende el esfuerzo de las energías que las envuelven (...)” 75.
Para o arquitecto, a problemática da ruína prende-se com dois pontos distintos:
por um lado prende-se com a condição do lugar e os significados a este
inerentes e, por outro, encontra-se associada à relação da arquitectura com a
natureza. Como tal, Souto de Moura utiliza a ruína para enfatizar as memórias
e os significados presentes no local, chegando ele mesmo a criar essa memória
para fundamentar a sua intervenção. A identificação da ruína com a natureza
é também outra das razões para a sua utilização e valorização, pois contribui
para o estado de naturalidade que Souto Moura ambiciona para as suas obras.
A naturalidade é aqui entendida pelo arquitecto como a identificação e o

73
MOURA, Eduardo Souto de, “La naturalidad de las cosas. Una conversación con Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.10.
74
MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista a Eduardo Souto de Moura”, op. cit., p.136.
75
Idem, p.134.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 61


62
construir com preexistências. diferentes abordagens

equilíbrio entre o natural o artificial acima referida, no sentido de se alcançar


um equilíbrio recíproco entre o lugar e a arquitectura.
A importância que Souto de Moura confere à história, ao passado e,
consequentemente, ao lugar e às suas preexistências reflecte-se, portanto,
de uma forma muito directa, num profundo interesse pela ruína. A ruína
assume um importante papel de evocação do passado enquanto repositório
de acontecimentos e testemunha da passagem do tempo, simbolizando a
efemeridade e destruição das formas. Esta sua admiração, contudo, não surge
de uma visão da ruína “(...) romanticamente entendida como uma alusão a uma
significação perdida mas lida rossianamente como uma forma construída que, consumida
pelo tempo e libertado dos significados, voltou como matéria projectável.” 76 A ruína é
entendida como matéria projectável detentora de regras e sentidos construtivos
que não determina um modelo ao qual o projecto se adapta mas antes uma
ordem com a qual este se relaciona, funcionando como uma base que facilita e
apoia a inserção do novo. Como tal, a ruína assume diferentes papéis nas obras
de Souto de Moura, de acordo com a necessidade do projecto – operativa,
contemplativa, inventada – mas é sempre entendida como memória do passar
do tempo e como um processo que permite a passagem do artificial ao natural
e a conquista do “estado natural da obra”. Fisicamente, a ruína constitui
o derradeiro estádio da construção, uma das fases do inevitável processo de
degradação ao longo do tempo e cuja última etapa é o regresso à natureza,
encerrando-se assim o ciclo natureza-construção-natureza: “o fim dos edifício é
serem boas ruínas.” 77
Eduardo Souto de Moura procura, pois, compreender todos os factores
inerentes ao lugar para neles encontrar os fundamentos das suas obras,
assumindo todas as preexistências como material de projecto disponível
para apropriação e manipulação. O arquitecto nunca assume uma posição
descontextualista e desinteressada relativamente ao existente; considera-o
como informação útil que estabelece os critérios de desenvolvimento do
projecto e, partindo da premissa de que cada caso é um caso, destas leituras
decorrem sempre soluções naturalmente diversas e distintas umas das outras.
Contudo, apesar da pluralidade de interpretações e soluções, a única postura

76
LEONI, Giovanni, “À Procura de uma Regra. A Arquitectura de Eduardo Souto de Moura”, op. cit.
p.29.
77
PERRET, August citado por Eduardo Souto de Moura, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa
com Eduardo Souto de Moura”, op. cit., p.31.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 63


31. Cronologia das obras seleccionadas de Eduardo Souto de Moura.

64
construir com preexistências. diferentes abordagens

que Souto de Moura não inclui no seu processo projectual é a de anular e


ignorar o que o sítio possui, e começar do zero num contexto limpo e livre
de quaisquer significações. Como objecto ou como matéria, as preexistências
são sempre elementos disponíveis e participantes activos do projecto, podendo
estas ser um edifício, os seus vestígios e ruínas, as características naturais do
terreno, a história associada ao local de intervenção e/ou as memórias a este
atribuídas. A estratégia de Souto de Moura relativamente às preexistências é
diversificada mas, por vezes, também se encontram pontos de semelhança
em projectos distintos. Em sequência desta assunção, foram selecionadas
algumas obras que se entenderam melhor demonstrar como o autor encara a
especificidade de cada projecto que serão apresentadas cronologicamente.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 65


32.

33.

34.

32. Planta e alçado. Reconversão da Ruína no Gerês. 1980-82.


33. A ruína preexistente. Reconversão da Ruína no Gerês. 1980-82.
34. Vista geral do exterior. Reconversão da Ruína no Gerês. 1980-82.

66
2.2 exemplos de algumas obras

Reconversão da Ruína no Gerês (1980-1982)

A Reconversão da Ruína no Gerês, o primeiro projecto individual de


Eduardo Souto de Moura a ser construído, foi uma experiência que marcou de
forma indelével a continuidade do seu percurso arquitectónico e a intervenção
sobre a preexistência, nomeadamente o seu entendimento sobre o tema da
ruína.
O arquitecto recupera um antigo celeiro em ruínas para uma habitação
unifamiliar de dimensões mínimas, onde o existente é utilizado como objecto
de contemplação. A estratégia de intervenção é baseada no aproveitamento
do que restava do interior da construção, sendo o projecto apenas aquilo que
a ruína lhe permitiu ser. “Por dentro, foi o que a planta deu (30 metros quadrados).
Por fora, foi ler Apollinaire: «Preparer au lierre et au temps une ruine plus belle que les
autres...»” 78 Souto de Moura recusa a reconstrução da ruína, optando antes
pela complementação dos elementos existentes para tornar a ruína habitável.
O arquitecto encadeia o seu discurso naquele já existente, o da estrutura
abandonada, conciliando o artifício com o natural de forma a atingir a
ambicionada arquitectura anónima. Trata-se de uma intervenção caracterizada
pela invisibilidade e o anonimato que procura fundir a obra com a natureza
e preservar a autenticidade e a essência da ruína. “(...) é a ruína com que fiquei
fascinado, era a primeira obra e havia uma certa «inocência». Fascinado pela quase
identificação da arquitectura, material artificial, com a natureza, porque a ruína deixa de
ser arquitectura e passa a ser natureza. E mantive a ruína para manter essa pretensão deser
quase obra natural, anónima.” 79

MOURA, Eduardo Souto de, “Reconversão da Ruína no Gerês (1980-1982)” in Luiz Trigueiros (ed.),
78

Eduardo Souto de Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.41.


79
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.31.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 67


2

3
1

35.

36.

35. Planta de implantação. 1 - Jardim, 2 - Casa neoclássica preexistente, 3 - Casa das Artes - S.E.C. 1980-82.
36. Axonometria do edifício. Casa das Artes - S.E.C. 1980-82.

68
construir com preexistências. diferentes abordagens

Na Reconversão da Ruína no Gerês a base do projecto é uma preexistência


física, a qual é aproveitada para o estabelecimento do novo, sem sobreposições
ou anulamentos. O projecto é comandado pela ruína, adaptando-se de forma
absoluta a esta, numa relação onde o antigo e o novo coexistem em equilíbrio.
A obra baseia-se numa concepção operativa da ruína em que Souto de Moura
aproveita a sua potencialidade poética inserindo-lhe uma nova ordem com
materiais e técnicas recentes, mas conservando simultaneamente o seu aspecto
pitoresco de abandono.
Esta experiência de confronto com a preexistência influenciou toda a sua
obra posterior, enunciando já alguns dos temas que irão estar presentes ao
longo da sua prática projectual como a preexistência, a temática da ruína, o
equilíbrio entre o existente e o novo e a naturalidade e o anonimato das suas
obras.

Casa das Artes – S.E.C. (1981-1988)

A Casa das Artes foi a proposta que Eduardo Souto de Moura realizou para
um concurso que pretendia a construção de um centro cultural no interior
de um lote urbano da cidade do Porto onde já existiam uma habitação da
autoria do arquitecto Marques da Silva e o respectivo jardim e anexos. Tal
como ocorreu na Reconversão da Ruína no Gerês, este projecto tem por base
a intervenção numa preexistência, contudo as condições são distintas do caso
anterior pois não é pedida a recuperação de uma estrutura existente mas a
articulação de uma nova proposta com esta.
“Havia um recinto enorme, um jardim, um prado e, em posição axial, a casa, as árvores
à esquerda e à direita, adossado ao muro de vedação, os anexos: a casa do café, a casa
para a lenha. Não era necessário fazer nada, já estava tudo definido e equilibrado.” 80
A habitação neoclássica e o jardim existentes tornam-se então o suporte
desta obra para a qual Souto de Moura opta por uma estratégia de projecto
novamente marcada pelo anonimato. O autor não pretendia interferir com
a harmonia do local pelo que a sua intervenção se camufla na envolvente
existente. “Qualquer tipo de intervenção naquele lugar, não devia interferir com o jardim
existente. Mais do que propor foi necessário omitir, mais do que compor foi necessário

80
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa das Artes” in Antonio Esposito e Giovanni Leoni (ed.), Eduardo
Souto de Moura, Electa, Milan, 2003, p.77.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 69


37.

38.

39.

37. Vista do exterior. A reflexão da envolvente nos vidros espelhados. Casa das Artes - S.E.C. 1980-82.
38. Remate fragmentado das paredes. Casa II em Nevogilde. 1983-88.
39. Pilares de granito de alturas variadas. Casa II em Nevogilde. 1983-88.

70
construir com preexistências. diferentes abordagens

ser simples com rigor de resposta.” 81 Para que a identidade do recinto não fosse
modificada, a construção nasce no local onde antes se localizavam os anexos,
inserindo-se naturalmente no jardim sem perturbar os elementos presentes.
Este contacto com a envolvente preexistente é concretizado através de dois
muros de pedra paralelos e desfasados entre si, que facilmente se confundem
com aqueles que delimitam os lotes, os quais dissimulam a existência de um
novo edifício. “A entrada está escondida entre as duas paredes, e o edifício é anónimo,
do jardim não se dá pela sua presença.” 82 A ocultação da nova construção é
enfatizada pelos planos de vidro espelhado que reflectem o jardim e os
muros, transmitindo uma sensação de continuidade espacial. Valorizando
profundamente o equilíbrio entre a preexistência e a nova proposta, Souto de
Moura assume para a Casa das Artes uma posição passiva face às preexistências
do lugar, omitindo propositadamente a sua intervenção para não interferir com
o carácter predominante do contexto.

Casa II em Nevogilde (1983-1988)

Na Casa II em Nevolgilde, a ruína surge novamente como base da


estratégia de projecto, reconstituindo-se em associação com o novo. Contudo,
contrariamente à Reconversão da Ruína no Gerês, em que a ruína foi
preservada praticamente no estado em que se encontrava, aqui surge o tema
da ruína inventada e do inacabado “(...) numa acessão doméstica essencialmente
figurativa.” 83
O lote destinado à intervenção, irregular e totalmente encerrado para a
rua por muros de pedra, resulta da junção de vários fragmentos de terrenos
adjacentes ao qual a habitação vem conferir uma nova ordem. Souto de Moura
reutiliza os diversos elementos existentes nas diferentes porções adquiridas e
insere-os na sua intervenção como se a preexistência fosse (re)construída, pelo

81
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa das Artes – S.E.C. (1981-1988)” in Luiz Trigueiros (ed.), Edu-
ardo Souto de Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.52.
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa das Artes”, op. cit., p.77.
82

83
ESPOSITO, Antonio, LEONI, Giovanni, “Casas 1982-2002” in Antonio Esposito e Giovanni Leoni
(ed.), Eduardo Souto de Moura, Electa, Milan, 2003, p.58.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 71


40.

41. 42. 43.

44.

45. 46.

40. Axonometria do conjunto. Casa II em Nevogilde. 1983-88.


41.|42.|43. Vestígios preexistentes dispostos pela obra. Casa II em Nevogilde. 1983-88.
44.|45. Muros de granito do percurso de entrada. Casa na Avenida da Boavista. 1987-94.
46. Fragmento proveniente de uma antiga edificação. Casa na Avenida da Boavista. 1987-94.

72
construir com preexistências. diferentes abordagens

que “tranferir muros, deslocar terras, escolher as pedras, foi «quase fazer a casa».” 84
A simulação de ruína ou de obra inacabada é perceptível nos muros que
aparentam um processo de degradação através de pedras dispostas como
se tivessem sofrido uma fragmentação. Os cunhais onde as pedras não se
alinham no remate das paredes são disso um forte exemplo. A composição de
vários pilares de granito de alturas variáveis, apoiadas no muro de contenção
que demarca a diferença de cota entre o jardim e o campo de ténis, é outro
elemento que sugere o referido estado de arruinamento.
Ambas situações traduzem o desejo do autor de conceber componentes
cénicos que caracterizem a composição e o espaço através da alusão a
uma preexistência anterior. Esta intenção é reforçada através dos diversos
elementos dispersos junto à casa e pelo jardim, como as fontes, os tanques e as
pedras tombadas no chão, cuja presença ao longo da obra é assumida de forma
honesta e com grande naturalidade.
Este reaproveitamento das preexistências não visa apenas uma economia
de material mas também a preservação de uma precedência que agora suporta
a nova construção. Souto de Moura entende os vestígios presentes no local
como preexistências que não podem ser desvalorizadas nem abandonadas;
apropriando-se delas como material útil, estas são introduzidas no seu projecto
como peças capazes de conservar e evocar a memória de uma existência
passada.

Casa na Avenida da Boavista (1987-1994)

O terreno da Casa na Avenida da Boavista possuía já uma habitação


abandonada e arruinada, porque nunca chegara a ser acabada, à qual
apelidavam de “Bela Adormecida”. Seguindo uma estratégia semelhante à que
utilizou no projecto para a Casa II em Nevolgilde, Souto de Moura reutiliza
as pedras da ruína existente, e também as de um antigo colégio de freiras,
introduzindo-as declaradamente na sua proposta.
O arquitecto dispõe diversos fragmentos provenientes das antigas
edificações, como cornijas e molduras de vãos, numa junção de elementos

84
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa II em Nevogilde (1983-1988)” in Luiz Trigueiros (ed.),
Eduardo Souto de Moura, , Blau, Lisboa, 2000, p.75.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 73


47.

48.

49.

50.

47. Planta do conjunto. Casa na Avenida da Boavista. 1987-94.


48. Alçado Poente e alçado Sul. Casa na Avenida da Boavista. 1987-94.
49.|50. O mosteiro de Santa Maria do Bouro antes da intervenção de Eduardo Souto de Moura.

74
construir com preexistências. diferentes abordagens

num conjunto maior onde é sempre possível identificar cada peça utilizada.
O percurso até à entrada da casa é marcado por muros de granito onde o
arquitecto, num processo semelhante ao da assemblagem, dispõe diversos
fragmentos provenientes das antigas edificações, como cornijas e molduras
de vãos. Porém, “as pedras são falsas, porque encostadas a muros de betão fazem de
pintura mineral: a fonte foi janela, a mesa varanda e as cornijas, espalhadas no alçado, não
cumprem a estereotomia.” 85 À semelhança da fachada da Casa II em Nevolgilde, os
muros assumem-se como elementos de carácter cénico; Souto de Moura não
concebe simples planos de pedra aparelhada, optando antes por os opulentar
através da inserção de pequenos “(...) elementos lapidados como se fossem abstractos:
as molduras estão fora do lugar, a janela está ao contrário. Interessava-me só a forma
abstracta das pedras e o procedimento de colagem.” 86
Esta reutilização da matéria demonstra uma referência às antigas
construções, evocadas pelos vestígios compostos de modo abstracto, numa
lembrança da ruína, antiga arquitectura vencida pelo tempo e agora retomada.
Os elementos inseridos nos muros remetem para uma história de uma ruína à
qual já não é reconhecida uma forma, tornando-se apenas matéria de projecto
reutilizada para uma nova composição.
Como exposto anteriormente, a importância da referência à memória da
preexistência e do lugar assume um papel bastante importante para Souto
Moura; não obstante, na Casa na Avenida da Boavista, a utilização das ruínas
relaciona-se mais com um acto de composição com elementos disponíveis
que caracterizam os elementos estruturadores da proposta. Contudo, não se
pode deixar de ter em consideração que esta atitude revela também uma clara
intenção de criar um elemento cénico caracterizador do espaço. A apelação de
uma memória específica, de uma ruína concreta ou da encenação desta não é a
intenção primígena desta obra, pois não é o poder evocador do fragmento que
detém destaque mas sim a sua reutilização numa construção nova. Nesta obra,
é utilizado o sentido plástico da ruína, da preexistência física como símbolo de
uma história passível de ser narrada.

85
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa na Avenida da Boavista (1987-1994)” in Luiz Trigueiros (ed.),
Eduardo Souto de Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.129.
86
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa na Avenida da Boavista, Casa em Bom Jesus, Casa em Baião,
Casa em Moledo” in Antonio Esposito e Giovanni Leoni (ed.), Eduardo Souto de Moura, Electa, Milan, 2003,
p.143.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 75


51.

52. 53.

51. Planta de implantação. 1- Adro, 2- Igreja, 3- Mosteiro, 4- Claustro, 5- Passal, 6- Pátio do Laranjal,
7- Moinho, 8- Terraço, 9- Espelho de Água, 10- Olival, 11- Piscina, 12- Campo de Ténis,
13- Laranjal, 14- Pelourinho. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro. 1989-97.
52. Degraus em mármore vermelho junto ao bar. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro.
1989-97.
53. Degraus de acesso ao terraço em granito. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro.
1989-97.

76
construir com preexistências. diferentes abordagens

Reconversão da Pousada de Santa Maria do Bouro (1989-1997)

A Pousada de Santa Maria do Bouro representa um momento fundamental


no percurso arquitectónico de Eduardo Souto de Moura pois foi a sua primeira
obra de intervenção em património reconhecido institucionalmente. O projecto
requeria a reconversão de uma antiga estrutura monástica em ruína, o que torna
esta obra particularmente interessante no que respeita a preexistências. A ruína
volta a ser a matéria já existente com a qual Souto de Moura trabalha porém,
neste caso, a sua mera conservação é desde o início excluída como estratégia de
projecto. A proposta não nasce autónoma da preexistência mas sim a partir do
interior desta, assumindo-a como material de projecto disponível. “O projecto tenta
adaptar, ou melhor, servir-se das pedras disponíveis para construir um novo edifício. Trata-
se de uma nova construção, onde intervêm vários depoimentos (uns já registados, outros a
construir) e não da recuperação do edifício na sua forma original. Para o projecto as ruínas
são mais importantes que o «mosteiro», já que são material disponível, aberto, manipulável,
tal como o edifício o foi durante a história.” 87 Apesar de Souto de Moura considerar
o mosteiro como matéria disponível, não se trata de uma ruína em completo
estado de degradação à qual já não é possível distinguir uma forma construída.
À semelhança da estratégia escolhida para a Reconversão da Ruína no Gerês, em
Santa Maria do Bouro a configuração original da ruína é utilizada para incorporar
o novo espaço. Contudo, aqui, a ideia vai um pouco mais longe uma vez que
o arquitecto não permite que o novo seja restringido pelo existente. A atitude
é diferente da Casa na Avenida da Boavista pois enquanto que nesta as ruínas
foram entendidas como pedreira da nova construção, e os elementos reutilizados
de um modo abstracto, no Bouro a manipulação das preexistências respeita a
integridade e o carácter da forma.
Souto de Moura reconstrói o edifício de acordo com o tempo que entende
ser o de hoje, apropriando-se, manipulando e adaptando os elementos
disponibilizados pelo edifício. “Fiz um edifício moderno, como queria e com as pedras
que estavam disponíveis.” 88 Tem consciência de que projecta no tempo presente e
não num tempo que existiu, criando agora mais um tempo que se conjuga com
todos os outros que já ali existiram. “ (...) lo antiguo no es una entidade abstracta. Lo
antiguo es exactamente la sucesión de tempos y espacios, y como mi intervención era una más,

MOURA, Eduardo Souto de, “Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro numa Pousada”
87

in AA.VV., Santa Maria do Bouro: Construir uma Pousada com as pedras de um Mosteiro, White & Blue Edições,
Lisboa, 2000, p.5.
Idem, p.46.
88

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 77


54. 55.

56. 57.

54. Reinterpretação dos caixotões em aço corten. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro.
1989-97.
55. Os vestígios do antigo mosteiro como elementos evocatórios. Reconversão do Mosteiro de Santa
Maria do Bouro. 1989-97.
56. O claustro como ruína contemplativa. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro. 1989-97.
57. Os vãos imperceptíveis circundantes ao claustro. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do
Bouro. 1989-97.

78
construir com preexistências. diferentes abordagens

no tenía que enfrentarme al monumento.” Darme cuenta de eso me permitió ir suavizando


la intervención a lo largo del tiempo (...)” 89 Inicialmente, o arquitecto assume as
modificações que realiza na preexistência demarcando claramente as suas
intervenções, atitude perceptível nos degraus em mármore vermelho que vencem
as diferenças de cota entre os espaços do bar. Contudo, com o avançar da obra, o
autor reconhece que se trata de uma estratégia excessiva e incomportável uma vez
que revelar todas as suas interveniências seria uma tarefa praticamente impossível.
Assiste-se a uma atenuação das denúncias das suas intervenções, mudança que
pode ser lida nos degraus de acesso ao terraço que são já em granito, o mesmo
material do mosteiro, para que o contraste entre o novo e o antigo seja menor.
Souto de Moura compreende que a obra exige diferentes abordagens
consoante as características de cada espaço ou elemento, pelo que adopta variadas
formas de intervir nas preexistências ao longo de todo o processo de projecto.
“Recusamos a consolidação pura e simples das ruínas para uma utilização contemplativa,
preferindo intercalar materiais, usos e formas «entre les choses», como dizia Corbusier.” 90
Existem momentos em que assume uma nítida ruptura com o existente, como
é o caso dos degraus em mármore vermelho acima referidos ou as caixilharias
em ferro e os rodapés em aço inox; noutras situações o arquitecto opta pela
reinterpretação de alguns elementos, como os caixotões da cobertura que
se destacam pela sua execução em aço corten; alguns vestígios originais são
dispostos ao longo dos espaços como testemunhos do passado do edifício, à
semelhança da Casa na Avenida da Boavista, adquirindo um poder evocativo da
história do mosteiro; no claustro, o espaço é trabalhado como se de um elemento
escultórico se tratasse, assumindo um carácter contemplativo. É procurada a
preservação da imagem de um estado de arruinamento através da dissimulação
da intervenção, de que são exemplo os caixilhos imperceptíveis dos vãos
circundantes ao claustro.
Em Santa Maria do Bouro a visão operativa da ruína de Souto de Moura é
inequívoca; entende-a como material aberto e manipulável de forma a servir o
projecto mas não se permite a um alheamento em relação à preexistência. Apesar
de se servir desta como material de projecto, o arquitecto revela igualmente uma
profunda preocupação com a verdade histórica do edifício. Para Souto de Moura,
a sua intervenção é apenas mais uma fase da história e vida do mosteiro, a qual

89
MOURA, Eduardo Souto de, “Entrevista a Eduardo Souto de Moura”, op. cit., p.128.
90
MOURA, Eduardo Souto de, “Santa Maria do Bouro”, Eduardo Souto de Moura, Antonio Esposito e
Giovanni Leoni, Electa, Milan, 2003, p.340.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 79


58.

60.

59. 61.

58. Os socalcos e a ruína preexistente. Axonometria. Casa em Baião. 1990-93.


59. O encontro entre o novo e o antigo. Casa em Baião. 1990-93.
60. A ruína consolidada como jardim fechado. Casa em Baião. 1990-93.
61. A casa enterrada no terreno. Planta. Casa em Baião. 1990-93.

80
construir com preexistências. diferentes abordagens

é entendida como um processo acumulativo e evolutivo de tempos e alterações.


Aceita a inevitável transformação do edifício, determinada por um novo programa
e um novo tempo, tornando como objectivo principal da sua estratégia o
equilíbrio entre a sua intervenção e as diferentes circunstâncias da preexistência.

Casa em Baião (1990-1993)

O recurso à preexistência e ao tema da ruína estão novamente


representados na Casa em Baião. Contudo, a abordagem que Souto de Moura
faz ao existente deste projecto difere das que realizou anteriormente; enquanto
que na Reconversão da Ruína no Gerês, por exemplo, existe uma subjugação
à ruína, onde esta é considerada elemento de contemplação integrado na casa
em si, na Casa em Baião a abordagem é claramente oposta. Nesta obra, a
ruína assume um carácter exclusivamente escultórico e contemplativo, sendo
o projecto realizado autonomamente a esta. A preexistência é entendida como
uma ordem com a qual o novo se deve relacionar e não o modelo ao qual se
deverá adaptar, como acontece na Reconversão da Ruína no Gerês em que se
optou considerar regente a ordem já existente, não se iniciando uma nova ao
intervir nela.
O projecto previa uma habitação de férias de dimensões mínimas cujo
terreno estruturado em socalcos sustentados por vários muros de suporte,
junto a um dos quais existia uma edificação em ruína. O arquitecto recusou
a recuperação da estrutura preexistente, utilizando-a antes como suporte
físico da implantação. O novo encosta-se sem receios à preexistência, que não
sofre qualquer intervenção e é preservada no estado em que se encontrava,
absorvendo e respeitando assim a sua memória. “Consolidar a ruína como jardim
fechado e fazer a casa ao lado foi a base do projecto.” 91 Souto de Moura desmonta
o muro de suporte, reutilizando as pedras retiradas deste no interior da casa,
e escava o terreno para encaixar a nova construção no socalco, justaposta à
ruína. A casa apresenta-se em negativo como uma caixa em betão introduzida
no desnível do terreno que reinterpreta e refaz o socalco, reconstruindo a
sua imagem. “Uma «casa portuguesa» integrada na paisagem, quer dizer, enterrada na
paisagem (...)” 92

91
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa em Baião (1990-1993)” in Luiz Trigueiros (ed.), Eduardo Souto
de Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.150.
Id., Ibid.
92

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 81


62. 63.

64. 65.

62. Planta de implantação. Casa em moledo. 1991-97.


63. A casa como socalco. Planta e corte transversal. Casa em Moledo. 1991-97.
64. A casa como solcalco. Vista do exterior. Casa em Moledo. 1991-97.
65. O afastamento da casa em relação ao terreno. Casa em Moledo. 1991-97.

82
construir com preexistências. diferentes abordagens

Na Casa em Baião o arquitecto manipula o terreno em função da sua


intenção de projecto, atitude representativa da importância que confere à
relação da obra com a paisagem. A casa é tornada um elemento integrante
do terreno, dissolvida na envolvente, surgindo aqui novamente a intenção
da invisibilidade da intervenção. Esta intenção é reforçada pela utilização
e vidros espelhados que reflectem o exterior e simulam a continuidade do
natural. A estratégia de projecto baseia-se pois numa intervenção discreta que
não perturbe a presença da ruína, procurando a valorização da preexistência
e a manutenção e preservação do carácter do local. A obra revela assim
dois momentos distintos: o passado, representado na preexistência, e a
contemporaneidade, presente na nova construção. Contudo, a ruína é o
elemento de destaque na composição que, embora tenha sido consolidada,
mantém o seu aspecto de abandono e desgaste no tempo. Nesta obra, Souto de
Moura não utiliza a preexistência como matéria operativa nem a reinventa em
função do projecto; consolida as suas características, tornando-a um elemento
contemplativo que apoia a inserção do novo.

Casa em Moledo (1991-1997)

A Casa de Moledo apresenta semelhanças com a Casa em Baião pois


Souto de Moura opta novamente pela reconstrução da topografia do terreno
por forma a que este sirva a sua ideia de projecto. Em ambas situações
as habitações encontram-se inseridas nos socalcos mas em Moledo estes
foram todos totalmente manipulados para receber a casa. “O terreno já estava
terraplanado, mas com desníveis de um metro e meio de altura. Com estas medidas não
podia realizar o projecto que queria, então propus ao cliente de remodelar completamente
o terreno (...). Dupliquei as dimensões em planta da terraplanagem existente e reduzi os
aterros pela metade.”93 Souto de Moura realiza uma manipulação profunda do
terreno, alterando a topografia da encosta e reconstruindo as plataformas
com desníveis de três metros de modo a que a casa se pudesse assumir
como mais um socalco e assim se integrar com a paisagem. Esta estratégia é
muito próxima daquela adoptada em Baião mas aqui a construção não se
encosta totalmente ao terreno, pelo que o seu alçado tardoz não é cego.

93
MOURA, Eduardo Souto de, “Casa na avenida da Boavista, casa em Bom Jesus, casa em Baião, casa
em Moledo”, op. cit., p.144.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 83


66.

67.

66. O encerramento do corredor realizado pelo maciço rochoso. Casa em Moledo. 1991-97.
67. O encontro discreto do vidro com as paredes da composição. Casa em Moledo. 1991-97.

84
construir com preexistências. diferentes abordagens

A casa afasta-se ligeiramente do terreno para se abrir para uma fachada


natural de pedra e vegetação, um maciço rochoso que encerra o corredor de
circulação da casa. A dimensão do afastamento é reduzida, apenas a suficiente
para garantir iluminação natural e possibilitar o redesenho do corredor
que se assume como um cenário telúrico na sua relação com a natureza.
O vidro que o encerra não assume relevância na composição, sendo o
papel principal de encerramento atribuído à parede de pedra cujo carácter
cenográfico é extremamente forte. Contrariamente à casa em Baião, a relação
que esta casa tem com a envolvente e com a preexistência não é apenas
contemplativa; Souto de Moura insere a natureza na arquitectura, tornando-a
parte desta.
Ao reconstruir a paisagem em função dos pressupostos do projecto, Souto
de Moura consegue que a obra nasça de um desenho específico para este lugar.
A modelação do terreno com vista à definição de uma coerência paisagística
é levada ao limite, e neste sentido o terreno funciona como instrumento
de trabalho, mas o essencial é preservado: a imagem e a memória do lugar,
as terraplanagens e as pedras dos muros. A preexistência é profundamente
modificada, porém não deixa de ser o cerne do projecto uma vez que as suas
características são respeitadas e preservadas. A manipulação do preexistente
apenas pretendeu facilitar a inserção e o equilíbrio com a nova construção.

Museu dos Transportes (1993-2002) e Centro Português de Fotografia (1997-2001)

Tanto na transformação do Edifício da Alfândega em Museu dos


Transportes como na reconversão da antiga Cadeia da Relação em Centro
Português de Fotografia, a intervenção é totalmente confiada à própria
identidade do edifício e circunscrita à forma existente. A preexistência com
que o arquitecto trabalha nestes projectos não é constituída por vestígios
isolados de memórias passadas ou estruturas degradadas, como nos casos
anteriormente descritos, mas de edifícios em bom estado de conservação a
serem sujeitos a uma reconversão de uso. Em ambos projectos é efectuado
o simples restauro dos edifícios e das suas estruturas e os novos elementos
introduzidos são claramente acrescentados e identificáveis. Não é pretendida
a reconstituição de uma imagem, identidade ou memória passadas pois estas
estão perfeitamente consolidadas e conservadas. O objectivo passa a ser

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 85


68.

69.

70.

68. As escadas de madeira com rodas. Museu dos Transportes. 1993-2002.


69. O expositor com a roda de bicicleta. Museu dos Transportes. 1993-2002.
70. O volume autónomo dos espaços administrativos. Museu dos Transportes. 1993-2002.

86
construir com preexistências. diferentes abordagens

intervir o menos possível na introdução dos novos programas, mantendo-se


sempre a morfologia, a tipologia a organização interna dos edifícios e a sua
espacialidade. A intervenção surge completamente autónoma em relação à
composição volumétrica, atitude igualmente presente na escolha de materiais,
afirmando-se desta forma o reconhecimento do espaço existente.
Tal como em obras anteriores, na transformação do Edifício da Alfândega
em Museu dos Transportes Souto de Moura baseou-se na história do edifício
e nas suas características. Porém, neste caso, a intervenção não exigiu
transformações espaciais significativas uma vez que este possuía uma elevada
estabilidade e consistência estrutural e compositiva. A preservação do existente
é completada com a inserção de novos elementos requeridos pela função
actual, os quais, embora caracterizados pela mobilidade e reversibilidade,
são concebidos com base nas regras do edifício. Exemplo destas peças são
as escadas em madeira providas de rodas, característica presente em todos
os elementos projectados para esta obra, ou os espaços administrativos
concebidos como estruturas independentes do edifício e que podem ser
removidos sem interferir com a estrutura original. “A escada tem umas rodas, assim
como todos os outros objectos desenhados para o Museu: o expositor com a roda de bicicleta,
os elementos que contêm o sistema de desumidificação.” 94
A intervenção de Souto de Moura revela uma elevada precisão e
sensibilidade aliadas a um profundo respeito pelo edifício preexistente e as
suas regras. Os novos elementos inseridos afirmam-se distintamente como
novos mas são cautelosamente integrados em função das características do
edifício. “Estudei a estereotomia das paredes e, criando um desenho que segue a trama
do paramento murado, pus nalguns pontos as tomadas eléctricos; depois desenhei uns
rodapés afastados da parede no interior dos quais passavam diversas linhas (...)” 95 No
Museu dos Transportes é atingido um equilíbrio entre o antigo e o novos
sem precedentes onde a intenção primordial do arquitecto é a de que a sua
intervenção não interfira com a harmonia da preexistência.
À semelhança do Museu, a estratégia basilar do Centro Português de
Fotografia vai de encontro à procura da verdade histórica do edifício, sendo
esta o material fundamental de projeto. Preservar a imagem, a identidade e
a memória da antiga Cadeia da Relação, bem como a sua estrutura espacial,

94
MOURA, Eduardo Souto de, “Museu dos Transportes” in Antonio Esposito e Giovanni Leoni (ed.),
Eduardo Souto de Moura, Electa, Milan, 2003, p.341.
95
Id., Ibid.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 87


71.

72.

73.

71.|72. Os espaços de exposição adaptados ao edifício existente. Centro Português de Fotografia. 1997-2001.
73. As grades e as portas das celas preservadas. Centro Português de Fotografia. 1997-2001.

88
construir com preexistências. diferentes abordagens

foram as principais directrizes da intervenção, pelo que foram os espaços


de exposição e de outras funções que se adaptaram à organização existente.
Tal como no Museu dos Transportes, alguns espaços são concebidos como
contentores que não tocam a preexistência, funcionando autonomamente à
estrutura existente, atitude que novamente demonstra o respeito e o intuito de
preservar do estado original do edifício bem como a preocupação em garantir a
reversibilidade da intervenção.
O programa do edifício é alterado e assiste-se a uma nova fase da vida do
edifício mas a memória da função anterior é constantemente evocada, como se
ali convivessem dois tempos distintos. Exemplo desta preocupação em apelar
ao passado do edifício são a manutenção de alguns vestígios da cadeia, como as
grades e as portas das celas, e a preservação da cela onde permaneceu Camilo
Castelo Branco sem que lhe fossem afectadas quaisquer funções. A estratégia
de Souto de Moura assenta numa grande valorização da identidade histórica da
preexistência pelo que a intervenção não pretende anular mas antes realçar a
memória desse uso tornando o edifício museu de si próprio.

Estádio Municipal de Braga (2000-2003)

O Estádio Municipal de Braga é uma obra que reflecte duas das acepções
determinantes da arquitectura de Souto de Moura: a concepção da história
como instrumento para a construção no presente e a instrumentalização do
sítio como ferramenta na procura do reequilíbrio entre a preexistência e a nova
construção.
Souto de Moura optou por implantar o novo estádio no local de uma
antiga pedreira: “(...) à medida que fui visitando o local, sobretudo quando o vi de
cima, deduzi que era muito mais interessante mudá-lo e usar a montanha, onde estava
a pedreira desmontada, e usar a pedra como hipótese de uma modelação para fazer uma
arquibancada. (...)” 96 Esta escolha obrigou a uma compreensão de como a
arquitectura e a natureza se poderiam tornar mutuamente solidárias para que
se alcançasse o equilíbrio adequado entre a obra do homem e as preexistências
de índole natural. Tal não significa que, como ocorreu em obras anteriores, a
invisibilidade e o anonimato caracterizem esta obra; pelo contrário, o estádio

96
MOURA, Eduardo Souto de, http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/
entrevista/05.019/3325?page=3, acedido em 10 de Junho de 2013.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 89


74.

75.

76.

77.

74. Planta de implantação. Estádio Municipal de Braga. 2000-2003.


75. Corte longitudinal. Estádio Municipal de Braga. 2000-2003.
76.|77. Anfiteatro romano. Ponte de corda inca. Referências para o projecto do Estádio Municipal de
Braga. 2000-2003.

90
construir com preexistências. diferentes abordagens

“não é nada amável, ele compete com o sítio, (...) vêem-se as energias naturais e de como
elas se contrapõem à arquitetura, quer em termos de paisagem e silhuetas quer em termos
físicos.” 97 O terreno foi trabalhado para receber a construção e estes apropriam-
se simultaneamente um do outro, tornando-se indissociáveis. A manipulação
das condições naturais do sítio permitiu que se estabilizasse a intervenção ao
torna-la dependente do local e, da mesma forma, conseguir que este já não
subsistisse sozinho sem aquela. Todavia, nenhum destes elementos é destituído
da sua autonomia ou sujeito a uma submissão perante o outro pois ambos
se valorizam reciprocamente. “É o betão a querer socorrer-se da pedra e a pedra a
responder, os dois estão «de mão dada».” 98
Para o arquitecto,“(...) o máximo da qualidade é conseguir tudo o que é bom da
tradição e tudo o que é bom do futuro (...)” 99 pelo que, para resolver as exigências
do programa, transpõe para este projecto diversas referências históricas que
se cruzam na definição dos seus princípios e se estabelecem como base da
intervenção. Foi nos diversos locais que visitou, como o Epidauro e o Canal
de Corinto, na Grécia, e vários estádios de Itália, Espanha e França, que Souto
de Moura encontrou conhecimentos e directrizes para o Estádio Municipal
de Braga. O projecto nasce deste cruzamento entre a tradição e a tecnologia,
desta análise de exemplos históricos e contemporâneos determinantes de onde
se colheram os conhecimentos necessários à conformação de uma nova obra
adequada ao uso que lhe era destinado.

97
Id., Ibid.
98
Id., Ibid.
99
MOURA, Eduardo Souto de, “A Poética da Materialidade”, op. cit., p. 29.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 91


3.
o mercado municipal de Braga
78.

79.

78. Altimetria do concelho de Braga.


79. Esquema da ocupação romana em Braga.

94
3. o mercado municipal de Braga

3.1 a cidade de Braga

3.1.1 pontos de partida

Para compreender as circunstâncias urbanas que determinaram o caso de


estudo, torna-se pertinente iniciar a análise do Mercado Municipal de Braga
com uma sinopse dos principais momentos que marcaram o urbanismo
bracarense, e de que forma estes determinaram a evolução urbana da cidade de
Braga.
Foi entre as bacias dos rios Cávado e Ave, local onde se veio a erigir a
cidade de Braga, que se fixaram as suas primeiras aglomerações populacionais
motivadas pelas “(...) estratégias defensivas, pela diversidade orográfica, pela grande
riqueza hidrográfica e pela extensa e fértil planície que se explanava a Norte do Monte
castro (a velha cidade)”. 100 Estes primeiros assentamentos são atribuídos a um
povo presumivelmente Galo-Céltico, os Bracaros, cujos vestígios das suas
fixações remontam ao Neolítico, correspondendo as primeiras concentrações à
ocupação castreja do Noroeste Peninsular.
Em 27 a.C. os romanos fixaram-se neste mesmo local e fundaram Bracara
Augusta, uma cidade que apesar de não existirem certezas se a sua origem
foi resultado de necessidades político-militares ou apenas decorrente de um
assentamento colonial, se desenvolveu como um importante centro político,
económico e social. Seguindo os modelos e os princípios gerais ocupacionais
romanos, a urbe desenvolveu-se segundo uma organização axial que obedecia
a dois eixos ortogonais – o cardo no sentido longitudinal e o decumano no

100
CORRAIS, Filipa, Dinâmicas territoriais na aglomeração urbana de Braga, Dissertação de Mestrado
apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, FAUP, 2003, p. 103.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 95


80.

80. Esquema da cidade de Braga na Idade Média. Rua do Souto.

96
construir com preexistências. diferentes abordagens

sentido transversal. Da desmultiplicação destes eixos principais procede


uma estrutura secundária que origina um plano ortogonal de perímetro
quadrangular regular. No encontro do cardo e do decumano situavam-se os
principais edifícios, nomeadamente o Fórum (centro de vida pública, religiosa,
social e comercial).
Em 411 ocorrem as primeiras invasões bárbaras por parte dos Suevos,
Vândalos e Alanos, povos que começaram a partilhar as regiões da Península
Ibérica. Contudo, com a invasão dos Visigodos em 456, os Alanos e os
Vândalos foram expulsos para o Norte de África, permanecendo apenas os
Suevos no território que estabeleceram Braga como capital do reino. Com a
conversão destes povos ao cristianismo , a Igreja de Braga torna-se Sede
Primaz tornando-se desde então o clero determinante, até meados do século
XVIII, para o desenvolvtimento da cidade e para que Braga se tornasse uma
importante sede de bispado. Mais tarde, com o Conde D. Henrique e D.
Teresa, é confirmado “(...) o estigma de poder e de influência da Igreja local, ao doar o
senhorio de Braga ao seu Arcebispo, atitude esta que merece, mais tarde, a confirmação do
seu filho D. Afonso, Primeiro de Portugal.” 101 A partir da atribuição da jurisdição e
do senhorio de Braga à Igreja Bracarense, os Príncipes-Arcebispos tornaram-se
personalidades determinantes para a ulterior evolução urbana da cidade até ao
final do século XVIII.
O Bispo D. Pedro foi uma personalidade de grande relevância para a
evolução urbana de cidade uma vez que em 1089 consagrou a Sé Catedral, a
qual foi uma peça fulcral para a evolução do urbanismo medieval bracarense.
Foi com este edifício como centro que foi construída a primeira muralha
medieval, cuja intersecção com a muralha romana define uma nova centralidade
que concentrava em si as ruas já existentes. A Sé assumiu uma posição
central, tornando-se no núcleo a partir de onde se difundiam os tortuosos e
estreitos arruamentos da cidade, e os eixos que estabeleciam as continuidades
extramuros que viriam a propiciar ligações a futuros centros de expansão da
cidade. A única construção relevante erigida para além da Catedral foi o Palácio
dos Arcebispos localizado na metade Norte da cidade, zona marcadamente
delimitada pelo eixo formado pela Rua do Souto, e onde se concentravam uma
grande quantidade de espaços livres que seriam determinantes para a futura

101
BANDEIRA, Miguel Sopas de Melo, O espaço urbano de Braga em meados do século XVIII: a reconstituição
da cidade a partir do Mappa das Ruas de Braga e dos Índices dos Prazos das Casas do Cabido, Edições Afrontamento,
Porto, 1984, p.59.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 97


81.

81. Esquema da cidade de Braga no século XVI.

98
construir com preexistências. diferentes abordagens

evolução da cidade. Uma das imposições urbanísticas deste período foi a


proibição de habitações de nobres e de ordens religiosas dentro do limite da
cintura muralhada. Consequentemente, e apesar de expandida para além das
suas muralhas, a cidade assumia-se como um importante centro administrativo,
comercial e religioso cuja malha mais compacta se concentrava dentro dos
limites por estas definidos.
O urbanismo bracarense sofreu profundas alterações na época renascentista
com as intervenções de D. Diogo de Sousa. Seguindo os ideais urbanísticos
renascentistas “(…) abrir-se-ão novas ruas levando a cidade para fora dos muros, novas
portas se rasgarão, e, em frente de todas essas brechas da cintura medieval, se abrirão
outras tantas praças, símbolos perfeitos da nova mentalidade que se queria desafogada,
moderna.”. 102 Numa intervenção que teve em conta a cidade no seu todo e a
articulação dos seus espaços, a urbe foi libertada da cintura amuralhada
medieval e ganhou uma nova imagem. A estrutura intramuros foi desafogada
através da abertura de novas praças e ruas, de que é exemplo o prolongamento
da rua do Souto até ao extremo Poente da muralha, onde foi aberta uma
nova porta da cidade. Esta intervenção consolidou um eixo estruturante
que já existia com relativa importância e estabeleceu uma fronteira entre
os territórios eclesiásticos a Norte e a cidade civil a Sul. Este eixo passou a
assumir uma importância urbana que ainda hoje persiste devido à importância
urbana que ganhou por se ter tornado a principal zona comercial e social da
época. Do lado exterior da muralha, a cidade foi envolta por um conjunto de
novos espaços amplos a ela adjacentes, os campos, que eram ligados entre si
através de novas ruas e cujos eixos orientadores subsistem até à actualidade.
As novas ruas e praças (campos) criados por D. Diogo de Sousa foram fortes
condicionantes do desenvolvimento posterior da cidade, pois até à primeira
metade do século XIX estes espaços foram sendo ocupados, contribuindo
para o aumento da escala urbana da cidade, perdurando até hoje o seu efeito
na organização da malha urbana interna bracarense. Apesar de profundamente
reestruturada, a cidade de Braga manteve a sua relevância enquanto centro
comercial e administrativo.
Durante o período da contra-reforma (1532-1725), Braga sofreu um
acentuado crescimento económico com o aumento da produção das indústrias

102
OLIVEIRA, Eduardo Pires de, MOURA, Eduardo Souto, MESQUITA, João, Braga. Evolução da
Estrutura Urbana, Câmara Municipal de Braga, Braga, 1982, p.25.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 99


82.

83.

82. Esquema da evolução da cidade de Braga entre os séculos XVI e XVIII (Contra-Reforma).
83. ESquema da cidade de Braga no século XVIII. (Barroco Tardio).

100
o mercado municipal de braga

ligadas à construção e decoração de igrejas. Consequentemente, a população


bracarense aumentou com a chegada de novos trabalhadores103 que foram
ocupando os espaços abertos na época renascentista pelo que, tal como acima
referido, “foi nas estruturas ainda de carácter rural, definidas pelos “campos” abertos pelo
arcebispo D. Diogo de Sousa que, durante o séculos XVII e o século XVIII, a cidade
cresceu.”. 104 A evolução da estrutura urbana foi marcada pela abertura de dois
eixos fundamentais, um que unia o centro da cidade - a Sé - ao extremo Norte
da cidade, e outro que estendia para o extremo oposto, rompendo a muralha
para unir a cidade aos terrenos existentes a Sul.
A cidade setecentista possuía um núcleo coeso intra-muros delimitado pela
muralha “(...) rasgada por oito aberturas (...) das quais na sua maior parte irradiavam
prolongadas vias colmatadas de construções nos bordos. Por estas se consubstanciava
o crescimento urbano e se estabeleciam os principais acessos.” 105 Estes extensos
eixos desenvolviam-se do centro para a periferia, estabelecendo-se como
importantes vias de circulação não só entre a cidade e a região envolvente
como também para deslocações locais. As edificações ao longo destas radiais
perdiam progressivamente compacidade em direcção à periferia que, ocupada
por quintas e campos de cultivo, possuía um forte cunho rural. Esta matriz
radial segundo a qual a cidade se começou a expandir traduz o carácter
concentracionário que subsistiu em Braga até à actualidade. No final do século
XVIII, Braga perde o estatuto de senhorio arquiepiscopal que detinha desde
a Idade Média, deixando a sua evolução urbana de ser ditada pela sociedade
eclesiástica.

103
“(...) a população deve ter aumentado e a economia terá melhorado significativamente: com certeza que muitas teriam
sido as pessoas que acorreriam a Braga para trabalhar nas suas fábricase oficinas de tecidos, velas, sinos, ourivesaria, talha,etc.
pois não só (...) os templos bracarenses receberam novos ornatos como também há notícia de múltiplas saídas de obras para
todo o restante Minho e Norte de Portugal.”, OLIVEIRA, Eduardo Pires de, MOURA, Eduardo Souto, MES-
QUITA, João, op. cit., p.34.
104
CORRAIS, Filipa; Dinâmicas territoriais na aglomeração urbana de Braga, Dissertação de Mestrado apre-
sentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, FAUP, 2003, p.103.
BANDEIRA, Miguel Sopas de Melo, op. cit., p. 63.
105

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 101


84.

85.

84. Esquema da cidade de Braga no século XIX.


85. Plano de Alargamento, Extensão e Embelezamento da Cidade de Braga. Étienne De Gröer. 1941.

102
o mercado municipal de braga

3.1.2 Transformações do Tecido Urbano

No século XIX, após um longo período de estagnação urbanística, a


cidade retoma o seu crescimento. Marcada pelo dinheiro dos emigrantes
que regressavam do Brasil, a actividade industrial e de serviços é reforçada e
diversificada, fortalecendo Braga como capital regional e centro comercial e
administrativo distrital. O espaço público foi requalificado e construíram-
se diversos equipamentos para importantes serviços públicos e lúdicos – a
Biblioteca Pública de Braga (1841), o Liceu Nacional de Braga (1848), o Café
Viana (1857), o Teatro de São Geraldo (1860) e o Banco do Minho (1864) -
continuando a concentrar-se a actividade comercial na Rua do Souto apesar da
deslocação definitiva do centro da cidade da zona da Sé para a Avenida Central.
No último quartel do século é inaugurado o novo cemitério (1872) e são
implementados os caminhos-de-ferro na cidade (1875), tendo a sua localização
em diferentes extremos da cidade conduzido à abertura de novas ruas e à
instituição do primeiro sistema de transportes públicos urbanos. Braga mantém
uma forte relação com os centros circundantes devido à sua localização
privilegiada reforçada pela rede de estradas que os unia, situação que preserva
já desde a época romana.
Com a revolução de 1910, a evolução urbana de Braga ganha um grande
dinamismo com as intervenções ao nível do abastecimento de água,
saneamentento, electricidade, transportes públicos e com a abertura de novas
ruas e avenidas, começando o automóvel a aparecer mas sem influenciar
grandemente o ambiente urbano. O final da década de 30 é marcado pela
consciencialização da necessidade de controlar o crescimento urbano da
cidade, surgindo em sequência o Plano Geral de Urbanização de 1934 que
esteve na base do desenvolvimento do Plano de Alargamento, Extensão e
Embelezamento da Cidade de Braga em 1941 por Étienne De Gröer (1882-).
A proposta deste urbanista do Estado Novo baseava-se, à semelhança da teoria
de satélites rurais defendida por Howard (1850-1928), numa área urbana com
um raio de quatro quilómetros e meio delimitada por uma zona rural e aldeias
satélite. Para unir os diversos pontos cruciais da cidade, De Gröer desenhou
um cinturão viário que estabelecia a transição entre a rede viária de escala
urbana e a de escala regional.
Este plano, contudo, apenas serviu de base ao desenvolvimento posterior
da cidade. A circular desenhada pelo urbanista belga é construída por fases,

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 103


86.

87.
86. Esquema da cidade de Braga no século XX.
A Rodovia (Av. Imaculada Conceição, 1954; Avenida João XXI, 1956).
87. Plano de Restruturação do Território. CEAPE. 1982.

104
o mercado municipal de braga

surgindo num primeiro momento como uma grande via urbana, mas o anel
verde que previa controlar o crescimento da malha urbana desmaterializou-se
em detrimento de novos núcleos de expansão pois o crescimento demográfico
bracarense foi superior ao previsto por De Gröer. “A rodovia (Av. Imaculada
Conceição, 1954; Avenida João XXI, 1956) seria a grande via aberta, num avançar
decidido para os terrenos que marginavam o rio Este, afinal tão perto do centro da cidade
e a melhor ligação que esse centro fazia com as estradas que de Maximinos partiam para o
Porto e Barcelos. Depois viriam urbanizações ininterruptas sem plano algum...”. 106
Com base no Plano de Urbanização a Sul de Braga de 1958, nas décadas
de 50 e 60 o crescimento de Braga ocorreu de forma acentuada para Sul.
Este plano impunha os novos conceitos morfológicos preconizados pelo
Movimento Moderno e a Carta de Atenas 107 mas mantinha como base as
intenções do urbanista belga. Nesta altura, a Rodovia era um troço de um
anel circular que pretendia proteger o centro histórico do tráfego viário
de atravessamento, assumindo-se simultaneamente como uma artéria de
circulação e um claro limite de expansão a Sul.
A escala urbana pré-existente é definitivamente rompida nos anos setenta
com uma forte expansão já bastante distanciada do núcleo urbano consolidado.
São abertas novas ligações a Ponte de Lima e Monção, e os vazios existentes
entre as radiais a Sul são colmatados enquanto que a construção a Norte se
intensifica.
Nos anos 80 inicia-se uma nova fase do urbanismo bracarense com o
Plano de Reestruturação do Território realizado pela CEAPE. 108 Em 1979,
a Câmara Municipal de Braga estabelece um protocolo com esta cooperativa
para a concretização de um novo plano urbanístico que trouxesse coerência
à estrutura urbana em expansão, orientando o seu crescimento. Este plano
pretendia promover o desenvolvimento da malha urbana no sentido Sudoeste-
Nordeste, estruturando a cidade em forma de fuso através de dois eixos de
qualificação urbana cujo intuito era a contenção da expansão da cidade no
sentido da reserva agrícola, estabelecendo um ponto de transição entre esta
última e a malha consolidada.

OLIVEIRA, Eduardo Pires de, MOURA, Eduardo Souto, MESQUITA, João, op. cit., p.57.
106

107
Os ideiais teorizados pelo Movimento Moderno e pela Carta de Atenas procuravam a definição de
espaços livres públicos, o desalinhar dos edifícios em relação à rua, a procura do máximo de exposição solar
e a valorização do monumento como objecto isolado.
CEAP – Cooperativa de Estudos de Arquitectura, Planeamento e Engenharia.
108

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 105


A

88.

D
A C

89.

88. Eixo Norte. Plano de Restruturação do território. CEAPE. 1982.


A. Urbanização dos Parretas, B. Estação de camionagem, C.Praça Alexandre Herculano.
89. Eixo Sul. Plano de Restruturação do território. CEAPE. 1982.
A. Urbanização do Fujacal, B. Novo bairro do Carandá, C. Loteamento Sotto Mayor,
D. Complexo desportivo do rio Este.

106
o mercado municipal de braga

Foram projectados dois eixos pedonais de carácter público, um a Norte e o


outro a Sul, que percorriam os equipamentos já existentes e outros previstos
pelo Plano de Reestruturação do Território. O Eixo Norte, significativamente
menor que o Eixo Sul, iniciava-se na Urbanização das Parretas, percorria
o mercado, a estação de camionagem e terminava junto da Praça Alexandre
Herculano. Foi uma via pensada para compactar as várias intervenções nesta
parte da cidade mas poucas intenções do plano foram efectivamente realizadas.
A Sul, o eixo proposto desenhava-se paralelamente à Rodovia e partia da
urbanização do Fujacal, atravessando o então novo bairro do Carandá e o
Loteamento Sotto Mayor, terminando no complexo desportivo do rio Este.
Este complexo previa a construção de um conjunto de complexos desportivos
e outros de índole cultural, assumindo-se como uma área urbana de lazer.
Contudo, se a componente desportiva foi praticamente toda realizada, o
mesmo não se verificou com os equipamentos culturais. O Mercado Municipal
de Braga (1980-1984) , do arquitecto Eduardo Souto de Moura, foi um dos
equipamentos desenhados para integrar o percurso do eixo Sul.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 107


90.

91.

90. Imagem aerofotogramétrica da cidade de Braga. 1974.


91. Parcela de terreno adquirida pela Câmara Municipal de Braga para a construção do Mercado
Municipaldo Carandá. 1982.

108
3.2 o novo mercado municipal

3.2.1 o mercado municipal do Carandá

as preexistências

O local onde se viria a edificara a primeira das suas obras tratava-se,


na altura, de “um não-lugar, sequer periferia” 109 caracterizado por uma grande
desorganização urbanística. Perto do antigo bairro operário Araújo Carandá,
esta zona possuía ainda algumas características marcadamente rurais; porém,
começava já a apresentar algumas edificações representativas do crescente
desenvolvimento urbano que ocorria na altura, de que são exemplo alguns
edifícios de habitação colectiva e uma escola então recente que correspondia às
actuais Escolas Básicas 2 e 3 André Soares.
Adquirido por expropriação pela Câmara Municipal de Braga, o terreno
para a implantação do novo mercado tratava-se de uma antiga quinta situada
entre duas artérias importantes de entrada na cidade, as actuais Avenida da
Liberdade e a Avenida 31 de Janeiro, entre as quais não existia qualquer tipo
de ligação transversal neste ponto da cidade. Aquando da sua aquisição,
subsistiam ainda vestígios das edificações da denominada Quinta das Gavieiras,
nomeadamente um edifício de habitação e várias dependências agrícolas. Com
uma área total de 16067 m2 , o terreno possuía, para além das estruturas em
ruína, também vários terrenos agrícolas cultivados. A propriedade era murada
a Nascente e a Sul, sendo a morfologia do terreno mais elevada na zona central
onde restavam os vestígios da habitação [Anexos I e II].
A antiga quinta inseria-se numa zona da cidade ainda desertificada cuja
malha urbana não se encontrava consolidada, pelo que existiam escassas bases
de matéria para o projecto. Contudo, tal determinou a estratégia do arquitecto,

ESPOSITO, Antonio, LEONI, Giovanni, “Projectos de Formação 1977-1983”, op. cit., p.58.
109

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 109


92.

93.

92. Inserção do Mercado Municipal do Carandá no Plano de Restruturação do Território. CEAPE. 1982.
93. Esquisso do estudo preliminar ao projecto do Mercado Municipal do Carandá. Eduardo Souto de
Moura. 1981-84.

110
o mercado municipal de braga

que optou por recorrer às características e preexistências do lugar para definir


a sua intervenção. Conjugando-se com a proposta urbanística realizada na
década de 80 para a cidade de Braga, o mercado desenhava-se como um troço
do eixo Sul previsto pelo referido plano e a abertura de uma ligação entre as
duas avenidas acima referidas assume-se como principal premissa do projecto.
Seguindo uma abordagem que reflecte directamente os ensinamentos colhidos
das teorias de Aldo Rossi - principal influência neste projecto, nomeadamente
no entendimento de cidade e no respeito pelas preexistências e memórias
inerentes ao lugar - os caminhos já existentes foram utilizados como mote para
a implantação do edifício, determinando os seus eixos principais.

“O sítio era aquele e só aquele.


Uma quinta murada encravada na cidade.
No centro do terreno, uma colina.
No topo uma casa.
Era o encontro de dois caminhos, eixos ortogonais do terreno que o
ligavam à cidade.
Se o encontro era ali, na casa, o mercado ficou lá.
Se o caminho era a direito, o mercado pousou lá.
Pousou de nível entre dois muros de suporte.
Por fora o sítio mexeu pouco.
Por dentro é, ao passar, escolher entre os pilares.” 110

O mercado nasceu assim das características e preexistências inerentes


ao lugar, estratégia de projecto que não será exclusivamente empregue nesta
intervenção mas permanecerá constante em todas as obras posteriores de
Eduardo Souto de Moura. “No futuro desenvolvimento da sua obra manterá uma
espécie de necessidade nostálgica de um suporte físico que a anteceda, memória do lugar, de
antigos usos, de percursos ou construções demolidas ou a transformar.” 111

o volume

Após o estudo de diversos mercados actuais, bem como das “(...) tipologias
dos mercados medievais, das ruas cobertas, do mercado árabe (...)” 112, o arquitecto

Ibidem, p.76
110

COSTA, Alexandre Alves, “Reconhecer é Dizer”, op. cit., p.92.


111

112
MOURA, Eduardo Souto de, in Ana Peixoto, Sobre o Reuso do Moderno: análise de três projectos, Prova
Final para Licenciatura, Porto, FAUP, 2007 p.161 [entrevista por Ana Peixoto].

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 111


00
5,0
16
16
,0
00

6,0
00

00
5,0

N N N

0 5 10 0 5 10 0 5 10

96. 97. 98.

99.
94. Stoa de Atalo. Grécia.
100. 95. Esquissos do Mercado Municipal de Braga. Eduardo Souto de Moura. 1981-84.
96. As duas fileiras de colunas que sustentam a cobertura. Mercado Municipal de Braga. 1981-84.
97.Os planos verticais independentes que organizam os espaços do Mercado Municipal
de Braga. 1981-84.
98.A divisão planimétrica que o muro central realiza e os acessos verticais por este assinalados.
Sector de venda ao público. Sector das áreas de serviço e armazenamento.
Mercado Municipal de Braga. 1981-84.
99. Planta do edifício. Mercado Municipal de Braga. 1981-84.

112
o mercado municipal de braga

seguiu o modelo das stoas gregas 113 para reforçar o percurso subjacente ao
conceito do seu projecto. Optando por uma peça longitudinal de forte cunho
no terreno, desenhou o mercado em forma de rua coberta e a circulação
linear torna-se definidora da organização do espaço. Desta forma conseguiu
corresponder às necessidades e exigências de um mercado tradicional, que por
94. lei teria de possuir uma boa ventilação devido ao comércio de animais vivos.
Como forma de enfatizar o carácter de percurso, conceito fundamental do
projecto, e a ligação entre as duas artérias da cidade, surgiu um volume linear
não encerrado de estrutura pontual: duas fileiras distanciadas seis metros entre
si, compostas por trinta e duas colunas distribuídas modularmente de cinco em
cinco metros, sustentavam ao longo de cento e cinquenta e cinco metros uma
cobertura de cento e sessenta e cinco metros de comprimento por dezasseis
de largura. O espaço que este porticado definia oferecia uma grande liberdade
para a organização dos diferentes espaços do mercado, para o qual o arquitecto
utilizou diversos planos verticais independentes da estrutura do edifício e que
nunca tocavam a cobertura.
Desta forma, dois extensos muros longitudinais, que obedeciam a um dos
eixos definidos pelos caminhos preexistentes no lugar, definiam os espaços
de circulação e de distribuição às diversas partes do mercado, ultrapassando
os limites do corpo principal. Estes longos planos reforçavam a linearidade
subjacente ao volume, desenhando os percursos e apontando a direcção a
seguir, e comportavam duas materialidades distintas: um era um tradicional
muro em pedra e o outro, herdeiro directo do neoplasticismo, era um plano
95. branco e abstracto em betão rebocado. A complementar a composição, outros
três muros que se implantavam perpendicularmente a estes interceptavam
os percursos em momentos particulares do edifício. Dois destes planos
transversais encerravam os topos do mercado, auxiliando à delimitação do
espaço, enquanto o terceiro, em pedra, interrompia medianamente a linearidade
do edifício, dividindo-o planimetricamente em dois sectores – um destinado
à venda ao público e outro às áreas de serviço e armazenamento. Para além
de separar as duas partes do edifício, funcionando assim como charneira na
organização do espaço, este muro assinalava também um importante ponto de
transição entre as cotas principais do edifício. É neste ponto médio do volume

113
As stoas eram edifícios públicos porticados da Grécia Antiga que possuíam uma extensão consid-
erável e albergavam diversas funções de índole colectiva: eram utilizados para passeio, como vias comerci-
ais, galerias de exposição ou locais de encontro em torno de locais públicos.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 113


101.

102.

103.

100. Os remates fragmentados dos muros da Casa II em Nevolgilde. 1983-88.


101.|102. O muro central fragmentado. Mercado Muncipal do Carandá- 19081-84.
103. A cobertura sustida pela sucessão de colunas acima dos planos verticais. Mercado Muncipal do
Carandá- 1981-84.

114
o mercado municipal de braga

que se fazia a articulação de cotas, tanto do interior do mercado em si, uma vez
que era aqui que se localizava um dos acessos verticais ao piso superior, como
do percurso exterior que se debruçava sobre o espaço das vendas.
À semelhança do que já fora feito por Álvaro Siza Vieira no bairro de S.
Vítor com a separação entre as casas do conjunto habitacional, projecto que
influenciou directamente o do mercado, em Braga Souto de Moura simulou
a preexistência do muro central, falseando o seu estado de arruinamento e
fragmentado através da irregularidade dos seus limites. Esta simulação de
ruína surge aqui como forma de evocar a memória dos usos, significados e
histórias anteriores ao mercado, pois o muro não era um elemento que existisse
anteriormente de forma concreta, tratando-se antes de um marco simbólico
da memória da quinta. Esta é uma atitude que se irá repetir frequentemente
uma vez que “Souto de Moura inventa histórias quando não existe história, constrói os
sinais do tempo para os preservar e qualifica a sua narrativa com a dignidade dos materiais
naturais (...)” 114 Um dos exemplos é o projecto da casa II em Nevolgilde onde,
como referido no capítulo anterior, as terminações dos muros são tratadas da
mesma forma. É também possível estabelecer um paralelo entre o Mercado
Municipal de Braga e o bairro de S. Vítor em relação ao respeito pelas
preexistências uma vez que, no último, as ruínas, caminhos e atravessamentos

100. antigos foram preservados, seguindo uma lógica não de ruptura com o
existente mas de integração e coadunação com o novo.
Os planos verticais, contudo, não determinavam uma rígida distinção
interior/exterior; devido ao sistema de planta livre, não eram necessárias
paredes portantes pelo que os muros se elevavam apenas a quatro metros, não
interceptando a cobertura sustida a cinco metros de altura. Esta, em balanço
nos seus extremos, era apenas suportada pela sucessão de colunas que a faziam
flutuar sobre os muros sem que se tocassem. Eram planos verticais livres
que nunca se interceptavam entre si nem encerravam o edifício num volume
fechado mas que eram cruciais para a organização e definição do espaço do
mercado. Existia igualmente uma clara diferenciação entre espaço público e
privado pois o encerramento do espaço interior entre os planos era possível,
permanecendo apenas a galeria superior sempre aberta e acessível. O plano
assumia-se assim como tema central na composição do mercado cujo jogo de
contrastes entre materiais, cores e texturas transpõe a concretização de um

COSTA, Alexandre Alves, “Reconhecer é Dizer”, op. cit., p.92.


114

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 115


104.

105.

104. A dissociação entre a cobertura e os planos verticais. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
105. A diferenciação dos remates superior e inferior das colunas. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84
106. Protótipo “Dom-Ino”. Le Corbusier. 1914-17.
107. Pavilhão Alemão em Barcelona. Mies van der Rohe. 1929.

116
o mercado municipal de braga

princípio neoplástico adaptado à realidade local e aos materiais disponíveis.


Apesar da importância que o plano assumia no Mercado Municipal de
Braga, os pilares eram também relevantes para a linguagem do edifício dado
que, além de serem responsáveis pelo afastamento do plano da cobertura em
relação aos muros, criavam uma modulação de forte ritmo cuja regra conferia
ordem à disposição interior, em especial à cota baixa. Se os muros tinham
como propósito a conformação dos espaços de circulação, os pilares indicavam
os momentos de paragem, conferindo sentido à disposição do mobiliário do
mercado e das paredes de meação dos diversos compartimentos. A dissociação
entre os planos verticais e a cobertura é especialmente perceptível do exterior
contanto que os pilares em sombra se dissimulavam, predominando o contraste
entre a cobertura e os muros verticais. Este desprendimento era identicamente
abordado no interior onde os pilares, rebocados e pintados a branco, se
destacavam em relação à cobertura e ao pavimento através de remates em
betão aparente.
O Mercado Municipal de Braga colocava assim em confronto o sistema
construtivo maciço, dominante no exterior, e o sistema pontual, dominante no
interior. Porém, nenhum dos sistemas vinha complementar o outro, surgindo
antes como sistemas autónomos cujas finalidades eram distintas. Tratavam-se
de duas regras que possuíam as suas próprias lógicas mas que funcionavam
em paralelo para que da sua sobreposição se constituísse o projecto. É
possível, neste ponto, estabelecer uma comparação com o protótipo “Dom-
-Ino” de Le Corbusier cujo sistema pontual, afastado dos limites das lajes, as
suportam sem auxílio de vigas. De igual forma, a opção estrutural do Mercado
106. Municipal de Braga remete indubitavelmente para Mies van der Rohe; como
referido no primeiro capítulo, o arquitecto defende que a forma deve ser
resultado das soluções construtivas, numa relação de indissociabilidade entre
técnica e arquitectura. Em Braga, as duas filas de pilares e a cobertura eram
simultaneamente estrutura e expressão arquitectetónica da mesma. O conjunto
estrutural, na sua simples e sincera aparência construtiva, definia o espaço
do mercado sem existir qualquer ambiguidade entre estrutura e arquitectura.
Apesar de o próprio autor afirmar que a sua principal referência não foi Mies

107. van der Rohe, pois os muros soltos e neoplásticos do mercado “(...) têm mais
a ver com o Siza, com a piscina de Leça.”115, são notórias as semelhanças com o

MOURA, Eduardo Souto de, Sobre o Reuso do Moderno: análise de três projectos, op. cit., p.163.
115

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 117


N

108.

109.

110. 111.

108. Planta do sector Sudoeste de venda ao público. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84
1. Entrada, 2. Flores, 3. Banca do peixe, 4. Fruta, 5. Cereais, 6. Hortaliças secas, 7. Legumes,
8.Padaria, 9. Ovos e lacticínios, 10. Mercearia, 11. Drogaria, 12. Peixes, 13. Talhos e salsicharia.
109. Planta e corte transversal pelo sector de venda ao público. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
110. Alçado interior de vidro do volume Sudeste. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
111 A banca de peixe e a banca central de lavatórios. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.

118
o mercado municipal de braga

Pavilhão Alemão em Barcelona. Também aqui a cobertura era suportada


exclusivamente por pilares e as paredes que, libertas das suas funções
estruturais, assumiam como único propósito a definição dos espaços e a
orientação dos percursos.

a organização

Como acima mencionado, o mercado organizava-se em duas partes,


concentrando-se na metade Sudoeste, com perto de 1120 m2, a zona de
comércio diário. Este espaço de pé-direito duplo era tripartido pela colunata,
originando três naves ao longo das quais de distribuíam as diversas actividades
comerciais, e era encerrado lateralmente por dois dos muros transversais,
o do extremo Sudoeste e o central fragmentado. A Noroeste, esta zona era
encerrada por uma estrutura independente da estrutura principal do edifício
que albergava em toda a sua extensão a banca do peixe e conformava o alçado
interior - uma parede de contraventamento suportava um plano horizontal
elevado a 2,52 metros de altura fortemente ritmado pelas claraboias que
possibilitavam a iluminação natural directa da banca de trabalho. A nave
Sudeste, por sua vez, incorporava uma estrutura igualmente independente
da do corpo principal que se encostava a um dos muros longitudinais e era
sustentada por paredes portantes que seguiam a modulação e alinhamento
das colunas. Deste modo formava-se um corpo composto por uma quinze
módulos com pouco mais de 24 m2 destinados a padaria, ovos e lacticínios,
mercearia, drogaria e talhos. Este volume era fechado relativamente ao restante
espaço deste sector através de um alçado interior em vidro, permitindo que se
conservasse uma relação visual com a restante zona de pé-direito duplo.
A organização da nave central, destinada ao comércio de fruta, cereais,
hortaliças secas e legumes, era determinada pelos apoios verticais. A cada
conjunto de quatro pilares, que formavam um módulo rectangular de seis por
cinco metros, correspondiam seis bancas individuais dispostas em duas fiadas
segundo o alinhamento das colunatas. Estas eram separadas fisicamente por
uma longa banca de lavatórios contínua que atravessava a nave central, pelo
que a regra distributiva era interrompida num ponto médio para permitir a
circulação.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 119


N

112.

113. 114.

115. 116.

117.

112. Planta do sector Nordeste de serviços e armazenamento. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
1. Entrada, 14. Cafetaria, 15. Sanitários não públicos, 16. Arrecadação, 17. Fiscalização,
18.Administração, 19. Veterinário, 20. Armazém, 21. Preparação de legumes, 22. Amanho de peixe,
23. Depósito e trituração de lixos, 24. Frigoríficos, 25. Cais.
113. Área suplementar para comércio do piso superior. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
114. Percurso inferior que atravessa longitudinalmente o edifício. Mercado Municipal do Carandá.
115.|116. Percurso superior em galeria. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
117. Acessos ao espaço do mercado. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.

120
o mercado municipal de braga

A metade Nordeste do mercado abrigava um corpo linear fechado, também


estruturalmente independente do principal, e que se organizava em dois pisos:
o de cima pensado como área suplementar de comércio e o inferior para
zonas de apoio e serviço dos comerciantes. Este volume, tal como os muros
livres, não interceptava a cobertura mas era atravessado pelas colunas que
a suportavam permitindo que esta cobrisse o piso superior de cerca de 600
m2. Estruturalmente, era composto por paredes portantes que o subdividiam
nos oito módulos onde se instalavam a cafetaria, sanitários não públicos,
arrecadação, fiscalização, administração, veterinário, armazém, áreas para
preparação de legumes e amanho de peixe, depósitos de lixo e frigoríficos.
Estes espaços, com um total de 1100m2, obedeciam a uma modulação
definida pelos espaços entre as colunas, mas as suas áreas diferiam entre os
45 m2, os 90 m2 e os 130 m2 conforme a função que serviam. Este sector era
delimitado pela parede Noroeste do volume dos módulos de serviços, por dois
dos muros transversais e pelo muro longitudinal em betão. Nos extremos do
corpo de serviços existiam os acessos verticais, sendo um deles assinalado
pelo muro central fragmentado, que permitiam aceder ao piso superior onde
a permeabilidade visual estava novamente presente, sendo possível visualizar a
continuidade do mercado em toda a sua extensão.
O Mercado Municipal de Braga ergue-se então como uma estrutura linear
cuja circulação se organizava em duas cotas: um dos percursos ocorria ao nível
da rua e atravessava longitudinalmente a parte sul do edifício de um extremo
ao outro, unindo a zona de acesso não público à zona de comércio, enquanto
que o outro, em galeria, se realizava pela cobertura do corpo de serviços, o que
possibilitava um atravessamento paralelo sem que houvesse interferência com a
zona de comércio.
O acesso ao mercado, apesar do seu carácter aberto bem vincado, era
possível a partir de quatro pontos distintos: dois deles eram através dos
extremos da composição, marcados pelos muros longitudinais e o confronto
com os transversais externos, um através de uma abertura no muro
longitudinal Nordeste que permitia acesso à zona não pública, e uma quarta
abertura em frente ao muro central fragmentado que permite acesso à zona
de comércio. Para aceder ao percurso em galeria, existiam em cada um dos
extremos do corpo dos quinze módulos comerciais acessos verticais que
garantiam a continuidade da circulação longitudinal.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 121


118.

119.

120.

121.

118. Esquisso do estudo preliminar ao Café do Mercado. Eduardo Souto de Moura. 1982-84.
119. Relação do Café do Mercado com o Mercado Municipal do Carandá. Café do Mercado. 1982-84.
120. Planta do café. XX. Café do Mercado. 1982-84.
121. Cortes transversais e longitudinal. Café do Mercado. 1982-84.

122
o mercado municipal de braga

o café do mercado

Foi referida anteriormente a relevância do muro central fragmentado


na organização espacial do Mercado Municipal de Braga. Contudo, a sua
importância não se resume à separação axial dos sectores do edifício e à
marcação de uma das entradas e dos acessos verticais; o muro apontava
também para a antiga habitação arruinada da quinta, onde também foi
projectado um café, como se tivesse feito parte dela e agora sustentasse o
projecto funcionando como suporte ao novo. Este importante ponto de
articulação do mercado servia deste modo de ancoradouro ao café, o qual
conferia também sentido à criação do percurso longitudinal superior. A função
deste não era apenas permitir o atravessamento entre dois pontos da cidade
sem interferir com actividade comercial, mas também estabelecer uma relação
com o café dado que este se implantava a uma cota superior da do mercado, no
topo da colina do terreno.
Como ocorreu com o mercado, também o café nasceu das preexistências do
lugar; porém, aqui, o projecto baseia-se numa concepção operativa das ruínas
da quinta. “Em relação ao café, é a ruína operacional; é como o coliseu de Roma que
fornece as pedras para quase toda a Roma Barroca. No café, a Obra não tem nada a
haver com a ruína, mas tem a haver com o material disponível que dá para fazer uma
Obra (...)” 116 Apesar de terem sido preservadas algumas das paredes da casa,
como memória da preexistência anterior, as pedras da antiga construção foram
reutilizadas como material de construção do café. As ruínas são entendidas
como material físico operativo que, transportando consigo memórias e tempos
anteriores, viabilizaram uma nova fase da vida do edifício. Esta estratégia
assemelha-se em muito ao que Souto de Moura já havia feito na Reconversão
da Ruína do Gerês e com o que fará posteriormente na Casa na Avenida da
Boavista com as pedras da “Bela Adormecida”. O arquitecto reutiliza as pedras
existentes para a nova construção mas preserva, simultaneamente, partes da
estrutura em ruína assumindo declaradamente a sua presença e deixando que
estas ditem algumas das directrizes do projecto.
O “Café do Mercado” era uma pequena cafetaria provida de uma cozinha
e instalações sanitárias cuja composição resultava de uma conjugação de
planos em vários materiais que, apesar de se tratarem de elementos distintos,

116
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.31.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 123


122.

123.

124.

122.|123. As fachadas neoplásticas do café. Café do Mercado. 1982-84.


124. A estrutura da ruína preservada e o plano branco da entrada destacado. Café do Mercado. 1982-84.

124
o mercado municipal de braga

dialogavam entre si para constituir o projecto. Duas das fachadas possuíam um


forte cariz neoplástico pelo emprego do vidro e do betão rebocado e pintado
a branco, aludindo à contemporaneidade, enquanto que a parede curva em
pedra parecia remeter para a memória da quinta. Com o mesmo intuito de
evocação do passado, entre o café e o muro do mercado foram preservados
alguns vestígios da quinta que assumem um carácter meramente contemplativo
e possibilitam a articulação entre os dois projectos do arquitecto.
Pela reduzida escala que o café possuía, comparativamente ao edifício
do mercado, aquele facilmente passaria despercebido pelo que Souto de
Moura destacou o plano branco da entrada para aumentar a sua visibilidade
e assinalar a entrada. “Em relação ao Café, entendi que havia uma ligação muito forte,
com a Geografia, com a colina, com o ribeiro que passava à frente, com a quinta; e que
não devia fazer um “bonequinho” ali pousado. Tinha que ter uma certa dimensão. É
fundamentalmente conseguir a escala pela fachada (...)” 117
Através da preservação das ruínas e da sua utilização como material para
a contrução da nova obra, o projecto do Café do Mercado é revelador da
valorização e respeito que o arquitecto tem pelas preexistências e pela memória
do lugar. A coexistência dos elementos do passado com os contemporâneos
permite a Souto de Moura preservar o valor da antiguidade e, simultaneamente,
afirmar o carácter da nova obra.

Id., Ibid.
117

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 125


125.

126.

125. 1-Mercado Municipal da Praça do Comércio, 2- Mercado Municipal do Canrandá. Fotografia


aerofotogramétrica de 1993.
126. Mercado Municipal da Praça do Comércio.

126
o mercado municipal de braga

3.2.2 a utilização do Mercado Municipal do Carandá

O Mercado do Carandá teve um período de funcionamento relativamente


curto e conturbado. Apesar de se tratar de uma obra “internacionalmente
reconhecida (...) não teve uma boa aceitação pública” 118, tendo a adesão a este novo
equipamento sido condicionada por diversos factores de ordem social e
económica.
A existência do Mercado Municipal da Praça do Comércio119 inviabilizou,
por várias vertentes, o funcionamento do novo Mercado do Carandá. A
densidade populacional bracarense, por um lado, não era suficiente para que
dois equipamentos deste carácter obtivessem um uso dinâmico e, por outro,
a população possuía já hábitos bastante enraizados relativamente ao velho
mercado. Tinha sido desenvolvida uma fidelidade vendedor-comprador
bastante forte, muitas vezes prolongada por herança geracional. As pessoas já
conheciam os vendedores e os seus produtos e, por sua vez, os comerciantes
estabeleceram uma clientela regular e assídua. Esta confiança e lealdade
dificultaram a receptividade a um novo local de comércio tradicional e
contribuíam para que o mercado fosse um local de encontro e convívio, o que
conferia a este equipamento uma dinâmica bastante acentuada.
O local escolhido para a implantação do novo mercado também não
favoreceu a sua utilização. A cidade de Braga sempre foi tendencialmente
concêntrica e o centro sempre consolidou em si os pontos principais da vida
quotidiana a nível comercial, administrativo e social. Para além de se reunirem
aqui diversos serviços de necessidade pública, também os transportes, na sua
grande maioria, se concentravam no centro (junto às Arcadas ou no Campo
da Vinha), sendo o mercado da Praça do Comércio mais facilmente acessível
a quem chegava de freguesias e populações vizinhas. A acessibilidade ao novo
mercado era mais condicionada porque era necessário utilizar um segundo
transporte ou caminhar até ao Carandá, o que no trajecto de ida poderia
não ser muito problemático mas tornava o percurso de regresso penoso
devido ao peso das compras. Deste modo, a localização do antigo mercado
facilitava em muito o abastecimento da população local e confinante e

118
OLIVEIRA, Eduardo Pires de, A Freguesia de S. Lázaro, Junta de Freguesia de S.Lázaro, Braga, 1999,
p.39.
119
O Mercado Municipal de Braga localizado na Praça do Comércio foi inaugurado a 29 de Maio
de 1956 em substituição do antigo mercado existente na Praça do Município (1915) da autoria de Moura
Coutinho. Encontra-se actualmente ainda em funcionamento, apesar do seu elevado estado de degradação.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 127


127.

128.

127. Mercado Municipal de Braga. 1984.


128. Mercado Municipal de Braga. 1997.

128
o mercado municipal de braga

mesmo quem tinha a possibilidade de se deslocar de automóvel encontrava-


se condicionado pois com a densificação da malha urbana foram-se perdendo
locais de estacionamento junto ao novo mercado. O plano urbanístico criado
pelo CEAPE, previsto para controlar o crescimento de Braga, supunha dois
eixos interligados compondo uma rede de acessos automóvel e pedonal.
A sua não execução acabou por prejudicar o mercado pois este acabou por
ficar sufocado na malha que se densificou, acontecendo o mesmo com outros
equipamentos e troços do plano. “Quando há vinte anos projetei o mercado, a ideia
era fazer uma rua coberta, um fragmento de cidade capaz de propor uma malha urbana.
Essa malha aconteceu, aconteceu demais, e o mercado abafou entre escolas, discotecas e uma
desenfreda especulação imobiliária.” 120 Ao não possuir ligação com outros pontos
de interesse e a sua acessibilidade não ser a mais eficaz, o Mercado do Carandá
acabou por perder adesão, caindo progressivamente em desuso até se tornar
obsoleto, criando um ponto inanimado na malha cidade.
Simultaneamente ao início do funcionamento do Mercado do Carandá
começaram a surgir alterações que influenciaram consideravelmente o
comércio tradicional. Iniciou-se uma expansão de estabelecimentos comerciais
para as zonas periféricas cidade que disponibilizavam não só os produtos
que anteriormente apenas eram comercializados no mercado, como também
outros que não se encontravam dentro da oferta dos mercados tradicionais.
Estes espaços comerciais, que muitas vezes se abasteciam no próprio
mercado da Praça do Comércio, acompanharam a expansão da cidade, o que
diminuiu a distância necessária a percorrer para realizar o abastecimento de
bens essenciais, ficando a deslocação até aos mercados dispensável. Com o
aparecimento dos super e hipermercados, o comércio tradicional e o pequeno
comércio foram abafados pois os primeiros concentravam num mesmo local
uma maior variedade de produtos e disponibilizavam uma gama de produtos
bem mais diversa que apenas bens alimentares. Estes locais ofereciam também
uma melhor acessibilidade e estacionamento, pelo que o maior conforto na
sua utilização anulou quaisquer vantagens que o comércio tradicional pudesse
possuir relativamente a estes.
Um outro factor que prejudicou a adesão ao Mercado do Carandá foi
o desconforto sentido pelos lojistas que ali trabalhavam. Para além de as

120
MOURA; Eduardo Souto de, “Reconversão do Mercado Municipal de Braga” in Francesc Zamora
Mola (ed.), Eduardo Souto de Moura: Architect, Loft, Barcelona, 2009, p.156.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 129


129.

129. Vestígios do Café do Mercado. 2013.

130
o mercado municipal de braga

rendas serem muito elevadas, o espaço do mercado tornava-se extremamente


incómodo para quem era obrigado a permanecer no local o dia inteiro,
como era o caso dos comerciantes. Por se tratar de um volume aberto, o seu
“interior” tornava-se muito frio e ventoso, e em dias de chuva a proteccção
era quase nula. Enquanto que os utentes tinham de suportar as condições
apenas por um breve tempo, para quem era obrigado a permanecer no local
por várias horas tornava-se penoso e desagradável. “É evidente que um Mercado
onde não se pode ir de carro, que é frio para os vendedores, (...) as rendas caras (tinham
que pagar duas lojas)... E não havia mercado para tanto mercado! As pessoas começaram
a ir aos hipermercados, aquilo ficou às moscas e fechou.”. 121 A escolha que Souto de
Moura efectuou acerca do modelo arquitectónico de referência para o seu
projecto resultou, pois, inviabilizada por questões de funcionalidade. O modelo
das stoas gregas permitia a conjugação do carácter de percurso, da actividade
comercial e das questões de salubridade exigidas legalmente, contudo essa
mesma arquitectura limitou o uso do espaço pois era deficitária relativamente a
questões de conforto.
O Café do Mercado partilhou o mesmo destino que o mercado municipal
mas acabou por ser absorvido na malha da cidade, estando agora inserido
numa discoteca e num grande pavilhão que ali se impõem. As ruínas do
café são perceptíveis na fachada principal do estabelecimento nocturno,
porém a sua grande dimensão anula a presença dos vestígios, passando quase
despercebidos.

MOURA, Eduardo Souto de, Sobre o Reuso do Moderno: análise de três projectos, op. cit., p.161
121

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 131


N

0 5 10

130.

130. As duas fases da Reconversão do Mercado Municipal de Braga.


Escola de Dança. 1997-2001. Escola de Música. 2004-2010.

132
3.3 Sobreposição de Memórias

3.3.1 a Escola de Dança (1997-2001)

Apesar da obsolescência e do estado de deterioração em que o Mercado


do Carandá foi progressivamente mergulhando, a sua projeção a nível
internacional não foi anulada. O reconhecimento que conquistou enquanto
obra de referência arquitetónica, levou a Câmara Municipal a recuar perante
a possibilidade de demolição, solução defendida pelo próprio autor quando
confrontado com o estado de crescente decadência em que o edifício se
encontrava. “(...) as pessoas e as coisas têm um tempo de vida. Penso que ele [o mercado]
cumpriu a sua missão, apesar de ter uma carga afectiva em relação aquele objecto, prefiro
que ele desapareça do que morra lentamente por arteriosclerose. Cumpriu a sua missão e
presentemente não é usado; que fique na memória das pessoas.” 122
Contudo, e contra a sua vontade, perante o pedido de conservação do
edifício por parte da municipalidade, Souto de Moura iniciou o projeto de
Reconversão do Mercado Municipal de Braga. Conciliando a sua proposta
com um programa de várias escolas previstas para a zona do Carandá que
foi entretanto criado, o arquitecto adaptou partes do mercado preexistente
a estas novas funções. Com esta abordagem, a reconversão de uso apareceu
como forma de reanimar este ponto obsoleto da malha da cidade preservando-
se simultaneamente a memória do que já existira ali. Realizada em duas fases
intercaladas por um interregno de nove anos (1997-2001 e 2004-2010), a
Reconversão do Mercado Municipal compreendeu num primeiro momento
a inserção de uma escola de dança, a qual foi mais tarde complementada por
uma escola de música.
Vinte anos após o seu primeiro projecto, Souto de Moura encontrou uma
mercado inanimado e exonerado da sua função original mas, apesar do seu

122
MOURA, Eduardo Souto de, “Ambição à Obra Anónima, numa conversa com Eduardo Souto de
Moura”, op. cit., p.31.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 133


131.

132.

133.

131.|132.|133. Esquissos da Reconversão do Mercado Municipal de Braga. Eduardo Souto de Moura.


1997-2001

134
o mercado municipal de braga

estado deteriorado, o conceito primordial prevalecera e fora reforçado ao


longo do tempo pela população: uma rua que liga dois pontos da cidade. “Ao
longo deste tempo, nas várias visitas que fiz à ruína, constatei que o mercado era usado
como ponte, como rua, como atravessamento necessário entre dois eixos da cidade.” 123 O
projecto de reconversão do mercado partiu assim do seu valor para a cidade–
um edifício que se transformou em rua para possibilitar um atravessamento.
A estratégia projectual procedeu assim da análise das transformações que o
Mercado Municipal e a sua envolvente tinham sofrido com o tempo, e como
aquele tinha sido adaptado pela população às suas necessidades. Esta obra foi
idealizada desde início como um eixo de ligação entre duas artérias principais
de Braga, as actuais Avenida da Liberdade e Avenida 31 de Janeiro, e ao longo
do tempo este foi o uso que sobreviveu às metamorfoses da cidade. Apesar
de o edifício não ser mais utilizado para a sua função original – um mercado
tradicional – a possibilidade de atravessamento que era oferecida permaneceu
activa. Recuperando este conceito original, Souto de Moura reforça o carácter
de rua aberta já presente na primeira obra através da criação de uma rua com
jardim que preserva a conexão entre as avenidas. “Fue entonces cuando surgió
esta idea de emplear aquello como una calle, como un lugar de pasaje, lo que un día fue
arquitectura se transforma en ciudad.” 124 No fundo, o arquitecto adapta ao seu novo
projecto a adaptação realizada pela população.
Tal como retirou das ruínas e memórias da Quinta das Gavieiras o material
para a construção do Mercado Municipal, Souto de Moura repete o processo e
recupera os aspectos positivos que sobreviveram desta primeira obra para que
sirvam agora a reconversão do mercado. Assumindo as preexistências como
material disponível para o acto criativo, não propõe a mera conservação do
edifício e utiliza, ao invés, o construído como matéria sobre a qual irá trabalhar
o novo projeto. O arquitecto (re)interpreta a sua própria obra e reinventa a seu
favor a preexistência, tornando-a favorável às suas intenções. “(...) it is a sort of
manipilation that I implement in my projects. I alter the pre-existence to adapt it to what
I want.” 125 Numa atitude de romantismo relativamente ao mercado, postura

MOURA; Eduardo Souto de, “Reconversão do Mercado Municipal de Braga”, op. cit. p.156.
123

124
MOURA, Eduardo Souto de, “De lo Privado a lo Público. Cambios de Escala”, TC Cuadernos, nº
64, Eduardo Souto de Moura – Obra Reciente, Ediciones Generales de la Construcion, Valência, 2004, p.233
[entrevista por Ricardo Merí].
125
MOURA, Eduardo Souto de, “Regreso a Casa. Una conversación con Eduardo Souto de Moura”,
El Croquis, nº 146, Eduardo Souto de Moura 2005-2009. Teatros del Mundo, 2009, p.21 [entrevista por Nuno
Grande].

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 135


134.

135.

136.

134.|135. Obras da Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001.


136. Entrada Sudoeste. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001
137. Iluminação artificial. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.
138. Feira semanal. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.

136
o mercado municipal de braga

abertamente assumida pelo seu autor 126, Souto Moura manipula o existente
para encenar a ruína da sua própria obra através da destruição, preservação e
reconstrução dos seus elementos e funções. O novo é construído em simbiose
com o antigo e a simulação produzida, participando igualmente no cenário
criado pelo arquitecto.
Tendo em conta as várias condicionantes que existiam para o projecto,
como a memória do local, o custo da intervenção, o estado de preservação
do edifício e os novos programas previstos para a reconversão de usos, a
139.
reconversão do mercado baseia-se numa inversão dos espaços interiores
137.
em espaços exteriores e vice-versa, sendo contudo preservado o carácter de
acesso público que detinha anteriormente. Apesar de ter adquirido um carácter
exterior bastante mais acentuado, o edifício continua passível de ser encerrado
nos mesmos extremos do antigo projecto o que permite uma melhor definição
dos espaços públicos e privados necessários ao funcionamento das escolas.
A início, o arquitecto colocou a hipótese de reconstruir a cobertura, a
qual apresentava problemas estruturais desde a sua execução, mas esta opção
140. 141.
revelou-se excessivamente dispendiosa. Como se encontrava em risco de ruir
e não era necessária para o novo programa a instaurar, a cobertura é demolida
no sector de acesso público, e em substituição do antigo espaço interior do
138.
edifício, a zona das bancas de comércio, surge um jardim exterior. Aquando da
demolição da cobertura verificou-se o bom estado de conservação dos pilares
que a suportavam, pelo que a sua manutenção foi uma decisão tomada com o
139.
projecto já em obra. Como a remoção destes elementos implicava um aumento
nos custos da intervenção e a sua presença permitia reforçar o percurso devido 142.

à marcação de ritmo que lhe conferia, Souto de Moura decide preservar os


pilares como invocação da memória do antigo mercado. Expondo a armação
em ferro que os unia à cobertura, é simulado o estado de arruinamento da obra
anterior e aparecem, nas palavras do próprio autor, “(...) casi como una referencia
a árboles minerales.”. 127 Alguns pilares são também recolocados juntos à entrada
do extremos Sudoeste que, simulando um estado de arruinamento que faz
lembrar os vestígios da antiga Grécia, adquirem um carácter exclusivamente
contemplativo e de evocação da memória do antigo mercado. Para além da
representação de uma falsa ruína, a sua conservação possuiu um sentido mais
143. 144.

126
“Só aceitei esse projecto por uma questão de romantismo (...)”, MOURA, Eduardo Souto de, Sobre o Reuso do
Moderno: análise de três projectos, op. cit., p.162. 139. Jardim exterior. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.
140. Corredor de distribuição. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.
MOURA, Eduardo Souto de, “De lo Privado a lo Público. Cambios de Escala”, op. cit., p.233.
127
141. Entrada dos vestiários. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.
142. Pátio contíguo à secretaria. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.
As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 137 143.|144. Entradas principal e secundária. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.
145.

146.

1. Passeio 10. Espaço para actividades temporárias 9A. Sanitários 17A. Pátio Oeste
2. Estacionamento 1A. Átrio de entrada 10A. Entrada vestiário masculino e 18A. Pátio Este
3. Via pedestre 2A. Gabinete administrativo professores 1B. Condomínio
4. Jardim 3A. Gabinete 11A. Vestiário masculino 2B-9B. Lojas
5. Jardim pátio 4A. Corredor 12A. Vestiário de professores 10B. Entrada sanitários públicos
6. Escadaria Oeste 5A. Arrecadação 13A. Entrada vestiário infantil 10B1. Sanitários públicos
7. Escadaria Este 6A. Área técnica central 14A. Vestiário infantil
8..Acesso central ao recinto 7A. Entrada vestiário feminino 15A. Estúdio de dança 1 145. Planta de cobertura. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001.
9. Acesso à Escola de Dança 8A. Vestiário feminino 16A. Estúdio de dança 2 146. Planta geral do edifício. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001.

138
o mercado municipal de braga

prático pois possibilitou que se abdicasse da instalação de postes de iluminação


artificial. Ao utilizar as colunas como suporte, diminuiram-se os custos e o
impacto no resultado final da obra, surgindo um jardim composto por uma
mistura de colunas e árvores posteriormente plantadas e percorrível por
caminhos secundários procedentes do percurso principal do edifício.
A construção de um cenário servente da nova obra está também latente na
reconstrução das antigas bancas de peixe e sua utilização para alçado principal
do novo edifício da escola de dança, processo este que demonstra novamente
uma clara alusão à memória do uso original. As bancadas destinam-se
actualmente a actividades temporárias e sazonais uma vez que as claraboias que
as cobrem se encontram a céu aberto e, tal como ocorreu enquanto o mercado
estava activo, a sua viabilidade de utilização é condicionada devido à falta de
protecção perante as condições atmosféricas.
O edifício da escola de dança nasce por detrás desta estrutura e é composta
147.
por um grande átrio de entrada do qual se acede à secretaria, ao gabinete da
direcção e a um extenso corredor que, num sistema semelhante àquele que
organizava o antigo mercado, distribui linearmente para o restante programa:
um pátio, uma arrecadação pela qual se tem acesso à àrea técnica central, as
instalações sanitárias de serviço, os vestiários femininos, masculinos, infantis
e para professores, um estúdio de dança, um segundo pátio e, no topo, um
segundo estúdio de dança. Os dois pátios interiores, bem como as claraboias
concentradas sobre a zona dos vestiários, permitem a iluminação natural do
edifício em simultâneo com a conservação da privacidade dos compartimentos.
148.
O primeiro pátio oferece luz ao gabinete da direcção, à secretaria e ao
corredor, enquanto que ambas salas de aula se encontram voltadas para o
segundo pátio que se rasga igualmente para o corredor de distribuição. Desta
forma, consegue-se que o alçado interior do antigo Mercado seja conservado
praticamente intacto, uma vez que as únicas alterações que este sofre são a
abertura de duas entradas que permitem o acesso ao novo corpo, uma principal
e outra secundária. A primeira surge adjacente ao muro de granito inacabado
que definia a separação entre os dois sectores do Mercado Municipal, enquanto
que a segunda interrompe discretamente a continuidade das bancas, permitindo
um acesso alternativo em situações excepcionais através do pátio dos estúdios 149.

de dança. O novo volume obedece à modulação imposta pela colunata que


147. Vista actual do percurso superior. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança.
suportava a cobertura; contudo, devido às exigências do programa, as distâncias 1997-2001.
148.|149. Extremo Sudoste. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 139


151.

152.

150. Entrada da Escola de Dança. Reconversão do Mercado Municipal de Braga.


1997-2001.
151. Cortes longitudinais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001.
152. Cortes transversais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001.

140
o mercado municipal de braga

entre algumas paredes portantes deste novo volume são superiores àquelas que
separam os pilares, como são exemplo as salas de dança. Não deixando de seguir
a métrica estabelecida pela primeira obra, a estrutura afasta-se em alguns casos
dez e quinze metros entre si, recorrendo-se também por vezes a meios módulos.
No lado oposto das bancas de peixe, as lojas que ladeavam o percurso são
mantidas e contribuem igualmente para a conservação da memória do edifício
original: os seus caixilhos foram substituídos por novos de desenho semelhante
e a sua cobertura continua a disponibilizar um atravessamento a uma cota
superior de onde, agora sem a pala da cobertura, é possível obter uma visão
mais ampla do local, nomeadamente do novo corpo construído a Noroeste. O
aproveitamento da estrutura dos módulos comerciais foi posterior ao projecto
de Souto de Moura pois, aquando da sua realização, esta era propriedade da
Câmara Municipal “(...) Os talhos são uma invenção da Câmara depois, porque aquilo
eram arquivos da Câmara. Eram armazéns.” 128 Actualmente, apesar de algumas
associações culturais estarem aqui sediadas, bem como um espaço de internet e
um salão de chá, a maior parte destes módulos encontram-se encerrados.
Da obra original foram preservados também os muros que a compunham,
tanto os longitudinais que se estendiam numa afirmação do percurso que
caracterizava o projecto, como os transversais a estes que delimitavam
os sectores do mercado. O muro de granito que desenhava o acesso pelo
extremo Sudoeste foi reforçado e recuperado, e o muro transversal que dividia
medianamente o edifício foi conservado com a simulação de arruinamento
que possuía desde o início. Servindo agora para marcar a entrada na escola, e
evocando simultaneamente as memórias da Quinta das Gavieiras e do Mercado
Municipal, este muro é representativo da sobreposição de memórias a que se
assiste nesta reconversão.
150. A escola de dança não assume um papel de grande destaque nesta
intervenção; é antes um volume introvertido em betão rebocado e pintado de
branco que se dissimula nas preexistências manipuladas pelo arquitecto. Fechado
sobre si mesmo, não retira protagonismo nem ao jardim nem ao percurso de
circulação agora reforçado, tampouco interfere com “(...) a centralidade e a evidência
do processo de reconstrução de um ícone desfigurado que instrui o projecto.” 129

MOURA, Eduardo Souto de, Sobre o Reuso do Moderno: análise de três projectos, op. cit., p.166.
128

ESPOSITO, Antonio, LEONI, Giovanni, “Projectos de Formação 1977-1983”, op. cit., p.59.
129

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 141


153.

154.

155.

153. Muro longitudinal em betão. Mercado Municipal de Braga. 2008.


154. Muro longitudinal reconstruído em pedra. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 2013.
155. Acesso à escola de Música. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-10.

142
o mercado municipal de braga

3.3.2 a Escola de Música (2004-2010)

Três anos após a inauguração da escola de dança é iniciada a execução da


segunda fase do projecto de reconversão do Mercado Municipal de Braga -
a escola de música – em conjunto com a qual é formado o Centro Cultural
do Carandá. Apesar de a pretensão de preservar a memória do uso original
continuar presente e conduzir as opções projectuais, nesta última intervenção
as preexistências não são utilizadas como material operativo. Na primeira
fase do centro cultural, partes do edifício original tornaram-se intervenientes
directos do novo projecto, como é o caso da estrutura da banca de peixe que
se transformou no alçado principal da escola de dança ou o muro fragmentado
que evidencia a sua entrada. Na escola de música, Souto de Moura também
preserva partes do antigo mercado e simula o seu estado de arruinamento,
dando continuidade a um cenário que se articula com a sua intenção de
projecto, mas as ruínas assumem apenas um carácter escultórico e pictórico.
Souto de Moura optou pela demolição completa do que restava do mercado
para construir de raiz a nova escola, sendo somente conservados o muro
transversal do extremo Nordeste, os acessos verticais e os pilares da antiga
estrutura porticada, os quais foram transladados para o espaço circundante à
implantação do novo edifício. Estes elementos não intervêm directamente na
obra, complementando-a antes com o seu poder evocativo da memória do
Mercado Municipal.
O muro longitudinal branco em betão, que ladeava o espaço de serviços e
armazenamento do antigo mercado, foi reconstruído em granito à semelhança
do seu antecessor uma vez que sofrera alterações profundas ao longo do
período em que o mercado esteve abandonado.130 Preservando a principal
função que possuía aquando do Mercado Municipal, este muro continua a
definir o percurso longitudinal que atravessa a composição de um extremo ao
outro, reforçando o caráter de ligação e atravessamento que persistiu desde
o projecto original. No mesmo ponto deste plano onde antes existia uma
das entradas do mercado, foi aberto um dos acessos ao espaço da escola de
música, o qual agora é passível de ser encerrado através de um portão em aço.
Facejado ao muro, um pequeno volume igualmente revestido a aço assinala esta
abertura, albergando uns pequenos arrumos exteriores. Tal como acontecia

130
A adaptação que os utentes fizeram do mercado resultou em modificações relativamente ao projec-
to inicial, como é o caso da demolição de parte do muro de betão. [fig.135]

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 143


156. 157.

158. 159.

160. 161.

156.|157. Acessos verticais preservados do Mercado Municipal. Reconversão do


Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
158.|159. Acessos ao percurso superior. 2008 e 2013.
160. Afastamento em relação à escola contígua. Reconversão do Mercado Municipal
de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
161. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.

144
o mercado municipal de braga

no projecto do mercado, este muro apenas se estende até se alinhar com o


muro central fragmentado, permitindo assim um acesso ao espaço no ponto
médio do conjunto cujo encerramento também é possível. No seu extremo
Nordeste, este plano continua a exceder os limites do espaço da escola,
indicando outro dos acessos possíveis que aqui é definido pelo encontro com
o muro transversal de granito. Contudo, este ponto habitualmente permanece
encerrado por questões de segurança, uma vez que a escola necessita de
controlar tanto a acessibilidade ao recinto como as saídas dos espaços
exteriores frequentados pela crianças.
162.
Numa atitude semelhante àquela adoptada no projecto da escola de dança,
os acessos verticais que flanqueavam o volume de serviços e armazenamento
do Mercado Municipal foram preservados sob um estado de aparente
arruinamento. Surge de novo a simulação de ruína como processo evocativo do
edifício anterior, criando-se peças de carácter contemplativo que contribuem
tanto para o enriquecimento do conjunto como para a preservação da memória
colectiva do mercado. O volume da escola de música nasce justaposto a estes 163.

dois elementos mantendo o mesmo comprimento que o seu antecessor mas


alargando-se, porém, quase até ao limite da escola básica André Soares que lhe
é contígua a Nordeste. Entre esta e a escola de música existe um afastamento
de 1,70 metros que permite o acesso a esta frente do edifício e a iluminação
natural do seu alçado. As escadas que permitiam o acesso ao percurso da cota
superior, acima dos módulos comerciais, foi igualmente conservada porém, por 164. 165.

questões de segurança e higiene, estas foram demolidas realizando-se agora o


acesso lateralmente.
O novo volume combina os topos em betão rebocado com fachadas
totalmente envidraçadas numa solução que, sendo imperceptível da rua uma
vez que a sua cércea é a mesma que o muro longitudinal que o resguarda, se
assemelha à mesma apresentada na escola de dança e nos módulos comerciais
do sector Sudoeste do mercado. É assim conseguida uma uniformidade formal
de todo o conjunto sem que se reconheça o intervalo de tempo que separou as
duas fases da reconversão. O contraste entre a sobriedade do novo volume em 166.

vidro e aço e a rugosidade dos muros de pedra parece figurar um confronto


162. Entrada principal. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
entre o presente e o passado que aqui surgem perfeitamente coadunados. 163. Átrio de entrada. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
164. Vestíbulo do extremo Nordeste. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música.
Permanece também presente um forte carácter neoplástico resultante da 2004-2010.
165. Sala para instrumentos de percussão. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de
utilização de diferentes materiais – betão, vidro, aço e pedra – e dos planos Música. 2004-2010.
166. Jardim exterior. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 145


160.

167.

161.

168.

11. Secretaria 31. Sala de instrumentos/percussão 41. Entrada escadas


1. Vestíbulo 21. Biblioteca
12. Reprografia/Papelaria 32. Vestíbulo da entrada Nordeste 42. Escadas
2. Bar 22. Sala de formação musical
13. Arquivo 33. Corredor secundário 43. Corredor de distribuição
3. Átrio. Sala de convívio 23. Sala de História da Música
14. Gabinete da direccção 34. Sala de instrumentos/piano 44.|45 Camarim e sanitário masculino
4. Entrada do auditório 24. Entrada sanitários
15. Gabinete do coordenador 35. Sala de coro 46.|47 Camarim e sanitário feminino
5. Auditório 25. Sanitários para funcionários M.
16. Entrada dos gabinetes 36. Sala de iniciação musical 48.|49. Camarim e sanitário maestro
6. Regir 26. Sanitários para funcionários F.
17. Sala de reuniões dos professores 37. Salas individuais/instrumentos 50. Arrecadação
7. Entrada sanitários 27. Sanitários masculinos
18. Entrada serviços administrativos 38. Corredor secundário 51. Galeria técnica
8. Sanitários para deficientes 28. Sanitários femininos
19. Sanitários para professores 39. Sala individual 52. Jardim exterior
9. Sanitários masculinos 29. Sala técnica de composição
20. Corredor/Cacifos 40. Pátio
10. Sanitários femininos 30. Sala de música de câmara
167. Planta piso térreo. Escola de Música. 2004-2010.
168. Planta piso -1. Escola de Música. 2004-2010.

146
o mercado municipal de braga

orientadores dos espaços que não tocam o novo volume.


A entrada no edifício da escola é realizada junto ao muro fragmentado,
contiguamente às escadas em ruína, através de um pequeno vestíbulo que faz
a transição entre os espaços. Desta forma, ao se localizar no mesmo ponto
que a entrada da escola de dança, é reforçada a ideia do Centro Cultural de
Carandá como um único espaço. Após a entrada, um amplo átrio iluminado
naturalmente por um plano envidraçado do topo Sudoeste do volume, o
qual configura um acesso secundário ao edifício, estrutura a organização
dos espaços da escola. A partir daqui acede-se aos sanitários públicos, ao
balcão da secretaria, ao auditório, ao bar e ao corredor que distribui para a
escola propriamente dita. Apesar de, como ocorria no Mercado Municipal e
na escola de dança, o corredor realizar uma distribuição linear dos diversos
espaços, na escola de música estes organizam-se bilateralmente. Deste modo,
no lado Noroeste encontram-se a reprografia, os serviços administrativos,
a biblioteca, os sanitários para funcionários e os sanitários para alunos, 169.

localizados sensivelmente a meio do corredor, e oito salas de aula destinadas


a diferentes usos. A última sala deste alinhamento é acedida a partir de um
vestíbulo localizado no extremo Nordeste do corredor pois, como é reservada
para instrumentos de percussão, necessita de um tratamento de insonorização
especial. Este vestíbulo faz também a transição de umas das entradas
secundárias da escola à qual se acede através do espaço existente entre o
edifício e o muro de granito transversal preservado. Este ponto foi tratado
de modo análogo ao jardim exterior da escola de dança: os pilares que foram
removidos do local de implantação do novo volume foram transpostos para 170.

este pequeno espaço ajardinado, tornando-se agora elementos escultóricos.


Recolocados numa distribuição aleatória, preenchem o pequeno jardim que
serve a escola durante os intervalos das aulas, evocando a memória do que
existiu ali anteriormente. O porticado era uma das principais características
do mercado pelo que a sua preservação, ainda que alterada em relação à
sua disposição e função originais, permite que a alusão ao edifício anterior
seja imediata. O jardim possui um atmosfera quase nostálgica que impede
que a preexistência anterior caia no esquecimento, possibilitando que esta
seja conservada em coexistência com esta nova fase da vida do edifício. 171.

Permanece presente o respeito e valorização do passado e das preexistências


que caracteriza a arquitectura de Eduardo Souto de Moura; o arquitecto não 169. Auditório. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
170.|171. Pátio. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 147


172.

173.

172. Cortes longitudinais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música.


2004-2010.
173. Cortes transversais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música.
2004-2010.

148
o mercado municipal de braga

anula as existências anteriores, incluindo-as e utilizando-as para que sustentem


o novo projecto.
O lado Sudeste do volume, por sua vez, é ocupado pelo auditório, os
acessos verticais, um pátio e onze salas de aula, às quais se acede através
de dois corredores secundários perpendiculares ao corredor principal. O
auditório, cuidadosamente pensado em questões acústicas, foi concebido como
um espaço independente da escola para que possa ser utilizado por entidades
exteriores à escola. Como tal, este espaço é dotado “(...) de entradas diferentes,
autónomas, que o separam de toda a escola e não a invadem”131 , “(...) bastando para
tal encerrar alguns dos espaços comuns e condicionar a livre circulação a áreas de carácter
mais público.” 132 O pátio, localizado no alinhamento da abertura assinalada
pelo volume em aço, conforma em conjunto com esta a principal entrada do
auditório para utentes exteriores à escola – a entrada dos músicos. Coberto
nas zonas de circulação, este pequeno jardim permite o acesso directo ao piso
inferior, uma vez que tanto as escadas como o elevador são acessíveis por aqui,
bem como ao corredor principal de distribuição da escola. No piso inferior
localizam-se as áreas de apoio ao funcionamento do edifício: uma galeria
técnica, uns arrumos, os camarins e a entrada do palco do auditório.
Está prevista uma praça fronteira ao Mercado Cultural do Carandá e ao
Centro de Saúde do Carandá, da autoria e oferta de Eduardo Souto de Moura,
que albergará um estacionamento subterrâneo e substituirá o actual. “Onde hoje
existem lugares de estacionamento, vamos ter no futuro uma praça com jardim. O projecto é
do arquitecto Souto Moura que teve a gentileza de o oferecer ao município.” 133
Complexa pelas exigências técnicas específicas relativamente a acústica,
isolamentos e ventilação, “é uma obra airosa, tem luz, tem um corredor folgado,
não é luxuosa e foi muito bem executada.” 134 Seguindo a mesma atitude presente
no projecto da escola de dança, a escola de música assume uma postura
discreta no conjunto do Centro Cultural do Carandá. Apesar da sua presença
ser bastante mais evidente que a da sua homóloga, pois não se encontra
dissimulada nos vestígios do mercado, a escola de música possui um carácter

131
GUIMARÃES, Costa, http://www.correiodominho.com/noticias.php?id=32905, acedido a 11 de
Julho de 2013.
132
http://municipiobraga.blogspot.pt/2011/01/escola-de-musica-do-caranda-apresentada.html, acedi-
do a 11 de Julho de 2013.
MACHADO, Mesquita, http://www.correiodominho.com/noticias.php?id=3769, acedido a 11 de
133

Julho de 2013.
134
MOURA, Eduardo Souto de, http://municipiobraga.blogspot.pt/2010/08/escola-de-musi-
ca-do-caranda-abre-no.html, acedido a 11 de Julho de 2013.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 149


150
o mercado municipal de braga

ensimesmado que não se destaca na globalidade da obra nem adultera o


conceito proveniente do projecto inicial. O Centro Cultural do Carandá vem
reabilitar um ponto inanimado da cidade ao reajustar-se às necessidades e
exigências da sociedade actual. “Aquilo que estava abandonado e era um sítio marginal
neste momento pode ser um pólo de desenvolvimento desta parte da cidade e ainda por cima
com cultura, que é uma coisa que hoje em dia escasseia e não dá dinheiro, dá despesa.” 135

135
MOURA, Eduardo Souto de, http://municipiobraga.blogspot.pt/2010/08/escola-de-musi-
ca-do-caranda-abre-no.html, acedido a 11 de Julho de 2013.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 151


4.
considerações finais
154
4. considerações finais

“A construção raríssimas vezes, ou quase nunca, parte do ponto zero, existe sempre
preexistência, existem sempre lugares, existem sempre sítios (...)” 136

Eduardo Souto de Moura entende que o acto criativo nunca tem por base
um contexto imaculado e liberto de significações; o lugar onde vai intervir
possui sempre dados decorrentes da acção do tempo e de apropriações, usos
e memórias a ele associados que o determinam e individualizam. Por isso para
o arquitecto pensar um projecto requer um profundo entendimento do lugar
e uma íntima relação com todas as preexistências nele presentes. As opções
projectuais que toma são orientadas por esses factores inerentes ao lugar
pois são estes que lhe fornecem alguns dos fundamentos e das directizes da
estratégia de projecto adoptada. E como cada circunstância possui a sua
própria especificidade que dita os critérios segundo os quais a abordagem
projectual se poderá desenvolver, cada intervenção resulta naturalmente
distinta uma da outra. Ao longo das sua obras analisadas, verificou-se que a
preexistência é abordada sempre de forma criteriosa e individual, conquistando
cada projecto um significado muito próprio pela relativa liberdade de
manipulação do lugar e suas características em prol de uma intervenção coesa e
adequada.
O Mercado Municipal de Braga, e sua posterior remodelação, constituem
uma obra que condensa num período de tempo relativamente curto–
aproximadamente trinta anos – um conjunto de metamorfoses que
reflectem diferentes abordagens às preexistências que naquele lugar se

136
MOURA, Eduardo Souto de, “Primeiras Jornadas Internacionais de Educação Histórica”, Junho
de 2000.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 155


156
considerações finais

foram acumulando. Aquando do projecto do mercado, restavam apenas


os vestígios do que existira, ruínas que comprovavam a presença de uma
existência anterior mas às quais estava, inevitavelmente, associada uma
memória, uma preexistência afectiva. O local outrora tinha sido uma quinta,
um lugar que sofreu apropriações, usos e que, assim, acumulou significações.
A abordagem projectual do mercado surgiu da ponderação e inclusão destes
factores, destes dados inerentes ao local e seus caracterizadores. Todos foram
elementos fundamentais para a interpretação do local e para a realização
projecto do mercado através do qual se preservou a memória de um passado
que ali ocorreu, conferindo-lhe uma continuidade. Iniciou-se assim uma
nova fase deste lugar ao qual inevitavelmente se começaram a associar novas
significações que se foram sobrepondo às já existentes.
Um dos factores de determina o período de vida útil de um edifício são
as populações que dele usufruem pois o uso que comporta só subsiste se
responder às necessidades e exigências do momento. A quinta serviu o seu
propósito, as necessidades que lhe eram contemporâneas, e quando a sua
utilidade terminou caiu em obsolescência. O mercado municipal veio renovar
a apropriação do lugar, conformou um novo uso para que este se ajustasse
às novas necessidades da sociedade. Contudo, mesmo assim, verificou-se
que a esta renovação não foi suficiente pois existiam diversas condições e
condicionantes às quais o mercado não respondeu de modo eficaz. Desta
forma, também o mercado perdeu precocemente a sua utilidade, caindo em
desuso e estagnando num abandono que o conduziu para um progressivo
estado de arruinamento.
Do mercado apenas subsistiu a característica que satisfazia as carências da
cidade - a possibilidade de atravessamento – a qual se tornou integrante do
lugar e do seu carácter. Quando chegou o momento de reanimar novamente
este lugar, a estratégia de projecto baseou-se na sua preservação, encontrando
assim as suas directrizes nas preexistências. Foi também a estrutura edificada
apenas vinte anos antes que, parcialmente preservada, forneceu a matéria
de projecto com a qual se concebeu a reabilitação do mercado. Porém, estas
preexistências foram manipuladas pelo arquitecto, que simulou um estado de
arruinamento da estrutura do edifício e conservou apenas alguns vestígios que
permitem que a sua memória visual seja perpetuada. De modo análogo ao que
realizara com no Mercado Municipal, também na sua remodelação Eduardo

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 157


158
considerações finais

Souto de Moura utilizou as preexistências do lugar como material de projecto,


apropriando-se delas e manipulando-as em prol das suas intenções projectuais.
Esta obra representa, em todas as intervenções realizadas, a valorização e
reconhecimento do passado e das preexistências do lugar como as variáveis
que ditam os contornos das suas abordagens projectuais.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 159


160
bibliografia

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São Paulo. Eduardo Souto de Moura, Ordem dos Arquitectos, Lisboa, 2006, p.68.
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S.Lázaro, Braga, 1999, p.20-21.
81. OLIVEIRA, Eduardo Pires de, A Freguesia de S. Lázaro, Junta de Freguesia de
S.Lázaro, Braga, 1999, p.28-29.
82. OLIVEIRA, Eduardo Pires de, A Freguesia de S. Lázaro, Junta de Freguesia de
S.Lázaro, Braga, 1999, p.38-39.
83. OLIVEIRA, Eduardo Pires de, A Freguesia de S. Lázaro, Junta de Freguesia de
S.Lázaro, Braga, 1999, p.44-45.
84. OLIVEIRA, Eduardo Pires de, A Freguesia de S. Lázaro, Junta de Freguesia de
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85. Câmara Municipal de Braga.
86. OLIVEIRA, Eduardo Pires de, A Freguesia de S. Lázaro, Junta de Freguesia de
S.Lázaro, Braga, 1999, p.60-61.
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96. Esquema realizado pela autora.
97. Esquema realizado pela autora.
98. Esquema realizado pela autora.
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Barcelona, 1999, p.83.
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114. WANG, Wilfried (dir); SIZA, Álvaro; Souto de Moura, Editorial Gustavo Gilli,
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115. WANG, Wilfried (dir); SIZA, Álvaro; Souto de Moura, Editorial Gustavo Gilli,
Barcelona, 1990, p.23.
116. TRIGUEIROS, Luiz (ed.), Eduardo Souto de Moura, Blau, Lisboa, 2000, p.47.
117. Esquema realizado pela autora.
118. ESPOSITO, Antonio; LEONI, Giovanni, Eduardo Souto de Moura, Electa,
Milano, 2003, p.70.
119. ESPOSITO, Antonio; LEONI, Giovanni, Eduardo Souto de Moura, Electa,
Milano, 2003, p.67.
120. WANG, Wilfried (dir); SIZA, Álvaro; Souto de Moura, Editorial Gustavo Gilli,
Barcelona, 1990, p.26.
121. ESPOSITO, Antonio; LEONI, Giovanni, Eduardo Souto de Moura, Electa,
Milano, 2003, p.70.
122. ESPOSITO, Antonio; LEONI, Giovanni, Eduardo Souto de Moura, Electa,
Milano, 2003, p.69.
123. WANG, Wilfried (dir); SIZA, Álvaro; Souto de Moura, Editorial Gustavo Gilli,
Barcelona, 1990, p.27.
124. ESPOSITO, Antonio; LEONI, Giovanni, Eduardo Souto de Moura, Electa,
Milano, 2003, p.70.
125. Esquema da autora sobre fotografia de Galeria: um século de fotografia aérea,
Municípia, Porto Salvo, 2003.
126. Fotografia da autora. 2013.
127. PERETTI, Laura, AGHION, Carole, Eduardo Souto de Moura: Temi di progetti,
mostre di architettura al Museo d’Arte, Skira, Milano, 1998, p.157.
128. PERETTI, Laura, AGHION, Carole, Eduardo Souto de Moura: Temi di progetti,
mostre di architettura al Museo d’Arte, Skira, Milano, 1998, p.158.
129. Fotografia da autora. 2013.
130. Esquema realizado pela autora.
131. PERETTI, Laura, AGHION, Carole, Eduardo Souto de Moura: Temi di progetti,
mostre di architettura al Museo d’Arte, Skira, Milano, 1998, p.134.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 177


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132. PERETTI, Laura, AGHION, Carole, Eduardo Souto de Moura: Temi di progetti,
mostre di architettura al Museo d’Arte, Skira, Milano, 1998, p.134.
133. MOLA, Zamora Francesc (ed.), Eduardo Souto de Moura: Architect, Loft,
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134. MOLA, Zamora Francesc (ed.), Eduardo Souto de Moura: Architect, Loft,
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135. MOLA, Zamora Francesc (ed.), Eduardo Souto de Moura: Architect, Loft,
Barcelona, 2009, p.158.
136. MOLA, Zamora Francesc (ed.), Eduardo Souto de Moura: Architect, Loft,
Barcelona, 2009, p.157.
137. Fotografia da autora. 2013.
138. Fotografia da autora. 2013.
139. Fotografia da autora. 2013.
140. Fotografia da autora. 2013.
141. Fotografia da autora. 2013.
142. Fotografia da autora. 2013.
143. Fotografia da autora. 2013.
144. Fotografia da autora. 2013.
145. Escritório Souto Moura Arq.S.A.
146. Escritório Souto Moura Arq.S.A.
147. Fotografia da autora. 2013.
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162. Fotografia da autora. 2013.
163. Fotografia da autora. 2013.
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em Escola de Música + Casa em Llábia, José Manuel das Neves (ed.), Uzina
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As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 181


182
índice de imagens

1. Esquissos para a Renovação da Praça Giraldo. Évora. 1982. • 2. Esquisso da


Porta dei Colli. Palermo. 1987. • 3. Esquisso de espaços interiores. Casas em banda
Quinta da Avenida. Porto. 2003-2005. • 4. Esquisso da relação com envolvente
próxima. Casa das Artes - S.E.C. Porto. 1981-88. • 5. Esquisso de pormenor
construtivo. Bloco de Habitação na Rua do Teatro. Porto. 1992-95. • 6. Esquisso
do conjunto. Bairro de S. Vítor. Álvaro Siza. 1974-79. • 7. Esquisso do encontro
do novo edifício com o muro preexistente. Bairro de S.Vítor. Álvaro Siza. 1974-
79. 8. Vista por trás do muro preexistente. Bairro de S. Vítor. 1974-79. • 9. Vista
geral com muro prexistente. Bairro de S. Vítor. 1974-79. • 10.|11.|12. Pormenores
do encontro do novo edifício com o muro preexistente. Bairro de S. Vítor. 1974-
79. 13. Esquisso do alçado com vista do muro preexistente. Bairro de S. Vítor.
1974-79. • 14. Escultura de Donald Judd. Untitled. 1990. • 15. Escultura de Soul
Lewitt. Uncomplete Open Cube 7/11. 1974. • 16. Colagem sobre fotografia de
uma escultura de Donald Judd. Casa em Miramar. Souto de Moura 1987-91. •
17. 1- Clássico, 2- Moderno, 3- Pós-Moderno, 4- ... , Esquisso de Eduardo Souto
de Moura. • 18. Esquissos do concurso “A House for Karl Friedrich Schinkel”.
1979. • 19.|20. Projecto do concurso “A House for Karl Friedrich Schinkel”.
1979. • 21. Regra e anti-regra. Pátio da Casa na Quinta do Lago. 1984-89. • 22.
Regra e anti--regra. Mesa Boaventura. Eduardo Souto de Moura • 23. Mercado
Municipal de Braga. 1981-84. • 24. Casa das Artes - S.E.C. 1981-91. • 25.
Pormenor construtivo de uma coluna em betão e aço revestida a bronze. Edifício
Seagram. Mies van der Rohe. 1954-58. • 26. Pormenor construtivo de uma coluna
em betão e aço revestida a bronze. Toronto Dominion Bank Tower. Mies van
der Rohe. 1963-67. • 27. Estrutura pontual e planos organizadores do espaço.
Pavilhão Alemão em Barcelona. Mies van der Rohe. 1929. • 28. Estrutura pontual e
planos organizadores do espaço. Mercado Municipal de Braga. Eduardo Souto de
Moura. 1981-84. • 29. Conjugação de diferentes materiais. Casa das Artes - S.E.C..
Eduardo Souto de Moura. 1981-81. • 30. Conjugação de diferentes materiais.
Pavilhão Alemão. Mies van der Rohe. 1929. • 31. Cronologia de algumas obras
da autoria de Eduardo Souto de Moura. • 32. A ruína preexistente. Reconversão
da Ruína no Gerês. 1980-82. • 33. Vista geral do exterior. Reconversão da Ruína
no Gerês. 1980-82. • 34. Planta e alçado. Reconversão da Ruína no Gerês. 1980-
82. • 35. Planta de implantação. 1 - Jardim, 2 - Casa neoclássica preexistente, 3
- Casa das Artes - S.E.C.. • 36. Axonometria do edifício. Casa das Artes - S.E.C.
1980-82. • 37. Vista do exterior. A reflexão da envolvente nos vidros espelhados.
Casa das Artes - S.E.C. 1980-82. • 38. Remate fragmentado das paredes. Casa
II em Nevogilde. 1983-88. • 39. Pilares de granito de alturas variadas. Casa II
em Nevogilde. 1983-88. • 40. Axonometria do conjunto. Casa II em Nevogilde.
1983-88. • 41.|42.|43. Vestígios preexistentes dispostos pela obra. Casa II em
Nevogilde.1983-88. • 44.|45. Muros de granito do percurso de entrada. Casa
na Avenida da Boavista.1987-94. • 46. Fragmento proveniente de uma antiga
edificação. Casa na Avenida da Boavista. 1987-94. • 47. Planta do conjunto. Casa

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 183


184
índice de imagens
na Avenida da Boavista. 1987-94. • 48. Alçado Poente e alçado Sul. Casa na
Avenida da Boavista. 1987-94. • 49.|50. O mosteiro de Santa Maria do Bouro
antes da intervenção de Eduardo Souto de Moura. • 51. Planta de implantação.
1- Adro, 2- Igreja, 3- Mosteiro, 4- Claustro, 5- Passal, 6- Pátio do Laranjal, 7-
Moinho, 8- Terraço, 9- Espelho de Água, 10- Olival, 11-Piscina, 12- Campo de
Ténis, 13- Laranjal, 14- Pelourinho. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do
Bouro. 1989-97. • 52. Degraus em mármore vermelho junto ao bar. Reconversão
do Mosteiro de Santa Maria do Bouro. 1989-97. • 53. Degraus de acesso ao
terraço em granito. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro.1989-97.
• 54. Reinterpretação dos caixotões em aço corten. Reconversão do Mosteiro
de Santa Maria do Bouro. 1989-97. • 55. Os vestígios do antigo mosteiro como
elementos evocatórios. Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro. 1989-
97. • 56. O claustro como ruína contemplativa. Reconversão do Mosteiro de Santa
Maria do Bouro. 1989-97. • 57. Os vãos imperceptíveis circundantes ao claustro.
Reconversão do Mosteiro de Santa Maria do Bouro. 1989-97. • 58. Os socalcos
e a ruína preexistente. Axonometria. Casa em Baião. 1990-93. • 59. O encontro
entre o novo e o antigo. Casa em Baião. 1990-93. • 60. A ruína consolidada como
jardim fechado. Casa em Baião. 1990-93. • 61. A casa enterrada no terreno. Planta.
Casa em Baião. 1990-93. • 62. Planta de implantação. Casa em moledo. 1991-97.
• 63. A casa como socalco. Planta e corte transversal. Casa em Moledo. 1991-97.
• 64. A casa como solcalco. Vista do exterior. Casa em Moledo. 1991-97. • 65. O
afastamento da casa em relação ao terreno. Casa em Moledo. 1991-97. • 66. O
encerramento do corredor realizado pelo maciço rochoso. Casa em Moledo. 1991-
97. • 67. O encontro discreto do vidro com as paredes da composição. Casa em
Moledo. 1991-97. • 68. As escadas de madeira com rodas. Museu dos Transportes.
1993-02. • 69. O expositor com a roda de bicicleta. Museu dos Transportes. 1993-
02. • 70. O volume autónomo dos espaços administrativos. Museu dos Transportes.
1993-02. • 71.|72. Os espaços de exposição adaptados ao edifício existente. Centro
Português de Fotografia. 1997-01. • 73. As grades e as portas das celas preservadas.
Centro Português de Fotografia.1997-01. • 74. Planta de implantação. Estádio
Municipal de Braga. 2000-03. • 75. Corte longitudinal. Estádio Municipal de Braga.
2000-03. • 76.|77. Anfiteatro romano. Ponte de corda inca. Referências para o
projecto do Estádio Municipal de Braga. 2000-2003. • 78. Altimetria do concelho
de Braga. • 79. Esquema da ocupação romana em Braga. • 80. Esquema da cidade
de Braga na Idade Média. • 81. Esquema da cidade de Braga no século XVI. • 82.
Esquema da evolução da cidade de Braga entre os séculos XVI e XVIII (Contra-
Reforma). • 83. Esquema da cidade de Braga no século XVIII. (Barroco Tardio).
• 84. Esquema da cidade de Braga no século XIX. • 85. Plano de Alargamento,
Extensão e Embelezamento da Cidade de Braga. Étienne De Gröer. 1941. • 86.
Esquema da cidade de Braga no século XX. • 87. Plano de Restruturação do
Território. CEAPE. 1982. • 88. Eixo Norte. Plano de Restruturação do território.
CEAPE. 1982. A. Urbanização dos Parretas, B. Estação de camionagem, C. Praça
Alexandre Herculano. • 89.Eixo Sul. Plano de Restruturação do território. CEAPE.
1982. A. Urbanização do Fujacal, B. Novo bairro do Carandá, C, Loteamento Sotto
Mayor, D. Complexo desportivo do rio Este. • 90. Imagem aerofotogramétrica da
cidade de Braga. 1974. • 91. Parcela de terreno adquirida pela Câmara Municipal de
Braga para a construção do Mercado Municipaldo Carandá. 1982. • 92. Inserção do
Mercado Municipal do Carandá no Plano de Restruturação do Território. CEAPE.
1981. • 93. Esquisso do estudo preliminar ao projecto do Mercado Municipal do
Carandá. Eduardo Souto de Moura. 1981-84. • 94. Stoa de Atalo. Grécia. • 95.
Esquissos do Mercado Municipal de Braga. Eduardo Souto de Moura. 1981-84. •
96. As duas fileiras de colunas que sustentam a cobertura. Mercado Municipal de
Braga. 1981-84. • 97.Os planos verticais independentes que organizam os espaços
do Mercado Municipal de Braga. 1981-84. • 98.A divisão planimétrica que o
muro central realiza e os acessos verticais por este assinalados. Sector de
venda ao público. Sector das áreas de serviço e armazenamento. Mercado
Municipal de Braga. 1981-84. • 99. Planta do edifício. Mercado Municipal de Braga.
1981-84. • 100. Os remates fragmentados dos muros da Casa II em Nevolgilde.
1983-88. • 101.|102. O muro central fragmentado. Mercado Muncipal do Carandá-
19081-84. • 103. A cobertura sustida pela sucessão de colunas acima dos planos
verticais. Mercado Muncipal do Carandá- 1981-84. • 104. A dissociação entre a
cobertura e os planos verticais. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84. • 105.
A diferenciação dos remates superior e inferior das colunas. Mercado Municipal
do Carandá. 1981-84. • 106. Protótipo “Dom-Ino”. Le Corbusier. 1914-17. •
107. Pavilhão Alemão em Barcelona. Mies van der Rohe. 1929. • 108. Planta do
sector Sudoeste de venda ao público. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84.
As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 185
186
índice de imagens
1. Entrada, 2. Flores, 3. Banca do peixe, 4. Fruta, 5. Cereais, 6. Hortaliças secas,
7.Legumes, 8.Padaria, 9. Ovos e lacticínios, 10. Mercearia, 11. Drogaria, 12.
Peixes,13. Talhos e salsicharia. • 109. Planta e corte transversal pelo sector de venda
ao público. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84. • 110. Alçado interior de
vidro do volume Sudeste. Mercado Municipal do Carandá.1981-84. • 111 A banca
de peixe e a banca central de lavatórios. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84. •
112. Planta do sector Nordeste de serviços e armazenamento. Mercado Municipal
do Carandá. 1981-84. 1. Entrada, 14. Cafetaria, 15. Sanitários não públicos, 16.
Arrecadação, 17. Fiscalização, 18. Administração, 19. Veterinário, 20. Armazém,
21. Preparação de legumes, 22. Amanho de peixe, 23. Depósito e trituração de
lixos, 24. Frigoríficos, 25. Cais. • 113. Área suplementar para comércio do piso
superior. Mercado Municipal do Carandá. 1981-84. • 114. Percurso inferior
que atravessa longitudinalmente o edifício. Mercado Municipal do Carandá.
• 115.|116. Percurso superior em galeria. Mercado Municipal do Carandá. 1981-
84. • 117. Acessos ao espaço do mercado. Mercado Municipal do Carandá. 1981-
84. • 118. Esquisso do estudo preliminar ao Café do Mercado. Eduardo Souto de
Moura. 1982-84. • 119. Relação do Café do Mercado com o Mercado Municipal do
Carandá. Café do Mercado. 1982-84. • 120. Planta do café. XX. Café do Mercado.
1982-84. • 121. Cortes transversais e longitudinal. Café do Mercado. 1982-84.
• 122.|123. As fachadas neoplásticas do café. Café do Mercado. 1982-84. • 124.
A estrutura da ruína preservada e o plano branco da entrada destacado. Café do
Mercado. 1982-84. • 125. 1-Mercado Municipal da Praça do Comércio, 2- Mercado
Municipal do Canrandá. Fotografia aerofotogramétrica de 1993. • 126. Mercado
Municipal da Praça do Comércio. • 127. Mercado Municipal de Braga. 1984. • 128.
Mercado Municipal de Braga. 1997. • 129. Vestígios do Café do Mercado. 2013 •
130. As duas fases da Reconversão do Mercado Municipal de Braga. Escola
de Dança. 1997-2001. Escola de Música. 2004-2010. • 131.|132.|133.
Esquissos da Reconversão do Mercado Municipal de Braga. Eduardo Souto de
Moura. 1997-2001 • 134.|135. Obras da Reconversão do Mercado Municipal de
Braga. 1997-2001. • 136. Entrada Sudoeste. Reconversão do Mercado Municipal
de Braga - Escola de Dança. 1997-2001. • 137. Iluminação artificial. Reconversão
do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001. • 138. Feira
semanal. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-
2001. • 139. Jardim exterior. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola
de Dança. 1997-2001. • 140. Corredor de distribuição. Reconversão do Mercado
Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001. • 141. Entrada dos vestiários.
Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001. • 142.
Pátio contíguo à secretaria. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola
de Dança. 1997-2001. • 143.|144. Entradas principal e secundária. Reconversão
do Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001. • 145. Planta de
cobertura. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001. • 146. Planta
geral do edifício. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001. • 147.
Vista actual do percurso superior. Reconversão do Mercado Municipal de Braga
- Escola de Dança. 1997-2001. • 148.|149. Extremo Sudoste. Reconversão do
Mercado Municipal de Braga - Escola de Dança. 1997-2001. • 150. Entrada da
Escola de Dança. Reconversão do Mercado Municipal de Braga.1997-2001. • 151.
Cortes longitudinais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001. •
152. Cortes transversais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 1997-2001.
• 153. Mercado Municipal de Braga. 2008. • 154. Muro longitudinal reconstruído
em pedra. Reconversão do Mercado Municipal de Braga. 2013. • 155. Acesso
à escola de Música. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de
Música. 2004-10. • 156.|157. Acessos verticais preservados do Mercado Municipal.
Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
• 158.|159. Acessos ao percurso superior. 2008 e 2013. • 160. Afastamento em
relação à escola contígua. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola
de Música. 2004-2010. • 161. Reconversão do Mercado Municipal de Braga -
Escola de Música. 2004-2010. • 162. Entrada principal. Reconversão do Mercado
Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010. • 163. Átrio de entrada.
Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
• 164. Vestíbulo do extremo Nordeste. Reconversão do Mercado Municipal de
Braga - Escola de Música. 2004-2010. • 165. Sala para instrumentos de percussão.
Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.
• 166. Jardim exterior. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola
de Música. 2004-2010. • 167. Planta piso térreo. Escola de Música. 2004-2010. •
168. Planta piso -1. Escola de Música. 2004-2010. • 169. Auditório. Reconversão
do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010. • 170.|171.
As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 187
188
índice de imagens
Pátio. Reconversão do Mercado Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-
2010. • 172. Cortes longitudinais. Reconversão do Mercado Municipal de Braga -
Escola de Música. 2004-2010. • 173.Cortes transversais. Reconversão do Mercado
Municipal de Braga - Escola de Música. 2004-2010.

As Preexistências na obra de Eduardo Souto de Moura: O Mercado Municipal de Braga 189


anexos
anexo I
anexo II

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